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PLANTÃO SOCIAL E JUDICIALIZAÇÃO DA SAÚDE Profª Drª Vilma Margarete Simão1 Verônica Castano2 RESUMO: Este artigo tem

o objetivo de apresentar as dificuldades, identificadas na experiência de intervenção profissional no Plantão Social desenvolvido no Ambulatório Universitário (AU/FURB), dos usuários de acessar medicamentos necessários a recuperação de sua condição de saúde. O direito à saúde é imprescindível, devendo estar à disposição de todos os cidadãos. Contudo, identifica-se a dificuldade no acesso e a população vem constituindo uma larga escala de processos judiciais, encaminhados por meio do Ministério Público, para garantir o direito a saúde. Processo esse conhecido como judicialização da saúde. Tema abordado por este artigo. PALAVRAS-CHAVE: Plantão Social, Direito, judicialização, saúde, empoderamento. Eje I: Tensiones en la disputa de proyectos societales en América Latina: sus implicancias para la Educación Superior, las Ciencias Sociales y el Trabajo Social. 1. INTRODUÇÃO: Ambulatório Universitário da Universidade de Blumenau (AU-FURB) é uma unidade de referência e especialidades em nível secundário de atenção à saúde. Presta serviços de saúde à comunidade, bem como proporciona campos de estágios para os acadêmicos, garantindo assim uma aproximação de teoria com a prática para contribuir para uma melhor formação profissional dos acadêmicos. O AU-FURB iniciou suas atividades em maio de 1995, presta atendimentos variados à população, nas especialidades médicas de: pediatria, ginecologia, clinica cirúrgica, clinica medica, e também conta com profissionais das áreas de Psicologia e Serviço Social. Possui uma farmácia, que fornece medicamentos contidos na lista de medicamentos do SUS e um laboratório de analises clinicas que realiza alguns exames. Todos os atendimentos fornecidos no Ambulatório Universitário seguem os critérios definidos pelo SUS – sistema único de saúde. A implantação do Serviço Social no AU deu-se em janeiro de 1996, tem como objetivos intervir com profissionais e acadêmicos, criando assim programas e projetos para a instrução da população. Além de garantir os direitos sociais, principalmente o
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Professora do departamento de Serviço Social da Universidade Regional de Blumenau. E-mail: vilmasimao@furb.br; telefone: (047) 3222.15.83. Endreço: Rua Heinrich Hosang, 165 ap. 1003B. Blumenau/SC, Brasil. CEP: 89012-190 2 Acadêmica da 7ª fase do curso de Serviço Social da Universidade Regional de Blumenau.

os mesmos demonstraram sua decepção em relação às opiniões das famílias e suas contradições. lhe traz mais segurança quanto ao processo a ser seguido. O Plantão Social não se refere apenas a um serviço emergencial. e tem como objetivo principal atender as demandas identificadas pelos profissionais da saúde e as demandas espontâneas. Em alguns casos os mesmos não confiam na troca de medicamentos com a mesma composição. quanto dos próprios usuários em relação a medicamentos. Durante os atendimentos os usuários expressam suas dificuldades econômicas e sociais. o que afetam mais ainda o processo de encaminhamento. O Plantão Social é um deles. os profissionais não informam aos usuários o alto – custo do medicamento. Por esses modos os usuários são encaminhados ao Serviço Social. através de uma ação socioeducativa. exibiram sua irritação com a situação. no AU – FURB/Serviço Social. quanto à demora dos encaminhamentos. gênero. para o acesso às políticas públicas especialmente as de saúde.direito a saúde. orientando-os e encaminhando-os. O Serviço Social fornece informações aos usuários. O que se verificou foi à falta de informação e observação tanto dos profissionais de medicina. e alguns com equipes multiprofissionais. O apoio familiar durante um processo de acesso a tais necessidades é de extrema importância. . promoção e recuperação da saúde. opção sexual e classe social. à impaciência tanto com os próprios afetados. Analisando com eles suas reais necessidades. Além de garantir confiança do afetado. e atendidos através do projeto Plantão Social. O Serviço Social no AU desenvolve vários projetos. conforme apregoa a Declaração Universal dos Direitos Humanos. sendo que já foi comprovada a qualidade dos medicamentos com a mesma composição. por não trazer os mesmos benefícios que o original. e os usuários pela situação de doença não procuram se informar durante as consultas. Em outros casos. quando necessário. 70% dos usuários atendidos tiveram um apoio psicológico. mas sim um espaço onde tem como dever o Assistente Social informar aos usuários sobre seus direitos. para assim estimular os mesmos a consciência critica sobre a realidade exposta. Todos têm direito e esse direito deve de ser garantido. Durante o mês de Julho a Dezembro de 2010. devido à pressão da situação. O que afeta o psicológico dos usuários é a dificuldade no que se referem a apoio familiar. Algumas famílias quando solicitada a presença para conversação da situação de tal usuário. não importando sua renda. etnia. porém de marcas diferentes. contribui no processo de prevenção das doenças. Durante os atendimentos individuais o que mais se percebeu foi à dificuldade que os usuários têm em relação a acesso a medicamentos.

caso o medicamento seja negado. 194. em seu Art. para garantir o acesso ao direito à saúde. Este processo de reflexão é muito importante. o cidadão precisa recorrer ao poder judiciário para acessar o que lhe é de direito. é importante o usuário exigir um laudo médico. por isso são orientados para exigirem dos profissionais médico o cuidado para adequar o receituário aos medicamentos disponibilizados pelo SUS. 1. na atuação do Serviço Social no Ambulatório Universitário. quando o medicamento ainda não está disponibilizado na rede do SUS ou se o medicamento ainda não está aprovado pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Segundo o relato de um usuário. indicando postura contrária a política nacional de humanização dos serviços de saúde e. no mesmo tempo. ou que estão desabilitados. que quando questionados durante as consultas. é de que quando questionam os médicos sobre o acesso aos medicamentos o que fazem é encaminhar para o Serviço Social “resolver”. é de extrema importância a presença de algum familiar que vivencia a situação. Então. o Serviço Social. direta ou indiretamente. sem desconsiderar as exigências medicamentosas impetradas pela doença da pessoa. onde o medicamento não está disponibilizado pelo SUS e não pode ser substituído. existem alguns profissionais da área da saúde. afeta. principalmente se for usuários idosos. a tendência é a diminuição da qualidade do atendimento. A maior (60%) demanda do Plantão Social do AU/FURB é a dificuldade em acessar os medicamentos. a saúde dos usuários. Tema abordado neste artigo.Durante o acompanhamento com Assistente Social e outros profissionais. O que os usuários tendem a relatar. informando a importância do medicamento para a qualidade de vida do mesmo. Assim o Assistente Social junto com a família pode desencadear uma ação/reflexão das questões apresentadas. constata-se que mesmo a saúde sendo um direito constituído pelas normativas legais. a solução é o orientar o usuário para que entre com processo. é a partir daí que os usuários tomam consciência da situação não só no singular. ressaltando a doença e as conseqüências. Nestes casos. menciona que a seguridade social compreende um conjunto integrado de ações de iniciativa dos poderes públicos e da . DISCUTINDO O DIREITO À SAÚDE A Constituição brasileira. junto ao Ministério Público. No decorrer dos processos dos atendimentos foi identificado que os usuários carregam consigo o medo de exigirem o laudo e o profissional médico passar a atende-lo de modo desqualificado. mas também na totalidade. Processo esse conhecido como judicialização da saúde. Por sua vez.

assistência social e autonomia. a previdência e a assistência social. moradia. identifica as áreas em que. Identificando o percurso histórico e as transformações sociais e políticas da sociedade observou-se que existem várias percepções para a conceituação do termo direito. Mas. Ainda encontra-se no Dicionário de Sociologia Johnson (1995) que o Direito. Direito é um complexo de normas reguladoras da conduta humana. de acordo com o mesmo autor. após o crescimento . pobreza crescente e superpopulação proporcionando uma vida urbana que se deteriorava a cada ano. fica explícito o dever do Estado de garantir a todos os cidadãos o pleno direito à saúde. “o Direito normativo disciplina o comportamento humano do cidadão. do que está conforme a reta. p. a cura para tais males era promovida através de rituais mágicos. garantindo a todo cidadão a redução do risco a doença e de outros agravos e o acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção. considerados fundamentais e universais. é de todos os cidadãos e se constitui em dever do Estado. saúde. A palavra direito surgiu aproximadamente no século XIV. com força coativa.83). como podemos ver em Schwartz (2001. prescreve deveres para a realização de valores. com passar dos tempos sofreu modificações e evoluiu juntamente com as civilizações. segundo Barroso (1996. como: educação. proteção e recuperação da saúde. que denominamos normas ou regras jurídicas”. o que se entende por saúde? O conceito de saúde. E faz através de certos esquemas ou padrões de organização e de conduta. destinadas a assegurar os direitos relativos à saúde. na Idade Média.30). organizam e controlam a vida em sociedade. mediante políticas públicas. Antes da cultura grega. Como exemplo. No referido artigo. tais como: compensar alguém que foi injustamente tratado ou prejudicado ou negligenciado por alguém”. o ser humano tem garantias. tem-se a migração da população economicamente melhor posicionada para os subúrbios das grandes cidades inglesas. originase do vocábulo directus = qualidade. sociais e econômicas. ou seja. Essa garantia deverá ser efetivada. Entendendo por direito a ”regulamentação das relações sociais. Com objetivo de diminuir a desigualdade entre as classes sociais muitos autores vêem mobilizando os cidadãos excluídos a continuarem lutando por seus direitos.sociedade. p. a saúde era vista como uma “dádiva” ou “punição” enviada às pessoas pelos deuses. de acordo com e no Art. O direito à saúde. começou nas cidades européias do século XIX sob as pressões da industrialização. Na linguagem Jurídica. A revolução moderna da saúde pública.196 da Constituição Federal de 1988. Para o direito tradicional é imprescindível as normativas que regulam. sendo que.

Embora não haja consenso na conceituação de saúde. proteção e recuperação da saúde. não mais limitando sua análise sob a ótica curativa. continua Barroso (1996. foi reconhecido a saúde direito fundamental de todos os cidadãos. nela. Ou seja. mediante políticas públicas que visassem à melhoria das condições de vida e salubridade. no qual está incluso o direito à saúde. reservou um lugar de destaque para a saúde. (DALLARI.” Outro autor enfatiza a importância da ação do estado na promoção da saúde.32). p. Esse conceito estava no nível dos anseios sociais. Porém. no preâmbulo da Constituição da Organização Mundial da Saúde.. do México e do Brasil em 1934.] saúde implica uma definição política pública que vise seu cuidado.. p. provocando assim a mobilização dos trabalhadores da saúde para a realização da Primeira Conferência Internacional Sanitária em 1851. Ele diz: “[. sua defesa e sua proteção. foi introduzida uma definição de saúde. finalmente. a concepção de que a saúde se constituía única e exclusivamente na ausência de doença. o conceito de saúde ainda não está totalmente consensuado entre os profissionais de saúde e seus intelectuais. em razão da influência do pensamento comunista que culminou com a Revolução Russa. No século XX. 1995. reforça-se [. a história nos mostra que as lutas de trabalhadores forçaram o Estado a ampliar o conceito e sua rede de serviços . assim como. Surge a partir do século XX. reconhecendo-se uma visão mais ampla de saúde. ou seja. Essas transformações trouxeram consigo diversas epidemias.. conforme Morais (1997. mental e social e não apenas a ausência de doenças”.188). A Constituição Brasileira de 1988.] a obrigação do Estado de prestar serviços de atendimento à população que incluam opções para promoção. deixava para trás. em constituições de diferentes Estados-nação: da República Alemã em 1919.. de harmonia entre a mente e o corpo e destes com relação à sociedade. significando que é uma meta a ser alcançada e que varia de acordo com sua própria evolução e com o avanço dos demais sistemas com os quais se relaciona. “Saúde é um processo sistêmico. 39). em especial o Estado e a própria sociedade. Para Schwartz (2001. 91). a idéia de uma saúde preventiva. É também neste século que começa a serem incluídos os chamados direitos de “segunda geração”. p. Apesar do direito à saúde ter sido incluído nas Constituições mencionadas sua normatividade era baixa e sua eficácia duvidosa.econômico do começo deste século. se começa a aferir ao Estado a responsabilidade na promoção da saúde aos cidadãos. p. nos seguintes termos: “Saúde é o completo bem-estar físico. tais como a cólera e febre amarela. o conceito de saúde passou a ser repensado. No ano de 1946.

Ao contrário. É um direito conquistado pela população brasileira. filantrópicos ou privados contratados. entre o dever-ser normativo e o ser da realidade social. por vezes árduo e contraditório. Lei de Diretrizes e Base da Educação Nacional. No entanto. tão íntima quanto possível. Lei Orgânica da Assistência Social 8742/1993. sobretudo no que se refere à sua efetividade. As legislações. para atender a população. que destaca 06 (seis) princípios. não foi uma concessão fácil. políticas e complexas.. bem como ações coletivas de saúde. Com a evolução dos direitos e da concepção de saúde no Brasil. bem como a busca plena e definitiva de emancipação social”. universal e gratuita. Para reforçar a questão do Direito dos usuários da saúde foi aprovada. De acordo com Barroso (1996. a Carta dos Direitos dos Usuários da Saúde e está publicada na Portaria do Ministério da Saúde nº 675 de 30/03/06.95). O processo histórico do direito tem longo percurso. Estaduais e Municipais ou por entidades a ele vinculadas.45). 2002. com inúmeras conseqüências práticas daí advindas. Na trajetória foram emergindo novas formas de acesso. destituída de qualquer conseqüência jurídica. principalmente na década dos anos noventa chamam a atenção e responsabiliza o Poder Público na garantia dos direitos fundamentais e inerente a vida.de saúde pública. sendo o acesso ordenado e .. representando. O SUS garante atendimento universal. Dentre elas identificamos: Estatuto da Criança e do Adolescente Lei 8069/1990. a constitucionalização do direito à saúde acarretou um aumento formal e material de sua força normativa. clínicas. laboratórios. em 2006. Sistema Único de Saúde Lei 8080/1990. luta contra o capitalismo. p. Lei 9394/1996. O autor Zanetti (2002. através de unidades de saúde como: ambulatórios. o início de um novo processo de mobilização. sem que nada seja cobrado do usuário. o desempenho concreto de sua função social. igualitário e integral a todo cidadão brasileiro que dele necessitar. que está consolidada na Constituição Federal. onde reflete a chegada da classe operária. A proclamação dos direitos representa do ponto de vista histórico [. p. mas extremamente necessário para a garantia de direitos e de sua efetivação (ZANETTI. que nada mais é do que um conjunto de ações de serviços de saúde prestados por órgãos e instituições Federais. teve muitas ações. a aproximação. p. houve necessidade da criação de um sistema unificado. até avançar para o direito universal. Aqui é considerado como a materialização da norma no mundo dos fatos: a realização do direito. qualificar um dado direito como fundamental não significa apenas atribuir-lhe uma importância meramente retórica. Cria-se então o SUS (Sistema Único de Saúde). hospitais públicos.] o prestígio e a legitimação de lutas da sociedade.39) confirma que “os direitos foram conquistados com muitas lutas. também. esse direito é financiado pelo cidadão por meio das contribuições sociais e do pagamento de impostos.

cabendo ao judiciário a intervenção e determinação do processo. Com base na revista Pactos Pela Saúde do MINISTÉRIO DA SAÚDE (2006. Até porque as normas em colisão (previsão orçamentária versus direito fundamental a ser concretizado) estariam no mesmo plano hierárquico. Apesar de a Política Pública ter como princípio o atendimento integral. identifica-se que o cidadão muitas vezes necessita acionar o Ministério Público para garantir um direito já assegurado na Lei 8.organizado nos sistemas de saúde. p. 2006). fazendo valer um dado direito constitucional. Com isso muitas vezes. pois apesar dessas grandes iniciativas. (MINISTÉRIO DA SAÚDE. encontram-se processos de solicitações com justificativas de falta de recursos financeiros. enfatizando o princípio universal e igualitário dos serviços.06) o Sistema Único de Saúde se consolidou por meio do caráter das normativas legais. 2º. Art. por meio da municipalização dos serviços de saúde estabelecida na Norma Operacional Básica – NOB de 01/96 inclui novas formas de gestão aos municípios como: Gestão Plena da Atenção Básica e Gestão Plena do Sistema Municipal. tratamento adequado e efetivo. a exemplo o Poder Judiciário. sendo incapaz de reproduzir a garantia aos cidadãos de seus direitos expressos na CF de 1988. A descentralização político-administrativa. o atendimento acolhedor e livre de discriminação. implementação da Vigilância Sanitária e a implantação do modelo de atenção através dos programas de Saúde da Família (atualmente ESF – Estratégia Saúde da Família). sendo estes organizados de forma descentralizada. assegura as responsabilidades que o cidadão também deve ter para que seu tratamento aconteça de forma adequada.080/90. A mesma estimulou financeiramente os municípios para que assumissem de forma descentralizada as ações da Vigilância Epidemiológica. houve uma revolução no Sistema de Saúde com a implantação do SUS. dar prevalência ao direito fundamental dada a sua superioridade axiológica em relação à regra orçamentária. Como observado. Mediante a perspectiva de atuação e responsabilidade do atendimento a saúde cabendo aos municípios o planejamento previsão orçamentária para efetivação dos direitos sociais. o comprometimento dos gestores para que os princípios anteriores sejam cumpridos. através da criação de uma estrutura inexistente até então. o Poder Público reorganiza seu orçamento no sentido de atender demandas emergentes. Em nosso cotidiano. de acordo com Gouvêa (2007). adequado e aperfeiçoado nesse sistema. o atendimento que respeite os valores e direitos do paciente e preservar sua cidadania durante o tratamento. e quando não atendidas cabe aos demais poderes constituídos. que consagrou a saúde como direito fundamental do ser humano e . o setor ainda apresenta uma carência enorme de recursos. Com certeza ainda há muito que ser feito.

os cofres públicos sofrem grande prejuízo. o cidadão pode recorrer à própria lei e ter seu direito. p. esses prejuízos estão representados pela falta de organização e planejamento da administração. Gandini e Souza (2007. Quando a administração pública é obrigada. O direito a saúde é um processo difícil. Investimentos seguros no campo de saúde implicam em menos gastos de recursos financeiros nas ações que tratam da doença. certamente se obteriam mais qualidade de saúde e vida. Ressalta-se que o SUS é um direito Universal. a população tem se valido do Poder Judiciário para acessar o direito negado. necessitando a população usuária ter que recorrer ao poder judiciário. 2. da falha na assistência em saúde e na ineficiência do SUS. Além disso. 2). num todo. prevenir e assistir a saúde dos cidadãos brasileiros. vai sendo construído um processo de judicialização da saúde. nem sempre acontece conforme garantido em lei. se fossem melhores administrados os recursos. e assim. Desta forma. conforme Barione. assim. Ficando na dependência de informações de profissionais responsáveis que lhes dêem subsídios. e não apenas na estrutura do SUS. Porém. a cumprir indiscriminadamente o que a lei lhe impõe (atendimento médico e outros tipos de assistência). ou seja. o Judiciário tem sido provocado a coagir a administração pública a cumprir um dever constitucional. que não garante investimentos suficientes para atender as demandas da população usuária. identifica-se que o acesso ao direito à saúde. por vias jurisdicionais. porém. dêem conhecimento sobre o acesso aos bens e serviços. da insuficiência de investimento. Outro desafio enfrentado pelos usuários do serviço é .dever do Estado de prover as condições indispensáveis ao seu pleno exercício. Devido a ausência de organização das partes responsáveis e da complexa estrutura administrativa. portanto se os representantes governamentais cumprissem nas administrações públicas suas obrigações na defesa dos direitos fundamentais. JUDICIALIZAÇÃO DA SAÚDE: MECANISMO DE ACESSO A dificuldade e/ou falta de acesso aos recursos de saúde vem colaborando para o processo de judicialização da saúde e vem demonstrando a falta da concretude dos direitos preconizados como universais. vem sobrecarregar na deficiência do direito ao acesso a saúde. como também não investe na qualidade devida para promover. o exercício do direito à Saúde. Com a negação desse direito. em virtude da violação do direito. garantindo. principalmente no acesso da população que está socialmente com seus direitos violados. a população não sofreria o desgaste da espera pelo atendimento e a morosidade do judiciário para acessar os direitos constituídos.

a população empobrecida não consegue acessar o produto. para acessar recursos. Então. p. dominada pela indústria farmacêutica que induz o sujeito a fazer uso abusivo da medicação. p. Por outro lado. O Estado. Sendo assim. o uso de remédios que na mídia faz milagres induzindo o sujeito a fazer uso desta medicação. A negação do acesso ao medicamento coloca o usuário dos serviços do SUS na rede mercadológica de saúde. Este fator abusivo faz com que a população que tem melhores posses financeiras faça uso descontrolado de medicamentos sem conhecimento das reações adversas e suas conseqüências.a falta de conhecimento dos direitos fundamentais. outdoors. Tornando a saúde como mercadoria a indústria farmacêutica se apropria do valor de troca. mas para seu acúmulo de capital.98). Maior exemplo da mercantilização da saúde é a indústria farmacêutica. Quando isso acontece. o cidadão fica a mercê da mercantilização da saúde. envelhecimento. ausência do desejo sexual. Conforme Léfevre (1991. no modo de produção capitalista a saúde é considerada como mercadoria. Fica por conta dos órgãos de defesa dos direitos a determinação do acesso a um recurso necessário para obter a cura de uma doença. isentando-se de sua função de suprir a população em suas necessidades de saúde. seu trabalho. não como um bem para o cidadão. pois exigem informações específicas. Referendados em Léfevre (1991. Com . Com a negação ou sonegação do direito a saúde e morosidade do sistema judiciário. representam muito bem a saúde como bem de consumo. para a cura de suas doenças e/ou de seus familiares. muitos cidadãos optam por desfazer-se de bens como: sua própria residência. a obesidade. mais uma vez. Léfevre (1991. para suprir suas necessidades (doença). se firmando uma dupla violação de seus direitos: de acesso a riqueza social e do reconhecimento do direito social do cidadão brasileiro. A propaganda faz com que o sujeito submeta sua saúde como uma mercadoria. p. Exemplificando. pode-se dizer que a saúde no Brasil é “uma resultante da sociedade na condição de máquina de produção de mercadoria”. Na ausência do Estado. não atende as necessidades da população por considerar o medicamento uma mercadoria. entende-se que a sociedade capitalista tem um olhar para a saúde como um ente exterior entendendo-a como mercadoria.96). quem mais sofre é a população com maior vulnerabilidade social e econômica e é ela que mais tem dificuldade em acessar o produto (medicamento) para satisfazer necessidades de saúde e de vida com qualidade.102) nos mostra que as propagandas como: meios de comunicação. por sua vez. pode-se dizer que é o reverso do direito.

o valor de uso torna-se um valor de troca e a saúde como um motor de produção. ou seja que não se trata de um favor. há indícios de ausência de comprometimento de alguns profissionais para orientações e encaminhamentos adequados para garantia do direito. Aracajú. conseguiram incorporar o entendimento do direito a saúde. usuários e gestores. Piraí e Porto Alegre. conselheiros. pois pagando ou seus impostos são pessoas portadoras de direito. que a saúde é um “Direito de todos e dever do Estado”. na história das Constituições Nacionais foi incluído dentre os direitos fundamentais. os autores entendem a saúde como direito universal. contrastando com a fala dos profissionais que relatam o estímulo ao empoderamento e a cidadania. ávidos para manter sua saúde ou suas vaidades. esquecem-se do seu “eu”.o poder capitalista. O importante é saber que há aqueles. No Plantão Social também foi identificado que o usuário refere-se ao direito não só do acesso aos serviços e a medicação. os poucos recursos empregados na educação em saúde não consegue competir com os recursos das indústrias farmacêuticas. inclusive tendo previsto em seu artigo 196. . porém. Retomando sobre a questão da judicialização da saúde. Muitos usuários do SUS desconhecem o direito a saúde e a força que possuem para fazer com que esses direitos se concretizem. superando a concepção de benesse do Estado. Contudo. Por outro. os usuários do sistema nem sempre conhecem seus direitos. a indústria farmacêutica aumenta sua produção. sendo que. Rio de Janeiro. mas também de um atendimento de qualidade por parte dos profissionais de saúde. que penetram no subconsciente do sujeito. para que este direito se efetue muitos desafios ainda têm que serem enfrentados. informações adquiridas em cinco lugares: Belo Horizonte. que na prática da judicialização. CONSIDERAÇÕES FINAIS O direito a saúde. a Constituição objetivou dar o máximo de efetividade ao mesmo. Deste modo. mais do que o simples reconhecimento de tal direito. Nesta pesquisa. no modo como são acolhidos em suas necessidades. Asensi e Pinheiro (2010). querem fazer de sua pessoa aquilo que a sociedade determina como padrão de saúde e beleza. pela primeira vez. porém. apresentam uma pesquisa sobre a prática do direito e o direito no exercício profissional de trabalhadores da saúde. Mostram que mais um direito está sendo violado. Com as propagandas de remédios milagrosos. A crítica feita aos profissionais pelos usuários onde identificam que estes se posicionam como obstáculo ao exercício de sua cidadania.

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