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Esta obra foi publicada originalmente em inglês com o título PHILOSOPHICAL RUDIMENTS CONCERNING GOVERNMENT AND SOCIETY. Copyright @ Livraria Martins Fontes Editora Ltda., São Paulo, 1992, para a presente edição.

Sumário

2" edição
janeiro de 1998 Tradução, apresentação e notas RENATO JANINE RIBEIRO A edição desta obra foi coordenada por Roberto Leal Ferreira. Revisão gráfica Ana Luiza França Produção gráfica Geraldo Alves Paginação/Fotolitos Studio 3 Desenvolvimento Editorial Capa Katia Harumi Terasaka

Apresentação............................................................................. XXI Cronologia ......................................................................... XXXVII Epístola dedicatória ....................................................................... 3 Prefácio do autor ao leitor............................................................. 9

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Hobbes, Thomas, 1588-1679. Do cidadão 1 Thomas Hobbes ; [tradução, apresentação e notas Renato Janine Ribeiro; coordenação Roberto Leal Ferreira]. - 2' ed. - São Paulo: Martins Fontes, 1998. (Clássicos)

Parte I LIBERDADE I - DA CONDIÇÃO HUMANA FORA DA SOCIEDADE CIVIL .............................................................................. .

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Título original: Philosophical rudiments conceming govemment and society. ISBN 85-336-0755-5 1. Autoridade 2. Direito natural 3. Política I. Ribeiro, Renato Janine. 11. Ferreira, Roberto Leal. m. Título. IV. Série. 97-4137 Índices para catálogo sistemático: 1. Ciência política 320
Todos os direitos para o Brasil reservados à livraria Martins Fonks EdiJ.ora lida. Rua Conselheiro Ramalho, 3301340 01325-000 São Paulo SP Brasil Te!. (011) 239-3677 Fax (011) 605-6867 e-mail: info@martinsfontes.com http://www.martinsfontes.com

CDD-320

1. Introdução.- 2. Que o começo da sociedade civil provém do medo recíproco. - 3. Que por natureza todos os homens são iguais. - 4. De onde provém a vontade de causar dano a outrem. - 5. A discórdia nasce da comparação das vontades. - 6. E do apetite que muitos têm pela mesma coisa. 7. Definição de direito. - 8. O direito ao fim confere direito aos meios necessários para aquele fim. - 9. Pelo direito de natureza, todo homem é juiz dos meios que tendem a sua própria conservação. - 10. Todos têm, por natureza, igual direito a todas as coisas. - 11. Mas esse direito de todos a tudo é inútil. - 12. O estado dos homens fora da sociedade civil é um simples estado de guerra: definição de guerra e

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de paz. - 13. A guerra é adversa à conservação do homem. - 14. É legal qualquer homem, pelo direito natural, compelir outro, a quem ele tomou em seu poder, a dar-lhe garantias de que lhe prestará obediência no futuro. - 15. A natureza dita a busca da paz.

juramento deve ser vazado na mesma fórmula que costuma empregar quem o presta. - 22. Um juramento nada acrescenta à obrigação já instituída pelo pacto. - 23. Não se deve exigir juramento, exceto quando a violação dos pactos possa ficar oculta, ou só possa ser punida por Deus mesmo. III - DAS OUTRAS LEIS DE NATUREZA .......................

11 - DA LEI DE NATIJREZA ACERCA DOS 37 CONTRATOS 1. A lei de natureza não é um consenso dos homens, porém o ditame da razão. - 2. A lei fundamental de natureza consiste em procurar a paz, onde ela possa ser alcançada, e quando isso não for possível, em nos defendermos. - 3. A primeira lei especial de natureza é que não devemos conservar nosso direito a todas as coisas. - 4. O que é renunciar a seu direito; o que é transferi-lo. - 5. Para transferir o nosso direito, é requisito necessário a aceitação de quem o recebe. - 6. Somente palavras no tempo presente transferem um direito. - 7. Se houver outros sinais que expressem a vonta de, as palavras no futuro são validadas para transferir o direito. - 8. Na doação gratuita, não transferimos nosso direito mediante palavras no futuro. - 9. Definição de contrato e de pacto C"compact"). - 10. Nos pactos, transferimos o direito mediante palavras que se referem ao futuro. - 11. Os pactos de fé recíproca são nulos e inúteis no estado de natureza, mas não dentro do estado civil. - 12. Ninguém pode firmar pacto com animais, nem, se não houver uma revelação, com Deus. 13. Nem tampouco fazer um voto a Deus. - 14. Os pactos não obrigam além de nosso máximo esforço. - 15. Por que meios nos liberamos dos pactos por nós firmados. - 16. São válidas, no estado de natureza, as promessas extorquidas por medo de morte. - 17. Não tem validade o pacto posterior que contradiga um anterior. - 18. Não tem validade um pacto de não resistir a quem venha prejudicar o meu corpo. -19. É inválido um pacto para acusar~se a si próprio. - 20. Definição de juramento. - 21. O

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1. A segunda lei de natureza manda cumprir os contratos. - 2. Devemos respeitar a palavra dada ("trust") a quem quer que seja, sem exceção. - 3. O que é injúria. - 4. A ninguém se faz injúria, exceto àqueles com quem contratamos. - 5. A distinção entre justiça das pessoas e das ações. - 6. A distinção entre justiça comutativa e justiça distributiva. - 7. Não se comete injúria contra aquele que a quer receber. - 8. A terceira lei de natureza, a respeito da ingratidão. - 9. Quarta lei de natureza: que todo homem se torne útil aos demais. - 10. A quinta lei: misericórdia. - 11. A sexta lei, para que os castigos considerem apenas o futuro. - 12. A sétima lei, que proíbe insultos. 13. A oitava lei, contra a arrogância. - 14. A nona lei, que ordena a humildade. - 15. A décima, que determina a eqüidade, e condena fazer acepção de pessoas. - 16. A décima primeira, sobre as coisas a serem havidas em comum. - 17. A décima segunda, sobre as coisas a serem divididas por sorteio. - 18. A décima terceira, sobre o direito de nascença e a primeira posse dos bens. - 19. A décima quarta, sobre a salvaguarda daqueles que sejam mediadores de paz. - 20. A décima quinta, sobre a constituição de um árbitro. 21. A décima sexta: que ninguém seja juiz em causa própria. - 22. A décima sétima: que os árbitros não tenham nenhuma expectativa de receber recompensas por parte daqueles cuja causa vão julgar. 23. A décima oitava, sobre as testemunhas. - 24. A décima nona: que não se façam contratos com o árbitro. - 25. A

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vigésima, contra a gula ("gluttony"), e todas aquelas coisas que impedem o uso da razão. - 26. A regra pela qual podemos prontamente conhecer se o que fazemos segue, ou infringe, a lei de natureza. - 27. As leis de natureza obrigam apenas no tribunal de consciência. - 28. As leis de natureza às vezes são violadas por ações cometidas dentro da lei. - 29. As leis de natureza são imutáveis. - 30. É justo todo aquele que se esforça por seguir as leis de natureza. - 31. A lei natural e a lei moral são uma só. - 32. Por que o que dissemos das leis de natureza não coincide com o que os filósofos afirmaram a propósito das virtudes. - 33. A lei de natureza não é propriamente lei, salvo na medida em que é expressa nas Sagradas Escrituras. tro. - 17. E também da décima sétima lei, que proíbe os árbitros de receberem paga pelas suas sentenças. - 18. E também da décima oitava lei, que requer testemunhas. 19. E também da vigésima lei, contra a embriaguez. - 20. E também quanto a ser eterna, como dissemos, a lei de natureza. 21. E também que as leis de natureza competem à consciência. 22. E, ainda, que as leis de natureza são fáceis de observar. - 23. Finalmente, uma regra para saber imediatamente se o que se vai praticar está conforme ou não à lei de natureza. - 24. A lei de Cristo é a lei da natureza.

IV - QUE A LEI DE NATUREZA É LEI DIVINA .................... 75 1. A lei natural e moral é divina. - 2. O que é confirmado pela Escritura de modo geral. - 3. E em especial no tocante à lei fundamental de natureza que manda buscar a paz. - 4. E também quanto à primeira lei de natureza, ao pôr fim à posse em comum de todas as coisas. - 5. E também quanto à segunda lei de natureza, que manda manter a fé que foi dada. - 6. E quanto à terceira lei, da gratidão. - 7. E também sobre a quarta lei, que nos manda sermos úteis aos outros. - 8. E ainda, no tocante à quinta lei, da misericórdia. - 9. E também, quanto à sexta lei, que manda nos castigos considerar-se apenas o futuro. - 10. E o mesmo quanto à sétima lei, acerca da difamação. - 11. E igual mente quanto à oitava lei, que proíbe a arrogância. - 12. E também sobre a nona lei, da eqüidade. - 13. E também sobre a décima lei, contra a acepção de pessoas. - 14. E também da undécima lei, que manda ter em comum aquelas coisas que não podem ser divididas. - 15. E também da décima segunda lei, sobre as coisas que devem ser divididas mediante sorteio. - 16. E da escolha de um árbi

Parte II DOMÍNIO V - DAS CAUSAS E DA ORIGEM PRIMEIRA DO GO VERNO CIVIL..........................................................

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1. As leis de natureza não bastam para preservar a paz. - 2. As leis de natureza, no estado de natureza, silenciam. - 3. Para se ter certeza de viver conforme as leis de natureza, depende-se da concórdia de muitas pessoas. - 4. A concórdia de muitas pessoas não é constante o suficiente para assegurar uma paz duradoura. - 5. Por que razão o governo de certas criaturas animais está suficientemente fundado na mera concórdia, e por que isso não basta para o governo dos homens. - 6. Não basta o consentimento, é preciso também a união, para estabelecer a paz entre os homens. 7. O que é a união. - 8. Na união, o direito de todos os homens é transferido a um só. - 9. O que é a sociedade civil. - 10. O que é uma pessoa civil. - 11. O que é ter o poder supremo, e o que é ser súdito. - 12. Duas espécies de cidade, natural e por instituição.

S.13.20. A opinião dos que desejariam constituir uma cidade em que ninguém tivesse o poder supremo. As leis da cidade não obrigam o governante. indivíduos contratam com indivíduos que todos obedeçam ao povo. e qual medida de obediência eles lhe devem. .16. É inconcebível que um monarca.. ou então se deve confiar a al guém a administração do governo durante tais recessos. Na democracia os intervalos entre as datas de reunião devem ser curtos..1S. SEJA UM ÚNICO HOMEM .. SEJA UM CONSELHO.2. . E também o exame das doutrinas. Através de que atos se constitui a monarquia. .1S. .. e quem é culpado por ele.I VI . . . . Que o poder que seus cidadãos lhe concederam é absolu to. A uma multidão fora da sociedade civil não se pode atribuir direito algum... A oligarquia não é uma forma de governo distinta da aristocracia. . A democracia se dissolve.... .. .6.. A monarquia é sempre o governo mais prontamente capacitado a exercer todos aqueles atos que são requisito para o bom governo.. Ninguém pode alegar ser proprietário de algo contra a vontade do governante supremo.15.6.3. aristocracia e monarquia.. Todo homem detém um direito de se proteger a si mesmo em consonância com seu próprio livre-arbítrio ("free will"). ..10... O gládio da justiça pertence a quem possui o mando supremo.11..DO DIREITO DE QUEM DETÉM O PODER SUPREMO NA CIDADE. Somente pelas leis da cidade é que conhecemos o que são o roubo... Que gênero de pecado se comete. quando a cidade não cumpre seu ofício ante os cidadãos. Se compararmos uma cidade a um homem..16.5. -15.2...7. As marcas da autoridade suprema..19...4. Igualmente é dele o poder de legislar...119 1. sem renunciar a seu direito ao governo.. A fundação de uma cidade começa no direito de um grande número de pessoas que consentem.. É preciso que os nobres tenham fixado previamente as datas e locais de suas reu niões. . A ele também pertence o gládio da guerra.. possa fazer a promessa de abandonar o seu direito aos meios necessários para o exercício de sua autoridade.. 10. . . nem qualquer ação a que cada um não tenha especificamente consentido... Em que consiste o gládio da justiça. . O que quer que ele faça não é passível de punição. Na aristocracia os nobres não firmam pacto algum. . e a anarquia não é forma alguma de governo. composta dessas várias espécies. -12. quem tem o poder supremo estará para a cidade como a alma humana está para o ho mem. nem se obrigam para com nenhum cidadão nem para com o povo inteiro. Um monarca escolhido sem limitação de tempo tem o poder de escolher seu sucessor.......DOS TRÊs TIPOS DE GOVERNO: DEMOCRA CIA. ARISTOCRACIA E MONARQUIA .13.9. . .9. Nenhum pacto obriga a monarquia em relação a ninguém pela autoridade que ela recebeu. enquanto não se der considera ção suficiente à sua segurança. .. . Compete a ele a nomeação dos magistrados e de outros altos funcionários da cidade.14. Na democracia.101 1.. VII . se não forem previamente fixados locais e datas para reunir-se a assembléia.17. . .. . . . Toda a judicatura é também só dele.11. o adul tério e a injúria. Não pode haver uma forma mista de governo ("a mixed state")...17.3. Sobre os monarcas limitados.. ou os cidadãos ante a cidade. . ...14.. 7.4.. . ... e o povo não tem obrigação para com ninguém. o homicídio. . O poder supremo não pode ser legalmente ("by right") dissolvido pela mera vontade ("consents") dos que inicialmente contrataram a sua constituição.5.. Há três formas de governo apenas: democracia..... ... Um poder coercitivo é requisito para dar-nos segurança. 12. ...S. A tirania não é uma forma de governo que se distinga da monarquia... Através de que atos se constitui a aristocracia... Como um cidadão é libertado de sua sujeição.

....19.. 135 1........... . ..... . ..... . . . A liberdade dos súditos individuais não é menor sob um monarca do que quando governa o povo.. os filhos são da mãe... questão do direito de sucessão cabe apenas na monarquia..... também se sucede ao direito de sucessão....... A obrigação do servo decorre da liberdade corpórea a ele conferida por seu senhor.....15.DO DIREITO DOS PAIS SOBRE OS FILHOS E DO GOVERNO HEREDITÁRIO ... O domínio sobre a criança é.. -14. ....12. .4.2.5... e. Numa união sexual em que nenhum tenha autoridade sobre o outro... na me IX ........15.. Um governo hereditário tem o mesmo direito sobre seus súditos que um governo instituído. .. . 13..12.. O domínio paterno não decorre da geração.....7. . Não é possível o senhor cometer injúria contra seu servo. ... 11. .....8.... ..5.. O domínio sobre os animais decorre do direito de natureza. Esses inconvenientes são intrínsecos à democracia..155 1.4........6.. CONFORME OS INCONVENIENTES DE CADA UMA ..2... Os filhos não estão menos sujeitos a seus pais do que os servos aos senhores e os súditos aos prínci pes...7.10... A distinção entre os servos que gozam de sua liberdade natural. e devido à eloqüência. ..... o servo não é proprietário de seus bens........9. para os súditos..... 5. . e devido a não se guardar sigilo.. .... e devido à instabilidade das leis... Da mesma forma que se sucede ao poder.. ou escravos..6. Um monarca pode dispor da autoridade suprema por testamento...... O domínio sobre as crianças pertence àquele ou àquela que primeiro as teve em seu poder.. originalmente.. O senhor pode vender ou testar o seu servo.DOS DIREITOS DOS SENHORES SOBRE SEUS SERVOS .. ...4.17. e aqueles.... Se alguém éfilho de um casal dos quais um é súdito e outro soberano. ..I I VIII .. Não se pode dizer que o governo de um seja menos razoável porque nele um tenha mais poder que todos os demais...... ...... ou vendê-Ia.. .. ... e que este fosse um de seus filhos.. .. -13.... a não ser que um pacto ou a lei civil determinem de outro modo.14. .3.. o fato de não serem admitidos todos eles à deliberação pública.10. ... por terem a confiança de seus senhores.11.3...... Por que meios se liberta o servo. .COMPARAÇÃO ENTRE AS TRÊS ESPÉCIES DE GOVERNO.. Perante o senhor.9... devido à inexperiência da maior parte dos homens..6... ....... As exaçoes são mais intoleráveis num Estado popular do que numa monarquia. .. As vantagens e inconveniências são as mesmas para o governante e os governados.. Os súditos inocentes estão menos expostos a ser penalizados na monarquia do que quando o povo governa.... ..7. . Em que consiste a liberdade. . -10.8....... .. Elogio da monarquia.143 1. .16. ..8.. a criança pertence àquele (seja homem ou mulher) que possui a autoridade suprema. .. Da honra devida aos pais e aos senhores.... ...9.18. x . Um monarca que faleça sem testamento supõe-se que desejasse ser sucedido por outro monarca... A . . que servem acorrentados ou presos. e pelo mais velho antes do mais novo.. da mãe. É infeliz confiar as deliberações políticas às grandes assembléias. . A criança abandonada é da pessoa de quem ela recebe a preservação.. por seu irmão antes de quaisquer outras pessoas. se não tiver filhos.. Refutação da tese dos que dizem que a soma de um senhor com seus servos não basta para formar uma cidade.. Não constitui uma desvantagem.... e por um varão antes de uma mulher....3... ou dá-Ia. O servo que esteja a ferros não está preso por nenhum pacto ao seu senhor. e qual a diferença entre os súditos e os servos.. O senhor do senhor é igualmente senhor dos servos deste.. .. o que significam senhor e servo. '" e devido ao facciosismo. ... ..2. .. Comparação do estado de natureza com o civil.

guarnições e dinheiro já em tempo de paz. .DAS CAUSAS INTERNAS QUE TENDEM À DIS SOLUÇÃO DO GOVERNO. Que servos e filhos devem. Como a loucura do vulgo e a eloquência dos ambiciosos concorrem para a destruição da república. O direito à autoridade suprema distingue-se de seu exercício. É sediciosa a opinião segundo a qual o tiranicídio é legal. e muito.. . É sediciosa a opinião segundo a qual cada súdito tem propriedade ou domínio absoluto de seus bens.181 1. ..5. Uma difícil questão: se é dever dos príncipes cuidar da salvação das almas de seus súditos.. . ..7. O poder dos generais é um sinal evidente da excelência da monarquia.... E o mesmo faz a esperança de sucesso.. ..17.. não há governo.. 11..3. . . As leis não devem determinar mais do que for exigido .... Manda a eqüidade natural que os impostos sejam cobrados segun do o que cada um gasta... .10.. do Novo e do Antigo Testamento.. a seus senhores e pais.6. por mais justa e necessária que seja. A segurança do povo é a suprema lei. ...PASSAGENS E EXEMPLOS DAS ESCRITURAS EM QUE SE CONFIRMA O QUE ANTES SE DISSE SOBRE OS DIREITOS DO GOVERNO .... Uma igual repartição dos encargos públicos contribui. dispor de soldados. É sediciosa a opinião segundo a qual a fé e a santidade não se adquirem através do estudo e da razão.T dida em que os homens naturalmente sentem prazer quando é bem avaliado o seu espírito. É sediciosa a opinião segundo a qual o julgamento do bem e do mal pertence aos particulares. . A judicatura e as guerras dependem da vontade dos comandantes supremos. A melhor condição para um Estado é quando os súditos constituem a herança do governante..4.8.DOS DEVERES DE QUEM GOVERNA ......9. sem um poder supremo... .5. uma obediência simples..... ....4.. A eloqüência.18. . Espias são necessários à segurança do povo.7. para a preservação da paz. Desconhecer a diferença entre povo e multidão já predispõe àsedição.6. Quanto mais a aristocracia tender para a monarquia.3.... . 12.. É sediciosa a opinião segundo a qual o poder supremo pode ser dividido. .10... É sediciosa a opinião segundo a qual os súditos pecam obedecendo a seus príncipes.2. com base no consentimento do povo..6. Por segurança se entende toda a espécie de conforto... .. de armas.... Que não podem ser justamente punidos aqueles que têm a autorida de suprema... . . 2..... É sediciosa a opinião segundo a qual estão sujeitos às leis os que possuem o poder supremo. A ambição nos dispõe para a sedição.. não o interesse particular de tal ou qual homem... só anarquia. predispõe à sedição. e pior quanto mais se afastar dela. ... mas são infundidas e inspiradas sobrenaturalmente. . desprovida de sabedo ria.9.16. é a única faculdade necessária para causar sedições.. Sobre a origem do governo instituído.... .. Leis que incentivem o trabalho dos artesãos e moderem gastos ostentatórios contribuem para os súditos enriquecerem. Reprimir os ambiciosos contribui para se conservar a paz. Uma correta instrução dos súditos quanto às doutrinas políticas é mais um requisito para a conservação da paz. As passagens mais evidentes.12. ... .. XIII . .14..11. 13.4....2.. . provam a autoridade absoluta..8. Os inconvenientes num Estado que tem por rei uma criança. para a defesa do povo. XII ...... Também é necessário. Que. melhor será... Uma taxação muito grande.5. e também dissolver as facções. .3.. 15.. . não segundo o que ele possui. Em que consiste a segurança do povo. 13.197 1. 173 1... Cabe aos príncipes considerar o benefício comum de muitos. XI .. conforme julgarem melhor segundo a sua consciência. 19.... .

Com a superstição possuindo as nações estrangeiras. proíbe-se toda discussão sobre as ordens dos superiores. .. são as que enunciamos acima. em leis privadas e das gentes..16. . Definição de pecado.. As leis naturais não são leis escritas.. Em que espécie de pecado consiste o ateísmo. é preciso publicá-Ia e interpretá-Ia.5. Entre lei e pacto. Para que se conheça a lei. Como se fica sabendo quem é o legislador. mas apenas graças ao consentimento do poder supremo. . 9. Pela traição não se rompem as leis civis... . . . A diferença entre lei e conselho.13... Exposição do que se segue.DO REINO DE DEUS SOB O ANTIGO PACTO. em naturais e positivas. ... civis.17. Parte III RELIGIÃO xv . como o que manda honrar pai e mãe. .9.3.. 261 1. outro voluntário. A distinção da lei civil em escrita e não escrita. Quais são as ações pelas quais prestamos um culto natural. Diferença entre um pecado cometido por fraqueza e por maldade. . não pelo direito de domínio..4. No reino natural de Deus.19.20... Quais são as leis naturais a respeito dos atributos de Deus..5. A Escritura o confirma. É impossível a lei civil ordenar o que quer que seja contrário à lei denatu reza. e das naturais. As três vias pelas quais se apresenta a palavra de Deus: pela razâo. Nesse pacto nâo está contido o mero reconhecimento de Deus. constituem leis civis. O que no reino natural de Deus é pecado..22. A divisão das leis humanas.. e os pareceres dos juristas e o costume não constituem leis automaticamente..10. .16.. Os preceitos do Decálogo. o adultério.3.. O direito pelo qual Deus reina está fundado em sua onipotência. pelo bem do príncipe e de seus súditos. revelação e profe cia. Qual é o fim ou escopo do culto. das divinas. está anexa uma penalidade. em divinas e humanas.. . Em distributivas e punitivas. O que é honrar e cultuar..19.18. .18.. A solução para algumas dúvidas. mas pelo de guerra... e outro arbitrário. A obrigação de prestar obediência a Deus procede da fraqueza humana. mas as naturais. .. Os súditos devem receber satisfação do governante contra os juízes que se mostrarem corruptos. Distributiva e punitiva não constituem diferentes espécies de lei.DAS LEIS E DOS CRIMES ....4. ou os que proíbem o assassínio.4... em sua acepção mais ampla. A fórmula do pacto entre Deus e Abraão. 2. XVI . . 6. 239 1.. . A divisão das leis. 3. O que é traição. .5. o homem ou assembléia que abaixo de Deus tem a autoridade suprema da cidade . .. . Quando Deus reina apenas por natureza. E há um culto natural.. em sagradas e seculares. . mas partes da mesma lei... Não se deve infligir castigo maior do que o previsto na lei. .. 215 1.. Entre lei e direito. Não é correto distinguir a obediência em ativa e passiva.. . Pelo pacto entre Deus e Adão.23.6.8.. supõe-se. a cidade . . . . Deus instituiu a verdadeira religião por meio de Abraão. e o que é traição à Majestade Divina.11...17.. .. 21.. 17.2. .12..... 15.10.7. 14.11. nos capítulos 11 e m.. em seu reino natural.. mas sim o dele tal como apareceu a Abraão. -16. . O culto consiste em atributos ou ações. a cidade pode determinar o culto que quiser a Deus..8..13. ... O que significa a palavra "pecado". . . Um culto ordenado..7..12. A toda lei.15.. XIV . As leis às quais Abraão estava obri " .. Para haver lei. E portanto ela deve ser punida..DO REINO DE DEUS POR NATUREZA . . .é intérprete de todas as leis. Sobre quem se diz que Deus reina naturalmente. . . As leis de Deus..2.... .isto é. .. é essencial que sejam conhecidos tanto o seu conteúdo quanto o seu legislador.. .. O reino de Deus é duplo: natural e profético. o roubo e o falso testemunho. isto é..14.

.. A eleição dos eclesiásticos compete à Igreja.4..28. mas o de julgar a penitência é da Igreja.. Batizai-vos. . gado eram apenas as leis de natureza e a da circuncisão. .... A interpretação das Escrituras depende da autoridade política... ... Voltaram a estar unidos no sumo pontífice.. Uma cidade cristã deve interpretar as Escrituras por meio de pastores. Uma cidade cristã é o mesmo que uma Igreja cristã....... . Que leis foram dadas por Deus aos judeus...12... ... O pacto de Deus com os hebreus no monte Sinai. dade civil definir o que é o pecado de injustiça. e em perdoar pecados.... ... e ensinar todas as coisas que não sejam objeto de ciência propriamente dita.. Cabe à autori XVIII ....... O poder de interpretar a palavra de Deus e o poder supremo político estiveram unidos em Moisés enquanto ele viveu. quando preciso for. ... nas duas partes que a firmam. após o cativeiro.9..22...6. O que se considerava a palavra escrita de Deus. O reino pela nova aliança é celestial. . Diversas significações da palavra "Igreja".15. ..18.. Todas as coisas que são necessárias à salvação estão contidas na fé . .13. ..21... "..16. Jesus era o Cristo. Cabe também à autoridade civil julgar.8. Também estiveram unidos no sumo pontífice. entre os judeus.. . O ofício de Cristo consiste em ensinar a moral não como teoremas.25....20. XVII . O que é a excomunhão. Quem são os eclesiásticos. . As profecias sobre sua humilhação e paixão.. em tudo o mais.24... 10.. Junto a seus dependentes.26. . .13. O governo de Cristo neste mundo não foi soberano. . as únicas formas de traição a Deus consistiam na negação da Divina Providência e na idolatria.7.27. durante a vida de Josué.. ..16. . .. Entre os judeus.DO REINO DE DEUS SEGUNDO A NOVA ALIANÇA . que definições e que deduções são verdadeiras. . . . ações e as demais capacidades que caracterizam uma pessoa.19. e como pode ser conhecida. A objeção de que haveria contradição entre obedecer a Deus e aos homens será refutada distinguindo-se os pontos necessários e desnecessários à salvação.14. 283 1.. Arrependeivos.. .17.. Abraão era o intérprete da palavra de Deus.10.. Distinção entre coisas temporais e espirituais. Cristo não fez leis novas. Estados separa- dos não constituem uma Igreja.. e a quem não se aplica. O que é a palavra de Deus.. A palavra do intérprete legal das Sagradas Escrituras é palavra de Deus. . O que é uma Igreja.. . . mas enquanto lei. Também estiveram unidos nos reis até o cativeiro. mas um conselho: um governo por meio da doutrinação e da persuasão.17. e começará no Dia do Juízo.15. e outros preceitos semelhantes não constituem leis. Desde então o governo de Deus chamou-se o seu reino....12. 329 1. a não ser as que instituem os sacramentos.... .18.....2. mas enquanto Deus.5...... .23... 6. O reino de Deus pela nova aliança não era o reino de Cristo enquanto Cristo. . . O que são as promessas da nova aliança. e a sua consagração aos pastores.. . O poder de perdoar os pecados dos penitentes..2. Obedecei aos mandamentos. eles deviam obedecer a seus príncipes.11. .. ...8. e de reter os dos impenitentes compete aos pastores. a que atribuímos direitos.. Cabe à autoridade civil definir o que tende à paz e defesa da cidade.. . .11. Estiveram também unidos no sumo pontífice até o tempo do rei Saul.7. Nem tudo o que está contido na Sagrada Escritura pertence ao cânone da fé cristã'..DAS COISAS NECESSÁRIAS PARA ENTRAR MOS NO REINO DOS CÉUS ..3. 9.. Em quantos sentidos a palavra de Deus se pode entender.. Os súditos de Abraão não pecariam ao lhe obedecerem... e de todas as leis. . A autoridade para interpretar as Escrituras é a mesma que determina as controvérsias na fé. .14. ... As profecias sobre a dignidade de Cristo.

. . ... disse ele (que de vez em quando praguejava. que ganhava a XXI . Estando na biblioteca de um fidalgo. O que é a fé....... Por D. ao direito de domínio...que Jesus é Cristo.... .... bem como as palavras mais evidentes de Cristo e de seus apóstolos....... e na obediência. ... Que espécie de obediência se requer de nós. Apresentação I Sabemos pouco da vida de Hobbes: os fatos principais.. da ciência e da opinião.. de tal modo que afinal ele se sentiu convencido. o momento em que ele desperta.7..... ... ...3. portanto. O que é acreditar em Cristo... .... a facilidade da religião cristã.... de um enamoramento à primeira leitura.. 4. 349 Ele completou seus quarenta anos antes de se debruçar sobre a geometria . ...5. Numa cidade cristã.. o fato de ser este artigo o fundamento da fé... Notas ... . As doutrinas que hoje provocam controvérsia no campo da religião é porque na verdade se referem. Esta o remete a outra anterior..10.. que o remete a uma proposição anterior....... em sua maior parte.13. O propósito dos evangelistas prova que para a salvação é necessário apenas crer num só artigo . viu abertos os Elementos de Euclides. que ele também lê. porém quase nada de sua intimidade e mesmo de como ele trabalhava'. Nos anos que se seguem. Mas um dos momentos principais de sua vida foi imortalizado por John Aubrey. Hobbes....12.. Leu a proposição... que.. . . sim. no teorema 47 do Livro I....6..o que aconteceu por acidente. isto é impossível! Então lê a demonstração do teorema. nas Brief Lives... o que também provam as pregações dos apóstolos. que ele também lê.. Como a fé e a obediência concorrem para a salvação. .9.. ... não há contradição entre as ordens de Deus e as da cidade.11. Nesse artigo está contida a fé do Velho Testamento.. Et sic deinceps2.. para dar ênfase ao que dizia)............ pela demonstração.8.14. Isto o fez apaixonar-se pela geometria. a história de uma paixão ("This made him in love with Geometry").. para a filosofia. daquela verdade. já tarde (porque tinha quarenta anos). e como se distingue da profissão... narra o que poderíamos chamar a cena primitiva do filósofo.. .. É... .....

a Royal Society . e as da política ou de nossa psicologia. ele nem sequer é convidado para integrá-Ia (et pour cause: entre seus líderes estão inimigos seus). Na terceira. consideraria. seria sua física. só com a demonstração é que se rende a ela. tornar a política uma ciência (dirá.tanto que por essa época terminava uma tradução da História da Guerra do Peloponeso. Concluindo em 1651 o Le viatã . mas. Mas parece. em 1673. dirá ele que precisou deixar os estudos de física para tratar da política mais cedo do que esperava. Este enamoramento de Hobbes tem. pelo fato de que nos primeiros cinco ou dez anos de seus estudos propriamente filosóficos Hobbes se interessou sobretudo pela física.e priva com Mersenne. de Tucídides -. conseguir igual efeito na filosofia política? Fazer com que os homens. um paradoxo que um filósofo que pretendia ser conhecido como físico tenha ficado para a história do pensamento como um dos mais originais estudiosos da política. por isso é quase vão pregar aos homens. para depois compô-Io novamente em sua complexidade . ainda assim. acusando-os de maus cientistas e de súditos desleais. A primeira se voltaria para o exame dos corpos. da física em especial. sejam convencidos pelo modo geométrico? O próprio Hobbes não acredita muito nessa possibilidade. Com efeito. Passando no continente vários anos da década de 1630 (e depois o decênio quase inteiro de 1640). Hobbes se diz interessado. melhor dizendo. a Descartes.~ Do Cidadão Apresentação vida como preceptor dos condes de Devonshire. dois aspectos. visita Galileu . pela física. em particular os dos homens . No prefácio ao Do Cidadão.que é a terceira. porém foi trazer o método dito galilaico . congratula-se ele por poder agora voltar à sua "interrompida especulação sobre os corpos naturais"3.a grande associação científica inglesa -. Será. de política. enquanto se esquecia a ciência que fez. que a "ciência política" não é mais antiga que seu livro Do Cidadão). ele geometriza a política. Hobbes planejara escrever sua obra em três etapas. e sobretudo fazê-Ia irrefutável. que resistem às verdades que lhes trariam a paz. vê uma grande diferença entre as verdades da ciência física. ao mesmo tempo que invoca em seu favor o testemunho positivo que Mersenne e ou XXII XXIII . e até então tivera basicamente a formação e atuação de um scholar humanista . e nos últimos anos de vida Hobbes escreve libelos contra esses adversários. O importante em sua obra. Nisto. Em várias passagens. uma já constituída. Por um lado. Pretendeu. com isso.é pena que não tenhamos um relato no pormenor de seu encontro . devido aos conflitos que se precipitavam em seu país. certamente. que tanto irritam o autor das Meditações Metafísicas. Não será possível. as notáveis Terceiras Objeções. e de que depois de 1651 entendeu concluídos seus trabalhos. mais tarde. Mas não só. vai voltar sua atenção para as questões da nova ciência. Assim. Hobbes não constituiu exceção em seu século. outra em vias de sê-Io. estudaria os homens enquanto cidadãos: a política4. porque mostram o radical estranhamento entre duas filosofias. como repetirá várias vezes em suas obras. pelo menos os principais. é uma paixão pela ciência dos corpos. Escreve. este amor tem igualmente por objeto o método geométrico. e última versão de sua filosofia política -. então. porque.o que em linguagem de hoje chamaríamos sua psicologia. contudo. é claro. na qual o elemento simples a que chega é o contrato. quando é fundada. finalmente. procura submetêIa a uma demonstração dedutiva. Na segunda.para a consideração da política. an tes de mais nada. que se chocam diretamente com nossas paixões. que não contradizem nossos apetites. que sua paixão mesmo era pelo estudo dos corpos. Daí a importância desta descoberta que nos relata Aubrey: Hobbes primeiro resiste à proposição que lê.que consistia em resolver o objeto dado em seus elementos constituintes. dentre os corpos.

Do Cidadão Apresentação trosderam de seus estudos. Não importa: o que dele ficou foi. que pusesse fim aos monopólios comerciais que entravavam. conseguiu produzir uma identificação decisiva e alternativa entre o protestantismo e a causa nacional. Henrique VIII. e mais de uma vez se dirigiu aos Comuns. Jaime fez a paz com a Espanha. o grande conflito entre católicos e protestantes que dividiu a Europa. que temera a ira de Isabel. que consolidara a Reforma protestante em seu país. a menos que aceitasse adotar uma política externa protestante.. II A ascensão ao trono em 1603 de uma nova dinastia . rodeado de favoritos inteiramente desinteressados do bem público. que parecem ter sido uma família especialmente mal talhada para o governo. Ele sucede a Isabel. a situação constitucional inglesa era. bastante imprecisa. a não XXIV xxv . que sucede ao pai em 1625. que vinha de um país paupérrimo. que redige nos anos 30 e faz circular em manuscrito no final daquela década. porém. ficou a imagem de um príncipe perdulário.. manteve-se omisso . negando-lhe os recursos que pedia. que ela derrotou em 1588. Carlos.representa um marco divisor na história inglesa. queria gastar. cada um dos quais pretende ser uma retomada mais completa do anterior. pondose do lado das potências protestantes. Carlos. A rainha. Seu reinado foi assim extremamente popular. e portanto do fato de que não teria herdeiros de seu corpo (algo bastante negativo numa monarquia). Não é preciso nos alongarmos sobre a inépcia dele e dos Stuart em geral. que faleceu ainda adolescente. Além disso. a livre concorrência. e continuaria sendo até o fim do século. o penhor de um casamento com seu povos. Esse legado quem recolheu foi Jaime I. O primeiro é o De Corpore Politico. tratando-os como filhos 4 quem queria instruir. Esta significaria: que fizesse a guerra à Espanha e ao Imperador. sobretudo. É este o momento em que Hobbes retorna à Inglaterra de suas viagens pelo continente. Jaime. Passados apenas três ou quatro anos de governo. efetuando um eficaz meio-termo entre o quase catolicismo de seu pai. a assumir o trono da Boêmia. Uma rápida exposição histórica. Mas as finanças do reino estavam más (o que Isabel cuidadosamente ocultara) e o rei. que mostra como a rainha conseguiu fazer de sua virgindade. Um dos melhores estudos sobre a ideologia isabelina encontramos em Astraea. ao repelir a Invencível Armada. é necessária. Eduardo VI. e o protestantismo radical de seu irmão. é ainda mais infeliz que ele em suas políticas. que pertencia ao Imperador. que favorecesse a navegação inglesa. sobretudo. a política. quer a mercante. protestantes que eram. decide governar sem parlamento. sempre se dispunha a expor suas idéias. Esta. católico. com tendências homossexuais. além disso. quer a de corso. não tem paciência ante o que considera ofensivo a seu trono e à missão do rei. e. com a Revolução Gloriosa de 1688 e os atos constitucionais que a ela se seguiram. Mas deixou crises econômicas prontas para explodir. que já era rei da Escócia . O resultado foi que a Câmara dos Comuns. autor de várias obras de filosofia política e de demonologia. quando começou a Guerra dos Trinta Anos. teve coragem para opor-se a Jaime. praticamente instalando o embaixador desse país em seu ministério. com Jaime I. a última Tudor. Afinal. de Frances Yates. Hobbes escreve em três tratados sucessivos. O país não tinha constituição escrita6.embora o pivô da guerra fosse o fato de sua própria filha e de seu genro terem sido convidados. à ameaça católica que vinha da Espanha. e em que o rei Carlos I assiste ao fracasso de sua política despótica. internamente. graças. aqui. nada exigindo do rei que convocasse parlamentos. Ora.a Stuart.

a cada ano ou poucos anos. Um amigo. sucede que com Carlos I se chega efetivamente a um impasse.. irritado. a não ser quando os troca por medidas substanciais: a supressão do episcopado. Se uma primeira tentativa o leva. a organização da Igreja Anglicana .. uma lei mandando reunir um parlamento pelo menos a cada três anos. Recusalhe recursos. sente-se chantageado.. sem dinheiro para defender-se do exército rebelde. William Laud. que dura três semanas). a situação alcança um patamar de excepcional gravidade. que é presbiteriana. embora quase sempre implícitas. com os monopólios que o rei vende. que publica. Assim. e uma negociação se seguia. pelos quais os escoceses. disso resulta uma Liga e Pacto Solenes. tentam impor à Igreja da Escócia. com John Pym indo de condado a condado negociar candidaturas. e na verdade só consegue manter-se renunciando. na qual a coroa trocava as verbas de que necessitava pelas medidas que os Comuns lhe pediam. No final dos anos 30. por um lado. sem que nada estivesse formalizado. as coisas se agravam rapidamente a ponto de ele precisar convocar uma nova assembléia. porém. Hobbes foge para a França. explorando sabiamente o domínio real. temendo por sua vida. alguns francamente ilegais ou pelo menos duvidosos. O rei e o arcebispo de Cantuária. que se nega a negociar (o que considera humilhante. que salvo um intervalo foi poder legal de 1640 a 1660 . para que não houvesse impasse. que lhe cabe cuidar da conservação de seus súditos como ele entender melhor.a primeira assembléia para cuja eleição houve uma campanha política montada em escala nacional. os parlamentares tratavam de requerer ao rei que atendesse a suas queixas. Diz. as referências à política inglesa são constantes. ou cobrando taxas pelos serviços que garantisse. Logo que se reuniam. Não é mera coincidência que tenha sido esta o Longo Parlamento. em mais de um discurso.isto é. mesquinho). os reis convocavam um parlamento (não se usava o artigo definido porque não se tratava de uma instituição permanente) sempre que necessário. o acordo do rei para que o parlamento atual não possa ser dissolvido ou sequer posto em recesso sem seu acordo. assim se desincumbindo da missão que Deus lhe confiou. no ano de 1642. como no anterior e ainda no Leviatã.. de pouco em pouco tempo se reunia um parlamento. como o uso das estradas reais ou dos portos. procuram substituir uma ordem na qual os próprios fiéis elegem seus pastores por outra na qual estes seriam tutelados por bispos. De novo a intransigência e a inabilidade do rei o levam ao confronto. o conde de Stafford. O rei se recusa a qualquer concessão. a ter uma política externa ativa (isso num momento em que a Europa está cindida pela última guerra de religião). e por outro lado prejudicando. É na França que termina o De Cive. Decide então. Durante alguns anos. tem então de convocar um parlamento. em latim. a Coke. no século :XV. Um bom rei deveria viver of bis own. porque o De Corpore Politico está circulando e ele receia (mera ilusão) que os Comuns o persigam. o desenvolvimento econômico do país. Neste livro. Carlos I. Ora. a dissolver a casa (o Curto Parlamento. desde a nobreza até a plebe. a administração vive de taxas e de expedientes. seguindo a doutrina do direito divino dos reis que seu pai fora o primeiro a formular modernamente7. Mas a chave do sistema era que cada lado cedesse. dado que era impossível governar só com esse dinheiro. mas desta vez a oposição sabe agir. o julgamento e execução do próprio ministro mais próximo de Carlos. de Fortescue. firmam uma convenção com Deus. para defender sua Igrejas. Do Cidadão Apresentação ser o fato de que só a reunião dos Comuns e dos Lordes podia conceder-lhe impostos. Ora. Samuel Sor XXVI XXVII . e estes eram entendidos como excepcionais. Os anos de Hobbes na França são frutíferos: retoma o contato com o círculo de Mersenne. assim repetem os juristas. já no XVII: de seus bens.

e igualmente nos autoriza a desvinculáIo de uma imagem ainda demasiado corrente. Parece-me que tenha sido por uma novidade do Leviatã que. para dizer "soberano". Assim. para não dizer.e que. a do defensor da causa monárquica (basta ver como precisamos nos policiar. que Hobbes freqüenta. ou melhor. John Brarnhall . para nós. é rigorosamente conforme à filosofia de Hobbes. na Irlanda.quer um rebelde. na edição latina de 1670. Ao mesmo tempo. mas com base em fundamentos os mais distintos. Por sinal. grande importância.desde. dr. Contudo. uma viva indignação. mas basta que a comparemos com o final do "Prefácio" ao Do Cidadão. ele é legal. o bispo anglicano de Derry. Mais do que isso. para notarmos que alguma mudança ocorreu entre os dois livros: aqui é um realista quem fala. contratualista. uma vez dado o consentimento.quer porque o governante se descuidou dele. pede-lhe que discuta sobre o livre-arbítrio. a língua de quase todos facilmente pronuncia um "rei". a diferença pode parecer pequena porque. em 1651. qualquer indivíduo. porém. perde parte de seu sentido: desde que um governo cumpra o seu papel.disso nasce uma polêmica áspera e. Sob vários aspectos. essa diferença permite engatar a carreira de Hobbes e a recepção de seu livro. sua vida e obra. mas dizer isso é quase que uma redundância. que é apenas uma dentre as que podem portar a soberania)13. porque um usurpador se apoderou do território.se mostra capaz de assegurar a ordem. figura. representa uma diferença quase que só de ênfase em relação às obras precedentes. traduz o De Cive em francês. Hobbes usa o termo lawful. Hobbes é ainda mais peremptório na "Revisão e conclusão" com que encerra o livro . assenta qualquer poder político no consentimento inicial do povo a ser governado. temendo (dirá.veremos depois mais detalhadamente as diferenças. saborosa. o acaso e a necessidade com outro exilado. nada tendo propriamente de nova. ao tratar da liberdade dos súditos. Carlos I. a rigor. Hobbes afirma que. O curioso é que essa tese. É de ênfase. Do Cidadão Apresentação biere. assim. inegavelmente. XXVIII XXIX . A própria noção de legitimidade. que às vezes é até preciso traduzir como legítimo. este seu últi mo tratado político retoma as mesmas idéias do Corpore Politico e do Cidadão . esta obra suscita no meio realista de Paris. será suprimida9. o conde de Devonshire. Na prática.. Esta diferença assume. Mas. mas que a seus leitores deve ter soado como propria mente terrível. No capítulo XXI. que este possa assegurar-Ihes a paz etc. o poder é total. ele uma vez presumido (estendi-me sobre este assunto em outro lugarlO). desde que não esteja mais protegido. que exagere. Hobbes publica o Leviatã. Mas o resultado inevitável disso é que a obrigação do súdito a obedecer só perdura enquanto o governante o protege. aliás. em que Hobbes pede a seus leitores que corram a denunciar quem quiser subverter a ordem. se o governante legítimo perdeu o controle de seu ter ritório. mas de qualquer forma a repercussão do livro não foi boa no milieu exilado. Com efeito. mas no Leviatã será alguém que já se conformou à nova ordem12. Pode ser. a ponto de fazê-Io fugir às pressas para a Inglaterra. e outro . simplesmente. mais tarde) que o matassem. devem os súditos obedecer ao novo poder . é ao novo poder que devemos obediência. Seu patrono. entendia que sua autoridade vinha de Deus. recupera sua plena liberdade de agir . Hobbes e os realistas concordavam quanto ao poder absoluto que davam ao soberano. seguindo nisso a seu pai. mais uma vez. e neste segundo caso ainda que a culpa seja do súdito. quer porque decidiu puniIo. falando de Hobbes. que tanto indignou os realistas.. é claro. se o governante (mesmo legítimo) não tiver mais condições de garantir a paz e a ordem em seu reino. quer um invasor . mas que em todo caso se inscreve numa vertente contrária ao legitimismoll . Hobbes.

porém. em especial. os dois livros se complementam. provavelmente a mais importante diz respeito à visão do homem na sociedade. É possível. mas muitas outras em que um esclarece o outro. havendo passagens que se repetem. quando não existe um poder capaz de manter a todos em respeito"15 aqui afirma com mais freqüência os benefícios da companhia dos homens. Primeira e menor. nesta tradução. são os profissionais. entre a desordem e a sociedade. convergem. Segunda. da profissão de fé.. No Leviatâ esta é e se pre informe.. Isso nos permite apreender melhor a diferença entre os dois livros. Aliás. o que lhe conferia maior difusão. as quais nos fazem tender para a parcialidade. Se cotejamos cada capítulo do Cidadâo com os que lhe correspondem no Leviatâ (d. de uma oposição entre o estado de natureza e o estado civil. Hobbes foi aprimorando suas teses. se assim podemos dizer. e assim dissipando as obscuridade. Sob vários aspectos. Aqui. o do termo multidâo. a remissão que fazemos. no plano de Hobbes. que este livro é menos veemente que o Leviatâ na negação de qualquer socialidade prévia ao Estado. o mesmo se vê na moral. Hoje. o termo oscila entre este sentido e o de xxx i um povo unido pelo contrato. precedendo o Estado. diferenças de ênfase. um enorme desprazer). Aqui há mais elementos morais que no Leviatâ. que envereda por temas que Hobbes ignorou no livro anterior. o orgulho. pelo con trário. mas há algumas indicações de uma semi-socialidade já antes de haver a sociedade. sendo eclesiásticos. dizendo que no caso de ele se voltar frontalmente contra a religião cristã não devemos mais segui-lo. o que no Leviatâ praticamente desaparece. e até deveríamos ir a Cristo pelo martírio. mas que já pertenciam a sua reflexão (veja-se. Comecemos lembrando que por muito tempo se considerou Do Cidadâo como a obra mais importante de Hobbes. por outro lado. este. Sem desfazer de seus méritos. XXXI . que tem por objeto "o homem". É claro que a estrutura básica permanece a mesma. a vingança e coisas semelhantes"14 e dirá que "os homens não tiram pra zer algum da companhia uns dos outros (e sim. Basta um caso a exemplificar a ambigüidade. ora. os pontos mal atados. Mas é inegável. Destas. que nenhum capítulo do Leviatâcorresponda ao capítulo IV deste livro. Do Cidadâo corresponde assim ao que no Leviatâ é basicamente a segunda parte16. o que nos dá. quer quando Hobbes afirma que em todo Estado o roubo. Com isto chegamos ao que constitui o maior divisor entre os dois livros. que nada no Cidadâo corresponda aos capítulos do Leviatâ anteriores ao XIII ... o Leviatâ sempre foi um livro mais inglês. notamos algumas grandes ausências. fazer uma certa comparação de ambos. julgo porém que em parte isso se deveu a ter ele sido publicado inicialmente em latim. variando somente a sua definição. são contrárias a nossas paixões naturais. na primeira nota a cada capítulo). O Leviatâ é uma grande obra de resumo. justamente. quer quando limita nossa obediência ao governante em matéria religiosa. dada a importância do Leviatâ e deste livro. Já o Leviatâ limita a obrigação de sacrificar a vida pela fé àqueles que. Apresentação Do Cidadão lI! Será conveniente. ou mesmo de enfoque. a maior parte dos comentadores se concentra no Leviatâ. seria objeto de um livro à parte. o homicídio e o adultério são crimes. e mais importante. a questão religiosa. O mesmo Hobbes que no Leviatâ insistirá com tanta ênfase em que "as leis de nature za.mas esta ausência é fácil de explicar. uma boa razão para ler Do Cidadâo. Trata-se da primeira parte quase inteira do Leviatâ. Há. Poderíamos dizer que a cada etapa de sua publicação. e nada mais sendo q e a soma de vontades individuais que. em deter minado momento. na verdade apenas redundante em relação ao que o precedia. mas não chegam a formar uma unidade.

a fim de penetrar a definição de cada um de seus conceitos-chave. antes de mais nada con tra as pretensões do clero a influir no poder político. num plano político. "Religião". Mas em segundo lugar e mais importante . é menos abrangente que os capítulos correspondentes no Leviatã. Hobbes é um dos primeiros a escrever filosofia em inglês. delineando melhor o itinerário das demonstrações . suas partes terceira e quarta. a terceira parte tem por tema "o Estado cristão". é dessa forma que o clero cria um Estado no Estado. sobre o poder político e sobre a vida privada dos cidadãos. e esta se legitimou e ainda se legitima dizendo-se oposição a uma ordem totalitária ou absolutista. quase que uma moléstia profissional. pela desordem.que no Do Cidadão. Esse papel da Igreja fica mais evidente no Leviatãonde ocupa toda a quarta parte. no âmbito pessoal: é quase impossível ele não almejar o poder. na era do capital triunfou uma organização política liberal. a longa expressão "o homem ou o conselho que tem a autoridade suprema na cidade"). é certo. mas que já se desenvolviam por toda a Europa. É isso o que explica o estilo quase de "almanaque" que em certas passagens o Leviatã adquire . atinge um público especializado e europeu17.que no Leviatã são mais resumidas -. mais poderoso até que o legítimo. que dele ficou. os moços (culpabilizando o desejo sexual. a este respeito C. a Bíblia. Macpherson escreveu páginas decisivasl8. que é a Igreja Romana . onde é pouco mencionado. permite uma inter XXXII XXXIII . A terceira difer ça.. prati amente sem correspondência no Cidadão. como um texto a decifrar mediante as novas técnicas de leitura. analisando o discurso bíblico. Esse empreendimento tem um sentido estratégico. de 1640). e pela infelicidade.como no começo do capítulo IV. em Hobbes. Mas já na terceira parte do Leviatã Hobbes. para o sacerdote. publicado em latim. para nosso filósofo. que prevalece indevidamente. que não domine o latim. Nesta última obra. Em primeiro lugar. valendo-se da ignorância dos leigos. de modo que subverter a ordem é. no Leviatã. B. Ao leitor inglês. ele corrói a obediência devida ao soberano fortalecendo na religião o papel do medo. Com efeito. tratando da linguagem. consagrada ao "Reino das Trevas". Ora. e por vezes mais repetitivo (quantas vezes não retorna. o que infelicita. invocando o nome de Deus. visa diretamente a um público mais localizado geograficamente (ninguém conhece essa língua fora das Ilhas Britânicas) e menos erudito. seguindo. inclusive Macpherson. esquecem -. mas apenas a seu primado político. Como. para quem aliás trabalhara como tradutor. É o clero o grande culpado. altamente negativa. a informação sobre quem inventou a escrita. e certamente a mais importante. historicamente. em vez. pode brandir a ameaça de castigos eternos. temos por vezes grande dificuldade de entender contra quem Hobbes constrói o seu conceito de poder absoluto. Hobbes quer oferecer a um só tempo a boa filosofia. Do Cidadão Apresentação seu Human Nature. Francis Bacon. porque o poder absoluto se constitui. Escrito em inglês. o de limitar o poder eclesiástico. tendemos a ler o Estadoleviatã com base nessa imagem. Por sua vez.o que quase todos os comentadores.. e consiste basicamente numa leitura bíblica com os procedimentos de rigor que em breve teriam seu maior expoente em Richard Simon. . Do Cidadão é mais acadêmico. Trata-se de considerar o livro por excelência. dirá Hobbes no Behemoth). homens que somos de outra época. e uma suma de informações que o tornem culto (por exemplo.). porque. porque Hobbes não se opõe ao capital. quem foi Flávio Josefo etc. tal leitura é um tanto quanto errada. diz respeito ~o que onstituirá. Com efeito. em especial. que proporciona o conhecimento adequado da política. de "soberano". Mais que isso. a última parte do livro que ora apresentamos. ao passo que Do Cidadão.

o que implica. isto é. possiv~mente distribuiriam terras e ainda permitiriam tudo o qu~ fosse dissidência religiosa19. e que arredonda as frases. com seu corolário de que as almas estarão mortas até o dia do Juízo... os dois textos têm poucas divergências. Em 1646 acrescentou o prefácio e algumas notas explicativas (para que não se confundam com as do tradutor. quando todos forem ressuscitados. Essa doutrina. a negação do purgatório. seu amigo Samuel Sorbiere publicou. em alguns casos até as modifica . eximindo pois a grande maioria de um compromisso público (quando este for perigoso) com a religião. tão heterodoxa em relação ao cristianismo mais corrente por que suprime o Inferno -. no ano seguinte. IV Hobbes escreveu o De Cive em latim. nesta edição. Mas é uma tese erfeitamente cabível no cristianismo. que não é. enquanto os bons receberão a vida eterna. mas ainda assim possível dentro da teologia corrente no século XVII. uma tradução francesa . contra a expressa opinião do autor. Não há diferenças significativas entre os dois livros quanto ao que é necessário para ganhar o reino dos céus. vão elas marcadas. os maus serão condenados e sofrerão "segunda e definitiva morte". no dia do Juízo. de feitio clássico. estando exilado. mais antigo que o romantismo e o século XIX). É verdade que Hobbes a terá revisado. Este é. os simples cristãos. De qualquer forma. diz Hobbes que pouco a distingue do corpo -. curiosamente tratava-se de um level ler. quer o inglês. pela Garnier-Flammarion. Do Cidadão Apresentação pretação mais fácil da salvação. Finalmente. explica-as. em 1651. de um radical. que em 1643 publicou u Mans Mortalitie que defende tal doutrina. contudo. é rigorosamente protestante. Mas. e pode ser considerado como sua versão definitiva da obra. provavelmente está entre os pontos que levaram comentadores algo apressados a ver em Hobbes um ateu. de qualquer modo. Por isso.da qual temos uma edição recente. com um Nota de Hobbes). XXXIV xxxv .--. levando mais longe ainda que no outro livro a idéia de que a fé é assunto da vida privada. o resultado. exceto a que já comentamos: o Leviatã dispensa os meros fiéis. Há razões para preferir quer o texto latino. que é a tese da mortalidade da alma (vide capítulo XXXVIII). mas na época os tradutores podiam tomar ampla liberdade com os originais (a indignação que hoje sentimos tanto diante dos plágios quanto das traduções infiéis decorre de nosso culto ao autor. certamente porque. o Leviatã tem uma inovação de monta. Mais espantosa é a negação do Inferno. que somente se valeria da religião para um uso político. As diferenças mais substanciais estão entre eles e a tradução francesa. tanto quanto pude perceber. é um texto muito elegante. Em 1649. o texto inglês foi o último a que ele pôs a mão. Penso que Hobbes ode devê-Ia a Richard Overton. Mas. no mesmo ano em que lançava o Leviatã. saindo a edição assim revista em Amsterdã. Hobbes editou sua versão inglesa do Cidadão. no capítulo VIII.embora a única infidelidade maior a Hobbes esteja. E é essa doutrina a mais estranha das que compõem a teologia hobbesiana.o que considero um argumento decisivo -. quando Sorbiere traduz servus ou servant como esc/ave. dos martírios. na pena de Sorbiere. queria vê-Io divulgado e discutido no continente. por exemplo. A alma. de bolso. com o nome de Philosophical Rudiments concerning Government and Society. dizer que o escravo firma um pacto com seu captor. partidári de reformas que ampliariam a franquia eleitoral. na teologia hobbesiana. um ponto no qual novos estudos seriam bemvindos. e foi esse o texto que se difundiu. por outro lado . sempre em Amsterdã. Hobbes escreveu na primeira língua. é mortal por natureza e somente pela graça se torna imortal.

é um estilo nervoso. Francis . Francis Bacon: Novum Organum. o inglês tem um encanto que me parece superar o ótimo artesanato do latim. 1600. 1597. Concluído o bacharelado. 1610. Mor te de Isabel I. como a que Andrée Catrysse fez para o espanhoPo. Na França. em Westport. seu ponto de fusã022. Deflagrada a Guerra dos Trinta Anos: defenestração de Praga. 1623. frementes.. 1622. não há. Tal episódio mostra bastante bem que preocupação Hobbes tinha com o estilo. Hobbes é nomeado pre ceptor do filho de Lord Cavendish. Cervantes: publicação da 1 ~ parte de Dom Quixote. Mal mesbury. num ritmo artterior à normatização que prevaleceu no inglês escrito. 1620. os alongamentos que Hobbes emprega em lugar de palavras tão simples e diretas como "soberano". 1618. 1605. embora mais seco e sucinto que a versão francesa. Nasce Descartes. Shakespeare: Hamlet. numa língua inglesa que então estava longe de firmar seu vocabulário. faria a versão tão bem quanto Hobbes21. 1619. Luís XIII. 5 de abril. ninguém. Kepler: Harmonices Mundi. na medida do possível. Do Cidadão Já O latim. Morre em Lisboa o Padre Francisco Suarez. janeiro de 1991 Renato janine Ribeiro 1588. XXXVI XXXVII . sua sintaxe. 1608. 1603. Inglaterra. em Oxford. permite uma tradução equilibrada. Morrem Cervantes e Shakespeare. recuou. O filósofo aceitou.. Nasce Moliere. Nasce Pascal. esse estilo que nos paz sentir as idéias enquanto se engendram. 1617. 1596. Bacon: De Dignitate et Augmentis Scientiarum. quando as viu. e como este era respeitado em seu meio. em que as frases se alongam ou se encurtam mais do que hoje nos soaria habitual. tortuoso. Este. enquanto bustam. 1621. Cronologia Hobbes e seu tempo / Sete Praias. rei da Inglaterra. As frases são bem medidas. Frei Luís de Souza: Vida do Frei Bartolomeu dos Már tires. Nasce Thomas Hobbes. Lembremos que por volta de 1647 o poeta Edmund Waller se ofereceu a Hobbes para traduzir o De Cive para o inglês. primeira viagem ao continente. morre Henrique IV. Hobbes ingressa no Magdalen Hall.Bacon publica os Ensaios. Tentei preservar. sua o~grafia. disse. Execução de Giordano Bruno. Mas. O resultado. Jaime I. ainda assim. como em inglês. rei. um texto cuja beleza está no desequilíbrio. Nasce La Fontaine. e com prazer traduziu ele próprio algumas páginas para auxiliar seu possível colaborador. 1616.

1655. Publicação das Meditações de Descartes. Hobbes redige um resumo da Retórica de Aristóteles e elal)ora o plano de seu sistema de filosofia. j 1648. 1642. de Tucídides. Newton envia à Royal Society suas observações sobre a luz. rei. 1660. Cromwell massacra a população católica da Irlanda. Tratado de Vestfália: fim da Guerra dos Trinta Anos. Pascal escreve as suas Provinciais. Descartes: iscurso do Método. Publicação de De Corpore. 1629. Morte de Hobbes. Lord Protector da Inglaterra. Hobbes é banido da corte inglesa no exílio e retoma à Inglaterra.. o Homem e o Cidadão. Morre Galileu.. Na Inglaterra. 1652. Morte de Spinoza. 1670. 1647. Restauração da monarquia na Inglaterra: Carlos 11. 1634. de Spinoza. Galileu: Diálogo sobre os Dois Máximos Sistemas do Mundo. seu filho Richard é no meado seu sucessor. 1659. Deteriora-se a situação política inglesa e Hobbes retira-se para a França. o Corpo. rei. 1632. 1645. nela. Morre Jaime I da Inglaterra. Terceira Vi gem de Hobbes ao continente. 1646. Nasce o futuro rei Jaime 11. 1633. 1677. Condenação e execução de Carlos I. batalha de Naseby. Vitória católica contra Cristiano V. Carlos I. 1668. 1630. início da Guerra Civil: Carlos I desafia o Parlamento em Nottingham (23/8).. Na Inglaterra.. 1679. 1631. 1649. Tratado de Lübeck. nasce Newton. Abdicação de Richard Cromwell. Hobbes publica os Elementos da Lei Natural e Política. Hobbes se encontrará em Pisa com Galile . com 40 membros. Publicação Do Cidadão. que se prolongará até 1636. o Conselho de Estado. 1662. Morte de Oliver Cromwell. 1656. Carlos I é preso. 1626. Spinoza. O. publicação do Leviathan. 1637. com derrota dos realistas. Do Cidadão Cronologi a 1625. Oliver Cromwell. É nomeado preceptor do Príncipe de Gales. Hobbes traduz trechos da llíada e da Odisséia. onde permanecerá onze anos. 1640. Nasce Leibniz. Hobbes: De Homine. 1650. Tratado Teológico-Político. Cristiano V da Dinamarca intervém na guerra alemã. Hobbes redige o Pequeno Tratado sobre os Primeiros Princípios. Circulam em manuscrito os seus Elementos de Lei Natural e Política.. 1653. com as Ob jeções de Hobbes. Hobbes publica uma tradução da Guerra do Pelopo neso. 1675. Spinoza é excomungado pelo conselho de rabinos. Segunda viagem de Hobbes ao continente. 1658. Morre Descartes 1651. Morre Francis Bacon. proclamada a República na Inglaterra (17/2). o futuro rei Carlos 11 da Inglaterra. Morte de Pascal. no poder. em Paris. 1641. XXXVIII XXXIX . pouco depois.. Nascem John Locke e B. estabelecimento definitivo da filosofia natural de Hobbes.

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CAPÍTULO I

Epístola Dedicatória
A SUA SENHORIA, O CONDE WILLIAM DE DEVONSHIRE

Milorde, Dizia o povo de Roma, a quem o nome de rei se tornara odioso, tanto pela tirania dos Tarquínios quanto pelo gênio e as leis daquela República, dizia, retomo eu, o povo romano, embora pela voz de um particular - se é que Catão, o Censor, era um mero particular -, que todos os reis deviam ser incluídos entre os animais de rapina. Mas o próprio povo romano, que com suas águias conquistadoras espalhou seus altivos troféus por todo o vasto e remoto mundo, impondo aos africanos, asiáticos, macedônios, aqueus e a muitas outras nações conquistadas uma especiosa servidão, a pretexto de fazer deles súditos romanos, não era ele uma fera igualmente rapace? De modo que, se Catão era sábio no que dizia, não menos sábio era Pôncio Telesino, que gritava para todas as companhias de seu exército, na famosa batalha que travou com Sila, que a própria Roma devia ser arrasada juntamente com Sila porque sempre haveria lobos e predadores da liberdade, a menos que pela raiz se extirpasse a floresta que os abrigava!. Para ser imparcial, ambos os ditos são certos - que o homem é um deus para o homem, e que o homem é lobo do homem. O primeiro é verdade, se comparamos os cidadãos entre si; e o segundo, se cotejamos as cidades2. Num, há

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Do Cidadão

Epistola Dedicatória

alguma analogia e semelhança com a Divindade, através da Justiça e da Caridade, irmãs gêmeas da paz; no outro, porém, as pessoas de bem devem defender-se usando, como santuário, as duas filhas da guerra, a mentira e a violência - ou seja, para falar sem rodeios, recorrendo à mesma rapina das feras. Os homens têm o hábito de censurar tal conduta uns nos outros, por um costume, que lhes é congênito, de mirarem suas próprias ações nas pessoas dos demais de modo que, como num espelho, todas as coisas que estão do lado esquerdo aparecem à direita, e o que estava no lado direito parece figurar à esquerda; mas o direito natural de conservação, que nos vem a todos dos incontestáveis ditames da necessidade, não admite que isso seja um vício, ainda que devamos confessar seja uma infelicidade. Alguns poderão admirar-se que no próprio Catão, homem de tão grande renome por sua sabedoria, a tal ponto prevalecesse a animosidade sobre o julgamento, e a parcialidade sobre a razão, que ele considerasse eqüitativa no se Estado popular aquela mesma coisa que, na monarqui , censurava como injusta. Eu, porém, tenho há muito a co vicção de que jamais a turba insana pôde reconhecer unp prudência que fosse superior à vulgar, ou seja, à sua - pdr que ela não a compreenderia ou, caso o fizesse, só a re)Sai xaria e infamaria. Se as mais eminentes ações e os/ditos mais célebres tanto dos gregos como dos romanos se tornaram objeto de elogio, não foi tanto pela razão, mas sim por sua grandiosidade - e muitíssimas vezes por aquela usurpação que prospera (a qual nossas histórias tanto costumam censurar-se umas às outras) e, como uma torrente avassaladora, no curso do tempo tudo arrasta pela frente, quer agentes públicos, quer agentes privados. A sabedoria, a bem dizer, nada mais é do que o perfeito conhecimento da verdade em todos os assuntos que seja. Ora, como tal conhecimento deriva dos registros e relações das coisas, e se dágraças ao uso de denominações certas e definidas, não

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pode, obviamente, ser fruto de uma agudeza imprevista, mas somente de uma razão bem equilibrada que, para resumir numa só palavra, chamamos filosofia. É por aí que um caminho se abre para nós, no qual da contemplação das coisas particulares avançamos até inferir ou deduzir ações universais. Vejamos, agora, quantas espécies de coisas há, que propriamente caem no âmbito do que a razão humana pode conhecer; e tantos serão os ramos em que se divide a árvore da filosofia. E, da diversidade da matéria de que tratam, foi dada a esses ramos uma comparável diversidade de nomes. Assim, o ramo que trata das figuras chama-se geometria; o do movimento, física; do direito natural, moral; e a reunião de todos esses forma a filosofia - do mesmo modo que os mares Britânico, Atlântico e Índico, que devem seus distintos nomes de batismo à diversidade das terras que banham, reúnem-se, não obstante, para formar o oceano. Quanto aos geômetras, eles se desincumbiram admiravelmente bem de seu papel: tudo o que contribuiu para melhor ajudar a vida do homem - seja graças à observação dos céus, seja pela descrição da terra, ou ainda pelo registro do tempo, seja finalmente devido às mais remotas experiências de navegaçã03 -, em suma, todas as coisas nas quais estes tempos presentes se diferenciam da rude simplicidade da Antigüidade, tudo isso temos de reconhecer que devemos tão-somente à geometria. Se os filósofos morais tivessem cumprido seu dever com igual felicidade, não sei o que nosso engenho poderia ter somado à perfeição (completion) daquela felicidade que convém à vida humana. Pois, se a natureza das ações humanas fosse tão bem conhecida como, na geometria, a natureza da quantidade, então a força da avareza e da ambição, que é sustentada pelas errôneas opiniões do vulgo quanto à natureza do que é certo ou errado, prontamente se enlanguesceria e se esvaneceria; e o gênero humano go

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Epístola Dedicatória

zaria de paz sem fim, pois - a menos que fosse por moradia, supondo-se que a Terra se tornasse muito pequena para seus habitantes - mal restaria qualquer alegação para a guerra. Mas o que hoje notamos, isto é, que nem a espada nem a pena se vêem autorizadas a qualquer repouso; que o conhecimento da lei natural cessa de avançar, não crescendo uma polegada além de sua antiga estatura; que os filósofos a tal ponto se repartem em facções diversas e hostis, que a mesmíssima ação por uns é verberada, e por outros exaltada; que o mesmíssimo homem em distintos momentos abraça distintas opiniões, e estima as ações que ele próprio comete de maneira muito diferente do que faria se fossem cometidas por outrem; - tudo isso, afirmo, são sinais claros e argumentos manifestos a provar que aquilo que foi escrito, até hoje, pelos filósofos morais em nada avançou no conhecimento da verdade. E, se foi acolhido pelo mundo, não foi tanto por trazer alguma luz ao entendimento, mas por agradar às afeições, dado que pela bem-sucedida retoriquice de seu discurso eles confirmaram os homens em suas opiniões apressadamente aceitas. Assim, esta parte da filosofia sofreu o mesmo destino que aquelas vias públicas que são batidas por todos os viajantes, como estradas reais e ruas grandes: alguns as trilham por divertimento, outros por negócio; por isso, devido à impertinência de alguns, e às altercações de outros, nelas nunca há tempo de semear, e por conseguinte nada nunca se colhe. Ora, a única razão desta falta de sorte parece ser a seguinte: que entre todos os autores daquela parte da filosofia nunca houve um que adotasse um princípio que seja adequado para tratá-Ia. Pois não podemos, como num círculo, começar a lidar com uma ciência de qualquer ponto que nos agrade. Há um certo fio da razão, cujo começo está no escuro, mas que à medida que se desenrola vai nos levando, como pela mão, até a mais clara luz, de modo que

o princípio da doutrina deve ser extraído daquela obscuridade, e depois a luz deve ser retomada a ela para dissipar todas as dúvidas que restaram. Assim, todas as vezes que um autor perde o fio da meada, por ignorância, ou que de propósito o corta, passa a nos descrever os passos, não de seu progresso na ciência, mas de suas extravagâncias, que dela o afastam. E foi por isso que, quando dediquei minhas reflexões à investigação da justiça natural, prontamente me vi prevenido pela própria palavra justiça (que significa uma firme vontade de dar a cada um o que é seu) de que minha primeira pergunta tinha de ser esta: a que se devia que um homem pudesse chamar algo de seu, em vez de dizer que pertencesse a outro4. E quando constatei que isto se devia não à natureza, mas ao consentimento (pois aquilo que a natureza primeiro pôs em comum os homens depois distribuíram sob várias apropriações), fui então levado a outra pergunta, a saber: para que fim, e sob que ip}i3ttls~uando tudo era igualmente de todos em comum, os ho~ens consideraram mais adequado que cada homem tivesse 'O~ seu bem?5 E descobri que a razão foi que, se os bens forem comuns a todos, necessariamente haverão de brotar controvérsias sobre quem mais gozará de tais bens, e de tais controvérsias inevitavelmente se seguirá todo tipo de calamidades, as quais, pelo instinto natural, todo homem é ensinado a esquivar. Assim cheguei a duas máximas da natureza humana - uma que provém de sua parte concupiscente, que deseja apropriar-se do uso daquelas coisas nas quais todos os outros têm igual participação, outra, procedendo da parte racional, que ensina todo homem a fugir de uma dissolução antinatural, como sendo este o maior dano que possa ocorrer à natureza. Com base nesses princípios assim postos, penso haver demonstrado neste pequeno livro de minha lavra, pelas conexões mais evidentes, primeiro a absoluta necessidade de que haja ligas e contratos, e a partir daí os rudimentos da prudência tanto moral como civil.

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e as deponho a teus olhos: tanto faz se consideras a dignidade ou o proveito da matéria estudada. Também tomei a maior cautela. Por conseguinte. ou a honestidade de motivo e a oportunidade de empreendê-la. Prefácio do Autor ao Leitor De Vossa Senhoria o criado muito obrigado.com a exceção do que diz respeito à religião cristã . e ainda outros.Do Cidadão Aqueles acréscimos que tratam do reino de Deus foram incorporados com a intenção de que os ditados de Deus TodoPoderoso. na Jerusalém celestial. se for judicioso. Pois. ou se revestido de alegorias. em tempo e engenho. a nós revelada em sua palavra. estando nestes tempos todas elas tão assoladas por tempestades e escolhos. Neste livro. ou o método correto de tratá-la. então humildemente o ofereço a Vossa Se nhoria pedindo-lhe minha glória e proteção. para que os particulares não o conspurcassem com suas altercações. sem prejuízo da espécie humana. para proveito da humanidade. em todo o meu discurso. parecem atrair a máxima atenção. Que o Deus do céu coroe Vossa Senhoria com longa vida nesta estação mortal. somos parciais para avaliar nossas produções. a moderação do autor. depois enquanto súditos. com uma coroa de glória. e finalmente na qualidade de cristãos. juntamente com a verdadeira origem e força da justiç. ou finalmente. Vossa Senhoria haverá de aceitá-Io ao menos como penhor de minha gratidão. Enquanto isso.isto é. Este tipo de doutrina .os mais antigos dentre os sábios consideravam que só devia ser transmitido à posteridade se tivesse os sutis ornamentos da poesia. evitei aportar a qualquer praia. Se tiver a fortuna de agradá-Ia. Thomas Hobbes7 Leitor. primeiro enquanto homens. Isto. consideravam as naturezas e causas 8 9 . como todos somos juízes parciais de nós mesmos. Não ignoro o quanto me custou. e das nações. se não for vulgar.--na medida em que o permitem os limites do que me propus mostrar. verás sucintamente descritos os deveres dos homens. não ao favor de Vossa Senhoria. de não me intrometer no que se refere às leis civis de qualquer nação em particular . Nesses deveres se contêm não apenas os elementos das leis de natureza. mas não sei avaliar o seu resultado. pois que os meios de estudo que sua bondade me proporcionou eu consagrei a procurar merecer o seu favor'. outros filósofos contemplavam as figuras e movimentos das coisas. esta investigação sobre a verdade. aqui te prometo coisas que. na lei de natureza.a. ou seja. quando são prometidas. ofereço este livro em primeiro lugar. se for útil. mas. como também a certíssima essência da própria religião ctistã. não pareçam repugnar à lei escrita. mas a sua censura. como convém a um belíssimo e sacro mistério da autoridade régia. se em qualquer coisa errei. e.

eruditos.hoje como antes . mas até mesmo da mera ignorância nasçam ofensas. é sem nenhum dano. ainda. julgando fosse a única digna dos esforços de sua mente.passível de se atingir sem maior esforço ou estudo. o que depõe em favor da dignidade da ciência política. mas também devem discuti-Ios? Além disso. porque os espíritos mais elevados dos filósofos com ela lidaram. Assim. e que antes de prestarem obediência eles não só podem. e. o que quiserdes. mas o próprio vulgo . segundo a qual os reis não são supen es àmultidão. ou ainda pelo juízo dos mais sábios . todos os homens de todas as nações . princípios verdadeiros por conexões evidentes). E igualmente os súditos quando exposta corretamente (isto é. Conta-se que Sócrates. tanto quanto latinos. Poderemos discernir melhor o benefício dessa ciência. em tempos posteriores. gregos. exposta e prostituída aO engenho nativo de cada um. mas apenas seus administradores? E. finalmen e. mostram enorme prazer e maravilha na suposição de que detêm esse saber. já emitia seus raios por dentre as nuvens no governo da República. ou pelo número das que escreveram a seu respeito. segundo a qual um príncipe pode ser deposto por tais homen devido a certas causas? E quanto sangue não derramou e a errõnea doutrina. conflitos e até homicídios. porém já exerciam o poder supremo. e que ora não vem ao caso enumerar. abraçou integralmente essa. Portanto.não apenas os filósofos. na filosofia moral que hoje é correntemente acolhida há muitas outras coisas que não são menos perigosas do que estas. a não ser tempo. Cícero e outros filósofos. eles consideram que só a eles é devi do. abandonando por completo e desprezando todas as outras partes da filosofia. hábeis. Considera agora que terrível prejuízo esses acarretam. necessariamente sucede que não só dos erros. e que supõem . com a maior largueza aceitam eles que os praticantes de outras artes sejam ditos e proclamados engenhosos. foi o primeiro a amar de verdade essa ciência política! que. e como é grande o proveito que decorre desta doutrina da moralidade exposta em verdade. Aristóteles.vieram a tratá-Ia como coisa fácil. quando preferiram ter a ciência da justiça envolta em fábulas. naquelas matérias em que especulamos só para exercitar nosso espírito. ou que exercem cargos para os quais seria requisito possuí-Ia. E ele lhe atribuiu tão alto valor que.~ Do Cidadão Prefácio do Autor ao Leitor dessas mesmas coisas. aqueles que se gabam de tê-Ia. Quantos reis (e quantos homens bons. E assim foi que. depois de considerar os males que sofreu a humanidade devido a suas formas contrafeitas e gaguejantes: pois. e isto devido ao conhecimento da política que pensam ter. se algum erro nos escapar. a deixá-Ia exposta a discussões: porque antes mesmo que tais questões fossem suscitadas os príncipes não pleiteavam. mas. quantas rebeliões não foram causadas apenas por aquela opinião que ensina que cabe aos particulares conhecer se os mandamentos dos reis são justos ou injustos. E. naquelas coisas sobre as quais qualquer homem deveria meditar para o governo (steerage) de sua vida. segundo o qual é legítimo executar um rei tirano? Quantas gargantas não cortou essa falsa tese. e nada se perde. Suponho que os antigos bem o anteviram. e também porque a maior parte dos homens se deleita com uma falsa imagem sua. e a outros que têm por emprego o governar a humanidade. . se a dignidade das artes deve ser julgada pela qualidade das pessoas que as praticam. mas punindo os maus e protegendo os bons. Depois dele vêm Platão. também) não foram assassinados por esse erro só. Conservavam a integridade de seus impérios não por meio de argumentos. embora ainda não fosse perfeitamente compreendida. tudo. menos prudentes: porque esse epíteto. a longo prazo. quando é derivada de 10 11 .então seguramente a ciência política deve ser de todas a primeira: porque ela diz respeito tão de perto aos príncipes.

Não conheço trabalho que possa ser mais proveitoso do que esse. Pois contam eles que. eles engendraram aquelas opiniões hermafroditas dos filósofos morais. boa ou má. residisse este num homem só ou num conselho. a não ser que o desmontemos e consideremos cada parte em separado . Na verdade.da mesma forma. e como devem dispor-se entre si os homens que pretendem formar um Estado sobre bons alicerces3. e à forma que assume. porém pelo poder e autoridade: e eles até reverenciavam o poder supremo. não deve ser formulada a ninguém. em outra parte brutais e selvagens. sendo convidados os particulares a participar dos conselhos de Estado. Pois. em parte corretas e belas. a saber. Seguindo portanto este tipo de método. a menos que sejam restringidos pelo temor a algum poder -------- 12 13 . que são causa de tudo o que é conflito e derramamento de sangue.principiar pelo assunto mesmo do governo civil. E afirmo que os antigos não só perceberam isso. a matéria. é como se os antigos dissessem que. ao contrário dos dias de hoje. assim como num relógio. e em que matérias ela é e em quais não é adequada para estabelecer um governo civil. a única irmã e esposa do soberan02. pois tudo se compreende melhor através de suas causas constitutivas. mas. Querendo enlaçá-ia. justamente.também . da qual foram gerados os Centauros. ou em outro pequeno autômato de mesma espécie. faz-se necessário não. como sendo uma divindade visível. e que a pergunta se alguma ação futura vai se mostrar justa ou injusta. salvo àquele a quem o soberano confiou a interpretação de suas leis. a simplicidade daqueles tempos ainda não era capaz de uma peça tão erudita de loucura. como ainda. não chego a falar em desmontá-Ios.. que lhes garante a conservação. que sejam considerados como se estivessem dissolvidos.uma prole feroz.. do bem e do mal. a seus próprios julgamentos e percepções. aliar-se a espíritos ambiciosos e infernais. Mudando tão-somente os nomes. parecem ter desejado habilmente ensiná-Io a nós. que só terminou depois que. por natureza meio homens. pois não podiam nutrir a estranhíssima fantasia de não desejar a conservação daquilo. e por nenhum é negado. para fazer uma investigação mais aprofundada sobre os direitos dos Estados e os deveres dos súditos.. meio cavalos . numa de suas fábulas.. Por conseguinte era a paz. Do Cidadão Prf!fácio do Autor ao Leitor não mediam o que era justo segundo o que dissessem e julgassem os particulares. sendo expulso Saturno. e daí remontar até sua geração. começou-se a ensinar que era legal tomar em armas contra os reis. em primeiro lugar coloco um princípio que por experiência é conhecido de todos os homens. quando Ixion foi convidado por júpiter a um banquete. afora aquelas que são lei constituída em cada reino e governo. belicosa e irrequieta. certamente ele nos apontará não só a melhor estrada (the highway) para a paz. como opiniões desse tipo hoje vemos nascerem a cada dia.. ele apaixonou-se e começou a cortejar a própria juno. obscuros e perigosos da facção e sedição. pelo menos. porém pelas leis do reino. ele abraçou uma nuvem. mas que é preciso . entendi que não basta utilizar um estilo claro e evidente no assunto que tenho a tratar.. e pelas razões o mais firmes demonstrar que não há doutrina autêntica do certo e do errado. por isso não costumavam. que as disposições dos homens naturalmente são tais que. mas também nos ensinará como evitar os desvios tenebrosos. para provocar a mais completa ruína de seu Estado. e não eram mantidos em paz graças a debates. a figura e o movimento das rodas não podem ser bem compreendidos. enlaçando uma nuvem falsa e vazia em seu lugar. se algum homem agora dissipar essas nuvens. ou seja: que nós compreendamos corretamente o que é a qualidade da natureza humana. desejaram eles prostituir a justiça. e uma idade de ouro. Por isso. Quanto ao método que empreguei. Mas. e ao primeiro início da justiça.

e às vezes até baterão em seus pais. nem dormem sem fecharem . devemos porém reconhecer. necessidade esta que afeta até os mais honestos e de melhores condi ções. mero aos justos (righteous). ou um homem de disposição infantil. mas que o são por natureza (o que é ímpio enunciar). não apenas que todos os homens sejam perversos (o que. ainda assim guardarem suas fronteiras com homens armados. se não for pelo medo ao poder do vizinho? Vemos.não só suas portas. e chorarão. e todos de todos? Assim agindo. não decorre desse prin cípio.. Poderiam dar os homens melhor testemunho da desconfiança que têm cada um do outro. E disso não decorre absolutamente que aqueles que são maus o sejam por defeito de natureza. e dos perigos que deles se acercam eles ou fogem. possivelmente. Portanto. Mas essa proposição. eles têm a disposição que ora exponho: imediatamente e quanto puderem. a mesma coisa? Na verdade não me contradigo. de seu próprio nascimento: porque. Contudo. de nos defender. sendo criaturas meramente sensíveis.. ou ferem o dever. Vemos todos os países. Alguns objetam que. tanto os países como os par ticulares professam publicamente seu temor e desconfiança mútua. de nos acautelar. fazer uso da força que possui. que mesmo assim os particulares não viajam sem levar sua espada a seu lado. como quando são agressivas. onde há leis e castigos previstos para os delinqüentes. embora estejam em paz com seus vizinhos. estão isentas de todo dever. suas cidades com muros e portas. e negam. Objetareis. o que significa que. pois é verdade. que há alguns que negam isto. ao discutirem. e não será apropriado dizê-las más: primeiro. porque não temos como distingui-los. e adquirem força pela qual possam causar dano. e no entanto não têm culpa. ou com vigor tratam de repeli-los. deveremos necessariamente reconhecer que os homens possam ) 14 15 . de modo que um homem perverso é quase a mesma coisa que uma criança que cresceu e ganhou em força e se tornou robusta.mas até seus cofres e baús. Com que propósito fazem tudo isso. embora os perversos fossem inferiores em nú . cujas ações desmentem o que seus discursos aprovam. Se não dermos às crianças tudo o que elas pedem.. acabam contradizendo a si próprios. de que os homens são maus por natureza. Mas. assim como por necessidade deverá. que muitíssimos o negam. por um desejo que têm de contradizer os outros. por direito natural ele poderá. Pois as afeições da mente que surgem somente das partes inferiores da alma não são perversas em si mesmas. e a malícia é a mesma coisa que uma falta de razão naquela idade em que a natureza deveria ser mais bem governada mediante a boa educação e a experiência. sim. pois. até nos Estados bem governados. embora talvez pareça rigoroso. eles desejam e fazem tudo o que melhor lhes agrada. para proteção de seus concidadãos . isto é. se este princípio for admitido. por temor aos domésticos. todo homem sentirá desconfiança e temor de qualquer outro. necessariamente se seguirá. porque não podem fazer mal. e assim é correto considerá-las. a menos que dizendo que os homens são maus por natureza entendamos apenas que eles não recebem da natureza a sua educação e o uso da razão. Mas será que parecerei incorrer em contradição ao afirmar que os mesmos homens confessam. mas eles sim. e manterem uma constante vigilância. quando elas chegam a uma idade mais madura. para se defenderem. é então que começam mesmo a ser más. não tendo o uso da razão. segundo. para preservar a si próprio. elas serão impertinentes. e tudo isso farão por natureza. sóas ações que delas provêm podem eventualmente sê-lo. eles negam isso. temos a necessidade de suspeitar. por medo. mas isso não é razão para considerá-los maus ou perversos. já que é proclamado com tanta clareza pela Santa Escritura). Do Cidadão Prefácio do Autor ao Leitor coercitivo.. de prevenir. porque. no entanto.

que pretendem constituir esse governo civil. Em terceiro. a saber. mostro adiante o que é o governo civil. sem contudo imputar seus maus efeitos à natureza. Do Cidadão Prefácio do Autor ao Leitor derivar da natureza o desejo. do pacto e daquilo a que chamo de direito. aristocracia. explico em que consiste a natureza da lei e a do pecado. isto é. e disso demonstro com clareza. e de suas propriedades gerais. e que direitos os parti culares. mostro. que detêm o poder supremo. na medida em que Deus mesmo exercia um domínio peculiar sobre os ju. os direitos de guerra.. contrária à religião. tão cedo chegam a compreender essa odiosa condição. e qual é o dever daquele ou daqueles . em conformidade com a interpretação dada por todos. se não o fizerem. porque Deus agora governa a nós. não é absolutamente. demonstrei com forte razão que os poderes soberanos possuem sobre seus súditos. na medida em que Deus tutela todos os governantes por natureza. mas permanecerão os direitos que todos têm a todas as coisas. cristãos. Declaro como são constituídos tais governos. que podem com propriedade ser denominados leis de natureza. e havia reunido o que são seus primeiros elementos em todas as espécies e. pelos ditados da razão natural. para ingressar no reino dos céus. mediante um pacto. revelo quais são as coi sas que os destroem.. distingo suas diversas espécies. em primeiro lugar. Tendo assim deitado estes alicerces.. a ira e outras paixões. para que não pareça repugnante às Sagradas Escrituras aquele direito que. do homem e de suas faculdades e afecções especiais.. de sejam (até porque a natureza a tanto os compele) libertar-se de tal miséria. Tudo isso está compreendido sob o título de Domínio. declaro e confirmo em que consiste a natureza dos pactos. Estas bases assim depostas. que a obediência que afirmei ser devida pelos particulares que são súditos cristãos a seus príncipes cristãos não pode em absoluto repugnar. Ademais. declaro que deveres são necessariamente requeridos de nós. Quero dizer: quais são os ditados da razão. e a quem devem necessariamente ser concedidos para se estabelecer a paz. quer este esteja num homem. Finalmente. acolhe i agora a razão que me moveu a escrever este livro. Na última parte do livro. em virtude de nossa aliança. demonstro em pri meiro lugar que a condição dos homens fora da sociedade civil (condição esta que podemos adequadamente chamar de estado de natureza) nada mais é que uma simples guerra de todos contra todos. Em segundo lugar. como vemos. evidentemente se notará que não há governo civil. ou do governo civil. como e por que meios o direito de um pode ser transferido a outro a fim de validar os pactos. necessariamente têm de transferir ao poder supremo. Ademais. como ele não repugna ao direito divino. Haveis visto qual é meu método. eles abdiquem daquele direito que têm a todas as coisas. que se intitula Religião. e tudo isso está contido naquela parte do livro que intitulo Liberdade. à religião cristã. o medo. e nele o poder supremo e suas diversas espé cies. na qual todos os homens têm igual direito a todas as coisas. e distingo a lei do conselho. a seguir. isto é. A seguir. monarquia. no discurso precedente. na terceira. e concluo por testemunhos evidentes da Sagrada Escritura. Mas isso não se pode conseguir a não ser que. na segunda. e comparo os convenientes e inconvenientes de uns com os dos outros. e. e por conseguinte a autoridade dos governantes supremos. no que quer que seja. por que. depois de concentrá-Ios em três partes conforme o seu grau. quer numa assembléia de homens.. que todos os homens. bem como o dos senhores sobre os seus servos. Em último lugar. pensava escrevê-Ios da seguinte forma: de modo que na primeira trataria do corpo. 16 17 . Estava estudando filosofia por puro interesse intelectual.. e que direitos.deus em virtude da sua antiga aliança4 marcada pela circuncisão. que passa pelo batismo. democracia e domínio paterno. por que meios ele se constitui. do governo civil e dos deveres dos súditos.

e da obediência que os súditos devem. vós mesmos enquanto isso sendo mortos com violência ou sendo consumidos pela idade. o apetite. não mais admiti reis que ambiciosos derramem vosso sanglle para conquistar o seu poder.. mas para vosso bem. embora eu me haja empenhado pela ar gumentação de meu capítulo décimo a fazer os homens acreditarem que a monarquia é o mais cômodo dos gover 18 19 . mas declarar o que são as leis de todos os países. nesse ínterim. mas imediatamente denunciai seu nome. alguns anos antes que as guerras civis se desencadeassem. e coisas parecidas.. não discutir as leis de nenhum governo em especial. finjam sê-Io. mas pelas leis do reino. ordeno. não precisaria das partes anteriores5. Do Cidadão Prefácio do Autor ao Leitor De modo que a primeira parte conteria a filosofia primeira. quanto àqueles que não quiserem se reconhecer sujeitos ao magistrado civil. e não aceiteis apressadamente como sendo a palavra divina aquilo que eles. pois. enquanto eu reflito. o bem e o mal. questões que são as verdadeiras precursoras de uma guerra que se aproxima. poder. que julgareis melhor desfrutar da condição atual. não pela persuasão e opinião dos particulares.. não apontar o que são as leis de um qualquer país. do que teimosamente perturbar a tranqüilidade do público. relação. pode legalmente ser posto à morte sem ordem de seu chefe. e isso foi a causa para que (adiando todos os demais tópicos) amadurecesse e nascesse de mim esta terceira parte. proporção. confessor ou casuísta disser apenas que é conforme ao verbo de Deus a doutrina segundo a qual o governante supremo. Digo mais claramente: se qualquer pregador. ou mesmo qualquer particu lar. conspirar ou fazer pactos contra o poder supremo: não lhe deis crédito algum. O que a última parte aborda é o que acabo de vos expor. Mas não a escrevi por um desejo de ser elogiado (embora. nela consideraríamos as razões de tempo. o intelecto. não os considereis como súditos iguais a vós. e quiserem estar isentos de todos os encargos públicos.antes escolhereis suportar com paciência alguns inconvenientes sob um governo (porque os negócios humanos não podem nunca carecer de inconveniente). Assim sucede que aquilo que era último na ordem veio a lume primeiro no tempo. Ademais. causa. e certos elementos de física. pudesse defender-me com a justa desculpa de que pouquíssimos fazem coisas louváveis. Finalmente. que . quantidade. em particular ou em público. Na segunda discutiríamos a imaginação. não dar ocasião a pensarem que minha opinião seja que se deve menos obediência a um governo aristocrático ou democrático. travando guerra. o raciocínio. tentar reformá-Ia em benefício de outros homens e em outra época. que. mas tomai-os por inimigos e espias. o que é honesto ou desonesto. do que. mas deixá-Ias para serem determinadas pelas leis. não debato). aconteceu. ponderando a justiça daquelas coisas que considerardes. leitores. e pensativa e vagarosamente componho estes tópicos (pois apenas raciocino. Porque. Depois. não definir nada do que diz respeito à justiça das ações singulares. Terceiro. que não sejam afetados pelo elogio). propus-me a seguir em todo este discurso a regra seguinte: primeiro. isto é. e não obstante quiserem viver sob a sua jurisdição e ter proteção contra a violência e as injúrias de terceiros. a memória. e isso porque vi que esta parte. do que a uma monarquia.assim me persuadi uma vez que tiverdes corretamente apreendido e completamente compreendido esta doutrina que ora vos ofereço . fundada em seus próprios princípios suficientemente conhecidos pela experiência. se o tivesse feito. figura e movimento. já fervia com questões acerca dos direitos de dominação.. que meu país. ou que os súditos podem resistir. embora talvez não seja a melhor. E quem aprovar estas razões que aqui dou também apreciará as intenções que segui escrevendo este livro. lugar. a vontade.

exceto aquelas que despem os súditos de sua obediência e assim abalam os alicerces do governo civil. mas apenas enunciada segundo a probabilidade6). porém.a saber. razão por que distribuí umas poucas cópias do manuscrito a alguns dos meus amigos. ~ 20 21 . Tratei. se vos depararem algumas coisas que tenham mais veemência e menos certeza do que deveriam ter. para uso daqueles que se sentiram desconcertados com os princípios mesmos . finalmente. Mas. Do Cidadào Prefácio do Autor ao Leitor nos (única coisa neste livro inteiro que confesso não ter sido demonstrada. Finalmente. o que digo da natureza humana. Por isso não fui muito afetado pelas repreensões de tais homens. árdua ou obscura. expressamente. da natureza dos pactos e contratos. leitores. ao fazê-Ias. satisfaria as suas divergências. Por conseguinte. aliviá-Ia e explicáIa.mas tal objeção veio apenas de eclesiásticos.mas isso só me foi objetado por advogados. porque ao assinalarem falhas eles não seguiram tanto as suas paixões. para que não expusesse. e aqueles cujas mentes delicadas se ofendem facilmente ante qualquer diferença de opinião. alguma coisa que não fosse necessária. de não ofender a ninguém a não ser aqueles cujos princípios os meus contradizem. imprudente. Estas coisas eu vi sofrerem as críticas mais amargas: que dera aos poderes civis demasiada amplidão . que. para que ã luz das opiniões alheias. que suprimira por completo a liberdade de consciência . não quis apresentar de imediato ao público o que escrevi aqui. faziam apenas os seus negócios pessoais. que em qualquer tipo de governo deve haver um poder supremo e igual. que elevara os príncipes acima das leis . não discutir de forma alguma as teses dos teólogos. e por alguém cuja justa dor pelas calamidades que ora devastam seu país pode caridosamente merecer alguma liberdade. e da origem do governo civil -. Quarto. presumi. da autoridade ou direito de natureza. é que digneis acolhê-Ias com igual espírito.. mas antes o seu senso comum.objeção. apenas de sectários. sua única solicitação a vós. eu pudesse corrigi-Ia. afirmo porém a todo momento. se qualquer coisa se mostrasse errônea. como não são ditas para defender a dissidência e sim para instaurarse a paz.. tomei então o cuidado de acrescentar em certas passagens algumas notas pelas quais. exceto para atar os laços que dera com ainda mais força.

~ iooo t ~ ~ ~ ~ Iooooi ~ - .

razão e paixão. que conselho foi necessário tomar para chegar a tanto.~ CAPÍTULO I' Da Condição Humana Fora da Sociedade Civil2 1. Partindo delas para a doutrina que se segue. 2. Que o começo da sociedade civil provém do medo recíproco A maior parte daqueles que escreveram alguma coisa a propósito das repúblicas3 ou supõe. quais são as leis fundamentais de natureza. ou nos pede ou requer que acreditemos que o homem é uma criatura que nasce apta4 para a sociedade. e sobre este alicerce eles erigem a doutrina da sociedade civil como se. isto é . eles nascem aptos para a sociedade e para se preservarem da violência recíproca. Mostraremos. que modo de inclinações os homens dotados com tais faculdades manifestam uns em relação aos outros. expo remos. experiência. então. Os gregos chamam-no zoon politikon. Introdução As faculdades da natureza humana podem ser reduzidas a quatro espécies: força corporal. ou a paz humana.mudando apenas as palavras -. e quais são as condições para a sociedade. e por que faculdade. Veremos pois se. para se preservar a paz e o governo da 25 . em primeiro lugar.

permitam-me dizer algo daqueles que pretendem ser mais sábios que os demais. de modo que as partes reunidas se empenham em conseguir algum benefício. uma certa amizade comercial se constitui. e por isso dela podem brotar facções. se passe o tempo contando histórias. sua vida inteira. é até mesmo muito raro que algum presente não receba alguma seta antes de partir. razão por que pode (conformemente à natureza daquilo que é ridículo) mais subir em sua própria opinião quando se compara com os defeitos e deficiências5 de outrem. homens e animais. ou aquele mesmo eudokimeirt' que alguns estimam e honram junto àqueles com quem conviveram. imediatamente todos os demais. porém apenas a seu negócio. ou para que freqüente mais aqueles cuja companhia lhe confere honra ou proveito. nesse tipo de reunião ferimos os ausentes. Como. Mas. por aquelas paixões que afetam a todas as criaturas. a 26 27 . se eles se reúnem para falar de filosofia. para os quais somos impelidos pela natureza. não poderíamos encontrar razão para que todo homem não ame igualmente todo homem. leis. mas com sua própria vã glória. e embora isto por vezes se faça de modo inocente e sem ofender. embora acolhido pela maior parte. o mais das vezes. tantos serão os que desejariam ser estimados mestres. estes nós desejamos primariamente. não procuramos companhia naturalmente e só por si mesma. Assim constatamos que. se é para desempenhar algum ofício. Finalmente. mas até os perseguirão com seu ódio. E são bem estes os verdadeiros encantos da sociedade. os homens se congregam. mas para dela recebermos alguma honra ou proveito. se não tiverem os inventarão. que toda reunião. quer da vã glória. a todos aqueles que tenham considerado com alguma precisão maior que a usual os negócios humanos. Portanto. Axioma este que. ou por uma experiência triste. de modo que não é má a razão daquele que procura ser sempre o último a ir embora. o discurso dos homens mais eloqüentes e de verbo mais veloz se torna frio e fraco. O mesmo também se pode concluir pela razão. condenados.Do Cidadão r Liberdade humanidade. é porém manifes to que tais homens não se deleitam tanto com a sociedade. se acontecer que. e se deleitam uns na companhia dos outros. julgados. se os tiverem. por mais livre que seja. Pois aqueles que perscrutarem com maior precisão as causas pelas quais os homens se reúnem. enquanto homem -. e se não o forem não apenas não amarão seus próximos. é contudo sem dúvida falso . melhor se saberá observando-se aquelas coisas que fazem quando estão reunidos. e com que desígnio. que tem em si mais de zelo (jealousy) que de verdadeiro amor. mas boa vontade nunca. quando se reúnem para comerciar. é evidente que cada um não o faz por consideração a seu próximo. Fora desses encontros. e alguém comece a narrar uma que lhe diz respeito. se um homem devesse amar outro por natureza . os demais narrarão milagres. nada mais fosse necessário do que os homens concordarem em firmar certas convenções e condições em comum. numa reunião. Isso porque. cada homem está afeito a se divertir mais com aquelas coisas que incitam à risada.isto é. até que. às vezes. ocorra (o que a muitos jamais sucede) que o apetite das coisas presentes seja empanado pela memória das coisas passadas. ou por bons preceitos. Assim esclarece a experiência. com a maior avidez desejam falar de si próprios: se um conta alguma maravilha. sejam eles quantos forem.um erro que procede de considerarmos a natureza humana muito superficialmente. então. deriva quer da miséiÜ recíproca. mas por acidente. facilmente hão de notar que isto não acontece porque naturalmente não poderia suceder de outro modo. todos os seus ditos e ações são examinados. se for por prazer e recrea ção da mente. que eles próprios chamariam. aquela só secundariamente. por ser tão ho mem quanto qualquer outro. Pois. isto é.

ou conduzem à sensualidade. na igualdade natural dos homens. todos os homens 4. se começa da vã glória. aquilo que cada um dos que se reúnem propõe-se como bem. deva se conceber feito por natureza superior a outrem. isto é. todos os homens têm desejo e vontade de ferir. naturalmente iguais entre si. e muito. contudo . Portanto. e da falsa avaliação que ele efetua de sua própria 29 força. graças à colaboração recíproca. Que por natureza todos os homens são iguais A causa do medo recíproco consiste. pois todo homem vale o quanto vale por si. bem. 28 . e como é fácil até o mais fra co dos homens matar o mais forte. faz também perecer toda a nossa força. a menor segurança. No estado de natureza. nela estamos procurando o objeto da vontade. e exigirá mais respeito e honra do que pensa serem devidos aos outros (é o que exige um espírito arrogante). ou ser duradoura. Pois um. honra e útil. Devemos portanto concluir que a origem de todas as grandes e duradouras sociedades não provém da boa vontade recíproca que os homens tivessem uns para com os outros. quererá ter licença para fazer tudo o que bem entenda. a desigualdade outrem são De onde provém a vontade de causar dano aque hoje constatamos encontra sua origem na lei civil. em parte. Pois em qualquer tipo de sociedade. nem prometer a nós mesmos. 3. permite aos outros tanto quanto ele próprio requer para si (que é como pensa um homem temperado. do que pela associação com outrem -. a natureza humana tenderia com muito mais avidez à dominação do que a construir uma sociedade. vigor e mesmo sabedoria).como podem ser obtidos com mais facilidade pelo domínio. sem a ajuda dos outros. em parte na sua mútua von tade de se ferirem . pois consiste em comparação e precedência. se fosse removido todo o medo. São iguais aqueles que podem fazer coisas iguais um contra o outro. da violência daquele. supondo-se su perior aos demais. embora os benefícios desta vida possam ser ampliados. conformando-se àquela igualdade natural que vige entre nós. perecendo. e se refere quer aos sentidos.do que decorre que nem podemos esperar dos outros. Outro. Mas todo prazer mental ou é glória (que consiste em ter boa opinião de si mesmo). Mas. ou termina se referindo à glória no final. Ora. ou é para o ganho ou para a glória isto é: não tanto para o amor de nossos próximos. que pode ser compreendida entre as conveniências mundanas. mas que não procede da mesma causa. porque essa glória é como a honra: se todos os homens a têm. tudo o que venha a parecer bom é agradável. e a companhia dos outros não adianta um ceitil que seja a causa de eu me glorificar em mim mesmo. espero que ninguém vá duvidar de que. e con siderarmos como é frágil a moldura de nosso corpo huma no (que. se a associação é contratada voluntariamente. provém da necessidade de se defender. não há razão para que qualquer homem. Os demais prazeres são sensuais. e por isso não deve ser condenado com um igual vigor. quanto pelo amor de nós mesmos. se examinarmos homens já adultos. nenhum a tem. No segundo homem a vontade de ferir vem da vã glória. quer à mente. Toda associação. Mas nenhuma associação pode ter grandeza. confiando em sua própria força. e que corretamente avalia seu poder). no outro. Pois. bem como à sua liberdade e bens. mas do medo recíproco? que uns tinham dos outros.Do Cidadão Liberdade partir das definições de vontade. portanto. e aqueles que podem fazer as coisas maiores (a saber: ma tar) podem fazer coisas iguais.

O direito ao fim confere direito aos meios necessários para aquele fim Mas. deve também ser-lhe reconhecido o direito de utilizar todos os meios. 8. e isso ele faz por um certo impulso da natureza. decorre que. a primeira fundação do direito natural consiste em que todo homem. 6. implicitamente. ou de palavras. cuidar de si mesmo não é uma questão que deva ser considerada com tanto desdém. nem dividir. Não é pois absurdo. têm um apetite pela mesma coisa. nem contraria os ditames da verdadeira razão. contudo. 7. de errar naquilo que está dizendo. como seria se não houvesse em nós poder e vontade para agir de outro modo. dentre tantos perigos com que os desejos (lusts) naturais dos homens diariamente os ameaçam. de modo que discordar num grande número de coisas é o mesmo que chamar de louco àquele de quem discordas. Não há maior humilhação para o espírito do que esta. e praticar todas as ações. A discórdia nasce da comparação das vontades Ademais. Definição de direito Assim. sem as quais ele não possa preservar-se. mas até mesmo quem simplesmente não concorda conosco. ou de um sinal qualquer. Todo o prazer e alegria (jollity) da mente consiste em encontrar pessoas que. quando a contestação portanto incide quer sobre doutrinas. e facções da mesma república. se nos comparamos a elas. com muita freqüência eles não podem nem desfrutar em comum. Isto transparece no fato de que não há guerras que sejam travadas com tanta ferocidade quanto as que opõem seitas da mesma religião. na medida de suas forças. como o combate entre os espíritos8 é de todos o mais feroz. 30 31 . ao mesmo tempo. seja por meio de risada. com tanta certeza como uma pedra cai. tendo todo homem direito a se preservar. que alguém use de todo o seu esforço (endeavours) para preservar e defender seu corpo e membros da morte e dos sofrimentos. aquilo que não contraria a reta razão é o que todos os homens reconhecem ser praticado com justiça e direito. Ora. nos fazem sentir triunfantes e com motivo para nos gabar. pois. Isso porque neste caso é odioso não sóquem nos combate. Pois todo homem é desejoso do que é bom para ele. do que se segue que o mais forte há de tê-Ia. se empenhe em proteger sua vida e membros. como é vão alguém ter direito ao fim se lhe for negado o direito aos meios que sejam necessários. pela palavra direito. ou de gestos. dele necessariamente devem nascer as discórdias mais sérias. Por conseguinte. Pois não aprovar o que um homem afirma nada mais é que acusá-Io.Do Cidadão Liberdade 5. e foge do que é mau. que. que é a morte. mas acima de tudo do maior dentre os males naturais. quer sobre a prudência política. E do apetite que muitos têm pela mesma coisa Mas a razão mais freqüente por que os homens dese jam ferir-se uns aos outros vem do fato de que muitos. nem repreensível. por isso é impossível que os homens não venham eventualmente a manifestar algum desprezo ou desdém pelo outro. e possivelmente nada poderá causar maior desejo de ferir. e necessariamente se decide pela espada quem é mais forte. nada mais se significa do que aquela liberdade que todo homem possui para utilizar suas faculdades naturais em conformidade com a razão reta.

antes de ingressarem na vida social. Todos têm. se ele julga o que me diz respeito. não passava de guerra. não hei também eu de julgar das coisas que a ele se referem? Portanto convém com a razão reta. no parágrafo anterior. e esta não ser uma guerra qualquer. que eles derivam de suas paixões mas. por aquela mesma razão e igualdade natural que vige entre nós. Pois. do qual portanto entendemos que. pelo direito de natureza. por natureza. era lícito cada um fazer o que quisesse. quase. isto é. seja por pala vras. e o fato de ele a desejar já indica que ela contribui. resiste. são necessários ou não à preservação de sua vida e membros . 33 32 . com todo o direito. graças ao qual um com todo o direito invade. que se não houvesse direito algum. num estado puramente natural9. a ser juiz da questão se ela contribui ou não. igual direito a todas as coisas A natureza deu a cada um um direito a tudo. Pois digamos que outro homem julgue que é contrário à reta razão que eu deva julgar do perigo em que eu mesmo incorro: então por que. e pelo parágrafo sétimo se evidencia que o direito de natureza permite que sejam feitas ou havidas aquelas coisas que necessariamente conduzem à proteção da vida e dos membros . acima de tudo. pode julgar. a essa propensão natural dos homens a se ferirem uns aos outros.Do Cidadão Liberdade 9. seja por atos? O tempo restante é denominado paz. Mas esse direito de todos a tudo é inútil Mas foi pequeno benefício para os homens assim terem um comum direito a todas as coisas. e portanto surgem infinitos zelos e suspeitas de toda a parte. de uma vã estima de si mesmos. "a natureza deu tudo a todos". tendo igual direito e igual po 10. se considerarmos que tarefa árdua é nos resguardarmos de um inimigo que nos ataca com a intenção de nos oprimir e arruinar. usar e desfrutar tudo o que quisesse ou pudesse obter. ou pelo menos lhe parece contribuir.isso só ele próprio. outro. e portanto possuir. ou seja. isso quer dizer que. E é este o significado da quele dito comum.estado dos homens fora da sociedade civil é um simples O irá pretender que é dele essa mesma coisa. portanto consideraremos como necessário à sua conservação tudo o que ele assim entender). não poderá porém desfru tar dela. para sua conservação (e ademais já o autorizamos. pertence ao direito de natureza. 11. a medida do direito está na vantagem que for obtida.der. senão aquele tempo em que a vontade de contestar o outro pela força está plenamente declarada. isso então decorre que. que eu julgue se ela conduz ou não a minha preservação. antes que os homens se comprometessem por meio de convenções ou obrigações. no estado de natureza. embora qualquer homem possa dizer. ou a ação que está praticando. e contra quem julgasse cabível. Pelo direito de natureza. que eu julgue sua opinião a meu respeito. para todos é legal ter tudo e tudo cometer. mas uma guerra de todos contra todos. porque seu vizinho. não haverá como negar que o estado natural dos homens. no estado de natureza. de qualquer coisa.de tudo 12. como basta um homem querer uma coisa qualquer para que ela já lhe pareça boa. ou seja. todo homem é juiz dos meios que tendem a sua própria conservação Contudo. ainda que ele venha com pequena tropa e escas so abastecimento. se os meios que ele está para usar. Ora. Pois o que é a guer ra. estado de guerra: definição de guerra e de paz Se agora. pois os efeitos desse direito são os mesmos. somarmos o direito de todos a tudo. "isto é meu".

dada a igualdade dos que se batem. ela não seja contra todos. a dar-lhe garantias de que lhe prestará obediência no futuro Conseguimos ter companheiros ou pela força. A guerra é adversa à conservação do homem É fácil julgar como uma guerra perpétua é inadequada à conservação. e um inimigo forte. quer da espécie humana. é mais conforme à razão . mesmo nos dias atuais. quem quer que sustente que teria sido melhor continuarmos naquele estado. porque. vencedor faz o vencido servi-Io ou por medo de morrer. estará se contradizendo. quando depois do combate o 15. quer de cada homem ind~vidualmente considerado. fosse mesmo o mais forte de todos. nem nos falte algum auxílio. essencial e imediatamente. ou deitando-lhe grilhões. Portanto sucede que. pelo direito natural. quando os homens ingressam na vida social para se ajudarem uns aos outros. Os índios da América nos dão bom exemplo disso. para dele fazeres. 14. o direito. conseguisse cerrar os olhos entrado nos anos e em idade provecta. em que todas as coisas eram permitidas a todos. 35 34 . com ambas as partes consentindo sem qualquer coerção. ferozes. e outras nações houve. estando privadas de todo aquele prazer e beleza de viver que a paz e a sociedade usualmente proporcionamlO. Pois todo homem. E. que a pessoa que está sendo forçada prefira escolher a morte. e está fraco. se tivermos de travar guerra. compelir outro. Disso também podemos entender que constitui um corolário do estado natural dos homens que um poder certo e irresistível confere a quem o possui direito de dominar e mandar naqueles que não possam resistir. que antes expusemos. deseja aquilo que para ele ébom.e mais seguro para nossa conservação . e este perigo vinha de sermos todos iguais. A natureza dita a busca da paz Mas os homens não podem esperar uma conservação duradoura se continuarem no estado de natureza.Do Cidadão Liberdade 13. é claro. pobres. teu inimigo. devido ao medo que sentimos uns dos outros. como o direito de nos protegermos segundo nossa vontade resultava de estarmos em perigo. da vantagem que temos para ad quirir garantias que nos proporcionem segurança. ou o forte o mais fraco (assim como um homem saudável pode forçar um adoentado. Isso porque. ou alguém de mais idade pode forçar uma criança) a darlhe garantias de que no futuro lhe obedecerá . por necessidade natural. por outro lado. de modo que essa onipotência engloba. numa luta de resultado incerto. ou seja. para só então nos empenharmos em recuperar. aquele poder que antes detínhamos. É legal qualquer homem. que hoje de fato se tornaram civis e prósperas. de uma só vez. Pela força. e escaparem de nosso poder. por consentimento. e conseguirmos alguns associados (fellows) . mas que então eram pouco povoadas. a ela não pode se põr termo através de uma vitória. E ela é perpétua por sua própria natureza. ou pelo consentimento. a quem ele tomou em seu poder. e assim ninguém considera que lhe faça bem uma guerra de todos contra todos.a menos. entendemos que convém nos livrarmos dessa condição. Por isso. O vencedor tem o direito de forçar o vencido. em tempos idos. embrutecidas e de curta expectativa de vida. nada pode ser considerado mais absurdo do que soltares aquele que já tens em teu poder.para que. a fazer tudo. hoje. que é a conseqüência necessária daquele estado.usar. pois nesse estado o vencedor está sujeito a tanto perigo que deveria considerar-se um milagre se alguém. em vez de os deixarmos crescerem e se fortalecerem.

Estes. É o que mostraremos no próximo capítulo.Do Cidadão de guerra. ou nada fazem contra a razão. pois é óbvio que. A lei de natureza não é um consenso dos homens. seria impossível quem quer que seja. é a despeito de sua própria vontade. ou. e a outras faculdades com que estão dotados. se fazem algo. têm de se incluir todos os homens efetivamente dotados de razão. porém o ditame da razão Os autores que constantemente usam em seus escritos o termo "lei natural" nem por isso concordam a respeito de sua definição. alguém dirá que é porque vai contra o acordo geral de todas as nações mais sábias e cultivadas. quando houver qualquer esperança de obtê-Ia. e isso devido à igualdade de poder que entre eles há. mas com isto não esclarece quem haverá de julgar o saber e a sabedoria de todas as nações. Outro explicará que tal ato foi cometido contra o consenso geral de toda a humanidade definição esta ainda mais inadmissível. que nos preparemos para a guerra.é que procuremos a paz. a lei de natureza . Pois. as mesmas coisas que aprovam na sua própria. serve apenas àqueles que não querem deixar espaço para mais controvérsia. exceto crianças e 10ucos2. ofender uma tal lei. sob a noção de humanidade. Ademais. para explicar por que determinado ato afronta a lei de natureza. Por exemplo. se não houver nenhuma. portanto. É que o método que nos faz começar pelas definições e pela exclusão de todo equívoco. sem esquecer 36 37 . os homens condenam. se a aceitássemos.isto é. e. na conduta alheia. CAPÍTULO II Da Lei de Natureza Acerca dos Contratos 1. mas em verdade seria irracional considerar as leis de natureza a partir do que aceitam aqueles que mais as quebram do que respeitam. e por isso devem ser escusados. Por conseguinte o ditado da reta razão .

esperança. a fim de assegurar a conservação da vida e das partes de nosso corpo. sem sombra de dúvida. A primeira lei especial de natureza é que não devemos conservar nosso direito a todas as coisas Uma das leis naturais inferidas desta primeira e fundamental é a seguinte: que os homens não devem conservar o direito que têm. que (já que faz parte da natureza humana. de comum acordo e com muita convicção. logo 38 39 . devemos considerar injustas (wrong) apenas as ações que repugnem à reta razão. acabamos de provar que os ditados da reta razão constituem leis naturais. Por conseguinte. devemos fazer. se cada um conservasse seu direito a todas as coisas. quando possa ser encontrada. e se não for possível tê-Ia. necessariamente se seguiria que alguns teriam direito de invadir. que nos equipemos com os recursos da guerra. empenha-se por defender seu corpo e as coisas que julga necessárias para protegê-Io).Do Cidadão Liberdade que elogiam de público o que. onde ela possa ser alcançada. o que é transferi-lo Diz-se que abre mão de seu direito quem a ele renuncia de forma absoluta. E a injustiça (wrong) que é cometida. Portanto. E esta é a primeira lei. todos. porque as demais dela derivam. que contradigam alguma verdade segura. Age pois contra a razão da paz. e fundamental. por sinal suficiente ou símbolos adequados. que este preceito é ditado pela reta razão. naquilo em que antes poderia resistir. manifesta a vontade de que deixe de ser lícito (lawful) ele fazer aquilo a que antes tinha direito. já antes de ocorrer a transferên 2. no último parágrafo do capítulo anterior. E transfere seu direito aquele que. ou renunciados. Mas já que todos reconhecem que é conforme ao direito aquilo que não viola a razão. acima. declara a outro que é sua vontade que se torne ilícito ele resistir-lhe. na medida de nossas capacidades. assim defino a lei da natureza: é o ditame da reta razã03 no tocante àquelas coisas que. do que com base em sua reflexão própria. em nos defendermos A lei de natureza primeira. a todas as coisas. e se põem de acordo com base mais no ódio que tenham a algum objeto (por medo. e emitem suas opiniões mais por ouvir dizer. e que alguns desses direitos devem ser transferidos. todo aquele que não abre mão de seu direito a todas as coisas. E por isso acontece que povos inteiros freqüentemente cometam. a verdadeira razão é uma lei certa. do que na verdadeira razão. em particular. ou omitir. isto é. dizemos que é cometida contra a lei. por sinal suficiente ou símbolos adequados. 3. e quando isso não for possível. ou o transfere a outrem. Pois mostramos. A lei fundamental de natureza consiste em procurar a paz. é que devemos procurar a paz. por necessidade natural. condenam. se defenderiam daqueles (pois todo homem. E disso se seguiria a guerra. pelo mesmo direito. ou seja. e. contra a lei de natureza. aqueles mesmos atos que no entender de tais pensadores infringem. A transferência de direito consiste meramente na nãoresistência . e outros. inferida por um correto raciocínio a partir de princípios verdadeiros. 4. O que é renunciar a seu direito. amor ou alguma outra perturbação da mente). e dirigem nossos caminhos quer para a paz. Pois. quer para a autodefesa.isso porque. Renuncia absolutamente a seu direito quem. tanto quanto qualquer outra faculdade ou afecção da mente) também é denominada natural. a lei de natureza.

de modo que a ele não se poderia conferir nenhum direito novo. De modo que o dia inteiro de hoje ele conserva seu direito. Na doação gratuita. se eu falar no tempo presente. é requisito necessário a aceitação de quem o recebe Na transferência de direito. nem por isso eu teria simplesmente renunciado a meu direito. agora é completamente abolido. Somente palavras no tempo presente transferem um direito E. também ele. coisa amanhã assim afirma. então elas terão de ser válidas. Para transferir o nosso direito. quando alguém vende ou dá uma terra4: a pessoa assim se priva definitivamente de todo direito que tinha a essa terra.da declaração da vontade. Pois a razão que me levava a abandoná-Ia a tal pessoa estava nela apenas. e que o direito que o outro tem de recebê-Ia amanhã já lhe foi transferido por mim desde o dia de hoje. e que impedia o outro de livremente desfrutar de seus próprios direitos. não transferimos nosso direito mediante palavras no futuro Se alguém transfere parte de seu direito a outrem. ar free donation). por exemplo. 7. se eu quisesse dar algo meu a alguém. claramente. não transfe rem nada. e ainda amanhã. as palavras no futuro são validadas para transferir o direito 5. caso estejam tão-somente no futuro. Por exemplo. Pois a transfe rência do direito não depende das palavras. seu beneficiário detinha.como já se exemplificou no parágrafo quarto . mas nem por isso priva outros de um eventual direito seu a ela. meu se conserva até que dele me separe. ou o teria transferido a qualquer homem. até as palavras que es tão no futuro podem. não basta a vontade apenas daquele que transfere: também é preciso haver a daquele que recebe. dádiva. ou por algum pacto. que aquele que transferiu o direito antes possuía. somos obrigados apenas 40 41 . Desta forma. doação ou dom gratuito (gifi. tudo o que faz é conseguir segurança para si.pois o que é meu. 8. embora as meras palavras não sejam sinais suficientes para declarar a vontade. e não o faz por algum benefício determinado que dele tenha recebido. o direito permanece . e este recusasse aceitá-Ia. não em outras. uma transferência dessa espécie é chamada presente. então estas deverão estar no tempo presente ou passado.como. Apenas o direito de resistência.Do Cidadão Liberdade cia. tornar-se tão válidas como se estivessem no presente. Contudo. Mas. quem quer que adquira algum direito no estado natural dos homens. Se faltar uma delas. Porque. se graças a outros sinais se evidenciar que aquele que está falando do futuro pretende que essas palavras tenham eficácia para a perfeita transferência de seu direito. No dom.pois. se lhes acrescentarmos outros sinais adequados. que ainda não deu. direito a tudo. a não ser palavras. por estas palavras significo que já dei a coisa. 6. por exemplo Eu dou ou Dei isso e o entregarei amanhã. Portanto. Se houver outros sinais que expressem a vontade. quem fala no futuro Eu darei tal '. e ficar livre de qualquer justo entrave no desfrutar seu direito primitivo . a não ser que nesse ínterim realmente o transfira . se não houver outros símbolos de nossa vontade de abandonar ou transferir nosso direito. mas .

pelo qual a liberdade de não cumprir se vê abolida. como significando que com toda a certeza cumpriria sua parte no momento fixado. transferimos o direito mediante palavras que se referem ao futuro A convenção firmada pela parte que recebeu crédito. a não ser algum benefício járecebido. porém. Por isso. pois. Por isso. pela razão exposta no parágrafo anterior. e não se pode dizer que já tenha dado. 9. enquanto palavras não nos obrigam. então começa a obrigação. para com aquele que não se comprometeu. desejasse que suas palavras fossem compreendidas como obrigandoo. ou ainda nenhuma cumpre. não um doador. quem assim promete deve entender-se que tenha tempo para deliberar. e esse tipo de promessa chama-se convenção6. E por essa razão. ou por receber. mas um doson5. ou então uma cumpre. transfere o direito futuro exatamente como se tivesse sido formulada em palavras vazadas no presente ou no passado. Quando ambas as partes cumprem imediatamente aquilo a que se comprometeram. nenhum outro sinal se pode fornecer da vontade de quem dá. e o poder de mudar aquela afeição. o dom deixaria de ser gratuito. ou as duas 42 43 . ou mais.Do Cidadào Liberdade por aquelas palavras que estejam no tempo presente ou no pretérito . onde cessa a liberdade. e ser chamado. em quem confiou. como tudo o que se faz voluntariamente tem em mira algum bem para quem comete a ação. com aquela que já cumpriu o que devia. e que não está em vigor nenhum pacto . e ao não impedir tal entendimento proporcionou um sinal evidente de que era sua vontade cumprir o prometido. Porém. Mas. quem ainda delibera é porque ainda está livre. ainda quando a promessa esteja feita em palavras futuras. e confia na outra. e por conseguinte são obrigatórias. Ora.isto é. que recebeu a confiança. o contrato chega a seu termo tão logo se dá o cumprimento. as promessas feitas por algum benefício recebido (que também são convenções) são sinais da vontade .porque. Em todo contrato. No caso. que mutuamente se transferem direitos chama-se contrato. supõe-se que tal benefício não foi adquirido. Definição de contrato e de pacto ("compact") O ato de dois. Ora. a retribuir-lhe um benefício. ela deve necessariamente provir de algum outro sinal da vontade. e que apenas atesta sua boa afeição no momento presente. só que nenhum sinal podemos ter de que o homem que utilizou palavras futuras. de modo que nenhuma precisa ter confiança (trust) na outra. Pois. quando se dá crédito a uma ou a ambas. partes imediatamente cumprem aquilo que contratam. sabia que assim seria entendida. se ele promete com freqüência. são sinais do último ato na deliberação. assim como foi declarado no parágrafo anterior. devam ficar obrigados por qualquer promessa que façam. E não é adequado à razão supor que aqueles. que quando se faz um tal dom se espera um bem recíproco sem pacto (a mutual good turn). Pois o cumprimento por uma das partes é sinal mais que manifesto de que ela entendeu a fala da outra. 't 1 O. que facilmente se inclinam a agir bem para com outros. Nos pactos. merece ser condenado por leviandade. se houver obrigação. assim como aquele a quem ele fez essa promessa pode alterar o seu merecê-la. e pelo mesmo sinal aquela. então aquele que recebeu a confiança promete cumprir depois a sua parte. em absoluto. se estiverem no futuro. Resta.senão. e dá pouco.

13. são as coisas no estado de natureza. então não é o voto. não é conforme à razão que alguém cumpra primeiro sua parte. deve ser julgado por aquele que tenha dúvidas a respeito. ora. E é por isso que não podemos pactuar com os animais. firmar convenções com Deus. num estado civil. sua liberdade permanece. se antes de proferir o voto ele fosse livre de agir ou não agir. Os pactos não obrigam além de nosso máximo esforço Somente se podem firmar convenções sobre aquelas coisas que estão sujeitas a nossa deliberação . se não houver uma revelação. exceto na medida em que. Os pactos de fé recíproca são nulos e inúteis no estado de natureza.expor-se-áà vontade maldosa daquele com quem contratou. e obrigado. mas a própria lei. Esclareço que chamo de beneficiado (obliger) aquele em relação a quem alguém se acha obrigado. Pela mesma razão homem algum pode Desta razão - 44 45 . se não for provável que o outro vá depois cumprir o que prometeu. como o outro pode ser forçado pelo poder a desempenhar a sua parte. com Deus de que em todos os dons gratuitos e pactos é preciso que seja aceita a transferência de direito segue-se que ninguém pode firmar pacto com quem não declare sua aceitação.já que eles não têm fala nem entendimento. porque para completar uma obrigação firmada em voto é necessário que o beneficiado (obliger) confirme clara mente sua vontade de aceitá-Ia. ou deles tirar.quando portanto nenhuma das partes cumpre prontamente o que lhe compete -. digo eu. ela só pode se referir a coisas possíveis e futuras. Por conse 12. desaparece a causa que ele teria para temer o não-cumprimento por seu parceiro.~ Do Cidadão Liberdade 11. nem. con forme dizem as Sagradas Escrituras. de que é vontade de Deus aceitar o seu voto ou pacto. se por acaso ocorrer a qualquer uma delas uma justa suspeita?. Por isso. nem a eles podemos dar. portanto. segundo mostrei no parágrafo nono do capítulo anterior. ele não o obrigará. Assim. suponho não possa Ocorrer. 14. ou obrigar-se para com Ele por meio de um voto (vow). qualquer espécie de direito . se isso é provável ou não. no caso proposto. Mas. aquele que combinou ser o primeiro a cumprir assim deve fazer . por certíssima revelação. E ainda. mas não dentro do estado civil As convenções que sejam firmadas segundo um contrato de confiança recíproca . são inválidas no estado de natureza.a não ser que tenha conhecimento. que o obriga. que portanto têm autoridade para aceitar tais votos e convenções em seu nome. Pois aquele que primeiro cumprir . Pois. Nem tampouco fazer um voto a Deus Por isso quem vive no estado de natureza. a vontade é o último ato na deliberação. onde nenhuma lei civil o obriga. E. o que. e.devido à perversa disposição da maior parte dos homens. aquele que assim contrai um compromisso. se o seu voto for contrário à lei de natureza. inversamente. Ninguém pode firmar pacto com animais. que perscrutam sua própria vantagem sem se importarem se os meios são corretos ou errados . no qual existe um poder que pode compelir ambas as partes.pois não se pode contratar se não for pela vOhtade de quem contrata.porque. Deus pôs em seu lugar certos homens. dado que ninguém está obrigado a cumprir um ato ilegal. em vão profere votos . se o voto resultar em algo que é ordenado por alguma lei de natureza.

Por conseguinte. poderiam também ser consideradas nulas e de nenhum efeito . que lhe prometeu pagar o preço do resgate. prometer. para resgatar minha vida. no estado de natureza. por pacto. ou sendo perdoados do seu cumprimento. e quando tanto a promessa quanto aquilo que é prometido estão dentro da lei. Mas muitas vezes nos comprometemos a fazer coisas que parecem possíveis no momento da promessa. as convenções que firmamos não nos obrigam a cumprir exatamente a coisa que foi combinada. se aquele a quem nos obrigamos nos dispensa de cumprir a obrigação. espera a contrapartida de um certo bem que ele valoriza. ou deixar de fazer determinada coisa. nossas promessas nos obrigam ainda quando procedam do medo. entende-se que nos de volve o mesmo direito que anteriormente lhe havíamos transferido. 17. a fazer algo impossível. ainda assim ele terá de fazer por ela o possível. o benefício. ou relevados. e depois convencionar o contrário com outra pessoa. até mesmo a um ladrão. Não tem validade o pacto posterior que contradiga um anterior No caso de alguém combinar com uma pessoa no sentido de fazer. Cumprindo. as promessas extorquidas por medo de morte Muitos perguntam se os pactos que nos foram extorquidos pelo medo são obrigatórios ou não. embora uma tal promessa deva em certos casos ser considerada nula e sem nenhum efeito. mas sim a fazer o máximo de nossos esforços por ela: pois só o nosso esforço está em nosso poder. se vier a ocorrer que essa dação se mostre impossível. o que é. e graças às quais foram feitas as leis. já. as coisas não. Por exemplo. sob a condição de que posteriormente haverá de retribuí-Io. isso quer dizer que então nos libertamos da obrigação anteriormente contraída? A razão a se considerar é que quem promete uma coisa futura recebe. porque a mais do que isso não nos obrigamos. Sendo perdoados. aquilo que eu quiser dos meus bens a qualquer pessoa que seja. E agiria então como um perfeito tolo ({ool) quem confiasse no seu prisioneiro (captive).porque é devido ao medo da carnificina recíproca que um homem se submete ao domínio de outro. e mesmo dar. 15. Pois perdoar implica doar. Em suma. o contra 46 47 . e que depois se revelam impossíveis. mas sob a con dição de que seja possível dá-Ia. nenhum homem pode se obrigar. É verdade universalmente acolhida que as promessas obrigam quando há algum benefício que é recebido. já mostramos no parágrafo quarto deste capítulo. São válidas. se para salvar minha vida das mãos de um ladrão eu lhe prometo pagar cem libras no dia seguinte. Pois então se seguiria que as próprias promessas que reduziram os homens a uma vida civil. não será em virtude de ter sido arrancada pelo medo. não porém a coisa em si mesma. Pois a vontade daquele que confere. a coisa prometida. uma transferência de direito para aquele a quem a doação é feita. 16. no presente. um benefício. isto é. e torna portanto ilegal o que foi prometid09. E. porque. Por que meios nos liberamos dos pactos por nós firmados Há duas maneiras pelas quais nos liberamos das obrigações que contratamos (covenants): cumprindo-as. exceto quando a lei civil as proíbe. e também que não farei nada para prendê-Io e leváIo a juízo: estou obrigadoS ou não a manter a palavra dada? Ora. E é conforme ã lei.Do Cidadão Liberdade guinte.

Afinal. por um contrato de não resistir somos obrigados a escolher.basta-lhe a promessa de que nenhum súdito vá defender outro contra o seu poder. ninguém está obrigado. dizer: Se não a fizer. Por isso não há direito que ele possa transferir num contrato posterior. que é o maior dos males que possa afetar a natureza. se não for cumprido o trato. deveríamos pressu por um outro contrato.e tal necessidade ocorre muitas vezes. contendo a cláusula de que não se poderia matar o outro antes da data nele aprazada. está obrigado apenas ao primeiro contrato. mata me. Uma coisa é prometer: Se eu não fazer tal coisa no dia tal. reside no poder supremo. outra. quem está obrigado por um contrato tem a confiança de seu beneficiário (pois é a fé. seja este o suplício capital ou outro mais ameno. E assim. Todos os homens. o que parece ser o maior . vai acorrentado ou sob forte guarda. É inválido um pacto para acusar-se a si próprio Da mesma forma. de medo. isto é. Se. se tiveres intenção de matar alguém. sendo ilícito rompê-Ia. naquele dia. tudo o que dele podemos esperar é que se salve pela luta ou pela fuga. o que nos prende nos contratos) . ou a deixar de fazer. Ora. ou a qualquer outro. E o supremo poder não precisa contratar com alguém para que esse. Pois em todo homem existe um certo grau. Mas. se submeta ao castigo por ele determinado . através do qual ele concebe o mal que venha a sofrer como sendo o maior de todos. e de todo castigo corporal. e entre elas também o direito de resistir. portanto.~ Do Cidadão Liberdade to que assim se mostra ilegal é o segundo. Pois ele já não tinha direito a fazer. e não é corajoso o bastante para suportá-Ios.o que vai contra a própria natureza dos pactoslO. Ninguém está obrigado ao que é impossível. e supomos que de outro modo não possa agir. esse estado já te concede tal direito. cuja even 48 49 . Além disso. dentre dois males é impossível não escolhermos o menor. Ora.como o que existe entre dois reinos distintos -. no qual o direito de vida e morte. e o que venha a prometer promete sem ter direito a tanto.mas quem é levado ao castigo. a não resistir a quem vier matá-Io. nem há necessidade de se contratar porque. e vieres matar-me.pois a morte certa é mal maior que a luta. rompido o contrato. de modo que para matar o outro não é preciso valer-se do fato de ter. ele o esquiva o mais possível. por qualquer contrato que seja. por uma necessidade natural. entre dois males. Ora. o estado de hostilidade no qual todas as coisas são lícitas. ele. a acusar a si mesmo. ou ferir ou de qualquer outro modo machucar seu corpo. aquilo que por um contrato anterior já transferira a outrem. Portanto. Por conseguinte. no puro estado de natureza. o que é um sinal certíssimo de que não parece estar suficientemente obrigado pela sua não-resistência aos contratos que tenha firmado antes. ou por um ferimento ou ainda por danos físicos de qualquer espécie. e não o primeiro. Mas da segunda maneira não se contrata. não hei de te resistir. quem se vê ameaçado pela morte. por pacto al gum. fazem o primeiro trato . não está obrigado a sofrê-Ios. se a necessidade os impele. 19. retoma o direito de guerra. no estado de natureza . 18. esse direito a matar não pode ser conferido a nenhuma pessoa privada. somente. sempre elevado. mansamente. quando alguém chega a esse grau de medo. Não tem validade um pacto de não resistir a quem venha prejudicar o meu corpo Ninguém está obrigado. num estado político. um pacto daquela espécie nos prenderia ao que é impossível . fosse firmado um contrato prevendo a morte da parte que não o cumprisse.

pode suceder que. embora ninguém esteja obrigado por pacto nenhum a acusar-se. era um costume nascido do fato de que tais reis clamavam uma honra divina. Além disso. contudo ninguém pensa que deva jurar de qualquer outro modo. de súditos que juravam por seus reis. Portanto. Extermina. como certas vezes sucede. pela religião e em consideração ao poder divino. Tanto faz que a pessoa sob tortura responda a verdade ou minta. ou. O juramento deve ser vazado na mesma fórmula que costuma empregar quem o presta Disso decorre que um juramento deve ser formulado nos termos que costuma usar quem o profere. entre os romanos. 20. Isso porque. só por isso. e só pode ser ilegal se o contrato for suficiente para obrigar. isto é.a saber. Tais respostas. embora pela luz natural se possa saber que existe um Deus. os homens pudessem ter um maior terror de romper a palavra dada. ou mesmo que não diga nada tudo o que ela fizer. ela tem o direito de fazerll. pois sempre terá o direito de requerer contra o castigo. 50 51 . que um mero contrato não obriga menos do que aquele a que se soma um juramento. a não ser aquele que está contido nos preceitos de sua própria religião. 21. ou algum equivalente. por si só. os juramentos surgiram para que. portanto. do que o medo 22. Definição de juramento O juramento é um discurso a que se soma uma promessa. e de suplicar o perdão de Deus e dele se beneficiar. não constituem testemunho do fato em questão. Contudo. nem homem algum contra quem lhe proporciona sustento. não teme. de cujos olhos suas ações podem se conservar ocultas13. Deus me proteja. que naturalmente se sentem inclinados a romper todo tipo de promessa. Um juramento nada acrescenta à obrigação já instituída pelo pacto Podemos compreender. Por isso. pois quem confirma sua afirmação mediante um juramento está prometendo falar a verdade. Porque é o contrato que nos prende. ilegal. a serem mais conscientes de suas palavras e de seus atos. como. quem violar o que prometeu. Pois será inútil alguém ser levado a jurar por um Deus em quem não crê. graças a essa definição de juramento. um pai não está obrigado a depor contra o filho. que ele não poderia suscitar caso a quebra de contrato já não fosse. se for concedido. Por conseguinte. mas apenas contribuições para se encontrar a verdade. numa afirmaçãol2. ó JúPiter. o juramento refere-se ao castigo divino. pela qual quem jura declara renunciar à misericórdia de Deus. porém. a nenhum castigo.Do Cidadão Liberdade tual condenação vá tornar-lhe a vida amarga. ou por qualquer outro nome. seja qual for a razão para este. E não tem nenhuma importância se o juramento consiste numa promessa. caso não cumpra a palavra dada. que teriam de meros homens. pois é vão todo aquele testemunho que se supõe ser contra a natureza. daquela que ele imagina ser a religião verdadeira. e a quem. Quanto ao costume que vigorava em alguns lugares. o único efeito de um juramento consiste em levar aqueles. assim como ora mato esse animal. quem renuncia àmisericórdia divina não se obriga. ele seja forçado a responder mediante tortura. nem um marido contra a mulher. num juízo público. Essa definição está contida nas próprias palavras em que consiste a essência mesma do juramento .

ou afirmem que nenhum 52 53 . Não se deve exigir juramento. que a lei de natureza manda todo homem transferir certos direitos a outrem. a fim de invocar a ira de Deus. como obedecer às convenções que tratamos ou cumprir a palavra dada se mostra ne cessário para se alcançar a paz. e revela uma mente menos empenhada em beneficiar a si mesma do que em prejudicar a outrem. como se vê pela própria forma em que é vazado. Do Cidadão 23. porém. pois seria inutilíssimo firmar contratos. e. quando o eventual rompimento do contrato não tem como ser ocultado. exceto quando a violação dos pactos possa ficar oculta. contra aqueles que violarem a palavra dada. se não fosse para respeitá-Ias. sem exceção Neste tópico não se pode fazer exceção segundo as pessoas com quem tratamos. por pensarem que têm força para escapar ao castigo que os homens lhes possam infligir. CAPÍTULO III Das Outras Leis de Natureza] 1. um preceito da lei natural. porque contam que ninguém há de enxergá-Ias.. 2. quer se trate de fazer. e fazer mais do que a autodefesa necessita. conformemente ao parágrafo segundo do capítulo 11. a pretexto de que elas não costumem respeitar a palavra dada. ou só possa ser punida por Deus mesmo Exigir um juramento. enquanto Onipotente. e quando à outra parte não faltam meios de punir a palavra assim rompida. temos aqui. Devemos respeitar a palavra dada ("trust") a quem quer que seja. Isto. A segunda lei de natureza manda cumprir os contratos Outra lei de natureza consiste em cumprir os contratos que firmamos. contra aqueles que costumam romper a confiança neles depositada. quer de omitir determinada coisa.. Pois já mostramos. e que todas as vezes que isso acontecer se terá firmado um contrato.. ou em respeitar a confiança que foi deposi tada em nós.. Portanto. só conduzirá à paz na medida em que nós mesmos cumprirmos o que combinamos com os outros. Pois presta-se um juramento. enquanto Onisciente. no capítulo anterior. como condição necessária para alcançar a paz.

4. pelo mero ato de contratar. quando não houver entre ambos nenhum tipo de contrato previamente firmado. 3. a não ser contra aquele com quem firmamos uma convenção. ou a quem demos algo por algum instrumento. não merece que o primeiro respeite a palavra dada. contratando alguma ação futura. ou paz segura e leal. num governo civil. que esteja praticando tal ato em vão. já por pensar assim ele afirma que o contrato está sendo firmado em vão. o que é contraditório. E por isso geralmente se distinguem o dano e a injúria.portanto. Pois. uma espécie de absurdo na vida corrente (conversation). ou exigir de volta algo que já demos é o que se chama injúricf. da mesma forma quem. Pois. assim como se diz daquele que. já que não te impeço de Jazeres o que queres. se quem sofreu o prejuízo se queixasse do prejuízo. se um senhor manda seu servidor. a não ser aquele a quem pertence o poder de governar. nada vejo que mereça repreensão. quem o causou apenas lhe retrucaria o seguinte: O que és para mim? Por que deveria eu agir pela tua vontade e não pela minha. Pois quem contrata nega. E há alguma semelhança entre o que no curso comum da vida chamamos de injúria. portanto. e sem ser em vão o que é absurdo. que foi levado a um absurdo. ou devemos confiar em todos os homens. assim como um absurdo é uma espécie de injúria cometida na discussão. Da mesma forma. no seu entender. Portanto. mas cometerá injúria apenas contra o seu senhor. isto é. Consiste. e cai numa contradição que não é menor do que aquela que entre os escolásticos se chama redução ao absurdo. ou sejam culpadas de qualquer outra espécie de vício. ou a quem prometemos alguma coisa em troca de outra. em vez de seguires a minha vontade? E neste discurso. comete uma injúria. exceto àqueles com quem contratamos Destes fundamentos se segue que não se pode cometer injúria contra ninguém3. e aquilo que os escolásticos costumam denominar absurdo. estará realmente infligindo um dano a esse terceiro. ou deve haver entre nós guerra declarada. faz ou omite o que antes contratou não fazer 54 55 . quando aquele que agia ou deixava de agir já tinha transferido anteriormente a outrem o seu direito nesse sentido. Por conseguinte. ele ao mesmo tempo quer que seja praticada e que não o seja. ou não devemos negociar com eles. se ele pensa que não se obriga a cumprir o que promete. uma vez que injúria significa a mesma coisa que uma ação ou omissão injusta. através de uma seqüência de argumentos. E tal ação ou omissão é chamada injusta. sempre. numa ação ou omissão. ou omitir. Isto é. está pensando a um só tempo que um contrato é firmado em vão.Do Cidadão T II l Liberdade compromisso deva ser cumprido. Pois. A ninguém se faz injúria. por debilidade de caráter. Parece que a palavra injúria veio a ser atribuída a qualquer ação ou omissão que fosse destituída de direito. O que é injúria Violar um compromisso. e. ou a quebra da confiança ou o rompimento do compromisso que foi firmado. levar uma soma de dinheiro ou um presente a um terceiro e caso o servidor não cumpra a ordem estará causando dano a esse terceiro. se um homem ofender outro com quem não tenha firmado nenhum contrato. é contrário à razão um homem sensato (knowinfl) cometer uma coisa em vão. é induzido a negar a asserção que primeiro defendeu. mas não terá injuriado ninguém. Uma injúria é. quem contrata com alguém que. aliá~. ele quer que ela seja feita. que lhe prometeu obediência. Pois. não a fazendo. ele quer que não seja feita .

e a segunda. daí surge . e a justiça ou injustiça da ação. cada um destes últimos receberá uma igual parcela . de modo que. ser justo significa o mesmo que deleitar-se em agir com justiça. Contudo. se eu di vidir o que é meu e der mais àquele que merece menos. e de um homem injusto. Já a segunda cuida da dignidade e méritos dos homens. Por isso. em uma pro dizem eles . Mas. por exemplo. Por conseguinte. enquan to a segunda é uma igualdade secundum quod. e quatrocentas para os outros quarenta. estudar como praticar a justiça4 ou empenhar-se. e a todos os demais atos que se refiram a contratos. como a mesma desigualdade que há entre elas também ocorre entre os homens a quem serão distribuídas. e da mesma forma. simplesmente. justo significa exatamente o que é feito com direito. e injusto o que é cometido com injúria. mas de algum benefício imediato. ou da omissão. e só comete ações injustas por fragilidade (infirmity). mas que é culpado. E tal igualdade distributiva é a mesma coisa que uma propor ção geométrica. Quando são atribuídas a ações. e inúmeras ações cometidas por um ho mem justo podem ser injustas. ou em pensar que este deva ser medido. nos quais.razão por que se diz que a distribuição é igual. de empréstimo. Pois a primeira é. ou seja. talvez não se possa negar que a justiça é uma certa igual 57 56 . uma libra de prata e doze onças da mesma prata. nasce 6. locação e arrendamento. De modo que a justiça ou injustiça da mente. Aquela aplica-se às trocas. e deve ser tido por injusto quem age corretamente só por medo ao castigo apenso à lei. Reconheço que aqui existe uma certa distinção da igual dade. por fazer aquilo que é justo.~ Do Cidadão Liberdade 5. Ver dade esta que é confirmada pelo verbo de Nosso Salvador. é uma coisa. Contudo. ou da pessoa. se houver um retorno igual ao que foi dado. quando estas palavras se aplicam a pessoas. caso em que não há igualdade en tre essas duas somas.uma justiça distributiva. que os quis e a mim solicitou. indo seiscentas para os primeiros sessenta.uma justiça comutativa. não em função do que contratei. se eu vender os meus bens ao mais alto preço que por eles possa obter. e ser injusto consiste em negligenciar o trato correto dos outros. que é Deus. porção geométrica. são equívocas: porque significam uma coisa quando são atribuídas a pessoas. dizem. mas de igualdade. é outra. no Evangelho. não estarei sendo injusto com nenhum deles.segundo eles dizem . mais para aquele que é mais digno. em todas as coisas. justas. Mas quem deve ser considerado justo é o que pratica coisas justas porque a lei assim as ordena. menos para aquele que menos merece. dando-se a cada qual katà ten axían. quem cometeu uma ação justa não se diz ser uma pessoa justa. A primeira. consiste numa proporção aritmética. não estarei causando injúria ao comprador. e age injustamente já devido à iniqüidade de sua mente. e sempre segundo uma proporção. A distinção entre justiça comutativa e justiça distributiva A justiça das ações costuma distinguir-se em duas espécies: comutativa e distributiva. desde que dê aos demais tanto quanto havia contratado darIhes. A distinção entre justiça das pessoas e das ações As palavras justo e injusto. igualdade: como quando comparamos duas coisas de igual valor. assim como justiça e injustiça. Mas o que tem isso tudo a ver com a justiça? Pois. a distinção que aparece não é de justiça. mas sem culpa. e quem cometeu uma coisa injusta não dizemos que por causa disso seja injusto. tal como quando mil libras têm de ser divididas por cem homens. ou da intenção. outra quando se referem a ações. às operações de compra e venda.

portanto. volenti non fit injuria. e que não aceites presentes se não tiveres em mente esforçar-te para que aquele que os deu não tenha uma justa ocasião de se arrepender de tê-Ios dado. bem como toda espécie de benevolência.venha a sofrer por isso. da mesma forma. embora seja ela atualmente acolhida por quase todos. te fez um bem . E sua veracidade pode ser deduzida dos princípios que expusemos. não pode dizer-se que constitua uma injúria. assim como acima os definimos. ninguém deve arrogar-se mais direito do que concede a outrem. Ora. pois. e a 8. desaparecerão de entre os homens. e perturbador dos demais. em conseqüência. nem qualquer empenho por lhes conquistar a graça e favor. A terceira lei de natureza. contra o direito. não se faz injúria contra quem quer recebê-Ia. que se juntam na construção de um edifício. Quarta lei de natureza: que todo homem se torne útil aos demais6 o quarto preceito da natureza é que todo homem se faça útil aos demais. por não ter serventia. se ele quis que se fizesse o que por contrato era ilícito. o próprio contrato (como vimos no parágrafo quinze do capítulo anterior) é então revogad05. agirá contra a razão quem fizer um bem. Não se comete injúria contra aquele que a quer receber Segundo um antigo dito. como por natureza somos todos iguais. como o descumprimento desta lei não constitui quebra de confiança nem infração a contrato (pois supomos que ainda não tenham sido firmados contratos).antes que lhe fizessem outro bem qualquer . devemos recordar que entre os homens são muito diversas as disposições que os levam a ingressar na vida social. como uma ação boa e a gratidão estão sempre ligadas. Contudo. nada se fez. para que ninguém pense que injúria seja outra coisa que a quebra da confiança ou o descumprimento de um contrato. é descartada.assim como nas pedras. através de contrato.I Do Cidadão Liberdade dade. o estado de guerra haverá de continuar. sentindo que este terá sido em vão. Pois. 9. uma pedra que por suas formas angulares e ásperas tira mais espaço das outras do que ela própria preenche. e que devido à rigidez de sua matéria não pode ser reduzida em tamanho. o que é contrário à lei fundamental de natureza. nem cortada. aquele homem que tenha uma grosseira disposição a tomar para si o que é supérfluo. e por isso pode fazer que a edificação não seja tão compacta quanto precisa ser. e por conseguin te toda a beneficência e confiança. não se 58 59 . a menos que o tenha obtido de maneira justa. Portanto. Nunca haverá qualquer assistência recíproca entre eles. a privar os outros do que é necessário. a respeito da ingratidão O terceiro preceito da lei natural é que não permitas que alguém que. é chamada de ingratidão. E basta isso quanto ao que devíamos dizer contra esta distinção de duas justiças. Assim. aquilo que era ilegal por contrato terá sido praticado por sua própria vontade. passem as coisas assim. Pois conceda-se que alguém queira que se faça o que ele considera ser uma injúria contra ele. Para bem entendê-Io. devido àdiversidade de suas afecções . mas. desde que esta consista estritamente no que se segue: que. 7. volta a haver direito ao ato que foi praticado. não se cometeu injúria. há diversidade de material e configuração. por confiar em ti. costuma-se dizer que é um inútil.

e assim. que frente. a tal ponto que a maio ria deles preferiria perder a vida (e nem digo: a paz) a so frer um insulto.a quem guerreou contra nós. e agora se tornou penitente. Ora. que ninguém. e como o que não está dirigido para fim algum é vão. e por conseguinte não tem razão. de usar o máximo de sua força para conseguir as coisas necessárias para sua conservação . ora. vai contra a lei fundamental de natureza. para que os castigos considerem apenas o futuro O sexto preceito da lei natural é este: que. lutando. pela lei de natureza.se for levado em conta apenas o tempo passado .nada mais é que um certo triun fo e glorificação da mente. mas apenas para aproíbe insultos esta lei costuma 12. entre as prescri ções da lei de natureza. nada mais é do que conceder paz a quem a pede . Violar esta lei se chama insul . ferir o outro sem razão dá início à guerra. procedendo à vingança ou impondo castigos. ou que não fornece caução para o futuro .Do Cidadão Liberdade quem seja impossível corrigir racionalmente. A sexta lei.se qualquer outro se bater contra ele por coisas supérfluas. possam se tornar melhores. A sétima lei. Cícero opunha os homens conciliadores aos desumanos. quanto àquele que não perdoa o penitente que dá caução quanto ao futuro: parece que a paz não lhe agrada.desde que nos acautelemos. que não está procurando a paz. Isto se confirma antes de mais nada pelo fato de que cada um é obrigado. não apenas por direito. quanto ao tempo futuro. àquele que continua de mente hostil contra nós. o fim é uma coisa ainda por vir). Como qualquer sinal de ódio e desdém induz a maior parte dos homens a brigar e lutar. ou seja. com base exatamente nesta lei. 11. como cada um tem. Perdoar o passado. e assim viola a lei natural. como mostramos no parágrafo anterior. desde que estes dêem uma caução quanto ao futuro. ou relevar uma ofensa. pela figura do rosto ou pelo riso. alertados pela punição. tal paz não é paz. tão teimosas são suas afeições. mas tão-só uma oportunidade -. não é líci to infligir um castigo por qualquer fim a não ser este: que o ofensor seja corrigido. Disso concluo (como depois explicarei) que constitui um preceito da natureza que cada qual tente conciliar-se com os outros. conclui-se que a vingança que não considere o futuro procede da vã glória. Ou seja. devemos ter em mira não o mal passado. e vai contra a lei fundamental de natureza.isto é. será por culpa deste último que brotará a guerra. mas o bem futuro. primeiro. Além disso. Portanto. e por conseguinte não é um mandamento da natureza. por ações nem por 60 palavras. deve declarar ódio 61 ou desdém por outrem. Mas a paz que se concede a quem não se arrepende. em sétimo lugar. como a vingança . Isso porque não tinha necessidade de lutar. mas medo. E quem romper esta lei pode ser chamado de inútil e perturbador. segue-se. a perdoar os demais. 10. ou que os outros. mas também por necessidade natural. A quinta lei: misericórdia O quinto preceito da lei de natureza nos manda perdoar àquele que se arrepende e pede perdão pelo passado . que não aponta para fim nenhum (pois contempla apenas o que é passado. Ora. Romper ter por nome: crueldade. é um preceito da lei de natureza que na vingança não olhe mos para trás. Finalmente.

O respeito a essa lei chama-se modéstia. para a conservação de cada qual. A nona lei. que determina a eqüidade. para a mesma conservação. e condena fazer acepção de pessoas A lei de natureza manda. por natureza. ou seja: que todos os direitos que um homem reivindique para si. e por isso devem ser considerados contumeliosos. E por 15. a quem a desrespeitasse. se mostre igual com todas elas. outros apenas para servir: como se senhor e servo se distinguissem não apenas pelo consentimento dos homens. estará frustrando aquela igualdade que foi reconhecida no parágrafo anterior. Ora. que ordena a humildade Se foi necessário.Do Cidadão Liberdade tar. Se assim não fizer. se o poder fosse disputado entre os mais fortes e os mais sábios. Pois já mostramos acima (no capítulo I. Sei que Aristóteles. que ele guarde alguns outros direitos. o nome de immodici et immodesti. e. dignos de mandar.como um dos primeiros fundamentos da ciência política que alguns são feitos. os mesmos ele reconheça serem devidos a todos os demais. tal fundamento não é desmentido somente pela razão (conforme se acaba de mostrar). digamos de riquezas. poder e nobreza de sangue. em décimo lugar. que nada têm a ver com a ofensa cometida pelo culpado. Portanto. disso decorre o nono ditado da lei natural. quer sejam desi guais. caso em que temos de reconhecer tal igualdade. ao repartir o direito entre as pessoas. quer os homens sejam iguais por natureza. não tenho certeza de que estes conseguissem a vitória. E. contra a arrogância Saber qual é o mais digno. em vez de se entregar ao governo de outro. Os latinos davam. ou seja. é questão que não compete ao estado natural resolver. dando-se o nome de arrogância à sua violação. mas também o é pela experiência. somos proibidos de 62 63 . senão atribuir igual direito e poder àqueles que ne nhuma outra razão convenceria a ingressar na sociedade? Ora. Pois o que é reconhecer a igualdade das pessoas na constituição da vida social. e de tudo o mais que é necessário para a vida. por uma espécie de conhecimento ou ignorância naturais. sua infração pleonexia. afirma . a saber: o direito à proteção de seu corpo.que sejam considerados iguais. que todo homem. parágrafo 3) que todos os homens são iguais por natureza. isso o oitavo preceito da lei de natureza diz que todo homem deve ser estimado naturalmente igual a outrem. embora nada seja mais freqüente do que as zombarias e sarcasmos dos poderosos contra os fracos. é necessário para se ter a paz . atribuir direitos iguais a iguais é o mesmo que dar coisas proporcionais a proporcionais. A oitava lei. igualmente é necessário. mas apenas ao civil. da água. Pois não há ninguém tão estúpido de entendimento. caso em que se irão bater pelo poder. Portanto. e por isso a desigualdade que hoje existe. A décima. e especialmente dos juízes contra os condenados. ao livre desfrute do ar. que não considere melhor governar a si mesmo. é fato que esses homens agem contra a lei de natureza. e que muitos direitos particulares são então adquiridos. no primeiro livro de sua Política. dentre dois homens. Pela lei anterior. mas por uma aptidão. nem com o dever de julgar. resulta da lei civil. que ele abrisse mão de parte dos seus direitos. 14. 13. já que muitos direitos comuns continuam com aqueles que ingressam num estado pacífico.

favorecendo a um acima de outro.e. Quando. no parágrafo anterior. Ora. do que reconhecemos aos outros. Portanto. não haverá meios de respeitar aquela igualdade que mostramos. insulta aquele a quem assim subestima. Por conseguinte. a quantidade não o admita. numa só palavra. uma lei de natureza . ora. a qualquer tempo. e nenhuma outra igualdade se pode encontrar. conforme anteriormente declaramos. o primeiro ditado da razão é a paz. 19. nem usadas em comum. Pois a razão que ordena o fim ordena. sobre o direito de nascença e a primeira posse dos bens O sorteio. e consiste no mero acaso (como dizem)7 ou fortuna. pode ser de duas espécies: arbitrário ou natural. Pois. anteriormente. também aqui.Do Cidadào Liberdade pleitear mais direito para nós. sobre a salvaguarda daqueles que sejam mediadores de paz O décimo quarto preceito da lei de natureza reza que se garanta a segurança daqueles que forem mediadores pela causa da paz. Arbitrário é aquele que é lançado por consentimento das partes. sem os quais não se pode ter paz. sobre as coisas a serem havidas em comum Da lei anterior infere-se esta décima primeira: que as coisas que não possam ser divididas devem ser utilizadas em comum . que cada um use delas dentro de limites.que devemos dar toda a segurança aos mediadores de paz. é um ditado da razão . manda a lei de natureza (e este pode ser o seu décimo segundo preceito) ou que seja utilizado sucessivamente por todos.se for possível. tudo o mais são meios para obtê-Ia.ou seja. e proporcionalmente ao número de usuários. A décima quarta. nem mediação sem segurança daqueles que a efetuam. porque tal atitude às vezes expressa modéstia. insultar alguém é violar as leis de natureza. 17. por sorteio quem será o primeiro a utilizar-se da coisa. esta lei nos proíbe de favorecer a um em maior ou menor proporção do que a outro. deve considerar-se a igualdade. que é esta a décima terceira lei de natureza. Os gregos dizem. Afirmemos. assim como aquelas coisas que pertenceram ao pai são devidas ao filho. ou que seja concedido a apenas um mediante sorteio. os meios necessários para o fim. A décima terceira. igualmente. Sorteio natural é a primogenitura (em grego kleronomía. a não ser a conferida por sorteio. transferido a um terceiro seu direito sobre elas. então. A observância deste preceito chama-se eqüidade. Mas se. prosopolepsía. porém. a não ser que o próprio pai tenha. sempre que a quantidade material o permitir. 16 A décima primeira. Podemos pedir menos. Pois. devem ser concedidas ao primeiro possuidor. significando o que é concedido por sor teio) ou a posse primeira. acepção de pessoas. A décima segunda. 18. E nem se pode alcançar paz sem mediação. tendo por único limite a vontade de cada um. nem havido em comum. as coisas que não po dem ser divididas. como nos sendo devido por natureza. ser ordenada pelas leis de natureza. porém. sua quebra. se assim quisermos. Pois quem não respeita essa igualdade natural. nos couber repartir a justiça entre outras pessoas. E mesmo no uso sucessivo deve decidir-se 64 65 . sobre as coisas a serem divididas por sorteio Quanto àquilo que não pode ser dividido. se assim não for.

sempre que por outros indícios não puder vir a ter conhecimento dele. que na lei precedente. procurando-se portanto saber se o que se fez era ou não contra a lei de natureza (o que chamamos a questão de direito). para preservar-se a paz . que ambas as partes em desacordo refiram a questão a algum terceiro. 22. A décima sexta: que ninguém seja juiz em causa própria E deste princípio básico. a respeitar o julgamento na decisão da controvérsia. quando a controvérsia versar sobre o fato mesmo (isto é. Aquele a quem elas assim apelam chama-se árbitro. A décima sétima: que os árbitros não tenham nenhuma expectativa de receber recompensas por parte daqueles cuja causa vão julgar Desta mesma razão segue-se. ou numa terceira e numa quarta pessoas. mais até: nem deve ter firmado com nenhuma destas um con 66 67 . concluímos que ele não pode ser uma das partes. por pactos recíprocos. ou ainda em mais. Pois presume-se que todo homem procure naturalmente o que é bom para ele. 21. E disso se seguirá uma luta entre as partes. em décimo sétimo lugar. ou seja . que não dê crédito a nenhuma. possa ter qualquer esperança de lucro ou glória: e isso pela mesma razão aqui. o que é justo. portanto. A décima oitava.e isso porque neste caso não se pode conceber nenhum outro remédio que seja adequado -. e a fim de ter paz. sobre as testemunhas E. e apenas acidentalmente. A décima quinta. Por isso deve acreditar num terceiro. ainda assim podem surgir a cada momento dúvidas e controvérsias quanto à aplicação delas a seus atos. A décima nona: que não se façam contratos com o árbitro Da definição acima proposta de árbitro podemos inferir ainda que. em conflito sobre questões de direito. sobre a constituição de um árbitro Contudo. que não deve ser juiz ninguém que. Por conseguinte. embora todos devam concordar em instaurar todas essas leis de natureza e quaisquer outras. estiver em questão se foi mesmo cometido o que uns dizem que foi e outros que não).Do Cidadão Liberdade 20. que não possa observar aquela igualdade ordenada pela lei de natureza com tanta exatidão quanto faria um terceiro. e devam empenhar-se em respeitá-Ias. é necessário. da vitória de qualquer das partes. para que possa ter condições de julgar do fato. baseiem sua sentença naquelas testemunhas que aparentemente sejam indiferentes a ambas as partes. o que está contido em décimo sexto lugar na lei de natureza é que ninguém deve ser juiz ou árbitro em causa própria. segundo o qual o árbitro ou juiz é escolhido pelas partes em desavença para determinar sua controvérsia. e que se obriguem. cada uma delas considerando-se afrontada no seu direito. E dessa forma o décimo quinto preceito da lei natural manda que duas partes. Por conseguinte. a décima oitava lei de natureza manda que os árbitros e todos os que julgam do fato. submetam-se ambas à opinião e juízo de um terceiro. 24. 23. quando deste não aparecerem sinais firmes e seguros. não deve haver nenhum contrato ou promessa que possa induzi-lo a falar em favor de uma delas. a lei natural exige que o árbitro dê igual crédito a ambas as partes. Por isso.dado que elas se contradizem -. entre ele e as partes por quem for designado juiz.

enquanto tais paixões prevalecerem em nós. E destroem e debilitam a faculdade de raciocinar os que praticam o que perturba a mente.não faças aos outros o que não quiseres que te façam. assim rompe. nem sequer são leis. distraindo-a de seu 68 69 . e este é seu décimo nono preceito. a/teri ne feceris . do que esta única regra: quando não tiver certeza se o que faz a outrem é permitido ou não pela lei de natureza. o seu dever. a lei de natureza Talvez alguém que veja todos estes preceitos de natureza deduzidos. E em tal momento nada lhe é mais fácil de conhecer. firmar um tal contrato só pode ser em vão. 26. fizer qualquer coisa pela qual a faculdade racional possa ser destruída ou debilitada. consciente ou voluntariamente. o vigésimo caso em que pecamos contra a lei de natureza é por embriaguez8. Assim. não obrigam . pela lei de natureza enunciada no pará grafo 15. E tal regra não apenas é fácil. que é escolhido porque as duas partes se obrigaram a acatar a sentença que ele venha a pronunciar.mais ainda. Deste modo. o medo. e todas aquelas coisas que impedem o uso da razão Além disso.como bem se evidencia no caso dos bêba dos e dos glutões. Pois não há diferença alguma entre quem não cumpre o seu dever e quem voluntariamente comete coisas que tornem impossível cumprir. é manifesto que todo aquele que. venha a dizer que a dedução destas leis é tão árdua que não devemos esperar que sejam conhecidas do vulgo. o que vai contra a instituição do árbitro. contra a gula ("gluttony"). depois disso ele tiver de bater (contend) para provar que nela seguiu a eqüidade. A regra pela qual podemos prontamente conhecer se o que fazemos segue. 25. não pode observar as leis de natureza -. então (a não ser que um tal contrato seja nulo) a controvérsia persistirá mesmo depois de encerrado o julgamento. sequer graças a um contrato. a lei de natureza manda que o juiz não tenha compromissos. a mente serena. Pior: se no caso de pronunciar uma sentença iníqua. a ambição. a lei de natureza. consciente e voluntariamente. daquele único ditado da razão que nos aconselha a cuidar da preservação e salvaguarda de nós mesmos. nas palavras: quod tibi fiere non vis. mas já era celebrada outrora. Isso porque o juiz já está obrigado. aquelas perturbações da mente que o persuadiram a agir.Do Cidadão Liberdade trato pelo qual se comprometa a julgar segundo a eqüidade. e que por isso elas não se mostrarão obrigatórias: pois as leis. se não forem conhecidas. sendo agora lançadas na outra balança. ou mesmo a pronunciar uma sentença que ele sinceramente julgue ser eqüitativa (equal). na medida em que as leis de natureza nada mais são que ditados da razão . a pronunciar a sentença que julgar eqüitativa e a essa obrigação nada pode se somar. ele. A isso eu respondo que é verdade que a esperança. estado natural. Por conseguinte. imediatamente o dissuadem na mesma proporção. às vezes. por rústico e inculto que seja ele. A vigésima. a vã glória e outras perturbações da mente efetivamente nos afetam de tal modo que não podemos alcançar o conhecimento destas leis. a cobiça. mas não há ninguém que não tenha. Portanto. ou infringe. a ira.de tal modo que. por algum artifício. a não ser que alguém se empenhe em preservar a faculdade de raciocinar corretamente. que se ponha no lugar do outro.

E no entanto a razão ainda é a mesma.que é tudo a que nos obriga a natureza racional. porque tudo o que exigem é tão somente o empenho (só que este tem de ser autêntico e constante). são totalmente inaptos para observá-Ias -. e não muda o seu fim. nem as virtudes a elas contrárias jamais poderão ser ilícitas. mas também por alguns que se acordam com elas. a contumélia nunca serão lícitas. ainda que eventualmente reconheçam tais leis. e neste apenas quando puder ser cumprida com segurança. assim não conseguirão paz para si mesmos. o que ordenam jamais pode ser ilegal. a saber. injúria). isto é. mais humildes que os demais. e da lei civil. Pois a arrogância. e quem o demonstrar. os homens.nem os meios de obtê-los. As leis de natureza às vezes são violadas por ações cometidas dentro da lei Essas leis que obrigam em consciência não são infringidas apenas por atos que lhes sejam contrários. estamos obrigados a uma disposição mental no sentido de cumpri-Ias. e o que se ajuste à razão numa vez venha a contradizê-Ia. viessem a exercer aquela eqüidade e disposição de se mostrarem úteis que a razão ordena. ou na corte da consciência. Por conseguinte. e que não podem ser revogadas por nenhum costume ou lei. é correto chamá10 de justo. Enquanto isso. se porventura alguns. que são a paz e a defesa . 29. mas uma certíssima e pronta destruição. a quebra de contrato (ou seja. É justo todo aquele que se esforça por seguir as leis de natureza Por tudo o que se disse. sempre que sua observância parecer levar ao fim para o qual elas foram feitas. 70 71 .como. 30. aquelas virtudes do espírito que acima expusemos. se as entendermos como disposições do espírito. mas nem sempre em foro externo. Aliás. assim como serão consideradas no tribunal da consciência. evidencia-se o quanto é fácil observar as leis de natureza. em sua maior parte. a desumanidade. E é justo quem faz tudo aquilo a que estáobrigado. Mas as ações podem variar tanto em função das circunstâncias. que aquilo que numa ocasião se pratica de modo eqüitativo venha de outra feita a ser culpado de iniqüidade. a ingratidão. mudando a ocasião. embora o ato em si mesmo atenda às leis. e onde são leis. Pois nesse caso. mostra claramente que tem em mente cumprir todas aquelas leis . a razão) obrigue os homens no estado de natureza a observar todas aquelas leis. se outros não as respeitarem. único lugar onde obrigam. 28. a fim de que suas ações se conformem aos preceitos da natureza. e portanto quem cumprir a lei se tornará presa fácil de quem a viola. se quem os praticar os fizer de outra mente. E disso devemos pois concluir que a lei de natureza sempre e em toda a parte obriga em foro interno. não se deve imaginar que a natureza (ou seja. certamente não estarão sendo racionais adotando uma tal atitude caso os outros não se portem da mesma forma. a consciência de quem o comete as contradiz. Pois quem tenda a isso com todo o seu poder.Do Cidadão Liberdade 27. As leis de natureza obrigam apenas no tribunal de consciência Mas . As leis de natureza são imutáveis As leis de natureza são imutáveis e eternas: o que elas proíbem nunca pode ser lícito. devido a seu perverso desejo de vantagens imediatas.

Devemos saber. Em conseqüência. mas sim a causa por que a damos. aqueles que não teriam como concordar quanto a um bem presente entram em acordo quanto a um bem futuro 32. os quais seriam os vícios . a humanidade. dizendo que é mau. o odor. de seus costumes ou opiniões . embora todos concordemos em elogiar as virtudes acima mencio nadas. que nos faz gananciosamente preferir ao bem futuro um bem presente (ao qual. muitas vezes o mesmo homem em diferentes ocasiões elogia e amesquinha a mesma coisa. se-guese. portanto. e as futuras apenas à razão. a lei ordena também. como o paladar. e dita virtude. que pratiquemos a virtude: e por isso ela é dita lei moral. erigiram uma filosofia moral completamente distin ta da lei moral. como meios para a paz.como podemos ver naquelas coisas que apreendemos pelos sentidos. Por isso eles estão no estado de guerra todo o tempo em que. que todos os meios necessários para a paz igualmente o são. Todos os homens. Pois. a eqüidade. e são muito mais diversas ainda naquelas coisas que dizem respeito às ações comuns da vida. que bem e mal são nomes dados às coisas para significarem a inclinação ou aversão daqueles por quem foram dados9. E. e da mesma forma as más ações que agradem a alguma pessoa \ [ I I o que na verdade é efeito da razão: pois as coisas presen tes são óbvias aos sentidos. E da mesma forma a quantidade que se dá de uma coisa . Tampouco se pode dizer que seja injusto eu dar a alguém mais do que é meu. da qual eu mostrei aqui apenas estes preceitos que di . enquanto vivem nesse estado.pois. e sob o nome de valentia ou coragem é considerada uma vir tude . pior. porque o fazem os homens. medem o bem e o mal por distintos padrões. Pois eles que rem que a natureza das virtudes esteja numa certa medio cridade entre dois extremos. pequena ou nem gran de nem pequena . Portanto as leis de natureza73 a suma da filosofia mo são ral. naquilo em que consiste cada uma delas.não é o que constitui a liberalidade. necessariamente surgem entre eles discórdia e luta. desde que se aprove a sua causa. ela receberá o nome de algum vício a ela próximo. E até o presente momento não encontraram os filósofos nenhum remédio para esta questão .seja ela grande. o tato.embora seja uma coisa extrema -. e. pela mesma razão. as inclinações dos homens são diversas e variadas. virtudes. e menosprezada por aqueles. por conseqüência estrita. conforme a diversidade de sua constituição. Pois a ousadia é elogiada.Do Cidadão Liberdade 31. em vez de lhe dar menos. sempre que a boa ação de um desagradar a ou tro. a misericórdia (que demonstramos serem necessárias à paz) são boas maneiras ou hábitos bons. a saber.o que é. portanto. que a dizem ser um vício. " 72 sempre serão chamadas de alguma virtude. chama de bom) aquele menospreza. havemos porém de discordar naquilo que se refere à sua natureza. evidentemente. onde o que este elogia Cisto é. que a modéstia. ou seja. e por conseguinte confessam que a paz é boa. em razão da diversidade de seus apetites presentes. Portanto. e o mal em se relacionarem à discórdia. Vejamos por que razões isto é verdade. Ora. como não podemos descartar este mesmo apetite irracional. isto é. Como a razão declara que a paz é uma boa coisa. facilmente o reconhecem por mau. falso. como eles não foram capazes de notar que a bondade das ações consiste em elas se subordinarem à paz. a confiança. e sem consistência interna. Por que o que dissemos das leis de natureza não coincide com o que os filósofos afirmaram a propósito das virtudes Mas. A lei natural e a lei moral são uma só Todos os autores concordam que a lei natural é a mesma coisa que a moral. aderem muitos males imprevistos). Disso decorre que a mesma ação é elogiada por estes. sucede que. que tenhamos bons modos.

trataremos agora de também confirmar. Deuteronômio 30. ou seja. foi outorgada por Deus a cada homem como regra de suas ações. neste capítulo. que é a lei de natureza. A lei natural e moral é divina A mesma lei que é natural e moral também é mereci damente chamada divina: tanto porque a razão. também é uma virtude que se apóia na razão porque é um meio que tende à conservação daquele que resiste. por intermédio de Nosso Senhor Jesus Cristo e de seus santos profetas e apóstolos. e alumia os olhos. 11: Porque este manda 75 74 . Porém. 1. Mas há outros preceitos da natureza racional. o que denominamos leis de natureza. Jeremias 3P. o mesmo que acima mostramos pelo raciocínio. como nada mais são que certas conclusões entendidas pela razão.~ Do Cidadão zem respeito a nossa conservação contra aqueles perigos que brotam da discórdia. A lei do seu Deus está em seu coração. acerca das coisas que devem ser feitas ou omitidas . a faculdade de resistir bravamente aos perigos que nos ameaçam.ao passo que uma lei. sobre todas as coisaslO. dado que a destemperança leva à doença e à morte. A lei de natureza não é propriamente lei. O à Sagrada Escritura. e refrigera a alma3.como veremos no capítulo seguinte .é muito apropriado chamá-Ias pelo nome de leis: pois a Sagrada Escritura é o verbo de Deus mandando. quanto porque os preceitos de vida que dela derivamos coincidem com aqueles que foram pro mulgados pela Majestade Divina como leis de seu reino terreno. pois a temperança também é um preceito da razão. a bem dizer elas não são leis. Salmo 19. Portanto. Salmo 37. dos quais provêm outras virtudes. 30 31: A boca do justo fala a sabedoria: a sua língua fala do juízo. para falar de maneira própria e acurada. e a escreverei no seu coração. Primeiro mostraremos aqueles lugares nos quais se de \ clara que a lei divina repousa na reta razão. quanto à lei de natureza. é o discurso de quem tem o direito de mandar que façam ou deixem de fazer determinadas coisas -. salvo na medida em que é expressa nas Sagradas Escrituras Contudo. pelo recurso que é confirmado pela Escritura de modo geral 2. dado que procedem da natureza. 7: A lei do Senhor é perfeita. pelo maior de todos os direitos. 33: Porei a minha lei no seu interior. E da mesma forma a fortitude. Versículo 8: O mandamento do Senhor é puro. e que é mais difícil esquivar do que vencer. na medida em que são outorgadas por Deus nas Sagradas Escrituras . CAPÍTULO IV Que a Lei de Natureza é Lei Divina] 33.

versículo segundo: e primeiramente é. que é rei de paz. Pai da eternidade. paz na terra.Do Cidadão Liberdade mento. ou introduz a distinção entre meum e tuum: percebemos. porque eles são chamado filhos de Deus. que grande inimiga uma tal comunidade é da paz. 3. e guardarei a tua lei.8-9): Ora. o legislador. 14: Apana-te do mal. do que anuncia o bem. que alumia a todo o homem que vem ao mundo. na qualidade de rei. Isaías 59. Em Isaías 53. porque irmãos varôes somos. Miquéias 5. e apascentará ao povo na força do Senhor. como se manifesta pelas passagens seguintes. que hoje te ordeno. Salmo 119. 4-5. não te é encobeno. Mateus 5. apana-te de mim. 14: Na natividade de Cristo. 10: A ciência do Santo (é) a prudência. que faz ouvir a salvação: do que diz a Sião: o teu Deus rei na/Lucas 2. e o teu coração guarde os meus mandamentos. e depois também rei de Salém.17: Ajustiça" que é a suma da lei. 10: A justiça e a paz se beijaram.a saber. Não está toda a terra diante de ti? Eia. Salmo 34. não te esqueças da minha lei. Provérbios 3. e faze o bem: procura a paz e segue-a. 9: Bem-aventurados os pacificadores. Isaías 52. pois. assim diz: E ele estará em pé. o Evangelho é chamado o castigo que nos traz a paz.5. depois de chamar Cristo (o legislador daquela lei de que ora tratamos). que suprime a comunidade de todas as coisas. e tão pouco está longe de ti etc. Em todas estas passagens se descreve a razão reta. na excelêncid do nome do Senhor seu Deus. tratando do Messias. Provérbios 9. no sexto capítulo da Epístola aos Hebreus. conforme acima mostramos. Não roubarás 77 76 . dizendo Glória a Deus nas alturas. Conselheiro. em seu reino mantém juntas a justiça e a paz. Versículo 105: A tua palavra é uma lâmpada para os meus pés e uma luz para o meu caminho. é chamada o caminho da paz. boa vontade para com os homens. um filho se nos deu. E São Paulo. de eternamente sumo sacerdote. 4. sacerdote do Deus Altíssimo etc. rei de justiça. 6-7: Porque um menino nos nasceu. Romanos 3.constitui igualmente a suma da lei divina. E também quanto à primeira lei de natureza. e eles permanecerão. O mesmo Cristo é chamado (no versículo 9): a luz verdadeira. e no teu coração. porque agora será engrandecido até aos fins da terra. Salmo 85. Versículo 14: Porque esta palavra está muito peno de ti. cujos ditados. é chamado (João 1. constituem as leis de natureza. a voz daqueles que exaltavam a Deus. que se deve almejar a paz . E em especial no tocante à lei fundamental de natureza que manda buscar a paz E aquilo que acima estabelecemos como lei fundamental de natureza . Deusfone. 7: Quão suaves são sobre os montes os pés do que anuncia as boas novas.4 Cristo. 1-2: Filho meu. e o seu nome se chama Maravilhoso. para a fazeres. Disso se evidencia que Cristo. E este será a paz" etc. ao pôr fim à posse em comum de todas as coisas Quanto à primeira lei. por intetpretação. 8: A justiça é chamada o caminho da paz. último versículo. Não cometerás adultério. em primeiro lugar. E todas as passagens da Escritura pelas quais somos proibidos de invadir a nossos vizinhos como Não matarás. Príncipe da paz6. 1): o Verbo. acrescenta no capítulo seguinte. por essas palavras que Abraão disse a Lot (Gênesis 13. não haja contenda entre mim e ti e entre os meus pastores e os teus pastores. e o principado está sobre os seus ombros. versículo 1: Esse Melquisedeque era rei de Salém. segundo a ordem de Melquisedeque. 34: Dá-me entendimento. o que faz ouvir a paz. Isaías 9.

78 79 se apartará o mal da sua casa. E também sobre a quarta lei. 6. também vosso Pai vos não perdoará as vossas ofensas. Se vires o jumento daque le que te aborrece deitado debaixo da sua carga. 29: Não maquines mal contra o teu próximo. pois habita contigo confiadamente. porém. E também quanto à segunda lei de natureza. e eu lhe perdoarei? Até sete? Jesus lhe disse: Não te digo até sete. 4 e 5: Se encontrares o boi do teu inimigo. Mateus 18. se. que não resis tiu ao mal. apregoar-lhe-ás a paz. no versículo 1 do Salmo 15. 5. desgar rado. mas até setenta vezes sete. Provérbios 3. ofere ce-lhe também a outra. se deste a tua mão ao estranho. no versículo 49: Aquele que nem faz mal ao seu próximo. . da misericórdia Entre infinitas outras passagens que provam a quinta lei. se ficaste por fiador do teu companheiro. E. que teve compaixão do judeu que havia sido ferido por ladrões. estão estas: Mateus 6. E também o versículo 9: Também não oprimirás o estrangeiro. mas o longânimo apa ziguará a luta. 24: Há amigo mais chegado do que um irmão. se te não tem feito mal. Deuteronômio 25. deixarás pois de ajudá-Io? Certamente o ajudarás juntamente com ele. E será que. Senhor. nem aceita nenhum opróbrio con tra o seu próximo. 21-2212: Senhor. 9) como se referindo aos homens. ou o seu jumento. da gratidão A terceira lei. não 8. no tocante à quinta lei. pela parábola do Samaritano. 14-15: Porque. que manda nos acomodarmos uns aos outros. se perdoardes aos homens as suas ofensas. sem falta lhe reconduzirás. porém. Provérbios 15. Provérbios 18. em Mateus 5. E o mesmo é confirmado em Lucas 10. . quem habitará no teu tabernáculó?. 4: Não atarás a boca ao boi quando trilhar. e te abrir.confirmam a lei de distinção entre o meu e o teu. E Deuteronômio 20. e não apenas a bois 11. Provérbios 3. Provérbios 17. 13: Quanto àquele que torna mal por bem. não perdoardes aos homens as suas ofensas. se qualquer te bater na face direita. todo o povo que se achar nela te será tributário e te servirá. até quantas vezes peca rá meu irmão contra mim. se te responder em paz. 18: O homem iracundo suscita contendas. e ainda pelo preceito de Cristo. que nos manda sermos úteis aos outros Referem-se à quarta lei. 7. 10-11: Quando te achegares a alguma cidade a combatê-Ia. 39: Eu vos digo. também vosso Pai celestial vos per doará a vós. E quanto à terceira lei. 1-210: Filho meu. E ainda. responde-se.' mas. é provada nas seguintes passagens. que manda manter a fé que foi dada Pois o que significa Não invadirás o bem alheio senão uma formulação expressa de Não tomarás posse daquilo que por contrato deixou de ser teu? Àquele que pergunta. que ordena a gratidão. os seguintes preceitos: Êxodo 23. nos Provérbios 6. pois supõem que tenha sido suprimido o direito de todos os homens a todas as coisas.Do Cidadão Liberdade etc. enredaste-te com as palavras da tua boca: prendeste-te com as palavras da tua boca. 30: Não contendas contra alguém sem razão. o que São Paulo interpreta (na primeira Epístola aos Coríntios 9.

22): Eu vos digo. Este é o primeiro e grande mandamento. Levítico 19. e não às montanhas. qualquer que lhe disser. E o segundo. será réu de juízo. a quem nenhuma lei limita. porque deles é o reino dos céus. mas com os humildes está a sabedoria. quanto à sexta lei. que manda nos castigos considerar-se apenas o futuro Para a confirmação da sexta lei. será réu do sinédrio. e sete a sua alma abomina: Olhos altivos etc. 11. e teve como única consideração aterrorizar os homens para que no futuro não pecassem. 36-40: Mestre. peca. é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Mateus 5. da eqüidade Quanto à eqüidade. Todo o vale será exa ltado. 16-19: Estas seis coisas aborrecem o Senhor. porque eles alcançarão misericórdia. Alguns tentam responder a essa objeção dizendo que Deus. 1: A palavra de dorI5 suscita a ira.--- Do Cidadão Liberdade 9. 2: Vinda a soberba. ao passo que o homem não deve agir assim: como se Deus louvasse Sua glória na morte do pecador. Raca13. não será inocente. esta lhe desse prazer. ao fixarem um castigo eterno aos maus para depois da morte. 12. É mais correto responder que o castigo eterno foi instituído antes do pecado. que proíbe a arrogância A oitava lei. e todo o monte e todo o outeiro serão abatidos: O que sem a menor dúvida se dizia aos homens. sem motivo. há quem pense que as Escrituras não apenas não confirmam essa lei. 18: O que produz má famd4 é um insensato. E também. mas até mesmo a desaprovam explicitamente. 10. Provérbios 6. e de toda a tua alma. Contudo. louco. que nos manda reconhecer que somos iguais por natureza (ou seja. porém. E o mesmo quanto à sétima lei. para que se prepare o advento de seu reino: Voz daquele que clama no deserto: Aparelhai o caminho do Senhor: endireitai no ermo vereda a nosso Deusl6. e cessará o pleito e a vergonha. 3: Bem aventurados os pobres de espírito. a nona lei de natureza que provamos. Provérbios 15. 18: Não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos do teu povo. semelhante a este. qual é o grande mandamento na lei? EJesus disse-lhe: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração. E nosso Salvador chama-a a suma da lei moral: Mateus 22. 10: Lança fora ao escarnecedor. quando anuncia a vinda do Messias. que qualquer que. E igualmente quanto à oitava lei. se encolerizar contra seu irmão. 21: O que despreza ao seu companheiro. são pertinentes todas as passagens que nos mandam mostrar misericórdia. e se irá a contenda. será réu do fogo do inferno. a qual manda todo homem reconhecer aos outros os mesmos direitos que gostaria de ter para si mesmo. como Mateus 5. quando não há mais como eles se corrigirem nem servirem de exemplo. Pro vérbios 22. refere tudo a Sua glória. Provérbios 16. é a mesma lei que Moisés decretou (Levítico 19. acerca da difamação As palavras de Cristo provam essa sétima lei (Mateus 5. 5: Abominação é ao Senhor todo o altivo de co ração: ainda que ele junte mão a mão. Provérbios 10. 80 81 . e contém em si todas as demais leis. Da mesma forma em Isaías 40. e qualquer que disser a seu irmão. 3. 7: Bem-aventurados os misericordiosos. virá também a afronta. está es tabelecida nas passagens que se seguem. isto é. a lei de humildade). 1): Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos depende toda a lei e os profetas. E também sobre a nona lei. e de todo o teu pensamento. Provérbios 11. Provérbios 14.

servo ou livre. 11: Porque. nem mesmo um. mostra qual destes dois tens escolhido etc. 55). ele confirma portanto aquela lei de natureza que chamamos a décima quinta. E. ordena o Apóstolo (no versículo 5): Para vos envergonhar o digo: Não há. pois indo àqueles tribunais infringem a lei que nos manda ajudarmo-nos uns aos outros. Mas.se ele não tivesse vendido esse seu direito (Gênesis 25. sendo ele seu filho primogênit021 . Escrevendo aos Coríntios sua primeira Epístola (cap. bárbaro. ou caminhos. ou coisas sagradas etc. dizendo assim (Atos 1. que eram pois seus inimigos: diz ainda que é uma falta não preferirem eles sofrer a injustiça e o dano. quando se menciona o uso em comum de fontes.: pois. que manda termos em comum aquelas coisas que não podem ser divididas. Colossenses 3. mas sua prática aparece em toda a parte naqueles textos. a saber. mas do Senhor procede toda a sua disposição. 7: Não há no Senhor nosso Deus iniqüidade nem aceitação de pessoas1H. eu não saberia dizer se em alguma passagem das Escrituras está expressamente formulada. em décimo segundo lugar. Eclesiástico19 35. perante juízes infiéis. 34: Reconheço por verdade que Deus não jaz acepção de pessoas17. Romanos 2. 24): Tu. 2 Crônicas 19. nem aceitação de presentes. Senhor. a sucessão de Isaac seria devida a Esaú. que quando não for possível evitar 82 83 . 45: Para que sejais jilhos do vosso Pai que está nos céus. 13. que possa julgar entre seus irmãos? Com essas palavras. que também era lei natural que quando as coisas não pudessem ser divididas. mas Cristo é tudo em todos. repartiu mediante sorteio. os homens nem poderiam viver. São Paulo repreende-os por levarem a juízo pendências que tinham entre si.Do Cidadão Liberdade Amar nosso próximo tal como a nós mesmos nada mais é do que reconhecer-lhe o mesmo que desejaríamos ter reconhecido em nosso favor. E da escolha de um árbitro 14. décima terceira lei. 33: A sorte se lança no regaço. E também da undécima lei. não há acepção de pessoas. por ordem de Deus (Números 26. entre as tribos. 15. as várias partes da Terra Prometida. 6). circunciso nem incircunciso. 12: Pois o Senhor é um juiz que não jaz acepção de pessoas. E também sobre a décima lei. pois. 11: Não há grego nem judeu. então o que deveremos fazer? Nesse caso. Ou pelo exemplo dos Apóstolos. ou se o seu pai não resolvesse de outro modo. ou rios. nem possuídas em comum. contra a acepção de pessoas Pela décima lei proíbe-se a acepção de pessoas . Isso vemos confirmado já pelo exemplo de Moisés que. sobre as coisas que devem ser divididas mediante sorteio Dissemos. se acontecer que a controvérsia trate de coisas realmente necessárias. não fosse assim. Atos dos Apóstolos 10. 33). deveriam então ser atribuídas por sorteio. cita. para com Deus. entre vós sábios. porque jaz que o seu sol se levante sobre os maU$ e os justos etc. 16. E também da décima segunda lei. que acolheram em seu número a Matias antes de Justo mediante sorteio.o que confirmamos nas passagens seguintes: Mateus 5.2O Provérbios 16. que manda ter em comum aquelas coisas que não podem ser divididas A décima primeira lei. conhecedor dos corações de todos.

17: Não atentareis para pessoa alguma em juízo. 8: Presente não tomarás: porque o presente cega os que tem vista. se 19. E também que as leis de natureza competem à consciência Também dissemos que as leis de natureza dizem res peito acima de tudo à consciência. sobre ser 18. porém no fato de que destrói o juízo e a razão. e pelo Salmo 119. Provérbios 31. 17. Cristo se serviu da mesma razão para proibir a embriaguez (Lucas 21. as partes consintam em designar como árbitro um terceiro. isto é. 1: O vinho é escarne cedor. que citamos. 6: Por boca de duas testemunhas. que é justo aque le que se empenha na medida do possível para cumpri-Ias. 15. Disso se segue que o juiz não deve estar mais obrigado para com uma parte do que para com a outra. 160: Cada um dos teus juízos dura para sempre. E também da décima sétima lei. e perverte as palavras dos justos. uso da reta razão -. não acon teça que os vossos corações se carreguem de glutonaria e de embriaguez. ou três testemunhas. e se esqueçam da sua pobreza. 21. como transparece do Êxodo 23. que requer testemunhas As Escrituras não se limitam a confirmar que para se julgar do fato tenha de haver testemunhas (décima oitava lei). por isso mesmo. ouvireis assim o pequeno como o grande. Deuteronômio 17. E também quanto a ser eterna. basta ler o versículo seguinte: Dai bebida forte aos que perecem. Mas será injusto o homem que regular todas as suas ações segundo a obediência externa. para que não bebam. e do seu trabalho não se lembrem mais23. que. O mesmo se repete no Deuteronômio 19. até que o céu e a terra passem. contra a embriaguez A embriaguez. 4-5: Não é dos reis beber vinho. para sabermos que o defeito desse vício não consiste. tanto quanto a lei ordena. Olhai por vós. e todo aquele que neles errar nunca será sábio. e o vinho aos amargosos de espírito: Para que bebam. será morto o que houver de morrar. e em todas aquelas passagens. 29: Dádivas e presentes cegam os olhos dos sábios. nem um jota nem um só til omitirá da lei. a bebida forte alvoroçadora. eterna a lei de natureza. Provérbios 20. e se esqueçam do estatu t022. 20. nas Sagradas Escrituras. também podemos prová-Io por Mateus 5. E também da vigésima lei. contra a acepção de pessoas. de modo (pela décima sexta lei) que nenhuma das partes possa julgar em causa própria. também é proibida.porque obsta o 84 85 . E. que citamos por último em nossa enu meração das infrações às leis de natureza . 34). o que também vemos confirmado no Deuteronômio 1. como dissemos. E também da décima oitava lei. formalmente. que proíbe os árbitros de receberem paga pelas suas sentenças O juiz ou o árbitro não deve receber pagamento por sua sentença (décima sétima lei). na quantidade da bebida. 18: Porque em verdade vos digo.~ Dó Cidadão Liberdade as controvérsias. a lei de natureza Quanto ao que dissemos no capítulo anterior. Eclesiástico 20. elas também exigem que haja mais do que uma. e pervertam ajuízo de todos os aflitos.

7: O ímpio deixe o seu caminho. e se converta ao Senhor. ou por vanglória. Isso porque as leis são baixadas e outorgadas com respeito a ações que dependem de nossa vontade. de modo nenhum entrareis no reino dos céus. O segundo ponto podemos provar por Isaías 29. 13-14: O Senhor disse: Pois que este povo se chega para mim com a sua boca. uma regra para saber imediatamente se o que se vai praticar está conforme ou não à lei de natureza Finalmente. e outras semelhantes. toda ela. porque grandioso é em perdoar. 20: Se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus.é. mas devido a algum castigo anexado a esta. que não deves fazer a outrem o que não quiseres que te façamfoi promulgada quase que nos mesmos termos por nosso Salvador (Mateus 7. e não relativamente a nossas opiniões e crenças. Quero dizer que nos capítulos acima mencionados está explicada a lei inteira de Cristo.que está plenamente explica da nos capítulos 5. Ezequiel18. portanto eis que continuarei ete. eles prontamente infringiriam a lei.r Do Cidadão Liberdade ele assim agir não por causa da lei. doutrina da natureza (com exceção de um único mandamento. Pois os escribas e fariseus na ação externa observavam a lei da forma mais exata. contra os judeus. 24. nosso Salvador explica como os mandamentos de Deus são violados. ó casa de Israel? Por estas passagens. que as leis de natureza são fáceis de observar Diz o próprio Cristo que a lei de natureza é fácil de cumprir (Ma teus 11. divina. que. também a lei de Cristo . 22. pois por que razão morrereis. Tomai sobre 86 87 . da forma mais mani-festa. não a sua inteira doutrina: porque a fé é uma parte da doutrina cristã que não está incluída na sua lei. e fazei-vos um coração novo e um espírito novo.2\ e por Mateus 5.a saber. 31: Lançai de vós todas as vossas transgressões com que transgredistes. vós O meu jugo. mas apenas por anseio de glória. tudo o que vós quereis que os homens vos façam. Finalmente. mas também pela vontade. que não interpretavam corretamente a lei mosaica). e com os seus lábios me honra.que Cristo citou como exemplo para explicar a lei positiva divina. 28-30): Vinde a mim ete. não só por ações. como também ao nosso Deus. e se compadecerá dele. e aprendei de mim ete. O primeiro está em Isaías 55. Estes dois pontos acham-se confirmados nas Sagradas Escrituras. a regra para saber qualquer pessoa se o que está fazendo é contrário ou não à lei . fazei-lho também vós. compreendemos de maneira suficiente que Deus não punirá as ações daqueles que tenham o coração reto. E. ainda. não seguem a vontade. e o homem maligno os seus pensamentos. o que proíbe desposar aquela que foi divorciada por adultério . 6 e 7 do Evangelho segundo São Mateus . 12): Portanto. A lei de Cristo é a lei da natureza Assim como a lei de natureza é. toda ela. e isso tanto nas ações boas como nas más. porém o seu coração afugenta para longe de mim. estando fora de nosso poder. que Deus aceita a vontade como valendo pelo ato. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve2s. não fosse esta. Há inúmeras passagens nas Escrituras em que se declara. Nos versículos que se seguem. ~ I 23.

~ ã ~ t ~ .:::: Q .

cada qual conserva seu direito primitivo à autodefesa por todos os meios que ele puder ou quiser utilizar. pela força ou habilidade. seja por algum estratagema. E basta. enquanto não houver garantia contra a agressão cometida por outros homens. silenciam É um dito corrente que todas as leis silenciam em tem po de guerra. e é verdade. para que alguém cumpra a lei natural. que mentalmente esteja disposto a abraçar a paz quando ela se mostrar viável. de tal modo que. e por isso. Portanto.T I CAPÍTULO V Das Causas e da Origem Primeira do Governo Civill 1. Disso podemos inferir que não basta um homem compreender corretamente as leis naturais para que. 2. ou direito de guerra. a esperança que cada homem tem quanto a sua segurança e auto conservação consiste em que. quando vêem que a violação das leis provavelmente lhes acarretará um bem maior. no estado de natureza. eles facilmente as violam. seja abertamente. As leis de natureza não bastam para preservar a paz É por si só manifesto que as ações dos homens proce dem de sua vontade. e essa vontade procede da esperança e do medo. só por isso. ou um mal menor. As leis de natureza. não apenas falando das leis civis 91 . do que traria a sua observância. isto é. um direito a todas as coisas. tenhamos garantida a sua obediência a elas. ele possa lograr o seu próximo.

como se fosse obrigado. ou seja. Ou. em poupar a vida. 3. ou por emulação e inveja. não confere aquela segurança que procuram os homens que se reúnem e concordam quanto ao exercício das leis de natureza supracitadas. desde que as refiramos às ações. 4. a fim de que se possa obter a segurança almejada. parágrafo 27. que se chamava lestrikén. porque. E entendemos que uma tal guerra é de todos contra todos.conforme mostramos no capítulo III. nada se terá conseguido. A concórdia de muitas pessoas não é constante o suficiente para assegurar uma paz duradoura Ademais.Do Cidadão Domínio mas também das naturais. divididos em suas opiniões. e também em deixar o gado que se usava para arar a terra. ainda assim. a proceder dessa forma pela lei da natureza. cada um deles constituirá um obstáculo para o outro. para se alcançar uma garantia indubitável de vitória. depende-se da concórdia de muitas pessoas Por conseguinte. nos atacar. Mas em primeiro lugar é evidente que o consentimento de dois ou três não pode tornar suficiente uma tal segurança. por diferença entre seus espíritos (wits) e opiniões. dos homens . de saque ou vingança. quem assim agia. A esse propósito nada mais se pode imaginar do que cada qual munir-se de precauções tais que tornem a agressão de um a outro tão perigosa que qualquer deles venha a preferir conter-se a intrometer-se. o que animará o inimigo a 92 93 . por maior que seja o número dos que se reúnem para a autodefesa. agindo com excessiva crueldade. eles não demorarão a se dividir e cindir tanto que nem mais se fornecerão auxílio recíproco nem desejarão paz. que tampouco devia ser levada . E algo mais deve ser feito para que esses que consentiram. pelas quais os homens naturalmente se batem. em ter paz e fornecer auxílio uns aos outros. Para se ter certeza de viver conforme as leis de natureza. uma associação formada apenas pelo auxílio recíproco. embora na guerra de nação a nação uma certa reserva deva ser observada. se pudesse suspeitar que sentisse med02. como se fosse uma atividade econõmica. já que o exercício da lei natural é necessário para se preservar a paz. que nem ia contra a lei de natureza (do jeito que então eram as coisas). a fim de que posteriormente não voltem a divergir quando o seu interesse particular lhes parecer discrepar do bem comum. bem como toda ferramenta adequada à lavoura. e que para o exercício da lei natural a segurança é igualmente necessária. como definimos já no parágrafo anterior. assim como o mero estado de natureza. Daí decorre que o consentimento de muitos (que consiste apenas em que. pelo bem comum. E assim em tempos passados havia um modo de viver. só que o fazia por respeito a sua própria glória. porque bastará somar do outro lado um único. tirando todo o resto. possam ser contidos pelo medo. a fim de evitar que. ou alguns poucos. nem privava de glória quem o exercesse com valor e sem crueldade. deve-se considerar o que é que proporciona uma tal segurança. Tal costume consistia. que o número dos que cooperam em assistência mútua seja tão grande que o acréscimo de uns poucos do lado do inimigo não venha a constituir tópico suficiente para assegurar-lhe a vitória. se concordarem entre si a ponto de conduzirem alguma ação por esperança de vitória. Por isso é necessário. mas cada um ficar usando de seus esforços a seu próprio modo. eles dirigem todas as suas ações para o mesmo fim e para um bem comum). se contudo eles não concordarem entre si quanto a algum meio excelente para promovê-Ia. a menos que venham a ser forçados a isso por algum medo comum. viver de rapina. e não à mente.

e confundiu até mesmo a inteira Grécia. o apetite natural das abelhas e criaturas semelhantes é sempre conforme. . carecem porém daquela arte das palavras que é requisito necessário para todos os movimentos da mente. não obstante consentem: isto é. embora careçam da razão. sem um poder comum pelo qual os particulares sejam governados por medo ao castigo. ou seja. Entre os homens. Por isso não é de estranhar que algo mais seja necessário aos homens. em muitas vontades concorrendo para o mesmo objetivo. de modo que. é preciso também a união. supondo-se mais sábios que os outros. Não basta o consentimento. ou pensam não vê-Io. a abelha etc. não basta para constituir aquela segurança que é requisito para o exercício da justiça natural. pela qual o bem é representado a esta como sendo melhor. e o mal pior. não sendo . e ribombou. Mas apesar disso tal reunião não constitui um governo civil. entre os animais a quem chama políticos. naqueles tópicos necessários que dizem respeito à paz e autodefesa. competir pelas posições públicas enquanto não tenham vencido a fome e o frio. entre eles há uma disputa por honra e precedência. na administração de suas repúblicas (commonweals).que.Do Cidadão Domínio 5. de que brotam sedição e guerra. ao passo que numa multidão de homens sempre há muitos que. não apenas o homem mas diversos outros . enquanto tudo lhes corre bem.uma vontade única. Quarto. Daí que sópara os homens haja ódio e inveja. porque seu governo consiste apenas no consentimento. não censuram suas semelhantes. Depois. haja tão 94 95 . além de sua mera inclinação natural. elas não sabem distinguir injúria e dano. e por conseguinte para preservar a paz entre elas. De modo que o consentimento ou o contrato de associação. primeiro. embora possam ter uso da voz o bastante para transmitir suas afecções umas às outras. empenham-se em inovar. Por que razão o governo de certas criaturas animais está suficientemente fundado na mera concórdia. porém. E a língua do homem é trombeta de guerra e sedição. artificial. perseguindo ou fugindo das mesmas coisas. para que possam viver em paz. é preciso que. essas criaturas brutas. que vivem apenas pela sensação e o apetite. Mas entre os homens a questão é diferente. Porque. o consentimento de tais criaturas brutas é natural. É bem verdade que em tais criaturas. enquanto os animais não têm nada disso. para estabelecer a paz entre os homens Portanto. e elas desejam todas um bem comum que não se diferencia do bem particular. 6. o consentimento das mentes é tão durável que não precisa haver nada mais para assegurá-Io. eles. as criaturas privadas do uso da razão não vêem defeito. Quinto. e diversos inovadores inovam de distintas maneiras. Já o homem dificilmente considera boa qualquer coisa cujo gozo não porte alguma proeminência a avantajá-Ia sobre aquelas coisas que os demais possuem.o que é necessário no governo civil. conta-se de Péricles que em suas elegantes orações ele certas vezes atordoou. Finalmente. dirigem de tal modo seus atos para um bem comum que sua reunião não está sujeita a nenhum tipo de sedição. os que mais perturbam a república são justamente os que têm maior lazer e ócio .pois não costumam. e não para os animais. do que realmente são. o dos homens apenas por pacto.como a formiga. o que traz a dissensão interna e a guerra civil. Terceiro. e portanto tais animais não podem ser denominados políticos. ou seja. e por que isso não basta para o governo dos homens Aristóteles inclui. pela qual poderiam contratar e submeter-se ao governo. se a convergência de muitas vontades rumo ao mesmo fim não basta para conservar a paz e promover uma defesa duradoura.

contra a cidade. portanto. e pela palavra uma deve ser conhecida e distinguir-se de todos os particulares. nem toda pessoa civil é uma cidade . como as companhias de mercadores.Do Cidadão Domínio somente uma vontade de todos os homens. quando todos os outros tiverem feito o mesmo. é o que eu chamo de conselho. ante cada um dos demais. mas apenas o começo das ações voluntárias (pois queremos o agir e não o querer). porém apenas naquelas coisas determinadas pela cidade. Por isso. deve ser considerado como sendo a cidade. 8. ou omitido. pelo pacto de muitos homens. pelo terror que este suscita. e de cada um em particular. quando de todos os homens há uma só vontade. assim como a definimos. de modo que ela possa utilizar todo o poder e as faculdades de cada pessoa particular. 9. associações desse tipo são pessoas civis subordinadas à cidade3. nem todos eles reunidos (se excetuarmos aquele cuja vontade aparece pela vontade de todos). e por isso seja de todas as coisas a que menos pode ser objeto de deliberação e pacto. Uma cidade. naquelas coisas que são necessárias para a paz comum. por ter ela seus próprios direitos e propriedades. é uma pessoa cuja vontade. e muitas outras confrarias. se congregue numa pessoa. ou ainda uma pessoa civil: pois. e em termos tais que cada um deles tem o direito de entrar em juízo contra o próprio corpo da companhia . O que é uma pessoa civil Contudo. embora toda cidade seja uma pessoa civil. Na união. e isso se chama união.pois pode suceder que um grande número de cidadãos. aquele a quem se submeteram terá tanto poder que. a não resistir à vontade do indivíduo (ou conselho) a quem se submeteu. a menos que cada um de tal modo submeta sua vontade a algum outro (seja este um só ou um conselho) que tudo o que for vontade deste. poderá conformar as vontades dos particulares à unidade e à concórdia. para fazer determinadas coisas. porque seus membros não se submeteram à vontade da companhia simplesmente e em todas as coisas. O que é a sociedade civil A união assim feita diz-se uma cidade. ou uma sociedade civil. para a preservação da paz e a defesa comum. nenhum cidadão isolado. isto é. E entendemos que a vontade do conselho é a vontade da maior parte dos membros do conselho. com permissão dela. há de ser recebida como sendo a vontade de todos eles. Mas isso não se pode fazer. contudo aquele que submete sua vontade à vontade de outrem transfere a este último o direito sobre sua força e suas faculdades . por contrato. seja havido como sendo vontade de todos em geral.direito este que o cidadão não tem. E a reunião de muitos homens que deliberam sobre o que deve ser feito. o direito de todos os homens é transferido a um só Embora a própria vontade não seja voluntária. 96 97 . esta deve ser considerada como uma pessoa. Estas serão assim pessoas civis. a não lhe recusar o uso de sua riqueza e força contra quaisquer outros (pois supõe-se que ainda conserve um direito a defender-se contra a violência). mas cidades não são.de tal modo que. Por conseguinte. absolutamente. O que é a união Essa submissão das vontades de todos à de um homem ou conselho se produz quando cada um deles se obriga. 10. 7.

que em ambos os casos terá o mando supremo. o que é uma origem por instituição. o senhor (torci) adquire para si os cidadãos que ele quiser. por desejarem a própria conservação e por medo recíproco. assim como toda pessoa civil subordinada. para que não os matem. Esse poder e direito de comando consiste em que cada cidadão transfira toda a sua força e poder àquele homem ou conselho. 12. O primeiro modo recebe sua origem da força natural. para que não o sejam. aquele homem ou conselho a cuja vontade cada particular submeteu a sua (como antes mostramos). a quem chamamos de cidade. E diz-se que todo cidadão. no segundo. os cidadãos escolhem. Agem do primeiro modo os que são vencidos em guerra. que também pode chamar-se político. seja este um homem. Disso decorre que aqui tenhamos dois tipos de cidades. e pode ser chamado a origem natural de uma cidade.nada mais é que abrir mão de seu direito de resistência. quem será senhor sobre eles. da cidade política. quem por medo se submete a outrem se submete ou àquele a quem teme. mostrou-se claramente de que maneira e por que gradação um grande número de pessoas naturais. prias vontades. Duas espécies de cidade. é súdito daquele que detém o comando supremo. o segundo. e outro instituído. ou o comando-em-chefe. um natural. e do segundo aqueles que não foram vencidos. se erige em uma pessoa civil.Do Cidadão Domínio 11. por suas pró 98 99 . tal como o poder paterno e despótico.uma vez que ninguém pode transferir seu poder de forma natural5 . da cidade natural. e o que é ser súdito Em toda cidade4. No primeiro. natural e por instituição Pelo que foi dito acima. ou por instituição. Ora. do conselho e constituição daqueles que se reúnem. ou a algum outro em cuja proteção tenha confiança. e fazer isso . em primeiro lugar. ou o domínio. seja uma companhia de homens. Mas falaremos. diz-se que tem o poder supremo. O que é ter o poder supremo. e. depois.

cada um dos quais com sua própria vontade e seu juízo peculiar acerca de todas as coisas que possam ter propostas. mas se compõe de muitos homens. mas de tantas ações quantos forem estes homens. embora com base em contratos privados cada indivíduo possa ser seu próprio direito e propriedade. não pode tomar em armas contra si mesma. Portanto. tudo o que a multidão faz deve-se entender que é feito por cada um daqueles de quem ela se compõe. isto é meu. que é uma pessoa. e não de outrem.pois a cidade. embora numa grande sedição se costume dizer que o povo de tal cidade tomou em armas isso porém só é verdade para os que tomaram em armas ou para os que concordam com eles . E. e 10 1 . e enquanto pessoa que se distingue de qualquer indivíduo. Seja um Único HomemI 1. não se tratará de uma ação única. A uma multidão fora da sociedade civil não se pode atribuir direito algum. Pois. nem qualquer ação a que cada um não tenha especificamente2 consentido Devemos começar considerando o que é uma multidã03 que por sua livre vontade se reúne em uma associação: ela não é um corpo qualquer. Nem devemos atribuir nenhuma ação à multidão como sendo sua: se todos ou vários concordarem em empreender algo. de modo que um possa dizer isto é meu e outro isso é dele. Seja um Conselho. não haverá porém nada de que a multidão como um todo possa dizer justamente.CAPÍTULO VI Do Direito de Quem Detém o Poder Supremo na Cidade.

continua valendo aquele mesmo estado de natureza no qual todas as coisas pertencem a todos. oralmente ou por escrito. para alcançar essa segurança. dentre as que poderão ser propostas. mas ainda a submissão de suas vontades naquelas coisas que fossem necessárias para a paz e a defesa. isto é. apenas o consentimento deles. que cada um dos que agora erigem uma cidade convencione com os demais. E. Devemos portanto providenciar nossa seguran 103 3. A fundação de uma cidade começa no direito de um grande número de pessoas que consentem Devemos observar. que para a segurança dos homens se requeria não 102 . A segurança é o fim pelo qual nos submetemos uns aos outros. antes de tudo o mais. todas. supõe-se que ninguém se tenha submetido a coisa alguma. pois a depravação da natureza humana é manifesta a todos. nunca haverá vontade de uma multidão de homens. Pois. Um poder coercitivo é requisito para dar-nos segurança Não é suficiente. de outro modo. bem demais até. que se chamam domínio e propriedade . não roubar. Além disso. que cada um da multidão . Disso decorre que a cidade conserva contra quem dissente seu direito primitivoS. se algum não consentir.precisa concordar com os demais em que. 2.Do Cidadão Domínio quem. e pela experiência se sabe muito bem. E. na falta dela. deve ser julgado como não tendo feito nada. que coisas serão necessárias para a paz e defesa comum. discutidas e decretadas numa assembléia de indivíduos Ccujas vontades estão contidas. Todo homem detém um direito de se proteger a si mesmo em consonância com seu próprio livre-arbítrio ('free will"). e por isso. contudo não consentiu nem deu qualquer auxílio ao que ela praticou. não matar e observar outras leis semelhantes. o direito de guerra que ela tem contra um inimigo. em que pequena medida os homens se atêm a seus deveres com base na só consciência de suas promessas. devemos agora elucidar. ser o requisito necessário para o cumprimento das leis naturais4.a fim de que possa ter origem a cidade . que ele não tenha causa justa para temer aos outros. 4. apesar disso os demais constituirão a cidade entre si e sem ele. é impossível dar aos homens uma segurança completa contra quaisquer danos recíprocos.isso porque ainda não existe a segurança que afirmamos. nos assuntos que qualquer um propuser à assembléia. Mas pode-se providenciar que não haja causa justa para o med06. e não há lugar para o meum e o tuum. a seguir. naquilo que resta se for removida a punição. em seu sexto pa rágrafo. pertencendo à multidão. enquanto não lhes cometer injúria. e que a natureza de uma cidade consistia nessa união e sujeição. antes que se tomem precauções quanto à sua segurança. antes. para a paz é preciso que cada um fique tão protegido da violência dos outros que possa viver em segurança: isto é. ele aceite o que for aprovado pela maior parte como constituindo a vontade de todos. de modo que não corram o risco de ser feridos nem mortos injuriosamente. e portanto isto não vem ao âmbito de uma deliberação. isto é. na vontade da maioria). nem haja renunciado a seu direito sobre todas as coisas. enquanto não se der consideração suficiente à sua segurança Como dissemos no capítulo anterior. Na verdade. da maneira que acima expusemos. cujos votos e vontades se diferenciam de maneira tão variada. numa multidão que ainda não tenha sido reduzida a uma pessoa única. aqui.

a quem possui a autoridade suprema.e. igualmente. a quem detém os dois gládios. previstos para cada injúria que se evidencie que sofrerá maiores males quem a cometer do que quem se abstiver de praticá-Ia. ante qualquer perigo e em qualquer ocasião. por conseguinte. Toda a judicatura é também só dele Mas. A esse direito chamarei de gládio da justiça. Devemos portanto entender que os cidadãos individuais transferiram plenamente o seu direito de guerra e paz a algum homem ou conselho. por necessidade natural. e o de executar em outrem. Pois ninguém tem direito a obrigar os cidadãos a tomar em armas. mas através de castigos. e que este direito . 105 . segue-se que compete à mesma pessoa julgar de seu direito: pois. e não se pode imaginar poder maior que este. numa cidade. já pela constituição mesma da cidade pertencem. E esse tipo de contrato os homens observam bastante bem. sempre que o considerar conveniente. nada se faria. tanto este da guerra como o da justiça. até que eles próprios ou seus amigos próximos venham a sofrer por sua causa. em vão julgaria quem não pudesse executar suas ordens. que o direito de usar o gládio do castigo seja transferido a algum homem ou conselho. 5. e teremos tomado providências suficientes quando houver castigos tão grandes. essencialmente. necessariamente se entende que este tenha direito ao poder supremo na cidade. não mediante pactos. O gládio da justiça pertence a quem possui o mando supremo Portanto. Assim. como ter direito ao gládio nada mais é do que ter direito a usar da espada a seu próprio critério. Em que consiste o gládio da justiça Entende-se que alguém recebe o direito de castigar. e não têm como se pro teger contra os estrangeiros aqueles cujas forças não este 104 ~ jam unidas. se não tiver o direito de punir quem não lhe obedeça.pertence ao mesmo homem ou conse lho a quem pertence o gládio da justiça. Pois todos. mas aquele outro. quantos forem necessários para a defesa comum contra o número e força certos do ini migo . que haja algum conselho ou homem com direito a armar. o direito de firmar a paz com eles.e que tenha.ao qual podemos chamar o gládio da guerra . ou então. ao chefe supremo. de quem ele é tão-somente um ministro. 6. quando todos contratam não socorrer aquele que há de ser punido. Por conseguinte. E por isso é requisito. para segurança dos parti culares . e a custear as despesas da guerra. Ambos os gládios. 8. para a conservação dos particulares. escolhem o que a eles pareça constituir o mal menor. como é necessário. Pois quem tem o direito de punir à sua discrição tem direito a compelir todos os homens a fazerem todas as coisas que ele próprio quiser.Do Cidadão Domínio ça. 7. isto é. em sua maioria. dir-se-ia que não é ele próprio quem possui o poder do gládio. se as executasse pelo poder que pertence a outra pessoa. todo julgamento compete. portanto. reunir e unir tantos cidadãos. se o poder de julgar estivesse em alguém. A ele também pertence o gládio da guerra Mas em vão cultuam a paz em casa os que não podem defender-se contra os estrangeiros. para a paz comum -.

travar a guerra com prudência e prover com toda a cautela ao benefício da cidade. se um mandar que se faça certa coisa sob pena de morte natural. que para o interesse da paz é relevante que não seja divulgada aos cidadãos nenhuma opinião ou doutrina pela qual eles possam imaginar que tenham o direito de desobedecer às leis da cidade (isto é. 10. e ambos tiverem direito a dar essas ordens. Pois. por serem as ordens de quem possui o poder supremo na cidade. e que a vontade de fazer ou deixar de fazer qualquer coisa depende de nossa opinião sobre o bem e o mal. Com base nisso podemos compreender. o que justo. e outro a proibir sob a pena de morte eterna. em resumo. sejam administrados por um homem ou conselho. compete ao mesmo poder principal estabelecer algumas regras comuns para todos. justo e injusto. e para se alcançar a paz e a defesa comum é preciso que exerçam corretamente os seus ofícios aqueles a quem cabe julgar das controvérsias. bom. tem também o direito de julgar que opi niões? e doutrinas são inimigas da paz. ou que seja legal eles lhe resistirem. Conclui-se disso que a pessoa. é conforme à razão que estes magistrados e funcionários sejam subordinados a 106 107 . Por isso. quem possui o comando principal quer na guerra. mas ainda que a própria cida de estará completamente dissolvida. proveitoso e nocivo. e declará-Ias de público. o que injusto. Pois ninguém pode servir a dois senhores. Compete a ele a nomeação dos magistrados e de outros altos funcionários da cidade Além disso. isto é. 11. a quem a cidade conferiu o poder supremo.Do Cidadão Domínio 9. e sobre a recompensa ou o castigo que concebemos vir a receber pelo referido ato ou omissão. e dela necessariamente dependem. vigiar o que se faz nos conselhos dos vizinhos. quer na paz. desonesto. ou leis da cidade. que cada qual avalia segundo o seu próprio julgamento . Estas regras e medidas são usualmente denominadas leis civis. ou ainda que será menos castigado o desobediente do que o obediente. o que deve ser feito e o que deve ser evitado no curso da nossa vida em comum. e o de proibir que sejam ensinadas. quer de guerra quer de paz. homem ou assembléia (court). seguir-se-ánão apenas que os cidadãos. e como todas as controvérsias provêm do fato de que as opiniões dos homens diferem quanto ao que é meum e tuum. por uma inferência evidente e necessária. como impedir as rixas de nascer não é menos útil ao contrário. E também o exame das doutrinas Também é evidente que todas as ações voluntárias têm origem na vontade. Igualmente é dele o poder de legislar Ademais. para se chegar à paz. se ele não dispuser de ministros e de magistrados que lhes estejam subordinados. embora inocentes. serão todos eles puníveis de direito. é até mais útil -. do que apaziguáIas uma vez nascidas. honesto e desonesto. e outras coisas análogas.então. mau. e aquele a quem acreditamos dever obedecer por medo da condenação da alma não é menos poderoso (e até mais) do que esse a quem obedecemos por medo à morte temporal. e que ele os escolha. Assim as ações de todos os homens são governadas pelas opiniões de cada um deles. de modo que todo indivíduo possa saber o que pode ser chamado seu ou de outrem. dirigindo as ações futuras dos cidadãos. E as leis civis assim as definimos: nada mais são do que as ordens de quem tem a autoridade principal na cidade. bom ou mau. às ordens do homem ou conselho a quem está cometido o poder supremo). honesto. é impossível que os negócios da cidade.

Porque a ordem pode ser tal que eu prefira morrer a cumpri-Ia. embora às vezes se possa ter dúvida sobre que homem ou conselho tem o mando supremo. seja justo recusá-Ia . Pois se alguém submeteu sua vontade à vontade da cidade. Que o poder que seus cidadãos lhe concederam é absoluto. Nem se mandar que o filho mate o pai ou a mãe. mas mediatamente". \. embora me recuse a fazê-Io. Assim. porque sem tal obediência se frustraria o direito da cidade. naquela em que nenhum cidadão tem o direito de utilizar suas faculdades. não estou obrigado a fazê10. tanta que faça o poder supremo não ter sido concedido em vão. para sua própria conservação . se me mandam matar-me. se o governante supremo mandar que alguém o mate12. evidentemente. Pois uma coisa é dizer: Dou-te o direito de ordenar o que queiras. quando o comando que era único se divide em dois. este não estáobrigado a fazê-Io. onde está abolido o direito ao gládio privado) reside um poder supremo em alguém.de "obediência simples". O que quer que ele faça não é passível de punição Finalmente. quem não tem direito suficiente não pode puni-Io legitimamente. segue-se. que em toda cidade perfeitaS Cisto é.baixar leis.pois. o maior que homens possam transferir a um homem. por tudo o que já dissemos. A obrigação de prestar essa obediência não deriva imediatamente daquele contrato mediante o qual transferimos todo o nosso direito à cidade. de modo que esta possa. porque haverá ou tros que aceitarão cumprir tal ordem. já que outros podem ser encontrados que. com isso conferiu a esta o maior domínio que se possa conceder a uma pessoa. a seu arbítrio. Mas os sediciosos que contestam a autoridade absoluta na ver dade não querem tanto suprimi-Ia. menos ainda estará preso àquilo que para ele seja pior que a morte. outra bem diferente: Farei o que quer que ordenes. contudo este poder sempre existe e é sempre exercido. se abolissem esse poder. o maior que os homens tenham direito a conferir: tão grande que nenhum mortal pode ter sobre si mesmo um maior. pois. pouco importando que seja inocente. porque não se pode dar obediência maior que esta. e qual medida de obediência eles lhe devem É muito evidente. não se recusem a cumpri-Ia. Pois. e além disso não estou me recusando a fazer aquilo que contratei fazer. Há muitos outros 108 109 . fixar penalidades. que tudo o que este cometer está a salvo de punição. ou culpado e condenado pela lei. Da mesma forma. utilizar a seu bel-prazer a força e a riqueza dos homens -.embora às vezes. recebendo ordem de matar-me. e fariam retornar a confusão de todas as coisas. da mesma forma que nenhum homem pode estar obrigado a consentir em ser morto. porque é inconcebível que tenha firmado uma convenção nesse sentido. E chamarei esse tipo de obediência . fazer qualquer coisa . e portanto não se teria constituído a cidade. assim como quem não tem força suficiente não pode puni-Io naturalmente. pois. O direito absolutolO do principal governante exige tanta obediência quanto é preciso para governar a cidade. Portanto. nem por isso se frustra o direito de domínio. e um filho preferirámorrer a viver infame e odiado de todos. julgar controvérsias. 13. eles suprimiriam ao mesmo tempo a sociedade civil. por algumas razões que veremos.ou seja. Esse poder é o que chamamos de absolut09. e sim transferi-Ia a outras pessoas . exceto em tempos de sedição e guerra civil.Do Cidadão Domínio 12. não podendo então empregar sua força contra ele. isto é. considerando-se que cada cidadão submeteu sua vontade a quem possui o mando supremo na cidade. com todo o direito e sem risco de punição. O mesmo pode se confirmar pela experiência em todas as cidades que existem ou que jamais existiram.

e que foi constituído juiz supremo por cada pessoa singular15. e como o beneficiário tem o poder de desobrigar quem com ele se obrigou. e isso sem prejudicar 'aquele direito absoluto que se conferiu ao governante supremo. E a vontade de uma 110 111 . e tudo o que alguém chamasse de seu algum outro teria idêntico direito a igualmente dizer seu (pois. assembléia.conforme mostramos anteriormente -. pois. nada pode ser propriedade de um). isto é. como seja (uma vez bem entendida a eqüidade da causa) não pudesse pronunciar um julgamento injusto. peca contra as leis de natureza. Disso inferimos que à propriedade de cada cidadão privado nenhum de seus concidadãos tem o menor direito. 15. uma tal ação não corre porém pelo direito civil. Da mesma forma ninguém pode firmar uma obrigação para consigo mesmo. onde todas as coisas são em comum. mas não para outros. por conseguinte. pois estas são as leis da cidade. se ele assim o quiser. pode liberá-Ia de tal obrigação. Mas note-se que quem assim mata seres humanos . ela não está presa às leis civis (o que seria estar presa a si mesma) nem a nenhum de seus cidadãos. caso se sirva de tal direito de forma diferente daquela exigida pela reta razão. daquele a quem está conferido o mando supremo sobre ela. pois tudo o que um homem possa dar a si proprio supõe-se que já seja seu. Ninguém pode alegar ser proprietário de algo contra a vontade do governante supremo Como antes de se constituir a cidade todas as coisas pertenciam a todos . isto é. portanto está já e no momento presente livre. e recusada por aqueles. Pois em nenhum caso se nega a ele o direito de matar aqueles que se recusarem a obedecer-Ihe13. Portanto. ora. como quem se obriga e quem se beneficia da obrigação serão a mesma pessoa. a cidade estará livre assim que o quiser. que lhe foi concedido por quem antes o detinha -. e por isso é correto que a obediência seja prestada por estes últimos. Nem pode a cidade estar obrigada para com seu cidadão porque. mas essa propriedade não exclui o direito do governante supremo cujas ordens são leis. contra Deus. está sempre englobada na vontade da cidade). e por isso é que ele poderá ser juiz de si mesmo. cuja vontade contém a vontade de cada qual.embora a tanto tenha um direito. porque ele próprio se pode dispensar de tal obrigação tão logo o queira. e a propriedade de alguém nada mais é do que aquilo que ele pode conservar graças às leis e ao poder da cidade como um todo. é a vontade da cidade: de modo que ela contém as vontades de todos os cidadãos privados. ou a daquele a quem se concedeu a autoridade suprema. As leis da cidade não obrigam o governante E ninguém pode dar algo a si mesmo. 14. sucede que ele o quer todas as vezes que ela mesma quiser (pois a vontade de cada cidadão. porque eles estão obrigados pelas mesmas leis. mas pela eqüidade natural. em todas as coisas. Disso decorre que a cidade não está limitada Ctied) pelas leis civis.~ Do Cidadão Domínio casos nos quais para uns é vergonhoso obedecer à ordem. seria completamente inútil alguém estar obrigado para consigo. mas sua vontade. e quem pode desobrigar-se é porque já esta livre no momento presente. embora haja muitas coisas que a cidade permite a seus cidadãos. e portanto eles possam eventualmente ir a juízo contra seu governante. e se estivesse presa a elas na verdade estaria presa a si mesma. E nesse caso não se discute o direito16 do governante supremo. Contudo. segue-se que a propriedade tem sua origem14 lá onde as cidades também têm a sua.

o que é nosso e o que é dele compete à lei civil dizer. porque aquele que é proibido pela cidade Cisto é. mas o que há de se chamar roubo. poderão convocar uma nova reunião dos estados21. abusam de seu poder para sua própria concupiscência (lust)2°. e prescreverem penalidades para quem as infringir. e agitadas e aprovadas naquela assembléia. no capítulo II. ou se 112 113 . por aquele homem ou assembléia que nela detém o poder supremo) de firmar quaisquer contra tos não tem o direito de contratar o que quer que seja. e de ninguém mais. é assunto que depende inteiramente das leis civis. E quanto ao que podemos ou não contratar. o adultério. parágrafo 17. e por conseguinte não resulta em casamento. não pode haver transferência de tal direito. conforme dissemos no capítulo II. quando não há direito de firmar um pacto. este não é válido. se ela não for suficiente. investidos com tão grande autoridade. por lhes faltar o conhecimento do que sejam a natureza humana e as leis civisl9. se a assembléia continuar reunida. como já foi dito acima. nem toda união carnal com uma mulher constitui adultério. pelas ordens daquele que possui a autoridade suprema. Para esse propósito. seria dele. toda quebra de promessa é injúria. e também para se repelir qualquer inimigo estrangeiro. o assassinato não é qualquer homicídio. em outra. estipulando que. Assim. o homicídio. e portanto nenhuma injúria pode se seguir. alguns deles entenderão que uma cidade está bem constituída se os cidadãos contratantes concordarem no tocante a certas cláusulas por eles propostas.-Do Cidadão Domínio 16. Por isso. a cidade da Lacedemônia tinha todo o direito de decretar que os rapazes que conseguissem tirar determinados bens dos outros sem serem apanhados em flagrante deveriam ficar impunes. mas apenas aquele que a lei civil proíbe. pois estes nada acrescentam à força de um contrato.o que sucede. isto é. o que assassínio. e ordenarem o seu cumprimento. Pois roubar não é tirar de outra pessoa qualquer coisa que ela possui. se a promessa for conforme à lei. adultério ou injúria a um cidadão não se determinará pela lei natural. ora. eles concedem uma certa renda limitada. mas. Mas quem não vê que. A opinião dos que desejariam constituir uma cidade em que ninguém tivesse o poder supremo Esse mesmo poder supremo e absoluto parece tão duro à maior parte dos homens que eles sentem ódio ao seu mero nome . o poder absoluto reside na assembléia que prescreveu tais coisas? Portanto. Somente pelas leis da cidade é que conhecemos o que são o roubo. o adultério e a injúria O roubo. parágrafo 22. mas apenas o tirar-lhe os bens. apenas a que está proibida na lei civil. a fim de evitarem essa espécie de autoridade suprema. Da mesma forma. acima de tudo. Portanto. ainda que da mesma cidade. deve ser dito pelas leis civis. pois fazer um tal decreto consistia simplesmente em legislar que o que alguém adquirisse dessa forma seria sua propriedade. Da mesma forma a população que numa cidade é matrimônio será considerada. E ainda dessa forma os contratos que no caso de um cidadão resultam em matrimônio não têm o mesmo efeito para outro homem. 17. e portanto se firmar um contrato. porém pela civil. o assassínio e todas as injúrias são proibidos pela lei de natureza. E não confere força a um contrato ilegal o ter ele sido firmado mediante um juramento ou com a forma de sacramentol8. e também por falha daqueles que. e de modo geral a injúria. Finalmente. Também é legalmente que em qualquer parte se mata a um homem em guerra ou por legítima defesa. numa cidade assim constituída. o assassínio. o que é o roubo. como adultério.

ou aquele conselheiro de cujo aviso o governante supremo mais se serve nos tópicos de maior importância (se é que ele se serve de algum conselheiro para tal): pois o ofício da cabeça consiste em aconselhar. Isso porque. ou então deixa fixado em mãos de alguém um poder para castigar aqueles que vierem a transgredir as leis. Se compararmos uma cidade a um homem. esta é chamada de assembléia suprema. se houver alguém que tenha direito a praticar alguma ação que não seja lícita a nenhum outro cidadão ou cidadãos. se a um homem. e que tanto pode querer quanto não querer. ministros e conselheiros. determinar a guerra e a paz. por conseguinte quem faz tais coisas se serve do direito da cidade. Quanto às marcas (notes) do poder supremo. Finalmente. 114 115 . Pois só a cidade pode praticar aquelas coisas que nenhum cidadão. o que é mais adequado comparar à cabeça será uma cúria de conselheiros. isto é. ou sofre também as restrições de outro poder maior que ele próprio. é ele quem possui o poder supremo. que a cidade tem uma vontade.o que não pode em absoluto suceder se não houver um poder absoluto. transparece que quem é dotado de um tal poder (quer se trate de um homem só ou de um conselho) mantém com a cidade a relação não da cabeça. ou conselho. quem tem o poder supremo estará para a cidade como a alma humana está para o homem Os que comparam uma cidade e seus cidadãos a um homem e seus membros dizem quase todos que na cidade quem possui o poder supremo mantém com o todo dela a mesma relação que a cabeça tem com o homem enquanto um todo. Pois quem prescreve limites deve ter um poder superior àquele de quem por eles está confinado. assim como o da alma em mandar. E este é chamado de comando supremo: se for cometido a uma assembléia. ou bem a cidade com ela se dissolve. e seja o termi nus ultimus das forças de todos os cidadãos em conjunto. As marcas da autoridade suprema É portanto manifesto que em toda cidade há algum homem. Mas. e assim terminaremos chegando a um poder que não tenha outro limite. e a ninguém mais. Já o poder que confina ou é um poder ilimitado. e assim tudo retorna ao estado de guerra. seu poder será perpétuo. Pois quem tiver o direito a esse poder.~ Do Cidadão Domínio de tempos em tempos tiver uma certa data e local assinados para se reunir. tem direito a cometer. sejam eles quem ou quantos forem . que terá direito a um poder tão grande sobre cada cidadão individual quanto cada homem tem sobre si mesmo se formos considerá-l o fora do estado civil: isto é. se fosse limitado o seu poder. limitado tão-somente pelo vigor e forças da própria cidade. conhecer e julgar todas as controvérsias. ou grupo de cidadãos. Assim. já por juízes por ele designados. do que antes dissemos. ou corte22. pode tanto querer quanto não querer. elas são as seguintes: fazer e revogar leis. que é o poder supremo. 18. nomear todos os magistrados. e da mesma forma é graças a quem possui o poder supremo. e por nada mais no mundo. já pessoalmente. 19. tendo assim condições de castigar os cidadãos que quiser a fim de refreá-Ios. mas da alma para com o corpo. um poder supremo e absoluto. Pois épela alma que um homem tem vontade. Mas. tal limitação necessariamente haveria de proceder de algum poder maior. diz-se ser ele o supremo senhor da cidade. se ela se dissolver por completo. dispõe de um poder que é o maior que possa ser conferido por qualquer grupo de cidadãos.

a não ser que. para revogar legitimamente a autoridade suprema. com024 a maior parte dos homens considera que o consentimento da cidade inteira reside não só no consenso da maioria dos cidadãos. De modo que. é por esse meio que o direito que cada homem antes tinha. se assim consentirem todos os súditos em assembléia. apesar disso. mas até mesmo no de uns pouquíssimos com quem concordam. pelo. os consentimentos de todos estarão contidos nos votos da parte mais numerosa. sendo convocados os homens por ordem da cidade. Pois não é uma coisa natural que o consentimento da maior parte seja acolhido como sendo o consentimento de todos. praticar aquilo que em contrato firmado comigo ele se comprometeu a não fazer. apesar disso ele estará obrigado a tudo o que os demais concordarem em fazer. como tendo o mesmo efeito que se fosse o tod023. ora. não vejo que perigos os soberanos possam legitimamente (by right) temer. pelos contratos recíprocos que cada qual firmou com cada qual. assim lhe diz: Transfiro meu direito àquele. Ora. fosse concedido que o direito dos soberanos assenta apenas no contrato que cada homem firmou com seu concidadão. cansado do fardo de seu cargo. para o benefício comum. e somente então se torna verdade: quando aquele homem ou conselho que tem o poder supremo. com cada outro. a autoridade suprema possa ser retirada de quem a possui. Ora. sem me fazer injúria. ou agrupando-se sediciosamente. ele declare em termos bem claros que renuncia a seu governo e o abandona. seu consentimento também pode perdê-Ia e ser rompido. do raciocínio que exporei a seguir. se qualquer um deles se recusar a obedecer. com a condiçào de que também lhe transfiras o teu. que. mas esse raciocínio é falso. enquanto indivíduo. como se supõe que cada um se obrigou para com cada um dos outros. um dia se combinem contra o poder supremo. seu direito não depende porém apenas de tal obrigação. cada contrato. O poder supremo não pode ser legalmente ("by right") dissolvido pela mera vontade ("consents") dos que inicialmente contrataram a sua constituição Talvez alguém possa inferir. E da mesma forma ninguém pode. embora um governo se constitua pelos contratos de particulares com particulares. Se. porque recebe sua força dos contratantes. ainda que essa dedução fosse verdadeira. de modo que não devem os soberanos recear que por algum direito venham a ser despojados de sua autoridade. reunindo seus súditos. Contudo. O poder supremo é constituído em virtude dos pactos que reciprocamente cada cidadão ou súdito faz. pode muito bem lhes parecer suficiente. Mas. nas questões que ele lhes permitir que discutam. nem será nos tumultos que isso se tornará verdade. Pois. a utilizar suas faculdades para sua própria vantagem. não se deve imaginar que venha a acontecer que todos os súditos em conjunto. e autoriza a se considerar a maior parte das vozes. agora é completamente transferido a determinado homem ou conselho.~ Do Cidadão Domínio 20. pois tal procedimento deriva da instituição civil. Pois cada cidadão. sem a exceção de nenhum. ao pactuar com seu concidadão. Mas. não podemos imaginar que o chefe jamais venha a reunir os seus súditos com a intenção de que estes possam contestar seu direito. que isso se decida em alguma grande assembléia de cidadãos pelo voto da maioria. existe ainda um outro vínculo a uni-l os a seu governante. poderia muito facilmente suceder que eles fossem roubados de seu domínio sob uma pretensão de direito. devido a serem estes em grande número autoriza os que eles venham a eleger a falarem em nome de seus eleitores. pois a maior parte pensa que. a doação de direito que todo homem se obriga a ratificar em favor daquele que manda se sustenta em uma dupla obrigação dos cidadãos: pri 116 117 .

quem governa é chamado demos. Por isso os súditos. quando o poder cabe a um conselho. 118 119 . se assim o desejarY ou em apenas uma parte destes. e possua um interesse na ordenação dos negócios públicos. Esse poder é cometido quer a um homem. e tem o nome de monarquia. os nobres. Além disso. mas apenas uma parte. Outro. sem o seu consentimento. O terceiro é quando a autoridade suprema repousa num só. no qual todo cidadão tem direito a votar. o povo. quando o poder reside num conselho. aristocracia e monarquia Já falamos de uma cidade por instituição enquanto gênero. no qual não todos. Daqui surgem três espécies de governo: um. segunda. agora diremos algo sobre as espécies em que ela se divide. No primeiro. no segundo. tem direito ao sufrágio. quer a um conselho ou a alguma corte composta de muitos homens. em qualquer número que sejam. a que cada um deve a seus concidadãos. chamamos de aristocracia. Aristocracia e Monarquia 1. o monarca. E as cidades se diferenciam segundo a diferença das pessoas a quem é confiado o poder supremo. a que eles devem a seu príncipe. no terceiro.r Do Cidadão meira. é chamado democracia. não têm direito algum a despojar de sua autoridade o governante supremo. este conselho formado de muitos homens pode consistir ou em todos os cidadãos (na medida em que cada um destes tenha direito a votar. Há três formas de governo apenas: democracia. CAPÍTULO VII Dos Três Tipos de Governo: Democracia.

será dificílimo persuadir os homens de que um reino e uma tirania não são distintas espécies de governo. não se trata porém de três formas distintas de governo. devido a suas paixões.-. tal como o amor. Disso decorre que aquilo que um chama democracia. caso contrário. no exercício de seu poder (command). mas de três nomes dados a este por aqueles que estão descontentes com a forma atual de governo. será um inimigo. mas súdito daquele cujo poder limita o seu. portanto. mas sim as distintas opiniões dos súditos em relação àquele que tem o poder su premo. a anarquia ou a confusão à democracia. a oligarquia. usualmente não significam apenas as coisas em si mesmas. ~ ~ 120 121 . ou seja. mas também suas próprias afeições.. e tirano. o que com tanta freqüência se encontra nos livros escritos contra os tiranos teve origem nos autores gregos e romanos. e não pela paixão. outro avalia ser oligarquia. se parecer aos súditos que o príncipe governa bem e de modo a agradá-l os . Assim chegamos ao resultado de que. e uma aristocracia. Contudo. seus poderes tampouco diferem na maneira de aquisição. Além disso. num governo legitimamente constituído. chamá-Io-ão de tirano. Primeiro. porque não pode haver poder superior ao do supremo governante. o que um considera como aristocracia. Finalmente. ele se tornará um monarca legítimo caso venha a ganhar o consentimento de todos os cidadãos -. que devemos descobrir que diferença há entre um rei e um tirano. e a anarquia não é forma alguma de governo Embora alguns teóricos antigos da política tenham introduzido três outros tipos de governo em oposição a estes opondo. nem sequer há Estado. é pela razão. até quem prefere ter a cidade sujeita a um só homem do que a muitos não acreditará que ela seja bem governada se não for pelo seu critério. primeiro. pois. como vemos. ao atribuírem nomes. que é o governo dos principais ou dos primeiros. e a tirania à monarquia -. a diferença entre eles não está em que um tirano tenha poder superior. o governo de uns poucos.- Do Cidadão Domínio 2. Vemos assim que reino e tirania não são formas distintas de governo. e não um tirano. cujo governo era em parte democrático e em parte aristocrático. que significa o governo de uns poucos ou de uns grandes. a ira e ainda outras mais. A única diferença entre eles reside. mas que ao mesmo monarca é conferido o nome de rei em sinal de honra e reverência. 3. ou com quem exerce o poder. esses nomes não assinalam distintas espécies de governo. e. nem no fato de que um tenha o poder limitado. A oligarquia não é uma forma de governo distinta da aristocracia. eles lhe darão o nome de rei. aquele que não o faz. se assim não lhes parecer. De modo que. por outros são avaliadas como sendo as piores do gênero humano. e aquele a quem um chama de rei. Isso porque os homens. o ódio. se num governo democrático ou aristocrático algum cidadão adquirir pela força o poder supremo.". a não ser o fato de que os homens se diferenciam tanto entre si que a mesma coisa não parece boa a todos eles? E disso decorre que aquelas pessoas que por alguns são vistas como sendo as melhores. outro diz ser anarquia. isto é. e o de tirano para fazer-lhe contumélia e censura. que diferença há entre uma oligarquia. assim. e o outro ilimitado: pois quem tem seu poder limitado não é rei. dizendo-se que é rei aquele que governa bem. E como pode ser que o "não-governo" esteja entre as espécies de governo? Além disso. à aristocracia. outro nomeia como tirano. Pois. A tirania não é uma forma de governo que se distinga da monarquia Mas. quem não vê que a anarquia se opõe igualmente a todas as formas acima nomeadas? Pois tal palavra significa que não há governo algum.

e puserem fim à assembléia. ou sempre que esta suspender sua reunião marcando data e local para dar-lhe continuidade. parágrafos 6 a 12. Para evitarem essa condição. ele não traria vantagem alguma à liberdade do súdito. supõe-se que se obrigassem a observar aquilo que fosse determinado pela sua maior parte . imaginam então que possa haver uma certa forma de governo composta daquelas três espécies de que antes falamos. Isso porque tal assembléia. ao passo que. composta dessas várias espécies Há aqueles que. só conserva o poder supremo enquanto houver um dia e lugar certos. ou aristocracia mista.Do Cidadão Domínio de modo que eles não odiavam apenas aos tiranos. ainda que fosse possível haver um tal tipo de Estado. no fato de se reunirem voluntariamente. dividindo-se em facções. Mas já foi suficientemente demonstrado no capítulo anterior. que como conseqüência todos os cidadãos se tornem escravos (assim dizem eles).que é a convocação perpétua de as sembléias . claramente constitui uma democracia. 5. de acordo com a definição que demos no primeiro parágrafo deste capítulo. enquanto o rei. mas também aos reis. conforme qual destas três for mais eminente do que as outras. e não indicarem lugar ou data onde e quando venham novamente a se reunir. ao estado em que todos guerreavam contra todos. O povo. Duas coisas portanto constituem uma democracia. embora concordem que a cidade necessita de um poder supremo. se eles se separarem.forma o demos ou povo. mas uma multidão confusa. a coisa pública retoma à anarquia e à mesma condição em que se encontrava antes de sua reunião. ou bem não se reunirão de forma alguma. 4. publicamente decididos e conhecidos. se não forem previamente fixados locais e datas para reunir-se a assembléia Vejamos agora um pouco. o Estado retoma à guerra civil e ao direito do gládio privado. Não pode haver uma forma mista de governo ("a mixed state''). quase no próprio ato de se reunirem. caso ele esteja concentrado numa única pessoa . isto é. segue-se que ela é uma democracia. uma democracia: pois. o povo. se tal não for sabido e determinado. portanto. o que seguramente é muito pior do que qualquer tipo de sujeição. 122 123 . Mas. Com efeito. enquanto a outra que é maiorias de votos . como nessa assembléia supõe-se que cada um tenha direito a votar. e então não há mais demos. cuja vontade e a vontade de todos os cidadãos. Por exemplo. mas diferente de cada uma delas em particular: forma esta a que chamam de monarquia mista. a sujeição de cada cidadão individualmente considerado é a maior que possa haver. como procedem os constituintes. das quais uma . se a nomeação dos magistrados e a decisão da guerra e da paz pertencerem ao rei. esse tipo de Estado eles chamariam certamente de monarquia mista2. Aqueles que se reuniram com a intenção de fundar uma cidade formavam. enquanto durar sua assembléia. os nobres e o povo concordarem3. ou ainda democracia mista. a quem não podemos atribuir nenhuma ação ou direito.forma tõ krátos. Pois.pouco importando que se trate de um homem só ou de um conselho -. e o poder de fazer leis for conjunto a todos eles. que não pode haver uma tal espécie de govern04.o que. ou bem eles se reunirão em distintos lugares e datas. isto é. A democracia se dissolve. receiam. se eles discordarem. ao qual a vontade de qualquer um possa recorrer. a judicatura aos nobres e a decretação de impostos ao povo. ou o poder. e. Contudo. possui a autoridade suprema. na constituição de cada forma de governo.

Em segundo lugar. o povo não existia enquanto pessoa. o governo em que a autoridade suprema está conferida aos nobres. nasce de uma democracia que renuncie a seu direito em favor deles. por lhe faltar segurança. a vontade daquele súdito. ante o qual. porque já transferiu sua autoridade suprema. para meu berrt . em primeiro lugar. Na democracia os intervalos entre as datas de reunião devem ser curtos. Pois. ou seja. para que cada qual contrate submeter sua vontade à vontade da maioria. todo o direito do povo ou da cidade lhes é transferido. E. pelo menos. havendo apenas uma multidão de pessoas individuais. Como se cada um assim dissesse: Desisto de meu direito. 124 125 . considerado enquanto uma pessoa. 8. Isto consumado. 7. para o vosso bem. a um homem ou conselho. cada indivíduo recuperará seu direito de defender-se a seu bel-prazer. livre. Ora. e este os elege por maioria de votos e. não mais existe. Antes de se constituir o governo. pela falta do poder. o mesmo esse conselho de nobres eleitos agora tem direito a praticar. não haverá aquela prudente atenção e cautela que são necessárias para a defesa e a paz dos indivíduos. uma vez eleitos. será inútil o súdito firmar qualquer contrato com o povo: porque este último já contém. no momento presente. são propostos ao povo. segue-se que eles têm de ser feitos entre cidadãos individuais. Devemos entender que nesse regime alguns homens. e se pode fazê-Io já está. em favor do povd. disso decorre. ele se estaria obrigando. que ponha a cidade em perigo . Na democracia. indivíduos contratam com indivíduos que todos obedeçam ao povo. nesse caso. que se distinguem dos outros pela eminência de título. para que o povo mantenha sua supremacia. quanto ao fato de que os indivíduos contratam entre si.Do Cidadão Domínio 6. mas não podem (como já mostramos) ser firmados entre o súdito e o povo. depois de constituído tal governo. Assim. porque. sob a condição de que também renuncieis a vosso direito. dado que pactos dessa espécie devem ser considerados necessários para a constituição de uma cidade. que as pessoas que contratam precisam existir já antes que firmem o contrato. não bastará ter conhecidos alguns locais e datas de reunião: a menos que o intervalo separando duas sessôes seja tão curto que entre elas nada possa acontecer. tudo o que o povo anteriormente podia fazer. sob a condição de que os outros ajam também da mesma maneira. se os cidadãos não se obrigassem a fazer ou a omitir aquilo que a cidade lhes mandasse fazer ou omitir. e portanto o povo pode a seu próprio critério se desobrigar. de modo que naquele tempo nenhum contrato se podia firmar entre o povo e o súdito. nesse recesso. ou então se deve confiar a alguém a administração do governo6 durante tais recessos Além disso. que o exercício da autoridade suprema seja confiado. é claro que o povo. e o povo não tem obrigação para com ninguém A democracia não é constituída pelo contrato de pessoas privadas com o povo. Através de que atos se constitui a aristocracia A aristocracia. do sangue ou por qualquer outra característica. mas por pactos recíprocos de indivíduos entre si. se não se tomar uma dessas providências.ou. Por outro lado. podemos deduzi-Io do seguinte: teria sido inútil constituir a cidade. e portanto não será merecido o nome de cidade. em sua vontade.

não pode estar obrigado a coisa alguma. Portanto. bastam aqueles pactos pelos quais eles se obrigaram reciprocamente a observar tudo o que o povo lhes ordenasse. o qual ele transferiu para aquele indivíduo. 13.Do Cidadão Domínio 9. sem poder supremo. Aqui também devemos entender que se propõe elevar acima de todos os demais um homem. E portanto o monarca tampouco se obriga para com ninguém em virtude do poder que recebe. uma vez eleito. pelo nome ou por qualquer outro sinal que o torne notável. o povo deixa de constituir uma pessoa. a obrigação que se devia à pessoa do povo também se dissolve e perece. A monarquia é sempre o governo mais prontamente capacitado a exercer todos aqueles atos que são requisito para o bom governo9 Mas onde a monarquia mais se distingue da aristocra cia e da democracia é no fato de que nestas duas últimas 126 127 . deixa de constituir uma pessoa e. e. ou pessoa. o conselho de nobres na aristocracia também está livre de todo tipo de obrigação. embora eleito pelo povo. Isso consumado. que se não forem previamente determinados os lugares e datas para a reunião do senado de nobres. para obrigar os súditos a obedecer ao monarca. para nada mais ser que uma mJlltidão informe. Primeiro. ele pode fazer. pois. se o poder deste for constituído pelo povo. assim que lhe confere o poder. Por conseguinte. E esse senado. Nenhum pacto obriga a monarquia em relação a ninguém pela autoridade que ela recebeu 10. que. Através de que atos se constitui a monarquia Tal como a aristocracia. e que por maioria (plurality) de votos todo o direito que o povo possuía lhe é transferido. a não ser que a administração seja confiada a algum homem. Na aristocracia os nobres não firmam pacto algum. que se aplicavam já à democracia.isto é. não pode haver intervalos longos entre as datas de suas reuniões. o povo. dissolve-se também toda obrigação que havia para com ela. sem prejuízo ao poder supremo. Pois o povo se dissolve tão logo o elege. assim também se obrigaram a aceitar aquele ato do povo pelo qual este renunciou a seu direito de governo em favor dos nobres. dissolvendo-se a pessoa. por pactos recíprocos entre si. este deixa de constituir uma assembléia. considerando que os súditos não contrataram com o povo. de modo que toda e qualquer coisa que o povo pudesse praticar antes de elegê-lo agora. Segundo. no parágrafo 5. que antes só era pessoa em virtude do poder supremo. como mostramos anteriormente. também a monarquia se deriva do poder do povo. 12. mas se obrigaram. tornando-se uma rude multidão. a seguir tudo o que o povo fizesse. pois o recebe do povo. que transfere o seu direito . e a autoridade que ele detinha enquanto pessoa se desfaz por completo. conforme mostramos acima. É preciso que os nobres tenham fixado previamente as datas e locais de suas reuniões Valem para a aristocracia as seguintes observações. nem se obrigam para com nenhum cidadão nem para com o povo inteiro Tal como o povo na democracia. 11. sua autoridade a um homem. o que inclui obedecer ao monarca. As razões para estas considerações são as mesmas que enunciamos acima.

não da vontade política. Um monarca escolhido sem limitação de tempo tem o poder de escolher seu sucessor O povo que agora vai votar a instauração da monarquia pode conferir ao príncipe simplesmente a supremacia. E numa democracia ou aristocracia. e quem é culpado por ele. não constituindo pessoas naturais. quando a cidade não cumpre seu ofícioJO ante os cidadãos. sem limitação de tempo. no caso de ter conservado esse direito.Do Cidadão Domínio têm de estar marcados lugares e datas para a deliberação e consulta dos negócios. acabariam sendo culpados pelo decreto até aqueles que o detestaram. se algo for decretado infringindo alguma lei de natureza. ele também pode fazer rei a outro. Que gênero de pecado se comete. mas apenas daqueles súditos graças a cujos votos a medida foi aprovada: pois o pecado resulta da vontade natural e expressa. tal como foi definida no capítulo III. Terceiro. Se a conceder da primeira forma. 14. necessariamente prccisam reunir-se. Isso porque o príncipe. se o fez de modo a poder reunir-se antes de expirar o mandato que conferiu a seu rei. Por conseguinte. ou os cidadãos ante a cidade Já mostramos acima (nos parágrafos 7. para assegurar seu exercício efetivo em todos os lugares e datas. que por natureza éuno. É verdade que o povo. 128 129 . e em nenhuma outra ocasião. 9 e 12) que nenhum pacto obriga quem recebeu o poder supremo em relação a ninguém. e em segundo lugar contra o governante supremo. O monarca. Sobre os monarcas limitados Contudo. de modo que ele pode nomear como seu sucessor a quem ele quiserll . a quem assim se confere o poder dessa maneira simples. se se satisfaz em reunir-se apenas quando o quiser aquele seu rei temporário. deveremos examinar algo mais que a mera concessão. se o poder for concedido por um prazo limitado. Depois. sempre está atualmente capacitado a executar sua autoridade. Pois tanto o povo quanto os nobres. se não fosse assim. ao transferir sua autoridade. da pessoa civil). Mas se o súdito não prestar obediência ao soberano então cometerá. porque cada um deles contratou com cada um dos outros para que todos obedecessem. iniqüidade. reservou-se ou não o direito de se reunir em determinados lugares e datas. 16. devemos entender que quem a recebe detém o mesmo poder que aqueles que o conferiram. que ele não pode fazer injúria nenhuma a seus súditos. portanto. necessariamente. por crueldade. isto é. Disso se segue. se o povo. recebe um direito não apenas de posse. que não caem sob essa definição precisa e estrita de "injúria". Já numa monarquia. onde não há contrato não pode haver injúria. propriamente dizendo. injúria . contumélia e outros vícios análogos.em primeiro lugar contra seus concidadãos. ou então por um prazo e tempo determinados. que é arti 15. mas igualmente de sucessão. nada mais é do que uma quebra de contrato. se o príncipe baixar algum decreto contra as leis de natureza. de quem ele retira sem o seu consentimento o direito que lhe havia transferido. pecará ele mesmo. os nobres e o monarca podem transgredir as outras leis de natureza de diversas maneiras. Pois a injúria. porque nele a vontade civil e a natural são uma só. o pecado não é culpa da cidade em si mesma (isto é. parágrafo 3. Primeiro. pelas mesmas razões por que o povo teve o direito de fazê-lo rei. ficial. e.

Pois o povo é de tal modo senhor dos súditos que só pode ser herdeiro aquele que ele mesmo designar. como fez o povo romano quando conferiu a Minúcio. efetuada a concessão. E não importa que ele tenha eventualmente prometido reunir seus súditos em algumas ocasiões: porque a pessoa a quem ele fez essa promessa não tem mais existência. aquele que dessa maneira recebeu um poder apenas vitalício tem na verdade um poder absoluto. E o povo. e de pô-Ia sobre sua testa. e entre estas duas opções ele escolherá a que lhe parecer melhor conduzir a seu benefício comum. é manifesto. quer diretamente nomeando um sucessor. Finalmente. devemos entender que o povo imediatamente se dissolveu. Assim. mestre da cavalaria. A razão disso é que é inconcebível que a pessoa . se disso for capaz.a quem se deu o poder de agir imediata e prontamente tenha esse poder sem ter a capacidade legal para executá-Ia de fato: pois o poder nada mais é que o direito. os espaços que separam as datas de reunião dos súditos podem ser adequadamente comparados àquele tempo em que o monarca dorme: pois em ambos os 130 131 . pelo parágrafo 5 deste capítulo. mais até. tem direito. poderá privá-Ia de seu cargo antes mesmo de terminar o mandato. Além disso.fficer) do povo. mas como o primeiro magistrado (prime o.indivíduo ou assembléia . este não deve ser considerado como monarca. toda a autoridade. a Quinto Fábio Máximo. se. e no monarca temporário estava apenas o seu uso e exercício. de tomar o poder supremo em suas mãos. a menos que nisso consinta aquele que agora tem. cada um de cujos membros tem um igual direito. de natureza. Pois todo o mando supremo (ou domínio) residia no povo. que naquela ocasião o povo deixará de ser uma pessoa. se isso lhe convier. sozinho. e se tornará uma multidão informe. Nesse caso. dependendo agora plenamente dele. e. o que fará quer marcando dia e local em que os súditos que o queiram possam reunir-se. mas não o direito.Do Cidadão Domínio Suponhamos agora que o povo tenha concedido seu poder a alguém apenas pelo prazo de sua vida. se o povo não tiver deixado o local onde elegeu seu rei temporário sem decretar em que data e lugar tornará a reunir-se após a sua morte. Portanto. e pode a seu arbítrio decidir quanto à sua sucessão. como ditador. a se reunir com quem quiser naquela data e local que a cada qual convenha e agrade. mas em virtude já do direito anterior. qualquer monarca que receber o poder em tais condições estará obrigado pela lei de natureza (estabeleci da no parágrafo 8 do capítulo III. a autoridade confirma-se no povo. sempre que a natureza o permitir. O que dissemos desses quatro casos em que um povo elege seu monarca temporário melhor se explicará comparando-os com um monarca absoluto. como se ele tivesse o benefício12. o povo não deixar o local antes de fixar alguns dias e lugares em que se reunirá. de mandar. e que a autoridade que confiou ao rei é absoluta: porque não está no poder do conjunto de todos os súditos dar uma nova constituição Cframe anew) à cidade. não por quaisquer novos atos que sejam praticados pelos súditos. que manda não retribuir o bem pelo mal) a providenciar com toda a prudência para que à sua morte a cidade não se dissolva. depois de eleger seu rei temporário. Contudo. suponhamos agora que cada qual deixou o local da assembléia sem nada se determinar quanto ao lugar onde (após a morte do príncipe) todos eles voltarão a se reunir para proceder a uma nova eleição. que não tenha herdeiro manifesto13. já no curso do mandato que lhe concedeu (como sucedia quando o povo de Roma nomeava um ditador). E ainda. se depois de designar um monarca temporário o povo deixar o local da eleição em termos tais que não lhe seja lícito reunir-se sem a ordem do monarca. um poder igual ao que antes havia outorgado. falecendo o príncipe. então.

da mesma forma o povo. isso acontece pelo abandono. da mesma forma. pois. de modo suficiente. se assim o quiser. quem significa de maneira suficiente ter a vontade de conservar o fim também declara. na verdade lhe está legando sua sucessão . sem renunciar a seu direito ao governo. assim como um rei. indo para o repouso de que nunca há de retomar (morrendo. ao eleger um monarca temporário. dá sinais suficientes de que só fez aquela promessa na medida em que seu poder pudesse ser conservado sem aquilo que foi prometido. pode retirar a concessão do poder quando bem o quiser . deverá ela ser considerada como não tendo sido feita como sendo. que acarrete prejuízo ao exercício de seu poder. Por conseguinte. o rei que confia sua autoridade a outro en quanto dorme. isto é. obri garam-se através de pactos recíprocos a obedecer ao poder supremo. requer sinais adequados e apropriados da vontade naquele que efetua a transferência. Ademais. primeiro de tudo. se tiver conservado o direito de se reunir numa certa data e local. dissolver a assembléia. 17. E. portanto). pelo que dissemos no parágrafo 4 do capítulo 11. confia-lhe o domínio integral sobre o país. que não abandona seu direito aos meios necessários para tal fim. mas sem com isso transferi-Io a outrem. Por isso. Além disso. assim como um rei que vá dormir por algum tempo confia a administração de seu reino a alguém. aquele que prometeu renunciar a algo que é necessário ao poder supremo. de modo que ela não possa voltar a reunirse. Pois todo pacto é uma transferência de direito que. perde a um só tempo o poder e a vida. naquele dia recupera sua supremacia. assim como a morte de um homem consiste em ele dormir. que elegeu um príncipe temporário. se não puder despertar sem o consentimento daquele. E assim como um rei que tenha confiado a execução de sua autoridade a outrem. e não faz a menor diferença que tenha sido feita mediante juramento. se um homem abandonar ou desistir de seu direito de mando. pode também.da mesma forma o povo. sem nunca mais poder acordar. possa fazer a promessa de abandonar o seu direito aos meios necessários para o exercício de sua autoridade Se o monarca prometer qualquer coisa a um súdito. 133 132 . e despertando a retoma . se confiar o exercício de sua autoridade régia a alguém até ele próprio despertar. a qualquer momento que se constate que a promessa não pode ser cumprida sem causar prejuízo ao poder. o povo que tenha conferido o poder supremo a um monarca temporário. de nenhum efeito. que não tenha herdeiro. É inconcebível que um monarca.também o povo. se acordar antes do que previa. que no curso do mandato confiado ao monarca temporário tenha o direito de reunir-se. e o poder fica com aquele que por ele foi eleito. Como um cidadão é libertado de sua sujeição Vimos como os súditos. 18. de igual maneira. Veremos agora por que meios sucede de serem eles liberados de tais elos de obediência. se não conservar o poder de se reunir. mas em tais condições que não possa se reunir sem a ordem deste último. vê-se completamente dissolvido. e no entanto conserva esse próprio poder. Ora. acarreta a morte do povo. Finalmente. ou a muitos deles reunidos.Do Cidadão Domínio casos cessam os atos de mando. mas o poder permanece. essa promessa ou pacto é nulo. Portanto. Pois o que assim foi rejeitado está abertamente exposto a todos. pelo ditado da natureza. pri var esse príncipe da autoridade que lhe foi passada.

com o mesmo vigor (endeavour) de antes. quer por permissão. existe uma espécie de pequeno reino. a saber. e assim uma grande família é um reino. das quais a primeira é quando. Em segundo lugar. por contrato e férecíprocos. tratamos de um governo instituído ou polític02. daquele que deve sua origem ao consentimento de muitos. e desta já falamos. que o animal para o homem). por contrato mútuo feito entre si (com vistas à paz e à defesa). sem qualquer espécie de compromisso entre si. que a paixão para a razão. o que significam senhor e servo Nos dois capítulos precedentes. por isso. Mas também há casos em que um súdito pode legalmente ser libertado de sua sujeição pela vontade daquele que possui o poder supremo. todos os súditos são descarregados de suas obrigações: porque ninguém pode se considerar obrigado se não souber a quem. agora a perdeu: pois. Por exemplo. Onde um tal direito se obtém. voltando àquela liberdade'4 que todos têm perante todas as coisas. se não houver sucessor. de modo que não seja mais possível fazer oposição a este. e repentinamente (como cogumelos) alcançassem plena maturidade. se obrigaram a todos. que. ou conselho de homens. e consideremos os homens como se nesse instante acabassem de brotar da terra.Do Cidadão para que o agarre quem o conseguir. isto é. Em ambos os casos ele se liberta das leis de seu país anterior. Háapenas três vias. se ele mudar de chão: o que pode fazer de duas maneiras. terão cumprido todos aqueles contratos de obediência que firmaram entre si. se for banido. se o reino cair em poder do inimigo. 134 135 . eles se entregaram voluntariamente ao poder e à autoridade de algum homem. pelas quais alguém possa ter domínio sobre a pessoa de outro.que também pode ser denominado "adquirido". Segue agora o que pode dizer-se a respeito de um governo natural . quando os súditos tiverem envidado todos os seus esforços para que não caiam em mãos inimigas. Terceiro. Para tanto devemos saber. e o que depois disso prometerem para evitar a morte terão o dever de executar. se ele obtém a licença de ir residir em outro país. nesse caso. CAPÍTULO VIII DOsInreüosdOsS~hores Sobre Seus Servos1 1. que antes possuía a autoridade suprema. quer por ordem. em primeiro lugar. numa monarquia (pois uma democracia e uma aristocracia não podem falhar). porque está obrigado a obedecer às do outro. porque é aquele que se obtém por poder e força natural. pois nesse caso lhe é impossível cumprir o que quer que seja. E dessas três maneiras todos os súditos ao mesmo tempo são libertados da sujeição civil em que viviam. e um pequeno reino é uma família. devemos entender que aquele. por que meios se pode alcançar direito de domínio sobre as pessoas dos homens. pelo direito de natureza cada súdito pode cuidar da conservação de si próprio em conformidade com seu próprio julgamento. Retomemos agora ao estado de natureza. uma liberdade natural e selvagem'5 (pois o estado natural está para o civil na mesma proporção que a liberdade para a sujeição. pois ser rei nada mais é do que ter domínio sobre muitas pessoas.

atado ao cumprimento de todas e quaisquer ordens. não violam as leis de natureza. 5. pelo qual o senhor concede a ele sua liberdade corporal. simplesmente e sem restrição alguma. em virtude da sua promessa. pois quem se obriga a obedecer às ordens de outro homem antes mesmo de saber o que este lhe ordenará está. se assim o desejar. Portanto. e portanto não são chamados pelo nome comum de seroo apenas. por terem a confiança de seus senhores. ou seja. da qual poderia ter sido privado. de não o supor suficientemente ligado por qualquer outra obrigação. parágrafo 9. que servem acorrentados ou presos Não se supõe que toda pessoa aprisionada na guerra. excetuado o que repugne às leis divinas. aquele a quem está ligado. aprisionado em guerra. ou ainda descrente de suas próprias forças (para evitar a morte). mas antes . ou deixar o serviço de seu senhor. E com efeito esses servem. onde não há confiança (trust). E portanto. Em tal contrato. a obrigação de um servo para com seu senhor não decorre da mera concessão de sua vida. Perante o senhor. mas dentro de prisões. não tem menos domínio sobre um servo que não está preso. não pode haver contrato. ~' 2. ora. por conseguinte. e que teve a vida poupada. mas com a finalidade de não sofrer. pois não se confia a toda pessoa o suficiente de sua liberdade natural para que seja capaz. ou escravos. ele poderia não só escapar.Do Cidadão Domínio A segunda é quando um homem. o bem que o vencido ou o inferior em força recebe é a concessão da sua vida. por parte de quem o acorrenta. e o bem que ele promete é seu serviço e obediência. o servo não é proprietário de seus bens o senhor. de modo que se não ocorreram obrigação nem vínculos4 de contrato. Pois toda obrigação deriva de contrato. pelo direito de guerra que vige no estado natural dos homens. que era quem lhe conservava a vida. em que definimos um pacto como a promessa de alguém em quem se confia. de tal espécie de aquisição algo se dirá no capítulo seguinte. do que sobre um que 137 136 . ou ligados por correntes. quem assim se encontra ligado é chamado seroo. ou derrotado. A obrigação do servo decorre da liberdade corpórea a ele conferida por seu senhor Portanto. o serviço e obediência devidos pelo vencido ao vencedor são tão absolutos quanto é possível. tenha contratado com seu senhor. sobre a pessoa de um homem. há um direito que se adquire. e aqueles. Em terceiro lugar. a espécie de servos que estão limitados por aprisionamento ou correntes (bonds) não se acha compreendida na definição anterior de servos. por geração. como se vê no capítulo lI. porque esses não servem devido ao contrato. 4. Há portanto uma confiança e crédito que acompanha o benefício da vida perdoada. assim como atualmente un serviteur e un esclave têm significações diversas3. promete fazer qualquer coisa que aquele lhe ordene. 3. Pois ligar um homem é um sinal óbvio.de não ser mantido em correntes ou cadeias. senhor. ou infligir qualquer dano a este último. de fugir. como também matar seu senhor (torci). O servo que esteja a ferros não está preso por nenhum pacto ao seu senhor Por isso. mas pelo nome peculiar de escravo. ora. se eles fogem ou matam o seu senhor. promete ao conquistador ou ao partido (pany) mais forte o seu serviço. A distinção entre os servos que gozam de sua liberdade natural.

tanto como de qualquer outra coisa. Não é possível o senhor cometer injúria contra seu servo Ademais. isto é. Disso decorre que tudo o que o servo tivesse antes de sua servidão torna-se. Do Cidadão Dominio está. como não apenas o servo. 8. o que numa cidade é banimento . tem propriedade contra seu concidadão. seguramente. seguindo.da mesma maneira. se acontecer que o senhor. ele tem propriedade e domínio sobre seus próprios bens. são de seu senhor.. animada ou inanimada. e não pode o senhor intermediário deles dispor de forma diferente da que aprouver ao senhor supremo. do senhor. o que quer que este faça é feito com as vontades daqueles. mas também de seus servos. portanto o senhor pode igualmente vender. pois o mesmo direito sobre si próprio que o servo transferiu a seu senhor pode o senhor restituí-Io ao servo. Pois quem tem direito a dispor da pessoa de um homem pode. sua própria vontade e prazer.. Assim. E por isso. quase ignorado. mas tudo o que ele tem. contudo. E esta maneira de conceder liberdade é chamada manumissão. embora um súdito nada tenha de propriamente seu contra a vontade da autoridade suprema. O senhor pode vender ou testar o seu servo Já que tanto o próprio servo como tudo o que lhe pertence são de seu senhor. de sua sujeição. o que já foi demonstrado anteriormente acerca dos súditos num governo instituído. contra a vontade de seu senhor. posteriormente. O senhor do senhor é igualmente senhor dos servos deste Mas. que é exatamente como se uma cidade permitisse a um cidadão transferir-se para a jurisdição de alguma outra cidade. e nenhuma injúria pode ser cometida contra quem a quis.o que não difere da manu 139 7. este outro não será senhor apenas dele. seja por cativeiro. se eventualmente acontece que em governos civis o senhor tenha poder absoluto sobre seus servos. também é válido quanto aos servos. senhor imediato daquele. nisso. sem ser constituído. por conseguinte seus servos agora pertencem a esse homem. se seu senhor o alforria. Portanto. 6. foi obtido para seu senhor. na medida em que um servo pode mantê-Ios e defendê-Ios da invasão de um seu co-servo . seja por sujeição voluntária. "isto é meu". dispor de todas as coisas de que tal pessoa possa dispor. num governo instituído.. este supõe-se derivado do direito de natureza. Em segundo lugar. e que por direito de natureza todo homem pode dispor de sua propriedade da maneira que lhe convier. 9. mas tolerado. pois sobre ambos ele exerce um poder supremo. se torne servo ou súdito de outro. e pode dizer do servo. por 138 . conforme anteriormente mostramos. Ora. se o senhor expulsa seu servo. por concessão do senhor. pela lei civil. senhor supremo destes. dar em penhor ou transferir por testamento o domínio que tem sobre seu servo. que. não há nada que o servo possa reter como seu próprio. Em primeiro lugar. e o que quer que obtenha. que eles sujeitaram sua vontade à vontade do senhor. Por que meios se liberta o servo Um servo é libertado de sua servidão da mesma maneira que se liberta um súdito. que quem tem o poder supremo é incapaz de cometer injúria alguma contra seu súdito.

o servo é libertado se não se conhece o sucessor. nem pode quebrar-se aquela fé que não é dada. Quarto. Pois. muito mais lícito será assim agir contra seres brutos . a antiga servidão é abolida pela nova. mas apenas aquele a quem a vontade divina6 fosse manifestada por escritura sagrada . renuncia-se ao domínio. tais servos não são seus. sujeitar e até matar seres humanos. e perseguir 140 141 . o servo que é acorrentado. como punição: em ambos. se tal direito não existisse antes de serem publicadas as Sagradas Escrituras. Em terceiro. em virtude daquela guerra que é de todos contra todos. nosso domínio sobre as bestas origina-se no direito de natureza. como todas as demais coisas. cada qual à sua discrição. ou privado por quaisquer outros meios de sua liberdade corporal. tantas vezes quantas pareça conduzir ao bem de quem sujeita e mata. naquela. Finalmente. pela força natural. a liberdade é concedida como um favor. acha-se libertado daquela outra obrigação de contrato. não no direito divino positivo. isto é. ao falecer o senhor (suponhamos) sem testamento ou herdeiro.---- Do Cidadão Domínio missão quanto ao efeito. também se adquirem servos pela guerra. enquanto eles não poderiam destruí-Ias. reduzir à servidão aqueles que pela arte possam ser domados e adequados ao uso. como acima se mostrou. esta em que as bestas poderiam devorá-Ios sem injúria. como perigosos e nocivos. mas apenas quanto à maneira. O domínio sobre os animais decorre do direito de natureza5 Adquirimos direito sobre as criaturas irracionais da mesma forma que sobre as pessoas dos homens. homem algum teria o direito de matar uma besta para comê-Ia. Pois. e por eqüidade o senhor deve protegêIos se quiser que sejam seus. 10. também é do mesmo direito que um homem pode matar uma besta. assim como procede do direito de natureza que uma besta possa matar um homem.condição que seria muito dura para os homens. porém do senhor supremo. e destruir os demais em guerra perpétua. se no estado de natureza é lícito a qualquer um.isto é. Pois. Pois ninguém pode ser tido por obrigado. a menos que saiba a quem deve cumprir sua obrigação. Portanto. Mas o senhor que por sua vez serve a outro não pode libertar dessas maneiras os seus servos. pois. que deverão continuar sob o poder do senhor supremo. Portanto. neste. pois. Pois não pode haver contrato onde não há confiança. se o terço é aprisionado.

Além disso. Os que até agora se esforçaram por provar o domínio de um dos pais sobre seus filhos não trouxeram outro argu mento além do da geração. e por outro lado duas pessoas. evidenciasse sem mais discurso que seus ângulos são iguais a dois retos. o domínio paterno não decorre da geração "Sócrates é um homem. porque para reconhecer-se a verdade da conseqüência tudo o que é necessário é entender a palavra "homem". como se fosse evidente de per si que o que for gerado por mim é meu. porque a palavra "senhor" não está incluída na definição de "pai" . que "o homem é uma criatura viva". que a conexão entre pai e senhor seja um tanto explicitada. e assim qualquer um pode acrescentar por sua conta a proposição que está faltando. e portanto seu senhor" pode até ser uma inferência verdadeira. só que não é evidente. a saber. assim como se um homem pensasse que. macho e 14 3 . e portanto uma criatura viva" é um raciocínio correto e do mais evidente. Mas a proposição "Sofronisco é pai de Sócrates. o poder supremo . dado que na própria definição de homem já está implícito que seja uma criatura viva. já que o domínio .isto é.por isso é necessário. porque existe um triângulo.é indivisível.~ CAPÍTULO IX Do Direito dos Pais Sobre os Filhos e do Governo Hereditário] 1. para torná-Ia mais evidente. pois que nenhum homem pode servir a dois senhores.

dado que o estado de natureza é um estado de guerra. se ela abandona e renega seu direito ao expor o filho. não se pode entender que qualquer homem conceda vida a outrem em termos tais que este ganhe força com a idade e ao mesmo tempo se torne seu inimigo. o mesmo que deveria a uma mãe porque o educa. por necessidade natural. porque não é tão grande a desigualdade de suas forças naturais que o homem possa obter sem guerra domínio sobre a mulher. Nele. e com essa exposição torna-se nula a obrigação que decorria do benefício da vida.que em tempos idos travaram guerra contra seus adversários. devem concorrer para o ato de geração. Porque. Acrescente-se ainda que. toda mulher que pare filhos torna-se tanto mãe como senhor (tord).~ Do Cidadào Domínio fêmea. na medida em que ela tem o direito. originalmente. como também o costume. de diversas maneiras.e entre os homens. e portanto é dela. por direito de natureza. devido a preeminência de seu sexo. E hoje em dia. embora no estado de natureza. Ora. a não ser pelo testemunho da mãe. todos nós desejamos o que nos parece bom. como entre as demais criaturas. não se pode saber quem é o pai.que neste caso torna-se senhor o pai. há mulheres investidas com a autoridade principal. no estado de natureza. pelo direito de natureza. se assim o quiser. ou o que deve a um senhor prestando-lhe serviço. de nutri-Io ou de largá-Io à sua fortuna. supõe-se que ela o está criando sob a seguinte condição: de que. da mãe Portanto. Portanto. absolutamente. Por conseguinte. com a máxima diligência. O domínio sobre a criança é. Em primeiro lugar. a criança é portanto daquele que a mãe quiser. devido à igualdade de natureza. 2. uma vez que aqueles que detêm o poder supremo não estão. porém elas mesmas. O domínio sobre as crianças pertence àquele ou àquela que primeiro as teve em seu poder Devemos portanto retornar ao estado de natureza. o conquistador é senhor do conquistado. o mesmo domínio que tinha a mãe. Pois tanto a razão mostra o contrário. e dispuseram de seus filhos tal como quiseram. ao se tornar adulto. cada homem é inimigo de todo aquele a quem não obedece nem ordena. no estado de natureza. Pois. Por isso vamos. na verdade. Pois houve mulheres as amazonas .isto é. E o que alguns dirão . em diversos lugares. atados . Pois aquela vida que a mãe lhe dera (não ao tê-Ia porém ao nutri-Ia) agora lhe tira pela exposição. de que lhe obedeça. E portanto. quem criar a criança assim exposta terá. por direito de natureza. no qual. é manifesto que o recém-nascido está em poder da mãe antes de quaisquer outros. não se torne seu inimigo . Ora. em que todos os homens têm direito a todas as coi 144 145 . quem é criado tudo deve a quem o cria2.como já se mostrou . e não a mãe nada significa. Por conseguinte. sobre ela. o que fazem. pertence à mãe o domínio original sobre os filhos . o nascimento segue o ventre. 3. o domínio sobre a criança pertence em primeiro lugar àquele que primeiro a tem em seu poder. se a mãe nutrir o recém-nascido. 4. inquirir neste lugar sobre a origem do governo paterno (paternal government). todos os homens de idade mais madura devem ser tidos por iguais. A criança abandonada é da pessoa de quem ela recebe a preservação O domínio passa da mãe a outras pessoas. já que. Não são seus maridos que dispõem de seus filhos. Ora. é absolutamente impossível que o domínio seja adquirido apenas pela geração.pelas leis civis.

é manifesto que as crianças não estão menos sujeitas àqueles por quem são nutridas ou criadas. 7.a mãe é senhor original de seus filhos. da mesma maneira que um servo ou um súdito. Um filho também é liberado da sujeição. o filho não tem. parágrafo 5. seu filho é daquele que a prendeu. pois. ela não poderia procriar sem prejuízo de sua autoridade. se houver um contrato de casamento entre homem e mulher. pactuaram entregar-lhes os varões e conservar consigo as meninas. se eles se põem de acordo apenas em deitar juntos. aquele que dever a existência à contribuição de ambas as partes será do pai. e abdicar que banir. e os súditos àquele que detém a soberania suprema. conforme se mostrou no capítulo anterior. se uma soberana tiver filhos de um súdito. conforme variam as diferentes leis civis de diversas cidades. as crianças pertencem àquele ou àquela que manda. e a partir dela o pai ou outra pessoa pode ser senhor por direito derivado. as crianças são ou do pai ou da mãe. Se alguém é filho de um casal dos quais um é súdito e outro soberano. se a mãe for súdita de qualquer governo que seja.pelo parágrafo 3 . no estado de natureza. Mas. Em quarto lugar. Da honra devida aos pais e aos senhores O filho emancipado ou o servo libertado agora têm menos medo de seu senhor e pai. do que os servos aos seus senhores. enquanto estiver este sob o seu poder. porque quem tem domínio sobre a pessoa também o tem sobre tudo o que pertence à pessoa. 5. a não ser que um pacto ou a lei civil determinem de outro modo Mas. Mas num governo civil. Numa união sexual em que nenhum tenha autoridade sobre o outro. se a mulher for aprisionada. quem tiver a autoridade suprema nesse governo também terá domínio sobre quem nascer dela. E universalmente. dos filhos que tinham com seus vizinhos. é chamado matrimônio. e que nenhum dos pais é passível de cometer injúria contra seu filho. a mãe possa recuperar seu filho (pelo mesmo direito por que qualquer outra pessoa pode fazê-lo). parágrafo 3. a não ser que pactos adicionais o determinem de outro modo. as crianças serão do pai. Pois a mãe pode dispor de seu direito conforme desejar. as crianças são da mãe. porque em todas as cidades. por contrato de casamento (for society's sake).Do Cidadão Domínio sas. pelas razões acima dadas no 8. devido ao mando que esse tem sobre a mãe. que. se um homem e uma mulher contratam que nenhum esteja sujeito ao mando do outro. que está obrigada a obedecer-lhe em todas as coisas. o mando doméstico pertence ao homem. a criança pertence àquele (seja homem ou mulher) que possui a autoridade suprema Em segundo lugar. também sobre o filho. mediante um pacto. sendo elas constituídas por pais e não por mães a governar as famílias. portanto. porque é senhor da mãe. se for feito em conformidade às leis civis. Os filhos não estão menos sujeitos a seus pais do que os servos aos senhores e os súditos aos príncipes Ora. como outrora faziam as amazonas. não fosse assim. contudo. Mas. Pois emancipar é a mesma coisa que manumitir. os filhos são da mãe. o direito de transferir-se de novo para sua mãe. e um tal contrato. entregar-se a um homem sob a condição de que este chefiará o lar. uma vez privado este de 147 146 . se a sociedade de macho e fêmea for uma união tal que um se submeta ao outro. as crianças serão da mãe. 6. Em terceiro lugar. como . se uma mulher.

. a água represada num vaso não está em liberda Há outros impedimentos que são arbitrários. Daí se segue que o preceito de honrar nossos pais pertence à lei de natureza. assim como recebe seu integral sustento e todas as coisas necessárias à conservação da saúde. 9. seu poder natural e senhorial (lordly) sobre eles. num governo civil. são livres todos os servos e súditos que não se encontram agrilhoados e aprisionados. é impedido a tal ponto pelos castigos designados pela cidade. pelo pai ou senhor (por cruéis que sejam). Também aqui.se considerarmos a honra verdadeira e interior . a diferença entre um filho ou um súdito. tudo isso sob uma única condição. e . Em tal sentido. e qual a diferença entre os súditos e os servos Qual será então.. se tudo o que tem a lamentar é apenas a falta de liberdade . ou por sua própria indolência). Quanto a mim. Ordinariamente. porque o vaso a impede de escoar. não tem cabimento. A liberdade. Deve-se portanto entender. conforme tenha mais espaço ou menos para si: como quem está numa ampla prisão é mais livre do que numa apertada. filho. seja servo. pois homem algum. adjacentes à estrada. podemos assim a definir. que não possa fazer todas as coisas e utilizar todos os meios necessários à conservação de sua vida e saúde. por nossa própria escolha. portanto. quem está num navio não se acha impedido dessa forma. quebrado o vaso. se assim quiser. e portanto quem tem menos poder tem menor honra.o que. filho ou servo. de uma vez por todas. seja ele súdito. porque pode jogar-se ao mar. quanto maior o número de vias em que um homem possa mover-se. promete todos os sinais externos (pelo menos) através dos quais os superiores costumavam ser honrados por seus inferiores. a de ser governado. E um homem pode ser livre para um rumo e contudo não o ser para outro.honram-no menos que antes. de modo a não ousar afrou 148 149 . isto é. ou por infortúnio. que quem é libertado da sujeição. julga-se. que não impedem de maneira absoluta o movimento. assim como o viajante está aprisionado deste e daquele lado por cercas vivas ou muros de pedras (para que não estrague as vinhas ou o cereal).a menos que ele considere miséria o fato de ser impedido de fazer-se mal e de receber a vida (à qual perdera direit04 pela guerra. em todas as coisas. ela é libertada3. nada mais é que a estimação do poder de outrem. nada mais é que ausência dos impedimentos e obstáculos ao movimento. porque não há cidade sem mando e sem restrição de direitos. e tendo em vista a paz da humanidade. não posso divisar que razão tenha um mero servo para se queixar. Pois a honra. de modo que este não devesse reconhecer o benefício e fosse conduzir-se. e um servo? Não conheço escritor algum que tenha declarado plenamente o que é liberdade. como se tornando inteiramente igual a quem o libertou. E estas espécies de impedimento são externas e absolutas. Mas não se deve imaginar que o emancipador tivesse intenção de nivelar o emancipado a ele próprio. E nisto consiste a liberdade civil. perguntará alguém. como foi dito na seção acima. Em que consiste a liberdade. por exemplo. E todo homem tem maior ou menor liberdade. estima-se que a liberdade consiste em fazer todas as coisas segundo nossas próprias fantasias e sem incorrer em castigo. ao passo que a servi dão (bondage). e escravidão. Pois quem é confinado (kept in) por castigos impostos perante ele. não apenas a título de gratidão mas também de acordo (agreement). portanto. ou mesmo uma colônia. Do Cidadão Domini o de. é não ser capaz de fazê-Ias tais . mas apenas por acidente. maior será a sua liberdade.

a quem quer que ele transfira o poder supremo. 150 151 . os súditos livres e filhos de família têm um privilégio sobre os servos. A questão do direito de sucessão cabe apenas na monarquia Já foi dito por que direito são constituídas as autorida des supremas. enquanto houver quaisquer súditos vivos ela permanece com a mesma pessoa . ou dá-ta. 12. o povo podia escolhê-Io. Pois. será denominada um reino hereditário . não é oprimido pela servidão. porém ministros de Estado. contudo. Ora. ou vendê-Ia 11. num reino hereditário.. isso é direito. exceto o caso de que todos morram juntos. e também desfrutar de maior posse de coisas supérfluas. Um governo hereditário tem o mesmo direito sobre seus súditos que um governo instituído Chama-se uma família a um pai. t que direito podem elas ser continuadas. ainda em vida. Primeiro. e convém apenas àqueles que detêm o poder (bear rule).. se pela multiplicação de filhos e aquisição de servos tornar-se numerosa. tornados (grown) uma pessoa civil em virtude da jurisdição paterna. todo monarca pode fazer um sucessor por sua vontadeS. o que um homem pode transferir a outro por testamento pelo mesmo direito também pode. conforme se mostrou no capítulo VII. Portanto. na aristocracia. Por conseguinte. enquanto éservo aquele que também serve quem como ele é súdito. Devemos agora dizer-vos brevemente por Ademais.. O direito da autoridade é o mesmo em toda parte de modo que não é necessário dizer nada separadamente de um e de outro. Portanto. seja por doação.. o que supomos nunca acontecerá.pois o povo não tem sucessor. vigem os mesmos direitos que num instituído. a pessoa indica da lhe sucederá. embora. . uma vez constituído. O direito pelo qual são continuadas é o que é chamado direito de sucessão. Essa família. se ele foi indicado pelo povo. como numa democracia a autoridade suprema reside no povo. por ser adquirido pela força. se diferencie da monarquia instituída quanto à origem e maneira de sua constituição. a ponto de não poder ser submetida exceto pelo incerto jogo da guerra. isso em qualquer governo e família onde servos haja: que aqueles podem ocupar os ofícios mais honrosos da cidade ou da família. morrendo um dos nobres. portanto. \ 13 . não há sucessão. parágrafo 11. Um monarca pode dispor da autoridade suprema por testamento.. E. terá sobre a cidade todo o direito que tinha o povo.~ Do Cidadão Domínio xar as rédeas à sua vontade em todas as coisas. e assim. dar ou vender. com seus filhos e servos. Toda outra liberdade é uma isenção das leis da cidade. ele agora pode escolher outro. os restantes o substituem por outro.. mas é governado e sustentado. Contudo. Da mesma maneira. 10. E aqui repousa a diferença entre um súdito livre e um servo: é verdadeiramente livre quem serve apenas a sua cidade.. tem todas as mesmas propriedades. Pois aqueles que exercem o poder supremo apenas por um tempo não são monarcas.que. pelo mesmo direito. seja por venda. Ora. a questão do direito de sucessão só tem lugar numa monarquia absoluta. se um monarca indicar em testamento alguém para lhe suceder.

que a vontade do pai. pois. é de supor. Os varões têm preeminência entre os filhos.. e pelo mais velho antes do mais novo. não lhe teria sido difícil expô-Ia abertamente. a sucessão será determinada por sorteio. e depois da morte cada homem recebe mais honra e glória de seus filhos do que do poder de qualquer outro homem: concluímos disso que um pai almeja mais para seus filhos do que para os de qualquer outra pessoa. por seu irmão antes de quaisquer outras pessoas Caso o rei não tenha filhos.. e por ela é preferido sempre o mais velho. fosse esta a sua vontade. e não existe quem tenha poder de julgar por qual espécie de sorteio a matéria deva ser decidida. pela mesma razão por que lhe sucederiam os filhos que eventualmente tivesse.. o mando passará a seus irmãos e irmãs. E por isso a vontade do pai. portanto. 17.. como ainda porque...... pelas quais era obrigado a cumprir todas as coisas que necessariamente conduzem a conservar a paz. no começo. Deve-se entender. mas especialmente da guerra. havendo alguma diferença devido à idade. Além disso.. se em vida o monarca não declarou. Além disso..e que este fosse um de seus filhos. porém.--- Do Cidadão Domínio 14.. sendo juiz a natureza. Contudo. 18. devemos julgar do sucessor segundo os sinais de sua vontade. E outro juiz não pode haver. após várias sucessões. 16. Um monarca que faleça sem testamento supõe-se que desejasse ser sucedido por outro monarca.. aprovou esse Estado por seu exemplo. e. Ora. Pois. Pois supõe-se que quem não faz menção de sua sucessão consinta seguir os costumes de seu reino. se os irmãos deverem ser avaliados igualmente. Pois os que nos são mais próximos em natureza. Entende-se. lhe sucederá o mais velho. e posteriormente não o condenou por palavra ou ato algum. quando isso se tornou costume. por testamento ou de outra forma.. 15 . . deve ser interpretada em favor dos filhos homens.. falecido sem deixar testamento. de preferência a qualquer outro. Ademais. Porém. a menos que algum outro costume ou sinal claramente aponte em outra direção. supõe-se que também o sejam 152 153 . supõe-se mais merecedor (worthy) o mais velho. podemos incluir o costume. seja que lhe suceda algum de seus filhos. porque ele próprio. que ele preferiria ter seus súditos sob um governo monárquico. se não tiver filhos.. ainda. ao governar. quem ele queria ter como sucessor. posteriormente.. porque esse costume não foi contraditado. a primogenitura é uma loteria natural. e por um varão antes de uma mulher. Ainda: como os filhos são iguais e o poder não é passível de divisão. em primeiro lugar. como o direito se transfere conforme a vontade do pai. . à destruiçào de seus súditos . talvez por serem na maior parte (embora não sempre) mais aptos à administração dos grandes negócios. a mesma razão que assim favorece o filho primogênito também favorece a filha que nasceu primeiro. como por necessidade (necessity) natural todos os homens querem melhor àqueles de quem recebem glória e honra do que aos outros. isto é. o mais avançado em anos é o mais sábio (porque usualmente assim se passa). isto deve ser entendido com a cláusula de que não haja sinais mais evidentes em direção contrária: nesta espécie. . que não desejasse ter seu governo reduzido à anarquia ou ao estado de guerra.tanto porque não poderia fazê-Io sem quebrar as leis de natureza. portanto. E..

Digo eu que todas estas coisas serão. pela mesma razão.o que precisamos fazer para que não vá alguém considerar preferível viver cada qual a seu arbítrio. e assim os irmãos antes das irmãs. sem que possa .desfrutar. do seu direito limitado. se quisermos saber qual delas émais adequada para conservar a paz entre os súditos. Assim.Do Cidadão em benevolência. porém estéril: porque. Comparação Entre as Três Espécies de Governo. teremos de compará-Ias entre si. cada um pode desfrutar. e para trazer-Ihes prosperidade. então. qualquer homem tem o direito de espoliar ou de matar outro. a menos que o pai tenha decretado outra coisa. todo súdito conserva tanta liberdade quanto lhe baste para viver bem e tranqüilamente. Comparação do estado de natureza com o civil Já dissemos em que consistem a democracia. e dos outros se tira o que é preciso para perdermos o medo deles. se não o contradisse) não as impedir. se o primogênito falecer antes de seu pai. Fora desse estado. se devido a essa liberdade alguém pode fazer de tudo a seu arbítrio. expondo quais são as vantagens e desvantagens de uma cidade examinada genericamente . nele. nesse estado. em vez de se constituir a sociedade civil sob qualquer de suas formas. sofrer de tudo. em segurança. de nada. a aristo cracia e a monarquia. fora do estado do governo civil. devido a igual arbítrio dos outros. também sucedem ao direito de sucessão. CAPÍTULO X 19. também se sucede ao direito de sucessão Ademais. deve porém. aqui. Fora dele. Da mesma forma que se sucede ao poder. na sucessão do avô. Já numa cidade constituída. porém. E portanto os netos terão preferência sobre seus tios. consentiu. estamos protegidos por nossas próprias 154 155 . julgar-seá que transferiu a seus filhos o seu direito de sucessão. que antes valia para os filhos. É fato que todo homem. pela mesma razão por que sucedem os homens ao poder. Fora do governo civil. ninguém o tem. pela mesma liberdade. e os mais velhos primeiro que os novos. Conforme os Inconvenientes de Cada Uma1 1. exceto um único. mas. Comecemos. possui uma liberdade a mais completa. rei. todo homem tem direito a tudo. se o costume do lugar (no qual julga-se que o pai.

da elegância. porém da má administração de um governo bem estabelecido. que é o massacre de súditos em meio à anarquia. serão afetados por igualo governante e seus governados. que tornem impossível eles se manterem e a suas famílias. da miséria. da mesma forma que lhes serão comuns os benefícios que venham a receber. podendo ocorrer em qualquer das espécies de governo. das ciências e da benevolência. ou ainda por sua própria concupiscência. da imundície. nele. ninguém tem assegurado o fruto de seus labores.Do Cidadão Domínio forças. e são conjuntas ao governante e aos governados. Finalmente: fora dele. o primeiro e maior de todos os benefícios. capítulo 14). assistimos ao domínio das paixões. a outra dos súditos . E para tanto não considerarei os argumentos que dizem. É verdade que os danos que afetem a alguns súditos em particular. ele com isso sofrerá desvantagem tão grande quanto os próprios súditos. diz que há duas espécies de governo. do medo. Mas até nesse caso o inconveniente seria do soberano. de danos que não se referem ao governo enquanto tal. para que possam defender a vida. da decência. e fosse outra. 3. o de que necessitem para sustentar sua força em corpo e mente. E é inconcebível que a existência do tesouro público possa constituir um inconveniente para súditos particulares. quando a eles se trata mais brandamente. nesse caso. da solidão. ou conservarem sua força e vigor físicos. fosse uma a forma de governo. da segurança. Inversamente. mas nesse caso serão comuns ao governante e a seus súditos. evidenciarei que a monarquia tem proeminência sobre a democracia e a aristocracia. podem muito bem ser desvinculados daqueles que afetam ao governante. porque não há estoque ou medida de riquezas que lhe permita manter sua autoridade ou seu tesouro se não contar com os corpos de seus súditos. Contudo. uma das quais existe em benefício do governante. se o dirigente lançar sobre seus súditos impostos excessivos. ao domínio da razão. pelo poder de todos. ainda que se valendo de sua diligência (industry). utilizam simultaneamente todas as forças de seus concidadãos. negligência. nele. em seu favor. As vantagens e inconveniências são as mesmas para o governante e os governados Aristóteles. que consiste na paz e na defesa. da crueldade. da paz. isso beneficiará na mesma medida a ele e aos súditos. serve ao governante e aos governados. na sua Política (livro VII. da barbárie. por infortúnio. que o universo intei 156 157 . a menos que eles estejam tão exauridos que nem mais tenham condições de adquirir. pois tanto um quanto outro. na direção da paz e da defesa comuns.como se. pois todas as vantagens e desvantagens que provêm do governo são as mesmas. da ignorância. Ou. E se suceder a uma cidade o pior inconveniente dentre os possíveis. da guerra. mas trata-se. quando os súditos são tratados com severidade. e não proviria da má instituição ou ordenação do governo (porque em qualquer modo de governo podem os súditos ser oprimidos). 2. indolência. todos o têm garantido. Somente se eles decorrerem da instituição inicial da cidade é que será correto chamá-l os de inconvenientes do governo. insensatez. Fora dele. comparando os convenientes e inconvenientes que nascem em cada uma dessas formas de governo. se ele arrecadar apenas o que for suficiente à adequada administração de seu poder. Mas é totalmente impossível endossar essa opinião. das riquezas. nele. da sociedade. Elogio da monarquia Agora.

de modo a poder. Não se pode dizer que o governo de um seja menos razoável porque nele um tenha mais poder que todos os demais Há alguns que se sentem descontentes com o governo de um. E não há razão alguma que possa contradizê-Io sem. porque. deverão considerar igualmen te pouco razoável que uns poucos mandem. utilizar-se da força e das faculdades de cada pessoa individual em prol da paz e da segurança pública. seguramente uma aristocracia também há de não ser razoável. eles próprios façam parte de seu número. pois são eles tanto sua honra quanto sua salvaguarda. ou que os antigos preferiam o estado monárquico antes dos demais. embora considerem a monarquia como o mais eminente dos governos. 5. se não for razoável que todos os homens não possuam um igual direito. os inconvenientes que assistem o domínio de um homem referem-se à sua pessoa. os decretos dos príncipes eram tidos e havidos por leis. atribuindo a soberania sobre os deuses a um Júpiter. e que por isso a desigualdade foi introduzida pelo consentimento geral. demos mais não se deve considerar como se não fosse razoável. e não a ser ela a de um só. Mas a exceçã04 que fazem contra um é instigada pela inveja que sentem. que outros governos foram pactuados pelo artifício human02 por sobre as cinzas da monarquia. Por conseguinte. defini uma cidade como sendo uma pessoa feita de muitos homens. e os servos não estão mais submetidos ao senhor do que 4. devemos refutar a opinião daqueles para quem não é uma cidade a que se formar de servos por maior que seja o seu número .Do Cidadão Domínio ro é governado por um só Deus. com base no mesmo parágrafo do mesmo capítulo. um. negar-se também que um pai e seus filhos constituam uma cidade. em vez de se fundarem na sólida razã03. Vejamos. a seu prazer.sob um senhor comum. parágrafo 5. a vontade de cada servo está contida na vontade de seu senhor. Segue-se portanto que necessariamente deve constituir uma cidade aquela que se forma de um senhor e de muitos servos. que por seus contratos fizeram a vontade dela ser considerada como as vontades de todos eles. repito. Mas. que. se o de muitos. Pois. ao verem um homem possuindo tudo o que desejam. E. se o mando de um só. tem mais aquele a quem. Afinal. a menos que. de todos os outros. e que o povo de Deus vivia sob a jurisdição de reis: não levarei em conta tais argumentos. os servos estão na condição de filhos. contudo o fazem com base em exemplos e depoimentos. ela. ou tenham a esperança de nele se incluir. é certo. ao mesmo tempo. uma vez arruinada esta pelas sedições. como se declarou no capítulo VIII. o que acarreta maiores agravos ao súdito. se pudessem até se furtariam ao domínio de um Deus. a um senhor que não tenha filhos. por nenhuma outra razão além de ser. pela mesma razão. Tais descontentes. Pois. Ora. de tal modo que ele pode usar todas as forças e faculdades deles segun do sua própria vontade e prazer. no princípio das coisas e das nações. essa desigualdade pela qual 158 159 . No capítulo V. como se não fosse razoável que um homem entre tantos os excedesse em poder a tal ponto que pudesse dispor. como mostramos que o estado de igualdade é um estado de guerra. parágrafo 9. porém. então. ele. Refutação da tese dos que dizem que a soma de um senhor com seus servos não basta para formar uma cidade Primeiro. voluntariamente. existe uma pessoa quando as vontades de muitos estão contidas na vontade de um.

a fim de enriquecer seus filhos. pois então é um inconveniente porque ocorre. quantos oradores poderosos há junto ao povo (são eles tantos. ao passo que numa democracia todos os homens populares supõe-se que ajam assim. isto é. e sempre surgem novos. porque estes não são muitos. 6. a construção e defesa de castelos. mas somente aqueles que 160 161 . Pois cada um deles não deseja apenas fazer sua família tão poderosa e ilustre em riqueza quanto for possível. apenas seus cortesãos e quem mais se destacar por algum cargo eminente. favoritos e mesmo aduladores. E em verdade este é um inconveniente dos maiores. do que quando quem governa é o povo. os únicos que agirem desse modo aumentarão de tal forma o seu poder que se tornarão perigosos. ninguém sofrerá injustamente que não seja deles conhecido. Pois. além daqueles impostos necessários para os encargos públicos. vemos que os atos de Nero não pertenciam à essência da monarquia. parentes. mas também para a própria cidade. 7. ele porém o fará raras vezes. como também pode. pode ainda exigir por concupiscência outros tributos. a guerra e a manutenção com decoro da casa real. mas noto que é um daqueles que. Numa democracia. Assim. até porque na monarquia é mais raro os súditos serem condenados sem terem culpa. assim como a manutenção dos ministros do Estado. em qualquer forma de governo onde ocorra. Os reis se encolerizam apenas com aqueles que os perturbam com conselhos impertinentes. quando refletir que o governante não tem poder apenas para escolher os castigos que quiser para as transgressões à lei. é mais tolerável na monarquia que na democracia. e não porque possa vir a ocorrer. ou lhes controlam a vontade. amigos e bajuladores que haverão de ser recompensados. Os súditos inocentes estão menos expostos a ser penalizados na monarquia do que quando o povo governa Outra queixa está naquele mesmo medo perpétuo à morte que cada qual há necessariamente de sentir. Um monarca pode satisfazer em boa medida a seus ministros e amigos. eles não podem ser muitos.Do Cidadão Domínio os filhos ao pai. assassinar (slaughter) seus súditos inocentes. acompanhando toda espécie de governo. porque rodeiam todos a um só. mas também reforçar sua posição conferindo favores a outros. ainda que o monarca enriqueça a todos aqueles. a fim de obrigálos5. E. Até mesmo porque. Mas numa democracia: vede quantos demagogos. sem grande custo para seus súditos . Mas será culpa do governante. e a cada dia crescem em número). não só para os outros.senão. Confesso que isso constitui um sério inconveniente. porque assim é preciso . ou se opõem a eles com palavras de censura. e até mesmo aqueles que jamais ofenderam as leis.quero dizer. e não do governo. onde há muitos que devem ser saciados. As exações são mais intoleráveis num Estado popular do que numa monarquia Entre muitos outros agravos de que se acusa a autoridade suprema está o de que o governante. reinando Nero ou Calígula. parágrafo 5. atendendo a sua ira e sensualidade. e mesmo assim nem todos estes. mas são os reis que tornam inofensivo aquele excesso de poder que um súdito poderia ter sobre outro. ou seja. isso não se pode fazer sem se oprimir aos povos. conforme manifestamos acima. e para cada um deles há tantos filhos. no capítulo VIII. parentes. ainda que um rei possa pro mover pessoas sem mérito. sem roubá-Ias de nenhum dos tesouros a ele confiados para manter a guerra e a paz.

E em Roma aqueles que por sua liberalidade buscassem obter o favor do povo eram executados. Ademais. porque se supunha que ambicionassem a realeza. sem a culpa de qualquer outro crime. mas à da própria cidade.Do Cidadão Domínio possuírem aquilo que o monarca desejar para seu desfrute. se consistisse no aplauso popular. no qual todos têm direito a tudo. Por conseguinte. se supuserem que a liberdade consista em haver menos leis. o que se costumava fazer era banir a parte poderosa. se for excedido. se. haverá tantos Neros quantos forem os oradores que afagarem o povo. porque teria menos liberdade do que esta. retornaria então aquele estado de natureza. mataram concidadãos que não mereciam tal sorte. Nisso a democracia e a monarquia coincidem. sem que os outros se libertem de sua obrigação. ao domínio do povo. e cada qual protege o apetite de qualquer outro dentre eles (como se em segredo tivessem firmado um pacto: "Poupa-me hoje. E portanto afirma-se que aquela mesma coisa que quando o povo a faz é chamada de boa política6. Portanto. porque a fama deriva do povo. cada qual reconhecesse a outrem a mesma liberdade que deseja para si. Mas. se alguém desejar ter liberdade apenas para si. não importando quem for o rei. 8. mas diferenciam-se muito na fama. E. num Estado popular os súditos não têm mais liberdade do que num monárquico. Portanto. quando tal poder consiste no acúmulo de riquezas. Pois. então nem na democracia nem em nenhuma outra espécie de governo jamais há esse tipo de liberdade. mas a soberania (dominion). e por essa razão eventualmente se torna necessário que os monarcas cuidem de que o bem comum não seja por ele prejudicado. Assim. menos proibições. Mas. quando is~ntam do castigo aqueles que. há um certo limite no poder privado que. Pois cada um deles tem tanto poder quanto o povo. abominariam. e não há razão alguma para que seja mais correto escrever tal palavra nos muros de uma cidade governada pelo povo. Sofrerão apenas os ambiciosos. se mostrará pernicioso ao Estado. não se refere à liberdade do súdito. então nego que haja mais liberdade na democracia do que na monarquia: pois uma é tão compatível quanto a outra com uma tal liberdade. eles o reduzem cortando seu excesso: mas. os atenienses infligiam um banimento de dez anos àqueles que se fizessem poderosos. embora a palavra liberdade possa estar escrita em letras grandes e largas sobre as portas de uma cidade qualquer7. Já aqueles que são ofensivos e insultuosos são castigados merecidamente. sob o seu nome eles não estão querendo a liberdade. os outros estarão protegidos das injúrias dos mais poderosos. independentemente de ter ela cometido algum crime. num Estado popular. e o que por muitos é praticado por muitos é elogiado. porque esse estado é pior do que qualquer sujeição civil que possa haver. se eles percebessem. e que seja proibido apenas o que é imprescindível à paz. Pois. e o que 162 163 . Mas. e te pouparei amanhã"). se por liberdade eles querem dizer uma imunidade à submissão devida às leis. para saciarem sua concupiscência e seu ódio particular. como manda a lei de natureza. alguns imaginam que a monarquia seja mais inconveniente que a democracia. embora por ignorância não se dêem conta disso. coisa esta que. do que numa regida por um monarca. o que estará ele pedindo senão a soberania? Pois quem assim está livre de toda obrigação é senhor daqueles que continuam obrigados. Era essa a praxe nas democracias. se é o monarca quem a pratica diz-se que é devido a ter ele inveja das virtudes de quem ele bane. E. A liberdade dos súditos individuais não é menor sob um monarca do que quando governa o povo Assim. isto é. tão-somente devido a seus poderes. quando os particulares ou os súditos reivindicam a liberdade. por outro lado. todo aquele que numa monarquia levar uma vida retirada estará a salvo do perigo.

devido àquele desejo de ser elogiado que é congênito à natureza humana. isto são.. numa monarquia. dos assuntos domésticos. essa via para a obtenção do elogio e da honra está fechada à maior parte dos súditos. do estrangeiro. e onde eles são obtidos. o fato de não serem admitidos todos eles à deliberação pública Mas. negligenciar os negócios de nossa própria família. Mas não tomar parte numa exibição de espíritos engenhosos. é a mais prazerosa de todas as coisas. capítulo 2): "Num Estado popular há liberdade por definição. pela incerta exibição de uma mesquinha vanglória. e participam (partake) igualmente dos ofícios públicos. naquele. Não constitui uma desvantagem. devemos saber qual é o poder de cada país vizinho. Uma delas é que. odiar. o que o será? Eu vos direi: ter a opinião daquele a quem despreza 10. podemos inferir que aqueles súditos que. inconvenientes. embora tais exibições sejam agradáveis aos mais eloqüentes. É infeliz confiar as deliberações políticas às grandes assembléias. uma igual participação no governo e nos cargos públicos.. devido ao desacordo entre as opiniões. não devemos entender apenas dos assuntos domésticos. ao erradamente chamar de liberdade ao que é soberania (dominion) (Política. se isto não for um inconveniente. quando a autoridade reside no povo. quais são suas disposições para conosco. sem propósito algum. a não ser que consideremos que os valentes também sofram um inconveniente quando são impedidos de lutar. na verdade apenas sofrem com o fato de não estar em suas mãos o leme da República. e em que consiste.. digo eu. e." Disso. e muito. a um mo nárquico: porque. que vantagem ou desvantagem podemos receber de cada um deles. e 164 165 . e que acredita nelas superar aos outros. Pois. 9. quando todos podem pôr a mão nos ne gócios públicos. só porque gostam de fazê-Io. os súditos individualmente tomados têm nela uma parte enquanto constituem partes do povo governante. incorrer em inimizades certas (que são inevitáveis. mos preferida à nossa. expor nossos conselhos e opiniões secretos a todos. por sinal. Livro VI. na medida em que têm igual voto na escolha dos ministros e magistrados públicos. para opinar adequadamente sobre todas as coisas que conduzem à conservação da república. para quem se destaca nessas faculdades. que lugares são adequados para instalar guarnições. pranteiam a liberdade que perderam. o que. mas também dos negócios estrangeiros. e sem nenhum benefício. como se costumava em seu tempo. que espécie de afeição os súditos sentem por seu príncipe ou pelos governantes de seu país. então têm todos uma oportunidade para mostrar sua sabedoria. por essa mesma razão. o que é o discurso do vulgo. Além disso. e ser odiado. quer vençamos. e muitas outras coisas análogas. quer percamos). ter nossa sabedoria menosprezada à nossa frente. Do Cidadão \ Domínio os engana é o fato de terem. para os súditos. talvez alguns afirmem que um Estado popular deva ser preferido. há muitas razões por que os conselhos pequenos deliberam melhor que as grandes assembléias. Foi também isso o que Aristóteles quis dizer. devido à inexperiência da maior parte dos homens. Já numa monarquia. por que meios é melhor recrutar e manter os soldados. como se não houvesse liberdade fora daquele Estado. na decisão dos assuntos mais difíceis e relevantes. não chega a ser um inconveniente sequer para eles. precisamos saber por que bens o país é alimentado e defendido. seus conhecimentos e eloqüência.

determinam o que dirá cada um. quando oradores de igual peso se batem com opiniões e discursos contrários. O que não é culpa do homem. quando o número de votos não é tão desigual que. a não ser impedimentos e dificuldades? 12 . Além disso. nem com muita freqüência. cuja finalidade. e cuja propriedade não consiste em informar mas em persuadir. Além disso. mas da própria natureza da eloqüência. para conquistar mais estima entre seus ouvintes. Disso decorre que as opiniões são expressas. mas das opiniões aceitas pelo vulgo que.. mas por uma certa violência da mente. porém. para que o mesmo assunto possa ser trazido novamente à discussã08: para que assim aquilo que foi aprovado na reunião anterior. Ora. pelo número de seus adversários que então estavam presentes. e. assim. o que um tal número de conselheiros pode proporcionar para uma boa deliberação. mas superior ou não muito inferior em força. E não tentam tanto adequar seu discurso à natureza das coisas de que falam. como num~ grande assembléia são muito poucos os que entendem dessas coisas. se uma facção é inferior em sufrágios. ele espera vêlos privados de glória.. e assim chega à guerra civil. e conquistá-Ia para si. cada um considera necessário fazer um discurso longo e ininterrupto. Outra razão pela qual uma grande assembléia não é muito adequada para uma consulta é que. pergunto: com suas opiniões impertinentes. o vencido odeia o vencedor e todos os que estiveram de seu lado. e que desígnios diariamente circulam entre eles. não está na verdade (a não ser ocasionalmente) mas na vitória. se por negligência aqueles se ausentarem. Pois.. embora eles raciocinem. das facções.. trata de poli-l o e adorná-l o com a linguagem melhor e mais agradável..Do Cidadão Domínio como se sente cada um deles em relação aos demais. como nos ensinam os mestres da retórica.e devido à eloqüência. que as coisas não ocorrem assim necessariamente. e examina todos os meios a seu alcance para tachar a opinião de seus adversários como prejudicial ao Estado. sendo na maior parte inexperientes (não digo incapazes) no que lhes diz respeito. mas não será isso o mesmo que dizer que os cabeças dos partidos não são necessariamente sequiosos de vã glória. pelo mero acréscimo de uns poucos que compartilhem sua opinião. o honesto e o desonesto parecerem ser mais ou menos do que efetivamente são.. Alguém poderá dizer. contudo não partem de princípios verdadeiros. e em qual ordem. e. possa agora de certo modo ser anulado. e que é raro os maiores dentre eles discordarem entre si nos grandes tópicos? 11 . Pois isso é persuadir.neste caso. A terceira razão pela qual é mais difícil opinar bem numa grande assembléia é que dessa forma surgem facções dentro da república... o vencido pode ter a esperança de numa próxima reunião obter a maioria .. o vantajoso e o prejudicial. mas sim às paixões daqueles a quem falam. em sua maior parte.. não pela razão reta. e devido ao facciosismo. ao formular sua opinião. mostrando desdém por seu conselho e sabedoria. a natureza da eloqüência consiste em fazer o bem e o mal.. pois. aquilo que não consiga obter pela habilidade e a linguagem ela então tenta pela força das armas. Ora. e ainda em fazer o que é injusto parecer justo. escolhem quem deles falará primeiro na assembléia. conforme melhor convenha ao fim daquele que fala. f 166 167 . são errôneas. E essa mesma espécie de diligência e engenho que eles utilizam para constituir um povo é o que usualmente se chama uma facçã09. e. nascem as sedições e a guerra civil. os cabeças do partido se reúnem previamente.

14.isto é. Ora..e devido à instabilidade das leis. o mais das vezes.. em todos os tipos de governo o poder é igual. as leis necessariamente hão de ser inconstantes. ainda que o monarca seja uma mulher. ou a administração de seus negócios. graças ao qual ele possa adquirir reputação por seu engenho e sabedoria. regozijar-se e triunfar ante o aplauso que lhe dêem por sua hábil conduta. mulher e filhos. pais. mas de seus ministro. se numa democracia o povo conferir o poder de deliberar sobre as questões de paz e guerra a um só. são revelados aos inimigos antes que possam resultar em qualquer efeito.. E o dito corrente Pobre o país cujo rei é uma criança não significa que a condição de uma 168 169 . não segundo a alteração das circunstâncias. os debates nas grandes assembléias têm outro inconveniente: embora com freqüência seja da maior importância que eles sejam mantidos em segredo. conforme decorram das deliberações de muitos ou de poucos de homens hábeis ou imprudentes.. na medida em que os homens naturalmente sentem prazer quando é bem avaliado o seu espírito Esses inconvenientes que encontramos nas deliberações das grandes assembléias de tal modo evidenciam a superioridade da monarquia sobre a democracia que. e portanto nada impede que a república seja bem governada. e devido a não se guardar sigilo Em quarto lugar. e o estrangeiro conhece sua força e vontade tão cedo quanto o seu próprio povo. o prazer que Marco Coriolano tinha em suas ações na guerra consistia em ver o quanto os elogios que ele recebia agradavam a sua mãe. e assim. a muitos do que a um.. e mudarão.. Assim. satisfazendo-se com a autoridade sem a administração . ou uma criança. Nem poderia ser de outro modo. ao seio 16. somente se diferenciam os atos.Do Cidadão Domínio 13 . ou a alguns que sejam bem poucos. Disto se segue que. a não ser que veja. Disso entendemos que as conveniências e inconvenientes de qualquer governo não tendem daquele em quem reside a autoridade. não segundo a mutabilidade das mentes humanas mas segundo a maior parte. assim o entender. ou um jovem. quer dizer. Pois o governo éo poder. inversamente. desde que os ofícios e cargos públicos sejam atribuídos a quem tenha capacidade para os negócios. é mais freqüente que na monarquia confiar os assuntos de maior conseqüência à discussão em comitês pequenos.então terei de confessar que nesse aspecto serão iguais a democracia e a monarquia.. . nesse último regime. De modo que as leis então flutuam cá e lá. a sua administração é o ato. contentando-se de sua parte em nomear os magistrados e ministros e públicos . Pois não há razão por que cada homem não deva naturalmente dar prioridade a seus negócios particulares sobre os públicos. quando o poder legislativo reside em assembléias como estas. Os inconvenientes num Estado que tem por rei uma criança As conveniências e os inconvenientes que encontramos mais numa espécie de governo que em outra não se devem ao fato de que seja melhor cometer o governo. como se fosse sobre as águas. porém. Mas.. um meio de manifestar sua eloqüência. Esses inconvenientes são intrínsecos à democracia. em tempos antigos. ora de outra facção. de volta a casa. as ações e os movimentos de uma república. de seus amigos. ora de uma. nestes. a um do que a muitos ou. 15.

do que com o dinheiro adquirir homens. já que foi necessário para nossa conserva ção nos submetermos a um homem ou a um conselho. que o rei seja uma criança). 19. devido àquilo que só por acidente perturba um reino (a saber. sendo estes os mais capacitados. 18. 17. o que são as repúblicas. tal como uma breve trégua) deve ser considerada como um estado de natureza. que. E não é fácil depararmos com exemplos que nos mostrem algum súdito. melhor será. ao contrário. o tesouro do príncipe não se constitui apenas das terras e do dinheiro dos súditos. Ora. pelo que foi dito daqueles dois regimes. A melhor condição para um Estado é quando os súditos constituem a herança do governante Finalmente. e assim o governo venha a ser administrado de maneira democrática. mas também de seus corpos e mentes audazes . ter sido despojado pelo seu príncipe da vida ou dos bens.Do Cidadão Domínio monarquia seja inferior à de um Estado popular. Quanto mais a aristocracia tender para a monarquia. é o melhor de todos os governos nos campos de batalha. Ora. sem nenhuma culpa sua. e comando tão absoluto que nada o possa exceder (e a propósito devemos notar que nenhum rei pode conceder a um general autoridade maior sobre o seu exército do que ele próprio possa legalmente exercer sobre todos os seus súditos). A monarquia. Pois todo homem de bom grado se empenha por conservar a herança que lhe cabe. por conseguinte. e o do povo o menos. e pior quanto mais se afastar dela Até aqui comparamos um Estado monárquico a um popular. mas. O poder dos generais é um sinal evidente da excelência da monarquia E é um sinal manifesto de que a mais absoluta monarquia é o melhor estado de governo o fato de que não só os reis. e como é mais fácil adquirir-se dinheiro através de homens. nada falamos da aristocracia. que a aristocracia que for hereditária e na qual for eletiva apenas a nomeação dos magistrados. mas até mesmo as cidades que se sujeitam ao povo ou a uma aristocracia. e portanto sucedam todas aquelas infelicidades que em sua maior parte acompanham a soberania do povo. concedem o comando completo da guerra a um só. aconteça que por ambição e força muitos se intrometam nos conselhos públicos. Quanto a esta. e isso sucede quando somos a herança do governante. tão-só pela licença de sua autoridade. o 171 170 . que sabemos ser o estado de guerra? melhor é estarmos sujeitos a alguém cujo interesse dependa de nossa segurança e bem-estar. senão tantos acampamentos que se fortalecem com armas e homens um contra o outro. que simplesmente imite o governo dos monarcas o mais. podemos concluir. cuja condição (por não sofrer a restrição de nenhum poder comum pelo qual possa fazer-se entre elas sequer uma paz incerta. que for possível: será ela para os seus súditos melhor e mais duradoura que qualquer outra.o que será facilmente reconhecido por todos aqueles que considerarem que grande valor se confere ao domínio sobre países pequenos. que delegue suas deliberações a poucos.

os 173 . 27): É este o que nos há de livrar? E o desprezaram . E vos me sereis um reino sacerdotal ete. rei dos filhos de Amon. e chamou os anciãos do povo etc. Agora pois vedes aí o rei que elegestes e que pedisteso Mas. e o sonido da buzina ete. me dissestes: Não. o vosso Rei4. e te ouviremos3.2 Também foi assim que principiou o poder de Moisés sob o de Deus. 12-13): E vendo vós que Nahas. que Moisés instituiu (Êxodo 19. no parágrafo 2 do capítulo VI. Então todo o povo respondeu a uma voz. Foi ainda dessa mesma forma que se iniciou o reinado de Saul C1 Samuel12. ou sua condição de lugar-tenente de Deus (Êxodo 20. que resulta que ou bem devem todos consentir. mas reinará sobre nós um rei. E veio Moisés. ou bem devem ser considerados como inimigos. e não todos . faremos. 18-19): E todo o povo viu os trovões e relâmpagos. que disseram C1 Samuel 10. sendo porém o Senhor vosso Deus.pois havia certos filhos de Belial. como apenas a maior parte consentiu. 5-8): Se diligentemente ouvirdes a minha voz ete. com base no consentimento do povo De tal modo fizemos a origem do governo instituído ou político decorrer do consentimento da multidão. Esta foi a origem do governo de Deus sobre os judeus. E disseram a Moisés: Fala tu a nós. vinha contra vós. Sobre a origem do governo instituído. e disseram: Tudo o que o Senhor tem falado.-- CAPÍTULO XI Passagens e Exemplos das Escrituras em que se Confirma o que Antes se Disse Sobre os Direitos do Governo1 1.

4. o que significa que naqueles dias não havia monarquia.--- Do Cidadão Domínio que não consentiram foram executados como inimigos. E. havia matado Saul. de que eu faça tal coisa ao meu senhor. este se absteve de matá-Io. Que servos e filhos devem. a seus senhores e pais. e isso se vê confirmado pelo julgamento do próprio povo. e no capítulo IX. ou qualquer coisa que lhe parecer direita . não há governo. ao ungido do Senhor. o mesmo se confirma pelo testemunho do rei Salomão (1 Reis 3. para que prudentemente possa discernir entre o bem e o mal. Que. em todo governo que seja. e ficou inocente? E 5. 12): Quem é aquele que dizia que Saul não reinaria sobre nós? Dai cá aqueles homens. 1 Samuel 8. parágrafo 7. para seu bem. 3. E ainda (2 Samuell. neste. mesmo se assim o entendermos. 20: E nós também seremos como todas as outras nações. mas sim uma anarquia. que expusemos acima. A menos que pela palavra rei entendamos. no capítulo VIII. não apenas o governo de um homem só. ou confusão de todas as coisas -. E por isso. mostrei que tanto o julgamento quanto as guerras dependem da vontade e do prazer5 daquele que detém a autoridade suprema . e o nosso rei nós julgará. no parágrafo 12 do capítulo VI: pois. que os servos devem prestar obediência simples a seus senhores. 15) mandou que fosse executado o amalequita que. dizendo (o que está em 1 Samuel 26. mas também o de um conselho . quando cortou a orla do manto de Saul. e a todas as outras matérias sobre as quais haja qualquer controvérsia a respeito do bem e do mal. sempre há um poder supremo que se entende esteja alocado em alguma parte. pode ser lembrado como um depoimento a mais para provar a excelência da monarquia sobre todas as outras formas de governo.que. ainda se seguirá que sem um poder supremo e absoluto (como me esforcei por provar no capítulo VI) cada homem terá a liberdade de fazer tudo o que tiver em mente. é o monarca ou rei.o que não é compatível com a conservação da espécie humana. embora Samuel buscasse matar Davi. em seus parágrafos 6 e 7. 6: Naqueles dias não havia rei em Israel: cada qual fazia o que parecia direito aos seus olhos -. e os mataremos. e fará as nossas guerras. A judicatura e as guerras dependem da vontade dos comandantes supremos No mesmo capítulo VI. 2. parágrafos 7 e 8. disse (1 Samuel 24. 3): Não tens quem te ouça da parte do rei6. 9): Nenhum dano lhe faças: porque quem estendeu a sua mão contra o ungido do Senhor. Mas. e também proibiu Abisai de fazêIo.desde que resida. só anarquia O que se afirma em ]uízes 17. um poder supremo. e sairá adiante de nos. estendendo eu a minha mão contra ele. 6): O Senhor me guarde. numa monarquia. Que não podem ser justamente punidos aqueles que têm a autoridade suprema O rei Davi igualmente confirma a tese de que os reis não podem ser punidos por seus súditos. quanto aos julgamentos. sem um poder supremo. que os filhos devem a mesma 174 175 . E disse o povo a Samuel (1 Samuelll. disse ele. 9): A teu servo pois dá um coração entendido para julgar a teu povo. E pelo de Absalão (2 Samuel 15. uma obediência simples Dissemos.

nas passagens citadas de São Paulo. enquanto viveu na condição de súdito. e logo encontrareis uma jumenta presa. E de novo São Paulo. que depois da expressão em tudo se subentende exceto aquelas coisas que sejam contrárias às leis de Deus. foram ordenadas por Deus. que lhes obedeçam etc. do Novo e do Antigo Testamento. E o mesmo dizem eles a Josué Oosué 1 16-18): Então responderam a Josué. 1 Pedro 2. servos. 21: Dai pois a César(disse ele) o que é de César. para que eu não precise ir provando os direitos dos príncipes assim aos pedaços. e o faremos. e o ouviremos. a quem o reino dos judeus pertencia. segue-se que esse seu poder era ordenado de Deus. não na de Aarão. v. Isso ele ordenou. 3. 20): Vós. por direito hereditário derivado de Davi. E começo pelo Novo Testamento. como por esta obediência simples entendemos todas as coisas que não sejam contrárias às leis de Deus. Quanto ao Antigo Testamento. quando quis mostrar-se como rei. portanto. ele. e pratica i tudo o que vos disserem. é sinal de ter um poder absoluto. porque isto é agradável ao Senhor. na epístola a Tito (cap. 1): Admoesta-os a que se sujeitem aos principados e potestades. 13-15: Sujeitai-vos. São Paulo afirma a mesma coisa no tocante aos servos (Colossenses 3. a toda a ordenação hu mana por amor do Senhor: quer ao rei como superior. Ainda. como os poderes que existiam na época de São Paulo eram ordenados por Deus.~ Do Cidadão Domínio obediência a seus pais. Que principados? Não serão justamente os principados daquele tempo. e para louvor dos que fazem o bem. que exigiam obediência absoluta? Além disso. e um jumentinho com ela. e os que resistem trarão sobre si mesmos a condenação. Por isso quem resiste à potestade resiste à ordenação de Deus. Porque tirar os bens de um súdito com base apenas nesse enunciado. "Observai. e as potestades que há. Observa i pois. As passagens mais evidentes. seu poder inteiro . não servindo só na aparência.ou seja.ou seja. se alguém vos disser alguma coisa. exigiu obediência absoluta: Mateus 21. Ora. mas em simplicidade de coração. e trazei-mos. 1-2: Toda a alma esteja sujeita às potestades superiores. e ouve tudo o que disser o Senhor nosso Deus: e tu nos dirás tudo o que te disser o Senhor nosso Deus. por seu direito enquanto senhor ou rei dos judeus. as passagens mais evi dentes são as seguintes. pois. como por ele enviados para castigo dos malfeitores. Romanos 13. 2-3: Na cadeira de Moisés estão assentados os escribas e fariseus. Já.22): Vós. provam a autoridade absoluta Mas. direis que o Senhor os há de mister. Porque assim é a vontade de Deus. que confirmam que seus súditos lhes devem obediência absoluta e simples. 27: Chega-te tu. quer aos governadores. 6. não só pagou tributo a César. isto é: prestai-lhe uma obediência simples. Deuteronômio 5. pois. de uma vez por todas. filhos. Assim. Na palavra tudo está contida a obediência absoluta. e praticai tudo o que disserem". vamos ao exemplo do próprio Cristo. e a Deus o que é de Deus. obedecei em tudo a vossos pais. ora. obedecei em tudo a vossos senhores segundo a carne. dizendo: Tudo quanto nos 176 177 . e naquele tempo todos os reis exigiam de seus súditos absoluta e completa obediência. E quanto aos filhos (Colossenses 3. ou o Senhor deles necessita. porque não há potestade que não venha de Deus. em Mateus 23. que era sacerdote. da mesma forma devemos entender. agora citarei aqueles testemunhos que estabelecem. Por quê? Porque eles estão assentados na cadeira de Moisés. manda Cristo. de que o Senhor os há de mister. desprendei-a. E. na cadeira do magistrado civil.2-3: lde(mandou ele) à aldeia que está de fronte de vós. como também declarou que este lhe era devido: Mateus 22. como para agradar aos homens. temendo a Deus.

para que não fosse sacer dote do Senhor. Lançou pois Salomão fora a Abiatar. 2627): Para Anatote vai. de ser agradável a Deus. um ceitil que fosse. dando-Ihes autoridade sobre nós . na verdade. Este será o costume do rei que houver de reinar sobre vós: ele tomará os vossos filhos. nem sequer o sumo sacerdote. Mas onde a autoridade do rei melhor está definida é nas palavras de Deus mesmo.9 ss. E ninguém houve em Israel. se não. e os empregará para os seus carros.. porque és homem digno de morte: porém hoje te não matarei porquanto levaste a arca do Senhor Deus diante de Davi meu pai e porquanto foste aflito em tudo quanto meu pai foi aflito. 178 179 . e os dará aos seus criados etc. para os teus campos. Do Cidadão Domínio ordenaste faremos. que estivesse isento de tal obediência. em 1 Samuel 8. por argumento algum. como com Moisés.senão estaremos preferindo ser consumidos pelo fogo da guerra civil. assim te ouviremos a ti: tão-somente que o Senhor teu Deus esteja contigo. 1415): Então todas as árvores disseram ao espinheiro: Vem tu. e não ouvir as tuas palavras em tudo quanto lhe mandares. E disse o espinheiro às árvores: Se. nem que sua pessoa deixasse. e reina sobre nós.: Decla ra-Ihes qual será o costume8 do rei que houver de reinar sobre eles etc. me ungis por rei sobre vós. e para seus cavaleiros. E tomará as vossas filhas para perfumistas etc. para que corram adiante dos seus carros etc. Pois o próprio rei Salomão assim disse ao sacerdote Abiatar (1 Reis 2. Como em tudo ouvimos a Moisés. saía fogo do espinheiro que consuma os cedros do Líbano. Todo o homem que for rebelde à tua boca. nem que Salomão tenha sido reprovado por isso. O sentido dessa parábola é que devemos aquiescer a tudo o que disserem aqueles a quem constituímos como reis. que esse ato do rei desagradasse ao Senhor. e confiai-vos debaixo da minha sombra: mas. não lemos em parte alguma. Um tal poder não é absoluto? E no entanto foi Deus mesmo quem o chamou de o direito do rei. E não se pode provar. E há também a parábola do espinheiro 0uízes 9. vinde. E tomará o melhor das vossas vinhas. e onde quer que nos enviares iremos. morrerá.

a saber.que isso é verdade no estado de 181 . isto é. a tomar em armas e a renegar sua lealdade. CAPÍTULO XII Das Causas Internas que Tendem à Dissolução do Governo1 1. que dão às mentes dos homens uma certa conformação e disposição. sobre as razões que levam à sediçào. falaremos algo sobre as causas que as dissolvem. as doutrinas e paixões contrárias à paz. Ora. e que direitos têm os príncipes sobre seus súditos. finalmente. Agora. assim como no movimento dos corpos naturais devem ser consideradas três coisas. e a ação ela mesma. que faz que o corpo seja suscetível do movimento que irá produzir-se.. por meio do qual um movimento certo e determinado poderá ser produzido enquanto ato.no capítulo I. depois.. a disposição interna. reúnem e dirigem os outros. parágrafo 9 . Mas a primeira e maior coisa que os dispõe à sedição é a tese de que o conhecimento do bem e do mal compete a cada indivíduo. assim jáconformados. a qualidade e condiçào daqueles que incitam. numa república cujos súditos comecem a fazer tumultos. a maneira pela qual isso é praticado. a facção em si mesma. o agente externo. três coisas se apresentam a nosso olhar: primeiro. ou seja. Sem dúvida já reconhecemos . de forma análoga.. É sediciosa a opinião segundo a qual o julgamento do bem e do mal pertence aos particulares Até aqui dissemos por que causas e pactos se constituem as repúblicas..

o que não é compatível com a segurança da república. de que servirá então o que ele dis se: A teu servo pois dá um coração entendido para julgar a teu povo. parágrafo 2. e muitos outros semelhantes. segundo os quais só é rei quem age segundo a justiça. na medida de suas capacidades. honesto ou desonesto. mas o que eu acredite ser pecado de outrem eu posso às vezes praticar sem com isso pecar. só com ordená-las. Assim. Os reis legítimos assim tornam justas as coisas que eles ordenam. se eu travar guerra por ordem de meu príncipe. Mas devemos fazer uma distinção. e se quem ordenou o tiver feito na condição de meu senhor. recorrendo às palavras de Salomão. não peco. onde cada homem vive tendo um igual direito. arrogandome o conhecimento do que é justo e injusto. por só proibi-las. Por conseguinte. E confirmamos essa verdade no capítulo XI. a opinião desses que ensinam que os súditos pecam quando obedecem a ordens do príncipe que lhes pareçam injustas não só é errônea como também deve ser incluída entre aquelas coisas que são contrárias à obediência civil. Realmente constitui um pecado meu aquilo que. contra o que é direit03. ou lhes pareça ser. Antes que houvesse governo. dela não comerás. se pecarem contra o direito. e denegrir como mau. a sociedade entre os homens e a vida civil neste mundo. do que é justo e injusto. ilegal: pois. se os particulares puderem exaltar como bom. se me recusar a guerrear. suprimem. se reivindicam a ciência do bem e do mal. e a primeira censura de Deus ao homem (no versículo 11): Quem te mostrou que estavas nu? Comeste tu da árvore de que te ordenei que não comesses? Como se dissesse: como vieste a julgar vergonhosa aquela nudez. Pois o mais anti go mandamento de Deus é (Gênesis 2. caso me mandem fazer aquilo que constituir pecado de quem me deu a ordem. isto é. numa monarquia o monarca. e depende daquele erro original que observamos 183 182 . como discernir o bem do mal compete aos reis. serei injusto. Toda ação em sua própria natureza era indiferente: depende do direito do magistrado ela se tornar justa ou injusta. se não obedecerem. e o legislador sempre é aquela pessoa que detém o poder supremo na república. Se pecarem contra a consciência. desejam igualar-se aos reis. embora correntes. e que. Pois. ao cometer. sempre que lhes for ordenado algo que seja. Pois. se obedecerem. declaram que não temem os sofrimentos do mundo por vir. se eu obedecer. e não se submeteu ao domínio de outros através de pactos recíprocos. sabendo o bem e o mal. na qual me pareceu justo criar-te. isso sim.r Domínio Do Cidadão natureza. Aqueles que não observam essa distinção hão necessariamente de pecar. o que assim lhes parecer. cujas naturezas sempre se referem a alguma ordem. pois quem assim age desrespeita a lei. eu acredite ser meu pecado. e injustas as que eles proíbem. pecam contra sua consciência. embora considere injusto declarar tal guerra. e mau o que ele proíbe. se não foi arrogando-te a ciência do bem e do mal? 2. É sediciosa a opinião segundo a qual os súditos pecam obedecendo a seus príncipes Tudo o que alguém cometa contra sua consciência é pecado. e não se deve obedecer aos reis a não ser que eles nos ordenem coisas justas. portanto. 5) é: Sereis como Deus2. Mas os particulares. 17): Da árvore da ciência do bem e do mal. o que o legislador ordene deve ser considerado bom. para que prudentemente possa discernir entre o bem e o mal? Por conseguinte. e a mais antiga das tentações do diabo (Gênesis 3. não havia justo nem injusto. não estarei agindo contra a justiça. Mas também mostramos que num Estado civil as leis constituíam as regras do bem e do mal. que compete apenas a meu príncipe. são perversos os adágios.

retornaria a cada indivíduo em particular. assim. necessariamente. sob o nome de tirano. e sim um inimigo. se converta em pecado em nós. Sêneca. É sediciosa a opinião segundo a qual o tiranicídio é legal A terceira doutrina sediciosa provém da mesma raiz. no parágrafo anterior. porque uma cidade não pode estar obrigada em relação a si mesma. reclamando um direito a julgar do bem e do mal. seja ele bom ou mau. eles não designavam apenas aos monarcas. E. consideram que é mais seguro confiar o poder supremo às leis apenas. damos ocasião a que nossa obediência. e especialmente ao monárquico: devido a ela todo rei. E no entanto esse erro teve grandes defensores. em nossos dias muitos teólogos consideram. deixaria de se prestar obediência toda vez que uma ordem parecesse contrariar as leis civis. porém. Por conseguinte. e depois morto. é um inimigo. fica exposto a ser condenado. e com a obediência desapareceria toda jurisdição coercitiva..Platão. a definição do que é conforme às leis e do que as viola. se não for porque tu. Cícero. Plutarco e todos os demais defensores das anarquias grega e romana . mas a todos aqueles que exercessem o poder supremo. a ciência do bem e do mal. embora não passando de um mero particular. É sediciosa a opinião segundo a qual estão sujeitos às leis os que possuem o poder supremo A quarta opinião inimiga da sociedade civil é a daqueles que sustentam que também está sujeito às leis civis quem tem o poder supremo.pois é ele. mas então não devemos dizer que está sendo morto um tirano. Mais que isso. parágrafo 14). os súditos também se libertarão. a destruição da própria essência do governar. Se tem direito. de tal modo que se esta se liberar de toda obrigação dessa espécie.. e é correto executá-Io. Ora. o tiranicídio é legal. o que acarretaria. devido à deficiência (infirmity) humana. quer dizer.. porque as vontades sin gulares dos súditos estão contidas na vontade da cidade. Mas parece estudar muito superficialmente a natureza do governo quem imagina ser possível deixar por completo às próprias leis o poder coercitivo. em qualquer governo que fosse. em relação a si mesma. segundo ela. 184 185 .. Aristóteles e outros mais. ou desobediência. ou sem este. nem para com nenhum súdito. então tem cabimento o interrogatório divin04: Quem te mostrou que ele era tirano? Comeste tu da árvore de que te ordenei que não comesses? Pois então por que chamas tirano àquele que Deus fez rei. mas também àqueles trinta que lhe sucederam. Aristóteles. em Atenas chamaram tiranos não apenas a Pisístrato.consideraram que matar o tirano não era apenas legal. 4. para com nenhum súdito. a interpretação das leis e a 3.. ao arbítrio de qualquer vilão assassino. Mas aquele a quem se quer executar por tirania ou governa com direito... mas até mesmo merecedor de elogio. se não tem direito a governar. Já provamos de maneira suficiente que isso não é verdade (no capítulo VI. e que governaram juntos. que.... A incompatibilidade da opinião citada com a existência mesma do governo se evidencia pelo seguinte: se ela fosse válida. Pois. a qual não dispõe de existência além da que lhe é conferida por seu poder supremo. porque ninguém pode se obrigar a não ser para com outrem. ou ela. o que vale para uma cidade deve suporse igualmente válido para aquele indivíduo ou assembléia que tiver a suprema autoridade . usurpaste a ciência do bem e do mal? Podemos assim ver em que larga medida essa opinião é perniciosa a todos os governos. e em tempos idos os filósofos todos . Do Cidadão Domínio acima. quem constitui a cidade. e por conseguinte ela já está liberada no momento presente.

por receio de tormentos intermináveis. mas confiando o direito de arrecadar dinheiro a outros. por um mero temor supersticioso. que dividem a autoridade suprema reconhecendo o poder de fazer a guerra e a paz a um só (a quem chamam de rei). se realmente dividem a autoridade. É sediciosa a opinião segundo a qual a fé e a santidade não se adquirem através do estudo e da razão. pode ou não condená-Io à morte. ou tê-Ios impedidos de ser justos? Há ainda outros. não está em questão se o magistrado. não entendo por que nos 186 187 . mas se a vontade do magistrado. não para o governante. porém a transferem a outros nos assuntos referentes à salvação da alma. e mesmo contestá-Io nos tribunais. 5. então. portanto. conferindo-a inteiramente àqueles em cujo poder está o dinheiro. a autoridade suprema seria divisível. mas confundindo o seu nome. Assim. mas se ele declarou. se a respeitou. em caso de necessidade. Ao contrário: é evidente que ele nào está preso a suas leis. e não a ele. se quebrou a lei. com base em seu direito absoluto. através de uma certa regra. Porque. nesse caso dissolvem o governo. quando não está em pauta o que o magistrado tem o direito de fazer. Ora. mas em conformidade aos preceitos e doutrinas de homens que aos olhos do magistrado não passam de particulares ou mesmo de estrangeiros. porque ninguém está preso a si mesmo. embora possam os súditos. quando com base em alguma lei os juízes se reúnem para decidir a vida de um súdito. ir eventualmente a juízo contra o supremo magistrado. enquanto indivíduos. Portanto. enunciada na lei que os leva a se reunirem. mas sempre são infundidas e inspiradas aos homens de maneira sobrenatural. graças ao medo. às leis. o que pode ser mais pernicioso para um Estado do que ter seus membros. alguns a repartem de modo a garantir a supremacia do poder civil no que diz 6. convencidos a não obedecer ao príncipe. É sediciosa a opinião segundo a qual o poder supremo pode ser dividido Em quinto lugar. e não. devido à diversidade que há entre os homens. respeito à paz e às vantagens desta vida. sucede que se os súditos medirem a justiça não segundo as leis civis (como deveriam). Mas. e sua vontade é que ele deveria ser condenado. é que se chegue a essa sentença.Do Cidadão Domínio feitura delas (que são. mas da prudência deles próprios. segundo uma opinião quase sempre fatal para as repúblicas. como de todas as coisas a mais necessária para a salvação e a justiça. se não houver dinheiro. eles não ousarão cumprir a obediência devida a seus príncipes. As leis. eles a dividem de diferentes maneiras. a ambição dos advogados levou muitos homens inexperientes a pensar que as leis não dependem da autoridade do magistrado. que queria determinada coisa. Contudo. como o dinheiro são os nervos da guerra e da paz. justamente naquilo que eles mais temiam. o fato de que um súdito possa impetrar uma ação em juízo contra o magistrado supremo não constitui argumento suficiente para provar que este último esteja subordinado às leis que ele próprio fez. Ora. caindo assim. mas são infundidas e inspiradas sobrenaturalmente Diz uma doutrina corrente que a fé e a santidade não se adquirem pelo estudo. nem preservar a paz pública. ou então. nem pela razão natural. Mas. Se isso fosse verdade. estes. Assim. aqueles que assim dividem a autoridade ou bem não a dividem em absoluto. isto é. porém. só podem fazê-Io. são feitas para Tito e para Caio. Pois nem se pode fazer guerra. poderes necessariamente inerentes ao governo).

tendo conseguido um bom estoque de dizeres sagrados de tanto lerem as Escrituras. contudo. ou. mas nada disso se pode dizer de uma multidã05. É sediciosa a opinião segundo a qual cada súdito tem propriedade ou domínio absoluto de seus bens A sétima doutrina que se opõe ao governar afirma que cada súdito tem um domínio absoluto sobre os bens que estão em sua posse. que não pode ser reconhecida sem acarretar a ruína de todos os governos. tem sobre eles uma propriedade tal que exclui não apenas o direito de todos os seus concidadãos aos mesmos bens. ninguém tinha qualquer coisa que lhe fosse própria: todas as coisas eram comuns a todos. se não foi cada homem lhe transferindo seu direito pessoal? E portanto tu também lhe deste o teu direito. ou por que qualquer verdadeiro cristão não seria. não há razão para que qualquer homem tenha melhor direito a tirar meus bens de mim. mas ainda o do próprio magistrado. com base em sua só inspiração. do que eu a tirar-lhe os seus. necessariamente. também ele.Do Cidadão Dominio mandam dar as razões de nossa fé. e que portanto. só há domínio e propriedade teus na medida estrita em que ele o quiser. O povo é uno. somos iguais (dizem eles) por natureza. aos homens incultos pareciam porém quase sagrados: pois aquele cujo non sense aparece como um discurso divino deve. mesmo numa família. parecer inspirado dos Céus. Antes que se criasse o jugo do governo. todo filho tem bens que são propriedade sua. que o número dos apóstatas da razão natural se tornou quase infinito. quando se constituiu o governo. pela constituição do governo. 7. que não se faça suficiente distinção entre o que é um povo e o que é uma multidão. E ela nasceu de homens doentes do cérebro que. tendo uma só vontade. Por conseguinte. provar-nos que têm necessidade do dinheiro. em vez de se valer dos preceitos de seus superiores ou de sua reta razão. profeta. mas devem aqueles. Mas a maior parte daqueles que professam a prudência civil argumenta de outro modo. constitui um grande perigo para o governo civil. em especial o monárquico. conectaram-nos de tal maneira em sua pregação usual. isto é. que o solicitam. por que cada homem não julgaria pessoalmente o que é correto ele fazer ou evitar. Desconhecer a diferença entre povo e multidão já predispõe à sedição Em último lugar. parágrafo 5. é senhor de todos. Isso. Assim se retornaria à ciência privada do bem e do mal. e assim continuam sendo. falando agora da forma que se aplica a uma multidão informe e não a um governo já constituído. Pois até nas monarquias é o povo quem manda (porque nesse caso o povo diz sua vontade através da vontade de um homem). Dize-me então: como conseguiste essa pro 8. sabemos que às vezes é necessário dinheiro para a defesa e preservação da coisa pública. que esses seus sermões. priedade se não foi pelo magistrado? E como a conseguiu o magistrado. embora não significassem estritamente nada. e a ele pode atribuir-se uma ação. conforme provamos no capítulo VIII. Essa opinião se difundiu em tão larga escala por todo o mundo cristão. ele destrói sua constituição (frame). Ora. que então lhe daremos com prazer. quem assim fala não sabe que esse procedimento que desejaria seguir já foi adotado de início. Ora. ao passo que a multidão é o mesmo que 188 189 . finalmente. enquanto o pai o quiser. o magistrado. e durarão eles o tempo só que a ele aprouver. não é verdade: pois quem está sujeito a um senhor não tem senhorio que lhe seja próprio. Em qualquer governo é o povo quem governa.

e que os impostos e tributos nada mais são que a paga daqueles que velam armados por nós. da cidade. dizem que a cidade se rebelou contra o rei (o que é impossível). às vezes a lerem em seu conforto histórias. aquilo que súditos descontentes e queixosos gostariam que fosse feito. oprimidos e sufocados por um peso enorme. os súditos contra o povo. A ambição nos dispõe para a sedição Outra doença nociva da mente é a daqueles que dispõem de um grande lazer. 9. E na medida em que. fazem que eles facilmente se revoltem. Mas a maioria dos homens nada considera disso tudo. écoisa evidente que aqueles que se sentem esmagados pelo peso todo da república estão predispostos à sedição. e segurava a espada na outra. e não quer. no tempo de Esdras. e alegando serem eles o povo incitam os cidadãos contra a cidade. por seu ócio (vacancy). e (embora isso pareça um paradoxo) o rei é o povo. e que o povo quer. para que os trabalhos e esforços dos indivíduos não sejam prejudicados pela agressão de inimigos. mas o povo éa assembléia governante (the court). a fim de viver. Ora. os cidadãos são a multidão. tais opiniões aderem naturalmente ao crime de lesa-majestade. aqueles que menos precisam se preocupar com as coisas necessárias. a fim de 10. ou a falta daquelas coisas que são necessárias para se conservar a vida e a honra. causada pela gula. ainda assim todos os pobres costumam lançar culpa6 sobre o mau governo. Numa democracia e numa aristocracia. Assim. E sucede que assim eles 190 191 . corrompendo os súditos. Mas devemos lembrar que quem não possui patrimônio algum precisa não apenas trabalhar. a majestade deve ser defendida por aquele ou aqueles que detêm a autoridade suprema. por mais justa e necessária que seja. mas também lutar. como se tivessem perdido seus bens privados tãosomente devido às extorsões do poder público. predispõe à sedição Nada aflige tanto a mente do homem quanto a miséria (poverty). E embora ninguém desconheça que as riquezas se conseguem pela diligência (industry) e se conservam pela frugalidade. que deve ser sustentado e nutrido pelo cuidado e diligência dos súditos com o mesmo empenho que cada um dedica à sua fortuna privada. ou que não o fosse. e também aqueles que consideram superficialmente essas verdades. Todos os homens naturalmente se batem pela honra e precedência . isto é.porém. sempre falam de um grande número de homens como se se tratasse do povo. poemas e outros livros agradáveis. e que as queixas dos que culpam as pessoas públicas pela sua miséria não são mais justas do que se dissessem que caíram na necessidade por terem saldado as suas dívidas. às vezes a discutirem entre si sobre a república. que os súditos. O vulgo. Pois estes são convidados. E numa monarquia os súditos são a multidão.Do Cidadão Domínio os cidadãos. coisas políticas. isto é. os faz acreditar que estão invadidos. isto é. escusando sua própria indolência e concupiscência. E são estas quase todas as opiniões que. e que aqueles a quem desagrada o atual estado de coisas têm gosto pela mudança. Pois eles sofrem da mesma doença a que chamam de incubus: que. mais que todos os outros. Em todo governo devemos supor que a mão que segura a espada é o rei ou conselho supremo. poder trabalhar. discursos. mas a quem faltam honra e dignidade. qualquer que seja o governo. cada um daqueles judeus que construía as muralhas de Jerusalém trabalhava com uma mão. Uma taxação muito grande.

se não houver confiança recíproca. por mais numerosos que possam ser também os que foram feridos e magoados pelas afrontas e calúnias dos que governam. considerando-se ofendidos. neste mesmo capítulo. Salústio distingue a sabedoria da eloqüência. desprovida de sabedoria. O primeiro elabora um discurso a partir de princípios verdadeiros. ou se a esperança que tiverem não for bastante. a quem todos 12. um em de 192 193 . já supusemos que essa espécie de homens não compreende que possa estar obrigada a nada além daquilo que a seus próprios olhos parece ser certo ou errado). nem podem as armas.não por estarem obrigados e sujeitos a suas ordens (pois. entendendo que esta última é necessária a quem nasce para as perturbações e considerando a primeira como mestra da paz e da serenidade. na arte de promover sedições): ele tinha grande eloqüência e parca sabedoria. o medo. como os homens não são o que parecem a si mesmos. munição e outras provisões necessárias. do segundo a retórica. em nenhuma época. confiança recíproca e comandantes. necessariamente ocorre que muitos sejam preteridos. Mas a eloqüência tem dois aspectos. em parte por esperança de os vencerem. E por isso não estranha que eles procurem. a ira. se não sentirem eles a esperança de terem consigo os melhores. ou habilidade militar. cada qual dissimulará o que medita e preferirá suportar o seu fardo atual a arriscar-se a sofrer um peso maior. é desespero. A eloqüência. o segundo parte de opiniões já recebidas. 11. a não ser alguém que os açule e incite. do que assistir ao fracasso dos negócios públicos. O primeiro é o de uma expressão elegante e clara do que a mente concebe. instrumentos. nem podem todos estes somados. São quatro as coisas necessárias para haver essa esperança: número. Cada qual tem seu uso.Do Cidadão Domínio se considerem suficientemente fornidos tanto de espírito (wit) quanto de conhecimento para poderem administrar os negócios da maior importância. mas por alguma opinião que tenham eles de sua virtude. o fim daquele é a verdade. Ora. por mais numerosos que sejam os homens infestados por opiniões avessas à paz e ao governo civil. e que medem a justiça do que praticam por seu próprio juízo. deste a vitória. é a única faculdade necessária para causar sedições Salústio assim nos descreve Catilina (homem sem rival. e ainda que o fossem (devido a seu grande número) não poderiam todos ser empregados nos cargos públicos. Se esses quatro elementos estiverem ao alcance de homens agravados pelo presente estado de coisas. com apetite voraz. nada mais faltará para a sedição e confusão do reino. em parte da compreensão das palavras consideradas em seu significado próprio e definido. a piedade) e deriva de um uso metafórico de palavras adequadas às paixões. Pois. contudo. Resistir ao magistrado público sem dispor de um grande número não é sedição. todas as ocasiões de inovação. A arte do primeiro é a lógica. Estes. O outro é uma comoção das paixões da mente (tais como a esperança. e nasce em parte da contemplação das coisas mesmas. Por instrumentos de guerra me refiro a toda espécie de armas. E o mesmo faz a esperança de sucesso A esperança de vencer também deve ser incluída entre outros motivos que inclinam à sedição. nada mais hão de querer. sem as quais o número nada pode. de qualquer natureza que sejam. em parte por inveja daqueles por quem foram preteridos. com prazer concordam em obedecer . ou semelhança de humores. portanto. se não houver união sob as ordens de algum comandante.

mas à outra. do honesto e do desonesto. nem o que a destrói. 13. e a quem estava bem-disposto pareçam más. eles a incitarão a conquistar a administração dos negócios. conspiraram com Medéia contra seu pai. que é das regras do justo e do injusto. mas o mais das vezes eles a dilaceram. rei da Tessália. que comovendo suas mentes faz todas as coisas parecerem ser tal como suas mentes já antes predispostas tinham imaginado que fossem. eis o que pode ser facilmente induzido do trabalho mesmo que eles têm de fazer. a conselho de Medéia. como elas o foram pelo feitiço de Medéia.Do Cidadão Domínio liberações. elas. E assim. ampliar suas esperanças e reduzir os perigos que correm. Pois quem não sabe de onde as leis derivam sua força. e a todos nos púlpitos. Pois eles não conseguiriam envenenar o povo com aquelas opiniões absurdas contrárias à paz e à sociedade civil. Como a loucura do vulgo e a eloqüência dos ambiciosos concorrem para a destruição da república Muitos. Eles formam a facção ao se fazerem relatores e intérpretes das opiniões e ações daqueles indivíduos. quando ensinam uma doutrina conforme às opiniões acima referidas. E que essa espécie de eloqüência poderosa. o vulgo. certamente.que ele viesse a reviver. o que de outrem. e ao designarem pessoas e lugares para que se reúnam e deliberem daquelas coisas pelas quais o atual governo possa ser reformado. não a que explica as coisas como são. e arrastado pela eloqüência de homens ambiciosos. o que é seu. 194 195 .em vão . cortaram-no em pedaços. pois aquele nunca se desliga da sabedoria. E então aqueles que desejam converter em ato essa disposição põem seu total empenho no seguinte: primeiro. que puseram a ferver na água. que se aparta do verdadeiro conhecimento das coisas. esperando . na qual possam governar pela eloqüência. em serem eles próprios os dirigentes de tal facção.narra a fábula . Dessa forma eventualmente vêm eles a oprimir a república. fazer que as coisas pareçam ainda piores a quem já andava maldisposto. Assim. quem não sabe o que ele próprio gostaria que lhe fizessem (para que ele possa fazer o mesmo aos outros): este.as filhas de Peléas. ou seja. a não ser que eles mesmos as compartilhassem. é o verdadeiro caráter daqueles que solicitam e instigam o povo às inovações. o que certamente é uma ignorância maior do que pode atingir qualquer homem sábio. que pessoalmente se sentem bem afeiçoados à sociedade civil. é preciso que formem uma facção no interior da facção. Pois a loucura e a eloqüência concorrem ambas para subverter o governo. este quase sempre. da mesma maneira que . finalmente. e por quem. e em que ordem cada um deles haverá de falar. outro em exortações. e dão início a uma guerra civil. Mas tornar os seus ouvintes de tolos em loucos. divide-se em facções. aos moços nas escolas. isto é. segundo. mais do que permite a razão: isso tudo eles devem àquela espécie de eloqüência. da sabedoria. e como poderão eles trazer para o seu lado os membros mais poderosos e mais populares da facção. que mantenham reuniões secretas com apenas uns poucos. do bem e do mal. e sobre que tópico. conforme melhor convier a seus interesses. Querendo revigorar o velho decrépito e devolver-lhe a juventude. para que eles possam ter o poder supremo dentro da facção. quem não sabe o que faz e conserva a paz entre os homens. desejando por loucura (como as filhas de Peléas) renovar o governo já velho. quando tiverem constituído uma facção grande o bastante. em reunir numa facção de conspiradores todos os que estejam mal dispostos para com o governo. onde possam organizar o que posteriormente será proposto numa reunião geral. contribuem porém por ignorância para predispor as mentes dos súditos à sedição. quando não há outra facção que se possa opor à sua. deve ser considerado apenas mediocremente sábio. Da mesma forma. e o resultado é que mais facilmente consome a república em chamas do que a reforma.

afora o curso ordinário da natureza. cuidasse imediatamente 197 . embora possam fazê-Io. Mas ainda não dissemos nada sobre os deveres dos governantes. quando quem tem o direito de judicatura não puder ou não quiser estar presente no julgamento de delitos (trespasses). por exemplo. Porque às vezes os reis.CAPÍTULO XIII Dos Deveres de Quem GovernaI 1. o motor de todas as coisas. não podem cuidar de seus negócios. Ora. Mas.como. ou na deliberação dos negócios. não obstante julgam mais adequado exercer seu poder através de conselheiros e ministros por eles escolhidos. e de que maneira eles devem se portar para com seus súditos. distinguir o direito e o exercício da autoridade suprema. Precisamos. então a administração é tal como se Deus. o governo da república é como o governo ordinário do mundo. o direito à autoridade suprema distingue-se de seu exercício Pelo que até agora dissemos. está evidente quais são os deveres dos cidadãos e súditos em qualquer espécie de governo. deliberações e ações públicas. devido à sua idade. portanto. quando aquele a quem pertence o direito de governar está presente em todos os julgamentos. outras vezes. quando o direito e o exercício assim se encontram separados. porque estes podem ser separados . e que poder tem sobre eles o governante supremo. no qual Deus. produz efeitos naturais por meio de causas secundárias.

não o interesse particular de tal ou qual homem Por povo. mas 198 199 . Contudo. Neste capítulo. todo aquele que. como o domínio foi constituído para proporcionar a paz. porque ser chefe e ser súdito são coisas contraditórias têm eles porém em todas as coisas o dever. contra as leis de natureza . às vezes é necessário.estará usando seu poder para um fim que não é o da segurança do povo. Cabe aos príncipes considerar o benefício comum de muitos. 4. E não é meu propósito entrar naquelas coisas que alguns príncipes podem fazer. se não for por culpa própria. mas também daquelas graças às quais possam se tornar fortes e robustos. e no entanto não se exige que ela cuide em particular de tal ou qual homem. ou por algum acaso que não pudesse ser prevenido. para que melhor os possam servir. que os perversos sofram. não entendemos uma pes soa civil . também ela lhes ensina uma arte que haverá de proporcionar benefícios a eles próprios. moral e divina. Pois os homens se reuniram livremente e instituíram um governo a fim de poderem. E ainda. Porque .ou seja. isto é. estarão agindo contra seu próprio escopo e fim.Do Cidadão Domínio de todos os negócios. que forem viáveis através de boas leis. Assim. e por conseguinte se desincumbe de tudo o que deve caso se esforce e empenhe. 2. tal como a segurança do povo dita a lei através da qual os príncipes aprendem qual é o seu dever. Portanto. Por segurança se entende toda a espécie de conforto E por segurança se deve entender não a mera preservação da vida em qualquer condição que seja. todos. por leis salutares. 3. daquele que tem a regra suprema na cidade. ou os governados. a própria cidade ou o governante -. quem assumiu a administração do poder nessa espécie de governo pecaria contra a lei de natureza (porque pecaria contra a confiança dos que lhe confiaram tal poder). nesta passagem. à vontade dos homens. pois o poder dos cidadãos é o poder da cidade. a multidão dos súditos. falaremos suscinta e resumidamente dos deveres de quem exerce autoridade. e em fazê-Io tão duradouro quanto for possível . na medida de suas possibilidades. para aprovisionar em abundância os súditos não apenas com as boas coisas relativas à vida. agir contra as razões da paz . se não se empenharem em abastecê-l os não apenas das coisas que lhes são necessárias para viver. mas também com aquelas que aumentam o seu conforto (delectation).a saber. Pois o governante (enquanto tal) não cuida da segurança de seu povo a não ser por meio de suas leis.de modo que ninguém sofra males. para a segurança da maioria. na medida em que o permitisse sua condição humana. e outros não . não importa se por seu direito próprio ou pelo de outrem. que são universais. numa posição de autoridade. mas com vistas à sua felicidade. Já os que adquiriram o domínio pelas armas desejam. que é a lei natural. de obedecer à razão reta. e a paz foi procurada para o bem da sociedade. em estabelecer o bem-estar (welfare) da maior parte. que seus súditos sejam fortes de corpo e mente.embora os que obtenham o maior domínio em meio aos homens não possam estar sujeitos às leis propriamente ditas. A segurança do povo é a suprema lei2 Todos os deveres dos governantes estão contidos nesta única sentença: a segurança do povo é a lei suprema. viver agradavelmente.porque tal assunto se pode deixar às práticas políticas de cada república. se não estudasse os meios. Por isso. Pois a cidade não foi instituída para o bem de si mesma. isto é. portanto. mas para o dos súditos.

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5. Uma difícil questão: se é dever dos príncipes cuidar da salvação das almas de seus súditos, conforme julgarem melhor segundo a sua consciência E, em primeiro lugar, acreditam os príncipes que a principal questão referente à salvação eterna consiste em que opinião se tem da Divindade, e por que maneira de culto deve ela ser adorada. Isso se supondo, podemos perguntar se os governantes - seja quem for, um ou mais, que exerça a autoridade suprema - não pecarão contra a lei de natureza, se deixarem de ordenar que seja ensinada e praticada a doutrina e culto que, segundo a sua fé, necessariamente conduz à salvação eterna de seus súditos (ou se permitirem que uma doutrina e culto contrários sejam ensinados e praticados). É manifesto que nesse caso atuam contra sua própria consciência, e que então querem, na medida em que isso deles depende, a perdição eterna de seus súditos: pois, se não a desejassem, não vejo razão por que tolerariam (pois, sendo soberanos, a tanto não estão obrigados) que sejam pregadas e cometidas coisas devido às quais eles acreditam estar em estado de perdição. Mas deixaremos essa dificuldade em suspenso.

7. Espias são necessários à segurança do povo Duas coisas há que são necessárias à defesa do povo: ser prevenido e estar previamente armado. Pois as repúblicas, se consideradas em si mesmas, estão no estado de natureza, isto é, de hostilidade recíproca. E, mesmo que elas se abstenham de lutar, isso não se deve chamar paz, mas antes um tempo para respirar, no qual um inimigo, observando o movimento do outro e como este se porta, avalia sua segurança não em função dos pactos, mas das forças e desígnios do adversário. E isso se faz conformemente ao direito natural, como se mostrou no capítulo 11, parágrafo 11, porque os contratos são inválidos no estado de natureza sempre que intervier qualquer medo justificado. Portanto, é necessário, para a defesa da cidade, primeiro, que haja alguns que possam investigar e descobrir todos os desígnios e atos que for possível daqueles que possam causar-lhe dano. Pois aqueles que os revelam a ministros de Estado são como os raios do sol para a alma humana. E na visão política é mais correto, do que na natural, afirmar que as species3 sensíveis e inteligíveis das coisas externas, imperceptíveis, são transportadas pelo ar até o chão (isto é, até aqueles que possuem a autoridade suprema) e portanto não são menos necessárias à preservação do Estado do que os raios de luz o são à conservação do homem. Ou podemos compará-los a teias de aranhas, que, estendidas para todos os lados pelos mais finos fios, as previnem de qualquer movimento externo, enquanto elas estão escondidas em seus pequenos buracos. Quem exerce o poder não pode saber o que é necessário mandar para a defesa dos súditos se não tiver espias, da mesma forma que sem o movimento de seus fios essas aranhas (spiders) não podem saber quando devem sair, nem se devem consertar.

6. Em que consiste a segurança do povo As comodidades (benefits) dos súditos a respeito somente desta vida podem ser distribuídas em quatro categorias: 1. Serem defendidos contra inimigos externos. 2. Ter preservada a paz em seu país. 3. Enriquecerem-se tanto quanto for compatível com a segurança pública. 4. Poderem desfrutar de uma liberdade inofensiva. Isso porque os governantes supremos não podem contribuir em nada mais para a sua felicidade civil do que, preservando-os das guerras externas e civis, capacitá-l os a serenamente desfrutar da riqueza que tiverem adquirido por sua própria diligência. 200

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8. Também é necessário, para a defesa do povo, dispor de soldados, de armas, guarnições e dinheiro já em tempo de paz Além disso, outro requisito necessário para a defesa do povo é que ele esteja previamente armado. Estar armado previamente é ter uma provisão de soldados, armas, navios, fortes e dinheiro antes que o perigo se torne premente; pois, depois que o golpe foi desferido, é tarde demais, senão impossível, para alistar soldados e tomar em armas. Da mesma forma, deixar de erguer fortes ou de instalar guarnições nos lugares adequados, antes que as fronteiras sejam invadidas, é proceder como aqueles jovens rústicos (de quem fala Demóstenes) que, tudo ignorando da arte da esgrima, com seus escudos guardavam aquelas partes do corpo onde já haviam sentido o golpe do inimigo. E, quanto aos que pensam que quando o perigo começa a se mostrar ainda é tempo para juntar o dinheiro destinado à manutenção dos soldados e a outras despesas de guerra, é porque não consideram o quanto é difícil arrancar de um momento para outro, de homens de mão tão cerrada, uma soma tão grande de dinheiro. Pois quase todos os homens, o que eles uma vez tenham arrolado entre seus bens, desde então julgam ter-lhe um direito e propriedade tais que se imaginam injuriados sempre que se vejam forçados a utilizar a mais ínfima parte dele para o bem público. Além disso, uma quantia suficiente de dinheiro para defender o país pelas armas não será levantada rapidamente do tesouro das taxas (imposts) e alfândegas4. Devemos portanto, por temor à guerra, armazenar grandes somas em tempo de paz, se temos em mira a segurança da república. Por conseguinte, já que necessariamente compete aos governantes, para segurança dos súditos, descobrir quais são os desígnios do inimigo, manter guarnições e ter dinheiro sempre à sua disposição, e já que pela

lei de natureza os príncipes estão obrigados a pôr seu total empenho na consecução do bem-estar de seus súditos, segue-se que não apenas é legal eles empregarem espias, manterem soldados, construírem fortes e exigirem dinheiro para essas finalidades; mas também que deixar de fazê-Io é contra a lei. A isso também se pode acrescentar o que quer que pareça conduzir, seja pela astúcia, seja pela força, à diminuição do poder dos estrangeiros de quem eles suspeitam. Pois os governantes estão obrigados, por seu poder, a impedir os males de que suspeitem, para evitar que porventura venham eles a suceder devido a sua negligência.

9. Uma correta instrução dos súditos quanto às doutrinas políticas é mais um requisito para a conservação da paz Muitas coisas, porém, são necessárias para a conservação da paz interna, uma vez que são muitas as coisas

como já vimos no capítulo anterior

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que concorrem para

perturbá-Ia. Mostramos, assim, que há algumas coisas que predispõem as mentes à sedição, e outras que ativam e aceleram quem já se encontra predisposto a tanto. Dentre as coisas que os predispõem, citamos em primeiro lugar certas doutrinas perversas. É portanto dever daqueles que têm a autoridade suprema extirpáIas das mentes, não dando ordens, mas pelo ensino; não pelo terror dos castigos, mas pela perspicuidade das razões. As leis pelas quais se poderá resistir a esse mal não devem, pois, ser editadas contra as pessoas que errem, mas contra os próprios erros. Os erros que, no capítulo anterior, afirmamos serem incompatíveis com a paz da república, insinuaram-se na mente dos ignorantes em parte vindo do púlpito, em parte dos discursos diários de outros homens, que, tendo pouco o que fazer, assim encontram lazer sufi

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ciente para estudar; e por sua vez ingressaram na mente destes homens devido aos mestres que lhes ensinaram quando, jovens, cursavam escolas públicas. Inversamente, pela mesma razão, se alguém quiser apresentar uma doutrina sadia, deverá começar pela reforma das academias5. Nelas as fundações verdadeiras e veramente demonstradas da doutrina política devem ser depostas, para que, delas se imbuindo os moços, eles possam depois instruir o vulgo tanto em público quanto em particular. E isso eles farão com ainda mais prazer e vigor se eles próprios estiverem intimamente convencidos da verdade destas coisas que professarem e ensinarem. Pois, considerando que em nossos dias muitos aceitam até mesmo proposições falsas, e que não são mais inteligíveis do que se alguém juntasse um conjunto de termos extraídos de uma urna ao acaso: pela mesma razão não darão eles muito mais confiança a doutrinas verdadeiras, adequadas a seu entendimento e à natureza das coisas? Concebo, portanto, que é dever dos magistrados supremos fazer que os elementos verdadeiros da doutrina civil sejam postos por escrito, e ordenar que sejam ensinados em todos os colégios de seus vários domínios.

retirarem, se tornará bastante pesado, e mesmo intolerável para os que ficarem: os homens, aliás, não tendem a se queixar tanto do fardo, quanto de sua desigualdade. Com muita diligência, portanto, os homens lutam para escapar aos impostos; e neste conflito os menos felizes, por perderem, sentem inveja dos mais afortunados. Para eliminar toda queixa justa, é portanto do interesse da paz pública, e se refere assim ao dever do magistrado, cuidar que os encargos públicos sejam distribuídos de forma igual. Ademais, como o que os súditos dão para uso público nada mais é que o preço que eles pagam pela paz que compraram, há uma boa razão para que os que têm um igual quinhão de paz tenham, também, partes iguais a pagar, quer contribuam com seu dinheiro, quer com seu trabalho, para a república. E manda a lei de natureza (segundo o capítulo III, parágrafo 15) que todo homem, ao distribuir o direito aos outros, se considere igual a todos. Por isso, a lei natural obriga os governantes a dividirem os encargos da república igualmente entre seus súditos.

10. Uma igual repartição dos encargos públicos contribui, e muito, para a preservação da paz Mostramos, depois, que a necessidade (want) torna os súditos mentalmente predispostos à sedição - necessidade, que, embora resultante de sua própria concupiscência e indolência, eles contudo atribuem a quem governa o reino, como se os súditos fossem exauridos e oprimidos pela concessão de favores públicos. Pode, contudo, ocorrer às vezes que essa queixa seja justa, a saber, quando pelos encargos do reino os súditos são desigualmente tributados. Pois aquilo que dividido por todos é um peso leve, se muitos se

11. Manda a eqüidade natural que os impostos sejam cobrados segundo o que cada um gasta, não segundo o que ele possui Mas nesta passagem entendemos uma igualdade que não é de dinheiro, porém de encargos: isto é, uma proporção (equality of reason) entre os encargos e os benefícios. Pois, embora toda igualdade desfrute de paz, contudo os benefícios que desta provêm não são iguais para todos: pois alguns obtêm posses maiores, outros menores; e, além disso, uns consomem menos, outros mais. Pode-se portanto indagar se os súditos deveriam contribuir para o bem público conforme a taxa do que ganham, ou do que gastam - isto é, se as pessoas devem ser tributadas de modo a

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pagar a contribuição segundo sua riqueza, ou se devem ser tributados os próprios bens, de modo que cada qual contribui segundo o que ele despende. Mas consideremos que, onde os tributos são cobrados com base na riqueza, os que ganharam a mesma coisa não têm posses iguais, porque, enquanto um conserva o que adquiriu por ser frugal, outro o dilapida por luxúria, e portanto, embora ambos se deleitem igualmente com o benefício da paz, não arcam de forma igual com os encargos da república; e consideremos, por outro lado, que, lá onde os bens são taxados, cada indivíduo, ao gastar, no próprio ato de consumir os bens jápaga a parte devida à república sem sequer distingui-Ia do restante que despende, e que paga não segundo o que possui, mas segundo o benefício que teve graças ao reino. Não cabem mais dúvidas, então, de que o primeiro meio de lançar impostos é contrário à eqüidade, e portanto contrário ao dever do governante - ao passo que o segundo é adequado à razão, e ao exercício da autoridade de quem governa.

dem pôr-Ih_e uma tal ordem que os homens aprendam que a via para a honra não está em desacatar o governo existente, nem em promover facções ou cortejar a reputação Cair) popular, mas exatamente no contrário. São bons os que observam os decretos, as leis e os direitos de seus pais. Se, mantendo uma ordem constante, nós os víssemos ornados de honras, enquanto os facciosos fossem punidos e desdenhados por aqueles que têm o poder, haveria mais ambição em obedecer do que em desobedecer. É verdade que acontece, eventualmente, assim como precisamos afagar um cavalo que não foi domado, que seja preciso adular um súdito muito altivo por medo a seu poder; mas isso sucede da mesma forma ao cavaleiro e ao governante, isto é, quando estão em perigo de cair. Falávamos aqui, porém, daqueles cuja autoridade se conserva inteira; o dever deles, dizia eu, reside em tratar bem os súditos obedientes, e em reduzir os facciosos na medida do possível. Não há outra maneira de preservar o poder público, nem de conservar a paz dos súditos.

12. Reprimir os ambiciosos contribui para se conservar a paz... Afirmamos, em terceiro lugar, que aquela perturbação da mente que deriva da ambição ofendia a paz pública. Pois há alguns que, parecendo a seus próprios olhos ser mais sábios do que os outros, e mais aptos para a direção dos negócios do que aqueles que atualmente governam, quando não podem mostrar de outro modo como sua virtude será proveitosa à república tentam mostrá-Io causando-lhe mal. Mas, dado que a ambição e a avidez pelas honrarias não podem ser extirpadas das mentes humanas, não constitui dever dos governantes tentar fazê-Io; porém, pela constante distribuição de recompensas e castigos, eles po

13 .....e também dissolver as facções Mas, se é dever dos príncipes conter os facciosos, dever ainda muito maior é dissolver e eliminar as próprias facções. E chamo de facção a uma multidão de súditos reunidos, seja por contratos recíprocos firmados entre si, seja pelo poder de alguém, sem a autoridade daquele ou daqueles a quem cabe a autoridade suprema. Uma facção, portanto, é como se fosse uma cidade dentro da cidade: pois, assim como no estado de natureza a cidade recebe a existência graças a uma uni~Q de homens, aqui, por uma nova união os homens, nasce uma facção. Segundo esta definição, uma multidão de súditos que se obrigaram simplesmente a obedecer a qualquer príncipe ou súdito estran

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é como um jogo de dados no qual muitos perdem seus bens. o que é contrário à segurança dos súditos e.são tidas na estima e honra que merecem. Pois a guerra. como por exemplo quando se entregam reféns ou se empenha algo equivalente. constitui uma facção. E grandes Estados. como até mesmo repartiram terra e dinheiro entre estes últimos.dispersa em famílias. que às vezes aumenta. antes de se constituírem as sociedades civis . porém poucos os aumentam. Portanto. a guerra (the militia). são proveitosas todas as leis que combaterem a indolência. era incluído em tempos passados entre as artes de ganho. o quarto fator. o dever dos comandantes supremos dirá respeito a elas. Quanto aos frutos da terra e do mar. eventualmente melhoraram tanto a república. o labor e a frugalidade . O mesmo também se pode dizer da riqueza privada. como tais leis são benéficas para os fins acima especificados. mas não hádúvida. e a humanidade .-- Do Cidadão Domínio geiro. No que diz respeito ao terceiro fator. de tamanho apenas suficiente para conter as casas de seus habitantes. 208 209 . são úteis aquelas leis pelas quais se proíbe todo gasto desordenado. se for excessiva. a arte da navegação . se for tão grande que permita reunir um exército. compradas quase que apenas pelo trabalho . somente. e de modo geral em todas as coisas que se consomem com o uso. que o mesmo número de habitantes poderia tornar-se ainda mais rico. portanto. a guerra.e a mecânica . E ainda há uma quarta.os frutos da terra e da água. sob o nome de pilhagem ou rapina. a saber. como Roma e Atenas. pelo menos manter a mesma riqueza. fossem eles em maior número.graças à qual uma cidade recebe mercadorias do mundo inteiro. Assim. a menos que sejam dadas garantias públicas. à lei de natureza. Mas uma tal espécie de enriquecimento não deve ser tornada em regra e modelo. Leis que incentivem o trabalho dos artesãos e moderem gastos ostentatórios contribuem para os súditos enriquecerem Há duas coisas necessárias para o enriquecimento dos súditos. se ela tivesse um território maior. porque todas as coisas obedecem ao dinheiro. como é o caso da lavoura e da pesca. Pois fazer rapina nada mais é que travar uma guerra com forças pequenas. que não apenas cessaram de exigir qualquer imposto dos seus súditos mais pobres. enquanto meio de lucro. Assim uma cidade constituída numa ilha do mar. já que há apenas três coisas . o labor e a frugalidade. graças aos despojos de guerra. o acréscimo natural da terra e da água. ou que fizeram quaisquer pactos ou ligas de defesa mútua entre si contra todos os demais.nome pelo qual compreendo as artes dos mais capazes artesãos . serão úteis as leis favorecendo as artes que aprimorem o progresso Cincrease) da terra e da água. Quanto ao segundo fator. através tão-somente do comércio e de artesanato. sem excetuar sequer os que detêm o poder supremo na cidade. as posses dos súditos. Por isso. mas com maior freqüência diminui. tanto em comida quanto em roupas. poderá enriquecer-se sem a lavoura nem a pesca. a saber. 14. ou. na mesma medida em que é verdade que as cidades mantêm entre si uma condição natural e de guerra. e que incentivarem a diligência Cindustry). Somente as duas primeiras são necessárias. ao tributo externo e aos territórios que adquiriram pela força das armas.considerava-a justa e honrosa. Há também uma terceira que ajuda. Igualmente o favor junto ao vulgo porta a facção no seu seio. aqueles príncipes que toleram facções fazem o mesmo que se recebessem um inimigo dentro de suas muralhas. também é ofício dos magistrados supremos decretá-Ias.que são convenientes para o enriquecimento dos súditos.

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15. As leis não devem determinar mais do que for exigido pelo bem do príncipe e de seus súditos A liberdade dos súditos não consiste em estarem imunes às leis da cidade, ou em haver restrições que impeçam os detentores do poder supremo de fazer as leis que quiserem. Mas, como nunca os movimentos e ações dos súditos se vêem circunscritos, todos, por leis - nem poderiam selo, devido à sua diversidade -, forçosamente haverá um número infinito de casos que não são ordenados, nem proibidos, mas nos quais cada um pode fazer ou deixar de fazer o que bem entender. Nestes, diz-se que cada qual goza de liberdade; e é neste sentido que se deve entender liberdade nesta passagem, a saber, como aquela parte do direito de natureZa que é reconhecida e deixada aos súditos pelas leis civis. Assim como a água, quando está cercada de todos os lados por margens, estagna e se corrompe, e quando não tem limites se espraia demais, e quanto mais passagens en contra mais livremente toma seu curso, também os súditos, se nada pudessem fazer sem a ordem da lei, se tornariam enfadonhos e pesados, e se tudo pudessem se dispersariam; assim, quanto mais coisas não forem determinadas pelas leis, de mais liberdade eles desfrutam. Ambos os extremos são defeituosos: pois as leis não foram inventadas para suprimir as ações dos homens, e sim para dirigi-Ias, assim como a natureza ordenou as margens, não para deter, mas para guiar o curso das águas. A medida desta liberdade deve ser retirada do bem dos súditos e da cidade. Assim, em primeiro lugar, vai contra o ofício daqueles que mandam e têm a autoridade de legislar que haja mais leis do que sejam necessárias ao serviço e ao bem do magistrado e de seus súditos. Pois, dado que os homens geralmente tendem a debater o que devem fazer, ou deixar de fazer, com base na razão natural mais do que no conhecimento das leis que existem, lá onde houver mais leis do

que seja fácil recordar, e que proíbam coisas que a razão não veda, nem a necessidade (necessity), então eles inevitavelmente recairão, por ignorância e sem a menor má intenção, nas sanções das leis, como se estas fossem ciladas armadas contra a sua liberdade inofensiva; e, pelas leis da natureza, os comandantes supremos estão obrigados a conservar para seus súditos essa liberdade.

16. Não se deve infligir castigo maior do que o previsto na lei Constitui parte substancial dessa liberdade, que é inofensiva ao governo civil, e necessária para que cada súdito viva em felicidade, que não haja penalidades a temer, a não ser as que ele possa tanto antever quanto esperar; e isso sucede, quando não há castigo algum definido pelas leis, ou não se pedem maiores do que elas estabeleceram. Quando a lei não define a punição, quem for o primeiro a violá-Ia aguarda um castigo indefinido ou arbitrário; e esse seu temor supõe-se que seja ilimitado, porque se refere a um mal sem limites. Ora, a lei de natureza manda aos que não estão sujeitos a nenhuma lei civil (pelo que dissemos no capítulo III, parágrafo 11), ou seja, aos comandantes supremos, que quando castigarem ou se vingarem não considerem tanto o mal passado e sim o bem futuro; e comete pecado quem se vale de qualquer outra medida, que o benefício público, ao infligir um castigo arbitrário. Já onde a punição está definida, seja prescrita por uma lei, como quando está dito em termos os mais claros que quem fizer isso ou aquilo sofrerá assim e assim - seja pela prática, como quando a penalidade (que não estava prescrita em lei alguma, mas foi arbitrária em seus primórdios) se determina a posteriori pelo castigo infligido ao primeiro delinqüente (pois manda a eqüidade natural que iguais

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transgressores sejam igualmente punidos) -, então, impor uma pena maior que essa definida pela lei vai contra a lei de natureza. Pois a finalidade do castigo não está em compelir a vontade do homem, mas em modelá-Ia, e em fazêIa tal como desejaria aquele que instituiu a pena. E deliberar nada mais é que pesar, como que numa balança, os convenientes e inconvenientes do fato que estamos tentando - sendo então que aquilo que pesar mais necessariamente, por sua inclinação, em nós prevalece. Se, portanto, o legislador estabelecer para um crime uma pena menor, que não chegue a fazer o medo ser mais considerável em nós que o apetite (lust), aquele 'excesso do apetite sobre o medo ao castigo, graças ao qual se comete o pecado, deve ser atribuído ao legislador, quer dizer, ao soberano; e portanto, se ele infligir um castigo maior do que ele próprio determinou em suas leis, ele punirá em outrem o pecado que ele mesmo cometeu.

qüência de aplicar as penas impostas pela lei, e desse modo derem aos perversos a esperança de escaparem impunes, então os súditos honestos, cercados de assassinos, ladrões e patifes, não terão a liberdade de conviver livremente entre si, e mal terão a de viajarem para longe (abroad} sem grandes perigos; mais que isso, a própria cidade estará dissolvida, e cada homem retomará seu direito a proteger-se segundo sua própria vontade. Por conseguinte, a lei de natureza dita esse preceito aos comandantes supremos: que não apenas eles mesmos façam justiça (righteousness), mas que também, por penalidades que fixarão, forcem os juízes por eles nomeados a agir da mesma forma - isto é, a ouvir as queixas dos súditos; e tantas vezes quantas se mostrar necessário eles escolham alguns juízes extraordinários, que possam ouvir assuntos debatidos relativos aos juízes ordinários.

17. Os súditos devem receber satisfação do governante contra os juízes que se mostrarem corruptos Faz parte, portanto, da liberdade inofensiva e necessária dos súditos que cada um desfrute, sem medo, dos direitos que lhe são reconhecidos pelas leis. Pois seria em vão que as leis distinguiriam o que é nosso do que pertence aos outros, se eles puderem novamente ser confundidos por um julgamento errado, pelo roubo ou pelo furto. Ora, estes podem suceder quando os juízes são corruptos. Isso porque o medo, pelo qual se dissuade aos homens de fazer o mal, não vem do fato de haver penalidades fixadas, mas do fato de elas serem aplicadas. Pois avaliamos o futuro com base no passado, raramente esperando o que raramente acontece. Se por isso os juízes, corrompidos por presentes, pelo favor ou até mesmo pela compaixão, deixarem com fre

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CAPÍTULO XIV

Das Leis e dos Crimes1

1. A diferença entre lei e conselho Quem não dá muita importância à força das palavras confunde por vezes a lei com o conselho, às vezes com pacto, e eventualmente com direito. Confunde lei e conselho quem pensa que é dever dos monarcas não somente ouvir os seus conselheiros, mas igualmente obedecer-Ihes como se toda vez que pedimos um conselho tivéssemos de segui-Io. Devemos diferenciar o conselho e a lei com base na diferença que há entre conselho e ordem (command). Ora, o conselho é um preceito no qual a razào para que eu o siga se deve a coisa mesma que se aconselha - ao passo que a ordem é um preceito no qual a causa de minha obediência reside na vontade de quem assim ordena. De "eu quero" não se conclui "eu ordeno", a não ser que esteja em tal vontade a razão para a obediência. Mas, se a obediência é devida às leis, não em função do assunto de que elas tratam, mas graças à vontade de quem as decreta, a lei não constitui um conselho e sim uma ordem. Ela assim se define: a lei é a ordem daquela pessoa - seja um indivíduo, seja uma assembléia - cujo preceito contém em si a causa da obediência. Assim é que os preceitos ditados por Deus aos homens, pelos magistrados aos súditos, e de modo geral todos os que são ditados por

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quem tenha poder àqueles que não lhos podem resistir, podem ser adequadamente denominados suas leis. Há, portanto, várias diferenças entre a lei e o conselho. Pode legislar quem tem poder sobre aqueles a quem se dirige; quem não possui tal poder apenas aconselha. Seguir o que está prescrito na lei constitui um dever; mas seguir o que diz o conselho depende do livre-arbítri02. O conselho se dirige para o fim escolhido por quem o recebe, enquanto a lei segue o fim fixado por quem a decreta. Só se dáconselho a quem o quer, mas se impõe uma lei mesmo a quem não a deseja. Para concluir, o direito do conselheiro é anulado pela vontade daquele a quem ele aconselha; mas o direito do legislador não se revoga segundo o prazer daquele a quem se impõe a lei.

2. Entre lei e pacto Confunde lei com pacto quem imagina que as leis nada mais sejam do que certos omologémata, ou formas de vida determinadas pelo consentimento comum dos homens. Entre esses está Aristóteles, que assim define a lei: Nómos ésti lógos órisménos kath 'ómologían koinen pólemos, menúon pos dei prattein ekasta: ou seja, a lei é um discurso, cujos termos são definidos pelo consentimento comum da cidade, que declara tudo o que devemos fazer. Mas esta definição não cobre a lei em geral, porém apenas a lei civil. É manifesto que as leis divinas não provêm do consentimento dos homens, nem tampouco as leis de natureza. Pois, se elas tivessem origem no consentimento dos homens, pelo mesmo consentimento poderiam também ser revogadas; mas são imutáveis. Aliás, a definição de Aristóteles não é correta nem para a lei civil. Ela considera a cidade, ou como uma pessoa civil, dotada de uma só vontade, ou como uma multidão de

indivíduos, cada um dos quais conserva livre sua vontade particular. Ora, se ela for uma pessoa só, o termo "consentimento comum" não tem cabimento - pois uma pessoa não tem consentimento comum. Nem é correto dizer que ela declara o que devemos fazer, pois na verdade o que faz é ordenar. o que a cidade declara é uma ordem para seus cidadãos. Aristóteles, assim, entendeu por cidade uma multidão de homens que declaram, por consentimento comum (imagine-se que se trata de um texto escrito confirmado depois pelos seus sufrágios), as formas pelas quais irão viver. Mas isso nada mais é do que uma série de contratos recíprocos que a ninguém obrigam e por conseguinte não constituem leis - enquanto não se constituir um poder supremo e dotado de força, que possa agir contra aqueles que, não fosse ele, provavelmente não respeitariam as leis. As leis portanto, de acordo com essa definição de Aristóteles, não passam de contratos nus e fracos, que somente a longo prazo, quando houver alguém com direito a exercer o poder supremo, poderão, a seu critério, tornar-se ou não leis. Quer dizer que ele confunde os contratos com as leis, coisa que nunca deveria ter feito: pois o contrato é uma promessa, a lei uma ordem. Nos contratos dizemos eu farei isso; nas leis, fazei isso. Os contratos nos obrigam3, ao passo que as leis nos mantêm obrigados. Um contrato obriga por si só; já a lei só conserva obrigada a parte que o firmou em virtude do contrato universal de obediência. Por isso, no contrato, primeiro se determina o que deve ser feito, antes que nos obriguemos a fazê-Io; enquanto na lei estam os, já, obrigados a cumprir o que só depois é determinado. Aristóteles deveria, pois, assim definir a lei civil: como um discurso, cujos termos são definidos pela vontade da cidade, ordenando tudo o que deve ser feito. Esta é a mesma definição que demos acima, no capítulo VI, parágrafo 9, segundo a qual as leis civis são a ordem daquele (seja ele um

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em naturais e positivas. segundo as duas 5. regulando as ações futuras de seus súditos. nossa liberdade é absoluta. e nessa condição. desde que sejam transpostos às cidades e nações enquanto tais. As leis divinas. a única que pode chamar-se lei de natureza. seu resíduo depois élimitado pela lei civil. das divinas. terá o nome de direito das gentes. e podem denominar-se leis civis divinas. que é a lei divina. isto é. isso em nada impede que seja proibido pelas leis civis porque leis inferiores podem restringir a liberdade concedida pelas leis a elas superiores. as cidades assumem a condição de pessoa humana.ou seja. em leis privadas e das gentes As leis se dividem. e lei das cidades. não há nenhuma lei além dos ditados da razão natural. que também pode chamar-se lei das nações. e das naturais. A lei natural. primeiro. Mas no governo civil o único legislador é a cidade. Há portanto uma grande diferença entre lei e direito . conforme quem for seu autor. porque eram peculiares ao governo civil dos judeus. uma vez constituídas. E os mesmos elementos da lei e do direito naturais. pode ser dividida em lei dos homens. em divinas e humanas. A divisão das leis. isto é. de que até agora falamos. por sua vez. nem a lei civil jamais poderá proibir o que a lei de Deus manda. e o que ainda resta pode ainda conhecer restrições na constituição de cada município (town) ou sociedade particular4. vias pelas quais Deus deu a conhecer sua vontade aos homens. em sagradas e seculares Toda lei humana é civil. podem ser considerados como os elementos da lei e do direito das gentes. aquela lei que chamamos de natural quando falávamos do dever dos homens individuais. e por isso se diferenciam como dois contrários. aquele homem ou conselho a quem o poder supre 218 219 . através da razão natural.porque a lei são grilhões. mas que o vulgo denomina "direito das gentes". Natural é aquela que Deus declarou a todos os homens através de sua palavra eterna. ~ 3. Entre lei e direito Confunde as leis com o direito quem continua a fazer o que era permitido pelo direito divino. Positiva é a lei que Deus nos revelou pela palavra da profecia. a liberdade natural é um direito que as leis permitem. enquanto o direito é liberdade. se o direito divino permite alguma coisa.Do Cidadão Domínio I indivíduo ou um grupo de homens) que detém o poder supremo na cidade. se dividem em naturais e positivas. Os preceitos de ambas são análogos. por sua vez. pelas leis naturais e divinas. Contudo. É verdade que aquilo que a lei divina proíbe nunca poderá ser autorizado pela lei civil. Ora. Mas como. antes de mais nada em divinas e humanas. uma vez removidas as leis. seu povo peculiar. ninguém estando sujeito a ninguém. assim que for aplicada a cidades e nações enquanto tais. e é esta a lei que no correr de todo o presente livro me empenhei em expor. Pois o estado dos homens. ou seja. 4. Mas ela se vê restringida. embora jamais a possam ampliar. Pois. é de guerra. civis. através da qual ele falou aos homens como homem. e não um que elas constituem. quando isso já foi proibido pela lei civil. considerados fora da sociedade civil. A divisão das leis humanas. se algo pode ser feito com base no direito divino. com eles nascida . Desta espécie são as leis que ele deu aos judeus para seu governo e o culto divino.

Sacras são as leis que se referem à religião. é proibitória. a não ser que por ela se entenda que a coisa é tua de modo que nenhum outro homem possa te impedir de usares e gozares dela livremente a qualquer momento. dar apenas às leis seculares o nome de leis civis. na medida em que não estejam fixadas por nenhuma lei divina positiva. é inútil impor qualquer proibição aos homens. Em distributivas e punitivas A lei civil. As leis civis podem dividir-se. a lei nada acrescenta. e dirige-se apenas aos magistrados públicos. A primeira delas chama-se distributiva. embora outro tire de ti o que colheste. 6. uma proibindo que se cometam injúrias. que nos permitam saber o que é propriamente nosso. às cerimônias e ao culto de Deus a saber.Do Cidadão Domínio mo da cidade está cometido. geralmente. um dos quais consiste em julgar. e uma vez promulgada tal lei não deixa de ser teu. Isso é o requisito para que haja propriedade de bens: não que alguém esteja capacitado a usá-Ios. o que somente sucede quando aos outros se proíbe perturbá-Io em tal uso. e fala a todos. onde todas as coisas são comuns a todos. coisas e lugares devem ser consagrados. o que é teu e o que é do outro são a mesma coisa: o que a lei define como sendo teu já o era antes mesmo de existir tal lei. que opiniões sobre a Divindade devem ser ensinadas de público. porque. quer explícita. supõe-se. ela será inútil. de modo que nem os outros possam impedir-nos do livre uso e gozo do que é nosso. quando o castigo não 220 221 . a segunda. Já punitiva é aquela que define o castigo que será infligido àqueles que violarem a lei. segundo teu próprio prazer e vontade. e estabelece ainda o que cada um pode legalmente fazer ou omitir. isto é. Ora. e sim duas partes da mesma lei. e com que rito devem ser feitas as súplicas. que tem por nome punitiva ou penal. e outras coisas análogas -. Por isso. e por isso as leis da cidade se chamam civis. por sua vez . Por exemplo. mas que tenha tal capacidade sozinho. quer implicitamente.porque no estado de natureza. tem duas partes: uma distributiva. isso não impede que continue a ser teu . 8. e o que não pode. Distributiva e punitiva não constituem diferentes espécies de lei. Pois as leis sacras civis são leis humanas sobre coisas sagradas (e também podem dizer-se leis eclesiásticas).isto é. ela estabelece as regras para todas as coisas. Pois. e com que palavras. o outro em forçar os homens a submeter-se a seus julgamentos -. que pessoas. nem possamos nós perturbá-Ios na serena posse de seus bens. em sagradas ou seculares. está anexa uma penalidade Disso também podemos concluir que toda lei civil tenha anexa uma penalidade. e costumase. é mandatória. A toda lei. Por isso é inútil toda lei que não tiver essas duas partes de que falamos. se a lei disser apenas que é teu tudo o que colheres no mar com tua rede. conforme a distinção do assunto de que tratam. o que é de outrem. É graças à parte distributiva que cada homem tem seu direito próprio . e de que maneira. ainda que esteja em posse de outra pessoa.e de acordo com os dois ofícios do legislador. se ao mesmo tempo não se induz neles um medo ao castigo. mas partes da mesma lei Mas distributiva e punitiva não são duas espécies distintas de lei. e outra castigando quem as praticar. 7. a outra punitiva (vindicative) ou penal. No segundo caso.

etc. no momento mesmo de constituição do governo. isto é. ou seja. que ele está proibido de interferir nos direitos alheios. terceiro. É impossível a lei civil ordenar o que quer que seja contrário à lei de natureza Considerando pois que nossa obrigação de respeitar tais leis antecede sua própria promulgação. Os preceitos do Decálogo. Não frustrarás as leis e julgamentos prestando falso testemunho. Assim. que é impossível qualquer lei civil. entre os pagãos a conjunção sexual era considerada como um legítimo matrimônio. que depende da vontade do legislador. todos os súditos já firmaram um pacto de obedecer ãs ordens de quem possui o poder supremo. nem pelo exemplo de ninguém que já tenha sofrido punição por transgredir a lei. e portanto também prestar obediência. a lei de natureza já obrigava no estado de natureza. quando a lei civil determinar que coisa pertence a outrem. Ora. onde. primeiro. estando incluída já na constituição da cidade (em virtude da lei natural que nos proíbe de romper os pactos por nós firmados). distinto dos que cabem aos outros.porque a natureza tudo deu a todos -. ou os que proíbem o assassínio. do comandante supremo. infringir a lei de naturezaS. ou seja.. parágrafo 2 . portanto.por isso tal subtração não constituía roubo. Com efeito. e portanto não era ilegal matar. com isso mandavam que tais bens fossem propriedade de quem os tirasse. que todo homem tem seu direito próprio. Da mesma forma. finalmente. 9. o adultério etc. a seus jovens que tirassem os bens de outrem. Por isso.antes mesmo que fosse possível violá-las. se for porém a lei civil que nos mandar invadir alguma coisa. quando estamos obrigados a obedecer antes mesmo de saber o que vio nos mandar. quando na Antigüidade os lace demônios permitiam.a lei de natureza nos manda cumprir os contratos. onde vigorava o estado de guerra. de obedecer às leis .como dissemos no capítulo III. 10. Com efeito. mas apenas implicitamente. e por isso nenhuma necessidade de prestar testemunho. como o que manda honrar pai e mãe. verdadeiro ou falso. pois . e por isso nada havia que fosse exclusivamente de outrem. e ainda re\ipeitar os bens dos outros. pelo capítulo VI. que não tenda a ofender a Divindade (em face de quem as próprias cidades não têm direito que lhes seja próprio. Não tirarás os bens de outrem sem a permissão do senhor. o roubo e o falso testemunho. sempre que tivermos firmado um pacto nesse sentido. segue-se que constituem leis civis os preceitos segundo os quais Não recusarás honrar teus pais da forma prescrita pelas leis. onde todas as coisas eram determinadas pelo julgamento de cada pessoa. Pois é inútil toda lei que possa ser violada sem castigo. e não de quem os tivesse perdido . Pois. e não se pode dizer que façam leis). quarto. 22 2 223 . primeiro . estamos totalmente obrigados a obedecer em todas as coisas. onde todas as coisas eram em comum. essa invasão não constituirá roubo. embora a lei de natureza proíba o roubo. Não matarás aquele a quem as leis te proíbem de matar. então se entende que a pena é arbitrária. por lei. e por isso nenhuma conjunção carnal infringia a lei. segundo. a lei de natureza manda-nos observar todas as leis civis. segundo. onde não havia julgamentos públicos. parágrafo 13. nada pertencia propriamente a ninguém.Do Cidadão Domínio estiver definido nem por escrito. As leis naturais já ()rdenam estas mesmas coisas. Segue-se. e por conseguinte também o respeito devido aos pais. constituem leis civis Das leis civis decorre. o adultério. adultério.

então. e essa ordem é a manifestação de sua vontade: não há portanto lei. transgride a lei. Porque. nós o reconhecemos como legítimo. notamos que ele jamais os desautora. quer expresso. o direito de legislar. isso em nada o desobrigará da obediência devida. numa cidade democrática. o que ele faz promulgando-a. para tornar conhecida a sua vontade. como poucos têm o direito de comparecer. a segunda é o significado mesmo da lei. não apenas se 12. A lei é a ordem do legislador. 13. ou pelo menos suposto. secretários. ou seja. Não digo que seja necessário e essencial à lei que se conheçam constantemente o legislador ou a coisa legislada. e a outros instrumentos análogos. e de ouvir abertamente as ordens do monarca ou dos nobres. porque ele bem se poderia lembrar de ambos. ou da própria lei. que deve publicáIas. isto é.Do Cidadão Domínio 11. 224 225 . porque a não ser assim não serão leis. do que dizem as próprias leis. segundo. porém. à assembléia que decreta as leis. mas para fazê-Io têm tantas razões que quase seria impossível que não acreditassem. por escrito ou pela voz daqueles cujo ofício consiste em proclamá-Ios. arautos e ao selo oficial. e que se pune quem. por esta mera exigência. quando desde o início os cidadãos constituem entre si uma forma de governo. temos outras razões para acreditar: vemos o príncipe ou o conselho supremo recorrer constantemente a certos conselheiros. porque a ninguém se poderia conferir o direito a legislar sem o seu consentimento e pacto. é preciso publicá-Ia e interpretá-Ia Já conhecer as leis depende do legislador. das quais a primeira é que quem publique a lei deve ter o direito de legislar. e portanto está na condição de quem não tem nenhuma obrigação. quem se ausentar deve necessariamente dar crédito aos que estiveram presentes. E por isso. quer suposto: expresso. de que homem ou assembléia possui o poder supremo. ele só pode se evidenciar (para falarmos em termos precisos e filosóficos) a quem as tiver recebido da boca mesma do governante. foi preciso conferir a estes poucos o poder de divulgá-Ias aos demais. pois basta que estes se tenham dado a conhecer uma só vez: e. Dessa forma. ou pelo menos ter para tanto uma concessão de quem o possui. se quisesse obedecer. Como se fica sabendo quem é o legislador Saber quem é o legislador depende do próprio súdito. onde cada um pode estar presente. Nas monarquias e aristocracias. Os outros nele acreditam. Na promulgação duas coisas devem estar presentes. Pois quem não sabe a quem ou a que está obrigado não tem como obedecer. ou quando por uma promessa se submetem ao domínio de um. se posteriormente o súdito se esquecer do direito do legislador. Além disso. Assim é que acreditamos que sejam editos e decretos dos príncipes o que nos é apresentado como tal. Para haver lei. é essencial que sejam conhecidos tanto o seu conteúdo quanto o seu legislador É essencial à lei que os súditos tenham conhecimento de duas coisas: primeiro. Para que se conheça a lei. se para nosso bem exigimos de nossos concidadãos que prestem obediência a um determinado poder. como quando eles se servem dos benefícios concedidos pelo reino e pelas leis para sua proteção e conservação contra terceiros. E assim nunca pode ser justa a desculpa de que ignoramos em quem reside o poder de decretar as leis: porque todo e qualquer homem sabe o que ele próprio praticou. não dando crédito a essas proclamações. se assim o quiser. Quanto ao primeiro ponto. ao fato de que as leis devem ser promulgadas pelo detentor do poder supremo. a menos que se manifeste a vontade do legislador.

descrendo deles. mas pela vontade do governante supremo. nem tampauco as orações dos sábios. mas uma voz: para fazê-Ia lei. e os pareceres dos juristas e o costume não constituem leis automaticamente. +I 22 6 227 . dessa espécie são as leis de natureza. 15. Pois o fato de que o governante permita que tais coisas se produzam constantemente é sinal suficiente e manifesto de sua vontade. Por exemplo.desde que nada se contenha na referida lei. e expressa-a de maneira evidente . Lei não escrita é aquela que não necessita de outra promulgação além da voz da natureza ou da razão natural. o mandamento não cobiçarás. Quanto ao significado da lei. é entre leis escritas e não escritas. interpretando-as. agora segundo a maneira por que são promulgadas. resulta. antes de haver a escrita para socorrer a memória. por faltar-Ihes a autoridade suprema. é contudo civil na medida em que se refere a nossas ações. que se manifesta no fato de que ele tenha tolerado a conversão em costume daquela sentença. na medida em que ela governa a vontade. é de entender que em todos os casos não mencionados nas leis escritas devemos seguir a lei da eqüidade natural. e ainda que os escritos dos intérpretes das leis não constituem lei. é inconcebível. 14. E neste caso serão acolhidas entre as leis escritas. a não ser na medida em que se convertam em costume graças ao consentimento do poder supremo. deve ser dirimida por aqueles a quem a autoridade suprema confiou o julgamento das causas e processos: pois julgar nada mais é que aplicar as leis. As leis naturais não são leis escritas. Por lei escrita entendo aquela que para tornar-se lei necessita da voz. aliás. e portanto anterior àinvenção das letras e da arte da escrita. que aceite seja subtraída qualquer parte de seu poder por algum de seus ministros ou magistrados. não os respeita. como também merece castigo quem. as leis eram postas em versos e cantadas. isto é. dos juízes. a voz basta. se alguma dúvida houver a respeito. que. é apenas uma lei natural. mas não por serem costume (que por sua mera força não constitui lei). E podemos saber a que pessoas se conferiu tal ofício da mesma maneira que sabemos a quem se concedeu autoridade para proclamar as leis. já o mandamento não roubarás constitui lei tanto natural quanto civiL Considerando assim que é impossível prescrever tantas regras universais que possam determinar todas as pendências que venham a surgir no futuro (e que podem ser em número infinito). Pois a lei de natureza embora se distinga da lei civil. que nos ordena distribuir igualmente entre iguais. que embora os livros de alguns filósofos expliquem as leis de natureza. Lemos. para recordá-Ia é preciso a escrita. Pois toda espécie de lei é por natureza tão antiga quanto o gênero humano. mas apenas graças ao consentimento do poder supremo Entendidas estas coisas. A distinção da lei civil em escrita e não escrita Outra distinção que se pode fazer nas leis civis. edito ou decreto. em primeiro lugar. ou de outro sinal bastante da vontade do legislador. que também pune aqueles que de maneira consciente e deliberada transgridem as leis de natureza. e isso em virtude da lei civil. aos casos particulares.Do Cidadão Domínio justifica quem lhes dá crédito e obedece aos editos e decretos promulgados por tais instrumentos. que derrogue o seu poder supremo. Por isso o que se requer para uma lei escrita não é um escrito. que se refere somente à intençã06. enquanto ele conservar a vontade de governar. não basta isso para denominá-Ias leis escritas. pouco importando que seja ela eqüitativa ou iníqua7. Com efeito.

Diferença entre um pecado cometido por fraqueza e por maldade Mas a fraqueza (infirmity) humana faz que possamos infringir as leis ainda quando as desejamos cumprir. ele se extraviará. do ponto de vista do raciocínio.Do Cidadão Domínio 16. e efetivamente o é. isso feito. e. na sua significação mais ampla. Devemos portanto investigar em que consiste censurar com e sem razão. mas isso é o mesmo que dizer que todos consideram más as coisas a que deram nomes que costumam ser tomados em mau sentido. o mal da culpa. diz ou quer. vendo como a prosperidade dos inimigos (porque por seu meio aumentam eles suas honras.isto é. compreende todo ato. que ora estima algo como bom. o adultério e outros atos análogos -. já que as mesmas ações não causam prazer nem desprazer iguais aos homens. é preciso . que a mesma coisa que quando ele pratica diz ser boa. Todo homem. Concluímos então que constitui culpa. como quando derrubamos a casa de outro homem. segue-se que compete a esta última determinar o que temos razão em censurar. que cada qual chama de bom o que deseja. porém apenas aquela que é censurável. e.para que haja pecado ou falta . afirme ser má quando é outro quem a faz. procura os meios que forem mais convenientes para o fim a que se propõe. como as únicas razões que existem são as dos indivíduos e a da cidade. diremos que errou. Mas. se partindo dos princípios mais evidentes construir seu discurso extraindo deles inferências continuamente necessárias -. quer não vá. contrariamente à razão da cidade. ~ 18. e o mesmo para todos os outros pecados. E assim. ou que esperamos vir a sentir mais tarde. ele seguirá por um caminho retíssimo. e que o mesmo homem. e ape 228 229 . isto é. Mas não estamos indagando se o roubo é um pecado. Pois o pecado segue-se ao erro. mas que pecou. ao raciocinar. quer ela vá contra a lei. Ora. Tal é a natureza do homem. Definição de pecado Mas. Eles bem podem concordar em alguns pontos gerais .por exemplo. do viés da ação e da intenção (wil!). a igualdade que se constata na natureza humana faz que a razão de um não seja mais adequada que a de qualquer outro. a palavra pecado é considera da num sentido mais estrito. assim como a vontade (wil!) se segue ao entendimento. para medir o que merece ser cen surado com razão. não basta que algo seja censurável. omite. sob a qual se contém toda ação imprudente.que possa ser censurado com razão. Além disso. bens e poder) e a dos iguais (devido à disputa que entre nós existe pelas honras) nos parece incômoda e má. que sejam pecado o roubo. ainda. quando falamos de leis. Se raciocinar direito . se assim não for. e não significa toda coisa cometida contra a reta razão. fará. E esta é a acepção mais geral do termo pecado. ou pecado. aquilo que um homem faz. 17. como quando construímos nossa própria casa sobre a areia. Isso porque todos nós medimos o bem e o mal segundo o prazer e a dor que sentimos de momento. resulta que o consentimento dos indivíduos não constitui base para determinar que ações devem ou não ser censuradas. e sim o que deve se denominar roubo. isto é. sucede que um considere boa a mesma coisa que outro tem por má. palavra e pensamento que vá contra a razão reta. e por isso é chamada ma/um culpae. O que significa a palavra "pecado" em sua acepção mais ampla O pecado. dada a diversidade de nossas afeições. dirá ou procurará algo contrário ao seu próprio fim. e de mau aquilo de que se esquiva. contrariamente às leis. imedia tamente depois o avalie por mau. Sendo assim tão diferentes entre si os que censuram.

ou que ele governe o mundo. mas é absurdo inferir disso que deva ser desculpada por imprudência ou ignorância. consistindo numa palavra ou ação pela qual o cidadão ou súdito declara que não mais obedecerá àquele homem ou conselho a quem se confiou o poder supremo na cidade. mas estes últimos. toda vez que sentem alguma esperança de ganho impune. ou que no correr da guerra se bandejam para o inimigo. assim como sucedeu aos gigantes em guerra contra Deus1o. não acreditando sequer que ele exista.isto é. e sim como um inimigo sofre em mãos do inimigo. aquela é a fraqueza de uma alma perturbada. Pois são inimigos aqueles que não têm o mesmo senhor nem são súditos um do outro. embora essa espécie de pecado constitua a maior e a mais danosa. e que ninguém possui um poder supremo que não lhe tenha sido concedido por nosso próprio consentimento: de que maneira então poderemos dizer que peca alguém que nega a existência de Deus. tal repugnância pode distinguir-se pela denominação. simultaneamente. e dirá ainda que. porque não lhe cumpriu as leis. Assim a irregularidade dos atos chamase adikema. pelo direito de guerra. O ateu. porém.Do Cidadão Domínio sar disso há razão em censurar uma ação assim cometida. todas as leis. a todas as leis. são maus (wicked). imprudências. Há. 19. O súdito pode declarar ter essa intenção (will) através de seus atos. ato injusto. e disso deriva uma obrigação de observar cada uma das leis civis . mas não como um súdito é punido por seu rei. é punido imediatamente por Deus ou então pelos reis que estão instituídos abaixo de Deus9. e a da mente adikía e kakía. e a quem. Quem peca apenas por fraqueza é uma boa pessoa mesmo quando peca. outros que negligenciam as leis. porque não lhe quer aceitar as leis . e em considerá-Ia pecaminosa. nem a lembrança de terem firmado um contrato nem o escrúpulo de terem dado sua palavra impede de violá-Ios. O que é traição Cada súdito. imediatamente. Nestes homens. e todos os que tomam em armas contra a cidade. por violar as leis. mesmo quando não pecam. que legalmente não se pode punir. Esse crime (trespass) é muito pior que qualquer outro pecado. deve porém ser considerada entre os pecados por " r 230 231 . ao poder soberano de um homem ou de um conselho. E disso se segue que o súdito que renunciar ao pacto geral de obediência renuncia. injustiça e malícia. os regicidas. por meio de pacto. ou que de alguma outra forma o condene? Esse homem dirá que jamais submeteu sua vontade à de Deus. E este o pecado a que se chama traição. esta a depravação de uma mente sóbria. como quando comete ou tenta cometer uma violência contra a pessoa do soberano. com efeito. ou de quem execute suas ordens. não será porém mais que um pecado de imprudência ou de ignorância. Essa argumentação pode ser aceita até o ponto em que alega que. se obrigou perante todos os outros a prestar uma obediência absoluta e universal (conforme se definiu acima. Desta espécie são os traidores. isto é.de modo que aquele pacto contém já em si. não apenas as ações. e portanto sua opinião constitua um pecado. 20. também a mente é contra a lei. e que não existe lei que não seja a ordem de quem detém o poder supremo. capítulo VI. Embora tanto a ação quanto a mente repugnem às leis. mesmo que se equivoque a este respeito. Em que espécie de pecado consiste o ateísmo Considerando que não há pecado que não constitua violação de alguma lei. parágrafo 13) a cidade. justamente porque pecar sempre é pior do que pecar uma vez.

22. E portanto ela deve ser punida. porém uma única. e tem direito de fazê-Io. e talvez um castigo mais duro. porém como inimigos ao governo . Como nos 232 233 . Palavras como estas e outras análogas constituem traição pela lei natural. de promulgar leis.. Do Cidadão Dominio o súdito também pode declarar essa intenção por meio de palavras.não pelo direito de soberania e domínio.porque. a obrigação que obriga aquilo a que já estamos obrigados é inteiramente supérflua. E no entanto ele pecará me nos. seja posteriormente cominada como tal . de alistar soldados. e não da lei civil. que nos proíbe de violar os pactos e a palavra dada. se algum soberano fizesse uma lei vazada no seguinte teor: Nâo te rebelarás. não como súditos civis. sa obrigação de obediência civil. por infringir a lei natural (embora. simples e universal. rompendo as leis civis.. e dizendo que ao governante não devemos obedecer de maneira absoluta.assim. decidir controvérsias. neste caso. porque não estará rompendo todas as leis de uma sóvez.como se a lei não proibisse propriamente a ação. mas em vez disso fixasse o cas 21. mas pelo de guerra. a lei de natureza. precede a lei civil. de impor tributos. reservando-a plena somente para Deus. que não constituía traição antes de se fazer a lei civil. a não se rebelar.. nem de firmar a paz. aos culpados. e o pecado de traição nada mais é que o descumprimento de tal obrigação. que é o que confere validade a todas as leis civis. se for declarado em lei que se considerará que renuncia à obediência pública (quer dizer: que comete traição) o homem que cunhar moeda. ou de fazer qualquer outra coisa sem a qual o Estado não possa subsistir. Por isso. não pelo direito de domínio. estabelecer penas. se os súditos já não estivessem obrigados antes disso a lhe obedecer. Mas pode acontecer que alguma ação. a saber. ou forjar o selo privado do rei. ela nada significaria . traidores e todas as outras pessoas condenadas por traição não são punidos pelo direito civil. e que por isso quem tenha sofrido o castigo cominado em lei não seria culpado perante Deus. ao chamar de traição aquilo que não o é naturalmente. Ora. mas pelo natural: isto é. negar a obediência por completo. Pode. mas pelo de guerra Disso decorre que os rebeldes. isto é. segue-se que pelo pecado de traição se rompe a lei que precedia a lei civil. tenha violado a lei de natureza que manda respeitá-Ias) . nenhuma lei teria força alguma. Pela traição não se rompem as leis civis. mas as naturais Mas o pecado que pela lei de natureza constitui traição é a transgressão da lei natural. já antes da civil. negando diretamente que ele ou outros súditos estejam obrigados à obediência. Não é correto distinguir a obediência em ativa e passiva Alguns pensam que é possível expiar os atos praticados contra a lei. ou negá-Ia em parte. 23. quando o castigo está fixado na própria lei e o punido se submete voluntariamente (willingly) a ele. a lei impõe de fato um nome mais odioso. mas isso não torna o pecado em si mesmo mais detestável. Com efeito. de nomear magistrados e ministros públicos. afirmando que o governante não tem direito de fazer a guerra segundo seu critério. quem fizer tal coisa depois de publicada a lei em questão será tão traidor quanto quem infringe as proibições antes citadas.

porém. constitui desres peito à lei. se a pena for capital ou grave. saber que os termos da lei podem ser entendidos em dois sentidos (conforme já dissemos acima.coisa a que ele não poderá ser obrigado. no outro. saber em que sentido se deve entender a lei. e no segundo apenas os que se resguardam do castigo. por exemplo: Não farás tal coisa a não ser que queiras ser castigado. porque comete o que a lei proíbe de fazer. pela mesma razão eles também poderiam deduzir que nenhuma transgressão da lei constituiria pecado. Por isso é vã a distinção que alguns estabelecem entre obediência ativa e passiva. já que pelo menos temos certeza de que não peca quem não a viola. quem peca por sua conta e risco. Sempre que houver qualquer dúvida sobre o significado da lei. como quando diz: Não farás tal coisa... Num deles a lei se entende en quanto proibição absoluta. mas. ou como se não pecasse. será pecado infringi-Ia. a lei contém uma condição.. que é lei de Deus.pelo capítulo m. 234 235 . mas sim ao magistrado. como se o que constitui pecado contra a lei de natureza. quando temos a liberdade de evitá-Ia. não peca. Depende da vontade do soberano. mas apenas condicional. Ou seja. posto que cada um deve gozar da liberdade que comprou por sua conta e risco. que deve proceder a seu castigo. Do Cidadão Dominio tigo sob forma de um preço. Pois cometer o que não sabemos se é pecado ou não. pudesse ser expiado mediante penas instituídas por decretos humanosll. No primeiro sentido. parágrafo 28 pecado contra a lei de natureza. e portanto . porque não se pode dizer que esteja proibido de executar aquilo cuja condição tenha saldado. e por isso não proíbe de forma absoluta. e como punição (Quem fizer isso será punido). Devemos. quem infringe a lei peca. aquele mesmo que deve o castigo está obrigado a impô-Ia . no primeiro sentido todos os homens estão proibidos de cometer tal ato. e como quer que depois ela venha a ser explica da. pelo qual se poderia comprar a licença de fazer o que a lei veda. no parágrafo 7). no segundo sentido. Se a entendermos segundo o primeiro sentido. no segundo. a parte punitiva da lei não obriga ao culpado. Ora. porém.

~ ~ t ~ to ~ ~ ~ ~ .

. não saberemos se as ordens do poder civil contrariam as leis de Deus. ou. Ora. deve ter nossa obediência em todas as coisas que não repugnem aos mandamentos de Deus. e por isso necessariamente. que as leis de natureza são os preceitos que nos capacitam a evitar tal estado. se não os conhecermos. é um estado de anarquia. ou por excessiva obediência à autoridade civil. CAPÍTULO XV No Reino de Deus por Natureza] 1.. Falta então apenas uma coisa para se tornar completa a compreensão de qualquer dever político: saber quais são os mandamentos de Deus. ou não. que não pode haver governo civil sem um soberano.que o estado de natureza. Pois.. por medo de pecar contra Deus. isto é. Para evitarmos ambos estes escolhos. nos mostraremos insubordinados à Majestade Divina. provamos . incorreremos em desobediência ao poder civil. como o conhecimento destas leis depende de conhecermos o reino em que elas vigem.com base tanto na razão quanto na escritura sagrada . Exposição do que se segue Nos capítulos anteriores. e que qualquer um que tenha obtido este poder soberano deve ser simplesmente obedecido. ou de guerra. temos de conhecer as leis divinas. ou de liberdade absoluta (condição em que vivem aqueles que nem governam nem são governados). 239 . precisamos começar falando a respeito do reino de Deus.

As leis de Deus. em que reina através dos ditados da razão reta. usando de preceitos e de ameaças. nenhuma lei de seu reino foi publica da desta maneira a povo algum. não por meio de atos. embora sejam governados pelo poder de Deus.. depois. eles publicam suas leis pela palavra escrita ou através da fala. Pois afirmase que reina quem governa. ainda que alguém negue a sua existência ou providência. revelação e profecia Somente governa por meio de mandamentos quem os publica perante seus súditos. Do Cidadão Religião 2. portanto. a saber. não é exatamente o mesmo que reinar. 1): O Senhor reina. que é particular. baseando-se este reino naquela natureza racional que é comum a todos nós. comova-se a terra2: o que significa: Deus é rei sobre toda a terra. e profético. chama-se profeta. nem temem suas ameaças. porque eles não entendem o que sejam os mandamentos e ameaças de Deus. e não deixará seu trono. tremam as nações. pela revelação imediata. Sobre quem se diz que Deus reina naturalmente O Senhor reina. ora. diz o salmista (Salmos 97. e a alguns homens a quem escolheu. a palavra racional. se não forem publicados claramente. Quanto aos homens. Pois os mandamentos dos go 240 241 . Embora a força (power) de Deus o faça governar os homens de tal modo que ninguém possa cometer nada se Deus assim não quiser. apenas esses que confessam ser ele o regente de todas as coisas. O reino de Deus é duPlo: natural e profético E. não reconhecem (acknowledge) porém nenhum de seus mandamentos. E acrescenta o mesmo salmista (Salmos 99. no reino de Deus. são declaradas de três maneiras: primeira. acreditando na existência de Deus. porém. A palavra sensível de Deus veio ter somente a bem poucos. mas a seu povo em particular. mas pela fala. fazendo-o operar milagres autênticos. 3. não crêem contudo que ele governe estas coisas inferiores. e diversamente a diversos homens. A elas correspondem as três maneiras pelas quais se diz que nós escutamos a Deus . cuja voz Deus assim utiliza para manifestar sua vontade aos outros. não consideramos como seus súditos os corpos inanimados ou irracionais. atribuímos a Deus um reino duplo: natural. de Deus. 4. segundo a diferença que há entre a palavra racional e a profética. a palavra sensível e a palavra profética. e fixado castigos para quem os descumprir. e não os contamos. de modo a suprimir toda desculpa de ignorância. para falar de maneira própria e acurada. pouco importando que os homens o queiram ou não. e que é universal sobre todos os que reconhecem seu poder divino. 1).. está assentado entre os querubins. Considera-se pertencerem ao reino de Deus. os sentidos e a fé. porque não acreditam que Deus exista. isto porém. que se supõe praticar-se quer por uma voz sobrenatural. não serão leis. isto é. porque ele não deu leis positivas a todos. As três vias pelas quais se apresenta a palavra de Deus:pela razão. e não têm outra via de tornar conhecida de todos a sua vontade. E por isso.a razão reta. e através da revelação falou Deus apenas a alguns em particular. em terceiro lugar. pelos ditados tácitos da razão reta. regozije-se a terra. no qual Deus também reina pela palavra profética. mas inimigos. Os demais não devemos chamar súditos. quer por uma visão ou sonho. vernantes são as leis dos governados. nem tampouco os ateus. embora estejam subordinados ao poder divino. como merecedor de seu crédito.. e acreditam que ele tenha dado mandamentos aos homens. nem mesmo os que. A este. quer por inspiração divina. Estas três maneiras podem dizer-se a tripla palavra de Deus. pela voz de alguém que Deus recomenda aos demais. pois estes últimos.

Isso porque todo direito sobre o outro provém quer da natureza. não se segue daí que seu direito a afligir e a matar dependa dos pecados dos homens. com argumentos que extraía de sua inocência. depois de ouvir a ambas as partes.por que o mal recai sobre os bons. E Deus também volta sua ira para os amigos de JÓ (jó 42. e não da vontade divina.. 4): Onde estavas tu (diz ele). não o condenando por injustiça ou algum pecado. como o direito de governar pode nascer do contrato. o que é mais grave. quando via a prosperidade dos ímpios. que fosse injusto Deus puni-Io ou matá-Io mesmo no caso de não ter pecado. Mas Deus. dado que a igualdade dos homens no tocante à força e a seu poder natural necessariamente acarretava a guerra. não tivessem como lhe resistir. mas simplesmente manifestando seu próprio poder (jó 38. A Escritura o confirma A questão que ficou célebre de tanto que foi discutida pelos antigos . portanto. Ora. mas também a dos filósofos e. para com os limpos de coração. em suas mãos. e eles o consideravam necessariamente culpado.. Pois eu tinha inveja dos loucos. As dificuldades que ela suscita não abalam a fé apenas do vulgo na Providência Divina. porém. e o mesmo direito se deriva da natureza na medida em que esta não o retira: pois. pouco faltou para que escorregassem os meus passos. e ele repelia sua acusação.. 1-3: Verdadeiramente bom é Deus para com Israel. rejeita a queixa de Jó. quer do contrato. embora sempre que Deus castiga ou mata um pecador ele o faça pelos pecados deste último. no capítulo V. 7): Porque não falaram dele o que era reto. o direito que cada homem tem a governar todos os demais é tão antigo quanto a própria natureza. o direito que Deus tem a reinar. 242 243 . os meus pés quase que se desviaram. até mesmo a de homens santos. provém exclusivamente de ser irresistível o seu poder. 6. como naturalmente todos tem direito a tudo. Enquanto a mim. Pois Jó e seus amigos haviam debatido mui to entre si. por sua própria voz. conforme declaramos acima.e portanto o Deus Todo Poderoso . então não haveria razão alguma para ele renunciar ao direito que a natureza lhe concedeu. por o verem punido. e esta a destruição da humanidade. Já mostramos. A razão pela qual ele foi abolido entre os homens foi tão-somente o medo recíproco. parágrafo 3: e a razão mandou renunciar a esse direito com o fim de se conservar a espécie humana.derivam seu direito de soberania de seu próprio poder3. Do Cidadão Religião 5. e o bem sobre os maus é a mesma que ora examinamos: por que direito Deus distribui o bem e o mal entre os homens. e confirmou seu direito com argu mentos que buscou. fosse afligido de tantas calamidades? Deus mesmo. devido a esse excedente de poder graças ao qual ele poderia preservar tanto a si mesmo quanto aos outros. embora ele fosse justo. como o seu servo já.. se um homem qualquer excedesse os outros em força a tal ponto que todos os outros. O direito de domínio sobre todos os demais permaneceria. e a pun~r os que infringem suas leis. Da mesma forma. E com que amargura jánão se lamentou a Deus que. não no pecado de Jó. no capítulo 11. quando eu fundava a terra? etc. isso não implica. se a intenção (will) de Deus ao punir pode considerar algum pecado anteriormente cometido. resolveu a dificuldade no caso de Jó. E. mas em seu poder divino. Salmos 73. somando as suas forças. O direito pelo qual Deus reina está fundado em sua onipotência Em seu reino natural. Por isso aqueles a cujo poder não pode haver resistência .

que mandam os homens cumprirem seus deveres uns para com os outros -. não tem cabimento aqui. a todos os 9. nada mais são que as leis naturais. se supõe). Do Cidadão Religião E da mesma forma se entende o que disse nosso Salvador no caso do cego de nascença quando. e ainda aquelas que a razão reta acrescentar. ou seja.. onde nenhum pacto ainda foi firmado e portanto o direito de governar deriva apenas da natureza. aquelas que expusemos nos capítulos II e m. tendo perdido a fé em suas forças para resistir. isto é. três paixões necessariamente acompanham a honra assim considerada: o amor. que dizem respeito ao poder. que não se batam contra o aguilhão... Pois a obrigação que decorre do contrato. ou da consciência de nossa própria fraqueza (com respeito ao poder divino)5. isto é.e é ela que nos faz dizer que o céu. duas espécies de obrigação natural: numa a liberdade é abolida por impedimentos corpóreos . na outra se suprime a liberdade (por esperança ou por medo).. que faz ser boa a opinião. e 245 244 . 7. porque ao mais fraco. a única alternativa que restou foi render-se ao mais forte. Não precisamos repetir quais são essas leis naturais ou virtudes morais. Há. evidencia-se então que as leis de Deus. da mesma forma que ele fez os outros animais estarem sujeitos à morte e à moléstia. a eqüidade. honrá-Ia é a mesma coisa que tê-Ia em alta estima. 12) que pelo pecado entrou a morte no mundo. pelo menos. e como por outro lado as leis dos reis apenas podem ser conhecidas pela palavra deles. respondeu Cristo (João 9. que reconheçam o poder e a providência divinos. se o direito de Deus à soberania decorre de seu poder. 8. nada mais é que a boa opinião que temos do poder de alguém. embora não tenham como pecar. As leis de Deus. e da qual falamos no capítulo lI. porém. perguntando-lhe os seus discípulos quem pecara para que nascesse cego. O que é honrar e cultuar A honra. Dessa última espécie de obrigação. 3): Nem ele pecou nem seus pais. e por isso honrar não é algo que reside na pessoa honrada. decorre que estejamos obrigados a obedecer a Deus em seu reino natural: pois a razão ordena. embora esteja dito (Romanos 5. A obrigação de prestar obediência a Deus procede da fraqueza humana Mas. e requeremos seu favor. do medo. propriamente dita. mas foi assim para que se manifestem nele as obras de Deus. nos capítulos II e III Como a palavra de Deus. em seu reino natural. e outras virtudes morais favoráveis à paz. a esperança e o medo. mas devemos investigar o que a mesma razão natural dita no tocante às honras e ao culto divino. é manifesto que a obrigação que os homens têm de lhe prestar obediência deriva da fraqueza deles (weakness)4. a terra e todas as criaturas obedecem às leis comuns de sua criação -. a justiça. Ora. a propósito da honra e culto devidos à Majestade Divina.. e que deduzimos dos ditames da razão a humildade. E destas paixões procedem todas as ações externas. são as que enunciamos acima. quando ele reina tão-só naturalmente. pelas quais aplacamos os poderosos. a misericórdia. não se segue disso que Deus não tivesse o direito de sujeitar os homens às doenças e à morte mesmo no caso de eles nunca pecarem. ele mesmo ou seus pais. em seu reino natural. Pois. é tãosomente a razão reta (assim. e sim na que lhe mostra sua estima. que leis sacras ela determina.

que ele fugiu. e outro arbitrário Se desejamos elogiar alguém por palavras ou atos. e esta significa poder. Entre tais atributos estão os termos genéricos que designam virtudes ou poderes. o culto pode ser ordenado . A isto podemos chamar de celebração ou elogio pleno e categórico.r Do Cidadão Religião que são os efeitos (e portanto os sinais naturais) da própria honra.quando segue a opinião de quem presta o culto. que um homem matou seu inimigo. mas por serem ordenadas: porque significam. e afirma-se que cultuamos aqueles cuja cólera procuramos aplacar. Mas também há termos que significam honra somente para uns. as ações que o expressam não honram por serem ações. o que supõe um poder. quer coisas honestas. forte. é um ato externo. que e o mesmo que magnificar. quer em atos . quando conferimos atributos ou títulos. quer vícios. aqueles que dependem do costume do lugar ou das prescrições da lei civil. segundo a diversidade das opiniões. sábia. o terceiro é uma declaração pública de felicidade. o culto que é orde 247 246 . ou cujo favor pleiteamos. nada: entre esses atributos estão as palavras que. honrar é o mesmo que cultuar". ou dogmaticamente. O culto consiste em atributos ou ações Todos os sinais do espírito consistem quer em palavras. O culto. encontramos algumas coisas que para todos os homens hão de significar honra. o segundo é uma declaração pública do poder atual. o que supõe a felicidade. ou orador. podemos dizer natural o culto que todos consideram honrado em todos os tempos. 10. obediência. imediatamente. ou congratulamos. forte. tirar os sapatos. ou suposição. sinal da honra interna. Dentre os atos. quando o fazemos usando de proposições. Afirmo que todas as espécies de honra se podem discernir. para outros significando o desdém ou. outro voluntário Ademais. como quando agradecemos. a que se chama makarismós. pelas quais sempre se entende que reconhecemos a virtude ou o poder alheio. ou obedecemos. a forma de fazer um pedido (de pé. isto é. quer designam virtudes. que alguns têm em alta estima e outros em baixa. porém.ou voluntário . e nesse sentido afirma-se que honramos as pessoas a cujo poder manifestamos. Em suma. e que não podemos entender em mau sentido. um grande respeito. 11. 12. e arbitrário aquele que varia conforme os lugares e os costumes. ambos remetem a três espécies de culto: o primeiro é o elogio. prostrado. Assim. assim como bom. como quando dizemos que a pessoa a quem queremos honrar é liberal.e por isso todo culto tem de consistir em palavras ou atos. Por exemplo. as preces e outras análogas. de joelhos). mesmo. elencamos a obediência.se obedece à ordem daquele a quem se honra . e. elogiamos e celebramos em palavras. por palavra ou ato. também se aplica a esses efeitos externos da honra. inclinar o corpo. o agradecimento. por sua vez. E elogiamos por meio de atos quando o fazemos por inferência. que é filósofo. ou ainda as fórmulas cerimoniais etc. o que supõe bondade. E há um culto natural. metálusis. quer desonestas. ou outra coisa. não só nas palavras. ou a declaração pública de bondade. assim. ou de que o poder há de perdurar pelo futuro. assim. como descobrir-se ao cumprimentar. entre as ações. Se for ordenado. A palavra honra. Um culto ordenado. ou por hipótese. justo e outros termos semelhantes. belo. mas também nos atos que os homens praticam. Ora.

e isso nada mais é que uma glória ou triunfo do espírito. Primeiro. retiram-lhe o governo do mundo e da humanidade. não existe. de culto. tendo a seu dispor o serviço e a assistência dos homens. e na verdade negam sua existência. a beleza. se não. quer temor. considerando-se que para algo ser voluntário tem de depender da vontade de quem o faz. como os homens consideram poderoso aquele a quem vêem ser honrado (ou seja. por amor ou medo. Já o culto privado pode ser voluntário. E devemos então reconhecer o que já mostramos em outro lugar. de quem manda ou aceita que o honrem consis 248 249 . que Deus é o mundo. dizer. ora. te em adquirir por esse meio o maior número possível de homens que. o culto pode ser público ou privado. que se concebe honrado. não 13. em nosso entender. Também têm uma opinião indigna de Deus os que. como alguns filósofos. precisamos considerar a causa pela qual as honras (worship) dão tanto prazer aos homens. a menos que a vontade de todos estivesse unida sob a ordem de um só. o que é o mesmo que dizer que Deus não exis te. considerando nada haver para que eles lhe tenham quer amor. Com efeito. de escárnio. a saber. Deus em verdade será para eles como se absolutamente não existisse. mas tantos cultos quantas pessoas houvesse cultuando Deus. sim. se considerarmos cada um dos que o tributam. que haja um Deus. O público. Já o culto voluntário confere honra apenas segundo a natureza das ações: se elas significam honra aos olhos de quem as pratica. ou como se o fossem. Pois. teria de haver não um culto único. Qual é o fim ou escopo do culto Para sabermos em que consiste o escopo e o fim do culto. aos que sustentam que o mundo não foi criado mas é eterno . é manifesto que deve ser reconhecida sua existência. é falar dele em termos desrespeitosos: porque. uma parte desse mesmo mundo). também. isto é. que a alegria Cjoy) consiste em alguém contemplar a virtude. Ora. Além disso. a força. ra zão por que caberia aqui o adágio quod supra nos. ou a alma do mundo (isto é. Depois. sucede que a honra aumenta graças ao culto. dentre os atributos que se referem à grandeza ou ao poder. Quais são as leis naturais a respeito dos atributos de Deus Para entendermos que espécie de culto a razão natural nos manda prestar a Deus. é voluntário. pode não ser voluntário. O mesmo se aplica. embora reconheçam sua . pois não podemos ter a intenção de honrar aquele que. Pois. considerando-o indiferente. Do Cidadão Religião nado consiste em obediência. e que a reputação de poder faz adquirir um poder autêntico.como não pode haver causa de uma coisa eterna. lhe sejam obedientes. no tocante à cidade. avaliado pelos outros como poderoso). Pois pela palavra Deus entendemos a causa do mundo. eles nada lhe atribuem. a amizade ou qualquer outro poder como sendo seus. nihil ad nos . comecemos pelos seus atributos. sim. dizendo então que o mundo é Deus. O objetivo (end). a ciência. isto é. trata-se. portanto. E. assim dizendo. se for prestado em segredo. ainda. os que significam algo finito ou limitado não indicam intenção alguma de honrar. pensam que ele não cuida destas coisas inferiores. negando que o mundo tenha causa eles negam. porém. 14. afirma-se que ele não tem causa. e isso contradiz a natureza da ação voluntária. quer das leis quer da modéstia. Além disso.onipotência. pois o que se faz em lugar aberto sempre sofre alguma restrição. amado e temido.-.o que está acima de nós não nos diz respeito.

a piedade.. mas como uma metonímia de seu efeito). ou que ele é uma coisa inteira . e só podemos conceber coisas finitas. quando atribuímos vontade a Deus. a esperança.o que seria uma tentativa de circunscrevê-Io dentro dos estreitos limites de nossa fantasia -. Nem quem diz que ele está em tal lugar: pois. como bom. que em nós nada são além de um tumulto da mente suscitado por objetos externos a pressionarem nossos órgãos. que é Deus. o que é. simplesmente. ao que é finito. o que bem convém à humildade e a um espírito disposto a prestar toda a honra que possa a alguém. Da mesma forma. é preciso que tenha limites e fronteiras de sua grandeza de todos os lados. e dependente de outro. eterno. Nem que ele se movimenta ou repousa: porque cada uma destas coisas supõe um ser que esteja em determinado lugar. não quiser dar a Deus qualquer título além dos que a razão ordena. porque o sofrimento caracteriza um poder limitado. embora esta palavra infinito signifique algo que é concebido pela mente. Ademais. porque são. forte.pois. como o apetite. não se segue que tenhamos qualquer concepção que seja de uma coisa infinitas. uma idéia em nosso espírito: pois tal idéia é concepção nossa. se dizemos que Deus deseja. e um para sua relação conosco. quando atribuímos a ele a visão e outros atos dos sentidos. deve então utilizar aqueles que são negativos. porém que escapa à nossa compreensão. ou então superlativos. mas para confessar nossa admiração e obediência. ou. nem devemos dizer que ele seja concebido ou compreendido pela imaginação. como por exemplo o arrependimento.Do Cidadão Religião honramos Deus de modo condigno. ou ainda indefinidos. e aquele amor a que também se chama luxúria. compreendendo em sua significação rei. que é o que existe ou. quando dizemos que uma coisa é infinita. já que não se pode entender por que alguém desejaria. afirmamos que ele carece de determinada coisa. Por isso. a ira. Quem. toda coisa finita é menor do que nossa possibilidade . justo. Por isso. sinais de miséria. a concupiscência. ou a compreensão. ainda. ou o conhecimento. Ora. como se disséssemos que ignoramos se tal coisa é limitada ou onde se encontram os seus limites. o que constitui um insulto a ele. Pois a razão dita um nome apenas para significar a natureza de Deus.porque se trata de atributos de coisas finitas. portanto. incompreensível ete. se lhe atribuímos menos poder ou grandeza do que poderíamos fazê-Io. mas devemos supor que haja algo análogo. para se dizer que algo esteja num lugar. esperaria ou ansiaria por algo. pois toda figura é finita7. são indignos de Deus os que significam a dor (a menos que esta não se tome por uma paixão. dele. Nem o honra quem diz que ele tem partes. Assim. E os usará não por querer dizer o que Deus é . 250 251 . altíssimo. como infinito. não deve ela ser entendida como a nossa. a que se chama de "desejo racional". mas apenas a impotência de nosso próprio espírito. todos estes. coisa em que não consiste a bem-aventurança. senhor e pai. po derosíssimo ete. ou a carência (want). como boníssimo. Nem que há mais Deuses: porque não pode haver mais infinitos. criador. quanto aos atributos da felicidade. E.. Tampouco honram a Deus o bastante aqueles que dizem que temos. a menos que seja uma coisa que não possua e de que tenha necessidade. não devemos supor que nenhuma coisa tal ocorra à Divindade: pois todos estes atributos indicam um poder que depende de outro. qualquer faculdade passiva. ou por qualquer outra faculdade de nossa alma: pois tudo o que concebemos é finito. nada significamos na verdade. nenhuma figura deve ser atribuída a Deus. rei e outros análogos. seria extremamente fácil atribuirmos ou designarmos algo mais. pois.

Por isso nada resulta dessas discussões. que jura: e só pode tratar-se. A esse propósito temos. ou ainda no interior de uma cidade. pelos princípios da ciência natural. por meio deles. a menos que seja na relação entre duas cidades. com a diferença de que as preces se fazem antes do benefício. porque constituem ações de graças. em primeiro lugar. no reino natural de Deus. temos a ação de graças: que é sinal da mesma afeição. Mas estamos tão longe de poder atingir. para maior certeza nos processos judiciais.pois nos dois casos o desrespeitamos. Ora. e que pode puni-l o se infringir sua promessa. tudo o que for oferecido em preces. isto é. Não devemos. Em segundo lugar. Em quarto lugar. isto é. porque. Qui fingit sacros auro. e a quem nenhum poder humano pudesse resistir. Segue-se ainda. oblações e sacrifícios. que também étemerário e desrespeitoso o discurso daqueles que dizem que tal ou qual coisa não é compatível com a justiça divina. pôr em discussão (dispute) a natureza divina. Pois. quanto ao direito que vige no reino de Deus. Quais são as ações pelas quais prestamos um culto natural Uma máxima geral da razão ordena. todas as coisas sejam investigadas apenas pela razão. as preces. Tampouco devemos jurar quando tal não for preciso: pois será. ou usá-l o de forma temerária . também. As vítimas também devem ser belas. a não ser uma precipitada imposição de nomes à Majestade Divina com base na limitada medida de nossas concepções. por mais poderoso que seja ele. Em sexto lugar. ou de forma vulgar. e por essa mesma razão não haveria necessidade de juramento. ille facit9. Pois. que não podemos sequer alcançar o conhecimento pleno de todas as qualidades de nossos próprios corpos. na sua espécie. para o caso de faltar à palavra dada. que tais ações e títulos atestem a disposição do espírito a honrá-Io. tal homem poderia infligir os castigos cabíveis. e as oferendas 252 253 . ou meçam a justiça destes por qualquer outra regra diferente do que eles próprios ordenaram. Deste preceito se segue que não podemos tomar o nome de Deus em vão. igualmente. pois. ou levianamente.Do Cidadão Religião 15. e a esperança significa um reconhecimento do poder ou da bondade de Deus. as preces devem ser belas e bem compostas. ação de graças e sacrifícios deve ser. o que melhor simboliza a honra. Em quinto lugar. Pois até os homens consideram como uma afronta que seus filhos discutam o direito dos pais. a ira de quem o conhece melhor do que ele próprio. o conhecimento da natureza de Deus. tomá-l o em vão. a palavra dada bastaria já sem necessidade de juramento. Pois as preces são sinal de esperança. embora fosse absurdo os gentios adorarem a Deus numa imagem. não jurar por ninguém a não ser Deus. qui roga!. no tocante às ações externas por meio das quais se deve adorar a Deus. se alguém houvesse de quem a malícia de seus súditos não pudesse se dissimular. por exemplo. É de supor que. não se deve rezar às pressas. não agiam eles contra a razão utilizando poesia e música em seus templos. falar de Deus com respeito: pois este é um sinal de medo. e aos títulos que lhe devemos dar. e os agradecimentos depois. ou dos de quaisquer outras criaturas. ela rompida. dádivas. Em terceiro. Isso porque quando alguém presta um juramento o que faz é invocar contra si mesmo. e sentir medo é reconhecer um poder. de Deus. vel marmores vultus. não há necessidade alguma de jurar por Deus. Non facit ille deos. para evitar ou pôr fim aos conflitos que necessariamente haveriam de nascer quando não se confia nas promessas feitas.

Ora. e adequadas para significar a submissão ou gratidão de quem as dá. mas abertamente e em público. a mesma razão natural ordena ainda que o culto seja uniforme. portanto também com o consentimento de todos os súditos. mas também naturalmente. não significam apenas devido às convenções humanas. quer expressa quer tácita. honrados para Deus. como por exemplo aproximar-se e falar de maneira decente e humilde. e dela extrai sua força. ou tudo aquilo que nos envergonhamos de praticar em frente das pessoas a quem respeitamos. e menos. na medida em que produz honra e estima nos outros (como jámostramos acima.Do Cidadão Religião suntuosas. as leis. os nomes que são atribuídos a Deus por uma convenção entre os homens podem. cada uma das quais constitui uma pessoa. estabelecidas no parágrafo anterior. ser convertidas em sinais de honra. Em sétimo lugar. Ora. que doutrinas devem ser pregadas e professadas sobre a natureza de Deus e suas operações. as ações praticadas pelos particulares. desde que essa coisa possa ser instituída como um sinal de honra. Se ninguém vê o culto que prestamos. que a razão dita a cada homem. no que se refere às cidades. um natural e outro que se constitui por acordo ou composição. em número infinito. pode pela vontade desses mesmos homens ser novamente alterado ou mesmo suprimido. isto é. quero dizer. Pois menosprezar os mandamentos de Nosso Senhor é a maior afronta possível . inversamente. não são ações da cidade. como em toda 254 linguagem o uso dos nomes e das apelações vem de uma convenção (appointment). As ações. Mas. que são indiferentes no tocante à honra ou ao descaso.assim como. ele perde o que possui de mais agradável. 255 . aqueles que têm o poder na cidade) de julgar que nomes ou títulos são mais. e portanto não constituem o culto da cidade. ser modificados. A cidade tem então o direito (quero dizer. devemos pôr nosso máximo empenho em cumprir as leis de natureza. No reino natural de Deus. de maneira uniforme. e basta esse decreto para que elas efetivamente se tornem honrosas. o que depende da convenção dos homens depende da cidade. isto é. pois tudo isso procede de um desejo de honrar uma pessoa. Deus não deve ser adorado apenas em lugares privados. em conformidade a suas razões privadas. Mas devemos considerar que há dois tipos de signo1O. Outros atos sempre constituem sinal de honra. ou ainda para celebrar os benefícios recebidos. Disso podemos entender que devemos obedecer à cidade em tudo o que ela mandar que usemos como sinal para honrar a Deus. assim como os efeitos são sinais de suas causas. São estas as principais leis naturais relativas ao culto de Deus. como por exemplo quando descobrimos as partes sujas do corpo. por uma convenção também pode ser alterado . apenas nos mandam dar os sinais natu rais de honra. 16. Finalmente. pela mesma convenção. e a razão é que será sinal de honra tudo o que por ordem da cidade assim for utilizado. e podem. a cidade pode determinar o culto que quiser a Deus As leis naturais sobre o culto divino. Por isso. à vista de todos: porque esse culto é muito mais aceitável. isto é. Essas ações a cidade em nada pode alterar. a obediência é mais bem aceita que todos os outros sacrifícios. Assim. porém. algumas sempre constituem um sinal de desrespeito àqueles diante dos quais são cometidas.pois o que depende da vontade dos homens. enquanto o que a cidade faz entendese que é feito por ordem de seu soberano. para seu culto. por decreto da cidade. Com efeito. ceder a passagem a outrem ou qualquer outra deferência. no parágrafo 13). Mas há outras.

necessariamente o transferiu. quem aos outros parece fazê-lo. só o honra externamente. toda espécie de opiniões absurdas sobre a natureza divina. a cidade . como a judicatura nada mais é que a interpretação das leis. é um signo de verdade aquele que se torna tal por consentimento dos homens. o outro não pareceria honrar a Deus. isto é.pois. e tudo o que Deus manda. os súditos de transferirem a quem tenha o poder soberano o seu direito de julgar de que maneira devem cultuar a Deus. penso haver demonstrado já. pois só lhe presta culto. é mandado por Deus mesmo. do homem ou conselho a quem cabe o poder soberano. Quanto às leis sagradas. como não existe ninguém que não se possa enganar no raciocínio. os detentores do poder soberano. que cada um acreditará que todos os demais ofendem a Deus. Quando Deus reina apenas por natureza. tudo o que ele mandar. aos olhos de um. então.Do Cidadão Religião 17. e. o homem ou assembléia que abaixo de Deus tem a autoridade suprema da cidade . tanto as sagradas quanto as seculares. Quanto às leis seculares. ou 257 256 . são os intérpretes das leis. e que disso decorre que os homens tenham as opiniões as mais diferentes a propósito da maior parte das ações. devemos considerar o que acima demonstramos no capítulo V. alguém pode objetar. por ordem da cidade. manifestada apenas pela via da razão. Por isso não contradiz a vontade de Deus. da mesma forma. isto é. portanto. a não ser o que parece constituí-ia aos olhos dos outros.é intérprete de todas as leis Já dissemos o que são as leis de Deus. Por outro lado. por toda a parte as cidades. que é conforme à razão que toda a judicatura pertença a cidade.isto é. de ninguém. isto é. de suas leis. manda por sua voz. Disso decorre. A solução para algumas dúvidas Contra o que dissemos. Mesmo aquilo que fosse o mais adequado à razão não constituiria um culto. se disso não se segue que devemos obedecer à cidade até quando ela nos mandar afrontar diretamente a Deus. isto é. que cultue a Deus. Ora. Mais que isso. sinal interno de que se honra. E cada indivíduo pode submeter sua razão particular à razão da cidade como um todo. Que ele pudesse transferi-lo é o que constatamos do fato de que. é honroso o que se torna sinal de honra por consentimento dos homens. tanto sacras quanto seculares . Ademais. circularão todas a um só tempo na mesma cidade. portanto. ele. Ora. antes de se constituir a cidade. e não há sinal a não ser quando algo se torna conhecido dos outros. parágrafo 13: que cada súdito transferiu ao detentor da autoridade suprema tanto direito quanto pôde. necessariamente um julgaria a maneira do outro inadequada ou mesmo ímpia. de outro modo. tanto sobre o culto de Deus quanto em negócios seculares. como ele podia transferir seu direito a julgar de que maneira Deus deve ser honrado. no seu governo apenas natural. Podemos assim concluir que a interpretação de todas as leis. e as cerimônias mais ridículas que já tenham sido usadas em qualquer nação que seja. Nada impede. 18. e portanto não há sinal de honra. a maneira de honrar a Deus decorria da razão particular de cada homem. se cada qual seguisse sua própria razão no culto de Deus. por elas entendendo as que dizem respeito à justiça e à conduta dos homens uns em relação aos outros. por isso não se poderá dizer. sendo tão numerosos os que prestam culto. tributar-lhe os sinais de honra que a cidade ordenar. pode-se indagar então quem Deus escolheria como intérprete da razão reta. primeiro. pelo que disse sobre a constituição da cidade. porque a natureza do culto consiste em ser. depende da autoridade da cidade.no reino natural de Deus -. Além disso. eles têm o dever de transferir esse direito . isto é.

se nos mandarem chamar Deus por um nome cujo significado ignoramos. embora essa espécie de atributos possa eventualmente contradizer a razão reta. Depois. pedir as coisas que sóDeus pode dar. e que em tal caso não devemos obediência. e por isso. a questão será se devemos obedecer. a sua condição. à frente de pessoas que consideram tal prática honrosa. Há muitas coisas que podem ser atribuídas. oferecer-lhe o que só Deus pode aceitar. Por isso. se o homem ou conselho que detém o poder supremo nos mandar adorá-lo com os mesmos atribu tos e ações pelos quais se deve prestar culto a Deus. isto é. por exemplo. que reconhecemos o poder civil como tal. Pois o culto é instituído em sinal de honra. ainda quando os próprios príncipes nos mandem utilizá-Ias. correntemente. Pois essas coisas parecem tender a afirmar que Deus não reina. O mesmo juízo devemos emitir sobre todos os atributos e ações acerca do culto apenas racional de Deus. Mas a única coisa que aqui devemos considerar é o que significam tais atributos e ações. para quem a razão reta nas questões controversas consiste em se submeterem à razão da cidade. isto é culto divino.pois podem significar. a segunda. ainda assim não vão contra a razão reta. mas de que seja possível inferir. Mas a genuflexão. devem ser evitados por nós. Pois o que fazemos para honrar (sem entender que tenha outra finalidade). meramente. possa constituir uma maneira de culto. pois mesmo os homens podem ser elogiados e magnificados. 258 259 . nenhum dos que confessam que Deus reina tinha. Pois ninguém poderá entender que fazer uma afronta. ou do qual não sabemos como se pode conciliar com a palavra Deus . Além disso. nem constituem pecado entre os súditos. O culto divino tampouco se distingue do civil por qual quer ação usualmente compreendida nas palavras latreía e douleía. pelo raciocínio. postura. hábito ou gestos do corpo. então. conseqüências ofensivas: como. os atributos que manifestem a crença de que um certo homem dispõe de uma soberania independente de Deus. estamos nos recusando a ampliar a honra de Deus. antes da constituição da cidade. e honrá-lo desta forma é um sinal de honra. se fizermos a mesma coisa enquanto sinal de nosso reconhecimento de seu poder civil. Com efeito. e outros análogos. tal como a chuva ou o bom tempo. que devemos obedecerl1. se nos mandarem adorar Deus numa imagem. como rezar aos ausentes. como vítimas e holocaustos. e sim pela expressão (declaration) de nossa opinião sobre aquele a quem honramos. se nos lançamos aos pés de um homem. com a intenção de declarar por esse sinal que o consideramos como Deus. Ou. mas definem ambas a mesma coisa. este gesto consiste em culto civil. mas. Assim como devemos abster-nos das ações que tenham o mesmo significado. ou prestar-lhe o maior culto que se pode tributar. o culto divino não se distingue do civil pelo movimento. e portanto possa constituir pecado em quem os manda proclamar. o que consiste em sacrifícios. tanto a Deus quanto aos homens. das quais a primeira marca o dever dos servos.Do Cidadão Religião quando nos proibir de adorá-lo? Afirmo que isso não se segue. é sinal de honra. que possam dar ensejo a controvérsias e disputas. Assim. Finalmente. Pois. a prostração ou qualquer outro movimento do corpo podem ser legalmente utilizados mesmo no culto civil . não poderia transferir à cidade o direito de ordenar tais coisas. ou tem um poder infinito. o direito de negar a ele a honra que lhe é devida. direi. portanto. ao contrário do que supúnhamos desde o princípio. E há muitas ações pelas quais Deus e os homens receberam honra. ou não prestar culto algum. se nos perguntarem se devemos obedecer à cidade caso ela mande dizer ou fazer algo que não constitua diretamente uma ofensa (disgrace) a Deus. e amplia a honra de Deus junto àqueles que consideram tal gesto honroso.também aqui devemos obedecer. se nos recusamos a agir dessa forma. se for tomado por sinal de honra. ou de que é imortal.

Pois esta procede do medo. quando amputado da reta razão. reinando enquanto isso por intermédio de um vice-rei. Este quarto pecado. por palavras e atos. ou o dê a outra pessoa. Terceiro. e adoraram espíritos ou visões vãs. e aquele resulta de uma opinião da razão reta. porque imaginam não serem capazes de se protegerem a si próprios de maneira suficiente.pelo que já dissemos no parágrafo 2 do capítulo anterior . é .o pecado de traição contra a Majestade Divina. conseguissem evitar os escolhos tanto do ateísmo quanto da superstição. o medo das coisas invisíveis. era quase impossível que os homens. se não adoram a Deus katà tà nómika. e quase todas as nações cultuaram a Deus em imagens e símiles de coisas finitas. Com a superstição possuindo as nações estrangeiras.Do Cidadão 19. por meio do qual ela poderia trazer os homens a cultuá-Ia . boníssimo. se não adoram a Deus. em primeiro lugar. quando Deus reina apenas pela via da razão natural. A idolatria por isso facilmente se apoderou da maior parte dos homens. CAPÍTULO XVI Do Reino de Deus Sob o Antigo Pacto1 1. Quarto. Com efeito. no reino natural de Deus. como podemos ler na história sacra. a quem portanto temem. beatíssimo. se faltam com as leis ou ordens da cidade nas coisas atinentes à justiça. se não confessam perante os homens. por ter consciência de sua própria fraqueza e por sentir admiração ante os acontecimentos naturais. Contudo. e o que é traição à Majestade Divina Do que afirmamos se pode concluir que. quando lhe falta o medo. mas quem obedecer de forma tão absoluta ao vice-rei. ou seja. a que falta a razão reta. Mas aprouve à Majestade Divina. sucede o seguinte: a maior parte dos homens acredita que seja Deus o invisível artífice de todas as coisas invisíveis. constitui superstição. de todo o gênero humano escolher a Abraão. que nós desenvolvemos nos capítulos II e III. que existe um único Deus. 260 261 . Ora. altíssimo. sem uma assistência especial de Deus. a ponto de segui-Io até nessas exceções. O que no reino natural de Deus é pecado. seus súditos pecam. Em segundo lugar. o uso imperfeito de sua razão e a violência de suas paixões a tal ponto os cegaram que eles não puderam cultuá-Io da forma correta. rei supremo do mundo e de todos os reis deste mundo: isto é. Certamente quem não obedecer ao vice-rei em todas as coisas estará pecando contra o rei. Deus instituiu a verdadeira religião por meio de Abraão Com o gênero humano. I. Assim. talvez temendo chamá-Ios de "demônios". é o pecado de ateísmo. aqui os pecados procedem exatamente como num reino do qual suponhamos que o soberano se tenha ausentado. Pois consiste em negar o poder divino. se violam as leis morais. será réu de traição. a menos que o substituto usurpe o trono para si mesmo.

Livro I. o Criador do universo. a cabeça da verdadeira religião. e que Abraão.Do Cidadão Religião corretamente. Pelo pacto entre Deus e Adão. Por conseguinte. De modo que parece que. Pois os frutos da árvore. mas sim o dele tal como apareceu a Abraão Mas. E te darei a ti. mas também por meio de pacto.razão por que se acrescentou. 10-11): Este é o meu pacto. pecaminoso. portanto. como entender que não fosse supérfluo Deus comprar a um preço e mediante contrato uma obediência que já naturalmente lhe era devida? Esse preço consistiu na terra de Canaã. pelo menos de passagem. Abraão é. e a tua semente depois de ti. a origem do reino de Deus (que é só dele que aqui tratamos) não se deve buscar neste local. 2. proíbe-se toda discussão sobre as ordens dos superiores No começo do mundo. ele já era isso. capítulo 7. A fórmula do pacto entre Deus e Abraão O pacto entre Deus e Abraão foi assim formulado (Gê nesis 17. isto é. . que guardareis entre mim e vós. se não houver um mandamento. como esse pacto logo perdeu a validade. a não ser a devida por pacto. dada a Abraão sob a condição de que ele o aceitasse por seu Deus .quando. como sinal perpétuo de seu pacto. ele não queria que os homens lhe prestassem nenhuma outra. Antiguidadesjudaicas. que pelo preceito de não se comer da árvore do conhecimento do bem e do mal (quer estivesse proibido julgar do bem e do mal quer comer o fruto de determinada árvore) Deus exigia uma obediência simplicíssima a seus mandamentos. e à tua semente depois de ti. e por isso revelou-se sobrenaturalmente a ele. considerando que Abraão reconheceu a Deus como Criador e Rei do mundo já antes do pacto (pois ele jamais pôs em dúvida a existência ou a providência de Deus). além da obediência ditada pela razão natural. e isto será por sinal do pacto entre mim e vós. Foi então preciso instituir algum sinal. nada têm em sua natureza que torne o comêlos moralmente mau. e que Deus daria a Abraão a herança daquela terra em que vivia. Nesse pacto não está contido o mero reconhecimento de Deus. Pactuou-se portanto que Abraão reconheceria a Deus como seu Deus e Deus de sua semente. que é chamado o antigo pacto ou testamento. a tua semente depois de ti em suas gerações. 4. Deus reinou de fato. para te ser a ti por Deus. apenas como peregrino. a que se originasse no consentimento dos próprios homens. não apenas naturalmente. e a tua semente depois de ti: Que todo o macho vos será circuncidado. 7-8): E estabelecerei o meu pacto3 entre mim e ti e 262 263 . tomaria as providências para que ele e seus descendentes varões fossem circuncidados. isto é. isto é. que se submeteria para que ele o governe. E circuncidareis a carne do vosso prepúcio. Mas deve-se notar. Mas.. para nunca mais ser renovado. E nele se origina o reino de Deus pela aliança2. e a tua semente depois de ti. foi ele o primeiro que depois do dilúvio ensinou que havia um Deus. sobre Adão e Eva. por pacto perpétuo. a circuncisão. a terra de tuas peregrinações4. toda a terra de Canaã em perpétua possessão. e firmou com ele e sua semente aquele famosíssimo pacto. e ser-lhes-ei Deus. Flávio ]osefo. por essas palavras: para te ser a ti por Deus. não entendemos que Abraão cumpriu sua parte no pacto apenas reconhe 3. este. pelo direito de natureza. não cabendo sequer disputar se era bom ou mau o que assim mandava. mas como um sinal e nada mais (vv. ao pacto. que permitisse a Abraão e a sua semente conservarem a memória do pacto .

mas que ele devia reconhecer definidamente a quem lhe disse: Saite da tua terra etc. 264 265 . Pois eles se submeteram simplesmente a Deus. Abraão era o intérprete da palavra de Deus. e a Abraão antes de se sujeitarem ao Deus de Abraão. mas também de sua semente . e de todas as leis Assim Abraão era intérprete de todas as leis. Por isso se evidencia que Abraão não estava obrigado a nenhuma lei ou culto. para cobrar com justiça e juízo. ou fazer algo expressamente contrário à honra de Deus.5 (Gênesis 12. e não a razão. 1-2). na forma de três homens celestiais. ou que este fosse veraz em suas promessas.Do Cidadão Religi ão 6. e que o Deus de Abraão não significava apenas Deus. coisas em que todos acreditam. como Deus Criador do universo. Levanta agora os teus 0lhosetc. Porque eu o tenho conhecido. Mas é claro que Abraão acreditava que aquela voz fosse a de Deus e consistisse numa revelação verdadeira. a palavra de Deus deveria ser colhida tãosomente de seus lábios. ou que Abraão as tenha dado a sua família. tanto sagradas quanto seculares. que apareceu à sua frente (Gênesis 18. As leis às quais Abraão estava obrigado eram apenas as leis de natureza e a da circuncisão Mas não lemos que Deus tenha dado leis a Abraão. do culto racional e da circuncisão. que é assunto de fé (versículo 13). 1-2). a do mandamento da circuncisão. nessa época ou mesmo depois. e o era não apenas naturalmente. Os súditos de Abraão não pecariam ao lhe obedecerem Disso decorre que os súditos de Abraão não podiam pecar ao lhe obedecerem. sendo ele o intérprete de todas as leis e palavras de Deus. e ainda num sonho. e de que maneira ele deveria ser cultuado. e que sua fé se fundava não em que ele acreditasse na existência de Deus. em virtude das leis de natureza. Pois somente Abraão poderia ensinar-lhes quem era o Deus de Abraão. E aqueles que depois da morte de Abraão estiveram sujeitos à soberania de Isaac ou de Jacó pela mesma razão obedeceram a eles em todas as coisas sem com isso pecarem. se seus filhos não estivessem obrigados a obedecer a suas ordens. não era o culto da razão mas o da religião e fé. não se sabe.assim como o culto. perante aqueles que a ele pertenciam. lhe tinha revelado pela via sobrenatural. no qual Abraão promete a obediência não só de si próprio.o que seria ocioso e vão. desde que Abraão não lhes mandasse negar a existência ou a providência divinas. E como se poderia entender que Deus diga (Gênesis 18. 18 19): Nelé serão benditas todas as nações da terra. que nessa concepção Abraão devia a Deus. com uma única exceção. e em visão (Gênesis 15. antes de se submeterem a Abraão. a não ser às leis da natureza. e da 5. Sob que forma Deus apareceu a Abraào.Junto a seus dependentes. que assim lhe falou. que ele há de ordenar a seus filhos e a sua casa depois dele. e que Deus. e queria que todos os seus adorassem àquele. 7. Em todas as outras coisas.6 (Gênesis 13. mas no fato de que não duvidava que fosse Deus aquele cuja voz e promessas ele tinha ouvido. coisa que compete à razão natural. mas também graças ao próprio pacto. se não fosse pela suposição de que seus filhos e sua casa estavam obrigados a prestar obediência ao que ele lhes ordenasse? cendo a Deus indefinidamente. enquanto confessaram e professaram ter por Deus o Deus de Abraão.14). que está contido no próprio pacto. 1). para que guardem o caminho ao senhor. fossem elas seculares ou sagradas. por que espécie de som ele lhe falou. mas aquele Deus que a ele apareceu .

uma vez concedido o consentimento de cada homem. Ainda mais tarde. nos seguintes termos: Ora. Do Cidadão Religião mesma forma ao Deus de Abraão. devemos considerar com atenção a palavra reino. tão renomado nas Escrituras e nos tratados dos teólogos. que não era apenas o mais livre dentre todos. que Flávio Josefo menciona no Livro XVIII. E mais tarde. Pois. quando Deus não se intitula apenas Deus. por exemplo. Desde então o governo de Deus chamou-se o seu reino Nesse pacto. se diligentemente ouvirdes a minha voz. Então (v. mas também de todos o mais avesso à sujeição humana. segundo a orientação das Sagradas Escrituras. e depois com Jacó (Gênesis 28. o pacto que ele celebrara com Abraão. quando aquele povo. por intermédio de Moisés. nem haviam celebrado nenhum pacto com Deus. seus príncipes naturais. Mas agora. Concordam estes quanto a todo o resto com os fariseus. O pacto de Deus com os hebreus no monte Sinai Prosseguindo. como a natureza diz que ele é. Isaac e Jacó. na qualidade de súditos seus. mas distintamente o Deus de Abraão e Isaac. como o que foi instituído por Abraão. ele diz (Êxodo 3. quando está a ponto de renovar o mesmo pacto. embora Deus fosse seu rei. E desde então puderam os súditos facilmente discernir o que deviam observar. e o que evitar. e o Deus de Jacó. o vosso Rei. e guardardes o meu pacto (a saber. bem como o que falou Samuel aos israelitas (1 Samuel 12. mas reinarásobre nós um rei: sendo porém o Senhor vosso Deus. adorar Deus por outro culto que o instituído por Abraão. mas. esse crime também incluía negar o Deus de Abraão. ainda. ainda que me desposei com eles1\ e a doutrina. exceto na medida em que suas vontades estavam englobadas na vontade de Abraão.. que por isso foram chamadas de idólatras. capítulo 2. 6): Eu sou o Deus de teu pai.. contudo eles lhe deviam uma obediência e culto apenas naturais. passou a haver um reino instituído de Deus sobre eles. e ainda o que está dito em Jeremias C31. 9. 266 267 . enquanto súditos de Abraão. e refere-se a ele o que Deus disse a Samuel. 13-14). O reino de Deus. foi Judas Galileu o primeiro autor dessa quarta via dos que estudavam a sabedoria. com todo o povo de Israel. E vós me sereis um reino sacerdotallO e o povo santo. o Deus de Abraão. 31): Farei um pacto novo etc. o mesmo pacto foi renovado com Isaac (Gênesis 26.. e disseram: Tudo o que o Senhor tem falado. ou seja. quando os israelitas pediram um rei (1 Samuel 8. na medida em que este era seu príncipe. de Judas Galileu. 12): Vós me dissestes: Não. exceto em que ardem com um perpétuo desejo de liberdade. Isaac e Jacó). e uma obediência e culto religiosos. 3-4). 8) todo o povo respondeu a uma voz. o antigo pacto lhes foi proposto para ser renovado da seguinte maneira (Êxodo 19. nas ordens que lhes dessem seus príncipes. antes a mim me têm rejeitado para eu não reinar sobre eles. acampou no deserto próximo ao monte Sinai.. o único crime de lesamajestade divina consistia em negar a Deus. tanto naturalmente quanto pelo pacto firmado com Abraão. em sua posteridade. o Deus de Isaac. que não fora usada antes. das Antiguidades Judaicas. entre outras coisas. Pois eles não haviam recebido palavra alguma de Deus além da palavra natural que consiste na razão reta. Por conseguinte. e preferirão suportar as mais estranhas qualida 8. então sereis a minha proPriedade9 peculiar dentre todos os povos: porque toda a terra é minha. originou-se nesse tempo. antes de se submeterem a Isaac. acreditando que Deus apenas deve ser considerado seu senhor e princípe. pelo pacto firmado no monte Sinai. nos súditos de Abraão. como fizeram outras nações. 5-6): Agora pois. 7): Eles (o povo) não te têm rejeitado a ti. em imagens feitas com as mãos8. faremos. porque tinha recente a memória do seu cativeiro no Egito.

pois nele consiste a essência do pacto firmado com Abraão. O que é a palavra de Deus. Não cobiçarás. pelo qual Deus nada mais exige. e que estava em vigor antes mesmo da época de Moisés. É palavra de Deus tudo aquilo. para melhor declarar o verbo divino. e que tinham força já antes do tempo de Abraão. Por isso. O mesmo se pode dizer do segundo mandamento. mas do pregador ou profeta.. Igualmente o preceito de santificar o dia de sábado. que obrigam em virtude do pacto feito por Abraão. publica das de modo geral por Moisés. porém. 10. Não roubarás. que era conservado dentro da própria Arca. que não tenham outros Deuses. Ora. Por isso. algumas há que obrigam naturalmente. e ao sétimo dia descansou. que conservavam a fé de Abraão. antes que chamar a qualquer mortal de seu senhor. estas são conhecidas de todos: o decálogo. que compreendem tanto as coisas que 268 269 . : 1 Da segunda espécie é o primeiro mandamento do decálogo. 11. que obrigam em virtude daquele pacto somente. e que Deus celebrou com este. e Deus de sua semente. mas não é sua lei. Da mesma forma o preceito de não tomar o nome de Deus em vão. mas aquelas. pois também faz parte do culto natural. As leis da primeira e segunda espécie foram escritas em tábuas de pedra. vejamos a seguir que leis Deus propôs a eles. junto com seus parentes e seus amigos mais queridos. Não prestarás falso testemunho. pois o respeito do sétimo dia é instituído em memória da criação dos seis dias. os escritos dos profetas. e restaurou-se. tendo sido baixadas por Deus na qualidade de Deus da natureza. mais aquelas leis. Nem se deve considerar imediatamente como palavra de Deus aquilo que. porque também isso pertence à religião natural. 16-17): Entre mim e os filhos de Israel será um sinal para sempre (a celebração do sábado.. Mas ainda há outras leis. judiciais e cerimoniais. Da terceira espécie são as leis políticas. Do Cidadi/io Religião des de tormentos. no qual Deus tomou parte enquanto Deus de Abraão. pois se trata das leis de natureza. escritas no volume inteiro da Lei. e somente aquilo. podiam ser modificadas. Isso porque estas. como transparece desta passagem (Êxodo 31. na qualidade de rei peculiar dos israelitas. Destas leis. como mostramos no mesmo parágrafo já citado. Eu sou o Senhor teu Deus que te trouxe da terra do Egito é palavra de Deus. que um verdadeiro profeta afirmou que Deus disse. conforme já declaramos no capítulo anterior (parágrafo 15). que então foi firmado com o próprio povo. Não cometerás adultério. e como pode ser conhecida Todas as leis de Deus são verbo divino. São da primeira espécie todos os preceitos do decálogo que se referem a costumes.. que pertenciam somente aos judeus. não. formando o decálogo. devido ao pacto anteriormente celebrado. mas nem tudo o que é palavra de Deus é lei dele. que manda não prestar culto por meio de qualquer imagem feita pelos próprios homens.. foram depositadas ao lado da Arca (Deuteronômio 31. Não matarás. 26). que é também um pacto perpétuo): porque em seis dias fez o Senhor os céus e a terra. Assim diz o Senhor não é voz de Deus. do que ser ele o seu Deus. As outras. é pronunciado ou escrito a seu lado. tais como Honrarás pai e mãe. judiciais e cerimoniais que encontramos do vigésimo capítulo do Êxodo até o fim do Deuteronômio e a morte de Moisés. Que leis foram dadas por Deus aos judeus Assim estando constituído o direito do reino pela via do pacto. Há outras.

seus escritos não poderiam ser considerados naquela época 270 271 . e somente aquilo. quer durante quer após o cativeiro. que não tenham enxergado o próprio Deus. se faltar a predição de acontecimentos futuros. como Moisés. mas apenas em discursos obscuros. como a palavra de Deus é tudo aquilo. a Isaías e aos demais. que Deus propôs a todos os judeus como marcas para distinguir o verdadeiro profeta. ele será condenado com base nas palavras seguintes (Deuteronômio 18. que os libertou do Egito.especialmente nas previsões que anunciam o que vai suceder de maneira obscura e enigmática. esta é palavra que o Senhor não falou: com soberba a falou o tal profeta. antes de acreditar no profeta. e isso apenas (tanto quanto podemos inferir da história sacra) até o cativeiro. já que eles nada previram além do que viria a suceder. aquele profeta ou sonhador de sonhos morrerá12. Se faltar a fé. pois isso teria sido contrário ao pacto por eles firmado com Deus. Pois. e a fé no Deus de Abraão. se os tivesse chamado a sair do Egito para qualquer outro culto que não fosse o do Deus de Abraão. Do Cidadão Religiã o é palavra de Deus o que for publicado por um profeta verdadeiro. ou pelo menos ele não mereceria seu crédito. os judeus ainda assim não acreditariam nele. a não ser pela via da razão natural. 21-22): E. 8). No que se refere aos profetas. que nos é recomendado por um tal profeta verdadeiro. Deus disse quanto as que afirmou o próprio profeta. dizendo: Vamos após outros deuses etc. a predição sobrenatural das coisas futuras. seus milagres e sua fé. são assim chamados de palavra divina. Mas destes não podemos julgar. e para ser copiado apenas pelos reis. que é um grande milagre. Isaac e Jacó. 1-5): Quando profeta ou sonhador de sonhos se levantar no meio de ti e te der um sinal ou prodígio. e da relação que ela mantenha com o acontecimento. não poderemos saber em que consiste a palavra divina antes de saber quem é o verdadeiro profeta .nem poderemos acreditar na palavra de Deus. entre os judeus Os judeus consideravam o livro de toda a lei. como são as predições de quase todos os profetas. Mas há muita controvérsia sobre o que significa seguir outros deuses. Pois esse livro foi confiado pelo próprio Moisés aos sacerdotes. o reconheceram novamente como palavra de Deus. Ora. e por jiguras(Números 12. e que era considerado pelos jud~us como um verdadeiro profeta aquele cuja fé fosse autêntica. nem suceder assim. O povo de Israel deu crédito a Moisés por duas coisas. como a palavra escrita de Deus. muito tempo depois. que se chamou Deuteronômio. e tal palavra se não cumprir. e suceder o tal sinal ou prodígio. Ora. e estes. de que te houver falado. e a cujas previsões os acontecimentos se conformavam. seus pais. 2). porque contêm o verbo de Deus.. E. para ser conservado e depositado ao lado da arca do pacto. ele deve ser rejeitado nesses termos (Deuteronômio 13. por maiorés e mais evidentes que fossem os seus milagres.. O que se considerava a palavra escrita de Deus. a saber. está acima de qualquer controvérsia que 12. Quem não tiver uma delas não é profeta. Dessa maneira há duas coisas. Mas não está evidente quando foi que se recebeu pela primeira vez ao resto dos livros do Velho Testamento como parte do cânone. nem deve ser recebido como palavra de Deus o que ele insinuar como tal. bem como para saber se os acontecimentos previstos para confirmarem suas previsões se ajustam ou não a estas . porque tal julgamento depende da interpretação da profecia. se disseres no teu coração: Como conheceremos a palavra que o Senhor não falou? Quando o tal profeta falar em nome do Senhor.. pela autoridade do rei Josias (2 Reis 23.

13. dizendo (vv. e até mesmo eram proibidas disso ante as mais terríveis ameaças. Pois. devemos agora considerar a quem cabia a autoridade de julgar se os escritos dos profetas que depois surgissem deveriam ser recebidos como constituindo a palavra de Deus . O poder de interpretar a palavra de Deus e o poder supremo político estiveram unidos em Moisés enquanto ele viveu Sabendo-se que leis havia sob o antigo pacto. pois que toda a congregação é santa. ou também eles. isto é. por ocasião da revolta de Coré. como sendo a palavra de Deus os escritos de alguns. e isso devido à lei que acima citamos.. porém. que tal ofício não pertencia a pessoas privadas. 24-25): Os sacerdotes. não fosse ele o intérprete das leis e da palavra. pela qual se mandava aos israelitas que nào reconhecessem a ninguém como um verdadeiro profeta.!3 Boca a boca falo com ele. e não por figuras!4. Do Cidadão Religiã o mo para subir ao Senhor. Estava em questão se Deus falava através de Moisés apenas. esse poder esteve inteiramente em suas mãos. se os acontecimentos respondiam ou não a suas predições. assim argumentam (Números 16. e de vista. Segundo. pois. 8): Se entre vós houver profeta. Eu. Ora. e disse-Ihes isto.ou seja. em vida de Moisés.pois ele vê a se melhança do Senhor: por que pois não tivestes temor de falar contra o meu servo. que o sumo sacerdote Aarão não tinha tal autoridade se evidencia por uma controvérsia análoga entre ele (mais sua irmã Miriam) e Moisés. que nem os homens privados nem a congregação deveriam pretender que Deus falasse por meio deles. e qual foi a palavra de Deus recebida desde o início. contra Moisés? Finalmente. Não é assim com o meu servo Moisés etc. e o Senhor está no meio deles: por que pois vos elevais sobre a congregação do Senhor? Mas facilmente se vê como Deus pôs termo a essa controvérsia. e por conseguinte que tivessem eles o direito de interpretar a palavra divina. Data e Abiram desceram vivos ao sepulcro etc. Isto se deve fazer percorrendo todas as épocas e as várias mudanças que ocorreram na república de Israel. se somente Moisés. 3): Baste-vos. para que se não lance sobre eles. ou a uma congregação ou sinagoga de muitos. 2): Porventura falou o Senhor somente por Moisés? Não falou também por nós? Mas Deus os censurou. ou ao sumo sacerdote ou a outros profetas. Além disso é manifesta e expressamente declarado. como sendo proféticos. É manifesto que.isto é. se não fosse por meio de Moisés. ou também por meio deles . 7. tal ofício deveria pertencer seja a qualquer pessoa particular. Então saiu fogo do Senhor. todos eles são santos. onde Coré. e a palavra escrita de Deus. sobre a proeminência de Moisés sobre todos os demais profetas. Pois está escrito (Êxodo 19. Pois eles. e igualmente em quem residia a autoridade para interpretar as leis já recebidas. resulta do fato de que elas não eram admitidas a ouvir Deus falar. salvo aquele cujas profecias fossem confirmadas pelos acontecimentos. 6. pretendendo que Deus falava por seu meio tanto quanto através de Moisés. Data e Abiram. e mais os duzentos e cinqüenta príncipes da assembléia.. a quem haviam matado no tempo em que profetizavam. da passagem que acabamos de citar. eram intérpretes da palavra de Deus. pelos versículos 33 e 35 do mesmo capítulo. e o povo não trespassem o ter 27 2 273 . Então Moisés desceu ao povo. ou em sonhos falarei com ele. o Senhor. E talvez seja por isso que os judeus depois vieram a considerar como proféticos. Assim foi que disseram (Nú meros 12. em visão a ele me farei conhecer. ou a qualquer congregação delas composta. e consumiu os duzentos e cinqüenta homens que ofereciam o incenso. primeiro. toda esta congregação. e fez uma distinção entre Moisés e os outros profetas.

.. filho de Nun. sob Deus. quando um homem institui a forma de uma futura república. consultar perante ao Senhor a respeito de tudo o que deva ser feito. nem a outros profetas. naquela época não havia outra palavra de Deus além da que era declarada por Moisés. ou seja. ele e todos os filhos de Israel com ele. 25): Então o Senhor desceu na nuvem etc. De qualquer forma. ou seja. parte da tua glória. Nessa passagem. que estava sobre Moisés. e de Aarão com sua irmã contra Moisés. exceto os Setenta anciãos. em primeiro lugar. e põe a tua mão sobre ele. durante a vida de Josué No tempo de Josué. homem em quem há o espírito. que profetizavam pelo espírito de Moisés. compete a Eleazar. Isso podemos dedu zir. E se porá perante Eleazar. Isso porque. até que soube que fora com o consentimento de Moisés coisa que fica evidente num texto da Escritura (Números 11. que na época era servidor de Moisés e depois foi seu sucessor. ele deverá governar durante toda a sua vida o reino que assim instituiu (pouco importando que a forma escolhida seja a da monarquia. e que as convenções de Coré com seus outros cúmplices contra Moisés e Aarão. E apresenta-o perante Eleazar. 1821): Toma para ti ajosué16. a não ser se entendendo que. ora. E lembremos ainda que Josué. e que a autoridade de interpretá-Ia não pertencia nem a homens privados. 14. pela instituição e pacto do povo. Pois assim está escrito (Números 27. uma vez que ao mesmo profeta que traz os mandamentos de Deus compete igualmente expô-Ios.. e perante toda a congregação. E se infere igualmente do fato de que não havia outro profeta naquele tempo. como se diz na Primeira Epístola de São Pedro (cap. Quanto ao fato de que ao sacerdote Eleazar não per tencia apenas o sacerdócio. Do Cidadão Religião inferimos que enquanto ele viveu a interpretação da palavra de Deus não pertenceu a nenhum outro profeta que fosse. e tirando do espírito.. mas também a soberania. o seu rei absoluto. segundo o juízo de Urim. no qual a república de Israel é chamada um "reino sacerdotal" ou. incumbe a Josué e ao povo inteiro. obedecer. interpretar a palavra de Deus e dar ordens. Também se deve observar que esse dizer. aristocracia ou democracia). quem tinha o reinado abaixo de Deus. quanto a ser Moisés. está expressamente estabelecido na forma pela qual Josué foi chamado a administrar os negócios. para que obedeça toda a congregação dos filhos de Israel. resta que Moisés apenas era intérprete da palavra de Deus. e dá-lhe mandamentos aos olhos deles. 9). o sacerdote. perante o Senhor: conforme ao seu dito sairão. em nome de Deus. depois de saber que eles profetizavam. assim se evi 274 275 .que era também. e não Aarão. e sair e entrar con forme ao seu dito. e conforme ao seu dito entrarão. o sacerdote. o poder régio foi confiado ao sumo sacerdote. que profetizasse para o povo. e terá no presente todo o poder que a outros confere pelo futuro. Também estiveram unidos no sumo pontífice. em todos os tópicos. a interpretação das leis e da palavra de Deus competia a Eleazar. um "sacerdócio real". o pôs sobre aqueles setenta anciãos. Ora. o sumo pontífice . isso não se poderia dizer de forma alguma. não nasceram a fim de salvar suas almas. v. do próprio pacto. mas devido a sua ambição e desejo de dominar o povo. Moisés. E isso não contradiz o que antes afirmamos. disse Josué a Moisés: Senhor meu. 2. indica claramente que Josué não tinha um poder igual ao de Moisés. que igualmente detinha o poder supremo nos assuntos civis. E põe sobre ele da tua glória. acreditou haver sofrido uma injúria. proíbelho. e toda a congregação. Ora. o qual por ele consultará.. e concluímos o mesmo pela razão natural. nem ao sumo sacerdote. Mas Moisés respondeu: Tens tu ciúmes por mim?15 Vendo então que Moisés apenas era mensageiro da palavra de Deus. nem à sinagoga.

alegando autoridade divina. Pois Deus na verdade reina lá onde suas leis são obedecidas não por medo aos homens. é manifesto que o direito ao reino instituído por Deus continuava pertencendo ao sumo sacerdote. e assim competia a uma multidão informe e a cada pessoa individualmente o direito de punir ou não punir. nesse período. E. e clamando que Assim diz o Senhor. sempre um ou mais excitavam a multidão contra ele. E portanto esses julgaram de fato em Israel. povo extremamente ávido por profecias. mas de fato tal poder residia nos profetas. quando alguém devia ser execu tado. tão logo algum deles era suscitado por Deus de maneira extraordinária. seria este um excelente estado do governo civil. nem tampouco a obra. Assim. depois da morte de Moisés e de Josué. de direito ao sumo sacerdote. o que significa um governo de Deus por intermédio dos sacerdotes. desde o começo. pois não te têm rejeitado a ti. procuraram saber qual a vontade de Deus.. Aliás.o que apenas sucedeu quando. e do propiciatório que 276 277 . Quanto ao fato de que a interpretação da palavra de Deus pertencia ao mesmo sumo sacerdote. Deus acedeu a seu requerimento. que não conhecia ao Senhor. assim dizendo (Deuteronô mio 31. mas. Estiveram também unidos no sumo pontífice até o tempo do rei Saul Depois da morte de Josué se seguem os tempos dos Juízes. através de Moisés prescreveu leis para os reis futuros (Deuteronômio 17. mas de direito a obediência se devia ao sumo sacerdote. pedindo eles um rei. não falou mais no monte Sinai. mas. isto é. E por isso também Deus. 7): Ouve a voz do povo em tudo quanto te disserem. a quem os israelitas. antes a mim me têm rejeitado para eu não reinar sobre eles. outra geração surgiu (Juízes 2.. e vos desviareis do caminho que vos ordenei etc. eles descartaram o governo de Deus. Mas isso era compatível com a natureza do reino peculiar de Deus. embora o reino sacerdotal. fosse alterada pelo próprio povo . conforme o seu zelo particular lhes ditasse. Do Cidadão Religião dencia que mesmo no tempo de Josué o poder supremo e a autoridade para interpretar a palavra de Deus residiam numa só pessoa. até se chegar ao rei Saul. isto se evidencia pelo seguinte: Deus. ainda assim o direito de infligir o castigo dependia por completo do julgamento privado. sendo os homens como são. segundo o pacto. até que essa forma. tinha porém consigo o direito. depois que o tabernáculo e a arca da aliança foram consagrados. E assim deveria ele persistir.. não dispusesse de poder. e disse a Samuel (1 Samuel 8. depois. Pois o reino era. e mais tarde. sacerdotal. Então fizeram os filhos de Israel o que parecia mal aos olhos do Senhor. submetiam-se para serem protegidos e julgados. E assim foi que Moisés ordenou que não se punisse a ninguém com a morte. ou seja. em conformidade a essa predição. Moisés previu isso em suas últimas palavras ao povo. com o consentimento de Deus. não mais através do sacerdote. mas no tabernáculo da aliança. E em verdade. quando se viram vencidos por seus inimigos e reduzidos à servidão. se os homens fossem assim como deveriam ser. 10-11). pela grande estima que tinham eles pelas profecias. o do sacerdote por meio do qual Deus reinava. mas pela via dos profetas. 15. A razão para isso era que. que fizera a Israel. um poder coercitivo (no qual incluo tanto o direito quanto o poder) é necessário para governá-los. 29): Eu sei que depois da minha morte certamente vos corrompereis. mas por medo a ele. já pela instituição de Deus. 14-20). embora houvesse penas estabelecidas e juízes nomeados no reino sacerdotal instituído por Deus. O poder civil supremo pertencia portanto.

aplicar as leis aos fatos. A judicatura pertencia. ser considerados ou não como autênticos. a interpretação também das leis. Ora. tinha o direito de entrar. E mesmo. pois os israelitas lhe concederam um direito a julgar de todas as coisas. e todo o povo.. O sacerdote tinha direito a fazer tudo o que qualquer homem tinha pessoalmente o direito de fazer. Isso quer dizer que ele fez que aquele pacto fosse reconhecido como constituindo a aliança mosaica. com Deus assentindo ao que lhe pediram os israelitas. o que se evidencia no segundo livro dos Reis. portanto. E. falando dos livros de Samuel. e leu aos ouvidos deles todas as palavras do livro do pacto. de qualquer maneira que os estudemos. os sacerdotes foram pedir conselho a Deus sobre aquele livro não com base em sua própria autoridade. Pois. se não fosse para que tais marcas e sinais fossem usados? Por conseguinte. mas por intermédio da profetisa Holda. mas a mando de ]osias. Também estiveram unidos nos reis até o cativeiro Uma vez constituídos os reis. 16. e assim fez. Pois o reino de Deus pelo sacerdócio chegara ao fim. o cumprimento das predições e a conformidade do que pregassem com a religião estabelecida por Moisés). se houvesse outra palavra escrita além da lei mosaica. os anciãos) os sacerdotes. e. disseram eles (1 Samuel 8. o que Hierom também assinala. interpretavam o verbo divino. onde se relata que ele reuniu todos os graus (degrees) de seu reino. como profetas. portanto. Além disso. Mas disso não se segue que tal autoridade fosse da profetisa.. como juízes. como a interpretação das leis competia aos reis. a interpretação dela também teria de pertencer a eles. por autoridade do rei ]osias. onde ninguém. e sairá adiante de nós. a autoridade de interpretar a palavra de Deus também pertencia aos reis. e que tinha estado perdido por um longo número de anos. Disso se evidencia que a autoridade para reconhecer livros como constituindo a palavra de Deus não pertencia ao sacerdote. Quando se recuperou o livro do Deuteronômio. capítulos 22 e 23. dado que a palavra de Deus deve ser considerada como lei. Portanto. diz ele. estavam ambos unidos nos profetas que julgavam Israel. O nosso rei nos julgará. exceto o sumo sacerdote. como até o cativeiro não se reconhecia nenhuma palavra escrita de Deus. uma vez morto Eli e assassinado Saul. Do Cidadão Religião estava entre os querubins. declara abolida a velha lei. no qual se continha toda a lei mosaica. Samuel. Se considerarmos o fato. além da lei de Moisés. Pois para que fim Deus deu sinais e marcas a todo o seu povo. e assim foi que aquele livro da lei foi aprovado. os novos juramentos de sacerdócio e soberania prestados respectivamente por Zadok e por Davi atestam que o direito pelo qual os reis governavam estava fundado na concessão mesma do povo. capacitando-o a distinguir os verdadeiros profetas dos falsos (dois sinais. e novamente recebido. 20). ou seja. E assim. julgar nada mais édo que. eles detinham a autoridade suprema. como sendo a palavra de Deus. os profetas. a autoridade para reconhecer os livros que constituíssem a palavra de Deus pertencia ao rei. não há dúvida de que a autoridade suprema a eles pertencia. 278 279 . esses dois poderes continuavam inseparáveis. aos reis. e nos fará as nossas guerras. que tornasse a ser recebido e fosse confirmado pelos israelitas. porque eram outros que julgavam se deviam. interpretando. Pertencia a eles. se considerarmos o direito do reino. o poder civil supremo e a autoridade de interpretar a palavra de Deus estavam reunidos no sumo sacerdote. e a fazer a guerra por todos os homens. também. nesses dois direitos está contido todo o direito que possa ser concebido entre um homem e outro. a saber. e não o fizeram sem mediação. os profetas.

e também devido à intromissão de príncipes estrangeiros. porém. Lemos que houve reis o 17. que consagraram o templo. penso que ninguém dirá que ]osias estivesse obrigado. Por isso tal reforma parece não consistir em nada mais do que na mera promessa e voto de que cada homem observaria as coisas que estavam escritas no livro da lei. embora os reis não interpretassem pessoalmente a palavra de Deus. por qualquer lei divina ou humana. e do qual competia a seus ouvintes julgar. Os profetas não eram enviados com autoridade própria. Pois. Assim. embora os sacerdotes sejam mais instruídos na natureza e nas artes do que os outros homens. que abençoaram o seu povo. Do Cidadão Religiã o que rezaram por seu povo. porque recusara um bom conselho. ainda que parecesse vir de um inimigo -. e de interpretar a palavra de Deus nos dias dos reis. mas na forma de pregadores. pertencia inteiramente a estes.. embora por causa da ambição daqueles que disputaram o sacerdócio. a não ser que estes mesmos sejam geômetras. com uma só exceção: não está expressamente enunciado que os judeus que retomavam do cativeiro entregassem o direito de soberania quer a Esdras. e por isso raramente têm eles capacidade para interpretar esses livros antigos nos quais está contida a palavra de Deus. 280 281 . o ofício de interpretá-Ia bem pode depender de sua autoridade. e que era o mesmo pacto que a aliança firmada no monte Sinai. alegando que eles não podem praticar tal ofício em pessoa. e portanto não é razoável que esse ofício de intérprete dependa de sua autoridade. e o reino sacerdotal se viu restaurado da mesma forma que existira da morte de Josué até o início dos reis. que devessem ser seguidas. quer a qualquer outro além de Deus mesmo. É verdade que não ofereceram sacrifí cios. rei do Egito. E. que os reis estivessem obrigados a seguir todas as coisas que aqueles profetas declarassem. embora o bom rei Josias de Judá fosse morto porque não obedecera à palavra do Senhor. poder civil portanto. disso não se segue. E. após o cativeiro Depois que os israelitas retomaram do cativeiro na Babilônia. esse Estado restaurado era um reino sacerdotal: o que significa que a autoridade civil suprema e a sagrada estavam unidas nos sacerdotes. Alguém pode objetar aos reis que lhes falta erudição. Voltaram a estar unidos no sumo pontífice. que removeram a estes de seu ofício e instituíram outros em seu lugar. mas um mistério. Assim. os reis são contudo suficientemente capazes para designar os intérpretes que a eles estarão subordinados. e talvez a despeito da intenção do povo. o sacerdócio não era um magistério (maistry). pois isso constituía uma incumbência hereditária de Aarão e seus filhos. rei do Egito isto é. se eventualmente alguns ouvintes fossem punidos por não lhes darem ouvidos. Mas é evidente que tanto durante a vida de Moisés quanto em todas as épocas. sob cuja direção organizavam seu Estado. do rei Saul até o cativeiro da Babilônia. errar. a acreditar no faraó Neco.. Não obstante. que lhe viera pela boca de Neco. que deram ordens aos sacerdotes. é como se dissessem que a autoridade para ensinar a geometria não pode depender dos reis. sofresse inúmeras perturbações até o advento de Nosso Salvador Jesus Cristo que pelas histórias desses tempos não se possa saber em quem residia a autoridade. quando os profetas ensinavam coisas fáceis e simples. Mas o mesmo poderia ser objetado aos sacerdotes e a todos os mortais: pois podem. todos. só porque este disse que Deus lhe havia falado. e o poder para distinguir a palavra de Deus das palavras dos homens. devido àquele pacto que eles então renovavam. em nome de Deus. E por isso os que se recusam a reconhecer-Ihes essa autoridade. e com o direito que a estes cabe. o pacto foi renovado e firmado uma segunda vez.

18): Eis lhe suscitarei um pro feta do meio de seus irmãos. E. um filho se nos deu. e parirá um filho. 16): E reis sairão de ti. eles deviam obedecer a seus príncipes De tudo isso. podemos facilmente saber como os judeus. como tu. Princípe da paz. O mesmo profeta (Isaías 9. exceto quando suas ordens contiverem alguma traição. em negar a divina providência. e chamará o seu nome Emanuel. que viria restaurar o reino de Deus através de um novo pacto. Entre os judeus. acrescentando (Gênesis 17.ou seja. tendo a autoridade suprema. mandasse fazer algo que fosse contra a lei. Moisés. pelo pacto firmado com Abraão e com eles mesmos. Pois. 14): O mesmo Senhor vos dará um sinal: Eis que a virgem conceberá. mas em obedecer as ordens de seus superiores. dizendo-lhe (Gênesis 49. e um . E a traição contra a Majestade Divina consistia. em segundo lugar. parte a sua humilhação e paixão.renovo crescerá das suas raízes. abençoando Abraão. Isaac. deveriam portar-se em face do que lhes mandassem os seus príncipes. 1-5): Porque saíra uma vara do tronco de jessé. na idolatria. 6): Porque um menino nos nasceu. Pai da eternidade. E ainda ele (Isaías 11. a cada um destes em todas as coisas enquanto governasse. e o principad03 está sobre os seus ombros. Deus. e ele lhes falará tudo o que eu lhe ordenar2. Deus diz a Moisés (Deuteronômio 18. e não o de seus súditos . CAPÍTULO XVII Do Reino de Deus Segundo a Nova Aliançal 18. ainda que a um só Deus. Isaías (Isaías 7.cujo dever não está em discutir. mas sob títulos. em todos os tempos que vão de Abraão até Cristo. E repousará sobre ele o espírito do Senhor etc. no fato de adorar não outro Deus (porque há apenas um Deus). ao sacerdote. cito as seguintes. 1. assim como nos reinos simplesmente humanos devem os homens obedecer em todas as coisas a um magistrado inferior. mas deuses estranhos . parte delas antevê sua dignidade régia. 4 E não julgará 282 283 . pois isso seria o mesmo que negar que Deus fosse rei por natureza. ao rei. se um rei ou sacerdote.Do Cidadão é contudo claro que naqueles tempos o poder para interpretar a palavra de Deus não estava separado do poder civil supremo. Em todas as outras coisas eles deviam obedecer aos príncipes. Abraão. 10): O cetro não se arredará dejudá. em primeiro lugar. exceto quando suas ordens contivessem alguma traição contra a Majestade Divina. e o seu nome se chama Maravilhoso. em tudo o mais. eu o requererei dele. Deus forte. que ele falar em meu nome. E será que qualquer que não ouvir as minhas palavras. seria isso o pecado dele. Porque isso significava negar que o Deus de Abraão fosse seu rei. e porei as minhas palavras na sua boca. faz-lhe uma promessa por seu filho Isaac. da mesma forma no reino de Deus os judeus estavam obrigados a obedecer a seus príncipes. as únicas formas de traição a Deus consistiam na negação da Divina Providência e na idolatria. ou seja. atributos e ritos que não fossem os estabelecidos por Abraão e Moisés. Dentre muitas que se referem à sua dignidade. prestar culto. Jacó. Jacó abençoa seu filho Judá. As profecias sobre a dignidade de Cristo No Antigo Testamento há inúmeras e claras profecias sobre Nosso Salvador Jesus Cristo. Conselheiro.

E o mesmo (Zacarias 6. entre outras. 13-14): Eu estava vendo nas minhas visões da noite. são. Expôs a lei. embora equivocadamente. As profecias sobre sua humilhação e paixão Já quanto às profecias da humilhação e paixão de Cristo. filho de jumenta. Jeremias (Jeremias 31. era o verdadeiro 284 285 . Zacarias. ó filha de Sido. as seguintes: em Isaías 53. e a terra seca. E ainda ele (Zacarias 9.1o Daniel (Daniel 7.o que também Vespasiano. Ezequiel (Ezequiel 34. o Renovo ete. começou a pregar Jesus nosso salvador. interpretou em favor de suas próprias empresas: viria da Judéia aquele que tudo haveria de governar13 . na visão do sumo sacerdote Josué. e ele as apascentará: meu servo Davi9. ferido de Deus. e em outras passagens (7): Ele foi oprimido. . sobre um asninho. segundo a regra de Moisés. assim diz (Zacarias 3. e o fizeram chegar perante ele.. no mesmo Isaías (cap. E ainda (8): Foi cortado da terra dos viventesj pela transgressão do meu povo a praga estava sobre ele etc. que deveria redimi-los e além disso dominar a todas as nações. Mais ainda. 9): Alegra-te muito. E fOi-lhe dado o domínio e a honra e o reino.5 Ferirá a terra com a vara de sua boca. 23-25): E levantarei sobre elas um só pastor. nem repreenderá segundo o ouvir dos seus ouvidos. Do Cidadão Religião segundo a vista dos seus olhos. Declarou ele ao povo judeu que era chegado o reino de Deus que eles esperavam.1\ e. E ainda diz Zacarias (Zacarias 9. o Cristo. e como a ovelha muda perante os seus tosquiadores. E farei com eles um pacto de paz etc. assim não abriu a sua boca etc. escolheu doze apóstolos e setenta discípulos . 9).. Ensinou a via da salvação através deles e de si próprio. e nós o reputávamos por aflito. porém não abriu a sua bocaj como um cordeiro foi levado ao matadouro. diz o Senhor. 4: Ele tomou sobre si as nossas enfermidades. justo e salvador. 12): Eis aqui o homem cujo nome é o Renovo!2. e foi contado com os transgressoresj e levou sobre si o pecado de muitos. e com os poderosos repartirá ele o despojoj porque derramou a sua alma na morte. que supunham ser filho de José. 31): Eis que dias vêm. isto é. e intercede pelos transgressores. e que ele próprio era o rei.seguindo o número das tribos e o dos setenta anciãos que. por estas profecias e outras mais. e as nossas dores levou sobre si. e farei tremer o céu e a terra. montado sobre um jumento. cuja falsa doutrina e hipócrita santidade ele censurou. em que farei um novo pacto com a casa de Israel e com a casa deJudá. Mas julgará com justiça aos pobres ete. fez grandes sinais e cumpriu todas aquelas coisas que os profetas haviam predito quanto ao advento de Cristo. Esse homem. esperavam que Deus lhes enviasse o Cristo. e farei tremer a todas as nações. exulta. e com o assopro dos seus lábios matará o ímpid'. e oprimido. ó filha de Jerusalém: eis que o teu rei virá a ti.l! Ageu (Ageu 2. no 12: Pelo que lhe darei a parte de muitos. e eis que era vindo nas nuvens do céu um como o filho do homem: e chegou até ao ancião dos dias. Ele é pobre1S. e que todos os povos. seu rei. Além disso. e o mar. 51 a 627) quase nada mais lemos que a descrição do advento e das obras de Cristo. e que o acusaram perante o povo de buscar por meios ilegais a coroa. 6-7): Ainda uma vez daqui a pouco. Saneou o templo. tal profecia se difundira por todo o império romano . 8): Eis que eu farei vir o meu servo.35-37): É eleito nosso Deus ete. Depois disso ele apareceu sobre a terra e o meio dos homens conviveu8. se dedicaram ao ministério. 2. odiado pelos fariseus. o que fez que fosse crucificado. E Baruc (Baruc 3. nações e línguas o servissem: o seu domínio é um domínio eterno etc. Jesus era o Cristo No reinado de Tibério César. Os judeus. galileu. e virão ao Desejado de todas as nações. 3.

. pois. O reino pela nova aliança é celestial. Pois está prometido aos apóstolos que no reino de Deus eles haverão de julgar as doze tribos de Israel (Ma teus 19. natividade.tal como era o governo de Moisés pois o reino não era dele. acompanhado de seu anjo.. Pois o seu ofício. Mas cada um por sua ordem: Cristo as primícias. nos seguintes termos (Mateus 20. evidencia-se que. na regeneração. não deve ser chamado o seu reino. e do Senhor Jesus Cristo. 4. quando entrares no teu reino. e guardar-me-á para o seu reino celes tial. e comparando as coisas que ele fez com as profecias a seu respeito. não é o de um rei. e começará no Dia do Juízo Contudo. no teu reino. Cristo ainda não está sentado em seu trono de majestade. e todos os cristãos consentem nisso. diante de Deus. Assim como todos morrem em Adão. já que tanto o Pai quanto o Filho são o mesmo Deus... 5): Porque bem sabeis isto: que nenhum fornicário ete. e sim de seu Pai. 42). quando tiver entregado o reino a Deus seu Pai17. e todas as nações serão reunidas diante dele. e ainda São Paulo (Efésios 5. porém uma regeneração . e apartará uns dos outros. 29). no 18: E o Senhor me livrará de toda a má obra. descrevendo sua genealogia. como sendo um só Deus. Quando o Filho do homem vier em sua glória. o reino de Deus. também vos assenta reis sobre doze tronos. 21): Diz que estes meus dois filhos se assentem. Senhor. lembra-te de mim. e. Do Cidadão Religião Cristo e rei prometido por Deus e que seu Pai enviou para renovar o novo pacto 16 entre os homens e Deus: os quatro evangelistas mostram isso. quando. era lhe contudo inferior quanto ao direito de reinar. onde se diz (Mateus 25. e todos os santos anjos com ele. quando ele virá em majestade. que Cristo aqui passou no mundo. Mas não devemos estranhar que o mesmo reino seja atribuído a ambos. a bem dizer. e em outra parte (2 Timóteo 4. que há de julgar os vivos e os mortos. E São Paulo (1 Coríntios 15.isto é. 22-24). e uma convocação (calling) àqueles que depois deveriam ser recebidos no seu reino. que me seguistes. para restaurar o qual Cristo foi enviado por Deus seu Pai. mas enquanto Deus Porém. do Filho e do Espírito Santo. 28 6 28 7 . uma renovação ou restauração do reino de Deus. 31-32). Vós. Desde agora. O reino de Deus pela nova aliança não era o reino de Cristo enquanto Cristo. E no entanto o mesmo reino é também chamado o reino de Cristo: porque tanto a mãe dos filhos de Zebedeu implorou a Cristo. então se assentará no trono da sua glória. e no seu reino ete. e aquele tempo. E. morte e ressurreição. embora fosse Cristo igual a seu pai em natureza. não principia antes do segundo advento de Jesus . na sua vinda. venha a nós o teu reino ete. para julgar as doze tribos de Israel: o que não se poderá fazer antes do Dia do Juízo. na sua vinda. como o pastor aparta dos bodes as ovelhas. doutrina. e além disso professou com toda a clareza quando ensinou seus discípulos a rezar: Pai nosso. e que o novo pacto acerca do reino de Deus não nos é proposto em nome do Pai. Isso o próprio Cristo indicou ao ser batizado como súdito. um à tua direita e outro à tua esquerda. vida.ou seja. assim também todos serão vivificados em Cristo. 5. do fato de que Cristo foi enviado por Deus seu Pai para celebrar um pacto entre ele e o povo.18 tem herança no reino de Cristo e de Deus. antes do Dia do Juízo. 28). não beberei do fruto desta vide até aquele dia em que o beba de novo convosco no reino de meu Pai. mas em nome do Pai. mas o de um vicerei . quanto o ladrão na cruz também lhe disse (Lucas 23. Depois viráo fim. depois os que são de Cristo. Portanto. e ainda quando disse (Mateus 26. 1): Conjuro-te. o Filho do homem se assentar no trono desta glória.

não se poderia saber por que Cristo. e ninguém pode ser conduzido se não tiver um guia a levá-Io.e embora não fosse. Moisés. e do qual profetizaram os profetas. depois de instituir o reino sacerdotal . dizendo: Conhecei ao Senhor: porque todos me conhecerão. Isso também se confirma pela comparação do reino do céu a trigo misturado com joio. deveria aqui retornar. seja apenas no céu. em que os apóstolos julgarão as doze tribos de Israel. tendo completado a obra para a qual foi enviado. porém de seu Pai. O meu reino não é deste mundd9. a fim de que possa persistir na fé e na obediência que assim já prometeu. Porque. consiste em governar nesta vida os futuros súditos de seu reino celestial de tal modo que eles possam alcançá-Io e nele ingressar. 34): E não ensinará alguém mais a seu próximo. não devemos contudo supor que quem acredita em Cristo e firma tal pacto não deva ser governado desta forma já na Terra. ele próprio. quando fala do reino de Deus pelo novo pacto (Jeremias 31. Além disso. se não fôssemos conduzidos até ele. 6. embora o reino de Deus por meio de Cristo. se deve ter judicatura e majestade. todos os homens conhecerão a Deus de tal modo que não precisarão de ensinamento: isto é. e acerca do qual rezamos Venha a nós o teu reino . quando Cristo subisse aos céus. até que este chegasse à Terra Prometida. porque eu vim. sacerdote -. se o reino de Deus já estivesse restaurado no momento presente. começará naquele tempo em que Deus apartar as ovelhas dos bodes. Isto é. a se estabelecer pelo novo pacto. ou por que rezamos Venha a nós o teu reino. ou o direito de ensinar. e Não beberei etc. finalmente. desde o mais pequeno deles até o maior deles. e não crer. porém um ofício de pastor. mas para que o mundo fosse salvo por ele2°. A mesma coisa encontramos nas' palavras do profeta ]eremias. e isso embora o reino não seja propriamente de Cristo. Por conseguinte. as palavras de Cristo. quem me pôs a mim por juiz ou repartidor entre VÓS?22 e a própria denominação reino do céu bem corroboram isso. Deus Pai 288 289 . o fato de que os apóstolos perguntassem a nosso Salvador se ao ascender ao céu ele restauraria o reino de Israel também atesta que eles mesmos não consideravam que o reino de Deus já fosse chegado. na medida em que foi enviado por seu Pai. Ademais. ou Dia do ]uízo. não para julgar o mundo. e a uma rede em que há toda espécie de peixes. mas um conselho: um governo por meio da doutrinação e da persuasão Por outro lado. diz o Senhor: o que não se pode supor de reino algum deste mundo.Do Cidadão Religião devemos evidentemente inferir que não haverá uma separação espacial entre os súditos e os inimigos de Deus. Pois seria inútil prometer o reino do céu. e Se alguém ouvir as minhas palavras. eu não o julgo. Mas uma multidão indistinta de inimigos e súditos não pode ser propriamente denominada um reino. ainda assim dirigiu e conduziu pessoalmente seu povo durante todo o tempo de sua peregrinação. e Deus enviou o seu Filho ao mundo. para cuja restauração veio Cristo ao mundo. não para que condenasse o mundo. conforme foi predito.se nele os súditos devem estar espacialmente separados dos inimigos. o reino de Deus. O governo de Cristo neste mundo não foi soberano. em que Cristo virá em majestade e glória. no segundo advento de Cristo. mas para salvar o mundd\ e Homem. mas que eles viverão misturados até a segunda vinda de Cristo. Da mesma forma o ofício de nosso Salvador (que neste aspecto Deus quis que fosse semelhante a Moisés). até que venha o reino dos céus. em que. Mas o governo através do qual Cristo rege os fiéis nesta vida não é propriamente um reino ou domínio.

à qual caberia a posse da terra de Canaã 290 291 . O que são as promessas da nova aliança. E isso ele próprio dá a entender. quando censura a Tiago e a João porque lhe perguntaram (Lucas 9. 24): Depois virá o fim. Em segundo lugar. e de lhe ensinar. A Cristo. portanto. E essa derrogação não pode ocorrer antes do Dia do Juízo.54): Senhor. Lemos. era rei graças ao pacto). mostram todas que a Cristo não fora outorgado poder para condenar ou punir quem quer que fosse. ninguém estaria obrigado a obedecer a sua sentença. que ele teria uma semente numerosa. e não caçadores. considerando-se que Cristo foi enviado para firmar um pacto entre Deus e os homens. ao Pai. nem legislativo. não para julgar o mundo. e assim ensinar aos homens. mas sim o de emissário e promulgador (publisher) das leis de seu Pai (pois Deus apenas. 7. O fato de que Cristo não tenha recebido de seu Pai poder para julgar questões referentes ao meum e ao tuum entre aqueles que não acreditam. nem entre os infiéis. e quando houver aniquilado todo o império. seu Pai não confiou neste mundo um poder real ou soberano. e que Cristo agora interpreta).Do Cidadão Religião não lhe conferiu o poder de julgar do meum e do tuum. porém apenas o de aconselhar e doutrinar. isto é. não vim abrogar. e também a expressão: Deus enviou o seu Filho ao mundo. mas sim o poder de mostrar ao mundo. e outras análogas. mas deu ao Filho todo o juízd\ mas isso pode e deve entender-se do Dia do Juízo futuro. nem um poder coercitivo. enquanto não forem eles derrogados de sua autoridade por Deus mesmo. é verdade. e Qualquer pois que violar um destes mais pequenos mandamentos. e não crer.isto é. que não tenha poder para resolver as pendências de direito entre os infiéis. mas para que o mundo fosse salvo por ele. eu não o julgo.ao que ele respondeu: O Filho do homem não veio para destruir as almas dos homens. de pregar-lhe e manifestar-lhe o que se deve fazer.se Cristo julgasse das questões de direito. queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma?(referindo-se aos samaritanos. qual é o caminho e a ciência da salvação . pode ser lido nas seguintes passagens: ele disse. pela seguinte razão: que sem sombra de controvérsia tal direito pertence aos príncipes. e ao levedo escondido na farinha27. mas para salvar o mundo. e que ninguém está obrigado a obedecer antes que se celebre um contrato . e que portanto seu ofício e missão não foram propriamente o de legislador (como o de Moisés). e toda a potestade e força. e portanto absolutamente não contradiz o que anteriormente dissemos. primeiro. fica bastante explícito naquelas palavras que acima já citamos: Homem. quando chama seus apóstolos de pescadores. quando fala de tal dia (1 Coríntios 15. quando tiver entregado o reino a Deus. pelas palavras de nosso Salvador. Sacudi a poeira de vossos pés. o fato de que ele não foi enviado para fazer novas leis. e não Moisés nem Cristo. como se vê nas palavras de São Paulo. mas cumprirZ5. mas para salvá-Ias (56). porque eu vim. e esta: Se alguém ouvir as minhas palavras. ou ainda quando compara o reino de Deus a um grão de semente de mostarda. que O Pai a ninguém julga. Pois. quem me pôs a mim por juiz ou repartidor entre vós? E o mesmo é confirmado pela razão. para poder entrar no reino dos céus. como conferiu aos juízes da Terra. será chamado o menor no reino dos céus26. E ainda essas frases: Eis que vos envio como ovelhas ao meio de lobos23. Finalmente. que haviam se recusado a recebê-Io em sua rota para Jerusalém) . E inversamente se evidencia que não se confiou a Cristo neste mundo a tarefa de conhecer do direito. não para que condenasse o mundo. Não cuideis que vim destruir (entenda-se: as leis que Deus antes deu a Moisés. de homens. nas duas partes que a firmam Deus prometeu a Abraão. nem no meio dos fiéis.

começando por Jerusalém.onde nascer 28 292 293 . 36: Aquele que crê no Filho tem a vida eterna. Aqui se expressa a fé. reparte-o pelos pobres. não o arrependimento. também ouvimos (Mateus 4.mas sob uma condição: de que ele e sua semente servissem a Deus. em João 3. E ainda (Atos dos Apóstolos 3. em que consiste o reino celestial. que as condições para o pacto cristão são pois as seguintes: por parte de Deus. isto é. quando o outro responde que já os cumpre. prometeu a eles e a todas as nações um reino celestial e eterno. geralmente ele é chamado o reino dos céus. Uma vez compreendidas tais coisas. pelo novo pacto. mas. Prometeu. 5): Aquele que não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino do céu . o Salvador acrescenta a outra parte. Da mesma forma (Lucas 24. v. Isso é exigência da fé29. que perdoará os seus pecados e os trará para seu reino celestial. Mas as partes do novo pacto são expostas da maneira mais explícita e formal quando um certo príncipe. na pregação de Cristo. 19): Arrependeivos. E ainda nestas palavras (João 3. triste. como aqui. à semente de Abraão segundo a carne. e aféemJesus. também. que eles sirvam a Deus da forma que Cristo lhos haveria de ensinar. vem. mas. dizendo (22): Ainda te falta uma coisa. da parte dos homens. a saber. pelo pacto cristão. porque é chegado o reino dos céus . mas a ira de Deus sobre ele permanece. para que sejam apagados os vossos pecados. as palavras que lemos em São Marcos (cap. então. e terás um tesouro no céu. muitas vezes aparece arrependimento no lugar de obediência: porque Cristo ensinou. isto é.onde se fala no arrependimento. e venham assim os tempos do refrigério etc. pergunta a nosso Salvador (Lucas 18. que perante Deus a vontade será tomada pelo ato. O mesmo pacto está contido nestas palavras (Marcos 16. Primeiro. contanto que servissem o Deus de Abraão segundo a maneira que Cristo haveria de ensinar. um reino sacerdotal. O que se requer dos homens. enquanto se subentende a fé. Arrependei-vos. por muitas passagens das Sagradas Escrituras. em toda a parte. 17): Arre pendei-vos.pois apenas isso pode ser causa para que sigamos sua doutrina. 1. Já dissemos acima. está combinado. mas aquele que não crê no Filho não verá a vida.mas sob esta condição: de que eles serviriam o Deus de Abraão segundo a maneira que Moisés haveria de ensinar-Ihes. e crede no Evangelho. não dando crédito suficiente a Cristo e a seus tesouros celestiais. engloba duas coisas: a obediência a prestar a Deus (pois nisso consiste servi-Lo). Por vezes uma coisa é explicitamente proposta. ficará evidente e manifesto. naqueles que forem batizados. um governo muito livre. Nas Escrituras. que hei de fazer para herdar a vida eterna? Cristo começa expondo uma parte do preço desta. E em seu nome se pregasse o arrependimento e a remissão dos pecados em todas as nações. a observância dos mandamentos. ou ainda a vida eterna.16): Quem crer e for batizado será salvo. ou o reino de glória. e ao terceiro dia ressuscitasse dos mortos. O príncipe. e assim convi nha que o Cristo padecesse. e a penitência é o sinal infalível de um espírito (minei) obediente. Pois. por parte dos homens. da parte de Deus. redimir os pecados dos homens e darlhes a vida eterna. a obediência. como que a negociar o reino de Deus. mas quem não crer será condenado: onde se exprime a fé. ou seja. no qual os seus não se sujeitariam a nenhum poder humano . e segue-me. e convertei-vos. Finalmente. 46-47): Assim está escrito. e a outra subentendida. o que significa acreditar que Jesus é aquele Cristo que foi prometido por Deus . vende tudo quanto tens. e se supõe o arrependimento. e não a de qualquer outro. 15): O reino de Deus está próximo. no parágrafo 5. 18): Bom Mestre. foi-se embora.Do Cidadão Religião e na qual todas as nações seriam abençoadas . arrependerem-se e acreditarem em Jesus Cristo. que servirão ao Deus de Abraão daquela maneira que Jesus haveria de ensinar.

em parte. f) 9. A própria expressão Sereis ambos uma só carne não foi enunciada da primeira vez por Cristo. na qual Cristo interpreta a lei. isto é. é o caso. Temos outra passagem. da mesma forma o batismo também é utilizado não como se pertencesse à essência. que fizemos com Deus. E. como vemos que o batismo é exigido nas duas passagens que acabamos de citar. e outros preceitos semelhantes não constituem leis O que podemos então dizer de preceitos como Arre pendei-vos. mas servia somente de rememoração. não por si próprio . O primeiro deles fora enunciado por Moisés quase que nos mesmos termos (Deuteronômio 6. 8. Batizai-vos. mas o segundo é anterior mesmo a Moisés . que principia já com a própria natureza racional. em que Deus é o rei peculiar de Abraão e de sua semente. e todas as leis do culto divino exigido pelo antigo pacto nestas palavras. Além delas. mas o arn. conforme já declaramos acima. ou na lei moral. E o segundo. mas por Abraão.pois é a lei natural. e todas as leis naturais e civis estão nessa fórmula. do Evangelho de São Mateus. porque se Deus nos outorgou as leis não foi a fim de nos dirigir no céu.pendimento e a fé. mas em nome de seu Pai. Pois todas as leis do culto divino natural estão contidas nessas palavras. já estão expostas ou no Decálogo. Obedecei aos mandamentos. in extenso. a não ser as que instituem os sacramentos No reino de Deus depois desta vida não haverá leis. este é o primeiro e grande mandamento. as leis que Cristo sintetiza numa passagem. semelhante a este. no parágrafo 6 -. portanto. Considerando então que a circuncisão não pertencia à essência do antigo pacto. Destes dois mandamentos depende toda a lei e os profetas. como uma cerimônia ou sinal dele (e não foi seguida durante a passagem pelo deserto). Todas essas leis. que foi o primeiro a pregar sobre a criação do mundo. Obedecei aos mandamentos. Indaguemos. E Deus nada mais exige do que ter a obediência em mente. mas em memória e em sinal do novo pacto. ou ainda estão contidas na fé de Abraão. e o conjunto dos dois constitui a suma de todas as leis. que está nos capítulos 5. 5)3°. simplesmente são aquelas a que estão obrigados todos os mortais que confessem o Deus de Abraão. nem por Moisés. Arrependei-vos. Amarás a teu Deus. e de todo o teu pensamento. tanto as divinas quanto as humanas. serão sempre exigidos. e que está expressa na fé de Abraão.Do Cidadão Religião da água é o mesmo que a regeneração. Temos uma passagem nas Escrituras. Acre 294 295 . Cristo não fez leis novas. que são essenciais ao pacto. 37-40): Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração. que a conversão a Cristo. e de toda a tua alma. Amarás a teu próximo como a ti mesmo. é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. o ato pode ser omitido por razão de necessidade. em que ele sintetiza todas as leis de Deus publicadas até aquele tempo em apenas dois preceitos (Mateus 22. afora a instituição dos sacramentos do batismo e da eucaristia. da lei que manda não expulsar a esposa. devemos entender que o mesmo que era a circuncisão no antigo pacto. E. será o batismo no novo. por exemplo. porque não há lugar para leis quando não há lugar para o pecado. não conhecemos nenhuma lei promulgada por Cristo. desde que a vontade não falte. e explica em outra. em parte. porém. mas para o céu. que leis Cristo decretou. Portanto. Batizai-vos. Pois quem ama a Deus e a seu próximo tem em mente obedecer a todas as leis. Amarás a Deus. 6 e 7.pois ele não reivindicou qualquer poder de legislar.

pelo preceito Não roubarás não se proíbe toda forma de invasão ou de subtração secreta. mas apenas a que consiste em deitar-se com a mulher de outro homem. ao que constitui direito deles e ao que é direito alheio. Não roubarás. isto é. Cabe à autoridade civil definir o que é o pecado de injustiça Nosso Salvador não prescreveu leis distributivas aos súditos dos príncipes. e cada um a seu próximo (Êxodo 32. se eles não vierem. de modo que possamos saber que ela pertence legalmente a quem a recebe. nem aos cidadãos das cidades. mas somente seus pecados passados. que o castigo dos pecados é um dano que decorre da infidelidade. Vinde a mim. mas também em meio aos próprios cristãos) deve receber essas regras de sua cidade. Da mesma forma. ocupada ou possuída. termos ou circunstâncias uma coisa deve ser dada. Nem proibiu. referindo-se ao descrente.tudo o que se ordenou foi que os súditos e cidadãos obedecessem absolutamente a seus príncipes em todas as questões referentes ao meum e ao tuum. a decisão de quem é mulher de outro homem compete à cidade. porquanto não crê32. se não tiver o direito de matá-Io. e não A ira de Deus sobre ele virá. E caíram do povo aquele dia uns três mil homens (28). daquele homem ou conselho que nela tem o poder supremo. E. Não é correto entender que a remissão dos pecados seja um benefício derivado da fé. nem disse por que fórmulas. mas já está condenado.33 será do Senhor e eu o oferecerei em holocaustd\ e esse voto foi aceito por Deus. não deu regras com base nas quais um súdito possa conhecer e discernir o que é seu.assim como em Isaías 55. a não ser que compreendamos igualmente.Do Cidadão Religião ditai no Evangelho. por outro lado. e outros semelhantes? Devemos dizer que não são leis. Então. Segue-me. Pois o preceito Não matarás não proíbe toda e qualquer espécie de homicídio. porque o mesmo que disse Não matarás também mandou (Êxodo 35. que por estas leis . 31): Aquele que. diz: Quem não crê está condenado. 27). sem dinheiro e sem preço. isto é. Igualmente. e cada um a seu amigo. vinho e leite. mas apenas contra a prudência. ocupa ou possui. comprai. Portanto. 10. sequer. manda-se que ninguém mate. mas apenas aquela que incide sobre os bens de outro homem. o que é de outro. Ora. ordena-se ao súdito apenas que não invada nem 296 297 . mas que nos chamam à fé . devemos necessariamente entender que cada súdito em particular (e não apenas entre os infiéis. 2): Todo aquele que fizer obra no sábado será morto. Não cometerás adultério. não diz será condenado. a lei de Cristo sobre o homicídio (e conseqüentemente toda forma de dano que se cause a alguém. Nem mesmo proibiu matar sem julga mento. portanto. Por conseguinte. 1: Vinde. que se matassem pessoas inocentes. o que é proibido? Apenas isso: que alguém mate a outro. exceto aquele a quem cabe fazê-Io. e quaisquer penalidades que possam ser instituídas) manda que obedeçamos tão-somente à cidade. Honrarás pai e mãe . Por tudo isso. Por isso é que São João diz A ira de Deus sobre ele permanece31. Dá aos pobres. e há de ser determinada pelas regras que a cidade prescreve. o preceito Não cometerás adultério não proíbe toda forma de copulação. Vende tudo quanto tens. pois Jefté fez o seguinte voto Quízes 11. e não será punida a sua infidelidade. saindo da porta etc. pois igualmente decretou: E mate cada um a seu irmão. entregue. diante dos quais Cristo mesmo negou ser juiz ou repartidor. Da mesma forma. não estarão pecando contra lei alguma. Esse preceito ordena pois ao homem e à mulher que preservem plenamente aquela fé que eles mutuamente se deram segundo as leis da cidade.Não ma tarás. isto é. Disto se segue.

nem tampouco dizer que súditos.ele não veio ao mundo para ensinar lógica. conceber máquinas. o que a injustiça. adultério ou roubo o que é contrário às leis civis. isto é. também qual é sua honra. das estações do ano. com base no que a cidade disser. isto é.. quem é inimigo. Finalmente. a paz ou uma trégua. mesmo quando se referem a essas questões filosóficas. se surgir uma controvérsia sobre a significação própria e acurada. da passagem do tempo e da natureza de todas as coisas. ou àqueles. ora incorreta. enviar algo em segurança pelos mares. no que disserem os poderes soberanos. levar pesos enormes. todas estas coisas: construir castelos. Por conseguinte. podem eventualmente causar dano ao público. do curso das estrelas.. em parte para viver bem. e ocasionar grandes sedições e injúrias. que os juízes. na qualidade de reis e senhores de seus filhos. ter um bom conhecimento da face do mundo inteiro.. isto é. compreendidas sob o nome de filosofia. e não disse com que ritos. templos. carregar. Cabe também à autoridade civil julgar. para dizer se a inferência foi corretamente alcançada ou não. 12. 298 299 . é necessário que haja alguém para julgar o raciocínio. pois. a saber. os erros. que autoridade e a de quais homens é vantajosa ou prejudicial para a segurança da república. tirando-se uma série de conseqüências necessárias a partir daquilo que foi inicialmente obtido através da experiência. além de toda sorte de outras coisas. são necessárias em parte para viver.de tais controvérsias serão aqueles mesmos que Deus instituiu anteriormente pela natureza. nomes e com que espécie de obediência eles devem ser honrados. quando preciso for.ou seja. e. Mas não há regras dadas por Cristo para este propósito . isto é. Mas os homens raciocinam ora de forma correta. e portanto aquela conclusão que consideram ser verdadeira pode às vezes ser certa e outras vezes errada. nenhuma além do mandamento de obediência. Do Cidadão Religião subtraia nada que a cidade proíbe de invadir ou de subtrair. segue-se que nenhum súdito em particular pode determinar quem é amigo público. de modo geral. Resulta. casas. que só chame de assassínio. e toda espécie de ciências que. sobre a definição daqueles nomes 11. considerando que Cristo nos mandou honrar pai e mãe. que definições e que deduções são verdadeiras Além disso. Ora. a compreensão de todas estas coisas (porque Cristo não no-Ia deu) deve ser obtida pelo raciocínio . como a natureza da justiça consiste em que a cada homem se dê aquilo que é seu. como nosso Salvador não apontou aos súditos nenhuma outra lei para o governo das cidades além das leis de natureza. é manifesto que também compete a uma cidade cristã determinar o que é a justiça. e ainda como se peca contra a justiça. que tem ou têm o poder soberano nela. Ademais. afirmo eu. a fim de pôr termo à controvérsia. supõe-se que devam sê-Io internamente com a vontade. sempre que uma controvérsia surgir nesses assuntos que for contrária ao bem público e à paz comum. Cabe à autoridade civil definir o que tende à paz e defesa da cidade Ademais. E o que compete à cidade deve se entender que compete àquele. E. os que em cada cidade são constituídos pelo soberano. quando deve ser feita a guerra. Estes assuntos e todos os análogos devem ser conhecidos. que sirvam para toda espécie de uso. mover. entender perfeitamente em que consistem todos os direitos naturais e civis. quando for preciso. a qual atribui a cada homem. mas externamente não devem ser honrados mais do que o permita a cidade.

a doutrina assim transmitida está sujeita à censura pelos poderes civis. que a definição e determinação do que é justo e injusto. segundo a qual o homem é uma criatura racional.ão entre coisas temporais e espirituais Partindo do que foi dito no capítulo anterior. E essas coisas . tudo o que ele quisesse. fez parte do ofício de Cristo perdoar os pecados aos penitentes. Entre esses pontos. incluem-se que ele era o Cristo. Quanto a saber se um homem raciocina corretamente. porque isso era necessário para a salvação daqueles que já haviam pecado. por autoridade divina. Em segundo lugar. mas depende. em terceiro lugar. se uma mulher der à luz uma criança de formas insólitas. e quantos. da vontade de Deus. como se fosse coisa devida. como um dom gratuito. apenas a Cristo. ao ofício de Cristo ensinar todos os mandamentos de Deus. O ofício de Cristo consiste em ensinar a moral não como teoremas. poderia não apenas ensinar. que há recompensas e punições depois desta vida. pela via da razão natural.a saber. não poderiam ser conhecidas de nós. não as tivesse ensinado Cristo.. o que é um ser humano. mas somente pela revelação. então. todas as outras coisas são temporais.. Mas devemos lembrar que o mesmo Cristo. a respeito do culto a lhe ser prestado. Pois a remissão dos pecados não decorre naturalmente do arrependimento. Com efeito os homens. essa decisão cabe à cidade. e outros análogos. bem como a observância de todas as leis naturais. não é difí cil distinguir entre as coisas espirituais e as temporais.isto é. ensinar desta maneira pertence apenas àquele que conhece pela via sobrenatural a vontade de Deus . constituem um dos meios para a salvação. a política e as ciências naturais . mostrando que a vontade de Deus é tal ou qual. tal determinação competirá à cidade. assim. 13. obtêm definições desse tipo com baiJe na observação dos diversos conceitos aos quais aplicam essas denominações em distintas épocas e circunstâncias. a resolução de todas as controvérsias sobre os meios de paz e de defesa pública. e isso sem levar em conta a definição de Aristóteles. em todas as controvérsias a seu respeito. estará em questão se tal criança é um ser humano. Pergunta-se. derivando 14. como também ordenar. Segue-se. A outra maneira é como leis. Por epirituais se entendem aquelas coisas que se fundamentam na autoridade e no ofício de Cristo e que. ou dos pontos de fé que não podem ser conhecidos pela razão natural. se o direito e as leis naturais de princípios e contratos humanos. Do Cidadão Religião e denominações que são de uso corrente. que a alma é imortal. mas enquanto lei. Por exemplo. como teoremas. Distinr. e em perdoar pecados. Pertence. todo indivíduo deva obedecer às leis e determinações de sua cidade. ou ensinar qualquer coisa além do seguinte: que. E eles podem ser ensinados de duas maneiras: primeira. A justiça e a obediência civil. e a lei proibir matar um ser humano. que seu reino não era terreno..são tópicos acerca dos quais Cristo nega que pertença a seu ofício dar quaisquer preceitos. o direito. mas celestial. enquanto Deus. pelo raciocínio. e ensinar todas as coisas que não sejam objeto de ciência propriamente dita A suma do ofício de Nosso Salvador consistiu em ensinar a via e todos os meios para a salvação e a vida eterna. que se deve revelar pela via sobrenatural.. quais sacramentos deve haver. e o exame das doutrinas e livros em todas as es 301 300 . Ninguém nega que a cidade deverá decidi-Io. E somente ele podia fazê-Io. e se a paz da cidade ou a distribuição do direito exigir que a ela se ponha termo.

não retirou deles. e por isso cabe ao direito temporal efetuar tal distinção . e chame (Romanos 8. e em que consistem a vontade e o mandamento da Igreja. Pois. reconhecemos as Escrituras como constituindo a palavra de Deus. 8-10) de espirituais aquelas coisas que são do espírito. sua autoridade suprema para julgar e determinar toda espécie de controvérsia sobre os assuntos temporais. 27). e chame de carnais aquelas coisas que se referem aos bens deste mundo ou temporais (Romanos 15. e que é chamada de palavra dos apóstolos. 24. Contudo.. é verdade que no Novo Testamento a palavra de Deus significa. 14): Se alguém não obedecer a nossa palavra etc. a Moisés e aos profetas.. é dificílimo supor que isso se dissesse da voz de Deus ou da de seus apóstolos. para significar o que Deus disse. e Nosso Salvador a seus discípulos ou a quaisquer outros. 302 303 . mas é fácil conceber que se tratasse. de sua doutrina. o que é uma Igreja. que se afirma que os apóstolos pregavam a palavra de Deus (Atos 13. ou melhor.porque Nosso Salvador não a fez. isto é (acrescentando uma interpretação). ou de quem em cada cidade alcançou a soberania. a saber. pois São Paulo diz (2 Tessalonicenses 3. Já quanto aos mistérios da fé. a palavra a respeito de Deus. 36 Estas passagens não podem ser entendidas como significando outra coisa do que a doutrina evangélica. contudo ele não definiu. o que da inspiração sobrenatural. e as quais o homem da carne não entende. Em terceiro lugar. é palavra de Deus. Assim é que se diz (Mateus 4. que em nossos dias é pregada dos púlpitos e aparece nos livros dos teólogos. E nessa terceira acepção palavra de Deus é toda aquela doutrina da fé cristã. tudo o que Deus disse a Abraão. 13). o que é interpretáIa. e 13. que a palavra de Deus é chamada de palavra desta vida (Atos 5. aos patriarcas. Da mesma forma. mas somente aquele que conheceu a mente de Cristo (2 Corintios 2. diremos que ela é usada de três maneiras. Portanto. a palavra da sabedoria. dependem do direito temporal. nem nos forneceu regras que nos permitam conhecer o que procede da razão natural. Em quantos sentidos a palavra de Deus se pode entender Considerando portanto como é claro que Nosso Salvador confiou aos príncipes. 20). 1 Coríntios 12. Do Cidadão Religião pécies de ciência racional. a doutrina do Evangelho.14-16). por dependerem apenas da palavra e autoridade de Cristo. seu julgamento há de caber ao direito espiritual. de palavra da verdade. a operação de maravilhas35. de palavra da fé (Romanos 10. devemos ver portanto a quem ele deixou a mesma autoridade nos assuntos espirituais. embora São Paulo em muitas passagens distinga entre as coisas do espírito e as coisas da carne. 23) que Cristo pregou o evangelho do reino. é a investigação da razão que define o que é espiritual e o que é temporal. tudo o que tenha sido pronunciado por homens movidos pelo Espírito Santo ou obedecendo a suas ordens.. a variedade de línguas. 5. os dons de curar. ou seja. 1-3). crescia e se multiplicava (Atos 12. isto sim. de palavra do Evangelho (Atos 15. 8). Primeiro. Se deixarmos de lado o fato de que na Escritura a palavra de Deus é tomada às vezes pelo filho de Deus. 7). todas elas inspiradas pelo Espírito Santo pela via sobrenatural. nesse sentido. devemos in dagar então o que é a palavra de Deus. com mais freqüência. quando da palavra de Deus se diz que se plantava. 46).. de evangelho da salvação (Efésios 1. a fé. 15. Mas. a profecia. Em segundo lugar. 49). a interpretação das línguas. ou a palavra do reino de Deus proferida por Cristo.. e chame os homens de carnais (1 Coríntios 3. como isto só pode ser conhecido partindose da palavra de Deus e da tradição da Igreja. e mais propriamente. a palavra da ciência.

o desígnio (counseD de quem fala. Nem tudo o que está contido na Sagrada Escritura pertence ao cânone da fé cristã A Sagrada Escritura é inteiramente palavra de Deus na segunda acepção. o cânone para os mistérios da religião cristã. Portanto é necessário um intérprete. cumprir esse serviço (oifice) sozinho e sem o auxílio de muitas circunstâncias. E não podemos se 304 305 . A palavra do intérprete legal das Sagradas Escrituras é palavra de Deus E em verdade não é a voz ou letra morta da palavra de Deus que constitui o cânone da doutrina cristã. para interpretar as Escrituras que alguém entenda a língua em que ela é falada.. para o francês se os tiver franceses. para que torne as Escrituras em um cânone... tais passagens. tão desejados nos escritos dos tempos antigos. Do Cidadão Religião 16. o gesto.. da língua hebraica ou grega. a voz viva tem a presença de seus intérpretes. para que sirvam a sua ambição pessoal. ou de prefigurações à encarnação de Cristo. Destas duas a última é necessariamente falsa. morais. não podem ser. a saber. necessita ter uma regra que seja. embora ele mereça o principal lugar entre todos aqueles signos pelos quais declaramos aos outros o que concebemos. o lugar. isto é. Para conseguir evocar esses auxiliares da interpretação. então. ou o cânone da doutrina cristã não é a palavra de Deus. igualmente. Nem é autêntico intérprete das Escrituras qualquer um que escreva comentários a seu respeito. mas uma determinação verdadeira e genuína. podem também vergar as Escrituras. Pois os homens podem errar. e o próprio falante a desenvolver o significado do que diz em outras palavras sempre que isso se fizer necessário. e então estamos ante a seguinte alternativa: ou a palavra do intérprete é a palavra de Deus. para o latim se tiver ouvintes latinos. e constituam o cânone de tal espécie de doutrinas. o tempo. então a Sagrada Escritura é também palavra de Deus no terceiro significado. segundo o qual a palavra de um intérprete das Escrituras é a palavra de Deus. Assim. como nas mesmas Escrituras lemos muitas coisas políticas.. embora contenham doutrina verdadeira. Mas. pois uma doutrina que não pode ser conhecida por nenhuma razão humana. 18. se elas 17. e se os tiver de outras nações para as respectivas línguas maternas: porque isso não é interpretar. históricas.. Pois a mente não será governada pelas Escrituras. porém. para essa doutrina. cânone e regra para toda a doutrina evangélica. se ela não as compreender. porém. a opinião de uma pessoa a quem não consideramos capaz de discernir se a doutrina é verdadeira ou não. ou da evangelização e explicação posteriores a ela. E. Não é suficiente. Por conseguinte é verdade o primeiro membro da alternativa. nem mesmo o mais original: é preciso dispor ainda de uma grande erudição e de muita ciência da antiguidade. ou. assim a palavra de Deus é tomada como sendo a palavra a respeito de Deus. Pois é tal a natureza do discurso em geral que. divina. considerando que a sua maior parte trata ou da previsão do reino dos céus. o evangelho. porém apenas pela revelação divina. físicas e outras que em nada se referem aos mistérios de nossa fé. não pode. a fisionomia. A autoridade para interpretar as Escrituras é a mesma que determina as controvérsias na fé Mas o intérprete cuja determinação recebe a honra de ser considerada como constituindo a palavra de Deus não é qualquer um que traduza as Escrituras. não basta ter um engenho (wit) ordinário. e partes inúmeras dela são palavra de Deus na primeira acepção. isto é. sendo ela o que reconhecemos ser inspirado por Deus. guir como regra.

Mas Assolava a Igreja37 (Atos 8. Mas os eleitos. escravizá-Ias monopolizando-as: e disso se segue que uma sentença errônea venha a ser considerada como constituindo a palavra de Deus. como a Igreja de Éfeso. quer sejam cristãos em seu íntimo quer apenas por fingimento . Do Cidadão Religião resistirem..27).. 23). eles o serão naq\}ele dia em que. no texto sagrado. ou seja. separados dos réprobos (reprobate). Finalmente. 19. se estiverem autorizados a entrar na congregação e a comunicar-se com os congregados. Assim. e juiz supremo de toda espécie de doutrinas. e essas exposições requerem novos comentários . E a Igreja ainda pode ser às vezes considerada como o coletivo de todos os cristãos. significa.como quando lemos que algo foi dito ou escrito à Igreja. a segunda. Mas. não são propriamente chamados de Igreja. Às vezes toma-se a Igreja por aqueles que são batizados. como quando ela é chamada santa e irrepreensível(Efésios 5. por Igreja de cristãos se entende às vezes a assembléia. são uma futura Igreja. É neste sentido que lemos. ações e as demais capacidades que caracterizam uma pessoa Mas a Igreja. e sobre uma Igreja legítima (Atos 19. Sua autoridade não deve ser menos obedecida do que a daqueles que foram os primeiros a recomendarmos a própria Escritura como um cânone de fé. algo sobre uma Igreja confusa. 23. Assim. quando é considerada como a companhia efetivamente reunida. Dize-o à Igreja (Mateus 18. 20. tão logo esses comentadores se afastem. e às vezes aqueles que se encontram na casa de preces para cultuar a Deus. a Igreja que está em sua casa. aquele que fala à congregação. O que é uma Igreja. da Igreja (Colossenses 1. Às vezes é tomada por suas partes. que firmaram 307 .tudo isso sem ter fim. nenhuma interpretação escrita pode constituir um cânone ou regra para a doutrina cristã que ponha termo às controvérsias da religião. Ademais. e. Diversas significações da palavra "Igreja" Quanto à palavra ecclesia. no correr do tempo. haverão de triunfar. as sete Igrejas etc. embora não estejam efetivamente reunidos. pois não sabem como se reunir. originalmente ela significa a mesma coisa que concio ou congregação quer dizer em latim. ainda que isso não aconteça. Essa única e mesma pessoa deve ser intérprete das Escrituras. pois de outro mo 306 do é impossível dizer qualquer coisa que seja à Igreja. para uma assembléia que foi convocada. às vezes aqueles que se juntam para deliberar e julgar (sentido no qual é também chamada concílio ou sínodo). 4. seus mesmos comentários passam a necessitar de explicação. e às vezes os próprios cristãos. ou pelos que professam a fé cristã. segundo os diversos fins que pode ter tal reunião. designando pessoas que afluem a um tumulto. 3) entende-se de uma Igreja não reunida. 18). e à qual se referem frases como Dizeo à Igreja e aquele que não obedece à Igreja e outras tais. cujo ofício legítimo consiste em pôr fim às controvérsias que surjam. ou dito. a que se atribuem tanto direitos pessoais quanto ações que lhe sejam próprias. deve definir-se de tal modo que por essa palavra se entenda uma multidão de homens. nos Atos dos Apóstolos. decretado ou praticado pela Igreja. e a cabeça de seu C01pO. isto é. 28 etc. enquanto militantes. Resta que tem de haver algum intérprete canônico. a Igreja. essas explicaçôes precisam ser expostas. ou Igreja. 17) referese à Igreja reunida. isto é. significado este que vemos em 1 Coríntios 14. 5. 32-39): a primeira.. Por exemplo. ecclesiastes ou eclesiástico significa o mesmo que concionator ou pregador. como quando Cristo é chamado cabeça de sua Igreja (Efésios 5. explicando a palavra de Deus nos próprios julgamentos. a que atribuímos direitos. Às vezes por ela se entendem apenas os eleitos.

e o que torna tal Igreja una. não pode dizer-se uma pessoa. Assim. todos estes. por consentimento mútuo tornar-se uma só Igreja. pelo mesmo direito outros. é verdade. aquilo que chamamos uma cidade. quando se compõe de cristãos. eles estão obrigados a comparecer pessoalmente ou através de representantes. Estados separados não constituem uma Igreja Também isso é muito coerente com os mesmos pontos: se houver muitos Estados cristãos. juntos. assim sendo.pois é evidente que cada súdito está obrigado a comparecer. 21. isto é. não formam uma Igreja única. legalmente constituem uma Igreja. e for ilegal. mas também a de que tal reunião seja legal. será considerada nula. a saber. que consiste num poder com o direito de reuni-los. quer pessoalmente. ainda que haja alguém com o direito de convocar os demais. ou seja. quando cada qual está obrigado pelo decreto da maioria. Além disso. mas o de haver um único poder legalmente capacitado a convocar sínodos e assembléias de cristãos. e lhe confere as funções de pessoa. se alguns. uma Igreja não pode falar. com os mesmos homens. se os que assim forem convocados tiverem direito a não comparecer (o que bem pode suceder entre homens que não sejam súditos uns dos outros).. uma e muitas Igrejas. necessariamente. nem discernir ou ouvir. por isso haverá tantas Igrejas quantas forem as opiniões assim distintas: o que quer dizer que a mesma multidão se mostrará ser. lá onde for convocado por sua cidade. um poder legal. Isso porque eles só podem se reunir em lugar e data previamente mar 309 308 . Por conseguinte. quer através de procurador. Devemos portanto incluir na definição de Igreja. E por isso uma tal Igreja39 não pode promulgar decreto algum. Assim. mas do mesmo modo que se converteriam num Estado único. formam outra Igreja. E então qualquer número de homens que tenham uma mesma opinião constitui uma Igreja. constitui-se dos mesmos cristãos. por meio do qual todo e qualquer homem possa ser obrigado a comparecer à congregação. e. que uma cidade de cristãos e uma Igreja são exatamente a mesma coisa. uma multidão dos que receberam o sacramento do batismo. pois se diz que uma multidão decreta algo. 22. dirigindo-se a outro lugar por eles escolhido. Alguém tem o direito de convocar tal multidão de homens a um lugar determinado e. ainda que estas concordem em suas opiniões. a não ser na medida em que é uma congregação. convocados a se reunirem num lugar e data previamente fixados.. se não puder reunir-se em assembléia quando isto se fizer necessário. se uma assembléia se reunir. Do Cidadão Religião um novo pact038 com Deus em Cristo. a que se dão dois nomes diferentes. chama-se Igreja. à qual atribuímos coisas que competem a uma pessoa. Podem. a um só tempo. menos que todos. Pois uma multidã'à. E se assim não for tudo o que teremos será uma multidão. não é o fato de ter uma doutrina uniforme. por duas razões. Tudo o que seja dito por indivíduos (que terão uma opinião por cabeça) e o discurso de um só homem. não apenas a possibilidade de que ela se reúna em assembléia. não o da Igreja. também é a mesma . A matéria de uma cidade e de uma Igreja é a mesma. Além disso. nenhum daqueles que estejam presentes a um tumulto estará preso ao decreto dos restantes. Por isso. essa Igreja não é uma pessoa. uma Igreja somente é una quando houver um poder certo e conhecido.. porque se compõe de homens. Pois. Uma cidade cristã é o mesmo que uma Igreja cristã Segue-se. aqueles que discordarem do tumulto. bem como pessoas no plural. E a forma.

ain 23. a qual eles só atualizarão quando se separarem dos reprovados e se congregarem entre si. a porção que cabia a cada homem. cuja cabeça é Cristo. apesar disso. outros ainda de presbíteros. e por isso não era universal. A Igreja. lugares e datas competem ao direito civil. nem tem nenhuma ação ou determinação comum. escolheu dois (E apresentaram dois41). Os ministros tinham. Quem são os eclesiásticos Podem ser chamados de eclesiásticos os que exercem um ofício público na Igreja. reconhecendo Deus como governante do mundo. aceitavam porém ainda os doutores de Roma. que só podem ser legalmente praticadas com a permissão do Estado. constituem um só reino e uma só cidade . Depois da ascensão de Cristo. o dos pastores. pessoas. o evangélico. foi utilizada para designar o ofício. em ensinar. quer dizer. mas isso da mesma maneira que todos os homens reunidos. outros de bispos. Mas entre os ofícios se distin 310 311 . como em sua maior parte os anciãos eram reconhecidos como mestres. e sim ao ofício. elegeu e ordenou os primeiros doze apóstolos. porém. os vários Estados que dele se originaram formaram igual número de Igrejas. a Igreja. evidencia se que o apóstolo afirmou isso relativamente aos eleitos que. de cuidar dos bens temporais da Igreja e de distribuir. que naquele tempo consistia de uma congregação com cerca de cento e vinte homens. assim foi que Timóteo foi presbítero. essa palavra. uma referência à idade. ora. e aquele poder que a Igreja de Roma tinha sobre eles bem poderia depender inteiramente da autoridade dessas Igrejas que. ou evangelistas. que também é chamada ordenação. o que por sua vez somente ocorrerá no Dia do Juízo. os de servir à mesa. o profético consistia em declarar na Igreja as revelações alcançadas. a menos que o fosse no sentido em que também se dizia da cidade de Roma Orbem jam totum victor Romanus habebat4° embora ele ainda não tivesse sequer a vigésima parte do mundo. caso tenham tal permissão são efetuadas pela autoridade do Estado. eram chamados apóstolos. confirmar e governar a mente daqueles que já acreditavam. entre seus ofícios. ou. 24. dependendo da sua hierarquia (arder). depois que o Império civil se vil' dividido. na passagem em que se diz que Cristo é a cabeça de seu CUlpO. porém. naquele tempo em que toda a propriedade das riquezas estava abolida e eles recebiam sua comida em comum. em pregar ou proclamar o Evangelho entre os infiéis. Esse termo "presbítero" não significa. e além disso nenhum súdito ou estrangeiro pode legalmente põr seu pé em qualquer lugar que seja se não tiver a permissão da cidade. guiam o ministério e o magistério (maistery). não é uma pessoa. anciãos. tendo repelido dos imperadores. A Igreja Romana antigamente era muito grande. Matias foi eleito para o lugar do traidor Judas. enquanto estão neste mundo. mas Deus mesmo elegeu. constituem uma Igreja apenas in potentia. Mas. ou profetas. ou pastores e professores (teachers). conforme o emprego a que se destinavam. Os mesmos mestres. e sua consagração ou instituição. Cristo. E o trabalho apostólico era realmente universal. José e Matias. que tem senhorio sobre o lugar. que indica a idade. pela sorte. mas nunca foi além dos limites de seu império. eram uns chamados de apóstolos. a Matias.~ Do Cidadão Religião cados. Mas. e a sua consagração aos pastores Na eleição dos eclesiásticos devem ser consideradas duas coisas: a escolha das pessoas. A eleição dos eclesiásticos compete à Igreja. Além disso.que. embora ainda jovem. E São Paulo chama a estes doze os primeiros e grandes apóstolos. As coisas. A Igreja universal é realmente um corpo místico. pessoalmente. Já os mestres.

pelos doutores e profetas da Igreja de An tioquia (que era uma Igreja particular). dentre vós. Paulo e Barnabé. Assim. assim. 14) reprova as Igrejas da Galáxia por se judaizarem. e perguntarmos por autoridade de quem se reconheceu aquilo que tais profetas e doutores diziam ser ordem do Espírito San to. não foram os apóstolos que os elegeram: pois. 1. E lhe foram dadas regras para a escolha dos presbíteros. a quem se chamava de diáconos . depois de dizer-lhes que ele repreendera o próprio Pedro com as seguintes palavras: Se tu. os apóstolos Paulo e Barnabé pela imposição de mãos dos doutores assim eleitos. necessariamente deveremos responder: por autoridade da Igreja de Antioquia. dizendo (Gálatas 3. pois. ordenaram anciã os em cada Igreja por que passaram (Atos 14. Assim. embora os nomes recomendados pelos apóstolos ou presbíteros não fossem recusados. por imposição de mãos.3. quando iam ser eleitos e ordenados os sete diáconos. como vemos que os primeiros não poderiam ser eleitos sem a vontade da Igreja. determinar que doutores eles deveriam seguir. graças à estima em que estes últimos eram havidos. em Romanos (cap.. Mas tudo isso somente se aplica à ordenação daqueles que já foram eleitos pela Igreja . nem portanto a homem algum. fica evidente que em cada Igreja a imposição de mãos e a consagração dos principais doutores compete aos doutores da mesma Igreja. mas que haviam sido eleitos por ordem do Espírito Santo. pois Paulo deixara Tito em Creta. E. Mas.porque ninguém pode constituir um doutor na Igreja sem a permissão dela. às vezes foram ordenados por apóstolos.6). por outros bispos. isto é. Mas qual Igreja faria essa prova. para que estabelecesse anciãos43 em cada cidade (Tito 1.5. vives como os gentios. e não a Pedro. 312 313 . que também eram chamados de presbíteros embora nem todos os presbíteros fossem bispos -. se não aquela à qual se dirigia a epístola aqui citada? Da mesma forma. porém em ensinar. Já os bispos. contudo. 1) assim diz: Não creiais a todo o espírito. escolhei. 5). Mais tarde se somaram a eles outros dois apóstolos. igualmente estava sob a autoridade da Igreja de Antioquia eleger seus profetas e doutores. que competia à Igreja. 2} Só quisera saber isto de vós: recebestes o Espírito pelas obras da lei ou pela pregação da fé? Nessa passagem se evidencia que ele repreendia os gálatas por judaísmo. embora aparentemente o fizessem autorizadas por Pedro. não demora a questionar os gálatas. se prosseguirmos nossa investigação. E Timóteo foi advertidd4 (1 Timóteo 4. os apóstolos da circuncisão. com a imposição das mãos do presbitério. para seu serviço. sete varões de boa reputação ete. e a multidão ele da. como foi o Espírito Santo quem separou. e não como judeu. é certo. O capítulo 13 dos Atos confirma que ambos foram apóstolos (vv. por que obrigas os gentios a viverem como judeus?. Pois.. por ordem do Espírito. do restante dos profetas e doutores da Igreja de Antioquia. 2 e 3)42. v. que foram ordenados. o qual lhe foi dado por profecia. quando pregaram em Derbe. o dever dos próprios apóstolos não consistia em mandar. E São João (P Epístola de São João 4. supõe-se então que fossem eleitos pela autoridade da Igreja. E o próprio São Paulo mostra que seu apostolado se deveu a esse fato.mas foi a Igreja quem os elegeu. pouco importando que fosse o apóstolo Pedro quem os obrigara a judaizar-se. Listra e Icônio. 1). separado para o evangelho de Deus". "apóstolo. Porque os profetas e doutores devem ser examinados pela Igreja. 45. antes que sejam reconhecidos em tal qualidade. para que se dedicassem ao trabalho de Deus: pois ele se define. 14) para não desprezar o dom que há nele. Assim. porque já muitos falsos profetas se tem levantado no mundo. disseram eles (Atos 6. outras vezes. sendo judeu. 23). Da mesma forma os apóstolos ordenaram ministros. a serem eles apartados. mas provai se os espíritos são de Deus. São Paulo (Gálatas 2. Paulo e Barnabé. Do Cidadão Religiã o Considerando.

diz Cristo Qoão 20. quando tivermos 314 315 . e os dos impenitentes não lhes podem absolutamente ser perdoados. haverátambém a opinião de que pode haver arrependimento antes de ocorrer qualquer confissão de pecados a outro homem. e de retê-Ios mas só dos impenitentes. E os apóstolos receberam todo o poder de perdoar os pecados que Cristo então possuía. 21). e de reter os dos impenitentes compete aos pastores. Assim como o Pai me enviou. que a ordenação ou consagração de todos os eclesiásticos. antes devemos temer aquele que pode lançar no inferno tanto a alma quanto o corpo (Mateus 10. se mostra arrependido de verdade parece ir contra o próprio pacto do Novo Testamento. Por outro lado. começar sabendo que o arrependimento consiste num sincero reconheciment046 do pecado. ficaria completamente destruído todo o temor (awe) que se deve aos príncipes e magistrados civis. etc. portanto. Devemos portanto. àqueles a quem perdoardes os pecados etc. mas a eleição daqueles que haveriam de ser consagrados era competência da Igreja. Mas há alguma dificuldade sobre o que é atar e desatar. e os apresentou ante os apóstolos. Está claro. juntamente com toda forma de governo civil. não escolha obedecer antes aos primeiros.. Primeiro. Pois Cristo disse mais que isso. entre aqueles que podem perdoar ou reter seus pecados. Pois quem sabe que pecou sabe que errou. E perdoar aos impenitentes parece ir contra a vontade de Deus Pai. portanto. e os reis mais poderosos. porque reter os pecados de quem. Além disso. competia aos apóstolos e doutores. perdoar e reter os pecados. também eu vos envio a vós. isto é. e não podem matar a alma. que foi quem mandou Cristo para converter o mundo e reduzir os homens a sua obediência. que é praticada mediante a prece e a imposição de mãos. o de perdoar ou reter os pecados. e portanto nem Cristo poderia agir assim. e acrescenta (v. muito menos os seus pastores. não há dúvida de que Cristo o outorgou aos futuros pastores da mesma forma que o concedeu aos apóstolos de seu tempo. a própria natureza já decreta que não devemos temer os que matam o corpo.Do Cidadão Religião geu Estêvão. mas é impossível querer errar. O poder de perdoar os pecados dos penitentes. se defrontam com uma grande dificuldade: porque o que dizem vai contra as Escrituras. e isso é arrependerse. pelo costume que a Igreja primitiva tinha sob os apóstolos. Pois que mal traz consigo a excomunhão. para resolver a dificuldade aponta da. 22): Àqueles a quem perdoardes os pecados lhes são perdoados. enquanto os homens pensarem que o arrependimento consiste simplesmente em cada um condenar as ações que praticou e mudar os desígnios que a ele mesmo agora parecem ser pecaminosos e condenáveis. e contra as palavras de Cristo. E ninguém é tão louco que. além dos sofrimentos (pains) eternos que ela necessariamente acarreta? Ou que benefício traz o ingresso na Igreja. quem sabe que pecou tem vontade de que não o tivesse feito. e àqueles a quem os retiverdes lhes sào retidos. o arrependimento então não seria efeito. Além disso. se a cada pastor fosse conferida uma tal autoridade para perdoar e reter os pecados. tendo sido batizado para sua remissão. Contudo. mas o de julgar a penitência é da Igreja Sobre o poder de atar e desatar. se houver salvação fora dela? Devemos portanto sustentar que os pastores têm um poder verdadeiro e absoluto de perdoar os pecados mas somente dos penitentes -. não se deve imaginar que a remissão dos pecados consista apenas em ficar isento dos castigos eclesiásticos. 28). E os que a isso respondem dizendo que os pecados dos penitentes já lhes são perdoados com o batismo. mas causa da confissão. 25.

que se teu irmão pecar contra ti significa a mesma coisa que se ele te cometer injúria. e para fazer do gentio um cristão. leva ainda contigo um ou dois47. como se poderia perguntar quem teria poder tão grande que pudesse retirar o benefício do batismo aos impenitentes. como alguém que não foi batizado. Cristo mostra que as mesmas pessoas a quem ele conferiu autoridade para batizar o penitente na remissão dos pecados. sua retenção.incumbe ao pastor. como alguém que está fora da igreja. Assim explica das tais coisas. esta última. dize-o à Igreja. Diz. Ora. ou não. será posterior. E acrescenta: Se ele não te ouvir (isto é. se ele não se arrepender (pois é indubitável que ninguém se arrepende de uma ação que não considere ser pecaminosa) -. quando o intérprete da lei julgar que o fato em questão constitui um pecado. pelo qual o fato foi julgado pecaminoso. que não sabemos se foi pecado ou não. Uma delas é o juízo. ou não há verdadeiro arrependimento ou. é impossível que venha a se arrepender por tal coisa. por que dizê-Io à Igreja. E por isso ele acrescenta: Em verdade vos digo que tudo o que 316 317 . e portanto Cristo se referia aos tópicos que competiam ao tribunal civil.Portanto devemos expor o fato. mas à Igreja. Ora. Mas.compete ao intérprete da lei. se ele não se submeter à sentença da Igreja. Portanto. deveremos considerar que o arrependimento não antecede a confissão dos pecados. então não diz Cristo: Dize-o aos apóstolos. se arrepende. negar que fosse injusta). ou se.. se ela não se arrepende. e. Ora. porém insistir em que não é pecado o que ela afirma ser ou seja. O penitente deve portanto reconhecer o fato e além disso saber que se tratava de um pecado. e assim. como alguém cujos pecados estão retidos. Ora. de passagem. mas lhe é posterior: pois só há arrependimento dos pecados que reconhecemos como tais. 18. isto sim. Aqui devemos observar. Do Cidadão Religião dúvidas se o que cometemos constituía pecado ou não. e.. chama-se a remissão do pecado. à confissão. se alguém pensar que aquilo que fez não infringia a lei. enquanto a segunda . de algo contrário ã lei. igualmente têm autoridade para reter os pecados daqueles que a Igreja vier a julgar impenitentes. ou seja. porém na sentença do legislador. ou um grupo de homens. isto é. não é difícil entender que espécie de poder é o de atar e desatar. Por conseguinte. um pecado. no poder de atar e desatar. 15-18) que era isto o que realmente queria Nosso Salvador Cristo. porque sabemos que a sentença definitiva sobre a questão de se tratar ou não de um pecado não compete a eles. ou seja. vai. vv. se não for para que ela julgue se se trata ou não de pecado? E.a remissão ou a retenção do pecado . antes do arrependimento é necessário que haja um enquadramento (application) dos fatos na lei. se o pecador se submeter a seu julgamento e decidir dentro de si que não mais agirá dessa forma. se este houver. de cristãos. e nisso consiste a confissão. perante tal homem ou grupo de homens. gentios. Pois vemos que na remissão dos pecados devem ser consideradas duas coisas. e consiste. E seguramente o intérprete da lei será um homem. pois ninguém pode julgar se o que ele próprio fez constitui. ou seja. confessando-a. se teu irmão negar que tenha feito tal coisa. se também não escutar a Igreja. e portanto para fazer. A outra. ao juiz soberano. e repreende-o entre ti e ele só. a primeira destas coisas julgar se se trata ou não de um pecado . se não as escutar. ou condenação. considera-o como um gentio e publicano. Vemos em Mateus (cap. isto é. ou seja. estará se arrependendo. ao instituir este poder: Se teu irmão pecar contra ti. além disso é impossível enquadrar os fatos na lei se não houver um intérprete: pois a regra das ações humanas não reside nas palavras da lei. quando a parte condenada se submete e obedece ã sentença. e não anterior. Pois todos os cristãos foram batizados a fim de terem os seus pecados remitidos.

Dizia-se então que eram "entregues a Satanás" porque tudo o que estava fora da Igreja constituía o reino dele. e da mesma extensão que esta . não difere em nada do poder conferido nos seguintes termos em Mateus (cap. excomunhão. Pois o Apóstolo permitiu que se mantivesse companhia aos gentios. e do Filho e do Espírito Santo.. eles se fizessem humildes para a salvação. pela Igreja. Pois. v. 26. e por São Paulo "entrega a Satanás". deviam ser evitados por todos os demais cristãos. que por sua vez teria de ser ou universal ou particular. tampouco podem eles reter os pecados daquele que a Igreja considera digno de ser absolvido. 3). e tudo o que desligares na terra será desligado o céÚ'8. Mas. sendo considerados contagiosos. veio que se tornasse costume entre os judeus não acolher os gentios que se convertiam ao judaísmo se não se lavassem primeiro. E compete à Igreja julgar do pecado. 28. e veio também o costume de expulsar da sinagoga quem dissentisse de sua doutrina. quer judeus quer gentios. privando certos homens da graça e dos privilégios espirituais da Igreja por um tempo. Mas seu efeito quanto aos assuntos seculares foi que. Nesta. A palavra excomunhão significa o mesmo que áposunágogon poiein. e ensina i todas as nações. no parágrafo 21). diz ele (v. que em outra passagem é chamado de poder das chaves. e quem dissentisse da Igreja era privado de sua comunhão. 19): Ide. se uma Igreja particular excomungar outra Igreja. Pois ou ela excomunga a si mesma. mas. com o excomungado. Por analogia (resemblance) a esse costume. 10-11)5°. entre os quais se incluía a lavagem do corpo. obviamente não pode então excomungar a ninguém. ainda que ausente no corpo. com o tal nem ainda comais C1 Coríntios 5. os que se convertiam ao cristianismo. Assim foi que disse São Paulo à Igreja de Corinto C1 Coríntios 5.e uma Igreja não pode ser excomungada. 46) de se afastar do acampamento. ou ela teria de ser excomungada por uma outra Igreja. não eram recebidos na Igreja se não fossem batizados. ou de perdoar e reter os pecados. e por outro lado. onde não há uma congregação comum.. até que o sacerdote o declarasse novamente limpo e fosse purificado através de certos ritos. Vendo-se então que é este o efeito da excomunhão. mas ainda. fica evidente. nem perdoar os pecados a quem a Igreja sentencia como desobediente. estando excomungados. quem o sacerdote julgasse leproso recebia a ordem (Levítico 13. Eu na verdade. Pois uma cidade cristã é uma Igreja cristã (conforme acima se declarou. e por isso parece originar-se na lei mosaica. E assim como os pastores não se podem recusar a conferir o batismo àquele que a Igreja julga merecê-Io. eles não apenas eram proibidos de fazer parte de todas as congregações e Igrejas. o que éimpossível. e a quem não se aplica O ato de reter os pecados é chamado. Disso. que uma cidade cristã não pode ser excomungada. e de participar dos mistérios. Do Cidadão Religião ligares na terra será ligado no céu. disse ele. com o passar do tempo. ao pastor excluir ou admitir na Igreja os que foram julgados. e que portanto ela não pode agir nem fazer coisa alguma. A finalidade desse tipo de disciplina consistia em que. porque se supunha que estivessem sujos (unclean). ou excluir da sinagoga. 12): Não julgais vós os que estão dentro? Mas foi ele quem pronunciou a sentença de excomunhão con tra o incestuos049. O que é a excomunhão. mas presente no Espírito etc. não pode haver excomunhão algu 318 319 . em primeiro lugar. mais até do que se fossem gentios. Disso podemos entender que o poder de ligar e desligar. esse ato também não resulta em nada. batizando-as em nome do Pai. considerando que uma Igreja universal não cons titui uma pessoa (como provamos no parágrafo 22).

nem um súdito nem a reunião de muitos súditos pode interditar a seu príncipe qualquer lugar. no parágrafo 22). Quanto ao que dizem alguns (que os príncipes. assim como melhor parecer conveniente a suas cidades. é claro. absolveu. ainda que o façam por um rito e uma maneira singulares. Pois. conforme mostramos no parágrafo 22. Isso porque eles não podem ser excomungados por uma Igreja que é formada. podem ser excomungados pela autoridade da mesma Igreja universal). uma provocação à guerra. justamente. determinou. em qualquer cidade. porque. Por isso tampouco pode uma Igreja interditar os excomungados de proceder dessa forma. mas nem sequer continuariam sendo uma república (commonweal). E se alguma Igreja (suponhamos: a de Jerusalém) excomungasse outra (suponhamos: a de Roma)SI. Além disso. tem a seguinte vantagem: que a cidade cuja vontade está contida na sua é exatamente a mesma coisa a que chamamos de Igreja. Pois. quem é de uma Igreja não está obrigado a obedecer à outra. um príncipe soberano. não apenas deixariam eles de ser uma Igreja. nenhuma Igreja pode proibir os gentios de se reunirem e de se comunicarem entre si. de quem possamos dizer que agiu. nem possui ela algum governante na terra. Contudo. como o príncipe não excomunga a si próprio. por não existir poder que possa legalmente reunir os seus membros (conforme declaramos acima. 320 321 . e se veriam dissolvidos automaticamente. ela nada mais faria do que excomungar a si mesma: pois quem priva a outrem de sua comunhão igualmente se priva da comunhão com aquele outro. Menos. um ou mais súditos em conjunto se arrogarem qualquer autoridade sobre a cidade como um todo . pela doutrina de Cristo. porque com eles deve se lidar como com os gentios. decretou. sendo membros da Igreja universal. mas uma afronta. se for outra Igreja que os excomunga. Em terceiro lugar. ainda.o que ninguém é. Pode acontecer. tal Igreja universal não constitui uma pessoa. ou proibi-los de usar seus templos ou de praticar seu culto público a Deus. ela deve considerá-l os como gentios. de nada significa: porque. Do Cidadão Religião ma. que uma assembléia de cidadãos rebeldes ou de traidores pronuncie uma sentença de excomunhão contra seu príncipe. Portanto a Igreja não excomunga ninguém. sem a autorização do príncipe. e portanto não pode ser excomungado por desobediência. seus súditos tampouco podem excomungá-lo. Contudo. ou ainda proibi-lo de fazer o que ele quiser no interior de sua jurisdição. por eles mesmos. não uma excomunhão. não se pode excomungar um principe que tenha o poder soberano. Constitui traiçãos2.. pela doutrina de Cristo. ninguém pode excomungar simultaneamente todos os súditos de um governo absoluto.pois qualquer que alegue possuir uma tal autoridade sobre quem detém o po der supremo na cidade realmente pretende ter essa autoridade sobre a própria cidade. ou negar-lhe entrada em qualquer assembléia que haja. por ordem de quem ela possa reunir-se e deliberar. e especialmente se eles se congregarem para cultuar a Cristo. Em segundo lugar. e outros atributos análogos que se referem a uma pes soa. se for cristão. excomungou. seja público ou privado. se isso fosse possível. pode um príncipe ser excomungado por outro porque isso se revelaria ser. como a Igreja que se compõe de cidadãos pertencentes a duas cidades absolutas não é uma Igreja. mas não é isso o que significa excomunhão ou interdição. exceto Deus mesmo. Pois ser o guia da Igreja universal e ter o poder de reuni-Ia é a mesma coisa que ser governante e senhor de todos os cristãos no mundo . mas ela não tem o direito de fazê-lo. E.

e que servisse de cânone da doutrina divina mas mandou que as controvérsias a seu respeito não fossem resolvidas por indivíduos privados. Assim sendo. que a autoridade para interpretar as Sagradas Escrituras não consiste em que o intérprete possa. Pois. inicialmente. portanto. desde que ele ou eles sejam cristãos. não compete a nenhum estrangeiro. evidencia-se que aqueles súditos que se consideram obrigados a seguir uma autoridade estrangeira nas doutrinas que forem necessárias à salvação não constituem per se uma cidade. De tais conseqüências a principal é a seguinte: que não somente se abolira. primeiro o ódio. em todas as controvérsias a que as Sagradas Escrituras possam pôr termo. Ora. eles obedecem a si mesmos. interpretar as Escrituras. sobre a recompensa e o castigo. devemos considerar. depois rixas e guerras. Pois. que por indinação natural consideram toda dissensão como uma afronta. mostrar que tal poder pertence a cada Igreja. quer dizer. Portanto. e depende sempre da autoridade daquele ou daqueles que têm o poder supremo. é preceito de Nosso Salvador que. porém a ela. se cada qual se faz juiz do que agrada e desagrada a Deus.. e não ao soberano: portanto. como exemplo. contrariamente ao preceito de Cristo. e sobre suas ações. toda a obediência civil. ou da de alguma autoridade estrangeira. em que outros não tenham o direito de fazer ou ensinar algo que vá contra o que ele sentencia. Devemos. expor e explicar aos outros. estas deveriam ouvir a Igreja. Assim. se houver qualquer tópico que leve a conflito duas pessoas privadas. se cada homem interpreta por si próprio as Escrituras. por escrito ou de viva voz. e assim toda espécie de paz e de sociedade haverá de desaparecer. ninguém obedecerá a seu príncipe antes de julgar se o que este manda se ajusta ou não à palavra divina. Mas. sem ser punido. toda a sociedade e a paz entre os homens. seguem aquelas opiniões que eles têm sobre o bem e o mal. disso surgirão entre os homens. os inconvenientes que necessariamente decorrem das opiniões particulares não podem admitir que dependamos delas. agora. I I Do Cidadão Religião 27. consiste. E portanto ou os homens não obedecem ou. 322 )23 . isto é. os homens esperam sua eterna graça ou perdição do julgamento de quem decide quais doutrinas são necessárias à sua salvação. é a eles que prestarão obediência em todas as coisas. deverá depender da opinião de cada súdito particular. porém apenas pelos sacerdotes. se isso não depender da autoridade civil. quando cada homem segue sua própria opinião. e por isso mesmo não compete aos particulares. Disso decorre que eles necessariamente preferirão obedecer àqueles de cujo julgamento (pensam eles) depende serem eternamente felizes ou desgraçados. é dever da Igreja decidir as controvérsias. por necessidade natural. a sentença e a opinião que delas extraiu. mas em vez disso são súditos daquele poder estrangeiro. Ninguém pode ignorar que as ações voluntárias dos homens. no parágrafo 18. Além disso. necessariamente sucede que as controvérsias que entre eles nascem se tornarão inúmeras e indecidíveis. Podemos ainda lembrar. Finalmente. que peso tem um tal poder sobre a mente dos cidadãos. é por sua opinião própria. além de outras razôes. a intetpretação de que ora tratamos é o mesmo que o poder de definir.. contrariamente às leis de natureza. isto sim. a obediência civil se perdeu. Quanto à primeira possibilidade. A interpretação das Escrituras depende da autoridade política Mostramos acima. como também se dissolveria. se obedecem. de determinar todas as questões que se refiram a Deus e à religião. que Deus no tempo da antiga lei exigiu que o livro da lei fosse transcrito e utilizado de público. para sabermos que a autoridade de interpretar a palavra divina. isto é.

depende e deriva da autoridade daquele homem ou assembléia que tem o poder soberano. a menos que também eu possa interpretá-Io para mim mesmo. isto é. parágrafo 6. quando no direito se pergunta se há ou não uma promessa ou convenção. se algum príncipe soberano conceder por escrito uma tal autoridade a outro príncipe. Devemos além disso considerar como é absurdo uma cidade ou um soberano conceder o governo das consciên cias de seus súditos a um inimigo. tal escrito não terá validade alguma. Esse tipo de escrito não é portanto um sinal da vontàde. isto é. o que nada mais é que perguntar se certas palavras. pelo qual se declara sua vontade de transferi-Io. que em todas as Igrejas cristãs. entre inimigos. se confessa que é direito do outro. a mim e ao resto dos meus concidadãos individualmente tomados. Finalmente. a determinação dessa pergunta depende de conhecermos qual é o consenso dos homens sobre o 324 325 . então. 28. dos impérios.Resta. Tal interpretação pertence pois. respondo. isto é. então é verdade que um contrato foi celebrado. mas sim da ignorância dos dois contratantes. Não se refuta esta verdade dizendo-se que eles nem sempre estão lutando . portanto. Isso porque. a interpretação da Sagrada Escritura. Da mesma forma. Um deles versa sobre tópicos espirituais. coisa que ambos negamos. segundo o capítulo lI. . fazem-se tréguas. todos aqueles que não se juntaram na unidade de uma pessoa. Basta.Do Cidadão Religião Pela mesma razão. . se não o recolhem. pois estão em guerra. das recompensas e castigos do mundo futuro. nem efetuará a transferência de nada que seja necessário à conservação ou à boa administração de seu poder. para uma mente hostil. guarnições reforçadas se encarem com postura e face (countenance) combativas. que és súdito de outro Estado. cuja verdade não pode ser perscrutada pela razão natural . conforme mostramos acima. depende dos pactos e do consentimento dos homens. mas entendendo que conserva em suas mãos o poder civil. pelo mero fato de pedir. sobre questões de fé.Por quê? Através de que pactos firmados entre nós dois? . dos sacramentos. e outras análogas. Se recebem esse nome. dos significados reconhecidos (received) pelo uso e pelo consenso sobre as palavras. parágrafo 4. . .porque. nas quais a verdade é examinada pela razão natural e por silogismos que fazemos a partir dos pactos firmados pelos homens e das definições. do culto externo. Ora. não se considera que alguém transfira seu direito. quando na filosofia se pergunta se a mesma coisa pode estar inteiramente em vários lugares ao mesmo tempo. O outro tipo se refere às questões de conhecimento (science) humano. veja-se como é desigual (unequal) pedir um direito que. ainda que nunca desfiram um golpe. de direito. Incluem-se aqui todas as questões relativas ao direito e à filosofia.Pela Sagrada Escritura: toma o livro.Conhecida por que meios? . no capítulo V.entre as quais se incluem as questões acerca da natureza e ofício de Cristo. em todas as cidades cristãs. Por exemplo. então é falso.Pela autoridade divina. Uma cidade cristã deve interpretar as Escrituras por meio de pastores Há dois tipos de controvérsias. constituem segundo o uso corrente e o consenso dos súditos uma promessa ou convenção. quem abertamente declarou sua vontade de conservar a soberania não pode ter dado um sinal suficiente de que transfira os meios necessários à sua manutenção. que nas fronteiras das cidades. a verdade. ou seja. que haja suspeita. vai lê-Io. dos reinos. o direito de pôr termo a todas as controvérsias. proferidas de tal forma.É inútil. a menos que dê algum sinal adequado. .Sou eu quem interpreta as Escrituras para ti.

e aos pastores que a estes sucedessem. Tais questões. aqueles que pensam dessa maneira eliminam também a própria razão que nada mais é que uma investigação da verdade constituída (made) por um tal consentimento. e que fossem consagrados pela imposição de mãos. naquele sentido em que a palavra de Deus se considera ser a palavra relativa a Deus. a doutrina evangélica. nos pontos necessários). A verdade depende portanto do consentimento dos homens. Porque se os homens. não vendeu. por consenso. E aqueles que julgam que qualquer coisa possa ser determinada. e pela mesma razão. e ficará com o resto. desta forma julgam que se deve perder o uso da linguagem. a seus apóstolos até o Dia do ]uízo. portanto. isto é. Mas. a interpretar as Sagradas Escrituras através de eclesiásticos que tenham sido ordenados segundo a lei. quem possui o poder soberano na cidade está obrigado. ou seja. que portanto não temos possibilidade de en I Religião tender. afirma. então será falso que essa mesma coisa possa estar em diversos lugares ao mesmo tempo. nas coisas que forem necessárias à salvação. e que transcendem a capacidade humana. pelo menos. repugna à eqüidade ficarmos tão desarmados que seja possível nos enganarmos em pontos necessários Uma tal infalibilidade nosso Salvador Cristo prometeu. que. Pois. nas cidades cristãs. que com isso entendem que nenhuma parte dela esteja em outro lugar. pois elas não pertencem à palavra de Deus. sempre que houver uma questão relativa aos mistérios da fé. significam. temos necessidade de uma bênção divina (para que não nos equivoquemos. não precisam ser determinadas pela cidade mediante a interpretação das Escrituras. considerando que para podermos atingir a eterna salvação estamos obrigados a uma doutrina sobrenatural. 326 327 . prometeu-a. aos apóstolos. E aquele homem ou conselho que tem o poder supremo é cabeça igualmente da cidade e da Igreja. E quem detém o poder soberano na Igreja não está obrigado a empregar nenhum doutor eclesiástico para julgar esse tipo de assunto. em todas as outras questões relativas ao direito e à filosofia. pois uma Igreja é a mesma coisa que uma cidade cristã. Mais que isso. e com ele toda a associação entre os homens. Pois quem vendeu um campo inteiro dirá que na verdade queria dizer apenas uma colina. recorrendo-se a passagens obscuras da Escritura. o julgamento tanto dos assuntos espirituais quanto dos temporais compete à autoridade civil. quando dizem que uma coisa está inteiramente num certo lugar. queremos assim dizer. que deve provir do próprio Cristo através da imposição de mãos. enquanto cristão. Por conseguinte. para a decisão em questões de fé. E assim.Do Cidadão significado da palavra inteiro. naquelas que se referem a Deus. contrariamente a esse consenso dos homens no tocante às denominações das coisas.

A objeção de que haveria contradição entre obedecer a Deus e aos homens será refutada distinguindo-se os pontos necessários e desnecessários à salvação Sempre se reconheceu que toda a autoridade em assuntos seculares derivava de quem tivesse o poder soberano. que todas as cidades cristãs constituem Igrejas dotadas desse tipo de autoridade. A razão desta dificuldade é que. fica-se sabendo. tanto espiritual quanto secular. vendo que Deus não nos fala mais através de Cristo e de seus profetas em voz aberta. mas pelas Sagradas Escrituras. dependia da autoridade da Igreja. está unificado sob Cristo. Disso até o homem de entendimento mais lerdo pode concluir que numa cidade cristã (isto é. e portanto deve ser obedecido em todas as coisas. se a qualquer tempo podem eles mandar fazer alguma coisa que Cristo tenha proibido. as quais diferentes homens compreendem de modo diferente. numa cidade cuja soberania pertença a um príncipe ou assembléia cristã) todo o poder. Pelas provas que acabamos de expor é manifesto que a mesma autoridade... como devemos obedecer antes a Deus que aos homens. o que os príncipes ou uma Igreja congregada 329 . por outro lado. quer de uma assembléia de homens. além disso. sim. em assuntos espirituais. CAPÍTULO XVIII Das Coisas Necessárias para Entrarmos no Reino dos Céusl 1. Mas. e. quer se tratasse de um só homem. surge uma dificuldade: como se pode prestar obediência seguramente a estes últimos.

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ordenam, mas não se sabe se o que eles mandam é contrário ou não à palavra de Deus. Assim, com uma obediência que oscila entre o castigo da morte temporal e o da morte espiritual, como se navegassem entre Sila e Caribde, eles muitas vezes acabam naufragando em ambos. Já os que distinguem corretamente entre as coisas que são necessárias à salvação, e as que não são necessárias, não podem sentir esse tipo de dúvida. Pois, se a ordem do príncipe ou da cidade for tal que ele possa obedecer a ela sem arriscar sua salvação eterna, é injusto desobedecer-lhe; e cabe aqui o preceito do apóstolo (Colossenses 3, 20, 22): Vós, filhos, obedecei em tudo a vossos pais; vós, servos, obedecei em tudo a vossos senhores segundo a carne. E também cabe o mandamento de Cristo (Mateus 23, 2-3): Na cadeira de Moisés estão assentados os escribas e fariseus. Observa i, pois, e praticai tudo o que vos disserem. Mas, inversamente, se eles nos mandarem fazer aquelas coisas que são punidas de morte eterna, seria loucura de nossa parte não preferir morrer de morte natural, em vez de obedecer e morrer eternamente; e aqui vale o que diz Cristo, em Mateus (cap. 10, v. 28): E não temais os que matam o corpo, e não podem matar a alma. Devemos, portanto, considerar quais são as coisas necessárias para a salvação.

porém, assim como nossa entrada no reino dos céus, constitui a recompensa da fé; e nada mais é necessário para a salvação. Pois o reino dos céus não está fechado a ninguém, salvo aos pecadores, isto é, aos que não prestaram a obediência que é devida às leis; e nem mesmo a esses, se acreditarem nos artigos necessários da fé cristã. Agora, se soubermos em que pontos consiste a obediência, e quais são os artigos necessários da fé cristã, evidenciar-se-á ao mesmo tempo quando devemos cumprir, e quando não, o que nos ordenarem as cidades e os príncipes.

3. Que espécie de obediência se requer de nós Por obediência, nesta passagem, não se significa o fato de obedecer, mas a vontade e o desejo com os quais nos propomos e dispomos (endeavour) a obedecer o quanto for possível no futuro. Nesse sentido, obediência é o mesmo que arrependimento; pois a virtude do arrependimento não consiste na dor que acompanha a recordação do pecado, mas em nossa conversão e no firme propósito de não mais pecar. Não havendo estes, a dor a que nos referimos não é a dor do penitente, mas tão-somente a de uma pessoa desesperada. Contudo, como quem ama a Deus não pode deixar de sentir o desejo de obedecer à lei divina, e quem ama a seus próximos não pode deixar de sentir um desejo de obedecer à lei moral, que consiste - conforme já mostramos acima, no capítulo III - na proibição da arrogância, da ingratidão, da contumélia, da desumanidade, da crueldade, da injúria e de outras ofensas análogas, pelas quais prejudicamos ao próximo, por conseguinte também o amor ou caridade é equivalente à obediência. E também a justiça, que consiste na vontade constante de dar a cada homem o que lhe é devido, lhe é equivalente.

2. Todas as coisas que são necessárias à salvação estão contidas na fé e na obediência Todas as coisas necessárias à salvação estão incluídas em duas virtudes, fé e obediência; esta última, se fosse perfeita, bastaria sozinha para proteger-nos da condenação; mas, como todos nós desde muito tempo atrás fomos culpados, em Adão, de desobediência a Deus, e além disso nós mesmos mais recentemente pecamos de fato, a obediência não é suficiente se não houver a remissão de pecados. Esta,

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Já pelo pacto do batismo se mostra que a fé e o arrependimento bastam para a salvação. Pois aqueles que Pedro converteu no dia de Pentecostes, quando lhe perguntaram o que deveriam fazer, obtiveram a seguinte resposta (Atos dos Apóstolos 2, 38): Arrependei-vos, e que cada um de vós seja batizado em nome de Jesus, para perdão de vossos pecados. Portanto, nada era necessário para se ter o batismo, isto é, para entrar no reino de Deus, a não ser arrepender-se e acreditar no nome de Jesus; porque o reino dos céus é prometido pelo pacto que se faz no batismo. Temos ainda as palavras de Cristo, quando responde ao advogad02 que lhe perguntava o que devia fazer para herdar a vida eterna (Lucas 18, 20): Sabes os mandamentos: Não matarás, não adulterarás etc... que se referem à obediência, e (Marcos 10, 21): Vende tudo quanto tens3, e vem, e segue-me, o que se refere à fé. E ainda a passagem: O jus to viverá da fé (não todo homem, porém o justo), pois a justiça consiste na mesma disposição da vontade que encontramos no arrependimento e na obediência. E também as palavras de São Marcos (cap. 1, v. 15): O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo. Arrependei-vos, e crede no Evangelho, palavras estas que significam, sem nenhuma obscuridade, que nenhuma outra virtude é necessária para que ingressemos no reino de Deus, a não ser o arrependimento e a fé. Portanto, a obediência que é requisito necessário para a salvação nada mais é que a vontade ou o apetite (endeavour) de obedecer, isto é, de agir em conformidade com as leis de Deus, ou seja, as leis morais, que são as mesmas para todos os homens, e com as leis civis, que são as ordens dos soberanos nos assuntos temporais, e as leis eclesiásticas, suas ordens em assuntos espirituais; esses dois tipos de lei são diferentes de cidade para cidade e de Igreja para Igreja, e se tornam conhecidos por serem promulgados e publicados.

4. O que é a fé, e como se distingue da profissão, da ciência e da opinião Para que possamos compreender em que consiste a fé cristã, devemos definir a fé em geral, e distingui-Ia daqueles outros atos da mente com os quais ela costuma ser confundida. O objeto de fé em sua acepção universal, "aquilo em que se crê", é sempre uma proposição (isto é, um discurso afirmativo ou negativo) que admitimos ser verdadeira. Mas, como as proposições são admitidas por diversas razões, sucede que as formas pelas quais nós as admitimos recebem diversos nomes. Às vezes admitimos a verdade de proposições que não acolhemos, porém, em nosso espírito. E isso pode ocorrer por um prazo apenas, ainda que longo, até que, pelo exame de suas conseqüências, tenhamos bem examinado a verdade dessas proposições (o que se chama supor). Ou então as admitimos pura e simplesmente, como sucede quando o fazemos por medo das leis, o que se chama professar ou confessar por sinais externos. Ou ainda por uma anuência voluntária, que empregamos por civilidade em relação aqueles a quem respeitamos, e por amor da paz em relação a outros, o que resulta em fazer-lhes uma concessão absoluta. Quanto, porém, às proposições que acolhemos mesmo como verdadeiras, nós sempre as recebemos por razões nossas, e estas decorrem quer da proposição mesma, quer da pessoa que a propõe. Derivam da proposição mesma, quando trazem à mente as coisas que as palavas que compõem a proposição usualmente significam segundo o con sentimento comum. Se assim ocorre, então o assentimento que damos chama-se conhecimento ou ciência. Mas, se não podemos recordar o que se. entende de certo por essas palavras, mas ora uma coisa, ora outra parece ser percebida por nós, então se diz que estamos pensandd. Tomemos, por exemplo, a proposição segundo a qual dois mais três

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fazem cinco. Se, recordando a ordem dos numerais, ordem esta que se deve ao consentimento daqueles que têm a mesma língua que nós (como se fosse uma espécie de contrato, que é necessário a qualquer sociedade humana), al guém perceber que cinco será o nome de tantas unidades quantas estão contidas em dois e três somados, poderá então assentir que a proposição é verdadeira porque dois e três somados são o mesmo que cinco: esse assentimento é chamado conhecimento, e saber essa verdade nada mais é do que reconhecer o que nós mesmos fizemos. Pois, se fo ram a nossa vontade e nossas regras de fala que fizeram o número II ser chamado dois, III chamar-se três, e IIIII cinco, também é nossa vontade que torna verdadeira a proposição segundo a qual dois e três somados completam cinco. Da mesma forma, se recordamos o que é chamado roubo, e o que injúria, entenderemos pelas palavras mesmas se o roubo é ou não injúria. A verdade é o mesmo que uma proposição verdadeira; e é verdadeira a proposição na qual a palavra conseqüente, que os lógicos chamam de predicado, envolve em sua amplitude a palavra antecedente, que eles chamam de su jeito. E conhecer a verdade é o mesmo que recordar que ela foi feita por nós pelo uso comum das palavras. Assim não foi irrefletido nem desavisado que platão disse, nos tempos antigos, que todo conhecimento era memória. Mas acontece às vezes que, embora as palavras tenham por sua constituição um significado certo e definido, venham elas porém, porque o vulgo as utiliza quer para adorno quer para engano, a ser tão arrancadas de suas significações pró prias que se torne dificílimo recordar as concepções pelas quais foram inicialmente impostas às coisas, e somente seja capaz de tal mestria quem tiver juízo muito perspicaz e fizer mostra de muita diligência. Sucede igualmente que há mui tas palavras que não possuem significação própria, deter minada e sempre a mesma, e que então são entendidas não

por sua própria força, mas pela de outros sinais que as acompanham. Em terceiro lugar, há algumas palavras que se referem a coisas impossíveis de se conceber. Portanto, não há concepção das coisas Lias quais elas são palavras; e por isso éinútil investigar a verdade de tais proposições, o que se faz a partir das próprias palavras. Nesses casos, enquanto consideramos as definições das palavras indagamos a verdade de alguma proposição, com a esperança de descobri-Ia, ora a consideramos verdadeira, ora falsa; cada uma destas atitudes, em separado, chama-se pensar5, e também acreditar; mas ambas, em conjunto, chamam-se duvidar. Quando, porém, as razões para assentirmos a uma proposição não derivam desta, mas da pessoa que a propõe, a quem consideramos tão versada nas matérias que não se equivoque, e nem vejamos razão por que nos queira enganar, este nosso assentimento, porque não provém de confiança em nosso próprio conhecimento, mas no de outro homem, recebe o nome de fé. E pela confiança naqueles em quem acreditamos afirma-se que acreditamos neles, ou que lhes damos crédito. Pelo que já foi dito, transparece a diferença, em primeiro lugar, entre fé e profissão: porque aquela está unida a um assentimento interno, esta nem sempre. Aquela é uma persuasão interna do espírito, esta é uma obediência externa. Em segundo lugar, entre fé e opinião: pois esta depende de nossa própria razão, e aquela da boa avaliação em que tenhamos a de outra pessoa. Finalmente, entre fé e conhecimento; pois este necessariamente acolhe uma proposição partida e mastigada, enquanto aquele a ingere inteira e de uma vez. Explicar as palavras em que consiste a proposição leva ao conhecimento; mais até, a única maneira de conhecer é procedendo por definição. Mas isto é prejudicial à fé; pois aquelas coisas que excedem a capacidade humana, e são propostas somente para

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que nelas acreditemos, nunca se tornam mais evidentes pela explicação mas, ao contrário, vão se tornando cada vez mais obscuras, e difíceis de se acreditar. E a quem tente demonstrar os mistérios da fé através da razão natural sucede o mesmo que a um doente, que necessariamente terá de mastigar seus comprimidos saudáveis porém amargos, antes de poder engoli-los: ocorre que ele os vomite quando, se os tivesse ingerido de uma só vez, eles poderiam tê-Io curado.

6. O propósito dos evangelistas prova que para a salvação é necessário apenas crer num só artigo - que Jesus é Cristo... Como a fé e a obediência necessariamente concorrem para a salvação, e já mostramos antes (no parágrafo 3) de que espécie de obediência se trata, e a quem ela é devida, resta agora examinarmos quais artigos de fé são exigidos para o mesmo fim. E afirmo que para um cristã06 nenhum artigo adicional de fé é exigido para a salvação, além deste único: que Jesus é o Cristo. Mas devemos distinguir (como já fizemos acima, no parágrafo 4) entre fé e profissão. Pode ser necessária a profissão de mais artigos, se assim se mandar; pois isso faz parte da obediência que devemos às leis. Mas não estamos indagando, aqui, qual obediência, e sim qual fé, é necessária para a salvação. E isto se prova, em primeiro lugar, pelo objetivo que os evangelistas seguiram, pretendendo, pela narração (description) da vida do Salvador, estabelecer esse único artigo; e saberemos que era este o objetivo e desígnio dos evangelistas, se nos limitarmos a observar a história. São Mateus (no capítulo 1), começando pela genealogia de Jesus, mostra que ele era da linhagem de Davi e que nasceu de uma virgem; no capítulo 2, que foi adorado pelos sábios como sendo o rei dos judeus, e que pela mesma causa Herodes procurou matá-lo; nos capítulos 3 e 4, que seu reino foi pregado tanto por João Batista quanto por ele próprio; nos capítulos 5, 6 e 7, que ele ensinou as leis, não como faziam os escribas, mas como alguém que tem autoridade para tanto; nos capítulos 8 e 9, que ele curou doenças milagrosamente; no capítulo 10, que enviou seus apóstolos, pregadores de seu reino, por todas as partes da Judéia a fim de proclamar o advento de tal reino; no capítulo 11, que aos mensageiros enviados por João, para verificar se era ou não o Cristo, ele respondeu que contassem

5. O que é acreditar em Cristo Vimos, assim, em que consiste acreditar. Mas o que é acreditar em Cristo? Ou que proposição é aquela na qual consiste o objeto de nossa fé em Cristo? Pois, quando dizemos "Cremos em Cristo", tudo o que dizemos é em quem acreditamos. Ora, acreditar em Cristo nada mais é do que acreditar que Jesus é o Cristo, ou seja, aquele que, segundo as profecias de Moisés e dos profetas de Israel, deveria vir a este mundo para instituir o reino de Deus. E isso aparece de maneira clara e suficiente nas palavras que o próprio Cristo dirigiu a Marta (João 11, 25-27): Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá; e todo aquele que vive, e crê em mim, nunca morrerá. Crês tu isto? Disselhe ela: Sim, Senhor, creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo. Nessas palavras, vemos que a pergunta Crês tu em mim? é explicada pela resposta Tu és o Cristo. Acreditar em Cristo, portanto, nada mais é que acreditar no próprio Jesus, quando ele diz ser o Cristo.

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E o que eles fizeram após a ascensão de Cristo pode se compreender através da acusação que lhes foi dirigida (Atos 17.. cuja confissão de fé se resumia nas seguintes palavras: Senhor... a facilidade da religião cristã. parábolas e sinais. para que creiais que Jesus é o Cristo. a não ser o reino de Deus (Lucas 9. 2324: Se alguém vos disser: Eis que o Cristo está aqui ou ali não lhe deis crédito. 24 e 25... . ele sustentou ser Cristo. e farão tão grandes sinais e 338 339 .. Este é Jesus. chegaram também aqui. 2-3) mostra bem qual era o assunto dos sermões dos apóstolos: Ex pondo e demonstrando pelas Escrituras (a saber. e alguns irmãos à presença dos magistrados da cidade. dizendo que há outro rei. nos capítulos seguintes. Os quaisJasào recolheu.. milagres que só poderiam ter sido realizados por Cristo. também. 8.. e que sobre a cruz foi colada a inscrição. pelo Velho Testamento)9 que convinha que o Cristo padecesse e ressus citasse dos mortos. Este foi. e todos estes procedem contra os decretos de 9. E o mesmo foi. até o 21. que à sua entrada em Jerusalém foi saudado com o título de rei. tão rapidamente se tornar em doutor dos cristãos? 7... e mostrou sob forma de parábolas como seu reino viria a ser. Tudo isso tende.. que ele provou e justificou seu reino perante os fariseus e os demais por meio de argumentos.. 30). o fato de ser este artigo o fundamento da fé. então. lembra-te de mim quando entrares no teu reindO? Ou como poderia São Paulo. o Filho do Deus vivo 7. o objetivo de São Mateus ao escrever o seu evangelho. contra os fariseus. se para a salvação fosse requisito necessário um assentimento interno da mente à verdade de toda e qualquer proposição sobre as quais hoje em dia há tanta controvérsia acerca da fé cristã. A passagem citada imediatamente antes (Atos dos Apóstolos 17. no capítulo 12. a um só fim: que acreditemos que Jesus era o Cristo. E como poderia então ser verdade o seguinte: O meu jugo é suave e o meu fardo é leve (Mateus 11. ou que cada Igreja define diferentemente das outras. Do Cidadão Religião 1:1111: o que tinham visto. .como São João explicita no final de seu Evangelho Qoão 20. Em terceiro lugar. diz ele. então. no capítulo 21. ou Aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da provação (1 Coríntios 1. conta São Lucas. um Jesus. nos capítulos 22. ou seja. 21)? Ou como esteve suficientemente instruído da salvação o ladrão crucificado. . o mesmo se prova pela pregação dos apóstolos. Em segundo lugar. e Cristo não os mandou para pregar coisa alguma. 6). que foi preso e acusado por essa razão. Em quarto lugar. porque surgirão falsos cristos e falsos profetas. 31): Estas coisas foram escritas. que advertiu contra os falsos Cristos. porque o artigo em questão é o fundamento da fé.. César. 23. e não depende de nenhum outro fundamento. no céu como na terra. Atos 10. o que também provam as pregações dos apóstolos. no capítulo 28. de inimigo. finalmente. que depois de sua ressurreição disse aos apóstolos que todo o poder lhe era conferido. rei dos judeus. Pois eles eram os arautos de seu reino. porque afirmara ser rei. ou seja. clamando: Estes que tem alvoroçado o mundos. ou Estes pequeninos crêem nele (Mateus 18. o mesmo se prova pelas passagens nas quais se afirma como são fáceis as coisas que Cristo exige para que se alcance a salvação. que. 42). 2-3): Eles trouxeram Jasão. o objetivo dos demais evangelistas . nada seria mais difícil do que a religião cristã. Pois.. E este Jesus é o Cristo. 2. Mateus 24. nos capítulos 26 e 27.

pedras preciosas. pedras preciosas. este artigo . ou um anjo do céu. palha (que significam as doutrinas) não se edificam sobre a pessoa de Cristo. esse receberá galardão. Nisto conhecereis o Espírito de Deus: todo o esPírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus etc. E. Além disso. o único testemunho que há sobre Cristo no Velho Testamento é o que afirma que um rei eterno deveria vir a determinado lugar. palha. além do que já está posto. portanto. pela qual a autoridade dos doutores deve ser aceita ou rejeitada. 20. 11.. inegavelmente. e para que.. e são elas que de mim testificam. Do Cidadão Religião prodígios etc. ainda que todo o resto tenha vindo depois dela. v. sem que necessariamente sejam condenados aqueles que as ensinarem. se alguém sobre este fundamento formar um edifício de ouro. Ora. Este artigo assim nos dá uma medida para os espíritos. que deveria nascer de determinados pais. porque já muitos falsos profetas se tem levantado no mundo. 1-2: Amados. sofrerá detrimento. Cristo. Gálatas 1. e também se vê que falsas doutrinas podem edificar-se sobre essa fundação. mas o tal será salvo. Por conseguinte.8: Ainda que nós mesmos. e ensinou e fez coisas. mas provai se os espíritos são de Deus. 1 João 4. não devemos acreditar nem mesmo nos próprios apóstolos e anjos (e por isso. como diz João (cap. porque vós cuidais ter nelas a vida eterna. 11-15): Porque ninguém pode por outro fundamento. v. 31): Estes foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo. João 5. feno.. acreditar em Jesus. 39: Examinai as Escrituras. além do artigo referido. não creiais em todo o espírito. todavia 12 . seja anátema. pela fé que temos naquele artigo. mas isso não significa que estas pessoas devam sua crença aos doutores. o Filho de Deus. Tudo isso portanto atesta esta coisa única . João (cap. 10. prata. que Jesus é o Cristo). tenhais vida em seu nome.que Jesus. crendo. era o Cristo. se construiu so bre ele (1 Coríntios 3. pois ouro e prata. Por este artigo. madeira. . seja quem for que as interprete.. penso eu. 18). nem tampouco na Igreja). Portanto. 26): E todo aquele que vive e crê em mim nunca morrerá. a obra de cada um se manifestaráll.. Isso porque tal artigo já existia antes de haver Igreja (Mateus 16. Pois foi através dos doutores. quem acreditar nisso nunca morrerá. Se a obra que alguém edificou nessa parte permane cer. feno. porque a devem ao próprio Jesus. o que implica que este é o único artigo de fé necessário para a salvação. porém. Dessa passagem claramente se evidencia que por fundamento se entende o artigo segundo o qual Jesus é o Cristo. afirma São Paulo. referia-se apenas ao Velho Testamento quando falava nas Escrituras. não ele na Igreja. Ora. que constituiriam sinais seguros permitindo reconhecê-Io. quem acreditar nisso terá a 340 341 . Disto se segue que. bem como as palavras mais evidentes de Cristo e de seus apóstolos Finalmente. madeira. que assim nasceu. Se a obra de alguém se queimar. como aqui se diz. vos anuncie outro evangelho além do que já vos temos anunciado. e a Igreja fundou-se nele.é tão fundamental que tudo o mais. que todos os cristãos de nossos dias souberam que foi Jesus quem realizou todas as coisas graças ãs quais pôde ser reconhecido como o Cristo. que deveria ensinar tais e tais coisas. que este artigo é o único em que precisamos acreditar internamente também se pode provar com toda a evidência segundo várias passagens das Escrituras santas.Jesus é o Cristo . se nos ensinarem o contrário. Não se exigia então mais fé do que esta para se alcançar a vida eterna. não devemos dar crédito a sinal algum e a nenhum prodígio. é o mesmo que acreditar que Jesus era o Cristo. porque ainda não estava escrito o Novo. o qual é Jesus Cristo (ou seja.

como ninguém acredita que Jesus seja o Cristo. "Jesus é o Cristo". 1: Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo é nascido de Deus. portanto. toda vez que lemos que nosso Salvador elogiou a fé de alguém. 36-37: Eis aqui água. graças a uma sentença que efetivamente o salva. é necessário. É verdade que não devemos contradizer outras doutrinas. mas em justos. l I podia cometer contra a Majestade Divina no reino de Deus por natureza. Se. há inúmeras outras. pois assim incorreríamos no pecado de desobediência. e por isso não precisa de nenhuma outra fé. no reino de Deus pelo velho pacto. senão aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus? Se portanto. não prometeu redimir os pecados de todos os justos. ou que curou uma pessoa devido à sua fé. porque a justiça é uma intenção (will) de obedecer às leis. a vontade de obedecer já é obediência. se. que impede que eu seja batizado? E disse Filipe: É lícito. depois de tê-lo recebido. a castidade o casto. e pode encontrar-se num pecador. e que governa o mundo -. portanto. para que alguém seja de Deus. agora. a proposição em que esta acreditava sempre foi. mas cada uma. a idolatria. porque ela faz alguém ser justo da mesma forma que a temperança o faz ser temperado. respondendo ele.T Do Cidadão Religião vida eterna. que o ateísmo e a negação da Providência Divina eram a única traição que se 343 342 . mas somente dos penitentes ou obedientes. se crês de todo o coração. ou o fato de renunciar ao artigo 'Jesus é o Cristo". que viverá pela fé. direta ou indiretamente. sabendo que por Cristo se entende o mesmo rei que em nome de Deus foi prometido por Moisés e pelos profetas para vir a ser rei e salvador do mundo. que clara e expressamente afirmam a mesma coisa. 5: Quem é que vence o mundo. Não falo em inocentes. a seu modo. mas o justo. 12. e. Pois Deus não perdoa os pecados de todos. a prudência constitui o prudente. nasça de Deus e vença o mundo. Considerando-se. que a fé em Deus e no Velho Testamento esteja contida na fé que se dá ao Novo Testamento. disse: Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus13. mais uma vez. ou que disse Tua fé te salvou. acreditar neste artigo de todo o coração (isto é. então também há de bastar para a salvação. Atos 8. portanto. justifica. e nesse sentido de justificação (pois se trata de um termo equívoco) 11. também se torna traição a apostasia. isto é. por sua essência mesma. Cristo. E. e assim ela coloca o homem num estado que o torna capaz de perdão. Não é todo homem. mas somente daqueles que acreditassem ser ele o Cristo. E 1 João 5. isto é. Mais que isso. com fé interna) bastava para o batismo. junto a Cristo.nem pode acreditar nestes se não acreditar que Deus existe. se quem as ordenar for uma Igreja legal. A fé portanto justifica no sentido em que podemos dizer que um juiz justifica aquele a quem absolve. ou seja. Nesse artigo está contida a fé do Velho Testamento Mas. Além dessas passagens. igualmente não acreditar em Moisés e nos profetas . não for preciso acreditar em nada mais além do que "Jesus é o Cristo" . dos justos. Mas já explicamos o suficiente que não é preciso acreditar nelas com uma fé interna. E 1 João 5.2: Todo o espírito que confessa queJesus Cristo veio em carne é de Deus. 1 João 4. no reino em que Deus governa graças a um novo pacto.então este artigo de fé basta para a salvação. A obediência portanto justifica. a segunda dá o ato. a que se somava. Como a fé e a obediência concorrem para a salvação A fé e a obediência desempenham distintos papéis na salvação de um cristão: pois a primeira confere a potência ou capacidade.

só fala por meio de intérpretes cristãos das Sagradas Escrituras. em alguns casos. se ele considerar que. quando não pudermos obedecer a eles? Certamente que não. 14. Do Cidadão Religiã o somente a fé justifica. editadas por pastores que tenham sido ordenados conforme a lei. para estar com Cristo). da Igreja (pois. Contudo.. até por um súdito cristão. em sua maior parte. nos . E. embora a pessoa não acredite neles internamente. não há contradição entre as ordens de Deus e as da cidade Pelo que afirmamos anteriormente. não podem ordenar a seus súditos que reneguem ao Cristo ou de qualquer modo o ofendam. isto é. parágrafo 10. aqueles que devem ser discutidos pela razão humana) são as leis e a sentença da cidade. se dessem uma tal ordem. na maior parte das . Numa cidade cristã. se alguém não acreditar neles intimamente. então. se sozinhas . Então. ele deverá seguir alguma Igreja cristã. uma cidade cristã é o mesmo que uma Igreja). se isso parecer muito duro a alguém. a qualquer príncipe que não seja cristão. Porque constitui uma hipótese da fé cristã que Deus. a glória dos espíritos enge 344 345 . estariam professando não ser cristãos. conforme mostramos no capítulo anterior. tanto pela razão natural quanto com base nas Escrituras santas. àqueles que são definidos pela Sagrada Escritura). será fácil discernir em que consiste o dever dos súditos cristãos para com seus soberanos que. o Filho do Deus vivo (pois se acreditasse ele desejaria ser dissolvido. exaradas por aqueles que ela autorizou a fazer leis e a julgar das controvérsias. que é o único necessário para a salvação no que se refere à fé interna todos os demais artigos de fé pertencem à obediência. E está fora de controvérsia que a mesma obediência é devida nos assuntos temporais. 13. isto é. não poderá entrar no reino dos céus. que os súditos devem obedecer em tudo a seus príncipes e governantes. Segue-se. e que para promulgar tais medidas estejam autorizados pela cidade. os mandamentos de Deus estão nas leis e sentenças da cidade. o que deveremos fazer? Ir a Cristo pelo martírio.controvérsias. nas coisas sobrenaturais. ao direito de domínio Excetuando assim apenas este artigo. o que está em disputa é a soberania humana. e por isso podem ser executados. Alguém então poderá indagar como sucede hoje que haja tantos dogmas (tenets) considerados a tal ponto essenciais a nossa fé que. Contudo. As doutrinas que hoje provocam controvérsia no campo da religião é porque na verdade se referem. naquelas coisas que se referem ao culto de Deus. e que faça uma profissão externa de crença em tudo o que for proposto pela Igreja. em outros ainda. Numa cidade cristã. porque fingindo a fé cristãele bem será capaz de faltar com a obediência que prometeu ao submeter-se à cidade14.ambas são necessárias. então é certíssimo que ele não acredita de todo o coração que Jesus é o Cristo.negócios do espírito. enquanto professarem ser cristãos. Já no que diz respeito aos negócios espirituais (ou seja. então? Devemos resistir aos príncipes. os mandamentos de Deus a respeito dos negócios temporais (isto é. porque isso será contrário ao nosso pacto civil. que numa república cristã se deve obediência ao soberano em todas as coisas. Mas.. com toda a evidência. mas no outro sentido apenas a obediência. Já mostramos. é uma questão de ganho e lucro. bastando que ela deseje acreditar. mas. nem a obediência nem a fé nos podem salvar.. porque. "Jesus é o Cristo". excetuando apenas aqueles tópicos que forem contrários ao mandamento de Deus. espirituais e temporais.

bem como o direito de excomunhão: porque todo indivíduo que não tenha perdido o juízo prestaráobediência absoluta ao homem de cuja sentença. os pecados. Mas. mas nela subsistiram como resquícios de um paganismo 346 347 . E por isso ela os governará. não somente nos negócios temporais. então todo súdito está obrigado a obedecer (obey) a sua cidade . Ora. à qual se teráde obedecer. Pois aquele a quem compete interpretar as controvérsias que surjam das diversas interpretações das Escrituras tem também autoridade simples e absoluta para pôr termo a toda espécie de controvérsia. seja pela via monárquica.Do Cidadão Religião nhosos (wits) . se cada cidade cristã não for uma tal Igreja. da justificação e da maneira como se recebe Cristo nos sacramentos são de natureza filosófica. Assim. mas também nos espirituais. os príncipes necessariamente devem abrir mão ou do sacerdócio (que constitui uma forte obrigação para a obediência civil). Além disso. sincera e intimamente. E ao mesmo fim igualmente se voltam todas as disputas sobre o poder de perdoar. Ao mesmo fim também se refere a canonização dos santos. ou re ter. para que imediatamente lhe seja reconhecido o direito ao domínio. ou do principado hereditário. A discussão sobre a propriedade da Igreja é uma discussão sobre o direito de soberania. por ordem do próprio Cristo. -depende sua salvação ou condenação. até a vida celibatária (virgin) dos eclesiásticos: pois os solteiros são menos compatíveis com a vida civil do que os casados. não podendo errar. Ao mesmo direito se refere a questão da infalibilidade: pois se a humanidade inteira acreditar. ainda que viva num Estado inimigo.isto é. esta terá assegurado um domínio pleno sobre o gênero humano. deve ser obedecida nos assuntos temporais. nos planos tanto temporal quanto espiritual. e com eles milhares de outros. Pois bastará ela lembrar que. Pois o que almejavam os Décios e tantos romanos senão o renome junto aos pósteros. àquele indivíduo ou assembléia que possua o poder supremo -. seja através de alguma assembléia. Pois basta saber em que consiste a Igreja para se saber a quem compete o poder sobre os cristãos. exatamente como obedeceriam a Cristo se este viesse à terra. ao direito de governar. As questões do livre-arbítrio. todos os cristãos deverão obedecer a essa Igreja. A isso também tende o privilégio de interpretar as Escrituras. Há ainda questões relativas a alguns ritos que não foram introduzidos pela Igreja. sob certos aspectos. acredita ele. Portanto. portanto. Esta questão se refere. não apenas dos particulares. se toda cidade cristã for aque la Igreja à qual. então tem de haver outra Igreja mais universal. mas também dos príncipes soberanos. o celibato clerical acarreta outro inconveniente que não pode ser minimizado: devido a ele. À mesma coisa também se orienta o poder de instituir sociedades religiosasl5.certamente. que arrostaram perigos incríveis? Já as controvérsias sobre o purgatório e as indulgências se referem ao ganho de dinheiro. cada um de seus súditos cristãos deve ouvir. quem possui tal autoridade automaticamente tem também o poder sobre todos aqueles que reconheçam as Escrituras como constituindo a palavra de Deus. a não ser que ela própria o decline. Ao mesmo fim igualmente se dirige o poder de julgar se um matrimônio é válido ou não: pois tal judicatura traz consigo a decisão sobre todos os casos que se referem à herança e sucessão de todos os bens e direitos. e que tem tantos súditos quantos monges houver. ele estranhará bem menos essas coisas. que os gentios chamavam de apoteose17: pois quem pode atrair os súditos estrangeiros com uma recompensa tão grande facilmente pode induzir quem ambicione tão elevada glória a cometer qualquer tipo de ousadia. E tende ainda ao mesmo direito de governar. que dependem daquele a quem devem sua subsistêncial6. que determinada pessoa não possa errar.

os homens se insultem e ofendam uns aos outros. NOTAS 348 . ao ganho ou à preeminência do engenho (wit).. sempre haja alguém para considerar quase todos os dogmas como necessários para a salvação e para nosso ingresso no reino dos céus. prosseguir.. porém. mas outro julga iguais todos os dias. exaltandose eles na discussão. O mundo inteiro sabe que é da natureza humana que. citando inúmeras passagens das Escrituras. E por isso quem não endosse tais dogmas será por eles condenado não apenas por desobediência (o que é correto. E a estas citações acrescen to uma de São Paulo (Romanos 14. Não precisamos.. porque Deus o recebeu por seu. Cada um esteja inteiramente seguro em seu próprio ânimo18. por discordarem em questões referentes ao poder.. Um Jaz diferença entre dia e dia. 5): O que come não despreze o que não come. 3. Do Cidadão I insuficientemente expurgado. o que já mostrei ser falso. e o que não come não julgue o que come. Por isso não deve causar estranheza que. desde que a Igreja os tenha decretado) mas também por infidelidade.

414. e. Abril. 5. 1974. Cito esta obra na excelente tradução em português realizada por João Paulo Monteiro e Maria Beatriz Nizza da Silva (ed. "E assim por diante. Em especial temos nela o texto completo do De Cmpore. p. Como em meados dos anos 1550 a Inglaterra e a Escócia são governadas por mulheres. A despeito desta escassez de material. articulada numa rede de símbolos em estreita correspondência (rei = cabeça = varão = Deus = leão = águia etc. depois da morte desta.). em parte mística (o rei ungido de Deus. portanto quase um sacerdote). Peters utilizou estes nomes no feliz título que deu a sua utilíssima antologia de Hobbes . ambas católicas (respectivamente Maria. Leviatã. o pregador presbiteriano escocês John Knox escreve uma denúncia contra o "monstruoso governo feminino" . recentemente). Man." 3. do Human Nature e do De Corpore Político. S. Apresentação 1. Collier e Collier-Macmillan. e que teve a infelicidade de só aparecer. finalmente. de 1977). 2. "Revisão e conclusão".Body.. 1962). e Maria Stuart). os três em inglês. dirigida que era contra a Sanguinária.obra datada de 1558.. Nova. Miriam Reik conseguiu fazer uma admirável biografia intelectual de Hobbes (The Golden Lands ofThomas Hobbes. R. de modo que soou como se 351 . and Citizen (Nova York e Londres. retomada pela ed. O fato de ser mulher já era um elemento bastante negativo para uma concepção de realeza em parte militar (o rei como comandante militar). 4. a Sanguinária.

Anchor Books. E prepara a tolerância na medida em que diz serem indiferentes à salvação. Na Verdadeira Lei das Monarquias Livres. Capo XIII. estão limitados pela tradição . conhecedores das línguas originais da Bíblia. 19. Suprimida. 13. 1984. que o reiJaime I encomendou. Depois de sua morte. dizendo que não lhe dedica apenas a edição inglesa. Agradeço a Luiz Roberto Monzani o conhecimento e o acesso a este texto. mas de qualquer modo dispostos a serem súditos leais da República -. 109. a submissão ao usurpador bemsucedido. "In tormento veritas". 21. 9. porque. em plena reação aos whigs (partido com 352 353 . e os da coisa efêmera. justamente. Essa tese é condenada em termos rigorosamente legitimistas. em inícios do século XVII. e Hobbes inicia por ela o Leviatã. The Political Theory of Possessive Individualism. Penguin do Leviathan. ligados ao uso de uma língua vemácula das menos importantes. Hobbes utiliza a chamada Versão Autorizada. a uma equipe de teólogos e de eruditos. embora parte da Revisão seja incorporada em outras passagens. é desenvolvida por Quentin Skinner. FCi este empreendimento uma maneira de evitar o uso de traduções "subversivas" como a de Tyndale. sem nome de autor. "O triunfo da vontade". "Os homens femininos ou o direito à vida". em 1683. O Leviatã está entre elas por defender. literalmente. Caracas. "(being in the Universal Language) may last. 18. que Jaime publi cou em 1598. cit. bem como ao Estado e à Igreja. caps. no Leviatã. que portanto ou ficaram na Inglaterra ou retomaram a ela .tristes. Entende-se por aí como era atual Hobbes dizer. a maior parte dos temas que levam os homens a discutir sobre a religião. 11. e 111. mas lhe dedica poucas linhas. Hobbes escrevendo contra o seu tempo. Capo XVII.a começar pelo Bill of Rights. retraindo-se da política. neste livro. Discorda tanto da Igreja Anglicana. 17. de intervenção política pontual. Garden City. ao passo que numa política legitimista os poderes do govemante. 1972. mas também a latina que (cito da inglesa). na dedicatória que Francis Bacon faz de seus Ensaios ao duque de Buckingham. 109-42. Hobbes tem páginas veementes contra os dissidentes. p. associados ambos ao latim. porque neste o govemante é. 7. embora amigo e admirador do filósofo.. A edição latina de 1670 indica que foi impressa na Holanda. Outro elemento histórico que separa Hobbes da causa histórica do absolutismo é ainda mais espantoso do que seus leitores parisienses verem. V. pensa ele. da filosofia seria a física. mesmo. Continua a não ter. o inglês. 12. que neste livro são importantes. mas na medida em que manifesta a vontade de Deus.não a tradição como um valor em si. p. Brasiliense. 20. 79. op. espera ele. A chave da distinção éque o govemante legítimo não pode alterar a ordem de sucessão ao trono . não lhe permitiu reeditar o Leviatã em inglês. a Igreja Anglicana manda o carrasco queimar uma série de obras subversivas.. a defesa do regicídio. DeI Ciudadano. Miriam Reik. desanimados. esp. tendo poderes absolutos. local. Hobbes and Rousseau: a Collection of Critica I Essays. dão demasiada importância à teologia. in Maurice Cranston e Richard Peters (orgs. que é impossível firmar um pacto com Deus. A tese de que o Leviatã é uma obra representativa da posição dos realistas conformados com a vitória de Cromwell. mas seria um erro ver nele um defensor da teologia oficial contra as menos ortodoxas. VI. Há uma passagem saborosa. e sua introdução de 1968 à ed. soberano. O começo.). 82 22. 8. a quem considera subversivos. sim. Universidade Central de Venezuela. São Paulo. 6. Do Cidadão Nota s o qual Hobbes nada tinha em comum). p. Ao Leitor sem Medo. 10. tal como foi dirigida por Laud. as long as Bookes last".o monarca absoluto. desde o final do século XVII . em Oxford.. de 1689 -. O leitor que recebe esse texto hoje nota que então coincidiam os valores da permanência e da difusão universal. fosse escrita contra Isabel. É bom notar que Carlos 11. 1966. 15. Será bom lembrar que o legitimismo se distingue do absolutismo. 16. mas um bom número de leis. em seu "The Context of Hobbes's Theory of Political Obligation". embora vastos. Uma palavra sobre a tradução das citações bíblicas. quanto dos dissidentes. 14. pp. é um testemunho da dificuldade que havia para uma mulher reinar. cumpre esse papel. De qualquer forma.

No original. guardando ainda hoje. 3. ãs vezes por eles chamada de tirania. sendo privatizados em favor dos ricos locais. Pareceu-me assim que o mais adequado. XIII). para o Velho Testamento. Epístola Dedicatória 1. e depois por seus sucessores. e que no começo e no fim de sua carreira intelectual traduziu para o inglês três obras essenciais da Antigüidade. também Cícero e outros autores baseavam sua doutrina civil nas opiniões dos romanos. e a Odisséia e a llíada. primeiro por aqueles que depuseram o soberano e passaram a partilhar entre si a soberania de Roma. nada tendo a ver com sua extensão geográfica.r Do Cidadão Notas que fora queimado vivo em tempos de Henrique VIII. com a res publica. que eram ensinados a odiar a monarquia. na edição bilíngüe inglês-português (rei Jaime e Ferreira) dos Gideões Internacionais (Rio de Janeiro. e a cargo de um protestante. a crítica dos romanos aos reis. comportando uma certa ambigüidade: a república tanto era o regime em que se elegiam os governantes quanto. Relativizar. 1898. que obviamente se beneficia de novas descobertas de língua e de manuscritos. 1974): "Tal como Aristóteles. e é uma das mais belas versões da Bíblia. Seria melhor utilizar uma versão. Neste segundo caso. Veja-se.) Na forma enclosure ficou conhecido o cercamento a que. foram submetidos os terrenos comunais das aldeias. bem como efetua uma leitura do texto que não seria nem a de Jaime nem a de Hobbes. 4. assim. no sentido que esse termo possuía no século XVII. e pelo qual um autor oferece a um leitor de escol sua obra. Ferreira d'Almeida. podia-se aplicar o termo repúbli ca a uma monarquia. No Leviatã. de Tucídides. como a Bíblia de Jerusalém. a Sanguinária. a de João Ferreira d'Almeida. os homens passaram desde a infância a adquirir o hábito (sob uma falsa aparência de liberdade) de fomentar tumultos e de exercer um licencioso controle sobre os atos de seus soberanos. de Homero. quando se fala no que é de alguém. traduzida por alguns protestantes ingleses exilados na cidade de Calvino sob o reinado de Maria. que Hobbes enumera como o que se perde com a guerra civil. ou mesmo no que lhe é próprio. qualquer regime político assentado no direito. Abril. se possível. em 1629. O texto do rei Jaime teve papel de destaque na consolidação de um inglês em chave solene. na passagem do Leviatã consagrada a esta (cap. Quase sempre mantivemos esta tradução. A censura que ele faz aos gregos e romanos se baseia em especial no elogio que estes povos faziam ã democracia e na crítica que dirigiam ã monarquia. Felizmente a temos. uma imagem assentada na hierarquia e na distância do homem a Deus. Através da leitura desses autores gregos e latinos. ou a assim chamada Bíblia de Genebra. família aristocrática cujo chefe era conde de Devonshire. quando a língua mudou por completo. o termo que designa todo e qualquer Estado é cidade. em 1673 e 1676. Depósito das Escrituras Sagradas. uma reverberação arcaizante que é extremamente eficaz quando a Igreja oficial quer produzir. pedindo-lhe proteção e ao 354 355 . A crítica aos antigos é um dos temas constantes da filosofia política de Hobbes . Lisboa. Neste livro. 136 (ed. 5. e mostrar que seu imperialismo significava tratar os outros povos exatamente como os reis que criticavam. porém.deste pensador cujos primeiros estudos foram os de um humanista. do mesmo século.que literalmente é o terreno que alguém cerca (verbo enclose. Esta passagem final é uma bela realização do topos que consiste na dedicatória. Utilizei assim o Novo Testamento. como tradução para o português. materiais ou imateriais. respectivamente a História da Guerra do Peloponeso. porque na época. Hobbes passou quase toda a sua vida ativa a serviço ou como protegido dos Cavendish. é entào uma constante em Hobbes. servi-me da Bíblia Sagrada. desde o século XV. em especial a p. não se entendem apenas os seus bens. São estes os principais benefícios da civilização. do sagrado. o capo XXI do Leviatã. não seria uma versão recente. 1965). mais geralmente. inclosure ." 2. trad. Devemos evitar pensar que se trate apenas do problema da propriedade. 6. mas também tudo o que ele pode fazer ou cometer. Hobbes chamará o que hoje dizemos "Estados" de Commonwealths (literalmente: repúblicas). a respeito. Por isso é que o problema da justiça se confunde com o do meum e do tuum. apenas então se introduzia a conotação de maior preocupação com a coisa comum.

porque mostra a importância que tinha para ele sua ciência. Parte I LIBERDADE Capítulo I 1. também em latim (Amsterdã. No original. sendo que civil deve ser geral mente entendido como "social" ou "político". Este capítulo trata. 1649). por exemplo. assim como na física o elementar não é o corpo . de resto uma obra valiosa. Com muita freqüência dirá commander. 1642).. a epístola está datada de "Paris. como "o homem ou o conselho que têm a autoridade suprema na cidade" etc. mas é bom lembrar que nas traduções da Bíblia em português costuma dizer-se "aliança" ou "concerto". bem como na tradução francesa de Samuel Sorbiere (Amsterdã. Ática. e ainda mais curiosa porque Hobbes é de simpatia monarquista e começou a estudar filosofia política para. ele nem sequer foi convidado a participar dela. em latim. só que agora dotada de inteligibilidade. ou usará perífrases. 2. Um. 2. na política o mais simples não é o homem singular . ele diz: ". Curiosamente. de tradução: substituir os termos que Hobbes usa no De Cive por "soberano". seria interessante estudar como se efetiva esse relativo primado social da leitura sobre a escrita. porque mostra que a filosofia política de Hobbes se sustenta por si só. Neste livro. por isso preferi formas mais neutras.a fazer uma crítica à obra de quem é especialista nesse assunto. 1647). juntamente com as notas e o Prefácio ao Leitor. embora seja correto. Será talvez o caso de lembrar que. foi a parte de seu pensamento que ficou associada à sua memória. São Paulo. no original ele fala em supreme. seu inimigo. 1978. ao terminar o Leviatã (1651). Penso. e depois os "compõe" de novo na complexidade em que os vemos.mas o movimento -. " (p. 3. é raro Hobbes utilizar o termo soberano. Prefácio do Autor ao Leitor 1. na época. Nessa versão. Assim. 414). que isso. mesmo sem termos previamente sua filosofia do corpo (física) ou sua filosofia do homem (que alguns chamam de psicologia). Outro.. 4. Evitei igualmente abusar da conotação militar de "comandante-em-chefe".um leigo no assunto . que vale a pena corrigir um erro de J. aqui. Esse autor entende que Hobbes. de Tucídides). Muito já se falou desse método que Hobbes usa. Desenvolvi análise sobre esse tema no capo III de A Marca do Leviatã.. civil science. Isto coloca dois problemas. Wallis. em sua filosofia política. A ressalva é de monta. como "govemante" ou as próprias perífrases hobbesianas. em linhas gerais. porque é termo-chave em Hobbes. aparecendo somente na segunda. 5. 1Q de novembro de 1646". porque primeiro "resolve" os termos dados em seus elementos mais simples (o movimento. reduz a complexidade ao elemento que seria o indivíduo. e o destaque alcançado na sociedade e na ciência pelo Dr. covenant. do assunto ao qual Hobbes retomará no capo XIII do Leviatã (1651). onde expõe a 357 356 . basicamente o que Galileu empregou na física.Do Cidadão Notas mesmo tempo autorizando este último .mesmo nas citações bíblicas . Não é à toa que. de escrita: o filósofo que ficou conhecido como o grande teórico da soberania demora a aceitar esta palavra quando escreve em inglês. fundada em 1673 a Royal Society. Esta passagem é fundamental: 1. porém. pela tradução que fazia da História da Guerra do Peloponeso. quase certamente maior do que a própria filosofia política que. em seu Hobbes' System of Ideas.mas o contrato que ele firma.traduzirei por "pacto". no caso dos corpos físicos). onde aparecerá mais vezes o termo sovereign é nas partes relativas à leitura da Bíblia ou às condições para a salvação da alma.. que geralmente . Ora. 7. Watkins. justamente. é possível estudar Hobbes sem passar pelo que hoje chamaríamos sua "ciência". 6. revisada pelo próprio Hobbes. No original. volto para minha interrompida especulação sobre os corpos naturais. provar a superioridade da monarquia sobre os outros regimes (o que era confirmado. Esta epístola dedicatória não consta da primeira edição (Paris. faria perder este sabor de texto ã pesquisa de uma terminologia. no entanto. e que se chama resolutivo-compositivo. muito o magoou. e mesmo commander-in-chief.

crianças ou mais velhos. Portanto émanifesto que todos os homens. e justifica sua tese. a tradução latina usual na época é republica. no original infirmities. a saber: negar que o homem nasça adequado para a sociedade. pois as crianças precisam de outrem para ajudá-Ias a viver. depois de executado o rei . não lhe conferem importância. falaremos na República. como por exemplo o da Holanda e o que vigorou na própria Inglaterra na década de 1650. É pelo medo que os homens se protegem. que temer é exatamente o mesmo que apavorar-se.daí. Mas quem assim pensa presume. porém obrigações (bonds). na exata soleira desta doutrina. Em grego. porque não sabem o que é a socieda de. mas aqui é raramente empregado. acautelar-se e até mesmo agir de modo a não mais temer.por isso não nego que os homens (até mesmo compelidos pela natureza) desejem reunir-se. ou por falta de serem educados. apesar disso a desejam. "o estado de natureza") como sendo uma condição de guerra. (Nota de Hobbes) 5. Muitos também (talvez a maior parte). e no entanto todos eles têm. se a propósito da França enfatizarmos o poder do rei. E até mesmo aqueles que. Por isso devo dizer nos termos mais claros que é mesmo verdade que a solidão é por natureza inimiga do homem. quem parte em viagem leva uma espada . suspeitar. mas pela educação.Do Cidadão Notas condição natural da humanidade (e não mais. cuja virtude é por completo ignorada das crianças e dos loucos ({ools). Como o que vemos hoje entre os homens é uma sociedade constituída. without.por isso. nascem inaptos para a sociedade. se quisermos falar da organização política. 2. outra coisa termos capacidade para aquilo que desejamos. A isto se objeta: é tão improvável que os homens chegas sem à sociedade civil devido ao medo que. e mais preparados para o combate. Quem vai dormir fecha as portas. Compreendo porém. 7. e tudo isso por medo dos reinos e cidades vizinhos. Os reinos guardam suas costas e fronteiras com fortes e castelos. ou por defeito de suas mentes. creio eu. até mesmo pela fuga. "commonwealthmen" (republicanos). não podem nela ingressar. citaremos "os Estados de Luís XIV". continuam inaptos por toda a vida. uma certa antevisão de um mal futuro. Mas as sociedades civis não são meras reuniões. disto não se seguiria que já nascesse pronto para nela ingressar: pois uma coisa é desejar. por temerem o poder do adversário. não designa a doença. que o próprio monarca protege. eventualmente negociam a paz. nem mesmo suportariam o olhar uns dos outros. não havendo ninguém que viva fora dela. significaria "bem público" . uma pedra desse tamanho a barrar o caminho dos leitores. mas aquela fraqueza que é constitutiva da natureza humana. e escondendo-se pe 358 359 . mesmo os exércitos mais fortes. na palavra medo. commonwealths. e que se deve ao pecado original. mas. por orgulho.porque tem medo de ladrões. e cujo proveito também escapa totalmente àqueles que ainda não sentiram as misérias que acompanham sua falta. enfatizando nele o aspecto pelo qual busca o bem público. como aqui diz. tivessem eles medo. "Deficiências". Literalmente. o homem é tornado apto para a sociedade não pela natureza. Disso decorre que aqueles. ou seja. No original. no original: fama. mesmo que o homem nascesse numa condição tal que o levasse a desejar a sociedade. ou da lei fundamental não escrita. a quem sente medo também ocorre desconfiar. para constituir as quais são necessários fé e pactos. e para não serem derrotados. mesmo monárquico. que ela é inimiga do homem tão cedo ele nasce. porque ignoram o benefício que ela acarreta. 3. pode parecer de uma estupidez espantosa eu depor. que os parlamentos garantem. Essa palavra. o termo que Hobbes usa pejorativamente no Behemoth (668). e estes. 4. e como vemos todos desejosos de se reunir e de manter uma convivência recíproca. Por exemplo. por isso não penso que fugir seja o único efeito do medo. que na época significa "fora de". não se dispõem a aceitar as justas condições sem as quais não pode haver sociedade. as cidades se fecham com muralhas. natureza humana. por conseguinte. Ademais. No inglês. porque nascem crianças (in infancy). e quem tem mais idade precisa de sua ajuda para viver bem . freqüente no pensamento político inglês da época. que é o termo que Hobbes utilizará no Leviatã para definir os Estados. 6. Mas seu uso mais freqüente é o que diz respeito a qualquer regime. Aplicava-se aos regimes republicanos em sentido estrito.

mas. porque desde que nasce está sob o poder e proteção daqueles a quem deve sua proteção. alguém que teve razão e a perdeu mas pode recuperá-Ia.isto é. o que será teorizado mediante a oposição direito/lei de natureza. fora de tal governo (condição em que nenhum homem poderá distinguir a razão reta da falsa. Por reta razão no estado da natureza humana. se eles têm a coragem de se mostrar. Alguns também objetaram: se um filho matar o pai. 9. como está demonstrado no capo IX. mas ainda como fornecendo a medida da razão alheia. De modo geral. O /001 não é a mesma coisa que o madman: este último é o que enlouqueceu. então não lhe comete ofensa (injury)? Respondi que um filho não pode. utilizando-se de armamentos e armas defensivos. ou daquele que o criou. por isso. para que possa ser vista de um único olhar. Ele será muito mais seco no Leviatã a este respeito. (Nota de Hobbes) 8. é "engenho". Porém. exceto comparando-a com sua própria). e. a saber. o que seria correto desde que ficasse marcado que é no sentido em que dizemos de alguém que é espirituoso. de seu pai ou de sua mãe. Em conseqüência. o "néscio" nunca teve a razão. contudo. se não têm outro jeito de escapar. pois a injustiça cometida contra seres humanos pressupõe leis humanas. ao passo que o primeiro -literalmente o idiota. Digo 360 361 . 3. segundo o parágrafo oitavo. vem de seu acordo. Todo homem tem direito a proteger-se. a sociedade civil nasce da vitória.. a lei civil. embora num governo político (civilgovernment) a razão do soberano (supreme). /0015. então viola as leis de natureza. ele tem o direito de usar e fazer tudo o que venha a julgar requisito para sua conservação: de modo que depende só do julgamento de quem comete uma coisa que ela seja certa ou errada. ele porá a maior ênfase na necessidade de pôr fim ao estado de guerra. (Nota de Hobbes) 10.. a tradução mais adequada em português. não existe nenhuma. Falo em "peculiar" porque. Este capítulo corresponde de modo geral à matéria tratada no capo XIV do Leviatã. ou seja. e nela à de Antônio Vieira. como em alguns casos a dificuldade da conclusão nos faz esquecer as premissas. se lutarem. Esta é apenas uma das passagens do De Cive em que Hobbes efetua o elogio da sociedade. ser considerado no estado de natureza. em sua consciência. ou não possa quebrar as leis de natureza. afirma o parágrafo nono. No original.uma coisa que ele. Hobbes usa /001 mais que madman para radicalizar a distância que vai daquele até o homem em gozo de sua razão. 2. de modo que assim.. como se explicitará no capo III deste livro.. Costuma ser traduzido como "espírito". Capítulo II 1. jamais. que ele comete por sua conta e risco. não acredita fazê-lo -. e que remete obviamente à produção barroca. posterior ao Do Cidadão. em todas as coisas que a ele disserem respeito. como se vê no parágrafo sétimo. Do Cidadão Notas los cantos. o imbecil ou. resumirei minha argumentação. preferindo então expor os horrores do estado (ou condição) de natureza a elogiar o convívio social. a razão própria (own) de cada homem deve ser considerada não apenas como sendo a regra de suas próprias ações. como dizem os Salmos. se concordam. se um homem fingir que determinada coisa é necessária para sua conservação . mas. Assim acontece que. não entendo (como querem muitos) uma faculdade infalível. a que usaremos sempre que possível (embora não aqui). No inglês. e portanto sempre será certa. porém o ato de raciocinar .. Não significa que ele não possa ofender a Deus. Isto deve se entender assim: o que qualquer homem faça no estado puramente de natureza a ninguém ofende. e tornarei mais evidente.com a diferença de que nessa obra. em que Hobbes exporá os contratos e as leis de natureza . das quais. Por isso é verdade que num puro estado de natureza etc. o mais das vezes. o raciocínio peculiar e verdadeiro de cada homem acerca daquelas suas ações que possam resultar em detrimento ou benefício de seus próximos. deva ser acolhida por todo súdito individual como constituindo o direito. meios necessários são aqueles que ele assim julgar. wits. cada um vem a conhecer em que disposição está o outro. O mesmo homem portanto detém direito a se valer de todos os meios que necessariamente conduzam a esse fim. A verdade desta proposição já está suficientemente demonstrada ao leitor atento pelos parágrafos imediatamente anteriores. no estado de natureza. Ora..

literalmente. Ver a nota seguinte. (Nota de Hobbes) 8. No original. 12. atado. O soberano pode impor-lhe a tortura. para aumentar o temor a violar a palavra dada. Esta passagem trata de tema-chave em Hobbes mas. bolsa e a vida . pois é conduzida por juízes. preso. Nessa época há uma polêmica na Inglaterra sobre a questão de ser. e não na condição de natureza (na qual não há dinheiro ou negócios). como ele reconhece como direito incondicionado do homem o de defender sua vida. A tradução francesa de Sorbiere. uma vez firmado esse.isso porque não há ne Capítulo l/I 1. no caso de Hobbes. e que suscita a crítica de Locke a ele . estranhamente. 11. além do que já praticou. eu daret".pois. o capo III de meu Ao Leitor sem Medo. Faz parte dessa mesma lógica o eventual recurso à tortura. não há diferença para ele entre as duas palavras.. E.. nem furtar-se à onipotência de Deus". contudo.. nada torna ilegal um assaltante me forçar a escolher entre a nhuma diferença formal entre o medo que ele me causa. não comporta esse procedimento. 10. no estado de natureza. quer a algum outro sinal de que a outra parte não tem vontade de cumprir o que convencionou. destacando-se entre eles: justiça e 362 363 . quando não há Estado. Os princípios do verdadeiro raciocínio acerca de tais deveres estão expostos nos parágrafos 2. acompanhada por escrivães e tem suas regras fixadas pela lei e a jurisprudência. tendo em mira sua própria conservação. tied . o que em sua filosofia implica não resultar de coação. Hobbes também usa muitas vezes bound .literalmente. porém. Em síntese. devem cumprir em relação ao próximo. pelo qual ao mesmo tempo que ele concede ao soberano um poder ilimitado também reconhece ao súdito um direito irrestrito aos meios que conservem sua vida. explica esse final: ". Hobbes retoma a questão no capo XXI do Leviatâ. quer devido a algo que tenha sido feito. porque dizia.. Subentende-se. não é uma arbitrariedade policial. para autorizá-Io a rompê-lo. Esta é uma das passagens mais delicadas de Hobbes. com o mesmo fim. Tradução de Sorbiere: ". e escapar ao castigo deles. a não ser que apareça alguma causa nova de medo.porque toda infração às leis de natureza consiste no falso raciocínio ou. Essa tortura. sempre. 4. Pois. Este capítulo aborda os temas que Hobbes mais tarde virá a expor no capo XV do Leviatâ. pois podem-se enganar os homens. Cf. mas ele não está obrigado a interiorizar a culpa ou a censura que lhe for infligida. adotado pela Inquisição. preferiremos a primeira solução. para]ohn Locke. não pode entender que seja obrigado a depor contra si mesmo. Este é um procedimento corrente nos tribunais da Europa continental (e católica). O direito inglês. . para Hobbes. na loucura daqueles homens que não enxergam aqueles deveres que. ou quaestio.além da forma obliged. lícito convocar um suspeito depor sob juramento acerca das acusações que lhe são feitas. amarrado. para forçar o réu à confissão. que podemos utilizar indistintamente como "pacto" ou "convenção". que outrora se fez àquele imperador a quem se chamou Doson. não se pode julgar que se trate de um medo justo. que Hobbes está se referindo a uma compra ou venda feita já no estado social. Do Cidadão Notas além disso que esse raciocínio é "verdadeiro".... 5. Hobbes usa aqui a palavra covenant. Este é um dos pontos mais originais de sua filosofia. 6. 5. por facilidade. incorre na censura por leviandade. salvar a vida. o contrato tem de ser livre. melhor dizendo.. necessariamente. aparentemente mais óbvia mas que em inglês soa preciosa. e que justamente dá nome a essa corte religiosa: se a pessoa mentir. se ele o infere a partir de princípios verdadeiros e corretamente constituídos . e o medo que no mesmo estado de natureza me levaria a renunciar a meu direito de fazer a guerra a todos. e que me move a abrir mão da bolsa para salvar a vida. 13. 6 e 7 do capo I (Nota de Hobbes) 4. nesse exemplo.. 3. sendo que no título desta seção empregou compact. 7. ela comete um crime a mais. por Hobbes. ou seja. 9. Caso dos quacres. muito pouco estudado. ou não. Isto porque a causa que não foi suficiente para impedi-Io de firmar o pacto não deve tampouco bastar. mas não há como esconder-se do olho clarividente da Providência.

Injúria. No francês: "que se acomode e se torne social". em português. erroneamente. mas que não é sequer considerada pelos defensores da conduta só prudencial. creio que este composto de in + jus será o mais adequado para expressar o ataque praticado por alguém ao direito de outra pessoa. "injúria" designa mais propriamente um insulto do que a ofensa a um direito. mas são leis porque Deus assim o quer.mas totalmente predeterminada . e como especificamente diz. o crime arquiprudente: p. 2. Primeiro. Capítulo IV 1. 2. quando virem citações desse trecho. de palavra melhor. nem contra ti. 364 365 . não como princípios morais. teve uma longa disputa com o bispo anglicano Bramhall. que aquilo que os particulares contratam entre si. e mais sério. onde há apenas dezenove leis. 7. e a ilegalidade do ato em questão se deve apenas ao contrato entre ambos. Segundo ponto. o que convém. A esse respeito. daqui. ao mesmo tempo que a uma lei. porém. Se Deus criou o mundo. pode ser dispensado pela mera vontade do beneficiário da obrigação . nem contra qualquer homem privado. na década de 1640. Por isso. instrumental da razão. o homicídio e outros crimes. Porque o que é injusto é injusto contra todos. as leis de natureza que não foram definidas no capítulo anterior.. digamos. en passant). no começo do capo XV do Leviatã. No original. É uma passagem obscura. ele explicitamente põe em questão o caso daquele que se dispõe a violar as leis como se elas nada mais fossem que instrumentos. 5.. então há uma rede extraordinariamente longa . na falta de edições críticas . A edição Molesworth . o ateísmo (este. eventualmente pode afetar somente o magistrado. porém. os prudencialistas tendem a simplesmente omitir esta passagem. mas apenas contra Deus.ao passo que as ofensas (mischiefs) cometidas contra as leis do Estado. seja oralmente ou por escrito. Hobbes condena essa atitude. e que tem mais força que a nossa palavra justiça. diz respeito a alguma pessoa. mas segundo a vontade do magistrado. Talvez por prudência. 8. em capo 30.o empreendimento do século XIX que serve de base ao estudo de Hobbes ainda hoje. Essa última seção do capo III de Do Cidadão. Hobbes não acredita no acaso. e é a primeira de todas as causas. que as leis são teoremas da razão para a conduta prudente. O mais das vezes só se cita. Na falta. por sua vez. ex. hoje. é preciso lembrar duas coisas. 3. de quem os atribui. Do Cidadão Notas 9. não se supondo lei que o proíba. Infelizmente. righteousness. Como Hobbes insiste no tom convencionado da linguagem. são punidas não pela vontade daquele que por elas foi prejudicado (hurt). ou pelos interesses políticos. bem como o final do capo XV do Leviatã. Entenda-se: no caso estão em jogo apenas esses dois sujeitos. cuja significação é instituída pelo governante. injustiça. descartáveis quando fosse possível o crime perfeito.que faz tudo o que sucede estar já. Sugiro aos leitores que. Essa tradução se vê algo comprometida pelo fato de que... aqui e no fim do capo XV do Leviatã. mas sim uma definição ambígua para o termo lei. desde sempre. e às vezes pode ainda não ser contra o magistrado. A este respeito. e para garantir a paz é preciso que as palavras sejam atribuídas com comedimento ou pelo poder soberano. É devido ao contrato e à transferência de direito que dizemos que uma injúria foi cometida contra tal ou qual homem. como o furto (theft). que nas leis estabelecidas se manifesta. ao passo que uma injúria pode ser cometida não contra mim. uma denominação incorreta ou malévola pode levar à revolta e à sedição. quando o herdeiro do trono mata o pai.fala. e nenhum particular. quando Hobbes discute a conduta do ateu. que é a tradução inglesa do la tim justitia. Este capítulo não tem correspondência exata no Leviatã. e como regras de prudência. há uma forte corrente que explica as leis de natureza apenas em função deste uso. Este é um ponto que Hobbes sempre enfatiza: que os nomes dados às coisas são conotados pela paixões. As leis não são leis porque são teoremas. mas contra uma outra pessoa. A isso se deve o que constatamos em qualquer espécie de governo. predeterminado. isto é. A palavra injustiça refere-se a alguma lei. 10. (Nota de Hobbes) 4. Essa curiosa lei de natureza desaparece da enumeração do Leviatã. e nada existe sem ter causa. não comporta uma afirmação sem matizes. 6. vejam se são completas.

desde agora para sempre: o zelo do Senhor dos Exércitos fará isto. 22. sendo a 18. Ferreira d'Almeida traduz como "trabalho" o que em inglês é misery. "a majestade". 24. O mais provável é que ele a considere como nada mais que uma atribuição lotérica. Este é o versículo 6. que sou manso e humilde de coração.quer dizer. A rigor.. porque a sabedoria dos seus sábios perecerá. no caso. Este livro. "Porque na lei de Moisés está escrito: Não atarás a boca ao boi que trilha o grão. A partir daí é o versículo 4. 12. 25. que aparece no ver sículo 5 desse capítulo. Deus é convidado a escolher 366 367 . Assim prossegue o texto (versículo 25): "Para que tome parte neste ministério e apostolado". O versículo 7 Hobbes não chega a transcrever: "Da grandeza deste principado e da paz não haverá fim. 21. aproximando-se dele. que é a Bíblia que Hobbes utiliza. cabeça vazia. O versículo começa assim. desmiolado" (segundo a Bíblia de Jerusalém). a indicação é v. Rei Jaime: "entendimento". na tradução de Ferreira d'Almeida.. 14. não é apenas o versículo 6. 6. Do Cidadão 3.. no versículo seguinte: "Ou não o diz certamente por nós?" 12. " Sorbiere corrige a refe rência de Hobbes para o versículo 5. mas também o 7. 2. apenas. 23. Sorbiere é mais explicativo:' "Contudo. que por sinal termina assim: "e o torcido se endireitará. tampouco é reconhecido pelos protestantes." Parte II DOMfNIO Capítulo V 1. embora desconhecidas de nós circula na Idade Média. No inglês. Notas entre José chamado Barsabás e Matias. foi escolhido Matias. Mas não é nada evidente que Hobbes considere essa "loteria divina" como expressando uma qualidade. Grievous words. é o seguinte: "Vinde a mim. "E lançando-Ihes sortes" (diz o versículo 26). e o entendimento dos seus prudentes se esconderá". disse:" 13. 16. na íntegra. está "converte a alma". e encontrareis descanso para vossas almas. 17. a fazer uma obra maravilhosa no meio deste povo. 5. "Justiça" é a tradução de rigbteousness. No sentido de lei. No original. palavras que agravam. Versículo 3. No inglês. o que calunia. 20. 19. Tomai sobre vós o meu jugo. e mesmo assim útil como um procedimento que descarta conflitos entre os homens. e o áspero se aplainará". 10. todos os que estais cansados e oprimidos. a Bíblia de Jerusalém fala. tem Deus cuidado dos bois?" E responde. em "suas penas". sem envolver nenhum juízo de mérito. uma obra maravilhosa e um assombro. No sentido de "acepção de pessoas" . 7.. mas porque. que não faz parte do cânone judaico. A idéia de que a primogenitura é um sorteio efetuado por Deus e que portanto manifesta razões de mérito. O versículo 14 continua assim: ". Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve. o que Hobbes não transcreve: "Então Pedro. Esse trecho. Deus não distingue entre as pessoas por estatuto social ou qualquer outro critério análogo. 11.. e eu vos aliviarei. 9. para o firmar e o fortificar com juízo e com justiça. Esta palavra "Raca" ou "raqa" raramente é traduzida nas Bíblias vernáculas. onde melhor se relaciona com o tratado de 1651 é no seu capo XVII. aqui. Porventura. e aprendei de mim. Quem fala é o apóstolo Pedro. a tradução da Bíblia de Jerusalém. Este capítulo não tem correspondência perfeita no Leviatã.. 15. 8. "e este homem será a vossa paz". quer dizer "cretino. sobre o trono de Davi e no seu reino. não cito esta cláusula (= que eles se abstinham de crueldade) como se eu considerasse que no estado de natureza os homens estejam obrigados a qualquer lei de mansidão e de humanidade. Na versão autorizada do rei Jaime. 4. He tbat utteretb a slander. que diz respeito ã vida política dos animais e ao estado de guerra. Curiosamente. razão por que não consta nem do rei Jaime nem da Bíblia de Ferreira. seguimos.

que são criados e súditos. A qual diferença acreditei que estivesse claramente explicada no primeiro parágrafo. grande ou pequena. e pode praticar ações voluntárias. não recebe a mesma ênfase. Mas sempre que dissermos que alguma coisa foi feita por uma multidào. se a mesma multidão contratar . obviamente imaginário. significa uma coisa única. Pois nesse caso ela se vê dotada de vontade. em que ocorre a instituição do Estado pelo contrato de cada um com cada um (final do capo XVII). fazer leis. a fim de proporcionar uma explicação mais completa. de homem a homem .sendo um termo coletivo . para definir toda sociedade política. o que literalmente significa: de maneira solene (apondo seu selo. ou pelas vontades concordantes da maioria. adquirir ou transferir direito. manda ou faz alguma coisa. mas. e sim a cada um de seus membros uma vontade distinta." 3. Pois é tal a natureza de uma cidade que uma multidão ou companhia de cidadãos pode não apenas ter o mando. e por conseguinte a ela não se pode atribuir uma ação. ao passo que neste livro esse contrato sui generís. Quando dizemos que o povo ou a multidão quer. Em linhas gerais este capítulo lida com os temas de que Hobbes tratará no capo XVIII do Leviatã ("Dos direitos do soberano por instituição"). então ela se torna uma pessoa..resultando disso que haverá forçosamente tantas promessas. será recebida como sendo a vontade de todos. a exposição das formas de aquisição do governo doméstico ou despótico. sendo que estas só podem ser verificadas em assembléia. só que em sentidos diferentes. ou o acordo das vontades da maioria dos seus membros. infiro que não é assim. Em nenhum desses sentidos. 368 369 . que podemos dizer que é a grande invenção de Hobbes (um pacto do qual está ausente.. acrescentar estas poucas coisas: Por multidão . pode entenderse que uma multidão tenha uma vontade a ela dada por natureza. No inglês. A doutrina (Sorbiere: ciência) do poder de uma cidade sobre seus cidadãos depende inteiramente da compreensão de que diferença há entre uma multidão de homens que governam e uma multidào de governados. de modo que uma multidão é o mesmo que muitos homens. agir. sendo mencionado só no fim do capítulo. tais como dar ordens. direitos e ações quantos homens nela houver. Mas. ter. porém não constituem uma cidade.o que comprova a relativa dificuldade de usar o termo city. entender-se-á que ela foi praticada por um povo submetido. mas me valho do exemplo da cidade porque elas foram 'as primeiras a se formar quando os homens deixaram o estado de natureza)" .. 5.entendemos mais que um. devido às objeções que vários dirigiram contra as coisas que se seguem. Do Cidadão crueldade um efeito do medo. under seal. A grande diferença deste ponto de vista éque no Leviatã Hobbes dá mais importância do que aqui ao que poderíamos chamar o momento. adquirir e transferir direito etc. e não procede de uma vontade só. Portanto. os direitos do soberano por instituição. De modo que uma multidão não pode prometer. A seqüência.. ninguém transfere a própria força física. por ser de número singular. sem a vontade daquele homem ou assembléia de homens. o seu beneficiário. Mas a mesma palavra. 4. É a teoria da persona ficta. quer e age pela vontade de um. por muitos cidadãos individuais em conjunto. justamente. possuir e tudo o que se assemelhe a tanto. Por isso me pareceu oportuno. conserva-se em geral a mesma nos dois livros: primeiro. porém. a suas leituras antigas. Devemos então fazer a distinção seguinte. um tanto mau grado seu.cada um com cada um . uma multidão. e que se torna soberano exatamente por estar ausente). 2. a não ser que cada um o faça em separado. 3.. contratar. pactos. mas também estar sujeita ao mando.no sentido de que a vontade de um indivíduo. isto é. quem a exerce apaga toda a glória que porventura resulte de suas mais belas ações. depois. entende-se que é a cidade que manda. uma multidào nào é uma pessoa natural. Notas Capítulo VI 1. Sorbiere acrescenta: "e em toda espécie de república (pois o que afirmo de uma cidade entendo de todas as sociedades em geral. é provavelmente algo que Hobbes deve. e com mais freqüência é chamada de povo que de multidão. mas das várias vontades de vários homens (Nota de Hobbes). Ou seja. a saber. porém. ou civitas. ou assinatura). o soberano.

sempre informe e por isso facilmente ensandecida. e também. de se oporem e lutarem contra os maiores príncipes e dignidades. Há. a quem pedem aviso. que compõe uma pessoa civil. e. haverá uma mudança de terminologia. grau a grau. para a maior parte dos homens não fica claro de que modo um Estado 370 371 . Mas. No entanto. Pois eles reconhecem que a fisionomia da cidade consiste na assembléia de muitos homens. a informe e a organizada enquanto Estado. finalmente. 6. de modo que o governante tem de impor uma perpétua vigilância a eles. " 7. Por isso mesmo o termo é raramente usado por ele. que possam recusar-se a obedecer à cidade. exigem que se obedeça a outros além daqueles a quem se confere a autoridade suprema. E isso não acontece porque o princípio seja falso. e "povo". o direito de natureza. direta e abertamente. alguns bispos exigem que lhes seja reconhecido. e que com toda a evidência as opiniões que citei se reportam à"sua paz. Essa idéia de perfeição soa um tanto estranha em Hobbes . por natureza. segue-se necessariamente que o exame de tais opiniões. que nos representa todo o corpo do público. a própria guerra. Como vemos por esta seção. discórdias.IIIJIII II Do Cidadão Notas (Sorbiere aqui se alonga. e estes não se opõem a isso. a quem detém a autoridade suprema. ele é prontamente definido de modo a reduzir seu alcance. atribuo aqui à autoridade civil o papel de julgar as doutrinas. e mais adiante. censuras. Estão entre essas as doutrinas que. e que na república a nada mais deve aspirar do que à glória da obediência. isto é. o de proibir que sejam ensinadas. e não é ao corpo da cidade que se deve atribuir sua ação. parecendo sábios a seus próprios olhos. que se governa regularmente pela autoridade do magistrado. a pretexto de religião.. e até os mais ignorantes compreendem que no Estado popular os negócios são regidos por um conselho. O Estado popular manifesta a exigência de um domínio absoluto sobre seus cidadãos. Daí se pode entender a diferença que estabeleço entre essa multidão a que chamo o povo. nem nas ciências humanas. daquela liberdade que a camada mais inferior dos cidadãos (Sorbiere. elas podem contudo ser refreadas pelo exercício do poder supremo. e o autor fará a distinção entre "multidão". que não tenha nascido ou sido alimentada por esta raiz? Por conseguinte. teremos elementos para ver como é forte a tendência interna do Estado à dissolução. e de que os homens tendem. Isto é.que constantemente nos adverte para o fato de que o Estado é mortal. no capo XII.") 4. reivindica para si. para saber em que caso estão. se repugnarem. Não negarei que penso ser este o caso daquele poder que muitos. a desobedecer. para saber se elas repugnam ou não à obediência civil. que. a monarquia não é menos Estado que uma democracia. quando há organização e Estado. embora seja impossível impedir que tais dessensões nasçam. com toda a convicção. Hobbes aqui distingue dois tipos de multidão.. Por isso. de que não possam brotar dissensões. mas devido à natureza dos homens. embora não cancelado. seja guiado. 9. atribuem ao chefe supremo da Igreja de Roma. e que tenham o direito. e que os levam a acreditar. Latim: "Mas pode-se fazer que não haja motivo justo de temor. vivendo num governo estrangeiro. e os reis absolutos têm seus conselheiros. (Nota de Hobbes) 8. que é como uma hidra de cem cabeças. e assim aceitam que seu poder. a cidade ou o Estado. o povo que se permitiu essa licença não é aquela pessoa pública que tudo pode. de modo a não constituírem qualquer óbice à paz pública. e até mesmo o dever. fora da Igreja Romana. Não há quase nenhum princípio nem na adoração de Deus. dado que ninguém nega à cidade o direito de julgar aquelas coisas que se referem à sua paz e defesa. e essa outra multidão que não respeita ordem alguma. nesse caso. mudando já as últimas linhas de Hobbes: ". 5. bem como daquele que em outras partes. Contudo. Pois. não é de uma vontade única que ela procede. o terceiro estado). necessariamente querem assim parecer a todos os outros. e pela nota de rodapé do autor. nos tópicos de maior relevância. por autoridade soberana. porém. ou mais obscuramente e de maneira indireta. mas da conspiração e desregramento de algumas pessoas sediciosas. certas doutrinas que corrompem os súditos. Pois que guerra civil jamais houve no mundo cristão. e assim. deve caber à cidade. e a quem confiro uma vontade só. No capo XVII do Leviatã. não discuti esses tipos de opinião neste lugar. pelo menos em sua maioria.

" 372 373 . mas então suponha que lhe tenhamos dado um poder que não seria absoluto. E por isso os juramentos que os príncipes proferem comportam uma certa segurança para seus súditos. matará a todos. ele arruinará todos os demais? Ora. será miserável a condição dos cidadãos. termo um tanto vago mas que pode tanto significar uma proibição de dissipar o domínio real quanto de expor a perigo o reino. porém apenas o bastante para defender-nos das injúrias dos outros . o absolutismo ou monarquia absoluta.. as seguintes objeções. (Sorbie re: Só devemos nos queixar da infelicidade e miscelânea das coisas humanas. pois. embora aqueles que tenham o mando supremo não façam todas as coisas que queiram e que sabem ser úteis à cidade. Luís XIV fez prevalecer na França. aqui. Primeiro. A edição Molesworth traz. mas sem abrirem mão de parte alguma do direito. não haveria necessidade alguma de cidade. O legitimismo significa que o rei tem um direito próprio. ainda assim não aparece outra razão pela qual ele deseje fazê-Io. 12. pensam eles. tais proibições seriam vãs. também. O resultado dessa religião da realeza é que o monarca sofre duas grandes limitações em sua ação: ele não pode alterar a sucessão ao trono (o que Hobbes explicitamente lhe permite). ao mando absoluto. e desinteressados do que tendem ao público. Não se pode negar que um príncipe possa ter. do governante a uma tutela que a enfraqueceria.que. É por isso que às vezes os príncipes deixam de exercer seu direito. se quisermos a segurança. mas não um fundamento jurídico para o poder) e é legitimista. querer fazê-Io. a única dificuldade está em que os negócios humanos nunca podem estar sem algum inconveniente.. a inclinação de agir perversamente..estou dizendo matar o soberano . 11. pudessem viver em conformidade com as leis de natureza -. nem sempre podem ser levados a cumprir seus deveres sem com isso fazerem o bem público correr riscos. ao poder. embora ele tenha o direito de agir dessa forma. Mas por que razão deveria o rei agir dessa forma? Não será apenas porque tenha direito de fazê-Io . a bem dizer. para agradar a um ou a poucos favoritos.. já que nisso nada encontrará de bom. Estas se resumem basicamente em duas: a monarquia francesa é de direito divino (o que para Hobbes é.o que. (Nota de Hobbes) 10. e todo h~mem pensará que é por mera sorte que ainda não foi espoliado ou morto. ou que não leve seu juramento em conta. será pensá-I o como um teórico da soberania . espoliará tudo. esse rei tomará tudo.-- Do Cidadão Notas está contido na pessoa do rei. pois estará rompendo as leis naturais e praticando injúria contra Deus. não é verdade.o que. O latim é mais claro: "se o soberano manda alguém matá 10 . que deve ser absoluta. e que este se transmite pelo sangue na família real. as mesmas coisas não seriam então de temer? Pois quem tem força suficiente para proteger a todos não carece do que é suficiente para a todos oprimir. Ou então. e assim não cometa injúria contra ninguém.. O emprego do termo absoluto para designar o direito do soberano fez muitos aproximarem o regime almejado por Hobbes daquele que. Para Hobbes. e por isso eles fazem. Em segundo lugar. e todos os outros Estados também. quando muito. em última análise proveniente de Deus.) E essa inconveniência mesma está nos cidadãos. temos que dar -. É por isso que o mais correto.porque precisaria.realmente ilimitada . Portanto. se os homens pudessem governar-se. Pois. a razão para isso não está em Ihes faltar direito para tanto. mesmo que ele possa agir justamente daquela forma. nem pode alienar o patrimônio régio. forma historicamente restrita daquela.. às vezes. dizem que. em seu mesmo tempo. se alguém tiver um tal direito. Mas é preciso também marcar as diferenças. um elemento para atingir melhor as consciências dos súditos. empenhados em seus interesses privados. cada homem dando ordens a si próprio isto é. e não no governo. que não permitem apreciar nenhum bem tão depu rado que sua doçura não tenha mesclada algo de amargo. em pri meiro lugar. erradamente. Pois. isso não é porém o mesmo que agir justamente. immediately. pois todas as monarquias o são. E com efeito há elos teóricos e históricos entre a teoria hobbesiana e a prática francesa. e prudentemente se abstêm de agir. nem de um poder coercitivo comum.. na leitura de Hobbes. A segunda objeção que eles fazem é que no mundo cristão não há domínio que seja absoluto .e não do absolutismo. mas no conhecimento que têm de seus cidadãos . porque implicariam submeter a autoridade..

por exemplo. Essa doutrina aparece. 18. a saber. Quanto à objeção que alguns fazem a esse respeito segundo os quais os pais de família tinham propriedade de bens antes mEsmo de se constituírem as cidades -. e nele Hobbes volta a tratar da propriedade. no sentido em que essa palavra é utilizada por alguns teólogos. Quando. porque a cidade não tirará nada de seus cidadãos por fraude ou esperteza. Não é meu propósito discutir se o matrimônio é ou não um sacramento. Sorbiere conclui assim: "para saciar suas paixões desregradas". quem. pelas leis anteriormente feitas. os casamentos. o que está em questão nisso não é se a cidade tem ou não direito a manter a posse da coisa sobre a qual incide a controvérsia . os gregos e os romanos. compete às leis da cidade. tais contratos só podem ser firmados segundo uma lei que os decreta indissolúveis. a fim de abençoar ou. no segundo. como já declarei. que se faziam presentes e/ou representados no Parlamento. ele não possa julgar iniquamente". cabe ação. a razão para que o casamento não se possa romper está. que não estejam sujeitos nem a um pai comum nem a um senhor. ou estados no sentido que tem a expressão Estados-Gerais. No latim: "por culpa dos soberanos absolutos que abusam de seu poder por capricho". No Leviatã. (Nota de Hobbes) 17.mas se. ou não. Sempre que um cidadão tem reconhecido o direito de abrir uma ação em juízo contra o poder supremo. Sorbiere vai na mesma direção. porém não daquela que é de seu próprio pai. Assim. se assim podemos dizer. ou seja. porém. no tratado De Republica Anglorum. fala sem cabimento. estates: estamentos. 20. De modo que as cerimônias que são celebradas no templo quando de um casamento. onde aqui está "leis civis". se precisar de tudo o que eles têm. há um capítulo inteiro (o XXIV. de modo que ela se distingue da propriedade dos demais filhos da mesma família. já o Rei fora do Parlamento podia menos do que ele pró prio com os lordes e os comuns. 21. porque a lei é a declaração da vontade do soberano. apenas ao ofício do clérigo. uma família é uma pequena cidade. quando e por que contratos se podem fazer casamentos. segundo a doutrina tradicional. ela deve ou não conservar tal coisa. (Nota de Hobbes) 15. 14. que não é tratada neste livro. e. Em muitos povos. no primeiro caso não cabe qualquer ação em juízo. (Nota de Hobbes) 19. No latim. 16.e que no Leviatã se tornarão ainda mais raras.legítimo porque reconhecido pela lei civil -. Latim: "leis naturais". porém. de sir Thomas Smith (1565. de consagrar o marido e a mulher pertencem. cabia à reunião do rei. "Da liberdade dos súditos". ela é de todo vã. que começa seu Livro 374 375 . e não por ser o matrimônio um sacramento. pouco importando que este seja. dos lordes e dos comuns do reino. uma vez conhecida a eqüidade. Já os pais de distintas famílias. assembléia. apenas. mas tudo o mais. quer como débito. que se consolidara depois da Reforma sob os reis Henrique VIII e sua filha Isabel. quem condena o que aqui afirmo. quer como tributo. ela o exigirá abertamente. O latim usa uma fórmula mais lisonjeira para o soberano: "supondo-se que. mesmo legítimos. como por exemplo entre os judeus. Esta questão é retomada no capo XXI do Leviatã. podiam ser dissolvidos. porque. "Da nutrição e procriação de um Estado") sobre a questão da economia. Uma das raras passagens em que Hobbes censura um governante . Por isso. Essa proposta é basicamente a dos que defendiam o governo na Inglaterra pelo Rex in Parliamento: o poder máximo no país. contra a cidade. É verdade que os filhos de uma família têm sobre seus bens uma propriedade concedida por seu pai. em que a cidade assim o decretou. um sacramento. já que pertence à essência do casamento ser um contrato legítimo. têm um direito simultâneo (common) a todas as coisas. Apenas afirmo que o contrato legítimo de um homem e de uma mulher no sentido de viverem juntos . porque não pode pairar dúvida de que a cidade tenha o direito de lançar tributos. como a cidade pode levantar dinheiro de seus cidadãos a dois títulos.T Do Cidadão Notas 13. mas aquela copulação que a cidade proibiu não constitui um casamento. o Rei no Parlamento tudo podia (o que já constitui uma doutrina da soberania). dizendo que esta doutrina facilita aos prín cipes o livrarem-se de suas dívidas. No original. Por isso. seguramente constitui um casamento legítimo. talvez. em pleno período isabelino).

ou pelo menos com o que imaginaríamos ser um regime fundado em algo como o sufrágio universal: Hobbes. Por isso não assistimos simplesmente ao confronto da doutrina hobbesiana da soberania e de uma teoria medieval da nãosoberania. até por razões históricas (o conflito que desde 1603. tem uma carga de ironia. como Lords. e sim ao de uma soberania já localizada num determinado personagem (ou pessoa). 22. Neste ponto. como ideal ou pressuposto. estes representantes têm de reduzir sua vontade. no Espírito das Leis} votarão os que tiverem direito a voto. da suposição de que as partes não se entendam." E essa doutrina é praticamente consensual sob a dinastia Tudor. Hobbes permite restringir es ses "todos" (da mesma forma que Montesquieu. e a pretensão de Roma a interferir no clero local. A Guerra Civil dos anos 1640 decidirá de outro modo. que também pode divergir. que pode. e o povo ã representação deste na Câmara dos Comuns. Demonstrar um interesse foi entendido usualmente como significando ter um bem. fala aqui em governo de "muitos". a da maioria da Câmara. que a redução da pluralidade das vontades a uma só não é coisa natural. falar o que têm em mente. de uma harmonia entre essas partes de que se compunha o poder supremo. Forsooth. num segundo momento. Capítulo VII 1. numa primeira. que mostraram o quanto foi difícil consolidar essa idéia: por que n (ainda que sejam a maioria) equivaleriam a todos? .2. os cidadãos elegem seus deputados. 24. 2. depois que. determinar que a maior parte valha pelo todo. contra uma soberania que só pôde nascer na teoria política inglesa porque reivindicou um certo consenso nacional entre as partes. assim como os conservadores de seu tempo . entre parênteses. Aqui vemos o problema que aparece com a democracia. o voto pode estar confiado a todos ou apenas a uma parte: é democracia o regime que subordina o sufrágio a determinados requisitos de capacidade. a Stuart. por Maitland e Gaines Post. esta abateu o poder dos grandes senhores feudais que pretendiam ser autônomos em face da coroa. que traduzi como "certamente". de modo que (no exemplo da Inglaterra) em cada burgo ou condado a variedade de votos se reduz a dois deputados. E Hobbes parte.. 4. por sua vez. por exemplo. O latim explica corte (curia} "quer dizer. Esse ponto foi estudado. entende que o Parlamento é apenas o lugar onde os súditos podem parler leur ment. O latim é mais preciso: "enquanto todos os poderes concordarem". para Idade Média. O latim aqui inclui: "por ignorância"... e não de "todos". na tradição antiga. em alguma circunscrição local. aqui Hobbes afirma duas coisas: 1. porque se seu dono votar irresponsavelmente um governo catastrófico lhe causará muito mais prejuízo do que a alguém que nada tem e por isso não paga nada pelas más conseqüências de seus atos irrefletidos. um senado". aos membros da Câmara dos Lordes). porque. 3. com o advento de uma nova dinastia. geralmente de raiz. mas supõe uma convenção prévia. Do Cidadão Notas II dizendo: "O mais alto e absoluto poder do reino da Inglaterra consiste no Parlamento. Note-se que. 23. É o caso da Inglaterra. portanto um órgão consultivo e não deliberativo. neste capítulo. do ponto de vista teórico. Mas. mas gostaria que fosse moderado e cerceado 376 377 . a propriedade seria como que uma caução ou fiança do voto. Portanto. no texto inglês. A diferença entre essa teoria e a de Hobbes é que os Tudor partiam. que desse a seu proprietário uma responsabilidade que o não-proprietário não teria. o que traduzi como "nobres" aparece. A referência óbvia é ao Parlamento inglês: Hobbes. Essa redução da diversidade das vontades a uma só. os nobres se referem apenas ãqueles que fazem parte da Câmara mais alta (na Inglaterra. com a Reforma promovida por Henrique VIII. ocor re em duas etapas sucessivas. eles prolongavam um ideal medieval do poder composto pelo entendimento das partes (embora com uma diferença absolutamente radical: que conferissem a este uma jurisdição bem mais ampla do que reconheciam os medievais).partidários dos reis Jaime I e Carlos I no conflito com seus legislativos -. a uma só. A maior parte dos homens admite que um governo não deve ser dividido. que demonstrarem interesse na coisa pública e além disso que quiserem votar. opõe o rei ao Parlamento e em especial aos comuns).

eu bem gostaria não só que os reis. e naquela época. 10. Por conseguinte.a ruptura com Roma. que o maior acontecimento da história inglesa antes da Guerra Civil . e. de minha parte. ora. 8. filha de Felipe. não era seguro que pudesse ser conferida a uma mulher. o que tentará com um novo casamento.) Deste ponto de vista Hobbes é absolutamente fiel às tradições políticas com base nas quais então se pensa a monarquia. se moderassem (temper) de modo a não cometer nenhum erro (wroniJ e. dividido. imediatamente.Do Cidadão Notas por alguns limites. se contivessem dentro dos limites das leis naturais e divinas. por exemplo. no inglês. não divergem as duas leituras. cuidando apenas de seus encargos. obcecado por problemas matrimoniais. ela expressa a reivindicação de uma soberania plena. Na verdade. no inglês. como transferir um direito é exatamente renunciar a ele em favor de determinada pessoa (podendo haver renúncia a direito que não seja em favor de ninguém. mas. neste livro. é uma capacidade. mais a fundo. especialmente de dinastia nova (ele era o segundo monarca da casa Tudor). ou "por vosso (meu) amor". No latim: "Transfiro meu direito ao povo. sempre seria possível. em Sorbiere. como 378 379 . pelo menos nas línguas latinas. se conserva ligado a temas que terminará de renegar no Leviatã (e aos quais se prende aqui quase que apenas nominalmente). Portanto. "seus deveres". para falar corretamente. no presente. nas palavras de Hobbes . ou seja. que não podia furtar-se a uma condução moral dos negócios públicos. na monarquia. sua esposa Catarina de Aragão só lhe dera uma filha. 9. Contudo. heir apparent. ver a nota anterior. Devemos entender que o poder busca ser ilimitado. 12. se os que falam em moderação e limitação entendem dividir o governo. "herdeiro. aquele herdeiro sobre cujo título não podem pairar dúvidas. e que a chave para se entender a qualidade da dominação num determinado instante está em saber qual a sua qualidade no tem po: aquele poder que pode garantir o futuro é o que tem. (Nota de Hobbes) 5. No latim. porém. No latim. a pedra de toque do poder. maior poder. então fazem uma distinção muito ingênua. pelo direito que a eles teria sido transmitido por uma princesa francesa. mas. No latim: "o exercício da soberania". e ao papado uma certa tutela sobre o Estado. o Belo). a Reforma anglicana . O latim usa a feliz forma de "usufruto". Outra passagem em que Hobbes. Em verdade seria muito razoável que assim fosse. da necessidade que sente o rei inglês de ter um herdeiro varão.terá resultado apenas da luxúria ou da loucura de Henrique VIII. perturbar toda a ordem de sucessão ao trono. anulando-se um casamento (e mesmo um casamento de um ou dois séculos atrás). porque quem estabelece limites necessariamente há de deter uma parte do poder. A ruptura com Roma deriva. se era aceite que a coroa inglesa podia ser transmitida por uma mulher (fora este o argumento dos ingleses para reivindicar a coroa da França. para que possa limitá-Io. garantir um herdeiro era fundamental. que se traduz na recusa de que o papa decida sobre a validade dos matrimônios. sempre pensaremos. na Idade Média. era essencial. mas isso é impossível. e portanto não constituindo uma transferência)." Hobbes distin gue transferir um direito e renunciar a ele. O tema do buon governo. 6. For your (my) sake. Mas nesse caso estaríamos ignorando que para um rei. No original.que nesse caso exprimiriam perfeitamente o entendimento com base no qual Thomas Cromwell comandou a ruptura com o papado . 13. definindo um limite sério ao governante. ou seja. 11. plurality . (Talvez isto explique por que. e não o rei.que geralmente se traduz por "maioria simples de votos" (diferentemente da absoluta). os que fazem essa distinção gostariam que o poder supremo fosse limitado e restrito por outrem. O direito de sucessão é. O grande problema para um monarca era assegurar sua sucessão: se não entendermos isso. o substantivo poder é também um verbo que indica uma capacidade que se estende pelo futuro indefinidamente: o poder não é então um dado ou uma realidade. de modo que o governo assim não é limitado. através dos parlamentos ou cortes. 7. Enquanto esse poder coubesse a Roma. mas que todas as outras pessoas que venham a ser dotadas com a aU!toridade suprema. sobre a legitimidade da sucessão.soberano seria o papa. dava aos súditos.

preserved e preserver. Em certos casos. aqui. literalmente "prazer divino". mas também o cuidado tomado para fazer alguém crescer . 15. o Segundo Tratado sobre o Governo. lords foi traduzido por senhores. quer simplesmente dizer uma vontade que não precisa. Capítulo VIII 1. justificar-se. No original. 3. que se deva chamar a atenção para o fato de que "senhor" pode ser master(que Hobbes usará sobretudo para a relação com o escravo) ou lord.. (Não estamos com isso sugerindo que a diferença de sentido dada à palavra se deva a uma questão de data: trata-se de diferentes posturas dos dois autores. este correspon de. no original.Do Cidadão Notas o primogênito varão de um rei. sobrinho ou tio do monarca. apenas a uma parte do capo XX.na passagem de Do Cidadão ao Leviatã. No original está o verbo forjeit. 2. certamente por saber que em inglês se está num momento em que o termo dificilmente teria um significado claro. pois. de fundamental importância no pensamento de Locke e no direito constitucional inglês (desde a Idade Média). É uma das raras partes que diminui de tamanho . feudalizantes. também. especialmente franceses. isto é. Esta passagem não tem equivalente no Leviatã.daí. 4.embora avalizada por Hobbes: Sorbiere falará. na falta de filhos. como em outras vezes. encontraremos a mesma proporção entre elas que há entre o desregramento dos apetites e a razão ou. Sorbiere é mais enfático: ". para não dizer feuda!. se o herdeiro for o irmão. ou preso por correntes. entre os animais e os homens racionais". 6. se me atrevo a dizê-Io. mas raro em Hobbes. Sua teoria política será sempre do contrato. constituído". este capítulo todo. e livre pois de qualquer compromisso. de Hobbes. 14. No original. com efeito. pelo texto se vê que é uma relação senhorial. framed: literalmente. a palavra criança. em esclave. No original. Hobbes retoma a questão da liberdade no capo XXI do Leviatã.. porém ainda assim natural. Vínculo é bond. na falta de palavra melhor. para dizer que ou se está preso (bound) pela palavra dada. 4. No inglês. Capítulo IX 1. Hobbes faz a distinção em francês. Hobbes joga com essa palavra. Da mesma forma que o capítulo anterior. assim como na expressão "belprazer do rei". corresponde a uma parte apenas do respectivo capo XX. dado que a relação de serviço já é assalariada. Provavelmente é o que está na base de um erro cometido por muitos comentadores. divine pleasure. Bebemoth) -. que traduzi a partir do verbo criar. como é bound o que traduzimos por "ligado".e de importância . "enquadrado. 5. Nesta passagem. que a todos confere um igual poder sobre todas as coisas. como especialmente na obra de John Locke. porque se o soberano vier a ter filhos aqueles perderão seu lugar na ordem de sucessão. mas é preciso lembrar que prazer. para os quais haveria um contrato do escravo com seu senhor. esta é uma das raras vezes em que atribui a confusão aos tempos. 3. servant significa "servidor". penso. Digo que essa liberdade é feroz e brutal. No latim. em nada. aproveitando a riqueza deste verbo em português. e a diferença entre uma e outra de suas três versões estará. que tem um sentido político Oorde) ou senhorial (senhor).e por esse meio subvertem o Estado (Leviatã. Uma explicação para isso é que Hobbes vá depurando seu pensamento dos elementos que poderíamos dizer. que não expressa apenas a geração. a coisa não será tão manifesta. a liberdade à sujeição. num empenho em escoimar cada texto do que ainda lhe parece inadequado. escrita ao que tudo indica em começos da década de 1680. a tradução francesa não é feliz . Aqui. literalmente "perder direito a". e solto fisicamente. Note-se o "atualmente" (now at tbis day): se Hobbes constantemente critica os que fazem mau uso das palavras . no Leviatã. "liberdade absoluta". Este capítulo. 380 381 . no Leviatã. e servants por servos. adquirem essa liberdade brutal. 2.) Daí. justamente. e não aos temperamentos subversivos. porém. se compararmos o estado de natureza ao estado político.

Não há correspondente no Leviatã. de A Marca do Leviatã. Lendo Tucídides e traduzindo-o. suspeitas e dissensões. fez um homem de argila. 9. agitation. concluíra aliás pelos perigos da democracia. policy. e por essa razão foi torturado por ]úpiter. No latim. 6. Ora. diminuindo a importância dos governos paterno e despótico. regime a seu ver que constituía uma sementeira de demagogos. Entenda-se: que usam para constituir a contrafação de um povo. (Nota de Hobbes) 3. não o é por sua origem. e designava militares de baixa patente que eram enviados de um regimento a outro para animar a discussão revolucionária. para defender a causa do rei. que remete ao livro de Samuel. 382 383 . capo XXI. Nota-se que Hobbes inverteu este tópico e o tratado nos dois capítulos anteriores. a única para a qual reconhece não haver o rigor definitivo da dedução.Do Cidadão Notas 5. Assim. ao que afirma no Prefácio deste livro. eles sofrem agudamente pelo que cometeram: estando expostos num lugar elevado. depois de ouvirmos que a democracia precede (é verdade que de direito) qualquer outro regime. um dos primeiros (diz ele que o primeiro) a fugir para o continente quando viu ameaçado o poder do rei e com ele a sua própria vida. Capítulo XI 1. e que o filósofo deseja fundar-se na razão. ou primeiro. Hobbes se interessara pela política. o argumento de Hobbes. este assunto é tratado no capo XIX. "Das diferentes espécies de governo por instituição. ele afirmou ainda há pouco que os antigos tinham preconceitos contra a monarquia (referindo-se certamente a Roma e a Atenas). de todas as teses que afirma em sua obra política. nossa ex pressão obrigado. quanto ao povo de Deus. A cidade de Luca. will. Mas. A explicação para Hobbes desconsiderar estes argumentos não é só que eles remetem ao plano do fato. Literalmente. em que uma obrigação nasce da gratidão por um favor. mas apenas a vantagem relativa da comparação. mediante juizes. agitar. literalmente. "prudência política". É também que o próprio conteúdo desses argumentos é bastante duvidoso: uns remetem tão-só ã mitologia. Em inglês. embora em sua terceira parte algumas destas citações sejam retomadas. é que ele foi primeiro governado por Deus mesmo. 2. se a monarquia é um regime melhor. no ano de 1647 . como devíamos entender. O caso dos governos é quase irônico em Hobbes. e só depois teve reis. Oblige. outros entram flagrantemente em choque com o que diz o próprio Hobbes em sua obra. pela invenção humana (que aqui está significa da por Prometeu). mas por seu desempenho. 7. a que se deu o nome de aristocracia ou democracia. na Itália. a multidão (que é a borra e as imundícies dos homens) foi como que animada e fundida numa pessoa civil. Assim. como levaria a sério a tese de que os antigos preferiram o reino de um só? Outra leitura da mesma passagem (os antigos preferiram a monarquia antes. ou seja. que o condenou a ter o fígado perpetuamente lacerado. Monarquista dos mais leais. No sentido jurídico do termo. Hobbes utilizou testament). isto é. 5. por exemplo. O termo agitador é praticamente desta época: foi usado pela primeira vez nas assembléias dos soldados em Putney. Parece que os amigos que inventaram a fábula de Prometeu apontavam nessa direção. as leis e a justiça foram imitadas da monarquia. e depois aderiram aos regimes aristocrático ou democrático) também soa estranha. Capítulo X 1. por tal virtude (como por um fogo removido de sua órbita natural). o curioso é que. e estes vieram pela via do contrato. No Leviatã. Literalmente. depois de roubar o fogo do Sol. que significa tanto "vontade" como "testamento" (acima. é a da superioridade da monarquia sobre a democracia. 4. ou muito obrigado. tendo-se descoberto o autor e os seus cúmplices . Dizem eles que Prometeu. Discuti este ponto no capo "O sono do rei". escorar-se em princípios sólidos. são atormentados por perpétuos cuidados. como ele explicita no Leviatã. Finalmente. e da sucessão do poder soberano". 8.que poderiam ter vivido tranqüilamente e em segurança sob a jurisdição natural dos reis -. Ou seja.que Christopher Hill compara aos futuros sovietes -.como se verá mais adiante -.

Samuel. a justificar a suspensão pelo rei das vias ordinárias da política. Subentende-se: a culpa de sua miséria. indica bem a idéia do rei como fonte da autoridade. a primeira parte é semelhante à tradução de Ferreira d'Almeida ("houve trovões e relâmpagos sobre o monte. e uma espessa nuvem. apesar disso quisestes ter um rei. Entenda-se: sendo Deus o vosso rei. Hobbes brinca. 2. Hobbes omitiu: "Se diligentemente ouvirdes a minha voz. e disseram: Tudo o que o Senhor tem falado. que a delega a representantes. Aqui Hobbes introduz uma distinção que antes. Capítulo XIII 1. right. Do Cidadão Notas 2. no Leviatã. respondendo a cada estocada com outra). para fazer as leis. 7. 384 ')85 . Em certos casos convém traduzir como salvação do Estado.. "a segurança do povo deve ser a lei suprema". neste livro. O inglês convém mais a Hobbes: Não há homem comissionado pelo rei para te ouvir. concebia a visão por meio de species emitidas do próprio objeto. e expôs diante deles todas estas palavras. Quem fala é. Aqui há uma grande mudança. capo XIV daquele livro. faremos. mas a segunda não consta. Então todo o povo respondeu a uma voz. A César. tantas vezes.. ao príncipe tem força de lei) foi retomada da Idade Média. ao capo XXIX. anterior a Galileu. Hobbes é menos sistemático no uso do termo direito neste livro do que no Leviatã. enquanto prazer do soberano. conforme comentamos. No inglês. "Do cargo (oifice) do soberano representante". "sereis como deus. e guardardes o meu concerto. o último dos juízes. no Leviatã. 5. e embora a idéia antiga de "ofício" remeta a serviço. Assim. e Deus lhe respondia em voz alta. de seu andamento institucional. Velho adágio latino. ou melhor. ao capo XXX. não no conteúdo do que Hobbes recomenda ao governante. então sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos: porque toda a terra é minha. onde provavelmente diria que pecam contra a lei (cf. Este capítulo corresponde. sem ele precisar escorá-Ia em nenhuma justificativa racional. 5. de maneira que estremeceu todo o povo que estava no arraial"). jamais indica algo de sensual. como. 4. ou tendem à dissolução de um Estado".. Talvez não seja demais insistir em que "prazer". dizendo o versículo 19 na versão que temos usado. driblava os wits.. aliás. disso ele zomba no começo do Leviatã. que ele é absoluto? 2. Servia. Continuando: "E veio Moisés. desde que a expressão latina quod principi placuit babet vigorem legis (o que agrada. e portanto comporte uma exigência de conduta por parte de quem o exerce." 3. como lhe ditar deveres se nos foi repetido. e um sonido de buzina mui forte. Deputed. quando o requeresse a salvação do Estado. 6. "Das coisas que enfraquecem. 6. estava mais obscura. No inglês.. A óptica que ele critica. de sua corte brilhante. E vós me sereis um reino sacerdotal. seu velho professor. que o Senhor lhe tinha ordenado. por serem notórias a seus leitores. mas na própria concepção do que se pode dizer a ele.. ou dá prazer. em sua obra (Carlos 11 se divertia vendo como ele. bem entendido. ou seja. no pensamento absolutista. para a distinção dos dois termos). no Leviatã. começo. está na tradução do rei Jaime. Hobbes pára de falar em deveres do soberano. 8." 3. Com efeito. 3. Este capítulo corresponde. e o povo santo. Capítulo XII 1. os espíritos mais engenhosos. para soluções extraordinárias. Neste ponto traduzimos diretamente do inglês. Aqui ele não resiste a fazer humor ." 4.. comissionado. e chamou os anciãos do povo. Estas são as palavras que falarás aos filhos de Israel" (é o que Deus diz a Moisés no monte Sinai). apenas: "E o sonido da buzina ia esforçando-se em grande maneira: Moisés falava.o que é raro nele. Sorbiere: "a pergunta que Deus fez a Adão". seu sentido é de que basta a vontade do monar ca. No sentido de "direito". a rigor. Incluindo as passagens que.

Mas. isto é. o capo XLVI. porque não seria eu o pecador. tanto que Sorbiere várias vezes o altera ou explica). elas. é bom lembrar. sucede que no pensamento de Hobbes will é um termo-chave. Note-se que Hobbes evita desenvolver aqui o assunto. por lidar com questões a seu ver perigosas para as consciências frágeis. resulta quer na decisão de cometê-Io. Dando um exemplo que está no começo do capo XXVII do Leviatâ: o mero deleite na posse do bem ou da mulher alheia. isto é. Quando os opositores dos reis Stuart dizem que Jaime I e Carlos I são esbanjadores e maus gestores de seus próprios recursos.como é o caso deste livro e do próprio Leviatâ onde. 5. se comparado com o exame de consciência rigoroso e quase masoquista que era recomendado por boa parte dos credos protestantes. É verdade que nas obras por ele destinadas à publicação ele não chega a ser peremptório . do que é seu. Ver. A expressão é infeliz. XXVI. que ele usa adiante. dizendo que foi justamente incutindo nos rapazes a idéia de que constitui pecado o encanto que eles sentem. O latim diz "pecados". especialmente os sectários. pois. trespasses. pois ele está se referindo às personae fictae autorizadas pelo soberano. É contra isso que Hobbes. Ora. quer na de renunciar a ele. e isso num sentido preciso: é. pedem que os reis. palavra ou ato). voltando à distinção entre lei e direito. que ela o compele a executar sua promessa. porém uma pequena comunidade urbana. Esta é uma das raras ocasiões em que Hobbes. Passagem que tende a contradizer o que Hobbes afirma em outros lugares. no Leviatâ. isto é.corretamente . para não confundir com a sociedade enquanto tal. Assim. que neste livro chama o que designamos hoje como Estado por cidade (termo que. seguindo o latim. o parágrafo 5 do capítulo anterior. Alguns pensam que estar obrigado e continuar obrigado seriam a mesma coisa. que incluiria não só a renda de suas terras como também taxas como as alfandegárias. cf. mas que a lei o mantém obrigado. é de sua responsabilidade: por isso não teria por que me preocupar se a cidade mandar blasfemar. ele não deixa dúvidas sobre sua crença na necessidade absoluta. não indica o Estado. onde ele também desiste de discutir o tópico da responsabilidade do soberano pelas almas dos súditos. no Leviatâ. XXVII e XVIII. pecaminoso. fala. Hobbes verbera no começo do Bebemotb. usa a palavra town . já em seu tempo. 5. naturalmente. onde o autor pormenoriza seus projetos de reforma das universidades. traduzimos por "sociedades particulares". 4. de uma discussão que Hobbes deseja manter em sigilo. "ofensas". e enfatizará na definição desta o aspecto mecânico. à visão de um 386 387 . aqui e em outras passagens. salvo necessidade devidamente cons tatada pelo Parlamento e para fins por este aprovados. aliás. por temor ao castigo fixado em lei. que não exigiam na Inglaterra autorização legislativa específica.Do Cidadão Notas 4. dirá que este se refere a nossa liberdade. não deve ser tomado por ato da vontade . quando a soma toda de apetites favoráveis à idéia de praticar tal ato. É muito mais do que uma fantasia. Societies. Essa martirização da alma.que. Direi então claramente que um homem estáobrigado por seus contratos. com o nome de tonnage and poundage. portanto. Sorbiere.não é. e que só vem a público porque o bispo se indigna com a "impiedade" hobbesiana. Este capítulo corresponde. que ele tem o dever de cumpri-Ios porque assim o prometeu. como as alfandegárias. vivam of bis own. a civitas ou mesmo a pólis. eram concedidas pelo Parlamento no começo de cada reinado por toda a vida do monarca. que está sempre significando "vontade". na segunda metade da década de 1640. "Das trevas resultantes da vã filosofia e das tradições fabulosas". 3. 6. aos caps. segundo o que qualquer pecado que eu cometa. Capítulo XIV 1. diz ele. No inglês. (Nota de Hobbes). se não for acompanhado de nenhuma açào nesse sentido. Trata-se. Hobbes usa will. Aqui. se for ordenado pelo governante. porque Hobbes nega a existência do livrearbítrio. e de aversões a essa mesma idéia. Hobbes se refere a certas taxas. outra possibilidade seria corporaçâo.para aquilo que costumamos chamar de intenção (como quando dizemos pecar por intençào. o culminar do processo de deliberação. o que Hobbes faz é em grande parte desculpabilizar a intenção. causava estranheza. e em outros lugares. na polêmica com o bispo anglicano Bramhall. entre as quais haveria uma distinção meramente de palavras. ou pecar. 2. daí que a traduzamos por "município".

Finalmente. 11. e assim de forma alguma desculpo nem atenuo o seu pecado. Uma é a remissão a uma idéia de justiça que precede o funcionamento de um poder legislativo e que. Esta representava a posição de cidadãos ingleses divididos em sua lealdade ao soberano e à religião. não quis com isso afirmar que todos os homens poderiam conhecê-Ia .a principal tradição jurídica inglesa -. embora argumente bem. É uma interpretação que levaria a afirmar um direito divino dos reis. mas sabiam que também pecavam e mesmo traíam a pátria se o enfrentassem. (Nota de Hobbes). por quem tem poder para tanto. A outra é o papel dado ao juiz para definir. Objetam. digamos. Do Cidadão Notas quis muito encontrá-Ia. nega a existência de uma soberania tal como Hobbes a define.. de regras natural e mesmo divinamente válidas. 10. por isso mesmo. quando quiseram subir ao céu. de modo que se mesclam uma jurisprudência dos tribunais. e atacar. porque Arquimedes descobriu através da razão natural a proporção que o círculo mantém com o quadrado. em es pecial. ou promulgadas.. É assim que se deve entender a importância conferida na common law ao costume: este não vale em si. que traduzimos geralmente como direito consuetudinário ou costumeiro.. Na common law há duas referencias básicas como fundamento das leis.é insuficiente para fazer leis. E é por isso que coloco o seu pecado no mesmo gênero a que Deus o refere. que os pregadores sectários conseguiram apoderar-se de suas consciências. Edward Coke. Sorbiere deve ter estranhado essa intrusão de um episódio pagão na religião cristã. de modo que parece equivocada. ou não se importam com fazê-Io.. 8. alguns até chegam a dizer. claramente toleradas pelo governante. os deuses"). Porém. que embora pela luz da razão possam alguns conhecer que há um Deus. Sua saída era. se estende do juiz legalmente constituído ao intérprete. ou aqueles que não estão afeitos a raciocinar direito. pelo menos. Ora. Sorbiere: "ou pelos reis que Deus estabeleceu abaixo de sua majestade". o que é legal ou não. afirmo que a esse título eles podem ser justamente punidos tanto por Deus quanto pelos magistrados supremos. Esta passagem é uma crítica em regra à common law . Por isso. considero mais duro dar a alguém o nome de inimigo que o de injusto. que só existem enquanto feitas ou. certas coisas que o rei Ihes ordenasse fazer. uma espécie de martírio: não seguiriam. culpabilizadas. e 388 389 . mas porque serve de explicitação. ou são incapazes disso. Ora. têm os common lawyers que limitar o alcance das leis escritas. e que temiam pecar caso obedecessem ao rei.. que não me mostrei um inimigo tão implacável quanto deveria dos ateus. deveria também reconhecer que o ateísta peca pelo menos contra a lei de natureza.. autônomo. documentada. dentro de sua teoria. em último lugar. porém igualmente de injustiça. por essa razão. Digo. por consciência. 9. de modo a que não pairem dúvidas de que a história se passa no Olimpo. e voltá-Ias contra o poder do rei.a menos que se pense que. Hobbes. indaguei então que nome Deus dá a homens a quem tanto detesta. Esse poder. assim fala Deus do ateu: Disse o néscio (fool) no seu coração: Não há Deus. mas a serem assinadas. mas acatariam sem resistência a pena que Ihes fosse belo corpo feminino. E depois mostro que eles são inimigos de Deus. os néscios Cfools). Muitos me criticam por ter referido o ateísmo à imprudência. e por isso não seria culpado só de imprudência. com base em tais princípios gerais sobre a justiça. portanto. que como afirmei em outra passagem que pela razão natural se pode conhecer que Deus existe. Quanto a eu ter dito que pela razão natural é possível conhecer a existência de Deus. além disso. no tempo. e uma tradição mais ampla de discussões e do equivalente inglês dos jurisconsultos . e não à injustiça. que na verdade (é o que está implícito neste capítulo) devem sua autoridade não a serem escritas. então.como alguns destes juristas se concebiam . não encontrando nenhuma. bem como. contudo não podem conhecê-Io os homens que se empenham continuamente na busca dos prazeres ou de riquezas e de honras. e por isso esclarece ("como os gigantes outrora foram punidos na fábula..Littleton. disso se segue que cada pessoa do vulgo poderia chegar à mesma conclusão. Mas sou inimigo tão ferrenho dos ateus que procurei com empenho alguma lei pela qual os pudesse condenar por injustiça. aliás. O que Hobbes diz é que o saber técnico ou mesmo jurídico dos "sacerdotes da justiça" . 7.") e põe a divindade no plural (". na verdade deforma a teoria da obediência passiva.

depois de mencionar Deus passa o verbo e o possessivo para o singular (o que não pude conservar na tradução). Fica. no caso de haver dois Onipotentes. qual deles seria obrigado a obedecer ao outro. Mas é bom não superestimar este papel do medo em Hobbes: pois tal paixão tem quase sempre. porque o pecado será dele (o que justifica o grande caso histórico a propósito do qual corre essa discussão. se os homens estão sujeitos a Deus. é justamente o que faz esboroar-se a obediência ao soberano. Seu grande argumento do Leviatã. mas era debatida desde o fim dos anos 70. esta pode em certos casos ser entendida como "o preço do privilégio". igualmente será verdade o que antes afirmei: que. por sua vez. e seria grave equívoco separá-Ias ou. Hobbes permite uma caricatura dos obedientes passivos ao dizer que eles convertem o castigo em preço. (Nota de Hobbes) 5. O curioso é que o próprio Hobbes. quando ele diz que. além de "cultuar". que os doutores da Igreja admitiam em relação 390 391 . ele mesmo dá alguma validade à posição dos obedientes passivos. a protestar. por empregar construções adversativas (embora no infinito). Essa passagem reaparece no Leviatã. é por não serem onipotentes. depois. Se a algum leitor esta passagem parecer muito dura. Traduzindo literalmente: "O Senhor é rei. e.e dos quais pelo menos um. se isso for verdade. difícil negar o direito ao livre exame e todo o resto que. Esta posição se difundiu mais ainda com a sucessão de Jaime II ao trono (que ocorreu em 1685. dar ao medo o papel de chave na constituição do Estado hobbesiano. 6. o qual ele identifica. com a consciência de si. provavelmente aludindo a uma questão menor. com essa proposição. Este capítulo corresponde ao que no Leviatã tem o número XXXI. como a daqueles que eram multados por terem ocupado sem permissão as florestas do rei. com Hobbes ainda vivo): sendo ele católico romano. quando nosso Salvador advertiu a Paulo que naquele tempo era inimigo da Igreja . parecia exigir dele que obedecesse pela simples razão de que não tinha força bastante para resistir. como "honraria". e a primeira em latim) para obedecermos ao poder. primeiro a defender seu acesso ao trono. Hobbes aqui condena a "idolatria" católica. quando ele foi deposto. e como rei chefe de uma Igreja protestante. quando sua política se revelava desastrosa. 7. lealmente o acompanhou no exílio). que consiste em dizer que obedeçamos ao rei até quando ele mandar algo contra Deus. ao ver de Hobbes. 4. Ora. como acompanhante. mas com sentido diferente e em outro contexto. isto é. a anglicana. Mas ali o contexto é mais discreto. Assim. assim. e worship. se a lei proíbe mas fixa uma multa. imediatamente depois de pôr no mesmo plano o medo e a esperança como razões (ou causas: Hobbes usa mais esta segunda palavra em inglês. a esperança. embora se impaciente o povo." 3. disse que a cidade não pode ordenar o que for contra o próprio Deus. Protestante. no segundo sentido. Parte /lI RELIGIÃO Capítulo XV 1. Poderíamos traduzir honour. 2. Finalmente. Uma pequena particularidade de linguagem: Hobbes.para que não se batesse contra o aguilhão.Do Cidadão Notas infligida. o dos holandeses obrigados pelo Xogum a pisar num crucifixo para manterem comércio em Nagasaki). está assentado entre os querubins. que representa Deus figurando-o. Esta passagem é interessante porque. A versão inglesa que Hobbes utiliza. deixa clara a oposição entre o fato de Deus reinar e a inutilidade de se impacientarem as nações e de se comover a terra. como quase toda a literatura a respeito fez. também poderia dizer-se "adorar" . embora a terra se inquiete como nunca. estranham ente . ele no que se segue suprime a esperança para ficar só com o medo. que deviam fazer aqueles que fossem leais súditos e fiéis protestantes? Foi isso o que levou vários. "Do reino de Deus por natureza". já aparece no Do Cidadão mas coexiste. acatando porém o castigo (o caso dos sete bispos que o rei mandou processar . neste mesmo capítulo. e chegara a ponto de transformar a veneração. que começou a frase com um sujeito no plural. a consciência que o homem tem de sua fraqueza. E penso que ele confessará que nenhum teria tal obri gação. peçolhe que considere discretamente (with a silente thought). E em verdade.

e sirvamo-Ios. como se elas fossem sagradas em si mesmas. faz o que não deveria fazer. e tu serás uma bênção. parágrafo 14. No sentido de: "será executado". Ver também a nota seguinte. seguimos aqui o rei Jaime (covenant). nos Sumos Sacerdotes e nos Reis de Judá". E far-te-ei uma grande nação. ainda que me desposei com eles. quem reza. Mas no reino de Deus estabelecido pela aliança. e da tua parentela. A Reforma implicou. Rei Jaime: "a terra onde és estrangeiro" . te hei de dar a ti. e engrandecerei o teu nome. (Nota de Hobbes) Capítulo XVI 1. primeiro. Em segundo lugar.ou. ainda que a cidade nos mande adorar desta forma. uma forte corrente iconoclasta. mostramos que esse tipo de culpo é irracional. porque eles invalidaram o meu pacto. no dia em que os tomei pela mão. 11. a vontade da cidade age como razão. e. 4. que não conheceste. Afirmamos. A parte substituída em Hobbes pelo "etc. Contudo. Ora. ora como signo. covenant. Rei Jaime: "um reino de sacerdotes". afirmo que devemos obedecer. em adoração ou culto." é a seguinte: ".. 8.. em que farei um pacto novo com a casa de Israel e com a casa de Judá. e esta passagem parece contradizer o que dissemos antes. para a banda do Norte. Os versículos 14 e 15: "E disse o Senhor a Abraão." 6. se ele for praticado por ordem de uma cidade." 7. diz o Senhor." 12. sim. não nosso conhecimento. pois. que quem recebe ordens da autoridade não impõe nenhum limite a Deus . cria-os. "Quem modela rostos sagrados no ouro ou no mármore / Não cria deuses.expressam. tal culto. A passagem completa é a seguinte (e abrange o versícu 10 32): "Eis que dias vêm. quem o adora numa imagem lhe atribui limites. e do Oriente. onde a idolatria está expressamente proibida. no parágrafo 14 deste capítulo. conforme mostramos (parágrafo 18). 5. Considerando isto. 3. só que fica de pé ou se ajoelha. como se dizia. 9. mas aqui pode ser aliança. conforme o que seu soberano legítimo mandar. Rei Jaime: "o meu tesouro". que temos traduzido ora como sinal (quando é a forma mais correta em português). não o deveremos fazer. se mostra racional. como é o caso do pacto que celebrou com Abraão. inclusive na Inglaterra. lá onde Deus reina pelo pacto. pouco importa se esse culto for oferecido por ordem da cidade ou contra ela. 11. e do Sul. Quem presta culto sem vontade. concerto. A parte do Leviatã que melhor corresponde a esta é o capítulo XL. Hobbes dirá que estes termos ou são negativos ("infinito") ou superlativos. Porque toda esta terra que vês. por entendê-Ios ccmo supersticiosos e mesmo sacrílegos. que quem atribui limites a Deus transgride a lei natural relativa ao culto de Deus. até porque é o termo que dá título ao capítulo em que estamos e porque tem papel essencial no pensamento de Hobbes. e onde ele expressamente advertiu para não ser cultuado dessa maneira. peregrino. "Dos direitos do reino de Deus em Abraão. depois que Lote se apartou dele: Levanta agora os teus olhos. Não conforme o pacto que fiz com seus pais. 392 2 No original. Devemos portanto considerar. 8. sign. No capo XV. a quem a palavra escrita de Deus não é conhecida ou pela qual não tenha sido recebida. Contra Descartes. que até destruiu lugares santos. que geralmente traduzimos como pacto." 10. não em todos os tempos e lugares. Mas. (Nota de Hobbes) 9. Os versículos inteiros: "Ora o Senhor disse a Abraão: Saite da tua terra. para a terra que te mostrarei. e da casa de teu pai. Na tradução de Ferreira. nesse caso. para sempre. Moisés. mas nossa ignorãncia. Em Abraão. 10. mas supondo-se que não haja outra re gra para cultuar a Deus além dos ditados da razão humana. Portanto. e abençoarte-ei. No inglês. não obstante. e do Ocidente. Não ouvirás as palavras daquele profeta ou sonhador de 393 .. quem tiver suspeitado que houvesse alguma repugnância entre esta passagem e o parágrafo 14 seguramente mudará de idéia. sempre será malfeito.tais limites são impostos por quem o manda assim proceder. para os tirar da terra do Egito. e olha desde o lugar onde estás. Do Cidadão Notas às imagens sagradas (porque representavam ou rememoravam o sagrado). presta culto de qualquer forma. diz o Senhor. seja esta a nova ou a antiga. e à tua semente. e a idéia de que temos uma idéia inata de infinito ou de peifeição.

é o seguinte: "Porque a justiça será o cinto dos seus lombos. ou impuro. o qual é idólatra". nada falta aos versículos 7 e 8. o espírito de conselho e de fortaleza." 10. A parte abreviada é: ". Rei Jaime: "o governo". ". 54. além disso. 125-6). o começo do versículo 36 e o versículo 38. o espírito de conhecimento e de temor do Senhor. ". the Branch. Rei Jaime: "e não em discursos obscuros". em inglês. 23. São Mateus 5. cintilando com alegria para aquele que as fez. que não passará. lhes serei por Deus. e a sua voz ouvireis. Vespasiano foi proclamado imperador no ano 69... ". 56. e repreenderá com eqüidade aos mansos da terra." A ex pressão "o ancião dos dias" quer dizer "o mais antigo dos dias". 36. Também se traduz como "rebento". Sic: renovar o novo. ou avarento. O que se segue é o versículo 19. 16.. 25. São João 18.". e a ele servireis. e habitarão no deserto seguramente. e o seu reino se não destruirá.. 17. São João 5. E o seu deleite será no temor do Senhor. seu bem-amado" (Bíblia de Jerusalém. "Deus seu Pai" (God even his Father) é a tradução que Hobbes utiliza. 28-29. No inglês: "entrará no reino de Deus e de Cristo".. o Senhor. dada a importância da idéia do covenant como pacto na obra de Hobbes. 61 e 62. No latim. 14." 29.. 15. o 5. 17. São João 12. que é fiel em toda a minha casa". 35-37 são os seguintes: "Ele (= aquele que sabe todas as coisas) as chama e elas (= as estrelas) respondem: 'Aqui estamos'. 13. é do latim.T Do Cidadão Notas cia. 28. 14. "a ciência"..) 20.. 31-33. seu servo. 19. ou seja. 60. Apesar do "etc. a de Ferreira d'Almeida diz: "a Deus. na verdade.. enquanto Hobbes dá ao verbo o sujeito ele.. e o meu servo Davi será príncipe no meio deles: eu. Os vv. "." 7. Baruc não é reconhecido como sagrado pelos judeus nem pelos protestantes. pp. 2. 26. Hobbes usa o termo covenant. 9... pela presença do Senhor. Após o Senhor vosso Deus andareis. Contudo... se costuma traduzir como "aliança". Números 11. (A indicação desta.. ~ . 38. 16. 21. geralmente usaremos essa tradução. 16. 53. e dormirão nos bosques. e farei cessar a besta ruim da terra. 47. que Ferreira D'Almeida traduz por "concerto" e que no uso corrente em português. " 6. 15. No v. 22. para saber se amais o Senhor vosso Deus com todo o vosso coração. e o deu a conhecer a Jacó. Latim: renovar a aliança. São lucas 12. Hobbes termina no versículo 4. e com toda a vossa alma. 3... 12." 11. ao Pai". São Mateus 10.. 14. É notável como esta passagem é interpretada por Hobbes como se a linguagem fosse figurada e não literal: não se trata de sonhos: porquanto o Senhor Deus vos prova. o Senhor.. os capítulos mencionados são 51. porém. É ele o nosso Deus. o falei. deixou então a seu filho Tito a tarefa de concluí-Ia. 22. o ramo. 52. ". A passagem citada por Hobbes inclui. e a Israel. e a ele temereis. e de outras passa gens que não aparecem no corpo do texto inglês. e a ele vos achegareis. ". Foi ele quem descobriu todo o caminho da ciên 394 395 . quando dirigia a guerra da Judéia. 24.. que ele havia indicado mas nâo cita.. e os seus mandamentos guardareis. o espírito de sabedoria e de inteligência. 4. este as apascentará. ". 17. figurando entre os chamados livros deuterocanônicos. 18. a propósito da Bíblia. E eu. 19. 8. 27. Deus fala a Moisés.. São João 3.. que se refere a Deus.. e nenhum outro se contará ao lado dele." 5.. São Mateus 5. a Bíblia de Jerusalém fala em ela. Capítulo XVII 1." 13. e a verdade o cinto dos seus rins.. Rei Jaime: lowly. São Mateus 13. e este lhes servirá de pastor.

ora. 5. a única das Igrejas cristãs ocidelltais que tem tal pretensão é a de Roma. Mas agora vos escrevi que não vos associeis com aquele que. argumentos em favor do primado da Igreja Romana. " 34. cheios do Espírito Santo e de sabedoria. equivocadamente. O texto latino. 45. 38. com o tal nem ainda comais" (vv. we think. para que pela boca de duas ou três testemunhas toda a palavra seja confirmada. e mesmo comentada (como ilustração da fé). Latim: "o fornicador". Israel. ou com os avarentos. grifo meu). A passagem citada é Mateus 18. dizendo-se irmão. de minha casa. 44. notai o tal (= o alguém). e não vos mistureis com ele. sai da casa de Jefté. Ou. 18. o que era inteiramente aceitável em seu tempo. 33. 23.." 31. que também se poderia traduzir como "confissão". presbíteros. ou em outras dioceses e reinos somente enquanto quem neles tiver o poder civil assim o tolerar. que esta passagem já fora citada. 49. não o tenhais como inimigo. 39. 51. 18. O sujeito da frase é Saulo.. para que se envergonhe. O exemplo que Hobbes nos propõe é malicioso. o Senhor nosso Deus é o único Senhor. No inglês. ou avarento. "Advogado" é um curioso ato falho de Hobbes. 36. Hobbes cita a Bíblia saltando pequenas passagens do texto. 43. 9-11. por esta carta. 36. 2. porque então vos seria necessário sair do mundo. mas admoestai-o como irmão" (vv. Latim: "ao príncipe" . aliança. voltando eu dos filhos de Amon em paz. ". ele aceita sua jurisdição em sua diocese.. aqui ele omite: "e dá-o aos pobres. que por isso mesmo mantivemos. Todavia. 13. São João 3. 32. A passagem é na verdade do V. Na trad. ". porque lá ocorreu o magistério de Cristo." 46. 20). mas de uma provação que Cristo impõe aos homens para mostrarem que têm fé nele. porém. São Paulo. "Do que é necessário para alguém entrar no reino dos céus". uma síntese dessa passagem e da anteriormente referida de João (cap. 52." 41.. 34). acknowledgment. ou roubador. 35. 42. Hobbes insinua que a de Jerusalém teria uma primazia sobre a de Roma. aliás. Ou: o fazer milagres. Corresponde ao capítulo XLIII do Leviatã.. e terás um tesouro no céu". Ou seja. Sorbiere: "então nossa certeza não é mais que uma opinião e não ultrapassa os limites da verossimilhança... Hobbes faz. Há. que não vos associeis com os que se prostituem.. 40. ". V. ou maldizente. ou idólatra. que ele. a sua única filha (v. Latim: "opinar". para recebê-Io contente com sua chegada e vitória. É preciso lembrar. como no texto latino.T Do Cidadão Notas acudir aos pobres e de nivelar as riquezas. No original. porém. ". 4. então. isto não quer dizer absolutamente com os devassos deste mundo. aquela que não se pode convocar legalmente a ~ uma assembléia . for devasso. ou beberrão. Capítulo XVIII 1. aponta o capo 14. ou com os idólatras. 14-15). Ferreira d'Almeida. 37. O que diz São Paulo é: "Já por carta vos tenho escrito. Inglês. "O romano vitorioso possuía já o mundo inteiro. sacrifica. 11. aqui. e àqueles a quem desligardes os pecados na terra serão também desligados no céu. 3. na verdade.. de que resultaria o seguinte: Em verdade vos digo que àqueles a quem ligardes os pecados na terra serão também eles ligados no céu. O eixo de seu argumento contra o poder do clero consiste em negar a pretensão universal de qualquer Igreja. ou com os roubadores. Como se sabe. está no texto bíblico referido. o futuro apóstolo. Latim: "que opinamos".como. 396 397 ." 48. 47. Latim: "lesa-majestade".. São João 3. 50. me sair ao encontro. mas não fora dela. "Ouve. explica o texto latino. 30. "Por Paulo". então. Atos dos Apóstolos 1. desolado.que não é uma persona. se se preferir. aos quais constituamos sobre este importante negócio.

se forem chamados a obedecê-Ios. o criador do céu e da terra. considerando que a fé é interna. não é o caso de estranharem tanto. segundo Deus prometera através de seus profetas. afirmo que apenas a primeira é propriamente fé. 1987). Finalmente. 11. especialmente por parte daqueles que entre 1640 e 1660 estiveram dispostos a revolucionar o mundo. também. a segunda faz parte da obediência.. Mais adiante. "Religiosas" só aparece no latim. Segundo. Querem dizer. ". Embora considere que esta afirmação seja provada de maneira suficiente pelas razões que se seguem. não quero dizer que seja necessária apenas a fé.T Do Cidadão Notas 6. porque descobri que muitos homens foram admitidos no reino de Deus apenas graças a ele.como foi o caso do ladrão na cruz. e. o que é um interessante exemplo da liberdade com que então se lidava com as citações. no parágrafo 10 do mesmo capítulo. Pois as palavras Jesus é o Cristo significam que Jesus era a pessoa que. e muitos. se desagradar a alguém que eu não considere condenados por toda a eternidade a todos aqueles que não deram assentimento interno a cada um dos artigos definidos pela Igreja (colocando eu como condição ademais que eles não contradigam tais artigos. e a profissão. S. como pelo fogo". Apesar disso. senão. a vontade de viver dentro da justiça (rigbteously). Mas. bras. isto é. e para recompensar a cada um segundo suas obras. que ressuscitou (porque. ou aquela obediência que se deve às leis de Deus . Em inglês: tbose wbo bave turned tbe world upsíde down. do sacerdote. então. Primeiro. que Jesus é o filho de Deus. rei.. já menciona do anteriormente na nota de Hobbes no parágrafo 6. portanto. que os homens ressuscitarão. sozinho. porque senão não seria rei. na verdade o dia a declarará. que aqui se seguem. Falta. Companhia das Letras. Assim. mas também exijo a justiça. ainda que ele mande cometer uma barbaridade. 15.isto é. quando digo que para a salvação é necessário o artigo segundo o qual "Jesus é o Cristo". noutros lugares. Assim. 8. 10. Como todos os demais. ainda assim penso que vale a pena eu proceder a uma explicação mais ampla . porque pelo fogo será descoberta. Hobbes dirá "Filho de Deus". dos dois mil homens convertidos de uma só vez por São Pedro. Lucas 23. que foi Cristo. artigos (desde que tal profissão seja ordenada pela Igreja) também seja necessária para a salvação. externa. "pelas Escrituras". aquele artigo basta. Quem pede para ser batizado é o eunuco. 42. Christopher Hill dedicou seu livro O Mundo de Ponta-Cabeça (trad. impedem-me de alterar minha opinião. isso não deveria ser considerado como um paradoxo: porque supomos que a justiça. do eunuco batizado por Filipe. mesmo sagradas. considerei razoável resumi-Io assim. e no Levíatâ. e a seu significado.. só exigirá o martírio de quem efetuou uma profissão suplementar (de fé). para a crença íntima Cinward). e o fogo provará qual seja a obra de cada um. São Paulo. Mas. 9. quando digo que a fé em um único artigo basta para a salvação. pode eventualmente vir a desagradar a alguns teólogos. a obediência e uma reforma do espírito (mínd) estejam incluídas entre todas as virtudes ali implicadas. não saberei mais o que lhes dizer. onde está apenas "Filho de Deus". 13. viria ao mundo para estabelecer seu reino.. ao seu uso.. não pecamos no caso de obedecer ao soberano. Pequena diferença. não nego que a profissão de outros. mas está subentendido pela seqüência da frase. (Nota de Hobbes) 7. o símbolo dos apóstolos está contido por completo neste artigo. no inglês.porque percebo que. devem submeter-se). Falta a conclusão: ". e morreu pelos pecados daqueles que nele acreditassem. Esta expressão conheceu especial voga durante o período em que Hobbes está escrevendo... 398 399 . na versão do rei Jaime. Porque os mais evidentes testemunhos da Sagrada Escritura. 14. Passagem em que Hobbes vai bastante longe. sendo ela um tanto nova. que ele nasceu de uma virgem. isto é." 12. ainda que não seja suficiente para alguém se professar externamente como cristão. da versão do rei Jaime. porque se não for assim não haverá como julgá-Ios. Desta forma. ainda que eu tivesse afirmado que a penitência sincera e íntima pelos pecados fosse a única coisa necessária para a salvação. porque nesse artigo muitos outros estão já incluídos. sem o resto . não poderia reinar) para julgar o mundo. pois. não há por que nos inquietarmos demais.

400 . entre os que judaizavam e os gentios que se converteram a Cristo. já em vida. 17. Hobbes já insinuou . o da polêmica. 18. Latim: "de seu fundador".tolerância condicional.que a Igreja romana é a sucessora do Império romano. como vimos. a partir de um certo momento. o do cristianismo .e o dirá com mais clareza na parte 4 do Leviatã . no cristianismo primitivo.retoma um tema já aludido anteriormente por Hobbes. Muitos dos primeiros pensavam que deviam continuar respeitando os interditos alimentares e higiênicos do judaísmo. e no interior de um espaço determinado. de modo que tem uma orientação essencialmente pagã.~ Do Cidadão 16. lembrando que era costume o Senado proclamar deuses os imperadores falecidos e. Aqui ele confirma essa tese. Este apelo final à tolerância em matéria religiosa .