You are on page 1of 9

Educação e Inclusão Social

CONSTRUINDO UMA VIDA MELHOR
CONSTRUINDO UMA VIDA MELHOR

por estarem pautadas para atender a um aluno idealizado e ensinando a partir de um projeto escolar elitista. 2000. mais do que uniformizadora. acabadas. negar que o nosso tempo é o tempo das diferenças e que a globalização tem sido. indistintamente. entre as quais se destaca a cultura assistencialista/ terapêutica da Educação Especial. a hibridização. quando presente no ensino escolar e complementar à formação dos alunos com deficiência: o atendimento educacional especializado. sustentados por um entendimento equivocado dessa modalidade de ensino. Não podemos. injustamente. em todos os seus níveis: básico e superior. Estamos sempre travados por uma ou outra situação que impedem o desenvolvimento de iniciativas visando à adoção de posições/medidas inovadoras para a escolarização de alunos com e sem deficiência. como nos afirma Pierucci (1999). destruíram-se muitas diferenças que consideramos valiosas e importantes. hoje. a mestiçagem as desestabilizam. desafios. sendo diferentes e. O sentido dúbio da Educação Especial. nossos caminhos educacionais estão se abrindo. pluralizante. próprias do sujeito cartesiano unificado e 2 CONSTRUINDO UMA VIDA MELHOR . estáveis. promover e atender adequadamente a todos os alunos. questionadora e transgressora de toda e qualquer fixação da identidade. a Constituição Federal já prescrevia esse atendimento. acentuado pela imprecisão dos textos legais. tem acrescentado à essa situação outros sérios problemas de exclusão. a novidade está em queremos ser também diferentes de direito. constituindo uma estratégia provocadora. Temos o direito de ser. Ainda é difícil distinguir a Educação Especial. se já reconhecemos que somos diferentes de fato. É inegável que. nossas escolas produzem quadros de exclusão que têm. mas a mistura. que é uma das garantias de inclusão escolar para os alunos com deficiência. o ensino regular tem encontrado outras barreiras. diante da resistência de muitos.Inclusão escolar – caminhos e descaminhos. Descaminhos No desejo de assegurar a homogeneidade das turmas escolares. meritocrático e homogeneizador. das autoridades de ensino e da justiça em geral sobre os procedimentos das escolas para ensinar. tradicionalmente conhecida e praticada. a custa de muito esforço e da perseverança de alguns. 1993) Ocorre que as identidades fixas. nas escolas comuns de ensino regular e nas que oferecem serviços educacionais especializados. tem se chocado com o caráter eminentemente excludente. Serres. No entanto. contudo. perspectivas Maria Teresa Eglér Mantoan Caminhos Os caminhos até então percorridos para que a escola brasileira acolha a todos os alunos. segregativo e conservador do nosso ensino. Por esses e outros sérios entraves. contestando as antigas identidades essencializadas. nas salas de aula e fora delas. A proposta revolucionária de incluir todos os alunos em uma única modalidade educacional. da sua nova concepção. prejudicado a trajetória educacional de muitos estudantes. que fundamentam nossos planos e propostas educacionais. A situação tem se arrastado pelo tempo e tem perpetuado desmandos e transgressões ao direito à educação e à não discriminação e grande parte das vezes por falta de um controle efetivo dos pais. De certo que as identidades naturalizadas dão estabilidade ao mundo social. (Silva. desde 1988.

porque a multiplicidade incontrolável e infinita das suas diferenças inviabiliza o cálculo. demolindo os pilares nos quais a escola tem se firmado até agora. a indeterminação. quando defendemos uma ou outra (dado que essa bipolaridade tem nos levado a muitos paradoxos). pois. Temos dificuldade de incluir todos nas escolas. Falsas saídas têm permitido às escolas comuns e especiais de escaparem pela tangente e de se livrarem do enfrentamento necessário com a organização pedagógica excludente e ultrapassada que as sustenta. Uma das mais sérias e influentes razões para que essa situação se mantenha é a neutralização dos desafios que a inclusão impõe ao ensino comum e que mobilizam o professor a rever e a recriar suas práticas e a entender as novas possibilidades educativas trazidas pela escola para todas. A orientação é incompatível com a inclusão escolar. entendendo a inclusão a partir de marcos teóricos que não conseguem superar os preceitos igualitaristas e universalistas da Modernidade. Embora haja problemas com a igualdade e diferença no sentido de se perceber de que lado nós estamos. de assumir uma posição contrária à perspectiva da identidade “normal”. programas compensatórios (reforço. A diferença é difícil de ser recusada. complementar. a definição desses sujeitos e não se enquadra na cultura de igualdade das escolas. pois a escola especial os inferioriza. aceleração entre outros). limita. na maioria das vezes. ficamos com a firme intenção e propósito de privilegiar a diferença na perspectiva da máxima proferida por Santos(1999): temos o direito à igualdade. a precaução contra a incoerência. Há. insistindo em manter a sua ânsia pelo lógico. Se o nosso objetivo é desconstruir esse sistema. currículos. Mudanças que estão sendo implementadas em sistemas públicos e particulares de ensino visando à inclusão continuam. em um quadro interpretativo includente. 2000) e a idéia de identidades móveis. 3 CONSTRUINDO UMA VIDA MELHOR . que se mudar de quadro referencial e definir o ensino especial e regular com base no reconhecimento e valorização das diferenças. Esses desafios estão sendo constantemente anuladas. de preferência na escola comum. Tanto a escola comum como a escola especial têm resistido às mudanças exigidas por uma abertura incondicional às diferenças. temos. reproduzem o igualitarismo essencialista. A escola comum não pode ser substituída pelo ensino especial na oferta do ensino acadêmico.racional estão em crise (Hall. Esses marcos apregoam a disciplinarização. diretrizes. Temos o dever de oferecer escola comum a todos os alunos. então. a padronização. A diferença é. contemporizadas por políticas educacionais. desvalorizada e o especial da educação e o especial na educação que não conseguem assimilá-la. quando a diferença nos inferioriza e direito à diferença. para que não sejam desconsideradas as especificidades de alguns aprendizes. com suas medidas e mecanismos arbitrários de produção da identidade e da diferença. exclui. pois este é complementar à formação do aluno com deficiência e trata primordialmente das limitações que a deficiência lhes acarreta quando estudam em turmas do ensino regular. discrimina. quando apresentam alguma deficiência. que justifica essa falsa uniformidade das turmas escolares. a indefinição e tudo o mais que possa desestabilizar as escolas. o conceito que se impõe para que possamos defender a tese de uma escola para todos. de ser negada. então. quando a igualdade nos descaracteriza! Esta afirmação vem diretamente ao encontro do que a interpretação consentânea e inovadora de nossas leis oferece como fundamento da transformação das escolas comuns e especiais. mas também de garantir-lhes um atendimento educacional especializado paralelo. voláteis é capaz de desconstruir o sistema de significação excludente da escola atual. em que se a exclusão se perpetua. pela negação das condições que produzem as diferenças.

somos levados ao princípio da diferença. A igualdade de oportunidades.). A sugestão de Rawls tem opositores. O autor ressalta ainda que a igualdade de oportunidades é perversa. a liberdade civil com suas desigualdades sociais. nem injustas.[. o referido autor defende que a distribuição natural de talentos ou a posição social que cada indivíduo ocupa não são justas. visando à igualdade. Em sua obra Teoria da Justiça. então. o que está previsto como desconsideração aos preceitos da Convenção da Guatemala. que tem sido a marca das políticas igualitárias e democráticas no âmbito educacional. Mais um motivo para se firmar a necessidade de repensar e de romper com o modelo educacional elitista de nossas escolas e de reconhecer a igualdade de aprender como ponto de partida. recursos disponíveis e mobilidade social. por ser contra a noção de mérito. p. à escola comum.) reconhece que as desigualdades naturais e sociais são imerecidas e precisam ser reparadas e compensadas. ibid. como medida de acesso e uso de bens. Desafios Inúmeras propostas educacionais. ele propôs uma política da diferença.. Caminhando na mesma direção das propostas escolares inclusivas. as educacionais) fazem uso delas. a partir das melhores condições de vida e de aproveitamento de suas potencialidades.. e o princípio da diferença é o que garante essa reparação. se desejamos montar o sistema social de modo que ninguém ganhe ou perca devido ao seu lugar arbitrário na distribuição de dotes naturais ou à sua posição inicial na sociedade sem dar ou receber benefícios compensatórios em troca (p. de pessoas com alguma deficiência de nascimento ou de pessoas que não têm a mesma possibilidade das demais de passar pelo processo educacional em toda a sua extensão. diante das desigualdades naturais e sociais. uma igualdade democrática.. 108). que igualaram os homens em seu instante de nascimento e estabeleceram o mérito e o esforço de cada um. assimilada pela nossa Constituição/88.79). reafirmando: [. o mérito deve ser proporcional ao ponto de partida de cada um. que combina o princípio da igualdade de oportunidades com o princípio da diferença (idem. quando garante o acesso. pois elas escapam ao que essa proposta propõe.A igualdade abstrata não propiciou a garantia de relações justas nas escolas. ibid. Ele sugere. O que as torna justas ou não são as maneiras pelas quais as instituições (no caso. exclusão ou restrição baseada em deficiência. e a igualdade de oportunidades com suas desigualdades naturais. em 2001 e que deixa clara a [. Ao combinar os dois princípios. continuam a diferenciar alunos pela deficiência. na mesma linha argumentativa de Rawls (idem. Ele se pronunciou a respeito. que defendem e recomendam a inclusão.] impossibilidade de diferenciação com base na diferença. Para os que lutam por uma escola verdadeiramente inclusiva. Rawls (idem. aos que já tiveram a oportunidade de se desenvolver. por problemas alheios aos seus esforços. definindo a discriminação como toda diferenciação. são arbitrárias do ponto de vista moral.] Assim.] que tenha o efeito ou 4 CONSTRUINDO UMA VIDA MELHOR . por exemplo... também não consegue resolver o problema das diferenças nas escolas.. Para este filósofo político. Rawls (2002) opõe-se às declarações de direito do mundo moderno. ibid. Mas não lhes assegura a permanência e o prosseguimento da escolaridade em todos os níveis de ensino. o merecimento não parece aplicar-se devidamente aos que já nascem em uma situação privilegiada socialmente. estabelecendo a identificação das diferenças como uma nova medida da igualdade. e as diferenças no aprendizado como processo e ponto de chegada.

. indistintamente. em conseqüência. quando retiramos uma pessoa de seu lar ou de uma escola comum para inseri-la em um ambiente educacional à parte? Com tudo isso há ainda os que insistem em defender essa versão equivocada de inclusão como legítima e verdadeira. especialmente. exclusão ou restrição baseada em deficiência [. No caso de um ambiente escolar segregado.O próprio tempo. trazido por essa Convenção. quando se defende a escola comum como o lugar de todos os alunos.]. alunos/pessoas. Que motivos alimentam a dificuldade de se desobstruírem os caminhos que nos levam à uma escola para todos. em que não adianta mais “tapar o sol com a peneira”. é porque. Não se trata de uma caça às bruxas e de se exigir um comportamento “politicamente correto” extremista. com e sem deficiência. não discrimina. nesses ambientes educacionais especializados!). E ainda cabe perguntar: de que inclusão educacional nós estamos falando.. em função do ensino que ministra. para melhor entender essa intrincada situação. A intenção é a de se assegurar a todo o cidadão brasileiro o direito à não discriminação. Os ambientes especializados. Se ainda não conseguimos avançar na sua direção..Mas é possível incluir na exclusão dos ambientes escolares especiais? Vale ainda. a revirar as escolas comuns e especiais do avesso e os que querem conservá-las como 5 CONSTRUINDO UMA VIDA MELHOR . travestidos de escolas comuns. admitem-se as diferenciações com base na deficiência apenas com o propósito de permitir o acesso ao direito e não para se negar o exercício dele! A Convenção precisa ser cumprida e é uma grande contribuição para todos os que pugnam por uma escola inclusiva e. para os que defendem o ingresso de alunos com deficiência nas escolas comuns. De acordo com o princípio da não discriminação. o que a referida Convenção define como discriminação: [. gozo ou exercício por parte de pessoas com deficiência de seus direitos humanos e suas liberdades fundamentais (art. as/os mais diferentes.propósito de impedir ou anular o reconhecimento. nem mesmo quando diferencia pela deficiência. deveria já ter sido banida. que. pelo menos na faixa etária de 07 a 14 anos. nº 2. Os pais de crianças com deficiência e os educadores brasileiros deveriam ser os primeiros a levantar a bandeira contra a discriminação e. o que muitos ainda insistem em fazer é batalhar para que a exclusão se mantenha e as escolas especiais sejam consideradas escolas de ensino fundamental.. certamente. já foi suficiente para que se entendesse o que é proposto como uma escola para todos.] toda diferenciação. a maioria desse segmento populacional) estudem em ambientes escolares para pessoas com deficiência (a maioria. quando o ensino escolar é obrigatório para todo e qualquer aluno. com e sem deficiências. jamais serão inclusivos e compatíveis com o papel social e educacional das escolas comuns – lugar de preparação das gerações mais novas para fazer a passagem do meio familiar. ao oferecer um atendimento especializado complementar para os que dele necessitam? Estamos vivendo um momento de tomada de decisão. Chegam até a propor que se faça a “inclusão às avessas”. espaço social em que se encontram. pesam muito essas contendas e esses desencontros entre os que se dispõem a progredir. como aqui nos referimos? O que tem impedido o processo de construção de uma escola inclusiva. em toda e qualquer circunstância. no entanto. admitindo que crianças sem deficiência (felizmente. a discriminação é patente e. “a”). para o público. O encaminhamento direto de alunos com deficiência de escolas comuns para escolas especiais ou a matrícula exclusiva desses alunos em escolas especiais.I. tem sido entendida por alguns como uma diferenciação para incluir. de tão longo.

Tais serviços. vigoram ainda três possíveis encaminhamentos escolares para alunos com deficiência: a) os dirigidos unicamente ao ensino especial. principalmente quando se trata de educandos 6 CONSTRUINDO UMA VIDA MELHOR . devido às suas características pessoais (como também ocorre com outras minorias). Não admitem que sua formação se descaracterize e que suas práticas sejam abaladas pela inclusão. Com isso ficam “cegos” diante do que a inclusão lhes propiciaria. aos que têm dificuldades de aprender e aos alunos com deficiência. a integração de alunos em salas de aula de escolas comuns. Os territórios corporativos constituem um outro alvo desafiante para a inclusão. fragmentam e distanciam. para garantir outros benefícios. para barrar o novo. provocando a transformação das escolas para atender às suas diferenças e as dos demais colegas. enrijecem suas estruturas. sem deficiência. duramente conquistados. como constatamos freqüentemente. desde os anos 90. se conseguissem admitir o caráter complementar conferido à Educação Especial. arraigadas às tradições e à gestão de seus serviços. identidades corporativas e o reconhecimento social. especialmente os que têm filhos excluídos das escolas comuns. Os professores deveriam ser os guardiões desse direito e apoiar os pais nas suas dificuldades de compreendê-lo e de exigi-lo a todo custo. O convívio com as pessoas com deficiência nas escolas e fora delas é recente e gera ainda certos receios. que passam a ser o alvo de nosso descrédito. cria dificuldades e mantém o uso das medidas paliativas de inserção que se arrastam. pela rotina e a burocracia nelas instaladas. como é o caso da inclusão. Eles lutam por conservar seus privilégios. A coexistência de situações intermediárias de inserção com as que têm. O preconceito justifica as práticas de distanciamento dessas pessoas. verdadeiramente. Temos outros entraves a enfrentar. O desafio maior que temos hoje é convencer os pais. pela nossa Constituição. em suas necessidades escolares. que adquiriram em todos esses anos. temendo perder seus espaços. alimentando infindáveis polêmicas. b) os que implicam uma inserção parcial. de uma hora para outra. essas pessoas têm reduzidas as oportunidades de se fazerem conhecer e as possibilidades de conviverem com seus colegas de turma. Há ainda a considerar a resistência das organizações sociais às mudanças e às inovações que. mas na condição de estarem preparados e aptos a freqüentá-las e c) os que determinam a inclusão total e incondicional de todos os alunos com deficiência no ensino regular. Apesar dos avanços na conceituação e na legislação pertinente. e para atender às características desse tipo de organização. no geral. sem deficiência. especialmente quando se trata dos profissionais ligados à Educação Especial. há que se admitir que as instituições têm seus fins próprios e nem sempre um novo propósito. o propósito de incluir todos os alunos. Por outro lado. como aqueles que provém. ou melhor. Medidas que propiciam o aparecimento de pseudo-soluções para atender aos princípios escolares inclusivos são evidentes no impasse integração X inclusão – uma das intermináveis cenas do debate da inserção de alunos com deficiência nas escolas comuns. de que precisam fazer cumprir o que nosso ordenamento jurídico prescreve quando se trata do direito à educação. encaixa-se no foco de seus interesses imediatos. categorizam e hierarquizam os seus assistidos. como já referimos.estão. da neutralização dos desafios à inclusão. Grande parte dos professores das escolas comuns acredita que o ensino escolar individualizado e adaptado é o mais adequado para atender. quando propõe o atendimento educacional especializado em todos os níveis de ensino (do básico ao superior) para a eliminação das barreiras que com que as pessoas com deficiência se defrontam ao se relacionarem com o meio externo. nas escolas comuns e especiais e nas instituições dedicadas ao atendimento exclusivo de pessoas com deficiência. para impedir avanços.

gestão do processo educativo. portanto. capaz de aprender. que vem antes de tudo. sem contestações. poderiam freqüentar as salas de aula de ensino regular. Em uma palavra. que bane os que por desigualdades significativas de nascimento e/ou desigualdades sociais não conseguem preencher os requisitos de um padrão de aluno previamente estipulado. Não reconhecer a emancipação intelectual dentro dessa perspectiva revolucionária. nas escolas. caso contrário serão excluídos por repetência ou passarão a freqüentar os grupos de reforço e de aceleração da aprendizagem e outros programas embrutecedores da inteligência.49) As grandes lições deste mestre são mais um argumento em favor da necessidade de combinar igualdade com as diferenças e de nos distanciarmos dos que se apegam unicamente à cultura da igualdade de oportunidades liberal e do mérito para defender a escola do seu caráter excludente. pois nesses espaços não conseguimos preparar cidadãos aptos a enfrentar o dia-a-dia. A inclusão implica em uma mudança de paradigma educacional. que se emaranha nas questões de direito. Ao defender ardorosamente o ser humano como ser cognoscente. avaliação. no final desse período letivo. nas escolas comuns. Rancière (2002) relembra os ensinamentos de Jacotot. exigida pela inclusão. Na perspectiva da inclusão escolar. Adaptar o ensino para alguns alunos de uma turma de escola comum não conduz e não condiz com a transformação pedagógica dessas escolas. a adaptação tem sentido oposto e é testemunho de emancipação intelectual e conseqüência de um processo de auto-regulação da aprendizagem. Para esse professor de idéias extravagantes para a sua época e para a atualidade. formação de turmas. segundo a energia mais ou menos grande que a vontade comunica à inteligência para descobrir e combinar relações novas. consideram o ensino escolar especializado ideal para os alunos com deficiência e que só alguns casos (os menos problemáticos). como se espera atingi-la. na educação comum e especial. não é compatível com o que se espera da escola. tal como se apresenta para todos. de política. a igualdade de inteligências. A escola insiste em afirmar que os alunos são diferentes quando se matriculam em uma série escolar. portanto. de conhecer. como já nos referimos inicialmente. mas não há hierarquia de capacidade intelectual. a emancipação da inteligência proviria dessa igualdade de capacidade de aprender. esse “lugar do saber” que é anterior a qualquer aprendizagem e que cada aluno tem de ocupar no seu percurso educacional. em que o aluno assimila o novo conhecimento. quando refere: Há desigualdade nas manifestações da inteligência. de acordo com suas possibilidades de incorpora-lo ao que já conhece. que o assujeita à verdade do mestre. currículo. que é ponto de partida para qualquer tipo ou nível de aprendizagem e não o seu resultado!!!. em ambientes escolares à parte. não deveria negar essa capacidade. até hoje. acreditava em uma outra igualdade. é ferir o princípio de igualdade intelectual e. e defendia essa capacidade de toda submissão – uma inteligência não pode submeter uma outra. mas o objetivo escolar. que gera uma reorganização das práticas escolares: planejamentos. embrutece esse aluno com um ensino explicativo e limitador. 7 CONSTRUINDO UMA VIDA MELHOR . Joseph Jacotot traz um olhar original sobre a igualdade. é que eles se igualem em conhecimentos a um padrão que é estabelecido para aquela série. por sua vez. de promessas constitucionais. (p. Especializar o ensino escolar para alguns. O ensino assim concebido baseia-se em propósitos e procedimentos que decidem “o que falta” ao aluno e a sua adaptação a essa “falta” funciona como um processo regulador externo da aprendizagem. a igualdade não seria alcançada a partir da desigualdade. Este é mais um desafio para que possamos entender a extensão dos propósitos inclusivos. O professor comum e especializado. Os professores especializados.com deficiência mental.

Muito já tem sido feito no sentido de um convencimento das vantagens da inclusão escolar para todo e qualquer aluno. e atribuída de fora. ao conservadorismo. As práticas escolares inclusivas reconduzem os alunos “diferentes”. A condição primeira para que a inclusão deixe de ser uma ameaça ao que hoje a escola defende e adota habitualmente como prática pedagógica é abandonar tudo o que a leva a tolerar as pessoas com deficiência. a inclusão escolar é um forte chamamento para que sejam revistas as direções que em que estamos alinhando nosso leme. Ao conservadorismo dessas instituições precisamos responder com novas propostas. sempre atribuindo a esses alunos o fracasso. perigosos e a grande virada é decisiva. educadores. passando da moda. Referências bibliográficas: 8 CONSTRUINDO UMA VIDA MELHOR . reconhecendo o modo como produz as diferenças nas salas de aula: agrupando-as por categorias ou considerando cada aluno o resultado da multiplicação infinita das manifestações da natureza humana e. as perspectivas são animadoras. na escola ou fora dela. ao lugar do saber. Precisamos sair das tempestades. Para reverter este sentimento de superioridade em relação ao outro. Os alunos jamais deverão ser desvalorizados e inferiorizados pelas suas diferenças. na convivência com as diferenças e que valoriza o que consegue entender do mundo e de si mesmo. Esses espaços educacionais não podem continuar sendo lugares da discriminação. a incapacidade de acompanhar o ensino comum. que é o ponto final dos que seguem a rota da proposta da eliminação das ambivalências com que as diferenças afrontam a Modernidade. temos de recuperar o tempo perdido. especialmente quando se trata de alunos com deficiência. A “Política Nacional de Educação Especial. Perspectivas Sabemos da necessidade e da urgência de se enfrentar o desafio da inclusão escolar e de colocar em ação os meios pelos quais ela verdadeiramente se concretiza. ao paternalismo e a todos os argumentos que pretendem justificar a nossa incapacidade de fazer jus ao que todo e qualquer aluno merece: uma escola capaz de oferecer-lhe condições de aprender. na perspectiva inclusiva” representa um avanço para que essas perspectivas se reafirmem. do esquecimento. pois as experiências inclusivas vigentes têm resistido às críticas. Embora não pareçam. arregaçar as mangas e promover uma reforma estrutural e organizacional de nossas escolas comuns e especiais. de organizar pela abstração de uma característica qualquer. nas turmas comuns. que demonstram nossa capacidade de nos mobilizar para pôr fim ao protecionismo. pais.A indiferença às diferenças está acabando. na condução de nossos papéis como cidadãos. a escola terá de enfrentar a si mesma. entre os quais os que têm uma deficiência. típicas da necessidade moderna de agrupar os iguais. inventada. A verdade é implacável e o tempo e a palha estão amadurecendo as ameixas. como prescreve a inclusão. ao pessimismo. seja nas escolas comuns. sem condições de ser encaixado em nenhuma classificação artificialmente atribuída. portanto. Por isso. por meio de arranjos criados para manter as aparências de “bem intencionada”. às resistências de muitos. destes tempos conturbados. Em síntese. como nas especiais. Nada mais desfocado da realidade atual do que ignorá-las e isola-las em categorias genéricas. de que foram excluídos.

SANTOS. 2000.F. S.BRASIL. Coimbra: Centro de Estudos Sociais. Organização dos Estados Americanos: Assembléia Geral: Guatemala. 2002.). Guacira Lopes Louro. trad. B. A. 9 CONSTRUINDO UMA VIDA MELHOR . Estrada. Cinco lições sobre a emancipação intelectual. HALL. 1999. 28 de maio de 1999. janeiro de 1999. tradução Tomaz Tadeu da Silva. Oficina do CES nº 135. 1993.956/ de 08 /10/2001 promulga a Convenção Interamericana para Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contra as Pessoas Portadoras de Deficiência. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. SILVA. J. O mestre ignorante. A construção multicultural da igualdade e da diferença. São Paulo: Martins Fontes.T. J. Decreto 3. Maria Ignez D. M. Ciladas da diferença. T. da (org. São Paulo: Editora 34. PIERUCCI. RANCIÈRE. Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. Filosofia mestiça: le tiers – instruit. Uma teoria da justiça. Belo Horizonte: Autêntica. 2000. SERRES. de S. 2002 RAWLS. RJ: Vozes. Rio de Janeiro: D P&A. A identidade cultural na Pós-Modernidade. Petrópolis.