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IV.

Produtividade e intensidade do trabalho Reinaldo A. Carcanholo Anexo 4 de “A dialética da mercadoria: guia de leitura”

Uma das conseqüências da introdução de inovações tecnológicas no processo produtivo é o a aumento da capacidade produtiva do trabalho, mais conhecida como produtividade do trabalho1, que tem como resultado uma redução no valor individual das mercadorias. O aumento da produtividade do trabalho significa que, com o mesmo tempo total de trabalho, é possível produzir uma quantidade maior da mesma mercadoria. Por isso, o mesmo valor total, ao ser dividido por um número maior de unidades produzidas, resulta em um menor valor para a unidade da mercadoria. Este é um resultado mais ou menos óbvio. Por outro lado, o aumento da produtividade do trabalho, como conseqüência de uma inovação tecnológica (particularmente quando ela consiste na introdução de equipamentos ou máquinas mais avançadas), normalmente vem acompanhado de um fenômeno diferente, com distintos resultados e não tão facilmente visível: a intensificação do trabalho. Esse conceito aparece n'O Capital no capítulo XIII do livro I (Maquinaria e grande industria). Consiste no fato de que uma quantidade de trabalho maior concentra-se no mesmo tempo de trabalho, em razão de uma aceleração das operações na produção. Um bom exemplo da intensificação do trabalho aparece no filme “Tempos Modernos” de Charles Chaplin. O fato de que, por exemplo, numa hora de trabalho realize-se 50% de trabalho a mais que em uma hora de trabalho com intensidade normal, faz com que a hora mais intensa implique a produção de um valor maior em 50%. Lembremos, para isso, que a magnitude do valor não fica determinada pelo tempo de trabalho, mas pela quantidade de trabalho. Imaginemos uma jornada de trabalho de 10 horas, de um trabalhador qualquer que opere com trabalho simples (não complexo), num ritmo, habilidade e condições em gerais normais. Nesse período, produz riqueza social cuja magnitude é igual à do valor, isto é, 10 horas de trabalho socialmente necessário. Suponhamos que se imponha a esse trabalhador um ritmo de trabalho 20% superior. Para certos efeitos, é como se ele trabalhasse 12 horas; pelo menos, no que se refere à magnitude da riqueza produzida2.
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É de se destacar o fato de que a idéia de produtividade do capital, dentro da teoria do valor que estamos estudando, carece totalmente de sentido. 2 Aliás, é uma das formas menos evidente de impor jornadas crescentes de trabalho ou de reduzir o efeito de reduções de jornada quando obtidas por pressão dos trabalhadores.

Suponhamos ainda que, nas 10 horas iniciais, não intensificadas, ele produzisse 100 unidade de um determinado produto. Nessas condições, ele agregaria aos materiais utilizados uma valor de 1/10 de hora para cada unidade produzida e um total de 10 horas de valor ao conjunto do que foi produzido. Agora, nas 10 horas intensificadas, ele passaria a produzir 120 unidades. Sua produção total de valor seria de 12 horas e ele seguiria agregando 1/10 de hora para cada unidade de produto. Em resumo, a maior intensidade do trabalho aumenta o valor produzido em uma hora e mantém o valor individual da mercadoria invariável. Pelo contrário, o aumento da produtividade do trabalho faz com que o valor individual se reduza e mantém a magnitude do valor produzido por hora. Uma dificuldade adicional está no fato de que, com o aumento da produtividade do trabalho, como conseqüência de inovação tecnológica, especialmente quando há introdução de maquinas mais modernas, como dissemos, vem acompanhado, muitas vezes, de uma intensificação do trabalho. Nessas condições, não é fácil distinguir em que medida o aumento da produção se deve ao aumento da produtividade ou da intensidade do trabalho; assim, não fica claro em que medida ocorre uma real redução no valor individual da mercadoria.