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CIÊNCIA DA LÓGICA

Hegel Ciência da Lógica (EXCERTOS) Seleção e tradução de Marco Aurélio Werle . W. F.G.

Ciência da lógica : (excertos) / G. Girard Imagem da capa Revisão Roberto Alves Diagramação IMG3 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro. Título original: Wissenschaft der Logik ISBN 978-85-98233-58-1 1. Lógica I. Pedroso de Moraes.° andar 05419-000 Pinheiros São Paulo SP Brasil Telefone/fax (5511) 3814-4600 www. Lógica : Filosofia 160 2011 Todos os direitos reservados à Editora Barcarolla Ltda. 11. 1770-1831. Título. F.br .editorabarcarolla. Georg Wilhelm Friedrich. Av. 11-09168 CDD-160 Índices para catálogo sistemático: 1. 631. SP.com. Hegel . -São Paulo : Barcarolla.Copyright © 2011 Marco Aurélio Werle Capa Marcelo M. W. 2011. seleção e tradução Marco Aurélio Werle. Brasil) Hegel.

O essencial e o inessencial B.Sumário Apresentação Marco Aurélio Werle 9 Primeira Parte A lógica objetiva 21 39 47 49 62 65 69 71 71 72 72 80 83 94 96 97 98 101 107 111 113 115 Introdução Conceito geral da lógica Divisão geral da lógica Primeiro Livro A DOUTRINA DO SER Com o que deve ser feito o início da ciência? Divisão geral do ser Primeira seção Determinidade (qualidade) Primeiro capítulo Ser A. A aparência . Momentos do devir c. Devir a. Nada C. Ser B. Superação do devir Observação: A expressão “superar” Segundo Livro A DOUTRINA DA ESSÊNCIA Primeira seção A essência como reflexão nela mesma Primeiro capítulo A aparência A. Unidade do ser e do nada Observação 1: A oposição do ser e do nada na representação Observação 2: Deficiência da expressão: unidade. identidade do ser e do nada Observação 3: O isolamento dessas abstrações Observação 4: Impossibilidade de apreender o início b.

A diferença absoluta 2. O singular Terceira seção A idéia Primeiro capítulo A vida Segundo capítulo A idéia do conhecer Terceiro capítulo A idéia absoluta . A diferença 1. o enunciado da identidade B. A reflexão exterior Observação 3. A reflexão que põe 2. A reflexão 1. O conceito particular Observação: As espécies usuais dos conceitos C. A reflexão determinante Segundo capítulo As essencialidades ou as determinações de reflexão Observação: As determinações de reflexão na forma de enunciados A.C. A contradição Observação 1: Unidade do positivo e do negativo Observação 2: O enunciado do terceiro excluído Observação 3: O enunciado da contradição 119 120 122 124 125 129 132 134 134 136 140 140 142 146 148 152 156 161 163 165 Segunda Parte A lógica subjetiva ou a doutrina do conceito 173 194 197 201 204 209 217 224 229 239 247 261 Sobre o conceito em geral Divisão Primeira seção A subjetividade Primeiro capítulo O conceito A. A identidade Observação 1: Identidade abstrata Observação 2: A primeira originária lei do pensamento. A oposição Observação: As grandezas opostas da aritmética C. A diversidade Observação: O enunciado da diversidade 3. O conceito universal B.

Hegel compreende por “lógica” não um tratado sobre uma disciplina específica. junto ao editor J. isto é. 9 . Schrag. A tradução que ora apresentamos incide sobre uma seleção de alguns trechos dessa obra de Hegel. o elemento lógico. entre os anos de 1812 e 1816. L. O primeiro volume (a lógica objetiva) foi dividido em dois livros: a “doutrina do ser” (1812) e a “doutrina da essência” (1813) e o segundo volume (a lógica subjetiva) contém a “doutrina do conceito” (1816).Apresentação MARCO AURÉLIO WERLE A Ciência da lógica [Wissenschaft der Logik] de Hegel foi publicada pela primeira vez em Nürenberg. aquilo que perfaz a natureza da lógica. Procurou-se contemplar as principais características e etapas segundo as quais se desenvolve o pensamento lógico de Hegel. em três partes. *** Inicialmente foram traduzidos os trechos nos quais Hegel explicita o que denomina como sendo “o lógico” [das Logische]. o que corresponde aproximadamente a um quarto do texto integral.

conforme lemos no início da Enciclopédia das ciências filosóficas: “A lógica especulativa contém a lógica anterior e a metafísica. a lógica perfaz o projeto de pensar as categorias do pensamento a partir delas mesmas. mas ao mesmo tempo as desenvolve e transforma com categorias ulteriores”1. vol. em terceiro lugar. pois. a Idéia é tomada como determinidade pura. tem de entrar na existência e ser ativada. algo como uma lógica dialética. um círculo acabado em si mesmo e remete a um círculo maior enquanto manifestação da Idéia. conserva as mesmas formas de pensamento. Suhrkamp.sobre a lógica como ciência das regras do pensamento ou até mesmo sobre uma “nova” lógica. 8. Inicialmente. O reino espiritual ou a vida cultural se desenvolve tanto no plano puro do pensar quanto no terreno fenomênico. Werke. 10 . em seu processo puro de gênese e de constituição como pensamento. mas também como conteúdo. no entanto. por fim. legado pela história da filosofia e que somente é reordenado e redimensionado em sua obra em termos especulativos. para chegar a ser para si o que é em si. leis e objetos. Assim. compreendida como sistema. quando passa pela natureza e. ela necessita operar um juízo absoluto de diferenciação de si mesma. o empreendimento hegeliano pode ser considerado como uma metafísica ou uma espécie de “metalógica”. Cada uma dessas partes da filosofia. 1986. A lógica perfaz a primeira parte do sistema hegeliano. 67. Pelo contrário. sem que se deva assumir pressupostos previa ou exteriormente fixados sobre o que seja o pensamento e sobre 1 Enciclopédia das ciências filosóficas. Frankfurt am Main. p. tomadas não apenas como forma. a seguir assume a forma da exterioridade. de modo que a Idéia está tanto “fora do tempo” quando “no tempo”. é. no elemento lógico abstrato do pensamento. § 9. sendo a segunda a filosofia da natureza e a terceira a filosofia do espírito. reencontra sua existência em si e para si no espírito. Diante disso. E a lógica se converte na ciência das puras determinações do pensar [reinen Bestimmungen des Denkens]. sua reflexão se move no terreno do puro pensamento (tanto subjetivo quanto objetivo). como pretendiam especialmente os pós-hegelianos e certos filósofos marxistas.

entre outros. Frankfurt am Main. dedicados ao conceito geral da lógica e ao tema do início da lógica. como quer fazer crer. 5. Frankfurt am Main. 8. e sim se move 2 Ciência da lógica. A lógica não opera como as demais ciências. ao qual se atribui predicados. pelas quais vive e respira essa mesma língua2. 55-56. 1986. vol. e sim decorre do assunto. O leitor terá de fazer um esforço de aproximação. Na filosofia. que há de ser mediado e imediato ao mesmo tempo. vol. 11 . 1986. Werke. Schopenhauer. Devido ao âmbito no qual se move o pensamento hegeliano. a qual instaura a verdade no próprio processo de apresentação do conteúdo. Nesse domínio instaurado pelo ato puro de pensar. mas com puras abstrações e exige a força e o treinamento para que consigamos nos retrair no puro pensamento. 67. que é “a ciência a mais difícil. p. que já possuem seu objeto previamente fixado. 3 Enciclopédia das ciências filosóficas. não advém de uma imposição pessoal. a verdade não cabe na estrutura comum do juízo. de um ponto de partida ou âmbito temático delimitado desde o princípio. a fim de apreendê-lo e nele se mover”3.o que seja a própria lógica. de penetração no fluxo do pensamento hegeliano e na escrita particular de Hegel. no quadro da obra hegeliana. Suhrkamp. Esse é. atinge aqui um ponto culminante. que. o assunto dos primeiros textos dessa coletânea. deparamos em sua lógica com uma linguagem inegavelmente complexa. da lógica. em linhas gerais. Suhrkamp. Acrescente-se a isso as dificuldades naturais de transposição entre a língua alemã e a portuguesa. também não se pode partir de um começo previamente dado e definido. Werke. Hegel observa que a maneira de apreender o espírito lógico que perpassa a terminologia abstrata das noções de pensamento se assemelha ao modo como se aprende uma língua por meio das estruturas gramaticais. E essa complexidade não pode ser evitada na tradução para o português. que lida com um sujeito fixo. pois não se ocupa com intuições nem com representações sensíveis abstratas. p. tal como a geometria. § 19. Essa complexidade do pensamento hegeliano não é idiossincrática. sob pena de falseamento da mensagem do original.

A lógica hegeliana e a linguagem da qual se serve exigem que se tenha em vista. como universal concreto ou universal particular. 12 .segundo o enunciado especulativo [spekulativer Satz]. como se pudesse ser mediada pela imaginação e por uma alusão aproximada e imprecisa do todo e das partes. apresenta-se. o que se assemelha à relação que temos na poesia entre o ritmo. pois a exposição do absoluto é direta e não indireta. de um lado. há que suspender. os ditames do 4 Fenomenologia do Espírito. em suspenso essa delicada relação entre o todo e as partes. a cada momento de determinação. no ato de leitura. vol. 1986. pois a verdade se apresenta no e pelo todo. na linguagem hegeliana. denotativa. de outro. nos restringimos à observação de que essa maneira de pensar implica que o leitor não se atenha demasiadamente à compreensão imediata. também uma compreensão precisa de cada momento particular. Poder-se-ia até dizer que o particular exige atenção redobrada. Suhrkamp. a forma e o fundo. por um conjunto de enunciados postos em movimento de pensamento. Seja como for. Não é porque interessa o todo que então o pensamento pode negligenciar o particular ou compreendê-lo apenas como “potência” ou reflexo do absoluto. a trama e a urdidura. 59. destrói a forma do enunciado comum. já que é posto e assentado [gesetzt] tanto em seu movimento de individuação quanto de universalização. p. mas também concordantes. por sua vez. enquanto um complexo de determinações internamente opostas. Sem entrar aqui nos detalhes do cerne da concepção de um pensamento dialético. Frankfurt am Main. tal como Kant caracteriza a noção de símbolo no § 59 da Crítica da faculdade de julgar e cuja noção se tornou central para a apreensão do absoluto na filosofia de Schelling. Deixemos. uma plenitude consciente de sentido. A unidade do conceito. 3. É evidente que a compreensão do todo implica. e o metro e o acento. porém. que não cabe ser pensada em termos simbólicos. Werke. “O ritmo resulta do meio e da unificação que oscila entre ambos [o metro e o acento]”4. como operando uma “exposição indireta”. de conexões e unificações a serem pensados em sua reflexividade interna e como auto-estabelecimento de sentido no plano da totalidade. de cada frase ou período.

O pensamento em si e para si (tanto teórico quanto prático) implica uma objetividade que lhe é própria como pensamento. do campo da razão e da compreensão da verdade como algo próprio ao pensamento [Denken]. In: Werke. vive no para si. p. e sim irredutível à empiria. 5. No campo das questões humanas impera a reciprocidade 5 “As coisas [Ding] e o pensamento [Denken] dos objetos (assim como também a nossa língua indica um parentesco entre esses dois termos) concordam em si e para si mesmos: o pensamento em suas determinações imanentes e a natureza verídica das coisas são um e o mesmo conteúdo” (Ciência da Lógica. 353). 13 . ele não carece de uma referência direta com as coisas. onde falta um nexo verdadeiro de alteridade e mesmidade entre o fenômeno antecedente e subseqüente. O pensamento possui um domínio peculiar. Vivemos nesse mundo não apenas sob o registro do em si da natureza. vol. Temos consciência. mas do incondicionado [Unbedingte]. 20. onde se conjugam potência e ato. que tudo esteja diante dos olhos para ser identificado em sua finitude. p. ou melhor. Frankfurt am Main. 1986. Inversamente. que exige que tudo seja sempre imediatamente claro e distinto.entendimento comum. embora exista certamente um parentesco entre o pensamento e as coisas5. Identificado com a verdade mais elevada. não como algo outro. estranho: “o espírito é apenas para o espírito”6. e estamos imediatamente colocados nesse patamar. Frankfurt am Main. uma “ontologia” inerente ou imanente e somente se compreende como pensamento. O ser humano é histórico.). E é isso precisamente que define o ser humano como tal: ele é o único ser vivo que pensa racionalmente. sendo a lógica nada mais do que um questionamento radical daquilo que mais nos distingue como seres humanos: nossa atividade consciente. somos consciência. 6 “Der Geist ist nur für den Geist”. 38. quando reconhece a contingência das coisas e não quando se torna servo delas. vol. como se fosse uma coisa. ao seu caráter de “simplesmente dado”. Suhrkamp. Mas o pensamento permanece junto das coisas quando as supera ou nega. desde o estágio mais imediato da “certeza sensível”. Suhrkamp. responde Hegel a Kant diante da exigência implicada na filosofia kantiana de que se “avalie” o infinito segundo critérios da experiência (Preleções sobre a história da filosofia. o pensamento de Hegel requer que nos coloquemos no patamar não das coisas [Dingen]. não apenas regulativo e “ilusório”. 1986. Werke. o que implica um nexo de herança entre o presente e o passado.

tomado em sua verdade como conceito. ao passo que na lógica da essência as determinações são abordadas principalmente em duplas ou como alteridade (que remete à noção de “outro”): essencial e inessencial. Em ambos os casos. para além da representação comum e sua reflexão exterior. sob o registro da reflexão e da aparência. ao passo que na lógica da essência a inflexão recai sobre as categorias de relação e de modo. Stuttgart/ Weimar. que “tudo abrange e mantém em si mesmo”. 221-252. É como se Hegel pretendesse afirmar. Metzler. No “eu”. Walter.dos eventos que são um-para-o-outro. respectivamente: da lógica do ser. segundo 7 As considerações desse parágrafo baseiam-se na abordagem de Jaeschke. Com isso. da lógica da essência e da lógica do conceito. positivo e negativo. optou-se por traduzir os começos das partes que a compõem. trata-se de reordenar e de aprofundar as noções das categorias de quantidade e qualidade. numa limitação própria e sem reflexão. 14 . identidade e diferença. p. a dialética possui seu domicílio mais próprio como universalidade. como considera Hegel no fim da Ciência da lógica. porém. particularidade e singularidade. Nasce aqui a “personalidade individual” ou a “pura personalidade”. e isso tendo como pano de fundo toda a história da filosofia7. possuem uma reflexão-em-si e requerem a atenção ao conceito. culminando com a noção de idéia absoluta. a apreensão das diferenças na unidade e da unidade nas diferenças. forma e matéria etc. o leitor poderá ter uma noção dos três tipos ou modos de pensar imperantes na lógica de Hegel. Uma diferença específica entre a lógica do ser e a lógica da essência está no fato de que na lógica do ser se mostram as identidades ou as determinações consigo mesmas. 2003.. Hegel-Handbuch. na lógica do ser. Hegel lida com uma reinterpretação e um rearranjo da lógica transcendental de Kant e dos temas tradicionais da metafisica generalis. a necessidade de um exame mais aprofundado das categorias. *** Avançando na estrutura da Ciência da lógica. Inicialmente. contra Kant.

as bases não desprezíveis de toda a metafísica ocidental. que Hegel longamente explora. *** Em relação aos trechos traduzidos nessa coletânea. Em terceiro lugar. A lógica do conceito se coloca no lugar da metafisica especialis. o conceito é a negação da negação ou o ser reconstituído. na lógica do conceito. por fim. adentramos no âmbito da doutrina do juízo e do silogismo. não por definições. insistência ou demora junto ao sentido próprio destas noções. ou seja. com efeito. Se a essência é a negação do ser. Entretanto. junto aos trechos iniciais da lógica do ser torna-se fundamental inserir-se no plano das categorias “ser” e “nada”. particular e singular. se na lógica do ser temos o domínio do pensamento por assim dizer “ontológico” e na lógica da essência o campo do exercício das relações e das duplas. Na Crítica da razão pura de Kant esses temas foram acomodados sob a rubrica da dialética transcendental. mas por meio de uma certa paciência. a qual tem de ser então reavaliada e reelaborada em seus pressupostos. a marca da lógica do conceito consiste em operar segundo o pensamento da subjetividade como forma infinita. do mundo (cosmologia) e de Deus (teologia). de modo que se possa justamente perceber o fluxo do pensamento hegeliano. tendo como fio condutor a dialética do conceito como universal. a opção foi traduzir seqüências inteiras de trechos. que usualmente sempre confundimos como tendo uma referência externa: pensamos sempre no ser de algo. A atividade do “eu” ou. ou no nada de algo. de que a lógica já estaria acabada desde Aristóteles. da totalidade que se engendra como identidade e diferenciação. opera como identidade e diferença no campo do supra-sensível. observamos que os mesmos sempre são contínuos. como diria Hegel. do próprio conceito. sustentado ainda por Kant. Por exemplo. a qual se ocupava tradicionalmente dos temas da alma (psicologia racional). tendo como guia a noção de reflexão (reflexão-em-si). pois o que se deve pensar então é o puro 15 . Assim. de ultrapassar o lugar comum. essa não é a questão quando se quer apreendê-las em si e para si. Trata-se.

que de alguma maneira foi perdida ao longo dos tempos. Além disso. Uma divisa central assumida. E. no caso do pensamento hegeliano. Isso não significa que não mantivemos uma coerência terminológica e que o texto não reflita decisões de ordem interpretativa. tudo depende de como se compreende Hegel. Ao longo de todo o texto hegeliano encontramos uma operação no campo da linguagem filosófica que procura trazer de volta a fluidez e a concretude dos principais conceitos da metafísica ocidental. já que o texto evita intencionalmente que a compreensão do sentido se perca na atomização do pensamento. de modo a procurar evitar ao máximo a violência ao português. quando a filosofia passou a lidar com uma terminologia fixa e rígida. Mas.ser e o puro nada (não formais e abstratos. por meio da criação arbitrária e indiscriminada de termos novos. temos consciência de que muitos termos comportam outras opções de tradução. segundo 16 . Somente assim ganha densidade essa sentença que causa arrepios a uns (heideggerianos) e suscita a imaginação de outros (sartrianos): “o puro ser e o puro nada são o mesmo”. A decisão por um texto sem notas e sem um glossário dos principais termos do pensamento hegeliano e sua respectiva versão em português se justifica precisamente tendo em vista oferecer um texto fluente e relativamente acessível. isso se torna ainda mais grave. conforme indicado acima. E é nesse ponto que interessa traduzir o texto hegeliano sem interrupções. é a de que a tradução de textos filosóficos alemães para o português deve respeitar não somente a língua alemã. mas como forma e conteúdo neles mesmos). existe nessa atitude de criação de novos termos muitas vezes uma enorme falta de percepção da funcionalidade de uma língua e de como ocorre a compreensão de um texto como um todo. mas principalmente a portuguesa. Mesmo porque. como sempre. certamente controversa. e que mereceria ser muito mais discutida em nosso meio acadêmico e intelectual brasileiro. a fim de que não se fique preso a meras definições. E nesse procedimento Hegel se faz valer exaustivamente da peculiaridade da língua alemã. o que exige inserir-se num outro plano de pensar. mas ao processo de pensamento. principalmente no que diz respeito à reciprocidade dos mesmos.

existência. que é tanto “indiferença” quanto “valer igual”/ “ter a mesma validade”. etc. gera várias dificuldades de tradução quando nos deparamos com o Unwesen: tanto o “inessencial” quanto o “insignificante” (unwesentlich). para evidenciar nelas o funcionamento e a evolução do que ele chama de “movimento de si do conceito” [Selbstbewegtheit des Begriffes] em sua negatividade e liberdade. Certamente uma seleção como essa de alguma forma acaba mutilando o pensamento hegeliano. optou-se por uma tradução não rigidamente terminológica. fundamento. sobre o que é ser. sufixos e prefixos. Note-se nessa aliteração a ambigüidade presente no termo gleichgültig. Gegensatz. que não é uma outra externa à primeira. Diante dessas e de outras dificuldades. Todas as noções se caracterizam por uma outra. ao explorar a familiaridade e a diferença específica entre grupos de palavras. Entgegensetzung entram em movimento. infinitude. Não é nisso que consiste a originalidade do pensamento hegeliano. ele apenas as põe em conexão e em circulação. Já no campo da relação entre ser e nada e a respectiva passagem para a essência temos a exploração do passado de ser: gewesen. a decisão de apresentar uma tradução parcial da Ciência da Lógica de Hegel é motivada pelo fato de não haver até o momento nenhuma tradução no Brasil. Alguns exemplos: Satz. realidade. das gegen den Gegensatz gleichgültig ist”.várias incursões lingüísticas. mas é o seu outro. O que temos é a tradução da Pequena Lógica. algo como um livro delta da Metafísica. Hegel não “inventa” ou “cria” nenhuma categoria lógica nova. com seus radicais. Gesetzsein. quando se afirma: “ein Drittes gebe. por sua vez. pois se acredita que a lógica de Hegel não é um conjunto de verbetes e de definições isoladas. a essência que. donde surge o Wesen. a versão menor e condensada 17 . necessidade. No caso da dialética entre identidade e diferença. negação etc. devir. percebem-se alusões ao gênero das palavras: Identität é feminino e Unterschied masculino. e sim no modo como põe essas noções em circulação e indica que o carácter de determinação ou a determinidade [Bestimmtheit] de uma noção passa por uma relação negativa ou de negação determinada com uma outra noção. finitude. No entanto. A rigor. nada. o outro que está nela e que somente então permite a compreensibilidade da primeira.

Solar/Hachette. resta informar que a versão do original empregada na tradução é a da edição Suhrkamp: Hegel. W. desse importante marco do pensamento humano de todos os tempos. 18 . Frankfurt am Main. Por fim. sem dúvida necessário para a nossa cultura. constante na Enciclopédia das ciências filosóficas. G. aos pesquisadores. 1986. alunos e estudiosos em geral da filosofia. Buenos Aires.da Lógica. a intenção da tradução é a de permitir um primeiro acesso. de tradução integral dessa obra. 5-6]. Assim. in Werke in zwanzig Bänden. 1968. Suhrkamp. Também foi consultada. professores. com bastante proveito. F. Oxalá essa tradução sirva de incentivo ou de motivação para o empreendimento. feita por Augusta e Rodolfo Mondolfo. Wissenschaft der Logik [vol. a tradução espanhola Ciencia de la lógica.

Primeira parte A lógica objetiva 19 .

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na verdade.Introdução Conceito geral da lógica Em nenhuma ciência que não a ciência lógica sente-se mais fortemente a necessidade de começar com a questão mesma. mas também o conceito mesmo da ciência em geral pertencem ao seu conteúdo e. bem como o conteúdo também não constitui um início absoluto. bem como do método. ao contrário. Não somente a indicação do método científico. o objeto a ser abordado e o método científico estão separados um do outro. a essas ciências apenas segundo lemas é permitido falar de seu solo e da conexão deste. sem reflexões preliminares. e servir-se do modo comum de raciocinar para o estabelecimento de seus conceitos universais e determinações fundamentais. pois elas constituem uma parte de seu conteúdo mesmo e tem de ser primeiramente fundamentadas no interior dela. O 21 . Por isso. Em todas as outras ciências. mas depende de outros conceitos e encontra-se dependente de outras matérias circundantes. pressupostos como conhecidos e admitidos. não pode pressupor nenhuma dessas formas da reflexão ou regras e leis do pensamento. o conceito constitui seu resultado último. A lógica. e aplicar tranqüilamente suas formas de definições e dados semelhantes.

que ela apenas ensina as regras do pensamento. a matéria. Entretanto. reside fora dela. e sim todo o seu tratamento produz primeiramente esse saber dela mesma como algo que é sua última manifestação [ihr Letztes] e como sua consumação. Do mesmo modo. Se a lógica é admitida como a ciência do pensamento em geral. que pertence a um conhecimento. Em primeiro lugar. uma vez que o pensamento e as regras do pensamento devem ser seu objeto. apenas pode indicar as condições formais do conhecimento verídico. Portanto.que a lógica é. aquilo que é presumido nessa introdução não tem a finalidade de fundamentar o conceito da lógica ou de justificar prévia e cientificamente o conteúdo e o método do mesmo. O conceito tradicional da lógica repousa sobre a separação. Assim. da qual esta matéria seria total e inteiramente independente. em segundo lugar. ela já possui assim imediatamente seu conteúdo peculiar. porém. para que o ponto de vista dessa ciência seja apreendido de modo mais elevado e para que ela adquira uma configuração totalmente modificada. ela não pode. dizer previamente. ela também tem com isso aquele segundo elemento do conhecimento. mas que não pode conter a verdade real mesma e tampouco o caminho para a verdade real. que a lógica se abstrai de todo conteúdo e que o chamado segundo elemento. pres22 . a lógica. tem de ser dado de outro modo. é essencialmente tratado no interior da mesma. Pois. o ponto de vista a partir do qual essa ciência tem de ser considerada. porque justamente o essencial da verdade. as representações sobre as quais até agora repousava o conceito da lógica em parte já sucumbiram e em parte é hora de desaparecerem completamente. já é inapropriado dizer que a lógica se abstrai de todo conteúdo. entende-se com isso que esse pensamento constitui a mera forma de um conhecimento. em um sentido raciocinativo e histórico. o conceito do mesmo gera-se a si mesmo em seu decurso e não pode ser presumido. o pensar ou mais determinadamente o pensamento conceitual. por conseguinte. a matéria. mas tornar acessível à representação. de cuja constituição ela se ocupa. a saber. por meio de alguns esclarecimentos e reflexões. sem poder se dedicar ao que é pensado e levar em conta a sua constituição. seu objeto. o conteúdo.

do objeto e do pensamento. como se essa relação tivesse em si e para si verdade. mas é tomada de modo mais determinado. na verdade. sua receptividade e sua acomodação a ela permanecem uma modificação de si mesmo. transpostos para a razão. portanto. como uma forma dócil e indeterminada. acabado. se preenche com ela e apenas assim conquista um conteúdo. ao contrário. ele não se torna desse modo o seu outro. sair de si mesmo e chegar ao objeto: este permanece. portanto. são os prejuízos que a filosofia tem 23 . se aproxima exteriormente como uma forma àquela matéria. ele também não consegue.suposta como definitiva pela consciência comum. E o determinar consciente de si pertence de todo modo apenas a ele. não é abandonada àquela indeterminidade nebulosa. na medida em que a diversidade da matéria e da forma. como se nela ocorresse a mesma relação. Em terceiro lugar. esses dois elementos (pois eles tem de ter a relação de elementos e o conhecimento é constituído a partir deles de modo mecânico ou no máximo em termos químicos) se encontram um diante do outro na seguinte hierarquia: o objeto é algo para si consumado. não ultrapassa a si mesmo em sua receptividade e enformação [Formieren] da matéria. Essas opiniões sobre a relação do sujeito e do objeto um para com o outro exprimem as determinações que constituem a natureza de nossa consciência comum. como uma coisa em si. em sua relação com o objeto. fenomênica. pura e simplesmente um além do pensamento. assim cada uma é uma esfera separada da outra. O pensamento. Verdade é a concordância do pensamento com o objeto e. Logo. que primeiramente teria de se completar com uma matéria e. Mas estes preconceitos. Primeiramente pressupõe-se que a matéria do conhecimento está dada em si e para si como um mundo acabado fora do pensamento. que o pensamento para si é vazio. do conteúdo do conhecimento e da forma do mesmo ou da verdade e da certeza. o pensamento seria algo deficiente. tornando-se desse modo um conhecimento real. teria de se adaptar à sua matéria. que poderia dispensar perfeitamente o pensamento para a sua efetividade. a fim de produzir essa concordância – pois ela não está em si e para si dada – o pensamento deve ajustar-se e acomodar-se ao objeto.

Nessa renúncia da razão a si mesma perde-se o conceito da verdade. Voltado contra a razão. assim. tem como fundamento algo mais profundo. O fundamento daquela representação tornada universal tem de ser procurado. o saber recaiu ao nível da opinião. essa inflexão que o conhecimento toma e que aparece como perda e retrocesso. tendo em vista que impedem a entrada na filosofia. é preciso compreender com isso o entendimento que abstrai e.a tarefa de refutar por todas as partes do universo natural e espiritual. ou melhor. A metafísica antiga tinha a esse respeito um conceito mais elevado do pensamento do que aquele que se tornou corrente em época mais recente. que o pensamento em suas determinações imanentes e a natureza verídica das coisas são um e o mesmo conteúdo. mas antes eram a sua própria essência ou que as coisas [Dinge] e o pensamento [Denken] dos objetos (assim como também a nossa língua indica um parentesco entre esses dois termos) concordam em si e para si. Essa metafísica considerava que o pensamento e as determinações do pensamento não eram algo estranho aos objetos. na concepção do 24 . como algo pensado. a qual é muito e de modo variado empregada como um bordão. apenas aquilo a que não corresponde a natureza da questão mesma. a saber. separa. mas primeiramente as elevava na forma do pensamento. no sentido de que primeiramente a percepção sensível lhes dá conteúdo [Gehalt] e realidade. ele se comporta como entendimento humano comum e faz valer sua opinião que a verdade repousa sobre a realidade sensível. eles têm de ser abandonados antes da entrada na mesma. que a razão. sobre o qual repousa em geral a elevação da razão ao espírito mais elevado da filosofia mais recente. persistindo em suas separações. ou seja. apenas produz quimeras. não elevava as coisas em sua imediatidade. ao permanecer em si e para si. que os pensamentos são apenas pensamentos. apenas o fenômeno. É preciso saber exatamente o que essa expressão quer dizer. Aquela tinha como pressuposto que aquilo que é reconhecido nas e pelas coisas por meio do pensamento é o que é unicamente a verdade verdadeira nelas. Contudo. Mas o entendimento reflexionante apoderou-se da filosofia. a razão fica restrita a reconhecer somente a verdade subjetiva.

É como se a um homem fosse concedido possuir uma intelecção correta. Mas a intelecção não realizada recai no equívoco de que é a razão que entra em contradição consigo. a crítica não operou sobre elas mesmas nenhuma modificação. é o grande passo negativo para o verdadeiro conceito da razão. A já mencionada reflexão feita é a seguinte: ultrapassar o imediato concreto e determinar e separar o mesmo. recuando do que é insatisfatório das determinações do entendimento. embora ao mesmo tempo ele seja pressuposto. relacioná-las. Se isso é um absurdo. Entretanto. na verdade. como se nisso apenas a espécie dos objetos fosse. mas apenas o não verdadeiro. mas as 25 . A crítica das formas do entendimento teve o resultado indicado de que essas formas não possuem nenhuma aplicação sobre as coisas em si. todavia. – Isso não pode ter outro sentido senão que essas formas são nelas mesmas algo de não verdadeiro. No entanto. No ponto de vista desse relacionar surge o conflito. Ela não reconhece que a contradição é precisamente o elevar-se da razão sobre as limitações do entendimento e a solução das mesmas. não entrasse no conhecimento. mas a outra sim. com o acréscimo de que. o último passo para o alto. esse conhecimento se sabe como o conhecimento apenas do que é fenomênico. Em vez de dar. confessa-se o carácter insatisfatório do mesmo. as coisas em si não fossem conhecidas corretamente. por outro lado. a elevação para além daquelas determinações. a partir daqui.conflito necessário das determinações do entendimento consigo mesmo. que alcança a intelecção do conflito das mesmas. a dos fenômenos. Esse relacionar da reflexão pertence em si à razão. não seria capaz de reconhecer nada de verdadeiro. o conhecimento. não atinando com o que há de firme e de unificador nas determinações do entendimento. Mas ela tem de avançar igualmente além dessas suas determinações separadoras e. na medida em que são deixadas como válidas para a razão subjetiva e para a experiência. se refugiou na existência sensível. a das coisas em si. a saber. mas as coisas no interior da esfera do fenômeno. diferente e que uma espécie. da mesma forma é um absurdo um verdadeiro conhecimento que não conhece o objeto tal como ele é em si. de início. na medida em que. por assim dizer. a saber. Como se.

Essa filosofia também fez o início que permitiu à razão expor suas determinações a partir dela mesma. se elas são insuficientes para as coisas em si. elas tampouco podem ser determinações do entendimento. sejam misturados um com o outro numa parede ou numa paleta. e teve como finalidade destruí-la completamente. ainda deixado como resquício pela filosofia crítica. essa postura e com ela também aquele início e desenvolvimento da ciência pura foram abandonados. As determinações do finito e do infinito estão no mesmo conflito. Assim. O idealismo transcendental executado de modo conseqüente reconheceu a nulidade do espectro da coisa em si. mas as deixou no sujeito tal como as encontrou. pois o objeto tem a contradição nele mesmo apenas por meio de e segundo aquelas determinações. Se a nossa representação do mundo se dissolve ao serem aplicadas sobre ela as determinações do infinito e do finito. Além disso. – Uma diferença não pode ser constituída devido à constituição da matéria ou do objeto sobre o qual são aplicadas ou no qual se encontram. tampouco teria de aceitá-las e não pretender possuir uma predileção por elas. de modo que não se tratou de uma dedução delas mesmas e nelas mesmas ou de uma dedução das mesmas como de formas subjetivaslógicas e muito menos de uma consideração dialética. Mas a postura subjetiva dessa tentativa não permitiu que chegasse a uma consumação. mas as acolheu segundo lemas da lógica subjetiva. sejam elas aplicadas ao tempo e ao espaço. é algo em si mesmo contraditório e se dissolve a si mesmo. apenas afastou da coisa as formas do pensamento objetivo. portanto. então mais ainda o próprio espírito.deixa para o sujeito na mesma configuração como antes valiam para o objeto. Todavia. ao qual pelo menos deveria ser concedida a dignidade de uma coisa em si. Se elas não podem ser determinações da coisa em si. ela não considerou essas formas em si e para si mesmas segundo seu conteúdo peculiar. Aquela crítica. 26 . que as contém ambas em si mesmo. ao mundo. o entendimento. essa sombra abstrata apartada de todo conteúdo. a quem elas teriam de pertencer. sejam elas determinações no interior do espírito – da mesma forma que o preto e o branco resultam no cinza.

Esse caminho percorre todas as formas da relação da consciência com o objeto e tem como seu resultado o conceito da ciência. Mas ela não é por essa razão uma ciência formal. Mas.Contudo. não é culpa do objeto da lógica se ela deve ser desprovida de conteúdo [gehaltlos]. Não é preciso. elas são formas mortas e não possuem o espírito habitando nelas. no estado em que ainda se encontra. em que medida ele se distingue dos modos de tratamento tradicionais dessa ciência e é o único ponto de vista verídico sobre o qual ela tem de ser para sempre estabelecida no futuro. Na Fenomenologia do espírito expus a consciência em seu movimento progressivo. desprovida de uma verdade de conteúdo pleno. porém. não possui certamente nenhum conteúdo que vale como realidade e como uma questão verídica na consciência comum. Pelo contrário. o qual é sua unidade concreta e viva. Esse conceito (independentemente de nascer da própria lógica) não necessita aqui. Essa ciência. e uma tal essência substancial costuma-se procurar fora dela. continuar procurando por aquilo que se costuma chamar de matéria. aquilo que se costuma compreender como lógica é considerado inteiramente sem significado metafísico. Na medida em que se separam como determinações firmes e não são mantidas em unidade orgânica. Entretanto. portanto. porque ele 27 . O conteúdo de que carecem as formas lógicas não é outra coisa senão uma base e uma concreção firmes dessas determinações abstratas. e sim da maneira como o mesmo é apreendido. a falta de conteúdo [Gehaltlose] das formas lógicas reside muito mais no modo como ela é considerada e tratada. absolutamente concreta. com isso. desde a oposição primeira e imediata dela e do objeto até o saber absoluto. de nenhuma legitimação. elas carecem do conteúdo consistente – de uma matéria que fosse nela mesma um conteúdo [Gehalt]. é o substancial ou o real. portanto. Essa reflexão conduz mais precisamente para a indicação do ponto de vista segundo o qual a lógica tem de ser considerada. que mantém unidas todas as determinações abstratas e é sua unidade consistente. não se deve procurar o âmbito da verdade naquela matéria que falta na dita ciência e a cuja falta é atribuído o elemento insatisfatório da mesma. A razão lógica mesma.

em relação à qual unicamente podemos nos reportar a isso e aquilo conhecido ou propriamente apenas expressar como desejo que se prefere deixar que isso ou aquilo seja válido como algo reconhecido. para a qual todas as suas figuras próprias se dissolvem nele mesmo como estando na verdade. em cuja definição ainda é. mas para o raciocinar mesmo permanece aberta a possibilidade a mais variada e diferenciada de admitir algo. O saber absoluto é a verdade de todos os modos da consciência. Uma definição. por fim. do raciocinar. Mas uma definição da ciência ou mais precisamente da lógica tem a sua prova unicamente naquela necessidade de seu nascimento. com isso. pois. daquilo que se representa como aceito e conhecido do objeto e da finalidade da ciência. com o que se teria de compreender ainda algo mais e algo diferente nessa ou naquela expressão. além disso. assim como aquele percurso do mesmo o produziu. depende. a arbitrariedade pode consolidar uma firme determinação. O conceito da ciência pura e a sua dedução são dessa maneira pressupostos no presente tratado. tendo em vista que a Fenomenologia do espírito nada mais é do que a dedução do mesmo. Que justamente se represente algo dessa maneira é uma asseveração histórica.a adquiriu no próprio caminho. apenas no saber absoluto se dissolveu perfeitamente a separação entre o objeto e a certeza de si mesmo e se 28 . acolhido uma determinação mais precisa ou mais universal e. – Uma fundamentação raciocinada ou um esclarecimento do conceito da ciência pode no máximo realizar o seguinte: que seja levado à representação e se provoque um conhecimento histórico do mesmo. Nesse procedimento de iniciar a ciência com a sua definição. segundo isso. com a qual qualquer ciência constitui o início absoluto. não se fala nunca da carência de que seja indicada a necessidade de seu objeto e. Mas ocorre sem cessar que aqui e ali se acrescentam um caso e uma instância. a necessidade dela mesma. – O quê e até que limite e amplitude algo deve ser incorporado ou excluído. portanto. correta. não pode conter outra coisa senão a expressão determinada. com o que. E ele não é passível de nenhuma outra legitimação senão aquela provinda da própria produção do mesmo por meio da consciência. teria de se orientar a ciência.

o pensamento. Não se trata nela de um pensamento sobre algo. a libertação da oposição da consciência. seu conteúdo é antes a verdade absoluta ou. pelo menos no nível da representação. nem de formas que deveriam fornecer meros indícios da verdade. A pura ciência pressupõe. como ela é em si e para si mesma. ao afirmar que o nus. já que essa matéria é muito mais o puro pensamento. dispensa tão pouco a matéria de um conhecimento efetivo e real que. tem de ser deixada de lado a opinião de que a verdade tem de ser algo palpável. Esse reino é a verdade. cuja configuração pura tem de ser a lógica. Por causa disso podemos exprimir que esse conteúdo é a exposição de Deus. o conteúdo da ciência pura. tem de ser determinado como princípio do mundo e que a essência do mundo tem de ser determinada como o pensamento. A lógica tem de ser desse modo apreendida como o sistema da razão pura. Anaxágoras é celebrado como aquele que expressou pela primeira vez o pensamento. que o ente em si e para si é conceito sabido. a verdade é a pura consciência de si que se desenvolve e tem a figura do si mesmo [Selbst]. pelo contrário. a própria forma absoluta. fora do pensamento. como base. A fim de captar esse ponto. pois. em suma. e sim as formas necessárias e as próprias determinações do pensamento são o conteúdo e a própria verdade suprema.tornaram idênticas a verdade dessa certeza bem como essa certeza da verdade. ela é a matéria verídica – mas uma matéria para a qual a forma não é algo exterior. Tal palpabilidade é ainda. Como ciência. Com isso ele lançou o fundamento de uma visão intelectual do universo. sem invólucro. Ela contém o pensamento na medida em que ele é igualmente a questão em si mesma ou a questão em si mesma na medida em que ela é igualmente o puro pensamento. tal como ele é em sua essência eterna antes da criação da natureza e de um espírito finito. Por conseguinte. a saber. mas o conceito enquanto tal é o ente em si e para si. ela é tão pouco formal. que residiria por si mesmo. como o reino do puro pensamento. introduzida nas idéias 29 . se ainda preferirmos nos servir da palavra matéria. Esse pensamento objetivo é. por exemplo. com isso.

não contém determinações que apenas recaem no sujeito conhecedor e sim as determinações do objeto que constituem a sua natureza mais própria e essencial. o lado da palpabilidade e do ser-para-si-mesmo sensível pertence a esse lado nulo. da dedução. Ou quando se parte de determinações dadas se deduz outras. – Em geral na base do emprego das formas do conceito. mas. assim como o idealismo posterior. um bloqueio [Anstoss] infinito enquanto um além. apenas em seu conceito algo tem efetividade. da definição. da divisão e assim por diante está o fato de que não são apenas meras formas do pensamento consciente de si. do qual fugiram. como já foi lembrado anteriormente. que o espírito e a natureza possuem leis universais. que definições. coisas existentes. que estão no pensamento de Deus. já transformou a metafísica em lógica. como se elas fossem. Mas na medida em que é dito que o entendimento. eleva as determinações de pensamento acima deste 30 . mas que antes pertence a ele mesmo. deu às determinações lógicas uma significação essencialmente subjetiva. Com isso.platônicas. porém. por temor diante do objeto. do juízo. na verdade. – Por outro lado. e restou nelas uma coisa em si. deixa de ser efetivo e é algo nulo. no exterior do qual se encontraria o mundo da efetividade e que este teria uma substancialidade distinta daquelas idéias. com a diferença que estão num outro mundo ou região. admite-se. podemos evocar as próprias representações da lógica comum. A idéia platônica não é nada mais do que o universal ou mais determinadamente o conceito do objeto. elas permaneceram ao mesmo tempo presas ao objeto. na medida em que é distinto de seu conceito. mas também do entendimento objetivo – Pensar é uma expressão que aplica a determinação nela contida preferencialmente à consciência. segundo as quais se fazem sua vida e modificações. que a ciência tem de poder pressupor. ela. Mas a libertação da oposição da consciência. então é admitido que as determinações do pensamento igualmente têm um valor e uma existência objetivos. com efeito. que a esse pensamento corresponde o ser. por assim dizer. por exemplo. que a razão estão no mundo objetivo. primeiramente real por meio dessa diferença. admite-se que o que foi descoberto não é algo exterior e estranho ao objeto. A filosofia crítica.

Na forma e no conteúdo. antes das outras ciências. Com efeito. sem uma tal limitação e consideração. leis e regras psicológicas. Kant. por ter obtido uma consumação tão cedo.ponto de vista medroso e não consumado e exige a consideração das mesmas tal como são em si e para si o lógico. mostra uma diferença demasiadamente grande para que não salte imediatamente aos olhos da mais superficial consideração que essa última consciência está inteiramente em desproporção e é indigna das primeiras elevações. as mudanças consistem na maioria das vezes somente em supressões – então tem de se concluir antes que ela necessita de uma total reelaboração. que ainda persiste. Desde Aristóteles ela não teria dado nenhum passo atrás. A comparação entre as configurações – às quais se elevou o espírito do mundo prático e religioso e o espírito da ciência em cada espécie de consciência real e ideal – e a configuração na qual se encontra a lógica e sua consciência sobre a sua essência pura. – Se a lógica desde Aristóteles não sofreu nenhuma modificação – pois de fato se observarmos os compêndios mais recentes de lógica. à tradição de sua importância do que por convicção de que aquele conteúdo comum e a ocupação com aquelas formas vazias têm valor e utilidade. a saber. As ampliações que por um certo tempo lhe foram dadas por meio do material psicológico. de resto. aprecia a lógica. pedagógico e até mesmo fisiológico foram a seguir reconhecidas quase universalmente como deformações. Ela ainda é mantida viva mais pelo sentimento de que não se pode em geral dispensar uma lógica e devido a um apego. mas também nenhum passo à frente. a necessidade de uma transformação da lógica é sentida há muito tempo. esse último passo ela não deu porque parecia estar acabada e consumada em todos os sentidos. tal como ela se mostra nos manuais. 31 . o agregado de determinações e enunciados que no sentido comum se chama de lógica. Em si e por si uma grande parte dessas observações. pois um avanço de dois mil anos do espírito deve ter-lhe proporcionado uma consciência mais elevada sobre seu pensamento e sobre sua pura essencialidade em si mesma. ela caiu no desprezo. o puramente racional. é preciso que se diga. como afortunada.

retrocede ao fundamento antropológico. 32 . sobre mera comparação e torna-se um procedimento inteiramente analítico e um cálculo destituído de conceito. Além disso. por exemplo. tem de parecer bastante rasa e trivial. afora sua igualdade ou desigualdade. ou que. Se é calculado de modo mecânico que três terços multiplicados 1 Uma recente reelaboração dessa ciência. tais regras que. que se encontra em apuros e que pretende ampliar o conteúdo demasiadamente breve e morto da lógica1. não sem razão se equiparou esse pensamento ao cálculo e o cálculo a esse pensamento. é preciso auxiliar os olhos com óculos. a partir das quais se chegaria à verdade. tudo repousa sobre uma distinção exterior. que consiste em recompor as partes recortadas de um quadro. afirmam que se deve repensar e examinar o que se lê em livros ou o que se ouve verbalmente. A derivação das assim chamadas regras e leis.pedagógicas e fisiológicas. No que concerne a tal conteúdo. tudo isso deve parecer a qualquer um muito supérfluo. na verdade. já foi indicado anteriormente a razão pela qual ele é tão destituído de espírito. Na aritmética os números são tomados como o que é destituído de conceito que. a fim de classificá-los e agrupá-los segundo a sua grandeza ou a ocupação lúdica das crianças. quando não se vê bem. são tratadas de modo muito sério em parágrafos. o Sistema de lógica de Fries. com exceção do escritor ou do mestre de escola. o quebra-cabeça. As determinações do mesmo valem em seu acabamento como inamovíveis e são apenas a partir do exterior colocadas em relação recíproca. principalmente do silogismo. isto é. – Por conseguinte. afora sua relação inteiramente exterior. tanto faz se estão na lógica ou em outro lugar. regras que foram apresentadas nos manuais na assim chamada lógica aplicada e. Pelo fato de que nos juízos e nos silogismos as operações são reconduzidas e fundamentadas especialmente sobre o quantitativo das determinações. A superficialidade em si e por si da representação ou opinião que a alicerça me dispensam do esforço de levar em consideração esse fenômeno tão insignificante. não possui nenhum significado e não é um pensamento nem nele mesmo nem em sua relação. não é muito melhor do que os ensaios feitos com palitos de desigual comprimento.

Também a matemática pura possui seu método. No prefácio à Fenomenologia do espírito falei o essencial sobre esse método e em geral sobre o caráter subordinado de cientificidade que se pode encontrar na matemática. Mas a exposição do que unicamente pode ser o método verídico da ciência filosófica recai no interior do tratado da própria lógica. Para que esse esqueleto morto da lógica seja vivificado por meio do espírito para uma substância [Gehalt] e conteúdo [Inhalt]. até onde é possível. a consciência2. para aquilo que devem ser. pois o método é a consciência sobre a forma do interior movimento de si de seu conteúdo. Wolff e outros foram seduzidos a aplicar a matemática também sobre a filosofia e a fazer do percurso exterior da quantidade destituída de conceito o percurso do conceito. as quais em sua realização ao mesmo 2 Posteriormente fiz o mesmo com outros objetos concretos e com as respectivas partes da filosofia. Espinosa. Apresentam-se aqui figuras da consciência. de princípios da experiência e de pensamento – ou também auxiliou-se com o desprezo rude de todo método. segundo a qual ela unicamente os considera. 33 . seu método tem de ser aquele por meio do qual ela é unicamente capaz de ser ciência pura. mas também no interior da lógica a matemática será considerada mais detidamente. ou se serviu do método das ciências que são apenas misturas de matérias dadas. seu método peculiar de definir e de classificar sua matéria. Ela tem aproximadamente a forma de uma ciência experimental. o que é em si e para si contraditório. ela observava com inveja o edifício sistemático da matemática e o emprestou dela. As ciências experimentais encontraram. em uma figura. Na Fenomenologia do espírito apresentei um exemplo desse método em um objeto mais concreto.por dois terços constitui uma metade. No estado no qual se encontra mal se pode reconhecer um pressentimento de método científico. como eu já disse. que é apropriado para seus objetos abstratos e para a determinação quantitativa. Até hoje a filosofia ainda não encontrou o seu método. essa ou aquela espécie de silogismo pode ser encontrada. essa operação contém mais ou menos tanto pensamento quanto o cálculo de que.

portanto. Na medida em que o que resulta. que não traz nada de fora para dentro. o contém. A única coisa para alcançar a progressão científica – e em vista de cuja intelecção inteiramente simples é necessário se empenhar de modo essencial – é o conhecimento do enunciado lógico de que o negativo é igualmente positivo ou que o que se contradiz não se dissolve no que é nulo. Isso já fica claro pelo fato de que ele não é nada distinto de seu objeto e conteúdo. mas são combinações da reflexão exterior que já percorreu o todo da execução. e é a unidade dele e do seu oposto. puro. ela. no nada abstrato. pois de outro modo seria um imediato. e sim a negação da questão determinada que se dissolve. mas essencialmente apenas na negação de seu conteúdo particular ou que uma tal negação não é toda negação. De acordo com esse método lembro que as divisões e títulos dos livros. Como eu poderia supor que o método que persigo nesse sistema da lógica – ou melhor. bem como os esclarecimentos que a eles estão relacionados. por 34 . que são indicados na obra. É claro que nenhuma exposição pode valer como científica se ela não percorre o caminho desse método e se não é adequada ao seu ritmo simples. – Nesse caminho tem de se formar em geral o sistema dos conceitos – e se consumir em um percurso irresistível. têm sua própria negação como seu resultado – e com isso passam para uma figura mais elevada. das seções e dos capítulos. pois é o percurso da questão mesma. – pois é o conteúdo em si. mais rico do que o precedente. de muita lapidação quanto aos detalhes? Mas ao mesmo tempo sei que ele é o único veraz. é negação determinada. mas conceito mais elevado. a negação. portanto. que. não um resultado. a dialética que ele tem nele mesmo que o move para frente. mas também mais do que ele. que esse sistema persegue nele mesmo – não seria ainda capaz de maior aperfeiçoamento. ela possui um conteúdo. Ela é um novo conceito. no resultado está contido essencialmente aquilo do qual resulta – o que é propriamente uma tautologia. foram feitos com o propósito de um panorama prévio e que apenas têm valor histórico. pois ela se tornou mais rica devido a essa negação ou oposição.tempo se dissolvem cada uma a si mesma. Eles não pertencem ao conteúdo e ao corpo da ciência. com o que é negação determinada.

– Essas determinações e divisões feitas sem qualquer dedução e legitimação constituem a armação sistemática e a conexão inteira de tais ciências. ela fica no registro das determinações das divisões. Nas outras ciências tais determinações prévias e divisões igualmente nada mais são por si mesmas do que indicações exteriores. se diz algo como: “a lógica tem duas partes principais. na antecipação do que é mais simples diante do que é composto e em vista de outras considerações exteriores. Mesmo na lógica. primeira seção: sobre a clareza dos conceitos etc. a seguir. porém. Aquilo pelo qual o conceito mesmo se conduz adiante é o que anteriormente foi indicado como o negativo. Mesmo no Parmênides e em outras obras ainda mais diretamente. Além disso. o título: leis do pensamento e. pode-se dizer. ora. a doutrina dos elementos e a metodologia”. é isso que constitui o verdadeiramente dialético. tem em geral 35 . porém. necessária. A dialética. por exemplo. mas também no interior da ciência elas não são elevadas acima desse caráter. e a passagem apenas se faz pelo fato de que agora se diz: segundo capítulo – ou: passamos agora aos juízos e assim por diante. foi completamente ignorada. Mas no que se refere a uma conexão interna. na doutrina elementar encontra-se.conseguinte. pois ela recai na própria determinação progressiva do conceito. alcança com isso uma posição inteiramente diferente. já sabe de antemão a seqüência de seu momentos e os indica antes mesmo de eles se apresentarem por meio da questão mesma. a necessidade da conexão e o surgimento imanente das diferenças têm de se encontrar no tratamento da questão mesma. que foi considerada como uma parte separada da lógica e em consideração à sua finalidade e ponto de vista. Também os títulos e as divisões que aparecem nesse sistema não devem ter por si outro significado do que o de uma indicação de conteúdo. no primeiro capítulo: sobre os conceitos. Tal lógica vê como sua vocação falar que os conceitos e as verdades devem ser deduzidos dos princípios. sem mais. que ele tem em si mesmo. mas naquilo que ela chama de método nem de longe se pensa em dedução. A ordem consiste na composição de coisas idênticas. a dialética platônica também tem ora apenas o propósito de dissolver e de refutar afirmações limitadas por meio de si mesmas.

uma vez que o infinito é o racional. Freqüentemente vê-se a dialética como um atuar exterior e negativo. Esse resultado. que não pertence à questão mesma. tal como é aqui tomado. como ocorrerá mais amplamente na seqüência dessa obra. mas justamente o que elas são na razão e em vista do que é em si. como a sua alma que se move a si mesma. O [elemento] especulativo [das Spekulative] reside nesse [elemento] dialético [in diesem Dialektischen]. – um resultado estranho. o princípio de toda vitalidade natural e espiritual em geral. é o lado mais difícil. mas para a força de pensamento ainda destreinada e não livre. ele o fez de modo que essas determinações são aplicadas pela razão sobre as coisas em si. consideradas mais de perto. que tem seu fundamento na mera vaidade enquanto uma mania subjetiva de abalar e dissolver o que é firme e verdadeiro ou pelo menos como algo que não conduz a nada mais senão à vaidade do objeto dialeticamente tratado. não merecem. Esse é o lado mais importante. apreendido em seu lado positivo. nada mais é do que a negatividade interna das mesmas. que seus resultados eram apenas sub-reptícios e uma aparência subjetiva. dizer que a razão é incapaz de conhecer o racional. a qual pertence à natureza das determinações de pensamento. pressupunha-se pura e simplesmente que ela jogava um jogo falso e que sua força inteira repousava unicamente no fato de que ela escondia a fraude.por resultado o nada. na verdade. Kant colocou a dialética num nível mais alto – e esse aspecto pertence aos seus maiores méritos – ao suprimir dela a aparência de arbitrariedade. essa é a sua natureza. e isso significa. na verdade. e a expôs como um atuar necessário da razão. Mas. que ela tem segundo a representação comum. Uma vez que ela apenas valia como a arte de criar engodos e produzir ilusões. um grande elogio. Inicialmente. assim como se fica preso somente ao lado abstrato-negativo do dialético. As exposições dialéticas de Kant nas antinomias da razão pura. Mas a idéia geral que ele colocou como base e fez valer é a objetividade da aparência e a necessidade da contradição. Se a força de pensamento ainda está envolvida na tarefa de se libertar da 36 . o resultado é apenas o fato conhecido: que a razão é incapaz de conhecer o infinito. na apreensão do que é oposto em sua unidade ou do positivo no negativo.

as mesmas regras e formas possuem a partir de então um valor pleno. Segundo a configuração exterior. ela seria semelhante ao modo de apresentação comum dessa ciência. aparece em duas perspectivas ou valores distintos. o conhecer conhece neles inicialmente nada além deles. pode primeiramente sentir o espírito e a cultura de um povo na gramática de sua língua. embora a alma do edifício. de resto. No que diz respeito à formação e à relação do indivíduo com a lógica. no que se refere ao conteúdo mais preciso. não se estendem para além dos outros conhecimentos e ciências. observo por fim ainda que essa ciência. Uma exposição da lógica com este propósito teria de se apegar em seu método ao classificar. também se distinguiria dela e ainda assim serviria para exercitar o pensamento abstrato. vivo. Quem. tal como comentei anteriormente e. não apareceria ele mesmo nela. comparada com a riqueza da representação de mundo. Aliás. a lógica. aquele que se aproxima da ciência encontra na lógica inicialmente um sistema isolado de abstrações que. Ela forneceria ao espírito a imagem de um todo metodicamente ordenado. tem de apreender os conceitos em sua determinidade e a partir deles aprender a conhecer.representação sensível-concreta e do raciocinar. ao contrário. em geral um conjunto isolado de determinações que apenas mostram o valor e o significado do que reside em seu sentido imediato. cuja finalidade a lógica tornada popular por meio de ingredientes psicológicos e antropológicos não consegue de modo algum preencher. o método que vive no dialético. embora não o especulativo. ela primeiramente tem de se exercitar no pensamento abstrato. Assim. domina uma língua e ao mesmo tempo conhece outras línguas em comparação a essa. assim como a gramática. sem se entregar ao dialético. Ela é algo diferente para quem em geral se defronta pela primeira vez com ela e com as ciências e para quem retorna das ciências para ela. Ele pode conhecer por meio da gramática a expressão do espírito em geral. regras casuais. segundo o conteúdo. com o conteúdo que aparece de modo real nas outras ciências e com a promessa que a ciência ab37 . Quem começa a conhecer a gramática. encontra nela formas e leis de abstrações secas. teria de se apegar às determinações que resultam como os conceitos isolados. limitadas a si mesmas.

uma influência que se faz mais por si mesma e para a qual. profundidade e significado ulterior. na simplicidade incolor e fria de suas determinações puras. ele se apresenta ao espírito a partir delas como a verdade universal. o elemento lógico primeiramente atinge a apreciação de seu valor quando se tornou o resultado da experiência das ciências.. não se consegue medir. menos essa promessa. Desse modo. voltado para o próprio pensamento. Mas a matéria e o conteúdo dessas ciências se mantém por si mesmo inteiramente independentes do lógico e são também mais acessíveis para o sentido. e sim como a riqueza do universal que abrange em si mesmo o particular. essa ciência tem antes. sobre os quais o elemento da lógica [das Logische] tem por assim dizer uma influência formal e. A primeira familiaridade com a lógica restringe o seu significado a ela mesma. sem dúvida a lógica tem de ser primeiramente aprendida como algo que certamente se compreende e se penetra. a representação e o interesse prático de toda espécie. axiomas. na verdade. a aparência de tudo realizar. e encontra-se destituída de conteúdo diante daquela riqueza. o sentimento. Apenas a partir do conhecimento mais profundo das outras ciências eleva-se para o espírito subjetivo o lógico como um universal não apenas abstrato. em sua configuração abstrata. por necessidade. a configuração científica e seu estudo sem dúvida podem também ser dispensados. de início. mas cuja amplitude. seu conteúdo vale apenas como uma ocupação isolada com as determinações de pensamento. teoremas e suas provas etc. – assim como a mesma sentença moral na boca do jovem que a compreende inteiramente não possui o significado e a amplitude que possui no espírito de um homem experimentado pela vida. em quem se exprime toda a força do conteúdo [Gehalt] que nela se encontra. a verdade.soluta oferece de descobrir a essência dessa riqueza. a natureza interior do espírito e do mundo. não como um conhecimento particular ao lado de outras 38 . a assim chamada lógica natural faz-se valer por si mesma nelas e se auxilia sem um conhecimento específico. Assim. ao lado da qual as outras ocupações científicas são uma matéria própria e um conteúdo [Gehalt] por si. As outras ciências desprezaram inteiramente o método regulamentado de serem uma seqüência de definições.

Ela realiza aí uma ocupação afastada das intuições e dos fins sensíveis. Divisão geral da lógica Naquilo que foi dito sobre o conceito dessa ciência e sobre o lugar de sua legitimação reside o fato de que a divisão geral aqui apenas pode ser provisória. o mundo das determinações essenciais. apenas pode. de preencher a base abstrata da lógica. por isso. Considerado por seu lado negativo. ele. na progressão por meio de conceitos sem substratos sensíveis. mas se estende sobre tudo isso e é sua essência. mas sim como a essência de todo esse outro conteúdo. não recebe menos a força em si que o conduz em toda a verdade. tendo em vista que o autor já conhece a ciência. essa ocupação consiste no afastamento da contingência do pensamento raciocinante e da arbitrariedade de aceitar e de deixar valer esses ou aqueles fundamentos opostos. de apreendê-las e retê-las no que têm de essencial. o qual não está mais como um particular ao lado de outro particular. 39 . sendo aqui. Mesmo que no início do estudo o elemento lógico não esteja. de afastar o exterior e.matérias e realidades. Ele se familiariza com o que é abstrato e. o que é o mesmo. com o conteúdo [Gehalt] de toda a verdade e dar-lhe o valor de um universal. dos sentimentos e do mero mundo da representação apenas visado [gemeinten]. alcançada anteriormente por meio do estudo. libertado de toda concreção sensível. O sistema da lógica é o reino das sombras. na verdade. ser indicada. a estadia e o trabalho nesse reino de sombras é a formação absoluta e a disciplina da consciência. por assim dizer. por conseguinte. extrair delas o lógico – ou. desse modo. O estudo dessa ciência. Mas o pensamento conquista especialmente desse modo a autonomia e a independência. ele se torna a potência inconsciente de acolher na forma racional a multiplicidade restante dos conhecimentos e as ciências. presente para o espírito nessa força consciente. o verdadeiro-absoluto [das Absolut-Wahre].

ela é o juízo do mesmo. não reside na determinidade do triângulo mesmo. segundo cujas determinações se dividem os triângulos. Dessa maneira. isto é. de outro lado. de um lado. a oposição da consciência entre. No tratamento filosófico do dividir o conceito deve se mostrar a si mesmo como contendo sua origem.. mas a divisão exprime desenvolvida esta sua determinidade. pode-se tentar tornar compreensível.capaz de indicar previa e historicamente em que diferenças principais o conceito se irá determinar em seu desenvolvimento. da intuição empírica. Esses são assim os dois momentos que estão contidos no lógico. antes de tudo é preciso lembrar que aqui é pressuposto que a divisão tem de estar conectada ao conceito ou muito mais residir nele mesmo. Mas eles serão sabidos como existentes sem separação. O conceito não é indeterminado. o que é requerido para uma divisão. não como na consciência onde 40 .. – Portanto. mas determinado nele mesmo. e o ser é sabido como puro conceito nele mesmo e o puro conceito como o verdadeiro ser. mas o julgar. um ente por si mesmo subjetivo e. a lógica se determinou como a ciência do pensamento puro. Nela. mas desse modo concreta e viva. de pássaro etc. Todavia. Mas o próprio conceito da lógica foi indicado na introdução como o resultado de uma ciência que reside num outro lugar e que aqui foi igualmente indicada como uma pressuposição. de modo geral e previamente.. Tais determinações são extraídas de outros lugares. e essas classes em gêneros ulteriores. residem as determinações segundo as quais aquele é dividido em mamíferos. o determinar do conceito nele mesmo. elas se acrescentam do exterior ao assim chamado conceito. é sabida como superada. não um juízo sobre qualquer objeto tomado do exterior. um segundo ente desse tipo. assim como do eqüilátero etc. no que se costuma chamar de conceito do triângulo. isto é. um objetivo. embora justamente nesse caso tem de ser reivindicado um procedimento de método que primeiramente no interior da ciência adquire sua compreensão plena e legitimação. que tem como seu princípio o saber puro. O caráter de retângulo. acutângulo etc. Tampouco naquilo que vale como o conceito de animal em geral ou de mamífero. a unidade não abstrata. pássaros etc.

Aquela unidade permanece o elemento e dele não mais sai aquele separar da divisão e em geral do desenvolvimento. Com isso. como um subjetivo e um objetivo ou também como pensar e ser ou como conceito e realidade. da realidade ou do ser. ali ele é apenas conceito em si. pelo fato de que são sabidos como distintos (todavia não como existentes em si mesmos). assim. mais precisamente. seja em que perspectiva possam ter sido determinadas. para nomear formas concretas. Essa unidade constitui ao mesmo tempo o princípio lógico como elemento. estão finalmente rebaixadas em sua verdade. de acordo com o elemento que se encontra no funda41 . em sua unidade. desapareceu. por conseguinte. as determinações antes (no caminho para a verdade) por si mesmas existentes. mas concreta. tal como devem valer por si mesmas existentes. Trata-se do conceito inteiro. por isso. o que aqui seria um retroceder vazio ao ponto de vista anterior da oposição da consciência. a formas. embora as mais indeterminadas e. mas ele é conceito em si apenas na natureza inorgânica). no homem pensante. as mais polissêmicas – na lógica objetiva e na lógica subjetiva. tal como foi dito. Pois. é o juízo do conceito. na medida em que a divisão. essa. que existe imediatamente nele. morta. No entanto. apenas ocorre no interior desse elemento. em si o conceito inteiro e esse é apenas posto na divisão sob suas próprias determinações.cada um era também sabido como existente por si. o ato de pôr [das Setzen] a determinação nele já imanente e. que ora tem de ser considerado como conceito existente ora como conceito. Em sua diferença elas permanecem elas mesmas. sua unidade não é abstrata. mas também. sua diferença. A lógica teria de ser desse modo inicialmente dividida na lógica do conceito como ser e do conceito como conceito ou – na medida em que nos servimos das restantes expressões comuns. aqui ele é conceito como tal. desse modo somente. certamente não como consciente e muito menos como sabido. de modo que o desenvolvimento daquela diferença. no animal que sente e na individualidade orgânica em geral. imóvel. então esse ato de pôr não pode ser apreendido como uma nova dissolução daquela unidade concreta em suas determinações. conceito existente por si (tal como ele é. isto é.

uma lógica transcendental. de modo que ela a) considera os conceitos que se referem a priori aos objetos. essas determinações. ou seja. em época mais recente. Ele a distingue daquilo que chama de lógica geral. pois embora a essência já seja o interior. em parte muitas vezes apenas demonstra-lhe um desprezo rude – mas não impune. porque aborda.mento da unidade do conceito em si mesmo e. pelo contrário. sua determinidade particular. por conseguinte. o caráter de sujeito tem de ser reservado expressamente ao conceito. do ser que passou para o ser em si do conceito. no que diz respeito à verdade absoluta. que está no centro entre a doutrina do ser e do conceito. Mas o que é resultado em Kant. o conceito como sistema de determinações de reflexão. é cortada a execução precedente da qual procede aquele resultado e que é conhecimento filosófico. em outro lugar ou também nesta obra. independentemente das objeções que se possa fazer-lhe. pois – seja como se queria considerar. na medida em que ele não pode ser atribuído aos objetos. opôs ao que habitualmente se chama de lógica ainda uma outra lógica. A filosofia kantiana vale assim como uma almofada para a preguiça do pensamento que se tranqüiliza com o fato de que tudo já foi provado e resolvido. devem pelo menos estar em relação umas com as outras. de modo mais preciso. Essa é a doutrina da essência. assim. Kant3. mas ao mesmo tempo está preso ao ser imediato como a algo a ele mesmo também exterior. ao passo que em exposições posteriores da filosofia pouco observa o lógico. Por isso mesmo ela tem de ser levada em consideração na lógica objetiva. importantes aspectos mais determinados do lógico. isto é. é com isso que se começa imediatamente nesse filosofar. é necessário. a saber. bem como as diferentes partes de sua execução – ela constitui a base e o ponto de partida da filosofia alemã mais recente e esse seu mérito permanece-lhe de modo incondicional. o qual desse modo ainda não é posto como tal por si mesmo. da inseparabilidade de suas determinações. O que aqui foi chamado de lógica objetiva corresponderia em parte ao que nele é a lógica transcendental. com isso. O filosofar mais amplamente difundido entre nós não provém dos resultados kantianos de que a razão não poderia conhecer nenhum conteúdo [Gehalt] verdadeiro e que é preciso se remeter à fé. não abstraem de todo conteúdo do conhecimento objetivo ou ela contém as regras do pensamento puro de um objeto e b) ao mesmo tempo vai à direção da origem do nosso conhecimento. Para o conhecimento e um conteúdo determinado do pensamento que não se encontra em tal tranqüilização infrutífera e seca. Resulta disso uma esfera da mediação. na medida em que são distintas e o conceito é posto em sua diferença. voltar-se para a execução precedente. – O interesse filosófico de Kant está exclusivamente voltado para 3 Lembro que nessa obra irei me referir várias vezes à filosofia kantiana (o que para muitos pode parecer supérfluo). e. 42 . – Na divisão geral dessa obra lógica ela ainda foi situada sob a lógica objetiva.

Na medida em que o interesse da filosofia kantiana estava voltado para o assim chamado transcendental das determinações de pensamento. Em virtude dessa determinação. ter pensamentos ulteriores sobre ele. compreendida como eu subjetivo. de que o objetivar do eu tem de ser visto como um atuar originário e necessário da consciência. A denominação “consciência” lança ainda mais a aparência de subjetividade sobre o mesmo do que a expressão pensamento. a perspectiva [Ansicht] permanece estacionada no interior da consciência e de seu oposto e possui ainda algo que resta. na verdade. Mas esse atuar não deveria mais ser nomeado de consciência. de modo que em tal atuar originário ainda nem está a representação do eu mesmo – a qual é primeiramente uma consciência daquela consciência ou mesmo um objetivar daquela consciência – então esse atuar objetivador libertado da oposição da consciência é mais precisamente aquilo que pode em geral ser tomado por pensar como tal4. sempre igual ao eu. O que elas são nelas mesmas. por exemplo. o qual não está presente naquele atuar originário. o tratamento das mesmas acabou ele mesmo vazio. Tal objeto é um pensamento e determiná-lo significa em parte primeiramente produzi-lo. para além do empírico do sentimento e da intuição. em suma. desenvolvê-lo pelo pensamento. Seu pensamento principal consiste em reivindicar as categorias para a consciência de si. consciência engloba em si mesma a oposição do eu e de seu objeto. uma coisa em si. do pensamento abstratizante. então tem de ser observado que se trata de um determinar de um objeto.esse segundo lado. na medida em que é algo pressuposto. sem a relação abstrata. – Se outros kantianos se exprimiram assim sobre o determinar do objeto por meio do eu. embora seja fácil de admitir que uma abstração como a da coisa em si é ela mesma apenas um produto do pensamento e. na medida em que seus momentos de conteúdo não pertencem ao sentimento e à intuição. não afetado pela finitude da consciência. em parte. o qual aqui todavia tem de ser tomado no sentido absoluto como pensamento infinito. da fantasia. 43 . algo estranho e exterior ao pensamento. que não é posto e determinado [gesetzt und bestimmt] pela consciência de si pensante. como pensamento como tal. sua determinidade uma diante da outra e sua relação recíproca não foi tornado objeto de 4 Se a expressão "atuar objetivador do eu" pode lembrar outras produções do espírito.

o mundo. segundo a expressão kantiana. do conceito. porém. inicialmente tomados da representação. isto é. Aquela metafísica desistiu disso e atraiu para si a acusação justa de tê-las empregado sem crítica. A forma. dos sujeitos da representação e sua natureza e valor em si e para si mesmos. o ens compreende em si mesmo tanto o ser como a essência. na verdade. a lógica objetiva abrange em si mesma também a metafísica restante. Para o efetivo progresso da filosofia. – a parte daquela metafísica que deveria investigar a natureza do ens em geral. – Se levarmos em consideração a última configuração do desenvolvimento dessa ciência. o conhecimento de sua natureza não se encontrou de modo algum estimulado por essa filosofia. Mas a lógica considera essas formas livres daqueles substratos. de dar a si conteúdo e. sem a investigação prévia para saber se elas e como elas são capazes de serem determinações da coisa em si. – A lógica objetiva é. Por conseguinte. era necessário que o interesse do pensamento prosseguisse para a consideração do lado formal. em cujo lugar se põe a lógica objetiva. que apenas deveria ser executada por meio de pensamentos. Mas para alcançar esse conhecimento. dar o mesmo em sua necessidade – como sistema de determinações de pensamento. porém. isto é. aquela determinidade finita. a qual era o edifício científico sobre o mundo. isto é. da consciência como tal. A lógica objetiva assume então muito mais o lugar da metafísica anterior. por conseguinte. assim pensada em sua pureza. ou muito mais do racional. para cuja diferença nossa língua salvou. de modo feliz. a crítica veraz das mesmas – uma crítica que não as considera segundo 44 . então ela é primeira e imediatamente a ontologia. a alma. ainda tinha de ser removida. – A seguir. na medida em que essa procurou apreender com as formas puras de pensamento os substratos particulares. O único ponto interessante que possui uma relação com isso surge na crítica das idéias. contém nela mesma o fato de se determinar. na qual a forma enquanto o eu é consciência.consideração. a expressão diferenciada. Deus e as determinações do pensamento constituíram o essencial do modo de consideração. fosse desse modo introduzido. da relação abstrata de um saber subjetivo com um objeto e que o conhecimento da forma infinita. do eu.

de modo geral se divide em lógica objetiva e subjetiva. então aqui não tem de ser colocado um peso especial sobre a diferença entre o subjetivo e o objetivo. portanto. bem como em geral das determinações que pertencem à forma da consciência. – Na medida em que o subjetivo implica o equívoco do que é contingente e arbitrário. ou melhor. A lógica da essência e A lógica do conceito. A lógica. A lógica subjetiva é a lógica do conceito – da essência que superou sua relação com um ser ou sua aparência e não é mais exterior em sua determinação. e sim o subjetivo autônomo e livre.a forma abstrata da aprioridade contra a aposterioridade. a qual mais tarde será mais precisamente desenvolvida no interior da lógica mesma. mas elas mesmas em seu conteúdo particular. o sujeito mesmo. mas de modo mais determinado ela possui três lados: A lógica do ser. 45 . que se determina a si mesmo.