Tempo-espaço do Fluxo de Informações Imagísticas na Pós-modernidade: Tecnologia, Linguagem e Imaginário Trabalho apresentado ao NP 07 – Comunicação Audiovisual Andréia

Denise Mallmann12 Resumo Partindo das premissas de Harvey (2003), na obra Condição Pós-Moderna, um olhar se força atento a esse período, citado nesse título, e levanta as questões de tempo-espaço no fluxo das imfornações imagísticas dessa época. A relação de elementos como tempo, espaço, tecnologia, pós-modernidade, imaginário, linguagens imagísticas e convergência de mídias, será o foco principal desse estudo. Para tanto, a metodologia que melhor se aplicará à construção e análise da pesquisa é a da complexidade moriniana, tendo em vista sua abordagem dialógica e a capacidadde deste método contar com a multidisciplinariedade (no caso, das áreas da física, da história e da comunicação social). Palavras-chave Tempo-espaço; tecnologia; linguagem; imaginário; pós-modernidade Corpo do trabalho Da Filosofia à Física: o Tempo-espaço Pós-moderno
O espaço e o tempo são categorias básicas da existência humana. E, no entanto, raramente discutimos o seu sentido; tendemos a tê-lo por certos e lhes damos atribuições do senso comum ou auto-evidentes. Registramos a passagem do tempo em segundos, minutos, horas, dias, meses, anos, décadas, séculos e eras, como se tudo tivesse o seu lugar numa única escala temporal objetiva. Embora o tempo na física seja um conceito difícil e objeto de contendas, não costumamos deixar que isso interfira no nosso sentido comum de tempo, em torno do qual organizamos rotinas diárias. (HARVEY: 2003, 187)

A idéia de tempo-espaço não é recente, nem mesmo pouco contraditória. Grandes nomes: Aristóteles, Santo Agostinho, Bergson, Galileu, Newton, Einstein, dentre outros,
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Mestranda em Comunicação Social, linha Tecnologias do Imaginário pelo PPGCOM Docente da Faculdade de Comunicação Social/Jornalismo da PUCRS
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A mestranda e docente, profª. Andréia D. Mallmann ministra aulas de fotografia e jornalismo on-line na PUCRS há 1 ano e meio. Possui publicações em seminários e congressos nas áreas de tecnologias do imaginário e estudos audiovisuais. A autora é bacharel em Jornalismo, curso o qual concluiu no ano de 2002, iniciando, sequencialmente, sua trajetória docente na mesma Universidade, no ano de 2003.

estudaram e conceituaram tais elementos. Porém, como reforça Harvey (2003, 189), “a história dos conceitos de tempo, espaço e tempo-espaço na física tem sido marcada, na verdade, por fortes rupturas e reconstruções epistemológicas”. O importante é ressaltar que tempo-espaço não formam um conceito fechado, mas expandem suas fronteiras para inúmeras interpretações, como Einstein, com sua “Lei da Relatividade”, pensava.

Já no século XIX, os cientístas acreditavam que a física só estaria completa quando os experimentos pudessem explicar a ação das forças sobre as partículas de matérias, da mesma forma que essas se movem mediante a ação das forças. Por fim, a importância física centravase na “força e movimento”.

Os cientistas acreditavam que se fosse plausível a comparação entre a natureza e “um grande drama cósmico”, no qual o elenco fosse formado pelo conteúdo do universo e o tempo-espaço tomassem a forma de um palco imenso, a única meta seria então descobrir qual elemento incorporaria a chamada “trama, peça, história”. Nisso, Einstein já contribuia dizendo que “a separação entre elenco e palco era artificial”.

O espaço e o tempo fazem, eles próprios, parte do elenco; eles desempenham um papel pleno e ativo no grande drama da natureza. Espaço e tempo, ao que se revela, não estão simplesmente “ali” como um pano de fundo imutável da natureza; são coisas físicas, mutáveis e maleáveis e, tanto quanto a matéria, estão sujeitos à lei da física. (DAVIES: 2000, 16)

O que Einstein revelou foi que tanto o “movimento”, quanto o “espaço-tempo” são relativos, variam com os fatores externos/internos, enfim, não são elementos de conceitos fechados ou fixos. Davies (2000, 16) explica que “a palavra ‘relatividade’ aqui refere-se ao fato elementar de que a aparência do mundo que nos circunda depende de nosso estado de movimento”.
Como o capitalismo foi (e continua a ser) um modo de reprodução revolucionário em que as práticas e processos materiais de reprodução social se encontram em permanente mudança, segue-se que tanto as qualidades objetivas como os significados do tempo e do espaço também se modificam. Por outro lado, se o avanço do conhecimento (científico, técnico, administrativo, burocrático e

racional) é vital para o progresso da produção e do consumo capitalistas, as mudanças do nosso aparato conceitual (incluindo representações do espaço e do tempo) podem ter conseqüências materiais para a organização da vida diária. (HARVEY: 2003, 189-190)

É através desse capitalismo, que a Revolução Industrial criou as primeiras redes materiais (ferrovias) que interligaram os espaços (inter)nacionais. A mesma revolução (capitalista) que trouxe a energia elétrica, anos mais tarde, inovou os mercados de microeletrônica. Hoje vivemos na era pós-moderna, no período da pós-industrialização que invergaram velhas noções de tempo-espaço, garantindo, a esses conceitos, novos valores e interpretações.

Quando ouvimos falar que “o mundo está acelerado”, estamos diante de um elemento que aplica sua lei física sob outros dois pontos: a velocidade e, por conseguinte, o tempo. Oliveira Filho (1992, 13) já explicava que “a aceleração é o valor que a velocidade aumenta ou diminiu a cada segundo que passa”. Em outras palavras, ela é (ou nos informa) a mudança (ou a variação) da velocidade num intervalo de tempo. Daí a fórmula: a = v / t, onde “a” é diretamente proporcional à “v” e inversamente proporcional à “t”.

Esse fator, aceleração, implica também outros fatores. Se o movimento for um MRUV (movimento retilínio uniformemente variado) ou seja, passível de aceleração, sua trajetória ou espaço percorrido será cumprido em um tempo diretamente vinculado à velocidade desejada ou possível de ser obtida. Então, a força, já estudada por Galileu; o movimento, conceituado por Newton; a aceleração, a velocidade e, por fim, o que mais nos interessa nesse estudo, o tempo-espaço, estão vinculados às condições não apenas físicas, mas tecnológicas, tendo em vista que tais escolhas ficam ao cabo de possibilidades de concretude e existência.

As distâncias percorridas (espaços), tanto para o transporte de materiais concretos, reais; como para levar ao outro lado do mundo informações, dados virtuais, digitais,

ganharam “veicularidade”, graças às tecnologias disponíveis em cada tempo. Portanto, a revolução tecnológica, ou como diz Harvey (2003, 190) “o progresso implica a conquista do espaço, a derrubada de todas as barreiras espaciais e a aniquilação do espaço através do tempo”.

Como já estudava Einstein, na questão da viagem no tempo, muito abordada pelo cinema, “aniquilar o espaço através do tempo”, seria o mesmo que obter tamanha aceleração capaz de criar um movimento com altíssima velocidade, onde o espaço (a distância) a ser cumprido desaparecesse. Trazendo tais reflexões para uma realidade mais mundana, o que as novas tecnologias digitais prometem é rezar por um avanço (uma velocidade de processamento de bits, agilidade de administração, etc) capaz de diminuir o tempo de execução de inúmeras funções pretendidas pelo homem. Esse processo implica, justamente, alterações em questões culturais, operacionais, de linguagem, de imaginário, enfim, mudanças importantes no histórico social humano.

O problema imediato, porém, é compreender os processos sociais mediante os quais suas qualidades objetivas são estabelecidas. Com isso, podemos avaliar melhor a afirmação de que, a partir dos anos 70, vem ocorrendo algo vital para a nossa experiência do espaço e do tempo que provocou a virada para o pósmodernismo. (HARVEY: 2003, 207)

Pensando assim, contribuem para tal aceleração (de vida, de produção, de consumo etc), implicando no que Harvey chama de “compressão de tempo-espaço”, a digitalização dos meios (não-linearidade de escolhas) , a virtualização das idéias, impulsionada por uma concepção de época (o pós-modernismo) capaz de mixar valores, pensamentos e posturas jamais misturadas antes. Isso implica, também, a construção de um imaginário comum (e isso é um tanto quanto redundante).

Michel Maffesoli trouxe a palavra imaginário para um campo semântico mais geral e compatível com os múltiplos sentidos atribuídos agora ao termo. O imaginário é uma força, um catalisador, uma energia e, ao mesmo tempo, um patrimônnio de grupo (tribal), uma fonte comum de sensações, de lembranças, de afetos e de estilos de vida. (SILVA: 2003, 10-11)

De certa forma, quando vivemos em comunidade, em sociedade, compartilhamos, misturamos nossos imaginários. A idéia tribalista de Maffesoli, estudada por Silva, traçava essa perspectiva. já

Convergência: Novas Linguagens e Imaginários
Não tenho verdades finais. Estamos tentando entender um processo em transição. (Sousa: 2001,07)

Todo processo em transição, necessariamente, recai em desconstruções. Algumas fáceis, outras nem tanto. Vivemos em um universo onde tudo se mostra de forma

naturalmente linear. Romper com essa linha retilínia – de começo, meio e fim – é tão complexo quanto aceitar um tempo ligado, impreterivelmente, ao presente. Sousa (2001, 7) já afirmava que “temos dificuldade em lidar com uma cultura que emerge da imagem […] em ultrapassar a razão para admitir o prazer, em captar os sentidos que perpassam as tecnologias”.

O que ele quer dizer é que vivemos sob uma transição altamente acelerada que pressupõe alterações tamanhas de conceitos antes seguramente fixados, padronizados. Um tempo e um espaço diferentes, mediados e/ou influenciados por tecnologias digitalizantes. Nossa dificuldade está em aceitar e entender o que Sousa chama de “ambiência de hoje”.

Nós não vemos […] a realidade […] como ‘ela’ é, mas como são nossas linguagens. E nossas linguagens são nossas mídias. Nossas mídias são nossas metáforas. Nossas metáforas criam o conteúdo de nossa cultura. (POSTMAN: 1985, 15)

Postman, com isso, não quer afirmar que as tecnologias são nossas linguagens, nem vice-versa. Ele está apenas se referindo à termos interdependentes. De trás para frente talvez fique mais claro: o conteúdo de nossa cultura é representado por metáforas criadas por nós, por mídias e por linguagens desenvolvidas pelo e para o homem. Assim, nossas linguagens e nossas mídias possuem o sentido que damos para (e a partir) destas.

As linguagens e sua relação com as mídias passam basicamente por três grandes idades. A primeira foi a da oralidade, da comunicação mediada pela expressão corporal, pelo dom da palavra. (Sousa: 2001, 11)

Através da palavra o homem manifestou e exercitou sua capacidade de comunicarse em diferentes tempos, de trocar idéias sem estar presente, enfim, de conviver em grupo, em sociedade sob a manutenção de um registro escrito. “A primeira grande dade da linguagem i social foi exatamente essa oralidade que se expressou de forma escrita”, como completa Sousa (2001, 11-12): “Durante séculos – quase dezoito séculos – vivemos dentro do processo comunicacional dependente dos códigos da escrita”.
Mas, ao longo dos últimos duzentos anos, começou uma nova revolução, que criou uma segunda linguagem, um segundo modo de se compreender a sociedade, de se compreender a relação das pessoas entre si. Trata-se exatamente da chegada da imagem eletrônica. Ao domínio da palavra sucedeu-se a presença hegemônica da imagem segundo suportes tecnológicos. E que imagem? A imagem transmitida através da fotografia, depois através do cinema e, nos últimos cinqüenta anos, através da televisão. A imagem, presente e percebida desde a Antigüidade, é agora redescoberta e publicizada pelos suportes tecnológicos. (SOUSA: 2001, 12)

A suposta Era da Imagem foi delineada no momento em que a técnica da litografia gerou a possibilidade de multiplicar as imagens, de reproduzir uma obra (artística ou documental) em muitas outras. Anterior a esse período, a descoberta da fotografia (“imagem estática”) já iniciava os primeiros passos da imagem enquanto linguagem e expressão.

Depois do aperfeiçoamento da fotografia, durante alguns anos, cientistas e inventores buscaram soluções técnicas para dominar os princípios da projeção de sombras e reproduzir uma imagem em movimento contínuo. A história do cinema começou a partir desses problemas. (GONTIJO: 2001, 214)

O cinema (“imagem em movimento”) pegou carona com as descobertas de George Eastman, criador do filme em rolo, e foi plenamente inaugurado em 1895 com a criatividade dos irmãos Lumière. Como afirma Gontijo (2001, 214), “antes deles as platéias eram atraídas pela curiosidade tecnológica e não pela história a que iriam assistir”. Como se percebe, Postman tinha razão em entrelaçar termos tão próximos como linguagem e tecnologia. A viabilidade da primeira e a utilidade da segunda certamente andam juntas.

O modo da imagem de TV nada tem em comum com filme ou foto, exceto pelo fato de que oferece também um gestalt não verbal ou proposta de formas. […] O contorno plástico resultante aparece pela luz através da imagem, não pela luz sobre ela, e a imagem assim formada tem a qualidade de esculturas e ícone, e não de uma foto. (MCLUHAN: 1964, 313)

Embora McLuhan aponte as diferenças estéticas e tecnológicas de representação imagística e transmissão na televisão, esta, da mesma forma que a fotografia e o cinema, também opera como o que Sousa chama de “segunda linguagem”. Sousa costuma dizer que a TV trabalha a imagem em movimento com idéia de temporalidade.

Para qualquer aproximação ao estudo da estética fotográfica contemporânea, bastaria apenas mencionar, dentre o abrangente leque de aplicações da fotografia no mundo atual, a produção profissional e comercial incessantemente exercida e absorvida pelos meios de comunicação e informação, que, a partir do momento em que a fotografia permitiu sua reprodução na página impressa dos jornais, das revistas e das inúmeras publicações ilustradas, passaram a transmitir as imagens encomendadas dos fatos da história cotidiana do século XX, proporcionando o nascimento do fotojornalismo […]. (KOSSOY: 2001, 136)

Nasce, então, o que Kossoy (2001, 136) denomina de “civilização da imagem” e o qual Sousa (2001, 12) se refere como “cultura da imagem”, superando a hegemonia da palavra escrita, enquanto meio de comunicação social. A imagem tornou-se simplemente um elemento indispensável, além de um alimentador forte da idéia de veracidade jornalística para as mídias que dela dependiam ou a utilizassem. Como afirma Morin (2002, 40), na obra Terra-Pátria, “não há um evento, um advento, uma catástrofe que não sejam captados por uma câmera e enviados a todos os horizontes em centenas de milhões de instantâneos”.
O homem passou a ter um conhecimento mais preciso e amplo de outras realidades que lhe eram, até aquele momento, transmitidas unicamente pela tradição escrita, verbal e pictórica. […] Era o início de um novo método de aprendizado do real, em função da acessibilidade do homem dos diferentes estratos sociais à informação visual dos hábitos e fatos dos povos distantes. […] Microaspectos do mundo passaram a ser cada vez mais conhecidos através de sua representação. O mundo, a partir da alvorada do século XX, se viu, aos poucos, substituído por sua imagem fotográfica. O mundo tornou-se, assim, portátil e ilustrado. (KOSSOY: 2001, 2627)

Assim como na fotografia, no cinema e na TV não foi diferente. A portabilidade, dita por Kossoy, possibilita, tanto em termos de captação de imagem fílmica (em película) como em vídeo (fita magnética), o (re)conhecimento por parte dos homens. Realidades longínquas podem, agora, ser levadas à espectadores bem sentados em frente à TVs, salas de cinema ou através de magazines ilustrados.
A idade da imagem eletrônica é caracterizada, sobretudo, pelo que chamamos de necessidade de representação: não importa o quê, importa representar. Talvez por isso a imagem tenha seduzido tanto. Talvez por isso estejamos hoje tão próximos da imagem e tão afastados da palavra. Tão próximos da representação e com certa dificuldade para continuar a compor a palavra segundo os códigos da escrita. (SOUSA: 2001, 13)

A imagem é instantânea, de rápida leitura. Ela é um elemento que entra em conformidade com a aceleração temporal em que vivemos hoje, com nossas rotinas apressadas e com o ideal de comodidade, prazer. O universo da comunicação é repleto de imagens (desde seu referente até seu significado), sendo esse um exemplo próprio da comunicação na passagem para o “mundo pós-moderno” que, como afirma Silva (2003, 25), “forja tecnologias do afeto e domina os sujeitos pela adesão” onde o “preço da adesão é o prazer imadiato”.

Hoje, porém, já estamos diante de um terceiro momento, uma terceira linguagem, uma terceira instrumentação. Já não é mais a palavra, já não é mais a imagem. Nós estamos dentro do que se chama de multimídia. Já estamos dentro de uma terceira idade. (SOUSA: 2001, 12-13)

No entanto, o que é o multimídia senão a união, a convergência das mídias. A nova linguagem dominante ou idade, como afirma Sousa, nada mais é do que a junção da escrita (texto), da imagem (estática ou dinâmica), do áudio e do gráfico animado.

Silva (2003, 27) diz que “a sedução desliga-se da razão para afundar cada indivíduo nas ondas da interatividade lúdico/emocional”. Talvez por isso a imagem permaneça tão fortemente presente na terceira idade descrita por Sousa, viabilizada em nossos tempos por essa “interatividade lúdico/emocional”. A imagem veio para representar e o homem vê nisso um poder de sedução. Nessa idéia de interatividade, sedução e prazer são ícones de grande

importância na era pós-moderna, e a imagem tem papel primordial, através da representação. Já dizia Silva (2003, 101): “Quem planta imagens, colhe imaginários”.
O imaginário, contudo, não surge do nada. Não se trata de uma aquisição meramente espontânea. Em outras palavras, pode ser induzido. É possível listar três etapas da construção imaginal, em relação às tecnologias que a engendram: fase primitiva, fase indutrial e fase pós-industrial ou virtual. (SILVA: 2003, 20)

O que Silva está falando rima com as palavras de Sousa. Os três períodos do primeiro podem ser relacionados às idades do segundo. A fase primitiva, do século XVIII e XIX, teve como principal meio de comunicação a palavra escrita. A fase industrial, iniciada no final do século XIX, seguindo até meados do século XX, foi, basicamente, impulsionada pela linguagem imagética (o surgimento da fotografia, d cinema e da TV). Por último, a fase o pós-industrial ou digital/virtual, faz referência ao processo multimídia, à convergência de linguagens, onde o principal veículo foi (e ainda é) a Internet. Silva ainda reforça esse panorama de imaginários (em diferentes fases, períodos ou idades) alegando que:

Os imaginários dos séculos XVII e XVIII foram dramáticos e dramatúrgicos, assim como o da Grécia antiga tinha sido trágico ou tragicômico. O imaginário do século XIX foi romanesco (um grande folhetim); o do século XX, cinematográfico (depois de ter sido radiofônico); mas no final do século XX, o imaginário tornou-se teledramatúrgico (antes de mergulhar no ciberespaço). Essas aproximações e caricaturas, generalizações válidas de certos momentos e lugares, no Ocidente, na Europa, na América, contam muito sobre o vivido por certos grupos na esteira das tecnologias dominantes em cada época. (SILVA: 2003, 78)

“Mais do que reconhecer as novas linguagens, a grande questão é a de como interpretá-las”, já dizia Sousa (2001, 14). Ele diz que “a palavra está ligada ao código escrito”, enquanto “a imagem está ligada à representação”. Na era pós-moderna, “a multimídia está ligada à simulação”. Essa complexidade representa o processo de comunicação em seus momentos mais distintos e junto à ele os diferentes posicionamentos filosóficos de pensamento. O que Sousa dizia da convergênica midiática – multimídia – Baudrillard coloca de forma ironicamente feroz: “vivemos em um simulacro”. Baudrillard (2002, 130) afirma, com relação a essa linguagem pós-moderna, que “diferentemente da fotografia, do cinema e da pintura, onde há uma cena e um olhar, a imagem-vídeo, como a

tela do computador, induz a uma espécie de imersão, de relação umbilical, de interação ‘tátil’”.

O que ele está se referindo, nada mais é do que uma imagem da imagem. A tela do computador sugere uma imersão digital, que só se faz presente pela interatividade que esta tecnologia propicia, caso contrário, estaríamos diante de um suporte semelhante ao magazine de outros tempos. A imagem, enquanto linguagem, é um meio de comunicação que se transforma (muda de “forma”) de acordo com o canal que utiliza. Equanto imagem fixa e impressa, ela representa estaticamente um fato e se mantém ali informando, por um tempo determinado, até virar memória. Na idade da multimídia, a imagem é passível de interação (com outras linguagens, que nela acrescentam mais informações) e solicita interação, mediante o canal utilizado (no computador, por exemplo, com a Internet).
Maffesoli, por exemplo, mostra como a pós-modernidade é caracterizada pelo advento de tribos em franca oposição à figura moderna do individualismo. Para Jameson, também a morte do sujeito, ou fim do individualismo, é um dos componentes mais importantes da pós-modernidade. (LEMOS: 2002, 71)

Como percebemos junto aos pensadores, não podemos esquecer que essa interatividade nasce juntamente com a tentativa de quebra de um individualismo humano. Esse “declínio de individualismo é que dá forma à pós-modernidade social”, como afirma Lemos (2002, 71). “Na realidade, estamos vivendo uma fase de transição […] onde os meios de comunicação estão aí, criando espaços relacionais, espaços sociais, espaços de vida”, como pensa Sousa (2001, 23). O papel da tecnologia, nesse contexto, não é apenas mediar novas formas de relações humanas, mas de servir de canal, gerar nós (conexões).
Quem faz a ponte do estar-junto coletivo é a mídia, a televisão, o computador. Temos toda essa infra-estrutura de tecnologias no nível individual: eu acesso o computador, eu ligo a TV. O estar-junto coletivo se desestruturou, tornou-se midiático. (SOUSA: 2001, 22)

Guy Debord já dizia que “o espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediada por imagens”. Silva (2003, 21), referindo-se às idéais de Maffesoli, fala que “o laço social serve de cimento à vida em sociedade. Porém, só se

atualiza pela força de valores partilhados, de imagens reverenciadas em conjunto e de sentimentos e afetos intensificados pela comunhão”.

Morin trabalha o “laço social” (Maffesoli) enquanto uma “mundialização” facititada primeiramente pela capacidade de registro fotográfico (a questão do mundo portátil e ilustrado de Kossoy) e, posteriormente pela tecnologia (de linguagem) multimídia, facilitada pelo computador (Internet). Nessa passagem, diz Morin (2002, 34), “não apenas cada parte do mundo faz cada vez mais parte do mundo, mas o mundo enquanto todo está cada vez mais presente em cada uma de suas partes”. Essa mudança de prisma sobre o que (e quem) constrói/promove o laço, o cimento social ou a mundialização também entrou em transição frente às mudanças de valores (e dentre eles os conceitos de tempo e de espaço) da

modernidade à pós-modernidade, no final do século XX.

A idéia de pós-modernidade aparece na segunda metade do século XX com o advento da sociedade de consumo e dos mass media, associados à queda das grandes ideologias modernas e de idéias centrais da história, razão, progresso. Agora, os campos da política, da ciência e da tecnologia, da economia, a moral, da filosofia, da arte, da vida cotidiana, do conhecimento e da comunicação vão sofrer uma modificação radical. (LEMOS: 2002, 67)

Lemos (2002, 68) afirma que a pós-modernidade refere-se ao “sentimento de mudança cultural e social”, que, não coincidentemente, nasce frente a uma nova ordem econômica chamada pós-industrialismo. Parafraseando Baudrillard, Lemos (2002, 69) diz que “a realidade social torna-se produto de processos de desmaterialização e de simulação do mundo, impulsionados pelo desenvolvimento de máquinas de informação (os

computadores)”. Surge aí o que Debord chama de “sociedade do espetáculo”, subplantada pela hiper-realidade imagética.

O universo das imagens dá forma ao pensamento pós-moderno, quebrando regras e conceitos de época. Nesse quadro, parece importante estar na contramão, ser o avéc, anarquizar os padrões. As novas tecnologias nada mais são que o caminho técnico que

formatar as intenções, os sentimentos e os imaginários comuns em conexões nodais na rede. É através desses aparatos tecnológicos que, tanto as imagens, quanto as demais linguagens, conseguem quebrar com a linearidade mundana. O rompimento com o linear desencadeia alterações na forma de produção e interação. É nesse âmbito que se instalam a questão proposta por Harvey de “compressão do tempo e do espaço”. Assim, pode-se dizer que a PósModernidade é a Era que abraça tais mudanças e as novas tecnologias, os aparatos que as viabilizam.

Do Linear ao Não-linear: a Alavanca Tecnológica no Tempo-espaço

A modernidade tem como princípio o tempo linear: a vida, a seqüência da vida, é uma linha com um antes, um durante e um depois, um começo, um meio e um fim. Há uma racionalidade em tudo isso, e essa racionalidade faz também com que os meios de comunicação tenham uma linguagem. Qual linguagem? A linguagem do tempo linear. (SOUSA: 2001, 19)

Assim como nossas vidas possuem rotinas lineares, nossos veículos de comunicação assemelham-se a esse ciclo: um tempo de “vida” e de “morte” se estabelece a cada ciclo de 24 horas. Nada mais linear que isso. Com as tecnologias digitais, a linearidade foi-se por terra. O não-linear possibilita escolhas múltiplas, variadas. A seqüência antiga se altera e dá lugar à vasta possibilildade de (oper)ação.

Alguns podem ainda questionar: o que o tempo tem a ver com isso? Tudo. O tempo transcorrido é linear, pelo menos em nossas sensações diárias. Tudo em nossa experiência de vida natural apresenta-se de forma corrente e linear. Mas as tecnologias digitais vieram quebrar essa retilinearidade habitual. Talvez por isso, haja tanta resistência, por parte de alguns teóricos (como Baudrillard, com “o simulacro”; Benjamin, com “a perda da aura”; entre outros), em aceitar a técnica como fator positivo à vida humana.

É claro que, com isso, não está sendo anulado o fator mais “perverso” da tecnologia. A tecnologia é, de certa forma, humana, “natural” (pois é um produto que “nasce” de um

sentimento natural de ânsia pelo progresso e evolução que os homens têm), faz parte do universo enquanto elemento social vital (não há como fugir dela, sem recair ao isolamento, e ainda assim teme-se depender dela). Por isso mesmo, ela deve, como Morin (2002, 45) costuma dizer, possuir um pólo positivo e outro negativo, ou seja, gerar a ordem e o caos, promover o equilíbrio e o desequilíbrio. A isso ele afirma: “Eis-nos num universo em que o caos funciona, e que obedece a uma dialógica na qual ordem e desordem não apenas são inimigas, mas cúmplices”.

A própria descoberta do fogo, foi para a humanidade um elemento de evolução, bem como, em alguns momentos esse nos reservou um retrocesso danoso. O fogo que aquece é o mesmo que queima e destrói. Caos e ordem, equilíbrio, desequilíbrio: a vida é um eterno (re)ciclar. Com as novas tecnologias digitais não seria diferente. Mas o fogo não quebra a contruída escala linear, bem projetada aos homens pelo “Criador”. O fogo pode ser considerado uma técnica, mas não modifica a linearidade da vida, do pensamento, das ações e do devir da humanidade. A técnica do fogo tem sua aplicação restrita, diferentemente da tecnologia, que expandiu-se e ganhou espaço na vida cotidiana do ser humano, bem como as linguagens. Porém, e o tempo? Esse elemento indecifrável, opera 100% em nossas vidas, do início ao fim, sendo ou não em linha reta (linear).

É em direção a aceleração deste tempo que o homem trabalha. E para isso, conta com as possibilidades tecnológicas. Aí entra a técnica. O homem sempre quis ganhar mais espaço, conquistar territórios e controlar o tempo. Tempo-espaço são fatores que remetem à poder. Só os Deuses poderiam alterar o tempo, controlá-lo, retrocedê-lo talvez. O homem, pobre mortal, faz isso mediante tecnologias: na fotografia (retenção do tempo em uma imagem), no cinema (onde conta-se 200 anos em duas horas) e na TV (onde recorta-se as principais informações de um dia de 24 horas).

Quanto ao espaço,

nossos ancestrais já o tentavam dominar. Atenas e Esparta

lutaram em prol de um melhor e maior espaço. Mas como afirmava Einstein, o espaço também é relativo. Com a tecnologia, ocupamos menos espaços materiais, concretos, mas “virtualmente” sobrecarregamos sistemas, cada vez mais evoluídos, de informações. São os hardisk’s com mais e mais gigabytes, terabytes, etc. Nunca estamos satisfeito, nunca há

espaço suficiente. Somente um universo virtual poderia nos garantir seguros e suficientemente instalados.
As tecnologias hoje entraram dentro de um círculo de vida em que passam a existir muito menos para o amanhã e muito mais para o hoje. As tecnologias do tempo presente. Da velocidade. Dos serviços. Da internet. O princípio da pósmodernidade é exatamente a mudança do tempo: ao invés do tempo linear, eu entro no tempo individual. (SOUSA: 2001, 20)

Se pensarmos no tempo e espaço das mídias, percebemos que estas, com exceção da Internet (e talvez, a TV Digital), operam de forma linear, com tempos determinados e espaços limitados. O fluxo de informações, tanto no jornal impresso, quanto na TV, se dá sob uma rotina de 24 horas. Seus espaços são limitados: o da TV pela própria duração temporal e o do jornal pela quantidade de folhas (elemento limitado). A Internet não. Transcorre em tempo relativo (sob um conceito temporal aberto e flexível). Suas informações podem durar 24 horas ou ficar eternamente disponíveis. Quanto ao espaço, esse também é ilimitado, aberto, infinito. Isso porque a Web é o canal que melhor representa a Era pós-industrial, virtual como dizia Silva.

O fluxo de informações ali alcançado perde parte da referência temporal e espacial comum ao universo concreto. Na Internet, uma imagem inserida no “reinado dos códigos html” é acessível em qualquer lugar (espaço) do mundo, a qualquer hora (tempo), em um novo fluxo acelerado de comunicação.

Esse fluxo, em um tempo não-linear e em um espaço virtualizante, cria a face da pós-modernidade. Nesse tempo-espaço pós-moderno, percebemos a imagem como algo integral, participante vital na “idade multimídia” – bem colocada por Sousa – , onde a

convergência de linguagens amplia e tranforma nosso imaginário coletivo, sedimentando o vínculo social (Maffesoli) nessa Era de mudanças e transformações. A comunicação, nesse âmbito, ganha e perde a todo instante, equilibrando-se (como propõe Morin) de forma ambivalente. As novas tecnologias, então, propiciam uma complexa alteração no cotidiano humano, onde caos e ordem reinam ao mesmo tempo, na dita Era Pós-Moderna.

Referências bibliográficas
BAUDRILLARD, Jean. Tela toral: mito-ironias do virtual e da imagem. Porto Alegre: Sulina, 2002. DAVIES, Paul. O enigma do tempo: a revolução iniciada por Einstein. Rio de Janeiro: Ediouro, 2000. GONTIJO, Silvana. O mundo em comunicação. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2001. HARVEY, David. Condição pós-moderna. São Paulo: Loyola, 2003.

KOSSOY, Boris. Fotografia e história. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001. LEMOS, André. Cibercultura: tecnologia e vida social na cultura contemporânea. Porto Alegre: Sulina, 2002. MCLUHAN, Marshall. Undertending media: the extensions of man. Nova York: Macmillan, 1964. MORIN, Edgar. Terra-Pátria. Porto Alegre: Sulina, 2002. OLIVEIRA FILHO, Geraldo Fulgêncio de. Dicas de física. Porto Alegre: G.F. de Oliveira Filho, 1992. PIETTRE, Bernard. Filosofia e ciência do tempo. São Paulo: EDUSC, 1997. POSTMAN, Neil. Amusing ourselves to death: public discourse in the age of show business. Nova York: Penguin Books, 1985 SILVA, Juremir Machado da. As tecnologias do imaginário. Porto Alegre: Sulina, 2003. SOUSA, Mauro Wilton de. Novas linguagens. São Paulo: Editora Salesiana, 2001.