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revista bimestral da embaixada de angola em moçambique - n.

º1 - novembro/dezembro 2010

Presidente revela Estado da Nação

ficha técnica

Angola apoia realização dos Jogos Africanos de 2011, em Maputo
PROPRIEDADE E EDIÇÃO Embaixada de Angola em Moçambique Av. Kenneth Kaunda, 783 Maputo - Moçambique DIRECÇÃO Embaixador Garcia Bires ADIDO DE IMPRENSA Eduardo Sousa DIRECÇÃO EDITORIAL Helga Nunes COLABORAÇÃO Eurico Vasques Lecticia Munguambe Nina Temba Teresa Pereira Tholedo Mundau FOTOGRAFIAS Luís Muianga Embaixada de Angola em Moçambique Gettyimages DESIGN GRÁFICO Rui Batista PAGINAÇÃO Benjamim Mapande PUBLICIDADE-PRODUÇÃO PUBLICAR Rua da Sé, Hotel Rovuma, 3º andar Maputo - Moçambique IMPRESSÃO Brinrodd Press TIRAGEM 5.000 ex.

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sumário

Cooperação assinada no domínio da Defesa

Em defesa dos Estados de Direito em África

Considerações sobre a Independência de Angola

O objectivo é «melhorar a qualidade de vida» dos angolanos

Angola colhe frutos do passado diplomático

Angola perdoa 50% da dívida de Moçambique

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Angola, um país de contrastes

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Novembro.Dezembro.2010

Estatuto de Cidadão da CPLP em debate

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Exposição sobre vida e obra de Agostinho Neto

nota de abertura

Garcia Bires

embaixador de Angola em moçambique

Um forte abraço e um vazo comunicante
Ao lançarmos hoje, dia 11 de Novembro de 2010, a Revista da Embaixada da República de Angola na República de Moçambique com o título «Kandando», para além de pretendermos marcar de forma diferente os festejos alusivos ao 35.º aniversário da nossa Independência, queremos igualmente levar ao seu conhecimento o que fazemos, quem somos e quais são os nossos objectivos. Contudo, sendo o mundo actual cada vez mais uma aldeia global, estamos abertos em acolher a sua prestimosa colaboração e, num trabalho onde os integrantes são simples aprendizes para uma melhor prestação de serviço, também queríamos saber se o conteúdo que apresentamos é o que esperava ler, pois somente sendo criticados poderemos melhorá-lo por termos consciência que para o sucesso da revista, toda a colaboração é bem-vinda. O nosso primeiro número é igualmente especial porque tivemos o grande privilégio de termos tido a prestimosa colaboração de Sua Excelência Senhora Dra. Ana Dias Lourenço, Ministra do Planeamento, do Digníssimo Procurador-Geral da República, Senhor Dr. João Maria Moreira de Sousa, e de distintos cidadãos que, mau grado o curto tempo, os programas antecipadamente acordados, o calendário completamente preenchido e as tarefas inadiáveis, sem regateio, responderam imediatamente aos nossos pedidos. Fica aqui registado o nosso sincero agradecimento. Nesta primeira nota, desejamos afirmar a nossa firme determinação da «Kandando» ficar para muito tempo e marcar seu tempo como um dos instrumentos para dar a conhecer o que fazemos, informar o que se passa no nosso País. Que a revista «Kandando», que nasce das mãos dos diplomatas angolanos em terras do Índico, venha a ser de facto aquele muito forte abraço e um vazo comunicante por onde passará o calor saído das áreas quentes do Atlântico.

“Para além de pretendermos marcar de forma diferente os festejos alusivos ao 35.º aniversário da nossa Independência, queremos igualmente levar ao seu conhecimento o que fazemos, quem somos e quais são os nossos objectivos.”

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Secretária de estado para a Cooperação em maputo
A secretária de Estado para a Cooperação, Exalgina Gamboa, esteve na cidade de Maputo, onde integrou a delegação que participou, de 22 a 24 do Setembro, na VIII Comissão Bilateral Angola/Moçambique. Na sétima reunião, realizada em Julho de 2008, em Luanda, os governos de Angola e Moçambique comprometeram-se em acelerar a negociação do protocolo de protecção recíproca de investimentos. Os dois países são membros fundadores de organizações como a Comunidade dos Países de Língua Oficial Portuguesa (CPLP), Comunidade dos Países da África Austral (SADC) e dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP). As relações económicas entre os dois países foram estabelecidas formalmente a partir de 1978, quando os governos dos dois países estabeleceram as relações de cooperação económica, com a realização da primeira sessão da Comissão Bilateral.

Parlamentos da CPLP

Secretários gerais discutem gestão e modernização
Os secretários-gerais dos Parlamentos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), discutiram em Setembro, na cidade de Maputo, as formas de melhorar cada vez mais a gestão e a modernização das respectivas administrações na prestação do apoio técnico ao trabalho dos parlamentares. Trata-se do XI encontro e o segundo a ter lugar em Moçambique que, entre outros assuntos, debateu a importância da pesquisa para o funcionário parlamentar. Ao longo dos cinco dias de duração do evento foram apreciados os relatórios nacionais de actividade do país anfitrião, Angola, Brasil, Cabo Verde, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. A Guiné-Bissau não esteve presente no encontro por razões que se prendem com a situação política naquele país. Foram ainda debatidos temas como a incidência da crise financeira na Assembléia da República de Portugal; a questão da autonomia financeira no Parlamento de São Tomé e Príncipe e o papel do funcionário parlamentar na constituição e preservação do acervo documental – o caso de Moçambique. A utilização da língua portuguesa nas reuniões plenárias da União Interparlamentar constituiu também um dos assuntos debatidos no XI Encontro dos Secretários Gerais da CPLP, que se inteiraram ainda do projecto de criação do Centro de Estudos e Formação Parlamentar para o fortalecimento e desenvolvimento de recursos humanos na Assembléia da República e do respectivo plano estratégico para o período 2011-2014. Constou ainda do programa de trabalhos do encontro uma deslocação dos secretários-gerais dos parlamentos da CPLP ao Museu Aberto de Nwadjahane, terra onde nasceu Eduardo Chivambo Mondlane, fundador da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), visita a alguns empreendimentos económicos e uma audiência de cortesia com a presidente da Assembléia da República de Moçambique, Verónica Macamo. No último dia dos trabalhos, seguidos por Eduardo de Jesus Beny, secretário-geral da Assembléia Nacional (a representar Angola), o secretário-geral da Assembléia da República, Baptista Machaieie, ex-presidente da Associação dos Secretários-Gerais dos Parlamentos de Língua Portuguesa, passou as pastas ao novo dirigente eleito.

destaque

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Angola apoia realização dos Jogos Africanos de 2011, em Maputo
O Governo angolano vai dar apoio técnico a Moçambique para a realização dos X Jogos Africanos de 2011, em Maputo, no quadro de um acordo de cooperação rubricado na capital moçambicana, que abrange diversos domínios. O ministro moçambicano das Finanças, Manuel Chang, e a ministra angolana do Planeamento, Ana Dias Lourenço, assinaram o memorando de cooperação no fim da VIII Sessão da Comissão Mista de Cooperação Bilateral entre Angola e Moçambique. Os acordos são instrumentos rubricados no fim de cada sessão e indicam o estágio de cooperação de cada sector bem como os planos futuros nas diferentes áreas, designadamente Defesa e Segurança, Política e Diplomacia, Agricultura e Finanças. O mesmo memorando abrange domínios do Interior, Juventude e Desportos, ministério responsável pela realização dos Jogos Africanos, em Setembro de 2011, também conhecidos como olimpíadas africanas, que envolvem 4.000 membros de apoio e 6.000 atletas. A organização dos X Jogos Africanos está avaliada em mais de 190 milhões de euros. "Queremos solicitar o apoio técnico e organizacional para a realização deste evento", disse o ministro das Finanças de Moçambique. No tocante ao repto feito por Chang, Ana Dias Lourenço assegurou o "apoio de Angola, que tem muita experiência na organização deste tipo de eventos".

Angola - Moçambique

Angola apoia candidatura de Portugal no Conselho de Segurança
Angola vai apoiar a candidatura de Portugal a membro não permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas, posto a que concorrem também a Alemanha e o Canadá, segundo garantiu o secretário de Estado angolano para as Relações Exteriores, George Chicoty. George Chicoty, que chefiou a delegação do seu país à cimeira de avaliação da implementação das metas de desenvolvimento do Milénio, em Nova Iorque, disse, à imprensa angolana que acompanhou a realização do evento, que “(Portugal) é a nossa primeira opção” apesar das boas relações que Angola mantém com os três países. Reagindo às declarações do governante angolano, o ministro português dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado, disse ter acolhido com “satisfação” a posição de Angola, acrescentado que nunca teve dúvidas quanto ao apoio de Angola à candidatura portuguesa.
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Cooperação assinada no domínio da Defesa
Angola e Moçambique assinaram em Maputo um acordo de cooperação no domínio da Defesa, sobretudo nas áreas de segurança internacional, política de defesa, formação, missões de paz, operações humanitárias de busca e salvamento, desminagem, assistência médica, desporto e cultura. O acordo foi rubricado pelos titulares da área por Angola e Moçambique, respectivamente Cândido Pereira dos Santos Van-Dunen e Filipe Nyussi. O acordo visa igualmente a promoção de intercâmbio entre estabelecimentos militares de ensino e instrução, legislação militar, ciência e tecnologia, transferência do “know how”, relações civis-militares, bem como a exploração da possibilidade do início de um programa de formação mais sólido e troca de experiências em vários domínios e níveis. Os laços de amizade e cooperação entre as duas instituições foram formalmente rejuvenescidos em Novembro de 2005, com a assinatura do acordo geral de cooperação, que abrange as áreas económica, científico-técnica e cultural, para além de muitos outros protocolos dele decorrentes. Na ocasião, o ministro da Defesa de Angola realçou as relações de amizade e de cooperação existentes entre os dois povos e países, que remontam desde os primórdios dos tempos da luta de libertação. Disse que essas relações têm-se desenvolvido de forma fraterna ao longo dos tempos, melhorando ano após ano através duma concertação permanente e troca de experiências, quer no âmbito bilateral, quer no âmbito multilateral, por via das organizações a que os dois países pertencem. Afirmou que a visita a Moçambique acontece num momento particularmente importante da História de Angola, uma vez que o país caminha para a reconstrução nacional e regista um crescimento económico assinalável, numa perspectiva que visa a criação de condições sociais que permitam erradicar a pobreza tão depressa quanto possível e conferir melhor qualidade de vida a todos os angolanos. Nesta árdua tarefa, disse Cândido Van-Dúnen, o Ministério da Defesa Nacional e as Forças Armadas angolanas têm estado engajados no acompanhamento da dinâmica que o país vem experimentando nos últimos oito anos, com o advento da paz em 2002, bem como realizar acções como a construção de pontes, estradas, escolas, hospitais, assistência médica e medicamentosa às populações, a par da sua missão fundamental. Para o ministro da Defesa Nacional de Moçambique, Filipe Nyussi, foi com esta mesma cooperação que as duas instituições conseguiram materializar as suas pretensões, e das respectivas Forças Armadas, de formalizar a cooperação bilateral no domínio da Defesa que os dois países têm mantido.

Cândido Van-Dunen ministro da Defesa de Angola Novembro.Dezembro.2010 9

Em defesa dos Estados de Direito em África
A V Conferência da APA (Associação de Procuradores de África) realizou-se na cidade de Maputo e os procuradores dos diversos estados do continente africano debateram sobre os mecanismos e procedimentos atinentes a uma efectiva protecção dos direitos dos cidadãos. Nesse âmbito, João Maria de Sousa, procurador-geral da República de Angola, reflecte sobre a temática e traça o retrato da Região e do seu país no que diz respeito à criminalidade, à legislação e à própria Constituição da República de Angola.
Quais foram as principais conclusões a que os procuradores de África chegaram quanto à protecção do Estado de Direito e quais foram os momentos mais altos da Conferência?

Este período de trabalho teve o condão de permitir que discutissemos uma série de temas distintos, nomeadamente sobre a protecção e a manutenção do Estado de Direito, e os crimes transnacionais que estão relacionados com a criminalidade organizada transfronteiriça. Mas no que diz respeito a conclusões, podemos dizer que face à manutenção e protecção do Estado de Direito, a tendência vai para que os procuradores levem conselhos e sugestões aos respectivos estados e governos no sentido de modernizarem a legislação no interesse da reforma da Justiça e do próprio Direito, visando adoptar mecanismos legais que garantam os direitos do cidadão, e que lhes possam dar o pleno uso da cidadania.
Falou-se do tráfico humano como sendo uma das principais preocupações. Será que esse fenómeno, cuja preponderância se faz sentir mais no norte de África, está a alargar ao resto do continente?

O tráfico de seres humanos é, actu-

almente, considerado um dos crimes que causa maior preocupação porque envolve crimes que atingem particularmente pessoas pobres e indefesas, que de um modo geral são recrutadas com promessas de melhoria de vida e de emprego, quando na verdade, vão para uma espécie de escravatura sexual em que são obrigados a fazer tudo sem poder dizer ‘não’. É uma tipologia de crime que não é típica de África. Na verdade, os principais actores - os criminosos envolvidos nas grandes redes de tráfico de seres humanos - estão localizados em muitos outros continentes… como por exemplo, na Europa, na América, na Ásia, e é claro que em África encontram uma maior facilidade por ainda não dispormos de um controlo rigoroso sobre as nossas fronteiras. Ainda não conseguimos, muitas vezes, identificar se alguém que vai a acompanhar um determinado passageiro vai ou não forçado ou coagido a fazer a viagem. Por outro lado, as vítimas do tráfico de seres humanos têm alguma dificuldade em denunciar os crimes de que são vítimas. Isto por quê? Porque a tendência do criminoso é transmitir à vítima que tem a família devidamente controlada. Eles dizem logo: se você denuncia alguma situação, a sua família ou vai morrer, ou desa-

parecer. Nesse sentido, as pessoas têm receio e dificuldade em denunciar esse tipo de situações.
E essa situação também se passa em Angola e em Moçambique?

Nós não temos uma cifra registada, mas não temos dúvidas de que este é um tipo de crime que já começa a preocupar todos os países da nossa Região. Temos algumas falhas em termos de controlo e de registo de casos, mas já estamos a ser vítimas deste tipo de criminalidade. Seja em Angola, África do Sul ou Moçambique, qualquer um de nós já sente isso.
E quanto ao branqueamento de capitais?

O que sabemos é que o branqueamento de capitais – também chamado de lavagem de dinheiro – é um fenómeno em que determinadas pessoas e organizações, em diferentes países, se locupletam de avultadas somas de dinheiro por via ilícita, para posterior-

mente o fazerem passar por uma via oficial, de forma a que pareça ‘dinheiro limpo’ ou fruto de investimentos. O que ficou recomendado é que, efectivamente, os nossos países deverão ser aconselhados a adoptar legislação apropriada ao combate deste tipo de crime de maneira a que não só os operadores da justiça estejam preparados para o seu papel na prevenção e no combate, através dos julgamentos, etc., mas também de modo a que o cidadão comum ou as populações possam estar inteiradas das manifestações que se relacionam com este tipo de crime. Muitas vezes, o que acontece é que o próprio funcionário bancário não se encontra preparado e passam-lhe pelas mãos processos de transferências de valores, sobre os quais deveria ter um maior cuidado e, provavelmente, consultar as autoridades policiais. Mas, como ele nem sequer está preparado, então não faz nada. E quando estes crimes são detectados já se registaram grandes lesões.

Nós temos casos ocorridos em Angola que não foram tratados como sendo decorrentes do branqueamento de capitais e que de facto o eram. E por que é que não foram tratados como crimes dessa natureza? Porque na altura nós nem sequer tínhamos uma lei aprovada e em vigor sobre o assunto. O que deu origem a que o nosso Parlamento se apressasse a aprovar leis nesse sentido. Neste momento, nós já temos aprovada uma lei sobre o branqueamento de capitais, mas aqueles casos que foram detectados já não podem ser julgados mediante esta lei porque a mesma só surgiu depois do crime ter ocorrido.
Decorreu a aprovação da Constituição da República em Angola. A que nível a mesma irá contribuir para um Estado de Direito?

cional, ao longo destes anos todos, foi sofrendo revisões que a foram adequando à própria realidade de cada época. É claro que o país esteve mais de 30 anos em guerra e as instituições tinham um funcionamento anormal, como é natural, porque a guerra tem sempre estes efeitos. Mas, com o fim da guerra, que teve lugar em 2002, era necessário normalizar o funcionamento das instituições democráticas. Daí que fosse necessário aprovar uma Constituição através da qual foram reunidas todas as normas consideradas indispensáveis para que o nosso país pudesse funcionar com absoluta normalidade. É óbvio que esta Lei define que Angola é um Estado de Direito democrático e daí o surgimento de todas as outras normas próprias de um país de direito democrático em que são trazidas para a nossa Constituição normas da Declaração Universal dos Direitos do Homem, que são adoptados na nossa Constituição e que conferem as garantias para que qualquer cidadão se possa sentir um homem livre, para que possa ter acções sem nenhum tipo de pressão ou coacção. Enfim, para que possa ter todos aqueles direitos: o direito à vida, à liberdade, à reunião e associação, à educação, a um crescimento são, à habitação… que aliás são direitos naturais.
Qual foi, no fundo, a mensagem que Angola deixou nesta V Conferência da Associação de Procuradores de África?

Angola

Angola

Na prática foi a aprovação de uma Constituição e é a primeira existente em Angola porque em 1975 – depois do país ser independente – foi aprovada uma Lei Constitucional. Essa Lei Constitu-

Angola tem estado a participar activamente. É um dos membros do Comité Executivo e o nosso contributo tem sido muito valioso até porque temos sido pontuais no cumprimento de todas as decisões tomadas nas reuniões, tanto nas anuais como nas do Comité Executivo, ao contrário de muitos membros que nem sequer aparecem às reuniões, não pagam contribuições e que nem se dignam a dar algum tipo de satisfação, aparecendo apenas neste tipo de reuniões anuais, e nada mais.

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Paulo Jorge, o defensor da "tough diplomacy"

Considerações sobre a Independência de Angola
Rei nem Roque. Basta lembrar a guerra civil em Espnha. Daí até à II Grande Guerra foi um passo. É durante este conflito que são criadas condições para se iniciar a organização política dos povos colonizados. A dificuldade em navegar os mares, onde os navios de transporte eram frequentemente afundados, não permitindo o abastecimento das tropas nos teatros de guerra e dificultando o acesso a matérias primas e géneros, que eram obtidos nas Colónias, para suprir as necessidades dos países coloniais, levou a que algumas infra-estruturas, transformadoras e de produção, fossem criadas nas possessões africanas, reduzindo a frequência dos transportes e a consequente utilização dos navios. Reduzir o risco implicava também que fosse aproveitada a mão de obra local, numa forma de exploração diferente daquela que tinha sido utilizada durante a prática industrial da escravatura. Este fenómeno histórico levou ao aparecimento de uma classe nativa mais educada e mais esclarecida que começou a interpretar as condicionantes impostas ao imperialismo como um instrumento possível de libertação. Assim vão surgir movimentos que procuram a emancipação e a constituição de sociedades locais politicamente organizadas. Como consequência veio a repressão, as mortes, as prisões, as polícias secretas e mais o que se sabe. Porém, a onda não arrepiou, os ventos não pararam e, como se sabe, os países Africanos foram alcançando a independência, o que além de não ter sido fácil não trouxe, infelizmente em muitos casos, a realização das aspirações dos mentores dos processos evolutivos. Por um lado, foram vítimas da confrontação ideológica Leste/Oeste, notoriamente à procura de controlo e de estabelecimento de “zonas de influência” que contrapunham a União Soviética e os Estados Unidos. É certo que não eram só estas as forças em conflito, como seria o caso da China e das exforças coloniais, em geral determinadas por importantes interesses económicos. Dentro da nova ordem estabelecida ou a estabelecer nos novos países, apareceram forças dissidentes e muitas vezes confrontadoras. Quase por toda a parte acendem-se guerras fratricidas que deixaram dolorosas marcas, ainda hoje evidentes e que dificultaram ou mesmo impossibilitaram a instalação de administrações funcionais e eficientes. O esforço e sacrifício daqueles que fundaram e dinamizaram, superando dificuldades tremendas, os movimentos políticos que assumiram a responsabilidade de dar forma e conteúdo a novos países são simbolicamente lembrados com algumas celebrações que, embora lustrosas, estão longe de traduzir o que foram, esse esforço e sacrifício, para alcançar o estatuto actual no concerto das nações. Isso é mais notório entre as novas gerações. Para os mais velhos, quando sobe a bandeira, sente-se um arrepio de saudade (ou será de angústia?) e alguns nomes, entre tantos outros, vêm à memória e é como se eles estivessem ali trocando sorrisos e lágrimas que ensopam a História. Alguns nomes de quem não está, mas estará sempre: Viriato da Cruz, Amílcar Cabral, Eduardo Mondlane, Mário Pinto de Andrade, Agostinho Neto. Apenas para que os mais novos possam ir à procura destes símbolos e de outros que com eles tornaram possível terem hoje um país e uma pátria sua, não esquecendo de ter um momento de reflexão e respeito por aqueles, e foram tantos, que morreram anonimamente.

Partiu esta noite para a sua última viagem o nosso querido Camarada Paulo Jorge, pessoa que marcou não só a sua geração, como a minha e as gerações seguintes. Partiu como queria, como viveu. Até ao fim, debilitado, continuou o ritmo de trabalho extenuante, participando activamente na Internacional Socialista em Nova Iorque, na passada semana. Marcou todos com quem conviveu, pela lucidez das suas escolhas, o seu humor inabalável, a coerência das suas análises, a sua honestidade desconcertante. A mim, marcou-me com o seu exemplo e seu saber, e o seu pragmatismo, que começou ao “exigir” que eu servisse o meu País não noutro local de trabalho, qualquer, mas ali, no Ministério das Relações Exteriores que ele na altura chefiava, do recentemente formado país, Angola, e de quem me orgulho de ter seguido o exemplo de coerência, espírito de sacrifício, abnegação, patriotismo. É dele a “tough diplomacy” de que tanto se queixava Chester Crocker, e dele as estratégias para se contornar o “linkage” e trazer à Namíbia a independência tão sonhada por todos nós. Pela sua inteligência e argúcia nos corredores diplomáticos, Angola se pode orgulhar de grandes passos dados na conquista de um lugar sólido, na arena internacional, como País recentemente inependente. Que o nosso Querido e já saudoso Camarada e Amigo, tente descansar agora na eternidade. Bem o merece. Teresa Pereira
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Angola

Angola

E. Vasques (texto)

«Para os mais velhos, quando sobe a bandeira, sente-se um arrepio de saudade (ou será de angústia?) e alguns nomes, entre tantos outros, vêm à memória e é como se eles estivessem ali trocando sorrisos e lágrimas que ensopam a História»

Quando me perguntaram se podia escrever “alguma coisa” sobre a Independência de Angola, logo um arrepio de saudosismo (ou seria de angústia?) despertou memórias de um tempo quase esquecido. Mergulhei no “antigamente” e lembrei-me do meu olhar extasiado mirando o “olho de boi” que indicava que o rádio, ligado a uma bateria, funcionava e ia trazer as notícias, via Brazaville, do desenvolvimento da II Guerra Mundial. A grande sorte de ter absorvido, com as minhas primeiras palavras, ouvidas e pronunciadas, essa fabulosa ideia de que a liberdade é, muitas vezes, um pássaro sem asas, um pesadelo sem acordar, uma luta sem fim, fizeram-me compreender que, seja quando for, seja onde for, as hienas e os abutres querem sempre rapar a carcaça, depois dos leões comerem a carne. Era, numa rústica comparação, a situação Colonial, e não só em África, no caos que o conflito mundial trouxe à

humanidade. Já nos fins do Século XIX a Conferência de Berlim (e seus acessórios) tinham tentado estabelecer novas “regras do jogo” para a política mundial de ocupação colonial na fase pós-esclavagista. As mais estranhas sugestões foram feitas numa perspectiva que a História toma como resultado ou antecipação de grandes acontecimentos: a seguir à revolução industrial aproximava-se a revolução Bolchevique, ambas com um impacto decisivo no futuro dos países colonizados e seus povos. Primeiro veio a Grande Guerra, que era ainda uma questão doméstica Europeia que serviu apenas para “aquecer a fornalha”. Segue-se a estruturação da União Soviética com um monolítico Aparelho de Estado e o aparecimento de uma Alemanha belicosa e expansionista à procura de “espaço vital”. O resto da Europa entretinha-se com manobras mirabolantes de jogos diplomáticos sem

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O objectivo é «melhorar a qualidade de vida» dos angolanos
grande plano
O Presidente da República de Angola, José Eduardo dos Santos, proferiu um discurso sobre o Estado da Nação na cerimónia solene de abertura do Ano Parlamentar da Assembleia Nacional, no dia 15 de Outubro passado. O Chefe de Estado angolano, numa acção sem precedentes, dirigiu-se à Nação e procurou retratar os constrangimentos vividos em 2009, devido à crise financeira internacional, e traçar o contexto económico e social do país.
Eduardo dos Santos, Presidente da República de Angola, abordou, ao longo de um discurso à Nação, as políticas e medidas adoptadas para enfrentar a crise; normalizar a situação e promover o desenvolvimento sustentado, com vista a uma melhor distribuição da riqueza, à melhoria da qualidade de vida e à satisfação crescente das necessidades espirituais e materiais dos cidadãos. De igual modo, o Presidente tratou igualmente de aspectos gerais que visam projectar a República de Angola no concerto das Nações, como um país com ambição para se tornar moderno, forte e capaz. «Somos uma Nação independente que ao longo dos seus trinta e cinco anos de existência comprovou que tem sabido concretizar paulatinamente os sonhos do seu povo e os seus desejos mais profundos, com determinação, coragem e vontade de vencer», falava então a propósito. Eduardo dos Santos relembrou que, mesmo nos momentos mais difíceis, o Povo angolano nunca se deixou vergar pelo desânimo, pelo desespero ou pelo pessimismo. Pelo contrário. Referiu que foi precisamente nesses momentos que ele se ergueu, levantando a cabeça, ganhando forças e partindo firme e unido rumo à vitória. «Com essa atitude conquistámos a Independência, a Democracia e a Paz. Com essa atitude consolidámos a Unidade Nacional e começámos a Reconstrução do país», sublinhou, alertando para o facto de que actualmente outros desafios se apresentam, como a construção
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do desenvolvimento e do bem-estar, o controlo da imigração ilegal e das fronteiras. «Apesar dos previsíveis obstáculos, não há dúvidas que também desta vez havemos de triunfar. Não há metas impossíveis na trajectória de um povo quando ele se propõe lutar com fé, realismo e abnegação. Acreditando em nós próprios e nas nossas capacidades já desbravámos meio caminho para o sucesso!». De acordo com o presidente da República de Angola, o resto do percurso depende da clarividência política, da definição correcta dos objectivos, do planeamento das acções, da organização do trabalho e do método a empregar para o cumprimento das tarefas. «Depende igualmente dos recursos humanos, financeiros e materiais com que podemos contar ou criar», garantiu num tom positivo e contagiante. Será tudo isto, de acordo com o Chefe de Estado, conjugado com uma atitude responsável perante o trabalho e a disciplina, com honestidade, com transparência e boa governação que pode levar o povo angolano ao êxito e à satisfação plena pela realização dos seus sonhos. O tECiDO ECOnóMiCO Eduardo dos Santos traçou um olhar atento sobre a economia angolana face à crise. O Presidente recordou que o sector petrolífero (principal fonte de receitas) sofreu um duplo impacto com a crise mundial, evidenciando consequências negativas, como a redução drástica dos seus preços. Aliás, salientou igualmente que o impacto da queda da receita petrolífera na receita tributária do país foi enorme, uma vez que mais de dois terços dessa receita provêm da actividade petrolífera. Por outro lado, não deixou de mencionar que a crise atingiu também, embora em menor extensão, a actividade diamantífera. A completar este quadro sombrio, sublinha-se que se registou nessa altu-

ra no mercado interno o crescimento de um forte movimento especulativo de procura de moeda estrangeira e o aumento generalizado dos preços relativos. Por essa e outras razões, as reservas internacionais líquidas do país diminuíram de forma acentuada, nos primeiros meses de 2009, e foi preciso agir prontamente como forma de evitar que a procura injustificada de moeda estrangeira levasse a que a crise cambial se tornasse ainda mais grave. O Executivo começou por tomar medidas na área fiscal, reduzindo de forma acentuada e selectiva a despesa pública para fazer face à brusca e violenta queda da receita tributária e a seguir, de forma mais incisiva, harmonizou a sua acção com a do Banco Nacional de Angola, para que este aperfeiçoasse a gestão da política monetária e reduzisse o excesso de liquidez existente na economia. Neste contexto, o Executivo passou a financiar parte da despesa pública com recursos obtidos da venda de títulos da dívida pública ou bilhetes do Tesouro Nacional. Adoptadas as medidas necessárias no plano interno, que foram integradas num Programa de Estabilização consistente, firmou-se um Acordo ‘Stand By’ com o Fundo Monetário Internacional no terceiro trimestre de 2009. «Esse acordo serviu para captar mais recursos financeiros para a nossa Balança de Pagamentos e significou também um reconhecimento internacional da correcção e oportunidade das medidas de ajuste que haviam sido implementadas pelo Governo ao longo desse ano, que permitiram proteger as reservas internacionais líquidas e assegurar a estabilidade macroeconómica do país», explicou Eduardo dos Santos. À avaliação positiva da política económica angolana seguiram-se, no primeiro trimestre de 2010, as classificações de ‘rating’ soberano da economia angolana feitas pelas três principais agências internacionais especializadas

«Apesar dos previsíveis obstáculos, não há dúvidas que também desta vez havemos de triunfar. Não há metas impossíveis na trajectória de um povo quando ele se propõe lutar com fé, realismo e abnegação. Acreditando em nós próprios e nas nossas capacidades já desbravámos meio caminho para o sucesso!»

grande plano

na matéria. «O ‘rating’ positivo no contexto das economias com o mesmo perfil económico de Angola, para além de conferir prestígio ao país, reforçou a convicção de que estávamos, e continuamos, no caminho certo para a superação das consequências negativas da crise financeira internacional sobre a nossa economia», referia o Presidente ao longo do seu discurso. Nesta perspectiva, a dívida acumulada, que é também uma consequência da crise, começou a ser saldada em Abril deste ano. A oportunidade e a eficácia das medidas podem ser ainda avaliadas pelos efeitos positivos que provocaram na economia. A economia angolana continua a crescer, mesmo que seja a um ritmo mais moderado. A taxa de crescimento do PIB em 2009 foi de 2,4 por cento e a inflação subiu apenas um por cento, apesar da forte depreciação do kwanza. As reservas internacionais líquidas foram estabilizadas no final de 2009 e recuperaram rapidamente em 2010.
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grande plano

O Kwanza, depois de ter sofrido a referida depreciação em 2009, começou a valorizar-se a partir do primeiro trimestre deste ano e estabilizou no patamar de 90 Kwanzas o Dólar no mercado primário. As reservas internacionais líquidas do país, entretanto, atingiram valores superiores a 1 trilião, 10 mil e 862 milhões de kwanzas, equivalentes a 12 mil e 635 milhões de dólares, no final do último semestre. De acordo com o Presidente da República, desde 2002, constitui um facto indesmentível que o país registou um progresso notável na reconstrução das suas infraestruturas e na reorganização da sua economia. O crescimento da economia angolana foi dos mais elevados do mundo desde que Angola alcançou a paz. BEM-EStAR SOCiAL O objectivo principal do Executivo é a constante melhoria da qualidade de vida do Povo angolano. Como tal, encontra-se determinado a aumentar - de modo sistemático - os meios financeiros para os programas sociais, de forma a superar a actual meta mínima de 30 por cento dos recursos previstos no Orçamento Geral do Estado. Nesse sentido, é de se reconhecer que já foram obtidos nos últimos anos importantes progressos e melhorias, como o demonstram alguns dos principais resultados do recente Inquérito Integrado sobre o Bem-estar da População.

«Nesse sentido, é de se reconhecer que já foram obtidos nos últimos anos importantes progressos e melhorias, como o demonstram alguns dos principais resultados do recente Inquérito Integrado sobre o Bem-estar da População»
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Para além dos bons resultados adquiridos em matéria de saúde, importa reforçar ainda mais a protecção concedida à criança e ao idoso, bem como melhorar o controlo das grandes endemias como a malária, o HIV/SIDA, a tuberculose e a tripanossomíase. Estes e outros importantes problemas de saúde pública são desafios que o país terá de continuar a priorizar, pois para a implementação das metas do Executivo no domínio da Saúde, até 2012, é fundamental reabilitar e ampliar a rede dos diferentes níveis de cuidados da saúde e orientar correctamente os planos de desenvolvimento sanitário a nível provincial e os de investimentos públicos e recursos humanos. Importa igualmente melhorar a capacidade dos profissionais e dos meios de diagnóstico e de tratamento, com ênfase na humanização dos serviços e na gestão cuidada dos recursos disponíveis bem como melhorar as condições e infraestruturas relacionadas com o sector da Educação. «O sector em que a situação é muito mal é o da habitação. Mais de 70% das famílias angolanas não têm casa condigna. Neste domínio, teremos que fazer um grande esforço, eu diria um esforço gigantesco para revertermos a actual situação», revela Eduardo dos Santos à Nação. Já no que diz respeito ao programa de investimentos públicos no sector dos Transportes, tanto na recuperação de estradas, pontes e ferrovias como na construção de novos empreendimentos, o mesmo permitiu o rápido reassentamento de mais de três milhões de pessoas deslocadas nas suas zonas de origem e uma mais fácil circulação de pessoas e bens em todo o território nacional. Permitiu igualmente aumentos significativos dos volumes de carga transportada, nas suas diversas modalidades. Por outro lado, a geração total de energia eléctrica e a capacidade de produção de água tratada também aumentou. E no que diz respeito às Telecomunicações registam-se, anualmente, elevadas taxas de crescimento do número de usuários dos serviços telefónicos. De igual modo, constatou-se a criação de mais de 385 mil empregos nos sectores da energia, do comércio, da agricultura, das pescas, dos transportes, das obras públicas, da geologia e minas,

decisões em conselhos de concertação social. Os programas integrados de combate à fome e a pobreza incluem acções no domino da saúde e da educação, das infra-estruturas básicas, do comércio rural, da agua e energia, da produção local e da formação profissional. O Executivo aprovou, uma linha de crédito de um valor em Kwanzas equivalentes a 350 milhões de dólares e fundos para a promoção de micro-crédito, aos quais têm acesso os pequenos e médios agricultores, destinado em especial a apoiar a agricultura familiar e a população camponesa desfavorecida. O empresariado nacional também irá beneficiar de medidas específicas no quadro do fomento e promoção das pequenas e médias empresas e de novos estímulos para a formação de grandes empresas angolanas. O Executivo irá adoptar uma política consistente de promoção das empresa privadas angolanas, por forma à que os cidadãos nacionais tenham cada vez maior intervenção em actividades produtivas, como já está a ocorrer com sucesso nos sectores petrolífero e diamantífero. Todas essas medidas visam a inserção competitiva da economia angolana no contexto internacional, pois a realidade da globalização impõe uma estratégia de crescimento não só apoiada na diversificação, mas também com alguma selectividade sectorial, na qual o Estado deverá assumir um papel de liderança. Por essa razão, estão a ser feitos esforços para melhorar a coordenação institucional, principalmente no sector produtivo da distribuição e do comércio, de modo a que os programas e projectos atinjam as metas fixadas. da saúde, da indústria e da hotelaria e turismo, em 2009. O combate à fome e a luta pela redução e erradicação da pobreza, pelo seu impacto na vida da população, constituem dois dos maiores desafios que se colocam hoje ao Estado angolano, pois são preponderantes para se construir uma sociedade mais próspera e de justiça social. Contudo, ambos os problemas estão a ser tratados numa dupla perspectiva, isto é, no quadro da execução da política macroeconómica e no âmbito de uma desconcentração administrativa mais forte e especificamente ligada aos locais onde se concentram os focos de pobreza. Daí que o Executivo esteja a implementar programas municipais integrados de desenvolvimento rural e de combate à fome e à pobreza, pressupondo maior participação comunitária, fiscalização local, execução e implementação de acções pela própria comunidade e RELAçõES ExtERiORES No domínio das Relações Exteriores, Angola vai continuar a desenvolver e reforçar as relações de amizade e cooperação, com vantagens recíprocas para todas as partes envolvidas. «Ao mesmo tempo, vai manter a sua inelutável vocação de ser um factor de paz, estabilidade e desenvolvimento não só das sub-regiões em que está inscrita, como a SADC, a CEEAC e o Golfo da Guiné, mas também de apoio a países a que nos ligam profundos laços históricos

e de amizade, como está agora a acontecer com a Guiné-Bissau». Por outro lado, o estabelecimento de parcerias estratégicas com a República Federativa do Brasil, com a República Portuguesa, com os Estados Unidos da América e, futuramente, com a República da China está adequado ao momento que o mundo vive hoje e inscreve-se não apenas na necessidade urgente da reconstrução nacional, mas também numa perspectiva mais ampla do projecto de desenvolvimento nacional e da projecção de Angola no plano internacional. Nesse contexto, o país continuará a desenvolver relações de amizade com todos os países do mundo, na base do respeito mútuo e da igualdade.

grande plano

Em resumo, as grandes prioridades estratégicas para os próximos anos, visando assegurar a continuação do processo sustentado de desenvolvimento são as seguintes: A preservação da unidade e coesão nacional, com a consolidação da democracia e das instituições; A garantia dos pressupostos básicos necessários ao desenvolvimento, através da estabilidade financeira e da transformação e diversificação da estrutura económica; A melhoria da qualidade de vida e a consequente melhoria dos índices de desenvolvimento humano dos angolanos;

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O estímulo ao sector privado, em especial ao empresariado angolano;

O reforço da inserção competitiva do País no contexto internacional.

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Angola colhe frutos do passado diplomático
Torna-se cada vez mais frequente observar o esforço da cooperação e das missões diplomáticas e empresariais entre Angola e Moçambique. Garcia Bires, embaixador de Angola em Moçambique desde 2002, tece considerações sobre as relações bilaterais existentes entre os países irmãos, contando um pouco da História que os une.
ção de forças na altura, a nível do Globo.

entrevista

Depois, decorreu um boom económico que ajudou e que trouxe uma maior visibilidade em termos de relações com outros países…

ESFORçO DiPLOMÁtiCO REALiZADO
Uma vez que pertenceu à geração que criou o Ministério dos negócios Estrangeiros em Angola, na sua opinião quais foram os momentos mais marcantes vividos pelo país em matéria de política externa?

Em matéria de política externa, o momento mais marcante foi o reconhecimento de Angola pelas Nações Unidas, primeiro, e o avolumar do reconhecimento que o país foi tendo de Novembro até Fevereiro-Março de 1976. A independência foi proclamada de uma maneira sui generis. O reconhecimento pelas Nações Unidas foi o culminar de todo um trabalho que nós levamos a cabo e veio-se a comprovar que, de facto, estávamos no caminho certo.
E qual foi a principal estratégia que o
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Ao fim e ao cabo, nós colocamos em prática a linha política do MPLA. Nós lutamos pela libertação do país, no sentido de criar condições para que Angola pudesse ocupar o seu espaço quer na África quer no Mundo. Aliás, não é por acaso que o então chefe de Estado proclamou diante do Mundo e de África a independência de Angola. Foi o culminar de todo um trabalho que fomos fazendo no decurso de 14 anos e depois houve o reconhecimento da parte da comunidade internacional de todo o esforço e da seriedade que a política proclamava no dia 11 de Novembro. Portanto, era uma política sustentável e real naquele momento em que se previa já o fim da Guerra Fria. Creio que fomos felizes, não só em Angola como em outros países onde foi proclamada a independência naquele período. E temos sabido tirar proveito da correla-

país teve em conta a partir de então?

O boom veio mais tarde. O boom foi outro aspecto que demonstra a coerência política do Governo e daquilo que o Governo sempre pretendeu que fosse Angola, e resultado do esforço naturalmente de todo o povo para que Angola continuasse a ser um país unindivisível. Portanto, esse boom devia ter surgido muito antes. Mas felizmente nunca é tarde e procuramos por todos os meios que as capacidades de Angola revertam a favor do seu povo. Naturalmente que temos alguns problemas. Não é fácil porque na reconstrução do país não podemos pensar no boom sem que tenhamos estradas, pontes, escolas, postos clínicos – infraestruturas que se reflectem no bem-estar diário e que irão fazer com que cada angolano possa beneficiar das riquezas do seu país.

Portanto, houve um grande esforço não só da comunidade internacional como do próprio Governo no sentido de dar condições de habitabilidade e alimentação à população. A nível dos Direitos Humanos em Genebra, fui o chefe da delegação de Angola na 10.ª Conferência Mundial de Direitos Humanos. Na altura, queríamos mostrar ao Mundo que mau grado a situação de guerra que vivíamos, o nosso país não tinha declarado o Estado de Sítio, e não tinha suspendido a Constituição. Como tal, tudo prosseguia normalmente graças à capacidade do Governo em manter estruturas a funcionar e em manter as liberdades do povo. E esta foi a mensagem que passámos em Viena de Áustria e que foi então bem acolhida. Hoje, portanto, estamos a colher frutos desse passado.
E agora alterou-se a Constituição. Quais foram as principais mudanças estipuladas?

gamos – normal, em várias zonas do mundo. E esse é o exemplo que nós temos passado. Por outro lado, o esforço de Angola presentemente em relação à Guiné Bissau (enquanto país e no âmbito da presidência da CPLP, e como estado dos PALOP e membro das Nações Unidas e da União Africana), é um esforço no sentido a que os nossos irmãos guineenses possam também beneficiar da paz. Portanto, essa é a mensagem que temos passado a par do esforço feito que vem sendo motivo de estudo.

A RELAçÃO AnGOLA-MOçAMBiQUE
A primeira vez que veio a Moçambique foi em Setembro de 1975 e depois retornou em 2002, ano a partir do qual passou a representar Angola no espaço moçambicano. Qual tem sido o percurso das Relações Bilaterais entre estes dois países?

« Esta é a primeira Constituição angolana. Ela enquadra-se no tempo e no espaço. Ela respeita e observa todas as tendências actuais de uma sociedade moderna. Estão previstas todas as liberdades do povo angolano. É uma constituição nova e moderna e creio que nos podemos sentir orgulhosos porque a mesma foi produzida por angolanos e por cérebros de Angola»

entrevista

São profundas. Esta é a primeira Constituição angolana. Ela enquadrase no tempo e no espaço. Ela respeita e observa todas as tendências actuais de uma sociedade moderna. Estão previstas todas as liberdades do povo angolano. É uma constituição nova e moderna e creio que nos podemos sentir orgulhosos porque a mesma foi produzida por angolanos e por cérebros de Angola.
E que leitura pode fazer de Angola, passadas mais de três décadas de independência. Houve diversas alterações a nível sócio-económico…

Tinhamos muitos problemas nessa altura, porque coincidiu com o período da Guerra. Mais concretamente, com o período da II Guerra da Libertação. E a minha missão foi levar a mensagem do Governo de tudo quanto fazíamos a nível social, pois realmente a preocupação era como cuidar das crianças e dos idosos. Quero fazer recordar que depois do fim da guerra e de assinarmos os acordos de paz com a UNITA, nós tínhamos acima de um milhão de angolanos refugiados, tanto internos como externos.

O Dr. é embaixador de Carreira, tendo dado igualmente o seu contributo na Assembléia das nações Unidas e na Comissão dos Direitos Humanos, em Genebra. Quais foram os principais desafios propostos nessa altura?

Três décadas para um país é pouco tempo mas para um cidadão é muito tempo porque tem sempre a ânsia de ver as coisas andarem. As recordações que eu tenho reportam ao esforço que o Governo teve, quer no decurso da guerra que travamos e quer no pós-guerra. E a nossa experiência tem sido motivo de estudo em várias zonas do planeta, e diversos governos procuram colher a nossa experiência. Isto porque apesar de 30 anos de guerra, nós conseguimos manter o nosso país unindivisível e hoje em Angola todas as forças políticas, todas, inclusivamente a UNITA estão no Parlamento e todos convivemos. E isso não é – diEm que medida?

Recordo-me de vários episódios. A minha presença em 1975, em Maputo, faz-me lembrar que o governo moçambicano através da organização de Solidariedade África e Ásia rendeu uma homenagem ao povo angolano e eu vim representar o MPLA nesse evento. Então, senti, uma vez mais, que foi um renovar da amizade entre Angola e Moçambique. Passados alguns meses, Angola tornou-se independente e Moçambique foi um dos primeiros países a reconhecer a sua independência. E tivémos boas relações não só porque os dois chefes de Estado na altura, os saudosos Agostinho Neto e Samora Machel, eram próximos, mas também porque havia muita coisa em comum. Nós fomos os fundadores da CNCP. Nós fomos dinamizadores dos PALOP. Nós fomos os países africanos com maior população e capacidade, e tal conferiu às relações bilaterais um cunho de responsabilidade e de solidariedade para com outros povos. E eis mais uma das razões pela qual Angola se encontra engajada na pacificação da Guiné Bissau e a razão pela qual Moçambique se mostrou preocupada em garantir a estabilidade no Zimbabwe. Esta relação Angola-Moçambique é uma relação histórica e com o andar dos anos, essa relação tem aumentado de forma considerável. Não é por acaso que hoje os empresários moçambicanos e angolanos se reúnem. Não é por aca-

so que hoje Angola beneficia da experiência moçambicana a vários níveis. Há pouco tempo, esteve cá, por exemplo, o presidente da Assembléia Nacional de Angola, e temos cá estudantes assim como há moçambicanos em Angola em várias áreas para recolher experiências. E esta ligação faz com que de facto estejamos cada vez mais unidos e a ligação aérea vem de facto reconfirmar todo esses esforço que os nossos dois países têm desenvolvido, nos últimos 34 anos.
Em que áreas prioritárias se manifesta o fruto desse relacionamento?

No que diz respeito à energia, à formação de quadros - quer técnicos quer a nível superior, ao desporto, à cultura e ao comércio. Tendo em conta a nossa realidade, nós optamos por áreas concretas através das quais tanto Angola como Moçambique podem beneficiar.
Um dos exemplos dessas áreas de cooperação também abrange o parlamento, de acordo com a visita do presidente da Assembléia de Angola?

O que nós viemos procurar, compreender e levar para Angola é como é que a Assembléia da República vê e controla
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a função do Governo. E depois… Há vários departamentos que nós não temos e nos quais Moçambique tem uma certa experiência. A nossa Assembléia Nacional tem poucos anos de vida em relação a Moçambique e daí a busca da experiência moçambicana. Assim como os moçambicanos colhem algumas experiências nossas. Como tal, há uma vantagem recíproca, a todos os níveis. Nós temos, por exemplo, estudantes na Academia da Polícia e recebemos estudantes moçambicanos a nível do sector do petróleo. E estamos a precisar de mandar técnicos angolanos a nível da agricultura para Moçambique, porque Moçambique nesse aspecto tem um estatuto de agronomia muito avançado. Portanto, queremos colher experiência do cultivo da mandioca, da ginguba (amendoim) e do feijão. E devo dizer que também temos interesse em recolher experiência no domínio da aquacultura. Em contrapartida, Angola também tem recebido alguns técnicos moçambicanos, quer a nível dos bombeiros, a nível de estudantes e também tem havido algum intercâmbio a nível da saúde. De facto, as coisas nos últimos sete anos têm encontrado espaço quer num quer noutro país. Somos dois países de língua portuguesa, temos muita coisa em comum que podemos aproveitar.
Esta já é a sua segunda missão aqui em Moçambique. O que se estipula para os próximos tempos? A consolidação do esforço ou existem mais novidades a acrescentar ao esforço diplomático?

entrevista

aspectos mais técnicos. E creio que também lá iremos num futuro muito próximo, porque o mundo hoje vive trocando, vendendo, comprando e investindo, e naturalmente que nós abrindo as portas para o investimento moçambicano em Angola também acreditamos que Moçambique abrirá as suas portas ao investimento angolano. Há muitas áreas onde podemos investir e tanto um como o outro país temos as ‘portas abertas’ para o mercado da África Austral, através não só dos portos como da rede de linhas férreas. A África Austral espera, quer de Angola quer de Moçambique, que as linhas férreas da Beira e de Benguela venham a ser dinamizadoras do desenvolvimento dos estados africanos.
O investimento entre Angola e Moçambique tem vindo a aumentar em termos de volume?

Creio que o volume não é assim tão grande como desejaríamos porque, infelizmente, ainda existe muita burocracia e os nossos bancos não estão capacitados no sentido de acudir de forma rápida ao nosso empresariado.
Quais são os sectores de actividade económica preferenciais para os angolanos que investem em Moçambique? E qual é a dimensão dessa comunidade?

«Angola tornouse independente e Moçambique foi um dos primeiros países a reconhecer a sua independência. E tivémos boas relações não só porque os dois chefes de Estado na altura, os saudosos Agostinho Neto e Samora Machel, eram próximos, mas também porque havia muita coisa em comum. Nós fomos os fundadores da CNCP. Nós fomos dinamizadores dos PALOP»

entrevista

A tendência é aumentar o campo de cooperação. Pensamos que agora com a linha aérea Maputo-Luanda se não será oportuno que a TAAG abra aqui uma delegação. Com o futuro processo de gás, por que não enviarmos técnicos para junto do Ministério da Energia e ganharmos com a experiência moçambicana na exploração de gás em Inhambane (Pande e Temane). Temos interesse em participar na construção das novas barragens, e também temos intenções de enviar alguns técnicos para trabalhos de reabilitação.
E na área financeira também se espera algumas novidades?

A comunidade angolana em Moçambique é muito pequena, havendo cidadãos em Maputo, Tete e Beira. Hoje, a mesma está mais reduzida porque uma boa parte da comunidade regressou ao país depois da paz. A maioria são angolanos que já estão cá estabelecidos ou porque constituíram família ou porque têm ocupação em moçambique. O seu desempenho não tem contudo grande peso a nível comercial, ou a outro nível. Penso que vamos apostar para que os empresários angolanos venham mais a Moçambique.
Em termos de objectivos propostos por si foram todos conseguidos? O que lhe falta agora concretizar?

nha missão é criar condições para que de facto as relações entre Angola e Moçambique se fortaleçam. O meu chefe de Estado esteve cá já algumas vezes, tal como o chefe de Estado moçambicano esteve duas ou três vezes em Angola. Quando fui nomeado para cá, propus como missão tentar ligar Luanda a Maputo e com a LAM – Linhas Aéreas de Moçambique, conseguimos. Como tal, tenho de agradecer ao Eng. Veiga, da Direcção da LAM, por juntos termos conseguido que a LAM pudesse voar para Angola. Tem havido troca de experiências a todos os níveis, portanto tenho cumprido com os deveres que o meu Governo me incumbiu. A EnVOLVÊnCiA nAS GRAnDES COMUniDADES
Essa mais-valia poderá representar um bom boost ao relacionamento bilateral… E em relação aos desafios que são propostos pela SADC? Acha que essa decisão de estreitar distâncias irá incrementar a relação entre os países daquela Comunidade?

É possível. Isso terá a ver com alguns

Tenho encontrado facilidades a nível do governo moçambicano para desempenhar as minhas funções. Mas provavelmente não serei a pessoa mais indicada para poder classificar. Creio que tenho cumprido as obrigações que são ditadas pelo meu Governo. A mi-

Eu creio que sim. O problema que

se coloca é como é que cada um desses países vai desempenhar esta ou aquela tarefa na SADC. Por exemplo, neste momento estamos a construir Angola. Por conseguinte, nós não podemos abrir o mercado à concorrência. Isso seria matar a iniciativa do empresariado angolano e do investimento em Angola. Logo, não nos encontramos preparados para participar imediatamente. Fala-se também na livre circulação de pessoas e bens. Sim, nós participamos. Mas como é que é feito o controlo? Nós estamos a construir o país e não temos postos fronteiriços onde o estrangeiro possa pedir o visto de entrada, como acontece em Moçambique. Nós não temos estrutura, portanto não podemos acompanhar essa ‘passada’ da SADC. Aliás, penso que cada um dos países irá contribuir melhor para a SADC se o fi-

zer de acordo com as suas capacidades e o seu ritmo. Nós queremos criar uma comunidade única e na qual cada um de nós tenha peso, seja respeitado e possa participar de forma activa. Como tal, este é o desafio que temos na SADC.
E o que se espera de Angola frente aos destinos da CPLP?

O destino será continuar a tónica imprimida. Nós comprometemo-nos diante do nosso chefe de Estado quanto à manutenção da nossa solidariedade e empenho no sentido de garantir a paz na Guiné Bissau. E vamos conseguir. Já encontramos um consenso de trabalho a nível da CPLP e de outros órgãos regionais, e vamo-nos todos esforçar para que a Guiné seja um país activo da CPLP, assim como dos PALOP.

«… Neste momento estamos a construir Angola. Por conseguinte, nós não podemos abrir o mercado à concorrência. Isso seria matar a iniciativa do empresariado angolano e do investimento em Angola. Logo, não nos encontramos preparados para participar imediatamente»
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cooperação

Angola perdoa 50% da dívida de Moçambique
O governo angolano perdoou metade da dívida moçambicana, estimada em 54 milhões de euros, no âmbito de um acordo político entre Angola e Moçambique, anunciado durante a VIII Sessão da Comissão Mista de Cooperação Bilateral entre Angola e Moçambique realizada em Maputo, para discutir os mecanismos de implementação do acordo. Os técnicos moçambicanos e angolanos têm estado a analisar os mecanismos para resolver a proposta de redução da dívida em 50%, cujo remanescente será amortizado em forma de activos, a serem utilizados em investimentos. «O que está em discussão é o mecanismo a utilizar para resolver o problema da dívida. Há acordo político para reduzir em 50%», disse a ministra do Planeamento de Angola, Ana Dias Lourenço, tendo acrescentado que é preciso encontrar formatos para a resolução ou pagamento da parte restante. Segundo aquela governante, a cooperação entre os dois países foi-se desenvolvendo e consolidando com o tempo, cooperação que agora se deverá adaptar aos novos tempos. Para o Governo angolano, o continente africano, como berço da humanidade e do comércio internacional, tem de assumir uma nova postura, respeitando os valores históricos e convenientes para fazer face à actual crise financeira e económica, no interesse da correcção das regras do comércio e da arquitectura financeira internacional. «O comércio intra-africano terá de desempenhar um papel preponderante nas nossas economias, como elemento gerador e catalisador de sinergias concorrenciais, em matéria de industrialização e produção de produtos comerciais, inovação e competência humana», disse a ministra angolana. O ministro das Finanças de Moçambique, Manuel Chang, considerou a dívida para com Angola como um embaraço para as autoridades moçambicanas, pelo que os dois países continuam a negociar.

«O que está em discussão é o mecanismo a utilizar para resolver o problema da dívida. Há acordo político para reduzir em 50%»
Ministra Ana Lourenço «Houve decisão política para a redução desta dívida em 50%. Vamos continuar a trabalhar, de forma a vermos a fase de implementação daquilo que foram as decisões já tomadas», disse Manuel Chang. Os trabalhos desta Comissão versaram, entre outras matérias, os investimentos públicos e privados, assim como a cooperação bilateral estabelecida a 5 de Novembro de 1978.

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Angola, um país de contrastes
Carlos Ferreirinha* (texto)

Ritmo acelerado. Poeira. Gruas. Crescimento vigoroso. Frustrações. Custo de vida muito alto. Curiosidade. Carros. Filas em postos de gasolina. Sim, muitas filas. Inacreditáveis filas. Gasolina barata? Não. Volume de carros. Angola. Nem mesmo completou sete anos desde o fim da Guerra e Luanda já surpreende. Como é possível manter um sorriso nos rostos diante de tantos obstáculos e tanto que precisa ser desenvolvido? Não há duvida alguma que a explicação para isso é que além da esperança, existe uma tensão de curiosidade. Já dizia o Sr. Walt Disney na teoria dos 4 C´s: sejamos curiosos! A alegria nos serviços e a cordialidade do atendimento suplantam e muito as limitações técnicas que demandam evidentemente treinamento e capacitação. São novos passos que precisam ser dados nesta direcção. O conceito “comprometimento profissional” na prestação de serviços ainda está em sua fase inicial e básica. Estes obstáculos perdem a importância e relevância diante do sorriso que encanta e emociona. Em todos os lugares que se olha, tem movimento acelerado de mudança e transformação. A teoria de Maslow ensina que o consumo acontece somente em quatro níveis de necessidades: segurança, fisiológica, indulgência e status. Angola passa pelos quatro simultaneamente. E não há nada de errado nisso. Tudo que o mundo de alguma forma tem percebido sobre o homem que assume, cada vez mais, um novo papel no contexto do consumo, é devidamente percebido em Angola. O homem angolano tem estilo, elegância e é vaidoso; carrega referências mundiais mantendo um estilo muito próprio e entende de marcas de prestígio sejam elas francesas, italianas ou brasileiras. Qual o próximo passo? Garanto: Spas, resorts, hotéis, cafe-

terias, modelos privates dos Bancos, clínicas nas mais diversas áreas, principalmente as estéticas, moda, decoração de interiores. A explosão de serviços especiais virá antes do varejo de luxo. Será difícil e lento o processo de ruas e centros de comércio para abrigarem as principais marcas de Luxo do mundo, mas não impossível. Apenas o tempo será outro. Mas os angolanos não deixarão de comprar ou aceder a produtos e serviços de Luxo ou Premium, seja localmente ou internacionalmente. A era da “premiumzação” também já chegou a Angola e lentamente entrará no quotidiano das diversas camadas sociais. O termo Luxo já vem sendo inclusive utilizado principalmente pelas construtoras na apresentação dos surpreendentes condomínios residenciais. Num País onde praticamente tudo é importado, a tarefa da diferenciação não é tão simples; afinal não basta ser importado – em Angola, isso é comum. No negócio do Luxo é fundamental que no consumo o desejo prevaleça em relação à razão. O filósofo Bertrand Russel afirmava que “toda a actividade humana nasce do desejo”. Os angolanos desejam e isto fará com que os hábitos de consumo sejam alterados. E junte a isso o facto de serem alegres, simpáticos, amigos, de terem o conceito família, a crença de que o amanhã será melhor do que hoje e definitivamente do que ontem. O grande desafio de países como o Brasil e Angola, é receber a modernidade de braços abertos sem esquecer as tradições, as origens, o passado que formou o presente e que criou lastros para o futuro. Luanda, sinceramente, OBRIGADO pelo seu carinho! Angolanos tenham a persistência de seguirem em frente, não desviem. Volto de Angola me sentindo mais brasileiro, mas, me sentindo também um pouco angolano.

opinião

(*) Carlos Ferreirinha é Presidente da MCF Consultoria & Conhecimento, especializada em ferramentas de gestão e inovação do Luxo e Premium

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Terceiro voo da lAm para luanda inicia em Novembro
A LAM – Linhas Aéreas de Moçambique oferece mais um voo para Luanda. O terceiro voo semanal ligando as cidades de Maputo e Luanda será efectuado às quartas-feiras, a partir do início de Novembro, quando entrar em vigor o novo horário de voos concebido em concordância com a IATA – Associação Internacional de Transporte Aéreo. Com o aumento do número de voos na rota Maputo – Luanda – Maputo, a LAM torna mais viáveis as oportunidades de negócio em Angola e Moçambique ao contribuir para a redução do tempo de estadia em cada um dos países. O fluxo entre Angola e Moçambique está crescer com os voos da LAM que são efectuados às segundas e sextas-feiras. Até Agosto de 2010 a rota Maputo – Luanda – Maputo registou um aumento de 8% em número de passageiros transportados. Em retribuição à demanda pelos voos nesta rota, a LAM oferece desde Agosto de 2010 a tarifa fim-de-semana que permite ir a Luanda às sextas-feiras e regressar às segundas-feiras, o mesmo acontecendo para quem vem a Maputo. Recentemente, o Embaixador de Moçambique em Angola, António Matonse, garantiu que os vistos de entrada nos dois países serão abolidos, de forma a aumentar as hipóteses de melhorar o ambiente de negócios, assim como o incentivo ao turismo.

Estatuto de Cidadão da CPLP em debate

comunidade

O Estatuto de Cidadão vai demorar a ser oficializado embora constitua um objectivo para o futuro, segundo o embaixador angolano em Moçambique, Garcia Bires.
O embaixador de Angola em Moçambique, Garcia Bires, considera que o Estatuto de Cidadão da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) é uma matéria complicada embora constitua um objectivo para o futuro. «É necessário que se defina bem quem é o cidadão da CPLP, encontrar o enquadramento jurídico mais adequado. Tem que se mexer com hábitos, costumes e leis nacionais», referiu o diplomata. Entre os pontos controversos constam a questão sobre se o cidadão lusófono terá ou não todos os direitos que as constituições de cada país reservam exclusivamente aos seus cidadãos. Outros pontos são o de poder votar e ser votado, ter previdência social ou participar de determinados concursos públicos, por exemplo. Existe uma corrente que defende que os estatutos fiquem reservados a quem é nato ou residente. A restrição envolveria igualmente os direitos ligados à integração regional, como a União Europeia para Portugal e o Mercosul para o Brasil. Em relação à possibilidade de existência de visto de trabalho, o embaixador angolano disse: «O mundo está cada vez mais unido… não é um empecilho. Cada país tem as suas normas e elas serão respeitadas». Para o Ministro moçambicano dos Negócios Estrangeiros e Cooperação, Oldemiro Baloi, ainda irá demorar para que o sonho cidadão lusófono se converta numa realidade. O governante
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moçambicano considera que a mesma realidade se verifica na plena adopção do Acordo Ortográfico. «Tanto o Estatuto de Cidadão quanto o Dossier da Língua Portuguesa (o acordo ortográfico) são complexos, exigem um trabalho aturado… constante, perseverante e muito sereno. É o que está a se fazer neste momento», garantiu Balói, citado pela noticiosa “Agência Brasil”. Segundo o mesmo governante, ambos os assuntos estão ainda a ser trabalhados a nível técnico. Pretende-se que o Estatuto de Cidadão da CPLP seja um mecanismo destinado a facilitar a circulação e a integração das populações dos oito Estados-membros da comunidade, designadamente Moçambique, Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Portugal e Timor Leste. A questão foi discutida pela primeira vez na segunda reunião dos Chefes de Estado e de Governo da CPLP, em 1998, altura em que se criou um grupo de trabalho para tratar do assunto. Em 2002, durante um encontro realizado em Brasília, foram assinados sete acordos que modificaram a concessão de determinados tipos de visto entre os membros da CPLP e criaram balcões específicos para integrantes da comunidade em aeroportos. Contudo, até hoje nem todos os parlamentos dos paísesmembros da organização ratificaram as decisões.

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Exposição sobre vida e obra de Agostinho Neto
Yola Semedo apresenta “mINHA AlmA” em maputo
A cantora angolana Yola Semedo esteve em Maputo para dois concertos que tiveram lugar no Coconuts e no Big Brother. Yola lançou o seu mais recente trabalho discográfico “Minha alma”, o retrato da trajectória por ela percorrida durante os 25 anos de carreira. Os moçambicanos Neyma Alfredo e Sweet Boys foram os escolhidos para fazer sala à cantora angolana. «Este disco foi muito bem aceite em Angola e as informações que tenho é que também foi bem aceite aqui em Moçambique, pelo que não podia desperdiçar este convite do Big Brother Entretenimento, que tem feito muito para elevar a musica dos dois países», disse Yola Semedo. Os temas “Injusta” e “ Say Yo” são os mais badalados do seu segundo CD “Minha Alma” que já vendeu mais de 50 mil cópias em Angola. Yola Moutofa Coimbra Semedo, nasceu na cidade do Lobito a 8 de Maio de 1978. É actualmente a artista angolana mais premiada. Conquistou o prémio de “Voz de Ouro de África” (1995) em representação de Angola no festival organizado pela UNESCO, na Bulgária. Foi considerada a melhor voz feminina de Angola três vezes (2000, 2006, 2007). Ganhou o prémio de Balada do ano (2006), melhor intérprete feminina, duas vezes (2006, 2007), e Diva do Ano, em 2007 e 2008. Yola já conquistou a edição 2010 do Top dos Mais Queridos, uma realização da Rádio Nacional de Angola, batendo na concorrência a artista Ary e os Irmãos Almeida.

cultura

Novos estádios permitem qualidade aos atletas angolanos

O forte investimento angolano em infraestruturas desportivas feito aquando do campeonato africano de futebol (CAN 2009), e de basquetebol em 2007, já verifica algum impacto positivo no seio dos novos atletas, segundo afirma António da Luz, chefe da delegação angolana que se fez presente nos VII Jogos Desportivos da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), em Maputo no mês de Agosto. As referidas infraestruturas colocam cada vez maiores ambições nas equipas angolanas no panorama desportivo internacional, tal como se verificou aquando dos Jogos da CPLP, onde a delegação não colocava de lado a possibilidade de atacar os dois lugares cimeiros, ombreando desta feita com o Brasil e Portugal, tidos como os crónicos “papa-medalhas” do certame. António da Luz avança que, em resultado do upgrade infraestrutural, o futebol beneficiou da possibilidade de até as escolas formarem os seus jogadores em campos relvados, enquanto no atletismo já se projecta para breve a colocação de pistas de tartan em alguns dos estádios. Outro grande desafio no panorama desportivo angolano reside, actualmente, na formação de dirigentes e técnicos desportivos, onde ainda existe algum défice, segundo António da Luz. O mesmo aponta ainda para uma massificação desportiva nunca experimentada em Angola, com grande enfoque para o desporto escolar.

A realização do “Afro-basquete 2007”, em Luanda, permitiu a construção de quatro pavilhões e a reabilitação de muitos outros em cinco cidades angolanas, facto que trouxe um aumento considerável de praticantes de modalidades como o basquetebol, andebol, futsal e hóquei em patins. Por outro lado, o forte investimento em infraestruturas desportivas que se verifica em Angola, coloca cada vez maiores ambições para o desporto juvenil angolano. Nos VII Jogos da CPLP, Angola tinha como objectivo superar o quarto lugar conseguido no Brasil. Entretanto, os atletas angolanos presentes em Maputo nos Jogos da CPLP deixaram a capital moçambicana com 17 medalhas na bagagem, dos quais três são de ouro, oito de prata e seis de bronze, conseguidas nas modalidades de voleibol de praia, ténis, andebol e atletismo. Este número de medalhas possibilitou o quarto lugar, resultado que não deixa de ser positivo na avaliação da maior parte dos atletas. Nas modalidades de futebol e basquetebol, os “Khambas” não lograram medalhas no certame. O nível infraestrutural que Angola alcançou nos últimos três anos impõe também que o país tenha uma presença constante e de grande nível nos Jogos Olímpicos, no CAN, nos Mundiais de Futebol, de basquetebol e também nos Jogos da CPLP, segundo observa António da Luz.

Uma exposição fotográfica sobre a vida e obra de António Agostinho Neto, fundador da Nação e primeiro Presidente de Angola, marcou o ponto mais alto das comemorações do dia do Herói Nacional. Numa iniciativa da Embaixada de Angola em Moçambique, a exposição foi inaugurada pelo Ministro da Defesa, Cândido Van-Dunem e contou com a presença do corpo diplomático acreditado em Moçambique, membros da comunidade angolana e jovens estudantes. Os cerca de 150 convidados percorreram o local da exposição, onde receberam explicações detalhadas sobre as fotografias que retratam a vida do poeta, médico e estadista desde a sua infância, passando pela fase de sofrimentos nas cadeias e da guerrilha, à da independência e sua morte. Na ocasião, o Ministro Cândido VanDunen realçou o facto de Agostinho ser «um dos maiores símbolos da nossa luta pela independência», cujo legado «constitui hoje um marco histórico por ter deixado marcas indeléveis na memória do povo angolano, bem como do resto do mundo». ANTÓNIO AGOSTINHO NETO nasceu a 17 de Setembro de 1922, na aldeia de Kaxicane, região de Icolo e Bengo, a cerca de 60 km de Luanda. O pai era pastor e professor da igreja protestante e, tal como sua mãe, era igualmente professora. Após ter concluído o curso liceal em Luanda, Neto trabalhou nos serviços de saúde. Viria a tornar-se rapidamente uma figura proeminente do movimento cultural nacionalista

que, durante os anos quarenta, conheceu uma fase de vigorosa expansão. Decidido a formar-se em Medicina, Neto pôs de lado parte dos seus magros proventos durante vários anos e, foi com essas economias que embarcou para Portugal em 1947 e se matriculou na Faculdade de Medicina de Coimbra. Não havia uma única instituição de ensino superior na Colónia. O estudante que pretendesse continuar os seus estudos via-se forçado a fazê-lo à custa de grande sacrifício e tinha de alcançar um notável status académico em condições de pobreza e descriminação racial extremamente difíceis. Estudando primeiro em Coimbra e posteriormente em Lisboa, foi-lhe concedida uma bolsa de estudos pelos Metodistas Americanos dois anos depois da sua chegada à Portugal. Cedo se embrenhou em actividades políticas e experimentou a prisão pela primeira vez em 1951, ao ser preso quando reunia assinaturas para a Conferência Mundial da Paz em Estocolmo. Fez parte da geração de estudantes africanos que viria a desempenhar um papel decisivo na independência dos seus países naquela que ficou designada como a Guerra Colonial Portuguesa, ou guerra do Ultramar como também é conhecida. Foi preso pela PIDE e deportado para o Tarrafal sendo-lhe fixada residência em Portugal de onde fugiu para o exílio. Aí assumiu a direcção do Movimento Popular de Libertação de Angola, MPLA, do qual já era presidente honorário desde 1962.

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