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Artigo publicado na Revista Dança & Cia./ ed.

22 – abril/maio 2002 Seção Dança Brasileira e Cultura Popular

Festas do Ciclo Junino e Dança Na edição anterior, apresentei a proposta desta seção e escrevi brevemente sobre festas juninas de Mato Grosso. Nesta, vou aprofundar um pouco no assunto. Os santos do ciclo junino - São João, Santo Antonio e São Pedro - são comemorados com danças, cantos, rezas, procissões fluviais, fogueira, mastro etc., em municípios mato-grossenses, mantendo-se sempre o caráter sagrado. Cada elemento presente possui significados: cada gesto, ação, objeto, música... tem seu sentido. A lavagem de santo, na Festa de São João, representa a passagem bíblica em que João batiza Jesus e Jesus batiza João. Às margens do rio mais próximo, o santo é lavado, com respeito e devoção, agradecendo-se graças recebidas e renovando-se pedidos e promessas, com movimentos muito especiais das mãos na água, ao som de cantos e músicas do Cururu manifestação mato-grossense que merece maior aprofundamento, posteriormente. Ao final da festa, a fogueira já virou cinzas e carvão em brasa; então, alguns devotos colocam sua fé à prova, pisando nas brasas, pois, segundo dizem: "se pisar com fé, não queima o pé". Santo Antonio também é muito comemorado. Uma particularidade de sua festa, no município de Santo Antonio do Leverger, é a procissão fluvial, que rememora uma antiga estória: conta-se que uma embarcação subia o rio, levando duas imagens de santos. Pararam para o pouso. No dia seguinte, o barco não funcionou. Retiraram uma das imagens da embarcação e: nada! Retornaram a imagem ao barco; em seguida, retiraram a de Santo Antonio e, imediatamente, o barco flutuou. Concluíram que o santo queria ficar e ser o padroeiro daquela vila, manifestando sua vontade através de sua imagem. A vila passou a se chamar Vila de Santo Antonio e, desde que foi promovida a município, chama-se Santo Antonio do Leverger. Todos os anos, festeja-se com uma procissão fluvial em que canoas e barcos são enfeitados, coloridos e iluminados, soltando fogos e reverenciando o santo ao som do Cururu. Já em Bonsucesso, uma comunidade de pescadores em Várzea Grande, após o levantamento do mastro, ocorre a procissão fluvial em homenagem a São Pedro, padroeiro dos pescadores. E o que isso tem a ver com Dança? O mais importante, como escrevi na edição anterior, é a "inteireza", o envolvimento com que essas pessoas realizam cada ação; nada é desprovido de significados. E, quem dança, seja amador ou profissional, sabe que é preciso estar "inteiro", envolvido, presente em seus movimentos e ações, que possuem significados não literais, pois não são traduzíveis por palavras - manifestados pelos corpos de quem os realiza, e captados por quem compartilha esse momento, assistindo, com seus sentidos abertos.