PARAÍBA, 08 a 10 de outubro de 2012

B-9

caixa baixa
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‘Aqui não cantam os
Roberto Denser

rouxinóis’
EXISTE UM INFERNO DESTINADO AOS POETAS. Fui levado até lá por engano. Não sou poeta, sou humano. Minhas mãos, quando as tinha, não conchegavam profecias, poesias; não davam formas a tristezas, alegrias, tampouco destilavam palavrilhas, ribombetes. Poetas são profetas; poesias, profecias. Estava a falar com Mefistófeles. Eu, Sebastian Bach e Aristóteles. Eu lhe implorava as mãos. Bach lhe exorava os ouvidos. Aristóteles, a razão. — Dou tudo, mas tem condição — falava acima dos gritos — Aos três darei uma missão. O músico, o pensador e o arquivista. O erudito, o operário e o artista. O aparo, o corolário e o paradigma. — Dos três só quero um poema. Ali, ao norte, existe uma estrema donde após confundem-se os gritos (Aquil-del-rei! Aquil-del-rei!) com poemas nunc’antes’critos. O que o filho pedia não era problema. “Dás tudo por simples poemas?”, perguntava o grande filósofo. — Dou mais. Toma um fósforo. Eu sorria. — Não antecipe todessa alegria. Não quero qualquer poesia. Quero a dor das carrancas pálidas que por socorro não gritam, mas ávidas bradam e ostentam a flâmula dessa agonia: gritar! eternamente, perante milhões de dementes que, surdos, não ouvem seus gritos. Bach parecia aflito. — Eis minha ideia: tu serás plateia. Quanto a mim, já não sorria. — Não poderás entrar, serás vigia. — Que farei eu então? — perguntou Aristóteles. — Serás escrivão — respondeu Mefistófeles. Assim, nos despedimos. Felizes, cantantes, partimos. Ao inferno dos poetas seguimos. Lá chegando, a placa avistamos: “Aqui não cantam os rouxinóis”. — E agora, o que será de nós? — Entrarás, não te lembras, filósofo? — Vamos todos, sou poesiófobo. Bach silente, nos interrogava; não ouvia, mas mudo falava: “Que é que há, que estão esperando?” — A bravura do grande poltrão. E diante do enorme portão, discutimos o nosso destino. — Sozinho não entrarei. — Que se dane! — irritado, falei — Sem mãos, não posso escrever. — Não quero saber. Só entro se for com você. Assim foi o jeito ceder. Não havia mais nada a fazer, e juntinhos, sem pressa, entramos. Minha entrada, porém, foi engano. De milhares, uma vil plateia! De surdos, alcateia! No palco, bolotas de carne! Brancas, como osso polido! Carrancas pausadas num grito! Olhares desesperados! — São poetas, por Deus, são poetas! — Aristóteles choramingava. — Escreva! Escreva seus versos! — Não suporto todo este processo! Os gritos, aflitos, ecoavam. Rimas sem fim destilavam. Só Bach parecia tranquilo. — Não sei quanto vou aguentar! PEGA O APARO, AGORA, ESCREVE! — Futura hospedaria de vermes! — É Augusto! — Cale-se ou eu não escuto! Assim, entremores gravou, no papel que

ra! Tava em casa e sem ele partimos. Ao encontrar Mefistófeles, Aristóteles disse, sorrindo: — Aqui, conseguimos! — Sei de tudo o que aconteceu. Um de vós não me obedeceu. Mas os três pagarão a anarquia: viverás sem razão os teus dias. — Nada fiz, dá clemência! — Não torre minha paciência. Quanto a tu, ô cotó, meu castigo: viverás a fazer poesia. Sem as mãos, farás poesia. Por necessidade, farás poesia. Por vontade, farás poesia. — Dei um grito. — Bach tem o seu: é plateia. Meu pneuma: apneia. — Não tenho papel, não tens mão: enfia o aparo na boca e escreve no chão. Assim escrevi essa história, em meio a delírios de glória, sonhando co’a grande ovação.

o diabo deu, não o canto de Orfeu, mas versos perversos de horror. — Fujamos, fujamos, agora! — Bach se perdeu, foi embo-

Quando o artista nos encontra
Matheus Andrade

André Ricardo Aguiar

O som

Ele não sabia em que momento da vida pensou na separação com a mesma metáfora da bolha de sabão. O rude toque decisivo, aquele que indicara, em microscópico estrondo, o estouro da bolha com um artefato feito para o efêmero. Amou aquela mulher da mesma forma que o trajeto que o sabão, preso em leveza e transparência, amava o ar. Dadas as devidas proporções, tinha durado mais ou menos como a sobrevivência da esfera – e do que a ligava, esse preparado de água e finíssimo arcabouço. Lembrou-se da infância, no período em que as lembranças pareciam tecidos cujas estamparias ficassem vagas. Seu irmão não tinha uma teoria, mas parecia um filósofo com o canudo de mamão na boca, criando com esmero esses seres que nasciam para a morte quase imediata. Parecia dizer uma ideia de Deus, um criador-criado que apostasse nas quase milagrosas existências de seres que só permaneceriam na terra se amassem muito.

Agora, tempos depois, observando uma menina no parque divertindo-se com a mãe, que diligentemente, com o copo na mão e a haste na outra, formava as mais estranhas e movediças bolhas, respirava sua solidão acompanhando o movimento do mundo – ao menos, o mundo ali do parque, as folhas que pareciam tímidas e nãome-toques com as possíveis e minúsculas bolhas que se aventuravam no arvoredo. A menina tinha o encanto, não no destino individual de cada bolha, mas no processo, até misterioso, da formação delas. Era o sopro sobre as águas, diria o deusinho movendo-se na imaginação dela. Ali, apoiado na mesa do parque, no cimento frio onde desenharam um tabuleiro de damas, uma única bolha bastou, e que lhe deu a sensação de um olho de ciclope observando-o enquanto pudesse resistir ao mundo, de que o amor perdido não foi em vão. Susteve-o na áspera mão enquanto pôde com o peso, com o esforço que só as coisas ínfimas e transcendentes são capazes de criar. Foi uma história tão rápida comparada ao romance da vida no universo. Mas a explosão silenciosa não tem mais fim.

Certa noite fui ao cinema assistir ao filme Meu tio matou um cara (Jorge Furtado, 2004). E aquela música não largava minha mente. Saí da sala solfejando quase sem controle. Aquele dia passou. Mas a música não. Outro dia me lembrei de pesquisar na internet. E a música se chamava “Pra te lembrar”, interpretada por Caetano Veloso. E logo descobri o compositor: Nei Lisboa. Anos depois, numa ida a São Paulo, fui visitar um amigo cantor e compositor. Cheguei à sua casa e ele me recepcionou ouvindo um CD e dizendo que aquele som norteou suas ideias. Marcou sua vida. O disco se chamava Pra viajar no cosmo não precisa gasolina, de 1983, mas com uma sonoridade de agora e um título de amanhã. Conversando, ele me falou que era um gaúcho, de Caxias do Sul, tri bom. Com a capa na mão para me mostrar, tinha escrito Nei Lisboa. Posteriormente, procurando algo cantado por Zélia Ducan, fui visitar seu site. Ao abrir, surgiu uma música que não consegui parar de ouvir por um bom tempo. A canção tinha por nome “Telhados de Paris”. Uma letra linda, com um swing reggae e a voz de Zélia. Compositor: Nei Lisboa. Com tantos sinais, procurei ouvir um pouco mais sua obra. Baixei uns discos, vi uns vídeos no youtube. Mas não foi tudo. Na instituição em que trabalho tem uma colega que veio do Sul para assumir seu cargo e tem o sobrenome “Lisboa”. Conversando com ela, falei da coincidência do seu nome e que admirava a obra de um artista de sua região. Ela achava que ninguém o conhecia por aqui. Sorridente, ela falou: ele é meu irmão mais novo! O Nei! Dias depois, eu estava com quase todos os CDs dele em mãos, emprestados por ela.

Quase tudo. E me deliciei durante um bom tempo. A música do filme está num disco chamado Relógios de Sol (2003), cujo conceito nasce de um trabalho de artes visuais e som é introspectivo; Hein?! (1988) é um disco ousado, com tempero rock. Translucidação (2006) tem a capa com um retrato dele de costas. O disco começa abrindo a porta do estúdio e termina fechado-a. Além de boas sacadas, é leve e saboroso; Hi-Fi (1998) é o seu disco estrangeiro. No geral, Nei Lisboa é eclético e não se enquadra facilmente em gêneros, mas sim em música e em arte. Grande letrista, com uma concepção musical personalizada. Outros discos dele eu ainda não conheço. Na internet, acredito ter muita coisa disponível. Porém, vou aguardar mais sinais no meu dia a dia e continuar conhecendo-o aos poucos. Quem sabe o encontro por aí.