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MIEEC - DEE - FCT/UNL

A L T A T E N S Ã O
prof. M. Ventim Neves


EFEITO DE COROA NUM CABO COAXIAL

Da lei de Gauss, o campo à distância r de um condutor cilíndrico infinito, carregado e
isolado no espaço, a partir da carga por unidade de comprimento q
l
, tem a direcção radial û
r

e é dado por :

r
l
u
r
q
r E
)
r
⋅ ⋅ =
1
2
) (
πε

No cabo coaxial, de raios interno e externo R
1
e R
2
respectivamente, a tensão é o integral do
campo, de R
1
a R
2
:

1
2
ln
2
) (
2
1
R
R q
dr r E U
l
R
R r
⋅ = ⋅ =

=
πε

Tirando daqui q
l
em função de U e substituindo na primeira, vem, para o módulo do campo:
r
R
R
U
r E
1
) ln(
) (
1
2
⋅ =
O máximo valor de campo verifica-se no mínimo r, ou seja, à superfície do condutor interno:
E
MAX
= E(r=R
1
)
) ln(
1
2
1
R
R
R
U
E
MAX

=

Se houver ionização, esta verifica-se nos pontos onde
E(r) ultrapassa o campo de disrupção E
D
, ou seja, junto
do condutor interior. Gera-se assim uma manga de gás
ionizado à volta desse condutor – efeito de coroa . O
resultado é que o “condutor interior” aumenta de raio (a
manga funciona como condutor interior de raio
aumentado).

O aumento do raio interior tem duas consequências.

1) aumenta a área da superfície do condutor interior, o que diminui a sua densidade
superficial de carga ρ
S
. Como à superfície é D=ρ
S
, o campo D, e portanto também o campo
E, diminuem ao crescer o raio interno R
1
. (este raciocínio pressupõe que a carga por unidade
de comprimento q
l
se mantém, o que não é verdade, pois normalmente o que se mantém é a
tensão U)
2) Ao crescer R
1
, dimui a distância R
2
−R
1
entre
condutores. Como se mantém a tensão U que é o
integral de E nessa distância, a dimuição da
distância acarreta o aumento de E

Destas duas tendências antagónicas, a primeira
domina inicialmente, para pequenos valores de R
1
,
mas a segunda domina para valores grandes.
Assim, o crescimento de R
1
, inicialmente diminui
o campo, estabilizando o efeito de coroa, mas se R
1

R
1

0
0,8×R
2
0,6×R
2
0,4×R
2
0,2×R
2
R
2

E
MAX

R
1

R’
1

R
2

condutores
coroa ionizada
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cresce demais, o campo passa a crescer, tornado a coroa instavel e levando à descarga total.

O mínimo da curva E
MAX
(R
1
) é o ponto a partir do qual a coroa de torna instável.

Visto que
) ln(
1
2
1
R
R
R
U
E
MAX

= , o mínimo de E
MAX
dá-se no máximo do seu denominador:

min {E
MAX
} ⇒ MAX { ) ln(
1
2
1
R
R
R ⋅ }, que se procura igualando a zero a sua derivada em
ordem a R
1
:
1 ) ln( 0 1 ) ln( ) ( ) ln(
)) ln( (
0
1
2
1
2
2
1
2
2
1
1
1
2
1
1
2
1
= ⇒ = − = − ⋅ ⋅ + =

⋅ ∂
=
R
R
R
R
R
R
R
R
R
R
R
R
R
R
R


Portanto, o ponto extremo de estabilidade é


e
R
R
2
1
=
Ou seja, R
1
= 0,368 R
2


Os cabos são sempre construídos com R
1
<< 0,368 R
2
.



EFEITO DE COROA NUMA LINHA BIFILAR

Numa linha bifilar, há dois condutores cilíndricos paralelos de raios iguais R, cujos eixos
estão separados por uma distância D. Os condutores estão carregados com cargas em linha
simétricas, +q
l
e − q
l
. Estas podem ser consideradas concentradas em rectas sem dimensões
transversais, paralelas aos eixos, separadas por uma distância a.

Num ponto qualquer do espaço exterior aos condutores, os campos devidos a cada uma das
cargas somam-se vectorialmente, vindo


+
+
− +
⋅ ⋅

+ ⋅ ⋅ = + =
r
l
r
l
u
r
q
u
r
q
E E E
) )
r r r
1
2
1
2 πε πε

em que E
+
e E

significam os campos devidos à carga positiva e à negativa, respectivamente,
e r
+
, r

, û
r
+
, e û
r

são as distâncias e as direcções radiais das cargas (positiva e negativa,
respectivamente), ao ponto em causa.

No plano dos eixos e entre os condutores as
contribuições para o campo são colineares e
aditivas; a soma vectorial corresponde à
soma dos módulos, E= E
+
+ E

.

Visto os campos variarem com 1/r, o campo será mais intenso onde a distância a uma carga
fonte for mínima, ou seja, sobre cada um dos condutores, e sobre o plano dos eixos.
D
R
E
1

E
2

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D
R
R’
coroa inonizada
condutor


Se os raios R forem muito menores que a distância D entre condutores, R<<D, os centros de
cargas podem ser considerados nos eixos geométricos dos condutores, vindo a ≈ D.

Considerando uma coordenada horizontal x transversal aos eixos e com origem a meia
distância entre eles, e considerando a carga positiva à esquerda e a negativa à direita, com
R<<D será: r
+
=D/2+x e r

= D/2 − x .
A tensão entre condutores será


+ − =
⋅ =
R
R x
D
D
dx E U
2
2
, ou seja,
R
D q
R
R D q
U
l l
ln ln ⋅ ≈

⋅ =
πε πε

A capacidade por unidade de comprimento, C=q
l
/U é aproximadamente:
R
D
C
ln
πε

No ponto de campo máximo (representado na figura), as distâncias são r
+
≈R, r

≈D. Usando-
as nas expressões dos campos (cujos módulos se somam), e usando a expressão anterior de C
para substituir q
l
=C⋅U na equação do campo, vem para o campo máximo

) 2 ln( ln 2
2
2
R
R
D
U
R
D
R
U
E
D
D
MAX

⋅ =
⋅ ⋅


È conveniente usar a variável auxiliar ξ que é a comparação entre o raio e a meia distância,
2
D
R
= ξ
a expressão anterior vem
)
2
ln(
1
ξ
ξ
⋅ ≈
D
U
E
MAX



Se houver efeito de coroa, este vai fazer
incrementar o raio R dos condutores, ou seja,
incrementa a variável relativa ξ. Tal como no
caso do cabo coaxial, o crescimento de R fará
diminuir o campo máximo devido à diminuição da
densidade de carga à superfície, mas para valores grandes de R, o campo crescerá devido à
diminuição da distância entre condutores. (Note-se que R só pode crescer até D/2, pois aí os
condutores tocam-se). O ponto em que a tendência do campo se inverte obtem-se calculando
o min{E
MAX
}. Observando a equação
anterior, este mínimo verifica-se no máximo
de [ξ⋅ln(2/ξ)], o que se obtem derivando e
igualando a zero:
[ ]
0
) ln(
2
=

⋅ ∂
ξ
ξ
ξ

cuja solução é ξ = 2/e ≈ 0,736, ou seja,
ξ
ξ=0,2
ξ=0,4 ξ=0,6 ξ=0,8
R=D/e
ξ=1
R=D/2
E
MAX

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D
e
D
R ⋅ ≈ = 368 , 0
Estas conclusões foram deduzidas considerando R<<D, pelo que não fazem sentido se R
crescer. Nomeadamente, não se pode considerar que R=D/e <<D., pelo que há que admitir
que o resultado anterior não é aplicável.

No entanto, repare-se que as linhas aéreas são sempre construídas com R << D, e mesmo R
<< D/e. Observe-se no gráfico junto que, para R<<D/e (portanto numa zona em que as
aproximações tomadas são válidas), o decrescimento do campo máximo com o aumento do
raio é muito rápido, pelo que em geral não se dão descargas totais nas linhas por crescimento
das coroas, mantendo-se estas, se ocorrerem, estáveis.

Para estender o estudo a zonas onde a ordem de grandeza de R se aproxima da de D/2, há que
tomar a solução exacta da linha bifilar.

Na linha bifilar, dados o raio R dos condutores e a distância D entre os seus eixos, a distância
a entre os fios de carga imagem é dada por:

2
2
2 2
R
D a
− =
|
¹
|

\
|

A capacidade por unidade de comprimento é
( )
(
(
¸
(

¸

− +
=
1
2
2 2
ln
R
D
R
D
C
πε

No ponto M onde o campo é mais intenso, é:

r
+
= R − (D/2 − a /2) = a /2 − (D/2 − R ) ; r

= a/2 + (D/2 − R)


Assim, nesse ponto M resulta :
2
2
2
2
2
2 2
1
2 2
1
2
|
¹
|

\
|
|
¹
|

\
|
(
(
(
(
¸
(

¸

|
¹
|

\
|
|
¹
|

\
|
− −
⋅ =
− +
+
− −
=
R
D a
a
l
q
R
D a
R
D a
l
q
MAX
E
πε πε



V=U/2
V= −U/2 +
E
r


E
r

D
a
R
+
M
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D
R coroa
inonizada
Usando a variável relativa
2
D
R
= ξ , substituindo q
l
= C×U na expressão de E
MAX
, e
manipulando convenientemente essa expressão, vem:
|
|
¹
|

\
|
− + ⋅ ⋅ −

⋅ ⋅ =
) 1 1 (
1
ln ) 1 (
1 1
2
2
ξ
ξ
ξ
ξ
ξ D
U
E
MAX

O mínimo desta função obtem-se derivando e igualando a zero, 0 =


ξ
MAX
E
, do que após
fastioso cálculo resulta e / 1 = ξ , ou seja, D
e
D
R × = = 184 , 0
2
, que é metade do valor obtido
pelo cálculo aproximado.

A figura representa, a cheio, a função exacta E
MAX
, e a tracejado, a função aproximada
válida para pequenos raios, ambas em
função de
2
D
R
= ξ . Vê-se que se R<<D/2
ambas dão resultados semelhantes, mas a
diferença começa a ser notória quando R
ultrapassa 0,1×D/2.
Assim, a função aproximada não pode ser
usada para achar o o ponto de mínimo E
MAX
.







Tipo de Linha
Há curto circuito
se
Min{E
MAX
}
CABO COAXIAL

R
1
=R
2

e
R
R
2
1
=
LINHA BIFILAR

R=D/2
e
R
D
2
=

ξ
ξ=0,2
ξ=0,4 ξ=0,6 ξ=0,8
R=D/e
ξ=1
R=D/2
E
MAX

R=D/(2e)
R
1

R
2

coroa
ionizada