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Travessuras de um frade sodomita no Convento das Mercês de Belém do Pará (1652-1658

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Luiz Mott**

Resumo: A partir de processos inquisitoriais este artigo procura desvendar a trajetória de um frade sodomita do século XVII, e ao mesmo tempo revelar aspectos da vida dos religiosos e do convento das Mercês da cidade de Belém. Palavras-chave: Ordem das Mercês; sodomia; Belém do Pará; século XVII Abstract: This article focuses on the history of a sodomite mercedarian father in seventeenth-century Belém do Pará (Brazil). From the inquisitorial records which tell his story, it also discusses aspects of conventual life in Belém. Key-words: Order of Mercy; sodomy; Belém do Pará; seventeenth century
“O primeiro e fundamental ensinamento do evangelho é que as terras [do Pará] sejam povoadas com gente de melhores costumes e verdadeiramente cristã, para que por seu exemplo e imitação se convertam os gentios”. Padre Antonio Vieira, 1662

Agradeço cordialmente à historiadora Moema Alves pela generosa indicação e oferta de diversas obras e substantivos documentos sobre os Mercedários e sobre a história colonial do Pará. Minha gratidão igualmente ao Dr. Aldrin Figueiredo, da UFPA. Este texto fez parte da programação do evento: Tesouros da Memória: em comemoração aos 200 anos do Ministério da Fazenda, realizado em Belém, em 2008. ** Professor aposentado da Universidade Federal da Bahia.
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Vol. IV, n° 2, 2009, p. 11-35

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Introdução A Real, Celestial e Militar Ordem de Nossa Senhora das Mercês e Redenção dos Cativos, fundada na Catedral de Barcelona, em 1218, por São Pedro Nolasco, com o apoio do Rei Jaime I e tendo São Raimundo Nonato como seu principal orago, teve valoroso destaque na ação missionária no Novo Mundo, constando que frades Mercedários teriam acompanhado Cristóvão Colombo em sua segunda viagem à América (1493), o mesmo ocorrendo com Fernão Cortez no México (1519). Antes de chegar a Belém do Pará, em 1639, os Mercedários já haviam se instalado na Nicarágua (1528), Peru (1535), Equador (1540), Guatemala (1548), Argentina (1557), Chile (1566) e México (1582).1 Em Portugal, os membros da Ordem de Nossa Senhora da Mercê ou das Mercês eram conhecidos como “mercenários”, tendo chegado os primeiros religiosos em 1284, acompanhando a rainha Santa Isabel; manteriamum convento em Lisboa até 1504, recebendo, contudo, secular oposição da Ordem da Santíssima Trindade, que no Reino tinha o monopólio da redenção dos cativos. Tentaram estabelecer-se na capela de Nossa Senhora da Glória em Lisboa, mas El Rei ordenou que se retirassem; expulsão revogada em 1636.2 É por esta quadra que chegam ao Brasil os primeiros Mercedários vindos, não de Portugal, mas do Vice-Reino do Peru, da cidade de Quito no Equador, na histórica expedição exploratória do Rio Amazonas, comandada pelo depois capitão-mor do Pará, Pedro Teixeira.3 Já instalados há um século no Equador, os Mercedários do Convento de Quito enviaram nessa expedição quatro religiosos ao “Brasil Filipino”, tendo como superior Frei Afonso de Armijo, quitenho, que falece durante a viagem, vindo a ser enterrado às margens do rio das Amazonas, sendo secundado por Frei Pedro de la Rua Cirne, e mais dois irmãos leigos, Frei João da Mercê e Frei Diogo da Conceição. Após dez meses de viagem pelo rio Amazonas abaixo, aportaram em Santa Maria de Belém aos 12 de dezembro de 1639, dia de Santo Alexandre, coincidentemente, cujas relíquias serão anos mais tarde, solenemente intronizadas nesta mesma cidade. De acordo com a “Notícia da fundação deste Convento de Nossa Senhora das Merces desta Cidade de Santa Maria de Belem do Grão-Pará... extraido tudo que se pode alcançar dos documetnos que se acham no arquivo do dito
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a qual obra se conservou desde 1640 até 1748. documentação inédita corrige esta opinião até então consagrada. ficando a capela mor para o noroeste. Após a independência de Portugal e do Brasil do domínio filipino (1640). onde obtem de D. posteriormente conhecida como Marajó. feita pelos primeiros fundadores e ajuda de alguns cidadãos. trouxeram os Mercedários “todos os ornamentos necessários para fundar convento e dar hábitos. junto ao rio da cidade. quando se deu principio à reforma”. o superior Frei Pedro de la Rua Cirne vai a Lisboa. posto que entre a primitiva construção original de taipa e os edifícios monumentais do século XVIII. com o frontispício da igreja contra o sueste. em troca da obrigação de rezarem uma missa mensal pelo bom descanso da alma deste generoso doador. utilizando-se para tanto “pedra e cal”. como os Mercedários estavam originalmente associados ao Vice-Reino do Peru. o qual oferta também sete vacas aos religiosos. datado de 9 Revista Estudos Amazônicos  13 .Convento no ano de 1784”. Este pequeno plantel vacum multiplicou-se maravilhosamente nas riquíssimas fazendas dos mercedários. foi feita tal e qual a permitiam aqueles tempos. assim como várias cruzes de prata e algumas imagens” doados pelo bispo do Equador. tendo atrás da capela mor um forte que tem por título São Nolasco. para dirimir dúvidas quanto à sua fidelidade à Coroa Lusitana e à América Portuguesa.7 Como veremos adiante. João IV alvará. houve importante reconstrução deste Convento.5 Consta que já em março de 1640 estava iniciada a fundação do Convento na Feliz Lusitânia “no local a que chamam Campina. sendo que a fábrica desta igreja e fundação do dito convento.4 Tem logo início a fundação do convento nos chãos das casas doados por Mateus Cabral.6 As primeiras construções dos Mercedários de Belém teriam sido feitas em taipa de mão ou de sopapo. notadamente na Ilha de Johanes. depois melhoradas com paredes de taipa de pilão.

. a ambição pela necessidade. Há uma grande lacuna de dados relativa à segunda metade do século XVII. apesar de seu arcabouço de taipa de pilão e da cobertura de palha. traz novos e picantes detalhes sobre o cotidiano desta comunidade religiosa.de dezembro de 1645. já que se trata de uma denúncia relativa ao abominável e nefando pecado de sodomia.8 A descoberta na Torre do Tombo de um processo da Inquisição de 96 folhas contra o superior do Convento Mercedário de Belém. humores em que se pecou sempre a fatal constituição e harmonia do corpo político do Grão-Pará” Padre José de Moraes.9 Segundo tradição milenar da Igreja Católica Romana. Frei Lucas de Souza. faltando dados elementares sobre a vida mercedária: nomes dos frades que aí viveram. O máximo que sabemos é que “mais de um século durou a primitiva igreja de Nossa Senhora das Mercês. e de mais três processos contra seus supostos amantes. período crucial na consolidação desta Ordem na Amazônia. o denunciado e dois de seus “cúmplices” tiveram papel crucial na história arquitetônica do Convento das Mercês de Belém do Pará: são nada mais nada menos. legalizando a permanêcia da Ordem no Pará e Maranhão. Comendador dos Mercedários de Belém do Pará “Tempos críticos! sendo mal que tocava a muitos. 1. Mais ainda: coincidentemente.J. datado de 1656. e ao receber o hábito religioso. o “oleiro” e “oficial de pedreiro” da primeira versão “em pedra e cal” desta secular construção sacra belenense. Os padres tinham o cuidado de conservá-la e de introduzir reparos”. que o “construtor”. a vida conventual era considerada mais perfeita que a matrimonial. sua hierarquia e as instalações conventuais. todos os noviços eram obrigados a fazer três 14  Revista Estudos Amazônicos . S. 1759. a sensualidade pelo clima. Pouquíssimas informações relatam os historiadores sobre as primeiras décadas de permanência dos Mercedários nesta região.

cometeu pela primeira vez o pecado de sodomia. Seu processo. onde viveu por 15 anos. Aí. apelidavam à homossexualidade de “vício de clérigo”. com o qual não passaram de “molices”. superior do Convento de Nossa Senhora das Mercês de Belém do Pará no ano de 1656 é um típico exemplo dos muitos frades no mundo lusobrasileiro. atos homoeróticos sem penetração anal. trigueiro de cara”. sendo denunciado e processado pelo Santo Ofício da Inquisição pela infâmia de cometer o abominável e nefando pecado de sodomia. marcou seu sotaque. no distrito de Évora. Frei Lucas de Souza. tomando o hábito na Ordem de Nossa Senhora das Mercês em Castela. além dos detalhes sobre as incontinências fradescas. quase duas décadas depois de sua instalação em Belém do Pará. ora como agente. ora como paciente”. Nessa época. com o qual disse ter Revista Estudos Amazônicos  15 . “pouca barba. além de visitar Nápoles. Além de ter viajado pelo exterior. assim como de três de seus supostos cúmplices residentes na Capitania do Pará. encontra-se na Torre do Tombo (Lisboa). os luso-brasileiros do povo e também os inquisidores acreditavam que Roma e a Itália eram réplicas vivas de Sodoma e Gomorra. Frei Lucas diz ter vivido 15 anos em Roma. por volta de 1591. Naquela época. refletindo a forte presença do “amor que não ousava dizer o nome” no interior da Igreja.11 O ter vivido mais da metade de sua vida no exterior. por ele referido como Manuel Meireles. permite-nos pinçar algumas informações inéditas sobre o patrimônio e cotidiano da Ordem Mercedária na Amazônia. Primeiro estudou latim. No segundo quartel do século XVII. Aí conheceu seu amante mais constante. Frei Lucas de Souza10 nasceu em Louredo. e o simples fato de alguém passar por aquela terra. Sevilha. como observou um seu contemporâneo de Belém: “fala como estrangeiro”. “pouco depois de fazer a profissão dos votos”. “praticando-o muitas vezes. da mesma ordem.votos perpétuos: pobreza. em toda cristandade. no Bispado do Porto. andou também por algumas partes de Portugal: pelo ano de 1645. relacionando-se carnalmente com um jovem soldado. filho de Miguel de Souza e Maria da Silva. castidade e obediência. castelhano de nação. esteve na vila de Estremoz. Simão Vaz. tendo como parceiro Frei Simão. que descumpriram acintosamente seus votos religiosos. já era suspeito de ter praticado o homoerotismo. Gibraltar e a França “de passagem”. Antônio Ferreira e com um moço alentejano de Elvas. e sua leitura.

pois em 1653. deixava muito a desejar. os 16  Revista Estudos Amazônicos . que com os emolumentos da Paróquia. 23 anos. Ensina este douto cronista que ao chegarem os inacianos em Belém. desmantelados e velhos. A única referência a Frei Lucas na bibliografia paraense até agora localizada está na insuperável História da Companhia de Jesus na extincta Província do Maranhão e Pará. Foi este mesmo rapaz. mas que devido à animosidade dos colonos revoltados contra a oposição feita pelos jesuítas à escravização dos índios. em 1656. “mudaram-se para o Convento das Mercês onde foram tratados com grande caridade. quem primeiro denunciou o mercedário.12 Apesar de esta igreja ser o templo mais importante desta cidade. João IV. já podia acudir aos gastos. primor e carinho”! Diz mais: que teria sido o Padre Souto Maior. superior da Companhia em Belém. sustentada em uns poucos esteios. Nossa Senhora da Graça. a citada licença para os Mercedários conservarem seu convento no Pará “por não terem [alvará] até aquele tempo. nos Estaus do Santo Ofício de Lisboa. “sempre como paciente”. e o seu convento era demasiadamente pobre e para que a dita pobreza não retardasse a obra. “catorze anos havia que o Pará tinha como Matriz uma pobríssima igreja. incluindo uma estada em Lisboa. e adiantar a ajuda dos fregueses à obra de seu convento”. que se auto-identificou como Manuel de Brito Monteiro. quem alcançara de D. temendo ter a casa queimada. nomeou vigário da Matriz ao Reverendíssimo Comendador das Mercês. incluindo mais de 250 atos sodomíticos. lugar mais propício de um estábulo do que de um templo”. instalaram-se inicialmente “num terreno pertencente à esclarecida Ordem de Nossa Senhora das Mercês.mantido uma relação de dois anos. onde fundaram uma pequena casa coberta de palha com sua capelinha. pelos poderes que tinha o Ilustríssimo Cabido da Bahia. Nada dizem os documentos sobre a transferência deste mercedário para a Amazônia: deve ter chegado a Belém no segundo semestre do ano do Senhor de 1652.13 Mesmo assim. em 1652. de autoria do jesuíta José de Moraes (1759). o Padre Frei Lucas de Souza.

e a do vigário da matriz certamente devia ser mais elevada. guerras sangrentas contra os índios. seus insignes benfeitores”. pelo ditar os religiosos mercedários. tendo como estopim o revanchismo nacionalista lusitano. sobretudo nos meados dos seiscentos. notamos que esta região da América Portuguesa enfrentou graves episódios dramáticos e crises sociais. eis que em 1653 eclode um sério conflito no interior da comunidade mercedária. Como os Mercedários de Belém vieram originalmente de Quito. no Vice Reino do Peru. etc.. demonstrando que a instabilidade e insegurança faziam parte crucial do dia a dia dos primeiros povoadores desta frente pioneira amazônica. persistindo sempre a mesma suspeita de traição nacional por parte dos antigos vassalos da coroa castelhana vivendo em terras luso-brasileiras. sem falar nas espórtulas arrecadas com a celebração da missa e dos demais sacramentos. malgrado o citado voto de confiança dado por El Rei aos ditos religiosos castelhanos em 1645.15 Se tomarmos apenas o período destas duas primeiras décadas desde que os Mercedários se instalaram no Pará. enfrentou igualmente duas crises seriíssimas cujos desdobramentos chegaram à Metrópole. pretende frei Lucas de Souza. a Ordem das Mercês. permanecendo no Pará mesmo depois da Restauração. incluindo ameaça dos invasores holandeses. Diz o Conselho Ultramarino que “pela petição inclusa e papéis a esta juntos. Na época. tendo como epicentro nosso controverso biografado.14 Consta ainda que o superior dos jesuítas “dava lição de retórica e filosofia aos religiosos das Mercês e no púlpito instruía aos filhos dos portugueses.16 Porem. prisão do Padre Vieira. religioso da Ordem Revista Estudos Amazônicos  17 . sublevação contra os jesuítas.estipêndios auferidos com tal vigaria não deviam ser desprezíveis. A primeira tensão remete-nos aos conflitos intestinos da América Portuguesa logo após a restauração do Reino de Portugal passados os sessenta anos de dominação espanhola (1580-1640). Frei Lucas de Souza. sendo a maior parte deles espanhóis ou quitenhos. a côngrua anual de um missionário era 35$000. etc. além de ter aumentado significativamente seu patrimônio17. malgrado tanta agitação e instabilidade política e social. prisão e morte de autoridades civis e militares.

de pedra e cal. Frei Lucas de Souza. desembarca em Belém o Padre Antonio Vieira. Com certeza Vieira deve ter encontrado diversas vezes e palestrado com o Vigário da Matriz. apenas paramentos decentes. do Convento que tem na Capitania do Pará. descrevendo-a como “quatro choupanas [de palha] com nome de cidade de Belém”. provavelmente na Matriz. mostrar que foi a ele enviado por Vossa Majestade. E pede o dito Frei Lucas a Vossa Majestade o mande restituir a sua ocupação”. alguns livros. por alguns religiosos parciais de Castela. era virtuosamente austero. vivendo os padres em suas aldeias pobremente: “em suas choupanas não encontraram nem ouro nem prata. chamado Frei João Carrasco de Alfaro. com celas de paredes de taipas e telhas vãs. Era então capitão-mor do Pará. e que foi mal tirado de seu cargo e mal eleito um religioso castelhano. filhos da terra e de seus conquistadores. muito embora tudo muito rústico e pobre. além de pregar em língua brasílica para os índios escravizados. 18  Revista Estudos Amazônicos . aos 5 de outubro 1653. outro tanto de tijolo e telha. 18 O despacho desta petição.da Mercê. segundo Vieira. foi totalmente favorável ao frade lusitano: “El Rey determina ao capitãomor do Pará que faça restituir a Frei Lucas de Souza seu cargo por não ser conveniente que o exercite um castelhano”. e aos sábados participava da recitação do terço em coro. que é referida pelo homiliasta de forma extremamente depreciativa no Sermão da Epifania. Dois meses após esta decisão. o serviço que tem feito na reformação do mesmo convento e aceitação de noviços. mas já alguns templos e prédios públicos. O passadio dos religiosos. a maioria de taipa. passando a pregar sermões aos domingos e dias santos. Inácio do Rego Barreto.19 Certamente a capital do Pará no terceiro quartel dos seiscentos ostentava dezenas de residências. nesta pequeníssima Belém. datado de 25 de agosto de 1653. o principal templo belenense.

O Sodomita Frei Lucas de Souza “Sodoma quer dizer traição. que sob juramento com as mãos sobre os Santos Evangelhos. e lucrativa carreira eclesiástica. comprometem-se a dizer Revista Estudos Amazônicos  19 . calçado de peles de veados e porco montês”. tudo leva a crer que os Mercedários não observavam esta mesma “pobreza franciscana”. autoridade eclesiástica máxima à qual Belém foi sufragânea até a criação do Bispado do Pará (1719)21. e “Comendador”. coadjutor de alguns párocos e capelão da Confraria de Nossa Senhora do Rosário e São João”. o responsável pela administração das rendas e benefícios da ordem religiosa. Gomorra. “Prelado”. Uma rápida. O Vigário Geral e Visitador da Prelazia do Maranhão. aos 28 de fevereiro de 1658. eclode em Belém um segundo imbróglio ainda mais estrondoso. Lisboa. posto também referido como “ecônomo” em outros sodalícios.20 Como veremos. Prelado e Comendador de seu Convento. nos guarda-roupas se acharam alguns mantéus e sotainas remendadas de algodão grosseiro. 1645. envolvendo o Prelado do Convento das Mercês: Frei Lucas Souza é formalmente acusado de praticar o abominável e nefando crime de sodomia. patrimônio amealhado no desempenho dos cargos de Vigário da Matriz de Belém. rebelião”. determina o início de um sumário de culpas contra o acusado.catecismos. São convocadas e ouvidas nove testemunhas. constavam diversos pertences caros e mais apropriados à elite do que a um frade mendicante. além do que auferiu como “capelão dos soldados muito tempo. 2. cilícios e uma tábua ou rede em lugar de camas. Após meia década no Novo Mundo. na ordem das Mercês. disciplina. Padre Domingos Vaz Correa. tinto de lama. Sermão do Auto de Fé. era título equivalente ao de prior ou superior conventual. já que no inventário dos bens de Frei Lucas.

este frade gay24 comprova exatamente o contrário: era tão ousado e notoriamente homossexual que até os moços belenenses evitavam ir à portaria do convento. Outra testemunha. as tais cartas de amor “como de um amante para sua dama”. 33 anos. Embora vivendo um amor proibido. Estas denúncias contra Frei Lucas desconstroem o estereótipo preconceituoso – endossado equivocadamente por Michel Foucault23 e pela teoria “construcionista”. restringindo-se à prática clandestina da cópula anal. julgado como o rigor máximo pelo Tribunal do Santo Ofício. O prolongado romance de Frei Lucas com o oleiro açoriano era “público”. abraços e beijos. de joelhos. como cartas de amor. que entregava os réus à justiça secular para serem queimados publicamente. incluindo apaixonadas demonstrações de carinho. crime equiparado ao regicídio e à traição nacional. e que depois fizeram por detrás”. que “três ou quatro vezes fizera a ponheta com Manuel Gonçalves. amor. na recôndita Amazônia. qualificado pela teologia moral e pelos Códigos Manuelino e Filipino como pecado mortal. Manuel Gonçalves. Já nos meados do século XVII. sem laços amorosos estáveis e sem qualquer identidade afirmativa existencial. este gay mercedário sessentão não escondia sua paixão criminosa. O primeiro a ser ouvido é o sargento-mor de Belém. um seu confrade dissera: “queimem este padre sumítigo!”. ouvindoo dizer ao Comissário. natural dos Açores. manifestações de carinho na frente de terceiros e sedicioso discurso afirmativo. acrescentando que Frei Lucas tinha “notável ódio a quem escandalizava a Manuel Gonçalves” e que os moços da cidade de Belém deixavam de ir à portaria do convento para evitar serem assediados pelo religioso. disse ser notório que Frei Lucas e o oleiro “se abraçavam e beijavam”. que declara ser público que Frei Lucas mantinha relação íntima com um oleiro português. ao declarar. e que o então Comissário da Ordem das Mercês encontrara uma carta assinada pelo acusado a seu amante que terminava assim: “Amor. 23 anos.apenas a verdade e guardar segredo. cenas de ciúmes e de paixão.22 Outra testemunha delata que os religiosos se queixavam que Frei Lucas “tudo dava ao oleiro” e que ao ver a dita carta. de que os “sodomitas” pré-modernos eram meros sujeitos jurídicos. malgrado tanta condenação. amor”. astutamente. Gaspar Correa de Souza. temendo seus assédios libidinosos. ao primeiro 20  Revista Estudos Amazônicos . escrivão da fazenda Real de Belém. João Velho da Silveira. deixando provas gravíssimas de seu delito.

caso fosse preso por sodomia. chamando a seu superior de “tirano”. suplicando-lhe que queimasse os escritos”. além dos conluios e maquinações tocantes à sucessão dos cargos no comando conventual. Frei João de Andrade. por sua vez.amante ainda no Reino. esteve perto de ser esfaqueado por homens que se sentiram acintosamente ultrajados. um alfaiate de 37 anos diz que ao receber três cartas com palavras desonestas do religioso. é como a homofobia. a animosidade reinante na comunidade mercedária de Belém estava muito longe dos ideais de virtude e fraternidade previstos pelas regras canônicas de Santo Agostinho. já impregnava fortemente a sociedade luso-amazônica desde seus primórdios. mas encontrando-se com outro frade. que “Deus tinha culpa de lhe dar o que lhe deu… e que tinha no vaso traseiro natura de mulher e portanto era mais inclinado a homens de que a mulheres”. conspurca frontalmente os ideais evangélicos o tom agressivo como tais religiosos se tratavam: testemunhas observaram que Frei Lucas tinha “notável ódio” aos demais correligionários que “escandalizavam” seu amante. Quando menos por duas vezes o frade sodomita. foi “com uma faca na mão para tomar satisfação desta afronta. e mais recentemente. quando por ele cortejados. malgrado seu elevado status sacerdotal e a pena de excomunhão prevista para quem agredisse um religioso. “viera fugido de Castela e se ordenara no reino de Portugal. e que os sexólogos a partir do século XIX chamam de “homossexual constitucional”. Um destes. maltratar alguém por palavras ou ações”. “Escandalizar” naquela época significava “ofender. que “mais e mais companheiros havia de ter”. sendo Frei Lucas frade leigo. era abusivamente desbocado. e por ter morrido o primeiro comissário e ser ele de natural sagaz e Revista Estudos Amazônicos  21 .25 Outro aspecto não menos crucial revelado por este processo. Como se patenteou acima. O frade sodomita. Frei Lucas era o que os Inquisidores chamavam de “sodomita incorrigível”. Aliás. este o dissuadiu. insultando aos frades seus opositores a ponto de proclamar que “todos haviam de beijar o sesso” (ânus) de seu amante! É com razão que o Padre Vieira denunciava a indisciplina e mau exemplo dado pelo clero na Amazônia! Péssima era a opinião dos mercedários sobre nosso frade sodomita: segundo o então Comissário Geral da Ordem. esta virulenta intolerância à homossexualidade.

presenteando-o com calções estofados. disse ter ouvido contar que ainda em Lisboa. um dos escravos de Frei Lucas. que o Prior das Mercês conseguira com o capitão-mor de Belém que mandasse de volta ao oleiro para o Maranhão a fazer vida com sua mulher. Que obrigava aos frades coristas servirem a seu amante. ele mesmo as lavava porque tinham muitos ranhos de sangue. “e mesmo quando era prelado do convento. limpando-lhe a espada e o mais que lhe era necessário. além de idiota! Mais detalhes contam as testemunhas sobre as estripulias deste casal de fanchonos: o índio Barriga. mulher do dito oleiro. “chamava a seu marido de puta de Frei Lucas”.o mercedário sodomita teve um amante. Que em vez de entregar a roupa do oleiro para as negras lavarem. Foi na época em que seu amásio estava no Gurupi. metendo fora da fazenda do convento a duas índias por esta causa”. acusam 22  Revista Estudos Amazônicos . se punha a fazer lavores (bordados) e outras coisas curiosas em roupa branca para o dito oleiro. Contou que Frei Lucas e seu amado oleiro comiam no mesmo prato. Que fazia grandes roubos no convento para dar ao parceiro “e o rogava muito para não andar com mulheres. que ia à cozinha preparar-lhe o de comer. cometendo com ele o nefando. “estava sempre dando suspiros”. ocasião em que Frei Lucas alugou-lhe uma casa defronte às Mercês. Manuel Meireles. E retornando a Belém. e quando este lia as missivas de seu amante. o Prelado não permitiu mais a entrada do oleiro no convento. com o qual fazia muitos gastos como se fosse morgado muito rico. com grandes ciúmes. Além do gravíssimo e abominável crime de sodomia. que recebera as tais comprometedoras cartas do frade. do que o frade mostrava grande sentimento”. assim em galas como em comeres”. sendo que Frei Lucas “quase endoidecera e não descansara até que não desse ordem para tornar o dito oleiro”. “o qual vendo-se desesperado. Frei João Carrasco de Alfaro – o mesmo acusado de usurpar há cinco anos passados seu cargo de Comendador. suposto que idiota. disse que “o oleiro batia com uma espada na janela do frade e subia por uma escada de corda pela janela que dá para a rua e apagavam a candeia quando entrava”. Um falsário e usurpador. Informa mais. Acrescentou que Maria Nunes. e que o frade lhe costurava as ceroulas com suas próprias mãos. “mandando a Frei Manuel de Sampaio que lavasse o traseiro ao dito oleiro”. se casara e se embarcara para a Índia.astuto. se introduziu prelado nestas novas plantas que aqui estavam”.

Que o Padre Antônio dos Anjos. de que não iria ter mais nada com o oleiro. Consta que quando o citado Comissário chegou ao convento para proceder à sua prisão. Que tinha na cela. foi ele quem primeiro “recebeu queixas de pessoas mais nobres deste estado do Maranhao. e que sabia isto desde novembro de 1657. uma tábua secreta onde escondia o oleiro. as índias chamavam-no de “mulher de Frei Lucas” e que as negras que lhes lavavam a roupa. Frei Lucas já havia queimado a escada de cordas pela qual subia o amásio à sua cela. trouxera essas toadas do governador André Vidal de Negreiros e do capitão-mor do Pará. Gurupi e Grão Pará e que já no Brasil. diziam que ambos praticavam “somitigarias”. no chão. de sua mesma Ordem. e que na fazenda do convento. De acordo com Frei Francisco de Andrade. de cor. certa vez lhe Revista Estudos Amazônicos  23 . sendo as culpas bastantes para ser preso. também na Quaresma”. Para não se infamar a religião [das Mercês] e haver na cidade de Belém grande escândalo e ser o delato muito infamado do crime. depois cortou a barba e recebeu a comunhão na 5ª feira de Endoenças. Luiz Pimenta de Morais. Uma testemunha diz que o frade dava-lhe meias de seda. Frei Francisco da Natividade. donde viera. e já em fevereiro de 1658 devassava Frei Lucas. não cumpriu o tratado: passados poucos dias. o qual pediu confissão com um religioso que não fosse da casa. estavam de novo juntos. o Ordinário do Estado do Maranhão mandou prender”. depois que fora proibido de entrar nas Mercês e que após jurar nas mãos da imagem de Nossa Senhora das Mortes e nas do Comissário. e o confessou o prelado do Convento Capucho de Santo Antonio.Frei Lucas de pecaminoso desrespeito aos mandamentos da Igreja: “come carne todos os dias. pelas marcas que nela viam. na qualidade de prelado maior da ordem. o qual andou muitos dias o confessando. Comissário Geral das Mercês. 52 anos.

ao ser inquirido por seus superiores na sacristia conventual. razão pela qual o Vigário e Visitador Geral ordena prender com grilhões na Fortaleza de Belém ao oleiro Manuel Gonçalves. se tornar a falar nisso”. “diante da imagem de Nossa Senhora Mãe Santíssima e perante o Padre Geral. Como sempre. puxandolhe uma espada. prometeu que nunca mais falaria. voltando a reencontrar secretamente seu amásio. o Vigário Geral e Visitador conclui que as denuncias eram suficientes para que os dois réus fossem remetidos ao Tribunal do Santo Ofício de Lisboa. e que se murmura disto grandemente e que a mim e a todos os frades nos dá em que entender”. a corda rompia primeiramente do lado mais fraco. os mercedários entregam à justiça eclesiástica este filho indigno de Nossa Senhora das Mercês. [convicto no vício nefando]. 24  Revista Estudos Amazônicos . reclamando estar sendo preso sem culpa. inimigo do gênero humano. e este. Revoltado. ratifica-se que o frade delatado mantinha de fato “uma amizade ilícita e escandalosa com um baixo oleiro”. ao que o Visitador retrucou ser tal pecado da alçada do Santo Ofício e que se não entregasse o indiciado. Aos 15 de abril de 1658. hei de lhe tirar vinte vidas se tantas tiver. com grandíssimo escândalo”.disse: “Padre Comendador. Consta que inicialmente o Prelado do Convento das Mercês. Já que opor-se a uma diligência inquisitorial era considerado grave crime. “Mas como seu coração estava possuído do demônio. olhe vossa paternidade que esta conversação que tem com este homem é estranhada. não queria entregar Frei Lucas à autoridade eclesiástica. justificando que as regras de sua Ordem estabeleciam uma punição específica contra os que vitio carnis nefario convictussit. o comeria a bocados”. cometera a um castelhano para o nefando. após nove meses de confinamento na cela forte de seu próprio convento. Aos 2 de junho desse mesmo ano. após serem ouvidas nove testemunhas. Contou mais: que ficava na rede brincando a falar palavras torpes com seu amante. Quanto a Frei Lucas. após tais diligências. teria de explicar a recusa ao Tribunal da Inquisição. Frei Lucas chama ao Superior de tirano. concluso o Sumário de Culpas. não desistiu de sua diabólica tenção. ao que Frei Lucas lhe respondera “que se calasse se não lhe cortaria a língua e lha arrancaria fora”. nem iria ver o oleiro e quem lhe falasse dele. asseverando que “no Maracanã. lhe dissera: Ah! puto frade. obedientemente. antes a aumentava. recém-chegado de Roma. Foi então destituído do posto de Comendador.

uma tábua secreta onde escondia [a escada de corda] e o oleiro”: se de fato sua cela era no andar superior do convento. conforme acima referido. A abundância de madeiras de lei na região permitia reforçar ainda mais o “esqueleto” do prédio.26 Sobre o prédio conventual. Pode ser. portanto. permitindo-nos conjecturar que o tabuado do teto do andar térreo. contudo as paredes divisórias de taipa. para fazer tijolo e telha para o Convento”. já que pouquíssimo se conhece até então sobre esta ordem religiosa relativamente às primeiras décadas após sua fundação.Escorados neste Processo da Torre do Tombo. entre um e outro tabuado. ou mesmo de pedra e cal. o oficial de pedreiro Felício Jorge. o bastante resistente para suportar o peso das pessoas e mobiliário. dá-nos preciosa informação: “sabe que frei Lucas principiou e fez o convento de sua religião de Nossa Senhora das Mercês de pedra e cal e o fez com sua agência”. depois de preso. serviria de soalho para o segundo piso. as quais se mantêm de pé até hoje. podemos pinçar significativos detalhes sobre a história e o cotidiano do Convento das Mercês. necessitando de uma espada para bater na janela. Um outro informante. Diz um informante que Frei Lucas “tinha na cela. mantendo. como assim se mantiveram quando de sua reforma monumental. que se tratava de um cenóbio com o pé direito bastante elevado. cobrindo assim uma lacuna na historiografia paraense. que já em 1658. ser este vão. portanto. quem sabe. como o Recolhimento e Igreja de Nossa Senhora da Luz em São Paulo. haveria então dois pavimentos de tábuas. ou quando menos. Deveria. as primeiras de sopapo. com madeirame mais fino. construída por São Frei Galvão. e a soalhada do sobrado. sustentado por algumas pilastras ou colunas mais sólidas de tijolo. estando as janelas das celas a mais de dois metros do rés do chão – aliás. depois de pilão. O próprio oleiro. que era usado como esconderijo do oleiro. o fato de o amante do frade usar uma escada de corda para escalar até a cela do religioso. viabilizando a construção do assoalhado no piso superior do sobrado. no chão. Comendador e Prelado das Mercês. informou “que fora contratado por Frei Lucas. sendo. como atestam algumas seculares igrejas barrocas de pau-a-pique.27 O fato de se tratar de um imóvel de taipa não inviabiliza a construção sólida de um segundo ou até mais andares. quando do início deste Revista Estudos Amazônicos  25 . que serviria de teto para o andar térreo. o de baixo. sugere que já nesta época (1656) tal construção comportava dois andares.

Além de talvez uma dezena ou mais de celas comuns destinadas aos frades. são citados os cargos de Comissário. Como autoridades civis e militares atuando em Belém nesta quadra. assim como frei Diogo. Antônio Coelho Gasco. do ofício divino. o escrivão Luiz Nogueira. “francês”. frei João Carrasco de Alfaro. Gaspar Correa de Souza. “capucho mui autorizado”. onde o frade pecador jurou emendar-se. de joelhos perante a imagem de Nossa Senhora das Mortes. Devia ser neste templo primitivo onde estavam expostas as citadas “várias cruzes de prata e algumas imagens” doadas pelo bispo do Equador aos fundadores do Convento de Belém. também referida como “Nossa Senhora Mãe Santíssima”. os Comendadores frei Manuel da Assunção. Frei Francisco da Natividade. Padre Superior. Quanto à composição hierárquica da Ordem Mercedária no Pará. frei JoÃo Leal e o próprio Frei Lucas de Souza. frei Manuel Moreira. 24 anos.o sargento mor. frei Manuel de Sampaio. obrigados à recitação diária. “cozinheiro”. o secretário frei Raimundo da Madre de Deus. provavelmente irmão leigo. são referidos neste processo: o governador André Vidal de Negreiros. além destes Mercedários. quiçá uma biblioteca ou sala de estudos para os noviços. destinada a prender os professos faltosos e. o procurador dos Auditórios da cidade. Encontramos neste processo referência à portaria conventual e à sacristia (do templo). o claustro. ou se anexadas à construção original. persistindo a dúvida se construídas em substituição aos cômodos de pau a pique. além da cozinha e instalações sanitárias. ao menos algumas paredes das Mercês já eram de “pedra e cal”. Frei Nicolau da Ascensão e seu escrivão.processo. Padre. Nominalmente são referidos onze religiosos: o Comissário Geral da Ordem frei Francisco de Andrade. o padre Antônio dos Anjos. são mencionados o Vigário Geral e Visitador Padre Domingos Vaz Correa. Braz da Silveira. é citada a cela forte. o provedor da fazenda dos defuntos e ausentes e tesoureiro da Bula da Santa Cruzada. Lourenço da Silva. Comendador. Ainda no estamento clerical. Noviços e Coristas – religiosos que se preparam para as ordens sacras. Prelado. o prior do Convento do Carmo. como soia acontecer na maioria dos conventos de religiosos. o sacristão padre frei Miguel do Espirito Santo. em coro. devia existir nas Mercês o refeitório. o soldado Domingos de Bastos. o escrivão da 26  Revista Estudos Amazônicos . o ouvidor de Sua Majestade. a sala do capítulo. Padre Paulo Barreto. provavelmente gradeada.

Carregaram “mantimento de farinha.P. as dívidas que tinha. o frade fora obrigado a substituir o belo hábito branco das Mercês com a cruz do Reino de Aragão. mal se podia fugir!” Frei Mauro de Lemos. e que por caridade dava 10 mil reis para gastar na prisão e 40 Revista Estudos Amazônicos  27 . Também são nomeados alguns oficiais mecânicos: o barbeiro Nicolau Gonçalves. sofrendo todo tipo de privações e humilhações durante a travessia.28 3. encarregado de depositá-los no Tribunal da Fé. peixe e mais bens necessários para viagem”. Manuel Dias da Silva. O. o oficial de pedreiro Felício Jorge e o barbeiro Salvador Rodrigues. pela batina tonsural. afora os supostos cúmplices de Frei Lucas: o oleiro Manuel Gonçalves. na periferia desta cidade. Consta que.. a 10 léguas de Belém. Os prisioneiros do Santo Ofício geralmente iam trancafiados em espaços apartados. onde viviam “escravos machos e fêmeas”. Antônio Dias de Lima. Maria Mendonça deixou em seu testamento a fazenda Valde-Cães às Mercês. Quatro moradores de Belém no Tribunal do Santo Ofício de Lisboa “À Inquisição. Informa o Comissário dos Mercedários que “Frei Lucas não tinha nada de seu. há menção da “Fazenda Roça dos Mercedários”. negros e índios. Frei Lucas de Souza e o oleiro Manuel Gonçalves são embarcados em direção ao Santo Ofício de Lisboa. o oficial de ferreiro Peixoto. Desde que fora expulso de sua Ordem. sobretudo quando inculpados no crime nefando. que entre outras tarefas. carne. de seus agregados. Além do citado convento belenense.Ouvidoria. e que pagou com seus bens. Foram entregues ao Mestre da nau Santa Catarina. composta de roupeta e capa. lavavam as roupas dos religiosos e eventualmente. o alfaiate Manuel Dias. aos 14 de maio de 1658. D. ambas de cor preta. 1644 Após dois meses e meio de iniciada esta inquirição. Lisboa. em 1675.

Era praxe não se misturar numa mesma cela réus do mesmo crime. depois de ser entregue por um Familiar do Santo Ofício ao Alcaide dos cárceres. assim referidos: Luis Barriga. do Maranhão. filho de Belchior Fernandes e Bárbara Gonçalves. Domingos. 20 toalhas de linho e algodão “todas novas. casada com Paulo. Matias. 1 caixa usada. Diz ser de idade de 23 anos. só sabe assinar o 28  Revista Estudos Amazônicos . Manuel Gonçalves é o primeiro a ser ouvido em confissão. “tecelão de pano e maçarico”. Antônio ladino “de língua geral de 12 anos”. 1 prato e 2 copos de prata no valor de 20 mil réis. Marina. Simão. Frei Lucas é preso na “7ª casa do meio novo” em companhia de mais três réus. evitando-se desta forma sua comunicação e prejuízo do inquérito. Tomásia – todos “solteiros”. natural da Ilha Terceira. 2 toalhas de algodão. junto com outro preso do Maranhão. aos 5 de fevereiro de 1659. 4 ceroulas de linho.do mestre Pedro da Cruz de Andrade. Na verdade. seus irmãos de hábito se apropriaram dos pertences que irregularmente adquirira nos seis anos vividos na América Portuguesa. O inventário dos bens de Frei Lucas. permite-nos vislumbrar aspectos interessantes da cultura material do “alto clero” paraense nos meados dos seiscentos: uma colcha de algodão de Quito com lavores brancos e azuis no valor de 20 mil réis. Suspeitamos que a maior parte destes cativos seriam índios. com exceção de Andresa.para ir aos inquisidores e para matalotagem. casado com Maria Nunes. Além destes bens. 14 lençóis de algodão fino e 9 de linho. moradores em Belém do Pará. já que nos meados do século XVII rareavam na Amazônia os cativos africanos. “não sendo encontrado nada com ele”. uma filha menor. uma colher. tecelão. nos Açores. oleiro. enquanto o oleiro Manuel Gonçalves. de lavor”. forro. 7 camisas de linho usadas. cem varas de pano de algodão no valor de 200 réis a vara. de Belém do Pará”. realizado quando de sua prisão em Belém. 18 guardanapos de algodão. Frei Lucas possuía sete escravos. ficou trancafiado na “3ª casa do meio novo”. Freguesia de Angra. 8 almofadas. [valores] que são enviados pela nau Nossa Senhora das Mercês e Almas. índio.

ou por algum dos encarcerados. E que durante este tempo. além de uma espingarda avaliada em 19$000. nunca tendo sido crismado. Seu inventário sugere que se tratava de pessoa remediada. possuindo uma casa térrea próxima ao Convento de Santo Antônio de Belém do Pará. 1 chapéu. que praticou a sodomia perfeita. aí trabalhando por três anos. Certamente o jovem açoriano fora previamente industriado por Frei Lucas. o Conselho do Santo Ofício manifesta-se misericordioso: assenta que “não resulta deste sumário culpa de sodomia. pois nenhuma testemunha conclui a dita culpa e só depõe de murmuração e suspeita. Revista Estudos Amazônicos  29 . Tinha poucas dívidas. 1 bofete grande e 2 caixas grandes de cedro “e que tudo isto ficara na praça para se vender por ordem do Vigário Geral”. com cortinas. em Belém. 1 cama de algodão. a “sodomia perfeita”. realizado em São Domingos. Outrossim. manteve 16 ou 17 atos sodomíticos. é que o réu poderia ser levado à fogueira. 1 espada e adaga. seja como agente. 1 vestido com 2 pares de meia de seda. ou como paciente. agasalhando-se dentro do convento. para fazer tijolos e telhas para as Mercês. id est. mas como confessou. aos 10 de fevereiro de 1659. em fevereiro do ano anterior (1658). aos 26 de outubro de 1659. Elvas e Alentejo como soldado. uma escrava negra que se vendeu por 105$000. nem a culpa era bastante para ser preso. e que apenas se comprovadas duas sodomias perfeitas. Como já dera sua versão a respeito de seu envolvimento com o frade sodomita no sumário de culpas realizado no Pará.nome. com exceção de uma única vez. dossel e dois colchões. Daí astutamente ter dado esta versão venial de suas cópulas sodomíticas. que os Regimentos Inquisitoriais somente consideravam crime. no valor de 120$000. fora contratado pelo Comendador e Prelado Frei Lucas. Apenas cinco dias após tal depoimento. agora no Tribunal do Santo Ofício acrescenta que no verão passado. “sem nada receber”. tem possibilidade de emenda”: condenam-no a ouvir sua sentença no Auto de Fé. também em Pernambuco. a penetração anal com ejaculação. “penetrando sem derramar semente”. e foi só uma vez que praticou o pecado de sodomia. havia muitos que lhe deviam o pagamento de telhas. recebendo açoites citra sanguinis effusionem e degredado por cinco anos para trabalhar nas galés Del Rei.29 Diz ter vivido em Lisboa.

omitindo maliciosamente grande parte de sua crônica homoerótica já devidamente conhecida pelos Inquisidores através das denúncias de seu primeiro amante (1656). ficando obrigado a cumprir penas espirituais recitando as orações tradicionais da Igreja.30 No dia seguinte. quer no Pará. tem lugar o Auto de Fé. carmelita descalço: são sentenciados 75 réus. Parágrafo 6. quer no Reino. sendo frade um dos executados. dos quais 9 queimados em carne e 13 em estátua. a Mesa Inquisitorial determina que Frei Lucas vá ouvir sua sentença no Auto de Fé. estando vestido em hábito clerical como determina o Regimento no Livro 3. Sem dar explicação. assina o Termo de Segredo e aos 22 de outubro de 1660. no Terreiro do Paço. o ex-mercedário.Frei Lucas fica mofando nos frios cárceres do Rocio por sete meses. Consta em seu processo ter sido investigado por quatro inquirições. mas ouvir a sentença na Sala da Inquisição em presença dos inquisidores e mais ministros. assina o termo de ida para galés. onde cita. sendo condenado a 10 anos de degredo nas galés de Sua Majestade”. Aos 17 de outubro de 1660. seculares e regulares. acrescida de novos detalhes pelo oleiro (1658) e dos sumários de culpa enviados do Pará. que serão referidos mais adiante. Capítulo 2. apresenta atestado de ter confessado e comungado. sendo pregador Frei Nuno Viegas. finalmente. Após cinco sessões e 14 meses nos cárceres secretos do Santo Ofício. conservando a mesma sotaina preta nas galés. como não havia fama nem escândalo no Reino. entre esses. sendo ouvido pela primeira vez aos 10 de março de 1660. aos 8 de julho de 1660 é publicado o veredicto: “tendo sido legitimamente convencido de ter cometido sodomia sendo agente e paciente. o nome e detalhes sensuais praticados com oito cúmplices. Aos 3 de novembro de 1660. suspenso do exercício das ordens e voz ativa e passiva para sempre. Felício Jorge e Salvador Róis. Suas custas processuais no Maranhão foram 30  Revista Estudos Amazônicos . não devia ter a pena ordinária da fogueira.

em tempo que acusa Frei Lucas de ter prometido denunciá-lo falsamente ao Santo Ofício pelo crime de sodomia. vendido pelo Vigário Geral por 35$000. o mesmo valor de um paneiro de farinha. Frei Lucas “lhe dava muitos mimos. mais dois moradores de Belém tiveram a infelicidade de igualmente serem remetidos para o Tribunal de Lisboa. entre nobres e plebeus. e queria Revista Estudos Amazônicos  31 . Vindo do Pará. Poucos meses após a condenação do frade sodomita. os Inquisidores atendem sua demanda.calculadas em 4:689$000. enviou requerimento à Mesa do Santo Ofício pedindo comutação da pena. com o gasto de 13$600 réis de remuneração a 23 índios remadores. em vingança por ter dito que o frade mantinha amizade ilícita com o oleiro. que disse saber ler e escrever. desde outubro de 1659. Nomeou diversos devedores. sendo dissuadido por outros religiosos. levando 34 dias de jornada. Começa sua confissão declarando-se inocente. 1 escravo de 12 anos Pedro. junto à Misericórdia. o oleiro Manuel Gonçalves. Dentre uma dezena de cúmplices no pecado de sodomia citados pelo mercedário. seu principal cúmplice. mais 4:161$000. sendo que o pagamento usual para um índio remar de Belém a São Luís era o equivalente a duas varas de pano ou 300 réis.31 Em seu inventário constava ser proprietário de uma morada de casas onde morava em Belém. e no Santo Ofício de Lisboa. Enquanto isso. certamente nos estaleiros reais. aos 28 de junho de 1661 chega ao Tribunal do Santo Oficio de Lisboa nosso já conhecido oficial pedreiro Felício Jorge. 2:067$000. branco. lisboeta. misericordiosos. o oleiro Manuel Gonçalves foi recambiado de canoa ao Maranhão. autorizando seu retorno para o Brasil para fazer vida conjugal com sua mulher. Chegando a Belém. confirmando que certa vez fora ao convento com uma faca para matar o frade. Que na época que trabalhou nas Mercês como pedreiro. aos 4 de março de 1661. no valor de 30 mil reis. uma espada e adaga “que lhe mandou receber o mesmo Vigário Geral dizendo que pertencia ao seu meirinho”. com mais dois réus. Em menos de uma semana. ao passo que os Inquisidores continuavam sua labuta de separar o joio do trigo. que. seguindo a mesma estratégia de grande parte dos réus. cumpria seu degredo de cinco anos nas galés reais. frutos e regalos. “preso na 5ª casa do meio novo”. o ex-Frei Lucas penava nas galés. 34 anos.

a prova fica diminuída.33 Ficou trancafiado na “3ª casa do meio novo” com mais dois presos. Meticulosos. Contra si constava apenas a denúncia de Frei Lucas afirmando ter mantido 50 atos sodomíticos. Ao ser inquirido na audiência “in specie”. e que lhe pedia se aquietasse se não havia de publicar a Deus e todo mundo quem ele era e o escrito que lhe mandara”. a mesa inquisitorial inocentou-o: “não há provas contra o réu a não ser de Frei Lucas. levante-se o seqüestro de seus bens e pague as custas de 6$047”. pois os frades eram chocalheiros” (fofoqueiros). nem ninguém de sua geração. 35 anos. sendo o barbeiro o agente. os Inquisidores ordenam a realização de um novo sumário de culpas no Pará. foi categórico: “nunca obrou nem cometeu nos anos primeiros de sua idade o vício nefando. aconselhando-o a não dar escândalo por sua vida. um ano após sua primeira audiência. mas que não nomeara pessoa alguma”. provavelmente em 1657. Peixoto. onde seis testemunhas ratificam que Felício Jorge era virtuoso e casto. Tal sumário registrou um insólito episódio de homofobia ocorrido numa noite de Natal em Belém. que sendo seu inimigo. Diz em seu inventário ser possuidor de três escravos tapuias que foram vendidos quando do sequestro de seus bens. revelando as graves consequências possíveis de acontecer ao se levantar suspeita sobre a masculinidade de um varão: uma testemunha diz que o pedreiro Felício. confirmando ser pública a inimizade do frade. Salvador Rodrigues. Acrescenta ter escrito um bilhete dizendo ao sacerdote que “não era puto nem somítigo. na Ilha Terceira. [portanto] se não deve presumir que ao depois haja cometido na maioridade em que está”. também sabia ler e escrever. mandando-lhe um escrito dizendo que eu entrasse com ele no convento às 9 horas da noite. também confiscada. natural de Angra. Aos 28 de agosto de 1662. por ter dito em alta voz que “os frades lhe não pagavam no cachaço32 a ele. Que ouça a sentença na Mesa.casá-lo com uma sua parenta. dera cutiladas num oficial de ferreiro. mulher de Rafael Mendes. “numa noite de Natal. barbeiro. no adro de uma igreja. Maria de Siqueira. filho de Manuel João Carvalho e Maria Joana. além da botica de barbeiro. Ao ser ouvido na Casa 32  Revista Estudos Amazônicos . é quem nos dá a chave desta expressão coeva: esclareceu que Felício ficara agastado com o tal Peixoto “por lhe chamar sumítigo”. 34 anos. Um segundo morador de Belém a ser denunciado pelo mercedário gay chegou ao Tribunal da Fé de Lisboa na mesma data do anterior: 28 de junho de 1661.

Em abril de 1662. ao considerar que “estando o réu preso há mais de um ano sem confessar o dito crime e ter mostrado a experiência que os compreendidos no nefando pecado. Em sua defesa alega que Frei Lucas tornou-se seu inimigo capital após a venda de uns escravos. São então arguidas quatro testemunhas no Pará. a Mesa do Santo Ofício o absolve. “que o frade não queria lhe pagar e o réu ameaçou-o de lhe dar umas apunhaladas e o frade gritou e o povo o acudiu”. principalmente sendo cristão velho. Em agosto do mesmo ano. Tinha então por volta de 72 anos. Restarão algumas das paredes de pedra e cal que mandou levantar no Convento das Mercês de Belém do Pará? Artigo recebido em janeiro de 2009 Aprovado em agosto de 2009 Revista Estudos Amazônicos  33 . sendo aconselhado “que trate bem com sua vida e costumes e que pode ir para onde bem lhe estiver”. Assina então o termo de soltura. Assinou o termo de segredo aos 18 de setembro de 1662. permanecem pouco na negação depois das provas”. Enquanto isto. comutam-lhe o tempo restante da prisão. nada sabemos. com resultado favorável ao réu.Negra do Rocio. aos 6 de junho de 1663. confirmando que o barbeiro demonstrava ser bom cristão. Este é o último traço deixado pelo frade sodomita na história: para onde foi e como passou seus últimos anos de velhice. sendo aconselhado: “não dê mais circunstâncias para ser preso”. o ex-mercedário Lucas de Souza é chamado à Mesa do Santo Ofício. no valor de 130$000. após dois anos e oito meses nas galés. Salvador Rodrigues negou peremptoriamente qualquer envolvimento homoerótico. executou judicialmente a dívida. é feito novo sumário em Belém. que levando em conta as provas de que se emendara do mau pecado. atiçando o ódio de seu opositor. Disse mais: que há 7 ou 8 anos.

Augusto. 1 34  Revista Estudos Amazônicos . Guillermo. 11 MOTT.120-139. Processo 6702. Belo Horizonte: Itatiaia. 1759. Luiz.NOTAS VAZQUEZ NUÑEZ. 1912. Convento dos Mercedários de Belém do Pará. São Luiz: Tipografia B. igrejas e capelas na Belém colonial. 10 Arquivo Nacional da Torre do Tombo. p. p. p. 6 FERRAZ. 1976. p. Os jesuítas no Grão Pará. 422. Geraldo Mártires. 2000. no Bairro do Mocambo. Leandro. 1974. Eugênio. 2 ALMEIDA. 1865. História da Igreja em Portugal. 1968. 1963. 15 MORAES. tomo III. Pedro autorizou abrir em Lisboa um hospício para os religiosos que vinham do Brasil. p. Rev. 16 LISBOA. 5 Ibidem. 1998. HENRIQUE. o nome de Frei Lucas de Souza é acrescido do sobrenome “Franca”. Em 1682 o príncipe D. 35. 241. Breve Histórico e Registro de sua recuperação. Ibidem. Ciência e Cultura (SBPC). 1901. 300-424. História da Companhia de Jesus na extincta Província do Maranhão e Pará. 1759. História da Companhia de Jesus na extincta Província do Maranhão e Pará. Márcio Couto. La Orden de la Merced en el Brasil. 50. Rio de Janeiro: Departamento de Imprensa Nacional. Estudios. Belém [s/n]. Em alguns poucos documentos procedentes do Maranhão e Pará. “Pagode Português: A subcultura gay em Portugal nos tempos da Inquisição”. 36. Contribuição à História de Belém. 508. História da Companhia de Jesus na extincta Província do Maranhão e Pará. 9 MORAES. Emilio. Inquisição de Lisboa. 4 FERRAZ. 8 TOCANTINS. La Orden de la Merced en Hispanoamérica. p. 12 MORAES. Casa da Moeda do Brasil. João Francisco. Convento dos Mercedários de Belém do Pará. p. pp. MEIRA FILHO. Augusto. Alguns elementos para o estudo das ordens religiosas. COELHO. Alan Watrin. Rio de Janeiro: Typografia do Commercio. pp. Belém: Grafisa. de Mattos. fevereiro (1988). Santa Maria de Belém do Grão Pará: instantes e evocações da cidade. Belém: Imprensa Oficial do Estado. 38. pp. 3 SILVA DE CASTRO. Evolução histórica de Belém do Grão Pará. Suas missões e colonização. Belo Horizonte: Editora C/Arte. Madrid: Ed. Jornal de Timon. 14 AZEVEDO. 1860. p. vol. embora ele próprio não o inclua todas as vezes que assinou seu processo inquisitorial. 40. COELHO. 13 Ibidem. Coimbra: Imprensa Acadêmica. 324 e 507. Fortunato. 314. Lisboa: Livraria Tavares Cardoso e Irmão. 1973. 7 MEIRA FILHO. José. João Lúcio.

“pagar no cachaço” alude à suposta posição do passivo. Inquisição de Lisboa. Christianity. Belém: Imprensa Oficial. MORAES. SILVA. 32 “Cachaço”: pescoço. de costas.14. 38 (2001). p. categories”. Salmagundi: Homosexuality. onde o ativo “funga em seu cachaço”.A. vol. pp. processo 10473. História da Companhia de Jesus na extincta Província do Maranhão e Pará. nos 58-59 (1983). Lisboa. J. 26 CRUZ. BOSWELL. gaiato. “O Bispado do Pará”.contatoradar. 27 MENDONÇA. MOTT. Luiz. politics. Inquisição de Lisboa.com. História da Companhia de Jesus na extincta Província do Maranhão e Pará. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian & FCT. Padre Antônio. Inquisição de Lisboa. p. John. “Meu menino lindo: cartas de amor de um frade sodomita. Annaes da Bibliotheca e Archivo Publico do Pará. 30 MENDONÇA. vol.Na igreja das Mercês funcionou a Confraria Monte da Piedade que recolhia por ano 3 mil cruzados para missas e sufrágios e até 1667 gastou 20 mil cruzados. 82. nº 9 (2001). 21 ALMEIDA PINTO. Francisco de Paula. doc. 1690”. tomo V (1906). processo 1465. Ernesto. Chicago: Chicago University Press. pp. Bahia: Tipografia São Francisco. Luso-Brazilian Review. 45. Luiz. vol. 89-113. sacrilege. John.5. 129-143. 2003. Moema Alves a gentil indicação deste importante documento. 1953. 22 Sobre “cartas do amor proibido”. 97-115. Antônio José Landi (17131791): um artista entre dois continentes. Apontamentos para a História Eclesiástica do Maranhão.html 29Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Pará (Avulsos). Antonio Rodrigues. 25 MOTT. social tolerance and homosexuality. A. 7. desde o século XIII. & MOREIRA. p. 20 MORAES. “Poder inquisitorial e repressão ao nefando pecado de sodomia no mundo luso-brasileiro”.pp. 1980. 25 de agosto de 1652. universals. Emília Isabel Mayer Godinho. caixa 1. Odisséia. na língua catalã-provençal. homossexual. 423. Lisboa: Imprensa Nacional. vision. p. é usado como sinônimo de “rapaz alegre” e por analogia. 1951. o étimo “gay” que deu origem ao português gai.br/lofiversion/index. 18 “Consulta do Conselho Ultramarino para Dom João IV”. 31 Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Agradeço mais uma vez à Profa. Boswell. cf. 1922. 17 Revista Estudos Amazônicos  35 . 1980. “Revolutions.II. processo 135. 23 BOSWELL. Igrejas de Belém. Lisboa: Lello e Irmão Editores.L. etc. 19 VIEIRA. 33 Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Sermão da Epifania. 28 http://forum. Obras Completas. gaio.php?t25010. Arquivo Histórico Ultramarino. 24 Segundo o Dr. História dos principais actos e procedimentos da Inquisição em Portugal.