I: Capítulo I

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li está ela. Uma moça estranha, branca, fria e com reações faciais insuportavelmente lineares. Lembra-me um cadáver ambulante, exceto pelos olhos esbugalhados que parecem assustados o tempo inteiro. Talvez ela tenha morrido de susto nesta ou em outra vida. Não sofro de necrofilia. Sinto-me, porém, atraído por aquela garota sentada no córner direito da sala onde assisto uma disciplina de dramaturgia. Sinto-me impelido a escrever algo para ela, algo para tentar abrir um sorriso no rosto dela. Na verdade, desejo provocar qualquer reação nessa moça estranha. Estranhamente bela. Estranhamente triste. Não sou um aluno de seu curso. Estou nesta disciplina, principalmente, por um de meus bons (e poucos) amigos ter me indicado o professor em questão. Um personagem que viria a ter uma grande importância acadêmica e pessoal em minha vida. Pelo menos nos dois anos subsequentes. Vou conhecendo aos poucos os alunos da turma, artes plásticas, para ser mais exato. Moças bonitas, lésbicas, viados e um ou outro hétero derivado das cotas sexuais que o progresso nos trouxe e a Semi-oculta Ditadura Gay nos permite. O padrão dos cursos de artes. A presença metafísica daquela moça, sempre fisicamente ausente das rodas de conversa, me faz ter curiosidade de saber quem ela é. Nas tais rodas de conversa, quando a cito como sendo a mulher mais bonita da sala, metade discorda, achando ela bonita, mas nem tanto, metade discorda de forma veemente, sequer achando-a bonita. O professor, inclusive, me diz que ela mais parece uma lesma morta. E eu concordo. Pois é, ela pode ser tudo isso que digo e dizem, mas ninguém está, por

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ela, apaixonado como eu estou. Sinto uma vontade inexplicável de fazer dessa moça, aparentemente pacata, fria e distante, a mulher mais feliz e mais radiante desse Planeta de Terceiro Mundo, ao ponto de ninguém duvidar que ela não é a Bela e Pequena Assombração Camarada (mas, provavelmente, não-comunista) a circular pelo Centro de Artes e Comunicação. O que eu sei é que a felicidade que a farei sentir irá torná-la a moça mais viva do Universo. Fazê-la feliz seria, acima de tudo, uma boa ação. Não quero, com isso, dizer que eu faria tudo o que pretendo por uma questão de pena, mas, sem dúvida, eu receberia alguns pontos extras na luta em prol de ir para o paraíso, após a minha morte, fazendo essa moça feliz. Minha alma receberia um “XP” adicional e subiria vertiginosamente de nível. Quem sabe se, de lambuja, essa não pode ser a mulher da minha vida, a minha tão procurada Soberana Chacrete Espacial, escondida por debaixo dessa Pequena Sibéria Existencial? Acabo descobrindo que ela tem o mesmo nome da minha ex-mulher, o que não é comum. Só conheci três pessoas com esse nome até hoje. Mais um ponto a menos. Seu nome é quase um palavrão em meu atual momento, não que eu ligue para continentes, rótulos ou qualquer outra coisa, mas me relacionar com alguém com o nome de uma pessoa pela qual nutro um desprezo absoluto não me faria nenhum pouco bem. O fato é que, estranhamente, minha atração se dá em relação a uma mulher que, definitivamente, não faz o meu tipo. Gosto, basicamente, de dois tipos de mulheres: italianas (de preferência com aquela feição siciliana, com narigão e tudo, Sofia Coppola em Godfather Parte III, por exemplo) e morenas parecidas com índias. Uma italiana cor de canela, com cabelos lisos (com ou sem o narigão) seria o meu sonho de consumo. O fato é que ela mais me parece uma estadunidense (ou pior, canadense) nerd, sequelada por cocaína estragada. Principalmente quando abre seus enormes olhos.

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Ainda por cima, seu queixo, um pouco mais alongado do que o normal em seres humanos, lembra muito o grande queixo do grande Marv de SinCity. Talvez um certo exagero de minha parte, muito relacionado com o seu traumatizante nome, mas o fato é que seu queixo era estranho, me incomodava, juntamente com seus outros atributos estranhos. Em minha vida, conheci poucas moças como a em questão e nunca senti o mínimo de atração por nenhuma delas, principalmente as queixudas. Na verdade, eu nunca fui muito chegado em brancas, apesar de, por uma ironia do destino, dentre todas as minhas relações as únicas morenas haviam sido minha ex-mulher louca e bipolar e uma louca mais louca e bipolar ainda de quem logo falarei mais. Tudo bem, eu era apaixonado, em minha infância, pela garota que interpretava Punky, A Levada da Breca. Sim, ela era branca, estadunidense, mas não possuía uma feição sequelada, muito menos olhos e queixos tão grandes. Para falar a verdade, ambas não têm nada a ver uma com a outra, é apenas para exemplificar que, ao contrário de boa parte dos negros, eu não sou racista. Lembro-me, inclusive, que me apaixonei pela filha de uma ex-professora minha. Ela sim era parecida com a Punky. Mas isso aconteceu quando eu tinha onze anos. Apesar de tudo, eu não consigo deixar de achar a tal branquinha queixuda especialmente linda. Seu andar é o mais charmoso que eu já havia visto. Seus seios, entre o pequeno e o médio, são aparentemente lindos, assim como seu bumbum empinado, porém discreto. Talvez o mais bonito da face da terra. Mesmo assim, achando a tal garota charmosa, eu continuava a me estranhar. Principalmente pelo fato de que, pouquíssimo tempo antes disso tudo, eu estava completamente apaixonado, me relacionando com a quase morena dos meus sonhos, aquela, de quem prometi falar mais. Ela só faltava ser italiana e mentalmente saudável. O fato é que os Encantadores Olhos Esbugalhados da minha Branquela

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Glacial, com o tempo, passam a não sair mais de meu pensamento, de meus sonhos, mas a aproximação é algo que, incrivelmente, me causa pavor. Nunca tive medo de errar, sempre pus a faca entre os dentes e parti em busca daquilo que queria. As gotinhas de sangue siciliano (além de adicionar um pouco de ruindade ao meu ser) fazem de mim um ser perseverante na busca daquilo que eu tenho a certeza de que quero, e é fato: eu já tenho a certeza de que a quero, talvez mais do que qualquer outra em minha vida. Ainda não a amo e amo amá-la. Estou, eu, consumido pelo desejo secreto do amor e, talvez, me culpo por não me sentir ainda mais devorado. Tudo me parece novo e, assim como ela, estranho. A questão é que com ela tudo é diferente, com ela toda ação de aproximação me traz um Supremo Temor Hithcockiano, as palavras tomam o sentido contrário: ao invés de saírem quentes pela minha boca, descem geladas para meu estômago. Parece que vou ser o último a fazer a cobrança numa decisão por pênaltis de uma final de Copa do Mundo toda vez que chego perto dela. Pior, tenho quase certeza de que o goleiro vai defender. Mas como eu nunca perdi um pênalti na vida, decido insistir, apesar do medo que me consome. Percebo que, na verdade, eu a acho tão linda que, às vezes, prefiro longe ficar. Pra eu não me deparar com seus defeitos nem me viciar com os seus trejeitos. Só para que ela continue a ser a minha santinha de altar, a quem sempre remeto os meus pensamentos nos momentos em que o mundo parecer não ter mais sentido, e tudo estiver perdido. E ela irá, então, aparecer, me deixando completamente mudo. Inertemente calada, mas dizendo tudo.

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inha decisão foi tomada: vou à luta! Estudo durante dias uma estratégia para me aproximar de uma forma sutil. Seus olhos não mentem, ela é uma pessoa machucada, provavelmente medrosa, o que me dá poucas chances. Talvez um erro já seja suficiente para que eu perca todas as possibilidades de êxito. Minha personalidade, às vezes, mais parece com uma disputa entre os dois melhores filhos de Vito Corleone: Michael e Sonny. Enquanto Michael é mais ponderado e calcula melhor as possibilidades para sair em vantagem em relação aos seus inimigos, Sonny é mais atirado, mais impulsivo. Como bem vimos na trilogia de Puzzo & Coppolla, Michael morreu velho, de diabetes (tal como devo morrer), rico e poderoso. Já Sonny... bem, Sonny, guiado pela sua impulsividade, virou uma peneira, metralhado durante uma emboscada. É isso, percebo que tenho que deixar meu Lado Sonny de Ser e assumir meu Lado Michael. Pelo menos por enquanto. Pelo menos nesse início. Durante um exercício da disciplina onde estudamos juntos, escrevo um texto de cinco frases fazendo uma descrição dela, de uma forma meio realista, meio poética. Não preciso dizer que utilizei adjetivos bem mais suaves do que aqueles dos quais que me vali até agora: “Branca, não sei se de neve ou de coco, seu nome me lembra pensão. Sua calça jeans se encaixa bem em seu franzino e belo corpo. Sua camisa, da cor de burro quando foge, se encaixa igualmente bem. Seus olhos lindamente redondos parecem pedir algo. Seus cabelos pedem um cafuné, e sua textura lisa e sedosa torna-se um irrecusável convite.” Simples, direto, ma non troppo. No momento de entregar o tal texto, entretanto, é que eu percebo a minha real situação. Eu estou mais para o Fredo Corleone, o filho medroso do supremo Godfather.

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Na saída da aula, a minha Branquinha Coconut senta-se na escada que fica de frente ao corredor dos armários. Minha espinha arrepia-se, as minhas pernas tremem e minha barriga deixaria, instantaneamente, uma dúzia de cervejas na temperatura ideal para o consumo. Decido ser rápido, digo-lhe, quase gaguejando, que escrevi algo para ela, entrego-lhe o pedaço de papel com o tal texto, simulo uma pressa e vou embora, antes mesmo que ela tenha tempo de ler. Graças ao Bom Pai Celestial dos Tímidos Desesperados & Cagando-se de Medo, saio desse momento sem ser vitimado por uma parada cardíaca. Chego, contudo, na frente do prédio onde estudamos com as pernas bambas e com o suor frio. Finalmente, sento-me no chão e me pergunto: o que está acontecendo comigo? Espero o seu retorno... mentira absurda, eu vou em busca dele através da Grande Rede. Consigo trocar palavras com ela, via internet, depois de uma busca de quase cinco horas num site de relacionamentos sem nem saber se ela possuía um perfil no mesmo. Percebo que uma aproximação feita pessoalmente torna-se um pouco complicada. Eu sempre fui tímido, mas eu combatia minha timidez com uma carade-pau poucas vezes registrada na história da humanidade e/ou da literatura. Talvez por isso eu tenha um currículo invejável quando o assunto é o número e a qualidade das mulheres que já tive. E quando levamos em consideração o fato de que não sou bonito, meus méritos merecem elogios. Sou, sobretudo, criatura da Soberana Pala-mãe Celestial. Pela internet, ao contrário da vida real, consigo tecer alguns pequenos diálogos e, assim, me aproximar um pouco mais. O fato de eu achar que ela é apaixonada por um dos rapazes que conosco estuda me faz sentir um medo estranho, o medo de não conquistá-la. Mas ela é só uma garota branquela, fria e queixuda. Ela não faz o meu tipo. Por qual motivo não conquistá-la seria motivo para um temor desta magnitude? O fato é que, depois de muito gelar, tremer e bambear, consigo convidá-la para um encontro. Antes a inspiração que por ela havia sido

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causada, juntamente a algo que eu não sabia mais explicar o que era, me faz escrever um cordel inteiro, isso mesmo, um cordel inteiro completamente dedicado e inspirado nela, algo saído de minhas entranhas, possuídas pelo encanto gerado por este ser que começa a me tirar a paz. Incrivelmente, a minha Aspirante a Chacrete Espacial aceita meu convite.

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nterromper narrativas é sempre difícil, mas, para uma melhor compreensão do atual contexto, acho que alguns versos do tal cordel, apesar de explicitarem a minha total falta de talento poético, seriam importantes num âmbito geral: Eu inicio o tal poema a presenteando com ele mesmo: “Creio que não mereces ser descrita/Apenas na forma de uma prosa/Peço que tomes, como uma rosa/Os versos de minh’alma maldita/Sei, de amor, és transbordosa/É fácil perceber, és carinhosa/E o contrário, ninguém acredita” Logo após, eu deixo claro que a observo e a analiso com carinho o tempo todo e admiro suas características: “Fazes de sua vida uma coisa restrita/Não procuras ser tão estilosa/Sentir qualquer sensação horrorosa/É uma das coisas que você evita/És frágil a alguma rebordosa/Porém sua silhueta é perigosa/Moça de ouro, uma valiosa pepita” No verso seguinte, falo do pequeno texto que eu havia lhe escrito anteriormente e falo de mim, de algumas das sensações que ela me faz conhecer, além de pedir perdão caso eu falasse alguma merda: “Eu já assumi que, antes, não sabia/Se és branca de coco ou de neve/Mas teus olhos são de uma alma leve/Se muito os olhasse, até levitaria/Fosse de noite, de tarde ou de dia/Passaria a bendita, a alma que escreve/E te peço, desde já, que você releve/Ultrapassagens dos limites da ousadia” Posteriormente, começo a falar mais de seu olhar: “Eu imagino que seu olhar já invadia/Quem, há tempos, encará-lo se atreve/Ao teu olhar não se dá um olhar breve/Ele é mistura de ternura e simpatia/Ódio, compaixão, garra e alegria/Aumento salarial e estado de greve/E com a pureza de quem se atreve/A ficar triste em meio à plena folia” Depois, de seu corpinho deliciosamente magro: “Sua magreza vem de

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forma elegante/E seu sorriso, com uma rara beleza/Em outra vida, terás sido realeza?/A resposta: mais um óbvio ululante/Pois teu sorriso é troféu na estante/É o remédio para qualquer tristeza/E redenção pra qualquer malvadeza/Que você invente de levar adiante” E continuo falando do corpinho dela e de seus poderes mágicos: “É, das imagens, aquela mais dopante/Aquela que dá a mais pura certeza/Que, no mundo, não teria impureza/A partir daquele belo e exato instante/Que, de tropas, ele estivesse adiante/Acalmaria os momentos de incerteza/Tivesse, um guerreiro, grande destreza/Nunca tentaria atacar um semelhante” Chega o momento de eu falar sobre a sua linda voz e seus efeitos devastadores: “Tua voz escutar, uma emoção tão rara/Já que não falas tão constantemente/Elevas cada ser e compras cada ente/Criando, em alguns, o pecado da tara/Em cada ouvido em que tua voz entrara/Criar-se-ia, logo, mais um doente/E tomado seria um tubo de aguardente/Por aquele que tua voz desencaminhara” E continuo a falar dos milagres que o som de sua voz é capaz de realizar: “Pois ela soa tão linda e tão clara/Que faria um satanista virar crente/Ou até político safado virar gente/E devolver o dinheiro que roubara/Tua voz faria meu corpo ficar odara/Me fazendo cantar de tão contente/Faria um culpado virar inocente/Abriria um oasis no deserto do Saara” Eis que surge a problemática relacionada ao seu nome: “Eu já assumi que o teu lindo nome/Sempre que ouço, me lembra pensão/Isso já me deu até muita aflição/Coisa que hoje já não me consome/É teu rosto lembrar para que tome/Ao sentimento, outra siginificação/Pois teu nome pode ser a solução/Fazendo de mim um poeta de renome” Enfim, encerro com a Chave de Ouro Michelottiana: “Bem sei que poema não mata a fome/Nem paga a água, a luz ou pensão/Mas ela provoca aquela tal emoção/É o alimento que nossa alma come/E a tristeza, depois disso, some/E tu, ambulante poema ou canção/És a mais bela inspiração/Pois ‘Meu Amor’ é o teu nome”.

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etomando o raciocínio, ela me disse que sim... e cá estou eu, consumido pelo fogo que vinha dos olhos negros do desejo. Ela disse que sim, ela não mente. Ela me disse que sim, e nem precisava dizer. Ela é o doce que, caso eu não prove, me fará morrer de diabetes, me fará ter alucinações, crises de abstinência, convulsões e a sensação contrária ao de um orgasmo múltiplo. Tal como Caetano, é uma das poucas coisas que invejo nas mulheres, o orgasmo múltiplo. Além da longevidade. Eu deixaria de ser um homem e me transformaria na antimatéria feminina. Sim, farei de tudo para tê-la, para que ela seja Ela, a minha deusa, e quando ela for, adentrarei seu corpo como um caranguejo adentra a lama, adentrarei o mangue que é seu corpo com a suavidade e a profundidade de um caranguejo em fuga, em busca, em busca do berçário de seres vivos que é seu ventre. Percorrerei sua nuca com o medo de não cair em tentação. Percorrerei sua boca com o medo de não ser engolido. Percorrerei seus seios com o medo de não ser atingido pela febre espanhola. Percorrerei sua barriga com o medo supremo de ouvir um grito que impeça minha progressão. E, depois de estar dentro dela, terei o maior dos medos, o de que seu orgasmo não seja avassalador, que ela não sinta cãibras na alma. Adentrarei em sua mente como um tsunami preenche um copo, como um tornado preenche os pulmões, como se todas as melodias do mundo tivessem a intenção de preencher apenas uma alma, a dela, a daquela que me disse que sim. E assim sendo, ela adentrará a minha também, e terá a grata surpresa de descobrir que sou melhor do que ela. Sou eu o mais divino, pois estou apaixonado, pois estou possuído por um deus, Eros.

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Como já disseram antes de mim, porém, nem a um deus é facultado o direito de amar e, mesmo assim, manter-se sábio. Isso, ela vai descobrir que minha sabedoria é ilusória, inexistente talvez. Exagero? Todas as paixões exageram e talvez só sejam paixões por exagerarem. As paixões, porém, são os únicos oradores que sempre convencem. Na música da vida, imaginá-la é subir um tom da realidade... pois ela é a vagacidade pela qual minha alma padece. Minha vontade é suprema, absoluta. E se realmente a vontade foi inventada com a finalidade de castigo, pelo desejo de encontrar o culpado por algo, como disse Nietzsche, condeno-a com o meu desejo, pois ela é culpa e castigo. Castigo demais, até. Logo chega o dia de sairmos. Um pouco antes ela me avisa que levará uma amiga e que a dita cuja passará o tempo todo conosco. Um balde de água fria em minhas pretensões, mas decido encontrar saídas para esse pequeno contratempo ao invés de ficar a lamentar. É bem verdade que esse encontro só ocorrerá por eu estar ensaiando uma peça a duas quadras de onde ela toca maracatu junto com um grupo de percussionistas. Não vai ser bem um encontro, ela estará saindo de seu maracatu, passará um tempo comigo no bar que fica de frente ao local onde ela ensaia. O pouco, porém, é muito para quem não tem porra nenhuma. É importante dizer que estamos montando Tristessa, de Jack Kerouac. Um romance com o qual eu me identificava bastante, talvez um dos melhores que eu já havia lido, apesar de ser bem curto. Faz um bom tempo, inclusive, que não atuo num nível como o que sou obrigado para estar à altura de meus companheiros de peça. Além de tudo, me aprofundo em minhas leituras da Geração Beat, que eu conhecia muito superficialmente, para compor o personagem que eu irei interpretar. A história contada por Kerouac é basicamente autobiográfica, fala, de forma triste, poética e repleto de ensinamentos budistas, de suas andanças pelo México e, principalmente, de sua paixão platônica por

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uma prostituta junkie decaída chamada Tristessa que, segundo alguns, na vida real, chamava-se Esperanza. Ironicamente, eu estava no limiar entre uma e outra. Eu não estava lá muito bem, minha última relação havia me dado bastante esperança, mas acabou me deixando com a tristeza. Já a minha atual atração pela Branquinha Gélida, completamente sem precedentes, diga-se de passagem, também me deixava nessa dicotomia. Eu não sentia uma reciprocidade àquilo que eu demonstrava timidamente. Isso, obviamente, me deixava triste. Mas ela não havia fugido ainda, isso me deixava esperançoso. Na verdade, eu me sentia como o primeiro capítulo de Tristessa: trêmulo e casto. Por sorte, não havia muita coisa em comum entre a minha Encantadora Musa Alva e Tristessa, enquanto a segunda é tudo aquilo que citei anteriormente, a primeira sequer bebia, e ainda por cima possuía um cheirinho de mulher virgem. Não há como explicar que cheiro é esse... ou você consegue sentir ou não consegue... ou você é juvenil ou não é!

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stranha ou incrivelmente, sairemos juntos em breve. Antes de encontrá-la tomo duas lapadas de cana, chupo um bom limão e me preparo para a batalha. Não que álcool me dê coragem, por mim ele é utilizado de uma forma ritualística, quase que simbólica para afastar o meu medo. Serve como uma pílula de farinha que cura a depressão. É um ritual de auto-enfrentamento. É como a dança dos All Blacks antes das partidas de rugby. É um vício, sobretudo. Chega o momento. Ela realmente aparece acompanhada da tal amiga (que descubro, meses depois, tratar-se de uma lésbica) e o que ocorre no encontro é uma conversa tranquila onde, porém, não consigo adentrar o suficiente no âmago da questão desejada: o meu desejo. Conto-lhe umas histórias da minha vida, rimos um pouco, acho até que falo demais. Mas ela está ali, prestando atenção em mim, fazendo aquilo que eu implorava a Deus para que ela fizesse na sala onde estudávamos, na cidade, no país, no continente, no planeta onde vivíamos. Parem as máquinas (um daqueles bem avalloneanos)!!! Ela estava olhando para mim, melhor, estava tendo reações faciais enquanto eu contava algumas histórias da minha vida e declarava meu ódio em relação às coisas que me incomodavam no mundo. Ela esbugalhava os seus enormes olhos ao ouvir passagens de minha curta careira futebolística, como se fora uma aluna interessada no que o professor tem a dizer. Finalmente, ela começava a dar risadas, não sei se me achando ridículo ou legal, a questão é que ela estava sorrindo, e como é lindo o seu sorriso. Tento aproveitar da melhor maneira esse momento, mas não dá tempo. Apita o árbitro! O árbitro na verdade é a sua mãe, que chega de carro para buscá-la.

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Uma senhora de meia-idade, que tenta ser simpática. Num primeiro momento ela não dá sinais nem de ser a bondosa rainha, nem mesmo a bruxa má dos contos-de-fada. Enquanto isso, a minha Branca de Neve Cacquiana vai embora levando uma camisa minha, camisa esta que eu a havia emprestado, um pouco antes, para amenizar o frio que ela sentia, frio que eu queria dissipar utilizando o calor do meu corpo. Peço, contudo, para ela não lavar a tal camisa. Digo-lhe que eu gostaria de ter o seu cheiro em alguma peça de roupa minha, pra não esquecer daquela noite Uma cantada leve e de bom gosto para encerrar a noite. Resta-me a Chupa-charque Estraga-prazeres. Basicamente não tenho nenhum tipo de obrigação em relação a ela. A única coisa que ela havia feito até então havia sido me atrapalhar. Ficamos mais uma hora bebendo esperando que a chuva que estava caindo dê um tempo. Evito olhar para as gostosas que passam e sou frio com os minhas colegas (esqueminhas ou não) que surgem e vem conversar comigo à mesa. Exceto uma, a que, na época da faculdade de jornalismo, havia lido a minha mão. Lembro-me bem do que ela havia dito, dissera ela que eu só teria uma filha (que já havia nascido), que eu teria um amor avassalador em menos de um ano (e estávamos dentro do prazo) e que eu deveria cuidar mais de minha saúde, pois seria de alguma doença que eu já possuía que eu iria morrer (e ela não sabia que eu sou diabético). O fato é que eu olhei para a tal amiga, que por sinal era uma tremenda gata, e disse que parte do que ela havia me dito estava se concretizando, ela me pergunta se essa parte estava na mesa e eu disse que não. Encerro minha conversa com minha amiga, pois a lesbicazinha insuportável que me acompanha diz que vai embora naquele momento, mesmo debaixo de chuva. Eis que surge o momento de atacar à Corleone. Decido fazer-lhe um favor para conquistar sua amizade e sua lealdade ou, pelo menos, para ter um favor recebido futuramente.

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Cruzo o centro da cidade numa caminhada quase que sem fim levando a tal sapatãozinha até sua casa, tarde da noite, debaixo de uma chuva que parecia piorar a cada passo. Eu já estava sem grana pra pagar um táxi e tanto eu quanto ela já havíamos gastado tanta grana bebendo que só me sobrara o dinheiro para o meu ônibus e nem isso ela tinha. A principal problemática desse momento, porém, é o fato de que cometo um erro grave, de amadores, confesso minha atração incontrolável pela sua amiga. Corleonizei por um lado e amadorizei pelo outro, “nunca deixe as pessoas saberem o que você está pensando”, dizia Ele. Fui vítima da velha reação química que o álcool provoca: ele entra, a verdade sai. O fato de eu ainda não saber sua orientação sexual, muito menos ter conhecimento do fato dela estar encantadíssima pela minha Paixãozinha Alva e Queixuda, não me livram do momento em que chego na casa dos meus pais, olho no espelho e digo para mim mesmo: “Juvenil!”. Outra constatação me atinge em cheio: eu nunca senti por ninguém o que estou sentindo por ela nesse momento. Meu Deus, eu a amo. Estranho, não amo desde os meus 17 anos. Volver a los 17? Sem saber que em pouco tempo a minha querida Mercedita morreria, respondo: “Si! Si! Si!!!”. Como Stendhal dizia, basta um grau de esperança muito pequeno para que nasça o amor. Ei-lo, parido pela Grande Esperança Encarnada Preta e Branca. A esperança que todo torcedor do Santa Cruz possui. Eu não consigo mais pensar em outra coisa que não seja encontrá-la novamente e contá-la tudo o que sinto. É óbvio que a tal Amiga Colavelcro Alcaguete (ou Cabueteira como aprendi na infância) teria dito tudo o que eu havia, de forma extremamente ingênua (para não dizer infeliz ou idiota), revelado.

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Convido, porém, a Absoluta Dona da Minha Mente para sairmos mais uma vez. Decido chamá-la para assistirmos um espetáculo teatral de um amigo que, gentilmente, havia me cedido dois ingressos. Ela aceita, marca um horário e um local: um shopping que fica no Recife Antigo, à beira do Rio Capibaribe, a poucos metros do lugar onde tivemos nosso encontro anterior. Sinto-me um pinto no lixo. Começo a visualizar uma real possibilidade de ficarmos juntos. Visualizo também o fato de que a sua tristeza, que só para os mais sensíveis surge clara, parece se diluir quando ela chega mais perto de mim. A minha alegria mais parece uma Benevolente Bomba Atômica Celeste, que explode sempre ao vê-la. Chegando ao shopping, local do encontro, avisto o tal amigo que havia me indicado a disciplina que pago com a minha nova amada, aquele que, talvez, seja o maior responsável pelo que aconteceu. Ele logo percebe certa diferença em meu estado de espírito, pois me vê com um brilho no olhar diferente (que mais parecia uma escarrada caramelada na parede) e com um sorriso radiante (mas que, definitivamente, não participaria de nenhum comercial de pasta de dente). Rapidamente ele me questiona acerca do brilho no olhar e do sorriso irredutivelmente estampado. Explico o que está acontecendo, que estou completamente apaixonado por uma moça e que vou encontrá-la em breve. Além disso, revelo que vou com ela assistir ao espetáculo daquele que é nosso amigo em comum. Digo-lhe, também, que ele é o filho-da-puta que me fez chegar perto daquela que, naquele momento, já amo. O fato é que ele era o pansexual mais sensível e sensato que eu havia conhecido, um desses raros achados do Retalho de Colchas Galáctico que é a cidade do Recife. Além de ter um ouvido paciente como poucos. Ele fica feliz em saber desse meu novo amor, afinal, sabia muito bem que desde que meu casamento terminara, eu não havia tido muita sorte em relação às últimas mulheres com as quais eu me envolvera.

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Uma atriz desejosa em fazer com que a sua “borboletinha pousasse em várias flores”, muito amiga dele, por sinal, e a tal morena quase perfeita, uma depressiva bipolar suicida, dez vezes mais louca do que minha (já suficientemente louca) ex-mulher, foram os “destaques” desta época.

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empre é bom explicar direito as coisas para um melhor entendimento, portanto, retrocedendo um pouco na história, reconheço que meu casamento acabou, principalmente, por conta de umas tapinhas que eu havia dado, fora da cama, em minha, até então, mulher. Obviamente que aquilo que eu fiz foi realmente um verdadeiro absurdo. Não que eu seja a favor da Lei Maria da Penha, pelo contrário, acho outro absurdo, outro avanço feminista que busca não a nivelação dos direitos entre os homens e as mulheres, mas a superioridade feminina completamente legitimada pela Constituição. Por sinal, a tal lei fere a própria Constituição Brasileira que tem como um dos pilares básicos a igualdade de direitos e deveres, independente do sexo. Sou a favor do direito inalienável da igualdade. Óbvio que puxo uma brasa para o sexo masculino. Primeiro por ser homem e querer gozar de benefícios, segundo por uma questão de justiça. Já não basta elas terem entre as pernas o que move a humanidade? A questão é que o motivo de meu erro, enquanto conjuntura, era o fato de que, além de muito novo, imaturo e descontrolado, eu recebia uma pressão imensa vinda de meus pais e dos pais dela. Pra piorar, ela era mais nova, mais imatura, muito mais descontrolada e errante como poucas. Para terminar o trabalho divino, ela sofria de transtorno bipolar, nossa vida era um verdadeiro inferno. Fui criado na base de uma psicologia que findava-se, corriqueiramente,

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em violentas surras, as lesões que possuo em meus joelhos são as principais consequencias das “técnicas educacionais” de minha mãe. Essas lesões me impediram, inclusive, que eu pudesse ser um desportista competitivo.

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Para completar, meus argumentos pareciam não surtir efeito na cabeça ôca de minha companheira, em alguns momentos, extremamente críticos, diga-se de passagem, eu enfiei a mão em sua cara, quase sempre depois dela utilizar-se de algum tipo de violência contra mim. Eu o fazia não por covardia, como falariam os machistas e feministas de plantão, mas por uma necessidade de frear seus impulsos, quase sempre violentos, que geravam mais violência. Obviamente que quando eu dava-lhe tapas, eu o fazia sem utilizar um terço da força que possuo. Na cama, por exemplo, eu batia com muito mais força e ela achava ótimo. Tínhamos nos casado, principalmente, por ela ter engravidado. Por uma ironia do destino, isso aconteceu exatamente na época em que eu iria terminar o namoro. Haviam sido cinco anos de uma relação bipolar, carregada de ciúmes por parte dela, que era uma linda morena namorando um homem claramente feio. Eu era quem deveria sentir ciúmes, mas não era o que acontecia. Em tempos de crise, ela sempre ameaçava se matar e, depois de nossa filha nascer, começou a colocar em risco a vida das duas com esse comportamento. Num desses dias, ela, durante a lactação, bebeu meio-litro de vodca para me fazer raiva e foi ninar e amamentar a nossa filha. Ao vê-la, quase desmaiando, amamentando (ou melhor, embebedando) a minha filha, saí de mim por quinze minutos e dei-lhe uma surra de criar bicho. É óbvio que errei de forma grave, que erramos, mas daí foi o começo do fim que se concretizou quando ela me deixou, alguns meses depois, por um cara, o qual ela sequer tinha visto pessoalmente, pois o havia conhecido através da internet. Mais uma semelhança entre eu e Michael Corleone: não sabíamos que, por tentar proteger nossa família, às vezes acabamos perdendo-a. Depois dela, conheci uma atriz, amiga desse tal amigo que encontrei no shopping. Ela me via na faculdade, dizia que me achava interessante, mas eu não a conhecia. O fato é que, além de já estar no

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Mestrado, ela era uma verdadeira gata, com um cabelo ruivo e cacheado, um sorriso ameaçador e um piercing na língua, o qual eu sonhava todos os dias com a sua utilização num possível sexo oral. Mantivemos um contato via internet e, no dia em que nos conhecemos, começamos a namorar. No dia seguinte eu já estava dormindo em sua casa, tomando café-da-manhã com a sua mãe, jogando Winning Eleven com seu irmão mais novo. Tudo parecia maravilhoso nesse relacionamento. O seu carinho, nossos orgasmos concomitantes, as gentilezas mútuas, a forma com a qual nos encaixamos em tão pouco tempo. Contudo, como as coisas eram sempre rápidas demais entre nós, ao final dessa mesma semana na qual havíamos iniciado nosso fulgás relacionamento, tivemos uma briga e terminamos. Numa tentativa de reconciliação, ela se descobre a tal Promíscua Borboletinha Nômade. Depois de terminarmos em definitivo (pelo menos assim eu prefiro crer) ela sai comendo o Recife em peso. Enfim, já fazia um bom tempo que eu não realizava uns exames de rotina mesmo, a minha relação com ela me incentivou, um tempo depois, a fazê-los. Negativo, graças a Deus! Hoje em dia ela está casada com o cara que cedeu o quarto para a nossa primeira transa. Não tente entender as mulheres. Já a terceira me chegou... não, não, nada de piadas internas! Mas ela chega como se viesse do nada, como se fosse pro nada, mas acaba marcando a minha vida. Uma bela morena-jambo, pequena (que para mim, é o tamanho perfeito), com um corpo perfeito (seios mais do que perfeitos), com um sorriso perfeito, com uma pele perfeita (Cravo & Canela and Jambo Style). Ela havia de ter um defeito: uma depressiva, bipolar, que tomava três remédios por dia pra não querer se matar. Essa foi, sem dúvida, a relação mais romântica que eu já tive até hoje. Eu cantava para ela ao telefone, escrevia pequenos sambinhas dedicados e inspirados nela. Ela, sempre carinhosa, me ligava nas madrugadas só para ouvir a minha voz. Perguntava se eu moraria com

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ela na Espanha caso ela me chamasse para ficar lá, eu dizia que sim. O problema era que o intervalo entre um “eu te amo” e um “eu te odeio” ou “nunca mais quero te ver” era uma média de quinze minutos. Ela era, realmente, uma completa desequilibrada. Pra completar, ela tinha um pearcing no umbigo (ao invés de ser na língua) e uma tatuagem de coelhinha da Playboy na cintura. Aquilo que eu costumo chamar de Kit Estético Para Cadelas Assumidas. É difícil não ter preconceitos nestes casos, venhamos e convenhamos. Em meio às nossas brigas, ela acabou se envolvendo com um garoto que, por um acaso, eu conhecia desde que ele era um pirralho. Ele, irmão de uma amiga, ambos oriundos da Índia. “Lá eles não fazem mal às vacas!”, assim disse-lhe quando realmente cansei das idas e vindas desta relação maluca. Dias depois, ela foi embora para Salvador, completamente puta comigo. O fato é que eu gostava bastante dela, esperava muito dessa relação. Foi, sem dúvida, uma grande desilusão que complementou as outras duas mais recentes e todos os outros desenganos amorosos que eu havia tido até então. Esse conjunto de fatores fez de mim uma pessoa que não acreditava mais em relacionamentos. Um solteiro (e talvez solitário) convicto e praticante.

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is que o grande momento se aproxima. O importante é que estou agora no tal shopping e chega a hora marcada. Subo as escadas rolantes do lugar e vejo de forma gradativa algo que me machuca profundamente: ela, abraçada de forma extremamente íntima com um cara que eu nunca tinha visto na vida, sentada à mesa junto com a amiga sapatão do outro dia. A morte me cairia bem, seja ela a impossibilidade da possibilidade ou a possibilidade da impossibilidade. Infelizmente sigo vivo e com a visão em perfeito estado. Sigo vendo o tal rapaz fazendo carícias em seu ombro e pescoço. “Oh, mas como é amargo olhar a felicidade pelos olhos de um outro homem!”. Exatamente, Orlando (ou Wilde)... isso é foda mesmo! Eis que descubro a diferença entre a inveja e o ciúme: o ciúme quer conservar aquilo que é (ou aquilo que você pensa que é) seu, já a inveja é uma cólera que não suporta o bem do outro. Descubro também que eu acabara de inventar um novo sentimento ao unir esses dois. Vejo, porém, o rosto dela intranquilo e num quase-choro ou num póschoro. Eu não conseguia discernir com exatidão, assim como eu também não conseguia entender o que eu sentia, se eu a amava ou a odiava naquele momento digno de esquecimento. A única coisa que eu tinha a absoluta certeza era a de que, realmente, o inferno são os outros, nesse meu Romance Quase-sartreano. E meu inferno estava ali, ocupando três cadeiras de um shopping recifense. O resultado disso é que sou moralmente obrigado a levar os três à peça. Pior, meu orgulho me obriga a pagar os ingressos dos dois intrusos sem que eles percebam que não se tratava de uma entrada gratuita. O fato de eu ser amigo daquele que controlava a entrada das pessoas foi primordial para esse singelo sigilo. Faz parte do meu Código Nietzschiano de Honra. Mulheres não entendem disso.

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Assistimos ao espetáculo que deveríamos ver juntos (e de preferência abraçados) separados pelos dois. Meu ódio só aumenta pelo fato de, após o espetáculo, ela sempre evitar ficar ao meu lado, sempre evitar o meu possível toque, meu possível carinho. É impossível não lembrar-se de Sartre novamente, quando ele diz que o desejo se exprime pela carícia, assim como o pensamento pela linguagem. Nem carinho, nem muitas palavras. Nem meu desejo, nem meu pensamento são contemplados com uma migalha de qualquer coisa que venha a lembrar expressão, muito menos satisfação. Matemme, por favor! Vamos para um bar na Rua da Moeda, ouvir um blues e, de alguma forma, anular meus novos inimigos (entre eles, o meu amor). Sem sucesso. Assim segue-se a noite, um martírio sem fim. Depois de tentativas tolhidas, fica óbvio que ela quer a minha distância e eu a dou, com todos os requintes de mágoa que alguém poderia sentir. Chega o momento em que começo a dar gargalhadas, as Macambúzias Gargalhadas do Ego Ferido, o primeiro sinal de que estou me desesperando. Controlo-me, porém, em minhas reações, exceto quando ela me pergunta se está tudo bem. Tudo tem limites... paciência, inclusive! Estou em minha segunda carteira de cigarro (“eu que não fumo, pedi um cigarro”), bebo doses e mais doses de cachaça para esquecer o que está acontecendo. Estou tentando ser simpático com o tal rapaz (apesar de não ser tão bom ator, nem dentro, nem fora dos palcos). Estou encurralado por pessoas querendo reprimir o meu desejo. Enfim, estou tomando no centro de meu cu e ela vem me perguntar se está tudo bem? Respondo a pergunta da Ridícula Fantasminha Ambulante de forma completamente (e, talvez, surpreendentemente) irônica. Respondo-lhe perguntando (ou pergunto-lhe, respondendo): “Como é que não poderia estar tudo bem? Uma boa música, gente bonita conversando à mesa... enfim (e agora levantando um pouco a voz além da maldita

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sobrancelha esquerda) como não poderia estar tudo bem?”. C’est fini! Graças a Deus, pouco tempo após minha reação à pergunta idiota, ela iria embora juntamente com os dois. Antes disso, o amigo que eu havia encontrado no shopping aparece, senta-se um pouco, diz que havia fumado um baseado e que aquilo não o havia feito muito bem. Ambos procuramos prazeres que, na verdade, acabaram com nossas respectivas noites. Mais uma peça pregada pela Soberana Coincidência Atemporal Murphyana. Ofereço-lhe uma cerveja, dou-lhe uma mirada para deixar bem clara a minha insatisfação pela permanência das outras pessoas à mesa e a necessidade de sua presença para que eu não tenha um ataque de fúria. Conversamos um pouco sobre coisas de nossa vida profissional, conto-lhe, por alto e em voz baixa, o que está acontecendo naquele momento, o calvário ao qual estou sendo submetido por aquelas três criaturas, dois demônios e uma Anjinha Sacro-demoníaca. Pouco tempo depois, ele vai embora, mas antes comenta que a mesa esta muito baixo-astral. Sou obrigado a concordar em número (cinco ao invés de dois), gênero (uma lésbica, um pansexual, dois homens heterossexuais e uma moça desejada por todos à mesa) e grau (de emputecimento de minha parte, no caso). A mesa era o Supremo Quadrilátero Baixo-astral Recifense. A verdade é que vivemos num mundo cheio de Baixo-astrais onde faltam SuperXuxas. Ela, normalmente, é a minha Super-Xuxa, com seu loiro pintado de acaju. Mas hoje ela é a vilã da história. Hoje eu sou o Honorável Príncipe Desencantado, o ódio em pessoa (física, jurídica e espiritual). No final desta fatídica noite nem o Petit Gateau da Conquista que eu fiz com que a minha nova musa provasse foi o suficiente para agradála. Sequer pagar, ela me deixou. Uma noite completa! O mais triste é que a banda que estava tocando blues ali, naquele bar, era composta por músicos amigos meus que já tinham, inclusive, tocado comigo.

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Além disso havíamos feito um acordo, quando eu desse o sinal, todos começariam a tocar “Fly me to the Moon”, de Frank Sinatra, e eu cantaria, olhando nos olhos dela, oferecendo a tal música para ela. No intervalo, eu recitaria um cordel, aquele que eu havia feito inspirado e dedicado a ela, depois comeríamos o tal petit gateau, o mais delicioso da cidade, segundo meu julgamento. Seria um golpe de mestre, caso ele fosse executado, caso não fossem os dois desagradáveis intrusos. Fim de noite. Estou ali, sozinho, esperando os meus amigos terminarem de tocar, guardarem os instrumentos, para comermos algo e irmos embora. Saindo de lá, vou para a casa dos meus pais. Num estado de desesperança de dar pena.

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ma noite para apagar da memória, mas, enfim, meu martírio é temporariamente amenizado, chego, porém, num estado lamentável. Vou para a parte mais alta da casa dos meus pais, logo acima do andar onde ficam os quartos, ligo a televisão e vou assistir Wonder Years, Anos Incríveis. A melancolia toma conta de meu ser, viro passageiro daquele que considero como sendo o melhor seriado de todos os tempos. Seriado que, por sinal, me impede de assistir 90% dos que passam hoje em dia, tal como as seleções brasileiras de 70, 82 e a Laranja Mecânica de 74 impedem muitos de assistirem a 90% das seleções das últimas Copas do Mundo. Assim como Kevin Arnold, o personagem principal da trama, eu era um suburbano de classe média baixa, relativamente livre dos perigos das cidades e da zona rural, usufruindo, porém, das vantagens de ambos. Não era, no entanto, o caçula da família, mas muito daquele cenário no qual ele vivia refletia minha infância e adolescência, onde eu poderia brincar na rua sem medo, onde eu podia ir à escola sem medo, onde eu podia amar sem medo. Era o tempo da inocência e da liberdade, os anos incríveis que eu tinha a consciência de que não voltariam. O que me resta desta noite é regado por uma garrafa de uísque e um rio de lágrimas. Lágrimas de desconsolo, de decepção, de sentimento de derrota. Ela já tem alguém. Assim suponho com toda a propriedade que minha visão e inteligência me permitem ter. Sofro numa intensidade assustadora e surpreendente, pois ela se trata de uma branca, com aparência sequelada, que, apesar de ser linda, talvez sequer conseguisse me excitar. Como se não bastasse, tem o mesmo nome de minha ex-mulher. A questão era bem simples: ela tinha conseguido arrancar lágrimas de

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mim, uma verdadeira pedra. Há aqueles que me acham sensível, mas minhas lágrimas sempre foram sagradas, nunca me deixei chorar com facilidade, nunca deixei, em hipótese alguma, que me vissem chorar, isso desde a minha infância. Quebrei as duas pernas e os dois braços quando moleque (não ao mesmo tempo, deixo bem claro) e nunca havia chorado na frente de estranhos e mesmo as dores que não eram físicas foram devidamente engolidas por meu orgulho e pelo meu eterno sentimento de que há males que vêm para o bem. Ali em minha rede, contudo, assistindo as idas e vindas da relação entre Kevin Arnold e Winnie Cooper, não segurei meu choro, visualizei a minha pseudo-relação e não consegui me convencer de que ali estava um mal que viria para o bem. Eu, ali, me considerei a mais infeliz das criaturas. Confesso que gostaria que tudo tivesse terminado ali, eu gostaria que esse amor morresse por falta de alimento. Mas caralho, o que eu sinto é amor de verdade! Puta que o pariu!!! AMOR DE VERDADE!!! Essa porra não passa. Mas o que eu estou pensando? Ela é uma mulher linda (estranha, mas linda), que mora num bairro nobre, de classe média alta, que já morou fora do país. O que diabos eu tenho para oferecer a ela? Que atrativos possuo para que ela queira se envolver comigo? Sou feio, de classe média baixa, moro longe e estou, atualmente, desempregado. Pior, não sou Cinderela. Nem a da Disney, nem a do Alto do Pascoal. Ela é de um mundo diferente do meu e a história da humanidade (e da literatura) conta o que geralmente acontece quando dois mundos distintos são (ou tentam ser) unidos por um casal: problemas, divergências, intervenções externas, enfim, sempre dá em merda, apesar de renderem belas histórias de amor. Eis que percebo... é isso! Uma bela história de amor! É exatamente isso que eu tenho a oferecer. Alguém seria capaz de oferecer uma linda história de amor de uma forma melhor do que a minha?

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Pois bem, é exatamente isso que eu vou lhe dar. Isso se ela, assim, permitir. Darei a essa moça branca, fria, chorona e estranha o maior amor que um homem pode dar a uma mulher (ou a um outro homem, neste Mundo GLS de Meu Deus!). Sei que só um milagre me faria tê-la em meus braços. O milagroso depende de nossos desejos e eu a desejo da forma mais intensa que existe. Não é um desejo idiota como conhecer o futuro, ser imortal, ser apenas prazer perpétuo, ser impassível, incorruptível, ubíquo, ser admirado, adorado ou qualquer merda dessas! O que desejo é, sem dúvida, um conjunto de impossibilidades ou de improbabilidades. O homem é, sem dúvida, oriundo do desejo, não uma criação da necessidade. Não preciso dela, apenas a desejo, necessito, sim, o seu desejo. Mas apenas a desejo, apenas desejo darlhe o maior dos amores, daqueles que não podem ser amordaçados de tão fortes e avassaladores, um amor de verdade, que será eterno em sua, também eterna, duração. Fudeu... enlouqueci! Dois dias depois volto a encontrá-la na aula e, ao fim da mesma, ela me traz a camisa que levara consigo no primeiro encontro. Ela me devolve, de uma forma extremamente fria, e vai embora. Se durante esse momento ela diz cinco palavras, é muito. Horas depois, ela me explica, pela internet, que ambos (ela e o carinha pegajoso) são só amigos, e que ele estava consolando-a por alguns problemas que haviam ocorrido. Uma verdade do universo: o que nos perturba não são os acontecimentos, mas os juízos que fazemos deles. Sinceramente, não sei o motivo pelo qual ela faz questão de me explicar isso, todavia, inconscientemente, isso me dá uma certa esperança. Em contraponto a essa esperança, sigo na dicotomia à Kerouac: Esperanza x Tristessa. O fato é que ela está ali, mais gelada do que antes, me entregando a tal camisa. Pior, entregando-a lavada, contrariando o meu pedido. Pedido este que havia sido expresso de uma forma clara enquanto a simbologia romântica da ação, coisa que

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ela queria, ali, naquele momento, suprimir, ou melhor, da forma mais fria possível, trucidar. Ela, sem dúvida, em outra vida, foi o iceberg que afundou o Titanic. A última imagem que tenho dela neste dia é a de uma moça aparentemente (ou fingindo-se) feliz, brincando com malabares, ou seja, ela não estava fria, estava fria comigo. A última imagem que tenho de mim mesmo é a de um derrotado. “Estar morto é estar entregue aos vivos”. Novamente Sartre me dá uma paulada com o Filosófico Porrete da Verdade, pois estou entregue a ela por Eros, estou morto enquanto vontade (ou vontade de potência, se preferirem). É o fim da linha, penso eu. Depois de chegar em casa, de entrar em meu quarto, percebo que de lá não quero mais sair, e não saio. Por três semanas fico trancado em meu quarto e só saio para me alimentar uma vez por dia e nem todos os dias. Estou num estado, definitivamente, deplorável. Quase tudo por causa de uma branquela estranha. A esperança é completamente suprimida e a tristeza torna-se minha inseparável companhia. Se vivemos, no mundo terreno, em uma mescla de tempo e de eternidade e o inferno seria tempo puro, tal como Weil falava, eis que descubro o tal “tempo puro”, o inferno do qual ele se referia. A depressão me abate, mas faz com que eu escreva uma obra épica, completamente inspirada nela, completamente dedicada a ela. Grandes obras são, geralmente, feitas em momentos de grande tristeza, e eu me tornava vítima de minha própria obra, ou obra daquilo que me vitimou. Uma canção surge nesse processo, é quando eu percebo que, de uma forma consciente ou não, ela me controla tal qual os malabares que ela domina, havia sido exatamente o que ela havia feito comigo no tal bar dias antes:

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“Um malabar/Mirabolante/Malabaresco/Num bar grotesco/A mirabolar/Malabar malandro/É um malabar/A desarmar o ar/Mirabolante malabar/E teu sorriso, menina/E teu olhar que fascina/Ao atrasar o azar.” Percebo que ela surgiu, oriunda do infinito, para surtar meu pensar, minha ética, meu bem e mal-estar, meu querer e meu agir. Oriunda do infinito, isso mesmo, ela não pode ter vindo do nada, ela não pode ir para o nada, ela não pode viver sem que seja nada meu. O que tem naquele sorriso que se torna dona das minhas palavras? Sei que elas, as palavras, são metade de quem as fala e metade de quem as ouve ou as lê, mas ela as têm por completo, cada letra, cada acento, cada erro ortográfico e gramatical é dela, até os neologismos, da vida. O fato é que eu nunca deixei de saber o que escrever, nem nunca foi tão óbvio para quem eu escreveria. Cada poema, cada verso, cada sentimento inquieto, retilíneo e circular. Tudo é dela, todos vão para ela, pior, todos nasceram dela. Sou um instrumento da poesia que habita o interior dela, sou apenas o poeta dela. Ela me seduz com as palavras que eu escrevo. Minha maior aflição é a certeza de que deveríamos nos livrar, de uma vez por todas, da sedução apenas das palavras! Obviamente sou reprovado em todas as disciplinas da faculdade com essa longa ausência, exceto a disciplina de dramaturgia, onde assisto aula com ela e que, por conta dessa obra, eu havia material mais do que suficiente para ser aprovado com sobras. Disciplina que, inclusive, serei obrigado moralmente a frequentar por um único motivo: chegar mais perto da minha amada e fazer com que a conquista aconteça de verdade.

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enho a consciência de que já se faz necessário sair de meu Exílio Depressivo Existencial Fugente. Ao sair de meu claustro, acontece algo que eu não esperava. Percebo que ela estava preocupada comigo, com saudade, quiçá! Ela quer saber, através de emails e mensagens pelo seu perfil num site de relacionamentos, se eu estou vivo, por onde eu ando, o que aconteceu comigo. Sem dúvida, o tempo é o que se faz e o que faz com que tudo se faça. Havia, entretanto, uma questão: ela possuía o número de meu telefone e, por algum motivo, não ligou para mim durante o tempo em que passei afastado. O fato é que ela, novamente através da internet, entra em contato comigo. A questiono pelo fato dela não ter me ligado. Ela diz que não sabia se era para ligar. Como assim? Eu poderia estar morto, estar em estado terminal, numa cama de hospital pronto para morrer esperando apenas ouvir sua voz pela última vez... ela não sabia e pronto! Ela está perdoada. Tenho (ou tento ter) a consciência de que tê-la será um sonho, será um êxtase. Porém me coloco de uma forma diferente diante do sofrimento causado por suas reações indiferentes e evasivas que, consequentemente (e obviamente), fazem-me sofrer. Para encontrar encantos no êxtase é imprescindível que o desejo seja estimulado por estorvos. O estado de êxtase contínuo significa o nãoêxtase, aquele que nada tem a almejar é com certeza mais infeliz do que aquele que sofre. Eu sofro, mas para ser, adiante, feliz. E, sem dúvida, já está na hora de sê-lo! Depois de algumas conversas consigo convencê-la a sair comigo sem escolta e, graças a Deus, ela aceita. Depois de muita relutância, digase de passagem. Antes de aceitar meu convite, ela me pergunta se significaria alguma coisa caso aceitasse sair comigo sozinha. Eu digo (ironicamente, é óbvio) que significaria que ela queria sair comigo.

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A obviedade do que digo vela a percepção clara que eu tinha de que ela não queria, de forma alguma, me dar esperança alguma, em momento algum. Isso era constante, em cada troca de palavras, em cada troca de olhar, ela atuava de forma devidamente evasiva e desencorajante. O amor é uma guerra e toda guerra é um jogo. Eu entro no seu jogo, e entro para ganhar, não estou disposto a desistir em momento algum. O homem feliz é aquele que consegue transformar as ilusões do bel-prazer em realidades. E é isso que eu quero ser: feliz pra caralho! Marcamos, então, mais tarde nos encontrarmos e conversarmos, sem compromisso e é o que acontece. Encontramos-nos no shopping do dia fatídico, da Noite da Discórdia. Conversamos, damos belas risadas e mostro o que escrevi durante o tempo em que estive isolado, revelo que ela me inspirou a escrever tudo aquilo, revelo que ela é a minha musa, que ela é, realmente, aquela que amo. Ela adora tudo que eu escrevo. Eu a amo, isso é o mínimo que ela pode fazer. Gostar do que eu escrevo para ela é mais um elogio dela para ela mesma do que para a minha obra. Poemas e letras de músicas conquistam algumas mulheres pelo simples fato de que o amor-próprio é o maior dos bajuladores, a cada minuto comigo ela se sentia mais gostosa e mais importante, eu inflava seu ego de uma forma controlada, eu fazia ela se sentir importante, mas, de uma forma ou de outra, deixava claro que ela só era importante ao meu lado. Durante nossa conversa, ela me revela, dentre outras coisas, que não quer mais ter nenhum tipo de envolvimento com ninguém, revela que eu não tenho chance alguma com ela, revela, inclusive, que prefere, pior, só gosta (isso, só gosta) de mulheres, o que me fez sentir menos credenciado ainda nessa luta. Coisa que eu já havia desconfiado. Digo-lhe que nos apaixonamos por pessoas, por almas, não por picas ou xoxotas. Ela pede para que eu não perca tempo, que eu faça um investimento em uma amizade com ela, ao invés de ficar sofrendo por um amor que

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seria impossível de se conceber. É claro que não sigo o seu conselho. Queira só o que podes e serás onipotente... essa é a frase que resumiria bem seus argumentos. A conversa segue-se e eu continuo a deixar bem claro que iremos ficar juntos, que não vai adiantar ela fugir. No meio disso, ela me fala que tem trauma em relação a bebidas. Que nunca namoraria uma pessoa que bebesse. Posteriormente ela revelaria que tudo se dava por conta de um tio querido seu que havia morrido (na verdade se suicidado) por conta, ou melhor, através de bebidas. O fato é que o homem havia bebido até morrer (my hero!) pela pressão recebida, oriunda de sua família, principalmente, após assumir a sua homossexualidade (my hero, pero no mucho!). Ele não suportou as mordaças colocadas nele pela sociedade, pela sua família, principalmente por sua mãe. Eu também possuía uma mãe opressora, nem quero imaginar como seria a minha vida se eu fosse gay, usuário ou viciado em drogas. O inferno que seria a minha existência. Por muito menos fui expulso de casa três vezes. Após ela falar a tal história, a olhei nos olhos e disse-lhe que, a partir daquele momento, eu não beberia mais (já que a possibilidade de eu me agarrar com um homem era, obviamente, desnecessária de ser cogitada). Ela me manda fazer isso por mim e não por ela. Eu respondo que faria isso por nós, pelo nosso bem-estar. Eu tinha sempre as palavras certas, fossem elas verdadeiras ou não. Ela abre um sorriso de quem está começando a ser conquistada, mas logo volta a se esquivar de minhas investidas. A noite acaba de uma forma tranquila e mais tranquilo eu vou ficando, vou percebendo que, como diriam os latinos de língua espanhola, “si, se puede”! A esperança começa a vencer o medo dela e a minha tristeza.

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ntendo que uma aproximação gradativa vai acontecendo. Eu quero retirar dela (e, de certo modo, de mim também) as mordaças colocadas pelo medo e pela insegurança dela. Quero gritar e viver o amor que sinto. Não sei se, tal como Cícero dizia, o amor é o desejo de alcançar a amizade de uma pessoa que nos atrai pela beleza. O que sei é que quero ser e fazê-la feliz. Preciso, óbvio, de sua ajuda para alcançar esse objetivo. Numa dessas noites em que deixo o meu Lado Sonny Corleone sobressair-se, ou seja, num Momento Faca Entre os Dentes, decido cheirar o seu cangote, assim, sem avisar e sem querer saber das consequências futuras dessa minha abordagem. O resultado é estranho, uma mistura de satisfação pelo carinho recebido e uma repulsa que eu poderia bem demonstrar caso um negão de bigode, peludo, suado e fedido tentasse fazer o mesmo comigo. Ela, em meio a esse dilema, fica paralisada, na dúvida entre derreter-se frente ao meu cheiro no cangote (que, modéstia a parte, é fatal) ou vomitar, assim como eu faria caso o tal negão fizesse o mesmo comigo. Por sorte, seu precioso cangote se transforma num local onde visito com minhas narinas e lábios numa frequência cada vez maior. Com o tempo ela diz que meu ato é inapropriado, mas sinto que ela gosta do meu toque. Ela confessa, inclusive, que sente saudades, não de mim, mas de meus abraços. Após dizer isso ela sempre dá um Sorrisinho Sarcástico de Maconheirinha Imatura que só ela sabe dar. Vou sentindo o iceberg derretendo aos poucos, até o dia em que a chamo para ficarmos juntos num lugar mais tranquilo, num lugar que não era, mas, ao mesmo tempo, era só nosso: o laguinho da universidade. Já é noite, acontece uma calourada ao longe, conversamos por um bom tempo, tento me aproximar, mas tenho medo de avançar demais, medo de, tal como Baggio, em 94, cobrar o pênalti nas alturas. Bons pênaltis são cobrados às vezes no meio do gol, rasteiro e devagar.

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Numa cobrança de pênalti, basta você chutar no gol e o goleiro não defender. Basta você prestar atenção para que lado ele vai cair. Percepção, frieza e instinto: essas são as qualidades de um batedor perfeito. Modéstia a parte, bolas paradas sempre foram a minha especialidade. Pênaltis, o meu virtuosismo supremo. A sorte é consequência da competência. O fato é que eu estava, realmente, prestes a bater um penal baseado apenas no instinto. E o faço: em meio a nossa conversa roubo-lhe um beijo. O beijo é parcialmente correspondido e duplamente criticado. Primeiramente ela o critica pelo fato de ter acontecido, segundo pelo fato de que, para ela, eu não sei beijá-la da maneira que ela gosta. Continuamos nos beijando, ela, com o tempo, passa a criticar apenas o fato de eu não beijá-la bem. “Você não aprende!”, essa foi a frase mais escutada por mim naquela noite. Momentos depois, ela diz que não estava preparada para um beijo meu, que não era para aquilo estar acontecendo, que ela não sabia se estava gostando ou não, que não sabia quais seriam as consequências desse meu ato. De qualquer forma, ela continuou me beijando, continuou reclamando de meu beijo e eu, tentando beijá-la da forma que ela gostava. Eu estava em órbita. Eu era o seu satélite. E, sinceridade, ela sequer beijava bem. Esbugalhados. Meus olhos eram portadores deste adjetivo hiperbólico e, nunca antes, tão verdadeiro. Confesso, esperava menos. Confesso, eu nunca na minha vida quis tanto ser mais! Mais bonito, mais forte, mais mulher ou mesmo mais corajoso para dar-lhe, logo de cara, um beijo completamente devastador de mentes, completamente orgasmático, completamente convencedor. O impossível parecia apenas uma mera fagulha de medo, pois, seu abraço parecia que tinha sido feito pra mim desde outras épocas, como o seu sorriso, como a sua voz, como o seu beijo dado e ainda não encontrado, como tudo aquilo que conhecera só em meus ébrios

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pensamentos, em meus sonhos mais otimistas e intimistas. Como tudo pelo qual eu era apaixonado antes mesmo de conhecer. Agora que eu conheço, torno-me um dependente incurável dela e de todos os seus atributos. Não falo de idealismos, falo de ser, de viver os bons momentos, sem saber o motivo. E como os filmes, prefiro sentir do que entender, deixo pra tentar entender depois do término. E que esse filme, eu nunca entenda. Para resumir essa noite, digamos que fechei os olhos, chutei, a bola bateu nas duas traves, nas costas do goleiro e entrou. Essa bendita noite, infelizmente, chega ao fim, mas eu saio dela achando que consegui o impossível. Esse beijo, para mim, tem tudo para ser um divisor de águas em nossa relação. Antes da despedida a convido para, no fim de semana, sairmos e conversarmos mais um pouco. Obviamente que, dessa vez, eu deixei claro que significaria algo se ela aceitasse. Depois de insistir, consigo marcar mais uma saída com ela. Novamente no tal shopping que fica no Recife Antigo.

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gora já é realidade. Um filme, porém, passa pela minha cabeça, um gosto não sai da minha boca. Tenho o seu beijo registrado em minha alma, e o melhor, tenho a possibilidade de repetir a dose em pouco tempo, estou chegando ao local do encontro e não vejo mais a hora de experimentar novamente o Psicodélico Beijo da Minha Musa Alva. Após nos encontrarmos, contudo, mais parece que ela se transformou numa outra pessoa. Parece que o gelo voltou a tomar conta do seu coração, mas sinto que é o medo, o receio de se relacionar novamente, de se machucar novamente, enfim, o temor de uma nova desilusão que faz com que ela porte-se tão friamente diante daquele que só quer aquecê-la e fazê-la feliz. Mas, puta que o pariu, e eu? No espaço de um ano tive três enormes desilusões, incluindo meu casamento. As desilusões já faziam parte de minha história, mas eu estava ali, buscando minha felicidade, e nem me venham com aquele papo de que não se pode depender de outros para ser feliz. “Para mim, o maior suplício seria estar só no paraíso”, assim disse Goethe, numa das frases mais felizes de um pensador até hoje. Precisamos uns dos outros para que sejamos felizes de verdade, a felicidade solitária não passa de uma boa auto-resolução recheada de auto-enganação. Os que crêem não necessitar mais do outro se tornam (ou já são) intratáveis! Eu preciso dela para ser feliz, fato! Outra coisa evidente é que, durante esse nosso encontro, ela não me beija. Foge de minhas investidas como o diabo da cruz. Lembra-me, por alguns instantes, a moça que odiei, semanas antes, no bar da Rua da Moeda. Procuro, insistentemente, trazê-la até mim. Tento fazer com que aquele beijo se repita, tento fazê-la, mais uma vez,

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sair da Profana e Estorvante Cabana do Medo. Local onde ela fazia morada após suas relações doentias com pessoas doentes, ridículas e ingratas. Fica bem claro, com todas as reações demonstradas desde o momento em que eu a conheci até aquele momento, que ela se trata de uma doente (afinal, o medo é uma doença), mas não me parece ser nem ridícula, nem ingrata. Depois de algum tempo ela revela que contou sobre o nosso beijo para o tal amigo da Noite da Discórdia e para o seu primo (o viadinho que decidiu seguir os passos do pai), além de ter dito a sua amiga sapatão e a outra amiga (que descubro tratar-se também de uma outra lésbica apaixonada por ela). O resultado havia sido desastroso. “Você é lésbica, lembre-se disso!”, assim ela havia sido recriminada por eles (exceto, óbvio, pelo rapaz, a quem não interessava a continuidade de minha amada no Amável Planeta das Entendidas). Todos haviam achado um absurdo. Após todos essas informações, confesso com todas as letras: um ser homofóbico começa a nascer em mim. Ela também revela mais detalhes sobre a depressão da qual sofre. Meu Gélido Amor me diz que toma remédios um tanto quanto pesados e que isso afeta o seu humor de uma forma considerável. Mais uma depressiva em minha vida, por sinal. Começo a achar que todas as mulheres do mundo sofrem desse mal, ou que, pelo menos, o requisito principal para se ter algum tipo relação comigo é ter problemas psicológicos. Começo a realmente perceber que a missão é mais dura do que eu imaginava. Na verdade, a mais dura que eu já havia enfrentado. Mas eu não estava disposto a perder esse jogo por W.O. Estou aqui para vencer por K.O. Eis que a noite e o encontro acabam, antes de ir embora, eu a abraço, dou-lhe um beijo em seu Pescocinho de Algodão-doce, e digo-lhe, ao pé do ouvido, mas num alto volume, que a amo e que nunca vou desistir desse amor. Tudo isso sob a vista de seu pai, o qual eu não havia percebido estar, ou não, perto o suficiente para escutar o que eu tinha

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dito, da forma com a qual eu havia dito. Foda-se, eu quero é amar, meu pirraia! Depois do tal encontro, volto para a casa dos meus pais, deito em minha rede, volto a assistir alguns episódios de Wonder Years, volto a derramar algumas lágrimas, não só por causa da série, mas por algo que aperta o meu peito como se fora uma imagem de um coração esmagado por uma mão branca, tal como está exposta em seu perfil no tal site de relacionamento onde comecei a ter quase-conversas com ela. O lance é que retomo a melancolia do outro dia e sofro por achar que o sonho acabou. Que o juiz anulou o gol.

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inha esperança leva um baque. Assumo que volto para faculdade no dia seguinte terrivelmente transtornado. Toda uma história de desilusões leva-me a estar exausto desta luta. Eu a amo como nunca amei ninguém, isso sem namorá-la ainda. O fato é que eu tenho, em meu peito, um sentimento assustadoramente e inexplicavelmente imenso. Não me vejo beijando outra boca que não seja a dela. Não me vejo me atrelado à outra alma. Sinto, porém, que não tenho mais forças nem argumentos para investidas, que minha gana, minha grana e minhas palavras acabaram. Definitivamente, o amor faz muitas vezes do homem mais hábil um louco e torna, muitas vezes, hábeis aqueles que não possuem talento algum. Cá estou eu, sendo o pior no que faço de melhor. Sempre fui um homem de poucas, porém precisas palavras apesar do meu tagarelismo constante, mas ela era tão calada que eu achava que se eu também ficasse calado, teria menos chances ainda. Sem palavras, minhas chances estariam, irremediavelmente, acabadas. Por coincidência, quase uma semana depois, lendo uns textos de La Rochefoucauld, encontro a seguinte frase: “as paixões são os únicos oradores que sempre convencem”, algo inspirador, tanto quanto seu pensamento posterior: “o silêncio é o partido mais seguro daqueles que desconfiam de si mesmo”. Eu precisava perceber onde eu estava pisando. Todavia, cada vez mais o beijo no laguinho mostra-se como um acidente de percurso. Ela não quer mais viver um relacionamento, essa é a verdade. Tão verdade quanto o fato de que ela não gosta de homens e, mais importante ainda, que ela não me deseja, que ela não gosta de mim.

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O desejo não é à priori nem sobretudo uma relação com o mundo. O mundo é um mero palco. É na presença do outro que o mundo se depara como mundo do desejo. É pela existência dela que o meu desejo de desejar e de continuar vivendo neste mundo de desejo, sem nada alcançar, perdura. O seu desejo. É isso que desejo e não vejo a recíproca ser verdadeira neste mundo, neste palco chamado Recife, que torna-se um inferno (Hellcife, como dizem) sem a sua pequena grande presença enquanto um ser que me beija, que me quer, que me ama. Pelo Grande Deus dos Bons Amantes, que aconteça alguma coisa que nos aproxime, algum milagre sem precedentes que faça com que nossas vidas se encontrem de alguma maneira. Sinto-me, agora, um homem do nada, numa terra de ninguém. Um ser que, sem ela, fica vazio. Eu a quero, eu a quero para sempre e sei que sempre vou querê-la para sempre. Que mal eu fiz para sofrer tanto? Que mal eu fiz para amar tanto? Que mal fiz para amar tanto e ser tão patético nesse meu tanto amar?

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meu peito vai esvaziando-se de esperança. Chego em casa e vou escutar Tom Zé, um dos meus pilares quando o assunto é música, e sou atingido em cheio por uma de suas músicas que eu conhecia mas que, naquele momento, parecia um hino, principalmente o trecho que dizia: “Amar:/Ceder ao coração a razão/E só viver pra ser/A casca pro outro viver”. O velhinho me dá uma sobrevida, uma energia, já que, segundo ele mesmo, amar e fel e mel. Essa era a parte da minha relação com ela que seria comparada com o fel, e se eu me mantivesse forte, o mel de seus beijos e outras coisas que creio ser desnecessário citar, viriam até a minha boca. Sem sair da poesia de Tom Zé e, como eu havia prometido a ela que ficaríamos juntos, percebo que preciso provar-lhe que palavra de homem racha, mas não volta diferente! Passam-se os dias, vou ler uns emails e a encontro online. Ela me conta que há pessoas que falam mal de mim para ela, mais precisamente que eu só andava bêbado pelos cantos e dando em cima das amigas dos outros. Ela me pergunta se deve acreditar nas coisas que haviam lhe dito. Eu, sarcasticamente, respondo que sim. “Quer um conselho? Acredite!”. Essa foi a frase que utilizei para encerrar, definitiva e abruptamente, o assunto. Obviamente que eu queria ter dito isso num tom de voz que fosse elevando-se gradativamente, além de levantar a minha sobrancelha esquerda, mas estávamos na internet, não havia como fazer isso. Mas, lá no fundo, tenho absoluta certeza de que ela lembrou da forma com a qual respondi sua pergunta na tal Noite da Discórdia e entendeu o meu recado. O fato é que eu sempre bebi muito, mas nunca fiquei bêbado de verdade. Alem disso, nunca fui uma pessoa de esconder o que penso, sempre falei na cara e olhando nos olhos.

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Esse meu comportamento um defeito terrível no mundo falsário e superficial de hoje. A falácia, meu amigos, neste mundo é a lei. Bebendo, a veracidade de minhas palavras alcançava um tom insultante, como eu bebia demais, falava verdades demais. Insultava demais, sobretudo. Principalmente os seres sem vida, que, nas minhas costas, me chamavam de mentiroso por conta das histórias que eu contava sobre a minha vida, e, mais do que qualquer outra classe, subclasse, grupo ou tribo, as pretensas feministas pseudo-moderninhas que não passavam de Paradoxais Tias Velhas Fantasiadas de Amelie Polain. Recife é uma Sodoma com ares reacionários. Já em relação à acusação de eu dar em cima das amigas dos outros, nunca fui de dar em cima de ninguém. Além disso, mesmo que eu fosse do tipo que dá em cima, a chance da garotar ser amiga de alguém seria de quase 100%, a não ser que esta fosse uma sociopata. A verdade é que eu nunca fui de ficar com uma pessoa sem passar um tempo conhecendo-a. Além de eu nunca ter sido o tipo que se dá bem em baladas, a minha higiene é algo que eu preservava. Sou, em suma, um Menino Dionisíaco de Família. O que percebo é que minha Amada Lésbica Medrosa está diferente, está preocupada com a pessoa que sou e, se está preocupada, obviamente existe uma grande possibilidade de estar interessada. Ligo para ela e pergunto o que sente. Nesse momento ela demonstra gostar de mim e ter vontade de ficar comigo pela primeira vez desde que tínhamos nos conhecido. Isso salva a minha noite. Talvez isso salve a minha vida. No dia seguinte eu a encontro, vamos ao local do primeiro beijo, conversamos um pouco e ela me diz algo que eu nunca esperava ouvir, não direi agora a tal frase dita por ela por uma questão de suspense misturado a maldade (ou seja, foi forte!). Depois da frase que ela me diz, torna-se impossível eu não agir. Eu a beijo instantaneamente, novamente ela reclama do meu beijo. Não mais por ser algo que não deveria estar acontecendo, mas apenas por

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ela achar que eu não sabia beijá-la da forma que ela mais gostava. A verdade é que essa tal reclamação acerca do meu beijo duraria por mais ou menos um mês a partir dali. Poderia, ela, reclamar por mais um século e, ainda assim, eu estaria feliz. Eu estou feliz, na verdade, eu nunca estive tão feliz em minha vida. Ela está me beijando, ela está feliz em me beijar, feliz por estar ali. Chega o fim da noite, ela deixa claro que não quer que os seus pais nem seus amigos saibam o que está acontecendo. Eu aceito a sua decisão/condição. Peço-lhe em namoro nesse mesmo dia. Ela dá um sorriso debochado e diz que, naquele momento, não quer namorar comigo. Faço-lhe um confronto com aquilo que ela havia dito dias antes, que não era menina de ficar, e sim, de namorar. Ela retruca dizendo que não estamos ficando, que estamos juntos, mas não estamos namorando. Não me importo, por enquanto, com a definição do que há entre nós. No amor, basta uma noite para fazer de um homem um deus! E eu, ali, diante de patos, gansos (nenhum deles, jogadores de futebol), casais sarrando e trepando atrás dos arbustos, era um deus. Pelo menos estava tomado por um: Eros.

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em dúvida, uma espécie de sonho vai se realizando. Vão passandose os dias, nossos fins de tarde são regados por abraços, beijos, sorrisos e por minha luta para acariciar as partes mais íntimas de seu franzino corpo e de sua ainda amedrontada alma. Por minha luta para fazer com que o seu corpo sentisse vontade de ter o meu. Que sua alma tivesse vontade de querer a minha. Tudo isso era uma missão árdua. Na questão física, eu me sentia numa novela de época, onde eu não podia tocar acima dos joelhos. Já na questão existencial, suas relações anteriores haviam sido catastróficas em seus términos e a última havia deixado-a numa enorme depressão. O resultado disso tudo era um medo que servia como uma máscara através da qual os seus sentimentos de liberdade e coragem eram reprimidos. Suicídio social, disso eu entendia bem. Devido às minhas ações invasivas em relação ao desbravamento de seu corpo, a todo o momento eu escutava um aviso de “comporte-se” vindo do Meu Amor, “olha essa mão” e “você não tem jeito” eram as variações de suas frases que tentavam chamar a minha atenção e impedir, ou pelo menos adiar, os meus avanços. Sem sucesso. O fato é que eu sou um tarado, mas ela ainda não sabe disso. Ao falar que eu teria que passar um bom tempo sem sexo, já que ela não faria comigo nem tão cedo, eu dizia que não me importava, que eu não era tão ligado assim a pratica sexual. Uma mentirinha saudável. Não menti, apenas omiti uma verdade que poderia ser fatalmente assustadora. Acontece que eu sou da Honorável Turma do Michael Douglas. Sou, patologicamente, viciado em sexo. E quando digo isso falo sério. Sustento um Rebanho Sexual Limpo, desde que meu casamento acabou, para não enlouquecer. Antes de beijar minha Alvi-lésbica, inclusive, eu estava transava com uma garota do curso de história e uma psicóloga recém-formada para

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ficar calmo. O fato é que sou doente, tal qual um usuário de crack. Preciso me masturbar duas vezes antes de sair de casa para não ser um homem perigoso para as mulheres. É claro que não vou dizer isso para ela, não agora. Na verdade, ela vai constatar isso com a maior naturalidade do mundo. Talvez até goste, caso ela seja muito ligada ao ato sexual, mas é cedo. Ainda é cedo. Com o passar do tempo, as coisas no aspecto ontológico vão avançando. Numa das nossas conversas, ela me pergunta se eu já havia sentido frio na barriga com algo relacionado a ela. Quanta ingenuidade... a pergunta deveria ser se eu já não havia sentido frio na barriga quando o assunto era ela. Cada e-mail, cada mensagem, cada ligação, cada olhar, cada palavra vinda de sua boca, cada abraço, cada beijo na boca, cada segundo ao seu lado me dava um frio na barriga, cada flato administrado de maneira silenciosa para que ela não percebesse, enfim, todo momento com ela era como uma virada de jogo milimétrica à frente da defesa, daquelas que o adversário não rouba a bola por um centésimo de segundo, mas que abre a defesa adversária, clareia o campo de ataque e se transforma numa chance de gol. Pergunto-lhe o mesmo, se ela já havia sentido um frio na barriga comigo. Ela responde que sim. Pergunto-lhe qual havia sido a última vez. Ela me responde que tinha sido quando eu havia respondido que sim à sua pergunta. É... de boba ela passa a demonstrar que não possui absolutamente nada. A verdade é que é muito gostoso ficar sentado ou deitado à beira do laguinho da universidade, junto com ela, conversando, fazendo carinho, brincando, dando concretude às formas das nuvens, beijando sua boca e ainda sendo criticado por não saber beijá-la da forma que ela gosta. “Mais lábios e menos língua”, assim ela diz do alto da sua irresistível, inconsciente e apaixonante arrogância! Como se ela beijasse bem. Mas quem essa guria acha que é? Ninguém nunca reclamou do meu

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beijo, pelo contrário, algumas não gostavam mais de mim, mas não deixavam de querer me beijar e de transar comigo. Meu rebanho, por sinal, tem, pelo menos, umas três ou quatro ex-namoradas ou ficantes sérias. Quem, definitivamente, essa moça acha que é? Só falta agora transarmos e ela vir falar que eu não sei fazer direito também. Quem diabos essa garota acha que é? Eu, relutante porém feliz, respondo: ela é a mulher da minha vida! Acabo por aceitar o fato de que somos, em certos aspectos, parecidos. Somos duas pessoas traumatizadas, cheias de medo, completamente deslocadas no mundo onde fomos jogados, a esmo, nos (e dos) ventres de nossas respectivas mães. Mas eu sou um doente mental, ou seja, uma pessoa que tentava ser racionalista, mas que não passava de um apaixonado por acreditar que a vida sem paixões era como um rei sem súditos. Eu vivia na contramão do mundo, tal qual os amantes do Futebol-arte vendo uma Itália campeã mundial, na Copa de 2006. Eu não passo de um louco fora de moda. Eu sou estranho, mas não sou bonito para as mulheres, tal como ela é linda para alguns homens (e para todas as mulheres, por sinal), sou cheio de defeitos e nem sei se quero corrigi-los. Quero, porém, ser alguém melhor para que possamos viver nosso amor de uma forma cada vez melhor, mas tenho medo. Medo de ela dar-se conta de que não há nada em comum entre nós dois que, aparentemente, seja capaz de mover as tais Íngremes Montanhas do Sofrimento, do Medo e da Dor. Quero que ela perceba que ela é o meu pedaço de Sol, meu pedaço de sonho reluzente que, sem perceber, enfrenta as trevas com um sorriso que é raio de Sol, que é raio de vida que dá vida à minha vida tão triste, pois eu andava tão só, eu andava tão negro que não via que a Lua era a minha amiga, pois reflete o Sol, reflete o seu sorriso, no qual

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eu coloco a esperança de não ser mais só... e de ser mais Sol... e de ser mais... e eu hei de ser mais! Mas ainda tenho medo! Medo de que ela perceba que não passo de um merda cheio de pose. Tenho medo de demonstrar minhas fraquezas num avanço rápido e, assim, ela perceber o quanto sou indefeso. O quanto o meu poder de ataque é um disfarce para esconder a minha defesa completamente incompetente. Como sou um São Caetano, na Taça João Havelange de 2000. Definitivamente, estou com medo de avançar demais o meu time e receber um contraataque fulminante. O gol da derrota.

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ns dias se passam e o que acontece é que, depois de alguns momentos um pouco mais quentes ali mesmo no tal laguinho, façolhe uma proposta atrevida. Convido-a para irmos num motel, para ficarmos mais à vontade. Ela, inicialmente (e quase chocada), rejeita a proposta. Minha “Estante” (à la meu amigo Biagio Pecorelli) diz que sua mãe falava que motéis eram muito perigosos (é verdade, corre-se um perigo enorme de acontecer uma relação sexual entre duas pessoas quando elas estão dentro do quarto de um) e que não era o momento de termos tanta intimidade. Peço para que ela confie em mim, apenas isso. Depois de muita relutância por parte dela e insistência de minha parte, ela aceita a minha proposta. Contudo, deixa bem claro que nada pode sair do controle dela, caso contrário ela perderia a confiança em mim. Definitivamente perder a sua confiança estava fora de meus singelos, porém apimentados, planos. Pensamos em como resolver um complicador para esse momento. Ela ganhou um carro dos pais, mas ainda não tirou a carteira de motorista. No caso, ela tem um motorista próprio. Regalias de uma mocinha da Zona Sul. Ela, obviamente, tem de dispensar o tal motorista para que possamos ir ao motel sem riscos de sermos vistos por ele, que mora perto da universidade e, também, do motel onde iremos. Na verdade, o tempo todo nos disfarçamos de bons amigos. Na verdade, por mais de uma vez, tive de fingir ser o seu amigo-gay, tudo isso para que a notícia não se espalhasse e chegasse aos ouvidos de seus pais. Pegamos, então, um ônibus. Descemos na esquina de um motel próximo à universidade, barato, porém limpo. Pegamos um táxi, damos uns cinco Reais para o motorista e entramos no estabelecimento.

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É sempre engraçado ver uma pessoa descobrindo um local novo, passando por uma nova experiência. Ela vistoria cada pedacinho do ambiente, me pergunta umas dez vezes se lá é um local seguro. Asseguro que sim. Peço para que ela confie em mim, para que fique tranquila, para que ela relaxe e aproveite o momento. Aproveite meus beijos e abraços. É claro que algumas coisas saem um pouco do controle dela, mas nada de anormal, nada que a faça perder a confiança em mim. Nada, sobretudo, que ela não goste. Exceto minha ausência de seios. Sim, ela foi bem direta no comentário, ela estava incomodada por eu não ter um par de peitões. Graças a Deus, com sua confiança intacta, vamos outra vez, para outro motel, onde repetimos a dose com um pouco mais de calor. O desbravamento vai acontecendo aos poucos, nossos corpos vão se conhecendo gradativamente, vão se apaixonando pouco a pouco. Vão descobrindo-se um do outro a cada aproximação, a cada toque, a cada fricção. Ela torna-se o único caso, em minha história, de uma mulher com quem vou a um motel e não faz sexo comigo. E isso não me perturba de forma alguma. Mas sinto que A Hora aproxima-se. Quero fazer com que a nossa relação suba um degrau. Não que eu esteja cansado da Second Base, é divertido, mas tenho ovos e eles doem após cada momento de quase alguma coisa. Apesar de eu não aceitar ir a sua casa, decido convidá-la para ir à minha. Quero cozinhar para ela, quero fazer uma boa massagem nela, quero, sobretudo, fazer o que fazemos nos Motéis da Vida, sem ter que gastar uma grana para isso. Eis que chegamos, depois de uma verdadeira odisséia, à minha humilde residência. Na verdade, eu moro numa casa enorme, com três andares, mas que, como fica localizada longe do centro, perde um pouco de valor. Preparo um fettuccine ao molho rosè, não fica tão bom quanto eu queria, faltavam alguns ingredientes e além de tudo eu

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estava com pressa para irmos ao meu quarto, onde o prato principal da tarde seria servido. Fazemos tudo daquela forma quase adolescente, vamos avançando e chega a um ponto em que só falta ela tirar a calcinha e me deixar adentrar seu corpo. Sinto o medo surgindo nesse momento. Não a vi nua até agora, ela se preserva o tempo todo, não deixa nada sair do controle, absolutamente nada, o que, para mim era estranho, já que eu nunca fui de respeitar um “não” vindo de uma mulher seminua. Chega a hora de irmos embora e ela pergunta se pode tomar um banho. Eu respondo que sim. Espero ela fazer xixi, momento em que ela não suporta ser vista por ninguém, inclusive ela tem dificuldade de fazer suas necessidades fora de casa. Na primeira vez que fomos ao cinema juntos, inclusive, ela foi embora mais cedo para casa pelo fato de que ela precisava fazer xixi. Mais uma coisa estranha nessa moça estranha. Enfim, ela termina de mijar e eu entro no banheiro. Ela pede para que eu apague as luzes, ela tem vergonha de ser vista nua. Eu desligo, abro um pouco a porta do banheiro do meu quarto, deixo a cena à meia-luz. Tomamos nosso primeiro banho juntos. Em certo momento, ela pega em meu pênis, começa a massageá-lo, pergunta se está fazendo do jeito certo. Não, ela não está fazendo, mas é ela, não importa se está fazendo certo ou não, o toque dela é meu sonho realizando-se. Vinte minutos depois, eu gozo de uma forma que eu nunca havia gozado antes. Segurei minha vontade de urrar para não assustá-la. Se eu fosse uma mulher eu teria dito que foi um orgasmo múltiplo, mas foi o meu primeiro orgasmo com uma pessoa que eu amo. Depois disso eu a ataquei, me abaixei, abri suas pernas e caí de boca naquela vagina que chegou a me assustar de tão carnuda. Pensei, por um centésimo de segundo, na possibilidade dela ser uma transexual que havia esquecido de tirar alguma coisa. Enfim, o fato era que ela tinha uma xoxota recheadíssima e que eu adorei chupar. Coisa rara, visto que eu não sou muito adepto do sexo oral assim, logo de cara.

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Ela se assusta no começo, mas já era tarde. Reparei, porém, que ela era estranha até na vagina, os locais onde eu trazia prazer a todas as mulheres que eu chupara até então pareciam ineficazes nela. Ela dizia sentir agonia quando eu tocava com meus lábios e língua nos tais locais. Depois do nosso “banho”, chegou a hora de irmos embora, e fomos. Não sem antes brincarmos um pouco mais em minha cama. Cada segundo é precioso nesse encontro de almas, cada segundo é a realização de um sonho, é a realização do destino que, talvez mais do que nós mesmos, nos quer juntos. Ele, o destino, nos quer ali, semi-nus, abraçados, trocando nossas energias, gastando-as, fazendo de um momento que para muitos não passa de uma mera necessidade fisiológica, na cena mais linda que alguém poderia ver. Graças a Deus, ninguém pode ver. O que acontecia ali era mais do que o encontro de um homem e uma mulher, um apaixonado pelo outro, mas o envolvimento de duas almas que antes estavam completamente bloqueadas para uma relação a dois. Éramos duas almas milenares que haviam se perdido durante as suas vidas passadas e, ali, encontravam-se novamente para viver o amor que estava guardado para ambos. Eram dois seres amorosamente traumatizados, encontrando a cura para os seus medos numa cama, na busca por uma sintonia, sem penetração, fazendo amor “apenas” com as suas almas. Durante essa época, ela avisa que é muito fácil magoá-la. Que devo tomar muito cuidado com ela. Como eu não tomaria? Quanto mais ela me parece delicada, mais cuidado eu tomo, e ela é apaixonantemente delicada, é a mulher mais linda desse universo, é aquela que, sem a qual, a vida é nada, sem a qual se quer morrer, tal como Vinícius de Moraes cantarolava para uma de suas tantas mulheres. Era óbvio que a recíproca também havia de ser verdadeira. Ela deveria, também, tomar cuidado com o que eu estava, desde aquele

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primeiro dia, na sala de aula da faculdade, oferecendo para ela: meu corpo, minha mente e minha alma. Faço-lhe um novo pedido de namoro. Pedido novamente negado. Já estamos namorando e isso é bem claro. Eu me acho ridículo fazendo mais um pedido, mas é o que minha alma me manda fazer. Ela diz para eu ter calma, para aproveitar esse momento que, de qualquer forma, está sendo marcante para ambos. Ela diz que está muito feliz e que, se não fosse eu, estaria indo com o pai para o interior de Alagoas, onde ele trabalha, pois até eu aparecer sentia-se triste. Ela me pergunta se eu a deixaria fazer minha primeira tatuagem. Respondo que sim, que não me importo, sequer, se ela ficará boa, mas que confiava nela para a missão. A verdade é que ela já tinha me feito uma tatuagem. Neste caso, ela havia sido feita em minha alma. Nossos momentos ficavam cada vez mais sublimes, estávamos nos tornando cada vez mais um par, de fato. Na verdade, o meu time havia se transformado em nosso time. Éramos duas pessoas em busca, feliz, da felicidade. Definitivamente, eu adoto essa menina. Farei com que sua sina seja (relativamente) casta e (imensuravelmente) alegre, já que sua mansidão me azucrina, desatina, mas cura a minha febre com esse seu beijo doce. Proibido é proibir que seu cheiro me invada, que seu sorriso me ilumine, ou que seu beijo aumente, terminantemente, a minha taxa de glicose. Pois ela invadiu o meu mundo, que era imundo, e outro logo se tornou, passando a ser habitável, e potável a água de meu espírito se transformou. Ela surgiu em minha vista, e tão imprevista era essa sua aparição, vindo quando parecia tarde e agora arde novamente uma paixão. O fato é que não tínhamos com o que nos preocupar, mesmo que estivéssemos completamente preparados, a certeza da vitória era plena, pois, por conta da força das paixões, somos muitas vezes firmes

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por fraqueza e audaciosos por timidez. Estamos felizes, somos mais do que um mero casal. Somos, mais do que nunca, uma equipe de ponta, que está apresentando um futebol bonito e vistoso. Os amistosos e as eliminatórias já haviam terminado. Passamos por ambas com dificuldades, mas vencedores. Este amor, todavia, tem de estar preparado, pois o torneio de verdade está prestes a começar.

Amor de Mordaça.
Um romance pseudo-beat.

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