Fernando Pessoa A Arte Poética (II) A poesia não está no texto escrito e/ou impresso.

Está na íntima comunicação do vivido e sentido pelo poeta com o leitor, quando este reconhece as significações que lhe foram enviadas por aquele, no jogo que entre si fazem. Ambos, poeta e leitor, devem ser criadores. A força mágica do poema se desprende do texto ao despertar no leitor a ressonância do escrito e o leva para uma viagem de encantamento, onde se fundem memória e imaginação. Assim, chamamos para cá o leitor que sabe dessa encantação e se dispõe a entrar no jogo poético, no ritual de brincar, de re-criar com palavras o seu próprio enleio, diferente do escrito. Desta forma podemos passear na análise do poemaAutopsicografia e nele examinar os processos morfossintáticos, fônicos e semânticos utilizados por Fernando Pessoa, em uma abordagem de seu estilo e linguagem. O encadeamento deste poema decorre da conjunção coordenativa “e” (síndeto), presente nas três estrofes, dividindo-o em três partes lógicas. O tempo presente dos verbos (com exceção de “teve” – pretérito perfeito) foi usado para indicar a temporalidade da experiência das dores do poeta em relação ao momento presente do leitor (“dor lida”) e para demonstrar que a proposição apodíctica do primeiro verso é de natureza teorética, o que se depreende do próprio título do poema: Autopsicografia (auto, do grego autos = de si mesmo, por si mesmo[1], usado como elemento de composição; psico, do grego psyché = mente (intelecto), alma (sopro); grafia, do grego graphein = escrever, descrever), nada tem de espiritismo, como parece supor Massaud Moisés.[2] É, como observa ª J. Saraiva, um “enunciado científico”, “como a lei de Newton, ou qualquer outro”, “para significar que é a inteligência, como um ser autônomo, que explica o processo da criação poética”[3], significando o “estudo que o poeta faz do fenômeno psicológico que nele se passa no ato da criação artística”.[4]

Repete “dor” seis vezes. ora através de pronomes (“que”. Já se viu como Fernando Pessoa utilizou as metáforas: “calhas de roda” (9º verso) e “comboio de corda” (11º verso). O leitor deve conservar a alma infantil. por Dionísio Vila Maior[7]. O lúdico. “a que”) ou determinante (“as duas”). conceber. tanto no processo de criação quanto na fruição prazerosa do leitor. “criar”. também. “modelar”. per-durar. ludibriar. Pessoa ressalta o verbo “sentir” sempre relacionado à “dor” (facilmente associada à sensação). fresca e límpida.ere.O infinitivo “entreter” passa a ser uma expressão verbal: “a entreter”. moldar. tomada. o entretenimento. ora expressamente. -is. “sentem bem”. compor. burila-o. é um artista-artífice: cria o poema e depura-o. pura. no vigor pleno da sensação. . Pessoa. retirando dele toda “ganga impura”. para sentir bem. não pode esvair-se de pronto: deve persistir. como insiste Jorge de Sena[5]. ainda não contaminada. isto é. opinião esposada. Utiliza os advérbios como intensificadores: “Finge tão completamente”. transladando-a para o presente: momento da leitura. para bem sentir o que as suas sensações captam do mundo. “fingir” e pelo substantivo “fingidor”. o jogo. Se recorrermos à etimologia do verbo fingir veremos que ele não significa só enganar. O poeta. mas. . entre outros. como observou Teresa Schiappa de Azevedo[6]. Sabendo-se que “Finjo. induzindo-o a evocar a própria dor e a sofrê-la agudamente ao revolver o seu passado. portanto. para mostrar o sofrimento vivido do poeta. pode-se inferir que o processo poético de Fernando Pessoa provém de o fingimento condicionar toda a essência da arte poética. para que a transmissão do seu sofrer penetre fundo na alma do leitor-receptor da mensagem. Há algo de criança nesta última. “deverassente”. por ele. no seu labor de teorizar o poético. consagrado na Ars Poética de Horácio é. para ele de suma importância. insiste no papel do fingimento da criação poética. também. modela-o. para explicar a sua teoria. Frisa-o pelas formas verbais “finge”.

p. os dois pólos da criação poética – as sensações (coração) e o fingimento (razão)”[11]. Europa-América. Pessoa adotou a rima cruzada. em todas as estrofes. Antônio Geraldo da. aos versos de sete sílabas) e quadras ou quartetos[9] (estrofes de quatro versos). isto é. Lisboa. Antônio Afonso. 2000. “Fernando Pessoa e Heterônimos”. Texto Editora. 6ª ed. pelo transporte ou enjambement(cavalgamento[10]) da maioria dos versos. 9ª impressão. Um exemplo: “E assim nas calhas de roda / Gira. Antônio José. para que a exposição de seu raciocínio não sofresse mutilação. Mem Martins. bem marcados. vbt. “Ser ou Não Ser Arte”. de elevado nível intelectual. [1] Cunha. .. [2] Parece-nos improvável a interpretação de “autopsicografia” apresentada por Massaud Moisés. em que poderá ver-se uma certa intenção expressiva. a entreter a razão (o verso 9º prossegue no 10º). 89.. dezembro de 1997. Prossegue. Apesar desses recursos serem mínimos para a exposição de uma teoria. 2ª ed. No aspecto fônico. [3] Saraiva. p. Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa. 59.Fernando Pessoa adotou a redondilha maior[8] (nome dado ao heptassílabo. 2ª ed.. Cultrix. se relacionarmos “razão” com “fingidor” e “coração” com “dor”: ficariam assim em lugar de destaque. pp 52 e seguintes. observa-se que resultaram em fácil adequação de seu propósito. “Notar os dois pares rimáticos “fingidor” / “dor” (primeira estrofe) e “razão” / “coração” (última estrofe). de matiz nitidamente popular. in “Fernando Pessoa: o espelho e a esfinge”.. 1974 [4] Borregana.

Pisa. p. 2.[5] Entrevista a Quaderni Portoghese. . 39. 1977. p. 1978. Persona. 1. Porto. o Homem que Nunca Foi. 153 e Fernando Pessoa.

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