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REVISTA LITTERIS ISSN 1983 7429

Número 4, Março de 2010.

A desconstrução da disciplina corporal no teatro: um estudo da via negativa Andrea Rangel Ribeiro 1 (UERJ, Rio de Janeiro, Brasil)

Resumo: A via negativa teatral busca desconstruir a “disciplina corporal” (conceito de Michel Foucault) através de métodos de preparação de atores que facilitem a fluidez do processo de criação. Trata-se de uma proposta crítica ao tradicional racionalismo que vigorava no teatro desde o século XVIII e que privilegiava o texto como o elemento mais importante do espetáculo teatral. No final do século XIX, alguns diretores, influenciados pelo teatro oriental, começam a criar uma nova estética teatral que crítica o uso excessivo da razão e privilegia o preparo corporal dos atores. A dramaturgia perde lugar para o privilégio do ator e de seu corpo no processo de criação teatral. Artaud e Grotowski são importantes referências deste movimento crítico conhecido como via negativa. Palavras-chave: Teatro, Desconstrução, Via Negativa e Disciplina Corporal.

Introdução
“E o que é o louco? É um homem que preferiu enlouquecer, no sentido em que a sociedade entende da palavra, a trair uma certa idéia superior de honra humana. Eis porque a sociedade condenou ao estrangulamento em seus manicômios todos aqueles dos quais se queria livrar, contra os quais queria se defender, porque eles se haviam recusado a acumpliciar-se daquela suprema sujeira. Pois, um louco é também um homem a quem a sociedade não quis ouvir e a quem desejava impedir a expressão de verdades insuportáveis”.

Antonin Artaud (Esslin, 1978, p.90)

Ao longo do século XX, o ensino teatral e a preparação de atores passaram do plano estritamente teórico para o treinamento prático e pautado no trabalho corporal. Segundo Nunes (1998), a aprendizagem teórica e racional é denominada como via positiva. Esta via predominou na primeira fase do ensino teatral no Ocidente. A via positiva teatral, seria correspondente aos séculos XVIII e XIX. O aprendizado era fundamentalmente teórico e obtido principalmente através da leitura dos autores clássicos da literatura dramática. O texto era valorizado em detrimento dos outros elementos artísticos de construção de um espetáculo. Para os encenadores da época, a literatura dramática era a parte essencial do drama, sem a
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A autora é doutora em Antropologia Social pelo Museu Nacional (UFRJ) e atriz. Este estudo faz parte de sua tese “Criação de sujeitos e identidades em uma escola de teatro: um estudo antropológico.”

Atores com um virtuosismo corporal como Charles Chaplin o fascinavam. ele rompe com suas teorias racionais e valoriza o trabalho das ações físicas na preparação do ator. de acordo com essa perspectiva. como Jean-Jacques Roubine. da comédia dell´arte. O método de trabalho do ator consiste primeiramente em uma análise racional da obra e de seu personagem. leituras e memorizações do texto. que iria contribuir mais adiante para o desenvolvimento de uma nova concepção estética. do teatro nô e da ópera chinesa. e Constantin Stanislávski.qual não haveria teatro. se interessou pelos procedimentos técnicos do balé. que propõe um mimetismo psicológico e um realismo social. sugeriram um método de treinamento corporal na formação do ator. era comum os atores ensaiarem em traje de passeio e sentados em torno de uma mesa no palco. seguindo esta tradição da “arte do dizer”. O método das ações físicas foi criado nos últimos anos de vida de Stanislávski e representa a segunda fase de seu pensamento. Diretores e teóricos como Vsevolod Meyerhold. Meyerhold. Alguns autores. inflexão da voz e respiração. 2 . Até a primeira metade do século XX. deve ser uma cópia o mais fiel possível da realidade. O método elaborado na chamada primeira fase de Stanislávski. com base em suas próprias emoções e vivências pessoais. o intérprete se dedica à etapa da construção psicológica de seu personagem. denominam essa tradição de “textocentrismo ocidental”. com a criação da biomecânica. no final do século XIX e no início do século XX esse panorama começa a sofrer algumas transformações. Os ensaios teatrais de um espetáculo consistiam em discussões. A formação do ator ocidental do século XIX. caracterizada pelo racionalismo e pelo psicologismo na construção dos personagens. Nessa fase. buscando alternativas ao racionalismo deste estilo de teatro. O ator somente treinava seu corpo quando o personagem lhe exigia um vigor físico específico. e seu método das ações físicas. O teatro. Diretores russos como Meyerhold imprimiram uma fisicalidade no teatro. privilegiava a boa retórica através de ensinamentos de dicção. Em seguida. ainda é uma técnicas de interpretação difundida no métier teatral ocidental. Tal técnica se enquadra nos parâmetros do realismo teatral. do circo. Contudo. O ator desta fase tornou-se cada vez mais próximo do declamador e mais distinto do bailarino e do cantor.

A hipnose era uma das técnicas sugestivas que o autor criticava quando elaborou essa relação das artes plásticas com a psicanálise. trazer algo para fora. A via di levare seria prevalecente na versão psicanalítica da pessoa romântica: ao invés de recobrir. não pretende acrescentar nem introduzir nada de novo. Tratar-se-ia de identificar o que prejudicaria o trabalho criativo do intérprete teatral e promover sua transformação. diz Leonardo. cuja eliminação é sua meta (Freud. ou técnica analítica. Freud afirma que há entre a técnica sugestiva e a psicanálise a maior antítese possível. pois deposita sobre a tela incolor partículas coloridas que antes não estavam ali. teceu considerações a respeito de qual seria a proposta da psicanálise. trabalha per via di porre. tentado minimizar o que considerava como processos racionais do seu trabalho. De acordo com Icle (2006).que ela espera ser forte o bastante para impedir a expressão da idéia patogênica. idem). funciona per via di levare. pois há proximidade entre esta e a via negativa.A via negativa teatral Sigmund Freud. A escultura. de acordo com o romantismo. foi Jacques Copeau quem criou o termo via negativa. A pintura. pois retira da pedra tudo o que encobre a superfície da estátua nela contida (Freud. 1969. 270). A via de porre seria o modo de construção da pessoa prevalecente na tradição da Bildung. Este caminho se 3 . mas antes tirar. A via di levare. Coupeau teria instaurado um método pautado na eliminação dos bloqueios do ator. não se importa com a origem. valendo-se do que Leonardo da Vinci afirmara sobre as artes. equivalente àquela que Leonardo da Vinci resumiu com relação às artes. ao contrário. Freud estabelece uma relação entre a via di porre e a técnica sugestiva e a via di levare e a psicanálise. p. contrastandoa com as terapias sugestivas. desencapar. a força e o sentido dos sintomas patológicos. referente à psicanálise teve repercussões no teatro moderno ocidental. O autor afirma que a técnica da sugestão busca operar per via di porre.a sugestão . em contrapartida. ou formação. mas antes deposita algo . e para esse fim preocupa-se com a gênese dos sintomas patológicos e com a trama psíquica da idéia patogênica. A terapia analítica. nas fórmulas per via di porre e per via di levare. A via negativa teatral está pautada na desconstrução dos bloqueios racionais e emocionais que supostamente limitam a criação do ator.

temos nomes como José Antunes Filho. Para Richard Schechner (1988).. como as malhas de balé. Trata-se do enfraquecimento do comando de uma mente discursiva e da emergência uma espécie de conhecimento corporal. os ensaios teatrais em diversos lugares do Ocidente começam a sofrer transformações drásticas. José Celso Martinez Corrêa. esse é um momento importante no processo de ruptura da hegemonia do texto no espetáculo teatral e para a afirmação do teatro como uma arte muito mais complexa.inspirada em filosofias orientais. como o budismo e o taoísmo e tem no não-ser ou na não-ação seu eixo central. Esta guinada da concepção pedagógica sobre o ensino teatral ocorreu nos principais centros de ensino no Ocidente.. A partir dos anos sessenta nos Estados Unidos. Alguns encenadores se dedicaram ao estudo do trabalho corporal na formação do ator nesta direção como Antonin Artaud. No Brasil. idéias e inibições do ator que se interpõem entre ele e o papel. Eugenio Barba.” (1994) Na segunda metade do século XX. numa lufada de vento. Ao invés das discussões ao redor de uma mesa. o personagem penetra por todos os seus poros. No Brasil. remover tijolo por tijolo os entraves dos músculos. o tratamento dado ao corpo do ator foi sendo conduzido cada vez mais na direção de eliminação de bloqueios físicos e psicológicos do processo de criação. até que um dia. Peter Brook e Dario Fo. os atores passam a praticar exercícios físicos de variados tipos e a se vestir com uma indumentária mais adequada para estas atividades. A partir da década de 1970. Amir Hadad e Gerald Thomas. As palavras de Peter Brook nos relembra a idéia de Da Vinci a respeito da per via di levare: “. surgiram muitas escolas de artes dramáticas que priorizavam o conhecimento prático e não estritamente o teórico. e contribuíram com a recriação da metodologia de ensino das escolas de artes dramáticas e da rotina dos ensaios e de preparação de espetáculo dos principais grupos teatrais brasileiros. preparar uma personagem é o oposto de construir – é demolir. Estas transformações fazem parte de uma nova concepção sobre o 4 . A preparação do ator pela via negativa consiste em uma desconstrução e num desbloqueio psicossomático pela busca de qualidades mais sensoriais e menos racionalistas. alguns diretores entraram em contato com estas transformações na Europa e nos Estados Unidos. Jerzy Grotowski.

dos bloqueios psicofísicos que possam limitar a plasticidade de seu desempenho. O que há em comum entre estes diretores é a sua ruptura com a hegemonia do texto na elaboração do espetáculo teatral. tampouco há uma doutrina ou uma proposta de trabalho comum a todos os encenadores que investem no trabalho corporal para a preparação do ator. ultrapassando o uso discursivo da linguagem e criando uma 5 . Nessa ruptura. reprimidas por uma forma verbal e por comportamentos sociais padronizados. O teatro da crueldade de Artaud O contato com diversas formas teatrais do Oriente influenciou importantes diretores do cenário teatral ocidental. dentre estes diretores. como Antonin Artaud. o teatro ocidental estava por demasiado limitado pela importância concedida ao texto na criação dos espetáculos. métodos para a preparação de atores que partam do desbloqueio corporal através de um trabalho físico. Após assistir a um espetáculo teatral de Bali em Paris no ano de 1931. ou seja. além de outros. Peter Brook. Por inspiração em grande parte no teatro oriental. eles propõem. o mais impactado pela arte oriental. sendo. dos quais apenas uma ínfima parcela pode ser diretamente formulada em palavras. Nossas sensações corpóreas são sentidas continuadamente. este trabalho começa a ser repensado e reconstruído a partir da relação que o próprio ator tem com o seu corpo. entretanto. O teatro balinês lhe despertou para uma idéia física e não verbal de teatro. Artaud provavelmente foi. Segundo Martin Essin (1978).trabalho do ator no teatro. Artaud afirma que nossa consciência é formada por inúmeros elementos. O objetivo principal do processo de ensaio passou a ser despir o corpo do ator de tudo que possa servir de entrave à sua atuação. O emprego da corporalidade pelo ator ocidental se tornou essencial no seu trabalho. No entanto. Jerzy Grotowski. de diferentes formas. Para Artaud. as idéias de Artaud sobre uma nova técnica e prática teatral são uma tentativa de comunicar a plenitude da experiência e das emoções humanas. da mesma forma que não há uma homogeneidade no que se convencionou denominar como teatro oriental. ele afirmou ter experimentado uma verdadeira revelação.

pelo qual as emoções poderiam fluir livremente de corpo a corpo.comunhão com a platéia. o espírito racionalista. segundo Derrida. coloca o ator como o senhor daquilo que “ainda não é. que não se contenta apenas em registrar o que deriva de um texto ou contexto pré-estabelecido. no qual a Europa se extraviou. Pois. A vida repele o espírito de análise. Filósofos como Michel Foucault. confrontando o público com o grotesco. O teatro de Artaud buscaria assim restaurar uma concepção passional e convulsiva da vida. estaria mais próximo da integração entre o corpo e a mente humana. Para Artaud. Deleuze também foi influenciado por Artaud em conceitos como o de um corpo sem órgãos. Artaud rompe com os conceitos tradicionais de representação e busca um teatro que se aproxime da vida e construa novas convenções de linguagem. 2 As aspas são de Martin Essin. 6 . Antonin Artaud nunca foi um filósofo ou ao menos um pensador sistemático que teria elaborado conceitos de forma sistematizada e racional. A civilização européia é rejeitada por Artaud. conforme demonstra a epígrafe deste artigo. segundo alguns críticos. 1978). As análises de Foucault sobre a loucura apresentam muitas semelhanças com os escritos de Artaud. das ciências humanas e da filosofia. Gilles Deleuze. A expressão “teatro do crueldade“ significa um teatro que atinge uma multidão de espectadores com o mesmo horror da peste bubônica na Idade Média. os escritos de Artaud são contraditórios e alguns deles seriam até incoerentes. O teatro da crueldade rompe não apenas com a estética racionalista tradicional. além de Derrida estabeleceram um diálogo com o pensamento de desconstrução por ele elaborado.2 Esta nova linguagem estética criaria um vínculo entre ator e espectador. o pensamento analítico e a lógica formal seriam os responsáveis pelo aniquilamento da plenitude da vida emocional do homem e pelo desligamento das fontes profundas de seu ser vital. As questões tratadas por Artaud influenciaram diversos pensadores do ramo das artes. No entanto. repressora e limitada (Essin. Jacques Derrida (1975) afirma que Artaud. Este teatro. mas requer uma desconstrução da própria concepção ocidental de homem. e o faz nascer”. Essa desconstrução passa pelo estímulo ao desequilíbrio e ao descontrole corporal e emocional do ator. a feiura e principalmente a dor. que a considera extremamente racional. acreditando num sentido da vida renovado pelo teatro.

o trabalho do ator. uma vez que esta atitude é ditada pelo curso da civilização..A via negativa de Grotowski "O ritmo de vida da civilização moderna se caracteriza pela tensão.) Em nossa busca de liberação atingimos o caos biológico. o que poderíamos chamar de prazeres fisiológicos. Essa qualidade estaria relacionada à idéia de êxtase. para Grotowski. tentamos dividir-nos artificialmente em corpo e alma. pelo desejo de escondermos nossas motivações pessoais (. De acordo com o encenador. Sofremos com mais uma falta de totalidade. foi um dos mais renomados discípulos de Constantin Stanislavski.(. 7 . Segundo Brook.. figurino ou sonoplastia. A qualidade de “pobre” diria respeito à prioridade do papel do ator. Grotowski pretendia criar um novo culto e uma nova forma de missa. iluminação. declara Grotowski.... 1971. O encenador polonês teria se inspirado em Artaud. fazemos um jogo duplo de intelecto e instinto. monástica e total. Grotowski teria criado um método próprio. mas um sistema de vida que desconstrói os preceitos tradicionais e racionais da arte de atuar. O elemento singular do teatro seria o que ele chama de intimidade do organismo vivo. Mas também queremos pagar um tributo ao nosso lado biológico. atirando-nos. Peter Brook (Cf. criando não apenas um método de interpretação. dissipando-nos.) Portanto. Tal elemento mágico não poderia ser roubado do teatro pelo cinema e pela TV. encenador polonês. p.” (Grotowski. Grotowski se propôs a dar continuidade ao „método das ações físicas‟. O teatro não deveria competir com o cinema. Na obra Em Busca de um Teatro Pobre. em detrimento de outros elementos estéticos de composição de um espetáculo como cenário. inspirado no ideário de desconstrução corporal da via negativa teatral. que possibilitasse uma espécie de “comunhão” entre ator e platéia.) gostaríamos de ser racionais e cerebrais. pensamento e emoção. por um sentimento de condensação. Influenciado por diversas linguagens estéticas e pautado numa percepção mística e religiosa de teatro. Grotowski. 1971) afirma que o teatro de Grotowski seria uma arte de absoluta dedicação. à arte teatral caberia se concentrar naquilo que seria sua principal qualidade. (. elaborado pelo seu mestre.197) Jerzy Grotowski. Grotowski postula um teatro focado no trabalho do ator.

Havia espetáculos para três espectadores. O teatro de Grotowski seria ritualístico e feito para poucas pessoas. Percebemos muitas influências de filosofias e religiões orientais em sua arte. se interessou pelo assunto.Na Polônia. beber. Ele afirmava que seu interesse principal seria a busca da essência do ator como ser humano. critica a racionalização do pensamento e das práticas corporais construídas nas sociedades ocidentais desde o século XIX. o objetivo do teatro não estaria restrito a satisfazer o público. muitas vezes preta. dificultam a fluidez dos processos de criação artística. A influência de diversas variantes de orientalismo esteve presente em sua concepção teatral e em sua vida desde tenra idade. Marcel Mauss (1974) entende por técnicas corporais as maneiras que os homens. utilizando a expressão de Marcel Mauss. Os espetáculos de Grotowski propunham uma mistura entre platéia e elenco. etc. dançar. olhar. sentar. antes mesmo de trabalhar com teatro. A relação com os espectadores se pretendia direta. no terreno da comunhão e do sagrado. Aos vinte anos. A mãe de Grotowski apreciava o hinduísmo e ele. por exemplo. A atitude corporal é peculiar a cada sociedade e esta diz respeito a todas as técnicas que envolvem a corporalidade humana como andar. desde os nove anos de idade. em todos estes elementos da arte de usar o corpo humano os fatos da educação dominam. Assim. sabem servir-se de seus corpos. Estas técnicas são assim montadas pela e para a autoridade social. correr. estas “técnicas corporais”. Praticou yoga e pretendia se tornar um mestre. Isso se justifica pela importância que ele dava ao processo de formação do ator. seus espetáculos eram representados num espaço pequeno. em toda sociedade os 8 . da qual Artaud e Grotowski são importantes ícones. Para o autor. Grotowski dizia que seu maior interesse seria a descoberta da essência do homem. a expressão “teatro pobre” seria mais bem traduzida por “teatro santo” ou “teatro ritual”. com as paredes de cor negra e atores vestidos com indumentária simples. comer. Pois. nadar. seja através do yoga ou do teatro. A desconstrução da disciplina dos corpos através da via negativa O tipo de experiência proposta pela via negativa no teatro. sociedade por sociedade e de modo tradicional. era um especialista na religião hindu. Para alguns especialistas. dormir. Para Grotowski.

O autor inclusive menciona a resistência à emoção avassaladora como algo fundamental na vida social e mental. Mauss acredita que a educação fundamental de todas estas técnicas consiste em fazer adaptar o corpo a modos específicos de comportamento e de autocontrole. Essa resistência separaria e classificaria as sociedades ditas primitivas das civilizadas. 3 O teatro da crueldade de Artaud parte justamente da desconstrução deste corpo adestrado e educado passivamente. Essa questão do condicionamento e do adestramento dos corpos em prol do controle social nos remete ao conceito de disciplina elaborado por Michel Foucault (1997). e que responde domesticadamente ao que Mauss chama de autoridade social. é justamente este tipo de conduta corporal controlada e resistente às emoções das sociedades civilizadas que bloquearia o processo de criação teatral. Para Foucault.indivíduos devem saber como se comportar corporalmente nas distintas situações sociais. limitam a criatividade e apenas combinam com um teatro baseado preponderantemente na razão e no 3 Norbert Elias inclusive mostra em “O processo civilizador” como que usos e técnicas corporais de caráter mais racionalizante geram um processo civilizador nas sociedades européias. Enquanto que nas sociedades civilizadas haveria reações mais precisas por parte dos indivíduos e comandadas por uma consciência clara. As disciplinas são tecnologias de poder. 9 . a disciplina corporal é uma política de controle e domínio do indivíduo nas sociedades modernas. Nas primeiras. da sanção normalizadora e do exame. Os princípios da disciplina são construídos pelo método do adestramento dos corpos através da vigilância hierárquica. Artaud repudia a racionalidade civilizada e busca no teatro uma forma de liberar as emoções avassaladoras da vida. Essas emoções são o que há de mais vital no homem e na arte. dos quais nos fala Foucault. as reações das pessoas seriam mais ou menos brutais. irrefletidas e inconscientes. que fabricam indivíduos cujos corpos são dóceis e úteis à sociedade capitalista industrial. A via negativa no teatro parte do princípio de que a expressividade corporal do ator é enfraquecida pelos processos de socialização dos indivíduos nas sociedades capitalistas industrializadas. Em contraposição a Mauss. Através da disciplina ocorre o processo de docilização dos corpos em busca da produtividade capitalista. Para Artaud. Os corpos dóceis e úteis.

mas sim no uso do corpo e da sensibilidade do ator. Todo esse trabalho de desconstrução do condicionamento social tem um objetivo estético de aprimorar constantemente o trabalho teatral. e diz respeito à relação que o homem constrói com o seu próprio corpo e consigo mesmo. A socialização dos indivíduos ocorreria através de uma disciplina corporal que construiria corpos dóceis e úteis para o sistema capitalista. A via negativa teatral. A via negativa propõe uma experiência estética de desconstrução do indivíduo racional moderno em detrimento da tradicional idéia stanislavskiana de construção do personagem.texto. Este feitio de corpo não interessaria ao teatro. a proposta estética da via negativa teatral defende um processo de transformação do próprio indivíduo em prol do trabalho de atuação. Seria necessário então um processo de desconstrução deste corpo e do próprio homem gerado neste sistema de controle social. tornando-o o mais verdadeiro possível. segundo a via negativa. Para Antunes Filho. o ator deve livrar-se dos padrões sócio culturais que se formaram durante a sua criação e educação para que consiga atingir a excelência na arte teatral. diretor do Centro de Pesquisa Teatral (CPT) e seguidor da via negativa. com seu processo de desconstrução da disciplina normalizadora propõe uma alternativa que extrapola o âmbito estético. 10 . Em suma. A via negativa defende a idéia de que o êxito do trabalho teatral não está no uso da razão. A via negativa e seus seguidores propõem métodos de preparação de atores que rompem com a disciplina e o controle social manifesto de diversas formas no nosso quotidiano.

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