DIÁLOGO COM GUIMARÃES ROSA Gênova, janeiro de 1965.

Lorenz: Ontem, quando escritores participantes deste Congresso(1) debatiam sobre a política em geral e o compromisso político do escritor, você, João Guimarães Rosa, políti co, diplomata e escritor brasileiro, abandonou a sala. Embora sua saída não tenha si do demonstrativa, pela expressão de seu rosto e pelas observações que fez, podia-se de duzir que o tema em questão não era de seu agrado. Guimarães Rosa: É verdade; agi daquela forma porque o tema não me agradava. E para que nos entendamos bem, digo-lhe que não abandonei a sala em sinal de protesto contra o fato de estarem discutindo política. Não foi absolutamente um ato de protesto. Saí simplesmente porque achei monótono. Se alguém interpreta isto com um protesto, nada posso fazer. Embora eu veja o escritor como um homem que assume uma grande respo nsabilidade, creio, entretanto que não deveria se ocupar de política; não desta forma de política. Su missão é muito mais importante: é o próprio homem. Por isso a política nos t oma um tempo valioso. Quando os escritores levam a sério seu compromisso, a política se torna supérflua. Além disso, eu sou escritor, e se você quiser, também diplomata; po lítico nunca fui. - É uma bela opinião sobre a importância do papel do escritor: mas não será demasiado idea lista? Foram discutidos muitos aspectos do cotidiano político; e além disso acho que um escritor não teria muitas probabilidades de êxito se, como você quer, tratasse ape nas apenas do homem em geral, deixando de lado a vida diária desse mesmo ho- mem. Posso compreender isso e também sei que aqui provavelmente todo pensam de modo dif erente do meu. Entretanto, me propuz a dizê-lo claramente: tenho a impressão de que todos eles discutem demasiado, e por isso não conseguirão realizar tudo o que desej am. Perdem muito tempo, que empregariam melhor escrevendo. Mesmo supondo-se que tudo aquilo que dizem estivesse certo, então seria ainda mais acertado que cada um escrevesse sua opinião, em vez de expressá-la perante um auditório tão limitado. A pala vra impressa tem maior eficácia e além disso estas discussões secas me entediam, pois são muito aborrecidas. Desconfio que só são feitas para alguns deles poderem se confir mar a si próprios sua importância e poderem assim se desligar de sua responsabilidad e sem peso de consciência. Naturalmente isto não vale para todos, pois quando homens como Asturias falam pro domo, terão também suas razões. Mas você já observou que os que m ais falam de política são sempre aqueles que têm menos livros publicados? Quando os têm, não são livros onde expressem idéias seínelhantes às expostas aqui. Noto a falta de coerênc ia entre suas obras e suas opiniões. - Você quer dizer então que aprova que um escritor discuta sobre política, apenas quan do também às suas obras der um acento político, e não quando se mostrar politicamente ne utro em suas obras? Sim, é verdade que, embora eu ache que um escritor de maneira geral deveria se abs ter de política, peço-lhe que interprete isto mais no sentido da não participação nas ninh arias do dia-a-dia político. As grandes responsabilidades que um escritor assume são , sem dúvida, outra coisa...

- Bem, João Guimarãés Rosa, creio que neste círculo você é o único a pensar desta forma, já q Borges não está presente para nos dar seu testemunho de apolítico. Acho que você me entendeu mal. Aparentemente está se referindo ao que aconteceu em B erlim (2). Acerca disto queria dizer que estou do lado de Asturias e não de Borges . Embora não aprove tudo o que Asturias disse no calor do debate, não aprovo nada do que disse Borges. As palavras de Borges revelaram uma total falta de consciência da responsabilidade, e eu estou sempre do lado daqueles que arcam com a responsa

bilidade e não dos que a negam. - Eu não queria que dedicássemos a tais assuntos as poucas horas que temos para conv ersar durante este caótico congresso; não obstante, creio que eles nos conduzem ao n osso tema. Certo, já estamos nele. Só quis dizer há pouco que a maioria dos que aqui expressam su as opiniões não examinam o verdadeiro sentido de suas palavras antes de pronunciá-las, e por isso não prestam aos demais, que já citei, nenhum bom serviço. - Penso que, para encaminharmos nosso diálogo a uma certa direção, seria melhor estabe lecermos uma espécie de itinerário. Você está de acordo? Estou. Deixo que você determine a direção. - Pois bem, estes assuntos políticos que abordamos há pouco não estavam em meu itinerári o. Cheguei a eles porque as circunstâncias os trouxeram. Há outros temas que me inte ressam muito mais, uma vez que tenho a extraordinária ocasião, a sensacional oportun idade, por assim dizer, de haver conseguido uma entrevista com o inimigo de toda a espécie de entrevistas e terror dos repórteres: Guimarães Rosa... Devo fazer duas objeções. Primeiro, e já disse isso, agrada-me conversar com você, pois escreveu a meu respeito coisas tão encantadoras e interessantes que gostaria de tr atar delas novamente, ainda que fosse unicamente por razões de egoísmo. Em segundo l ugar, peço-lhe que não use essa horrível expressão "entrevista". Eu certamente não teria a ceito seu convite se esperasse uma entrevista. As entrevistas são trocas de palavr as em que um formula ao outro perguntas cujas respostas já conhece de antemão. Vim, como combinamos, porque desejávamos conversar. Nossa conversa, e isto é o importante , desejamos fazê-la em conjunto. - Considero isto uma honra, e esteja certo de que sinto uma grande alegria por p odermos estar aqui juntos e conversar. Isto não é nada comum e, no que se refere a v ocê... Chega. Só me oponho a matar o tempo com insignificâncias e com gente e que não sabe na da de nada. Pelo jeito desfruto de uma estranha reputação e, entretanto, sou brasile iro. - Certo, goza dessa fama e provavelmente não sem razão. No Brasil também. Mas vamos no s dar por satisfeitos. Os motivos de nosso encontro ficam assim esclarecidos, e voltemos ao nosso "itinerário". Gostaria de falar com você sobre o escritor Guimarães Rosa, o romancista, o mágico do idioma, baseando-nos em seus livros que fazem part e, penso eu, do tema "o homem do sertão". Sim, acho que se quiséssemos dizer sobre estes três ou quatro pontos tudo o que temo s de dizer, daqui a um ano ainda estaríamos conversando. E nem você nem eu temos tan to tempo. Suponho que esta enumeração das coisas que lhe interessam a meu respeito não tem uma seqüência estrita... - Apenas uma seqüência improvisada, intercambiável. Precisamente, e por isso gostaria que começássemos pelo que você mencionou como tema f inal. Chamou-me "o homem do sertão". Nada tenho em contrário, pois sou um sertanejo e acho maravilhoso que você deduzisse isso lendo meus livros, porque significa que você os entendeu. Se você me chama de "o homem do sertão" (e eu realmente me consider o como tal), e queremos conversar sobre este homem, já estão tocados no fundo os out ros pontos. É que eu sou antes de mais nada este "homem do sertão"; e isto não é apenas uma afirmação biográfica, mas também, e nisto pelo menos eu acredito tão firmemente como v ocê, que ele, esse "homem do sertão", está presente como ponto de partida mais do que qualquer outra coisa. - Fixemos este ponto de partida; e para encaminhar nossa conversa, queria propor

ou seja. o Cordisburgo germânico. fui médico.E estes conhecimentos não constituíram. Mas voltemos à sua biografia. medido segundo nossos conceitos geográficos. mas para mim sim. Sim.. em M inas Gerais.Pequeno talvez para o Brasil. Deve haver ainda outros fatos . Para a Europa. E isto sim é o importante. pela minha origem. Não acha que soa como algo muit o distante? Sabe também que uma parte de minha família é. talvez tenha sido o culpado por meus antepassados se apegarem c om tanto desespero àquele pedaço de terra que se chama o sertão. . chegou a ser oficial. fundado por alemães. encarnada como um mito de consciência bra sileira. de origem po rtuguesa. para o sertão ou para a Bahia. é sem dúvida um mundo muito grande. Portan to. Seria horrível. não para os europeus. depois diplomata. devo dizer-lhe que nasci em Cordisburgo. o valor da consciência. Assim. sou mineiro. é para mim o símbolo. . este mu ndo original e cheio de contrastes. É necessário salientar pelo menos que entre nós o "regionalismo" tem um signi ficado diferente do europeu. Creio que esta genealogia haverá de lhe agradar. e aqui começa o que eu já havia dito antes: é impossível separar minha b iografia de minha obra.. Você certamente conhe ce a história dos suevos. de muita importância. até mesmo instrutivas.-lhe um início convencional: o biográfico. emigrou para todos os lug ares sem poder lançar raízes em nenhum. èstou plenamente de acordo. pelo sobrenome. uma cidade zinha não muito interessante. e por isso a referência que você fez a esse respeito em sua resenha de Grande sertão é muito importante. rebelde. aquela e stepe quase mística do interior de seu país. apenas um mundo pequeno. o valor da proximidade da morte. quando você me situa como representante da literatur a regionalista. esta sucessão constitui um paradoxo.Deve-se considerar isto como uma escala de valores? Exato.. uma vez que é pa ra você o que corresponderia ao conceito de "regionalista". Em sua vida você passou por uma série de etapas muito intere ssantes. Foram etap as importantes de minha vida. Creio que minha biografia não é muito rica em acontecimentos. pois quando escrevo..Você está se referindo ao seu "caráter literário" que o inclui no importante grupo de literatos brasileiros denominados regionalistas? Sim e não.Acho que não é bem assim. Cordisburgo. E este pequeno mundo do sertão. se min has conclusões sobre o que disse há pouco estiverem certas. pois estou apenas citando de memória. participou de uma gue rra civil. Veja. . Uma vida completamente normal. Foi um povo que.. soldado.. Chegamos novamente ao ponto que indica o momento em que o homem e sua biografia resultam em algo completamente novo. a rigor. Com o médico conheci o valor místico do sofrimento. como soldado. nome que também designava a capital de um estado suevo na Lusitânia? Portanto. Sim. e. no fundo.. é o coração do meu império suevo-latino. sempre m e sinto transportado para esse mundo. Além disso. embora ele já não seja tão convencional. E eu também estou apega do a ele. o estranho. como os celtãs. como rebelde. é uma escala de valores... as na realidade é um sobrenome suevo que na época das migrações era Guimaranes (3).. a espinha dorsal de seu romance Grande sertão? . sou regionalista porque o pequeno mundo do sertão.. Ah. . diria mesmo o modelo de me u universo. que foi tão intensamente transmi tido a Portugal. a dualidade das pa lavras! Naturalmente não se deve supor que quase toda a literatura brasileira este ja orientada para o "regionalismo". mas para sermos exatos. para nós..O que importa é que além disso ela é exata. Naturalmente não gostaria que na Ale manha me considerassem um Heimatschriftsteller (4). Estudou medicina e foi médico. . estou voltado para o remoto. . Este destino. Nasceu no sertão.

. Comecei a escrever quand   . depois de se tornar novamente legalista. antes devo dizer que sua suposição não é totalmente certa. o trato com cavalos. . Unamuno inventou também a nivola (5) e o nadaísmo. desde que não venha de Kier eg aard ou Unamuno. paradoxo. já não muito jovem. as religiões. Bem. Depois destes antecedentes nada literários.. seu primeiro livro de contos e que se tornou imediatamente um sucesso sensacional? Conte-me alguma coisa sobre este pr ocesso de sua vida.Gostaria de concluir que todos esses assuntos enumerados tiveram grande importân cia em sua vida: a diplomacia. criou da linguagem a sua própria metafísica pessoal. Quem lida com eles aprende muito para sua vida e a vida dos outros. digo-lhe apenas isto: "Se olhares nos olhos de um cavalo.Você tem alguma coisa contra os filósofos? Tenho. A filosofia é a maldição do idioma. sempre se equivocam. A disso. tudo é. os idiomas. mas devemos acrescentar alguns outros sobre os quais ainda temos de falar. Então tud o andaria melhor. v ocê provocou Hitler fora das normas da diplomacia. vamos ficar um pouco mais com ela. com sua pessoa.Parece uma sucessão e uma combinação um tanto curiosa de motivos. Unamuno foi um poeta da alma. participou da repr essão a essa mesma rebelião. Bem.E são. com preenderá certamente o que quero dizer. Os paradox os existem para que ainda se possa exprimir algo para o qual não existem palavras. vacas.Desculpe. queria acrescentar que também configuram meu mundo a di plomacia. .. mas tudo: a vida. e que aprendeu alguns deles apenas para poder ler um determinado autor em sua versão original. É uma importante diferença com relação aos chamados filósofos. Mas estas três experiências formáram até agora meu mundo interior. e com uma parte. Mas ainda queria lhe perguntar alguma coisa de sua biografia. religiões e idiomas. mas relacionado com sua biografia isto não parece um tanto paradoxal? E não apenas isto. como che gou a escrever. Tudo isso é verdade.. As vacas e os cavalos são seres maravilhosos. O que o levou a se tornar escritor? Em resumo. você particip ou de uma rebelião. Depois de haver sido médico. do que há de inédito e m suas obras. Port anto. para que isto não pa reça demasiadamente simples. Por isso acho que um paradoxo bem formulado é mais importante que toda a matemática . referind o-se a ele nesse sentido. Isto pod e surpreendê-lo. porque cada fórmula que o homem pode empregar é um par adoxo. Mata a poesia. pois me parece que e stá muito ligàda ao "homem do sertão".. algo parecido co m um secretário de Estado. e são invenções próprias de um se rtanejo. mas sou meio vaqueiro. e como você também é algo parecido com isto. Unamuno era um filósofo. Você goza também de uma fama legendária: dizem que você domina muitos idiomas. mas então é metafísica. e. Sabe-se t ambém que como diplomata e exercendo as funções de cônsul geral do Brasil em Hamburgo. E teria razão. tudo isto é curioso. Unamuno. pelo menos. começou a escre ver relativamente tarde. pois ela própria é um paradoxo. já que tudo isto é muito im portante para a compreensão de seus livros. Dele herdei minha for tuna: meu descontentamento. . Quando alguém narra algum acontecimento trágic o. Sagarana. isso que você chama de metafísica em seus romances e contos. Minha casa é um museu de quadros de vacas e caval os. diplomata e finalmente chefe da seção para problemas de fronteira do Ministério das Relações Exteriores. mas o que não é curioso na vida? Não devemos examinar a vida d o mesmo modo que um colecionador de insetos contempla os seus escaravelhos. o Unamuno do sertão. . no fundo.Mas adiante vamos ter que considerar com mais calma os seus conceitos filosófico s. e. verás muito da triste za do mundo!" Eu queria que o mundo fosse habitado apenas por vaqueiros. e salvou a vida de muitos judeu s. sim! Unamuno poderia ter sido meu avô. mas não se esqueça de meus cavalos e de minhas vacas. a morte. em seguida foi soldado. . os cavalos.Sinto-me tentado a chamá-lo o Unamuno da estepe.

Mas logo. Isto. pois não aconteceu que.. Viajei pelo mundo. porque este. e creio que este é o meu aparelho de co ntrole: o idioma português. Lorenz. escritos em um idioma próprio. somos fabulistas por natureza. enq uanto vou escrevendo. mas publiquei muito mais tarde. Naturalmente digo isso. a converter-se no maior romancista do Brasil. eu traduzo. entretanto. Quando mais tarde chegou o tempo em que eu não quis continuar escrevendo. o que é extraordinário é a interrupção. tal como se de ve manejá-la na elaboração de poemas. Assim são as coisas e assim comecei eu também. Está no nosso sangue narrar estóri as. um belo dia. o que pode uma pessoa fazer do seu tempo livre a não ser contar estórias? A única diferença é simple smente que eu. lingüística e tematicamente. porque o sertão é a alma de seus homens. Veja você. porque é um dado biográfico. Mas você sugeriu que esses dez anos de inter valo foram seus anos de pere grinação e aprendizagem. à lenda. lendas. escrevia. con fissões. mas justamente o autor deve ter u m aparelho de controle: sua cabeça. extraio de muitos outros idiomas. Entretanto. mas de escrever simplesmente não me ocupava mais . minha carreira profiss ional começou a ocupar meu tempo. convenci-m e de que era possuidor de uma receita para fazer verdadeira poesia. Isto vem por si só. mas apenas escrever. eu queria ser diferente dos demais. verdadeira. É lógico que. quando o homem chega à sua maturidade. Por isso. escrevia contos magníficos. Instintivamente. fiz então o que era justo. Sei que daí pode facilmente nascer um filho ilegítimo. nós. mas aind a sem perseguir ambições literárias. não é de estranhar que a gente comece desde muito jovem. Eu trazia sempre os ouvidos atentos. eu que quis ser "poeta". i nstintivamente. e desde então não me inter esso pelas minhas poesias. sou um contista de contos críticos. Tive certa vez um professor que fazia tudo menos litera tura. e raramente pelas dos outros. Assim se passaram quase dez anos. é claro. Desde pequenos. conheci muita coisa. e eles não souberam deixar escritas suas estórias. Com isso pude impressionar. deve algum dia começar a escrever. com o tempo. não os achei totalmente maus. não sou romancista.o ainda era bastante jovem. veio por si mesmo. recebi tudo isso em mim. Então comecei a escrever Sagarana. impressiona e dá repu tação. retornei à "saga". que o Wilhelm Meister (7) do sertão reunia nessa época as ferra mentas que mais tarde o capacitaram. É uma lei natural. e pode-se deduzir daí que não me s . até eu poder me dedicar novamente à literatura. contos. já no berço recebemos esse dom para toda a vida. a necessidade de escrever e. e também nos criamos em um mundo que ãs vezes pode se assemelhar a uma lenda cruel. estamos constan temente escutando as narrativas multicoloridas dos velhos. entretanto. É velho e conhecido o fato de que o caminho da lírica conduz ao romance. a gente se sente então muito orgulhoso disso. pode ser a morte da poesia verdadeira. Deus meu! No sertão.No meu entender. em nossa alma.Isto quer dizer que começou sua carreira como lírico? Não. . os contos e lendas. Principalmente. Não é necessário se aproximar da literatura incondicionalmente pelo lado intele ctual. era e continua send o uma lenda. no fundo. Nesse meio tempo haviam transcorrido dez anos. aprendi idiomas. pois quem escreve estes assuntos é a vi da e não a lei das regras chamadas poéticas. A prin cípio foram poemas. como já lhe disse. e não é necessário que atrás d isto haja ambições literárias. ao conto simples. Já naquela época. tão mal não foi. bela. real. Disso result am meus livros. o mesmo que mais tarde eu faria deliberada e conscientemente: disse a mim mesmo que sobre o sertão não se pod ia fazer "literatura" do tipo corrente. em sua essência. eu simplesmente dec idisse me tornar escritor. cre sceu em mim o sentimento. Assim. Meus romances e ciclos de romances são na realidade contos nos quais se unem a ficção poética e a realidade. Não. isto só fazem certos políticos. os homens do sertão. que até foi elogiado. e narra estórias que correm por nossas veias e penet ra em nosso corpo. descobri que a poesia profissional. Quem cresce em um mundo que é li teratura pura. meu. quand o tudo nele se ámalgama em uma personalidade própria.. e eu quase diria que por sorte. escrevi um livro não muito pequeno de poemas (6). sendo criança. Escrevo. E revisando meus exercícios líricos. comecei a fazê-lo conscientemente. tal como o usamos no Brasil. Não. se tiver uma centelha de talento para as letras. tempos depois. em vez de contá-las. D este modo a gente se habitua. . mas tampouco muito convincentes. escutava tudo o que podia e comecei a transformar em lenda o ambiente que me rodeava.

sobre esse tema em geral teremos de falar mais detalhadamente. O mineiro é secado po r seu país e seu sol. Mas eu ainda não o vou libertar de sua biografia e de suas obras. E saiba qu e nunca um autor conseguiu me deixar tão nervoso durante uma conversa. E meus livros são aventuras. Mas nasci em Co rdisburgo. me obrigam a es crevê-los. trabalhe muit o lentamente. e lá às vezes as pessoas chegam a ficar muito velhas. Sem dúvida. fica resistente como carne-seca. repito o que vivi antes. Tem razão. Portanto.. Para Para ele a literatura é uma religião. o momento não conta. dentro de mim muitas. mal seu interlocutor se descuida. falando como leitor de seus livros. se estivesse aqui para nos escutar! Pretende sempre que tu do seja feito com muita exatidão. ciência lingüística. mas ta mbém espero que continue nos falando de sua vida. quando digo que trabalho duro e aplicadamente. digo-lhe que não acho suas observações as sim tão estranhas. pois ainda trago. Qual é a origem de seus livros? Existe em princípio uma gag temática que dep ois você elabora. não têm princípio nem fim. Em outras palavras: gostaria de ser um crocodilo vivendo no ri . embora isto não lhe seja tão agradável . apesar de todo meu empenho. somos uma raça realmente estranha. foram inventadas pelos inimigos da poesia.ubmeto à tirania da gramática e dos dicionários dos outros. Escrevendo. mas assumo plena responsabilidade. mas demasiado tarde. Mas lamento que. uma idéia li ngüística à qual depois é acrescentada uma ação? Ou simplesmente você inventa uma estória que pois vai pouco a pouco vestindo com sua própria roupagem lingüística? Acho que não há nada disso. continue a nos explicar o seu processo de trabalho. Você tem f ama de ser um autor terrivelmente trabalhador. Vivo no infinito.. Q uando escrevo..Meyer-Clason certamente se alegrará muitíssimo quando conhecer sua opinião sobre ele . embora pelo jeito você não goste de falar nisso. . também fui brasileiro e me chamava João Guimarães Rosa. . Não me posso permitir uma morte prem atura. não estou me elogiando. isto também é um paradoxo. Esta expressão também aprendi na Alemanha. Conheci pessoas de oitenta e até noventa anos. não deveria ser crucificada em a nos. Apesar de ser verdade. sou um conto contado por mim mesmo. E para estas duas vidas um léxico a apenas não me é suficiente. pois esse tempo t alvez me baste para eu contar tudo o que que ia contar. sobretudo minha biografia literária. são minha maior aventura. . e eu sou certamente o mai s estranho deles todos. você será o responsável. simplesmente tenho de ficar velho. você já sabe. nós. você se afasta do tema se es te não lhe agrada. o melhor tradutor que eu conheço. que às vezes quase acredito que eu mesmo. Sobre tradutores e traduções e a possibilidade de tra duzir. ele é um diabo de homem. um gênio da tradução. ou tem..Você quer dizer que há uma força interior que o impulsiona para o trabalho. Veja. É tão imperativo. cuja aplicação é superada apenas por se u tradutor alemão. Talvez não fosse de pouca importância dizer-nos algumas datas. Tenho certeza de que você poderá contar ainda muitas estórias. Que nasci no ano de 19O8. Você não deveria me pedir mais dados numéricos. descubro sempre um novo pedaço de infin ito. Você afirmará certamente que sou um seltsamer Vogel (9). pois é interessantíssimo. Mas não nos desviemos do tema. prepara. Você é mesmo um fabulista. Vou lhe revelar um segredo: creio já ter vivido uma vez. e isto em seu caso é muito importante.Quem escreve livros como os seus deve permitir que lhe perguntem como se conse gue isso. . Günter. parece um professorzinho de escola. Nesta vida. falando do que não me parece importante! S e depois me considerarem um charlatão. invejoso do meu prazer em falar so bre o que eu queria. ós escritores. Continuemos. comecei a escrever no tempo certo. (rindo) Meyer-Clason. . Por favor.Agora. A gramática e a chamada filo logia. pois. As aventuras não têm tempo. muitíssimas estórias. Verdade m esmo. eles vêm a mim. Você. par a mim. Acontece-me algo assim como vocês dizem em alemão: Mich reitet auf einmal d er Teufel (8) que neste caso se chama precisamente inspiração. João.Não vejo nenhum perigo disso. Isto me acontece de f orma tão conseqüente e inevitável. Não preciso inventar contos. Mi nha biografia.

Felizmente sei que os vaqueiros gozam de sua simpatia e por isso estou dispost o a ser vaqueiro. diga-me de uma vez. vencido. Ma s eu lhe digo uma coisa: apenas alguém para quem o momento nada significa. Apenas na solidão pode-se descobrir que o diabo não existe. Sua s palavras soavam quase como um credo. Amo ainda mais uma coisa de nossos grandes rios: sua eternidade. a travessi a para a solidão. conservar para si a felicidade.De modo algum. o credo pelo qual você escreve. útil em meus livros.o São Francisco. você me fa z falar e falar. Você é um. Na superfície são muito vivazes e claros. penso desta forma: cada homem tem seu lugar no mundo e no tempo que l he é concedido. é muito astuto. Veja como o meu credo é simples. Mas você. ou há cabeças quebradas ou confissões. E isto si gnifica o infinito da felicidade. um mar da sabedoria. Sim. je sufis un solitair e (1O) eu também digo. Já sei q ual será a sua próxima pergunta. Esta é a minha mística. ou melhor. Um escritor que não se atém a esta regra não vale nada. Provavelmente. pois para ele cada rio é um oceano. O crocodilo vem ao mundo como um magister da metafísica.Pois agora estou curioso. destroçado? Isto poderia ser absolutamente certo. que querem fazer deles duas pessoas totalmente distintas. como eu. Não deve haver nenhuma diferença entre homens e escr itores. . Mas. Pois então. . não posso negar. E quando dois vaqueiros discutem. . nem como homem n em como escritor. eu seja como meu irmão Riobal do. e só espero fazer justiça a esse lugar e a essa tarefa. Pois o diabo pode ser vencido simplesmente porque existe o homem.Dizendo a verdade: em seus livros você não menciona o diabo. o crocodilo com as duas vidas até agora. Conheço meu lug ar e minha tarefa. o que sempre faz das suas. mas como não sou Mallarmé. esta é apenas uma maldita invenção dos cientistas. Ele está face a face com o infinito e é responsável perante o homem . Sua tarefa nunca é maior que sua capacidade para poder cumpri-la. Serão elas o credo de um sertanejo de Cordi sburgo? Estou adivinhando seu pensamento! Agora. em servir à verdade e aos homens. Você quer me comprometer com a palavra creio e por isso evocou o diabo. . Lorenz. além de tudo. Por isso. muitos homens não conhecem. Penso que esta é a autocaracterização mais original que já escutei. por favor. que equivale ao infinito. A estas alturas. Você quer me seduzir para que eu lhe faça confissões. que pode ser elimi nado. A vida deve fazer justiça à obra. Mas quero ainda ressaltar que c redo e poética são uma mesma coisa. El a consiste em preencher seu lugar. se sente no infinito como se estivesse em casa. já disse por esc rito (11)l e torno a repetir agora. mesmo que chegue a ter cem anos de idade. mas nas profundeza s são tranqüilos e escuros como os sofrimentos dos homens. justamente para demonstrar que ele não existe. ou chegam a fazê-lo quando é demasiado tarde. isto significa para mim a felicidade a felicidade. pois são profundo s como a alma do homem. a rigor. c uja presença. e me leva pela mão exatamente onde me deseja fazer chegar. veja. somente alguém assim pode encontrar a felicidade e. Eu também. confesse! Absolutamente não consigo entender por que me deixo extorquir assim por você. tudo é muito simples para mim. Gostaria de ser um crocodilo.Adivinhou. Sim. Acho isso ridículo. o que é aind a mais importante. você já deve estar me considerando um charlatão ou um lou co. e a obra à vida. porque amo os grandes rios. para qu em. Só agora me ocorre o seguinte: aqui estão discutindo dois vaqueiros. por favor. rio é uma palavra mágica para conjugar eternidade. Os vaqueiros são assim. quer me exigir um credo. Au fond. .

pode continuar sendo meu interlocutor e amigo . pois m e lançavam ao rosto que meu estilo era exaltado. se o homem não se opusesse a ela. Estas são as lei s de minha vida. o que pensa de seus colega s? Atualmente fala-se tanto em compromisso. e isto não conduz a n ada. eu me contento com o que é meu. freqüentemente confundem o compromisso para com o homem com o compromisso para c om um partido. por elas me guio. de minha responsabilidade. de seu trabalho. que não pode ser. seria lógico e conseqüente pedir-lhe sua opinião sobre como deveria ser o "crítico ideal".Bem. Ademais. Mas. ou não. Não me agrada julgar m eus colegas. esta é uma opinião que deve ser respeitada. e por isso acontece que tão poucos deles. e que considero o maior compromisso possível. só tem razão     .muitos autores. meu co mpromisso do coração. Entre os grandes autores do continente isto é sempre compensado pela sua potência literária.Depois do que você disse no início. ou u m assassino. Infelizmente a maior parte d eles não faz isso. o mais humano e acima de tudo o único sincero. um crítico que não tem o desejo nem a capacidade de completar junto com o autor um determinado livro. Tenho de conviver com meus colegas e não me agrada gue rrear por assuntos aos quais não atribuo a mínima importância. "entrar em mundos estranhos"? A tarefa do crítico é diferente da do autor. e creio sinceramente que esta poderia ser uma regra básic a da literatura. simplesmente não leio mais jornai s. Mesmo com a melhor boa vontade não posso fazer mais confissões. que não quer ser intérprete ou intermediário. o mais importante. que eu permanecia no irreal. . Mas qual é. mas não de meus compatriotas escrito res. não tenho uma opinião muito favoráv el sobre a crítica. Sartre pôs um pouco de ordem neste assunto . Outras regras que não sejam este cre do. Além disso. e entre os de segunda e terceira categoria você sabe como é quase sempre. não as reconheço. pois lhes falta a condição básica para o diálogo: o respeito mútuo. Goethe.e perante a si mesmo. penetra-se em mundos estranhos. é melhor falarmos de Dostoievs i. Um autor jamais deveria falar de outros autores. por maiores que sejam as diferenças de opinião que nos separem. Bem. de meu trabalho. Não preciso ser diplomata de carreira para me negar redondamente a fazer declarações r espondendo sua pergunta. e se quiser pode tranqüilamente considerar is so como um delírio de grandeza. que apresenta razões. para elas vivo. Para ele não existe uma instância superior. es poética e este compromisso não existem para mim. afirma-se que não existe autor sem com promisso. Não é possível dialogar com pessoas que manifestam por escri to a sua incompetência. Mas tenho a impressão de que principalmente na América Latina . ou não vale a pena ser chamado de confissão. é vingar-se da literatura . E por favor. naturalmente não todos . O que tal crítico pretende. Para que você não tenh a de me interrogar a esse respeito. mesmo que não o aprecie.na Europa. É um palhaço. A crítica literária. eu francamente já não esperava essa confissão. não espere que eu qualifique meus colegas. . Dis to não resulta nada de razoável. têm algo a ve r com a literatura. Agrad eço-lhe que a tenha feito. Eu odeio a tolice. para conservar a sua própria terminologia. não insista. em resumo. No começo de minha carreira vários deles me atacaram sem absolutamente me compreenderem. T olstoi ou de Schweiji . de Flaubert e Balzac. não me interprete mal: um crítico que me trate duramente mas baseado na compreensão. Você me induziu a fazer confissões e agora pretende levar-m e para um terreno perigoso. Esta não é uma declaração de princípios: re fere-se mais ao conceito que muitos críticos têm. pelo menos sob esse aspecto. A elas me sinto obr igado. portanto. .Após este protesto em que transparece a raiva. porque tudo que possa me acontecer na vida está contido aí. deveria se abster da crítica. uma ideologia. Portanto. Sim. p orque lhe faltam condições. sua opinião ace rca da crítica literária em relação às suposições que você mencionou há pouco? Deve o crítico ntemente. Por isto o que essa gente escreve não me perturba. ou sabe Deus que motivos o impulsionam. geralmente. Talvez como passatempo. Mas aquele que esc reve tolices é maçante. gostaria de explicar meu compromisso. que deveria ser uma parte da literatura. e as sim toda espécie de retórica. no fundo.

ele também é um ideólogo. você também não acha? Como romancista tento o impossível.Você exige muito. Amado é um menino que ainda crê no Bem. Este homem é um vulcão genial. diferenciando-a de Asturias ou. mas o faz de forma tão enc antadora. sobe a bordo da nave como timoneiro. Entretanto deveríamos ser ainda mais concretos. . Mas raramente é assi m. Em essência. mas sua ideologia me é mais simpática que a de Asturia s. Isto é admirável. uma conversa entre iguais que apenas se servem de meios diferentes. deveria ser formulado com maior exatidão. neste caso é a mesma coisa. Temos essa questão do compromisso. As palavras de Astur ias são palavras de um pai. naturalmente. Gostaria de ser objetivo. que talvez pudéssemos utili zar nesse sentido. tanto faz s e julga o autor positiva ou negativamente. É assim que penso. inadmissível. quase sempre a crítica não tem valor nem interesse. a preencher. ao contrário. mas não encanta. e ao mesmo tempo me olhar a mim mesmo com olhos de estranhos. deve ser produtiva e co-produtiva . E sem dúvida tem razão. Deve ser um diálogo entre o intérprete e o autor. Mas ele vive de um modo que gera perigo: ele pensa ideologicamente. segue suas próprias leis. pois é inimigo dos descobridor es ois é inimigo dos descobridores. dedicado a embrutecer. Asturias se expressa com palavras de f erro. e sem dúvida alguma um ideólogo. de um patriarca que emite sentenças no sentido do Antigo Testamento. e certamente quer mandar ao diabo muitas coisas. digamos assim.Novamente um paradoxo magnífico: "eu tento o impossível". pois acha que deve servir a uma verdade só conhecida por ele. Tola não é a palavra exata. é um ar quiteto da alma. . que nos convence com maior razão. mesmo no ataque e até no aniquilamento se fosse necessário. de unidades de experiência de diferente s graus? Atrás dessa definição também se oculta muito de política. Ela exerce uma função literária indispensável. como romancista? Falou de sua obrigação para com os homens e isto é um pouco vago. O escritor. Colombo deve ter sido sempre ilógico. O bom crítico. dos que procuram mundos desconhecidos. Amado vai dando pinceladas a mais não poder. Mas o que exige de si mesmo como autor. e eu lamento.E Jorge Amado? Você não acha que este grandioso fabulista e amigo dos homens também pensa ideologicamente? Sem dúvida. O escritor deve ser um Colombo. Um a crítica tal como eu a desejo deixaria de ser crítica no sentido próprio. você quis formular seu credo do crítico. naturalmente só o bom escritor. é um descobridor. . . sua concepção do dever de um auto r. mas adota a ideolog ia do contó de fadas com suas normas de justiça e expiação. ou então não teria descoberto a América. porque se parece tão pouco comigo. de Jorge Amado? Gosto de Asturias. Asturias tem algo do distanciamento incorruptível de um sumo-sacerdote. em suma a permitir o acesso à ob ra. sempre enuncia novos dez mandamentos.de ser quando aspira a complementar. a falsificar as palavras e a ob scurecer a verdade. é u m demolidor de escombros. Há exemplos suficientes de crítica negligente. na vitória do Bem. Como você definiria.Esta diferença não é resultado.Após seu credo do escritor. irresponsável ou estúpido. ou então ao que se poderia chamar seus interesses. o mau crítico é seu inimigo. ela o auxilia a enfrentar sua solidão. Asturias é a poderosa voz do juízo final. Amado é um sonhador. Quero explicar melhor: o escritor. u ma exceção. por exemplo. Só não sei se realmente a maioria dos críticos é tão como você pensa. Só muito raramente é assim. Mas o crítico malévolo e insuficientemente instruído pertence áquela cam arilha que queria impedir a partida por ser contrária à sua sacrossanta lógica. porque somos m uito diferentes um do outro. . . pois uma crítica bem entendida é muito imp ortante para o escritor. Nós nos entendemos e nos admiramos. O mau crítico. é apenas uma perda de tempo. mas odeio a inti midade. o bom escritor. defende a ideologia menos ideológica e mais amável que já con heci. Não sei se isso é possível.

considero o idioma como uma metáfora da sinceridade. Elegância demasiada é suspeita. e não foi assim tão perigoso.É exatamente isso! A política é desumana porque dá ao homem o mesmo valor que uma vírgula em uma conta. Precisamente por isso idealizei um estratagema diplomático. fala com sinceridade. e lá isso não era possível. no que se refere ao escritor. Até mesmo autores famosos participam deste jogo. O caráter do homem é seu estilo. Talvez eu seja um político. não posso presenciar. justamente porque amo o homem. Também não quero me r eferir à elegância ou seleção do estilo. E por outro lado cre io que nos aproximamos bastante do ponto central. entretanto é uma simples verdade da vida. Casos assim existem. . Isso também o obriga a pensar com sinceridade. mas desses que só jogam xadrez. pois o que você disse há pouco foi também como sertanejo. Ele ainda deve c riar sua própria linguagem. até mesmo no sentido filosófico."O homem é seu estilo"? Sim. ou melhor. E agora o que houve em Hamburgo é preci so acrescentar mais alguma coisa. Sou escritor e penso em eternidades. Eu penso na ressurreição do homem. E também po r isso mesmo gosto muito de ser diplomata.Penso que Kari Kraus disse algo parecido. ao que você colocou como escritor e deslealdade. São muitos os que pensaram desta forma. num caso desses imediatamente a gente saca o revólver. neste caso seus colegas diplomatas. o homem do sertão. Em que reconhece. razão. ou segundo quais regras você julga uma qualidade de caráter do homem como base de s eu comportamento político? Pode-se conhecer facilmente o caráter de um homem pela relação que ele mantém com o idioma. . porque encobre um v azio. Deveríamos abolir a política. A cho que esta contradição também pertence ao capítulo escritor e político. O brasileiro. E também Flaubert e Stendhal. não. É verdade. . Não. O curioso n o caso é que os políticos estão sempre falando de lógica. sua linguagem.Não estou muito convencido de que seus colegas. arrebatando jud eus das mãos da Gestapo? Foi alguma coisa assim. Permit o-me supor que um psicólogo poderia tirar muitas conclusões disto. mais ou menos. No sertão. Eu. tem ainda outra face. mas havia também algo diferente: um diplomata é um sonhador e por isso pude exercer bem essa profissão. alguns deles comunistas. A maioria deles.Parece que estamos novamente nos afastando do nosso tema. sentem-se confortáve is. Espero que você também não me considere assim. O diplomata acredita que pode remediar o que os políticos arruinaram. E agora me ocupo de problemas de limites de fronteiras e por isso v ivo muito mais limitado. Por isso agi daquela forma e não de outra. .A sinceridade.injus tiças. Muitos auto res que se consideram comprometidos. Ao contrário dos"legítimos" políticos. Sinceridade e cap acidade de sentir como o homem são os fundamentos de minha fé no futuro de meu país. . quando podem fazêlo a favor do homem. v ai me considerar louco. acredito no homem e lhe de sejo um futuro. e vão tão longe que chegam a diminuir o êxito de seus livros para não dar a impressão de tere . Mas eu jamais p oderia ser político com toda essa constante charlatanice da realidade. que não são verdadeiros diplomatas mas apenas políticos frustrados. Eu não sou um homem político. . Isto certamente vai parecer doutrinário.Foi isto que em Hamburgo levou você a se arriscar perigosamente. aprovarão incondicionalmente esta definição. pensando que seus livros fazem crescer constantemente suas contas bancárias. embora no fundo se referisse a qualidades de caráter. O político pensa apenas em mi nutos. realidade e outras coisas no gênero e ao mesmo tempo vão praticando os atos mais irracionais que se possam im aginar.

não entendo por que se faz tan to barulho pelo que deram de chamar "a língua Guimarães Rosa". mas deve haver alguma v erdade nelas.E assim chegamos ao capítulo que deve ser. para lhe agradecer s ua compreensão e paciência. Mas uma dedicatória é uma promessa. . Naturalmente. Que seja também um pensador. Quanto a mim. o capítulo central de um d iálogo com você: sua relação com a língua.Sem dúvida. Você conseguiu. sua linguagem própria. quando depois o livro obtém grande êxito. não vou conversar com algum douto professor. Olhe. o gosto pelos paradoxos de ve haver contribuído para que se formulassem estas afirmações. mas. Mas não nego esse fato. depois de ler seus livros. Pode-se achar precipitada esta atitude. É por isso que normalmente não costumo conver sar se antes não posso pensar tranqüilamente e até o final. na fazenda. queira ou não. noto-o constantemente durante meu trabalho. s omente a ela. Temos de aprender outra vez a dedicar muito tempo a um pensamento. e que é uma coisa compl etamente simples. pelo menos acho que sou. armas. lá se necessita de pão. inclusive a de Guimarães Rosa. quero dizer uma c oisa: enquanto eu escrevia Grande sertão. Fizeram-se numerosas brincadeiras sobre isso. me induzir a fazer o contrário. pela primeir a vez. e portanto todo o dinheiro ganho com esse romance pertence a ela. muito racionalmente. que é generoso. . principalmente por causa dela. tenho meus v encimentos. e de vemos cumprir nossas promessas. Posso permanecer imóvel durante longo tempo. algo onde se pode cair e quebra r os dentes. Nós sertanejos somos muito diferentes da gente temperamental do Rio ou Bahia. não me envergonho em admitir que Grande se rtão me rendeu um montão de dinheiro. tanto no sertão como no Rio. e não sei se devo lamentar ou me aleg rar com o fato. Uma palavra. sustentando que abordaram tudo sempre muito "logicamente". principalm ente. e pode fazer o que quiser com ele. minha mulher sofreu muito porque nessa épo ca eu estava casado com o livro. que são todos homens atilados . Evidentemente. Mas o sertanejo também é um hom em sonhador. podemos notar isso em sua hospitalidade. es trangeiros. Muitos dos que escreveram tratados geniais sobre este assunto. Para isso. e ainda se pratica o comércio de troca. A esse respeito. e sim com algum dos velhos vaqueiros de Minas Gerais. Uma delas: um tradutor. ao contrário da maioria dos meus colegas. uma verdadeira mulher sempre sabe encontrar utilidade para o dinheir o. no s ertão. E também choco meus livros. Os livros nascem. Conte-me alguma coisa s obre sua relação com a língua. Sou místico. cavalos. sua senhora será invejada por muitas esposas de escritores. quando a pessoa pensa. um místico? São duas perguntas. Até mesmo nós. Você deve saber que tenho uma mulher maravilhosa. se é que alguém pode d eixar de sê-lo. Gosto de pensar cavalgando. Como sou um fanático da sinceridade lingüística. Quando volto para junto deles. a quem o simples fato de meditar causa prazer. Por isso dediquei-o a ela. como se isto fosse motivo de vergonha. Somos tipo s especulativos. é algo único.m ganho dinheiro com eles. Não necessito dele . que não pode ficar quieta nem um minuto. não fico infeliz quando tenho dinheiro suficiente para viver como quero. que a futura história da literatura terá de citá-la como literatura de um úni co homem. liberal. . declara dominar certa quantidade de línguas vivas e mortas. Nesta ação dev e ter influído também o seu caráter de sertanejo. daí seriam escritos livros melhores.Esta relação não é de modo algum difícil de explicar. o a to de escrever já é a técnica e a alegria do jogo com as palavras. Lembro-me de haver lido em algum lugar que sua linguagem apenas longinquamente tem algo a ver com as línguas vivas ou mortas. para se recomendar a um editor. Tem muito tempo para pensar e matuta muito. Não me interessa o dinheiro: venho de um mundo o nde ele não adianta muito. a ge nte acredita ter descoberto um mundo completamente novo. pensando em algum pro blema e esperar. freqüentementeé a única coisa que pode fazer. uma ún ica palavra ou frase podem me manter ocupado durante horas ou dias. Gostaríamos de tor nar a explicar diariamente todos os segredos do mundo. sinto-me vaqueiro novamente. sem dúvida. e quando algo não me fica claro. Chocamos tudo o que falam os ou fazemos antes de falar ou fazer. Sua linguagem. Você é um pensador. Há em seu país um professor que afirmou ter sua linguagem chegado a tal ponto. não preciso forçosamente de um escritório. . isto significou para mim que lhe dei o livro de presente.

Temos de partir do fato de que nosso português. existem as ilimitad as singularidades filológicas.brasileiro é u ma língua mais rica.Pelo processo de mistura com elementos indígenas e negróides com os quais se fundi u o Brasil. Naturalme nte. por exemplo.Poderá citar alguns desses elementos adicionais? Naturalmente são muitos. e no seu caso isto vale t . falando de meus livros. obrigados a pensa r utilizando uma língua já saturada. Como já lhe revelei. Primeiro: considero a língua como meu e lemento metafísico. Seja como for. o que sem dúvida tem suas conseqüências. muito que não se pode compreender co m a razão pura. como autor do século XX. tal como s e falava. que são acessíveis igualmente para todos os outros. sim. quero deixar bem claro. quero escrever livros que depois de amanhã não deixem de ser legíveis. com poucas palavras. isto é. não se contentou com essa escala maior de expressão . . pois sua linguagem também difere muito da de seus c ompatriotas. tem a vantagem de que seu desenvolvimento ainda não se deteve. mas não à disposição dos portugueses. este foi um enriquecimento imenso e já pode ser notado no exterior pela qua ntidade de diferentes dicionários europeus e americanos do mesmo idioma. pensando até o fim. você tem razão. está fundido c om elementos que não são de minha propriedade particular. E também está à minha disposição esse magnífico idioma já quase esquecido: o ant go português dos sábios e poetas daquela época dos escolásticos da Idade Média. inclusive metafisicamente. E ainda poderia citar muitos outros. tenho uma escala de expressões mais vasta que os portugueses. já é inc alculável o enriquecimento do português no Brasil. nas quais também existem fundamentalmente muitos processos d e origem metafísica. como brasil o. em Coimbra. Eu. Meyer-Clason nos textos em que me apresentava e você. e assim nasce então meu idioma que. porém. para limpá-la das impurezas da linguagem co tidiana e reduzi-la a seu sentido original.Não seria mais fácil e mais correto se agora conversássemos um pouco sobre o aspecto puramente filosófico. . Deve-se apenas partir do princípio de que há dois componentes d e igual importância em minha relação com a língua. muito mais que esses dou tos senhores que se desabafaram sentimentalmente. incl uí em minha linguagem muitos outros elementos. eu diria "co mpensar". muitas coisas irracionais. Por isso acrescentei à síntese existente a minha própria síntese. ainda não está saturado. puderam explicá. tudo isto está à nossa disposição. . Primeiro. Meyer -Clason. o infinito. com suas resenhas críticas. Depois. por exemplo.Você.Você falou anteriormente do escritor como descobridor. de nossas variantes latino-americanas do p ortuguês e do espanhol. No fundo é muito simples. Por isso. há meu método que implica na utilização e cada palavra como se ela tivesse acabado de nascer.. Nunca me contento com alguma coisa. mas isso nos levaria muito longe. além disso. .lo. s obre as conclusões que você tirou disso? Acho que assim seria mais fácil de entender i sso que você chama de aspecto metafísico. da linguagem de Jorge Amado. e este é o segundo elemento.que aliás também indica um fenômeno sociológico imenso -. Alémdisso. Ainda é uma língua jenseits Von Gut und Bose (12) e apesar disso. entenderam particularmente de qu e se trata. E. por razões etnológicas e antropológicas . Exato. não estão desgastadas e quase sempre são de uma grande sabedoria lingüística. O elemento metafísico. . por haverem pensado comigo. Bem.. que o português falado na Europa. de modo decididamente irracional. que são li nguagem literária e ainda têm sua marca original. devo me ocupar do idioma formado sob a influência das ciências modernas e que representa uma espécie de dialeto. você e alguns outros deram. digamos. sobre as diferenças entre o português europeu e o brasileiro.comportaram-se... para ter ainda mais possibilidade d e expressão. tenho de compor tudo isto. eu incluo em minha dicção certas particularidades dialéticas de minha região . estou buscando o impossível . E além de tudo.

. como um cientista que também não avança simplesmente com a fé e com pensamentos agradáveis a Deus.Sim. Meu lema é: a linguage m e a vida são uma coisa só. Eu a converti em uma metáfora. sou eu o responsável por ele. a falta de tais formalidádes não me preocupa.Uma vez você me disse que quando escreve quer se aproximar de Deus. que é muito simples. só com grande dificuldade. . não é tão íntimo. Quanto à sua última frase. mas apenas um os encontra. Quem não fizer do idioma o espelho de sua personalidade não vive. amor oso. qu e você extraiu do dialeto hamburguês e para a qual não existe tradução em seus dicionários. para isso as aprendi. Allerseelenstimmung (15). Ohomem ao dizer: eu quero. como escritor. Minha amante é mais importante pa ra mim. A língua e eu somos um casal de amantes que juntos procriam apaixonadamente. eu posso. domina a realidade da criação. o aspecto metafísi co da língua. Daí resulta que tenha de limpá-lo. devemos encarar a Deus e o infinito. mas no seu livro tem tradução e lugar. e. Eu diria: trabalho. não é verdade? Frequentem ente você faz ex periências com palavras tomadas de idiomas estrangeiros. . a linguagem também deve evoluir constant emente. Falar. me agrada m ais. provérbios e particularidades intradu zíveis de idiomas estrangeiros. No fundo é um conceito blasfemo. Não esqueçamos o aspecto da genialidade. já que assim se coloca o homem n o papel de amo da criação.(13) . trabalho e trabalho! . sei. e também seu conheci mento de línguas estrangeiras. trabalho. e assim pude descrever um estado de alma para o qua l conheço outra expressão alemã. ao se impor isso a si mesmo.. Como se deve entende r isso? Isto provém do que eu denomino a metafísica de minha linguagem. isto também se rela. mas não creio que isso seja decisivo. Estou pensando na magnífica palavra supping (14). . Também aqui pode-se determinar meu ponto de partida. Sei lê-las. Você está sempre citando expressões. seu gênio criativo e recreativo.ciona com a língua. Entretanto.. e como é a expressão da vida. mas teria feito melhor contentando-se com a lingua. Genialidade. pedir-lhes contas. talvez algumas mais. Posso notar isso nesta no ssa conversa. Pode ser. mas a quem até hoje foi negada a bênção eclesiástica e científica. esta condição de poliglota é também muito importante para sua própria linguage m. Soa a Heidegger.Quantas? Acho que oito. O idioma é a única porta para o infinito. É um relacionamento familiar. baseado em sua sensibilidade para com a lín gua. creio que provém da Áustria.Portanto. Eu procedo assim.. que i ndiscutivelmente existe e que é do mesmo modo muito importante. Repito minha opinião: o trabalho é imp ortantíssimo! Mas ainda mais importante para mim é o outro aspecto.ambém com relação à língua. Sim. Nós. eu devo. pelo que devo constantemente umsorgen (17). pois esta deve ser a língua da metafísica. como sou sert anejo.Com todas essas condições de que dispõe. Quantas línguas você domina? Dominar é muito. quando n . o cie ntista e eu. não? Ele constr uiu toda uma filosofia muito estranha. acho que é como todos os descobrimento estão no ar. não é? Mas supping (16) é mais neutro. que faz com que minha linguagem antes de tudo seja minha. com isto eu já disse todo o fundamental sobre minha relação com a língua. Isto significa que. mas infelizmente está oculto sob montanhas de cinzas. Você certa vez já mencionou o fato da "retradução intelectual". devo me prestar contas de cada palavr a e considerar cada palavra o tempo necessário até ela ser novamente vida. você se adianta um bocado aos demais autores. Certamente. e como a vida é uma corrente contínua. às vezes demas iadamente. Mas estamos esquecendo dois importantes elementos de sua lingua gem: sua genial intuição no trato com o idioma.

Esta invocação do sertão me lembra muito aquele famoso pedido de Ortega y Gasset de um Goethe dentro de si. em ser chamado de revo lucionário da língua? A expressão "revolucionário" está tão desgastada. Zola. Para poder ser feiticeiro da palavra. Expondo-me ao perigo de que meus leitores alemães me ap edrejem. A literatura tem de ser vida! O escritor deve ser o que ele escreve. "Pedindo um sertão dentro de si" (2O) Levo o ser tão dentro de mim e o mundo no qual vivo é também o sertão. se quisermos ajudar o homem.ecessário. Quem afirma isto não tem qualquer sentido da língua. é preciso provir do sertão. ele se descobre a si mesmo. quando me comparam com Joyce. é isso. quando a gente as toma beim Wort nimmt (19). . Se tem de haver uma f rase feita. sim. Mas esta comparação com a citação de Ortega y Gasset não foi tomada de tão longe como à prim ira vista poderia parecer. o único grande poeta da literatura mundial que não escrevia para o d ia. provinha apenas de São Paulo. pod e explodir no ar. um moralista. von der Last d er Zeitlich eit brefreit (18). mas para o infinito. também na língua o compromisso humanista. que mal pode fazer j ustiça ao que você define como língua e relação para com a língua e dever desta. Veja como se tornam insénsatas as frases f eitas. . Balzac. novamente. como os outros que eu admiro. para tomar arbitrariamente um e xemplo contrário. Era um sertanejo. dizia que em Grande sertão eu havia liberado a vida.Então. ou. inimigo de Deus e do homem. lá onde a palavra ainda está nas entranhas da alma. não um alquimista. meu caro Lorenz. assim como Do stoievs i. mas também depende de que ele devolva à palavra seu sentido original. Flaubert. um homem que vivia com a língua e pensava no infinito. mas eu sustento o contrário. do qual você falou. . Disseram-me que isto era blasfemo. o "compromisso do coração". Ele era um homem cerebral. Medita ndo sobre a palavra. Conforme o sen tido. o que seria pior. O bem -estar do homem depende do descobrimento do soro contra a varíola e as picadas de cobras. Legítima li teratura deve ser vida. corrigi-los também. depois de tudo o que disse. tais como "revolucionário" ou "reacionário". dos quais o segredo da vida irrompe como um rio descendo das montanhas. Queria l ibertar o homem desse peso. Com isto repete o processo da c riação. quando as examinamos em função de su a utilidade. Não há nada mais terrível que uma literatura de papel. para po der lhe dar luz segundo a minha imagem. Como explica seu proces so de criação. de servir ao homem e d e vencer o diabo. Não estão certos.. como dizem os alemães.Na verdade você está de acordo. Sim. Tolstoi. Estes são os paradoxos incompr eensíveis. pois julga segundo as aparências. A impiedade e a desumanidade podem ser reconhecidas na língua. um está aparen     . o escritor deve ser um alquimista. Sim. Quem se sente responsável pela palavra ajuda o homem a vencer o mal. É exatamente isso que eu queria conseguir. Você. pois quero voltar cada dia à origem da língua. Você diz justamente o certo! Não sou um revolucionário da língua. Acho que Goethe foi. Naturalmente. . em resumo. ele era.Você não é nenhum revolucionário. eu lhe digo: Goethe nasceu no sertão. devolver-lhe a vida em sua forma original. o homem. eu preferia queme chamassem de reacionário da língua. Seu método é meu método. De cada cem escritores. em sua crítica ao meu livro escreveu uma frase que me causou mais alegria que tudo quanto já se disse a meu respeito. A alquimia do escrever precisa de sangue do coração. concordo imediatamente. pois ac redito que a literatura só pode nascer da vida. embora ponha a língua toda de cabeça para baixo e trabal he para o futuro: Você recusou noções como genialidade e intuição.. aquilo que denominou "chocar" seus livros? Escrever é um processo químico. para estudar a alquimia do sangue do coração humano . Sim! a língua dá a o escritor a possibilidade de servir a Deus corrigindo-o. que ela tem de ser a voz daquilo q ue eu chamo "compromisso do coração". não leiam meus livros por eu estar atentando contra o que eles têm de mais sagrado.

qu ando quis conhecer Unamuno. porque o sertão é o terreno da eternidade. É também a minha. Mas você também não vive permanentemente nos ambientes de outras línguas. que só se pode "pensar em uma língua" quando se vi ve no país da referida língua. não posso seguir a receita de Hollywood. Devemos eliminar toda espécie de dúvidas. intuit ivas. Hoje em dia acontece algo semelhante. Este aparente enigma tem uma solução muito simples: amo a língua. quando se conh ece sua obra.Isto apenas confirma sua tese de que autor e obra são uma coisa só. por isso ali os anjos ou o diabo ainda manuseiam a língua. torno a repetir: não do p onto de vista filológico e sim do metafísico. de tal maneira que não se pode penetrar esse véu. lamento muito.Temo. está casado com elas. ba seado em minha própria expe. Tive de levar isso em consideração. quando de repente o m undo é muito mais amplo. do contrário. e assim em toda parte onde uma realidade idiomática está velada diante de outra. segundo a qual é preciso sempre orien tar-se pelo limite mais baixo do entendimento. sem dúvida alguma a afirmação que você acaba de fazer é um postulado. Guimarães Rosa. e realmente não posso entender c omo você pôde se aproximar tanto de minha metafísica. o homem é o eu que ainda não encontrou o tu. porque querem causar sensação. assim você o definiu e está certo. A tragédia de Zola consistiu em que sua linguagem não podia caminhar no ritmo de sua consciência. pensadas em sonhos. . realmente a a mo como se ama uma pessoa. deveríamos formular tudo isto co m maior exatidão. Estou constantemente cita ndo o seu próprio ensaio que me impressionou muito. Sim. quando O mundo ainda era menor parecia natural que toda pessoa instruída dominasse dois ou três idiomas. Flaubert e todos os dem ais. Bem. as de Goethe. Aprendi algumas línguas estrangeiras apenas para enriquecer a minha própria e porque há demasiadas coisas intraduzíveis. no sertão fala-se a língua de Goethe. mas nada mais posso fazer. Antes. Quem qui ser entender corretamente Kier egaard tem de aprender dinamarquês. Não é esnobismo. e isso não pode ser. No sertão. As mil e uma noites. deixando-se influenciar pela palavra falada e pelo "a mbiente" em que vive uma língua. Se não parecesse tão banal. Ele está ainda além do céu e do inferno. Dostoievs i. mas falta o vigor da língua. Er ist der. até mesmo fez disso sua profissão. Vão acusá-lo de nacionalismo e talvez até de patriotismo local. Pude comprová-lo muitas e muitas vezes. Para possibilitar uma compreensão totalmente clara. prova apenas que não entende meus liv ros e que nem mesmo é capaz de compreender corretamente o que nós dois. Confúcio. por assi m dizer. eu diria que o indivíduo Guimarães Rosa não é nenhuma surpresa. não pode ser suficiente um só idioma. pois sem esse amor pessoal. "perdeu a i nocência no dia da criação e não conheceu ainda a força que produz o pecado original". Até agora sempre acreditei. Flaubert. tratamos de destacar aqui! Se apesar de tudo continuarem me interpretand o ao contrário. A consciência está desperta. com grande c uidado. De minha parte não posso compreender bem cómo pôde penetrar de tal forma na metafísica de outras línguas. não funciona. todo escritor deve se resignar a ser interpretado de forma equivocada e malév ola. Isto é importante. Quem quiser entender Dostoievs i tem de fazê-lo em russ o. Portanto. nem a melhor tradução o ajudaria. Como escr itor. você mesmo escreveu isso. se naquela época ainda não me conhec ia. nem ter qualquer espécie de consideração para com eles. A maldição dos cost umes é notada e os autores aceitam sem crítica a chamada linguagem corrente. der Gott verloren und den Te ufel gefunden hat (23). Quem interpreta como um nacionalismo mesquinho o fato de eu partilhar a m aneira de pensar e de viver do sertão é um tolo. segundo o Westostlicher Divan ( 22). Hoje em dia. da solidão.riência. Balzac. onde Inner es und Ausseres sind nicht mehr zu trennen (21). tantas que isso já não consegue mais me a fetar. O sertanejo. . Mensch. e se entendess em justamente o contrário do que você postulou.tado com Goethe e noventa e nove com Zola. cujo verdadeiro significado só pode ser encontrado no som original. por algo que sem dúvid a alguma você desejaria que fosse interpretado de maneira completamente distinta. Seria triste se suas impre ssionantes idéias fossem levadas ad absurdum por interpretações banais. que os leitores interpretarão mal estes últimos conceitos seus . Dos toievs i e Flaubert. e entretanto v ive com outras línguas. que nem sequer é dominado         . Não se pode argumentar com alunos deficientes.

segundo sua essência. Este é um pr oblema demasiado sério para ser largado nas mãos de uns poucos ignorantes com vontad e de fazer experiências. se a língua não lhe faz justiça. Vão juntos. cada autor deve criar seu próp rio léxico. considerando-a fora de moda. não habitual em você. A língua serve para expressar idéias. Não tem sentido. Mas. Amo Goethe. simplesmente não pode cum prir sua missão. mas a linguagem corrente expressa apenas clichês e não idéias. Entretanto. E esta é a razão pela qual aprendi línguas. vivendo com a língua. mas não para a poesia. Não se pode fazer desta linguagem corrente uma língua literária. po rém sempre moderna. espantosa de Freud. Com Dostoievs i e a Rússia me ocorre exatamente o mesmo. porque o material lingüístico existente e comum ainda basta para folh etos de propaganda e discursos políticos. meu romance mais importante: um dicionário. Cada língua guar da em si uma verdade que não pode ser traduzida. o Simplizissimus (24) é para mim muito importante. Sem que eu conheça a Alemanha. espero que por este sermão você tenha notado. não sei o que fazer com autores mais jovens como Brec ht. a musicalidade de pensamento de Ril e. de que o som e o sentido de uma palavra pertencem um ao outro. sem dúvida. em desacordo co m a época e acreditando que o homem seria apenas um Wolfsburg-Mensch (25). O que chamamos hoje linguagem corrente é um monstro morto. nem para pronunciar verdades humanas. Esta reputação não me desagradaria. Por isso devo purificar minha língua. são pobres coitados dignos de pena. gostaria de ser considerado um reacionário da língua. se estiver expresso em uma linguagem poética. o de spertar é triste. Franz K aflca. Somente renovando a língua é que se pode renovar o mundo. Esta língua. esta língua atualmente deve ser pessoal.com exatidão. Sou precisamente um escritor que cultiva a idéia antiga. assim como o provam Asturias. Todos eles perderam o sentido da metafísica da língua. pois todos eles juntos não terão a importância que uma única frase de Goethe te m para o destino do homem. para seu futuro. é a arma com a qual defendo a dignida de do homem. A música da língua deve expressar o que a lógica da língua obriga a crer. Asturias é a prova. Qu e relação existe entre você e a literatura alemã em geral? Conheço bastante bem a literatura alemã Por exemplo. Eu não duvido: certamente também na Alemanha os autores ens querem melhorar o mundo. a importância monstruosa. O melho r dos conteúdos de nada vale. Entretanto. por isso está morta. mas sim contra os alemães modernos. como pretendem os jovens do mun do inteiro sem pensar muito. E este fará as vezes de minha autobiografia. A língua é o espelho da existência. Minha língu a. Thomas Mann e Musil. Ta lvez um pouco antes. -Esta sim é que foi uma verdadeira explosão. Amo a língua russa. . esta experiência pessoal não diz nada contra a sabedoria de Goethe. Wolfsburg-Mensch. isto é. a língua da alma. humana. Pense só em sua gênese. Todos estes autores me impressionaram e me influenciaram muito intensa mente. Mas minha língua brasileira é a língua do hom em de amanhã. um dicionário é ao mesmo tempo a melhor antologia lírica. Deus era a palavra e a palavra estava com Deus. quando se conhecem os alemães. Cad a palavra ë. Nes ta Babel espiritual de valores em que hoje vivemos. e mesmo. o conteúdo desta expres são é por si só um símbólo horrível.Suponho que estas manifestações não serão do agrado de muitos e provavelmente lhe darão fama de reacionário. um poema. e tampouco Dostoievs i é re sponsável pelo atual estado da alma russa. Mas não o co nseguirão. devolver-lhe esse sentido . certamente suas intenções são honestas e boas. já disse antes. depois de sua purificação. e não lhe sobra nenhuma alternativa. que apenas o conteúdo tem valor. do contrário. Devemos conservar o sentido da vida. mas também da alma. produto d o próprio autor. todos eles se tornaram pr egoeiros e deixaram de lado a alma. admiro e venero Thomas Mann.       . Robert Musil. a líng ua alemã me mostra o que poderiam ter sido os alemães. e o que está morto não pode engendrar idéias. Estes jovens tolos que declaram abertamente que não se trata mais d a língua. Agora permita-me uma pergunta imediata para fazer a conexão. E o conteúdo mais perigoso chega a ter uma função humana. O caso de Zola prova isso . publicarei um livro. se não tivessem esquecido a int imidade de Goethe com a metafísica da língua. Mas suponho que foi u ma explosão salutar. Hoje. No dia em que compl etar cem anos.

Entretanto. e pode fazê-lo não apenas aproveitando as possibilidades que lhe oferece a ciência moderna. pois um dicionário é o mais impesso al de todos os livros. Sim. o sentimen to. Pode entender literalmente o que acabo de lhe dizer e acrescentá-lo à minha poética. só que você não percebeu isso. Talvez com a restrição de que eu não quali icaria meu conceito mágico de "realismo mágico". Lorenz. pois o incompreensível pode. Um dicionário não é tão completamente impessoal como você pensa. veja. . os escritores brasileiros. Mas eu falei muito a sério. p orque é mais indeterminada e. o autor não pode se permitir intimidades em sua obra. Você está enganado! Você mesmo disse tudo isso em seu artigo. Digamos antes que tudo isto . ao escrever. . um desses "lógicos" que não compreendem nada. e. Talvez de você eu possa obter uma explicação. Mas em essência nos entendemos p erfeitamente. não tanto o de Asturias. e ficará exatame nte sua própria definição de meu universo poético. Não.Estou pensando em como classificar esta declaração sobre o dicionário. mas também agindo ele mesmo co mo um cientista moderno. é sempre seu maior obstáculo. Não tenho outra saída.Está bem. eu o chamaria antes "álgebra mágica". sobre a qual ainda não falamos e que é muit o importante para toda a literatura brasileira e. se gastarmos muitos pa radoxos. De todos os paradoxos que você disse. portanto. deve se ocupar do infinito. Gente m uito séria já me disse que esta "brasilidade" é só baboseira. Por isso o homem possui. o coração. por isso falei dele relac ionado à minha autobiografia. como queira. Não se deixe desconcertar pelo que dizem os sabichões! Você me ncionou a "brasilidade" até que com bastante correção. portanto. nem com sub jetivismo. A poesia é também uma irmã tão incompreensível da magia. sempre se refiram a este conceito. Agora uma coisa muito concreta. além do cérebro. ou deve ser interpretada literalmente? Poder ia ser entendida de forma absolutamente literal. e até agoranão pude ouvir uma definição que me agradasse embora vocês. não. pelo menos. Desde que me ocupo de literatura bra sileira. Deve ser porque você é um interlocutor bastante brutal e tem espírito de contradição. e você.. Entretanto. Mas nada disso! Raramente mantenho uma conversa tão interessante. creio que não chegaremos muito longe. é inimigo das intimidades literári as.. Seria lamentável se pe rdêssemos esta conversa por causa de um mal-entendido. Extraia do que eu disse o paradoxo lingüístico. Isto é incrível. o cérebro humano é uma organização muito defeituosa e debilitada. mas o de Carpentier. torna-o subjetivo quando deveria buscar a objeti vidade. O autor de uma li teratura tão pessoal ataca a personalidade do escritor. é preciso encarcerá-la no momento de escrever. Desta vez não foi um paradoxo. não pode nem deve ser explicado logicamente. . este me p arece o mais paradoxal: que sua interpretação da poesia desemboque agora no "realism o mágico". já deve ter me e ntendido bem uma vez. como se sabe. A intimidade na obra de u m escritor simplesmente me parece muito real. O escritor deve se sentir à vontade no incompreensível. Permita-me dizer-lhe que já não estou conseguindo acompanhá-lo bem. que quase o enfureceu.Estou me esforçando para segui-lo. portanto. É preciso ser objetivo. A personalidade. mais exata. já que deve trabalhar como um cientista e segundo as leis da ciência. já tentei várias vezes esclarecer este conceito. deve ser com preendido intuitivamente. . que só compreendem com o cérebro. Também não posso dar uma definição par .. Estou me referindo à chamada "brasilidade". às vezes tenho a impressão de que você está brincando comigo. Não se pode tratar o infinito com intimidade. ser cont emplado objetivamente.Surpreende-me enormemente ouvir esta opinião justamente de você. Pertence ao c apítulo de seu gosto pelos paradoxos. A personalidade do escritor. deve ser pensado até o fim. como já me havia dito. também para a sua obra . ela o faz perder seu equilíbrio. quem quer que lhe tenha dito que a "brasilidade" é apenas uma baboseira deve ser um professor.

Tentemos. que sobreviveremos ao f im do mundo que acontecerá um dia. por isso antecipo a resposta. Se para sua explicação não usa rmos novamente o mesmo conceito. que a palavra em si contém uma definição que tem valor para nós. sem remontar à mentalidade lingüística portuguesa.algo incompreensível. intima mente poética. no fundo de nossos corações. F reyre (27) esboçou uma definição muito boa. Sim. para eles são necessárias outras antenas. ou um pagão crente à la Tolstoi. Se isto pode consolá-lo. mas nin guém mais põe em dúvida que exista um "duende" ou a "hispanidade" de Unamuno. Mas simplesmente não se pode explicar a "brasilidade". às vezes pode-se sentir necessidade de se tornar um beato ou umfundador de religiões. leva-a dentro d e si. constantemente dentro de mim e apesar de ser o último a c apitular ante um problema lingüístico. e esta palavra tem um caráter fundamental semelhante àquela. mas qu e o próprio Lorca tornou plausível com alguns exemplos. é certamente um assunto dificil e complicado. de nossa dignid ade. aquele demônio também tão inconcebível. e. isto não é tão i mportante. para nosso caráter. Fundaremos então um reino de justiça. Existem elementos da língua que não são captados pela razão. não poderemos explicá-lo fora de nos sa área lingüística e sentimental.Você nos faria um grande favor. já nasce com ela. pois somos o ún ico povo da terra que pratica diariamente a lógica do ilógico. . . Esta maneira de pensar é conseqüência da "brasilidade". Assim acontece com a "brasilidade". Pode-se apenas concretizá-la em a lguns exemplos. Um exemplo magnífico. Mas.estou certo de que você fará esta pergunta durante nossa conversa. aqui entre nós dois. Existe como a pedra básica de nossòs almas. Como homem inteli gente. de nossos pensamentos. embora sinta esta "bra silidade" muito intensa. Nos últimos tempos também fora do Brasil se tem meditado sobre ela. dê-me alguns exemplos que v ocê ache que podem reduzir a "brasilidade" a metáforas. Um português não precisa explicá-la. Falemos da "brasilidade": nós os brasileiros estamos firmemente persuadidos. Apenas tentar. "brasilidade". pois agora poderíamos perguntar. pelo menos já seria alguma coisa. mas também pode ser que eu seja taoísta à maneira de Cordisburgo. Se estou bem lembrado. veio-me à lembrança o "duende" de Lorca. . e poderia ser aplicada também à "brasilidade". a mim e a alguns outros que nos debatemos para e sclarecer este conceito. desta vez r eferente a mim mesmo. como prova nossa políti ca. Esta é a afirmação de uma sabedoria máxima. entretanto. digo-lhe que também fui um daqueles que quebraram a cabeça pensando sobre esta questão. ou pelo menos tentar. Ou digamos. não altera o problema que você me propôs. não com a cabeça. para que você possa acreditar tranqüilamente . inconcebível. de viver e de sentir: "brasilidade" é talvez um s entir-pensar. digamos também que a "brasilidade" é língua de algo indizível. Eu não sei o que. sou. tanto eu como os outros: "Que diabos é um sentir-pensar?" (rindo) Não fique nervoso. nós d ois sabemos a importância que tem e o que quer dizèr. creio que se pode dizer isto. A religião é um assunto poético e a poesia se origina da modificação de realidade .Com isto não progredimos muito. mas posso tentar uma interpretação. Duvido que ou tras pessoas pudessem tirar disto uma conclusão mas. No fundo. para salientar a importância irracional. pois for am exemplificados pela vida. Já sa be que também não se pode explicar a palavra "saudade" em seu sentido lusitano. É um prazer quando outras pessoas que não me interessam se irritam com alguma coisa que sabem que eles mesmos não poderiam fazer melhor. apes ar de tudo. e também só o sabemos com o coração. Posso bem ser cristão de confissão sertanista. Eu pelo menos não posso fazê-lo. Duvida-se da existência da "brasilidade". foi Goethe quem disse: Poesie ist die Sprach e des Unaussprechlichen (26). de nossos livros e de toda nossa forma de viver. Conhece-a com o coração. mas insuficiente. Mas o que é ela? Muita gent e já quebrou a cabeça por causa do assunto. o "daimon" de Lorca e também o "daimon" de Goethe são exemplos e xatos para tais coisas indizíveis. É lógico que existe a "brasilidade" . Por favor. Outro exemplo. nossa maneira de pensar. Sim. tudo isto não é importante. Quando você mencionou a "sauda de". apenas porque muita vezes não nos podem compreender. infelizmente.

superando-o até conseguir uma humanidade sem falsidades. nem do irracional. tal como eu as interpreto. e como a explica para mim? Não há nenhuma contradição. Um terceiro exemplo: segundo nossa interpretação brasileira. que são sempre um pouco de mim mesmo. intelectual cultíssimo que lê tanto. Não deve abandonar as zonas do irracional. Dostoievs i eram sacerdotes da palavra. o assassinato por ciúmes etc. Estas regras não valem para o homem. cultura elevada. poliglota. A ciência existe para expulsar o diabo. e faz ali suas brincadeiras. Pense nisto: o amor é sempre ilógico. o homem não é compos to apenas de cérebro. . se rá por acaso um inimigo dos escritores intelectuais? Não. prudên cia. Eu creio firmemente. Para c ompreender a "brasilidade" é importante antes de tudo aprender a reconhecer que a sabedoria é algo distinto da lógica. Por isso também es pero uma literatura tão ilógica como a minha. não sabem o que é o bem e o que é o mal. tem seu resultado. O contrário seria terrível: a v ida ficaria limitada a uma única operação matemática. hoje nada significa para nós. seu próprio processo de trabalho é uma coisa totalmente intelectual e lógica. Mas não deve se transformar em um co mputador. Você. São estes. não se pode dizer isto. pois a necessidade que suas palavras expressam não existe mais. vivem sem consciência do pecado origina l. pois. pois isso diminuiria sua humanidade. modos lógicos de conduta dos seus h eróis. de modo algum.   . o cérebro tem pouca importância no decorrer da vida. ou então deixa de produzir lite ratura e só produz papel. ele tem apenas sua inteligência e sua capacidade de adivinhar. Deix a de lado componentes importantes. tudo isso está bem.Isto precisa ser explicado. E assim se explica também aquele provérbio sertanejo que à primeira vista parece outro paradoxo. pois o escrit or atual deve possuir todas estas qualidades. assassi natos. portanto. Mas não suporto essas figuras intelectuais. Um gênio é um homem que não sabe pensar com lógica. que não necessitaria da aventura do desconhecido e inconsciente. haverá de se matar. A sabedoria é saber e prudência que nascem do coração. por exemplo de seu Riobaldo? Não. e não me excet uo.s lingüísticas. para a maioria das pessoas. cometem tudo o q ue nós chamamos "crimes". . ou no que os franceses chamam " crime passional". Poderia ficar várias horas dando exemplos como esses. Cristo é um bom exemplo disso. No sertão. dos quais se espera que a qualquer momento lhes brotem da boca bolas de papel (28). quer se queira quer não. O que ali acontece não são crimes. . foi apenas um charlatão e por isso. Entretanto. O homem sofre semp re o desespero metafísico. Eu diria mesmo que. Alguma coisa deste modo de pens ar se conservou até mesmo na justiça de muitos países civilizados. você mesmo escreveu isso. Zola. um pouco muito. os home ns de meus livros. Inteligência. então. mas não teria sentido. não devem ser. A lógica é a prudência convertida em ciência. Como critério. Como você se explica esta contra dição. mas que expressa uma verdade muito simples: o diabo não existe. Assim acontece com todos os que ligam à necessidade do dia-a-dia o seu chamado compromisso e além disso não po ssuem as faculdades lingüísticas necessárias para poder fazer literatura. que transforme o cosmo num sertão no qua l a única realidade seja o inacreditável. o diabo é uma realidade no mundo. Desta forma. Isto marca limites. homicídios.Em seus livros acontecem muitas coisas que se pode chamar de crimes. prezado amigo. ao contrário. segundo as regra s da matemática. Apenas superando a lógica é que se pode pensar c om justiça. cada homem pode se encontrar ou se perder. mas apenas co prudência. é a força com a qual o homem. pois conhece a existência do diabo e pode assim liquidá-lo.Você está contra a lógica e defende o irracional. não podem ser intelectuais. Pense na distinção entr e assassinato premeditado e homicídio irrefletido. algum dia. Nada mais. mas que para eles não o são. Flaubert. mas mu ito crédula. ultrajes. A lógica. por isso ele é tão for te. Também isto é "brasilidade ". mas cada crime é cometido segundo as l eis da lógica. Minhas personagens. não muito cristã. Está oculto na essência das coisas. As duas coisas são possíveis. Às vezes não se encontram as palavras que se está sentindo dentro de si mesmo. A gente do sertão. Em sua inocência. por isso não serve para nada. Também isto é "brasilidade". pode acontecer que uma pessoa forme palavras e na reali dade esteja criando religiões. Mas cada conta. a não ser que não se creia na sua ressurreição e no infinito.

Tratemos então de chegar pouco a pouco ao final. não quis demonstrar cansaço. As dificuldades resultariam. . e formulou-se toda espécie de definições. pois nós dois ainda temos alguma coisa pela frente. minha auto-reflexão irracional. sobretudo na Eur opa. um homem do barroco. Depois de havermos abordado tantos assuntos gerais.. -É um romance autobiográfico? É. mas realmente esta é a conversa mais longa que já tive. antes de ler seu li vro.Este Riobaldo . Também acho. mas qu e de certo modo me parece inexplicável. nem sequer sabiam que o sertão existe. com a idéia de que o Brasil é um co smo próprio. e menos ainda um místico barroco. Você mesmo já disse isso . Desculpe. o que chamam ba rroco é apenas a vida que toma forma na linguagem. não posso estar constantemente acrescentando notas de rodapé para assinalar que se trata de realidades. Tentou-se muitodecifrá-lo. na França e até na Esp anha Mas é preciso aceitar essas coisas. Muitos de meus intérpretes se equivocaram.conforme li em várias ocasiões . É uma " autobiografia irracional". Rioba ldo é mundano demais para ser místico.fel icitou-me por eu haver eive literarische Landschaft erfunden (29). ao mesmo tempo. Que significado tem este livro para você? Eu diria que Grande sertão foi para mim o término de um desenvolvimento e. Recentemente. assim entre aspas. exceto você novamente. . não imerecido. Estou firmemente convencido disso. um universo em si. você é uma pessoa delicada: olha o relógio muito dissimuladamente. especialmente de meu mun do do sertão. . não se pode evitálas. algo referente a seu mag nífico livro Grande sertão. também na Alemanha. Terão de se conformar. desempenha nisto um papel muito importante o modesto nível de conh ecimento que têm os europeus sobre a América Latina e o Brasil.prefiro não dizer seu nome . Riobaldo e todos os seu s irmãos são habitantes de meu universo.E eu lhe sou muito grato. Coisas semelhantes me aconteceram na Itália. . Livros como seu romance contribuirão sem dúvida para complementar essa imagem chei a de lacunas. e estamos aqui juntos há horas.João Guimarães Rosa. me convenci disso.Atrevo-me a apostar que a maioria dos seus leitores alemães. levar-me-á à meta final. Portanto. Realmente já é tarde. um mís tico. Quando escrevo. de seus contos e de seu ciclo Corpo de bai le. Como você de lineia o seu Riobaldo? Não. é místico demais para ser Fausto. Provavelmente ainda o consideram uma i nvenção sua. assim espero. tão "magnífico". desde que você não considere uma autobiografia como algo excessivamente lógico.Naturalmente. durante minha viagem à Alemanha. Naturalmente que me identifico com este livro. sem dúvida. Um crít ico que me foi apresentado como um homem famoso . O romance Grande sertão teve um sucesso mundial. ou melhor. . Riobaldo é o sertão feito home m e é meu irmão. espero. algo que um dia. Talvez a culpa disso caiba à mistura de elementos realistas e daqueles q ue você costuma chamar "metafísica" ou "irracionalidade". também de seu Sagarana. que neste caso deve ser tomado como representante de sua s demais obras. Riobaldo não é Fausto. . mas todas elas revelam um certo d esamparo.seria considerado um Fausto. Sem dúvida o Brasil é um cosmo.A figura principal deste romance tem as melhores possibilidades de ser conside rada um dos maiores heróis da literatura mundial. e designações dessa espécie já lhe foram atribuídas. gostaria de saber algo muito específico. do fato de se conhecer muito pouco de nosso mundo. e com isso voltamos ao ponto de partida.

e depois me pergu ntar todo ano quando ficaria pronto o livro anunciado. Confesso com muito prazer que Meyer-Clason me convenceu de que uma passagem de meu romance . tivéssemos de dizer um a oração fúnebre pela Europa. Cordisburgo foi sempre uma Europa em miniatura. e permitem que encaremos tranqüilamente o futuro. Mas gostaria que me dissesse o que pensa do futuro da América Latina. essa linguagem. os latino-americanos. mas comparando quantitativa e qualitativam ente o que se escreve. Um homem que se estima tanto não pode ser considera do como um simples transportador de palavras. não só no campo político. por exemplo. Pela matemática. Sou um homem que viu muitas coisas no mundo. que entende muito de literat ura mundial. Não quero pecar por presunção. somos parentes espiritu ais: avó e netos. com ela morreri a um pedaço de nós. que não é tempo perdido. eu não quis evocar a teologia. Prefiro que não tenha sido assim. delineia tod os os problemas intelectuais da atualidade. Bahia. Sei que isso não levaria a nada. não. A América Latina tornou-se. Se a Europa morresse. e por isso estou aqui falan do com você. A América Latina inicia agora o seu futur         . Não é exato. por exemplo. Realmente. É o melhor de todos os meus tradutores. co-pensamento.era mais convincente na tradução alemã que em meu original. na enfermidade de nossa avó. não seria tão errado reduzir todas as ciên cias a uma lei básica. O século d o colonialismo terminou definitivamente. Soube que entre você e seu tradutor alemão. o "x". nos sentimos mu ito ligados à Europa. e em uma nova edição brasileira pretendo adaptar esta passagem à versão que Meyer-Cl ason encontrou em alemão. no terreno literário e artístico. melhor: é apenas o Brasil. Por isso espero que a Europa reco nheça a equação e leve em conta o "y".na realidade se tratava de uma me táfora . Não. mas t ambém como fator de poder espiritual. de que no ano 2OOO a literatura mundial estará orientada para a América L atina. Com isso a Europa está em um ponto culmin ante para o seu futuro. Suponhamos agora que América Latina seja a tal incógnita "y". além disso. mas provavel mente será o "y". Buenos Aires e México. Olhe. Não ria. na Europa. Am amos a Europa como.Sim. Não. também Pete rsburgo ou Viena. . Weltfáhi g (3O). sabe-se qu e uma equação não se resolve se uma segunda incógnita não for eliminada. e que entretanto deve expiá-la. somos sua neta adulta e pensamos com preo cupação no destino. houve longas discussões acerca de algumas passagens sobre cujo sentid o vocês não podiam entrar em acordo. A isto eu chamo cooperação. Paris. a cuja resposta dou muita importância. não v ou lhe perguntar em que está trabalhando agora. têm a seu favor uma grande tradição. Gostaria de acrescentar que Riobaldo é algo assim como Ras olni ov. admiro-o como homem da líng ua. Mas creio que Riobaldo tam bém não é isso. se ama uma avó. Você sabe que nós. Curt Meyer-Cla son. O mundo terá de contar. E entretanto os europeus não têm qualquer influência sobre essas incógnitas que determinam o futuro de seu contin ente. A Europa é um pedaço de nós.. se em vez de vivermos juntos. admiro suas qualidades. Com ele se discute sabendo-se que vale a pena. sin to-me um tanto orgulhoso. não foi assim. Olhe o futuro da Europa e de toda a humanidade: é como uma equação com várias incógnitas. Entr e nós. Mas isso existe sempre e em toda parte.Ainda tenho uma última pergunta. No final das contas. Por nós e conosc o talvez a Europa tenha um futuro não só no campo econômico. Para mim. o papel que um dia desempenharam Berlim. uma incógnita secundária muito importante. digamos em alemão. não só no Brasil e não só entre os escritores velhos e os de minha geração. Estimo muito Meyer-Clason. A América Latina talvez não seja a incógnita principal. É claro que também entre nós se imprime muita coisa medíocre q ue nada tem a ver com a literatura. Seria triste. pensei que você estava querendo me comprometer agora. E não estou falando apenas das necessidades e do potencial econômico de meu continente. É claro que aceito is so. como fizeram os escolásticos e cientistas medievais.. Estou firmemente convencido. será desempenhado pelo Rio. mas seus habitante s são ativos e. tanto é assim que quase já se pode d izer hoje. Lorenz. no fundo. O "x" e o "y" desta questão decidirão o amanhã. há muitos justificam as maiores esperanças..E o seu Riobaldo? Acho que você ainda não acabou de caracterizá-lo. provavelmente um dos melhores que há no mundo. mas um Ras olni ov sem culpa. Madrid ou Roma. Eu sei. Mas quero pintar um panorama que. A Europa é pequena. Isso não lhe traria nenhum prejuízo. com o que se escreve entre nós. .

1964). na oportunidade. perto de Braga. Hamburgo. Como resultado do Cong resso ficou constituida. (25) "Homem de Wolfsburg". Unamuno "inventou" o conceito anagramático "nivola. (12) Além do bem e do mal. Além disso. que desistiram de atribuir um segundo prêmio. (9) "Ave rara". (17) "Cuidar dele". tempo cinzento e chuv oso. Frase de Mallarmé. da qual Guimarães Rosa e Asturias foram eleitos vi ce-presidentes. com uma tônica fortemente política. travou-se veemente polêmica entre Asturias e Borges. árabe e m alaio. ale gando que não era possível uma comparação. (21) "O interior e o exterior já não podem ser separados". (2) Durante o Colóquio de escritores latinoamericanos y alemanes. Situa-se na pr ovíncia do Minho. (7) "Wilhelm Meister". como variação de um ensaio de Ortega y Gasset. Citado em alemão por Guimarãe s Rosa. escrevendo Niebla (6) Magma. (2O) "Pidiendo un Sertón desde dentro". japonês. com Magma. p ossuía conhecimentos suficientes para ler livros em latim. grego mod erno. Guimarães Rosa está se referindo à afirmação de Borges de que o compromisso é uma traição à arte. (16) Citado em alemão por Guimarães Rosa. espanhol. e espero que seja um futuro hum ano. inglês. realizado em 196 4 em Berlim Ocidental. Citado em alemão por Guimarães Rosa e extraíd o da resenha da edição alemã de Grande sertão (Coldnia. sueco. citada em francês por Guimarães Rosa. (10) "O "No fundo eu sou um homem solitário". (15) "Estado de ânimo do dia de Finados". chinês. Citado em alemão por Guimarães Ros. (5) Argumentando que o conceito usual de "novela" (romance em português. como Detroit. Na Europa Central. (4) Citado em alemão por Guimarães Rosa. premiado em 1936 pela Academia Brasileira de Letras. Citado em al emão por Guimarães Rosa. 24) Primeiro romance em língua alemã. teve lugar estediálogo. hindu. dinamarquês. citado em espanhol por Guimarães Rosa. da crítica ã edição alemã de Grande se rtão. Símbolo da civilização técnica. (22) O divã oriental-ocidental. servo-croata. Citado em alemão por Guimarães Rosa. Acredito que será um futuro muito interessante. Os jurados consi deraram este livro tão importante. eu s oube que ele falava português. (18) "Liberto do peso da temporalidade". húngaro. quando este atacou os escritores comprometidos e negou existirem condições dignas para uma literatura de compromisso na América Latina. nem mesmo aproximada. Wolfsburg é a cidade alemã que cresceu a partir da fundação d a fábrica Wol swagen. título de um livro fundamental de Nietzsche. não era suf iciente. uma das principais obras de Goethe. a primeira "Sociedade d e Escritores Latino-Americanos. persa. Citado em alemão por Guimarães Rosa. A expressão de Guimarães   . publicado em 1663. publicada em 17 de setemb ro de 1964 em Welt der Literatur ("Mundo da Literatura"). francês. Citado em alemão por Guimarães Rosa.o. após a morte de Guimarães Rosa. russo. por ser apenas documentação iteratura. (14) "De Suppe = sopa". (8) "De repente o diabo me cavalga". (23) "É o homem que perdeu Deus e encontrou o diabo". (3) Esta cidade do norte de Portugal atualmente se chama Guimarães. realizado em Gênova e m janeiro de 1965. (11) Na dedicatória de seu Grande sertão: veredas. alemão e italiano. (19) "Toma literalmente" citado em alemão por Guimarães Rosa. antiga cidade real e de peregrinação. ______ NOTAS: (1) Trata-se do "Congresso de Escritores Latino-Americanos". título de um romance didático de Goethe. Guimarães Rosa utiliza a palavra para se referir ao tempo. grego clássico. (13) Por um artigo publicado no Brasil em 1967. de Grimmelshausen. Citado em alemão por Guimarães Rosa.

U. em janeiro de 1965 e publicada em seu livro: Diálogo com a América Latina. em sua Interpretação do Brasil (Lisboa) e em Casa-gra nde e senzala (Rio de Janeiro. (3O) "Apta para o mundo". Citado em alemão por Guimarães Rosa. sociólogo. Citado em alemão por Guimarães Rosa. 1933). São Paul o: E.osa é muito significativa: "Wolfsburg-Mensch". 1973. traduzido literalmente. * * * . Entrevista conduzida por Günter Lorenz no Congresso de Escritores Latino-Americano s. (29) "Inventado uma nova paisagem literária". Citado em alemão por Guimarães Rosa. quer dizer "homem do castelo do lobo".P. (28) Guimarães Rosa refere-se à apresentação estereotipada dos heróis das histórias em quadr inhos. (27) Gilberto Freyre.. (26) "Poesia é a linguagem do indizível.

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