You are on page 1of 19

ATENÇÃO: ESTE MATERIAL DESTINA-SE A SER DISTRIBUÍDO GRATUITAMENTE. FICA PROIBIDO QUALQUER USO COMERCIAL.

ORIGEM DO TEXTO: O PRESENTE TEXTO FOI EXTRAÍDO INTEGRALMENTE DO FASCÍCULO — "FRANZ SCHUBERT" — GRANDES COMPOSITORES DA MÚSICA UNIVERSAL. ESSA NOTÁVEL SÉRIE DE MÚSICA CLÁSSICA FOI LANÇADA PELA "ABRIL CULTURAL". À ÉPOCA, CADA FASCÍCULO ACOMPANHAVA-SE DE UM DISCO LP. NESSA PUBLICAÇÃO DA ABRIL CULTURAL FIGURARAM MUITOS DOS MAIORES COMPOSITORES UNIVERSAIS. NÃO CONSTA DO FASCÍCULO QUALQUER CRÉDITO AUTORAL.

FRANZ SCHUBERT

D

e cabelos castanho-claros encaracolados e o nariz quase perdido em meio ao rosto largo, o pequeno e roliço Franz Schubert era um tipo singular. Criava música

naturalmente como uma fonte verte água. Até durante o sono lhe ocorriam temas, de modo que costumava dormir de óculos, tendo sempre caneta e papel à mão: assim, podia anotá-los depressa e adormecer novamente. Sua inspiração o impelia a escrever em lugares inusitados. Essa facilidade ele ganhara com aulas práticas que tomava de um de seus primeiros e mais influentes mestres: o italiano Antonio Salieri. Certa vez, ao visitar um amigo doente, compôs no quarto do hospital uma abertura para piano. Noutra ocasião, segundo consta, estava num restaurante quando lhe ocorreu uma melodia. Sem hesitar, anotou-o no verso do cardápio, musicando o poema Ouve, Ouve a Cotovia (Hark, Hark the Lark), de Shakespeare. Tinha um total desapego pelas coisas que compunha. Largava os seus originais em tabernas, nos bancos dos jardins públicos, nas casas aonde ia, perdendo-os freqüentemente. Raramente dispunha de dinheiro. Mas nem por isso deixava de participar da alegre vida noturna de Viena. Com um bando de boêmios como ele, percorria os pontos de reunião prediletos da juventude vienense do início do século passado1, perambulando entre o Anker e o Bogner, entre o Goldschmied, o Gasse e o Graben. Canecas de cerveja, partida de bilhar e discussões de toda sorte sucediam-se pela madrugada. E muitas vezes,

1

Isto é, séc. XIX.

no inverno, o programa terminava com todos a correr pelas ruas, fazendo guerra com bolas de neve. Essas noitadas exaustivas pareciam não afetar a boa disposição de Schubert. No dia seguinte, erguia-se da cama e trabalhava durante longas horas, escrevendo séries de composições num jorro criativo assombroso, que ele explicava com singeleza, dizendo: “Não vim ao mundo senão para compor. Quando termino uma peça, começo outra”. Na frase modesta, encerrava-se o drama patético de um homem tímido, confuso e insatisfeito, que um dia acreditara ser capaz de encontrar em si mesmo a paz e a felicidade, porém via a realidade dissolver dia após dia o seu sonho de adolescência. Sem amor, sem saúde, sem fortuna e sem ser reconhecida toda a grandeza de seu talento e o valor de sua obra, foi colhido pela morte aos 31 anos, justamente quando sua música começava a ser apreciada em Viena. Mais tarde, ela ultrapassaria as fronteiras da Áustria, divulgando-se pelo mundo e imortalizando o nome de Franz Schubert — o jovem artista de formação clássica que se tornou, ao lado de Ludwig van Beethoven, precursor do Romantismo musical. E que talvez tenha sido o músico mais poético que já existiu.

JOVEM DE ALTA MUSICALIDADE

F

ranz Seraph Peter Schubert nasceu em Viena em 31 de janeiro de 1797 e foi o décimo segundo filho do casal Elisabeth e Franz Theodor

Florian Schubert. Contudo, não tinha muitos irmãos: já haviam morrido tantos, que seu pai mantinha uma pequena agenda, com o título: “Casos de nascimento e morte da família do mestre-escola Franz T. F. Schubert”. Os antepassados do pequeno Franz Seraph eram humildes: camponeses da Moravia, por parte do pai, e operários da Silésia, por parte da mãe. Humilde era também a vida que sua família levava, pois os ganhos de Franz Theodor como professor da escola suburbana de Liechtental davam para custear as despesas, mas não para grandes gastos. Em 1801, com as poucas economias que tinha duramente amealhado e muita vontade de subir na vida, Franz Theodor comprou uma escolinha no Säulengasse de Viena, a qual se tornou ao mesmo tempo seu lugar de trabalho e residência de sua família. Era mais prático e mais barato; portanto muito conveniente ao parcimonioso professor. Na direção do pequeno estabelecimento, Franz Theodor granjeou certo prestígio nas redondezas e os Schubert melhoraram de condição, embora não o bastante para permitirem larguezas.

Nas escolas austríacas dessa época, a música figurava entre as matérias mais importantes, e Franz Theodor, assim como seus filhos maiores — Ignaz e Ferdinand —, possuíam alguns conhecimentos musicais. Já por volta de 1804, entretanto, o pequeno Franz superava todos eles, embora tivesse aprendido apenas alguns rudimentos de violino com o pai e de piano com Ignaz. Em vista desta sua aptidão, foi ele confiado ao maestro do coro da paróquia de Liechtental, grande conhecedor de música, principalmente de contraponto. Com Michael Holzer, Franz Schubert estudou — a partir dos sete anos — órgão, piano, violino, canto e composição, assombrando o maestro com a sua prodigiosa intuição e sensibilidade musical. “Cada vez que eu procurava ensinar-lhe uma coisa nova”, confessaria posteriormente Holzer, “verificava que ela já lhe era familiar. Punha-me então a observálo, sem ter o que dizer”. O mesmo acontecia com seus parentes, quando tocavam em conjunto. Franz apontava infalivelmente, e às vezes com impaciência, cada uma das falhas que seus irmãos cometiam. Mas, quando era seu pai que errava ao violoncelo, o menino moderava o tom da crítica e apenas sugeria delicadamente: “Senhor meu pai, alguma coisa saiu errada aí...” Seu brilhantismo não se manifestava apenas na música. No curso primário, também foi aluno excelente em tudo, com exceção da matemática, na qual penava para conseguir resultados medíocres. Em maio de 1808, a Gazeta Oficial de Viena anunciou a existência de três vagas no Imperial Internato de Stadkonvikt, uma escola de jesuítas onde se ensinava música aos candidatos a cantores da Capela Real, além de outras matérias preparatórias para os cursos superiores. O professor Franz Theodor achou vantajoso inscrever o jovem Franz. No internato, os alunos tinham casa, comida e, “distinguindo-se em procedimento e aplicação”, podiam continuar a receber instrução mesmo após deixarem de prestar serviços ao coro. Os exames do Stadkonvikt realizaram-se a 30 de setembro do mesmo ano, e Franz Schubert foi admitido. O maestro italiano Antonio Salieri, examinador da banca de música, observou que ele se revelara um dos melhores soprano. O diretor do colégio, Franz Innocent Lang, por sua vez,

anotou um parecer, acrescentando que o garoto possuía muito bom preparo elementar. O fato de ter ingressado no Imperial Internato em condição de destaque não deu ao novato nenhuma prerrogativa especial. Muito a contragosto, teve que se submeter à rígida disciplina que vigorava para todos na severa instituição. Apesar da timidez que o tornava introvertido e canhestro, encontrou amigos dedicados e sinceros, que faziam o possível para atenuar seu sofrimento e encorajá-lo a vencer o desânimo. Foram esses amigos, aliás, que lhe fizeram companhia pelo resto de sua vida. Joseph von Spaum, um jovem dez anos mais velho que Schubert, era o primeiro violino da orquestra mantida no Stadkonvikt e talvez tenha sido o mais próximo companheiro do desconsolado calouro. Recordando os primeiros tempos do menino no Internato, Spaum escreveu: “Encontrei-o certa vez sozinho, sentado na sala de música. Exercitava-se numa sonata de Mozart, empolgado pela obra, porém achando-a de execução difícil. A meu pedido, tocou um minueto de sua autoria, rubro de constrangimento e vergonha.

AS PRIMEIRAS COMPOSIÇÕES
Meus elogios, entretanto, deixaram-no feliz e ele confidenciou-me que de vez em quando procurava por em música os seus próprios pensamentos, mas que seu pai não devia saber disso, pois não queria que ele se dedicasse à música”. Na verdade, Franz Theodor não fazia nenhuma objeção às atividades musicais do filho, visto que lhe garantiam sustento e educação. O que não pretendia era que o jovem sonhasse com uma carreira musical, pois já determinara qual seria o seu futuro — o magistério. Tal projeto certamente não se harmonizava com os do rapazinho, que, embora se aplicasse com empenho em todas as matérias do curso, manifestava uma evidente preferência pela música. Em 1810, com treze anos de idade, compôs uma Fantasia para piano a 4 Mãos e o Quarteto para cordas n.º1 em Si Bemol Maior. No ano seguinte escreveu Hagars

Klage, o primeiro dos seiscentos lieder que criaria no decorrer de sua vida e que o tornariam o expoente máximo desse gênero musical. O lied é um poema lírico, no qual as palavras e a música se fundem de uma forma completa, integral, plena e muito caracteristicamente germânica. Daí não se poder traduzir o termo. Pois um lied não é uma canção, nem uma balada, nem uma romança, mas uma criação musical que surge como se cada palavra engendrasse a sua própria melodia. Antes de Schubert, Weber compusera lieder. E, antes de Weber, músicos oitocentistas da Alemanha do Norte já haviam esboçado o gênero. Mas o Hagars Klage do estudante do Stadkonvikt continha algo de novo, absolutamente pessoal e único, que chamou a atenção do maestro Antonio Salieri e despertou o interesse de outros professores do Internato para Franz Schubert. Wendel Ruziczka, que lhe ensinava piano, F. Hoffman, que lhe dera lições de violino e P. Korner, docente de canto, devem ter feito à diretoria do colégio menções muito elogiosas ao talento do aluno, pois, em 28 de setembro de 1811, foi registrada no livro de atas do Stadkonvikt “a decisão de expressar ao jovem Franz Schubert a especial satisfação pelos seus notáveis progressos...” Uma das principais obrigações dos estudantes do imperial Internato era cantar aos domingos durante as funções religiosas da Capela Real. Integrado no coro logo após sua admissão no colégio, Franz Schubert participou desses ofícios dominicais durante mais de três anos, até que a puberdade modificou a sua bela voz de soprano. Na partitura de uma Missa, do compositor alemão Peter von Winter, o adolescente assinalou o fato com um comentário original: “Franz Schubert grasnou pela última vez em 26 de julho de 1812”. Cantando no coral do Stadkonvikt, ele tivera oportunidade de conhecer a maior parte do repertório sacro classicista que então se cultivava em Viena. Por outro lado, Mozart e Haydn haviam sido os principais modelos pelos quais se pautara todo o seu aprendizado de música instrumental. Desse modo, ao deixar a escola em 1813, Franz Schubert era um jovem artista de formação tipicamente classicista.

No dia da sua despedida, a orquestra do Imperial Internato, na qual ele chegara a ser primeiro violino, homenageou-o — em audição privada — com a execução da 1.ª Sinfonia, em Ré Maior, de sua autoria.

A

morte de sua mãe em 1813 e o casamento de seu pai com Ana

Kleyenbock, menos de um ano depois, devem ter perturbado

profundamente a sensibilidade de Franz Schubert. E a possibilidade de ser convocado para o serviço militar decerto não terá contribuído para serenálo: o exército austríaco retinha os jovens por longos anos em suas fileiras, e a perspectiva de combate, na Europa beligerante de então, significava grandes possibilidades de morte nos campos de luta. Podia-se comprar a isenção a peso de dinheiro ou obtê-la através da intercessão de pessoas influentes. Mas esses recursos estavam fora do alcance de Franz Schubert, que, para seu desespero, nutria grande horror pela imagem da morte, especialmente se violenta, como a do soldado na batalha. Devido à grande carência de mestres-escolas em todo o país, os mesmos não eram convocados. Isso abria ao rapaz a possibilidade de escapar à caserna e eliminar os conflitos que freqüentemente vinham ocorrendo entre ele e o pai, que insistia em forçá-lo a preparar-se para o magistério. Em 1814 Schubert matriculou-se na Escola Normal. Mas a música continuava presente em seu espírito e é significativo que nessa época ele tenha composto uma ópera com o nome de O Pavilhão do Diabo. Baseada numa novela do então popularíssimo escritor August Kotzebue, essa “ópera mágica natural” — como a classificou Schubert — representava uma experiência importante na obra do jovem compositor e serviria de modelo para uma série de criações posteriores, com resultados mais positivos.

AOS 18 ANOS, 203 OBRAS
Embora estudando para ser professor, Schubert fazia da composição sua atividade mais importante, criando vários quartetos e minuetos,

alguns lieder e ainda uma obra de grande porte — a Missa em Fá Maior —, a primeira da seqüência de seis que escreveria. No dia 16 de outubro de 1814, em comemoração ao centésimo aniversário da igreja de Liechtental, ele próprio regeu a execução da Missa, cuja parte de soprano foi entregue à jovem Therese Grob — que foi o primeiro e talvez único amor da sua vida. Três dias depois, usando versos de Goethe, Schubert escreve Margarida na Roca (Gretchen am Spinnrade), obra-prima por alguns considerada a expressão mais alta do lied, e que no entanto foi criada em poucos minutos, quando o autor aguardava o momento de ser iniciada a segunda apresentação da Missa em Fá Maior.

I

nspirado por outros textos de Goethe, ainda em 1814, Schubert compôs vários lieder de surpreendente intensidade dramática, reunindo-os

numa coleção intitulada Cena de Fausto. Mas foi em 1815, ao completar dezoito anos de idade, que seu gênio se expandiu num extraordinário surto de produção, o qual resultou em nada menos de 203 obras, entre as quais a Missa n.º 2 em Sol, a 2.ª Sinfonia de Si Bemol Maior, a 3.ª Sinfonia em Ré Maior, quatro óperas e 145 lieder! Vários desses trabalhos denotavam influência tão pronunciada de Mozart e Beethoven, que pouco tinham de verdadeiramente

“schubertianos”. Todavia, em lieder como O Canto Noturno do Viajante, Rosa Silvestre, O Rei dos Elfos — todos compostos sobre poemas de Goethe —, Franz Schubert revelou uma originalidade e mestria que só bem mais tarde iria reencontrar. O cargo de professor assistente, que desde algum tempo vinha exercendo na escola do pai, desagradava-lhe e no início de 1816, ao saber que a Escola Alemã da cidade de Liubliana procurava um professor de música, ofereceu-se para assumir a função. Mas sofreu o desapontamento de saber que haviam contratado outro. Incentivado por amigos como o poeta Johann Mayrhofer e com uma carta de recomendação de Joseph von Spaum, enviou a Goethe um elaborado lied que escrevera sobre texto do grande poeta. Imaginava que

esse percebesse o seu talento e se dispusesse a ajudá-lo. Entretanto, teve nova decepção. Goethe nem sequer respondeu. Continuar morando e trabalhando com seu pai, era impossível. Mas Schubert não tinha outro emprego. Sua única possibilidade era tornar-se um profissional livre e tentar manter-se vendendo suas criações aos editores de música. Abandonando a escola do Säulengasse, foi morar com Franz von Schober, um estudante de Direito de quem se tornara muito amigo. Sua atitude exasperou o velho Franz Theodor, fazendo-o romper relações com o filho. Não podia tolerar que Franz Peter trocasse uma situação segura e respeitável por uma existência insensata, sem futuro definido. O jovem compositor, porém, não cogitava sobre o futuro. Instalado na casa do amigo, compunha numerosas peças, principalmente lieder, entre os quais o célebre O Viajor (Der Wanderer), cujo tema foi posteriormente aproveitado numa Fantasia para piano. Em 1817, a produção do compositor diminuiu um pouco, embora ele tenha escrito vários lieder hoje famosos, como A Truta. Até então, nunca se interessara muito pela sonata para piano, mas de repente descobriu nela um gênero fascinante. A primeira que compôs (em Lá Menor, Opus 164) alegrou-o tanto, que em seguida escreveu 22 outras, algumas das quais se incluem entre as mais belas de sua autoria. Contudo não foram sonatas para piano e sim as Aberturas Italianas, em Ré Maior e Dó Maior, claramente influenciadas por Rossini, as primeiras obras de Schubert apresentadas em público, no princípio de 1818. Por volta de junho desse mesmo ano, Schubert voltou às boas com o pai, concordando em retornar à sua casa e ao lugar de professor assistente. Afeiçoou-se muito à sua madrasta e tudo indicava que daí por diante sua vida se estabilizaria, conforme a vontade do velho Franz Theodor. Mas um amigo do rapaz, Karl Unger, obteve para ele o emprego de professor particular de música das filhas do Conde Johann Esterhazy, em Szeliz, na Hungria. E desta vez Franz Theodor viu que era inútil lutar por modificar o filho.

“E

stou vivendo e compondo como um deus”, escreveu Franz Schubert aos seus amigos, em agosto de 1818. Mas na verdade

não acontecia exatamente isso. Alojado nas instalações da criadagem, incomodado pela barulheira dos bandos de gansos que passeava por perto e obrigado a conviver com outros servidores dos Esterhazy com quem não simpatizava muito, o jovem músico não desfrutava exatamente de um paraíso. Contudo, as lições que dava às jovens Maria e Carolina de fato lhe tomavam pouco tempo, permitindo-lhe compor bastante. Em Szeliz surgiram a Sonata em Si Bemol Maior para Piano a 4 Mãos, a Missa Fúnebre Alemã e um grande número de danças e marchas (todas para piano a quatro mãos, a fim de exercitar suas alunas). A música folclórica da região o encantou. Assim como acontecera a Haydn, Schubert encontrou uma riqueza enorme nos cantos e danças ciganos, cuja freqüente melancolia tinha muito em comum com a sua própria maneira de ser.

“LIEDER”: FIM DO ANONIMATO
De Viena lhe chegara sempre volumosa correspondência e, certo dia, uma carta lhe trouxe a notícia de que sua amada Therese Grob se havia casado com um padeiro. Durante anos mantivera-se em contato com Therese, apesar de saber que a viúva Grob se opunha decididamente ao namoro, por não querer que sua filha se casasse com um artista, um boêmio, que não tinha fama nem fortuna. A humilhação somou-se à dor pela perda definitiva de Therese e talvez tenha sido por revolta que Franz Schubert se envolveu então em aventuras amorosas com uma criadinha dos Esterhazy, chamada Pepi. O resultado foi lamentável, pois o compositor adquiriu com a jovem uma doença venérea que o atormentou pelo resto dos seus dias.

Seu irmão Ferdinand, que ocasionalmente regia concertos em Viena, costumava escrever-lhe encomendando peças, e compor sob encomenda tornou-se uma das formas pelas quais se furtava ao mal-estar que sentia em Szeliz. Sem ter conhecimento disso, Ignaz, que era professor, mandou-lhe uma carta queixando-se amargamente das imposições do clero na escola onde lecionava, com inveja da liberdade que pensava estar Franz desfrutando. Parece que suas queixas tocaram num ponto sensível da personalidade do rapaz, pois em resposta, ao descrever o clero de Szeliz, Schubert aproveitou para extravasar toda sua insatisfação, nos termos mais veementes. A carta que escreveu nessa época e contundente e exaltada.

O

compositor detestava os religiosos do pequeno burgo da Hungria. E, na verdade, demonstrava simpatia pelo anticlericalismo, que se

difundia então nos meios cultos europeus. Talvez a autoridade eclesiástica lhe evocasse um velho ressentimento contra a dura disciplina do Stadkonvikt. Talvez sua idiossincrasia não tivesse razão definida e representasse um fundo de ingratidão por tudo quanto recebera de positivo dos jesuítas. De qualquer forma, é curioso observar que, nas Missas compostas por ele a partir de 1814, nunca aparecem as palavras do Credo que se referem à Igreja: “Et in unam, sanctam, catholicam et apostolicam Ecclesiam”. Se Franz Schubert não desdenhava inteiramente a religião, era porque os seus aspectos estéticos lhe estimulavam a curiosidade e favoreciam sua inspiração. Após alguns meses na Hungria, o compositor voltou a Viena e aos seus amigos. Tinha 22 anos e grande quantidade de excelente música já escrita, mas continuava na obscuridade. Inconformado com a situação do amigo, o mundano e incansável Schober batalhou até conseguir que Johann Michael Vogl, um dos maiores barítonos da época, conhecesse Franz Schubert e ouvisse alguns dos seus Lieder.

Vogl já completara cinqüenta anos e considerava-se satisfeito com os grandes êxitos que obtivera: pretendia encerrar sua carreira artística. Mas as criações de Schubert o emocionaram a ponto de fazê-lo mudar de idéia. Planejou uma série de recitais com obras do jovem compositor, atraindo para ele a atenção da imprensa e do público vienense. O sucesso obtido não lhe bastou. Queria que os austríacos de outras regiões conhecessem também a obra do seu brilhante compatriota e, levando Schubert como seu acompanhante, Vogl fez diversas excursões pelo país. Por toda parte, aplausos calorosos saudavam o cantor, as obras e o seu criador. O trabalho de divulgação do velho Vogl surtiu efeito: saindo do anonimato, Franz Schubert introduziu-se entre várias famílias influentes como os Sonnleithner e os Fröhlick, através dos quais veio a conhecer artistas de projeção, entre eles o poeta Grillparzer. Cercado da amizade e do carinho dessas pessoas, o compositor experimentou então um dos períodos mais felizes de sua vida. As quatro moças da família Fröhlich — Josefina, Kathy, Barbara e Ana — cantavam magnificamente e o seu repertório incluía quase todas as criações de Schubert desse período. Especialmente para elas, o músico escreveu grande número de peças, que, junto a obras instrumentais como a Fantasia em Dó Maior, para piano, e o Movimento de Quarteto em Dó Menor, demonstram a segurança e o domínio técnico atingidos por ele, aos 25 anos de idade. A proteção de pessoas influentes conseguiu aquilo que sozinho Franz Schubert tentara inutilmente: vencer a barreira dos editores. Pouco a pouco, suas obras começaram a ser publicadas. Animado pelo fato, o músico lançou-se à composição e escreveu os dois primeiros movimentos (allegro moderato e andante com moto) da sua Sinfonia n.º 8 em Si Menor. Não se sabe por que, interrompeu o trabalho em meio e jamais o retomou. Mas, apesar de inacabada, a obra é uma das mais expressivas da produção de Schubert, revelando a plenitude do seu lirismo e sua alta engenhosidade harmônica.

B

eethoven era o compositor que Franz Schubert mais admirava. Clássico por formação, romântico por temperamento, derrubava

padrões e normas para chegar ao que queria, musicalmente. Porém Viena achava-se sob o domínio mais ameno da música de Rossini, e Schubert não escapou à tendência do momento. Influenciado pelo italiano, enveredou pelo caminho da ópera, criando Os Gêmeos, a Harpa Mágica e Afonso e Estrela. Em 1823 compôs a música de cena para a peça teatral Rosamunda, uma das suas obras mais importantes. No entanto, somente seus amigos aplaudiam essas composições. O público e a crítica receberam-nas com frieza, em parte justificada pela má qualidade dos libretos, escolhidos sem nenhum cuidado. Apesar de todos os malogros que teve no teatro lírico, Schubert não perdeu o seu fascínio pela música teatral e, em maio de 1824, quando os Esterhazy o convidaram para ir novamente para Szeliz, ele aceitou porque tinha intenção de escrever na Hungria um grandioso melodrama. O material necessário para a tarefa já se havia esboçado em sua prodigiosa mente.

A DERRADEIRA VIAGEM DE INVERNO
Haviam transcorrido seis anos desde a sua primeira temporada com os Esterhazy e muita coisa mudara. Não mais o tratavam como um simples criado: merecia agora maior atenção e tinha até um quarto especial, na casa do Conde. Franz Schubert, entretanto, mostrava-se apático. A doença contraída em sua estada anterior em Szeliz o consumia lentamente, roubando suas energias. Além disso, memórias amargas deviam tornar-lhe penoso estar de novo ali. As pessoas ao seu redor apreciavam a música, mas ele não percebia nelas o entusiasmo dos seus amigos de Viena. Somente a Condessa Carolina, uma bela jovem de dezessete anos, parecia capaz de entendê-lo e Schubert lhe dedicou a sua Fantasia em Fá Menor, para Piano a 4 Mãos.

Seu projeto de escrever um melodrama fora abandonado. Após a Oração para Quarteto Vocal e Piano escreveu ainda algumas peças porém no mês de outubro de 1824 despediu-se de Szeliz pela última vez. Não voltaria a ver Caroline Esterhazy — por quem talvez tenha sentido um amor silencioso e sem esperanças. Em Viena, entre seus amigos, Schubert ganhou novo alento. O clima de camaradagem e estímulo recíproco, o convívio afetuoso com Spaum, Mayrhofer, Moritz von Schwind, Leopold e Josef Kupelwieser, “o velho Schober” e os demais “schubertianos” fizeram-no recobrar vida. Este era o seu mundo. Nele sentia-se à vontade para agir e produzir. Semanalmente, reuniam-se num grande grupo, em casa de um deles ou de ricos conhecidos comuns, como o Barão Bruchmann. Dessas “schubertiadas” participavam também outros artistas e intelectuais, diletantes e curiosos que, que rodeavam o jovem mestre, cativados pela sua ternura e simpatia. Cantores cantavam, poetas declamavam, pintores faziam esboços e aquarelas, mas Franz Schubert era sempre a alma da festa. Sentado ao piano, tocava amavelmente todos os números que lhe pediam e, de vez em quando, ao ver uma cara nova perguntava: “Kann er was?” (Em que ele é bom?) o que lhe valeu o apelido de “Kanevas”. Por vezes, cansava-se e escapulia em meio ao rebuliço, saindo a vagar pelas ruas. Nessa inocente boêmia de noites em claro, de dias passados a café com rosquinhas, de desapego total ao dinheiro e aos objetos, que partilhava indiscriminadamente com os amigos, o “Kanevas” exibia somente o exterior luminoso e alegre de sua vida. Mas Franz Schubert não dava mostras do intenso sofrimento físico que suportava, nem da terrível angústia que sentia em saber-se um homem só. Sua tragédia íntima transparecia era na grandeza desesperada do seu mais belo ciclo de lieder — Viagem de Inverno (Die Winterreise). Depois de assistir ao enterro de Beethoven em março de 1827, Schubert parece ter intuído que seu próprio fim estava próximo e passou a compor ansiosamente, como se suas obras pudessem prolongar-lhe a vida. Escreveu então uma ópera (que não terminou), fantasias, improvisos e

uma notável Sinfonia em Dó Maior, hoje catalogada como n.º 9 e apelidada de “A Grande”, por sua extensão.

D

ias antes do primeiro aniversário da morte de Beethoven, surgiram nos muros de Viena cartazes anunciando um recital de música de

Schubert. A iniciativa era do próprio compositor, que vinha lutando há dois anos para levá-la a efeito. Constavam do programa o primeiro movimento de um novo Quarteto, um Trio e vários lieder, que seriam apresentados pelo célebre Vogl, Josephine Fröhlich e côro. Schubert não duvidava do valor da sua música. Mas o sucesso do concerto deixou-o estupefato e a renda lhe pareceu inacreditável: 800 florins! Podia, finalmente, pagar todas as suas dívidas e até mesmo comprar um piano. Dois outros concertos repetiram o êxito do primeiro, causando imensa alegria ao compositor que, numa espécie de comemoração, escreveu, em junho de 1828, a Missa n.º6 em Mi Bemol Maior. Logo em seguida, surgiu o Quinteto em Dó Maior para 2 Violinos, Viola e 2 Violoncelos, hoje considerado uma das suas melhores obras de câmara. Ainda em setembro, Schubert compôs 3 Sonatas para Piano (uma em Lá Maior, uma em Si Bemol Maior e uma em Dó Menor) e, ao que se afirma, os Momentos Musicais — seis pequenas peças de extraordinária concepção melódica, que instituíram todo um sistema de música romântica a surgir mais tarde. Foi como se ele tivesse reunido suas últimas forças e os elementos mais ricos da sua imaginação num derradeiro esforço criativo, pois em novembro, uma crise abdominal aguda o recolheu à cama, não mais lhe permitindo levantar-se. Sobreveio o tifo — que já havia matado sua mãe — e o seu estado se tornou desesperador. Quando seus amigos Lachner e Bauernfeld o visitaram, no dia 17, ele ainda mantinha a consciência, mas logo depois começou a delirar. Implorava um lugar sobre a terra, em pânico por sentir-se encerrado num túmulo, e não dava ouvidos ao seu irmão Ferdinand, que tentava tranqüilizá-lo por todos os modos. Sem poder fazer nada, o velho Franz Theodor assistia consternado à agonia do

filho, o menino gentil que corrigia os seus erros ao violoncelo, o jovem serenamente obstinado que resistira a todas as suas tentativas de transformá-lo em professor, agora um homem de 31 anos, um pobre gênio torturado, que lutava freneticamente por tudo aquilo que sempre tentara frustradamente — viver. Eram 3 horas da tarde de 19 de novembro de 1828, quando Franz Schubert morreu. Um vento frio varria as lápides do cemitério de Wahring, onde repousava Beethoven e onde Schubert foi sepultado dois dias depois, após a sua última viagem de inverno. No silêncio eterno da morte os dois gênios da arte sonora se uniam para a glória, que tanto lhes custara.

datas e fatos relevantes
1797 — Franz Seraph Peter Schubert nasce em Viena a 31 de janeiro, filho de Franz
Theodor Schubert, modesto professor de uma escola suburbana, e de Elisabeth Schubert.

1803 — começa a estudar violino com o pai, e piano com o irmão mais velho. 1806 — passa a estudar canto, piano, órgão e contraponto com Michael Holzer, maestro
de coro da paróquia de Liechtental.

1808 — é admitido no Imperial Internato de Stadkonvikt, escola de jesuítas onde se
ensina música aos candidatos a cantor da Capela Real.

1811 — compõe o primeiro lied, Hagars Klage, atraindo a atenção dos mestres. 1813 — escreve sua Primeira Sinfonia, deixando o Stadkonvikt. 1814 — usando versos de Goethe, compõem o lied Margarida na Roca, uma de suas
obras-primas.

1823 — entre outras obras importantes, compõem a música para Rosamunda e o ciclo
A Bela Moleira.

1827 — comparece aos funerais de Beethoven. Sua produção se intensifica, resultando
em dezenas de importantes trabalhos.

1828 — vitimado por tifo, morre às 3 horas da tarde do dia 19 de novembro.

APÊNDICE
SINFONIA N.º8 EM SI MENOR. “A INACABADA”

Schubert havia escrito, antes da Inacabada, seis sinfonias completas (entre outubro de 1813 e o mesmo mês de 1817) e deixara esboçada uma sétima — datada de agosto de 1821, na sua forma provisória —, tendo esta última sofrido tentativas de reconstrução por ocasião do centenário da morte do compositor, em 1928. Sem qualquer resultado expressivo, entretanto. Em 1822, Schubert retomou a linha de composição de sinfonias e chegou à conclusão de dois movimentos de uma nova, interrompendo sua elaboração nos oito primeiros compassos de um scherzo, que seria o terceiro movimento. Inexplicavelmente parou aí. Infere-se que a obra ficou inacabada por duas razões fundamentais: primeiro, porque, à época, toda sinfonia se compunha de quatro movimentos; segundo pelo fato de Schubert haver dado início a um terceiro movimento — no caso, o scherzo —, o que vem reforçar a hipótese de um subseqüente finale. O que se sabe hoje de positivo é que Schubert havia presenteado os dois primeiros movimentos dessa sinfonia a uma sociedade musical de Graz, na Áustria, que, em 1822, o havia distinguido com o título de membro honorário. Muitos anos mais tarde, um amigo do compositor — Huettenbrenner — adquiriu (não se sabe como) a partitura desses dois movimentos da tal sociedade e durante muito tempo o trabalho permaneceu oculto em sua coleção particular. Em 1865, finalmente, Johann Herbeck — regente dos concertos da Sociedade dos Amigos da Música de Viena —, visitando Graz, encontrou a partitura, amarelecida pelo tempo, na casa de Huettenbrenner. Estudando-a detidamente e maravilhado com a beleza da obra, Herbeck pediu autorização do colecionador

para executá-la em um de seus concertos. Concedida a permissão, a 17 de dezembro desse mesmo ano — 1865 —, 37 anos após a morte de Schubert, a Sinfonia em Si Menor (catalogada posteriormente como número 8) veio a lume. Seu sucesso foi imediato. Causou espanto a sua distribuição em dois únicos movimentos — daí o apelido de Inacabada que ela ganhou — mas perplexidade maior provocaram a sua fina estrutura e o seu resultado sonoro. Em pouco mais de 20 minutos de música, Schubert manifestava toda a gama de seu gênio. Calcula-se hoje quão extensa seria essa sinfonia, se concluída, tendo por base as largas dimensões de seus únicos dois movimentos completados! Depois da Oitava Sinfonia, Schubert viveria mais seis anos e comporia uma outra — hoje conhecida como A Grande —, não sendo, portanto, sua morte a exclusiva razão de não tê-la completado. Alguns argumentam que o compositor concebeu realmente essa sinfonia em dois movimentos, justificando sua tese no fato de que, àquela mesma época, Beethoven havia escrito uma Sonata — a em Fá Sustenido Menor, Opus 78 — também em dois movimentos, o que teria induzido Schubert a imitálo. E, neste caso, até conteúdo, pois a Inacabada está ostensivamente próxima do Beethoven das últimas sinfonias, não obstante seu espírito mais delicado e discreto. Tudo indica, entretanto, que Schubert pretendia terminar essa sinfonia mais adiante — indeciso, provavelmente, quanto a seus dois movimentos finais, mas convencido, em última análise, de que muitos outros trabalhos poderia produzir antes de completá-la. Em 1928 — no centenário da morte do compositor —, entre as várias atividades desenvolvidas em torno da obra não completada de Schubert, na Europa, chegou-se a instituir um comentado concurso entre os compositores, na tentativa de se chegar a dois movimentos finais perfeitamente identificados com os iniciais da Sinfonia n.º8, para que esta fosse completada. Mas o mundo inteiro protestou contra essa idéia, que, certamente, faria com que o trabalho original se desfigurasse, perdendo sua identidade e aura de mistério. As condições do concurso foram modificadas, e a competição passou a girar em torno da composição de uma sinfonia que melhor se aproximasse do estilo schubertiano: ganhou o sueco Kurt Atterberg. Assim, formada de dois únicos movimentos (allegro moderato e andante con moto), mas compondo uma unidade extremamente feliz, a Sinfonia n.º8 em Si Menor prossegue sendo a Inacabada, perpetuando-se no coração dos amantes da música como um dos momentos mais felizes do patrimônio musical de todos os tempos. Pelo menos, a maneira com que Schubert desenvolve diálogos entre os instrumentos de sopro — pratica inusitada até então numa sinfonia, inclusive nas

de Beethoven — é algo que faz dessa obra um quadro orquestral de surpreendente originalidade e magistral efeito sonoro, não muito comum à época.

MOVIMENTOS 1.º: ALLEGRO MODERATO Tem início com impressionante tema, a cargo de violoncelos e contrabaixos. Ao encerrar-se este, oboés e clarinetas — em pianíssimo —, com um acompanhamento nervoso de violinos, introduzem um delicado motivo, cujo desenvolvimento é interrompido várias vezes pelos metais, num incisivo aparte. Cessado este desenvolvimento, um novo motivo emerge, confiado aos violoncelos. É uma melodia fascinante, que irá retornar várias vezes mais adiante, sob nova vestimenta instrumental mas com a mesma encantadora beleza. Os violinos repetem este último motivo, em oitavas, após o que temos uma pausa, seguida por passagem em tonalidade menor, de amplo efeito sonoro. Mas o tema introduzido anteriormente pelos violoncelos reaparece, e a primeira parte deste movimento termina dando a impressão ao ouvinte de um estranho entrechoque de paixões antagônicas. A segunda parte faz ressurgir o primeiro tema de contrabaixos e violoncelos. Há um desenvolvimento do tema sob crescente intensidade sonora, que é levada a poderosa culminância. Daí para a frente temos um retorno dos mesmos motivos anteriores, com sutis insinuações, até que uma nova explosão leva á coda, cujo material temático é o mesmo que serviu como introdução do movimento. 2.º: ANDANTE COM MOTO Trompas e fagotes, com acompanhamento em pizzicato nos contrabaixos, encarregam-se do grave e tristonho trecho introdutório. Ligando-se a este início, surge o primeiro tema, anunciado pelos violinos, e que complementa a triste mensagem inicial. Terminado o desenvolvimento desse tema, surge o segundo — por intermédio da clarineta e com acompanhamento de cordas. O novo tema é repetido pelo oboé, acrescentando-se então uma nova frase à qual se junta a

flauta. O movimento prossegue então com um majestoso discurso de toda a orquestra, numa nova harmonia, e que parece imprimir à música um clima de revolta e sofrimento. A esta agitação segue-se um novo tratamento do segundo tema, pelas cordas, findo o qual, o movimento tem seqüência com a usual repetição dos temas antecedentes. Chegamos então à coda, onde o tristonho trecho inicial e o primeiro tema são revividos de maneira evocativa, cobrindo de estranhas sombras o final da sinfonia.

DOIS MOMENTOS MUSICAIS, OPUS 94, PARA PIANO n.º4, em Dó Sustenido Menor n.º5, em Fá Menor

Não se tornaram ainda suficientemente comprovadas as datas de composição dos seis Momentos Musicais — catalogados como Opus 94 — de Schubert. Pequenas peças de profunda e enternecedora beleza, esses Momento Musicais são tidos como a primeira experiência, na história da música pianística, no sentido de se criar um repertório “doméstico” para o instrumento, ou seja, curtos trabalhos para execução, na intimidade do lar, de quem não é pianista profissional. Bem mais tarde, Schumann, Mendelssohn, Chopin e Grieg, entre muitos outros, levariam a experiência de Schubert a um resultado de variadas e importantes produções, através de suas peças curtas para piano. Os Momentos Musicais n.ºs 4, em Dó Sustenido Menor, e 5, em Fá Menor, deixam expandir, como os demais da coleção, aquela doce graça — quase ingenuidade — tão característica de Schubert e que, mais adiante, influenciaria a obra pianística romântica.