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Trabalho e Capital Monopolista (A Degradação do Trabalho no Século XX) Autor: Harry Braverman RJ: LTC, 1974.

Capítulo 13 O MERCADO MUNDIAL É somente na era do monopólio que o modo capitalista de produção recebe a totalidade do indivíduo, da família e das necessidades sociais e, ao subordiná-los ao mercado, também os remodela para servirem às necessidades do capital. É impossível compreender a nova estrutura ocupacional – e, em conseqüência, a moderna classe trabalhadora – sem compreender esse fato. Como o capitalismo transformou toda a sociedade em um gigantesco mercado é um processo que tem sido pouco estudado, embora constitua uma das chaves para toda a história social recente. O capitalismo industrial começou cm uma limitada quantidade de mercadorias em circulação normal. No nível doméstico elas incluíam os gêneros básicos sob a forma mais ou menos inacabada, tais como cereais e carnes, peixe e alimentos, derivados de leite e legumes, bebidas destiladas e fermentadas, pão e biscoitos e melaços. Outras necessidades domésticas normais incluíam fumo, carvão e velas, lamparinas e sabão, sebo e cera, livro e jornais. A produção de roupas estava em seus inícios, mas o mercado na primeira parte do século XIX já estava bem desenvolvido para fios e têxteis, inclusive artigos de tricô, botas e sapatos. Os artigos domésticos incluíam também artefatos de madeira de serrarias e carpintarias ferragens, tijolos e pedra, artigos de argila e vidro, moveis, utencsilios domésticos, porcelana e utilidades, instrumentos musicais, lataria e prataria, cutelaria, relógios e carrilhões, produtos farmacêuticos e drogas. Além desses artigos estavam as mercadorias necessárias como matérias-primas para a manufatura de tais artigos: ferro e minérios não ferrosos, metais, madeira bruta, alcatrão, breu, terebentina, potassa, cânhamo, artigos de pedra etc. O transporte exigia fabricação de carroças, carretas, coches e carruagens, navios e botes, tonéis e barris. E as industrias que produziam ferramentas e implementos tais como foices, arados, machados e martelos haviam começado a produzir maquinaria sob a forma de bombas, máquinas a vapor, equipamento de fiação e tecelagem, e as primeiras máquinas-ferramentas. No estagio mais primitivo do capitalismo industrial, o papel da família permanecia fundamental nos processos produtivos da sociedade. Embora o capitalismo estivesse preparando a destruição daquele papel, não havia ainda penetrado na vida diária da família e da comunidade; tanto assim que um estudioso da história industrial dos Estados Unidos definia como o “estágio familiar, no qual a fabricação domiciliar dominava. Praticamente todas as necessidades da família eram supridas por seus membros. O produtor e consumidor eram virtualmente idênticos. A família era a unidade econômica, e todo o sistema de produção baseava-se nela. Antes de 1810 este estágio era comum através de muitas seções do país; depois deste ano tornou-se mais ou menos localizado”.1
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ROLLA, Milton Tryon. Household Manufactures in the United States: 1640-1860. Chicago: 1917, pp.24344.

outras vezes porcos ou cabritos. galinhas. Nas fazendas norte-americanas. muito do trabalho de construção (exceto sua estrutura básica.000 famílias da classe trabalhadora estudadas pelo departamento do trabalho entre 1889 e 1892. O agricultor. Ao mesmo tempo. fermentação e destilação. Sobretudo nas regiões do carvão e do aço. até Manhattan. menos de metade comprava qualquer tipo de pão.500 famílias residentes nas principais regiões do carvão. colchões. centenas de famílias de mineiros não poderiam continuar na luta se não fossem as pequenas fazendas e grandes hortas que eles cultivavam’. O norte do que é hoje a zona central. como era norma) era feito sem recorrer ao mercado. manufatura de arreios. como era o caso de inúmeras utilidades domésticas. Embora apenas a alguns quilômetros do centro das maiores metrópoles no continente. Ao descrever a região do carvão de antracito da Pensilvânia em 1904. prensamento e fervura de sucos para melaços. em bruto. Dentre 7. ferro e aço. era mais bucólica do que urbana. em média 450 quilos por família anualmente. corte de moirões e ripas para cercas. durante sete dias na semana. e quase todas compravam enormes quantidades de farinha. Aproximadamente 30% não compravam legumes de espécie alguma a não ser batatas durante todo o ano. a maior parte do cuidado com a criação de hortas cabia inevitavelmente às mulheres – excluído o fato de que essas tarefas lhe cabiam por tradição. Um estudo de 2. A produção de alimentos. por exemplo. A maior parte dos alimentos comprados vinha à casa urbana em seu estado natural. panificação de compotas e às vezes até mesmo fiação e tecelagem. Muitas dessas atividades rurais continuaram como o modo natural de vida da família. vendo-se porcos e cabritos frequentemente em plena East River até a rua 42. desnatação e fabricação de queijos. assim como o preparo desses produtos para consumo doméstico constituía atividade diária da família rural. quando os homens trabalhavam dez a doze horas por dia.Enquanto o grosso da população vivia em fazendas ou em pequenas aldeias. realizado em 1890. Queens County e grande parte de Brooklin eram ainda semi-rurais em 1890. mencionado o grau de transformação que ocorreu nos últimos setenta a oitenta anos: “Exceto nos distritos residenciais populosos das grandes cidades que abrigavam uma pequena parcela da população urbana total – os habitantes da aldeia e da cidade frequentemente produziam parte de sua alimentação. O trecho seguinte descreve a vida dos trabalhadores na virada do século [XIX – XX]. indica que cerca de metade delas criava gado. sabão. a produção de mercadorias enfrentava uma barreira que limitava sua expansão. mesmo após os inícios da urbanização e transferência do emprego da fazenda para a fábrica ou demais locais de trabalho. enlatar e fazer geléias e a maior parte da panificação era feita na cozinha da casa. Mesmo entre as famílias dos artífices qualificados. sua mulher e filhos dividiam entre si tarefas tais como as de fazer vassouras. e cultivavam legumes e frutos em suas hortas. nem embrulhos. Muitas famílias criavam galinhas ou coelhos. Na greve de 1902. carpintaria e pequenos trabalhos em metal. e em grande grau o mesmo acontecia com a produção domiciliar de roupas. curtumaria. que ganhavam mais . inclusive cultivo de cereais e criação de gado. Peter Roberts escreveu que ‘é interessante percorrer os vales de Schuykill e Tremont e ver as muitas granjas que são cultivadas por empregados das minas das companhias de carvão e ferro da Filadélfia e Reading. os terrenos em volta das casas urbanas e suburbanas pareciam às vezes muito mais uma propriedade rural. Talvez a maioria das mulheres enfrentasse a cansativa luta anual de conservar. e muitas famílias eram tão dependentes da agricultura de pequena escala quanto do emprego industrial ou comercial dos homens da família. sem latas. e até uma ou duas vacas. fazer compotas. tinha horta ou todas essas coisas.

um quarto delas não comprava pão. a renda proporcionada pelo trabalho torna disponível o dinheiro necessário para adquirir os meios de subsistência fabricados pela indústria. 14.2 Antes do atual estágio do capitalismo. A matança de gado mudou-se da fazenda tanto mais cedo quanto mais rapidamente. 24. antigamente executadas pelas granjas familiares. e em torno do agricultor expulso da terra. e os confina nas circunstâncias que impedem as antigas práticas de autoabastecimento dos lares. blusas e meias a serem tricotados e cerzidas. Trends in Output and Employement. artigos domésticos de todos os tipos: a gama de produção de mercadorias estendeu-se rapidamente. juntamente com todas as demais pressões sobre a família da classe trabalhadora. Nova York: ed. ou em lares de todo o tipo. Por exemplo. Broch. Esta conquista dos processos de trabalho. Em primeiro lugar. Era normal que toda futura mamãe tricotasse e costurasse um enxoval completo para o seu primeiro filho e completasse depois quando necessário”. e as compotas de frutas mais de doze vezes. e em 1939 pouco mais de um quinto da manteiga era feita em granjas.que os outros trabalhadores. em número cada vez maior. de donas-decasa em operárias.11-13. em grande parte mulheres progressivamente transformadas. exceto em períodos de desemprego. SIIGLER. E com a industrialização da fazenda e das tarefas domésticas. 1971. Nova York. veio a sujeição desses novos trabalhadores a todas as condições do modo capitalista de produção. A proporção de farinha utilizada pelas padarias comerciais subiu rapidamente de apenas um sétimo em 1899 para mais de dois quintos em 1939. naturalmente deu nova energia ao capital pelo crescente escopo de suas operações e tamanho da “força de trabalho” sujeita a sua exploração. O anel urbano fecha-se em torno do trabalhador. Os trabalhadores para o novo processamento e indústrias fabris eram retirados dos locais anteriores desses processos de trabalho: das fazendas e dos lares. a produção per capita de legumes em conserva multiplicou-se por cinco. estendendo assim a forma de mercadoria ao alimento semipreparado ou inteiramente preparado. . Ao mesmo tempo. pp. já em 1899 havia sido reduzida bem abaixo de três quartos. a coação da necessidade que compelia a trabalhos domésticos é muito enfraquecida.. contribui para impelir a mulher do lar para a 2 3 SMUTS.. e durante o mesmo período. A maneira pela qual essa transição foi efetuada inclui uma multidão de fatores interrelacionados. Além disso havia cortinas e lençóis a serem remendados. a habitação. mas a maior parte das roupas femininas e de crianças era feita em casa. pp. e isto. chapéus. 1947. e o consumo de farinha era em média um quilo por família diariamente. Nenhuma casa respeitável em 1890 deixada de ter sua surrada máquina de costura – um dos primeiros artigos amplamente vendidos no plano de prestações. George J.3 Do mesmo modo que o alimento. o condicionamento urbano mais apertado destrói as condições sob as quais é possível levar a vida antiga. e assim. o vestuário. O papel do capital industrial era mínimo. nenhum dos quais pode ser destacado dos demais. o processamento de alimentos era atribuição da granja familiar e em seguida pela dona-de-casa. Mas durante os últimos cem anos o capital industrial lançouse entre a fazenda e a dona-de-casa. exceto no transporte. a principal das quais é que eles agora pagam tributo ao capital e servem assim para ampliálo. quase toda a manteiga era produzida em granjas em 1879. Freqüentemente. o trabalho domiciliar torna-se antieconômico em comparação com o trabalho assalariado pelo barateamento dos artigos manufaturados. A maioria das roupas masculinas era comprada. Woman and Work in América. e se apropriou de todas as funções de ambas. Robert W.

e a poderosa necessidade de cada membro da família de uma renda independente. quanto à vida familiar. Além de suas funções biológicas. moda. vizinhos. este fenômeno tão frequentemente observado só tem explicação pelo desenvolvimento das relações de mercado como sucedâneo das relações individuais e comunitárias. publicidade e processos educacionais (tudo isto que transforma o “feito em casa” em menosprezo e o “fabricado” ou “comprado fora” em vangloria). vem a acontecer que enquanto a população é comprimida cada vez mais apertadamente junto com o ambiente urbano. velhos. Mas a industrialização do alimento e outros utensílios domésticos elementares é apenas o primeiro passo num processo que de fato leva à dependência de toda a vida social. como combates cooperativos humanos. a deterioração das especialidades (junto com a disponibilidade dos materiais). mas também para recreação. A estrutura social. uma vez que a fonte de status já não mais é a capacidade de fazer coisas mas simplesmente a capacidade de comprá-las. crianças. O . Em seu aspecto mais fundamental. o capitalismo deixa apenas a última. é tal que as relações entre indivíduos e grupos sociais não ocorre diretamente. Por conseguinte. Dessas três.indústria. e de fato a todas as inter-relações da humanidade para com o mercado. e mais seus contatos com os outros as separam em vez de tornálas mais próximas. Isto é verdade por razões afins. mais ou menos excluída do meio natural pela divisão entre cidade e campo. doentes e excepcionais. Trata-se pois de um processo que implica alterações econômicas e sociais de um lado. são canalizados através do mercado. a atomização da vida social continua aceleradamente. Esse processo é apenas um aspecto de uma equação mais complexa: à medida que a vida social e familiar da comunidade são enfraquecidas. e profundas mudanças nos padrões psicológicos e afetivos de outro. Mas muitos outros fatores contribuem: a pressão do costume social sobretudo sobre a geração mais jovem alternadamente pelo estilo. Termina a função da família como uma empresa cooperativa empreendendo a produção conjunta de um modo de vida. e com isto as demais funções são progressivamente enfraquecidas. a família serviu como uma instituição chave da vida social. visto que mesmo como unidade consumidora a família tende a romper-se em partes componentes que consomem separadamente. novos serviços. velhos. Com o tempo. comunidade. Assim. segurança. mas também os padrões emocionais de vida. O movimento da sociedade capitalista nesse sentido liga-se. novos ramos da produção surgem para preencher a lacuna resultante. não apenas para adquirir alimento. tornase inteiramente dependente do artifício social para cada uma de suas necessidades. ao impulso capitalista de inovar produtos diversos. a vida social e familiar são ainda mais debilitadas. quanto mais a vida social se transforma em uma densa e compacta rede de atividades interligadas nas quais as pessoas são totalmente interdependentes. Mas o artifício social foi destruído em tudo menos suas formas comerciáveis. mas com poucas exceções devem ir ao mercado e apenas ao mercado. da produção e do consumo. assistência aos jovens. divertimento. amigos. que é um dos sentimentos mais fortes instilados pela transformação da sociedade em um gigantesco mercdo de trabalho e artigos. novas indústrias. tanto mais atomizadas elas se tornam. erguida sobre o mercado. mas através do mercado como relações de compra e venda. e à medida novos serviços e mercadorias proporcionam sucedâneos para relações humanas sob a forma de relações de mercado. A população das cidades. Assim a população não conta mais com a organização social sob forma de família. vestuário e habitação. no aspecto econômico. não apenas necessidades materiais e de serviço. e isso em forma atenuada.

do esporte. com exclusão de todas as demais. e o antagonismo a ele expressa-se numa tendência a encurtar a jornada de trabalho. um Lincoln Continental Mark IV e outros carros de último tipo no valor de cerca de 50 mil dólares foram destruídos batendo-se uns contra os outros ontem nesse lugar. resultado que é ainda mais garantido pelo fato de que o mercado de massa tem um poderoso efeito de mínimo denominador comum devido a que procura um lucro máximo. À medida que os membros da família. entretenimentos. muitos deles agora trabalhando 4 Um anúncio no New Yorque Times de 20 de fevereiro de 1973 fala de uma competição para destruição de carros. acima de tudo. Assim.4 Pela sua própria profusão. na conversão de todo o produto do trabalho humano em mercadoria. e um sucedâneo para a competência. como o fazem os prodígios científicos do século XX tais como o rádio e a televisão. O automóvel é aperfeiçoado como uma forma imensamente lucrativa de transporte no interesse do lucro. Considerada a ‘competição de destruição mais rica do mundo’. As amplas correntes de capital encontram o trabalho “liberado” no mercado no terreno dos novos produtos e indústrias. que inventa continuamente divertimentos passivos. da comunidade e os sentimentos de vizinhança de que o desempenho de muitas funções dependia antigamente. Mas a atrofia da comunidade e a aguda divisão do meio natural deixa um vazio quando ele entra nas horas “livres”. ‘Gostaria de estar aqui para presenciar o fim do império americano’. perdem o valor. enquanto a hora do trabalho é considerada tempo perdido ou desperdiçado. de modo que o trabalho produtor de bens é efetuado apenas em sua forma capitalista. em vez de uma ajuda para ela. de um lado. o tempo de trabalho torna-se aguda e antagonisticamente dividido a partir do tempo de lazer. Uma vez que se tornam meios de encher as horas “livres”. terminou num claudicante e baboso confronto entre um Ford LTD e um Mercury destruídos. O trabalho deixa de ser uma função natural e converte-se numa atividade extorquida. e de outro os aparelhos domésticos simplificadores do trabalho ganham prestígio.. O preenchimento do tempo ocioso também se torna dependente do mercado. e são postas em circulação nas formas ditadas pela organização capitalista da sociedade. assistida por quase 24 mil pessoas: em meio a um monte de automóves destroçados. Tão empreendedor é o capital que mesmo onde é feito o esforço por um setor da população para ir em busca da natureza. da arte através da atividade pessoal e amadorista ou de inovação “marginal”.” . e tendem a padronizar a mediocridade e vulgaridade que avilta o gosto popular.excedente produzido primeiro de tudo nas indústrias fabris sob a forma de concentrações da riqueza é igualado no aspecto do trabalho pelo relativo declínio na demanda de trabalhadores naquelas mesmas indústrias à medida que elas são mecanizadas. Em uma sociedade em que a força de trabalho é comprada e vendida. e espetáculos que se ajustam às restritas circunstâncias da cidade e são oferecidos como sucedâneos da própria vida. um Rolls Royce Silver Shadow.. quando comprava ingressos (oito dólares para adultos e 4 para menores) para ele e seu filho. e o trabalhador suspira pelo tempo “livre” a que dá extraordinário valor. deixa um vácuo. Isto resulta. Como a maquinaria na fábrica. A ruína das atividades da família. ‘Imagino isto como o fim do império Romano’. essas atividades são rapidamente incorporadas ao mercado tão logo possível. eles fluem em profusão das instituições empresariais que transformaram todos os meios de entretenimento e “esporte” num processo de produção para ampliação do capital. e da própria família. pelo que o mercado apressa-se em fornecêlos. disse George Daines. uma copiosa matéria impressa torna-se um veículo para o mercadejamento empresarial. um Cadillac Eldorado trazento a inscrição: ‘Veja Parnelli Jones destruir este carro’. As novas mercadorias surgem igualando as condições de vida do morador urbano. a maquinaria da sociedade torna-se um pelourinho em vez de uma conivência.

a prisões e manicômios de outro. . o maciço aumento das instituições que se estendem de todos os modos. o aumento dessas instituições. o cuidado dos seres humanos uns para com os outros torna-se cada vez mais institucionalizado. ainda uma vez mais efetuada em grande parte por mulheres que. não devido à população idosa cuja vida é prolongada pelo progresso da medicina. os carentes de cuidado incluem as crianças – não apenas as que não podem “funcionar” normalmente. enquanto o antigo e já conhecido ampliase enormemente: a proporção dos “doentes mentais” ou “deficientes”. que inventa novos produtos e serviços. e o terceiro é um “ciclo de produto”. a população acha-se. do ponto de vista do trabalho significa que todo o trabalho é efetuado sob a égide do capital e é suscetível de seu tributo de lucro para expandir o capital ainda mais. e uma vez que a família não pode arcar com todas as incumbências. os detritos humanos da civilização urbana aumentam. mas mesmo as “normais” cujo único defeito é sua tenra idade. na situação de incapacidade de fazer qualquer coisa que facilmente não possa ser feito mediante salário no mercado. Assim compreendido. mas a abertura do mercado apenas para os “economicamente ativos” e em “funcionamento” na sociedade.longe do lar. todos representando variedades de desmoronamento sob as pressões do urbanismo capitalista e das condições de emprego ou desemprego capitalista. o primeiro passo na criação do mercado universal é a conquista do toda a produção de bens sob forma de mercadoria. Cria-se todo um novo estrato de desamparados e dependentes. No fim. Ao mesmo tempo. de acordo com os preceitos da divisão do trabalho. já que tem que arrojar-se na ação para sobreviver e “ter êxito” na sociedade de mercado. como também de imensos espaços a supermercados e lojas. restaurante etc. da educação ou da prevenção do crime. Isto é reforçado de outro lado por um desenvolvimento que é análogo ao que continua na vida do trabalhador: a atrofia da competência. alguns dos quais tornam-se indispensáveis à medida que as condições da vida moderna mudam para destruir alternativas. E enquanto do ponto de vista do consumo isso signifique total dependência quanto ao mercado. muitas vezes das maneiras mais bárbaras e opressivas. Desse modo. o cuidado de todas essas camadas tornase institucionalizado. em geral à custa pública e para um vultoso lucro para as empresas fabris e de serviços que em geral possuem e invariavelmente patrocinam essas instituições. as pressões da vida urbana crescem mais intensas e ela torna-se mais difícil aos necessitados de amparo na selva das cidades. as camadas pauperizadas na parte baixa da sociedade. representa não precisamente o progresso da medicina. o habitante da sociedade capitalista é enlaçado na teia trançada de bens-mercadorias e serviços-mercadoria da qual há pouca possibilidade de escapar mediante parcial ou total abstenção da vida social tal como existe. mais inflado ainda pela reorganização da hospitalidade em base de mercado sob a forma de motéis. Uma vez que nenhum cuidado se pode esperar de uma comunidade atomizada. os “criminosos”. o segundo passo é a conquista de uma gama crescente de serviços e sua conversão em mercadorias. Na fase do capitalismo monopolista. e à medida que os vínculos de vizinhança. tornam-se cada vez menos aptos a cuidar uns dos outros em caso de necessidade. Além do mais. por um dos múltiplos ramos novos do trabalho social. executam uma das funções que antigamente executavam em casa. enseja o surgimento de imenso pessoal especializado cuja função nada mais é que de limpeza. O aumento dessas instituições produz um enorme volume de “serviços”. hotéis. das escolas e hospitais de um lado. quer queira quer não. mas agora a serviço do capital que lucra com o seu trabalho diário. comunidade e amizade são reinterpretados em uma escala mais estreita para excluir responsabilidades onerosas. escritórios e unidades integradas habitacionais.

Assim como na fábrica. À medida que os avanços da indústria de utilidades domésticas e de serviços aliviam o trabalho da família. lavanderias. Não precisamos ressaltar o quanto loucamente age a civilização urbana e quanta desgraça ela abrange. esse cômputo faz sentido. escritórios. De acordo com as convenções estatísticas da economia. seu confinamento de amplo segmento da população ao trabalho degradado. varejos. não é nas máquinas que está o erro. a conversão de muito trabalho no lar em trabalho nas fábricas. Para os fins de nossa análise. hospitais. etc. O trabalho dela agora enriquece o capital e assim merece um lugar no produto nacional. tanto é caótico quanto profundamente hostil aos sentimentos da comunidade. mas nas condições do modo capitalista de produção sob as quais elas são utilizadas. e essas pessoas são mais intensamente exploradas e oprimidas do que as empregadas nos setores mecanizados de produção. .O mercado universal é amplamente celebrado como uma generosa “economia de serviço”. embora tenha o mesmo efeito material ou de serviço que o da camareira. entram nas estatísticas. Seus efeitos sobre os padrões de emprego e na composição da classe trabalhadora serão tratados pormenorizadamente a seguir. boutiques. Esta é a lógica do mercado universal. fábricas de conservas. esvazia-as de sentimentos. torna-se um trabalhador produtivo. faxineira. criam novos setores de baixa remuneração. O trabalho da dona-de-casa. É característico da maioria das funções criadas nesse “setor de serviços” que. “oportunidades culturais”. despemna dos vestígios da comunidade e deixam em seu lugar um vínculo monetário. à medida que removem os fardos das relações pessoais. pela natureza dos processos de trabalho que elas incorporam. e louvado por sua “conveniência”. são menos suscetíveis de mudança tecnológica do que os processos da maioria das indústrias produtoras de bens. o que interessa principalmente. restaurante. do mesmo modo. à medida que criam uma intricada vida social. mas quando os mesmos bens e serviços são produzidos por trabalho fora do lar. mas nos efeitos de um mercado todo-poderoso que. é o outro lado do mercado universal. seus aspectos desumanizadores. Essas indústrias. Assim os próprios serviços sociais que deveriam facilitar a vida social e a solidariedade social tem o efeito contrário. juntamente com as funções burocráticas. não é na existência dos serviços que está o erro. Os bens e serviços produzidos pelo trabalho não pago no lar não são absolutamente computados. está fora do alcance do capital. da garçonete. Do ponto de vista capitalista. representa um vasto aumento do produto nacional. porteira ou lavadeira. mas quando ela assume uma dessas funções fora de casa. ele aumenta nos serviços e encontra uma renovação das formas tradicionais de concorrência anterior ao monopólio entre as muitas firmas que proliferam em campos que exigem pequeno capital inicial. que é o único reconhecido para fins de contabilidade nacional. dominado pelo capital e seu investimento lucrativo. Trata-se do campo de emprego. recorrendo a força de trabalho amplamente não sindicalizada e retirada da reserva de pauperizados da parte inferior da sociedade. Assim. “instituições modernas para cuidar dos excepcionais” etc. enquanto o trabalho tende a estagnar ou encolher no setor fabril. aumentam a futilidade da vida familiar. no qual as mulheres em grande número são retiradas do serviço do lar.