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OSVALDO LUIZ MARMO

CONSCIÊNCIA E REALIDADE
PARADIGMA DA IMATERIALIDADE








II















DEDICATÓRIA





Dedico este trabalho a todas as pessoas deste plano de existência, e aos seres das
dimensões ocultas da realidade que, de uma forma ou outra, me inspiraram e
colaboraram na realização deste trabalho, em especial ‘in memoriam’ a Antôninho
Marmo, João B. Marmo e Valdomiro A. Marmo, por me inspirarem no caminho
do sagrado, e a Madhu por ter dividido comigo tantos momentos de reflexão sobre
espiritualidade e vida.

III












AGRADECIMENTO









À minha irmã e cunhada Dirce Nogueirol pelo auxílio na revisão gramatical do texto.



IV










EPÍGRAFE





[...] There are more things in heaven and earth, Horatio, than are
dreamt of in your philosophy.
(Existem mais coisas no céu e na terra, Horácio, que a tua filosofia
jamais sonhou).
Shakespeare, W. (ato 1, cena 5, verso 175.





V

RESUMO
A humanidade vive em constante crise de fé, devido à natural oposição entre dois pontos de vista: o
materialismo e o espiritualismo. Por um lado, vivemos em um mundo que supomos ser material, mas por outro,
temos experiências espirituais ocasionais - vivenciadas em estados incomuns de consciência -, que questionam
esta materialidade. Assim, o objetivo dessa monografia é examinar estas questões, comparando algumas
hipóteses oriundas dos estados incomuns de consciência com as evidências objetivas da realidade em
conformidade com a moderna física quântica de partículas. Como resultado dessa reflexão transdisciplinar
pretende-se mostrar que a dualidade entre matéria e espírito pode ser uma falsa questão, pois tanto o conceito
de matéria quanto o de espírito se dissolvem num ontológico vazio infinito. O método empregado nessa
monografia foi o exame da pesquisa bibliográfica acadêmica, para comparar os resultados das experiências
psíquicas, com os achados da moderna física quântica de partículas, que nos mostra que a realidade última é
vibração no vazio, em um cenário de múltiplas dimensões, as quais fluem na direção do modelo imaterial das
dimensões sutis da consciência.













PALAVRAS-CHAVE: CONSCIÊNCIA, REALIDADE, FÍSICA QUÂNTICA, ESPÍRITO,
IMATERIALIDADE.



VI

ABSTRACT

Mankind lives in constant crisis of faith due to natural opposition between two viewpoints: materialism and
spiritualism. One hand, we live in a world which we assume to be material, but then we have occasional
spiritual experiences - experienced in unusual states of consciousness - which question this materiality. So, the
purpose of this monograph is to examine these issues, comparing some hypotheses derived from unusual states
of consciousness with the objectives evidences of the reality in line with modern quantum particle physics. As
result of this interdisciplinary reflexion we shall show that the duality between matter and spirit may be a false
issue, because both the concept of matter and spirit dissolves into an ontological infinite void. The method
employed in this monograph was the examination of the bibliographic academic research, to comparing the
results of psychic experiences with the findings of quantum particle physics, which show us that ultimate reality
is vibration in the emptiness in a scenario of multiple dimensions, which can be in line with the immaterial
model of subtle dimensions of consciousness.















KEYWORDS: CONSCIOUSNESS, REALITY, QUANTUM PHYSICS, SPIRIT, IMMATERIALITY.
LISTAS

VII

LISTAS DE FIGURAS
Figura 3.1 – Representação em corte do cérebro trino. 63
Figura 3.2 – Representação das moléculas do LSD-25 e do Salvinorin A. 65
Figura 3.3 – Representação das moléculas de Salvinorin A e Dimetiltriptamina. 66
Figura 3.4 – Representação de um corte do córtex cerebral. 70
Figura 3.5 – Representação da Molécula da Melatonina. 70
Figura 3.6 – Biosíntese do DMT. 71
Figura 3.7 – Representação do Sistema Nervoso. 74
Figura 4.1 – Composição do Universo 105
Figura 4.2 – Corda circular e aberta 109
Figura 4.3 – Espaço de Calabi-Yau 110
Figura 4.4 – Modelo Randall-Sundrum 112



LISTAS DE TABELAS
Tabela 3.1 – Relatos de casos NDE – Instituto Gallup 84
Tabela 3.2 – Relatos de casos NDE – van Lommel 86
Tabela 4.1 – As quatro forças 103
Tabela 4.2 – Composição do próton e do nêutron 104
Tabela 4.3 – As três famílias do Modelo Padrão 105




LISTAS DAS EQUAÇÕES
Equação 4.1 – Equação de Maxwell para a velocidade da luz 99
Equação 4.2 – Equação de transformação de Lorentz 99
Equação 4.3 – Equação de Schrödinger 100
Equação 4.4 – Princípio da Incerteza 102
Equação 4.5 – Função Beta de Euler 107








VIII

SUMÁRIO
CAPA I
FOLHA DE ROSTO II
BANCA EXAMINADORA III
DEDICATÓRIA IV
AGRADECIMENTO V
EPÍGRAFE VI
RESUMO VII
ABSTRACT - RESUMO EM LÍNGUA ESTRANGEIRA VIII
LISTAS IX

INTRODUÇÃO 01

CAPÍTULO 1- INTRODUÇÃO À EPISTEMOLOGIA 09
1.1 INTRODUÇÃO 09
1.2 A REALIDADE PERCEBIDA E A REALIDADE EM SI MESMA 13
1.3 POSSIBILIDADE E ORIGEM DO CONHECIMENTO 14
AS POSSIBILIDADES DO CONHECIMENTO 15
DOGMATISMO 16
CETICISMO 16
SUBJETIVISMO E REALISMO 16
PRAGMATISMO 17
CRITICISMO 17
ORIGEM DO CONHECIMENTO 18
RACIONALISMO 18
EMPIRISMO 19
INTELECTUALISMO 20
APRIORISMO 20
1.4 SOLUÇÕES METAFÍSICAS 21
REALISMO 21
REALISMO INGÊNUO 21
REALISMO CRÍTICO 21
REALISMO CIENTÍFICO 22
IDEALISMO 23
IDEALISMO SUBJETIVO 24
IDEALISMO OBJETIVO 24
FENOMENALISMO 25
1.5 SOLUÇÕES TELEOLÓGICAS E FILOSÓFICAS 26
1.6 O CRITÉRIO DA VERDADE 27

CAPÍTULO 2 - MATERIALISMO E ESPIRITUALISMO 31
2.1 INTRODUÇÃO 31
IX

2.2 ORIGENS DO MATERIALISMO 34
2.3 PSICOLOGIA TRANSPESSOAL 35
2.4 ESPIRITUALIDADE E IMATERIALIDADE 39

CAPÍTULO 3 - OS ESTADOS DE CONSCIÊNCIA 41
3.1 INTRODUÇÃO 41
3.2 FENÔMENO DA CONSCIÊNCIA 41
WILLIAM JAMES 47
KARL JASPER 47
SIGMUND FREUD 48
KARL JUNG 48
3.3 CARTOGRAFIA DOS ESTADOS CONSCIENCIAIS 49
VIGÍLIA 49
RELAXAMENTO 49
SONO SEM SONHOS 50
SONO COM SONHOS 50
CONSCIENTE PESSOAL 50
INCONSCIENTE PESSOAL 51
INCONSCIENTE COLETIVO 51
3.4 ESTADOS INCOMUNS DE CONSCIÊNCIA 53
ESTADO MÍSTICO 55
3.5 AS BASES NEURAIS DA CONSCIÊNCIA 62
3.6 ESTADOS CONSCIENCIAIS INDUZIDOS POR ENTEÓGENOS 63
AYAHUASCA 67
DMT – A MOLÉCULA DO ESPÍRITO 68
LSD – A EXPERIÊNCIA DE GROF 73
3.7 O ESTADO MEDITATIVO 74
3.8 O ESTADO DE QUASE-MORTE E PROJEÇÃO DA CONSCIÊNCIA 79
NDE – O ESTADO DE QUASE-MORTE 83
3.9 O CASO PAN REYNOLDS 89
3.10 CONCLUSÃO DO CASO PAM 92

CAPÍTULO 4 - A NATUREZA DO MUNDO FÍSICO 94
4.1 INTRODUÇÃO 94
4.2 TEORIA DA RELATIVIDADE E A MECÂNICA QUÂNTICA 98
4.2.1 TEORIAS DA RELATIVIDADE 98
4.2.2 MECÂNICA QUÂNTICA 107
4.3 TEORIA M 106
4.3.1 O MODELO DE RANDALL-SUNDRUM 111

CONCLUSÃO - O PARADIGMA DA IMATERIALIDADE 113

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA 119

X












INTRODUÇÃO
Esta monografia busca no conhecimento da física moderna um cenário que sirva de
modelo paradigmático para a compreensão dos fenômenos psíquicos anômalos.
Os denominados fenômenos psíquicos anômalos ou fenômenos metapsíquicos,
despertaram o interesse da psicologia tradicional e das neurociências na segunda metade do
século XX, como resultado do trabalho de vários psicólogos e psiquiatras, o que culminou
com o advento da Psicologia Transpessoal em 1976, pesar de J. B. Rhine ter publicado em
1934 a primeira edição do seu livro Percepção Extra-sensorial, abrindo caminho para a
pesquisa parapsicológica e fenômenos correlatos.
Entretanto, o estudo acadêmico desses fenômenos tem se mostrado difícil por várias
razões, que vão desde a sua subjetividade, até a ausência de um modelo paradigmático que
permita a elaboração de uma metodologia para investigá-los. Além disso, esbarra-se no
ceticismo da maioria dos pesquisadores que vêem na neurofisiologia do cérebro a causa dos
fenômenos psíquicos, o que não abre espaço para a compreensão de eventos que sugerem a
exteriorização da consciência para além dos limites do corpo.
Entretanto, a literatura está repleta de relatos de experiências que trazem indícios
suficientes para a sustentação da crença de que a consciência, em condições incomuns, pode
transitar para além dos limites do corpo e mesmo sobreviver à morte deste corpo. Alguns
destes indícios são tão fortes, que podem ser considerados como evidências objetivas, como é
o caso de alguns relatos de vivências de quase-morte, projeção fora-do-corpo, lembranças de
vidas passadas (retrocognição) e a comunicação com aqueles que já se foram.
Ao lado desses fenômenos psíquicos acrescentam-se também outros fenômenos
paranormais de percepção extra-sensorial [Psi], como por exemplo, a telepatia, a clarividência
e a precognição, que são experiências que sugerem a existência de fenômenos não-locais que
transcendem tanto os limites da materialidade, quanto os do espaço-tempo, e não podem ser
explicados pelo modelo materialista e determinista que pressupõe a consciência como um
epifenômeno da atividade química cerebral. Esta é a proposta desta monografia, ou seja,
verificar o que a física contemporânea sabe sobre a realidade, e como este saber pode auxiliar,
ou não, a se ter uma compreensão da natureza do Ser.
Sob o aspecto filosófico, o que está no cerne desta controvérsia é a dualidade espírito-
matéria, dualidade esta que caracteriza duas posições filosóficas aparentemente antagônicas e
irredutíveis, que são o materialismo e o espiritualismo.
2

O materialismo sustenta ser a matéria a única realidade. Sendo assim, tudo no cosmos
é composto de matéria, e todos os fenômenos são consequência das interações e
transformações dos átomos e moléculas que constituem a matéria. Por outro lado o
espiritualismo, como uma posição filosófica e religiosa, prega a existência do espírito como
uma categoria que se manifesta na matéria, embora seja independente desta.
Se por um lado o materialismo reduz todos os fenômenos às interações que ocorrem
entre os constituintes da matéria, o espiritualismo mostra uma postura ontológica dualista na
medida em que aceita a dualidade espírito-matéria, como duas categorias independentes e
irredutíveis.
Entretanto, na opinião do autor desta monografia, a dicotomia entre estas duas
posições filosóficas mostra-se ultrapassada à luz do conhecimento da física contemporânea,
principalmente no que diz respeito à Física das Partículas Elementares, que é a área da física
que estuda a constituição última da matéria e, por extensão, a natureza última da própria
realidade.
Conforme será exposto no capítulo “A Natureza do Mundo Físico”, a concepção de
espaço, tempo e matéria que emerge do conhecimento da física moderna nos mostra que a
matéria, em sua essência, não tem materialidade, concretude, substancialidade, tal como é
percebido através dos sentidos cognitivos. A realidade última - denominada nesta monografia
a realidade em si-mesma -, é descrita como uma complexa superposição de campos
vibracionais no vazio absoluto. Por isso, os atributos de materialidade que são percebidos
sensorialmente devem ser entendidos como um fenômeno ilusório que emerge da cognição
sensorial.
Assim, esta reflexão procura desfazer a dicotomia espírito-matéria, porque à luz da
física contemporânea, a matéria se mostra tão imaterial como a própria definição de espírito.
Portanto, levando-se em consideração o conjunto de todos esses dados fenomênicos,
têm-se indícios suficientes para se crer que o Eu, a consciência cognoscente, pode ser parte de
uma realidade mais profunda, de onde também emergem todos os conteúdos da realidade
percebida pelos sentidos cognitivos, como a matéria com seus atributos ilusórios de forma,
substancialidade e concretude.
Esta é uma tese que nos leva a repensar as demais ciências - como a química e a
biologia -, como sendo uteis representações simbólicas criadas pela cognição humana para
descrever a ilusão criada pela própria cognição ao interpretar “o mundo exterior” à luz dos
estímulos sensoriais.
3

Portanto, no decorrer das exposições e reflexões dos próximos capítulos, pretende-se
demonstrar que, a posição filosófica que se opõe ao materialismo, não é a posição
espiritualista, no contexto de como esta foi definida, mas sim, uma posição filosófica
idealista, fundamentada na percepção da imaterialidade que emerge do realismo científico.
Segundo esta posição filosófica reducionista, a descrição da realidade, tal como ela é em si-
mesma, está fundamentada na Teoria M, a teoria proposta pelo físico Edward Witten (1951 -),
que descreve um espaço de onze dimensões, que engloba tanto as cinco teorias das
supercordas, quanto às onze dimensões da supergravidade, cuja existência é referendada por
um modelo de realidade composta de branas.
O autor desta monografia sugere que esta posição epistemológica seja denominada o
“Paradigma da Imaterialidade”, porque descreve um modelo de realidade que é imaterial, e
fundamentado em um cenário que absorve o conceito de espiritualidade, como parte de um
conjunto de fenômenos que transcendem as limitações impostas por uma realidade percebida
com concretude e substancialidade.
Sem nenhuma dúvida, esta reflexão é um “tour de force” intelectual que se faz
necessário para que se tenha compreensão de que a matéria - como um componente sensível
da realidade percebida - é de fato imaterial, e desta imaterialidade irá surgir a compreensão de
que tanto os fenômenos biológicos, quanto tudo que deles decorrem, devem ser repensados
dentro de um novo contexto, no qual a dicotomia entre o corpo e o espírito se desfaz, pois
ambos estão se mostrando como categorias imateriais.
Assim, a ciência do século XXI nos ensina que a materialidade do mundo físico é
somente uma quimera, pois seu estofo não é constituído por matéria microscópica com
concretude e substancialidade, mas sim, por uma infinita superposição multidimensional de
campos vibracionais. Sob esta ótica, a concepção materialista se dissolve, e o modelo teórico
emergente irá certamente dar sustentação a um ponto de vista que é desprovido de
substancialidade, corporeidade, localidade e determinismo.
Com certeza, a elaboração deste modelo paradigmático abrirá espaço para a
formulação de hipóteses, que permitam o estudo dos fenômenos psíquicos que sugerem a
imaterialidade como condição sine qua non para a compreensão das dimensões ‘espirituais’
do Eu e da Realidade.
A monografia está dividida em cinco capítulos:
O primeiro capítulo é uma reflexão sobre a Epistemologia, e tem por objetivo
compreender o que a filosofia pensa a respeito do problema do conhecimento, ou seja, quais
4

são os meios através dos quais se tem o conhecimento, e quais são as limitações do processo
de conhecer. Esta reflexão tem por objetivo questionar o que de fato sabemos sobre a natureza
da realidade percebida pelos sentidos cognitivos, e o quanto este saber sobre a realidade
percebida se aproxima da realidade em si-mesma, ou seja, a realidade tal como ela é
independentemente de um sujeito cognoscente como observador.
Portanto, este capítulo faz uma abordagem sobre a natureza do conhecimento, suas
fontes e seus limites, na busca de um critério que permita assegurar que nossos juízos a
respeito das coisas que nos cercam não sejam crenças infundadas, uma preocupação que se
faz necessária no tratamento de um assunto tão complexo como a relação entre a consciência
e a realidade, principalmente quando se pretende demonstrar que a imaterialidade
constitucional do Cosmos é uma porta aberta à percepção da espiritualidade imanente na
natureza humana.
Sendo este um capítulo introdutório, faz-se necessário apresentar um resumo sobre o
que a epistemologia nos tem a dizer sobre os modos através dos quais o conhecimento pode
ser adquirido, ou seja, o que se pode saber sobre a realidade através da observação sensorial, e
o quanto esta realidade se aproxima da percebida pela percepção transcendental, em estados
incomuns de consciência e, ainda o que o método científico nos informa sobre esta mesma
realidade, porque é na confluência desses saberes que se pode vislumbrar a verdade oculta aos
sentidos cognitivos.
Com esta proposta, diversas posições filosóficas são expostas, mostrando os principais
pontos de vista sobre as possibilidades do conhecimento. Assim sendo, inicia-se fazendo uma
reflexão introdutória sobre os pontos de vista do dogmatismo, do ceticismo, do subjetivismo,
do relativismo, do pragmatismo e do criticismo. Em seguida, apresentam-se as três principais
soluções metafísicas para o problema do conhecimento, i.e., o idealismo, o realismo e o
fenomenalismo, posições que são discutidas, com ênfase na visão de que a verdade está a
meio termo entre o idealismo e o fenomenalismo, as duas posições que mostram respaldo na
visão científica da moderna Física de Partículas. Finalmente, são expostos os pontos de vista
das duas mais importantes soluções teológicas, ou seja, as soluções monista-panteísta e a
posição dualista teísta, sob a ótica das tradições indianas.
Encerra-se o capítulo com uma breve reflexão sobre os critérios que dão credibilidade
ao conhecimento na busca da verdade, colocando-se em reflexão a relação entre verdade,
crença e conhecimento, na formação dos paradigmas pessoais, que cada pessoa elabora para
sustentar a sua visão da realidade e dos fenômenos em que acredita.
5

O segundo capítulo introduz a tese da imaterialidade, iniciando a reflexão sobre a
natureza sutil e imaterial do ser e da realidade no qual este ser está inserido.
Inicia-se o capítulo com uma consideração sobre a dualidade entre o materialismo e
espiritualismo, abrindo caminho para a apresentação dos indícios e evidências da natureza
espiritual - também denominada sutil ou imaterial -, da realidade, que são apresentadas nos
capítulos 3 e 4.
Em seguida, discutem-se alguns pressupostos e falsas questões contemporâneas que
dizem respeito à origem da percepção materialista do mundo, e da fragmentação do
conhecimento, buscando nas evidências evolucionárias as pistas para a compreensão de como
a estrutura psíquica se organizou e como esta organização influenciou a concepção que se tem
do mundo físico.
Como decorrência lógica desta reflexão, introduz-se os pressupostos da Psicologia
Transpessoal, e a importância do estudo dos estados incomuns de consciência para a
elaboração de um paradigma da imaterialidade, a primeira etapa para a elaboração de uma
posição filosófica espiritualista sólida que traga compreensão para os fenômenos anômalos.
Com este objetivo - e em conformidade com a proposta da monografia -, propõe-se
uma definição estipulativa de sinonímia entre as palavras espiritual e imaterial, na busca de
uma terminologia que seja destituída de pressupostos religiosos e que sirva para a elaboração
de uma tese que, a partir da demonstração da natureza imaterial da realidade, permita a
conclusão de que a natureza do Eu seja tão imaterial quanto realidade que lhe serve de estofo.
Neste contexto, faz-se uma definição estipulativa, e de distinção, entre os termos realidade
física - que passa a ser uma acepção para a realidade em si-mesma -, e a realidade percebida
pela cognição, que como corolário, se pretende demonstrar ser um fenômeno emergente e
ilusório oriundo do processo sensorial cognitivo.
O terceiro capítulo introduz os principais conceitos da psicologia e dos estados
incomuns de consciência, descortinando o universo dos fenômenos psíquicos, e apresentando
as motivações que deram origem à Psicologia Transpessoal.
O objetivo central deste capítulo é mostrar que, existem inúmeros indícios que
sugerem uma independência da consciência pessoal e cognoscente com relação aos processos
cerebrais, o que se opõe à visão neurológica baseada em um modelo fisiológico no sentido
materialista do termo.
Entre as principais considerações abordadas neste capítulo, destaca-se o fenômeno da
consciência sob suas várias nuances, da consciência como um princípio organizador do cosmo
6

à consciência pessoal como parte desse princípio cósmico maior que, ordena a manifestação
da vida.
Na sequência das exposições, se faz uma abordagem simplificada das principais
teorias clássicas da consciência à luz da exposição de William James, Karl Jasper, Sigmund
Freud e Carl Jung.
Em seguida, a cartografia da consciência é exposta como uma sucessão de estados
conscienciais, alguns comuns, e outros incomuns, que sugerem uma similaridade - e uma
possibilidade -, com os espaços multidimensionais, de acordo com a cosmologia quântica das
supercordas, assunto abordado no capítulo que se segue.
A esta cartografia consciencial, adiciona-se a experiência de expansão consciencial
através das técnicas meditativas, e o uso de enteógenos - as denominadas plantas de poder -,
que são apresentadas como mais uma ferramenta para o estudo do inconsciente, tal como
descrito por Strassman, Grof e Leary, entre outros.
Em seguimento às idéias expostas no capítulo anterior, este terceiro capítulo apresenta
alguns indícios - e evidências -, da imaterialidade do fenômeno consciência, na descrição de
relatos de experiências de quase morte (NDE)
1
e projeção extracorpórea da consciência
(OBE) como uma forte possibilidade de que a consciência possa não ser um epifenômeno
biológico, no sentido figurativo deste termo, mas algo imaterial, um tipo de campo
consciencial, que pode ter a mesma natureza dos campos de força descrito pela física
contemporânea.
As considerações colocadas neste terceiro capítulo trazem os elementos necessários
para uma grande síntese interdisciplinar, quando os conhecimentos que se tem da natureza da
consciência - como uma entidade biopsíquica e espiritual -, convergem com conhecimento
que desponta na física contemporânea.
O quarto capítulo é uma exposição introdutória sobre os achados da física
contemporânea, principalmente nos campos das físicas relativista, quântica e de partículas,
com o objetivo de colocar de forma clara, exata e sem distorções emocionais, os principais
achados dessa ciência contemporânea, para que o leitor tenha uma visão da importância
desses saberes na construção de um paradigma pessoal, voltado para a visão de um universo
imaterial que pode servir de palco para a compreensão de uma gama de fenômenos associados
a estados conscienciais, que sugerem a imaterialidade da alma como veículo da consciência.
Portanto, a essência deste capítulo é a busca da compreensão do que a física sabe, e

1
Dá-se preferência ao uso do acrônimo em língua inglesa por ser universal na literatura científica.
7

tem a dizer, sobre a realidade; ou seja, sobre o espaço, o tempo e a matéria, que são os
elementos do cenário no qual os fenômenos psíquicos ocorrem e manifestam um Eu que,
como uma consciência desperta, busca tanto a compreensão de si-mesmo, quanto deste
complexo cenário no qual está inserido.
Inicia-se o capítulo com uma breve reflexão sobre a realidade e o espaço-tempo, tanto
sob o ponto de vista da física clássica quanto da moderna. No subcapítulo da física de
partículas, faz-se uma descrição simplificada do Modelo Padrão, para que o leitor tenha uma
referência do que se sabe sobre os constituintes últimos da realidade, e de como estes
elementos de realidade podem auxiliar na compreensão e na modelagem de um paradigma
que possa trazer compreensão da natureza do Eu e da própria realidade, tal como ela é em si-
mesma.
Finalmente, é importante lembrar que as reflexões efetuadas neste capítulo têm por
objetivo mostrar que as descobertas da física contemporânea estão tendo um profundo
impacto na descrição da realidade, e que suas implicações filosóficas estão mudando
radicalmente a visão que o homem contemporâneo tem de si-mesmo e da própria realidade.
Quando Sir Arthur Eddington (1882-1944) propôs o paradoxo das duas-mesas; a mesa
do dia-a-dia vista com concretude e solidez, e a mesa vista pelo físico como uma complexa e
imbricada estrutura de campos vibracionais no vazio absoluto, estava também propondo o
paradoxo que agora colocamos: a neurobiologia vista com a concretude dos processos
fisiológicos, e a neurobiologia tal como compreendida pelo físico de partículas, ou seja, a
mesma complexa e imbricada estrutura de campos vibracionais no vazio absoluto. Então
remanesce a questão: o que é essa consciência que, como um fenômeno, emerge desse cenário
aparentemente surreal?
O quinto capítulo é o corolário dos resultados, achados e saberes expostos nos
capítulos anteriores, culminando com uma proposta de formulação de um modelo
paradigmático da imaterialidade do mundo físico, que dê suporte a uma visão mais profunda e
real da realidade em si mesma, independentemente da percepção ilusória e equivocada dos
modelos oriundos da percepção cognitiva e da interpretação equivocada do átomo como uma
estrutura material.
Na opinião do autor é possível conviver com uma percepção biológica, mas sem
perder a visão de que este modelo não descreve substancialidade e materialidade e, portanto,
não indica ou suporta a uma visão materialista da realidade, pois da vacuidade constitucional
das partículas elementares não pode advir nenhuma concretude.
8

Finalizando esta introdução, o autor pede paciência ao leitor pela redundância na
exposição de alguns conceitos, em que a repetição de conceitos e colocações teve por único
objetivo frisar aspectos que são incomuns, e devem ser continuamente relembrados no
decorrer do texto, para o aprofundamento e a sedimentação de idéias que não fazem parte do
dia-a-dia da grande maioria dos leitores.



9

CAPÍTULO 1. – INTRODUÇÃO À EPISTEMOLOGIA
UMA REFLEXÃO SOBRE O CONHECIMENTO
E os físicos, como eu, têm a nítida consciência de que a realidade que
observamos - ou seja, a matéria que evolui no cenário do espaço-tempo -,
pode ter muito pouco a ver com a realidade externa, se é que ela existe.
(Greene, 2005, p. 10).
1.1 INTRODUÇÃO
A colocação de um capítulo inicial sobre epistemologia tem por objetivo provocar
uma reflexão teórica sobre o conhecimento, reflexão esta que - por expor as diversas posições
filosóficas sobre a natureza do conhecimento, suas fontes, seus limites e validade -, é
relevante para a compreensão da relação entre a realidade percebida através da cognição
sensorial e a realidade em si-mesma, tal como ela é independentemente de um observador
cognoscente.
A compreensão da natureza da realidade em si-mesma é importante para a
compreensão da natureza do Eu, o ser cognoscente, que é parte intrínseca desta realidade, e
também para o entendimento dos fenômenos sutis que o envolvem. Neste aspecto, a
epistemologia tem papel importante, ao expor as possibilidades de conhecimento sobre vários
pontos de vista.
A palavra epistemologia tem sua origem nas palavras gregas ‘episteme’, com o
significado de conhecimento, e logos, com o significado de teoria, ou seja, significa
literalmente Teoria do Conhecimento.
Como um ramo da filosofia, a epistemologia tem por objetivo uma reflexão sobre o
conceito de conhecimento, que suscita várias possibilidades, tais como conhecer coisas,
pessoas, lugares, fatos e, como fazer isto ou aquilo, etc. Por isso o conhecimento factual tem
sido o ponto central da epistemologia no âmbito da filosofia analítica. Entretanto, como o
objetivo desta monografia é a investigação da relação entre a realidade em si-mesma, e a
realidade percebida pelos sentidos, a reflexão que faremos neste capítulo se deterá aos
aspectos da epistemologia da percepção.
Nos capítulos posteriores, serão apresentados os argumentos para uma tese sobre a
imaterialidade, com a afirmação de que a realidade percebida pelos sentidos é uma ilusão, ou
seja, um construto cognitivo que nada tem a ver com a realidade em si-mesma. Como bem
disse Demócrito: “Por convenção doce, por convenção amargo, por convenção quente, por
10

convenção frio, por convenção colorido; mas na realidade só átomos e vazio”.
2

Por outro lado, tanto no âmbito das ciências da psique, quanto na física
contemporânea, têm-se indícios suficientes da existência de outras realidades para além dos
limites sensoriais. Os argumentos para tais afirmações vêm de duas fontes. A primeira traz os
indícios subjetivos dos estados incomuns de consciência que serão considerados nos capítulos
posteriores. A segunda traz as evidências objetivas das pesquisas da física contemporânea, que
nos mostram uma realidade com características completamente diferentes daquelas oriundas
dos sentidos. O universo que pensamos conhecer através dos sentidos, ou seja, o universo
constituído de matéria bariônica,
3
é somente 0,4%
4
de tudo que a cosmologia moderna
atualmente conhece, e mesmo assim, a imagem sensorial que temos da matéria bariônica é
uma ilusão sensorial-cognitiva, pois os sentidos não mostram a natureza real dessa matéria,
que é somente vibração no vazio.
Então, se coloca uma questão maior, ou seja, o que de fato se sabe e se pode saber
sobre a realidade? Quais os possíveis meios de conhecimento para investigá-la e qual a
validade desse conhecimento? A epistemologia propicia uma reflexão sobre essas questões,
investigando as fontes do conhecimento e a verdade contida nesse conhecimento.
Quais são os meios de conhecimento? Em verdade, existem três meios pelos quais o
conhecimento pode ser adquirido: o primeiro é o conhecimento sensorial, ou seja, a
informação que se tem, sobre o objeto de estudo, vem através dos sentidos e é interpretada
pela psique do observador. O segundo é o conhecimento transcendente, quando então o
conhecimento é adquirido através do transe místico, durante um estado incomum de
consciência. O terceiro é o conhecimento oriundo do método científico, baseado na
observação, elaboração de hipóteses, e a verificação das hipóteses pela experimentação, com
o objetivo de elaboração de teorias que descrevam o fenômeno observado.
Não se deve pensar que estas três formas de conhecimento se opõem por enfocarem
diferentes aspectos da realidade. De fato, elas devem se complementar ao explicitarem as
incompletudes de cada uma. Afinal, um conhecimento não pode se contrapor a outro
conhecimento, pois neste caso, um deles, ou ambos, não são conhecimento justificado, talvez
crença, talvez ignorância, fruto da agnosia.
Sabe-se que o conhecimento oriundo da observação sensorial é limitado pelo alcance

2
Demócrito, fragmento 125. Disponível em: http://www.mundodosfilosofos.com.br/democrito2.htm. Acessado
em 15/06/2010
3
Matéria comum, constituída de átomos e seus compostos.
4
Planetas e estrelas. O restante do Cosmos é composto de 4,6% de gás intergaláctico, 22% de matéria escura e
74% de energia escura.
11

dos sentidos, e não mostra a realidade tal como ela é. Assim, é lícito afirmar que o
conhecimento oriundo dos sentidos - embora seja útil para a vida cotidiana -, não mostra a
realidade em si-mesma, mas sim, um construto emergente da cognição. Por isso, dos três
meios de conhecimento, este é responsável pela 'visão' que se tem da realidade percebida, e
também o responsável pela formação de um paradigma pessoal, de cunho materialista-
organicista, que modela a visão que o indivíduo tem de si mesmo e do mundo. Do ponto de
vista da realidade percebida, este conhecimento é objetivo, mas do ponto de vista da realidade
em si-mesma, é ilusório ou falso, porque o que é percebido não corresponde à verdade.
Os sentidos mostram um mundo constituído de matéria, mas os místicos o vêem como
sendo uma ilusão e, de certa maneira, a visão do místico concorda com a do físico, pois
ambos sabem que a essência da matéria é muito diferente da visão macroscópica obtida
através dos sentidos. Para ambos, a realidade última é constituída de minúsculas vibrações em
movimento. Por exemplo, os Vedas, um conjunto literário que expõe a cultura espiritual da
Índia antiga, descrevem a realidade como uma manifestação do Absoluto - a Consciência
Cósmica -, na forma de vibração em movimento (em sânscrito, vrtti-spanda).
Segundo Chatterji (1973, p. 14):
Não existe nada que seja absolutamente estável, nada que seja permanente,
em todo o universo objetivo, que é apenas um sistema de movimentos
cambiantes (jagatï ou movimento coletivo), com tudo se movimentando e se
modificando (jagat). Todavia, esse movimento não é uma dança tola, há
método nela, e os movimentos são arranjados em grupos e obrigados a morar
(avasya),
5
dentro de certos limites, por períodos, e em várias dimensões, de
maneira a lhes dar certa estabilidade duradoura. O que dá aos sistemas de
movimento essa estabilidade aparente, esse arranjo ordenado e essa
sequência reguladora não é uma propriedade qualquer dos movimentos, mas
algo diferente dos movimentos, um poder que os governa (Is) e os faz morar
diversamente e em ordem, um poder que não pode ser contatado diretamente
através dos movimentos. Na verdade, os movimentos não podem ser
conhecidos diretamente, mas somente inferencialmente como causa das
sensações que são experimentadas direta e intimamente. O poder que regula
os movimentos é, assim, duplo e impenetravelmente ocultado de nós pelas
sensações experimentadas, e pelos movimentos inferidos como fonte das
sensações.
Por outro lado, a moderna física de partículas descreve a realidade em seu nível mais
fundamental através da Teoria das supercordas.
Segundo Lincoln (2005, p. 437):
Na física de partículas, as cordas são pensadas como um pequeno laço em
vibração. As vibrações manifestam-se a si mesmas, e podem vibrar com

5
Estabilidade atômica que dá aparente individualidade as partículas elementares.
12

frequências variáveis e crescentes. A menor frequência ocorre simplesmente
quando o raio do laço varia. A segunda frequência ocorre quando a distorção
rítmica do círculo produz uma elipse, inicialmente orientada
horizontalmente, depois verticalmente. Vibrações de frequências mais altas
tomam a aparência de uma estrela oscilante, etc.
Portanto, a percepção que o ser humano tem da realidade através dos sentidos, não é
verdadeira. O que os sentidos mostram é um construto psíquico, ou seja, uma imagem falsa,
ou ilusória dessa realidade. Com certeza, a realidade última não tem uma ‘imagem’ no sentido
literal, mas não há dúvidas de que é a física quântica de partículas que nos diz como ela é
através da Teoria das Supercordas, que de certa forma, concorda com a imagem percebida
pelos místicos, no que diz respeito à vacuidade e às vibrações em movimento.
Segundo Monteiro (2003, p. 63-76):
É hoje geralmente aceito que não podemos sustentar a existência de um
mundo real subsistindo em si e por si mesmo, independente de nossos atos
de construção cognitiva. Galileu e Locke mostraram que as chamadas
qualidades segundas das coisas, como as cores e os perfumes, não são
próprios dos objetos, sendo unicamente devidas à natureza do sujeito que
percebe tais qualidades
Comentando a afirmação de Monteiro, a inexistência de um mundo real não significa
niilismo, mas sim a inexistência do conceito de mundo real, como algo concreto e com
substancialidade. Sem dúvida, esta reflexão está no cerne da dualidade entre o materialismo e
o espiritualismo. Se, por um lado vê-se a realidade com materialidade e concretude, por outro
lado, vê-se que a realidade em sua essência é imaterial. Então, remanesce a questão: como da
imaterialidade poderia surgir uma materialidade, a menos que esta seja somente uma
percepção cognitiva?
Admitindo a tese de que a realidade percebida é um construto psíquico - portanto uma
interpretação que a rede neural faz dos estímulos sensoriais -, é de se admitir que os
mecanismos cognitivos que geram a ilusão da materialidade devem estar na rede neural, e
provavelmente são de origem evolucionária.
Desde que a primeira célula viva surgiu no planeta há quatro bilhões de anos, teve
início um mecanismo evolucionário de sobrevivência. Há 0,6 bilhões de anos surgiram os
primeiros animais multicelulares, semelhantes às esponjas marinhas há 0,55 bilhões de anos
surgiram os platelmintos, os primeiros animais a terem um sistema nervoso. O homo sapiens
surgiu no planeta há 200.000 anos, e a evolução foi moldando a sua psique à percepção do
mundo, através de uma complexa interação sensorial e cognitiva, um mecanismo
evolucionário para proporcionar à espécie uma melhor condição de adaptação e sobrevivência
num mundo extremamente complexo e competitivo.
13

Como resultado dessa gradativa adaptação psico-sensorial-cognitiva, o animal homem
foi desenvolvendo o intelecto, conhecendo-se a si-mesmo, e cada vez mais se identificando
com o corpo. Em verdade, poucas vezes ele possa ter pensado poder ser outra coisa além do
corpo, e por isso, ainda hoje é difícil para qualquer humano pensar na hipótese de que ele
possa não ser o corpo, tampouco a mente, mas sim algo além da matéria. A percepção de ser o
corpo está imbricada no inconsciente pessoal de cada indivíduo da espécie humana.
Sabe-se que tudo que o ser humano fez e aprendeu durante sua evolução biológica e
social, foi sendo incorporado em sua rede neural na forma de memórias, as quais foram se
transformando em aprendizados, condicionamentos e instintos. Como resultado desse
desenvolvimento biopsíquico e intelectual, cada indivíduo da espécie foi estabelecendo
conceitos e crenças a respeito de si mesmo e da natureza da realidade, e esse conhecimento foi
aos poucos sendo compartilhado com seus semelhantes, de geração em geração, para
finalmente dar origem ao seu paradigma pessoal, o modelo inconsciente que, de certa forma,
passa a ser o seu descritor da realidade, e o guia do seu comportamento.
Por esse modelo paradigmático materialista-organicista, o ser se identifica com o
corpo, identificação evidente em frases como: “eu estou doente, eu tenho fome, eu estou
envelhecendo”, mostrando a aderência a este modelo paradigmático, pois se assim não fosse
ele diria: “meu corpo está doente, meu corpo tem fome, meu corpo está envelhecendo”.
Por outro lado, os místicos que vivenciaram a realidade em estados incomuns de
consciência, nos dizem que ela é inefável, porque tudo que foi percebido nas dimensões
ocultas da realidade é indescritível, impossível de ser verbalizado, por não ter padrões ou
referências cognitivas na estrutura psíquica do ser humano.
1.2 – A REALIDADE PERCEBIDA E A REALIDADE EM SI MESMA
Se o que se vê não corresponde ao que existe, é necessário que se considere duas
categorias filosóficas ao se abordar o tema realidade. Assim, deve-se pensar na existência de
uma realidade que é a verdadeira, real, ou seja, a realidade em si-mesma, independente da
existência de vida biológica observadora e pensante, e em uma realidade ilusória que é a
realidade percebida, pelo ser biológico que a observa, pensa e indaga sobre sua natureza,
tentando compreendê-la.
Então, cabe uma questão: se o conhecimento empírico que o ser humano tem da
realidade em si-mesma é incorreto, será que é possível conhecê-la? Esta questão pede uma
reflexão mais profunda sobre as possibilidades do conhecimento, tanto no aspecto de suas
14

origens e meios, quanto de suas soluções metafísicas, para que se possa ter certeza de que o
conhecimento que se tem da realidade seja verdadeiro, ou a melhor descrição possível da
realidade tal como ela é em si mesma. Devido a esta preocupação, algumas questões de
interesse epistemológico foram propostas com o objetivo de assegurar a convergência entre o
que se sabe e a realidade.
1.3 - POSSIBILIDADES E ORIGENS DO CONHECIMENTO
Na busca do conhecimento da realidade têm-se três possibilidades: o conhecimento
oriundo do método empírico sensorial, o conhecimento oriundo das percepções nos estados
alterados de consciência, e o conhecimento oriundo do método científico.
Os dois primeiros foram às únicas possibilidades de conhecimento até meados do
século XVI, quando a ciência começou a se consolidar como o método experimental,
mostrando uma nova concepção da realidade, nem sempre correta quando unicamente
investigada pelos sentidos. Por exemplo, eu vejo uma rosa, e a visão me diz que ela tem uma
cor, mas será que tem mesmo? Ou a cor vista é um construto mental?
Para que se possa responder a esta questão devemos investigar e conhecer como as
imagens chegam à consciência, mediadas pelos órgãos sensoriais e pelo cérebro.
Para se ver necessita-se de luz. Por exemplo, a luz do Sol. A luz é uma sobreposição
de várias radiações eletromagnéticas de frequências diferentes, que são campos elétricos
perpendiculares a campos magnéticos, que se propagam na direção perpendicular aos dois
campos (vetor de Poynting).
No processo da visão, a radiação luminosa da luz interage com a rosa, e como
resultado desta interação, parte da radiação é absorvida na forma de calor e parte é refletida
em direção aos olhos do observador. A parte refletida tem as ondas eletromagnéticas das
frequências não absorvidas, e ao penetrar no globo ocular do observador, ela incide sobre a
retina - um tecido composto de estruturas denominadas cones e bastonetes -, e o resultado é a
produção de um pulso elétrico que segue pelo nervo ótico até o córtex visual - localizado nos
lobos occipitais -, onde a imagem é apreendida pela consciência do sujeito que observa a rosa.
Esta região do cérebro é absolutamente escura, mesmo que estejamos vendo luz. Não
há luz no cérebro, nem cor, nem imagens.
Então, de onde vem a imagem colorida?
A radiação eletromagnética incidente na retina não tem cor alguma, porque os campos
eletromagnéticos são oscilações de frequências variáveis, mas sem nenhuma característica
15

intrínseca que possa ser associada a qualquer cor. Ou seja, os campos eletromagnéticos são
oscilações destituídas de cor. As cores atribuídas ao espectro denominado visível são elas
próprias construtos mentais.
A corrente elétrica gerada na retina também não tem cor, pois a eletricidade é incolor.
Então o que pode ser a cor percebida, além de um construto mental criado pelo córtex visual?
Neste caso, pergunta-se: será que o cérebro pode criar uma cor inexistente no mundo externo
ao sujeito? Pode! A prova está numa característica incomum que algumas pessoas têm,
denominada sinestesia, uma condição neurológica na qual a estimulação de um canal sensorial
leva a experiência involuntária de um segundo canal sensorial. Por exemplo, existem
sinestésicos que vêem uma cor ao ouvirem um som, ou sentirem um gosto ou mesmo um
cheiro. O cérebro cria a cor que não existe, ao ser estimulado pelo som, gosto, ou cheiro. Os
compositores Franz Liszt e Nikolai Rimsky-Korsakov, viam cores ao ouvirem as notas
musicais. Se o cérebro cria cores, que mais pode criar? Se a cor da rosa não é uma
característica intrínseca da rosa, mais sim um atributo sobreposto a ela pela cognição, o que
será da textura, do cheiro, etc. A conclusão é que podemos confiar nos sentidos para viver a
vida, mas não podemos confiar neles para saber como as coisas são em si-mesmas. Os
sentidos não são uma fonte segura de conhecimento.
Segundo Monteiro (2007, p. 63-67)
6

É hoje geralmente aceito que não podemos sustentar a existência de um
mundo real subsistindo em si e por si mesmo, independente de nossos atos
de construção cognitiva. Galileu e Locke mostraram que as chamadas
qualidades segundas das coisas, como as cores e os perfumes, não pertencem
aos próprios objetos, sendo unicamente devidas à natureza do sujeito que
percebe tais qualidades. Berkeley e Hume levaram mais longe esse, digamos,
“construtivismo” (em um dos muitos sentidos desse termo), também
qualidades primárias como a solidez são derivadas de nossa subjetividade.
Kant foi mais longe, encarando o próprio espaço e o próprio tempo como
formas a priori da sensibilidade, e não como propriedades intrínsecas do
mundo em que vivemos, e negando a possibilidade de conhecer quaisquer
“coisas em si. (Monteiro 2007).
As Possibilidades do Conhecimento:- Sob o ponto de vista das possibilidades do
conhecimento, divide-se o problema em duas partes: o conhecimento do mundo e o
conhecimento metafísico. O conhecimento do mundo é caracterizado pela investigação de
tudo que nos circunda através da experiência sensível, por outro lado, o conhecimento
metafísico é “caracterizado pela investigação das realidades que transcendem a experiência

6
Principia, 11(1) (2007), pp. 63–76. J. P. Monteiro Universidade de Lisboa.
16

sensível e são capazes de fornecer fundamento a todas as ciências particulares, por meio da
reflexão a respeito da natureza primacial do ser” (Hessen. 2003).
Quanto às possibilidades do conhecimento, temos as seguintes posições
epistemológicas: dogmatismo, ceticismo, subjetivismo, relativismo, pragmatismo e criticismo,
que são pontos de vista sobre o valor do conhecimento, sua abrangência e possibilidade.
Dogmatismo:- do grego 'dogma', ou doutrina estabelecida, é a posição epistemológica
para a qual o problema do conhecimento não chega a ser discutido, ou seja, para as pessoas
que compartilham esse ponto de vista, as coisas são tal como nós as percebemos “A
possibilidade e a realidade do contato entre o sujeito e o objeto são pura e simplesmente
pressupostas. É auto-evidente que o sujeito apreende o objeto, i.e., que a consciência
cognoscente apreende aquilo que está diante dela (Hessen 2003, p. 29).
Portanto, para os propositores do dogmatismo, o conhecimento não chega a ser um
problema. Eles assumem uma posição ingênua e desconhecem que o contato entre o sujeito e
o objeto é sempre mediado por um processo, que pode ter limitações - e sempre as têm -, pois
os métodos de conhecimento sensorial nunca mostram as características reais do objeto que se
quer conhecer.
A posição dogmática é visível quando se aceita qualquer opinião como verdadeira,
sem se ter o cuidado de procurar conhecer as limitações do processo e a credibilidade das
fontes através do qual o conhecimento é divulgado.
Ceticismo é a posição epistemológica oposta ao dogmatismo. Enquanto que para o
dogmatismo não há problema para que o sujeito apreenda o objeto, para o ceticismo esta
possibilidade é negada. Ou seja, para o cético o conhecimento é impossível. “Enquanto o
dogmático encara a possibilidade de contato entre o sujeito e o objeto como auto-evidente, o
cético a contesta” Hessen (2003, p. 31).
Subjetivismo e Relativismo:- para o subjetivismo e o relativismo, o conhecimento é
possível, mas o que podemos saber é sempre limitado em conteúdo e validade. Neste aspecto
o subjetivismo e o relativismo têm semelhança entre si, pois ambos afirmam que não há
verdade absoluta. Toda verdade é relativa e de validade restrita. O subjetivismo restringe a
validade da verdade ao sujeito que conhece e que julga, enquanto o relativismo enfatiza mais
a dependência do conhecimento aos fatores externos.
Diferentemente do ceticismo que afirma não haver verdade alguma - o que por si já é
uma contradição -, o subjetivismo e o relativismo afirmam que não há nenhuma verdade que
seja universalmente válida, - e aqui também há uma contradição, pois uma verdade necessita
17

ser universalmente válida, para ser verdadeira -, “no fundo, subjetivismo e relativismo são
formas de ceticismo, pois também indiretamente negam a verdade, na medida em que
contestam sua validade universal.” (Hessen, 2003, p. 38).
Pragmatismo:- O pragmatismo, tal como o ceticismo, também nega a possibilidade
de se ter conhecimento de uma verdade absoluta, ou seja, nega a concordância entre a
percepção do sujeito e a natureza daquilo que é conhecido através dessa percepção.
“Entretanto, não se detém nesta negação, mas põe outro conceito de verdade no lugar do que
foi abandonado. Verdadeiro, segundo essa concepção, significa o mesmo que útil, valioso,
promotor da vida”. (Hessen 2003, p. 39-40):
Entre os principais filósofos e psicólogos que apóiam esta tese encontram-se William
James (1842-1910), que foi quem propôs o termo, Friedrich Schiller (1759-1805), que a
denominou humanismo e Friedrich Nietzsche (1844-1900), um filósofo que desenvolveu o
método de psicoterapia pela fala. Segundo Nietzsche “a verdade não é um valor teórico, mas
uma expressão para a utilidade, para a função do juízo que é conservadora da vida e
servidora da vontade de poder.” (ibidem. pg. 40).
Assim, vemos que, para o pragmatismo, o conhecimento deve ser útil e ter validade
para o ser e para a sociedade. O pragmatismo é uma posição que se mostra verdadeira, mas
não coloca em reflexão o problema epistemológico do conhecimento, pois mesmo sendo útil
para o ser e a sociedade, o conhecimento deve ser fundamentado, crível.
Criticismo:- Esta é uma posição filosófica de equilíbrio e bom senso. O pensador
crítico examina tanto a fonte de suas afirmações e objeções, quanto os fundamentos sobre os
quais repousam. Entre os principais pensadores que adotam esta postura crítica em relação ao
conhecimento estão René Descartes (1596-1650), John Locke (1632-1704), Gottfried W. Von
Leibniz (1646-1716), David Hume (1711-1776) e Immanuel Kant (1724-1804), o proponente
do pensamento crítico, com suas obras 'Crítica da Razão Pura' e 'Crítica da Razão Prática'.
Criticismo é vigilância epistêmica; é não acreditar em tudo que é escrito e dito, como
sendo verdadeiro, sem se examinar as origens desses saberes. Por isso é necessária certa
atenção quanto ao que lemos e ouvimos. Quais são as credenciais do autor ou expositor? Ele
conhece a fundo o assunto? É um pesquisador sério e especializado no tema, ou alguém sem
nenhum critério, que se informou sobre algo e repassa o que leu sem nenhum compromisso
com a verdade, tendo como único objetivo auferir proveito para si?
Esses aspectos do criticismo são cada vez mais importantes, principalmente porque o
assunto sobre o qual refletimos nesta monografia, i.e., o paradigma da imaterialidade, é um
18

tema quase sempre usado de maneira não científica por pessoas inescrupulosas, que usam a
espiritualidade para divulgarem teorias sem nenhum valor e consistência.
Um critério para avaliar a verdade contida em um conhecimento, é sempre considerar
que um saber verdadeiro não se opõe a outro saber sabidamente verdadeiro, principalmente
quando este último mostra evidências objetivas de credibilidade. Uma afirmação metafísica
não pode opor-se a uma lei física bem estabelecida, mesmo considerando que a ciência não
tem palavra final sobre tudo.
Hessen considera o criticismo o único ponto de vista correto quanto às possibilidades
do conhecimento, e afirma: “Comparado com os outros, esse ponto de vista aparece como o
mais maduro” (ibidem. pg. 44).
Na opinião do autor desta monografia, o criticismo deve ser considerado como um
critério para avaliação do conhecimento, enquanto a melhor proposição está na intersecção
entre o subjetivismo, relativismo e o pragmatismo. O conhecimento absoluto parece ser uma
utopia, um horizonte que continuamente se afasta do buscador incansável, principalmente
quando a questão é a realidade última, a realidade em si mesma. Entretanto, embora talvez
nunca saibamos o que ela é - cada vez mais sabemos o que ela não é -, e isto por si já é algo
grandioso.
Origens do Conhecimento:- Sob o ponto de vista das origens do conhecimento, os
principais pontos de vista levantados pela epistemologia são: o racionalismo, o empirismo, o
intelectualismo, e o posicionamento crítico.
Racionalismo:- é uma posição filosófica que enxerga no pensamento e na razão a
principal fonte do conhecimento humano, e para esta postura epistemológica, um
conhecimento só merece realmente esta designação, se tiver validade universal.
O pensamento racionalista tem sua origem na matemática, que nos lega um
conhecimento essencialmente dedutivo e conceitual, portanto de origem no pensar, na razão.
Na matemática, a razão impera porque o conhecimento matemático é independente da
experiência empírica. Mas quando a matemática é a linguagem das ciências, seus resultados
devem ser validados experimentalmente.
A mais antiga escola racionalista é a do filósofo Platão (428-347 a.C.), que ensinava
que os sentidos jamais nos fornecerão um conhecimento verdadeiro. Como já foi dito, os
sentidos nos mostram somente aquilo que é importante para a sobrevivência e evolução da
espécie. De certa forma, os sentidos têm limitações. Por exemplo, a visão nos descortina uma
realidade limitada à interação da luz com os objetos circunvizinhos numa pequena faixa
19

espectral de comprimento de onda entre 400 e 800 nanômetros. Estruturas e fenômenos que
somente interagem com comprimentos de onda abaixo e acima dessa faixa espectral não são
perceptíveis pelo sentido da visão. Portanto, o que os sentidos nos mostram não é
conhecimento (episteme), mas uma opinião ou mostra (dóxa) da realidade.
Por outro lado, Platão afirmou que, ao lado do mundo sensível, deve haver um mundo
supra-sensível, de onde a consciência cognoscente retira seus conteúdos; este mundo não é
simplesmente uma ordem lógica, mas também uma ordem metafísica, um reino de entidades
ideais. Neste mundo, as ideias são os arquétipos das coisas do mundo sensível da experiência.
E, indo mais longe, ele afirmou que o mundo das ideias está em relação com a consciência
cognoscente, pois todo conhecimento é rememoração, numa explicita alusão às possibilidades
de cognição através dos estados incomuns de consciência. “A alma viu as ideias num ser-ai
pré-terreno e, agora se recorda delas por ocasião da experiência sensível” (Platão apud
Hessen, 2003, p. 50-51).
Outra posição epistemológica para o racionalismo encontra-se em Plotino (205-270
d.C.) e santo Agostinho (354-430 d.C.), que colocam o mundo das ideias no 'Nous' cósmico, o
'Espírito Pensante' ou a Consciência Cósmica, no jargão da Psicologia Transpessoal. “O
conhecimento simplesmente ocorre quando o espírito humano recebe as ideias do 'Nous', pois
a parte racional de nossa alma é sempre preenchida e iluminada a partir do alto” (Plotino,
apud Hessen 2003, p. 50):
Esta corrente racionalista é denominada 'platônico-agostiniana', ou racionalismo
teológico. Mais tarde, por volta do século XVII, Descartes (1596-1650) e posteriormente
Leibniz (1646-1716), postularam a doutrina das 'ideias cognatas' (ideae innatae), segundo a
qual os seres humanos possuem conceitos inatos que são os fundamentadores do
conhecimento. Segundo estes filósofos, estas ideias inatas não provêm da experiência
empírica, mas se constituem num patrimônio da razão.
Empirismo:- é uma posição filosófica que afirma ser a experiência a única fonte do
conhecimento. Segundo os empíricos, a razão não tem nenhum conhecimento 'a priori da
experiência, que seria então a origem única de todo o saber. Portanto, segundo este ponto de
vista, a consciência cognoscente não retira seus conteúdos da razão, mas da experiência.
Os empíricos consideram que o ser humano ao nascer é uma 'tabula rasa', ou uma tela
em branco, que nada contém a priori da experiência, a qual aos poucos vai deixando no ser
um saber, que é o fruto do conhecimento empírico.
Se, por um lado, a posição racionalista admite um conhecimento subjetivo, o
20

empirismo trabalha com uma hipótese concreta e baseada na experiência. A maioria dos
racionalistas tem suas raízes na lógica e no mundo abstrato das ideias e conceitos
matemáticos, enquanto os empiristas as têm nas ciências naturais, onde a observação é a única
fonte do saber. Existem duas formas de empirismo: a primeira, baseada na experiência interna
e a segunda baseada na experiência externa, que se denomina sensualismo, ou seja, a
experiência baseada nos sentidos. Entretanto, embora a experiência interna seja subjetiva, ela
é a única forma de o indivíduo conhecer-se a si-mesmo em sua extensão biopsíquica.
Entre os séculos XVII e XVIII, alguns pensadores como John Locke (1632-1704) e
David Hume (1711-1776) abraçaram a causa do empirismo com um desenvolvimento
sistemático. John Locke combateu a doutrina das ideias inatas, admitindo a existência de uma
experiência externa e outra interna. A externa produz sensações, e a interna produz reflexões.
Em ambos os casos os conteúdos das ideias são representações.
Intelectualismo: - Esta posição estabelece um meio termo entre as posições
racionalista e empirista. Enquanto que, para a posição racionalista o pensamento é a fonte de
todo o conhecimento, e para a posição empirista o conhecimento advém da experiência, para
o intelectualista as duas posições participam do processo do conhecimento, pois a consciência
cognoscente 'lê na experiência' e retira dela seus conceitos.
Apriorismo: - Tal como o intelectualismo, o apriorismo também estabelece um meio
termo entre as posições racionalista e empirista, considerando o pensamento e a experiência
como fontes do conhecimento, mas como o nome sugere, o apriorismo coloca que o
conhecimento apresenta elementos 'a priori' e independentes da experiência. Entretanto, os
elementos 'a priori' não são conteúdos do conhecimento, mas formas, e essas formas recebem
seu conteúdo através da experiência. Segundo Hessen, “os fatores apriorísticos assemelham-
se num certo sentido a recipientes vazios que a experiência vai enchendo com conteúdos
concretos” (Hessen, 2003, p. 62).
A essência do conhecimento está na compreensão da relação entre o sujeito
cognoscente - que observa, pensa e infere -, e o objeto que é observado, e cuja natureza é
perscrutada pelo sujeito.
A mediação entre esses dois elementos está no processo de observação, que é o fator
de fundamental importância no processo do conhecimento, pois interliga o sujeito e o objeto,
trazendo ao primeiro as características do segundo. Isto evidencia que os sentidos, além de
não nos mostrarem as características reais do objeto observado, ainda sobrepõem sobre estes
algumas características e atributos inexistentes.
21

1.4 - SOLUÇÕES METAFÍSICAS
Considerando o aspecto ontológico do sujeito e do objeto, três soluções metafísicas
podem ser consideradas: os pontos de vistas do realismo, do idealismo e a do fenomenalismo.
Realismo:- Hessen (2003, p. 75) por realismo, entende-se o ponto de vista
epistemológico, segundo o qual existem coisas reais, independentes da consciência
[cognoscente].
Na opinião do autor desta monografia, esta definição está correta, mas pede um
entendimento quanto ao significado do termo “coisas reais”. Se compreendermos por “coisas
reais” a realidade percebida - na forma de objetos e coisas do mundo que nos cercam -, então
a posição realista é incorreta, pois a consciência cognoscente depende dos sentidos, e estes
não nos mostram a realidade como ela é. Mas, se entendermos que por “coisas reais” estamos
nos referindo à realidade em si-mesma, aquilo que existe independente do ser humano, o
sujeito observador, então a posição realista está correta, pois existe uma realidade que é
independente das possibilidades sensoriais e cognitivas dos animais em geral. Esta realidade é
o estofo do mundo físico, e está sendo modelada pela Teoria das Supercordas.
Esta reflexão pode ser compreendida na própria essência do pensamento realista, que
admite três posições epistemológicas diferentes: o denominado realismo ingênuo, o realismo
crítico e o realismo científico.
Realismo ingênuo:- não faz nenhuma reflexão epistemológica quanto à natureza do
conhecimento e da relação entre os três elementos do processo de conhecimento, isto é:
sujeito cognoscente, o objeto do conhecimento e o método através do qual o sujeito determina
e conhece o objeto. Assim, o realismo ingênuo não distingue a percepção, que é um conteúdo
da psique cognoscente, do objeto percebido. Para esta posição epistemológica, o objeto existe,
com todas as suas características apreendidas, independentemente do sujeito que o observa.
“A rosa é vermelha independentemente de haver ou não alguém que a observe”. As cores dos
objetos, bem como todas as suas características e qualidades, são consideradas intrínsecas e
não dependem do sujeito cognoscente. Portanto, o Realismo Ingênuo identifica todos os
conteúdos da psique cognoscente como pertencentes aos objetos, ou seja, atribui aos objetos
todas as propriedades desses conteúdos. Evidentemente este é um ponto de vista equivocado
para quem busca se aproximar da verdade em sua estância última.
Por outro lado, o realismo crítico tem como base reflexões epistêmicas críticas, que
dividem as características dos conteúdos perceptivos em duas categorias: aquelas que são
22

consideradas como sendo intrínsecas dos objetos e aquelas que não o são.
7

No primeiro caso, temos as características apreendidas por mais de um sentido, como
por exemplo, as características gerais que dependem da percepção conjunta da visão e do tato.
No segundo caso, temos as características apreendidas por um único sentido, como por
exemplo, a cor, o odor e o gosto de um objeto, etc., e considera que “certos elementos causais
devem estar presentes nos objetos para o surgimento dessas qualidades” (Hessen 2003, p.
75).
De fato, existem nos “objetos percebidos”, certos elementos causais, ocultos aos
sentidos, que de uma forma ou outra, interagem com os elementos do processo de percepção
sensorial, estimulando na consciência cognoscente atributos que passam a ser percebidos
como pertencentes aos próprios objetos.
No exemplo citado anteriormente (ver p. 13), sabe-se que existe algo na natureza
“daquilo que vemos como uma rosa”. Este algo interage com a radiação eletromagnética
dando origem ao processo da luz emergente e a percepção da cor. Mas, o que é este algo? A
física moderna nos diz que “este algo” é o arranjo do estofo do cosmos, algo que existe em
vários níveis de complexidade, tais como: as supercordas, as partículas elementares que nelas
têm origem, os átomos formados pelas partículas elementares, e tudo mais que deles decorrem
como fenômenos emergentes da cognição humana.
Realismo Científico:- O realismo científico é o ponto de vista epistemológico que
afirma que a realidade descrita pela ciência é a melhor descrição da realidade em si-mesma,
tal como ela é, independentemente de como nós a vemos e pensamos que ela possa ser.
Este ponto de vista nos remete a um exame da relação entre a ciência e a realidade, ou
seja, de como o nosso conhecimento científico se relaciona com as coisas do nosso dia-a-dia.
“Qual é a relação entre a natureza [realidade], tal como a ciência a vê, e como ela é
percebida na experiência do dia-a-dia?” (Rescher, 2003, p. 361).
Segundo Arthur Eddington (apud Rescher, 2003, p. 362):
Muito do que pensam os epistemologistas contemporâneos têm seu ponto de
partida na famosa discussão das duas – mesas de Eddington, as quais
contrastam a sólida mesa da experiência do dia-a-dia, com a mesa do físico
composta de múltiplas oscilações eletromagnéticas no espaço vazio. Ele
[Eddington] mantém que a última é a mesa real, tal como existe na natureza,
e que a primeira é somente uma aparência, uma ilusão – uma miragem que
existe na mente das pessoas. Nossa visão comum do mundo é uma questão
de ilusão mental [e não somente de percepção ótica].

7
Denominadas por John Locke respectivamente qualidades primárias e secundárias.
23

Por isso, o autor desta monografia considera o ponto de vista do realismo científico o
melhor ponto de vista para compreensão da realidade, tal como ela é em si-mesma. Este ponto
de vista contrapõe duas percepções: a realidade percebida no dia-a-dia - que nos mostra um
mundo aparentemente sólido e concreto, e a realidade do ponto de vista do físico - que nos
mostra um mundo constituído de uma infinitude de campos eletromagnéticos vibrando no
espaço vazio. Por isso enfatiza-se que a realidade percebida, a que faz parte do dia-a-dia do
ser humano, é uma ilusão, um construto psíquico, enquanto a segunda, a realidade descrita
pela ciência, é a real e verdadeira, por mais alucinante que esta concepção de realidade possa
ser! “A realidade que vislumbramos é somente um pálido vislumbre da realidade que existe”
(Greene, 2005, p. 28), e “Se a teoria das supercordas estiver correta, teremos forçosamente
que aceitar que a realidade conhecida é apenas uma leve cortina que nos oculta a rica e
espessa textura do tecido do cósmico” (Greene, 2005, p. 36):
Em outras palavras, nós seres humanos, vivemos um sonho irreal. Pela manhã, ao
abrirmos os olhos, continuamos sonhado. É um estado de consciência diferente do sono com
sonhos, mas é um estado de vigília sonhado, uma mistura de construtos psíquicos estimulados
por impulsos sensoriais que criam a realidade que precisamos ver, para existir e viver no
mundo, mas que em nada se parece com a realidade tal como ela é.
Portanto, este autor elege nesta monografia, o ponto de vista do realismo científico
como um dos pilares epistemológicos para a demonstração da tese da imaterialidade do
mundo.
Idealismo:- Para os adeptos desta postura epistemológica, a realidade percebida não
existe por si mesma, ela é um construto mental, uma ideação. Segundo Hessen (2003, p. 81),
A palavra idealismo é usada em muitos sentidos diferentes, e deve-se distinguir o idealismo
no sentido metafísico do idealismo no sentido epistemológico.
A posição do idealismo metafísico é a de que a “realidade está baseada em forças
espirituais, em poderes ideais” (ibidem), posição semelhante ao ponto de vista denominado
Idealismo Transcendental, das tradições advaitas da Índia, que afirmam ser o Absoluto ou
Brahman, a única realidade, e o estofo último do cosmos.
A posição do idealismo epistemológico, que mais interessa a esta monografia, afirma
não existirem coisas reais, independentes da consciência cognoscente. Entretanto, o idealismo
não é uma postura filosófica niilista, pois não nega a existência do mundo, nega o
conhecimento que dele temos através dos sentidos. Assim, para o idealismo epistemológico, a
realidade percebida é uma ilusão, ou um fenômeno emergente da cognição, ou seja, como já
24

definido, um construto mental.
Segundo Hessen (2003, p. 81):
Como após a supressão das coisas reais só restam dois tipos de objetos, a
saber, os existentes na consciência (representações, sentimentos) e as ideias
(objetos da lógica e da matemática), o idealismo deve necessariamente
considerar os pretensos objetos reais, quer como objetos existentes na
consciência, quer como objetos ideais. Daí resultam dois tipos de realismo: o
subjetivo ou psicológico e o objetivo ou lógico.
Idealismo Subjetivo: Tem como centro a consciência do sujeito que observa. É
posição adotada por J. G. Fichte (1762-1814), que mantém uma posição entre as de Kant
(1724-1804) e Hegel (1770-1831), afirmando ser o mundo uma percepção do sujeito. Para
Kant, todos trazem formas e conceitos ‘a priori’, para a experiência concreta do mundo. Para
Hegel, cuja posição é semelhante à de G. Berkeley (1685-1753), o mundo também é uma
percepção do eu cognoscente. “As coisas não passam de conteúdos da consciência. [...] tão
logo deixam de ser percebidas por mim, deixam também de existir” (Hessen, 2003, p. 81).
Na opinião do autor desta monografia, a frase “deixam também de existir” não
significa niilismo, pois as coisas deixam de existir como fenômenos da cognição sensorial
humana, mas continuam a existir no sentido metafísico, como aquilo que é a essência de tudo
e de todas as coisas.
Idealismo objetivo: Tem como centro a consciência objetiva da ciência. É a posição de
Thomas Hill Green (1836-1882), também denominado pampsiquismo por Berkeley, que se
opõe ao ponto de vista do idealismo subjetivo de Fichte, ao afirmar ser a realidade uma ideia,
razão, inteligência, vendo a natureza como uma simples “inteligência visível”. Portanto, a
realidade, seja mental ou espiritual, não depende de uma mente humana em particular, porém
de um único ser, o Absoluto.
Para o idealismo subjetivo, a realidade percebida é um conteúdo da consciência
cognoscente, ou seja, um conteúdo da psique do sujeito observador. Assim, um objeto
somente existe como tal, ao ser percebido, deixando de existir como tal, na ausência de um
sujeito observador. O que há de efetivo é unicamente a consciência e seus conteúdos.
8
Essa é
a posição epistemológica de George Berkeley (1685-1753). O idealismo de Berkeley tem um
alicerce teológico e metafísico, pois ele reconhecia que tanto Deus, como a alma, têm
existência autônoma, considerando que Deus é a causa das percepções sensíveis no sujeito
cognoscente (Hessen, 2003, p. 82).
Como já mencionado, enquanto o idealismo subjetivo ou consciencialismo, tem seu

8
Essa posição epistemológica também é denominada consciencialismo.
25

centro fenomênico na consciência do sujeito, o idealismo objetivo tem como ponto de partida
a consciência objetiva da ciência. Entretanto, a consciência objetiva da ciência não é um
complexo de processos psicológicos, mas uma soma de juízos e pensamentos.
Assim, em oposição ao realismo para o qual os objetos do conhecimento estão
disponíveis independentemente do pensar, o idealismo vê os objetos como produtos do
pensamento (ibidem).
Por outro lado, G. W. F. Hegel (1770-1831) aceita o idealismo subjetivo como uma
tese, e o idealismo objetivo como uma antítese, e propõe sua posição denominada idealismo
absoluto como uma síntese (Panda, 1991, p. 296-297). O idealismo absoluto é caracterizado
pela suposição de que a realidade percebida é de natureza imaterial ou espiritual, sendo a
percepção concreta e materialísta do mundo uma apreensão cognitiva da subjetividade
humana.
Fenomenalismo:- O ponto de vista fenomenalista media uma posição entre o
realismo e o idealismo.
Segundo Hessen (2003, p. 86):
O fenomenalismo é a teoria segundo a qual não conhecemos as coisas como
são, mas como nos aparecem. Certamente existem coisas reais, mas nós não
somos capazes de conhecer sua essência. Só podemos conhecer o 'que' das
coisas, mas não seu 'o quê'.
Portanto, o ponto de vista fenomenalista aceita que a realidade percebida tenha uma
existência real por detrás da aparência, mas postula que não somos capazes de conhecê-la.
9

Ou seja, a cognição oriunda dos sentidos somente pode conhecer aquilo que está no âmbito da
possibilidade sensorial, ou seja, a realidade percebida. Portanto, a realidade em si-mesma
permanece oculta aos sentidos e à consciência cognoscente.
A posição epistemológica fenomenalista, tal como o ponto de vista do realismo crítico,
também considera que a realidade percebida não corresponde à realidade em si-mesma, porém
vai além, considerando que mesmo as características primárias, como forma, extensão e
movimento, bem como todos os atributos espaços-temporais são percepções da consciência.
Segundo Kant, lidamos sempre com o mundo das aparências, com o mundo que aparece com
base na organização 'a priori' da psique, e nunca com as coisas em si mesmas.
Kant definiu o fenomenalismo em três proposições: 1) a coisa em si é incognoscível,
2) nosso conhecimento da realidade é limitado à realidade percebida como um fenômeno da
cognição, 3) o mundo surge em nossa consciência porque ordenamos e processamos o

9
Pela investigação sensorial, e de certa forma ciência que nos leva até seu limiar, mas aparentemente não a toca.
26

material sensível segundo as formas 'a priori' da intuição e do entendimento.
1.5 - SOLUÇÕES TEOLÓGICAS E FILOSÓFICAS
Além dos pontos de vista epistemológicos, resta-nos analisar as soluções teológicas e
filosóficas, ou seja, as soluções monista-panteísta e dualista teísta.
Em ambos os casos, o problema da relação entre o sujeito que observa e o objeto que é
observado pelo sujeito deixa de existir, porque ambos tornam-se uma única realidade, o
Absoluto. Quando este é concebido como imanente no Cosmos, temos a posição monista-
panteísta, quando concebido como transcendente ao Cosmos, temos a posição dualista-teísta.
Segundo Hessen (2003, p. 92):
Enquanto o idealismo cancela, de certa forma, um dos dois elementos da
relação, de conhecimento, negando-lhe o caráter de realidade, e o realismo,
ao contrário, faz com que ambos existam lado a lado, o monismo procura
anulá-los numa unidade última. Sujeito e objeto, pensamento e ser,
consciência e objeto são apenas aparentemente uma dualidade; efetivamente,
eles são uma unidade, apenas os dois lados de uma mesma e única realidade.
Aquilo que se apresenta ao olhar empírico como uma dualidade, é uma
unidade para o conhecimento metafísico que vai à essência.
Ao analisarmos a questão da identidade entre a realidade percebida e a realidade em
si-mesma, não podemos deixar de nos deparar com a mais antiga e difícil questão, que recai
sobre a existência de uma realidade última, uma categoria indefinível e inescrutável que
segundo a tradição filosófica do Vedanta não-dualista é o princípio que emanou de Si o
Cosmo.
10
A este princípio, o Vedanta denomina Brahman, palavra sânscrita que significa
aquilo que ‘expande’, ‘poder de expansão’.
11

No monismo-panteísta, esse princípio último também denominado Consciência
Cósmica é a única realidade, sendo que tudo que existe se reduz a Ele, que é imanente no
Cosmos como sua essência última. Assim, a realidade percebida com toda a sua pluralidade
de coisas é uma ilusão sensorial-cognitiva, ou um conjunto de construtos psíquicos. O
monismo reduz a pluralidade a uma unidade que é a própria Consciência Cósmica, a qual
apesar de ser indefinível, é dita ser infinita e eterna, como uma forma didática de negar a
possibilidade de ser percebida como sendo finita e temporal.
Nesta concepção, o sujeito - a consciência cognoscente -, e a realidade percebida são
uma única coisa, que na essência se reduz à realidade em si-mesma.
Esta é a concepção exposta por Shrï Adi-Sankara (788-821 d.C.), na qual a

10
Para efeito desta monografia, a realidade última é a essência do que denomino realidade em si-mesma.
11
Não é o Big-Bang um processo de expansivo?
27

Consciência Cósmica ou Brahman tem dois aspectos. O primeiro, como Brahman Nirguna, o
aspecto que permanece transcendente a Sua própria manifestação, e que como a essência
última permanece como a testemunha do próprio processo de manifestação cósmica. O
segundo, como Brahman Saguna, o aspecto imanente na própria manifestação, o qual, como o
substrato percebido como uma multiplicidade toma a forma da Realidade Percebida.
Nesta concepção vedantina e tântrica, o ser que percebe é o próprio Absoluto -
denominado Brahman Saguna na primeira tradição, e Siva na segunda tradição -, um Ser que
é único e dito ser o “um sem segundo”, embora seja o Ser uno e imanente na Sua própria
manifestação, é iludido pela cognição produzida pela imanência, quando então se vê como
muitos núcleos conscienciais (atman), os quais são percebidos como sendo individualizados e
separados do Todo, o que assim gera a multiplicidade apreendida como a realidade percebida.
Benedito de Espinosa (1632-1677 d.C.), também expôs este ponto de vista dizendo
que existe um princípio último de 'substância', o qual tem dois atributos: o pensamento
(cogitatio) e a extensão (extensio). O primeiro representa o principio da consciência (ideia) e
o segundo o princípio da materialidade. Entretanto, estes dois princípios não constituem uma
dualidade, pois para Espinosa, eles são dois aspectos de uma só substância universal, que se
apresenta no mundo fenomênico como sujeito e objeto. “a ordem e a conexão das ideias é
idêntica à ordem e à conexão das coisas” (Espinosa, apud Hessen, 2003, p. 93).
Para Friedrich Von Schelling (1755-1854), o Absoluto é a unidade da natureza e do
espírito, do objeto e do sujeito. Se Espinosa admitia dois atributos, com certa independência
na medida em que considerava dois reinos com um sujeito comum, para Schelling, eles
constituem no fundo um só reino. Por outro lado, na solução dualista-teísta, o dualismo
empírico que envolve a relação entre o sujeito e o objeto assenta-se num dualismo metafísico
(Hessen, 2003, p.93).
Segundo Hessen (2003, p. 94):
Esta concepção de mundo sustenta a diferença metafísica essencial entre
sujeito e objeto, pensamento e ser. É certo que ela também não considera
essa duplicidade como última. Sujeito e objeto, pensamento e ser
descendem, no final das contas, de um princípio comum. Esse princípio é a
divindade. Ela é a fonte comum da idealidade e da realidade, do pensamento
e do ser. Como causa criadora do universo, Deus coordenou de tal modo os
reinos - ideal e real -, que ambos concordam entre si, existindo, portanto uma
harmonia entre pensamento e ser.
1.6 – OS CRITÉRIOS DA VERDADE
Em epistemologia, os critérios da verdade são regras para se estabelecer a veracidade
28

de uma afirmação ou de um conhecimento. Portanto, ter-se critérios para avaliar se uma
informação é crença infundada ou um conhecimento verdadeiro, digno de fé, é importante
para que se possa formar uma cultura de saber que seja sólida, e baseada em crenças
verdadeiras.
Quando ouvimos algo sobre a natureza de alguma coisa, a afirmação é verdadeira na
medida em que o que está sendo dito vai ao encontro do que já se sabe sobre a natureza da
coisa sobre a qual se fala. Por outro lado, se o que está sendo dito vai de encontro a tudo que
se sabe a respeito do assunto, então, ou o que se sabe é incorreto, ou incorreto é o que está
sendo afirmado. Este é o princípio da não-contradição.
Nenhuma proposição é verdadeira se contradiz um corpo de conhecimento
fundamentado. Os conhecimentos fundamentados convergem em direção à verdade.
O primeiro fato:- o fato de nossa existência. (Indiscutível!)
O primeiro princípio:- o princípio da não-contradição. (A verdade é única.)
A primeira condição:- a habilidade do intelecto para conhecer a verdade. (Clareza.)
Estas três premissas nos dão uma base para nos aprofundarmos com segurança na
busca da natureza essencial do Eu e da realidade. A existência do Eu é uma verdade
indiscutível e Descartes a colocou muito bem ao afirmar “cogito ergo sum”. Nós temos
habilidade intelectual para raciocinar com clareza, e acumulamos um corpo de conhecimento
que tem se mostrado exato, o suficiente, para propormos correções e avanços radicais, com a
elaboração de novos modelos, sempre que o novo saber justifica a alteração e a expansão do
antigo.
Não há outra regra para avaliarmos se o conhecimento sobre algo novo é verdadeiro
ou falso, além do princípio da não-contradição, e a lucidez para perceber quando o novo se
opõe ao antigo, e não está sugerindo uma falácia, mas sim um salto paradigmático, como
tantas vezes ocorreu em ciência. Um exemplo clássico é o da revisão conceitual que nos levou
da física clássica para a relativista, e a concomitante descoberta de novos fatos na microfísica,
cuja descrição pedia a elaboração de novos conceitos que, finalmente, deram origem à física
quântica.
Concluindo essa reflexão sobre os métodos de investigação e as possibilidades de se
conhecer a natureza essencial do mundo que nos cerca, bem como nossa própria natureza, ou
seja, o que somos e o que não somos, se fez necessária para colocarmos em questionamento a
compreensão que temos da realidade.
Então surgem antigas questões. O que é o Cosmos? Qual é a sua natureza essencial, ou
29

seja, do que ele é feito? O que é a vida, e qual sua origem?
Estas são com certeza questões últimas, cujas respostas estão na linha divisória entre o
conhecimento ortodoxo da ciência e o conhecimento heterodoxo da metafísica. Talvez nunca
se chegue a uma resposta direta e final, cabendo ao conhecimento apenas se aproximar da
verdade, que parece se afastar e teima em permanecer velada pelo véu da ilusão cognitiva e
conceptual, que separa a realidade percebida da realidade em si-mesma, que é a verdade.
Ter a compreensão do quanto de verdadeiro existe no que sabemos é fundamental.
Portanto, é necessário que tenhamos consciência de que, o que sabemos é somente um modelo
de realidade. Por isso, embora a princípio o problema do conhecimento possa parecer uma
preocupação meramente acadêmica, ele não é. A epistemologia nos sinaliza que tudo que
sabemos da natureza do Cosmos e de nós mesmos, é um conhecimento limitado pelo ‘ponto
de vista do ser humano’ que somente nos mostra a realidade percebida, ocultando através do
véu da ilusão a realidade em si-mesma.
Efetuando uma experiência em pensamento, tal como fazia Albert Einstein, em seus
“gedankenexperiments”, vamos supor que estamos voando sentado em um raio de luz para ver
o espaço-tempo sobre outra ótica. Podemos supor estarmos vivendo em um corpo diáfano,
formado de vibração no vazio, e capaz de manifestar uma consciência que testemunha a
realidade sem nenhuma limitação sensorial cognitiva. Como seria essa realidade? Quais
seriam as leis da física vistas através da ótica de uma consciência não neural, não biológica?
A física que descreve a estrutura última da matéria está se aproximando de uma
realidade cada vez mais imaterial, e nesse contexto, a melhor possibilidade de conhecimento
dessa realidade é a ciência, que nos apresenta um modelo baseado em evidências objetivas,
sem a interferência dos sentidos.
De acordo com essas evidências, compreendemos que, entre os pontos de vista que
discutem as possibilidades do conhecimento, o criticismo é o melhor. Por um lado, ele não
nega as possibilidades de se conhecer, e postula a existência de uma verdade. Por outro lado,
“questiona continuamente os fundamentos e reclama da razão humana uma prestação de
contas” (Hessen, 2003). De fato, quando se questiona as possibilidades e as origens do
conhecimento, dentro da proposta de entender a ontológica natureza espiritual do ser - usando
como argumentação os indícios obtidos nos estados alterados de consciência -, o que se
questiona é o modelo epistemológico que trata da relação entre um sujeito cognoscente – a
consciência que lê a psique -, e a realidade - uma ilusão criada na psique.
Embora a postura adotada nesta monografia seja aderente ao empirismo científico, no
30

que diz respeito às evidências que sustentam as argumentações da imaterialidade do mundo
físico, não se pode descartar a busca de uma correlação entre essas evidências e os indícios
obtidos pelos místicos nos estados alterados de consciência, pois estes saberes oriundos de
fontes distintas parecem convergir em muitos pontos importantes, mostrando que os estados
alterados de consciência permitem intuir saberes que transcendem a lógica.
“A razão é um esforço para conhecer o desconhecido, e a intuição é a ocorrência do
incognoscível. Penetrar o incognoscível é possível, mas explicá-lo não é.
12
Com este
pensamento do mestre indiano Osho, percebe-se as fortes limitações cognitivas que tornam
quase impossível a compreensão e a verbalização de uma realidade que os humanos não
foram “projetados” para perceber e compreender.




12
Intuição, o Saber Além da Lógica. OSHO. Editora Cultrix 2001.
31

CAPÍTULO 2. - MATERIALISMO E ESPIRITUALISMO
O PARADIGMA DA IMATERIALIDADE E A PSICOLOGIA
TRANSPESSOAL
A dicotomia entre o materialismo e o espiritualismo torna-se uma falsa
questão, quando entendemos a realidade em sua real dimensão existencial, a
dimensão da imaterialidade absoluta e irrestrita das estruturas últimas do
mundo físico (do autor).
2.1 - INTRODUÇÃO
Inicia-se este capítulo com uma consideração sobre algumas questões importantes
para o desenvolvimento do tema a “Consciência e a Realidade”, que tem por objetivo elaborar
um modelo paradigmático - fundamentado no saber da Física Quântica das Partículas
Elementares -, que dê sustentação e possibilite uma melhor compreensão dos fenômenos
espirituais. Mas, o que a física tem a dizer sobre a espiritualidade e em particular sobre a
dualidade entre a visão espiritualista e materialista? Talvez nada, e talvez tudo! Se por um
lado nada, porque o objetivo da física não é discutir filosofia existencial, por outro lado tudo,
porque o objetivo da física é discutir a natureza da realidade, e ao descrevê-la, ela nos auxilia
a compreender a imaterialidade intrínseca do estofo do mundo físico, abrindo portas e
possibilidades para o estudo e compreensão do mais intrigante aspecto da espiritualidade que
é a imaterialidade.
A humanidade vive uma crise existencial balizada pela separação entre esses dois
pontos de vista. Algumas pessoas são estritamente materialistas, outras espiritualistas; e a
grande maioria oscila entre estes dois extremos, ora professando uma convicção religiosa, ora
vivendo uma angustiante crise de fé induzida pela percepção cognitiva de que, sendo a
matéria concreta o fundamento do Cosmos, é também da natureza humana, o que exclui
qualquer possibilidade de transcendência e vida após a morte.
Alguns filósofos e teóricos contemporâneos associam a posição filosófica materialista,
ao que se denomina de paradigma cartesiano, um modelo científico baseado no pensamento
do filósofo René Descartes (1596-1650) que, com seu método analítico de pensar, e a sua
visão de que a natureza derivava de uma divisão fundamental de dois reinos separados e
independentes, o reino da mente (res-cogitans), e o da matéria (res-extensa), teria
influenciado o pensamento ocidental de tal forma, que os cientistas passaram a tratar a matéria
como algo morto, não senciente e inteiramente apartada de si-mesma, o que por sua vez teria
dado origem tanto à separação entre mente e corpo, como a visão de um universo material e
32

mecânico, governado por um Deus demiurgo e controlador.
Segundo Capra (1983, p. 214):
Este modelo caminhava paralelamente com a imagem de um Deus
monárquico que, das alturas governava o mundo, impondo-lhe a lei divina.
Assim, as leis fundamentais da natureza eram encaradas como leis de Deus,
invariáveis e eternas.
Assim, alguns pensadores contemporâneos sugerem que Descartes teria influenciado
Isaac Newton (1643-1727), James Clerk Maxwell (1831-1879), Sadi Carnot (1796-1832) e
Ludwig Boltzmann (1844-1906), afirmando que a ciência oriunda do trabalho desses
cientistas seria um modelo científico mecanicista, cujo desdobramento filosófico e conceitual
teria dado origem à visão materialista e fragmentada que o ser humano tem da realidade.
Na opinião do autor desta monografia estas são afirmações equivocadas. Esses
cientistas foram os gigantes de seu tempo. Eles expuseram a natureza do mundo físico com
lógica e precisão, construindo as bases da ciência e da tecnologia que atualmente dispomos, e
que nos permite aprofundar a investigação da natureza da realidade em sua mais íntima
dimensão. Portanto, atribuir a esses cientistas e ao conhecimento que eles expuseram,
qualquer insinuação materialista é um equívoco de quem não compreendeu o processo do
desenvolvimento científico que eles nos legaram.
René Descartes elaborou um método analítico de pensar primoroso, que nos ensina
como construir o pensamento investigativo com lógica, etapa por etapa. Sua exposição da
realidade dividida em 'dois reinos' - o da mente e da matéria -, é o embrião de uma posição
espiritualista, que vê o espírito vivendo uma experiência na corporeidade e independente dela.
Outra alegação - que na opinião do autor desta monografia é falaciosa -, é a de que a
fragmentação do conhecimento moderno em vários saberes é fruto do mesmo processo
analítico 'descartiano'. Não é verdade; a fragmentação do conhecimento tem a sua origem na
incapacidade humana de estudar e compreender a realidade como um todo.
A realidade é muito complexa para ser abarcada através de um ponto de vista único,
que descreva o macrocosmo através da descrição do microcosmo.
A divisão da ciência em várias disciplinas, cada uma enfocando um aspecto da
realidade, existe para facilitar o estudo e a compreensão dessa realidade. A biologia tem suas
bases na bioquímica, que por sua vez as tem na química, que reporta a física do átomo para
uma descrição mais profunda e completa. Entretanto, pensar que podemos compreender uma
planta, ou um órgão como o fígado, pensando em termos de física das inúmeras partículas
elementares que compõem o objeto de estudo, é uma completa utopia.
33

Como do conhecimento da física do átomo poder-se-ia extrapolar e descrever um
organismo simples, que tem cerca de um bilhão de quinquilhões de átomos? Nem pensar.
Portanto, deve-se entender o conhecimento contemporâneo como o fruto da
confluência de vários saberes numa grande síntese que sugere que tudo está interligado.
Embora a realidade seja complexa, ela pode ser estudada por partes, independentemente da
imbricação que existe em todos os seus níveis. Como exemplo, temos a química, uma ciência
que evoluiu muito durante o século XIX, uma época em que o conhecimento do átomo era
quase inexistente. Outro exemplo é a Teoria da Gravitação Universal de Newton, que foi
elaborada sem se saber a causa da gravidade, um conhecimento que, mesmo nos dias de hoje
com a Teoria Geral de Einstein ainda não se tem.
13
Por isso, surgiram as várias áreas da
ciência, que de fato não estão compartimentadas de forma estanque, pois elas ‘conversam’
entre si, tal como a biologia, a química e a física, que estão alicerçadas umas sobre as outras.
Segundo Greene (2001, p. 31):
A filosofia reducionista acende facilmente um crepitante debate. Alguns a
consideram um ponto de vista ilusório e sentem repulsa à ideia de que as
maravilhas da vida e do universo sejam apenas reflexos da dança aleatória
das partículas coreografadas pelas leis da física. Será que os sentimentos de
alegria, de sofrimento ou de preguiça não passam de meras reações químicas
no cérebro? – reações entre moléculas e átomos que, em escala ainda mais
microscópica, são reações entre partículas, que na verdade são apenas cordas
que vibram?
Steven Weinberg
14
(apud Greene 2001, p. 31):
Do outro lado do espectro estão os oponentes do reducionismo, aterrorizados
pelo que percebem como a aridez da ciência moderna. Admitir a hipótese de
que eles próprios e o seu mundo possam ser reduzidos a uma questão de
partículas ou campos de força e suas interações, faz com que se sintam
diminuídos. A visão de mundo dos reducionistas é mesmo fria e impessoal.
Ela tem que ser aceita como é, não porque seja do nosso agrado, mas sim
porque é a maneira como funciona o mundo.
A unificação das leis da física é o ‘santo graal’ da física moderna, e Einstein passou a
sua vida tentando elaborar uma teoria geral de tudo. Entretanto, unir em uma única teoria às
quatro forças que regem o mundo físico,
15
é um sonho que ainda está por acontecer com o
desenrolar da Teoria M, a melhor candidata a ser a ‘teoria de tudo'. Um dia os físicos vão
conseguir, e de fato eles estão muito mais próximos disso, do que Einstein jamais teve, pois a
solução parece estar na física de partículas. Entretanto, é preciso ter a consciência de que esta
unificação não necessariamente significa que as demais ciências deixarão de existir, pois a

13
O que somente será possível quando o gráviton for detectado experimentalmente.
14
Steven Weinberg, prêmio Nobel de física, em ‘Dreams of a final Theory’.
15
Ou seja, a força gravitacional, a eletromagnética, a força nuclear forte e a fraca
34

compartimentalização do conhecimento se faz necessária para a compreensão da realidade por
camadas de complexidade.
O biólogo Paul Weiss (1898-1989), expõe isto muito bem ao afirmar (Weiss apud
Capra 2002, p. 83):
Podemos afirmar definitivamente [...] com base em investigações
estritamente empíricas, que a pura e simples inversão de nossa anterior
dissecação analítica do universo, procedendo-se à união de todas as suas
peças, seja na realidade ou apenas em nossa mente, não pode levar a uma
explicação completa do comportamento nem sequer do mais elementar
sistema vivo.
Então, mesmo que a dissecação analítica do universo não seja o caminho ideal para
conhecê-lo, é com certeza a única forma possível para investigá-lo. Sabemos que o macro-
cosmo é 'o reflexo sensorial-cognitivo do microcosmo', mas o abismo fenomenológico que
existe entre ambos é tão grande, que as dificuldades parecem ser quase intransponíveis.
Entretanto, sempre que o volume de conhecimento interdisciplinar aponta para a
necessidade de um novo modelo, há um salto paradigmático, e fruto deste salto, emerge uma
compreensão mais profunda que nos permite conceber a realidade de uma maneira mais
ampla e completa.
2.2 - AS ORIGENS DO MATERIALISMO
Outro ponto a ser examinado, é a origem da percepção materialista que o homem tem
da realidade e de si mesmo, a qual - na opinião do autor -, não é devido nem aos modelos,
nem aos paradigmas científicos que sustentam a nossa compreensão da realidade.
Esta afirmação é baseada na percepção do autor de que, o homem comum é tão pouco
informado sobre a ciência de seu tempo, que como conseqüência disso, ele é pouco
influenciado pelo pensamento científico.
Portanto, a concepção materialista que ele tem de si mesmo e do mundo deve
necessariamente ter outra origem, e esta está nos conteúdos evolucionários do inconsciente
coletivo da humanidade, os quais foram introjetados na psique simultaneamente ao processo
de desenvolvimento do SNC (neuro-eixo), que é concomitante com o desenvolvimento dos
sentidos. Ao interagir sensorialmente com a realidade ao seu redor, durante o processo de
filogênese, a psique foi se moldando, e a realidade foi adquirindo forma concreta.
Portanto, com o processo evolucionário e o concomitante desenvolvimento do sistema
nervoso, a espécie ‘homo sapiens’ foi adquirindo uma percepção sensorial materialista que
aos poucos foi sendo introjetada na sua psique.
35

Assim, a percepção materialista da realidade, é o resultado natural do processo
filogenético, como uma ferramenta evolucionária de sobrevivência, que nada tem a ver com a
cultura e o desenvolvimento do pensamento científico.
O ser humano nasce em um mundo percebido como tendo três dimensões, no qual a
matéria parece ser impenetrável, e como conseqüência dessa percepção, cria seu paradigma
biopsíquico e social de materialidade. Enfatizando em outras palavras, a percepção existencial
e materialista que o ser humano tem de si mesmo e do mundo, é devido à maneira pela qual
sua estrutura psíquica foi organizada.
O homem nasce acreditando ser o corpo, e aos poucos vai se identificar com seu
corpo. Isto é visível em frases como: “eu estou com fome, eu estou doente”, etc., em lugar de:
“meu corpo está com fome, meu corpo está doente”, etc.
Entretanto, devemos considerar que não há nada de errado com a psique. Ela é como é
para atender as necessidades primárias de sobrevivência da espécie. Por outro lado, é a
evolução desta mesma psique que está proporcionando ao homem o despertar de uma nova
percepção de realidade, na qual ele se desidentifica do corpo, para compreender que o corpo
pode ser somente um veículo [imaterial] para a consciência se manifestar.
2.3 - A PSICOLOGIA TRANSPESSOAL
Foi da necessidade de compreender o que somos e o que não somos, de uma maneira
ampla e despojada de dogmas e crenças, que em 1967 um grupo de psicólogos liderados por
Abraham Maslow (1908-1970), Sutich (1907-1976), Stanislav Grof (1931-), entre outros,
fundaram as bases de uma nova visão psicológica, abrindo um novo campo de pesquisa dentro
da psicologia clássica. Assim nasceu a Psicologia Transpessoal, com o objetivo de unir
diversos saberes para se ter uma melhor compreensão do ser e da realidade.
Segundo Weil (1976), o conceito de transpessoal aparece pela primeira vez nos
escritos de Roberto Assagioli (1888-1974) e Carl Jung (1875-1961). Entretanto, somente em
1969, a Psicologia Transpessoal nasceu oficialmente como uma área de estudos no âmbito da
psicologia clássica, com a fundação da Associação de Psicologia Transpessoal, que então
iniciou a publicação de uma revista tendo como editores e colaboradores os seguintes
pensadores: Anthony Sutich (1907-1976), Michael Murphy, James Fadiman, Charlotte Buhler
(1893-1974), Abraham Maslow (1908-1970), Allan Watts (1915-1973), Arthur Koesller
(1905-1983) e Vicktor Frankl (1905-1977), entre outros.
Em conformidade com a proposta de sua fundação, a Psicologia Transpessoal
36

caracteriza-se como uma área da psicologia tradicional que objetiva o estudo dos estados de
consciência, e em particular, aqueles estados relacionados com a dimensão transpessoal e
espiritual do ser.
Como um campo de estudo complexo, que aborda diferentes aspectos da realidade, e
de como o ser humano a apreende, a psicologia transpessoal não poderia deixar de ser uma
área interdisciplinar, para onde convergem os saberes de outras ciências, como a Física, a
Química e a Biologia, bem como as ciências que destas derivam, como a Bioquímica, a
Biofísica, a Farmacologia, a Neurologia, a Genética, além das diversas ciências sociais.
É esta interdisciplinaridade que permite a transpessoal estender os horizontes da
psicologia tradicional, na direção de uma metapsicologia, uma psicologia metafísica que
busca a compreensão da natureza ontológica do ser e da realidade, para além do conhecimento
empírico, procurando nas ciências do século XXI os fundamentos de uma nova visão de
realidade que sirva de ponto de partida para uma compreensão mais profunda da natureza do
ser e da vida.
Embora a psicologia transpessoal seja uma atividade essencialmente voltada ao 'set'
terapêutico, como uma metapsicologia ela vai além dos limites da clínica na busca da síntese
do saber transdisciplinar, que aporta conhecimento e compreensão à natureza das psicopatias.
Por outro lado, e caminhando em paralelo, temos a parapsicologia que busca os
indícios e evidências das experiências psicológicas anômalas, os denominados fenômenos
'psi', entre os quais se destacam a telepatia, a clarividência, a precognição e a psicocinesia,
cujo estudo aporta - ao lado das demais ciências da alma -, um conhecimento que sugere que a
psique tenha uma amplitude de ação para além dos limites da corporeidade.
Na opinião do autor desta monografia, o que todas estas ciências buscam é uma
grande síntese que sirva para a elaboração de um modelo paradigmático que tenha por base a
natureza imaterial da realidade, daí a proposta de discutir este assunto em maior profundidade.
Para Saldanha (2008, p. 50):
Novos pressupostos paradigmáticos emergiram: abordagem sistêmica, a qual
consiste em apreender a realidade como um todo complexo; trabalhar com a
noção de paradoxo; levar em conta a subjetividade do pesquisador,
reconhecer a provisoriedade e a incompletude das teorias científicas, e
estabelecer um constante diálogo entre as áreas do conhecimento,
procurando superar a fragmentação tradicional ao reconhecer na pessoa
outras dimensões, além da dimensão racional.
Weil enfoca um aspecto interessante, ou seja, o aspecto da transcendência, da
experiência de buscar nos estados alterados e incomuns a experiência transpessoal:
37


Segundo Weil (1995, p.17):
Podemos considerar a psicologia transpessoal como um ramo do
conhecimento humano, mas particularmente da psicologia [que] consiste
numa pesquisa experimental e experiencial da natureza da realidade vivida
como um “ir além da dualidade espaço interior / espaço exterior”, além dos
limites do pensamento conceitual inerente à pessoa humana. [...] por sua
visão holística, a psicologia transpessoal é o ponto de encontro da ciência, da
arte, da filosofia e da mística.
Segundo Weil (apud Saldanha, 2008, p. 42):
[A Psicologia Transpessoal é] um ramo da psicologia especializada no
estudo dos estados de consciência, lida mais especificamente com a
'Experiência Cósmica', ou os estados Superiores ou Ampliados de
consciência.
Sutich elabora o conceito de transpessoal descortinando aspectos históricos e
ontológicos, ao mostrar a evolução da psicologia em suas diferentes abordagens e a
necessidade de incorporação dos aspectos transcendentes e espirituais da psique:
Segundo Sutich (Sutich, apud Saldanha 2006, p. 13):
Psicologia Transpessoal ou Quarta força é o título dado a uma força que está
emergindo no campo da psicologia, por um grupo de psicólogos e
profissionais, homens e mulheres de outros campos que estão interessados
naquelas capacidades e potencialidades últimas que não têm um lugar
sistemático na teoria positivista e behaviorista (“primeira força”) nem na
psicanálise clássica (“segunda força”) nem na psicologia humanista
(“terceira força”). A Psicologia Transpessoal se relaciona especialmente com
o estudo empírico e a implementação das vastas descobertas emergentes das
metanecessidades individuais e da espécie, valores últimos, consciência
unitiva, experiências culminantes, valores do ser (being - ser) êxtase,
experiência mística, arrebatamento, último sentido, transcendência de si,
espírito, unidade, consciência cósmica, vasta sinergia individual e da
espécie, encontro supremo, interpessoal, sacralização do cotidiano,
fenômeno transcendental, bom humor cósmico, consciência sensorial,
responsividade e expressão elevadas ao maximum, conceitos experenciais,
[experienciais] e atividades relacionadas.
Portanto, a Psicologia Transpessoal: surgiu do reconhecimento e da necessidade da
abordagem teórica e prática de vários fenômenos que sugerem conteúdos espirituais na
natureza do ser, fenômenos estes que se manifestam em estados incomuns de consciência, a
maioria dos quais evocando um estado de transcendência para além da dimensão física e
material. Como por exemplo, podem-se citar uma variada gama de experiências místicas,
como as já mencionadas vivências de quase-morte (NDE), projeção da consciência fora do
corpo (OBE), lembranças de vidas passadas, o contacto com seres espirituais, etc., que
constituem um conjunto de fenômenos que até então eram relegados ao âmbito da experiência
38

religiosa, e na maioria das vezes até rotulados como psicopatologias.
Existem duas tendências operativas no âmbito da Psicologia Transpessoal, a primeira
ligada aos diversos ramos da psicologia tradicional, ou seja, a psicologia experimental,
fisiológica, patológica, clínica, evolutiva, behaviorista, gestaltista, psicanalista, existencial e
humanista, e a segunda fortemente influenciada pelas tradições orientais, como o Vedanta, o
Ioga, o Zen Budismo, o Xaivismo da Caxemira, e o Sufismo, entre tantas outras tradições,
seja como objeto de estudo ou inspiração. Além disso, a Psicologia Transpessoal procura um
conhecimento holístico do ser, e para tanto busca e lança mão de outros saberes, como o
conhecimento da Física, da Biofísica, da Genética, da Farmacologia, da Neurologia e da
Psiquiatria em particular, com o objetivo de uma grande síntese trans-disciplinar que traga
novas luzes para a elucidação da natureza desse ser e da realidade.
Pierre Weil (Weil, 1978, p. 15-19) dá um destaque à parapsicologia, fazendo um
paralelismo entre as duas abordagens, lembrando que quando a parapsicologia estuda
fenômenos, ou os poderes paranormais, pelo emprego de métodos psicométricos, está em
verdade estudando concomitantemente os estados incomuns de consciência também
abordados pela psicologia transpessoal, o que estabelece uma relação íntima entre estas duas
ciências.
Mas, de acordo com o método científico, é necessário um exame rigoroso dos indícios
subjetivos, e das evidências objetivas, que são trazidas à luz pelas duas abordagens.
Para Zangari, W. (no Editorial do Portal Psi em 01 de Março 2010):
16

Não se podem negar as 'experiências parapsicológicas', compreendendo
como tal aquelas experiências humanas nas quais, do ponto de vista do
experienciador, algum tipo de interação anômala ocorreu entre ele e o meio
ambiente, (que inclui outros seres humanos). Qual o papel do cientista ante
tais experiências? Obviamente não é o de negar ou de afirmar antes da
pesquisa. “Assim, a primeira etapa para a compreensão de tais experiências é
usar a metodologia e as teorias científicas atuais para procurar a natureza das
mesmas, pois antes de considerá-las de fato 'paranormais', há de se excluir a
fraude, as falhas perceptivas, as falhas de memória, os delírios e as
alucinações, as interpretações 'paranormais' que algumas pessoas, às vezes
por falta de conhecimento científico, emprestam a eventos corriqueiros e
suficientemente conhecidos pela ciência, e por muitas outras interpretações
cientificamente conhecidas.
No mesmo editorial, Zangari adverte para as distorções cometidas na divulgação do
que de fato se sabe, em termos de conhecimento paranormal:
Os interessados em estudar as assim chamadas 'experiências psicológicas
anômalas' ou 'parapsicológicas', tais como as 'experiências telepáticas', os

16
Disponível em: http://www.pucsp.br/pos/cos/cepe/intercon/revista/revista.htm
39

'sonhos pré-cognitivos', as 'casas mal-assombradas', as 'experiências fora do
corpo', as 'experiências próximas da morte', as 'experiências de aparição’…,
deparam-se, inevitavelmente, com dois extremos: ou acredita-se ou não se
acredita em tais experiências. Os representantes do primeiro extremo, o
grupo mais numeroso, é formado, basicamente por religiosos de vários
matizes (principalmente católicos e espíritas), por práticos e 'terapeutas
alternativos' e 'terapeutas holísticos'. Eles acreditam aprioristicamente não
apenas em tais experiências, mas que, por detrás delas reside uma realidade
transcendental, correspondente com suas crenças religiosas. Para estes, o que
chamam de 'estudo científico do paranormal' nada mais é do que a tentativa
de justificar suas crenças religiosas por meios aparentemente científicos. Os
representantes do segundo extremo, como os do primeiro, têm uma posição
apriorística, mas em sentido inverso: tais experiências simplesmente não
podem existir porque não podem ser explicadas pelas teorias científicas
atuais. Este é o extremo do ceticismo. “Talvez por detrás de tal negativa se
oculta o medo de que a realidade possa ser diferente do que eles imaginam.
2.4 - ESPIRITUALIDADE E IMATERIALIDADE
Do exposto percebe-se que o assunto é complexo, controverso e paradoxal, como
paradoxal é a realidade da qual fazemos parte. Assim, para efeito desta monografia que coloca
em reflexão tanto o conhecimento da ciência contemporânea, quanto os fenômenos oriundos
dos estados incomuns de consciência, é necessário se ter uma conceituação clara e aceitável,
tanto do ponto de vista da epistemologia, quanto da dialética filosófica, para o termo
espiritual, que é preponderante no estudo de todos estes fenômenos. Assim, para efeito desta
monografia, propõe-se a seguinte definição estipulativa:
Denomina-se espiritual a uma dimensão consciencial, ou nível de realidade
imaterial, que transcende o espaço-tempo e é percebido em estados
incomuns de consciência como desprovido de materialidade,
substancialidade e concretude. Com esta definição fica estabelecida a
sinonímia entre as palavras espiritual e imaterial, que então passam a
designar uma dimensão essencial e fundamental do cosmo, a qual, portanto
passa a ser designada pelo termo imaterial, que além de conceituar sua
verdadeira natureza, é desprovido de qualquer conotação religiosa.
Com esta definição, o conceito de dimensão imaterial passa a designar uma dimensão
consciencial que transcende o estado de vigília e, portanto, é oculta aos sentidos, embora
possa ser percebida em condições especiais, tais como nos estados incomuns de consciência,
ou mesmo indiretamente através de seus efeitos.
Por outro lado a investigação desta dimensão oculta da realidade, também é o objetivo
da microfísica, a parte da física que estuda a natureza última da matéria, através da linguagem
teórica da física quântica, uma ciência que tem comprovação através da física experimental.
Assim, a demonstração da tese de que a realidade é de fato imaterial, será efetuada em
dois níveis: o primeiro, pela exposição dos indícios subjetivos obtidos nos relatos e estudos
40

das experiências oriundas dos estados incomuns de consciência; e o segundo, pelas evidências
objetivas da descrição da realidade de acordo com a física contemporânea.
Os dois saberes têm o mesmo objetivo. Ou seja, conhecer a natureza da realidade
última, que tanto é a natureza real do ser - o Eu ou Si-mesmo de cada individuo -, como o
estofo do cosmo, pois o estofo da matéria é a realidade última, um cenário que somente pode
ser descrito pela microfísica através de sua teoria mais moderna, a Teoria M.
Assim, após ser comprovada a tese de que a realidade em si-mesma é imaterial, tudo
que se percebe através dos sentidos cognitivos também tem que ser imaterial, pois existe
somente uma realidade.
Portanto, a atribuição de sinonímia aos termos imaterial e espiritual é natural, pois
decorre de uma relação biunívoca entre dois pontos de vista de uma mesma realidade. Esta
interpretação é de suma importância para a tese defendida nesta monografia, ou seja, a tese de
que:
Sendo a realidade física, ou a realidade em si-mesma imaterial em sua
essência, - como é sinalizado pela microfísica de 'partículas' -, a realidade
percebida tem que ser imaterial também, porque da imaterialidade nenhuma
materialidade, substancialidade ou concretude pode emergir. Assim, as
características de materialidade atribuídas à realidade percebida, somente
podem ser fenômenos emergentes da cognição sensorial, ou seja, uma
percepção da consciência de vigília através da estimulação dos sentidos.
Com esta tese, estabelece-se a correspondência entre a realidade em si - mesma e a realidade
percebida, bem como a definição estipulativa de sinonímia entre os termos 'espiritual' e
'imaterial', condições essenciais para que se tenha uma visão clara e objetiva da verdade, visão
esta que pode ser sustentada pela ciência contemporânea da física quântica de partículas.


41

CAPÍTULO 3. – OS ESTADOS DE CONSCIÊNCIA
O despertar da alma, a primeira e resplandecente chispa de uma nova
consciência espiritual que transformará e regenerará o ser em sua totalidade,
constitui um acontecimento de fundamental importância e incomparável
valor na vida interior do homem (Assagioli. 2000).
17

3.1 - INTRODUÇÃO
Neste capítulo, inicia-se a reflexão sobre os estados de consciência e os fenômenos
que sugerem a imaterialidade e a transcendência do Eu para além dos limites do corpo físico.
Embora o Eu seja um fenômeno complexo que parece emergir da interação dos
conteúdos psíquicos, ele é sentido e definido como a individualidade da pessoa humana, uma
acepção para o próprio fenômeno da consciência.
Esta é sem dúvida uma reflexão importante, porque são nos fenômenos oriundos dos
estados incomuns de consciência, que temos os indícios da natureza imaterial do Eu, indícios
estes que não podem ser descritos através do modelo paradigmático fisiologista, no qual o Eu
como consciência é visto como um epifenômeno da fisiologia cerebral.
3.2 - O FENÔMENO DA CONSCIÊNCIA
A consciência é o fenômeno mais intrigante do cosmo, quanto a isto não há qualquer
dúvida. Vivemos num universo composto de matéria de onde a vida emerge, e da emergência
da vida surge a consciência, que é capaz de apreender o universo e inquirir sobre si mesma “A
consciência é um dos mais desconcertantes problemas na ciência da mente. Não há nada que
nós conheçamos mais intimamente que a experiência de estar cônscio, porém não há nada
mais difícil de explicar” (Chalmers apud Rosenblum 2007, p. 167).
Mas, o que é a consciência? De fato, não se sabe, e talvez jamais se saiba, pois ela
parece ser difusa, maleável, inescrutável e indefinível.
Os místicos das grandes tradições, como o Vedanta não-dualista e o Budismo,
afirmam ser a consciência o campo de realidade última do cosmo, e o Eu de cada ser vivo é a
sua imagem reflexiva e individualizada na manifestação da vida.
Por isso, os psicólogos e eruditos contemporâneos inspirados na tradição oriental,
elaboraram o conceito de Consciência Cósmica, como sendo um infinito campo de
inteligência, percepção e atividade, que de fato é uma acepção para o conceito de Divindade.
Consciência Cósmica pode ser compreendida como a essência última do cosmo, o substrato

17
Psicosintesis: Ser Transpersonal, El Nacimiento de nuestro ser real. 2000, sem numeração de página.
42

imaterial da realidade, o que quer que ela seja. Um substrato que os místicos declaram ser
senciente, e do qual o cosmo surge como um fenômeno emergente da cognição sensorial
humana, que por sua vez, é o resultado da manifestação da própria Consciência Cósmica no
nível individual.
A moderna física de partículas também busca a compreensão da essência última do
cosmo e com certeza seus achados terão um impacto decisivo, tanto na compreensão da
imaterialidade cosmológica, como na abertura de um espaço para compreensão dos
fenômenos complexos da vida e da consciência que esta manifesta.
A verdade é absoluta, portanto, ou a descrição que a física está elaborando para a
compreensão da realidade dará suporte para os achados da metapsicologia, ou os negará
mostrando sua impossibilidade. Entretanto, como as linguagens das duas ciências diferem em
forma e conteúdo, é necessário buscar nas entrelinhas as identidades sem paixões, casuísmos e
distorções.
A sentença atribuída a Hermes Trismegisto:
“O que está em cima é igual ao que está em baixo; e o que está em baixo é igual ao
que está em cima”, é interpretada em correspondência à oração bíblica; “Então, Deus disse:
Façamos o homem à nossa imagem e semelhança” (Gêneses 1, 26). São duas sentenças que
nos falam de uma identidade biunívoca entre a Consciência Cósmica e a consciência pessoal,
a primeira, a essência última do cosmo, a Divindade Suprema, e a segunda a essência última
do microcosmo, o Eu por detrás da estrutura psíquica. O universo é um só; a realidade
também.
Embora a descrição que a física faz da realidade não necessite da inclusão de nenhuma
categoria 'mística', tal como a existência de uma consciência por detrás do mundo
fenomenológico, alguns questionamentos cosmogônicos nos levam a um assombro. Por
exemplo: o que havia antes do início? De onde veio isto tudo? Onde isto tudo está? O que é
este todo? O que existe além? Existe um além? Quem criou? Existe um quem e uma criação?
Com certeza estas são falsas questões, porque estamos procurando investigar e
compreender a realidade cósmica pela lógica do ser humano. Os mestres do Vedanta ensinam
que a realidade percebida é um sonho e que, quando despertarmos deste sonho, a verdade
indizível aflorará.
A física nos diz que o espaço e o tempo são duas categorias que não existiam antes do
momento zero da manifestação do cosmo. Entretanto, embora este espaço-tempo faça parte do
mundo fenomenológico que surgiu após o momento zero [Big-Bang], e moldou-se durante o
43

período de inflação do cosmos, isto não invalida a necessidade humana de pensar que tudo
devia estar em algum lugar, mesmo que o conceito de lugar não faça sentido do ponto de vista
físico. Para nossa mente humana, se ‘algo’ existe deve estar em algum lugar! A resposta talvez
esteja na concepção do que seja este ‘algo’, pois se o ‘algo’ for vibração no vazio, não precisa,
nem pode estar em lugar nenhum!
Claro que o conceito de uma Consciência Cósmica, não responde, ou põe fim ao nosso
questionamento, mesmo porque a própria Consciência Cósmica deve ser ‘algo’.
Vê-se claramente que as palavras nos confundem, porque elas nos dão a impressão de
estarem dizendo algo. Para os místicos, a Consciência Cósmica, Divindade, Deus, são três
palavras para descrever um princípio único que, por ser considerado elementar, ou seja, a
realidade última, não pode ter uma causa, nada mais elementar além Dela. Os místicos da
Índia, em estados incomuns de consciência, a Ela se referiram como 'adhara', palavra
sânscrita que significa substrato, suporte, o tecido do cosmo. Sankara, o mestre e expositor
do Vedanta, a Ela se refere como o ‘substratum’ sobre o qual a ilusão é sobreposta. Ele
conceitua a realidade como sendo o Absoluto, o Indefinível, aquilo que é dito ser Existência,
Consciência e Bem-aventurança (Nikhilananda, 1978, p. 37).
Para Sankara, a existência é “aquilo que não é limitado pelo espaço e pelo tempo”, e
“no começo o universo era somente existência”. E, sobre a consciência ele ensinou que: “a
consciência aparente nas coisas fenomênicas é, em realidade, o reflexo da consciência do
Absoluto” (ibidem).
Santa Teresa de Ávila vivenciou esta experiência da unicidade entre seu ser
cognoscente e a Divindade, e a descreve em seu simbolismo 'teresiano': “Deus se fixa a Si
mesmo no interior da alma de tal modo que, quando esta volta a si, de nenhuma maneira
pode duvidar que tenha estado em Deus e Deus nela” (de Jesus, Teresa, 2009 Obras
Completas, p. 491). Neste fenômeno, ambas as consciências se mesclam, e às vezes mesmo se
confundem, devido à imanência da Consciência Cósmica que abarca à pessoal.
Para Teresa de Ávila (2010, cap. 18, verso 15):
Digamos, portanto que a Divindade é apresentada como um diamante claro,
muito maior que o mundo inteiro, ou como um espelho. Esse espelho, eu não
sei como, também era feito todo do próprio Senhor...
18
No princípio atingiu-
me uma ignorância de não saber que Deus está em todas as coisas.
Os místicos de todas as tradições vivenciaram o mesmo em estados alterados de
consciência. Nos Tantras, a Consciência Cósmica tem dois aspectos: um é Siva, masculino e

18
O espelho é a metáfora teresiana da identidade entre Deus - a Consciência Cósmica -, e ela - a consciência
pessoal.
44

estático, o outro é Sakti, feminino e dinâmico. A manifestação da Sakti faz surgir o cosmo.
Segundo Marmo (2006, p. 93):
No início havia o vazio, mas o vazio não era o nada, o vazio era um campo
infinito e eterno de consciência e poder. De outra forma foi dito: 'no início
havia Siva e com Ele vak a palavra - que tem neste contexto a acepção de
manifestar a vontade da consciência por meio da emissão sonora do poder. O
universo como manifestação deste poder é a expressão da vontade divina
num grande bailado, cuja coreografia é elaborada pela própria Consciência
Cósmica.
Assim, a manifestação da Consciência Cósmica como poder, é considerada a causa
primeva, e também a realidade última, i.e., a realidade em si - mesma.
Segundo Dyczkowski (1987, p. 44):
Consciência é mais que a percepção que um indivíduo tem de si mesmo e do
ambiente; ela é um princípio eterno e completamente penetrante. Ela é a
altíssima realidade (paramärtha) e todas as coisas são a manifestação dessa
consciência (cidvyakti). Todas as entidades, sem distinção, são da natureza
da consciência e então a realidade pode ser com certeza dita ser “uma
compacta massa de consciência e bem-aventurança (cidänandhagana).
Assim, compreende-se que a consciência é algo maior que o estado de percepção que
o indivíduo tem de si mesmo, e do mundo que o cerca, pois “ela é um princípio que a tudo
permeia” (ibidem).
Na tradição tântrica e também na tradição do Vedanta não dualista, a consciência é
sempre associada à realidade última, o poder de auto-revelação e automanifestação do cosmo,
onde a consciência é uma única categoria, mas se apresenta nos dois já mencionados aspectos,
o primeiro (Siva), é dito ser transcendente ao cosmo, e o segundo (Sakti) é dito ser imanente
no cosmo. (Marmo, 2006, p. 76).
Numa analogia com a visão psicológica contemporânea, compreende-se que na
linguagem dos tantras, Siva é identificado com a consciência, e Sakti, com a autoconsciência,
que de maneira ativa manifesta a consciência de si-mesmo.
A Sakti é algumas vezes referida como Kundalinï Devï, e dita ser uma serpente que
está enrodilhada e dormente no chakra raiz. Entretanto, esta é uma metáfora para a
consciência de vigília, e encerra duas verdades: a primeira nos diz que o ser consciente no
estado de vigília está preso no mundo da ilusão - maya -, e dormente para sua verdadeira
realidade que permanece oculta pela ilusão sensorial cognitiva. Então, quando a consciência
desperta e se eleva, o ser atinge a dimensão divinal. A outra metáfora é associada ao cérebro
reptiliano, de onde a consciência deve se elevar, como que se libertando dos instintos
evolucionários para poder ascender em direção ao neocórtex, o cérebro divinal.
45

De fato, a questão mais importante a ser respondida é: será a consciência pessoal um
epifenômeno do cérebro trino; o reptiliano, o límbico e o neocórtex, ou será o encéfalo um
todo complexo que atua como uma interface por onde a consciência transita, recebendo
informações sensoriais e agindo no mundo?
Segundo Lopez & Blanke (2007, p. 1):
Apesar dos recentes esforços neurocientíficos no estudo dos mecanismos
neurobiológicos da consciência, a autoconsciência - ou consciência de si-
mesmo -, tem recebido muito pouca atenção, pois a maioria dos cientistas
teme que ela não seja passível de experimentação pelos métodos
neurocientíficos.
Por outro lado, teóricos como William James (1898-1944), Maurice Merleau-Ponty
(1908-1961) e James Gibson (1904-1979), consideraram que a investigação dos mecanismos
neurais, psicológicos e fisiológicos envolvidos na experiência e na percepção corpórea, é
essencial para a compreensão da autoconsciência (ibidem), pois descobertas recentes parecem
provir evidências empíricas para a alegação de que, aspectos importantes da autoconsciência,
estão relacionados com a experiência corpórea, ou seja: 1) a experiência imediata e contínua
de que nosso corpo e suas partes nos pertencem, e 2) a experiência de autolocação, ou seja, a
percepção de que o Eu ou Self, está espacialmente localizado no corpo (ibidem).
Embora não se saiba qual seja a natureza da consciência
19
, seja esta um fenômeno
cósmico, ou pessoal, este último é compreendido como um fenômeno obviamente real e
verdadeiro, pois todas as pessoas são conscientes de si-mesmos.
Por outro lado, a consciência parece ser irredutível a qualquer outro fenômeno mais
fundamental, daí a origem de sua inefabilidade. Entretanto, apesar da inefabilidade, é
necessário tentar descrevê-la conceituando-a como sendo o sentido de perceber, sentir e
conhecer, que permite ao ser humano vivenciar, experimentar e compreender aspectos de sua
realidade interior e exterior. Assim, sendo ela compreendida como um fenômeno específico e
irredutível, a qualquer outro fenômeno mais primário ou fundamental, pode-se descrevê-la em
termos fenomênicos como um entendimento sem pensamento, uma percepção intuitiva, ou um
sentido de testemunhar, que acompanha cada aspecto de nossa atividade psíquica. Neste
aspecto, a consciência é denominada de consciência de si-mesmo, ou autoconsciência.
Deste modo, estabelecemos dois conceitos; o de consciência e o de autoconsciência,
cuja diferença reside no fato de que e a primeira é testemunha passiva, enquanto a segunda, a
autoconsciência, é a percepção intencionalmente ativa, pois ao se estar consciente da própria
atividade psíquica, reflete-se sobre o que se sente e vivencia. Então, nos faceamos com uma

19
As experiências dos místicos indicam que ela não tem uma causa, ela é a causa sem causa, de todas as causas.
46

importante questão; ou seja, a aparente dualidade entre quem percebe e quem é o ser
percebido?
A resposta a esta pergunta nos remete de volta às tradições orientais, como o Vedanta
e o Xaivismo da Caxemira (Tradição Trika), nas quais o ser que observa e percebe, é o Eu,
designado nestas tradições por 'Atma, Citi ou Citätma', palavras sânscritas que têm a acepção
de consciência pessoal -, enquanto o ser observado é a psique, designada nessas mesmas
tradições pelo termo não-Eu, ou 'anätma', palavra que tem a exata acepção de estrutura
psíquica, denominada em sânscrito 'antah-karana'.
Fazendo uma analogia, diríamos que a autoconsciência - percebida como um atributo
da consciência -, corresponde ao Eu ou Self, tal como exposto nas mencionadas tradições,
enquanto que a atividade psíquica percebida pela autoconsciência corresponde ao não-Eu, que
é conceituado como uma espécie de veículo que estabelece uma interface entre o Eu e as
realidades introspectiva e extrospectiva. Portanto, também nestas tradições, a autoconsciência
é compreendida como uma observação ou introspecção do próprio estado consciencial, i.e.,
um fenômeno cognitivo que se manifesta entre aquele que observa e aquilo que é observado,
como sendo algo separado, uma atividade psíquica do não-Eu.
Embora no âmbito das neurociências não haja uma definição do que seja a
consciência, e principalmente de como, ou o que a manifesta, os fenômenos oriundos dos
estados incomuns de consciência, apresentam conteúdos que permitem uma ampla reflexão
filosófica e metafísica sobre o tema, principalmente porque alguns fenômenos sugerem a
independência entre a consciência e as atividades neurais, ou seja, a visão de que a
consciência possa não ser um epifenômeno cerebral, mas sim outra coisa independente deste,
e capaz de se exteriorizar para além da dimensão física do corpo.
Para Marino Jr. (2005, p. 107)
Quer nos parecer que este é, hoje, um dos temas mais palpitantes da
neurofilosofia, da neurofisiologia, e da neuroteologia, uma vez que estudos
mais recentes sobre experiências de quase-morte têm demonstrado que o
homem não é só matéria. O corpo humano, assim, seria apenas o vasilhame,
o envoltório no qual estão contidas entidades menos materiais e forças ainda
desconhecidas e responsáveis pelos processos vitais que o animam.
Esta é uma reflexão polêmica, pois a hipótese da consciência não ser um epifenômeno
da neurofisiologia cerebral, e sim algo distinto desta, algo sutil, etéreo e imaterial como um
campo espiritual, confronta aqueles que a vêem como o resultado do processo
neurofisiológico.
Francis Crick (1916-2004) - Prêmio Nobel de Fisiologia em 1962 -, é um pesquisador
47

que sustenta esta hipótese afirmando que a consciência, às vezes denominada alma, hoje é
acessível à investigação científica como propriedade das redes neurais do nosso cérebro.
20

Neste texto, ele argumenta que o conceito tradicional da alma como um ser não-material deve
ser substituído pela compreensão materialista de como o cérebro produz a mente (e a
consciência), numa visão estritamente biológica.
Como hipótese de trabalho, devemos aceitar todas as premissas, até que o peso das
evidências nos force a rever algumas, e rejeitar outras, que não dão suporte aos fenômenos
observados. Entende-se que a compreensão do que seja a consciência deve ser capaz de
descrever os fenômenos a ela relacionados.
Por outro lado, como o objetivo desta monografia é refletir sobre a consciência e a
realidade, na busca de um modelo paradigmático para a compreensão dos fenômenos
espirituais, no momento oportuno, e sob a luz da ciência contemporânea, far-se-á uma ampla
reflexão sobre o significado da percepção filosófica materialista, e então, poder-se-á ter uma
compreensão do significado da palavra biológico, para uma re-leitura do que seja um
epifenômeno das funções neurais, como o resultado do processo biológico.
No âmbito da psicologia, os primeiros teóricos da consciência foram William James,
Karl Jasper (1883-1969), Sigmund Freud (1856-1939) e Carl Gustav Jung (1875-1961).
William James – Ele descreveu a consciência como um 'fluxo', ou seja, um estado de
fluxo constante, com as seguintes características: a) todos os pensamentos pertencem a uma
consciência pessoal; b) os pensamentos estão em constante modificação; c) quando um estado
de consciência ocorre, ele nunca é idêntico ao estado anterior; d) a consciência pessoal é
sentida de forma contínua, embora os estados de consciência variem dentro de uma gama de
possibilidades; e) o fluxo é direcionado para sentimentos, objetos ou pensamentos de
interesse. (James, apud Kokoszka. 2007).
Em seu livro: “As Variedades da Experiência Religiosa” (Cultrix 1991), James faz
uma detalhada descrição de uma ampla variedade de 'estados mentais', incluindo os estados
místicos e os estados de superconsciência.
Karl Jasper – estudou principalmente as psicopatologias, com uma clara descrição
dos diferentes estados patológicos e não patológicos de consciência. Segundo este teórico, a
vida psíquica inclui além do estado de consciência, também mecanismos extraconscientes, e
eventos inconscientes. “Nós imaginamos a consciência como um palco sobre o qual os
fenômenos psíquicos vêm e vão, ou como um meio onde eles se movem” (James, apud

20
The Astonishing Hypothesis – The Scientific Search for the Soul. Touchstone NY. 1995, p. 1-3.
48

Kokoszka, 2007, p. 68). O campo da clara consciência é denominado estado de atenção, e
cobre três fenômenos relacionados, mas conceitualmente distintos: a) a atenção como a
experiência de nos conectar com um objeto; b) o grau de atenção, i.e., o grau de claridade e
distinção do conteúdo consciente; c) o efeito destes dois fenômenos nas posteriores etapas da
vida psíquica. (Jasper, apud Kokoszka, 2007, p. 69).
Para Kokoszka (2007, p. 70)
Os estados incomuns de consciência têm muitas nuances. O fator comum
entre eles é a negativa de que todas estas alterações de consciência
representam alguma sequência, que parte de um estado normal de clareza,
continuidade e ligação cônscia com o Self. O estado normal de consciência,
o qual é por si mesmo de graus variados de clareza e de compreensão, pode
ter o mais variado grau de heterogeneidade, permanecendo como um ponto
focal que flui em todas as direções em que encontramos desvios, alterações
expansões e restrições.
Sigmund Freud – descobriu que a atividade mental não é unidirecional, e a
consciência existe em três níveis: a) o nível de vigília, quando estamos cônscios de nós
mesmos e do nosso entorno, nível que ele denominou de nível cônscio; b) o nível pré-cônscio,
que inclui algumas informações que não estão imediatamente disponíveis para serem trazidas
para reflexão durante o processo terapêutico, embora ele tenha percebido que, com alguma
ajuda terapêutica, ou com o passar do tempo, estas informações pudessem aflorar na
consciência; e c) finalmente ele concluiu que existe um terceiro nível de consciência, mais
profundo e de acesso muito difícil, onde existem informações que são perturbadoras e
perigosas para o paciente, e por isso têm o seu acesso bloqueado pelo ego, que tenta impedir
que elas aflorem para a consciência de superfície. A este nível de consciência ele denominou
inconsciente (ibidem).
Freud tinha uma opinião sobre os estados incomuns de consciência, e a deixa clara na
sua descrição do 'oceano de sentimentos', que ele explica como uma sensação de eternidade,
ou o sentimento de algo ilimitado, irrestrito, oceânico, um sentimento arcaico de ego, que
ocorre naturalmente no desenvolvimento do ego, e pode manter-se durante grande parte da
vida adulta de muitas pessoas (ibidem).
Carl Jung – ele acreditava que a visão de Freud sobre os estados de consciência eram
muito simplistas. Inicialmente, ele começou a exploração da mente inconsciente de seus
pacientes assumindo que, no inconsciente, somente iria encontrar elementos reprimidos da
consciência, como Freud sugeria. Mas, logo ele descobriu que este não era sempre o caso, e
como resultado desenvolveu sua própria teoria da consciência, incluindo nesta o estado
cônscio e incomum da consciência, sugerindo que a psique humana pode ser vista como
49

dividida em três categorias: a) consciência pessoal; b) inconsciente pessoal e c) inconsciente
coletivo.
A consciência pessoal é um estado transitório que consiste no estado cônscio de
atenção de alguém em um momento particular. Ele acreditava que tudo transitava pela
consciência pessoal antes de tomar a direção do inconsciente pessoal. Por outro lado, ele via o
inconsciente contendo muitas memórias. Algumas estão no limiar de nossa tomada
consciencial, e que por serem pouco significantes não despertam a atenção. Outras vezes,
estão nas bordas de nossa tomada consciencial e têm um significado carregado de emoções, às
vezes dolorosas para serem aceitas, e por isso ele as classificava como memórias reprimidas
no inconsciente. Já o inconsciente coletivo era uma dimensão consciencial muito mais
abrangente e ampla. Enquanto o inconsciente pessoal era somente composto de conteúdos que
desapareceram da consciência pessoal por serem esquecidos ou reprimidos, os conteúdos do
inconsciente coletivo nunca foram adquiridos individualmente. Eles têm suas origens na
hereditariedade. (Jung. 1969, apud Kokoszka, 2007, p. 71), ou seja, eles têm sua origem na
filogênese biológica, e na história sócio-cultural da nossa espécie.
Para Jung, tudo que existe na consciência emerge do inconsciente pessoal. Quando
nós buscamos algo na memória, nosso inconsciente a organiza para tornar a informação
disponível à nossa consciência pessoal. Como o inconsciente pessoal não é investigado
diretamente, os seus conteúdos somente podem ser inferidos através do que aflora na
consciência pessoal (ibidem).
3.3 – A CARTOGRAFIA DOS ESTADOS CONSCIENCIAIS
Sob o ponto de vista clássico, identificam-se 'grosso modo' quatro estados de
consciência considerados normais, por serem comum a todas as pessoas e terem seus limites
bem definidos. Estes são: os estados de vigília, o de relaxamento, o de sono sem sonhos e o de
sono com sonhos. Experimentalmente, cada um desses estados de consciência está
relacionado com um tipo de atividade cerebral, definida por uma onda elétrica medida através
do eletro-encefalograma.
Vigília – é o estado em que predominam as ondas betas. São ondas irregulares
(dessincronização talamo-cortical), de freqüência entre 30-14 Hz e baixa amplitude. É o
estado em que o ser se considera desperto, e tem contato consigo e com o mundo ao seu redor.
Relaxamento – é o estado entre a vigília e o sono, quando fechamos os olhos e
relaxamos. Neste estado predominam ondas alfa, de menor amplitude e freqüência entre 14 -7
50

Hz.
Sono sem sonhos - é o estado de sono 'não-REM', no qual predominam dois grupos
de ondas sincronizadas de maior amplitude e menor freqüência que as ondas alfa: as ondas
teta de freqüência entre 7-4 Hz, que caracterizam o estado de sono leve, e as ondas delta de
freqüência abaixo de 4 Hz, que caracterizam o estado de sono profundo.
Sono com sonhos – é o estado denominado sono 'REM', no qual predominam ondas
semelhantes àquelas encontradas no estado de vigília, ou seja, ondas betas.
No estado de vigília, o sujeito vivencia o mundo ao seu redor, que é interpretado por
seus conteúdos psíquicos sob a ação dos sentidos cognitivos. No estado de sono com sonhos,
o sujeito vivencia somente conteúdos mentais que receberam algum estímulo durante o estado
de vigília, às vezes até de maneira subliminar. E no estado de sono sem sonhos, nada é
vivenciado. Este é um estado em que a consciência não se manifesta.
A consciência é um estado de percepção dinâmico. Ela flui em diferentes níveis de
percepção, atenção e compreensão da realidade, e essa fluidez define espaços conscienciais,
ou dimensões conscienciais, nos quais o Eu consciente apreende uma realidade inerente a
cada nível dimensional.
Não se sabe se a passagem de um nível consciencial para o outro se dá de uma forma
contínua, ou descontínua, i.e., em pequenos saltos discretos. Entretanto, as diversas dimensões
conscienciais sugerem um tipo de cartografia que descreve e, mesmo interliga os vários
estados, embora não haja nenhuma evidência que estes estados se manifestem em uma
sequência ordenada, salvo nos quatro estados comuns, já mencionados, ou seja: vigília,
relaxamento, sono sem sonhos e sono com sonhos, que se alternam em sequência, formando
um ciclo contínuo. Os demais estados considerados incomuns têm suas origens no estado de
vigília, embora alguns possam ter origem no estado de sono, como por exemplo, o estado
denominado de projeção extracorpórea da consciência que parece sempre ocorrer durante esta
fase consciencial.
A divisão da psique humana, proposta por Jung, em três categorias, i.e., o consciente
pessoal, o inconsciente pessoal e o inconsciente coletivo, por si só já define uma cartografia
interna que interliga conteúdos de várias realidades.
Consciente Pessoal – Nesta primeira categoria, temos a realidade introspectiva e
extrospectiva. A realidade introspectiva é apreendida pela introspecção da consciência na
dimensão psíquica pessoal, onde a mente e o corpo se fundem num todo complexo, enquanto
que a realidade exterior ao limite físico do corpo (extrospectiva) é trazida à psique pelos cinco
51

sentidos. Dá-se a estas duas possibilidades cognitivas o nome de estado consciencial de
vigília.
Inconsciente Pessoal – Nesta segunda categoria, que é uma 'camada' mais profunda
da psique, estão os conteúdos inconscientes, oriundos de memórias que foram reprimidas,
experiências esquecidas, e mesmo percepções que penetraram na psique de forma subliminar.
Alguns desses conteúdos podem aflorar em situações especiais, como por exemplo, no
processo terapêutico psicanalítico, ou mesmo em sonhos. Os conteúdos do inconsciente
pessoal pertencem à história do indivíduo, e a ciência de seus conteúdos desloca a consciência
de um estado para outro.
Stanislav Grof (1931 -) menciona em seus estudos psicolíticos com LSD, que alguns
desses conteúdos tiveram sua origem em fases perinatais (Grof, 1988, p. 71-74).
Inconsciente Coletivo – Nesta terceira categoria, que é uma camada mais profunda da
psique, estão os conteúdos impessoais ou transpessoais, que pertencem à história evolutiva da
humanidade. São conteúdos agrupando experiências evolutivas e ancestrais de nossa espécie,
provavelmente transmitidos através da herança genética. No inconsciente coletivo residem as
'imagens' virtuais, que são comuns a todos os seres humanos, como por exemplo os diagramas
geométricos do tipo das mandalas, dos yantras, além de outros 'sinais' de poder, que são
visualizados por pessoas em estados incomuns de consciência.
Stanislav Grof propõe quatro diferentes níveis 'cartográficos' para demarcar o campo
da consciência, e o seu trânsito pela psique humana. Estes limites são: a) a barreira sensorial;
b) o inconsciente individual; c) o nível de nascimento e morte e d) o domínio transpessoal.
(Grof. 1988, p. 67).
Para Grof (1988, p. 67):
Experiências dessa categoria são prontamente acessíveis à maioria das
pessoas. [Elas] podem ser observadas em sessões com drogas psicodélicas, e
em diversas abordagens da psicologia experiencial que utiliza a respiração, a
dança, a música e o trabalho corporal. Técnicas laboratoriais de alteração da
mente, como o 'biofeedback’
21
a privação do sono, o isolamento ou
sobrecarga sensorial, bem como vários dispositivos sinestésicos, podem
também induzir a muitos desses fenômenos. Para facilitar a sua ocorrência, é
especificamente delineado um amplo espectro de práticas espirituais que
induzem a ocorrência espontânea de estados incomuns da consciência.
Historiadores e antropólogos têm mencionado o espectro experiencial
completo, relacionado com esses quatro domínios que abordam
procedimentos xamânicos, ritos aborígines de passagem, cerimônias de cura,
mistérios de nascimento e morte e transes religiosos.
De acordo com este mesmo autor, existem técnicas que permitem o acesso aos

21
Ou bio-retroalimentação. Nota do autor.
52

domínios do inconsciente individual pela ativação dos órgãos sensoriais. Algumas dessas
técnicas são de natureza abstrata e não têm significado simbólico pessoal, ou seja, são
visualizações de figuras geométricas que podem se apresentar de maneira estática ou em
movimento caleidoscópico. Algumas, às vezes são agradáveis, embora não tragam nenhum
conteúdo de auto-entendimento ou de autoconhecimento, para a pessoa que as visualiza, seja
sobre o significado de sua forma, ou de seu conteúdo simbólico. Segundo Grof (1988, p. 69),
alguns aspectos e formas dessas figuras geométricas parecem refletir características de nosso
sistema sensorial, como por exemplo, a arquitetura interior da retina e de outras partes do
sistema ótico. Por outro lado, quanto ao inconsciente individual, a abordagem de Grof não
difere significativamente da concepção exposta por Jung.
Segundo Jung (apud Grof, 1988, p. 69)
Nesse nível de auto-exploração, qualquer coisa com relação à pessoa
envolvida pode surgir do inconsciente, tornando-se o conteúdo da
experiência, como por exemplo, um conflito não resolvido, uma memória
traumática reprimida, ou uma incompleta ‘gestalt’
22
psicológica de qualquer
tipo.
Neste caso, o material que emerge do inconsciente deve ter alguma relevância
emocional, por isto é revivido durante o processo terapêutico. Segundo Grof (1988, p. 70), as
memórias relevantes não emergem separadamente, mas em constelações dinâmicas que ele
denomina COEX, - Sistema de Experiência Condensada -, um conjunto de conteúdos
dinâmicos, fantasias e outros agregados de diferentes períodos da vida do indivíduo.
O que Grof denomina encontro com o nascimento e a morte, é o resultado de um
aprofundamento auto-exploratório da estrutura psíquica que traz conteúdos de tal intensidade,
que são vivenciados como se fosse uma experiência de nascimento e/ou de morte. “Nesse
nível, as experiências são acompanhadas por dramáticas manifestações fisiológicas” (Grof,
1988, p. 71), como por exemplo, sufocação, batimento cardíaco acelerado, palpitação, náusea,
vômito, mudança na temperatura corporal (sensação de frio), erupções cutâneas (pré-
estigmas), tremores, contorções e outros fenômenos impactantes. Muitas dessas sensações
ocorrem durante a ingestão ritualística da ayahuasca, quando então a sensação de contato com
a dimensão da morte é vivenciada. “A essa profundidade de auto-exploração, a confrontação
experiencial com a morte tende a entrelaçar-se intimamente com vários fenômenos
relacionados com o nascimento” (ibidem, p. 72).
As experiências relacionadas com o processo do nascimento, do nascer e do vir à luz,
bem como as mudanças fisiológicas decorrentes, como a postura fetal e outros detalhes

22
Psicologia da forma.
53

específicos de cada indivíduo, foram comprovados 'à posteriori' por Grof.
Portanto, é profunda a conexão entre a experiência de nascer e morrer, pois o morrer
tem a conotação de um nascimento para outra etapa da vida que é desconhecida, ou seja, a
vida após a vida. Segundo Grof, isto possibilita a comparação com os estágios do parto
biológico, e permite traçar um modelo conceitual que ajude a entender a dinâmica do
inconsciente a nível perinatal. Essa estrita conexão entre o nascimento e a morte vai além da
dimensão biológica, e tem importante desdobramento filosófico e espiritual. Entretanto, a
discussão dos conteúdos perinatais do inconsciente, e suas implicações nas psicopatologias
está além do escopo desta monografia. Todos esses fenômenos nos mostram o largo espectro
dos conteúdos do inconsciente pessoal e coletivo, bem como as possibilidades da consciência
'surfar' em todas as possibilidades de sua cartografia, pois essa cartografia descreve uma
dimensão interior que inclui entre os vários níveis de realidade, o nível biográfico, o perinatal
e o transpessoal, além da possibilidade de uma transcendência ao se cruzar a fronteira entre o
inconsciente pessoal e o coletivo.
3.4 - ESTADOS INCOMUNS DE CONSCIÊNCIA
O interesse pelos estados incomuns de consciência
23
tornou-se popular entre os anos
60 e 70, como resultado da crescente busca do ocidente pelas culturas orientais que têm nas
experiências internas da psique seu ponto forte. Foi nesta época que surgiu a Psicologia
Humanística, que Maslow considerou a terceira força na psicologia, após o Behaviorismo e a
Psicanálise.
Esta linha de investigação imediatamente reconheceu a importância das experiências
subjetivas, e o conceito de 'estado incomum de consciência', tornou-se uma linha de
investigação importante, principalmente por ser capaz de integrar várias disciplinas, como por
exemplo, as técnicas de meditação, o estudo das substâncias psicoativas, a privação dos
sentidos, a experiência religiosa, a hipnose, etc. Neste período, o trabalho de Charles Tart
(1937-), sobre os estados incomuns de consciência, tornou-se referência e deu significado a
esta designação.
24
Assim, a definição de estados incomuns de consciência tornou-se aceitável,
como um termo científico, devido a sua abstração, e relativa neutralidade axiológica, o que a
torna superior a outros conceitos, como o de 'estados místicos', que pressupõem um contexto
religioso.
Durante os anos 70, quando as alterações dos estados conscienciais tornaram-se um

23
Ver consideração etimológica na página 54.
24
Ver States of Consciousness. Charles Tart, disponível em: http://www.druglibrary.org/special/tart/soccont.htm
54

fenômeno natural, a designação ‘estado incomum’ perdeu seu sentido, e como cita Kokoszka,
o “The Journal of Altered States of Consciousness” deixou de existir e foi substituído pelo
“Journal Imagination, Cognition and Personality”.
Nos anos 80, as pesquisas sobre a consciência avolumaram-se, e vários campos
interdisciplinares foram envolvidos na busca da compreensão dos fenômenos que a envolvem.
Para William James (apud Wilber 1977, p. 15):
A nossa consciência normal em estado de vigília é apenas um tipo especial
de consciência, ao passo que em toda a sua volta, separadas dela pela mais
fina das telas, jazem formas potenciais de consciência inteiramente diversas.
Podemos passar uma vida inteira sem suspeitar-lhes sequer da existência;
aplique-se-lhes, porém, o estímulo necessário e, ao primeiro toque, por mais
leve que seja, ei-las ali em toda a sua completude.
O estado de consciência de vigília parece ser óbvio e normal na maioria do tempo.
Entretanto, mesmo durante este estado há flutuações que ocorrem a todo momento. Por isto,
se aceita como normal que as pessoas possam naturalmente experienciar uma variedade de
estados de consciência durante o estado de vigília, sem que percebam qualquer alteração, seja
de humor, de atenção, ou de concentração. São pequenas variações, devido às emoções e ao
uso de substâncias que alteram a percepção consciencial, como o álcool, o fumo e as drogas.
Um estado incomum de consciência mais profundo é definido como um modo de
perceber e de estar, e quase sempre é induzido por agentes farmacológicos. Nesse caso, o
estado alterado é reconhecido subjetivamente pelo próprio indivíduo - ou por um observador
objetivo -, por ter produzido um desvio na experiência subjetiva, ou nas funções psicológicas
de certas normas gerais do próprio indivíduo no estado de alerta consciencial de vigília.
De acordo com Ludwig, algumas variáveis contribuem com um papel mais importante
na produção dos estados incomuns de consciência.
Segundo Ludwig, apud Kokoszka (2007, p. 5):
1. Redução da estimulação exteroceptiva e/ou, da atividade motora, i.e., isolamento,
confinamento solitário (no mar, no ar, no deserto, no campo), sono e fenômenos correlatos,
estado de privação sensorial, etc.
2. Aumento da estimulação exteroceptiva, e/ou, da atividade motora, e/ou das emoções, por
exemplo, nos processos de lavagem cerebral, transe xamânico, cerimônias religiosas,
tribais, etc.
3. Aumento do estado de alerta ou envolvimento mental, durante as atividades de leitura,
escrita, resoluções de problemas, exposição prolongada à luz intermitente ou
estroboscópica.
4. Diminuição do estado de alerta ou relaxamento das faculdades críticas, estado mental
passivo relacionado com situações místicas, transcendentais, estados revelatórios, auto-
hipnose, sonhar acordado, etc.
55

5. Presença de fatores somato-psicológicos, i.e., hipoglicemia, hiperglicemia, hiperventilação,
privação do sono, intoxicação, modificações cerebrais traumáticas, agentes
farmacológicos, estados febris, etc.
Ludwig menciona ainda as seguintes características dos estados incomuns de
consciência (ibidem p. 5):
1. Alteração do pensamento,
2. Distúrbio do sentido de tempo,
3. Perda do controle,
4. Mudança na expressão emocional,
5. Distorção Perceptual,
6. Mudança de propósito,
7. Senso de inefabilidade,
8. Sentimento de rejuvenescimento,
9. Hiper-sugestionabilidade.
Quanto à designação dos variados estados de consciência, não existe um consenso
entre os teóricos. Zinberg propôs o termo “estado alternado de consciência”, porque para
esse autor o termo alterado sugere que estes estados representam um desvio do modo que a
consciência deveria ser, e a designação de estado alternado deixa claro que diferentes estados
de consciência prevalecem em diferentes momentos, por diferentes razões e nenhum estado é
considerado como um estado padrão (Zinberg, apud Kokoszka, 2007, p. 6). Entretanto, o
termo prevalente continua sendo 'estado alterado de consciência', com a definição de ser um
estado consciencial não-ordinário, ou não-comum, durante o qual, o conteúdo, a forma, e a
qualidade da experiência são significativamente diferentes do estado ordinário de consciência,
o qual não é definido claramente, o que torna a definição imprecisa. Outra designação que
aparece com certa frequência é o de estado incomum, já usada nesta monografia.
Mas em verdade, nenhuma designação parece ser melhor que a outra, devido à
dificuldade em se definir o que seria um estado de consciência padrão, e de quando flutuações
em torno deste estado já podem ser caracterizadas como alteradas, alternadas ou incomuns.
Entretanto, entre os estados incomuns de consciência temos alguns que, pela natureza
de seus conteúdos, diferenciam-se marcadamente do estado considerado ordinário e comum.
Entre estes estados destacam-se o estado místico natural, ou seja, não induzido por agentes
farmacológicos (enteógenos), e os induzidos por estes agentes.
Estado Místico – O estado místico é um estado induzido pela fé religiosa e por ritos
de fé. “Creio que podemos dizer verdadeiramente que a experiência religiosa pessoal tem sua
raiz e seu centro em estados alterados de consciência.” (James, 1995, p. 237).
56

James (1995, p. 237-238) separa os estados místicos de consciência, dos demais
estados alterados de consciência, apontando as seguintes características:
Inefabilidade – O estado místico se caracteriza por ser uma experiência subjetiva que
transcende os limites da linguagem (inefabilidade). “Deles não se pode fazer com palavras,
nenhum relato adequado de seu conteúdo. Por essa razão, os estados místicos se assemelham
muito mais a estados de sentimento, que a um estado de intelecto” (ibidem).
Aspecto Noético – O estado místico tem características noéticas, ou seja, é um
fenômeno subjetivo da consciência, que difere dos demais porque, sob o ponto de vista
espiritual, define uma dimensão espiritual do ser, que não é acessível ao intelecto discursivo.
O aspecto consciencial noético “se caracteriza por abrir um portal de conhecimento
espiritual revelatório cheio de significados, por mais inarticulados que estes continuem
sendo” (ibidem).
Transitoriedade – Os estados místicos não podem ser mantidos por muito tempo, a
não ser em alguns casos raros. “Por meia hora, ou quanto muito por uma ou duas horas. Após
este curto período, eles se desfazem gradualmente. Entretanto, apesar da transitoriedade,
com a repetição eles são reconhecidos, e de uma ocorrência a outra, eles são suscetíveis de
contínuo enriquecimento” (ibidem).
Passividade – Embora os estados místicos quase sempre sejam desencadeados por
atos preliminares e introdutórios, tais como prece, meditação, ritos, etc., “depois que o estado
místico se estabelece, o místico tem a impressão de que sua própria vontade está adormecida
e, às vezes, de que ele está sendo agarrado e seguro por uma força superior.” (ibidem). Como
aponta James, esta característica se manifesta e liga os estados místicos a certos fenômenos
'paranormais' relacionados com o discurso profético, a escrita automática ou o transe
mediúnico.
Em alguns casos, o místico não se lembra do que ocorreu, e também este fato não tem
significado maior para a sua vida interior. Em outros casos, os transes místicos têm um
significado profundo de conexão com o sagrado, e é transformador. Alguns místicos
vivenciaram estados alterados de consciência, os quais foram observados objetivamente por
testemunhas, com relatos de fenômenos raros. Um dos casos mais confiáveis - pela reputação
da pessoa e pela idoneidade das testemunhas -, é o de Teresa de Ahumada Sánchez y
Cepeda (1515-1582)
25
, cujos arroubos místicos foram testemunhados por várias pessoas.
Teresa foi uma mística que não falava de teoria, falava de suas próprias experiências.

25
Santa Teresa de Ávila.
57

“Só falo do que o Senhor me ensinou, por experiência.” (Obras Completas, 2009, p. 73).
Ela usava o termo arroubamento, e algumas vezes também arrebatamento ou/e,
suspensão, para falar de suas experiências espirituais, que eram estados de êxtase que se
manifestavam com diferentes tonalidades e nuances. Durante estes êxtases, “Sua Majestade
lhe mostra grandes segredos – de tal forma que ela tem a impressão de vê-los no próprio
Deus” (Obras Completas, 2009, p. 558). Ao explicar o que é um arroubo, ela nos fala do bem
que a alma obtém, quando o Senhor, pela sua bondade, aproxima-a de Si.
Segundo Teresa de Ávila (2009, p. 125):
Eu queria saber explicar, com o favor de Deus, a diferença que há entre
união e arroubo, enlevo; ou voo que chamam de espírito; ou ainda
arrebatamento, que são uma coisa só. Digo que estes diferentes nomes se
referem a uma coisa só que também se chama êxtase (Vida. 20,1). “Nesses
arroubos, parece que a alma não anima o corpo, que se sente faltar-lhe o
calor natural; ele vai esfriando, embora com uma enorme suavidade e
deleite. Aqui não há como resistir, ao contrário da união em que ficamos em
nosso próprio terreno, onde mesmo que com algum sofrimento, podemos
resistir. Nos arroubos, na maioria das vezes, isso não é possível, pois eles
amiúde surgem sem que penseis nem coopereis, vindo com um ímpeto tão
acelerado e forte que vedes e sentis uma nuvem ou águia possante levantar-
se e colher-vos com suas asas.”
Os estados místicos descritos por Teresa mostram que em alguns casos o místico fica
impotente frente a uma força superior que o domina.
Sir John Woodroffe (1865-1936) - jurista inglês que exerceu a presidência da Suprema
Corte de Justiça de Calcutá, foi discípulo de Shiva Chandra Vidyarnarva Battacharya, e
revelou-se um erudito em Tantra, tendo traduzido e escrito vários textos sobre a 'experiência
Kundalinï -,
26
um estado místico, sobre o qual muito se fala e pouco se sabe de fato, por ser
uma experiência absolutamente inefável. No livro 'The Serpent Power' ele cita a observação
dos mestres, um relato semelhante à vivência relatada por Teresa:
Segundo Woodroffe (1958, p. 21):
Se a respiração fica suspensa e a mente é levada para baixo (percepção
consciencial), o calor é sentido. É possível 'ver' a Kundalinï com a visão
espiritual [um filamento de luz no chakra raiz], e desse modo experienciá-
La, sem elevá-La, o que somente pode ser feito com o método prescrito. Há
um método simples para saber se Ela está se elevando; quando ela chega a
um local específico, intenso calor é ali sentido, e quando ela o deixa, o local
esfria, tal como se estivesse morto.
Entre os fenômenos que ocorriam com Teresa durante seus arroubos espirituais, sem
dúvida o mais impressionante se refere ao fenômeno de levitação, relatado no livro Vida,

26
A palavra Kundalinï é escrita com letra maiúscula, porque Ela é considerada uma deusa, a imagem do divino.
58

capítulo 20, a partir do sétimo verso.
Frei Patrício Sciadini, organizador do Léxico Teresiano (Sciadini, 2009), define a
levitação como o ato de elevar-se no ar uma pessoa ou um objeto corpóreo, sem a intervenção
de um meio físico normal, tal como os fenômenos paranormais estudados pela psicologia.
Teresa se refere à levitação como voo do espírito (Obras Completas, 2009, p.126):
A levitação é algo que acontece dentro do arroubo. Vedes-vos levados, sem
saber aonde, Muitas vezes tentei resistir, empregando todas as minhas
forças..., algumas vezes conseguia, mas com grande prostração, como quem
combateu um forte gigante..., outras vezes eu não podia: minha alma era
arrebatada e quase sempre levava a cabeça atrás de si, havendo ocasiões em
que o corpo inteiro ficava suspenso do chão.
Entre os que testemunharam o fenômeno, Francisco de Ribera (1587) escreveu: “Em
Ávila, num dia de São José, estando no coro depois de comungar, viram-na levantar-se no ar,
a dois ou três palmos do solo” (Sciadini, 2009, p. 461).
Na preparação do processo de beatificação, o tema passa a um dos artigos de 'Rótulo',
ou interrogatório preparado para exame dos testemunhos, onde se lê (Sciadini, 2009, p. 460):
[...] que com a eficácia do divino Espírito, em tal maneira era arrebatada, que
não só a alma desta sobredita virgem, mas também o corpo era levado da
terra... os [favores divinos] quais ela fortemente resistia para não ser notada
de outros, umas vezes agarrando-se as grades de ferro da igreja, outras vezes
segurando-se às esteiras do chão, e outras vezes admoestando a suas
companheiras que fortemente a detivessem (BMC 20, p. XVII).
Outros testemunhos importantes arrolados por Sciadini foram os de Maria Batista
(prima de Teresa), João Santa Cruz (frade), Isabel de São Domingos e Ana de Encarnação –
antiga dama da Princesa de Éboli, e priora do Carmelo de Granada, que relatou seu
testemunho pessoal (Sciadini, 2009, p. 461):
Outra vez, entre uma e duas do dia, eu estava no coro esperando a campainha,
quando entrou nossa santa Madre que se postou de joelhos, como por meio
quarto de hora. Eu a via muito bem, quando ela levantou-se do solo, como por
meia vara,
27
de que muito me atemorizei. Tremia-lhe o corpo, e chegando-me
onde ela estava, pus as mãos debaixo dos seus pés, e permaneci chorando
como por meia hora, quando então ela desceu e ficou de pé. E, voltando-se
olhou para mim, perguntou-me quem era e se havia estado ali, e lhe respondi
que sim, e me mandou sob obediência, muito encarecidamente, que não
dissesse nada a ninguém do que havia visto, o que não o fiz até agora.
O fenômeno de levitação é raríssimo e controvertido, como a maioria dos fenômenos
parapsicológicos. Quase sempre o que vemos são truques de magia de palco, sem nenhuma
conotação paranormal. Alguns casos raros, quando relatados, dependem da subjetividade da
testemunha, nem sempre idônea, ou nem sempre um especialista em detecção de fraudes.

27
Equivalente a 55 cm. Nota do Autor.
59

Entretanto, a igreja católica relaciona no mínimo 19 santos levitadores, além de Teresa, entre
os quais, os mais conhecidos são: Francisco de Assis, Francisco de Paula, Francisco Xavier,
Inácio de Loyola, João Bosco, José de Cupertino, Pedro de Alcântara, Catarina de Siena, e
Tomas de Aquino. Eles foram pessoas idôneas, mas os relatos quase nunca foram – como no
caso de Teresa, um relato pessoal, e sim, de testemunhas circunstanciais.
Embora a maioria dos casos de levitação contemporâneos tenha sido considerada uma
fraude, o autor desta monografia tem o conhecimento de um caso real, e involuntário, que
ocorreu com um adolescente. O jovem, então com 15 anos, estava deitado sobre as cobertas,
rezando fervorosamente, quando sentiu seu corpo ser elevado e colocado suavemente no chão,
a cerca de um metro do local onde estava deitado. Ele nada sentiu, além da surpresa pelo fato.
O caso foi relatado ao seu pai, e não foi investigado, e nem poderia ter sido, por ter ocorrido
uma única vez com esta pessoa.
Esses fenômenos paranormais relacionados ao estado místico são universais, e
existem relatos em todas as tradições espirituais, como o sufismo, a ioga, o vedanta, o
budismo, o espiritismo, o cristianismo, etc. Em todos os casos o processo se inicia mais, ou
menos, da mesma maneira, e quando espontâneos, quase sempre ocorrem com jovens na
puberdade.
Para os místicos experientes, a alteração consciencial é uma conquista do processo de
aquietação da mente. É necessário fazer o silêncio interior para que a Luz possa aflorar. Há
vários métodos para a aquietação da mente, mas o objetivo é sempre o mesmo. O silêncio. A
voz de Deus é o silêncio interior, a linguagem intelectual, racional, é somente uma pobre
tradução. Aquietando a mente, cessam as atividades que atuavam como uma barreira, e então
a consciência se expande.
No Ioga-sutra, o texto fundamental da Ioga, Patañjali, ensina em seu primeiro sutra:
“O ioga - ou a união da consciência pessoal com a Consciência Cósmica -, é a cessação das
atividades mentais” (Abhedananda, 1973, p. 20).
O método usado por Teresa, que ela denominou oração mental ou oração de
recolhimento, é de fato um processo de meditação para aquietar a mente, muito semelhante
aos adotados pelos místicos das tradições do oriente. Ela apontou algumas dificuldades que
teve para aquietar a mente, 'no aprendizado de como verdadeiramente falar com Deus'.
A primeira dificuldade foi exercitar-se na oração sem um mestre, alguém que segundo
ela fosse um perito, mas 'um perito por praticar e conhecer a oração, e vivê-la integralmente'.
De fato, seu único mestre foi o livro 'Terceiro Abecedalho Espiritual de Francisco de Osuna'.
60

A segunda dificuldade foi refrear sua mente discursiva, ou silenciar a 'louca da casa',
como ela denominava seu diálogo intrapessoal, que impunha uma desordem à sua intenção de
recolhimento em Deus. Finalmente, ela aponta a terceira dificuldade, ou seja, não basta orar a
intervalos, deve-se fazer da oração um recolhimento. (Sciadini, 2009, p. 527-232).
Segundo Teresa (Obras Completas 2009, p 70):
[...] eu tinha começado a sentir..., embora com brevidade, o que passo a
relatar. Vinha-me de súbito, na representação interior de estar ao lado de
Cristo, tamanho o sentimento da presença de Deus, que eu de maneira
alguma podia duvidar de que o Senhor estivesse dentro de mim, ou que eu
estivesse toda mergulhada Nele.
Esta forma de oração contemplativa e infusa foi praticada por Teresa numa singela
escala: primeiro, os atos de recolhimento e oração se apoderam de suas faculdades psíquicas:
quietude da vontade, recolhimento da mente, euforia exaltante na relação com Deus e enlevo
em Sua presença. “Vivo sem viver em mim, esta divina prisão (= união), do amor em que
vivo, fez de Deus, meu cativo, e livre meu coração.” (Sciadini, 2009, p. 530).
Entre um, e outro estado incomum de consciência, ocorriam uma cascata de
fenômenos místicos, como 'êxtases, visões, feridas de amor... ' (ibidem).
Comentando a natureza essencial de seu método de oração, Frei Sciadini considera
(ibidem, p. 530-531):
Na alternativa dialógica da oração, o dialogante divino irrompe com toda sua
potência e amor na atividade do dialogante humano. Adquire assim pleno
sentido o 'faça-se Tua vontade.
Esta entrega silenciosa é a oração teresiana, e também a essência do processo
meditativo das tradições orientais, principalmente no ensinamento budista (anapanasati) e
hinduísta (dhyana). Nessas tradições, o silêncio é a entrega, e para atingi-lo, usa-se de um
artifício: a atenção plena na respiração. Uma contemplação da respiração, sem nenhuma
intenção de modificá-la ou controlá-la. Simplesmente se observa um processo, que com o
tempo, tem seu ritmo diminuído, espaçado, enquanto a mente se aquieta. Todos os processos
mentais foram direcionados à observação de uma única atividade, o respirar, atividade esta
cada vez menos sensível, num processo de retroalimentação biopsíquico que leva ao silêncio
interior pleno.
O estado consciencial místico é caracterizado por um conjunto de sensações, entre as
quais se destacam:
1. A visão unificada de que “Tudo é Um”,
2. O Um como sendo a subjetividade externa de todas as coisas,
3. A percepção da existência de uma realidade última,
4. Um sentimento de bênção, alegria, satisfação, etc.,
61

5. O sentimento de que se está vivenciando o sagrado.
6. A percepção da inefabilidade do momento.
O estado místico expande a consciência para além dos limites do individual, por isto
às vezes é denominado de um estado de ultraconsciência, ou supraconsciência. Sob estas
designações compreende-se um estado mental supra-sensorial, supra-racional que transcende
a experiência humana e cria o sentimento de unicidade. (Stace, apud Kokoszka, 2007, p. 7).
Este sentimento de unicidade é caracterizado pela percepção de uma Luz que inunda o
cérebro e preenche a mente, seguida de uma indescritível emoção de alegria, triunfo e bem-
aventurança. Relampejos intuitivos do sentido da criação, e sentimento de infinitude e
imortalidade, juntam-se ao sentimento de amor transcendental e compaixão por todos os seres
vivos. Por fim, surgem sentimentos de se estar rejuvenescendo, vivenciando uma forte
expansão mental e vigor, além da percepção de qual seja o sentido da vida e o caminho a ser
trilhado. São sentimentos profundos que trazem a compreensão que leva a uma mudança
carismática da personalidade.
Então, considerando que os diferentes estados conscienciais são dimensões acessadas
pela consciência dentro de uma complexa cartografia, restam questões que pedem uma
reflexão. Que cartografia é esta? Um caminho pelas vias neurais nas profundezas do cérebro,
ou um caminho místico e extracorpóreo, por dimensões conscienciais ocultas aos sentidos?
“Esta é uma questão que somente poderá ser respondida quando tivermos uma melhor
compreensão do que seja o cérebro, ou melhor, do que seja a matéria que o compõe, pois se
provarmos que a matéria que constitui o cérebro é, em sua essência, somente energia
codificada por um campo de informação, então se pode pensar num imbricamento entre tudo
que existe no cosmo, ou seja, nas essências de todos os fenômenos, vale somente as leis da
física quântica, a ciência que descreve ondas 'flutuando' no vazio infinito e multidimensional.
E nesta hipótese, universos paralelos e regiões neurais podem ser realidades imbricadas”.
Segundo Bucke, (apud James 2005, p. 249):
A consciência cósmica em seus exemplos mais notáveis não é simplesmente
uma expansão, ou uma extensão da mente consciente de si-mesma, com a
qual estamos todos familiarizados, mas a superadição de uma função, tão
distinta de qualquer outra possuída pelo homem comum, como a consciência
de si-mesmo é distinta de qualquer função possuída por um dos animais
superiores. A principal característica da Consciência Cósmica é ser a
consciência do cosmo, isto é, da vida, e da ordem do Universo. Quando o
homem vivencia a consciência do cosmo - num estado de transe -, ocorre
uma iluminação intelectual que, sozinha, o coloca num novo plano de
existência, fazendo dele um quase membro de uma nova espécie. A isto, se
acrescenta um estado de exaltação, e um sentimento indescritível de
elevação, júbilo e felicidade, além de uma aceleração do senso moral, que é
62

tão notável e mais importante que o poder intelectual intensificado. Com
estes, surgem o sentido da imortalidade e da consciência da vida eterna, que
não são somente uma convicção de que ele as terá, mas a consciência de que
ele já as tem.
A hipótese da Consciência Cósmica como um campo de informação ordenando por
detrás dos fenômenos naturais, pode parecer para muitas pessoas uma heresia, ou mesmo um
retrocesso no pensamento científico. Mas, esta hipótese não se refere a um Deus, no sentido
antropomórfico e individualizado da palavra, e sim a um Ser, ou seja, um campo infinito de
consciência, que é um conceito que jamais será mais estranho, do que todos os conceitos
emergentes da Física Quântica.
Imaginar o que existia antes do momento inicial do Big-Bang não é menos estranho!
Imaginar que, do 'vazio energético primordial', surgiu o cosmo, e com ele um processo
evolutivo e organizacional, formando inicialmente as primeiras vibrações das supercordas,
numa realidade de 10 dimensões, que então originou os férmions, a matéria bariônica, a
matéria escura, a energia escura…, e a consciência, tudo isto por puro acaso? Esta hipótese é
no mínimo ingênua.
É claro que a hipótese de um campo de informação consciencial parece estar
'empurrando' o problema para debaixo do tapete. Mas, o que é mais fantástico do que tentar
descobrir a verdade, sem nenhum preconceito, mesmo que as hipóteses iniciais de trabalho
nos afastem, ainda que temporariamente, da ortodoxia científica? Leucipo e Demócrito não
propuseram uma teoria atômica a cerca de 500 a.C., baseando-se somente na intuição?
Sempre foi assim, o avanço científico surge de ideias arrojadas, as quais muitas vezes estas
estão além das possibilidades do momento.
3.5 - AS BASES NEURAIS DA CONSCIÊNCIA
Aldous Huxley (1894-1963)
28
cunhou o conceito de Neuroteologia, que é o estudo
das bases neurais da experiência espiritual, e tem por objetivo compreender os processos
cognitivos responsáveis pela experiência religiosa.
Paul D. MacLean, descreveu o cérebro como sendo uma verdadeira trindade. Segundo
ele, durante a embriogenia o cérebro se forma em três fases: a primeira fase, sobreposta ao
tronco encefálico, é o denominado cérebro reptiliano. Sobre esta estrutura se forma o segundo
cérebro, denominado sistema límbico, e finalmente o terceiro cérebro, denominado neocórtex
(Marino Jr., 2005).

28
Island, texto publicado pela HapperCollins Publishing. 1962.
63

No processo embrionário tem-se a mesma sequência, é a ontogênese repetindo a
filogênese. Durante a evolução das espécies a evolução, como que influenciada por um campo
de informação, foi arquitetando e organizando a matéria para proporcionar um veículo para
manifestação da consciência, espécie após espécie. À medida que as estruturas neurais foram
se formando, foram também propiciando a emergência de uma consciência pessoal cada vez
mais lúcida, que propicie a transmutação do ser, de um animal primitivo ao divinal.
Embora não seja o objetivo desta monografia refletir sobre a função biológica de cada
uma dessas estruturas, é importante mencionar em linhas gerais alguns aspectos importantes.
Cérebro reptiliano - estudando os animais que somente possuem esta parte do
cérebro, como os répteis, MacLean concluiu que cérebro reptiliano é basicamente responsável
pela função de autoproteção e autopreservação da vida (ver figura 3.1).
Sistema límbico - com o sistema límbico surgem as emoções, e a percepção de um
Self. Por esta razão, o sistema límbico também é denominado psico-encéfalo.
Neocórtex - esta parte mais recente do cérebro, o cérebro pensante, que dá o sentido e
o poder de ordem e organização, imitando a ordem do universo e inaugurando a
autoconsciência, o pensamento abstrato, a cognição e a elaboração da palavra falada e escrita
(Marino Jr., 2005).

Fig. 3.1 – Cérebro Trino
29

Mais uma vez, o estudo da neuroteologia remete ao exame de alguns conceitos
ontológicos: Existe uma alma independente da fisiologia cerebral? Ou, seria a alma somente
um epifenômeno da ação conjunta dos três cérebros? Alguns indícios de fenômenos psíquicos,
que serão expostos nos próximos parágrafos talvez apontem para uma resposta.
3.6 - ESTADOS CONSCIENCIAIS INDUZIDOS POR ENTEÓGENOS
Sabe-se que estados incomuns de consciência podem ser induzidos por substâncias
que alteram a cognição e a percepção sensorial. Segundo Strassman (2001, p.21), o uso dessas

29
Retirado de: http://northernutahhypnosis.com/?tag=unconscious-mind, em 15/05/2010.
64

substâncias na forma de plantas e cogumelos é mais antigo que a história escrita, e
provavelmente anterior ao aparecimento da espécie do homem moderno.
Ronald Siegel e Terence McKenna sugerem que nossos ancestrais imitavam os
animais, ingerindo substância que lhes causavam alteração de comportamento, e que estas
substâncias formaram a base de uma percepção primitiva da experiência religiosa.
Na Europa havia pouco interesse e acesso a esse tipo de substância até o século XIX.
Alguns autores, citados por Strassman, descrevem suas próprias experiências com substâncias
como o ópio e o haxixe, mas as quantidades necessárias para um efeito psicodélico eram altas
e perigosas, muitas vezes causando intoxicação e morte. Com a descoberta da mescalina, por
volta de 1890, uma substância presente no peiote, um cacto originário das Américas, o cenário
começou a mudar, e abriram-se novas portas para o uso e a investigação dos estados alterados
de consciência com o emprego dos psicoativos.
Os pajés e xamãs das diversas religiões sempre usaram algum tipo de planta de poder
em seus rituais para entrarem em estado alterado de consciência. Algumas dessas bebidas
sacramentais - como o soma e o haoma -, foram usadas respectivamente no subcontinente
indiano no período de composição dos Vedas, e no vale da mesopotâmia pelos zoroastristas,
por volta de dois milênios antes da era moderna. Segundo Wasson (Wasson, apud, Shanon,
2002), o sacramento denominado soma seria uma infusão do cogumelo 'Amanita Muscaria',
enquanto o haoma seria uma infusão de uma planta denominada 'Peganum Harmala'. Mas
Flattery e Schwartz (1989) sugerem que a bebida Soma também possa conter uma infusão de
Peganum Harmala e não somente do cogumelo Amanita Muscaria. De fato, pouco se sabe
sobre a composição destas bebidas, por que seu preparo nunca foi descrito com exatidão, e
resíduos nunca foram encontrados para análise química.
A Amanita muscaria foi o enteógeno do mundo antigo. As citações sobre o
Soma no Rig Veda são consistentes com esta leitura, e algumas se encaixam
na Amarita muscaria como uma luva (Wasson et all., 1986, p. 33).
Shanon (2008) sugere que os enteógenos também foram usados no período bíblico. Na
região árida da península do Sinai, ao sul de Israel, crescem duas plantas enteógenas; uma é a
já mencionada Peganum Harmala, e a outra é a Mimosa Hostilis, que no Brasil é conhecida
como Jurema Preta, e usada por índios nas cerimônias de pajelança. Esta hipótese é baseada
em uma revisão de textos do antigo testamento ligados a vida de Moisés.
30


30
Shanon, Benny. Journal of Consciousness Studies, 9, No. 4, 2002 pp. 85-94.
65


LSD 25
31

32


Fig. 3.2
No século XX, o uso de substâncias psicoativas foi amplamente divulgado nos livros
de Aldous Huxley e Carlos Castaneda. Huxley no livro “As Portas da Percepção”, escrito em
1954, descreve suas experiências com a mescalina, e Castaneda em 1968 publica a “Erva do
Diabo”
33
, um livro no qual descreve suas experiências com Dom Juan Marcus, um xamã da
tribo Yaqui, do deserto de Sonora no México, que o introduziu nos rituais xamãnicos com o
uso do peyote. Na mesma época Albert Hofmann, um químico do Laboratório Sandoz, na
Suiça, pesquisava várias substâncias psicoativas, como a psilocibina - o princípio ativo de
alguns cogumelos -, o Salvinorin A (Fig. 3.2) - o princípio ativo da planta Salvia Divinorum -,
e o isolamento do ácido lisérgico que culminou com a síntese da dietilamida do ácido
lisérgico (1938), popularizado como LSD-25 (Fig. 3.2), o fruto de seu trabalho com o ergot,
um fungo conhecido como esporão-do-centeio.
A questão da denominação atribuída às substâncias psicoativas é complexa e, algumas
vezes carregada de preconceito. Uma denominação comum é o termo alucinógeno, numa
indicação de que estas substâncias causariam alucinações. Entretanto, na opinião deste autor,
esta é uma denominação inadequada, pois segundo o dicionário, o termo alucinação é definido
como: “uma perturbação mental que se caracteriza pelo aparecimento de perturbações
visuais, auditivas, etc., atribuídas a causas objetivas que, na realidade, inexistem”
(Dicionário Houaiss). Não seria uma ingenuidade pensar que a ingestão de uma substância
teria a capacidade de criar no cérebro imagens de templos, seres míticos, regiões do astral e
figuras geométricas como yantras e mandalas, a partir do nada? Isto não parece ser possível,
mesmo quando ainda não saibamos como o cérebro cria as imagens ‘normais’, que vemos no
estado de vigília, e que chegam ao centro do córtex visual através do impulso elétrico
transportado pelo nervo ótico. Contemporaneamente, os cientistas têm sido mais cautelosos, e

31
Retirado de: http://www.biopsychiatry.com/lsd/index.html, em 07/06/2010.
32
Retirado de: http://totallysynthetic.com/blog/?p=692, em 07/06/2010.
33
Publicado em inglês com o título “A Yaqui Way of Knowledge”.
66

dado preferência a designações como: molécula, composto, agente, substância, medicina e
sacramento.
Entretanto, os investigadores e usuários de psicoativos para fins cerimoniais preferem
a designação de enteógeno, palavra que tem o significado de substância que desperta o Deus
interior.
34
A palavra ‘droga’ tem sido evitada por ser uma terminologia vaga, e pela confusão
que causa com outras substâncias modificadoras do comportamento, que são de uso abusivo e
causam dependência química. O enteógeno não é uma droga, neste sentido, porque não existe
evidência de que os enteógenos causem dependência química ou adicção. “Drogas
psicodélicas não causam dependência química. Mesmo proponentes entusiásticos dos
psicodélicos os usam com pouca frequência, devido à intensidade e a natureza das viagens”
(Lyvers, 2003, p. 2).

Serotonina
35
Dimetiltriptamina
36

Fig. 3.3 – Moléculas da Serotonina e Dimetiltriptamina
Outra questão é como os enteógenos produzem os estados alterados de consciência,
independentemente do efeito psicodélico. Uma primeira hipótese pode ser a similaridade
molecular entre algumas destas substâncias e à serotonina, que é um mediador químico do
cérebro. Este é o caso da DMT (N, N-dimetiltriptamina) (Fig. 3.3), e a serotonina (5-
hidroxitriptamina). Devido a esta similaridade, sugere-se que a maioria das drogas
psicodélicas atua competindo nos receptores (5-HT2) da serotonina (Fig. 3.3).
A pesquisa da ação dos enteógenos sobre o cérebro tem uma importante implicação na
teoria dos estados conscienciais durante o transe místico. Meditadores experientes, que
tiveram experiências espirituais devido à ingestão de enteógenos, relatam que estas não são
diferentes dos transes místicos naturais, ou seja, sem o uso de ativadores exógenos. Eles
relatam basicamente as mesmas vivências de unidade entre todos os seres vivos, união com
Deus e o Universo, e a percepção da ilusória natureza da existência humana. (Pahnke &
Richards, apud Lyvers, p. 1-3).

34
Ruck, C.A.P., Entheogens, Journal of Psychedelic Drugs. 11 (1-2) pp. 145-146.
35
Retirada de: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Serotonin-skeletal.png, em 07/06/2010.
36
Retirada de: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:DMT.png, em 07/06/2010.
67

Mas, independentemente da designação, permanece a questão: as substâncias
psicoativas causam alucinação ou somente facilitam o trânsito da consciência por regiões
obscuras do inconsciente coletivo, ou mesmo de espaços dimensionais ocultos aos sentidos,
no estado de vigília? Por enquanto é impossível responder. Alguns enteógenos induzem a
estados alterados de consciência que estão além de nossa compreensão. Para se ter uma ideia
do que seja uma sessão conduzida sob a indução de um enteógeno, como por exemplo, a
ayahuasca, - cujo principal princípio ativo é a dimetiltriptamina, é necessário passar pela
experiência muitas vezes, e mesmo assim, ter o entendimento de que a complexidade do
transe vivenciado dificulta a sua compreensão. As visões são mais reais e nítidas, que as que
temos no estado comum de vigília. As entidades vistas são claras, luminosas, e têm uma luz e
um colorido que não existem no mundo físico. Muitas imagens sugerem seres míticos e
lendários, como elfos, gnomos, fadas e anjos. A tridimensionalidade das imagens é perfeita, e
a maioria delas quase nunca são estáticas, como um quadro, elas são vivas, com movimentos
reais, e algumas vezes se comunicam com a pessoa durante o transe.
Então se questiona: como a ingestão do extrato de uma planta pode criar algo assim?
Ninguém explica. Pesquisadores sérios, com experiência de mais de vinte anos usando este
sacramento, não ousam tentar uma explicação, porque sabem que o fenômeno desafia todos os
nossos pressupostos científicos baseados na ortodoxia neurobiológica. Alguns têm
explicações baseadas nas suas crenças e na fé em seres espirituais.
Ayahuasca: – esta já mencionada bebida é de uso exclusivo em rituais religiosos
dentro de uma linha cristã, ligada aos povos da floresta. Seu uso é muito antigo e pode ter sua
origem na civilização Inca, há mais de quatro mil anos.
37

A história da bebida não é conhecida com precisão, mas sua descoberta pelos índios é
um mistério. A ayahuasca é uma cocção de duas plantas: a chacrona ou rainha (Psychotria
viridis) e o cipó mariri (Banisteriopsis caapi), sendo que o efeito da bebida somente ocorre
porque os alcalóides componentes da Banisteriopsis caapi são inibidores da enzima MAO,
que se não inativada, impede a absorção da dimetiltriptamina. Então, o mistério é saber como
em meio a centenas de milhares de plantas da diversidade amazônica, eles pegaram
exatamente as duas que se complementam para uso ritualístico. Os pajés dizem que são os
espíritos da floresta quem os orientam na busca das plantas usadas para as curas e rituais! Esta
informação foi obtida pelo autor diretamente do pajé Sapaim, da tribo Kamayurá.
No Brasil, existem grupos ‘ayuhasqueiros’, derivados do Santo Daime, um

37
Naranjo, 1986. “El Ayahuasca in La arqueología ecuatoriana. América Indígena 46: 117-128”.
68

movimento iniciado pelo Mestre Raimundo Irineu Serra, e da UDV – União do Vegetal, outro
movimento iniciado por Mestre José Gabriel da Costa. Estes dois ramos deram origem a
muitos outros núcleos, como a ABLUSA - Associação Beneficente Luz de Salomão, um grupo
independente que segue o ritual da UDV, e a Fraternidade do Coração, um grupo que segue a
linha do Daime e outros ritos ligados a tradições da Índia.
O princípio ativo da chacrona é a molécula de DMT (dimetiltriptamina), e os
princípios ativos do cipó mariri são alcalóides da família da harmala, e das beta-carbolinas,
que inibem a enzima MAO (monoaminoxidase), permitindo assim a absorção da DMT. A
ingestão da ayahuasca proporciona uma importante expansão consciencial. O uso simultâneo
da bebida com a audição de sons musicais, cantos ou chamadas - que são frases utilizadas
como um mantra -, têm a finalidade de guiar a consciência durante o transe, proporcionando a
penetração em dimensões de conteúdos espirituais, onde visões de seres míticos e templos
aparecem com uma viva nitidez.
O som musical e rítmico por si já induz a estados alterados de consciência.
Segundo Mello (MELLO 2003, Relações Cognitivas entre Localizações Cerebrais em
Música e Linguagem. Marcelo Mello, Unicamp.)
38
:
Embora relações clínicas (médicas, terapêuticas) entre o cérebro e a psique
formem atualmente o conjunto do que é conhecido como neuropsicologia,
uma abordagem constitutiva dos processos humanos a partir de processos
materiais ou biológicos poderá ser mais adequadamente enquadrada dentro
da epistemologia como uma abordagem cognitiva, ou cognitivista. No
terreno musical, as relações entre música e a cognição humana têm suscitado
uma miríade de trabalhos nos mais diversos assuntos correlatos, que podem
ser reunidos sob o termo genérico de cognição musical, ou outros de igual
valor.
Durante as sessões com ayahuasca, algumas músicas e sons levam a estados
espirituais elevados, e outros a estados sombrios que podem resultar em sofrimento físico, tais
como tremores, frio, vômito, etc. Entretanto, o uso ritualístico da ayahuasca, conduzido dentro
de uma proposta espiritualista, desperta à maioria dos participantes para a vida espiritual, com
transformações pessoais importantes.
DMT – A Molécula do Espírito: Strassman no livro “The Spirit Molecule” relata os
estudos que efetuou na Universidade do Texas, em 1990, onde administrou cerca de 400 doses
de DMT a um grupo de sessenta voluntários acadêmicos. O protocolo do estudo foi aprovado
pelo DEA – “Drug Enforcement Administration” e pelo FDA, depois de um longo processo,
inicialmente junto ao comitê de ética da universidade, depois junto aos centros de pesquisa de

38
Disponível em: http://www.marcelomelloweb.kinghost.net/mmconferencialinguisticacognicao2003.htm
69

química aplicada para conseguir as autorizações necessárias para o estudo, que envolveu a
síntese de 5g de DMT, 99,5% de pureza, com classificação de “para uso humano”, e a
rigorosa seleção dos participantes.
O estudo foi efetuado de acordo com o protocolo ‘duplo cego’, onde os participantes
envolvidos não eram informados sobre certas particularidades e efeitos da substância,
evitando-se assim que fossem inconscientemente influenciados. A DMT foi administrada
através de injeção intravenosa em doses iniciais de 0,05 mg / Kg peso, com aumento posterior
para 0,2 mg/Kg, até a dose máxima de 0,8 mg/Kg, para alguns voluntários.
O protocolo estabeleceu a metodologia para dosagem da DMT no sangue dos
voluntários em várias fases do experimento.
No capítulo 3 ‘A Pineal: Encontrando a Glândula do Espírito’, e no capítulo 4 ‘A
Pineal Psicodélica’, Strassman descreve os estudos que o levaram à investigação dos efeitos
da DMT no ser humano.
Segundo Strassman (2001, p. 56):
Uma das minhas mais profundas motivações por detrás da pesquisa com a
DMT foi à busca da base biológica da experiência espiritual. De tudo que eu
tinha aprendido durante todos estes anos, nada me tornou mais surpreso que
a possibilidade da glândula pineal produzir DMT durante os estados
místicos, e durante outros estados naturais e semelhantes a estados
psicodélicos.
A pineal, ou epífise (Fig. 6), é uma pequena glândula (5-8 mm e 0,15g de peso)
localizada entre os dois hemisférios cerebrais, sob o corpo caloso, e considerada parte do
epitálamo. Há algumas décadas, acreditava-se que a pineal fosse um órgão vestigial, e sem
função, pois a glândula é maior durante a infância, reduzindo seu tamanho na puberdade,
quando então se pensava que ela não tivesse mais função.
Entretanto, o cientista Aaron Lerner, da Universidade de Yale, ao estudar a
despigmentação da pele pela doença vitiligo, investigou a pineal e descobriu que a melatonina
(N-acetil-5-metoxi-triptamina), um hormônio derivado do aminoácido triptofano, cujo
mecanismo de produção envolve os neurostransmissores adrenalina e noradrenalina, está
presente em grandes concentrações nessa glândula, representada na figura, acima do cerebelo
e sob o corpo caloso (Fig. 3.4).
70


Fig. 3.4 Corte do Córtex Cerebral
39

Segundo Strassman, a pineal torna-se visível após sete semanas, ou seja, no
quadragésimo nono dia do desenvolvimento fetal, exatamente quando ocorre a diferenciação
sexual. Sob o aspecto histológico, ela não faz parte dos tecidos cerebrais, e desenvolve-se a
partir de tecidos do palato fetal, migrando posteriormente para o centro do cérebro, sob o
sistema límbico. A fisiologia da pineal está relacionada com o sono e com a atividade sexual.
Estimulada por pouca luminosidade, ou seja, no escuro, ela bloqueia a função reprodutiva e
atrofia os órgãos sexuais, produzindo melatonina. Quando a Pineal é estimulada pela
luminosidade, há uma redução na produção de melatonina (Fig. 3.5), e uma estimulação das
funções sexuais, com um papel importante no ciclo circadiano (Strassman, 2001, p. 56).

Fig.3.5 – Molécula da Melatonina (N-acetil-5-metoxi-triptamina)
40

O papel da pineal no estudo místico, deve-se a René Descartes, que afirmou ser a
pienal a sede da alma. Nas tradições da Índia, a pineal é associada ao terceiro olho, o Chakra
Ajña. Na busca de uma molécula que intermediasse na psique as experiências espirituais,
Strassman considerou que esta deveria no mínimo ter uma ação psicodélica. A primeira
suspeita caiu sobre a DMT, uma molécula muito semelhante à melatonina, ambas com um
anel derivado do triptofano. Na primeira etapa, na biosíntese da DMT, o triptofano sofre uma
descarboxilação (1), dando origem ao triptofano descarboxilado (2), que em seguida sofre
uma dimetilação nucleofílica pela S-dimetil metionina (3). (Fig. 3.6)

39
Retirado de: http://www.sbneurociencia.com.br/draclaudia/artigo_claudia.htm, em 05/05/2010.
40
Retirado de: http://www.anagen.net/mela.htm, em 05/05/2010.
71


Fig. 3.6 - Biosíntese do DMT
41

Em decorrência de sua pesquisa, Strassman elaborou um conjunto de hipóteses não
provadas, mas baseadas em dados científicos válidos, e combinados com observações
religiosas e espirituais, principalmente das tradições orientais. Como ele afirma: “Muitas
dessas ideias são testáveis com uso de ferramentas científicas e métodos válidos. As
implicações dessas teorias são profundas e perturbadoras, mas também criam um contexto de
esperança e promessa” (Strassman, 2001, p. 68).
Segundo Strassman (2001, p. 68):
A glândula pineal produz quantidades psicodélicas de DMT, em tempos
notáveis de nossas vidas. A produção de DMT na pineal é a representação
física de um processo imaterial ou energético. Ela nos fornece o veículo para
experienciarmos conscientemente o movimento de nossa força vital em sua
mais extrema manifestação, ou seja, quando nossa força vital individualizada
penetra no nosso corpo fetal, ela passa através da pineal e dispara a primeira
e primordial onda de DMT, e posteriormente, no momento do parto, a pineal
libera mais DMT. Em alguns de nós, a DMT da pineal media as principais
experiências de meditação profunda, psicoses, e experiências de quase
morte. No momento da morte, a força vital abandona o corpo através da
glândula pineal, liberando outra onda dessa psicodélica molécula espiritual.
A glândula pineal tem todas as condições para produzir a DMT: ela possui os maiores
níveis de serotonina (hidroxi-triptamina) por grama de tecido, de todo o corpo. Ela também
tem uma quantidade apreciável da enzima metil-transferase, que converte as moléculas com
núcleo triptaminico em DMT (Fig. 3.6, etapa 3).
Por outro lado, Strassman afirma que a glândula pineal também produz quantidades
apreciáveis de Beta-carbolinas, um grupo de substâncias que impede a decomposição da
molécula DMT, pela enzima MAO – mono amina oxidase, um dos compostos também
presentes na infusão da bebida ayahuasca. Então, ele afirma que existem condições que fazem
com que a glândula pineal produza DMT, em vez de melatonina. Essas condições são a
anulação de um ou mais dos fatores restritores da produção de DMT (Strassman, 2001, p.
73), ou seja:
1. A malha bioquímica do sistema de segurança em volta da glândula pineal.
2. A presença de compostos que impedem a síntese da DMT na glândula pineal.

41
Retirado de: http://acetoeteno.blogspot.com/2010/03/dmt-spiriit-molecule.html, em 08/05/2010.
72

3. A baixa atividade da enzima metil-transferase.
4. A ação da enzima MAO [monoaminoxidase] na decomposição da DMT.
Assim, quando alguns, ou todos estes fatores, são anulados, a glândula pineal tem
condições de produzir a DMT (Strassman, 2001, p. 70). Estas suposições são originárias do
princípio guia da primeira pesquisa sobre a ação da DMT em humanos, que foi a relação entre
esta molécula e a esquizofrenia.
Segundo Strassman (2001, p. 70):
Minha ênfase na relação entre a DMT e a esquizofrenia, não é porque eu
acredito que esta seja a única função da DMT endógena, mas porque esta
psicopatia é o único estado alterado de consciência natural, sobre o qual
temos dados reais e significativos. Por outro lado, eu também acredito que
outros estados psicodélicos espontâneos, como as experiências espirituais de
quase morte, dividem uma similar relação com a presença endógena de
DMT.
A ação da glândula pineal sobre os estados de consciência foram estudadas e Jace
Callaway, sugeriu que derivados das betas-carbolinas e do DMT podem ser mediadores
responsáveis pelas visões durante os sonhos. A produção de DMT pela pineal pode também
estar atuando nos efeitos da meditação profunda e dos vários tipos de experiências espirituais.
Concluindo seu estudo, ao analisar todos os relatos dos voluntários, Strassman
questiona sobre o que acontece quando a ‘molécula espiritual’ nos puxa e empurra para além
do limite consciencial físico e emocional, concluindo que nós entramos em regiões invisíveis
que não podemos sentir e sequer imaginar. E, para maior surpresa, estas regiões invisíveis
parecem ser habitadas. Nenhum dos voluntários teve dúvidas em afirmar que existe uma
marcante diferença entre suas experiências durante os contatos induzidos com DMT, e as
visões de sonhos comuns.
Finalmente ele afirma (Strassman, 2001, p. 314):
O DMT permite que tenhamos um regular, repetitivo e seguro acesso a
outros canais de cognição. Estes outros planos de existência estão sempre ali.
De fato, eles estão exatamente aqui, transmitindo todo o tempo! Porém, nós
não podemos percebê-los porque não fomos projetados para fazê-lo. Nossa
‘máquina’ nos mantêm sintonizados no canal normal. Mas, bastam somente
um ou dois segundos – e poucas batidas cardíacas para o DMT abrir o
caminho -, mudar o canal e abrir nossa mente para outros planos de
existência.
“Os físicos teóricos propõem a existência de universos paralelos baseados sobre o
fenômeno de interferência [....] os universos paralelos interagem uns com os outros quando há
alguma interferência. O DMT pode permitir que nosso cérebro receptor sintonize estes
73

multiversos” (Strassman, 2001, p. 316).
42

LSD - Stanislav Grof - em seus livros “LSD Psychotherapy” (Grof, 1979), “Além do
Cérebro” (Grof, 1988), e “The Holotropic Mind” (1993) -, relata cerca de 3500 experiências
de psicoterapia com LSD, conduzidas em pacientes e voluntários com o objetivo do estudo do
inconsciente transpessoal.
Segundo Crinspoon (1979, p. 202):
Muitas pessoas lembram vagamente que o LSD e outros agentes
psicodélicos foram usados experimentalmente em psiquiatria, porém poucos
perceberam o quanto, e por quanto tempo eles foram usados. Entre 1950 e
1960, foram publicados milhares de artigos, discutindo mais que 40.000
casos de pacientes, além de muitas dúzias de livros e seis conferências
internacionais sobre terapia com substâncias psicodélicas.
Embora o LSD seja uma substância psicoativa, ela não deve ser considerada um
enteógeno, mas somente um agente psicodélico. Apesar do LSD produzir estados alterados de
consciência, esta substância não é usada em ritual com a finalidade de abrir o portal da
espiritualidade.
A razão pela qual Grof utilizou o LSD foi puramente casual. Na época em que ele
estava terminando sua graduação em medicina - na Charles University, em Praga -, a
Farmacêutica Roche estava distribuindo amostras de LSD-25 para vários centros de estudo de
psiquiatria para avaliação da droga e sua possível utilização como psicofármaco. “Minha
primeira sessão com LSD mudou radicalmente tanto a minha vida pessoal, como a
profissional” (Grof, 1993, p. 15).
Segundo Grof (1993, p. 15):
Eu experienciei um extraordinário encontro com o meu inconsciente, e esta
experiência instantaneamente ofuscou todos os meus interesses prévios em
psicanálise freudiana. Eu fui submetido a uma fantástica exibição de visões
coloridas, algumas de cunho abstrato e geométrico, outras cheias de sentido
simbólico. Eu senti um conjunto de emoções de uma intensidade que jamais
sonhei ser possível. Durante esta fase do experimento, eu fui atingido por
uma radiância que se fez comparável à luz no epicentro de uma explosão
atômica, ou possivelmente a luz sobrenatural descrita nas escrituras
orientais, como aquela que aparece no momento da morte. Não havia dúvida
em minha mente que o que eu havia experienciado estava muito perto da
‘experiência cósmica’ tal como eu li a respeito nas grandes escrituras
místicas do mundo.
Segundo Grof a pesquisa psicodélica esclareceu muitos dados históricos e
antropológicos, anteriormente enigmáticos, a respeito de xamanismo, cultos misteriosos, ritos
de passagem, cerimônias de cura e fenômenos paranormais que envolvem o uso de plantas

42
Ver capítulo 4, multiversos e branas.
74

sagradas (Grof, 1988, p. 19).
Segundo Grof (1988, p. 20), a maioria dos pesquisadores que estuda os efeitos dos
psicodélicos chegou à conclusão de que essas drogas poderiam muito bem ser encaradas como
amplificadores do processo mental. “Parece que elas ativam matrizes preexistentes ou
potenciais da mente humana, em vez de induzirem a estados específicos relacionados a elas
próprias” (ibidem). A experiência com enteógenos, como a já descrita ayahuasca, indica que,
de fato, esta substância psicoativa expande a consciência para além dos limites das restrições
controladoras da estrutura psíquica. Desta forma, parece que não há diferença entre o transe
induzido por esta classe de substâncias e a experiência mística natural, ou seja, induzida pelos
ritos meditativos. Por outro lado existe - como já mencionado -, a suspeita de que os
enteógenos desempenharam um papel importante no afloramento da religiosidade, ao
proporcionarem as primeiras experiências místicas entre os povos antigos. Wasson menciona
entre outros enteógenos, o Soma – na cultura védica; a ergotamina – nos Mistérios de Elêusis;
entre muitos outros povos que fizeram uso de substâncias psicoativas de plantas e cogumelos.
(Wasson, 1986, p. 29-32).
3.7 - O ESTADO MEDITATIVO
A meditação é um processo mental complexo que produz importantes mudanças
benéficas ao organismo e à psique. Sob o aspecto fisiológico, a meditação tem um efeito
benéfico na regulação do sistema nervoso autônomo (Fig. 3.7), e também sobre o sistema
imunológico e hormonal. Por isso, ela tem sido aconselhada para a cura de muitas doenças
psicogênicas, e o controle do estresse, e de muitos problemas psíquicos.

Fig. 3.7 Sistema Nervoso
43


43
Prof
a
. Roberta Xavier Gonçalves, disponível em: http://profrobertabiologia.blogspot.com/2009/11/p6-revisao-
para-prova-de-19nov-sistema.html
75

A meditação também é um portal de entrada para os estados alterados da consciência.
Místicos de todas as tradições têm procurado através da meditação um caminho na direção de
uma realidade maior, transcendente à realidade limitada da cognição sensorial. E, neste
caminho, eles compreenderam que o silenciamento da mente e a introspecção profunda são os
meios e as condições necessárias para a transcendência do estado de vigília.
Estas duas condições são comuns nas meditações dos iogues, sufis, tântricos, budistas
e praticantes de outras tradições espirituais do oriente e do ocidente. Os métodos de meditação
sempre envolvem algum tipo de rito, que quase sempre é usado como preliminar para a
meditação propriamente dita. Esses ritos podem incluir o uso de mantras, orações, ladainhas,
fixação do olhar em figuras geométricas, como os yantras, atenção e observação da respiração
(pranayama), etc. Entretanto, toda a intenção por detrás desses ritos converge para o
silenciamento da mente e do diálogo interno, pois o ruído psíquico é o impedimento maior,
que prende a atenção da consciência no mundo objetivo das ideias e conceitos, enquanto o
ruído oriundo dos impulsos sensoriais as prende na tridimensionalidade da realidade externa.
Os praticantes da meditação sabem que a psique é a interface entre a consciência, e as
realidades introspectiva e extrospectiva. Ela é o 'palco' para onde convergem os estímulos
sensoriais, as memórias e outros conteúdos pretéritos, que então dão início a um
encadeamento de ideias, lembranças e outros estímulos que aprisionam a consciência no
mundo objetivo. Portanto, a transcendência para dimensões conscienciais mais amplas e
profundas, somente ocorre quando estas atividades cessam, e o palco da tridimensionalidade
fica vazio.
Dito dessa maneira define-se a meditação como sendo um conjunto de técnicas, que
têm em comum o esforço consciente de introspecção não analítica, não discursiva, e destituída
de qualquer voz interior, com o objetivo de se estabelecer o silêncio interno, para que se
abram as portas da percepção para a vivência de dimensões sutis e espirituais, ao alcance da
consciência.
Segundo Ospina et al. (2007, p. 29):
1. O que sabemos da prática da meditação? Quais são os componentes
principais da prática de meditação? A respiração? Os cantos devocionais?
Os mantras? O relaxamento? Quais desses componentes são universais e
quais são particulares desta ou daquela tradição?
2. Como a meditação é incorporada nessas práticas? Existe um padrão típico
de respiração que pode ser considerado um elemento integral da
meditação? A respiração deve ser passiva ou direcionada?
3. Como a atenção deve ser direcionada em cada tipo de meditação? Em um
mantra? Na respiração? Em uma imagem? Em nada?
4. Em que extensão a espiritualidade e a crença são partes importantes da
76

meditação?
5. Quais são os protocolos e requisitos dos vários tipos de meditação?
Quanto tempo deve durar a meditação? Com que frequência deve-se
meditar? É melhor que a meditação seja individual ou em grupo?
6. Como se pode determinar o sucesso da prática meditativa? Qual o critério
a ser usado para esta avaliação?
7. Quais práticas de meditação foram usadas em testes clínicos e estudos de
caso, e que grupo de controle foi usado? Quais observações foram feitas
para avaliar a eficácia da meditação?
Nas últimas décadas, psicólogos e neurocientistas têm se esforçado em responder a
essas questões, na busca da compreensão do que ocorre no cérebro durante a meditação, e
quais são as consequências benéficas para a saúde física e mental dos meditadores.
A palavra meditação tem sido usada para designar uma variedade de práticas tão
diversas entre si, que se tem uma grande dificuldade em defini-la.
Segundo Cahn & Polich (2006, Vol. 132, No. 2, p. 180–211)
44

A palavra meditação é usada para descrever práticas que auto-regulam o
corpo e a mente. Estas práticas são um subconjunto de todas as usadas para
induzirem relaxamento ou estados alterados como hipnose, relaxamento
progressivo, e técnicas de indução de transe.
Esta dificuldade ainda permanece, a despeito de inúmeros estudos modernos
envolvendo uma diversidade de técnicas de diagnóstico por imagens das funções cerebrais 'in
vivo'. Entretanto, qualquer estudo sempre deve ser acompanhado de uma clara definição de
qual foi o procedimento meditativo usado, bem como da experiência e tempo de prática de
cada indivíduo participante.
O autor desta monografia tem praticado a meditação como uma prática devocional, e
com o tempo adaptou para si conteúdos de várias práticas da Ioga, do Budismo e do Xivaísmo
da Caxemira. Com base nessa experiência, descreve o método que usa e recomenda a seus
alunos de meditação nos cursos de formação de professores de ioga:
1. O objetivo da meditação é a transcendência da consciência que se expande para além dos
limites do estado de vigília, eleva-se e contata o sagrado, ou seja, leva a uma condição de
emergência espiritual.
2. O local tem que ser propício, ou seja, estar limpo, arejado, silencioso e sem muita
luminosidade. Objetos devocionais, como imagens sagradas, yantras, incenso, lamparinas
votivas, etc., podem ser importantes, dependendo do temperamento do praticante e do
objetivo da meditação, porque preparam o ‘momento meditativo’.
3. A meditação tem início com um rito devocional. Acende-se a vela, e nela o incenso, que
são ofertados à divindade cultuada. Segue-se a recitação de uma oração, não
convencional, que como um instrumento de programação neurolinguística, deve conter os
elementos de qualidade que o praticante quer desenvolver em si mesmo.

44
Meditation States and Traits: EEG, ERP, and Neuroimaging Studies, Psychological Bulletin.

77

4. Segue-se a prática que pede olhos fechados, e atenção consciencial na respiração, não
como um processo ventilatório de inalação e exalação de ar, mas como um processo
místico de controle direcionado da vibração vital do prana, que deve ser percebido em
todo o corpo. Com o tempo, vai-se diminuindo a freqüência respiratória e, junto com esta,
esvazia-se a mente, para dar abertura a um grande vazio.
5. Durante todo o processo, embora os olhos estejam fechados, a atenção do ‘terceiro olho’
deve estar dirigida a um ponto infinito. A alternância de formas escuras e claras, luzes e
outros sinais que possam surgir, deve somente ser observada, sem nenhuma consideração
mental.
6. O tempo de meditação depende de cada um, mas a experiência mostra que no início, o
tempo ideal é de 5 a 10 minutos, que pode ser aumentado gradativamente para 20 a 30
minutos após algum tempo de prática. Meditadores experientes com mais de 20 anos de
prática diária podem meditar por horas e horas.
7. A avaliação do resultado da meditação é subjetiva, mas pode ser aferido em curto prazo
pelo bem estar dos praticantes, e em longo prazo pela melhoria do estado orgânico e
psíquico dos mesmos.
Como todo processo psicoespiritual, a meditação também tem um papel importante no
equilíbrio biopsíquico. Um dos primeiros efeitos é a queda da frequência cardíaca, como uma
resposta ao relaxamento. Estudos efetuados na década de 60, por Akira Kasamatsu e Tomio
Hirai da Universidade de Tóquio, com praticantes de Zen Budismo, mostram quatro estágios
eletroencefalográficos característicos (Kasamatsu & Hirai, 1966)
45
:
Primeiro Estágio: É caracterizado pelo aparecimento de ondas alfa, apesar dos praticantes
permanecerem de olhos semi-abertos.
Segundo Estágio: É caracterizado pelo aumento da amplitude das ondas alfa.
Terceiro Estágio: É caracterizado pela diminuição da frequência das ondas alfa.
Quarto Estágio: É caracterizado pelo aparecimento de grupos rítmicos de ondas teta
Esses pesquisadores consideram a respiração um dos principais componentes da
meditação, e sua observação é essencial, seja feita de maneira passiva ou ativa (controlada).
Na respiração passiva, somente se observa o ciclo respiratório, sem interferência. Na
respiração ativa, o ciclo é controlado, como por exemplo: inspirar em um tempo, retenção em
dois tempos, expirar em um tempo, seguida de retenção em dois tempos.
Na meditação devocional tântrica é usada a entonação de mantras, em geral
monossilábicos (bija-mantra), que são sons com significado arquetípicos, em geral associado
a seres ou divindades, da tradição espiritual. Nesse caso, como instrumento da mente, o
mantra é visa despertar o inconsciente do praticante para a deidade a qual está associado.
Em todos os casos, a meditação leva a um estado de relaxamento, que muitas vezes se
torna uma característica que a define. Entretanto, no que diz respeito à intenção, existe uma
diferença entre relaxamento e meditação.
Em alguns casos de meditações (ou estado de transe) místicas, como as de Santa

45
Disponível em: http://www.ibva.co.uk/Templates/meditate.htm
78

Teresa de Ávila e São João de Cupertino, podem surgir fenômenos raros, como a já
mencionada levitação. Entretanto, em nenhuma pesquisa acadêmica, ou caso estudado pelos
pesquisadores contemporâneos, observou-se qualquer fenômeno semelhante. Segundo eles, há
três possíveis razões para isso: a primeira é que o fenômeno de levitação não existe; a segunda
é que os místicos das tradições contemplativas perderam a habilidade de evocar o fenômeno;
e a terceira é que a levitação somente ocorre em raros e espontâneos fenômenos de êxtase, que
não podem ser programados para preencher os requisitos de um experimento científico.
Assim, esses fenômenos paranormais somente ocorreriam em situações ocasionais, e os
cientistas devem contar com muita sorte para observá-los, pois lamas, iogues e monges, com
fios atados na cabeça, e termômetros no corpo perdem a liberdade de se entregarem ao transe
místico, e isso altera esse tipo de padrão, que fica impossível de ser investigado.
Durante as décadas de 70 e 80, houve um significativo aumento nas pesquisas sobre
os efeitos da meditação devido ao interesse pela cultura oriental. Herbert Benson (Benson,
apud Ospina et al, 2007, p. 30) mostra os efeitos sobre o sistema cardiovascular, como o efeito
vasodilatador, a diminuição da frequência cardíaca, e a alteração do perfil hormonal com
mudanças metabólicas.
Um estudo publicado pela ‘Scientific American’ em Novembro de 2009, com o título:
“Secrets of How Meditation Works”, mostrou que meditadores experientes exibem um grande
aumento de ondas gama, de 40 Hz (35-100 Hz), devido ao disparo simultâneo e síncrono de
neurônios. Mesmo assim, durante esta meditação o consumo energético do cérebro é mínimo.
No relatório publicado por Ospina et al., foram estudados os efeitos da meditação sobre a
hipertensão arterial e outras doenças cardiovasculares, bem como o uso de substâncias de
abuso (drogas). A meta-análise efetuada sobre um estudo de baixa qualidade, e um número
pequeno de hipertensos, mostrou que a Meditação Transcendental, a Qi-Cong e a meditação
Zen-budista, reduzem significativamente a pressão arterial. Não foi obtido nenhum resultado
positivo para drogas de abuso.
Como conclusão, confirma-se o que já se sabia: a meditação traz importantes
benefícios para a saúde psicossomática. A maioria das pesquisas, que se contam aos milhares,
enfoca as principais modificações bioquímicas e fisiológicas do processo meditativo: a
pressão arterial diminui devido a efeitos de vaso dilatação, e há uma significante melhora do
equilíbrio do sistema nervoso simpático e parassimpático, com todos os benefícios oriundos
dessa normalização. Exames de pet-scam cerebral mostram um aumento da atividade do
79

córtex frontal e uma diminuição da atividade do córtex parietal (House, 2006, p. 513-521)
46
.
3.8 - O ESTADO DE QUASE-MORTE E A PROJEÇÃO DA CONSCIÊNCIA
Estes são dois estados incomuns de consciência que têm uma aparente conexão entre
si, pois durante o estado de quase-morte (NDE),
47
quase sempre é relatado uma projeção
extracorpórea da consciência (OBE).
NDE: Vivência de um estado incomum de consciência, durante um lapso de tempo, em que a
pessoa está clinicamente morta, ou sem atividade cerebral.
OBE: Vivência de um estado incomum de consciência, caracterizado pela sensação da
consciência estar fora do corpo físico.
A projeção extracorpórea da consciência é uma experiência subjetiva. Para quem a
teve, o significado é profundo, indiscutível e quase sempre mais real que a própria realidade
percebida no estado de vigília. A luminosidade é vibrante, e tudo que é observado tem uma
aparência viva. A maioria das OBE tem origem durante o sono, e embora algumas pessoas
afirmem que podem induzir a experiência conscientemente, em geral é mais comum que ela
ocorra involuntariamente e induzida a partir de conteúdos inconscientes.
Charles Tart (2009, p. 189) denomina de OBE, à experiência em que o sujeito percebe
a si mesmo como estando em um local diferente, do local em que está seu corpo, e percebe
estar em um estado ordinário de consciência no qual os conceitos de espaço, tempo e locação
fazem sentido, além de um sentimento de estar parcialmente ou integralmente desconectado
do corpo.
A experiência fora do corpo é referida por diferentes designações, tais como:
exteriorização da consciência, viagem astral, projeção astral, viagem da alma, etc., todas
supondo que, ao entrar num estado incomum de consciência, o sujeito vivencia uma expansão
consciencial para além dos limites da localidade física. Portanto, o estudo desse fenômeno
pode nos auxiliar na elucidação do fenômeno da consciência, e de sua independência do corpo
físico. OBE também é vital para se estabelecer a conexão entre a consciência e a matéria, ou
entre a consciência e a imaterialidade, dependendo de como a matéria for compreendida em
suas múltiplas dimensões.
A expansão consciencial leva a estados incomuns que ocorrem numa sequência de
estados conscienciais que se alternam, como por exemplo: o estado de vigília, de relaxamento

46
Studies of Advanced Stages of Meditation - Advance Access Publication, 31 of July 2006.
47
Optou-se por utilizar os acrônimos em inglês, ou seja: OBE (out of body experience) e NDE (near death
experience).
80

leve, de relaxamento profundo, de sono, sono com sonho, de sono lúcido, de arroubo, de
transe, etc. Em alguns desses estados a consciência parece viajar para além dos limites do
corpo, e às vezes do tempo, quando então se diz que o fenômeno OBE ocorre.
Este fenômeno não é raro. Cerca de 30% das pessoas já tiveram pelo menos uma OBE
durante suas vidas, e na maioria das vezes, o fenômeno parece ter início em um estado de
relaxamento profundo (menos comum), durante o sono (mais comum) e durante uma parada
cardiorrespiratória ou experiência de quase-morte (NDE).
48

O estado de OBE tem duas características principais: A primeira é a percepção de estar
consciente, em um espaço consciencial que não é o do seu corpo físico. Ou seja, além de estar
fora do corpo, sabe-se estar em outra dimensão que não é a dimensão usual de vigília.
A segunda é o componente noético associado à maioria dos estados incomuns de
consciência, ou seja, o sujeito que experiencia o fenômeno, entra em contato com realidades
que não estão presentes no estado comum de vigília. Também é possível que durante uma
OBE, a consciência reaja ao que esteja sendo vivenciado, de maneira diferente de como
normalmente agiria no estado comum de vigília, denotando uma mudança de comportamento,
gostos e interesses. Por outro lado, às vezes a consciência parece estar ao mesmo tempo fora
do corpo e no corpo, (bilocação?) vivenciando simultaneamente conteúdos que não são
acessíveis no estado de vigília.
49

Segundo Ridder (2007, p. 1829-1833):
Sensações semelhantes a uma OBE foram relatadas por pacientes que
tiveram eletrodos implantados no cérebro - para suprimir o zumbido auditivo
(tinnitus) - durante a estimulação da circunvolução temporal superior. O
estudo efetuado com tomografia de emissão de pósitrons (PET) mostrou
ativação da junção temporo-parietal que provoca um fenômeno conhecido
como 'doppelgänger', ou seja, a presença de um duplo que se exterioriza, o
que sugere que a ativação dessa região é a correlata neural do fenômeno de
desincorporação da consciência, como ocorre na OBE.
50

Tart, durante seus estudos de graduação no MIT, em 1957, tentou induzir OBE em
voluntários hipnotizados, sugerindo que estes saíssem de seus corpos e fossem até uma casa
nos arredores de Boston, para identificar objetos colocados no porão por dois parapsicólogos.
Entretanto, o resultado não foi conclusivo, apesar de os voluntários terem descrito objetos
semelhantes àqueles colocados para identificação; segundo o autor os relatos foram muito
subjetivos para serem considerados como evidência do fenômeno OBE (Tart, 2009, p. 197).

48
Hallman. “A Multidimensional model of the released state of consciousness - Subtle Energies and Energy
Medicine”. 18(3) PP. 89-111. 2007.
49
Experiência vivencial do autor.
50
Visualizing out-of-body experience in the brain. (Massachusetts Medical Hospital. N. Engl. J. Med).
81

Charles Tart comenta mais cinco casos de OBE (ibidem, p. 199-220): O primeiro caso,
que ele denomina o caso da senhorita 'Z', foi de uma moça que trabalhava como 'baby sitter'
de seus filhos. Segundo seu relato, quando criança, ela por várias vezes ao dormir sentiu-se
flutuando perto do teto do quarto, e ao olhar para baixo sempre via seu corpo deitado na cama.
Nessa época, ela achava que isso era normal, ou seja, todo mundo ao dormir sonhava, e
flutuava fora do corpo, pelo quarto. Mais tarde, na adolescência, ao conversar com colegas
percebeu que, sair do corpo e flutuar não era normal e, então parou de falar sobre o assunto
para não parecer uma 'esquisita'. Tart explicou-lhe o que era uma OBE, falando da diferença
entre uma verdadeira percepção extracorpórea e uma alucinação, ou fantasia. A senhorita 'Z'
ficou entusiasmada e perguntou como ela poderia fazer para saber qual era o seu caso. Então,
Tart sugeriu que ela escrevesse números de 1 a 10 em tiras de papel, e sem olhar escolhesse
um, ao acaso, deixando sobre seu criado-mudo. Assim, se ela tivesse uma OBE, e olhasse para
baixo, veria o número escrito, e no dia seguinte poderia confirmar se o número visto estava
correto. Quando Tart a encontrou semanas depois, ela contou haver feito a experiência por
sete vezes, tendo acertado o número em todas elas, o que a convenceu de ter estado fora do
corpo realmente. Então ele decidiu fazer com ela um experimento controlado no laboratório
de sono, para estudá-la e monitorar suas funções vitais durante um OBE.
Segundo Tart (2009, p. 200):
Em cada noite no laboratório, após ela deitar-se, os registros fisiológicos
eram monitorados satisfatoriamente (resistência elétrica da pele, movimento
rápido dos olhos, pulso e pressão arterial). Então, Tart gerava cinco dígitos
através de uma sequência aleatória. Os números eram escritos em uma tira
de papel, com tipos de cerca de cinco centímetros de altura. A folha era
colocada sobre uma prateleira no alto da parede, sob um relógio. Ela não
tinha nenhum acesso ao papel, a menos que saindo do corpo pudesse lê-lo,
ver as horas e ao acordar relatar o que foi visto. Em quatro das noites ela
reportou três claras percepções de estar flutuando no quarto, e duas
completas OBE. Em todos os casos suas funções fisiológicas foram normais,
o que evidenciou que em nenhum momento ela esteve perto de ter uma NDE.
O eletro-encefalograma mostrou que durante os momentos de OBE, os
registros mostraram uma atividade compatível com sono leve com sonhos - o
que ele denominou estágio 1 -, permeados por breves períodos de vigília
plena. Nas três primeiras noites, ela reportou ter estado fora do corpo, sem
conseguir controlar seu comportamento para colocar-se na posição que
permitisse ver o papel com os números, que a cada dia eram aleatoriamente
trocados. Na quarta noite, as 5h57, da madrugada, houve um período de
sete minutos em que o eletro-encefalograma detectou um registro ambíguo,
algumas vezes semelhante ao estágio 1 do sono, e outras vezes semelhante a
um breve estado de vigília. Nesse momento, ela acordou e reportou através
do comunicador que o número visto era 25132, exatamente o número que
havia sido colocado sobre a prateleira. As chances de ela ter acertado, por
acaso, eram remotas, cerca de cem mil por um.
82

No final do relatório, Tart menciona que consultou um experiente mágico amador e
também parapsicólogo do Instituto Transpessoal de Psicologia, para junto com ele visitar o
laboratório na busca de alguma possibilidade de fraude. Segundo Tart, nada foi encontrado de
suspeito (Tart, 2009, p. 204).
Do exposto, e segundo o entendimento do autor desta monografia, o senhor Tart
cometeu um equívoco metodológico, pois o correto teria sido convidar o especialista para
participar do delineamento do experimento, na busca de pontos de risco e possíveis
possibilidades de equívoco ou fraude, e não para inspecionar condições que não mais eram
passíveis de serem verificadas ‘a posteriori’. O delineamento de qualquer experimento, seja
psíquico ou não, deve levar em conta todos os critérios que devem ser colocados sob controle
estrito, para que, satisfeitas as condições pré-estabelecidas, o experimento possa ser validado.
Tart relata mais três casos que lhe foram contados por Robert Monroe (1915-1995),
que escreveu três livros clássicos sobre o assunto: 'Journey Out of Body (1971), 'Far Journeys'
e 'Ultimate Journey', no quais o autor se descreve como um típico homem de negócios que
acabou indo para o mundo das OBEs e dos fenômenos psíquicos, devido a uma série de
estranhos 'ataques de vibrações' no final dos anos cinquenta, às quais culminaram com
algumas experiências e relatos de OBE (Tart, 2009, p. 208).
Tart descreve oito sessões noturnas efetuadas com Monroe - entre Dezembro de 1965
a Agosto de 1966 -, no laboratório de EEG do Hospital da Universidade da Virgínia.
Segundo Tart (2009, p. 211):
Esse laboratório não estava realmente equipado para um trabalho de sono
[ou com as facilidades de um laboratório de sono], por isso durante a maior
parte do tempo Monroe não se sentiu confortável sobre a cama portátil
instalada no local, e não foi capaz de produzir os fenômenos de OBE [sic].
Na opinião do autor desta monografia, novamente parece ser uma experiência mal
delineada, pois as condições do laboratório deveriam ser avaliadas ‘a priori’, para assegurar a
adequação ao experimento. Esses cuidados devem fazer parte do protocolo de qualquer
experimento bem delineado, uma experiência que o autor teve em 30 anos de pesquisa em
físico-química. No livro citado, Tart cita mais dois relatos de estudos com Monroe, também
subjetivos e inconclusivos, além de outro estudo de indução de OBE efetuado através de
hipnose, no ano de 1970, no qual ele nada descreve de relevante, mesmo porque, afirma ter
jogado fora a maioria dos dados coletados no estudo, após sua aposentadoria da Universidade
da Califórnia (Tart, 2009, p. 220).

83

Segundo Tart (2009, p. 220-224):
Após décadas de reflexão sobre os meus resultados e de outros,
particularmente sob a luz de meus estudos gerais sobre a natureza da
consciência e dos estados alterados de consciência, eu tenho uma melhor
visão do que seja o fenômeno OBE, que incluem tanto a possibilidade de
uma exteriorização 'fora do corpo', quanto à possibilidade de uma
alucinação. Então, meu melhor palpite como teoria é que, em alguns casos
de OBE, a mente pode - pelo menos parcialmente estar localizada em outro
lugar além do corpo físico -, e ter percepção do local extracorpóreo, por
alguma outra forma de ESP.
Percebe-se que como em todo fenômeno subjetivo, a investigação das OBEs apresenta
certa dificuldade, o que exige perícia por parte do pesquisador, e também alguma sorte para
que o fenômeno ocorra no momento certo. A maior dificuldade é devido ao fato de não se
saber qual é a natureza do princípio que se projeta, e por outro lado, não se ter nem o
paradigma correto para conceituar e modelar o fenômeno, tampouco às ‘ferramentas’ corretas
para uma investigação científica. Será que o princípio que se projeta transcende a dimensão
física do espaço de vigília, penetrando em outra dimensão?
Segundo Kaleb (2009, p.1)
51

Uma concepção sistemática e empírica das anomalias perceptuais
experienciadas nos estados hipnagógicos, e a distinção destas anomalias em
classes discretas de experiências, não pode ser realizada até que se tenha um
sistema igualmente sistemático e conceptual da consciência em seus muitos
níveis [...], em outras palavras, para estudar a anomalia, devemos primeiro
compreender o meio em que ela ocorre.
NDE – O ESTADO DE QUASE-MORTE: - As experiências de quase-morte são um
assunto controverso, tanto sob o ponto de vista filosófico e espiritual, quanto sob a ótica das
neurociências.
Segundo Marino Jr. (2005, p. 97):
Várias situações clínicas têm sido descritas como causadoras desse estado
insólito, como parada cardíaca (morte clínica), choque hemorrágico, trauma
craniano ou hemorragia intracraniana, asfixia e/ou afogamento, acidentes,
avalanches de neve, queda de altura, desbalanço eletrolítico grave, liberação
de endorfinas e endopsicocinas, assim como doenças graves, como câncer
terminal e falência cardíaca ou pulmonar.
Conforme cita o autor, até meados dos anos 70, esses fenômenos eram extremamente
raros, porque não existiam as modernas técnicas de ressuscitação, tais como as terapias
intensivas e o respirador automático, que 'ressuscitaram' muitos pacientes no limiar da morte
para que estes relatem suas experiências.
Entretanto, a partir dos anos 70, o aumento de relatos de NDE começou a despertar o

51
Transitory Perception and out-of-body Experience. (Proseminar in Transpersonal Psychology, 2009).
84

interesse dos pesquisadores de fenômenos psíquicos, o que deu origem à fundação de várias
associações e grupos de estudo, como a IANDS, “The International Association for Near-
Death Studies” (1981), órgão que congrega cerca de 50 grupos de estudos sobre NDE, e é
responsável pela publicação de uma revista especializada
52
, e a ''Near Death Experience
Research Foundation', com cerca de 2000 textos publicados sobre relatos de experiências de
quase-morte.
O tema teve interesse popular após Raymond Moody publicar em 1975 o livro 'Life
After Life', um livro que deu origem a muitos outros livros, e milhares de artigos relatando
experiências de quase-morte.
Entre os pesquisadores que mais têm colaborado sobre o assunto estão: Dra. Elizabeth
Kubler-Ross, que publicou ‘On Life After Death’, e mais de 25 livros sobre o assunto, após
pesquisar mais de 20.000 casos de NDE, além de Kenneth Ring; Van Lommel e outros
(Marino Jr. 2005).
Em 1982 o Instituto Gallup investigou 1500 casos de NDE, em adultos, e os
resultados foram publicados no livro 'Adventure in Immortality'. A coerência entre os relatos
nos mostra que a maioria das experiências relatadas é comum a todas as pessoas (Ver Tabela
3.1).
Tabela 3.1 - Fonte: Marino Jr. (1985, p. 98)
RELATO %
Sensação de estar fora do corpo. 9
Percepção visual do ambiente e dos fatos ocorridos. 8
Ruídos audíveis produzidos pelas pessoas nas vizinhanças. 6
Sensação de paz indescritível, perda de sensação dolorosa. 11
Presença de uma luz deslumbrante de grande beleza. 5
Rápida visão da vida pessoal. 11
Sensação nítida de estar num mundo inteiramente diferente. 11
Sensação de uma presença muito especial. 8
Sensação de presença de uma espécie de túnel. 3
Premonição sobre eventos futuros. 2

A maioria dos entrevistados reportou que, após a NDE, houve uma grande
transformação em suas vidas. Elas se sentiram renascidas, passaram a buscar valores
espirituais como se estivessem sido iluminadas, e perderam o medo da morte.

52
The Journal Near-Death Studies.
85

Alguns relataram terem sentido (Marino Jr., 2005, p. 98):
1. Sensação permanente de ter consciência da importância de seus destinos,
o que intensificou antigas crenças religiosas.
2. Reconhecimento de como a vida é preciosa.
3. Sensação de urgência na reavaliação de suas prioridades, e em viver o
momento presente.
4. Mais aceitação dos eventos cotidianos.
3.9 - OS ESTUDOS DE PIN VAN LOMMEL
Lommel tem um dos mais completos estudos de NDE, e os publicou no artigo: “Near-
death Experience in Survivors of Cardiac Arrest - A Prospective Study in Netherlands”.
53

Nesse estudo, ele inclui o relato de 344 pacientes cardíacos que foram ressuscitados com
sucesso, depois de parada cardiorrespiratória, em dez hospitais holandeses.
Ele comparou dois grupos de pacientes que passaram por morte aparente. O primeiro
grupo foi constituído por pessoas que reportaram uma experiência de NDE, e o segundo grupo
de pessoas que não as tiveram. Este estudo foi prospectivo, e os pacientes foram entrevistados
após 2 e após 8 anos da ressuscitação.
Conclusões: 62 pacientes (18 %) reportaram terem dito uma experiência de NDE, e
entre estes 41 (12%), descreveram uma experiência significativa. A ocorrência da experiência
não pareceu ter correlação nem com a duração da parada cardiorrespiratória, nem com o
tempo de inconsciência, nem com os medicamentos, ou o medo da morte antes do ataque
cardíaco. A idade média dos pacientes foi de: (62,2 ± 1,6) anos, dentro de uma amplitude de
26 - 96 anos. Quanto ao gênero, 251 (73%) eram masculinos e 93 (27%), eram femininos.
Dos 344 pacientes, 247 (74%) foram entrevistados dentro de cinco dias após a
ressuscitação cardiorrespiratória. Dos 344 pacientes, 296 (86%) nunca haviam tido um infarto
anterior, enquanto 48 (14%) reportaram já terem tido infartos anteriores.
Quase todos foram tratados com fentanil e uma preparação combinada de fentanil e
dehidrobenzoperidol, medicamentos que têm ação sedativa e antipsicótica. 45 pacientes
receberam sedação com diazepam ou oxazepam, e 38 pacientes receberam midazolam
(Dormonid) e haloperidol, um neuroléptico que bloqueia o sistema nervoso central.
Dos 344 pacientes, 234 (68%) foram ressuscitados dentro do hospital, e destes 190, ou
seja, 81% foram ressuscitados dentro de 2 minutos após a parada cardiocirculatória, embora o
período de inconsciência tenha se estendido por cerca de 5 minutos, na média. Trinta
pacientes foram ressuscitados durante a estimulação eletrofisiológica, tendo permanecido
menos que 1 minuto com parada circulatória, e menos que 2 minutos inconscientes.

53
The Lancet 2001; 358: p. 2039-2045.
86

Dos 344 pacientes, 101 (29%) foram ressuscitados fora do hospital e 9 deles a
caminho do hospital. Desses pacientes 88 (80%) tiveram parada cardiocirculatória de 2
minutos e um período de inconsciência de mais de 10 minutos.
Conclusão: Do total de 344 pacientes ressuscitados, 62 (18%) relataram NDE, e entre
estes 21 (6%), relataram alguma lembrança difusa, 18 (5%), relataram experiências
moderadamente profundas, 17 (5%), relataram experiências profundas, e 6 (2%), relataram
experiências muito profunda (Tabela 3.2).
Tabela 3.2 – Relatos de NDE reportados van Lommel
EVENTOS REPORTADOS DURANTE A NDE (VAN LOMMEL 2001)
Relato: N %
1 – Consciência de estarem mortos 31 50
2 – Emoções positivas 35 56
3 – Experiência Fora do Corpo 15 24
4 – Movimento através de um túnel 19 31
5 – Comunicação com 'a Luz' 14 23
6 – Observação de cores 14 23
7 – Observação de uma paisagem celestial 18 29
8 – Encontro com pessoas mortas 20 32
9 – Visão retroativa da vida 8 13
10 – Percepção de uma fronteira entre dois mundos 5 8
Da pesquisa longitudinal após 2 e 8 anos, van Lommel recolheu as seguintes
conclusões: a) Dos pacientes sobreviventes, quase todos mantiveram o relato inicial. b) Dos
62 iniciais, 19 haviam falecido e 6 se recusaram a serem entrevistados. Assim, somente 37
pacientes foram ouvidos após 2 anos, e todos se lembravam exatamente de suas experiências
com detalhes. c) Após 8 anos, somente 26 estavam vivos e também mantiveram seus relatos
iniciais com exatidão.
Concluindo, van Lommel afirma que os fatores e as intervenções médicas não
explicam, tampouco concorrem para a ocorrência das NDE, porque 82% dos pacientes que
também tiveram parada cardiorrespiratória e foram submetidos a um mesmo processo de
ressuscitação não relataram nenhuma NDE, sendo pouco provável que o fenômeno tenha sido
ocasionado por fatores medicamentosos ou fisiológicos, como por exemplo, o processo de
anoxia cerebral. Observa-se que a frequência dos pacientes que reportaram uma experiência
de NDE varia de estudo para estudo, e parece depender de como a questão é abordada pela
equipe médica.
87

Segundo Cook, E. W, et al.
54
- No artigo publicado pelo 'Journal of Scientific
Exploration', (1998, vol. 12, No. 3, pg. 377-406), os autores sustentam a tese de que as NDE
proporcionam evidencias de que a consciência sobrevive à morte do corpo físico.
A pergunta no título de nosso artigo pode parecer inapropriada, ou mesmo
gratuita, para a maioria das pessoas que tiveram uma experiência de quase-
morte, pois estas NDEs os convenceram de que a morte é uma transição para
um tipo diferente de vida, e não o fim da vida. Por outro lado, para a maioria
das pessoas que não tiveram uma experiência desse tipo, a questão proposta
no título irá parecer não somente uma questão central, mas também das mais
importantes que alguém pode fazer a respeito desses fenômenos.
Os interesses nas NDEs têm sua origem na crença de que elas ocorrem quando uma
pessoa está clinicamente morta, e ao regressar da morte, relata uma breve antevisão do que
nos espera após a morte. De fato, essas experiências são os únicos relatos que temos do
processo da morte, sob a perspectiva do próprio paciente.
O artigo citado reporta 14 casos, que mostram características bem semelhantes àquelas
reportadas por van Lommel.
Segundo Cook (1998, p. 379):
Indivíduos que relataram uma experiência de NDE usualmente a descrevem
como sendo muito diferente de um sonho, e a vivência sensorial percebida
durante a experiência é consideravelmente mais clara e lúcida, igualando ou
mesmo superando aquelas do estado de vigília.
Por outro lado, e contrário à crença popular, essas experiências podem ocorrer com
pessoas que não estão seriamente doentes, ou até com pessoas muito saudáveis (Cook, 1998,
p. 379).
Stevenson e Cook no 'Journal of Nervous and Mental Disease' (1995, 183(7): pg. 452-
458), reportaram 122 casos de pessoas que ficaram doentes, ou mesmo estiveram perto da
morte, e relataram terem tido lembranças de momentos importantes de suas vidas. O número
de lembranças relatadas variou na maioria dos casos entre uma e duas ocorrências. Algumas
pessoas relataram terem tido a 'visão' de vários eventos em sequência, como um filme,
evidenciando um significativo aumento da percepção cognitiva, quando de fato, o que se
esperava era um declínio, visto que elas apresentavam uma significativa diminuição das
funções fisiológicas devido às circunstâncias do momento. Esta situação paradoxal pode
sugerir a independência da consciência com relação ao processo fisiológico cerebral, como
atualmente a maioria dos neurocientistas acredita. Um estudo intercultural de NDE efetuado
pelos autores suporta esta ideia.

54
Emily Williams Cook, Bruce Greyson e Ian Stevenson: 'Do Any Near-death Experience Provide Evidence for
the Survival of Human Personality After Dearth? (University of Virginia, Charlottesville)
88

Embora a maioria dos casos estudados tenha ocorrido em hospitais do ocidente,
alguns pesquisadores de NDE têm estudados casos relatados em outras culturas para verificar
se as percepções relatadas são primariamente eventos visionários aparados pelas crenças de
determinadas culturas ou um fenômeno universal.
55
Como resultado desta revisão, concluiu-se
que, de longe, o número de casos relatados nas culturas não-ocidentais é menor que os
relatados na cultura ocidental, e talvez uma das razões para isto seja a ineficiência dos
métodos de ressuscitação usados em alguns países do oriente.
Por outro lado, Christopher C. French, em seu artigo para a revista ‘The Lancet’
(2001, vol. 358. Dezembro 15, 2001, p. 2010), “Dying to Know the Truth: Visions of a Dying
Brain, or False Memories?”, ao citar a tese de Parnia e Fenwick,
56
de que as percepções das
NDE poderiam ser lembranças do período de recuperação do cérebro durante o processo de
ressuscitação, lembrou que esta explicação é improvável, porque muitos relatos mencionavam
detalhes minuciosos de eventos que haviam ocorrido durante a fase de parada
cardiorrespiratória, quando então o paciente relatou ter visto 'de cima' seu corpo ser atendido
pela equipe médica, o que sugere um fenômeno de 'experiência fora do corpo' (OBE), durante
a NDE. Esta tese está de acordo com a definição de que o fenômeno de NDE é uma
experiência na qual a pessoa parece perceber a realidade de uma posição fora dos limites do
corpo físico. Portanto, a OBE é um fator importante e concomitante com as NDE.
Para testar a hipótese de que o paciente poderia saber o que ocorreu durante seu
atendimento clínico, Parnia e colegas, colocaram cartões fixos e ocultos, nas proximidades do
forro da sala de emergência, na expectativa de que um dos pacientes, ao sair do corpo durante
a fase de ressuscitação, visse o cartão e relatasse o que ele continha. Nenhum dos quatro
pacientes estudados relatou algo, pois nenhum deles teve uma OBE durante a NDE, ou se teve
não se lembrou dela. Portanto, remanesce a questão: Será que durante o impacto do fenômeno
de OBE - NDE, as emoções vividas pelo sujeito iriam permitir que, mesmo estando fora do
corpo, ele concentre sua atenção em qualquer outra coisa além da sua própria experiência? É
importante refletir sobre esta questão motivacional e, diria até circunstancial, porque o autor
desta monografia já teve algumas experiências de OBEs, e em nenhuma delas mostrou ter os
mesmos interesses e curiosidades pelas coisas ao redor, que se têm quando no estado de
vigília. Ou seja, a experiência pode subjetivamente desviar a atenção da necessidade de

55
Becker. (1984); Feng Zhi-ying & Liu Jian-xun (1992); Pasricha (1993); Pasricha & Stevenson (1986); Zaleski
(1987).
56
Parnia S, Waller DG, Yeates R, Fenwick P. “A Qualitative and Quantitative Study of The Incidence, Feature
and Aetiology of Near-death Experience in Cardiac Arrest Survivors. Resuscitation 2001; 48: p. 149-156.
89

posteriormente comprovar e relatar o evento, procurando indícios e provas para tanto.
De acordo com van Lommel (Lommel apud French 2001, p. 2010), alguns
mecanismos neurais poderiam atuar para 'preencher o vazio' durante o período de inatividade
cortical. Eles reportaram que, após dois anos de acompanhamento, quatro dos 37 pacientes do
grupo de controle, que não haviam reportado nenhuma NDE, afirmaram que eles as tiveram.
Apesar de estes pacientes representarem menos que 1% do total estudado por van Lommel,
eles representam cerca de 10% do grupo de controle. O que aconteceu? Teria havido uma
supressão inconsciente de memória logo após o trauma da ressuscitação e esta, se recuperada
no decorrer do tempo, ou relato posterior teria sido fruto de uma fantasia? Van Lommel e
colegas sugerem que esses pacientes podem ter estado incapacitados para descreverem suas
NDE na primeira entrevista, mas não há como saber o que pode ter concorrido para tanto.
3.9 - O CASO PAM REYNOLDS
Este é sem dúvida um dos casos mais importantes já relatados de NDE, pois toda a
experiência ocorreu sob um controle estrito de uma equipe médica. O caso foi relatado por
Michael Sabom, que foi o médico cardiologista de Pam Reynolds (Sabom, apud Charles Tart
2009, p. 230-238).
57

Pam, nascida em 1956, é compositora e cantora norte americana. Em 1991, aos 35
anos, ela foi diagnosticada como tendo um gigantesco aneurisma arterial basilar, e necessitou
de uma cirurgia para sua remoção. Devido à localização do aneurisma, um local de difícil
acesso, por estar perto da base do cérebro, seu cirurgião, o doutor Robert F. Spetzler do
“Barrow Neurological Institute”, em Fênix no Estado do Arizona, decidiu que a cirurgia
somente poderia ser efetuada com auxílio de uma técnica de hipotermia, com concomitante
parada cardiorrespiratória, uma intervenção para a paralisação das funções vitais. Durante
todo o processo, a temperatura corporal de Pam deveria ser reduzida e mantida entre 10 e 16
0
C, quando então sua respiração e seu batimento cardíaco seriam parados e o sangue
completamente drenado de seu cérebro. Nesse estado, uma pessoa é considerada clinicamente
morta.
Seus olhos foram cobertos com uma máscara, pequenos fones foram colocados em
seus ouvidos, com o objetivo de gerar um 'clic' audível e intermitente de 100 decibéis, para
controlar a função cerebral. Se seu cérebro estivesse inativo, ela teria uma resposta eletro-
encefalográfica plana, ou seja, sem indício de atividade neural, o que era rigorosamente

57
The End of Materialism. New Harbinger Publications Inc. CA. 2009.
90

necessário para a cirurgia.
Com vários instrumentos ligados ao corpo de Pam, para monitorar sua condição, teve
início a anestesia. Uma sonda foi colocada no seu esôfago, para monitorar a temperatura
corpórea, e outras sondas monitoravam continuamente sua atividade cerebral.
Após cerca de uma hora e meia de preparação, o Dr. Spetzler iniciou a cirurgia,
abrindo uma pequena incisão no escalpo, para expor o crânio de Pam. O cirurgião usou uma
serra pneumática de ossos para abrir uma passagem no crânio.
Posteriormente ela relatou (Tart, 2009, p. 231-232):
A primeira coisa que recordo foi um som, um som semelhante ao dó natural.
Ao ouvir esse som, fui puxada pelo topo de minha cabeça. Quanto mais fora
de meu corpo eu estava, mais claro se tornava o tom de dó natural. Eu tive a
impressão de um som de estrada, uma frequência que passa por você...
Como ela estava com os ouvidos bloqueados pelo fone de ouvido, anestesiada e sem
atividade cerebral, não poderia estar ouvindo nada, nenhum som. Pam continua expondo sua
vivência (ibidem):
[…] ao olhar para baixo, eu recordo ter visto muitas coisas na sala de
operação. Eu me sentia mais lúcida, do que jamais me senti em toda a minha
vida. Me vi metaforicamente sentada sobre os ombros do Dr. Spetzler. Não
era uma visão normal, era uma visão mais clara e mais lúcida que as visões
normais que sempre tive. Havia muitas coisas e pessoas na sala cirúrgica,
mas eu não consegui reconhecê-las. Em um momento me surpreendi pela
forma que rasparam a minha cabeça. Eu esperava que raspassem tudo, mas
eles não o fizeram.
Então ela relatou que viu o que fazia o barulho, era um instrumento parecido com sua
escova dental elétrica. Mais tarde, quando lhe mostraram uma broca elétrica, ela reconheceu a
semelhança com sua escova dental. Ela reconheceu também ter visto as lâminas
intercambiáveis que estavam guardadas em um estojo ou caixa, que ela relatou ser parecido
com o estojo de ferramentas de seu pai (ibidem).
Alguém disse algo sobre minhas veias e artérias serem muito pequenas. Eu
acredito que foi uma voz feminina, talvez o Dra. Murrey, mas não tenho
certeza. Eu me lembro de ter pensando que eu devia ter-lhes avisado sobre
minhas veias..., e também me lembro de ter visto a máquina coração-
pulmão, além de outros equipamentos que não sei para que poderiam servir.
De fato, uma cirurgiã cardíaca que estava localizando a artéria femoral na virilha
direita de Pam, disse que a artéria era muito estreita para o grande fluxo de sangue que seria
necessário drenar para alimentar a máquina de circulação externa cardiopulmonar. Mas Pam
não poderia saber disso, pois estava clinicamente morta, com a temperatura corporal reduzida
e o cérebro esvaziado de seu conteúdo sanguíneo.
91

A cirurgia foi um sucesso, e após a sua recuperação, ela relatou outras vivências que
teve durante a cirurgia. Em algum momento durante a cirurgia ela relatou ter sentido uma
presença, e então, se sentiu puxada em direção a uma luz. À medida que se aproximou da luz,
esta ficava mais intensa, e então ela começou a discernir figuras na luz, incluindo sua avó, seu
tio, outros familiares falecidos, além de pessoas desconhecidas.
Quanto mais ela se sentia ali, mais alegre ficava. Mas em dado momento, lembrou-se
de que precisava voltar, e então sentiu seu tio trazendo-a de costas para seu corpo. Mas, ao
olhar o corpo ela hesitou, e por um momento, não quis voltar para dentro dele. Seu tio tentou
orientá-la, mas ela permaneceu confusa. Então, ela viu seu corpo ser balançado –
provavelmente um tranco causado pelo desfibrilador, para induzir os batimentos de seu
coração -, e nesse momento, ela sentiu que seu tio deu-lhe um empurrão e ela viu-se de novo
entrando no corpo.
Segundo Pam Reynolds (Pam, apud Tart, 2009, p. 237):
Minha avó não me levou de volta através do túnel, ou mesmo enviou-me ou
tentou fazê-lo. Ela somente me olhou. Eu esperava ir com ela, mas foi-me
comunicado que ela não tinha a intenção de fazer isso. Meu tio disse que ele
o faria. Foi ele quem me levou de volta para o fim do túnel de luz. Estava
tudo bem, mas eu não queria ir. Mas então, eu cheguei ao fim do túnel, e vi a
coisa, meu corpo. Eu não queria entrar nele [...]. Ele parecia horrível, como
um 'trem destruído'. Ele parecia o que de fato era, um corpo morto. Eu
acredito que ele estava coberto. Ele me assustava, e eu não queria olhar para
ele. Disseram-me que era quase como pular em uma piscina. “Sem
problemas - disseram -, somente pule para dentro da piscina”. Eu não queria,
mas parece que agora já era tarde, porque ele (o tio) me empurrava. Eu senti
uma forte repulsa e ao mesmo tempo uma atração corporal. O corpo atraia, e
o túnel estava empurrando...., era como nadar numa piscina de água gelada
[...], isto dói.”
Pam Reynolds havia entrado na sala cirúrgica às 7h15, e a operação terminou às
14h10 quando ela recobrou os sentidos. Pelo seu relato, e sincronicidade com as ocorrências
externas e relatadas, sua NDE durou das 8h40 às 12h00.
O cronograma de registro do tempo durante a cirurgia mostra que todos os relatos
ocorreram após o procedimento anestésico e o corpo resfriado. Assim, os eventos relatados
ocorreram após a completa paralisação das atividades cerebrais, tanto pelo resfriamento
corporal, quanto pelo concomitante esvaziamento sanguíneo do cérebro para procedimento
cirúrgico. Mais tarde, quando ela declarou ter ouvido a canção 'Hotel Califórnia', que estava
sendo ouvida na sala cirúrgica, eram 12h32, e neste momento, ela ainda estava em estado de
hipotermia, com temperatura corporal de 32
0
C. De fato, ela somente iria recobrar a
consciência às 14h10.
92



3.10 - CONCLUSÃO DO CASO PAM
Não há outro espetáculo maior que o mar, além do céu; não outro espetáculo
maior que o céu, além do interior da alma. (Victor Hugo, Les Misérables)
Se o corpo de Pam foi resfriado a 15 C, uma temperatura na qual os processos vitais
cessam, e ela estava sem circulação e com o coração paralisado, como poderia saber o que
ocorreu durante a cirurgia? Podemos aceitar os fatos que ocorreram como uma evidência da
independência entre a consciência e o corpo?
Ainda não temos as respostas. Ainda não temos dados suficientes para comprovar que
é possível a sobrevivência do ser cognoscente à morte biológica de seu corpo, mesmo que,
para quem passou pela experiência, não haja dúvida. A experiência pessoal é subjetiva e não
serve como prova para convencer quem não a teve.
Em verdade, as conclusões ficam por conta de cada um, embora neste caso, os
indícios de uma OBE sejam fortes o suficiente para no mínimo, ser um estimulo à busca de
novas provas que possam ser consideradas como evidências objetivas.
E, como diz o ditado, para quem crê meia palavra basta, mas para quem não crê, não
há explicação que convença. A questão parece somente ter solução no plano individual, em
que o ser experimenta, sente, sabe e não tem dúvida do que sentiu, viu e vivenciou.
Infelizmente, uma experiência inefável, exclusiva e não compartilhável com seus pares.
Segundo Kokoszka (2007, p.75):
Percebe-se que a cultura ocidental perdeu a habilidade de alcançar altos
níveis de desenvolvimento e, conseqüentemente, altos estados de
consciência. Esta situação é descrita por meio de uma metáfora, que envolve
um paradoxo, pois os altos estados de consciência e os estados místicos
também ocorrem na prática de outras culturas. Assim, a tentativa de unir as
tradições orientais à psicologia ocidental, deu origem ao desenvolvimento da
denominada psicologia transcendental, a qual aceita a existência de uma
realidade humana para além da personalidade, e de seus condicionamentos
psicológicos, seus hábitos, sua identificação psicológica e sua estrutura de
ego.
Os estados conscienciais incomuns são uma realidade, e mostram que existe toda uma
realidade oculta à nossa percepção comum. Alguns estados incomuns se manifestam pela
meditação, após longos anos de prática, outros pelo uso de enteógenos, que mais facilmente
nos mostram dimensões conscienciais ocultas, episódios isolados, como os fenômenos de
projeção da consciência (OBE-NDE) em situações incomuns de transe, de sono profundo, ou
93

de parada cardiorrespiratória, nos sugerem a possibilidades da vida ser algo que transcende os
limites da materialidade.
A descrição de uma realidade imaterial além da nossa compreensão nos faz repensar o
que de fato sabemos sobre nós mesmos, e sobre o mundo que nos cerca, o que deixa claro que
o modelo de realidade oriundo da percepção sensorial não nos mostra a verdade, mas somente
nos mantêm presos na 'Caverna de Platão’.
94

CAPÍTULO 4. - A NATUREZA DO MUNDO FÍSICO
ESPAÇO, TEMPO E MATÉRIA
Abrir os nossos olhos para a verdadeira natureza do Universo sempre foi um
dos propósitos essenciais da física. É difícil imaginar uma experiência mais
capaz de abrir nossas mentes do que a de aprender, como fizemos ao longo
do último século, que a realidade que vivenciamos é apenas um pálido
vislumbre da realidade que existe (Greene, 2005, p. 28).
4.1 - INTRODUÇÃO
A física é a ciência que trata da natureza da matéria, da energia e de suas inter-relações
no espaço e no tempo. Como tal, ela é uma ciência fundamental para o estudo de todos os
fenômenos que vão do micro ao macrocosmo, procurando descrever a realidade através da
elaboração de modelos conceituais que sirvam de paradigma para a sua compreensão.
Portanto, é esta ciência que nos traz o conhecimento da natureza da realidade em sua
mais profunda dimensão, uma dimensão cujo conteúdo - se é que se possa falar em conteúdo
neste contexto -, está além da mais ousada e criativa imaginação.
A física, desde os seus primórdios, tem revelado a realidade por camadas cada vez
mais profundas, dos planetas aos átomos e destes aos elementos que o constituem.
A primeira grande revolução científica teve início com Nicolau Copérnico (1473-1543) e
Johannes Kepler (1571-1630), o primeiro com a exposição do sistema heliocêntrico e o
segundo, com as leis do movimento planetário. Na mesma época, Galileu Galilei (1564-
1642) efetuou alguns experimentos clássicos sobre o movimento dos corpos, estabelecendo o
princípio da inércia, e por seus trabalhos no desenvolvimento da mecânica (cinemática e
dinâmica) e da astronomia, é considerado o pai da física clássica. A esses gigantes da ciência
seguiram-se Isaac Newton (1642-1726), que enunciou as leis da mecânica e a teoria da
gravitação, e algumas décadas depois Michael Faraday (1791-1867) e James Maxwell
(1831-1879), com o desenvolvimento das leis do eletromagnetismo, na mesma época em que
Sadi Carnot (1796-1832) estabelecia as bases da termodinâmica, completando o arcabouço
da física clássica.
Entretanto, no início do século XX, duas grandes revoluções científicas sacudiram o
mundo da física: as duas teorias da relatividade e a mecânica quântica, abrindo as portas para
a compreensão da realidade dentro de uma perspectiva completamente nova.
Com estas duas teorias, os físicos começaram a repensar a realidade dentro de um novo
contexto, que viria alterar de forma definitiva os conceitos de espaço, tempo e causalidade.
95

Foi o início de uma revolução filosófica. A inter-relação entre a física e a filosofia sempre foi
um tema palpitante, e com o advento de um novo cenário descrevendo a realidade, tornou-se
urgente a revisão de alguns pressupostos filosóficos.
Segundo Redhead (1995, p.17):
É preciso admitir que o tipo de questão abordado pelos filósofos da ciência
haveria de ser descartado por muitos físicos como irrelevantes em relação
àquilo que eles vêm fazendo - a saber, produzindo teorias simples, unificadas
e empiricamente adequadas acerca do mundo. Diriam os físicos que, ou
essas questões metafísicas surgem em resultado do envolvimento dos
filósofos com tecnicismos da física teórica – que eles nunca chegaram a
entender realmente - ou são os próprios físicos que, em alguns casos,
desviam-se e são enlaçados pela tentação de entregar-se à sofística sutil dos
filósofos, colocando questões insolúveis - um tema no qual não se pode
discernir progresso algum; no qual não há concordância generalizada acerca
das premissas a partir das quais se pode encetar um argumento; e no qual
cada posição imaginável já foi sustentada por algum grupo de filósofos e
igualmente refutada por outro grupo.
Entretanto, e como já mencionado, o objetivo da física e da filosofia é o mesmo, ou
seja, compreender a realidade. Portanto, é comum que o filósofo procure no saber da física
tanto a fonte de sua inspiração, como as evidências objetivas que podem dar sustentação e
guiar seu pensamento filosófico, que de fato algumas vezes confunde-se com uma metafísica,
que é o ramo da filosofia ‘situado’ além do conhecimento da física ortodoxa.
Na opinião do autor (Redhead, 1995, p. 13): “Por questões metafísicas entendo o tipo
de questão geral que nasce de um exame crítico dos princípios, conceitos e pressupostos
fundamentais que estão por detrás da física moderna”. Esta cumplicidade da filosofia com a
física moderna é importante tanto para a própria filosofia, como para metafísica, pois sem o
embasamento das evidências objetivas da física, a filosofia perde sua credibilidade e passa a
ser somente crença ficcional.
Entretanto, Redhead tem razão ao afirmar que, algumas vezes, pessoas pouco
cuidadosas (ou inescrupulosas) deixam-se levar pela ânsia de buscar na física os argumentos
que acham dar sustentação a seus devaneios, afirmando pseudo-verdades que a física não
endossa.
Portanto, o autor desta monografia alerta o leitor que, embora haja inúmeras
evidências na física da imaterialidade do mundo físico, da existência de dimensões ocultas, de
mundos-branas, de filamentos vibrantes no oceano de Higgs, etc., essas evidências da Teoria
M não sugerem a existência de seres incorpóreos e conscientes habitando essas outras
dimensões.
Entretanto, o autor desta monografia considera que - com base nos indícios dos
96

estados incomuns de consciência -, existe uma forte similaridade entre as dimensões
conscienciais acessáveis nos estados incomuns de consciência, e os mundo-branas (ou
dimensões ocultas) descritas pela física moderna como o ‘tecido da realidade’. Em ambos os
casos há uma simetria de imaterialidade, ou seja, ambas são dimensões imateriais que
possivelmente se espelham. No primeiro caso, há uma consciência criando uma ‘realidade’
sutil (e ilusória), tal como cria uma ‘realidade’ sutil e ilusória no estado de vigília. No
segundo caso, ou seja, na descrição das dimensões da ‘realidade física’, não há a necessidade
da consideração de presença de uma consciência cognoscente (pelo menos até agora).
A parte da física voltada para a investigação do ‘tecido da realidade’ (ou a estrutura da
matéria), é denominada Física de Partículas, uma área que contém os saberes da Física
Relativista e da Física Quântica, e tem por objetivo a compreensão da realidade ao nível de
sua estrutura última. Portanto, a Física de Partículas é uma área de pesquisa que investiga a
natureza da realidade, tal como ela é em si-mesma, independentemente de como ela seja
percebida através dos sentidos.
Segundo Greene (2004, p. 19):
A lição essencial que emerge das investigações científicas dos últimos anos é
a de que a experiência humana muitas vezes é um falso guia para o
conhecimento da verdadeira natureza da realidade (Greene, 2004, p. 19).
Segundo Lincoln (2005, p., XIV):
[...] há físicos interessados nas questões mais profundas e fundamentais
possíveis, como por exemplo: Qual é a natureza última da realidade? Ela é
constituída pelas menores partículas, ou quando se olha para escalas ainda
muito menores, o próprio espaço torna-se quantizado e os menores
constituintes da matéria podem ser mais propriamente compreendidos como
vibrações do espaço, a assim chamada hipótese das supercordas?
Sob ambos os aspectos, vemos que há uma convergência entre os objetivos dos físicos
e dos filósofos (ou metafísicos), porque ambos procuram descobrir o mesmo “santo graal”,
ou seja, compreender a natureza da realidade última. Os primeiros investigam a realidade pela
realidade, e os segundos questionam a realidade para uma compreensão maior do Eu (ou
consciência) que é o ser que pensa sobre esta realidade e dela faz parte. Entretanto, a
diferença é explicável. A física é uma ciência, e como tal, suas teorias têm compromisso com
as evidências experimentais,
58
o que limita as especulações que não tenham confirmação
empírica pela aplicação do método científico. A física não é baseada em opiniões ou crenças,
e o físico somente afirma o que sabe, e pode demonstrar através de experimentos precisos. Por
outro lado, nem os físicos, nem os filósofos (ou os metafísicos) têm um modelo para a

58
Obtidas nos aceleradores de partículas, como LHC da Organização Européia para Pesquisas Nuclear.
97

consciência de forma a poder integrá-la ao cenário teórico da física moderna. Entretanto,
muitos físicos, entre os quais o autor desta monografia se inclui, crêem fortemente que isto é
somente uma questão de tempo.
Segundo Donald Hoffman
59
(Hoffman, apud Rosenblum 2006):
Eu acredito que a consciência e seus conteúdos são tudo que existe. Espaço-
tempo, matéria e campos nunca foram os habitantes fundamentais do
universo, entretanto [eles] sempre têm estado, desde o seu início, entre os
mais humildes conteúdos da consciência, dependendo dela para suas
existências.
Como mencionamos anteriormente, sendo a física a ciência que mais se aprofunda na
investigação da realidade, ela aporta às outras ciências os conhecimentos que podem
contribuir para a confirmação ou a rejeição de seus pressupostos. É este o propósito desta
monografia, expor ao leitor não familiarizado com o formalismo da física, os conhecimentos
emergentes que podem ou não dar sustentação a um paradigma “espiritual” para o cenário dos
estados incomuns de consciência, sem sofismas e casuísmos, sugerindo novas abordagens
para a questão da vida e da dualidade espírito-matéria que se pretende demonstrar ser uma
falsa questão, ou seja, uma conjectura baseada na percepção humana, que não se fundamenta
na natureza intrínseca do tecido do cosmo.
Para alguns, a questão da dualidade espírito-matéria é algo que somente deve ser
discutida no âmbito da filosofia ou da religião. Entretanto é na ciência, e em particular na
física, que a compreensão da relação entre a matéria e o espírito pode ter mais clareza,
principalmente porque a pesquisa da natureza da matéria delineia uma realidade imaterial, um
conceito que converge na direção do conceito de espírito como algo etéreo e sutil, ou seja,
também imaterial.
Por outro lado, a física contemporânea nos mostra que, além da natureza da realidade
ser imaterial em sua essência, existe uma imbricação no tecido elementar do cosmo, que
sinaliza fenômenos anteriormente insuspeitos, como por exemplo, o efeito de não-localidade
exposto pelo experimento EPR, que vai ao encontro da unicidade descrita pelos místicos.
Segundo Greene (2005, p.103):
Uma série de experimentos realizados nas duas últimas décadas revela que
algo que fazemos em um lugar (como medir certas propriedades de uma
partícula) pode sutilmente emaranhar-se com algo que ocorre em outro lugar
(como o resultado da medição de certas propriedades de outra partícula
distante), sem que nada [nenhuma informação] seja enviado de um lugar ao
outro. Esse fenômeno, embora desafie a nossa intuição, é perfeitamente
compatível com as leis da mecânica quântica e foi previsto por elas muito

59
Neurocientista da cognição - Departamento de Ciências Cognitivas da Universidade da Califórnia.
98

tempo antes que a tecnologia pudesse propiciar-nos a sua verificação por
meio de experimentos.
Portanto, a realidade que se conhece no dia-a-dia, ou seja, o espaço, o tempo e a
matéria, mostram-se ser somente uma fatia da verdadeira realidade cuja complexidade e
estranheza têm deixado até os físicos perplexos. Assim sendo, vamos examinar o que a física
contemporânea sabe sobre o estofo do mundo físico, e ver como este conhecimento pode nos
auxiliar na compreensão do que é a realidade e de como ela expõe possibilidades que há
milhares de anos têm sido relatadas pelos místicos em suas vivências dos estados incomuns de
consciência, como a percepção de uma unicidade cósmica, retrocognição no espaço-tempo,
premonição de eventos futuros, etc.
4.2 – TEORIAS DA RELATIVIDADE E A MECÂNICA QUÂNTICA
4.2.1 Teorias da Relatividade
As duas teorias da relatividade, a restrita e a geral, sintetizaram o trabalho de vários
físicos e matemáticos. E, a título de crédito, não se pode deixar de mencionar que a Teoria da
Relatividade Restrita (ou Especial) publicada por Albert Einstein (1879-1955) em 1905, foi o
corolário dos trabalhos independentes de Albert Michelson (1852-1931), Hendrik Lorentz
(1853-1928) e Henri Poincaré (1857-1912). Michelson e Lorentz desenvolveram as leis de
transformação do espaço e do tempo para sistemas de coordenadas, que se movem em
movimento uniforme, e Poincaré foi quem desenvolveu o principio da relatividade em 1900,
sendo também o autor da famosa relação entre massa e a energia de uma onda
eletromagnética, assumindo que a energia eletromagnética é semelhante a um fluido fictício
de massa E = MC
2
, a tradicional formula de conversão entre massa e energia atribuída a
Einstein. (Schiller, 2006, p. 319).
Outro crédito importante deve ser dado a David Hilbert (1862-1943), que deduziu e
publicou as equações de campo gravitacional em 1915, três meses antes de Einstein ter
publicado o seu trabalho sobre a Teoria Geral da Relatividade.
60
Com essas observações, não
se tem a pretensão de desmerecer o trabalho de Einstein, mas sim, de fazer justiça aos físicos
e matemáticos que contribuíram decisivamente para sua obra.
A importância da teoria da relatividade restrita foi a mudança significativamente que
ela introduziu na percepção que se tinha até então do espaço e do tempo, duas categorias que
deixaram de ser absolutas e independentes, ou seja, as mesmas para qualquer observador em
qualquer referencial inercial, para formarem um contínuo espaço-tempo. Outra importante

60
Belated Decision in the Hilbert-Einstein Priority Dispute", SCIENCE, Vol. 278, 14 November 1997
99

conseqüência da teoria da relatividade restrita foi a generalização do ‘Princípio de
Relatividade de Galileu’, ao mostrar que a velocidade da luz é a mesma para todos os sistemas
de referência, independentemente do movimento da fonte luminosa, o que é uma inferência da
equação de Maxwell para a velocidade da luz, calculada com base em duas constantes
dimensionais, a permissividade eletromagnética do vácuo (µo) e a constante dielétrica do
vácuo (εo), que independem de um referencial (ver Eq. 4.1).
EQUAÇÃO 4.1
EQUAÇÃO DE MAXWELL PARA A VELOCIDADE DA LUZ
onde: µo = permissividade magnética do vácuo
εo = constante dielétrica do vácuo
=
1
õ


A principal decorrência da constância da velocidade da luz é a relatividade da
simultaneidade que mostra que, dois eventos observados simultaneamente por um observador
eqüidistante dos mesmos, não serão simultâneos quando observados por um segundo
observador que se mova em relação ao primeiro.
Do princípio da constância da velocidade da luz, decorre a relatividade do espaço e do
tempo. Sabe-se que a velocidade de um objeto é igual à distância percorrida dividida pelo
tempo, ou seja: v = d/t. Entretanto, a velocidade depende do referencial, por exemplo, se
alguém viaja de trem e anda pelo vagão, sua velocidade em relação ao trem é v (a velocidade
com que anda), mas em relação à terra é igual a soma da sua velocidade (v) com a velocidade
w do trem em relação à terra. Isto ocorre porque consideramos dois referenciais, um é o
referencial do trem (onde v é medido) e o outro, o referencial da terra (onde v + w são
medidos). No caso de um fóton luminoso, sua velocidade é sempre a mesma, pois como dito
anteriormente, ela independe do referencial. Então, se acendermos uma lanterna no trem em
movimento, a velocidade do fóton (luz da lanterna) será a mesma, quer seja medida no
referencial do trem ou no referencial da terra. Isto implica que nem o espaço, nem o tempo
são mais absolutos e devem variar. Esta variação não é perceptível (embora exista) em baixas
velocidades (poucos quilômetros por hora), mas é perceptível em velocidades que se
aproximam da velocidade da luz (c = 1.080.000.000 km/ hora).
Assim sendo, de acordo com as transformações de Lorentz, o espaço se contrai na direção do
movimento e o tempo se dilata, ou seja, passa mais devagar (Eq. 4.2).
100

TRANSFORMAÇÃO DE LORENTZ – EQUAÇÃO 4.2
DILATAÇÃO DO TEMPO
A =
A

1 −(

)
2

CONTRAÇÃO DO ESPAÇO
=


1 −(

)
2

A dilatação do tempo, e a contração do espaço, para massas que se movem em
velocidades próximas da luz são uma indicação de que o espaço-tempo não é uma abstração
matemática, mas algo com conteúdo que interage com a massa em movimento. De acordo
com a física quântica este algo é denominado Campo de Higgs.
A cosmologia moderna, à luz da mecânica quântica, tem sugerido que o espaço-tempo
para regiões muito pequenas, da escala de comprimento de Planck (~10
-35
m), seja quantizado.
A gravidade quântica em ‘loop’, predita pela Teoria M, faz previsões precisas sobre a
geometria espaço-temporal. No dia-a-dia do mundo cotidiano, ou seja, a realidade das baixas
velocidades, este efeito não é perceptível, mas na realidade das velocidades altas, ou seja,
próximas da velocidade da luz, e nos domínios do micro-espaço, os efeitos são significantes.
A dilatação do tempo foi observada experimentalmente com grande precisão e dela
decorre o ‘Paradoxo dos Gêmeos’, também testado experimentalmente com o decaimento de
mésons muon formados na estratosfera.
61

Em 1915 Einstein publicou a Teoria da Relatividade Geral, baseada nas equações de
campo de H. Poincaré. Essa teoria é uma generalização da teoria da relatividade restrita e do
princípio da relatividade, para abranger referenciais em movimento acelerado. Em
decorrência dessa generalização, demonstrou-se que o espaço-tempo é deformado pela
presença de massa gravitacional [ou energia], curvando-se à sua volta, o que permitiu ter-se
uma nova compreensão do fenômeno da gravidade sob a perspectiva de uma geometrização
do espaço-tempo. Por outro lado, e a guisa de informação, a Teoria M poderá estar delineando
uma visão mais profunda da gravidade em termos quânticos, unindo as quatro forças.
Os fenômenos de dilatação gravitacional do tempo e o desvio gravitacional para o
vermelho são duas marcantes previsões da relatividade geral. No primeiro caso, um relógio
colocado a bordo de um satélite em alta altitude tem seu ritmo diminuído [atrasa] em relação a

61
Ver Ferraro 2007, Einstein Space-Time, a introduction do special and general relativity. Ed. Springer.
101

outro colocado ao nível do solo. No segundo caso, um raio de luz emitido de um corpo tem
seu espectro luminoso desviado para a região do vermelho devido à atração gravitacional.
Esses exemplos têm por objetivo mostrar a exatidão da teoria, e é importante registrar que
todas as previsões e implicações das duas teorias foram confirmadas inúmeras vezes em
experimentos precisos.
4.2.2 Mecânica Quântica
A mecânica quântica,
62
melhor designada por Física Quântica ou Teoria Quântica é o
resultado do trabalho de vários físicos, entre os quais se destacam: Max Planck (1858-1947),
Niels Bohr (1885-1962), Erwin Schrödinger (1887-1961), Werner Heisenberg (1901-
1976), Louis de Broglie (1892-1987), Max Born (1882-1970), Paul Dirac (1902-1984),
Wolfgang Pauli (1900-1958), David Hilbert (1862-1943), John Von Neumann (1903-1957)
e finalmente Albert Einstein que, embora tenha ganhado o Prêmio Nobel pela descrição do
efeito fotoelétrico, foi um dos que menos aceitaram os postulados e as implicações da física
quântica.
A física quântica teve início em 1900 quando Planck, ao solucionar o problema da
radiação emitida por um corpo aquecido,
63
sugeriu que a energia era emitida e absorvida em
‘quanta’ discretos, e não em forma contínua, como se considerava até então. De acordo com
Planck, a energia seria emitida e absorvida em ‘quanta’ proporcional a freqüência da
radiação, de acordo com a equação: E = h.v, onde E é a energia, h a constante de
proporcionalidade de Planck, e v a freqüência da radiação. Assim, nascia a Física Quântica.
O desenvolvimento da física quântica teve duas fases importantes. A primeira,
relacionada com a estrutura do átomo, abrange o período entre 1900-1925. Nesse período
Niels Bohr e Arnold Sommerfeld (1868-1951) desenvolveram uma descrição quantizada do
modelo atômico, alterando completamente o modelo baseado na física clássica que não
descrevia um átomo estável. A segunda fase iniciou-se com o trabalho isolado e simultâneo de
E. Schrödinger e Werner Heisenberg, o primeiro com o desenvolvimento da Mecânica
Ondulatória - um trabalho desenvolvido com as idéias de Louis de Broglie sobre a dualidade
onda-partícula -; e o segundo, com a contribuição de Heisenberg ao desenvolver a Mecânica
Matricial.
64
Posteriormente, demonstrou-se que os dois desenvolvimentos eram aspectos

62
A palavra ‘mecânica’ é de origem histórica e não descreve corretamente o corpo da disciplina.
63
Denominado Radiação do Corpo Negro, ou Catástrofe Ultravioleta.
64
Publicado com o título: ‘On quantum-theoretical reinterpretation of kinematical and mechanical
relations’.

102

matemáticos distintos de uma mesma teoria quântica, e com o tempo, a função de onda - ou
equação de Schrödinger -, prevaleceu como o formalismo mais usado na descrição temporal
do estado quântico de um sistema físico, por sua simplicidade e elegância. A título de
ilustração, a Equação 4.3 mostra a equação de Schrödinger para uma partícula de massa m
sob a ação de um potencial V(x, t), função da posição e do tempo.
EQUAÇÃO DE SCHRÖDINGER - EQUAÇÃO 4.3

¢(, )

= −

2
2

2
¢(, )

2
+(, )¢(, )
Segundo Greene (2001, p.138):
A compreensão que temos do universo físico aprofundou durante os últimos
cinquenta anos. Os instrumentos teóricos da mecânica quântica e da
relatividade geral permitem-nos compreender e prever acontecimentos
físicos desde escalas atômicas e subatômicas até as das galáxias, dos
aglomerados de galáxias e da estrutura do próprio universo. Essa é uma
realização monumental. É extraordinário que seres humanos confinados a
um planeta que orbita a uma estrela prosaica nos confins de uma galáxia
bastante comum tenham conseguido, por meio do pensamento e da
experiência, descobrir e compreender algumas das características mais
misteriosas do universo físico. Além do , os físicos, por sua própria natureza,
não se satisfarão enquanto não desvendarem os fatos mais profundos e
fundamentais do universo. Stephen Hawking se referia a isso como o
primeiro passo no rumo do conhecimento da ‘mente de Deus’.
Entretanto, a contribuição maior de Werner Heisenberg à física quântica não foi sua
teoria matricial, mas sim, o princípio da incerteza (Eq. 4.4) - enunciado em 1927. Sob o
aspecto matemático, a expressão desenvolvida por Heisenberg é muito simples, mas este
princípio -, ‘mudou o rumo’ da física e abalou o mundo da filosofia, como nunca antes havia
acontecido. “Quando Heisenberg descobriu o princípio da incerteza, a física mudou de rumo
e nunca mais regressou ao caminho anterior” (Greene, 2001, p. 139).
PRINCÍPIO DA INCERTEZA - EQUAÇÃO 4.4
A. A >

2

O princípio da incerteza nos diz que, não se pode medir simultaneamente a posição e o
momento de uma partícula com precisão. Mas não se trata de um problema técnico associado
ao processo de medida. De fato, o que o princípio da incerteza nos diz, é que a natureza não
nos permite medir simultaneamente de uma classe de pares de observáveis. Por um lado, isto
103

põe em discussão se o atributo mensurável é uma característica do ‘objeto’ que está sendo
medido, ou ‘algo’ que surge no processo de medição. Filosoficamente falando, o que está em
jogo é a própria natureza do objeto sob mensuração. Por outro lado, quanto maior a precisão
da medida de um dos observáveis, menor será a precisão da medida do outro observável.
“Estamos tratando aqui com uma limitação do conceito de partícula.” (Halliday & Resnick,
1995, ‘p. 184).
Segundo Randall (2005, p. 119)
O princípio da incerteza diz que certos pares de quantidades [observáveis]
não podem nunca ser medidos com precisão ao mesmo tempo. Esta foi a
maior dissonância com respeito à física clássica que assume que, ao menos
em princípio, é possível se medir a característica de um sistema físico, tais
como posição e momentum, com a precisão que se quiser.
Com a Física Quântica e as Teorias da Relatividade Restrita e Geral, o universo dos
fenômenos físicos dividiu-se em dois. Enquanto a teoria quântica descreve com precisão o
mundo dos átomos e partículas subatômicas, onde predomina as forças nuclear forte, a nuclear
fraca e a eletromagnética (Tabela 4.1), as teorias da relatividade descrevem com precisão o
mundo da cosmologia onde predomina a força gravitacional e altas velocidades.
Esta dicotomia tem incomodado os físicos porque, em alguns fenômenos, é importante
a abordagem conjunta das duas teorias, quando, por exemplo, se estudam fenômenos como os
buracos negros onde os efeitos quânticos e gravitacionais são importantes e concomitantes.
Entretanto, como será exposto no próximo subcapítulo, a física caminha confiante na solução
desse impasse, ao estabelecer um elo de comunicação entre o formalismo das duas teorias
relativistas e da teoria quântica, através de uma abordagem denominada Teoria M.
QUATRO FORÇAS - TABELA 4.1
Interação Teoria Bóson mediador Força Relativa
Nuclear Fraca Teoria Eletrofraca Bósons W e Z 10
25

Nuclear Forte Cromodinâmica Quântica Gluon 10
38

Eletromagnética Eletrodinâmica Quântica Fóton 10
36

Gravitacional Teoria da Relatividade Geral Gráviton 1
Após 1930, a busca pela compreensão da realidade subatômica levou os físicos à
investigação da estrutura do átomo, e mais tarde, à busca pela estrutura interna de seus
104

constituintes. O modelo atômico de Bohr provou que o átomo não era maciço, mas sim, um
grande vazio com quase toda sua massa concentrada em um núcleo positivo - constituído de
prótons [positivos] e nêutrons [sem carga] -, circundado por elétrons negativos distribuídos
em orbitais quantizados.
A investigação do elétron demonstra que ele não tem estrutura interna; é de fato
elementar (vibração de um 1-brana, segundo a Teoria M). Entretanto, os prótons e nêutrons do
núcleo não são partículas
65
elementares. Em 1948 Murray Gell-Mann e George Zweig,
independentemente mostraram que essas partículas eram compostas de ‘algo’ bem menor, que
Gell-Mann denominou ‘quark’
66
(Lincoln, 2005, p. 108).
Existem seis quarks, sendo que dois deles, os denominados up (u) e down (d) são os
constituintes do próton e do nêutron que fazem parte do núcleo atômico (ver tabela 4.2).
CONSTITUINTES DO PROTON E DO NEUTRON - TABELA 4.2
PARTÍCULA Quarks Carga Elétrica
Próton 2 up e 1 down 2(+2/3) + 1(-1/3) = 1
Nêutron 1 up e 2 down 1(+2/3) + 2(-1/3) = 0
Com a descoberta dos quarks, pôde-se elaborar o Modelo Padrão das partículas
elementares, que de fato é um modelo que descreve os constituintes últimos da matéria que
compõem o mundo ao nosso redor. O Modelo Padrão descreve os constituintes últimos da
matéria classificados em três famílias (as três gerações da matéria – os férmions) (ver tab.
4.3).
As colunas I, II e II representam as gerações ou famílias. A quarta coluna contém os
bósons mediadores das quatro forças, o fóton da força eletromagnética, o glúon da força
nuclear forte, e os bósons Z e W da força fraca.
Esses são os elementos (ou partículas) que compõem tudo que é conhecido pelo ser
humano, ou seja, o seu corpo, a Terra - com tudo que nela existe, a Lua, o Sol e todas as
galáxias. Entretanto, embora esses elementos componham toda a matéria do universo
conhecido, esta matéria é somente 0,4% de tudo o que há no total (ver figura 4.1). Ou seja, a

65
A palavra partícula deve ser entendida como algo particularizado, e não como uma minúscula bolinha.
66
A denominação ‘quark’ foi retirada de uma frase do livro de James Joyce ‘Finnegans Wake’. O nome
proposto por Zweig era ‘aces’. Quark foi o nome que ‘pegou’.

105

Terra e todas as galáxias são menos que 0,5% do todo (ou Todo!).
AS TRÊS FAMÍLIAS DO MODELO PADRÃO - TABELA 4.3
FERMIONS
Família I Família II Família III Bósons mediadores
Quark up Quark charm Quark top Fóton
Quark down Quark strange Quark bottom Gluon
Neutrino do elétron Neutrino do muon Neutrino do Tau Força fraca
Elétron Muon Tau Força fraca

COMPOSIÇÃO DO UNIVERSO - FIGURA 4.1
67



A denominada matéria escura é um dos constituintes invisíveis do universo, somente
detectada por sua influência gravitacional sobre a matéria visível. Ela perfaz cerca de 23 % do
total, e não é constituída nem de átomos, nem de moléculas. A energia escura perfaz cerca de
70 % do total -, e também ainda não se sabe do que ela é composta. A matéria não luminosa é
formada de gás interestelar.
Todas as ‘partículas’ que compõem a matéria comum, ou seja, os 0,4%, tem uma
antipartícula que somente difere da partícula comum na carga. Por exemplo, a antipartícula do
elétron é o pósitron, do próton o anti-próton, do nêutron, o anti-nêutron, etc. Quando uma
partícula encontra sua antipartícula, ocorre uma aniquilação com emissão de duas ondas
eletromagnéticas (raios γ).

67
Retirada de: http://en.wikipedia.org/wiki/Dark_energy, em 20/10/2010.
106



Segundo Lisa Randall
68
(2006, p. 177):
O modelo padrão consiste de partículas que não experienciam a força
gravitacional. Elas interagem com a força eletromagnética e no ‘interior’ do
núcleo com a força forte e fraca. A força fraca é ‘comunicada’ às partículas
através de um mensageiro denominado bóson de calibre, que tem massa
[bóson W e Z]. As ‘partículas’ do modelo padrão estão divididas em duas
categorias [famílias], os quarks que experienciam a força forte e os léptons
que não interagem com a força forte. Os quarks e os léptons leves
encontrados na matéria [o quark up e down; e o elétron] não são as únicas
partículas conhecidas. Existem quarks e léptons pesados, cada um dos
quarks up, down e o elétron, têm suas versões pesadas [ver segunda e
terceira família na tabela 3]. As ‘partículas’ pesadas são instáveis, o que
significa que elas decaem em quarks e elétrons leves. Entretanto,
experimentos em aceleradores de partículas produzem essas partículas
pesadas, e comprovam que elas experienciam as mesmas forças que as
partículas leves e estáveis. Cada grupo de partículas que inclui um lépton,
um quark tipo up e um tipo down com carga é denominado geração
[família]. Existem três gerações, cada uma contendo versões pesadas de cada
tipo de partícula. Esta variedade de partículas é denominada flavor [sabor].
Existem três tipos de sabores de quark up, três tipos de sabores de quark
down e três tipos de sabores de léptons com carga, e três sabores de
neutrinos. Os sabores são estritas constrições que impedem que diferentes
sabores de quarks e léptons com a mesma carga, raramente, se não nunca, se
transformem um no outro.
Infelizmente, o ser humano não foi aparelhado fisiologicamente para interagir com
esta insólita realidade, tampouco sua mente tem o acervo necessário para expressá-la através
da linguagem. Palavras como partícula, espaço e tempo, têm conotações sensoriais cognitivas
que nos remetem ao mundo das formas, das qualidades e atributos macroscópicos, o que as
tornam inadequadas para a comunicação lingüística e a expressão daquilo que de fato existe.
Por isso o físico usa a linguagem do formalismo matemático, que além de penetrar nos
espaços poli-dimensionais, também assegura a integridade lógica da descrição, permitindo
cálculos precisos e comunicação sem equívocos.
Entretanto, como a reflexão que se segue é destinada ao público não especializado, far-se-á
uma análise qualitativa dos principais resultados de interesse desta monografia. Portanto, e
antecipando os comentários que se seguem, qualquer expressão que sugira materialidade ou
concretude deve ser submetida a uma releitura, porque a realidade descrita pelo formalismo
da Teoria M não deixa dúvidas; no tecido do cosmo não existe materialidade no sentido estrito
dessa palavra.

68
Lisa Randall é uma das mais importantes físicas teóricas dos USA, sendo a primeira mulher a receber a
honraria “Tenure”.
107


4.3 A TEORIA M
Em 1968, Gabriele Veneziano (1942 -), um físico teórico italiano que, na época era
pesquisador do CERN, fez uma importante observação. Ele descobriu que uma obscura
fórmula matemática, denominada função beta de Euler, descrevia corretamente muitos
aspectos da força nuclear forte que mantém unido os constituintes do núcleo atômico. Em
principio, ele não compreendeu porque a concordância entre os dados e a fórmula de Euler era
tão boa, mas não duvidou que, por detrás dessa aparente coincidência, houvesse algo de
verdadeiro. Muitos físicos imediatamente puseram-se a investigar outras funções matemáticas
semelhantes à beta de Euler, sem compreender porque os dados experimentais da força forte
concordavam tão bem com essas funções, até que em 1970, Yoichiro Nambu, Holger Nielsen
e Leonard Susskind, trabalhando separadamente, efetuaram proposições matemáticas que
convergiam para uma mesma idéia. Ou seja, se o modelo de partículas pontuais fosse
substituído por curtos ‘filamentos’ vibracionais
69
unidimensionais, então a solução do
problema da força forte se encaixava perfeitamente na função Beta de Euler. A título de
ilustração, a equação 4.5 mostra a função Beta de Euler (Eq. 4.5) em termos de uma relação
de Funções Gama [ I ).
FUNÇÃO BETA DE EULER – EQUAÇÃO 4.5
(, ) =
I()I()
I( +)

Com essa descoberta, nascia a Teoria das Cordas,
70
uma grande candidata a fazer a
conexão entre a Física Quântica e a Física Relativista, trazendo uma nova e fantástica
perspectiva para a descrição da realidade do mundo físico.
Portanto, a história das teorias das cordas, é o resultado do desenvolvimento
simultâneo de vários grupos de físicos teóricos que, trabalhando independentemente entre as
décadas de 70 e 80, desenvolveram 5 diferentes ‘Teorias das Cordas’, i.e., as teorias Tipo I, a
Tipo IIA, a Tipo IIB, a Heterótica-O e Heterótica-E.
Até então, nossa realidade tinha três dimensões espaciais e uma temporal, - o espaço-

69
Filamentos de tamanho da escala de Planck, ~ 10
-33
cm.
70
A palavra corda, ou string em inglês, se consolidou no uso comum. Mas o autor desta monografia crê que a
palavra filamento descreveria melhor o fenômeno vibracional.
108

tempo quadridimensional da teoria da relatividade geral -, um cenário que parecia estar em
perfeita concordância com a experiência cotidiana. Mas a teoria das supercordas acrescentou
mais 6 dimensões espaciais à já complexa realidade, ou seja, ela descreve uma realidade de 9
dimensões espaciais, além da usual dimensão temporal, o que obrigou os filósofos a reverem
seus mais profundos pressupostos sobre realidade.
Segundo Greene (2005, p.33 - 34):
[...] a teoria das supercordas começa por fornecer uma nova resposta para a
velha pergunta: quais são os componentes mínimos e indivisíveis da
matéria? Por muitas décadas, a resposta convencional era a de que a matéria
é composta por partículas - elétrons e quarks – que podem ser descritas como
pontos, que são indivisíveis e que não tem tamanho nem estrutura interna. A
teoria convencional afirma, e os experimentos confirmam, que estas
partículas combinam-se de distintas maneiras para produzir prótons,
nêutrons e a grande variedade de átomos e moléculas que formam tudo que
encontramos. A teoria das supercordas conta uma história diferente. Não
nega o papel-chave desempenhado pelos elétrons, quarks e outras espécies
de partículas reveladas pelos experimentos, mas afirma que essas partículas
não são pontos. De acordo com a teoria, cada partícula é composta por um
filamento mínimo de energia, algumas centenas de bilhões de bilhões de
vezes menor do que um simples núcleo atômico, e tem a forma de uma
pequena corda. [...] a vibração dessas cordas produzem as propriedades das
diferentes partículas.
A palavra composta que foi sublinhada na frase “[...] partícula é composta [..]” não
deve ser entendida como tendo uma estrutura interna, mas sim, como sendo o efeito da
freqüência de vibração de cada corda. As cordas podem ser filamentos abertos, ou circulares,
cada tipo pode oscilar uma variada gama de frequências, descrevendo uma imbricada
superposição de campos vibracionais. As cordas não são estruturas materiais, mas ‘filamentos
vibrantes de energia’ absolutamente imateriais (Fig. 4.2).
Mas a física não se satisfaz com modelos aparentemente incompletos, e por isso os
físicos teóricos das supercordas passaram as décadas de 80 e 90 tentando compreender a
aparente inconsistência das cinco teorias. A questão foi resolvida em 1995, quando Edward
Witten (1951-), o mais renomado físico teórico da área, com a cooperação de brilhantes
teóricos como Chris Hull, Paul Townsend, Ashoke Sem, Michael Duff e John Schwarz,
demonstrou que as cinco teorias não eram tão distintas e inconsistentes como pareciam ser,
mais cinco maneiras diferentes de analisar matematicamente um mesmo contexto teórico
(Greene, 2006, p.437).

109

CORDA CIRCULAR E ABERTA – FIGURA 4.2
71



CORDA CIRCULAR (A ESQUERDA) E CORDA ABERTA (A DIREITA)
Com essa grandiosa síntese, as cinco teorias das cordas foram unificadas em uma
única teoria que passou a ser denominada Teoria M.
72
Uma formulação promissora que está
sendo o embrião da Teoria da Grande Unificação das quatro forças conhecidas (tabela 4.1).
Entretanto, com a formulação da Teoria M, Edward Witten mostrou que as cinco
teorias anteriores erravam por 1 no número de dimensões da realidade. Em verdade, a Teoria
M requer onze dimensões – dez espaciais e uma temporal -, e não somente dez como suposto
anteriormente. E, tem mais. No formalismo matemático da Teoria M não existem somente
cordas abertas e fechadas, mas também outras possibilidades imbricadas no espaço-tempo,
que emergem da Teoria M, como as p-branas, que são elementos espaços-temporais
estendidos, ou seja, “realidades” que coexistem emaranhadas como parte de um contexto
complexo. Uma zero-brana (ou 0-brana) é um ponto adimensional, uma 1-brana é uma corda
ou filamento monodimensional que pode ser aberta ou circular (fechada), uma 2-brana é uma
“membrana” ou realidade bidimensional, uma 3-brana, uma realidade tridimensional, e assim
por diante. Portanto, a Teoria das Cordas passa a ser um elemento de uma teoria mais geral, a
Teoria M. Como tal, a Teoria M é a principal candidata à Teoria da Grande Unificação, que
Einstein tanto sonhou, pois ao estabelecer uma ponte entre as teorias da relatividade geral e a
teoria quântica, ela estaria reunindo as quatro forças. Por outro lado, ela nos traz novas
evidências da natureza do espaço-tempo, e isto implica em uma profunda revisão do conceito
que temos do que seja a realidade.
Segundo Greene (2005. P. 448):
Os estudos teóricos revelaram as cordas unidimensionais décadas antes que
análises mais sofisticadas descobrissem as branas multidimensionais, razão
porque a teoria das cordas é hoje uma categoria histórica.

71
Imagem disponível em: http://cerncourier.com/cws/article/cern/27980
72
‘M’ de mãe, ou maravilha, ou mistério, ou..., ao certo ninguém sabe o significado real. O mais provável que
seja de fato M de Mãe, no sentido de mãe de todas as teorias. Nota do autor.
110

A forma pela qual as dimensões extras são compactadas determina o número de tipos
de partículas visualizáveis no universo. Na teoria das cordas, isto resulta da forma pela qual as
cordas podem ser ‘envelopadas’ ao redor das dimensões compactadas, o que determina tanto
os modos vibracionais possíveis às cordas, como também os tipos de partículas que são
possíveis. Um importante espaço métrico compactado é a forma de Calabi-Yau (ver fig. 4.3),
que compacta seis dimensões espaciais, deixando três outras dimensões espaciais,
macroscópicas, mais a dimensão temporal, o que totaliza o universo decadimensional como
pedem a maioria das teorias das cordas. O modelo de espaço métrico de Calabi-Yau trouxe à
teoria um aspecto importante, ou seja, a quebra espontânea da simetria, um dos mistérios da
física de partículas (McMahon, 2009, p. 17).

ESPAÇO MÉTRICO COMPACTADO DE CALABI-YAU - FIGURA 4.3
73

Como vemos, a Teoria M tem a beleza de descrever um universo que está além das
possibilidades sensoriais e cognitivas do ser humano. Entretanto, nem por isso sua descrição é
menos real, muito pelo contrário, este é o universo real, a realidade que pode estar abarcando
inúmeros fenômenos que, alguns humanos eventualmente percebem em condições de
transcendência, sem, contudo conseguirem compreender e explicar.
Segundo Lisa Randall (2006, p. 61):
O mundo brana introduz um novo cenário físico que pode descrever tanto o
mundo que nós pensamos conhecer, como também outros mundos em outras
branas que nós não conhecemos, em dimensões invisíveis separadas de
nosso mundo. Se existe vida em outra brana, cujos seres estão aprisionados
em um ambiente completamente diferente, eles devem estar experienciando
forças diferentes que são [por eles] detectadas por diferentes sentidos.
Nossos sentidos estão afinados para a química, a luz, e o som ao redor de
nós. As criaturas de outras branas, caso existam, provavelmente não devem
se assemelhar a nós, porque as forças fundamentais e as partículas [de sua
brana] devem ser muito diferentes.
Esta é uma questão importante que nos remete à pergunta: porque o ser humano não

73
Retirado em: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Calabi-Yau.png, em 20/10/2010.
111

percebe as outras dimensões? Se existem 10 dimensões espaciais, porque ele vê somente três?
De fato, tudo que o ser humano percebe é fruto de interações da força eletromagnética.
A visão, pela luz; o tato, pela interação da eletrosfera da pele com a eletrosfera daquilo que é
tocado; e assim por diante. Entretanto, o bóson mediador da interação pela força
eletromagnética é o fóton, e este é um modo de vibração de uma corda unidimensional aberta,
que tem suas extremidades presas no domínio de ‘nossa’ 3-brana.
74
Sendo assim, o ser
humano não pode estabelecer contato sensorial com as demais dimensões do multiverso em
que vive porque fótons não migram para outras branas. Aliás - pelas mesmas razões -, todas
as três forças: a fraca, a forte e a eletromagnética não nos podem dar evidências das outras
sete dimensões extras do espaço. Somente a força gravitacional a tudo permeia, e pode dar
evidências dessas dimensões ocultas, porque a gravidade perece estar onipresente em todas
elas.
Segundo Lisa Randall (2006, p. 12):
A expressão ‘dimensões extras’ é especialmente confusa porque mesmo
quando nós aplicamos esta expressão ao espaço, este espaço está além da
nossa experiência sensorial. Coisas que são difíceis de visualizar são difíceis
de descrever. Nós não somos projetados filosoficamente para processar mais
que três dimensões de espaço. Luz, gravidade, e todos os nossos [outros]
instrumentos de observação parecem somente abarcar três dimensões de
espaço.
4.3.1 - O MODELO DE RANDALL-SUNDRUM
A pesquisa mais recente em cosmologia sob a perspectiva das Teorias M e
Supercordas, é baseada na abordagem denominada modelo de Randall-Sundrum. A essência
deste modelo tem por base a existência de dimensões extras e a existência das branas.
Inicialmente, o modelo tinha o objetivo de resolver o denominado “Problema de Hierarquia”
da física de partículas,
75
e o fez de uma forma brilhante, com um modelo baseado na
existência das branas e de um espaço-tempo multidimensional. A concepção do modelo
Randall-Sundrum é que, a existência de duas 3-branas conectadas ao longo de uma dimensão
espacial extra, é o ponto de partida para a abordagem da cosmologia do Big-Bang pela teoria
das cordas. E isso tem tudo a ver com a nossa compreensão da realidade e das dimensões
ocultas.
Considerando-se um espaço-tempo de cinco dimensões com duas 3-branas: a 3-branas
visível (o nosso universo observável), mais uma 3-brana oculta, invisível. Estas branas

74
Formalmente uma D-brana, que oferece as condições de contorno de Dirichlet.
75
Uma inconsistência entre os parâmetros de massa das partículas elementares obtidos nos experimentos e
aqueles obtidos nos cálculos teóricos.
112

formam os limites de contorno da região de cinco dimensões, denominadas no jargão das
cordas “The Bulk”, palavra que significa um hipotético espaço multidimensional, onde dentro
do qual existem as onze dimensões do nosso universo.
As considerações teóricas que se seguiram ao modelo Randall-Sundrum, tanto na
solução do Problema Hierárquico, como na abordagem do Big-Bang, fogem do escopo desta
monografia, entretanto o modelo cosmológico emergente evidencia a existência de dois
“mundos paralelos”: o visível, o nosso mundo e o invisível, além de outras possibilidades
multidimensionais. A figura 4.4 mostra uma representação bidimensional (representados por
planos) do modelo multidimensional de Randall-Sundrum, onde nosso universo de 3-brana
faceia o universo invisível de outra 3-brana, entre os quais as cinco dimensões ocultas.

MODELO RANDALL-SUNDRUM- FIGURA 3.4
Então, o leitor pode estar se perguntando se dimensões ocultas seriam as dimensões
conscienciais acessadas nos estados incomuns de consciência, e se a consciência, em
condições incomuns, teria acesso a essas dimensões descritas pelo formalismo da Teoria M.
A física não tem respostas a estas questões, e talvez não as tenha nas próximas
décadas (ou séculos). Deve-se considerar que, estamos tão longe de poder responder a elas,
quanto os alquimistas do século XI estavam de poder imaginar o cenário da física atual.
A física atual está quase no seu limite experimental para a investigação das branas e
de suas dimensões ocultas. Por outro lado, milhares de anos de experiências místicas se
perdem na subjetividade, pouco ou quase nada acrescentaram ao conhecimento, pois salvo as
discutíveis experiências de alteração consciencial com enteógenos, não se tem um
procedimento factível para acessar conscientemente as dimensões incomuns da consciência, e
delas trazermos conhecimento da natureza de sua realidade.

113

CAPÍTULO 5. - PARADIGMA DA IMATERIALIDADE
O mundo das branas é uma excitante e nova paisagem que tem
revolucionado nossa compreensão da gravidade, da física de partículas e da
cosmologia. As Branas parecem realmente existir no cosmos, e não há uma
boa razão para nós não estarmos vivendo em uma. As branas parecem até ter
um papel importante na determinação das propriedades físicas do nosso
universo, pois no fim das contas explicam os fenômenos observáveis. Sendo
assim, as branas e as dimensões extras vão estar aqui para ficar (Lisa
Randall, 2006. P. 51).
Ao finalizar este ensaio sobre a consciência e a realidade, viu-se que são inúmeros os
indícios de que a consciência, o Eu de cada ser humano, tem acesso a dimensões conscienciais
que estão além da experiência sensorial cognitiva ordinária. Dizem-se indícios porque, mesmo
sendo essas experiências reais, para quem as vivenciou, elas são subjetivas e não servem
como evidências objetivas para outros.
Embora o termo dimensão consciencial seja vago, as experiências vivenciadas como
tais nos mostram, ou sugerem que o fenômeno experienciado transcende os limites cognitivos
sensoriais de localidade no espaço-tempo. Ou seja, em alguns fenômenos, embora o corpo
físico do sujeito que o vivencia esteja em um local definido, num determinado momento, ele
pode ter a informação, visão ou percepção de algo que ocorre em outro local, algumas vezes
no futuro - como é o caso dos fenômenos de clarividência premonitória -, e algumas vezes no
passado - como no caso da retrocognição.
Vimos que algumas vezes o fenômeno ocorre de maneira espontânea, para pessoas
que têm a propensão para manifestá-los, quase sempre dentro de um contexto místico
religioso. Mas sabe-se que o mesmo fenômeno pode ser induzido pelo uso de substâncias
enteógenas, quando então o indivíduo que as ingere vivencia um transe místico semelhante
àquele vivenciado espontaneamente no contexto místico religioso.
Sob o aspecto filosófico, mostrou-se que esta discussão evidencia a polarização do
assunto entre dois pontos de vistas antagônicos, ou seja, o ponto de vista materialista e o
ponto de vista espiritualista. Entretanto, o objetivo desta monografia não é dar suporte a
nenhum destes dois pontos de vista, que na opinião do autor, são falsas questões, porque tudo
no universo é, em essência, imaterial. Portanto, o objetivo é demonstrar que o conhecimento
científico está descortinando uma nova visão da realidade, visão esta que mostra a
imaterialidade constitucional do suporte da realidade.
Em outras palavras, julga-se ser necessário rever os pontos de vista filosóficos e
epistemológicos, frente às evidências objetivas do que seja a realidade em sua essência última,
114

tal qual exposta pela ciência.
Mas, por um lado, tem-se a tese materialista que afirma que tudo está dentro do
cérebro, portanto essas experiências anômalas que sugerem a transcendência da consciência
nada mais seriam que vivências conscienciais de conteúdos cerebrais, o que os psicólogos
denominam de conteúdos do consciente pessoal e, por extensão, do inconsciente coletivo. Por
outro lado, tem-se a tese espiritualista, que afirma conceitos baseados em posições religiosas
que são sustentadas por dogmas de fé, os quais por definição não são fundamentados em
evidências objetivas.
É neste meio termo que defendemos a tese que diz ser a realidade uma complexa
interação de campos físicos vibracionais que coexistem num contexto multidimensional, cuja
principal característica de interesse é a sua ontológica imaterialidade. Portanto, sendo em
verdade a realidade em si-mesma imaterial, a realidade percebida real nada mais pode ser que
um artefato ilusório gerado pela cognição, como tantas vezes foi mencionado neste texto.
O fato de o universo ser imaterial, não é uma tese niilista. Existe algo além de nossa
compreensão, mas este algo não é material, local, causal e determinista. É algo sutil, imaterial,
vibracional e multidimensional, que segue os princípios descobertos pela física moderna, a
nossa melhor descrição da realidade.
Os físicos ainda não têm uma teoria unificada para a descrição completa da realidade,
e sabe-se que os modelos paradigmáticos existentes têm mais dúvidas que certezas.
Entretanto, em um ponto não há nenhuma dúvida, o tecido último do cosmos é – como já
dissemos inúmeras vezes -, uma complexa trama imbricada de campos vibracionais e
multidimensionais cuja natureza é desconhecida.
Por outro lado, este cenário não é determinista, embora com certeza exista uma ordem,
pois o universo tem uma direção e faz sentido, mas o que o ordena não mostra indícios de um
sistema mecanicista.
Nem matéria, nem determinismo, nem mecanicismo, tampouco materialismo.
Então, se a matéria não existe, o que é o corpo, o cérebro? A visão fisiologista pode
ser útil para a compreensão de fenômenos macroscópicos, mas não explica, nem vai à
essência. O fenômeno mais complexo, ou seja, o afloramento de uma consciência que parece
não ser limitada à localidade cerebral, pede outro cenário epistemológico. Pede o cenário de
uma realidade composta de vários mundos, nos quais a consciência manifestada no complexo
de vibrações condensadas torna visível somente um desses mundos. Este cenário científico
desponta na Teoria M, como modelo das p-branas, um conjunto de realidades
115

multidimensionais, imbricadas numa superposição complexa de campos vibracionais. Então,
perguntamos novamente; o que é o cérebro? O que significa a descrição biológica de um
sistema composto de átomos e moléculas, quando estes átomos e suas moléculas mostram-se
uma intrincada superposição de estados quânticos de campos imateriais?
Não sabemos, mas desconfiamos que a descrição física da realidade pede outro
paradigma; o paradigma da imaterialidade. Um cenário que talvez esteja além das
possibilidades de nossa época, como o cenário da física quântica estava dos alquimistas do
passado.
A ciência da atualidade não tem a tecnologia para investigar muitos desses
fenômenos, mas com certeza terá no futuro, quando talvez seja descoberto que as forças
fundamentais da natureza não sejam somente quatro, ou estas quatro que conhecemos sejam
somente a percepção de uma força única mais fundamental e ainda desconhecida: a
consciência ativa, aquilo que os místicos da Índia denominam Sakti, o poder ativo que ordena
o cosmos.
A física moderna – como a ciência em geral -, não tem a pretensão de explicar nada,
mas de somente descrever e trazer compreensão para nosso entendimento da realidade. E
nesse contexto, ela está delineando o cenário de uma realidade na qual cada vez mais diminui
a distância entre os conceitos culturais de espiritualidade e imaterialidade, pondo fim à falsa
questão levantada no início deste capítulo.
Por outro lado, as religiões e a psicologia moderna têm fortes indícios da
sobrevivência da consciência pessoal à ‘morte’ do corpo físico. Será que o conhecimento da
física moderna nos traz indícios científicos para a compreensão desta possibilidade?
Embora não seja o objetivo da física especular sobre metafísica, seus achados
mostram que no reino da imaterialidade absoluta do tecido do cosmos valem as leis de
conservação e simetria. Da mesma forma que a energia e o momentum se conservam, por que
o princípio de consciência pessoal (o Eu ou Espírito) também não se conservaria após a morte
do corpo físico?
Analisando-se a morte do corpo como um processo físico, vê-se que tudo se
transforma e se conserva. A matéria é decomposta, mas não se perde, e a energia se
transforma. Então cabe a pergunta: por que não existiria um princípio de conservação para a
consciência?
Os místicos em estados alterados de consciência relatam a existência de um mundo
sutil e etéreo, que eles denominam mundo espiritual, do qual nosso mundo seria uma imagem
116

especular. Aceitando-se esta experiência mística como um indício de um princípio de
simetria, o teorema de Noether afirma que "para cada simetria corresponde uma lei de
conservação, e vice-versa" (Wachter. 2006, p. 220). Portanto, é estremanente plausível
admitirmos a conservação do princípio de consciência, que destituido das amarras das cordas
abertas e cativas no mundo 3-branas, sente-se livre e pode migrar para uma outra dimensão p-
brana.
Nos capítulos anteriores, expusemos os indícios que sugerem ser a consciência um
fenômeno independente do nível biológico do cérebro, e como já dissemos não se sabe o que
ela é. Apesar disso, não se pode descartar a hipótese dela ser um princípio organizador que
atua a um nível mais profundo, o nível vibracional do tecido da realidade, tal como é ensinado
pela tradição xivaísta da Caxemira (Dyczkowski, 1987, p. 60-62).
Segundo Greene (2005, p. 448):
A possibilidade de que estejamos vivendo dentro de uma 3-brana – o
chamado cenário do mundo brana -, é o último toque dado na teoria das
cordas/teoria M.
Uma 3-brana entre tantas outras, onde inúmeras realidades podem coexistir em uma
gama variada de dimensões espaciais, com a condição que p s 10.
A física moderna já sugeriu diversas coisas dentro das quais poderíamos estar imersos:
um oceano de Higgs, a energia escura que permeia o espaço e miríades de flutuações
quânticas. Nenhuma dessas alternativas se faz visível aos nossos olhos ou, diretamente, de
algum modo. Entretanto, sabemos que os sentidos somente mostram uma parte muito pequena
do Todo, e é necessário aprender a conviver com esta limitação sensorial, enquanto não se
domina a técnica de expandir a consciência para além das amarras do “mundo das cordas” que
compõem nosso corpo.
No capítulo 2, foi proposta uma definição estipulativa com o objetivo da elaboração
do paradigma de imaterialidade, com o objetivo de servir de modelo para compreensão da
natureza do ser, ou seja:
Denomina-se espiritual a uma dimensão consciencial, ou nível de realidade
imaterial, que transcende o espaço-tempo e é percebido em estados incomuns de
consciência como desprovido de materialidade, substancialidade e concretude. Esta
definição estabelece a sinonímia entre as palavras espiritual e imaterial, que então passam
a designar uma dimensão essencial e fundamental do cosmos, a qual, portanto, passa a ser
compreendida simplesmente pelo termo imaterial, que além de refletir sua natureza, é
desprovido de qualquer conotação religiosa.
117

As premissas desta definição estipulativa foram satisfeitas através das considerações
expostas nos capítulos anteriores, ou seja:
1 – Todas as dimensões que compõe o cosmos são imateriais. A materialidade percebida como
um atributo da matéria é de fato um construto psíquico do ser humano que está
manifestado no mundo 3-branas, onde toda matéria é energia vibracional.
2 – A proposição da utilização do termo imaterial em lugar de espiritual é adequada porque,
além de refletir a realidade imaterial que é o cosmo, também é destituída de pressupostos
religiosos.
3 – A tese de que a realidade em si-mesma é imaterial é comprovada pelas evidências
objetivas da física de partículas, conforme dito no artigo 1. Portanto, a realidade que é
percebida não é de fato uma realidade, mas sim, um construto psíquico.
4 – Pelo exposto nos artigos anteriores, percebe-se que todas as evidências objetivas da
imaterialidade da realidade são oriundas do modelo físico da Teoria M. Portanto, a
aceitação do realismo científico como a melhor solução epistemológica para o problema
do conhecimento é válida, embora haja uma convergência entre este ponto de vista e o
ponto de vista idealista, à luz do conhecimento emergente da própria Teoria M.
Esta interpretação é de suma importância para a tese defendida nesta monografia, e
serve de axioma para o PARADIGMA DA IMATERIALIDADE:
I. TUDO NO COSMO É IMATERIAL.
A imaterialidade é constituída de “estruturas’ denominados p-branas, que se estendem
em várias dimensões, vibrando em várias frequências. Uma 1-brana é uma corda
monodimensional, uma 2-brana é uma superfície bidimensional, a 3-brana é um
volume tridimensional, e assim por diante.
(Evidência: A Teoria M da física de partículas).
II. O EU (CONSCIÊNCIA) É IMATERIAL.
Esta afirmação é consequência do Postulado I. Como um elemento imaterial, o
Eu independe do mundo das 3-brana (a realidade humana subjetiva), embora
possa se associar neste mundo a uma estrutura 1-brana (quarks e elétrons que
constituem o corpo), ou tunelar para branas de outras dimensões sem conexão
com o mundo das 3-branas.
(Indícios: Experiências incomuns de consciência e outros fenômenos
anômalos).
118

Finalizando, gostaria de lembrar a frase de Jesus, relatada em João, capítulo 14, 2. “Na
casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu vo-lo teria dito; vou preparar-vos
lugar”.

119

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