Elementos da narrativa Personagens: seres que vivenciam a ação.

Podem ser:
1) quanto à sua relevância: a) protagonista: o principal ser da história, que trata justamente dele; b) antagonista: o opositor do protagonista, força oposta que instaura o conflito; c) secundárias ou coadjuvantes: necessárias à estruturação da trama, mas não constituem o foco da mesma. 2) quanto à sua natureza: a) planas: aquelas que mantém suas características/sua personalidade imutável durante toda a narrativa; b) redondas: modificam-se com o correr da trama, apresentando maior complexidade.

Narrador: ente que conta, comunica, narra a ação. Pode ser:
1) em primeira pessoa (eu): quando participa da ação, ocupa a posição de personagem: a) protagonista; b) observador ou coadjuvante; 2) em terceira pessoa (ele): a) onisciente: conhece tudo o que se passa na narrativa, mesmo os pensamentos das personagens b) com onisciência seletiva: tem acesso ao pensamento de determinada personagem, não de todas. c) sem onisciência: funciona como uma “Câmera”, que registra os acontecimentos sem conhecer o interior das personagens.

Tempo: o tempo em que decorre a ação pode ser, quanto à sua natureza:
a) cronológico: marcado por referências à passagem do tempo e pela sucessão dos acontecimentos; b) psicológico: ocorre quando a ação é interior, dá-se na psique de determinada personagem.

Espaço:

a narrativa pode transcorrer em um espaço único ou em uma multiplicidade de espaços. Dependendo do tipo de acontecimentos que transcorrem nos espaços, esses podem ser classificados em: a) espaço com drama: aquele no qual transcorre a ação principal; b) espaço sem drama: não apresenta a ação principal. Observação: com relação ao espaço, há ainda o que se denomina ambientação, que consiste no modo como o espaço é descrito/caracterizado. Por vezes, a ambientação é um elemento muito relevante na construção da trama. --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

Atividade
Leia o conto a seguir e descreva como os elementos da narrativa nele apresentam-se.

No retiro da figueira
Moacyr Scliar

Verdade: na primeira vez que fomos lá ouvimos o bem-te-vi. ofereceu café. e. sólidas e bonitas.. Depois. Ninguém chegou a ficar verdadeiramente contrariado. e o que começou com um prospecto sendo enfiado sob a porta transformou-se – como dizia o texto – num novo estilo de vida. E também constatamos que as casas eram sólidas e bonitas. – E vocês. Por outro lado.. Bem como dizia o prospecto: maravilhoso. e na seguinte. os parques. trancas e porteiros eletrônicos já não detinham os criminosos. De sonho. diretores de empresa. sempre sorrindo. mesmo de carro. educados. Não fomos os primeiros a comprar casa no Retiro da Figueira. Bom demais. ao salão de festas. foi o chefe deles. explicou o motivo da reunião: é que havia marginais nos matos ao redor do Retiro e ele. Os pôneis eram mansos. em ordem. Na minha firma. minha mulher decidiu – tínhamos de mudar de bairro. A brisa agitava as árvores do parque – cento e doze. tranqüilo. principalmente. Mas sabíamos o que fazer: nos dirigimos. decidira pedir que não saíssemos naquele domingo. Aliás. Os bem-te-vis eram pontuais: às sete da manhã começavam seu afinado concerto. as quadras de tênis. por exemplo. Mudamo-nos. Mas isto agora são apenas suposições. Mas o que mais agradou à minha mulher foi a segurança. soltos. não poderíamos sair. um dos últimos locais – dizia o anúncio – onde você pode ouvir um bem-te-vi cantar. avisado pela polícia.Sempre achei que era bom demais. Minha mulher atribuiu o fato a uma seleção cuidadosa de futuros moradores – e viu nisso mais um motivo de satisfação. entre nossa primeira visita e a segunda – uma semana após – a maior parte das trinta residências já tinha sido vendida. Quanto a mim. O lugar. bem como dizia o prospecto. dos holofotes. Era mesmo um homem muito simpático. era maravilhoso. perto do lago. os pôneis. o pequeno lago. os pôneis estão aí mesmo. homens fortes. . – Afinal – disse. e quando uma amiga nossa foi violentada por dois marginais. Contrariados ficaram alguns no dia seguinte. quem nos recebeu naquela visita. Todos tinham vindo pelo prospecto. Vimos o campo de aviação. A vida lá era realmente um encanto.. minha mulher ficou encantada com o Retiro da Figueira. do sistema de alarmes – e sobretudo dos guardas. Reunimo-nos de novo no salão de festas. muito cedo – lembro-me que os bem-te-vis ainda não tinham começado a cantar – soou a sirene de alarme.. uns resmungando que era segunda-feira. O chefe dos guardas estava lá. À pergunta de um irado cirurgião o chefe dos guardas respondeu que. decididos – mas amáveis. Oito guardas. entre eles. O chefe deles era uma pessoa particularmente interessada: organizava festas e torneios. todos armados de fuzis. um senhor tão inteligente e culto que logo pensei: “ah. entusiasmada. Meus filhos estavam vidrados nos pôneis. exatamente como o prospecto as descrevia: estilo moderno. De qualquer modo. não muito. profissionais liberais. o sistema de alarmes era impecável.. De fato: no decorrer da conversa ele mencionou – mas de maneira casual – que era formado em Direito. mas ele deve ser formado em alguma universidade”. Sempre sorrindo. Nunca tinha tocado antes. O que só fez aumentar o entusiasmo de minha mulher. E quase todos tinham se decidido pelo lugar por causa da segurança. O chefe dos guardas me apresentou a alguns dos compradores. só eu o tinha recebido. Ela andava muito assustada ultimamente. sempre pedindo desculpas pelo transtorno. Gostei deles: gente como eu. Vimos os gramados. explicou. ladeado por seus homens. com um sorriso tranqüilizador. Fez uma lista dos parentes e amigos dos moradores – para qualquer emergência. Pelo contrário. preocupava-se com nosso bem-estar. Gente perigosa. O lugar era. Às vezes penso que se morássemos num edifício mais seguro o portador daquela mensagem publicitária nunca teria chegado a nós. dia de trabalho. Durante todo o trajeto de volta à cidade – e eram uns bons cinqüenta minutos – ela falou. da cerca eletrificada. em tom de gracejo – está um belo domingo. Foi então que enfiaram o prospecto colorido sob nossa porta. As coisas todas se encadearam. Todos os dias sabíamos de alguém roubado e espancado. das torres de vigia. os bandidos poderiam bloquear a estreita estrada do Retiro. por que não nos acompanham? – perguntou o cirurgião – E quem vai cuidar da família de vocês? – disse o chefe dos guardas. Arborizado. Naquela semana descobri que o prospecto tinha sido enviado apenas a uma quantidade limitada de pessoas. dois assassinos foragidos. Fez-nos sentar. Uma manhã de domingo. o chefe dos guardas pediu desculpas novamente e disse que infelizmente não poderíamos sair – os marginais continuavam nos matos. Os assaltos violentos se sucediam na vizinhança. Quase todos ainda de roupão ou pijama. sempre sorridentes. dois fazendeiros. E eu acabava de ser promovido na firma. Tínhamos de procurar um lugar seguro. Vimos a majestosa figueira que dava nome ao condomínio: Retiro da Figueira. mesmo. de modo que ficamos um pouco assustados – um pouco. Os guardas compareciam periodicamente à nossa casa para ver se estava tudo bem – sempre gentis. talvez.. as aléias ensaibradas estavam sempre limpas. estava achando tudo muito bom. O primeiro mês decorreu – tal como prometido no prospecto – num clima de sonho. quando a sirene tornou a soar de madrugada.

48-50. Nunca mais vimos o chefe e seus homens. 1994. Os guardas vieram correndo. chegou à porta e fez um sinal. passeando ou simplesmente não fazendo nada. Contos brasileiros contemporâneos. Mas estou certo que estão gozando o dinheiro pago por nosso resgate. O chefe dos guardas fez sinal para que não nos aproximássemos. Eu não. pareceu-me – e saiu pelo portão da entrada. o avião decolou e sumiu. Um jatinho. Entrou no avião. quase correndo. Uma quantia suficiente para construir dez condomínios iguais ao nosso – que eu. alguns com máscaras contra gases. Alguns estavam até gostando. São Paulo: Moderna. De nossas janelas nós os víamos e reconhecíamos: o chefe dos guardas estava com a razão. Julieta de Godoy. Corremos para lá. entraram todos no jatinho. . Passávamos o tempo jogando cartas. Depois olhou para nós – amedrontado. In: LADEIRA. sempre achei que era bom demais. Deixou a porta aberta. mas eu não estava gostando nada daquilo. Foi aí que a polícia cercou o local: dezenas de viaturas com homens armados. Pode parecer presunção dizer isto agora. p. Foi no quarto dia que o avião desceu no campo de pouso. Fechou-a. diga-se de passagem.Ficamos retidos naquele dia e no seguinte. Um homem desceu e entregou uma maleta ao chefe dos guardas. A porta se fechou. e assim pudemos ver que examinava o conteúdo da maleta.

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