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APONTAMENTOS PARA A HISTÓRIA DA DEMOGRAFIA HISTÓRICA NO BRASIL

IRACI DEL NERO DA COSTA Professor da FEA-USP

Segundo perspectiva cronológica e com algumas indicações de elementos temáticos. Chamo a atenção para as observações colocadas ao fim destas notas. 1. PREDECESSOR. Prefácio à primeira edição de Casa Grande & Senzala‚ no qual Gilberto Freyre evidencia a importância dos documentos paroquiais e demais fontes que têm servido à demografia histórica. Início da década de 30. 2. ANTEVÉSPERA DA DEMOGRAFIA HISTÓRICA. O trabalho de Lucila Herrmann sobre Guaratinguetá. Estudo pioneiro que ficou isolado, não conheceu divulgação imediata e ao qual não se seguiram, de pronto, trabalhos similares. Fins da década de 40. 3. OS ESTUDOS PIONEIROS. Trabalhos iniciais de Luis Lisanti Filho e Maria Luíza Marcílio, aos quais seguiu-se La Ville de São Paulo‚ trabalho seminal do qual resultou a afirmação, em escala internacional e, sobretudo, em âmbito nacional, da demografia histórica brasileira; dá-se, a contar dele, a divulgação, no Brasil, dos métodos desenvolvidos pelos estudiosos franceses da área. Década de 60. 4. AINDA ENTRE OS PIONEIROS. Estudos de Altiva Pilatti Balhana e de Cecília Maria Westphalen, aos quais seguiram-se os trabalhos desenvolvidos pelo "grupo" do Paraná. A pósgraduação em demografia histórica e o levantamento sistemático das fontes paranaenses de que resultou um grande número de pesquisas (a maior concentração até hoje existente). Pela primeira vez demógrafos historiadores colocam em xeque a "família extensa". O estudo das comunidades de imigrantes, a forte influência da "escola" francesa e a limitada divulgação dos estudos efetuados no Paraná, os quais, além da área paranaense, cobrem localidades de Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Minas Gerais. Décadas de 60, 70 e 80. 5. ESTUDOS PARALELOS. Luiz R. B. Mott e os estudos para o Nordeste (Piauí e Sergipe). Autor ao qual se deve, também, o primeiro levantamento dos trabalhos efetuados na área da demografia histórica brasileira e o fato de haver arguido explicitamente alguns resultados postos como definitivos pela nossa historiografia (distribuição dos escravos segundo proprietários, a presença da escravidão negra na área da pecuária nordestina, a questão do absenteísmo). Trabalhos de Katia M. de Queirós Mattoso e de Stuart B. Schwartz para a Bahia e tese de Johildo Lopes de Athayde para Salvador. Década de 70. 6. ATENÇÃO ESPECIAL PARA COM OS ESCRAVOS. Trabalhos de Pedro Carvalho de Mello e Robert W. Slenes. Estudos de Herbert S. Klein sobre o tráfico negreiro. Década de 70. 7. A INCORPORAÇÂO DE MINAS GERAIS E NOVOS TEMAS. Os trabalhos de Donald Ramos e Iraci Costa sobre as populações mineiras; o privilegiamento dos vários segmentos populacionais característicos da sociedade colonial brasileira. A exploração da estrutura de posse de escravos

por Francisco Vidal Luna, a importância dos "pequenos escravistas". Stuart B. Schwartz e a estrutura de posse de escravos para a Bahia. A incorporação a este tema das áreas de São Paulo e do Paraná. O "grupo" da FEA-USP. Década de 70 e início da seguinte. 8. OS AGREGADOS E A FAMÍLIA COMO OBJETOS DE ESTUDO. Trabalhos de Eni de Mesquita Samara, estudo dos agregados e extensão para a família paulista dos achados efetuados para o Paraná e Minas Gerais. Os trabalhos de Elizabeth Anne Kuznesof e Alida Christine Metcalf. Estruturação do "grupo" da FFLCH-USP composto por orientandos de M. L. Marcílio e de E. M. Samara. Segunda metade da década de 70 e início da seguinte. 9. EXTENSÃO PARA NOVAS ÁREAS E NOVOS ESTUDOS PARA ÁREAS JÁ PESQUISADAS. Norte (Ciro Flamarion Santana Cardoso), Paraíba (Elza Régis de Oliveira, Diana Soares de Galliza), Goiás (Eurípedes Antônio Funes, Maria de Souza França), Rio de Janeiro (Eulália Maria Lahmeyer Lobo). Novos estudos para Minas Gerais (Clotilde A. Paiva, Beatriz Ricardina de Magalhães), Paraná (Horacio Gutiérrez), São Paulo (Armênio S. Rangel), Sergipe (Maria Nely dos Santos) e Piauí (Miridan Brito Knox). Fins da década de 70 e década de 80. 10. A PREOCUPAÇÃO COM AS "ELITES". As elites paulistas são estudadas por Elizabeth Darwiche Rabello, Carlos de Almeida Prado Bacellar e Ana Sílvia Volpi Scott. Década de 80. 11. A RETOMADA DE UMA LINHA ESQUECIDA. Com uma perspectiva renovada retoma-se, em nível qualitativo superior e em termos quantitativos mais sofisticados, a linha aberta por Lucila Herrmann; qual seja, a de se efetuar, com preeminência dos elementos demográficos e econômicos, a história regional. O projeto de estudo sistemático da evolução demo-econômica de Campinas, de Peter L. Eisenberg, o trabalho sobre a Bahia efetuado por S. B. Schwartz e o paradigmático Caiçara, de M. L. Marcílio. Década de 80. 12. A FAMÍLIA ESCRAVA. O trabalho de Richard Graham distingue-se como pioneiro. Segue-se artigo de I. Costa & F. V. Luna (família escrava em Vila Rica). Em sequência temos o importantíssimo estudo de Robert W. Slenes sobre a família escrava em Campinas. A partir daí surgem muitos novos trabalhos desenvolvidos por: I. Costa & Horacio Gutiérrez, A. C. Metcalf, I. Costa & R. W. Slenes & S. B. Schwartz, Gilberto Guerzoni Filho & Luiz Roberto Netto, João Luís R. Fragoso & Manolo G. Florentino, José Flávio Motta, I. Costa & Nelson Hideiki Nozoe, F. V. Luna, Ana S. V. Scott & Carlos de A. P. Bacellar; neste quadro coloca-se, também, o trabalho sobre casamentos mistos desenvolvido por Eliana Maria Réa Goldschmidt. Segundo lustro dos anos 70 e década de 80. 13. NOVOS ESTUDOS SOBRE A FAMÍLIA. Efetuam-se novos trabalhos centrados na família. Maria Sílvia C. Beozzo Bassanezi observa a família de colonos do café, Lucila Reis Brioschi trabalha com genealogias, José Luiz de Freitas preocupa-se com o "mito" da família extensa, Katia M. Q. Mattoso estuda a família baiana e chega a conclusões análogas às válidas para Minas Gerais, São Paulo e Paraná, Renato Pinto Venancio discute a fundo a questão dos enjeitados, Maria Beatriz Nizza da Silva discorre sobre o sistema de casamento no Brasil colonial, Linda Lewin dedica tese ao tema. Década de 80. 14. OS DIAS CORRENTES. No momento (início dos anos 90), vários projetos estão em andamento. Alguns novos temas são propostos (estudo demo-econômico dos não-proprietários de escravos, I. Costa; migrações, N. H. Nozoe & E. M. Samara & Maria S. C. B. Bassanezi; crescimento vegetativo da massa escrava, H. Gutiérrez & C. A. Paiva; preço de escravos, Nilce Rodrigues Parreira) e novas áreas são incorporadas (entre outras: Sorocaba, Carlos de A. P. Bacellar; Bananal, J. F. Motta e Litoral Norte de São Paulo, Ramón V. G. Fernández).

Correlatamente, define-se a preocupação com os rumos da demografia histórica brasileira: quais os temas a enfocar?; não se mostra necessária u'a tentativa de generalização e de teorização mais consequente?; como incorporar ao estudo áreas e/ou momentos cruciais do tempo (nordeste açucareiro, zona do café para o segundo meado do século XIX etc.)? Prepara-se, ademais, uma terceira listagem sistemática (a segunda foi efetuada por recomendação da ABEP por I. Costa e E. M. Samara) dos trabalhos desenvolvidos na área da demografia histórica brasileira. *** Nem sempre foi possível, nestas notas, seguir estritamente a perspectiva cronológica, pois alguns temas foram desenvolvidos simultaneamente e/ou interpenetraram-se no tempo. De outra parte, alguns trabalhos precisam ser "encaixados" na revisão histórica aqui esboçada, tomo como exemplos o estudo sobre setores e ramos de atividades econômicas (efetuado por I. Costa e N. H. Nozoe), o trabalho de Tarcísio do Rego Quirino sobre os habitantes do Brasil no fim do século XVI, a pesquisa de Carlos Roberto A. dos Santos sobre preços de escravos no Paraná e a obra intitulada Slave life in Rio de Janeiro, 1808-1850 , de Mary C. Karash. A questão afeta às contribuições metodológicas e à crítica das fontes mereceu um breve artigo de minha autoria, aos estudos ali reportados devem ser acrescentados os recentes artigos de N. H. Nozoe e I. Costa. Por fim, é preciso alertar que alguns temas e muitos autores foram esquecidos nestes apontamentos, fixar u'a memória mais fidedigna deve ser tarefa coletiva, pois o autor isolado pode encaminhar-se para questões que lhe afetam mais de perto e/ou privilegiar colegas e/ou temas que lhe são mais familiares. Desde já, pois, peço escusas pelas impropriedades aqui cometidas, pelas omissões "indesculpáveis" e pelas assim chamadas "injustiças"; ao mesmo tempo, agradeço, antecipadamente, as corrigendas que forem apostas a este borrador.