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Universidade Federal da Paraíba Centro de Ciências Exatas e da Natureza Programa de Pós-Graduação em Geografia

A AÇÃO COLONIZADORA PRODUZINDO O ESPAÇO:
de aldeias indígenas à Alagoa da Perdição (1766-1816)

EMMANUEL CONSERVA DE ARRUDA

João Pessoa, outubro, 2007

Universidade Federal da Paraíba Centro de Ciências Exatas e da Natureza Programa de Pós-Graduação em Geografia

A AÇÃO COLONIZADORA PRODUZINDO O ESPAÇO:
de aldeias indígenas à Alagoa da Perdição (1766-1816)

Emmanuel Conserva de Arruda Orientadora: Ariane Norma de Menezes Sá

DISSERTAÇÃO apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal da Paraíba, como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em Geografia.

João Pessoa – PB 2007

Emmanuel Conserva de Arruda A ação colonizadora produzindo o espaço: de aldeias indígenas à Alagoa da Perdição (1766-1816).
Dissertação apresentada pelo mestrando Emmanuel Conserva de Arruda ao Corpo Docente do Programa de Pós-Graduação em Geografia do CCEN-UFPB, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Geografia.

Avaliado em _____________________________ com média___________________

Banca Examinadora da DISSERTAÇÃO DE MESTRADO:

_______________________________________________________________

Belarmino Mariano Neto (UEPB)

_______________________________________________________________

Maria de Fátima Ferreira Rodrigues (PPGG);

_______________________________________________________________

Ariane Norma de Menezes Sá (UFPB)
Orientadora

UFPB/2007

Ao meu pai (in memoriam) e a minha mãe, Cornélio Conserva e Maria Arruda, e meus irmãos Renato, Nilton, Fábio e Fabíola, dedico esse trabalho. São para mim exemplo, força e alegria.

AGRADECIMENTOS

É sempre muito difícil agradecer, pelo temor de parecer exagerado para uns ou faltoso para outros. Mas não posso deixar de dar reconhecimento, agradecendo aqueles, que de forma direta ou indireta, contribuíram para realização deste trabalho. Afinal, o conhecimento é uma construção coletiva. À Ariane Sá, mais que professora, é uma amiga que tenta nos conduzir com extrema paciência e competência nos difíceis e mal remunerados percursos da vida acadêmica. Pela sua confiança, compreensão, disponibilidade e apoio nesta pesquisa e além dela. Aos professores do mestrado. Todos foram muito importantes para minha incursão na geografia, com idéias e indicações bibliográficas que serviram de base teórica e metodológica para o trabalho. Especialmente aos Doutores: Raimundo Barroso Cordeiro Júnior; Carlos Augusto de Amorim Cardoso e as Doutoras Doralice Sátyro Maia; Ariane Norma de Menezes Sá e Maria de Fátima Ferreira Rodrigues. À Sônia, secretária da coordenação do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal da Paraíba, que além de descomplicar a burocracia, sempre nos recebe com atenção e carinho. Aos meus colegas mestrandos, que se tornaram importantes pilares de apoio nos momentos de desânimo e com os quais dividi as dificuldades e alegrias que são proporcionados por uma pós-graduação. Em especial, aos colegas Luciano, Anderson e Benedito, além de colegas nos tornamos amigos. Sem eles não teria histórias engraçadas para lembrarmos. Ao LEPAN (Laboratório de Ensino e Pesquisa em Análise Espacial) do Departamento de Geociências/UFPB, especialmente ao professor Richarde Marques, que me orientou na confecção dos mapas. Aos integrantes do grupo de estudo sobre a Paraíba Imperial. Base para esta e outras tantas pesquisas. No início, éramos só alguns alunos e muitas perguntas. Hoje, somos grandes amigos em busca de respostas. A história fortaleceu nossa amizade. A Fabrício Morais, Mayrinne Meira e Maximiano Machado que mesmo com o afastamento que este período força, nunca deixaram de demonstrar amizade e preocupação. Ao colega de graduação em história e também mestre em geografia, Carmelo Filho, por está sempre disponível para me ajudar a compreender os novos conceitos que a geografia me trouxe. À Elainy Camelo, por suportar com paciência e carinho as variações de humor que um trabalho de pós-graduação nos proporciona.

RESUMO
Este trabalho tem como objetivo analisar a ação colonizadora no sertão da Paraíba, na área hoje polarizada pelo atual município de Princesa Isabel, a partir do processo de ocupação e funcionalidade desse espaço, bem como os agentes envolvidos e a motivação que impulsionaram essa mobilidade, compreendendo a assim a apropriação do espaço produzido. Para isso é feita uma análise bibliográfica para demonstrar como alguns autores paraibanos construíram a história da Paraíba seguindo um modelo muito próximo e dando pouca ênfase ao processo de colonização do sertão. A escolha do recorte temporal deste trabalho (17661816) corresponde à concessão da primeira data de terras ou sesmaria naquele local (novembro de 1766) e o recorte final foi escolhido por ser este o ano (1816) de expedição da última carta de sesmaria para Alagoa da Perdição. Dito com outras palavras, nosso principal problema foi avaliar as alterações ocorridas no espaço em estudo. Desta maneira, procuramos demonstrar que a colonização do sertão da Paraíba e sua reorganização espacial foi obra de colonizadores com a participação direta de vários grupos indígenas que tiveram importante papel nesse processo. Objetivamos destacar as mudanças ocorridas durante a colonização do sertão da Paraíba enfatizando os agentes presentes neste processo. Perceberemos neste trabalho que os contatos interculturais entre índios e colonizadores foram essenciais para promover o processo colonizador e permitir a reorganização do espaço.

Palavras-chave: Paraíba (Século XVIII); Colonização; Organização do Espaço.

We will perceive in this work that the intercultural contacts between indians and colonizadores had been essential to promote the process colonizador and to allow the reorganization of the space. as well as the involved agents and the motivation that had stimulated this mobility. Said with other words. In this way. our main problem was to evaluate the occured alterations in the space in study. understanding thus the appropriation of the produced space. the area today polarized by the current city of Princesa Isabel. from the process of occupation and functionality of this space. We objectify to detach the occured changes during the settling of the hinterland of the Paraiba being emphasized the agents gifts in this process. The choice of the secular clipping of this work (17661816) corresponds to the concession of the first date of lands or would sesmaria in that place (November of 1766) and the final clipping was chosen by being this the year (1816) of expedition of the last letter of would sesmaria for Alagoa da Perdição.ABSTRACT This work has as objective to analyze the colonizadora action in the hinterland of the Paraiba. For this a bibliographical analysis is made to demonstrate as some paraibanos authors had very constructed to the history of the Paraiba following a model next and giving little emphasis to the settling process of the hinterland. we look for to demonstrate that the settling of the hinterland of the Paraiba and its space reorganization were workmanship of colonizadores with the direct participation of some aboriginal groups that had had important paper in this process. .

....64 3....... CAPÍTULO III: Alagoa da Perdição: sesmarias e sesmeiros...91 5.......................4 As Sesmarias confinantes .................................................................................1 Tapuia: no sertão já havia gente .....1 Literatura Clássica sobre o tema................................................... REFERÊNCIAS: ......................................................................................24 1.... histórias semelhantes .....2 Terras para o gado: o leitmotiv da colonização ...........................88 4....................................33 2.....................97 ........ ANEXOS ................................ CAPÍTULO II: Sertão: índios e colonizadores..............SUMÁRIO INTRODUÇÃO......................69 3..........30 2...........................................3 Lourenço de Brito Correia: primeiro sesmeiro de Alagoa da Perdição....................................78 Considerações Finais: ....................................................71 3..21 1.......................2.....................................Documentação: ............. CAPÍTULO I: Autores e análise sobre a colonização do sertão ..........10 1...............................................91 5..............19 1................................................65 3.....37 2.............................1.......................................................................2 Datas e notas: a contribuição de Irineu Pinto ..................27 1......................................................2 As Sesmarias ..................22 1...................................91 5.....................54 3.................................................................4 Irenêu Joffily: uma preocupação geográfica ................3 A História inteligível: a obra de Horácio de Almeida ......................................................................................................................................1 Perdição de Histórias e de lendas .............Bibliografia: ..........................................................5 Três autores.

................................................. 48 Mapa 01 . 20 Quadro 02 – Aldeamento Corema no Piancó ....... 48 Figura 03 .. ........................Homem Tapuia ..................................................................................................Dança dos Tapuia ..... 80 ABREVIATURAS AHEPB FUNESC IHGP MIHGP SUDENE Arquivo Histórico do Estado da Paraíba........... 60 Fluxograma 01 – Burocracia sesmarial – Parahyba – 1766 .. Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste......................... Fundação Espaço Cultural Instituto Histórico e Geográfico da Paraíba......................................Tribos indígenas da Paraíba – Séculos XVII e XVIII.Mulher Tapuia .................................................................. 74 Quadro 01 – Obras clássicas da Paraíba Colonial ...................................... Memorial do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano.....................................................Primeiros caminhos da ocupação do sertão ..... 48 Figura 02 ...........................................ÍNDICE DE ILUSTRAÇÕES Figura 01 ..................................... 51 Mapa 02 . 53 Quadro 03 – Levantamento das sesmarias confinantes .................................

a partir do processo de ocupação. O espaço. grupos ou culturas com o meio em que vivem e se realiza no tempo. ao Sul com os municípios pernambucanos de Flores (6 km). encontra-se localizado sobre as serras que formam o conjunto denominado de Serra do Teixeira. situado na porção sudeste da Microrregião Serra do Teixeira. aproximadamente a 418 km de João Pessoa. bem como os agentes envolvidos e a motivação que impulsionava essa mobilidade. estando em constante construção. é um produto da interação entre indivíduos. 1985). O município atualmente possui uma área de 395 km2. Este trabalho tem como objetivo analisar a ação colonizadora no sertão da Paraíba. A área em estudo. Triunfo (3 km) e de Quixaba (8 km). todos localizados na Paraíba. dentre outras possibilidades. Possui 600 metros de altitude em relação ao nível do mar e limita-se ao Norte com os municípios de Curral Velho e Nova Olinda (54 km). capital do . no que diz respeito aos aspectos morfológicos. Esse conjunto de Serras compõe uma projeção individualizada e espacialmente reduzida de níveis altimétricos que formam a superfície aplainada do Maciço da Borborema. Está localizada nas seguintes coordenadas geográficas: 7° 44’ 16’’ de latitude sul e 37° 59’ 35’’ de longitude a oeste de Greenwich. 2000). pois é a perspectiva telúrica que especifica a análise geográfica (MORAES. na área polarizada pelo atual município de Princesa Isabel. arranjo e funcionalidade desse espaço. compreendendo assim a apropriação do espaço.10 INTRODUÇÃO __________________________________________ O objeto primeiro de toda investigação geográfica é a Terra. Essa formação situa-se entre 600 e 800m e se dispõe no sentido leste-oeste (CARVALHO. a Leste com Tavares (18 km) e a Oeste com São José de Princesa (6 km) e Manaíra (20 km).

O recorte final foi selecionado por ter sido em 1816 que foi localizada a última doação de terras destinada para àquela sesmaria. antes da chegada dos colonizadores. Entendemos que. sobretudo na área polarizada pelo atual município de Princesa Isabel. é necessário conhecer a organização social dos habitantes nativos. era habitada pelos índios da tribo dos Corema. que depois viria a se chamar Piancó. Portanto.9% do total da superfície da Microrregião Serra do Teixeira (PARAÍBA. para se estudar esse processo.11 Estado. A região designada de sertão. Fizemos um levantamento bibliográfico sobre o tema e. quando já se era denominada Alagoa da Perdição. Também realizamos uma contextualização do processo de colonização do sertão da Paraíba. colonizadores. a partir desse. selecionamos as obras mais representativas da historiografia paraibana. era um lugar que já estava habitado. identificando seus principais agentes: coroa portuguesa. o que possibilitou uma problematização do objeto e uma nova abordagem sobre as alterações ocorridas no espaço em estudo. A escolha do recorte temporal deste trabalho (1766-1816) corresponde à concessão da primeira data de terras ou sesmaria naquele local (novembro de 1766). Para uma melhor compreensão da área em estudo vejam o mapa a seguir: . 1985). índios. A sua extensão ocupa uma área de aproximadamente 12. chamados de Tapuia. É sobre essas mudanças ocorridas no tempo e no espaço que versou essa pesquisa. elas foram pesquisadas numa perspectiva de releitura combinada com a análise de fontes primárias. mais genericamente.

200 -38º 30' -38º 00' -37º 30' -37º 00' -36º 30' -36º 00' -35º 30' -35º 00' 12 .586000 9298000 LOCALIZAÇÃO DA ÁREA DE ESTUDO -38º 30' -36º 30' -35º 30' -38º 00' -37º 30' -37º 00' -36º 00' -35º 00' -6º 00' -6º 00' Belém do Brejo do Cruz São José do Brejo do Cruz Catolé do Rocha Brejo do Cruz Princesa Isabel Poço Dantas Brejo dos Santos Riacho dos Cavalos Nova Floresta São Bento Frei Martinho Bernardino Batista Santarém Bom Sucesso Vieirópolis -6º 30' Uiraúna Mato Grosso Paulista Baraúna Dona Inês Poço de Lastro Jericó Picuí Santa Cruz Lagoa CuitÚ Araruna Tacima Riachão -6º 30' Logradouro Mataraca Jacara· Damião Caiþara Triunfo José de Moura Cacimba de Dentro São Francisco Nova Palmeira São João do Rio do Peixe Sossêgo Santa Helena Sousa Pombal Vista Serrana Várzea Cubati São Mamede Sao José da Lagoa Tapada Cajazeirinhas Junco do Seridó Tenório Coremas Carrapateira Aguiar Emas Catingueira São José do Bonfim Passagem Cacimba de Areia Taperoá Olho D'água Mãe d'água Cacimbas São José de Caiana Maturéia Itaporanga Livramento Imaculada São José dos Cordeiros Água Branca Nova Olinda Juru Curral Velho Amparo São Domingos Ouro Velho Tavares Coxixola Santa InÛs Manaíra Princesa Isabel Congo São José de Princesa Caraúbas Prata Sumé Barra de São Miguel Riacho de Santo Antônio Pedro Régio Baía da Serra Belém da Raiz Traição Lagoa de Dentro Duas Estradas Pedra Lavrada Barra de Santa Rosa Bananeiras Casserengue Solânea Pirpirituba SertÒozinho Curral de Cima Mamanguape Marcação Rio Tinto Remígio Arara Serraria Pilões Cuitegi Borborema Pilõezinhos Marizópolis Bom Jesus Aparecida São Bento de Pombal São José de Espinharas Santa Luzia Seridó Nazarezinho Cajazeiras Condado Malta Cachoeira dos Índios Patos Quixaba Assunção Areia de Baraúnas Salgadinho Santa Teresinha Juazeirinho Soledade São Domingos de Pombal São José do Sabugi Itapororoca Guarabira Araþagi Cuité de Mamanguape Algodão de Jandaíra Olivedos Esperança Pocinhos Areial Mulungu S. Fonte: Adaptado de: IBGE. Sebastião de Lagoa de Roþa Montadas Caldas Matinhas Lagoa Seca Serra Redonda Capim Areia Alagoinha Lucena 496000 São José de Piranhas -7º 00' Cabedelo Alagoa Nova Alagoa Grande Mari Santa Rita Sapé Brandão -7º 00' 9182000 Igaracy Pianc¾ Monte Horebe Serra Grande Teixeira Santo André Juarez Távora Puxinanã Gurjão Boa Vista Massaranduba GurinhÚm Cruz do Riachão Sobrado do Poço São Miguel de Taipu São José Espírito Santo Bayeux JOÃO PESSOA Campina Grande Ingá Assis Chateaubriand Mogeiro São João do Cariri dos Ramos Conde Pilar Bonito de Santa Fé Desterro Parari Santana dos Garrotes Diamante Boa Ventura Ibiara Pedra Branca Queimadas Fagundes Itatuba Salgado de São Félix Caturité Serra Branca Cabaceiras Boqueirão Aroeiras Barra de Santana Gado Bravo do Cariri Natuba Umbuzeiro Itabaiana Juripiranga Pedras de Fogo Alhandra Pitimbú -7º 30' Caaporã -7º 30' Conceição Santana de Mangueira Alcantil Santa Cecília ∗ Monteiro Camala· -8º 00' Zabelê São João do Tigre -8º 00' 10 São Sebastião do Umbuzeiro 0 10 20 ESCALA 30 40 km Digitalização: Richarde Marques da Silva.

o mesmo nem sempre funciona e os horários muitas vezes são incompatíveis. 2001. As principais fontes primárias utilizadas foram as cartas de doações de sesmarias. uma noção polissêmica. primordialmente. abrindo muitas vezes apenas pela manhã. Além de a palavra sertão ter vários sentidos. já havia habitantes naquela região. apesar de possuir sistema de refrigeração. lugares. expressando através dos localismos e regionalismos a relação da sociedade com a natureza na busca de uma identidade. “Sertão é. para Rodrigues. quando os primeiros colonizadores chegaram. discutiremos os contatos e os conflitos com os primeiros moradores europeus que vinham para desenvolver a criação de gado. leituras e significados que o torna diverso.127). Esses conflitos reduziram a população indígena no interior da Paraíba e o tempo fez com que fossem pouco lembrados por seus descendentes. A maioria encontram-se armazenados em local que não apresenta condições satisfatórias para tal fim 1 . p. o principal móvel dessa corrida colonizadora. substantivada e una que traduza a gama de significados que ela comporta” (RODRIGUES. Esta afirmativa remete à impossibilidade de ‘uma’ resposta absoluta no sentido de ‘uma’ realidade objetivada. Foucault lembra que: 1 Associado a isso o ambiente também não oferece condições para que o pesquisador desenvolva suas funções com a qualidade esperada. Com o pressuposto de que. pois. pesquisadas no Arquivo Público do Estado da Paraíba. Isso se reflete em muitas das histórias dos municípios.13 Embora hoje a palavra sertão nos remeta a inúmeros significados e apresente uma grande capacidade de evocar situações. Apesar das dificuldades de consulta. . objetos e símbolos. eles permitiram identificar o processo de doação de sesmarias e a conformação inicial do território. Esta parte da pesquisa ficou prejudicada pela má conservação do acervo de documentos históricos no arquivo do Estado. em que sequer sua presença é mencionada. também possui uma diversidade de interpretações. No tempo histórico toma várias conotações.

as instituições. é porque era ‘tecnocrata’. a geografia emerge como determinação básica. p. . Por estes “elementos do espaço 2 ” mudarem seu papel no sistema espacial a cada momento histórico. “Neles. do desenvolvimento orgânico.] (FOUCAULT. 175). p. de geografia e história ele afirma: 2 Os elementos do espaço são os homens. é porque era contra o tempo. a dimensão espacial adquire particular destaque no esclarecimento dos processos sociais e da vida política em especial. Afirma ainda que. A natureza interdisciplinar deste trabalho permite construir um tipo de conhecimento mais completo e complexo. segundo Santos (1985). Assim.14 A utilização de termos espaciais tem um quê de anti-história para todos que confundem a história com as velhas formas da evolução. Eles não compreendem que. os processos de organização do espaço. pois é nele que ocorrem as relações entre os indivíduos. 1982. Para reforçar a importância de se trabalhar conjuntamente as idéias de espaço e tempo. 159). Já Moraes (2002) conclui que. reforça a importância da dimensão temporal na análise do mesmo. a importância da dimensão histórica no âmbito da geografia é constatada quando se concebe que “A noção de espaço é inseparável da idéia de sistema de tempo” (SANTOS.. as firmas. não podem ser compreendidos separando-se termos tão próximos e interligados como tempo e espaço. do progresso da consciência ou do projeto da existência. como recurso metodológico. É porque ‘negava a história’. reveladora de motivações e como instância explicativa de estruturas e práticas históricas” (MORAES. 1985. o autor propõe. o que se fazia aflorar eram processos [. nos países de formação colonial. que em alguns casos não seja dividido para melhor análise. como diziam os tolos. na demarcação das implantações. p. 2002. Apesar de entender o espaço como uma totalidade. Para ele. a essência do espaço é social. 22). da continuidade viva.. das delimitações de domínios. o meio ecológico e a infra-estrutura. Se alguém falasse em termos de espaço.

em que utilizaremos tanto conceitos da história quanto da geografia para a análise das modificações ocorridas no espaço. Nesse trabalho diferentes conceitos foram utilizados. 181). Ou seja. regional. alteraram o espaço por meio da ocupação das terras. aldeias. pois.15 A Terra e seus habitantes mantêm-se na mais estreita reciprocidade. A Terra tem influência sobre os habitantes e estes últimos sobre a Terra (MORAES. Assim. povoados. Isso permite que se trabalhe em determinado espaço. o espaço foi percebido de maneiras diferentes e quais marcas permaneceram no espaço (rugosidades). Princesa. formando a partir delas. entende-se que a geografia e a história não devem ser separadas na análise de uma dada realidade. 1989. p. A referência maior é o de espaço produzido. sobretudo no caso do meu objeto de estudo. desprezando a uma visão mais ampla que permita perceber o todo e não apenas o espaço ou o tempo. Ou seja. tendo em vista que “a noção de espaço é assim inseparável da idéia de tempo. ficando impossível ao pesquisado desenvolver um trabalho satisfatório caso queira abordar apenas um aspecto. A cada momento da história local. um tem influência sobre o outro. nacional ou mundial. europeus e índios. no nosso caso. “a formação de um espaço supõe uma acumulação de ações localizadas em diferentes momentos”. vilas e cidades. além de verificar os agentes produtores do espaço nesses diferentes períodos. a ação das diversas variáveis depende das condições do correspondente sistema temporal”. Dessa maneira. foi possível perceber como se deu a apropriação do espaço no sertão paraibano. em diferentes períodos históricos. Durante o período de colonização. Em “Espaço e Método” (1985). . como os homens. possibilitando perceber como. não podendo um ser apresentado em todos os seus aspectos sem o outro. Santos permite perceber que se pode trabalhar com um período mais longo. a Geografia e a História devem sempre andar juntas. Nesse sentido.

que faz dele um dos pilares da sua proposta de geografia crítica. acata-se que a formulação categorial mais precisa e genérica para expressá-la deva ser a da valorização do espaço (MORAES. isto é. 24). Partindo do entendimento da geografia humana como ciência social que tem como finalidade: O processo universal de apropriação do espaço natural e de construção de um espaço social pelas diferentes sociedades ao longo da história. Sendo este processo o resultado exclusivo do trabalho humano. no instante em que rompeu com a idéia de que o mundo vivido pelos homens é produto de forças que se impõem a eles. em si uma mediação na análise dos fenômenos históricos. a distância e a infra-estrutura. Lefebvre introduz o conceito de espaço produzido. Com isto. “que implica a constante revivificação das formas herdadas. Defendese que tal processo é passível de ser identificado num corte ontológico do real. este foi apropriado e desenvolvido por Milton Santos. aspirarem a outras maneiras de viver e lutarem para consegui-los que a realidade acaba se transformando (CLAVAL. Para ele: Henry Lefebvre rompe simultaneamente com a ortodoxia marxista e com os pressupostos compartilhados pelas perspectivas naturalista e funcionalista. No Brasil. e apreendendo o trabalho como ato teleológico de incorporação e criação de valor. p. Essa compreensão da geografia ajuda a entender nosso objeto de estudo como fazendo parte da ação em que toda sociedade para se reproduzir cria formas. atuando como elemento particularizador.16 Segundo Claval (2001) o conceito de espaço produzido foi criado por Henry Lefebvre. 51). concedendo uma função essencial às instâncias conceptuais: é pelo fato das camadas populares recusarem as condições que lhe são impostas. 2002. atribuindo-lhes uma . manifesta-se na realidade com determinações específicas ímpares. como a natureza. mais ou menos duráveis sobre a terra e isso o inclui no processo universal. Outro processo que foi percebido nessa pesquisa foi a apropriação do espaço produzido. p. 2002. essa vivência social do espaço cria rugosidades que duram mais que os estímulos que lhe deram origem.

Horácio de Almeida e Irenêu Joffily como a historiografia paraibana trabalhou o tema. Ruth. Elas tanto pode incitar como restringir a ação criativa das pessoas. p. Este envolve a relação de uma sociedade específica com um espaço localizado. No primeiro capítulo. 3 Benedict. “Ruth Benedict escreveu em seu livro O crisântemo e a espada 3 que a cultura é como uma lente através da qual o homem vê o mundo. Irineu Pinto. após descrever o espaço em estudo. Enfocando o intercâmbio cultural e como os hábitos de ambos. p. apresentamos os índios como Agentes produtores do espaço. 2002. Para isso utilizo uma bibliografia de geógrafos e historiadores que trataram do tema. materializando as formas de sociabilidade reinante numa paisagem e numa estrutura territorial (MORAES. de forma breve. demonstramos a partir de três autores. São Paulo: Perspectiva. Os processos de produção e apropriação do espaço permitem apreender como se deu a relação dos grupos sociais com o espaço na área em estudo. Demonstramos como eles se utilizaram e modificaram o espaço para atender às suas necessidades. e resulta das experiências de gerações anteriores. 57). 67). O crisântemo e a espada. que foi dividido em quatro capítulos. portanto. Para que compreendamos como se deu esse intercâmbio cultural. 54). 2003. p. Moraes (2002) afirma que a valorização do espaço pode ser apreendida como processo historicamente identificado de formação de um território. modificaram a natureza. 2002. num intercâmbio contínuo que humaniza essa localidade.17 funcionalidade em face da organização social vigente” (MORAES. índios e colonizadores. No segundo capítulo. Homens de culturas diferentes usam lentes diversas e. Tal arcabouço teórico norteou a elaboração deste trabalho. se faz necessário entender que a cultura é um processo acumulativo. 1972. têm visões desencontradas das coisas” (LARAIA. . e não como elementos da natureza como diziam os cronistas. na qual.

Dessa forma. o que para o colonizador era um amontoado de árvores.18 Assim. bichos e inúmeras possibilidades de torná-lo rico. mas sim com formas definidas. Os agentes produtores do espaço e os interesses que os movia foram ressaltados. Ali era seu lar e que guardava sua história. No terceiro capítulo. O crescimento populacional e a organização administrativa e política do espaço. os sesmeiros e a Igreja Católica. ali não se encontrava um mundo amorfo. passando este a ter uma nova conformação. a carga cultural que possui o índio ou o europeu fazia com que suas visões acerca do mesmo espaço fossem conflitantes. representantes da Coroa Portuguesa. enfocamos o processo de colonização e o sistema sesmarial. Foram eles: sertanistas. . para os índios.

por tratarem de um espaço reduzido. o que permitiria que visualizássemos melhor estas diferenças. p. dizem que: O que delineou. que demarcou no início do século XVIII. foi sem dúvida a instalação da primeira fazenda de criação de gado. . não permitindo ao leitor de hoje vislumbrar.10). cujos limites eram conhecidos pelos habitantes mais antigos (MARIANO. P. que. No entanto. de forma adequada.. baseando-se na tradição oral. mas aparecem diluídas na generalidade destes trabalhos. por historiadores diletantes. As referências encontradas sobre a colonização deste município e que são recorrentes na historiografia. ”uma data de terra”. por serem abrangentes. diferenças geográficas. o que marcou a posse efetiva da terra. de propriedade de Dona Nathália do Espírito Santo. a forma como ocorreu esse processo. (segundo depoimentos de antigos moradores do município. excluem as especificidades de cada lugar. esses trabalhos realizados. Estas lacunas certamente seriam preenchidas pelos trabalhos de história local. Dona Nathália era natural de Pesqueira-PE). muitas vezes.19 CAPÍTULO I _______________________________________________ AUTORES E ANÁLISES SOBRE A COLONIZAÇÃO DO SERTÃO A literatura que trata da colonização do sertão da Paraíba possui importantes trabalhos que apresentam. 1991. Escrevem. culturais e até mesmo sociais. lendas e silêncios. localizada as margens da lagoa da Perdição. apesar de ser uma rica fonte histórica. Tais obras. em termos gerais. que caracterizam a colonização do sertão. A história de Princesa é exemplo disso. é permeada por mitos. geralmente. o processo histórico da colonização. não possuem preocupação científica.

Um exemplo que pode ser citado é o livro de Celso Mariz. mas. que eram desconhecidas na história local. 83). Desde as primeiras obras de história da Paraíba. 1 O terceiro capítulo apresenta uma discussão trata exclusivamente das sesmarias. 1910. . moço academico ali residente e bastante conhecedor do assumpto” e que contribuiu. mas sem a pretensão de um estudo geral. Liberalino de Almeida. Esta pesquisa também permitiu que visualizássemos a conformação inicial das sesmarias distribuídas na região. enviando-lhe esta história (MARIZ. pessoas que nunca foram citadas na literatura. 1 Baseando-se em Silva (2001). “Através do Sertão”. Temos por finalidade rever este processo a partir de um ponto de vista acadêmico e contribuir para o resgate dessas histórias que estavam perdidas no tempo e nos arquivos. temos por objetivo maior demonstrar como algumas das principais obras clássicas de síntese histórica apresentam o período em foco. pelo levantamento e preservação de informações que certamente se apagariam com o passar do tempo.20 É dessa maneira que a colonização do espaço territorial do município é repassada. Ele apresenta esta mesma versão e passa a palavra “ao intelligente e criterioso missivista Sr. que se perpetuam nas obras que vieram em seguida. Estes clássicos têm importância não só pelo seu caráter histórico. a forma de tratamento dada pelos autores ao tema em estudo. a partir dos quais a “história oficial” tem seus alicerces. e também. escolhi os autores que. especialmente. Para tanto. visto a grande extensão das sesmarias. que trazem capítulos dedicados aos municípios. formaram a pedra fundamental da História da Paraíba. O material levantado permitiu a identificação de novos nomes para a história de Princesa. juntos. p. datado da primeira década do século XX. deixando-nos perceber como se deu o processo de divisão das terras que viriam a formar o atual município de Princesa e municípios vizinhos.

21 1. considerados clássicos pela historiografia paraibana. Tal característica é comum nesse gênero de produção historiográfica. I e II Nº pág. 259 355 310 771 577 525 331 217 265 320 320 e 276 O processo de colonização do sertão paraibano.1 Literatura Clássica sobre o tema Elaboramos o seguinte levantamento para apresentar uma visão geral dos autores. João de Lyra TAVARES. Irineu Ferreira PINTO. Irineu Ferreira TAVARES. . Algumas obras foram selecionadas para analisar a forma como seus autores elaboraram suas visões sobre a ocupação territorial da Paraíba. João de Lyra MACHADO. Como se o processo de colonização do sertão tivesse ocorrido da mesma forma nas diferentes regiões e épocas. João de Lyra TAVARES. sobretudo na região do Piancó. Maximiano Lopes MARIZ. Quadro 01 – Obras Clássicas da Paraíba Colonial DATA 1892 1908 1916 1909 1910 1911 1912 1922 1939 1966 1966 1978 AUTOR JOFFILY. que tratam da Paraíba colonial. aparece nestas obras de forma superficial. José ALMEIDA. Celso LEAL. que não atenta para as especificidades de cada lugar. I Historia da Paraíba – Vol. Horácio de OBRA Notas sobre a Parahyba Datas e Notas para a História da Parahyba – Vol I Datas e Notas para a História da Parahyba – Vol II A Parahyba Apontamentos para a História Territorial da Parahyba – Vol I Apontamentos para a História Territorial da Parahyba – Vol II História da Província da Parahyba Apanhados Históricos da Parahyba Evolução Econômica da Paraíba Itinerário Histórico da Paraíba Historia da Paraíba – Vol. Celso MARIZ. Horácio de ALMEIDA. Irenêo PINTO.

. Seus autores também são de importância fundamental para a elaboração da história oficial da Paraíba. Nos primeiros anos do IHGP. deu uma importante contribuição para sua produção historiográfica. Trabalhou na administração dos Correios e na Secretaria do Estado. Foi igualmente um dos sócio-fundadores do IHGP. De todas as obras-sínteses clássicas lidas. foram escolhidas para se ver o que a historiografia clássica tem a mostrar. cheguei ainda a tempo de salvar da voragem das traças estas preciosidades históricas que talvez dez annos depois não existissem (PINTO. porem. Irineu Ferreira Pinto foi um intelectual nascido na capital do Estado da Paraíba do Norte em 7 de abril de 1881. uma forma de escrever história que só surgiu tempos depois. entretanto. por serem mais representativas. Fundou. também.] felizmente.2 Datas e Notas: a contribuição de Irineu Pinto Alguns destes documentos se achavam em tal estado de ruína [.22 Não podemos cobrar deles.. Consideramos importante esta distância entre as datas. no qual exerceu os cargos de secretário e bibliotecário. p. três. 1977. composto pela elite intelectual do Estado. . se afastando das temáticas que só tratavam de fatos e nomes que consideravam grandes. o clube literário Benjamin Constant. Uma foi escrita na última década do século XIX. quando os historiadores passaram a voltar o foco para as especificidades. publicando diversos trabalhos. 1. ou dignos de serem imortalizados. pois permite perceber a maneira como o tema é visto em diferentes épocas. 7). Quanto às outras. uma é datada do início do século XX e a outra nos chega em meados deste mesmo século. dedicado às pesquisas históricas e literárias.

1977. indubitavelmente. Um exemplo dessa assimilação cultural está em um documento em que um índio da chamada nação Coremas. o pai fundador. que empresta seus conhecimentos de como se embrenhar no sertão. listando os fatos cronologicamente.. apesar da enorme violência do processo de colonização. que se mesclaram para moldar uma nova com elementos de ambas (PINTO. MENEZES e LIMA. Este livro oferece uma quantidade volumosa de documentos.7). criação de aldeias e a descoberta de ouro na região. dos limites de sesmarias. . p. houve uma troca recíproca de culturas. É uma seleção de documentos feita para elaborar uma história a partir do que ele acreditava ter importância para nela figurar. 2002. Dentro do recorte da pesquisa referente à temática abordada. Considerado um dos ícones da historiografia da Paraíba e De todos esses historiadores da época. 84-117). tornando-o uma obra indispensável para o pesquisador de história da Paraíba. Pinto faz um levantamento da documentação a respeito da história da Paraíba. editado pela primeira vez em 1908. Isso nos mostra que. 1995.] Não fora ele muita coisa estaria perdida para sempre.23 Faleceu no dia 27 de março de 1918. sem nenhuma preocupação analítica. pp. I”. In: OLIVEIRA.90). Pinto traz ainda relevantes dados referentes aos índios que habitavam aquela região à época da colonização. na implacável seletividade da memória (SILVEIRA. Em seu livro “Datas e Notas para a História da Paraíba – Vol. p. deixando uma importante obra para a história paraibana (IHGP. esta obra nos apresenta importantes documentos de grande relevância que tratam da colonização do sertão da Paraíba. Percebe-se nestes documentos que nem sempre o colonizador era receptivo ao índio. foi Irineu Ferreira Pinto [. da existência de fazendas de gado no Piancó em 1690. principalmente quando este não atendia aos seus interesses. e que ou foram mortos ou se integraram à cultura dos europeus. recebe patente de General..

88). Está neste caso a penetração para o interior.. Natural de Areia. onde morou até os 86 anos. Documentos como estes demonstram a agressão aos povos indígenas e permitem perceber a sua existência e atuação.. presos e castigados. com mais outros nove. foi também a salvação para uma série de documentos que.] um crítico muito severo. deixou fama de “muito polêmico [. acabava ocorrendo conflitos. No ano de 1936. vol. p. Vários outros reforçam esta afirmação. Convocado por Coriolano de Medeiros. No Rio de janeiro. quando veio a falecer. Além de ser o passo inicial. 1. Alguns documentos apontam a reação indígena. Quase sempre mortos. ingressou no IHGP. I. por modo a suscitar renovadas pesquisas. 1977. sem ele. da tribu dos Icós que se estendiam desde o Valle do Catolé até as margens do Piranha.24 Nos fins do ano passado e no correr deste. residentes no Piancó e Assú (PINTO. p. atacando aldeias. a sua obra não tem seu valor diminuído. combatendo os invasores de suas terras e. cidade do brejo paraibano. 9). que deu o primeiro molde à História da Paraíba. 1978. perdidos para a história. nasceu em 21 de outubro de 1896. O segundo autor analisado é Horácio de Almeida. Almeida teve intensa atividade intelectual na Paraíba. ao considerarem que os colonizadores queriam terras e estando estas ocupadas pelos índios que não se submetiam.3 A História Inteligível: a obra de Horácio de Almeida Algumas janelas novas foram abertas sobre o passado da Paraíba. Outros capítulos despertarão por igual a perspicácia dos estudiosos (ALMEIDA. estariam esquecidos. por isso. fundou em 1941 a Academia Paraibana de Letras. Embora este autor não busque ir além da informação que o documento traz. foram dizimados pela guerra encarniçada que lhes fizeram os mestres de campo dos Paulistas. . os índios tapuias Payacús e Goyacús.

nos oferece importantes informações acerca dos povos indígenas que habitavam o interior da Paraíba. Almeida não apenas traz a informação. Além desta localização geográfica das tribos indígenas. Esta obra é fundamental para a historiografia paraibana. I e II”. publicado em 1978. 2003. que foram aldeados em Campina Grande. O livro de Almeida aqui analisado é “História da Paraíba – Vols. Por estar escrevendo na década de setenta do século XX. bastante didático. tinham o nome de Sucurus. no final do volume I. 1978. pois foi a primeira a atingir o grande público. sarcástico”. demonstra cuidados com metodologia e crítica histórica. tornou-se referência obrigatória para quem estuda a história da Paraíba. Os Ariús. vol. Este assunto será trabalhado no próximo capítulo. p. Almeida ainda faz comentários acerca do que cronistas como Elias Herckmans 4 escreveram sobre os cariris. Almeida. 263. 07 jun. entre outros (ARRUDA. Diferente de Pinto. dicionários. Ele tem a preocupação de escrever com uma linguagem acessível e clara. I. p. acima de Taperoá. na bacia superior do Paraíba. 2 Deixou uma grande produção bibliográfica na qual trata de diferentes temas: históricos. mas também faz comentários e cita as fontes de sua pesquisa. 1983. pela qualidade e pela quantidade de dados informativos. os Pegas. um ramo da nação Tapuia. . No médio Paraíba ficavam os Bultrins. grifo nosso). 192). que seriam divisões (subgrupos) dos Cariris. pelo estilo da escrita. até certo ponto. sobretudo. o que não era comum nos autores que o antecedem na historiografia paraibana. com penetração pelo Rio Grande do Norte e parte do Ceará (ALMEIDA. 3 Os que habitavam na Paraíba dominavam o planalto da Borborema. sendo que a primeira edição do volume I foi de 1966. como forma de garantir a aceitação das suas interpretações. 2 3 Jornal A União. jurídicos. Este livro. os Panatis e os Coremas ocupavam o sertão de além Borborema.25 vigoroso e.

e outros. . 4 Elias Herckmans foi Governador da Capitania da Paraíba sob o domínio holandês. Neste processo. pois a criação de gado tinha que se desenvolver distante das plantações de cana-de-açúcar. e abrirem espaço para a criação de gado e a lavoura. No volume II da mesma obra. que ele chamou de “fase mais interessante da história”. no capítulo intitulado: Breve descrição dos costumes dos tapuias. se vê como foi sangrenta a colonização do sertão. Muitas vezes. 1978. 19). escreveu a “Descrição Geral da Capitania da Paraíba”. disputas entre colonos e índios e entre colonos e colonos para criar sesmarias. os benefícios terapêuticos das plantas medicinais e vários outros hábitos que os índios nos legaram. suscitada pelos brancos. que não modificaram jamais os seus métodos de colonização (ALMEIDA. Ficou marcada a partir de então pela intensa penetração da pecuária para o interior. Foram estas disputas. que traz informações a respeito dos índios que habitavam o interior da Capitania. II. Almeida aprofunda a temática indígena e relata todo o processo que seguiu à expulsão dos holandeses e restauração da Paraíba. Diferente dessa afirmação. no período de 1636 a 1639 e neste último ano. inclusive. p. importantes informações sobre a vida destas tribos. vol. presentes desde o início. com riqueza de detalhes. sem luta com os naturais da terra. a penetração para o interior da Paraíba correu pacífica. o uso da rede para dormir. Segundo Almeida. a penetração para o interior nunca foi pacífica. um foreiros da Casa da Torre. motivados pela posse de terras e captura de índios para o cativeiro. É nessa corrida pela terra que Almeida apresenta. seus primeiros ocupantes. percebem-se os caminhos traçados pelos colonizadores para dominarem os povos indígenas. Seguindo a trajetória de Antônio de Oliveira Ledo. Desde seu primeiro momento houve diversos confrontos entre índios e colonos. seus hábitos sociais. matavam e poucas vezes morriam. na qual homens ávidos por terras faziam de tudo para consegui-las. religiosos e culturais. Ao contrário do que se deu no litoral. Traz também conhecimento sobre a herança indígena que os colonizadores absorveram: o consumo da mandioca.26 Relata. A luta veio depois.

só pode recorrer de memória (JOFFILY. Monte-mor da Preguiça e Nossa Senhora da Conceição de Campina Grande. terreno este nunca investigado por nenhum escritor. de quem foi discípulo e recebeu sua formação literária. a sua versão apresenta os mesmos nomes e fatos que os demais autores escolheram para compor a história da Paraíba. Ainda que muitas vezes. Vilas como Alhandra. . ele foi estudar em Cajazeiras.27 Nessa obra.4 Irenêu Joffily: uma preocupação geográfica A finalidade da obra era somente escrever uma memória. E o subseqüente processo que quase provocou o extermínio desses povos que resistiam ao domínio externo. que é como se refere Almeida aos europeus. 1. p. onde hoje é o atual Município de Esperança. 106). ingressou na Faculdade de Direito e tornou-se Bacharel em 1866. ele os critique e traga informações pitorescas. Em paralelo. podemos ver a revolta indígena conhecida por “Guerra dos Bárbaros”. muitas vezes. em 15 de dezembro de 1843. Em Recife. O terceiro e último autor escolhido nasceu na freguesia de Campina Grande. ocupou os cargos de Promotor Público nas Comarcas de São João do Cariry e de Campina Grande. Embora Almeida dê uma roupagem nova. com os mesmos “heróis” e as mesmas datas. a história que elabora possui a mesma estrutura das demais. informando sobre o seu estado atual e suas origens. que reuniu diversos grupos indígenas contra o inimigo comum: o invasor branco. ou antes. dar uma breve notícia da Parahyba do Norte. De volta à Paraíba. onde foi nomeado Juiz Municipal em 1868. temos informações a respeito da fundação de diversas vilas e arraiais nascidos. tendo como mestre o padre Rolim. penetrando quase as escuras. 1977. No ano de 1856. orientado apenas por referências resultantes de alguns documentos que coligiu e que ainda assim. onde antes eram aldeias indígenas.

possibilitaram um conhecimento que. só vindo a ser lançado como livro em 1892. não poderia existir. .141). O. mas não participou de sua fundação. Através desse contato direto percebeu. periódico que criticava o governo da Paraíba e que. Empenhado em desvendar os aspectos físicos da Província. Em Campina Grande no dia 7 de fevereiro de 1902. sempre de Leste a Oeste. Ajudado por moradores locais. devido aos poucos recursos públicos da Província. Foi um dos idealizadores do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano . tornando-se revisor do Jornal do Commercio. 2003. Ele também foi sócio correspondente do Instituto Arqueológico Histórico e Geográfico de Pernambuco (1862) e do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (1838).IHGP (1905). o autor pôde perceber que a divisão Judiciária como estava definida. Dessa forma. acabou sendo fechada. por esse motivo. Assim.. pois dificultava a aplicação da lei. onde publicou suas “Notas Sobre a Parahyba” em forma de folhetos. que ocorreu três anos após a sua morte. Joffily analisou a divisão Jurídica. Administrativa e Eclesiástica da Paraíba no período de implantação da República. Além da configuração geográfica. 42 Municípios e 42 Paróquias. p. o credenciou a descrever tanto as questões político-sociais quanto a dinâmica do comércio e da agricultura da Paraíba. sendo que existiam 16 Comarcas com 1 Município e 13 Comarcas com 2. Joffily visitou diversos acidentes geográficos que dividiam o rio Paraíba do Capibaribe. segundo ele. e não com a forma retangular como era até então conhecida. deu início a uma investigação a partir das fronteiras com Pernambuco. Irenêo Joffily morreu aos 59 anos de idade. percorreu vários pontos da Província e pôde assim defini-la como semelhante a uma viola. na segunda metade do século XIX (FERNANDES. aspectos nunca antes observados sobre as deficiências e potencialidades da Paraíba. o autor discordava da configuração geográfica que encontrara. Isso fez com que ele fosse morar no Rio de Janeiro. constatando a existência de 29 Comarcas. Moxotó e Pajeú com o intuito de redefinir o mapa da Paraíba.28 Fundou a Gazeta do Sertão. As incursões que o autor fez pela Província.

enfim. dos recursos minerais de seus terrenos. como algumas Províncias do Brasil. A constatação da dependência da Paraíba em relação a Pernambuco ficou evidente para Joffily quando este percorreu os sertões da Província em fins do século XIX. Joffily percebeu males que iam além dos naturais: A Parahyba do Norte é. mantém uma preocupação maior em descobrir as falhas nos limites territoriais da Paraíba. pois. assim no comércio como Eclesiástica e Juridicamente. Joffily. principalmente do Governo. Nesses ingressos pelo interior da Província. sem importância e esquecida de todos. p. . de sua agricultura. Essas viagens permitiram perceber os principais aspectos da agricultura e comércio. do que em apontar heróis para sua história. embora busque credibilidade. que na grande parte de suas obras mantém uma intensa preocupação em transmitir a sua verdade dos fatos e garantir a credibilidade de suas idéias. compuge-nos vê-la feita quase que uma colônia desta Província.29 Nesse ponto. o motivo principal para que convergem todos os nossos esforços. 1977. beneficiando a agricultura. Deixando-o convicto de que a melhor solução para diminuir as mazelas que devastavam o sertão seria a canalização das águas do rio São Francisco e o aumento no número de açudes. Não somos bairristas. mas se apesar de nossa declaração alguém enxergar bairrismo no que escrevemos. A partir daí percebeu que a maioria das mercadorias paraibanas escoavam para a Província vizinha em nosso prejuízo. de tudo o que lhe possa interessar. Queremos tratar de seu comércio. e. lembrando a vantagem de torna-la independente e florescente. especialmente. 18). Tal e. o autor desenvolveu uma preocupação diferente dos demais autores. Sujeita a Pernambuco. A nossa política é. de sua autonomia Eclesiástica e Judiciária. o bem da Paraíba. seremos bairristas (JOFFILY.

deixando um vazio quando se tenta compreender. através de uma enorme quantidade de documentos. Essa historiografia. A historiografia paraibana produzida sobre o século XIX foi elaborada numa perspectiva basicamente política. histórias semelhantes Os três autores analisados possuem claras diferenças no estilo de escrever. Esta obra. mesmo com estilos diferentes. percebemos que Irineu Pinto produziu uma obra descritiva. . a integração da Paraíba no processo de descolonização e formação do Estado nacional em suas especificidades regionais e locais. baseada em datas. mesmo parecendo superada. Segundo Julliard 5 . a história política deixa de criar uma problemática em torno dos temas que se propõe a estudar. 5 JULLIARD. não mantendo. 1995. pois. em grandes feitos e homens. ignora a sociedade global. de forma mais específica. também. 1976).4 Três autores. possui um grande valor documental para compreender a formação da Paraíba sobre o que. 2003. 13). indubitavelmente. tendo em vista as novas metodologias de pesquisa. Isso é motivado pela metodologia utilizada e pelo contexto a partir do qual cada autor escreveu sua história. Tudo isso interfere na forma de escrever e na concepção de história que o autor possui. feita nos moldes de uma história dita tradicional. na maioria das vezes. às fontes documentais e bibliográficas e aos rumos da historiografia de cada momento (CERTEAU. vários anos as separam. A análise desses autores nos faz chegar a conclusões interessantes. ainda há muito que fazer.30 1. um diálogo com outras especialidades da história e ciências afins (SÁ e MARIANO. e isso faz com que cada construção historiográfica responda ao lugar social. transparecendo na sua obra essas influências. p. quando não se utiliza uma dessas perspectivas de análise. Entre uma publicação e outra. a comparação e a análise.

além de reforçar a idéia de “determinismo geográfico”. como uma raça inferior.31 Almeida foi além da exposição descritiva de dados. não se detendo apenas aos documentos. ter inovado. Joffily acabou não diferindo dos demais autores. do padre Mamiani. Apesar de. compondo com isso uma história protagonizada por heróis. tida como mais elevada. Apresentou. Mesmo Almeida. Eles mostraram a história pelo lado dos vencedores. em 1877). privilegiando datas e exaltando nomes. contudo. trazendo a experiência de diversos trabalhos de campo e percebendo novas nuances nos problemas que assolam a Paraíba. a estrutura das histórias que elaborou semelhantes as dos outros autores. O argumento merece toda consideração. o atraso nos costumes e hábitos dos cariris explica-se pela circunstância das condições geográficas. p. nos relatos dos primeiros cronistas. Afirmações como essas. usando a crítica e a metodologia para se aproximar da “verdade” histórica. principalmente os do sertão. . entre o homem que nunca saiu do pé de serra e o da cidade marítima é bem sensível a diferença de estrutura moral. Podemos identificar. Participou da luta na construção de uma história paraibana dissociada da de Pernambuco. hábitos e costumes dos colonizadores. intelectual e até mesmo lingüística (ALMEIDA. como já pensava Humboldt. pois ainda hoje. Fez constantes críticas aos documentos e às leituras que outros autores fizeram destes. exemplificada neste trecho: No entender de Batista Caetano (em carta dirigida a Ramiz Galvão e publicada a título de introdução na Arte da Gramática da Língua Brasílica da Nação Kiriri. assim. VOL I. 264). 1978. em que o ambiente tem influência fundamental sobre o homem. incapaz de absorver a cultura européia. que eles viam estes povos. que também os estudou. deixam transparecer certo convencionalismo a respeito dos povos indígenas. que inovou trazendo informações sobre os diversos grupos indígenas. ainda possui certa carga de preconceito.

com a preocupação de preservar e difundir a história da Paraíba. como se deu o processo de colonização do interior da Paraíba. aos poucos.] um tipo específico de ser humano que se define por ser paraibano” (DIAS. As demais obras clássicas que antecederam ou que sucederam a estes autores. Esses autores. que. 1996. pois construiu uma narrativa em que o paraibano é possuidor de bravura e princípios pacíficos na construção da sua própria história. sobretudo. paz e resistência. mas. características exclusivas como bravura. ocupado cargos públicos e jornalísticos. Apenas a partir da década de oitenta do século XX. nas três obras citadas o tema do processo de colonização do sertão é visto nas suas generalidades. Isso se dá. por serem idealizadores ou fazerem parte do IHGP. Tais obras clássicas embora não tragam informações aprofundadas sobre o tema em estudo.. fundado em 1905. na tentativa de construir uma história que explicasse a Paraíba como um todo. permitem compreender. dos índios ou da interação das duas culturas. O escopo era o de elaborar “[. não só por estes autores possuírem dados em comum nas suas biografias: estudando nas mesmas escolas. dessa forma.. seja quando se trata de colonos. de forma simples. os passos em direção à formação da paraibanidade. é que foram produzidas obras nesse sentido.32 Seguiu. com a revalorização das histórias locais. Por serem obras-síntese da história da Paraíba. nesta identidade construída. . não diferem muito na forma como a matéria é abordada. mas que ainda estão restritas a poucos lugares. mesmo quando a elaboram. Baseados nesses clássicos e à luz de novas pesquisas veremos como se deu a busca por novas terras e os conflitos daí gerados.50). p. não conseguiram produzir a história da formação dos municípios de forma satisfatória. E que possui. que formam a paraibanidade. foram delineando o mapa da colonização do interior da Paraíba.

portanto. Não há nenhum elemento de identidade (política. neste capítulo.] Foi a colonização lusitana que inventou e gerou o “Brasil”. pode ser vista tanto como um projeto de emancipação coletiva como de realização do conforto na vida individual. se faz necessário compreender como se deu a colonização no sertão da Paraíba e quais foram as especificidades que o produziram. Ela toma formas variadas (CLAVAL. na apropriação das terras “desconhecidas” dessa porção do Novo Mundo. é preciso que antes tenhamos uma visão panorâmica da colonização do que é hoje o Nordeste. ou natural) pré-colonial que agregue esta porção do planeta num conjunto unitário.. sempre inseparável daquela do espaço. requerimentos. 2001.. lingüística. um anexo no espaço imperial da metrópole [. pois. A transformação do mundo natural em espaço humanizado. Para Moraes. com a conquista e exploração de novos lugares. A colônia é um resultado da instalação lusitana nas novas terras. buscando perceber os principais personagens que atuaram nessa ação. Não existe um passado comum nem demarcações naturais que minimamente delimitem e articulem o espaço onde se constrói a colônia (MORAES. veremos como se deu tal processo. É por não haver uma identidade única para o período colonial. A instituição da sociedade é. que lhe dê alguma feição individualizadora ou identitária.33 CAPÍTULO II __________________________________________ SERTÃO: ÍNDIOS E COLONIZADORES Não há sociedade sem espaço para lhe servir de suporte. É por isso que. p. 2000. na ocupação perene de certos lugares. cujo desenvolvimento se dá com a incorporação constante de novos espaços. étnica. legitimada pelas necessidades. Trata-se . e que posteriormente passou a chamar-se Alagoa da Perdição. Para conhecermos como se deu a colonização nas terras que antes eram habitadas pelos índios da tribo Corema. desejos e esperanças das pessoas.207). O território colonial é. na submissão das populações nativas defrontadas. p.410).

o homem passa não só a modificar a natureza. . mas sim. O ato de produzir é. De acordo com Santos: Pela produção o homem modifica a Natureza Primeira. natureza e índio fossem indissociáveis. p. embora. Fato mais perceptível na cidade e nas terras agrícolas onde a presença humana se materializa mais intensamente. sendo mais difícil em áreas remotas. O entendimento geográfico dos conteúdos deste período pode ser analisado a partir da contribuição de Santos. natureza transformada. É por essa forma que o espaço criado como Natureza Segunda. no dizer de Santos. Essa dificuldade esteve presente mesmo quando os europeus chegaram ao “Novo Mundo”. era. embora de forma discreta aos olhos do europeu. criando uma natureza socializada. natural. socializando. Eles também possuíam sua maneira de perceber este espaço. aos olhos europeus. torna-se difícil encontrar a natureza primeira. Não. Além disto. uma natureza segunda. a mudança da primeira para a segunda natureza ocorre pelo uso das técnicas e ferramentas como extensão do corpo humano. e que nenhum dos nativos haviam interferido no que eles encontraram. dessa forma. Dessa forma. Segundo este autor. Não era uma natureza bruta que eles viram. um lugar tal qual Deus o fez. como também a ser produtor de espaço. o ato de produzir espaço (1978. a natureza bruta. com uma natureza socializada e inserida no território. aquilo que Teilhard de Chardim chama de 'ecossistema selvagem'. A paisagem que eles encontraram e que atualmente muitos ainda acreditam no que foi relatado. Os índios.163). a natureza natural. natureza social ou socializada. remanescente da natureza bruta. ao mesmo tempo. há milhares de anos já estavam adequando o espaço às suas necessidades.34 de um momento no qual o homem passa a se relacionar não mais com uma natureza pura. Acreditavam eles que estavam chegando ao paraíso. a sociedade coloca sua marca sobre a natureza e partir desta transformação.

Eles não ficavam. . no litoral. Viviam em pequenas comunidades. a cunhã prisioneira agregava-se à tribo vitoriosa. As guerras ferviam contínuas. de mandioca. a louça. os mimbabas da língua geral. O próprio lobo brasileiro muniu-se. exatamente com a da terra no processo vegetativo. outras os parentes e amigos. os homens eram comidos em muitas tribos no meio de festas rituais. Para os animais sertanejos é demais vantagem a sua roupa branco-amarelada e monótona que no meio do capim se conserva neutra entre a cor do solo e o colorido da macega torrada pelo sol. e. A antropofagia não despertava repugnância e parece ter sido muito vulgarizada: algumas tribos comiam os inimigos. o fogo. tornando-se. deitados em redes esperando que a natureza lhes desse tudo. que bebeu na rica fonte dos cronistas. apropriada ao vôo persistente. por isso andavam em contínuas mudanças. de longas pernas a feitio de galgo. apenas domesticou um ou outro. de milho. além de umas orelhas grandes. um agente produtor de espaço. das caçadas e da guerra. como é de se imaginar. pode-se afirmar que a construção do espaço em estudo começou bem antes da chegada dos colonizadores. só para recreio. eis a diferença. De caça e principalmente de pesca era composta sua alimentação animal. fazia quase todos os ofícios do ferro. Essas alterações causadas pelos índios na paisagem podem ser percebidas na leitura dos cronistas que escreveram sobre eles. Pouco trabalho dava fincar uns paus e estender folhas por cima. torna-se precioso dote para formas animais que vivem correndo pelo solo uma perna comprida e capaz de corresponder a fortes exigências. fornecendo vestimenta ou auxiliando o transporte. carregar algumas cabaças e panelas. principalmente papagaios. pois vigorava a idéia da nulidade da fêmea na procriação. Aí estão para atestá-lo a seriema de alto coturno e a gigantesca ema. para o morador da mata. — em maioria aves. com esse ato. Entre estes animais nem um pareceu próprio ao indígena para colaborar na evolução social. Possuía agricultura incipiente. de várias frutas. encarregavam-se os homens das derrubadas. dando leite. A plantação e colheita. expõe a impressão que estes lhe passaram: ‘Mais pálida em colorido e fraca em força numérica é a fauna do sertão’ lembra Goeldi. p. já necessitadas pela escassez dos animais próprios à alimentação (ABREU.6). produzido pelo atrito. a cozinha.35 Entendendo que a formação de um espaço supõe uma acumulação de ações localizadas em diferentes momentos a partir da interação do homem com o meio. Suntuoso uniforme de gala nos descampados não seria desejável nem proveitoso. Abreu. Como eramlhe desconhecidos os metais. a modo de chacal do deserto. Ela começou quando os nativos alteraram a natureza para facilitar sua sobrevivência. das pescarias. o pé trepador. é aparelho útil a asa comprida. por outro lado. s/d. Se por um lado. as bebidas fermentadas competiam às mulheres. Percebe-se com isso a interação dos índios com o meio em que viviam.

utilizada por portugueses e espanhóis para qualificar línguas indígenas de grande difusão numa área e. plantavam os alimentos de que necessitavam e modificavam vastas áreas através do corte das árvores. chegaram a uma terra que possuía uma gigantesca população de nativos. queimadas.. elaborado por Ronaldo Vainfas. o que os fazia entender que as terras do “Novo Mundo” estavam desabitadas. inicialmente. 346-348). Foi com esse discurso que o governo português empreendeu a ocupação do interior [. Passíveis. quando há referência aos colonizadores que foram para o interior do Brasil em busca de terras para se apropriarem. de serem ocupadas. Como foi dito na epígrafe: “não há sociedade sem espaço”. caçavam alguns animais para alimentar-se. chamam-os de “descobridores”.] dividiram os indígenas em dois grandes grupos: os Tupi. 2000. posteriormente. Quando os europeus cruzaram o Atlântico. sistematizada pelos padres jesuítas no século XVI. (em fase de elaboração) 1 : “A palavra descobrimento dá a impressão de que as terras situadas no sertão eram vazias. 2 1 . sendo falada até o séc. que falavam a “língua geral”. domesticavam outros para distração. XIX pelos povos indígenas que habitavam o litoral. levando a crer que foram esses os primeiros a chegar às terras por eles apossadas.]” e ampliou os seus domínios. que se espalhavam por todo o seu território e “[. Bem mais do que uma justificativa para efetuar a posse.. a ser editado. o índio fazia parte da natureza. para o europeu.. então. 1990. Texto sobre a colonização do Brasil de autoria de Serioja Mariano.2 e os Tapuia. De acordo com MARIANO. a expressão descobrimento era uma ocultação ideológica dos países colonizadores. Mas não era essa a realidade. Esses atos já demonstram a interação do índio com seu meio e o entendimento que tinham do espaço que ocupavam.36 Em vez disso. Na sua concepção. preparo da terra.25). Geralmente. Veremos. (Verbete Língua geral. In: VAINFAS. p. p. portanto. na historiografia. como os índios aos poucos foram sendo absorvidos ou dizimados pelos europeus. bem como. isto é.. outros idiomas que eles não compreendiam” (PIRES. que falavam a “língua travada” (língua macro Jê). S. A expressão “língua geral” foi.

No arco que entesa Tem certa uma presa. (DIAS. e para os europeus passou a equivaler à palavra “bárbaro”. Quer seja tapuia. dos núcleos iniciais de povoamento europeu. em sua maioria. O que se tem em mãos para análise são observações feitas sob o foco “preconceituoso” do europeu do período colonial e dos Tupi do litoral. p. facilitando o contato com os europeus. vermos algumas informações acerca destes indígenas que habitavam o interior paraibano e como foi a sua relação com os colonos e até mesmo com a natureza. as fontes que trazem informações sobre estes povos foram produzidas por cronistas europeus que. que habitavam toda a faixa litorânea. Mais próximos. 419) . só tratavam dos Tupi. é uma designação criada pelos índios de língua tupi-guarani para os povos indígenas que habitavam o sertão e cujas línguas pertenciam a outro tronco lingüístico. Infelizmente.1 Tapuia: no sertão já havia gente Um dia vivemos! O homem que é forte Não teme da morte. a diversidade de línguas faladas pelos Tapuia dificultava a comunicação e prejudicava o contato. antes de expor como se deu o processo de produção do espaço da Paraíba pelos colonizadores. Condor ou tapir. A expressão “Tapuia”. facilitando o contato e a observação. portanto.37 Ao contrário dos Tupi. Só teme fugir. utilizada pelos colonizadores. que possuíam uma unidade lingüística. É necessário. são poucas as informações registradas. 2. Sobre os Tapuia. 1965.

Articulou-se com vários anseios de construção da identidade nacional. usada como recurso ordenador da memória da história de algumas cidades (ARRUDA. porém. Algumas eram provenientes do litoral e se deslocaram para o sertão. os Tapuia possuíam uma multiplicidade de línguas que dificultavam ainda mais o contato. Assim. eram tidos como os mais bárbaros entre os bárbaros. o sertão representava também toda uma área ainda não ocupada que equivalia. 20). A idéia de sertão apareceu em diversos discursos nomeando realidades geográficas distintas. Os Tapuia quase não mantiveram contato com os portugueses. no período colonial.38 Pertencentes.219). Brejo e Curimataú. ao que se conhece hoje por Cariri. Isso contribuiu para que no século XIX. região habitada por selvagens bárbaros. à família Jê ou a grupos isolados. sobretudo no período colonial. além do próprio Sertão (GUEDES. apresentando os Tupi como heróis e possuidores dos valores civilizatórios. no século XVII. Os Tapuia. No período da colonização da Capitania Real da Paraíba. tido como um lugar inóspito. terra a desbravar. Essa mesma conotação também serviu para fazer referência ao sertão como o lugar da barbárie. Por essa razão são precárias as informações sobre esses grupos. . o romantismo explorasse essa dicotomia. 2006. pouco se sabe da origem dessas nações do interior. p. Referindo-se especificamente ao conceito de sertão no período colonial. a idéia de sertão foi uma maneira de indicar o desconhecido. Arruda (2000) disse que foi parâmetro para representar espaços simbólicos dicotômicos. 2000. Ao contrário dos Tupi. em grande parte. aparecendo como cristãos e falando o português. Transformou-se em oposição ao termo civilização e foi utilizado como justificativa para numerosos projetos de (re) ocupação dos territórios interiores do país. pressionadas pelos europeus e outras tribos inimigas. Seridó. p.

Por possuir um valor simbólico culturalmente elaborado. existiu uma grande diversidade de conotações que variaram em função do tempo e das conjunturas [. O sertão desta forma. e que foi se modificando com o avanço da colonização. A autora vai além da categoria espacial e aponta o sertão como uma das categorias mais recorrentes no pensamento social brasileiro. Constituiu-se numa fonte abundante de representações criadas pelo imaginário social da época e pelas relações sociais que ocorreram ao longo do tempo. com isso. bandeirantes e criminosos foragidos. era entendido como o lugar do outro que está à margem da sociedade. percebe-se. a partir dos relatos dos cronistas e nos séculos que se seguem. transformava-se em território na medida em que as relações de poder estabeleciam-se sobre as bases físicas.] Vale destacar ainda. está muito longe de atingir a complexidade e heterogeneidade de conotações criadas no período colonial em relação ao sertão. que o sertão colonial é mais um registro simbólico do que um espaço físico delimitável.39 Sobre o conjunto de imagens e representações do sertão colonial. além de ser a morada dos índios “Tapuia” (GUEDES. a partir daí. Assim. de modo geral. 2006. a saber: ‘agreste’ e ‘zona da mata’” (AMADO. que a definição sintética deste espaço apenas como sinônimo de interior. árida e pobre. a contribuição dos índios Tupi na construção deste imaginário dos colonizadores em relação ao sertão. 145). designa oficialmente uma das subáreas nordestinas. . que sem ele a noção de nordeste se esvazia por falta de seu principal referencial. Atualmente. Torna-se. Para os nordestinos o sertão é tão fecundo de significados. situada a oeste das duas outras. sobretudo na nossa historiografia. p. 32). em oposição ao litoral. imprescindível nas construções historiográficas que tinham a nação brasileira como tema básico. Neste sentido. Seja na criação dos mitos de “eldorados” ou no olhar Tupi sobre os índios do sertão.. entre o sertão desconhecido e idealizado do século XVI e aquele espaço “sem lei” do século XVIII. Amado aponta o sertão como uma categoria espacial que se faz presente no cotidiano e no pensamento do Brasil desde a época da chegada dos portugueses ou até mesmo antes disso.. 1995. “segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). p. era o lócus de quilombolas. não podemos perder de vista o fato de que a cultura colonial em gestação era mestiça e a imagem barroca do sertão e seus habitantes também devia sê-lo. Compreende-se. principalmente quando este era ainda pouco conhecido.

em sua fase pré-marxista. . O sertão como categoria cultural foi muito presente na literatura brasileira. Capistrano de Abreu (1975 e 1988) e Oliveira Viana (1991). 146). Tanto em obras literárias eruditas como nas populares. perseguidos. Encontra-se em todas as manifestações artísticas: pintura. este sertão “representava liberdade e esperança. Depois de um longo período sendo bastante citado pelos historiadores. funda e definitivamente. como Varnhagen. só reaparecendo na historiografia na década de 1990. colonos. utilizaram e refinaram o conceito. escravos ou índios. poderosos símbolos.40 Os historiadores reunidos em torno do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e identificados com a historiografia ali produzida. Assim. liberdade em relação a uma sociedade que os oprimia. para outros. 1995. posteriormente. estando degredados. escultura. p. no século XIX. poesia. Outros historiadores importantes do período. principalmente na “literatura regionalista”. e. o sertão tornou-se uma categoria de entendimento do Brasil. p. Sergio Buarque de Holanda (1957 e 1986) e Cassiano Ricardo (1940). O que para alguns era sinônimo de interior. bárbaro. lugar distante. desconhecido. permanecendo bastante presente nos trabalhos dos sociólogos e de alguns antropólogos. de diferentes formas. como Euclides da Cunha (1954) e Nelson Werneck Sodré (1941). esperança de uma nova vida. categoria que foi construída durante todo o período colonial. 146). Finalmente. Nas obras eruditas. como uma nação. 150). 1995. mais feliz” (AMADO. melhor. que tem o sertão como lócus ou faz referencia direta a ele: “A literatura brasileira povoou os variados sertões que construiu com personagens colossais. fugidos e que por alguma razão encontrou nessas distantes terras uma nova chance de viver. teatro. e depois. trabalharam. marcando com eles forte. Conceito trazido pelos portugueses e absorvido pelos colonos. o sertão sai um pouco de foco na década de cinqüenta. o imaginário brasileiro” (AMADO. 1995. O sertão é culturalmente onipresente. especialmente oral e cordel. o sertão é uma das categorias que mais se identificaram com a cultura brasileira. p. No inicio na condição de colônia de Portugal. com a categoria “sertão” (AMADO. narrativas míticas.

escritas do ponto de vista deles. ou a uma tribo. além de possuírem diferenças culturais e lingüísticas. porque ninguém pode pelo sertão dentro caminhar seguro. De ser bom ou de ser mal. e que houvesse entrelles grandes odios e discordias. atribuem a tribos iguais.41 Desde o princípio. e assi como são muitos permitiu Deos que fossem contrarios huns dos outros. portanto. perceber o outro. para encontrarem aliados na difícil tarefa de conquistar as terras do Novo Mundo.14. crenças e opiniões próprias do período em que foram escritas. o sertão apresentou essa duplicidade de sentido. Desta antipatia entre as tribos inimigas se aproveitaram os europeus. o mesmo nome do seu cacique. p. Do lugar de onde se falava. mantinham uma secular inimizade que os levava a constantes guerras. estas crônicas são importantes. Devemos destacar que os Tapuia não deixaram registros de sua versão da história. Isso dependendo do ponto de vista de quem dele falava. Os povos indígenas (Tupi e Tapuia) que habitavam o Brasil. Percebemos essa intenção já nas primeiras crônicas do período que anunciam: Não se pode numerar nem comprender a multidão de barbaro gentio que semeou a natureza por toda esta terra do Brasil. Muito destes registros têm confundido os pesquisadores. 1980. por terem sido feitas em diversas línguas. são provenientes dos relatos dos cronistas. pois nos permite conhecer uma cultura que foi bastante desestruturada no período colonial. nem passar por terra onde não acha povoações de indios armados contra todas as nações humanas. do referencial do observador. . enfim. porque se assi não fosse os portuguezes não poderião viver na terra nem seria possivel conquistar tamanho poder de gente (GÂNDAVO. Assim sendo. nomes diferentes. Muitas informações passadas pelos cronistas. acerca dos povos indígenas e sua interação com os primeiros colonos. Mesmo assim. pouco numerosos. Permite-nos. As informações que virão a seguir. grifo nosso). carregando toda a carga de preconceitos.

o cabelo é preto. inclusive. esses por sua vez só poderiam ser os “Tapuia” associados ao espaço-sertão e enxergados muitas vezes pelos colonizadores como uma humanidade irredutível (GUEDES. e de ordinário o trazem pendente sobre o pescoço. é feita referência ao hábito de andar nu.. (conforme os exemplos abaixo) significa reconhecer neles uma certa organização não apenas social. dando aos portugueses o número necessário de aliados para permitir o sucesso do empreendimento colonial. com exceção dos dias de festa ou de guerra. Ainda acrescenta uma exposição da aparência física destes índios: Este povo de Tapuias é robusto e de grande estatura. Desta discórdia e da pouca receptividade dos índios que não habitavam no litoral. nasceu a fama do sertão como sendo um espaço hostil. e o prendem com um atilho. Em outros casos. 27. salientando que não se fixavam em lugar algum e que se regulavam pelas estações do ano para coletar os alimentos. p. A relação entre sertão e índios “Tapuia” pode ser comprovada.] Puxam a pele sobre o membro viril. através dos mapas do período em questão. O autor apresenta as diferentes etnias e a sua localização na Capitania.42 Esta discórdia foi bem explorada. p. 3 Uma importante descrição dos índios que habitavam o interior da Paraíba foi feita por Herckmans. ). Além disso. e atribui a isso a dificuldade de distinguir quem entre eles é o rei ou superior.39). 1982. aparecem nos mapas representações iconográficas de índios bárbaros no interior. mas sim pelo termo “Tapuia” ou mesmo nação dos “Tapuias”. a sua cor natural é atrigueirada. a cabeça grande e espessa. A 3 Quando nos mapas aparecem os termos “nações” ou “reinos” para denominar os grupos indígenas do sertão. o que faz parecer que trazem um boné sobre a cabeça [. mas por diante até acima das orelhas cortam-no igualmente.. . 2006. estando dessa maneira esta imagem muito longe daquela que entendia o sertão como espaço caótico e da incivilidade. já que em muitos deles o vasto interior do Brasil não estava representado pelo termo sertão. os seus ossos são grossos e fortes. de modo que fique todo metido no corpo (HERCKMANS. Também fala da mobilidade destes indígenas. mas sobretudo do espaço.

90-92). (Verbete Canibalismo. na sua obra “História da Província Santa Cruz a que vulgarmente chamamos Brasil”. o comem com grande algazarra e lamúrias. p. Porque nã tam ſómente lhe 4 Ingestão de parentes ou amigos já mortos. que fazia parte da guerra e consistia em aprisionar. pisados e reduzidos a pó misturam com a sua farinha e assim comem. p. dizendo que o finado não pode ser melhor guardado ou enterrado do que em seus corpos.43 única coisa que diferencia o rei é o seu corte de cabelo “como uma coroa” e pelas unhas dos polegares compridas. como nam ſeja de ſeu rebanho. a prova de que os nativos do Novo Mundo não eram homens iguais a eles. Essa mesma impressão nos passa Gândavo. em sinal de que deploram a morte de seus amigos. referindo-se as tribos Tupi. elaborado por Ronald Raminelli. sendo esta forma de canibalismo mais comum entre os Tupi. especialmente os ossos que. he nas grãdes & exceſſiuas crueldades q executam em qualqr peſſoa que podem auer ás mãos. . 1982. para as tribos tapuias. fazem um grande fogo sobre o chão. Às vezes não o podem todo. escrita nos primeiros anos da colonização portuguesa no Brasil (1576): Hva das couſas em que eſtes Índios mais repugnam o ſer da natureza humana. Isso os levou a classificar a ingestão de carne humana como um sinal de barbarismo e a considerá-los “maus”. & é que totalmente parece que ſe extremam dos outros homẽs. lavam-no e esfregam-no bem. Embora o endocanibalismo fosse predominante nas tribos tapuias. 2000. Estas práticas foram. Difere do exocanibalismo. seja homem ou mulher.43). pois. Vejamos Se morre algum deles. Tomam o cadáver. O berreiro e as lamentações dos amigos perduram somente até que o cadáver tenha sido comido (HERCKMANS. Logo que esteja bem assado. depois de queimados. acima do qual põem o corpo e deixam-no assar bem. em sendo morto. há relatos que lhes atribui a prática do exocanibalismo. In: VAINFAS. Os amigos (parentes) mais próximos do morto. então guardam o resto para ocasião oportuna. cortam o cabelo. Herckmans também relata a prática do Endocanibalismo 4 . abater e consumir o inimigo em meio de um longo ritual. era uma demonstração de afeto o parente ou amigo guardar em seu corpo o cadáver do companheiro. que a princípio achavam os índios “bons”. quer seja homem ou mulher. comem-no. para os europeus. e isto fazem do seguinte modo.

44 dão cruel morte em tẽpo que mais liures & deſempedidos eſtã de toda a paixam: mas ainda depois diſſo. vſando neſta parte de cruezas tam diabólicas. a imagem dos índios nos discursos tem alternado entre essas duas visões: o bom e o mau selvagem” (MARIANO. grifo nosso). cobrindo “as suas vergonhas” com folhas verdes. Passavam a ser responsáveis pelo transporte da bagagem . Na “historiografia subseqüente. Podemos acrescentar ainda o poema épico de Santa Rita Durão no seu Canto I. essa visão barbarizante dos índios já estava incrustada na mentalidade do europeu desde os primeiros contatos. e outros lá se comem: Tanto aborrece aquela fúria ao homem. Herckmans deixa isso bem claro nessa afirmação: “São homens incultos e ignorantes. servem. quando casadas. N. mas é em verdade Invenção do diabólico homicida. segundo os cronistas. como tratando com eles temos muitas vezes observado” (HERCKMANS. que diz Barbárie foi (se crê) da antiga idade A própria prole devorar nascida. Como vemos. sem nenhum conhecimento do verdadeiro Deus ou dos seus preceitos. por ſe acabarem de ſatisfazer lhe comem todos a carne. estrofe XXIX. e tinham os cabelos negros e compridos. Acrescenta que elas também andavam nuas. “mui serviçais e submissas aos seus maridos”. 2003. 39. Que uns cá se matam. Herckmans. Eram bem menores que os homens e. A idéia é reforçada. Desde que essa cruel voracidade Fora ao velho Saturno atribuída: Fingimento por fim.40v). ao diabo ou quaisquer espíritos maus. p. nem forão nacidos pêra obrar clemência (GÂNDAVO.. também se referindo aos Tupi. pelo contrário. que as tratava quase como escravas após o nascimento de algum filho. 1982. por estes índios não conhecerem o Deus da religião católica européia. que ainda nellas excedem aos brutos animaes que nam tem vſo de rezam. p. p. faz referência à beleza dos rostos das índias. 1984.120).

espécie de bebida preparada com a mandioca cozida e fermentada. também caçavam. como o preparo do cauim. o casamento era altamente valorizado pelos homens para ter acesso a esta capacidade econômica das mulheres. A todo o momento os índios interagiam com seu meio.eram atividades femininas (FERNANDES. 2003. embora não possuíssem alguns hábitos. J. possuíam estrutura social bastante semelhante e também participavam de atividades agrícolas e alimentícias da aldeia. plantando mandioca. . Como resultado. e algumas tribos praticavam a agricultura. como manter os fogos acessos e o abastecimento de água. passando pela colheita. simbólico ou guerreiro. Todos os serviços domésticos. Podia ser também preparada com caju ou com outras frutas. Estas eram responsáveis por todos os trabalhos agrícolas. Também realizavam todos os passos necessários ao fabrico dos diferentes tipos de farinha e de bebidas fermentadas. Nos povos Tapuia. bem como os recipientes de barro ou cestaria utilizados. provocando mudanças que lhes beneficiavam e permitiam a sobrevivência.64).. A dimensão econômica desse trabalho possuía um caráter essencial. p.45 quando migravam e pela construção da cabana no local onde escolhiam para se fixar (HERCKMANS. as mulheres. mel e frutas (especialmente o caju). Às mulheres Tupi. Isso nos permite afirmar que elas também foram peças fundamentais dentro da sociedade Tapuia. seja no campo nutricional. Para se alimentarem. cabia a fabricação do cauim.41-42). Quando um local já não supria suas necessidades se transferiam para outro local e começavam a deixar o espaço adequado a sua permanência. O autor acrescenta que o trabalho feminino dos Tupi era central para a produção social. bem como o transporte de material ou das crianças – inclusive durante as guerras . do plantio ao preparo do alimento. milho e alguns legumes. 1982. estes índios coletavam raízes. ou ainda com milho e mandioca mastigados. Praticamente todas as outras atividades econômicas eram realizadas exclusivamente por mulheres. pp.

feitas de madeira ou pedra. e trabalhos que padeceram em sua ausência. 1627. e todas as mais coisas com muito descanso. porém agora fazem suas lavouras. pescavam com uns espinhos. maldizendo no choro a pouca ventura que seus avós e os mais antepassados tiveram.17). que trazem a terra de que eles dantes careciam. e agora as tem em tanta abundância. que nunca ou de maravilha deixam de fazer. Os maridos na roça derrubam o mato. as mulheres tinham um importante papel na sociedade indígena. senão quando reinam alguma malícia ou traição contra aqueles. p. foices. E o que podemos perceber no relato do Frei Vicente do Salvador (1627): E quando algum vem de longe. mas uma depois de outra. e o pranto acabado lhe perguntam se veio. como são machados. faziam o cabelo e as unhas com pedras agudas. anzóis. e gastavam muitos dias em cortar uma árvore. e ele responde que sim. estes índios passaram a ter acesso a ferramentas mais modernas. ora os maridos. e ele também chora dando uns urros de quando em quando sem exprimir coisa alguma. facas. onde vão todos os dias depois de almoçarem. o que também fazem aos portugueses. tesouras. Com a chegada dos colonizadores. pentes e roupas. Como foi dito anteriormente. espelhos. e não comem enquanto andam no trabalho.46 Para isso. . que vão às suas aldeias. não todas juntamente. ou resgatar com eles (SALVADOR. porque antigamente roçavam os matos com cunhas de pedra. pelo que os devem de ter em muita estima. as velhas daquela casa o vão visitar. principalmente se lhes entendem a língua. no qual pranto lhe dizem as saudades que tiveram. e que desta maneira viviam mui trabalhados. que não alcançaram gente tão valorosa como são os portugueses. davam aos índios as ferramentas necessárias para facilitar o trabalho diário que eles exerciam e pelo qual eram imensamente gratos. depois que voltam para casa. e quando se queriam enfeitar faziam de um alguidar de água espelho. ao seu rancho com grande pranto. e este recebimento é tão usado entre eles. que são senhores de todas as coisas boas. que vão às suas aldeias a visitá-los. se tantos estão sem tornar a parir. se utilizavam de inúmeras ferramentas. geralmente pau-brasil e outros tipos de madeiras. principalmente quando vão às suas roças. Os portugueses em troca do que queriam. senão à véspera. e então lhe trazem de comer. Muitas das tarefas que envolvia a produção de alimentos ficavam unicamente ao encargo delas: As mães dão de mamar aos filhos sete ou oito anos. e todo este tempo os trazem ao colo ora elas. que facilitavam o trabalho e permitia uma produção maior e mais rápida.

e poucas vezes tiram a um passarinho. vieram também novas ferramentas e interesses que aceleraram e aprofundaram essas mudanças. As índias. que pode ser suficiente carga de uma azêmola. e dão a terra limpa às mulheres. e levam para casa em uns cofos mui grandes feitos de palma. que não o acertem. Se analisarmos o status feminino nestas sociedades. Essa alteração já vinha acontecendo. Podemos afirmar que não foi a partir da chegada do europeu que ocorreu alteração no espaço.19). Acesso em 03 de setembro de 2005). primeiro em esboços. a maioria das telas possuem mais de 2 metros de altura. à época da chegada dos portugueses. (Disponível em <http://www. percebemos que a sua contribuição era vital para a sociedade como um todo (FERNANDES. veremos a seguir registros iconográficos do período em três pinturas feitas por Albert Eckhout 5 . porque logo ensinam aos filhos de pequenos a tirar ao alvo. até hoje. Autonomia que era exercitada em várias instâncias da vida social. uma vez que eram os habitantes do sertão. apesar disso. e na mão seu arco e flechas. contestam o valor artístico de sua obra. 1610. 2003. apenas. Tornou-se necessária essa incursão nos hábitos dos Tupi para que entendamos como os europeus dos primeiros anos da colonização percebiam o outro e quais as diferenças e semelhanças existentes entre eles e os Tapuia. provocada pelos índios. Alguns.269). 1627. Nascido em Groingen. que fazem com as pontas de dentes de tubarões. e elas plantam. exaltando. A natureza e os tipos étnicos do Brasil ficaram conhecidos através dos seus impressionantes painéis. ficando esquecido durante séculos. 5 . p. de que são grandes tiradores. mondam a erva.areliquia. depois em pinturas e gravuras. a hipnotizante natureza do Nordeste Brasileiro.com. Mas. seu valor documental. colhem o fruto e o carregam. J. Ele registrou. eram possuidoras de uma considerável autonomia em relação aos homens. e os maridos levam um lenho aos ombros. onde figuras são representadas em tamanho natural. ou de umas canas agudas.. o pintor holandês Albert Eckhout foi companheiro de Franz Post na comitiva de Maurício de Nassau. em grupo ou individualmente. Com a chegada dos portugueses. Para melhor compreender os Tapuia. a que chamam taquaras. quando o Conde veio governar o Brasil Holandês.47 queimam-no. p.br/43AlbertE.htm>. não recebeu o mesmo reconhecimento que o colega. lançados sobre as costas. por pequeno que seja (SALVADOR.

wikimedia.jpg Figura 3 – Mulher Tapuia (1641) Fonte:http://commons.Dança dos Tapuia (dança de guerra) Fonte: http://commons.org/wiki/Image:Dan%C3%A7a_dos_Tapuias.wikimedia.48 Figura 1 .org/ wiki/Image:mulhertapuia.org/ wiki/Image:homemtapuia.jpg Figura 2 – Homem Tapuia (1643) Fonte: http://commons.jpg .wikimedia.

] representado principalmente pelos janduís [. o estudo dessas sociedades indígenas é . 1993. apesar da convivência com o homem branco e. conservavam hábitos “bárbaros”. a pouca documentação e a diversidade idiomática. Eles andavam nus na mata virgem. como alguns cronistas antes e depois dele. que se identificam com o olhar dos cronistas. estavam cercados por animais perigosos. Mostram o que os descobridores encontraram ao aportar aqui..81). com uma vegetação em nada próxima da vegetação nativa do semi-árido. praticavam o canibalismo.]” (PUNTONI. Ao contrário do que aponta as pesquisas mais recentes. Devido à quantidade de etnônimos diferentes no sertão nordestino (são relacionados 80). Segundo Borges (1993).] o sertão encontrava-se habitado por dezenas de grupos étnicos distintos. são elementos que nos deixam entrever o fato do artista não ter tido um contato direto com o cenário por ele reproduzido.. p. além da existência dos nativos. particularmente no nordeste. foram agrupados erroneamente por historiadores. A irrealidade da paisagem. o pintor faz uma série de registros iconográficos sobre os índios Tarairiú. Na realidade. ratifica: “[. evidenciando o seu lado “selvagem”. um conjunto de representações sobre os tapuias e o sertão existentes nas vilas açucareiras quando de sua estadia em Pernambuco. o pintor as utiliza para que o Velho Mundo tenha conhecimento. o primeiro não está contido no segundo. Nelas. Eckhout reproduz. Tais gravuras foram construídas sem que seu autor tivesse jamais ido para o sertão ele próprio ou encontrado pessoalmente os tapuia. em sua tese de doutoramento. Puntoni. em trabalho acerca da localização das aldeias indígenas na Paraíba. Embora algumas imagens não sejam condizentes com a realidade.... 2002.49 Essas imagens representam as mais antigas pinturas conhecidas sobre a América do Sul. lingüistas e antropólogos (BORGES.21-42). os Tarairiú foram uma etnia diferente dos Cariri. pp. muitas vezes.. entre os quais se destacam os cariris e os tarairiús [. da fauna e da flora do além-mar.

Canindé. Icó. é registrada a presença. Os Cariri. Essa idéia foi reforçada pela “Guerra dos Bárbaros”. por exemplo. Estes diferentes etnônimos eram tidos como pertencentes à família Cariri ou aos Tarairiú. Janduí.50 bastante prejudicado. era. por estarem presentes em vasta extensão nos sertões da Paraíba. entre outros. dos Corema. como levante ou confederação dos Cariri. Podemos perceber que a região onde se localizava a Alagoa da Perdição. p. . Tarairiú. Na Paraíba. 432-433). Paiacú. junto aos Cariri. eram tidos como uma grande etnia que habitava o interior. como é comum na literatura (DANTAS. atual município de Princesa Isabel. antes da chegada dos colonizadores. que os cronistas relatavam. ocupada pelos índios da nação Tapuia e da etnia Corema. em uma visão genérica. A diversidade de dialetos extrapola os limites dessa etnia. Borges (1993) apresenta um mapa da distribuição das tribos no solo paraibano que tomamos por base para apresentarmos o espaço em estudo e a tribo que lá habitava no período da sua reocupação pelos europeus. podemos classificar estes diferentes grupos como etnias distintas e não como pertencentes aos Cariri. Mesmo com um elevado desconhecimento etnográfico desse conjunto diverso e a pouca documentação. Ceará e Bahia. SAMPAIO & CARVALHO. 1992.

51 .

2002. desempenhava uma função estratégica na construção do domínio colonial. para que combatessem os portugueses nas lutas pela retomada da Capitania. sem capacidade de reação. Os primeiros portugueses que aqui habitaram tornaram-se ferrenhos inimigos dos índios Potiguara que eram. Durante o período em que os holandeses dominaram a Paraíba (1634-1654). assim.52 No início da colonização portuguesa.50). inimigos dos Tabajara. A política de aldeamento teve início no Brasil com a presença dos Jesuítas desde o princípio da colonização. foram aglomerados em aldeamentos e missões. os europeus que vieram colonizar o Brasil. A maioria dos que restaram. Os autóctones eram os únicos capazes de dar o conhecimento das terras e contribuir para as tropas com os homens necessários às diversas guerras e escaramuças travadas entre os colonizadores e tribos que se manifestavam hostis. firmaram alianças com os Potiguara e com os Tapuia (Janduí). serviram como o suplemento populacional que faltava para efetivar-se a empreitada colonial. também se associaram aos grupos indígenas para possibilitar a fixação nos locais escolhidos por eles para dominar. nos quais. início a um período de intensos confrontos durante a colonização do interior. eram vítimas da espoliação. Em terras paraibanas não foi diferente. destinado ao indígena. Puntoni (2002) salienta que: O papel de povoador. por sua vez. Após a expulsão dos holandeses do território paraibano. Além dos portugueses. e entre os colonizadores de diversas nações (PUNTONI. Bem mais que aliados ou fornecedores de produtos nativos. ambos habitantes do litoral e oponentes dos Tapuias do sertão. os diferentes grupos indígenas foram elementos importantes desse processo. p. Com o . que resultaram em uma drástica redução na população indígena. as rixas que tinham os portugueses com estes índios se intensificaram. dos mais diferentes países. Os padres percorriam as aldeias pregando a palavra de Deus. Foi dado.

Sra. responsáveis por adequar os índios às práticas religiosas e ao tempo cristão. na qual os índios eram quem se deslocavam no espaço e não os padres. Estes deslocamentos provocaram uma considerável mudança no modus vivendi dos índios porque era feito. apresentado na obra “História dos índios do Brasil”. No quadro dos aldeamentos missionários no nordeste século XVIII. os Corema foram reunidos em um aldeamento no sertão. ALDEIA 3. NAÇÃO Paraíba Coremas Sertão do Piancó N. que foram aldeados no período colonial. 446 Igualmente aos demais índios. “Descer” ou “fazer descer” os índios significava deslocá-los do interior – os sertões – para o litoral. Neves (1978) viu nisso uma profunda “alteração das formas de deslocamento dos interlocutores”. Reduzir era sinônimo de submeter os índios ao cativeiro. Vejamos este quadro: Quadro 02 – Aldeamento Corema no Piancó 1. CAPITANIA 2. SAMPAIO & CARVALHO. Fora. ainda reduzidos a uma aldeia controlada pelos frades capuchinhos. p. do Rosário Capuchinho Tapuia (Korema) Fonte: DANTAS. fixando-os nas proximidades de vilas e engenhos coloniais. essa estratégia missionária foi se modificando e passou a promover o deslocamento das tribos do seu local de origem para aldeias próximas ao litoral. através de mecanismos usados na prática da escravização por meio dos descimentos e reduções 6 . confirmando a presença desta etnia na região estudada. principalmente. INVOCAÇÃO 5. VILA / ÁREA DE REFERÊNCIA 4. é feita referência a um aldeamento dos índios Corema no sertão do Piancó. não sofrendo deslocamento. 6 . MISSIONÁRIO 6.53 passar do tempo. 1992.

” (FERNADES. Com a sua expansão. novos agentes produtores do espaço entraram em cena. originalmente os verdadeiros donos do sertão. produtoras de cana-de-açúcar. até então.54 2.. não tinham sido contatados. com a economia enfraquecida.44).2 Terras para o gado: o leitmotiv da colonização A ambição de riqueza. vaqueiros. era apenas uma atividade complementar das terras litorâneas. até então. impediam a expansão da pecuária. tentando conter as invasões promovidas pelos sesmeiros. Pelo contrário. até certo ponto. Esses contatos se tornaram cada vez mais agressivos e estas violências atingem uma dimensão extrema quando Ameaçados por todos os lados. p. para que não houvesse destruição dos canaviais e também porque as terras do litoral já estavam. Iniciou-se a expansão da pecuária. na sua maioria. foreiros.14). Expulsos os holandeses. antecede a dos criadores. De acordo com Fernandes “a análise historiográfica deixa perceber que a ação do governo metropolitano e do seu aparelho colonial se alia à dos sertanistas que. eles não tinham mais importância para o desenvolvimento da Colônia. paulistas e missionários – que levavam consigo escravos e agregados – rebelaram-se. foi a alavanca do movimento. foi a Parahyba por sua vez tomada da febre de descobertas (JOFFILY. procuravam na criação de gado um meio para preservar a sua riqueza. constituindo a “Guerra dos Bárbaros” a mais comovente e longa forma de resistência indígena daquele período (PIRES. e instável a economia açucareira. a criação de gado devia ser feita nas áreas mais distantes. 114). 1991. Os primeiros a solicitarem terras foram os senhores de engenho que. que. Os primeiros colonos a se embrenharem no sertão se depararam com os indígenas que. os indígenas. 1977. e como em diversas capitanias do Brazil. p. Devido à crescente resistência por parte dos índios. ocupadas. As . 1990. I. p.

Ocorreu entre a segunda metade do século XVII (1651) e o início do XVIII (1720). abriu brechas para toda uma sorte de atrocidades cometidas contra os indígenas. 2000. ao longo da povoação de Bom Sucesso de Piancó. 7 Refere-se aos aventureiros de São Paulo que participaram de expedições armadas pelo interior do Brasil. . In: VAINFAS.000 tapuias “conflagraram praticamente todo o sertão. e pelo vale do Pajeú. 8 Surgiu. Essa guerra durou mais de meio século. 64-66). consideradas “justas” e os cativos. com os paulistas convertidos em mercenários. por lei. p. ao mesmo tempo. justificadas sempre pela “guerra justa” (PIRES. o direito de prear índios em “guerra justa”. os colonos do sertão nordestino se aliaram aos paulistas. se desenvolveu com a expansão da pecuária e as doações de sesmarias no interior do Nordeste. Para enfrentar a intensa resistência dos índios. na divisa do Rio Grande do Norte. após o século XVIII. recebendo os índios que capturassem como pagamento. declarados escravos (PIRES. além de inúmeros privilégios. como este conflito ficou conhecido na historiografia. 1990. p. 188). 8 As guerras contra os índios oponentes da colonização. no Ceará” (BANDEIRA. A “Guerra dos Bárbaros”. ficaram mais conhecidos como Bandeirantes ou Sertanistas. (Verbete Bandeirantes. nas lindes de Pernambuco. 7 que recebiam. mais de 10. As etnias Tapuia que participaram mais ativamente dos conflitos com os colonos nos sertões da Paraíba foram os Cariri e os Tarairiú. balizada pelo vale do Jucurutu. desde a Bahia até o Maranhão. A legalização do cativeiro indígena assegurou a permanência dos paulistas na “Guerra dos Bárbaros” e. eram.66). 2000. Nessa guerra. o “sertanismo de contrato”.55 guerras por parte dos portugueses tinham por finalidade o aniquilamento completo e não a sujeição ou a integração. elaborado por Ronald Raminelli. p.67). 1990. como recompensa pelos serviços prestados. comprovando a dura oposição dos índios à dominação branca. com isso. desde o recessos da Paraíba. até o sertão do Jaguaribe. Isso causou enormes prejuízos para a Coroa e inúmeras baixas nas tropas que combatiam e nos povoados por eles atacados. p.

“Para a metrópole e a burocracia colonial. p. Após este período. usava a justificativa de que a verdadeira intenção era pôr fim à guerra e que só estes “bárbaros”. o sertão estava “despovoado” do “bárbaro gentio” e pronto para receber o gado. mesmo ciente dessa violência. Portugal tomou medidas para pôr fim aos conflitos. terem participado das lutas contra os “gentios”. deixando uma enorme lista de povos que foram aldeados. pediam ao Rei terras para criarem seu gado. já estava atuando. que desde a guerra travada contra os índios. entre outros que se especializaram em matar e cativar índios. Nessa fase da conquista. destacou-se o nome da família Oliveira Ledo. escravizados. A Metrópole. Pelas brutalidades cometidas. a administração da paz começou a assumir uma importância igual à da condução da guerra” (PIRES. Teodósio de Oliveira Ledo. muitas vezes. Não respeitavam. já havia cessado a “guerra dos bárbaros”. 80). 1990. nem mesmo os aldeamentos das ordens religiosas. Assim. para que a violência destes homens fosse contida. deu-se início a sua colonização efetiva por parte dos portugueses. na Paraíba. na ânsia de escravizarem indígenas. ficaram celebres Matias Cardoso de Almeida e Domingos Jorge Velho. exterminados. 1998. entre outras coisas. Depois de decorrido muito tempo e uma série de violências cometidas.56 A participação dos paulistas na guerra foi marcada pala intensificação da violência. que continuaram a exercer seu comportamento preferencial. a “mobilidade no espaço geográfico e social” (FARIA. seriam capazes de barrar os “bárbaros gentios”. enfim. alegando. por volta de 1720. Eram constantes as reclamações dos Padres destes aldeamentos à Metrópole. Após as guerras do sertão. assimilados pela nova sociedade que se formou. p.21). com sua truculência. É o que nos diz Abreu: . Assim. Jorge Velho esteve escravizando e matando índios Corema no sertão da Paraíba.

durante a “Guerra dos Bárbaros”. vindo de Pernambuco pelo rio Pajeú e entrando na Paraíba pelo rio Piancó. 65). muitas vezes. Graças aos esforços dos dois. afluente do grande rio nordestino. na fase de conquista. a um pecúlio que. inicialmente pertencente a Garcia d’Ávila. s/d. “constituindo um dos pilares do poder colonial” (BANDEIRA. mas em tempo de d. se faz necessário remeter à Bahia. 2000. Piancó e Piranhas (ABREU. a Casa da Torre teve que delegar. transpondo o S. Devemos lembrar que esta paz custou a vida de muitos índios. a inspeção e a conservação dessas terras que recebia como sesmarias. à Casa da Torre. 209). Simultaneamente penetrava da Paraíba Teodósio de Oliveira Ledo. ficaram pacificados os sertões de Pajeú. quando o coronel Francisco d’Ávila. dessa forma.57 Resistiram bastante os índios do Pajeú. em nada perdiam em truculência para os paulistas. 1975.72). Contudo. 9 Pessoas encarregadas de cuidar dos currais de gado. A foreiros e arrendatários cabia a tarefa da ocupação econômica das mesmas. para se entender como se deu o apossamento das terras paraibanas desde seu início. . Piranhas e Rio do Peixe. p. a partir de 1664. Foi igualmente a primeira a ocupar as terras do Piancó. detentora de um poder equiparado ao do estado. nas seis gerações que o sucederam. tomando posse de suas terras. no alto da sua potestade. Foram os Garcia d’Ávila que primeiro. foi proprietária de terras que iam da Bahia à divisa do Maranhão com o Piauí. Francisco. p. a seus curraleiros 9 . foi ela quem abriu caminho dos descampados e misteriosos sertões da Paraíba. Tornou-se. com seus métodos. Afirma Wilson Seixas (1975) a respeito da Casa da Torre: Sem dúvida. subiu o rio Pajeú. De duas vacas. e que estes sertanistas. daí se comunicando com a bacia do Piranhas (SEIXAS. p. através de procuração. João de Lencastro e por sua ordem Manuel de Araujo de Carvalho atacou-os. Devido à amplitude de seus domínios. embrenharam-se no interior paraibano. passou.

Teodósio de Oliveira Ledo foi um “[. foram assumindo..] dos seus procuradores. Núcleos de povoamento que se tornaram vilas e depois cidades (SEIXAS.. No Livro de Notas do Cartório de Pombal. Ao morrer. 66-69).. p. O mapa a seguir (Mapa 02) foi feito a partir dos mapas publicados por Wilson Seixas na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano. consta o registro de posse. à Casa da Torre. os sertanistas traçam o seguinte roteiro: . cabendo a liderança a um branco ou mameluco. que utilizaram os leitos dos rios para penetrarem nos sertões da Paraíba. seus parentes herdaram “dois terços do agreste e da parte ocidental do Cariri”. espécie de vassalos que lhe pagavam o foro e lhe serviam. Esses homens tinham tropas sob seu comando. Do primeiro. 2000. verdadeiramente.]”. Ele também fundou os Arraiais de Boqueirão. em troca de apoio e força junto ao governo colonial [.. Teodósio. Piranhas e Piancó. foram utilizados os roteiros seguidos pela Casa da Torre e por Antônio e Teodósio de Oliveira Ledo. essencialmente. de 28 propriedades na primeira década do século XVIII. por arrendamento. 244). por índios aliados e escravos. Do segundo. que ia de algumas dezenas a milhares e eram compostos. foram retirados os caminhos percorridos pelas boiadas que saiam do sertão. no seu trabalho “Processo de ocupação do espaço agrário paraibano” (1991). o que facilitava a cobrança de foros e evitava ocupações indevidas (BANDEIRA. Campina Grande. seguindo os passos do seu pai. Os procuradores faziam o que bem entendiam com as terras e seus ocupantes e. aos poucos. pp. passou da etapa de aquisição para a de posse das terras conquistadas. Os grupos que penetravam no sertão possuíam um número variável de pessoas.58 Na Paraíba. 1975. No mapa de Seixas. nº 21 (1962) e de Irene Rodrigues. Antônio de Oliveira Ledo. o seu domínio.

Rio Piranhas e Rio do Peixe. geralmente de uma légua [. Rio São Francisco. muitas vezes. Apodi. além de tinta e papel. durava anos e custava muitas vidas entre sertanistas e índios (ABREU. Casa da Torre – Bahia. . Rio Piancó. Desconsidera que. arrendava sítios. estes homens formavam gigantescas expedições para.]”. Boqueirão. Rio Pajeú. gastou apenas papel e tinta em requerimentos de sesmarias. acrescenta Abreu que “para adquirir estas propriedades imensas. Rio Piancó. Rio Paraíba. despovoá-las. Referindo-se à Casa da Torre.. antes de pedir as terras. os líderes destas expedições pediam terras em troca dos serviços prestados na conquista do sertão.. Como seus gados não davam para encher tamanhas extensões. No início. que facilmente conseguiam devido a sua influência junto autoridades coloniais.59 Antônio de Oliveira Ledo – Bahia.72). Rio Sucurú. s/d. Rio Pajeú. Rio São Francisco. finalizando no Arraial do Piancó (Pombal). p. Rio do Peixe. Teodósio de Oliveira Ledo – Rio Paraíba. Tarefa que.

60 .

podemos perceber que os sertanistas da Casa da Torre. Percebemos também que os principais caminhos percorridos posteriormente pelo gado. as broacas e surrões. Sem eles. a roupa de entrar no mato. 10 . desde o início deste mesmo século. justificando: Pode-se apanhar muitos fatos da vida daqueles sertanejos dizendo que atravessaram a época do couro. os banguês para cortume ou para apurar sal. a qual Capistrano de Abreu (s/d) chamou de Civilização do Couro. as bainhas de faca. carne. os Garcia d’Ávila.61 Neste mapa. seguidos. a mochila para milhar cavalo. saíram da Bahia e partiram para o Maranhão passando próximos as terras que posteriormente se chamariam Alagoa da Perdição (em destaque). Esse período de expedições não teria sentido sem a presença dos procuradores. arrendatários 10 e vaqueiros. e que. que agora passaram a ser chamados vaqueiros. também só passaram nas proximidades da mesma. a peia para prendê-lo em viagem. o mocó ou alforge para levar comida. O procurador era aquele que representava o verdadeiro dono das terras. o domínio e posse destes imensos territórios não seriam possíveis. O arrendatário era aquele que alugava a terra ao procurador ou proprietário. s/d. para os açudes. Ele ainda traz importantes informações acerca da vida destes colonos. o material de aterro era levado em couros puxados por juntas de bois que calcavam a terra com seu peso. o rude leito aplicado ao chão duro. ao longo da vida. p. família que se fixou em definitivo no sertão da Paraíba e promoveu a colonização do sertão paraibano. leite e seus derivados.73). a maca para guardar roupa. enfrentaram por inúmeras dificuldades. Além disso. De couro era a porta das cabanas. a borracha para carregar água. em couro pisava-se tabaco para o nariz (ABREU. nos anos posteriores por aqueles que se tornariam seus procuradores. sendo este. de couro todas as cordas. e mais tarde a cama para os partos. o ambiente sertanejo e o desenvolvimento da pecuária iriam moldar uma sociedade com características próprias. em 1664. um dos motivos pelo qual a região só foi ocupada por sesmeiros na segunda metade do século XVIII. encarregado de mantê-las sob seu domínio. período em que as regiões próximas já estavam ocupadas. os Oliveira Ledo. Alimentavam-se principalmente de farinha.

para que o gado não as devorasse (ABREU. Eles eram encarregados de tratar das doenças.74).62 Plantavam milho e coletavam mel e frutas silvestres. As cercas eram para as lavouras. tinham que matar os predadores. abrir bebedouros e cacimbas (ABREU. Paulatinamente. Essa forma de pagamento. marcar com ferro quente. uma lhe pertencia. não tendo diferença entre a casa do patrão e a do vaqueiro. Além disso. com um alpendre ao lado. é que estes homens começavam a ser pagos. não com dinheiro. Cabia aos vaqueiros todo o trabalho com o gado. as terras indígenas foram sendo ocupadas pelos colonos para a criação de gado e a partir daí uma nova cultura surgiu adequando a forma de viver a nova realidade. conhecida como “quarta”.74-80). em que inúmeros pedidos de terras traziam a justificativa de que o solicitante possuía gado e necessitava de terras para criá-lo. Ambos . após certo tempo de serviço. A cada quatro nascimentos de crias. s/d. após a ambientação deste nas novas terras. possuiu essas mesmas características de formação de fazendas para pecuária. cuidar das vacas que estivessem prenhes e amansar os bezerros. permitia que os vaqueiros. isso se deu principalmente na segunda metade do século XVIII. As fazendas de criação se localizavam nas proximidades de um rio ou olho d’água. O gado criado na Paraíba era vendido nas praças de Pernambuco e Bahia e os caminhos traçados pelas boiadas eram semelhantes aos caminhos dos sertanistas. Também não existiam cercas para reter o gado. p. p. fundassem suas próprias fazendas. mas com bezerros. a historiografia e a documentação. segundo a tradição oral. s/d. fazer queimadas. Apenas depois de cinco anos de trabalho. representando o que era comum no sertão dos séculos XVIII e XIX. que era criado solto. Na Paraíba. A do primeiro era apenas um pouco maior. Vale salientar que a localidade em estudo.

ocupando uma das poucas áreas que ainda estavam “vazias” no sertão da Paraíba. É nesse contexto que. buscando terras ainda devolutas. Ao longo destes caminhos. . Estas boiadas percorriam enormes distâncias para serem comercializadas.63 buscavam seguir os leitos dos rios. no início. o gado se multiplicava e a maioria das terras já possuía novos donos. que serviam para que o gado descansasse e bebesse água. foram fundadas diversas fazendas. os novos agentes produtores do espaço já haviam provocado profundas mudanças na paisagem e na vida dos nativos. Além disso. para que se restabelecesse e fosse vendido posteriormente. aí ficando o gado que não tivesse condição de prosseguir a viagem. Neste período. usavam os caminhos feitos pelos indígenas. Os caminhos abriam-se. Os índios que sobreviveram estavam retidos. para ter garantido o fornecimento de água para homens e bichos. chegava o primeiro sesmeiro da Alagoa da Perdição e seus vizinhos.

infelizmente estes. Para tanto. 2. em seguida. e erguia um monumento que podia ser um simples marco de pedra ou uma cruz. igrejas. . a área em estudo. evitando assim possíveis contestações. a partir das quais muitas lendas surgiram. na segunda metade do século XVIII. até hoje é recontada tendo como única fonte a história oral. grifo do autor). 216. p. 1978. não correspondem à história oficial do município que. estão em péssimas condições de conservação. monumentos aos mortos ou arquiteturas tipificadas. no alto sertão da Paraíba. A documentação compilada possibilitou identificar os primeiros sesmeiros da região. As informações que esses documentos trazem. vol. Passaremos a verificar como. A seguir.64 CAPÍTULO III ________________________________________ ALAGOA DA PERDIÇÃO: SESMARIAS E SESMEIROS Os que restaram da carnificina oficial geraram o homem forte do sertão. No período da colonização. 2001. utilizaremos cartas de doação de sesmarias. abordaremos algumas. bem como perceber como se deu o processo de posse de terras do sertão paraibano no período colonial e a maneira como os grupos humanos passaram a modificar esse espaço. que estão resumidas no livro de João de Lyra Tavares: “Apontamentos para a história territorial da Paraíba” (1982) e dos documentos originais que se encontram no AHEPB. cantador de viola. mas que marcasse sua passagem e atestasse o acontecimento.60). É como se reescrevesse em toda parte a mesma proclamação de pertinência (CLAVAL. a tomada de posse exprime-se pela delimitação de fronteiras e pela multiplicação de marcas que lembram a identidade comum: cruz. romeiro do padre Cícero e cangaceiro de fama (ALMEIDA. começou a ser colonizada. vaqueiro. uma cerimônia. Num espaço povoado. representado no fazendeiro. p. quando um grupo anexava um território pretensamente desabitado organizava.

[. não as fiz. a vida. nada fala dos índios que ali viviam. As pesquisas com estas fontes surgiram como meio de dar voz às memórias e recordações de sujeitos diversos.. metade De nada.65 3. teria fundado o núcleo da futura cidade.] Assim a lenda se escorre A entrar na realidade. O mesmo sol que abre os céus É um Mytho brilhante e mudo. é um metódo de coleta de informações através de entrevistas que. Esta versão da história. A história oral muitas vezes apresenta anacronismos. Apresenta Dona Nathália do Espírito Santo como a primeira proprietária das terras de Alagoa da Perdição que. pessoas idosas que participaram de acontecimentos passados ou parentes próximos que lhes ouviram narrando tais fatos. afinal. na sua maioria. até então conhecida para o início da colonização do que é hoje a área polarizada pelo município de Princesa Isabel. (Pessoa. são histórias que tratam de épocas remotas. por várias gerações. . Por conseguinte.1 Perdição de histórias e de lendas O mytho é o nada que é tudo. Em baixo. mas que não diminui em nada a importância da informação trazida por este tipo de narração. mas me utilizei de bibliografia que relata as histórias narradas pelos antigos moradores. relataram como aquelas terras foram sendo colonizadas. E a fecundal-a decorre. tornou-se necessário o uso da tradição oral. por uma questão de tempo. morre.. 1972) Tendo em vista o enriquecimento das pesquisas com documentos primários e para não ignorar as histórias que. junto com o padre Francisco Tavares Arcoverde.

Essa também é a função das lendas: dá orientação e explicação para quem dela precisa. atualmente. devido às possíveis falhas de memórias por parte do entrevistado. retomavam o caminho certo. segredo que talvez tenha se perdido. 170).66 A palavra “Perdição” abre espaço para variadas histórias. onde cada ponto cardeal está representado. possui o formato de estrela e representa a rosa-dos-ventos. há hoje um amadurecimento metodológico e uma estrutura necessária para recolher fontes orais a partir de depoimentos. . que torna o passado mais concreto e faz da entrevista um veículo bastante atraente de divulgação de informações sobre o que aconteceu (ALBERTI. auto-louvor. ela diz muito da vida de um povo. 2005. Ela ainda dá a orientação que buscavam os caçadores perdidos. idealização do passado em virtude de nostalgia ou até mentira deliberada. apesar de todos esses problemas. Não é à toa que. tais como distorção de fatos por causa da velhice. Não importa se seja “verdadeira” ou “falsa”. A história oral tem sua importância. gerando lendas que misturam acontecimentos reais e imaginários. Entretanto. Mas a credibilidade da História oral ainda é duvidosa para muitos acadêmicos. que deixam marcas no tempo. Sobretudo. histórias possíveis e impossíveis. O que tinha essa pequena lagoa de especial para servir de referência? Esta história é real ou foi feita só para explicar o nome? Tais perguntas não precisam ser respondidas. Muitas tentam dar uma explicação sobre o porquê deste nome. ao encontrarem uma lagoa. o importante é encontrar uma resposta e ainda como afirma Alberti: Uma das principais vantagens da História oral deriva justamente do fascínio da experiência vivida pelo entrevistado. a lagoa que recebeu o nome de Perdição. A que perdição este nome se refere? A perdição dos índios que lá existiam? Dos homens que saiam em busca de terras tão distantes? Ou do gado que era criado solto? Algumas histórias contam que caçadores perdidos. p.

Na sua época. para reconhecer a existência de múltiplas histórias. Em outras palavras. transmitidas oralmente.67 Seu amadurecimento só foi possivel após amplo movimento de transformação dessas ciências. na medida em que corroborou os conhecimentos produzidos a partir das Fontes documentais e deu voz aos antigos narradores. isto é. O uso indireto da fonte oral. Esses relatos. Os depoimentos foram recolhidos na pesquisa bibliográfica. neste trabalho. ora expande o conhecimento obtido através dos documentos escritos. p. pois. de acordo com ideais positivistas em voga. Cabe frisar que para esta pesquisa não foram realizadas entrevistas com os antigos habitantes. . foram comparados com a documentação encontrada para torná-la uma Fonte histórica construída a partir da memória dos mais diferentes indivíduos. mostra a visão desse sujeito sobre o fato. Muitas das falhas de memória podem ser vistas como um recurso em vez de entrave. 163) “Hoje já é generalizada a concepção de que fontes escritas também podem ser subjetivas e de que a própria subjetividade pode se constituir em objeto do pensamento científico”. contudo. com o tempo. porém. memórias e identidades em uma sociedade (ALBERTI. permite uma maior complexidade do tema. parece muitas vezes mirabolante para os ouvidos de quem as escuta hoje. como o imaginou. 2005. a história oral era carregada de subjetividade e parcialidade. tinha sentido e era utilizada como explicação. segundo Alberti (2005. Nathália. p. o que ia de encontro à objetividade e neutralidade científicas. A história de D. deixaram de pensar em termos de uma única história ou identidade nacional. ora supre a escassez dos mesmos. Tornou-se relevante enquanto metodologia de pesquisa. 158). que. pois a maneira como o depoente pensou e relatou um acontecimento. Contudo.

de cabelos longos. os notívagos mais afoitos saíam pelas ruas desertas e escuras na tentativa de desvendar a aparição enigmática de uma mulher gigantesca. Antes de desaparecer para sempre. de cabelos longos. A lenda fala de uma mulher branca. E como em toda transcrição oral. narravam. que acentua: ‘São estórias autenticadas pela transcrição oral. no vulto de um cavalo alado. virou lenda. com o cabelo cobrindo o telhado e os pés tocando de leve o calçamento de pedras irregulares [. P. buscando prender a atenção de quem escuta. não mencionam se quer o seu nome: ‘Os vaqueiros que tentavam arrebanhar um batalhão perdido nas abas da serra. a cada dia. Neste processo. 47-48). a origem da construtora da Casa de Pedra. a visão aterradora surgia do fundo da Lagoa da Perdição e era vista sentada na torre da Igreja. transformada em espírito malfazejo (MARIANO. mostra outra que possui a mesma base. Transformou-se em mistérios. recheadas com novas informações. 107-108). o que viam durante as noites de lua em que eram forçados a acamparem no mato. Sempre às primeiras sextas-feiras de cada mês. voando a direção da Lagoa e montado por uma mulher. Mistérios recheados de verdades e fantasias. P. ora como fazendeira. Vejamos mais uma. arregalaram os olhos incrédulos. Outros juravam que uma beata ganhava nova forma transformando-se num ser monstruoso. Nathália é citada de diversas formas.. apud OLIVEIRA SOBRINHO. que. fascinados. citando até o nome de uma dama da sociedade que tivera “relações impuras” com um compadre e perambulava como alma penada. essa mulher conquistara um nome bem significativo: Natália do Espírito Santo ’ A citação acima é do jornalista Paulo Marinho [Mariano]. Mariano apresenta uma versão de história oral na qual D. na vassoura de cauda luminosa ou sobre o cavalo alado. Nathália ainda é protagonista. 2002. quando assombrados e perplexos..] Na fantasia de uns era a alma penada de uma sinhá maldosa que se transformara em mulher gigante como punição pelas chicotadas que mandara aplicar nos escravos de sua fazenda. percebemos como as fontes orais são. Neste artigo. D. . alta noite. 1994. nas noites de lua pousava a sua vassoura de cauda luminosa à beira da lagoa.68 Nestes relatos. p. Segundo afirmação dos habitantes mais antigos.. ora quase como uma bruxa. Por fim. alta noite. que se confundem com a própria história’ (MARIANO. que ainda hoje se confundem com a história oficial. Além dos que afirmavam com convicção. mas seu nome não mais é mencionado. porque tinha um caso amoroso com o padre da paróquia. Já seu livro. Vinha do alto do chapadão da Borborema. p. o que é coerente com a história colonial dessa região.

A lenda resumia todo o fato [. p. a história também é feita de relatos transmitidos oralmente pelas pessoas ditas “comuns”. poucas vezes são vistas sob um olhar crítico.69 Portanto. nas inúmeras vezes que a história oral se repete. p.. já indicam a existência e participação de D. Para Machado de Assis: “[.. 2000. que ganharam peso com o passar do tempo. sendo transposta para a Colônia (JOBIM. 74). Têmse. 1983. possivelmente. em mãos documentos que atribuem a primeira posse a Lourenço de Brito Correia passemos a outra versão da história.]” (ASSIS.2 As Sesmarias É necessário não esquecer que a sesmaria foi criada para servir à realidade metropolitana. mas permanecem algumas características. pela forma alegórica e envolvente como é construída. mas novos documentos. Existem aqueles que apreciam lendas e outros que preferem ater-se à história.] a lenda é melhor do que história authentica.. Nathália não tenha ocorrido. Ambas são importantes e devem ser resgatadas dos arquivos e da memória. Isso não quer dizer que a história de D. entretanto. apud SANDES. Diz respeito ao aproveitamento de terras que tinham sido lavradas. no reinado de D. 3. Nathália no processo de colonização de Alagoa da Perdição.. Portanto. porém.. Buscar todas as peças deste quebra-cabeça levaria mais tempo que o permitido para se elaborar uma dissertação. 12). mas que. esta versão já não faz mais referências à Dona Nathália. Este tipo de história. os acontecimentos tenham sido ressignificados..] ao passo que a versão exata o reduz a uma cousa vaga e anonyma [. Fernando (13671383). já tinham . Afinal. encontrados recentemente. A lei de sesmarias foi editada em Portugal em 1375.

. Essa lei foi incorporada nas Ordenações 1 seguintes: Afonsinas (1446). quando criou as capitanias hereditárias (1534-1536). As Ordenações Filipinas passaram a ser aplicadas ao território do Brasil. p. entretanto. sem. Nas quais. Foi criada com a finalidade de colocar em uso todas as terras produtivas e que não estavam sendo utilizadas. 436-437). 2000. não podendo... Manuelinas (1521) e Filipinas (1603). acrescenta-se que: “não se dessem maiores terras a uma pessoa que razoavelmente parecer que possa aproveitar” e “a quem foram dadas as sesmarias não as aproveitarem no tempo determinado.]” (JOBIM. mas por não estarem sendo utilizadas. p. tomal-as para si nem para sua mulher nem para o filho que tivesse de succeder-lhe na capitania. Era-lhe facultado dar terras a outros filhos e quaesquer parentes [. 1983. In: VAINFAS. Obrigava-se o capitão-mór a conceder datas de sesmarias de todas as terras compreendidas no lote que se lhe doava. reduzindo a importação de grãos e promovendo a ocupação efetiva das terras desocupadas na Reconquista. no entanto. p.] Succedendo que algum dos filhos ou parentes aquinhoados herdasse a Termo associado às antigas compilações jurídico-administrativas portuguesas. concedendo aos Capitães Donatários o usufruto da terra. o sesmeiro era o fiscal de terras. Foi somente no reinado de D. 58). no pluraL. que primeiro se distribuiu terras no Brasil pelo sistema sesmarial.. as terras seriam dadas a outros [. além de forçar vadios e mendigos a trabalharem no campo. João III (1521-1556). O seu uso mais vulgarizado. Inicialmente. explicitou a referência a um corpo de leis – as leis gerais do reino.15). em Portugal. 1 . lhes conferir a propriedade territorial.70 dono. entre outras disposições. deveriam ser redistribuídas. s/d. encarregado de verificar o aproveitamento das mesmas (PORTO. elaborado por Maria de Fátima Gouvêa. (Verbete Língua geral. Isso ocorreu principalmente após o período da Reconquista peninsular. pois permitiam que fossem dadas terras cobertas por matas ou que ainda não tivessem sido lavradas.

anteriormente.3 Lourenço de Brito Correia – primeiro sesmeiro de Alagoa da Perdição A mão terrível e maléfica da Civilização. O sistema de doação das sesmarias foi utilizado pelo colonizador português para consolidar-se nas terras conquistadas. e. E o sesmeiro.. flôres de pau-d’arco. a lei nunca foi aplicada devidamente e o critério de não doar grandes extensões de terras foi desrespeitado.163). p. p. de fiscal das terras dadas.. As concessões de sesmarias eram feitas de acordo com as leis portuguesas.57). passou a ser quem recebia as sesmarias (PORTO. aspira a ficar ali morando [. confinados ou assimilados pela devastadora chegada dos europeus. livre da opressão despótica da Máquina. s/d. p.71 capitania. na sua maioria. até 1850. bem como a exigência de que o sesmeiro tivesse condições materiais de desenvolver sua sesmaria (PORTO. moitas de “folhas de carne”. no Brasil.. As poucas medidas tomadas nesse sentido foram feitas através de cartas régias ou provisões. p. ha um respirar calmo e sereno. Não existiu no Brasil. ali ainda não tocou. Devido à grande extensão do território.23). 3. como o açúcar e. por ventura recebida (TAVARES. ao minifúndio português para produção de víveres. posteriormente. s/d. estrume de gado. 9-10). após as “guerras dos bárbaros”. . as terras escolhidas por Lourenço para funda sua fazenda já estavam praticamente desprovidas de índios que. 1982. um rescender cheiroso de juremas. enfim o perfume agreste do sertão epopéico [. a doação de sesmaria que serviu. foram mortos. Ao ser utilizada no Brasil. passou a servir ao latifúndio colonial para produzir bens para exportação. o couro. Em 1877. corria-lhe o dever de renunciar dentro de um anno a sesmaria.] Sua voz é a hamonia eterna e sempre nova do canto da juriti e do aboio nas quebradas na dansa das mil notas que ainda não foram reproduzidas e nunca o serão (DINIZ..] Quem aspira. 1938. uma legislação especifica para controlar o acesso à terra.

Por fim. Quando. a localização das sesmarias pertencentes à região do atual município de Princesa Isabel. encaminhava para a Secretaria Provedoria da Fazenda afim de que o secretário fizesse o registro. a sua petição teria que ser feita na cidade da Paraíba. Lourenço de Brito teve que se submeter à complicada burocracia lusitana e como. Para ser o dono efetivo das terras. regulavam as concessões de sesmarias. além dele. onde passaria por uma série de pessoas para que fosse avaliada e feita a concessão. Mas não era tão simples assim. hoje. ou seja. lagoas) que permaneceram com o mesmo nome e permitem. Lourenço de Brito recebeu oficialmente a concessão das terras que depois seriam chamadas Alagoa da Perdição 2 . o sertão não possuía nenhuma vila.159-159v). o qual mandou enformar o doutor Procurador da Coroa. Encaminhada inicialmente ao Governador da Capitania da Paraíba. p. este a passava para Câmara que.72 Como saber se Lourenço de Brito Correia “aspirou ficar ali morando” e se assumiu as terras ganhas? Se foi ele quem deu o primeiro passo para a colonização daquelas terras? E quem foram. e que respondeu a Câmara na forma da Ordem Regia” (AHEPB – Sesmarias – 1717/1768. 2 . essas virão em datas posteriores. A condição mínima de obtenção era que o pretendente fosse cristão e pagasse o dízimo para a Ordem de Cristo. ainda eram as Ordenações Filipinas que. em 18 de novembro de 1766. os registros das doações de sesmarias. este despacho voltaria para o Governador. Nesta primeira data de terras. os agentes que modificaram aquele espaço? Para responder a tais questionamentos. com poucas alterações. São estas referências (rios. sítios. entre os quais se encontram os das sesmarias solicitadas por ele e que podem responder a estas perguntas. não há referências à Alagoa da Perdição. e fazenda. que veremos a seguir. nesta época. que daria o despacho final e assinaria a “Carta de data e sesmaria de terras”. temos como fonte as “cartas de data e sesmarias de terras”. por sua vez a repassava: “E sendo-me a petição apresentada mandei por despacho de 4 de Novembro que informasse o Doutor Provedor da fazenda Real. Em seguida.

Isso. Para que percebamos melhor a complicada malha da burocracia colonial com relação ao registro de sesmarias. fazia com que muitos sesmeiros demorassem anos para registrar as suas terras. apresento a seguir um fluxograma (01) que detalha bem o que foi dito.73 Esse trajeto burocrático era comum a todos os pedidos de sesmarias desta época. . associado à enorme distância do litoral.

74 .

.]”..12). fornecendo os seguintes limites geográficos para a mesma: 4 Fazendo piam no poço do Jutuba da parte do norte. Possuir rebanho e não ter terras para criá-los. 3 4 O documento pode ser visto na íntegra nos anexos..75 Na petição enviada por Lourenço de Brito para seguir esse roteiro 3 . “[. ainda de acordo com as Ordenações Filipinas. que antes eram bem maiores. In: VAINFAS.. pela provisão de 19 de maio de 1729 que dizia. correndo pª o puente. a extensão de uma légua. capazes de criar gados. devia informar a situação geográfica da terra. o seu nome e o lugar em que residia: “[.356 hectares. A lei não esclarecia.. Ou seja. Atribuíam-lhe a medida aproximada de três mil braças (uma braça equivalia a dez palmos ou 2. p. não informavam a sua origem.. elaborado por Sheila de Castro Faria.]”.] a tres leguas de comprido e uma de largo. (Verbete Sesmarias. Alguns por já estarem nas terras pedidas em sesmaria há anos. inicialmente.] que elle no districto do certão do Piancó descobriu a custa de sua fazenda e muito trabalho terras ocultas. justificando as razões do seu pedido: “[. ou três de largura e uma de comprido.. p. correndo para o Sul do poco da escorregadinha pelo Riacho Cravatá acima ate a Serra da Borborema da parte do nascente. ele teria que informar... ou finalmente de uma legua em quadro” (TAVARES. Eram do sertão do Piancó todos os sesmeiros que declararam a sua origem. 4. morador no Certão do Piancó como n’esta se declara [. e como o supplicante necessita déllas para criação de seus gados [. 1982. Em seguida..159). 529-531)..2 metros. p. A extensão das sesmarias pedidas. além de ter gastado seu próprio dinheiro em busca de terras para fundar sua fazenda foi a justificativa que ele utilizou para solicitar as terras. pegando do Serrote dos Tapuias ate as nascentes do Riacho xamado timbauba com todas as suas vertentes (AHEPB – Sesmarias – 1717/1768. Foi dentro dessa extensão que Lourenço pediu sua sesmaria. neste período estava limitada. mas havia diferenças regionais). 2000. porém.] Lourenço de Brito Correia.

. lagoas). teria que citá-los como referência. Dessa forma. ali já existiam pessoas bem antes dele. apresentava outras informações sobre as terras ocupadas: “[. não comtestando as ditas terras com visinho algum por estarem muito distantes [.. ainda. foram se modificando. devido à ausência de vizinhos que.e [suplicante] já entrado a cultivar. permitindo o reconhecimento da região a que pertenciam. onde referências como o Jatobá. A petição encaminhada por Lourenço de Brito. além dos dados acima citados. um animal que o transportasse. poços.]”. sem dúvidas. percebemos evidências da presença indígena na região. só tinha os olhos para medi-la e. como é o caso desta sesmaria aqui apresentada. esse nome não seria colocado a esmo. como era de costume. dificilmente as sesmarias concedidas possuíam o tamanho exigido. Mas. que ele afirma não ter vizinhos. o riacho Gravatá e a serra da Borborema ainda possuem esta mesma nomenclatura. ao fazer o pedido.] as quaes tem o Supp. a sua petição foi encaminhada ao Governador.. dando início ao longo percurso burocrático que ela tinha que percorrer. No entanto. caso tivesse.. muito provavelmente. É nessa afirmação que se identifica seu pioneirismo nas sesmarias da região. Certamente por lá ou existia o remanescente de uma aldeia indígena ou. a maioria permaneceu. ao longo do tempo. quando se refere ao “Serrote dos Tapuias”. Quando chegou. apesar de não mencionar. Assim composta.76 É importante perceber que as delimitações da sesmaria eram feitas pelo próprio sesmeiro. prática muito comum na época. Os nomes dos marcos geográficos que eram utilizados (rios. devido às grandes distâncias. vestígios do que fora um dia. a lagoa que posteriormente daria nome a suas terras. Notamos também que ele. Para garantir a precisão. em 04 de novembro de . já estava ocupando a sesmaria solicitada. Ainda nesse trecho do documento.

que aponta o Doutor Procurador da Coroa em sua resposta por serem na conformidade das Ordens de Sua Magestade (AHEPB – Sesmarias – 1717/1768. desde que o sesmeiro cumprisse as seguintes condições: Que tendo no tempo futuro a possecão d’alguma Religião serão obrigados a pagar dizimos na forma dos mais seculares. que para se passar necessite de Barca. e condições.77 1766 às mãos do Procurador da Coroa e Fazenda. ou caminho para ellas não lhe será concedido mais que meia légua em quatro. e seus herdeiros ascendentes. as quaes em nome de Sua Magestade Fidelissima lhe dou. . p. e fora destas será a sua concessão de três leguas de cumprido. Ao Supplicante as terras.. como estavam as terras desocupadas e esta doação não causaria danos a terceiros. não excedendo porem a taxa da lei. e será obrigado a demarcar ao tomar da posse. será reservado ao menos meia légua para publico.. Essa resposta. e sendo em lugar de minas.]”.] A vista da informação do Dr.. e decendentes (sic) com as clausulas. que foi encaminhada para o Governador da Capitania no dia 16 de novembro: “[.. e irrevogável doação d’este dia para todo o sempre para o Supplicante. a Câmara respondeu: “[. no dia 08 de novembro.160). ele não via mal na concessão da sesmaria. tudo na forma das Ordens de Sua Magestade Fidelíssima (AHEPB – Sesmarias – 1717/1768. Procurador da Coroa. e resposta da Câmara não tenho duvida se conceda por data a terra que pede o Supplicante em sua petição [. e caso. que pede em sua peticão. que concedeu. este. que recebeu o Provedor da Fazenda Real.. e faço pura. ou tão bem légua e meia em quadra. p. Essa resposta final do Provedor resultou no despacho de 17 de novembro de 1717. q. e fazenda..]”. respondeu que. e a requerer confirmação d’entro no quiquenio. assinada pelo Governador..159v). resultou na seguinte conclusão. seja a margem de algum Rio Caudalozo.. no dia 15 de novembro.] Conformamo nos com o parecer do Doutor Procurador da Coroa e Fazenda [. Após receber parecer favorável do Procurador. Antonio José Fojos.

4 As sesmarias confinantes O documento não é inócuo. no dia 18 de novembro de 1766. se não as tivesse cultivado e povoado. com o povoamento excessivo. passando.547). da Secretaria Provedoria da Fazenda. da sociedade que o produziram. talvez esquecido. José Pinto Coelho. durante as quais continuou a ser manipulado. foram sendo dadas aos novos solicitantes. Tal fiscalização in loco nunca era realizada. que enviara o Juiz às terras para que Lh’as demarquem por seus verdadeiros rumos.. da história. e estradas necessárias para o bem comum por ser tudo conforme as ordens de Sua Magestade [. p. 5 Terras devolutas eram aquelas que. 3. chamariam Alagoa da Perdição. Feita a concessão. posteriormente.78 Ele ainda acrescenta que as terras dadas são reconhecidas como devolutas 5 . e sellada com o signete de minhas armas. pontes. consciente ou inconsciente. p. e o metão de posse. no próprio documento. eram deixadas entre as sesmarias cedidas e que...]”. condição fundamental para a doação. Lourenço teria que pagar somente o dízimo e reservar “[. pedreiras. . É antes de mais nada o resultado de uma montagem. as perderia para quem denunciasse o abandono. ficando por conta do sesmeiro localizar e demarcar as terras que lhe eram concedidas. O registro da sesmaria foi feito pelo secretário. 1992. mais tarde. e confrontações. a partir dessa data. o Governador informou. E que.. e se registrará nesta Secretaria Provedoria da Fazenda. como pedia a lei. da época. mas também durante as quais continuou a viver. em cinco anos. ainda que pelo silêncio (LE GOFF. Lourenço de Brito Correia a ser oficialmente declarado proprietário das terras que.160v).] fontes. e onde mais tocar (AHEPB – Sesmarias – 1717/1768. e por firmesa lhe mandei passar a presente por mim assignada. que se cumprirá como nélla se contem.

os nomes dos vizinhos da sesmaria solicitada. podemos perceber um pouco do que era viver naquele período em que as pessoas e seus animais saiam em busca de novas terras para desenvolver fazendas e ampliar as possibilidades de uma vida melhor. ocupou a sesmaria em questão. as cartas de sesmarias passaram a informar como limites. necessariamente. Nessas páginas. Buscaremos na documentação referente às sesmarias doadas das terras que viriam a se chamar Alagoa da Perdição um pouco do que foi o processo de colonização no sertão da Paraíba nos séculos XVIII e XIX. por trás de cada documento há uma série de intenções como nos aponta Le Goff (1992). efetuando nesse ato a apropriação do espaço produzido. Mas alguns dados permitem afirmar que ele. permitiu identificar alguns dos seus vizinhos e mostrar como se deu a colonização daquele espaço (Quadro 03): . cultivou e povoou a sua sesmaria. tendo por base a de Lourenço de Brito. além dos marcos geográficos. Muitas pessoas recebiam sesmarias e não residiam nas terras. O fato de Lourenço de Brito ter recebido a data de terras. Um levantamento destas sesmarias.79 Por saber que. não quer dizer que ele. É o que nos mostra a análise dos documentos das sesmarias que faziam divisas com a sua e até mesmo das terras devolutas que existiam entre uma sesmaria e outra que posteriormente foram sendo ocupadas. como mandava a lei. sendo efetivamente um agente na produção daquele espaço. A tarefa de criar o gado e cultivar lavouras ficava por conta de um morador ou vaqueiro. Com o passar do tempo e a chegada de novos sesmeiros na região.

gado e plantações Oficializar a posse.80 Quadro 03 – Levantamento das sesmarias confinantes Ano 1766 Sesmeiro Lourenço de Brito Correia Felippe Gomes de Leiros e Antonio Ribeiro de Oliveira João de Sousa Francisco de Arruda Câmara e Antonio Rodrigues Leal Ignácio da Luz. Elaboração: Emmanuel Conserva de Arruda . Thomaz de Souza e Clemente da Fonseca Lourenço de Brito Correia José de Araújo Cavalcanti Manoel Gomes da Silva Silvestre Martins de Oliveira José de Paiva Mattos Proveniente de Nada consta (n/c) n/c OcupaCão Criador Justificativa Descoberta c/ despesa Descoberta c/ despesa Objetivo Criar Gado Localização Sertão do Piancó Serra Negra 1767 Criador Criar Gado e lavouras 1776 1777 n/c Pombal Criador Criador Descoberta Descoberta Criar Gado Criar Gado Alagoa do Junco Riacho do Gravatá / 1787 n/c Já possui lá. criar gado e lavouras Riacho Travessia 1788 Alagoa da Perdição n/c Criador Necessita de mais terras Descoberta Criar gado e lavouras n/c Alagoa da Perdição Ribeira do Piancó Cabeceiras do Riacho Gravatá Vizinho ao seu sítio Alagoa da Perdição 1791 n/c 1815 Sertão do Piancó Sítio Macaco n/c Terras devolutas Terras devolutas Aquisição por compra n/c 1816 Agricul tor n/c Transferênc ia de posse Transferênc ia de posse 1816 Sertão do Piancó Fonte: Criado a partir da documentação manuscrita sobre sesmarias do AHEPB.

que também citam “[.os Alves [. . demorou aproximadamente dez anos para outro registro ser feito.e com a Serra do Maracajá. não deixa muito claro a localização da mesma. O que confirma a presença de Lourenço na sua propriedade.168170). Só no dia 26 de maio de 1776 é que João de Souza recebeu concessão de suas terras. De qualquer maneira. A sua carta de sesmaria..]” (TAVARES. e p.165v-167v).1717/1768. receberam concessão o Capitão-mor Francisco de Arruda Câmara e Antonio Rodrigues Leal.. recebeu concessão de sesmaria Felippe Gomes de Leiros e Antonio Ribeiro de Oliveira. também.. Em seguida.1768/1776. já que a lei garantia a posse. sobre quais cita as seguintes confrontações: “[. p.la do N. O mais provável é que eles ou eram moradores em terras alheias. ao se registrar as terras.e do sul com Lour. a conformação inicial da região ia se delineando (AHEPB – Sesmarias . p. que estes registros tenham desaparecido dos arquivos. 1982. 367).lo do Poente com João Paz. a quem já estivesse no local. Vale salientar que não constam registros de terras para João Paz e Domingos Alves. mas outras cartas a identificam como o “sítio Alagôa do Livramento” (AHEPB – Sesmarias . p. p.] contesta p. p. citados no documento anterior e em outros que virão em seguida.]”. Após a doação dessa sesmaria.la p. É possível...la do Nasc... sendo proprietários ou não. Mas a corrida por concessão de terras estava só começando.] contestando pelo sul pelo riacho Cravatá acima com Lourenço de Brito [. no dia 08 de maio de 1767..ço de Britto. no dia 09 de junho de 1777. em terras próximas às de Lourenço. um ano após o registro das terras de Lourenço de Brito. Dessa maneira.te com Dom. no entanto. caso outro solicitasse.81 A análise destes documentos mostra que. ou não tiveram interesse em registrar suas terras. este dado é importante porque faz perceber que. eram declarados os vizinhos que realmente estivessem nelas.

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Em seguida a estes, em 11 de novembro de 1787, registram terras Inácio da Luz, Thomaz de Souza e Clemente da Fonseca, informando que eles descobriram terras no riacho chamado travessia “[...] constestando pelo sul com o sítio Alagôa do Livramento [...] correndo pelo dito riacho abaixo [...] incluindo o lugar cachoeirinha [...] e pela do nascente extremando com o sítio Alagôa da perdição de Lourenço de Brito, e pela do poente com terras incultas” (TAVARES, 1982, p. 429). Foi a primeira vez, na documentação analisada, que Lourenço de Brito teve sua propriedade denominada: Alagoa da Perdição. O próprio Lourenço de Brito, alegando necessidade de mais terras para plantar e criar gado, recebeu, em 06 de agosto de 1788, a concessão de mais uma sesmaria, vizinha à que lhe pertencia, chamada, agora, Alagoa da Perdição, da qual declarou os seguintes limites: “[...] pegando das extremas da data do supplicante da parte norte que fica servindo de extremo do sul da nova sesmaria e continuando pelo mesmo rumo, que é do sul ao norte até encher-se da dita porção [...]” (TAVARES, 1982, p. 328). O pedido de mais uma sesmaria confirmou a posse de Lourenço nas terras concedidas e o torna proprietário de uma enorme porção de terras. Mas a formação desta enorme sesmaria não parou por aí. No dia 22 de março de 1791, seu filho, José de Araújo Cavalcanti, também recebeu concessão de terras contíguas à sua,

Tendo principio nas nascenças do Riacho chamado da Velha que desagoa para o Pajaú, buscando o Piancó, com todas as agoas que nascem da Serra Grande, para o Riacho do Gravatá, entre os providos no Riacho de Ignácio da Luz, pela parte do Poente e do Nascente com a Data de Lourenço de Britto, athe o Riacho Macaco (AHEPB – Sesmarias - 1789/1808, p.59).

Assim, a família de Lourenço de Brito possuiu uma sesmaria cuja dimensão corresponde à grande parte do atual município de Princesa Isabel, indo dos contrafortes do rio Piancó a os do Pajeú. Terras que certamente, em vista da sua grande extensão, eram ocupadas por vaqueiros e moradores, para efetuar a sua ocupação.

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No início do século XIX, já era dono de todas estas terras José de Araújo Cavalcanti que, após a morte do seu pai, como era de lei, herdara as sesmarias que lhe haviam pertencido. Isso é o que nos mostram as informações contidas nas datas de terras desse período. A partir de então, o sertão do Piancó passou a ser termo da vila de Pombal (fundada em 04 de maio de 1772). Os sesmeiros tiveram que dirigir sua petição à Câmara desta vila, para que as terras fossem fiscalizadas e a petição enviada ao Governador. Essa mudança aumentou o tempo para se ter o registro da sesmaria. Em um documento de 09 de julho de 1816, Silvestre Martins d’Oliveira, morador no sítio Macaco, se dirigiu à Câmara da vila de Pombal pedindo as terras vizinhas ao seu sítio, as quais Felipe Gomes de Leiros, anteriormente citado, recebeu por sesmaria, 6 “[...] pegando da Barra daquelle Riacho á extremar com o Sitio Sam José, sem que em todo este tempo a tenha povoado, e menos feito o minimo beneficio, e nem a ter demarcado e confirmado [...]”. Nste trecho percebe-se a importância do sesmeiro se apossar das terras ganhas, sob o perigo de outro lhe tomar o direito de posse. Sua petição foi negada, pois Manoel Antonio Moreira “[...] aprezentou em seu requerimento, e trez documentos por meio dos quales se opões á Data [...]”, afirmando que comprou as terras de Antonio Ribeiro de Oliveira, sócio de Felippe Gomes de Leiros e passou a pedir para si a dita data de terras. Esse impedimento recebeu a seguinte conclusão: “[...] como nem aquelles prim.os [primeiros] Sesmeiros, nem o mesmo Manoel Antonio Moreira em tantos tempos tenha demarcado na fórma da condição com que sem.es [semelhantes] Datas são concedidas, [...]”. Por este motivo, as terras são consideradas devolutas e, assim sendo, capazes de serem dadas. Então, após uma espera que durou de 20 de dezembro de 1815 a 09 de julho de 1816, Silvestre Martins d’Oliveira recebeu a concessão das terras, com as seguintes confrontações:

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Este documento não foi localizado. Sendo esta, a única referência a ele.

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Pegando do Riacho Cravatá no lugar aonde faz barra o Riacho Macaco por elle acima pela parte do Sul ate extremar com o Sitio Sam José pertencente a Feliz da Luz, p.a o Nascente com terras da Perdição de José d’Araujo Cavalcante, e mais Sesmeiros, para o poente com terras da Caxoeira de Francisco da Silva, e para o Poente a extremar com Cravatá (AHEPB – Sesmarias - 1716/1824, p.30-32v).

Bem mais que mostrar os limites da concessão feita a Silvestre Martins, esse trecho demonstra que as terras que antes foram de Lourenço de Brito, pertenciam agora a seu filho “e mais sesmeiros” que, por sua vez, embora no documento não apareça, já as tinham vendido a José de Paiva Mattos. Só que este, mesmo após a compra e ocupação, não pediu o registro das sesmarias adquiridas. Por isso, para a Câmara de Pombal, ainda é José de Araújo o seu legítimo dono. Não se pode precisar quando José de Paiva chegou à Alagoa da Perdição, mas um pedido de terras devolutas, feito por Manoel Gomes da Silva, “[...] entre as sesmarias do riacho Gravatá nas cabeceiras do dito riacho [...]”, apresentando as confrontações:

Pegando da parte do sul da lagôa chamada S. João, correndo rumo ao norte a extremar com a sesmaria do dito Francisco Freire Mariz e pela parte do nascente extremando com aguas da ribeira de Pagehú e da parte do poente no rumo do norte, apanhando dentro da compreenção das ditas sobras um serrote chamado do Gavião (TAVARES, 1982, p.75).

Fez com que José de Paiva procurasse a Câmara de Pombal, reclamando como sua, parte das terras pedidas, mas “[...] ouvidos o procurador da corôa e provedor opinárão que não havia prejuizo, porque o supplicante pedia as sobras das terras, depois de preenchidas as sesmarias antigas.” A concessão para Manoel Gomes foi feita em 07 de agosto de 1815. Embora José de Paiva já estivesse a mais tempo nas terras adquiridas, este último sesmeiro registrado na Alagoa da Perdição, teve sua concessão datada de 10 de junho de 1816, onde se informa que

houve um intenso povoamento das terras do sertão. que afirma o domínio da metrópole sobre os lugares de seu assentamento. conclui: “[. após consultar os confinantes do sítio Buenos Ayres.. a qual terra julgava o vendedor estar incluída sua sesmaria. a Câmara enviou o “Juiz de Ventena” para o local da sesmaria. de 18 de setembro de 1850. Ela foi criada para atender à necessidade de organizar a situação dos registros de terras doadas desde o período colonial e legalizar as terras ocupadas sem autorização. processo que. p.. Nathália.com.o [caminho] d’Alagôa de Sam João que vai para o pajaú. É a ocupação efetiva que qualifica a colônia.o [maio] de 1815”.19v-21v). 7 Nesse período. além da localização. para ser compreendido com mais clareza. (Disponível em <http://www. estes documentos não contam. desconhecia os limites da sesmaria e. Acesso em 24 de fevereiro de 2003) 7 . onde tem uma pedra redonda sobre uma lage pelo cam. Enfim. pegando do mesmo buraco rumo direito ao poente até um lugar chamado Boenos Ayres. que Lourenço de Brito fixou morada na Alagoa da Perdição e que seu filho.] Faça o referido na verdade. O que vem a seguir. o território brasileiro configura-se pela presença reiterada do colonizador. em que não foram feitos registros. Este documento indica. depois da posse de José de Paiva e as possíveis conexões destes sesmeiros com D. é necessário que se pesquise nos registros de terras feitos após a Lei de Terras. Para confirmar o que foi declarado.85 Á José de Araujo Cavalcanti.lo lado do Poente. e p. o que durou até 1850. e corrente ao sul ate o serrote.html>.1816/1824. o qual. e a sua mulher comprára uma porção de terra na Alagoa da Perdição pegando pelo lado do nascente no buraco do meio da dita Alagôa. criando uma nova situação na relação sociedade/espaço praticada nestas paragens. Manoel Gomes e Manoel Rodrigues. nenhuma lei regia a posse da terra.br/lei1850. e dahí seguindo ao Sul í entestar com Agoas do Pajaú. que obteve seu Pae o falecido Lourenço de Brito da mesma Alagôa Perdição (AHEPB – Sesmarias . por alguma razão. caso estes ainda existam. quando foi lançada a “Lei de Terras”. Como as doações de sesmarias foram suspensas em 1822. Perdição 21 de M. que É como ficou conhecida a lei n. para depois reconhecer as devolutas e que pertenciam ao Estado. vendeu parte de sua propriedade. por lá não residir.webhistoria. 601. É um documento fundamental para compreender a organização agrária do Brasil.

inúmeras pessoas pediram terras e.411). p. 2000. que por falta de registro adequado e pelo pouco interesse que as novas gerações dão a essas narrativas. logo após a expulsão dos holandeses e subjugação dos índios. as únicas histórias que ainda restam são transmitidas basicamente pela tradição oral. criando uma sociedade que. Foi essa documentação que possibilitou perceber como ocorreu o domínio da metrópole sobre a colônia e a produção do espaço no sertão paraibano com seus principais agentes. e mais. através de elementos de colonizadores e índios. de uma sociedade que vai ter na montagem do território um de seus elementos básicos de coesão e identidade sociais. o Brasil nasce e se desenvolve sob o signo da conquista territorial: trata-se da construção de uma sociedade e de um território. . a dimensão espacial será uma das determinações fortes em sua formação histórica (MORAES. Como foi demonstrado até aqui. entre essas. Foi tentando responder a algumas perguntas que. A historiografia paraibana. foi possível identificar o primeiro sesmeiro registrado para Alagoa da Perdição e seus vizinhos mais próximos. Portanto. Esse era o paradigma seguido nas várias áreas de ocupação. souberam se estabelecer e sobreviver. depois de muitas leituras e do levantamento documental.86 a objetiva como espaço subordinado. é bem possível que desapareçam junto com os malcuidados arquivos históricos. como é composta de obras que abrangem temáticas e períodos variados. Por isso. não permite que se percebam as especificidades do processo de colonização do sertão. Alagoa da Perdição se estruturou a partir da conquista territorial. Em algumas localidades. através da conquistas das terras que antes eram habitadas por índios. em terras que antes pertenciam aos índios Corema. iniciado no interior da Paraíba. pude perceber que no processo de expansão da criação de gado. que foi a lógica que moveu a colonização.

Tornando-se. proprietários de extensas faixas de terras. com isso. no caso específico de Alagoa da Perdição. através de constantes solicitações de sesmarias. na segunda metade do século XVIII. a história contada a partir da documentação. Foi nessa difícil transição que se deu a construção desse território e dessa nova sociedade.87 Através dos pedidos de datas de terras. juntamente com as fontes orais. Enfim. permitiu visualizar uma parte do processo e vislumbrar novos caminhos . foi possível entender o percurso para se obter uma sesmaria. É possível perceber ainda como diferentes membros de uma mesma família iniciaram a formação de latifúndios.

anulam os índios como sujeitos históricos. Como vimos. muitas vezes. identificamos diversos agentes que nele atuaram. como é composta de obras que abrangem temáticas e períodos abrangentes. através da fala dos cronistas. Nesse processo de apropriação do espaço. é evidenciada a presença dos índios que. Por falta de registro adequado e pelo pouco interesse que as novas gerações dão a essas narrativas. é bem possível que desapareçam junto com os malcuidados arquivos históricos. junto aos colonizadores. Alagoa da Perdição se estruturou a partir da conquista territorial. atuaram e também se apropriaram do espaço em que viviam. Foram os índios da tribo Corema. Em virtude disso. deixando importantes aspectos passarem despercebidos. Entendemos como fator necessário. foram os principais agentes na apropriação do espaço do sertão no período colonial e que. Lógica que move a colonização através da conquistas das terras que antes eram habitadas por índios. que habitavam as terras que se tornaram a fazenda Alagoa da Perdição de Lourenço de Brito Correia e demais sesmeiros. não permite que se perceba as especificidades do processo de colonização do sertão. mesmo que não intencionalmente. são omitidos. rejeitando como agentes de importância para a formação social e a organização do espaço em estudo. A historiografia paraibana.88 CONSIDERAÇÕES FINAIS ____________________________ Como foi demonstrado até aqui. demonstrar. da nação Tapuia. . as únicas histórias que ainda restam são transmitidas basicamente pela tradição oral. na produção sobre o período. as obras clássicas ou de histórias dos municípios que tratam desse período. Em algumas localidades. como viveram.

motivações e itinerários da colonização do sertão da Paraíba. interagiram na produção do espaço. enfocando os agentes produtores do espaço (moradores. dessa forma. missionários e índios) e seus diversos interesses. foi possível identificar o primeiro sesmeiro registrado para Alagoa da Perdição e seus vizinhos mais próximos. entre essas. Ao mesmo tempo em que demonstra a . Nossa análise se configura como uma contribuição para os estudos sobre a organização do espaço no sertão paraibano. foi possível entender o percurso para se obter uma sesmaria na segunda metade do século XVIII. sertanistas. inúmeras pessoas solicitaram terras e. com alianças e resistências. entendendo que poderia ser mais uma contribuição no sentido de tentarmos entender a formação da sociedade sertaneja no período colonial. Foi tentando responder a algumas perguntas que. Procuramos demonstrar que a colonização do sertão não foi obra apenas do europeu colonizador e que dela também teve participação significativa para que o empreendimento desse certo os povos indígenas. Com isso. pudemos perceber que no processo de expansão da criação de gado iniciado no interior da Paraíba. Possibilitando perceber ainda como diferentes membros de uma mesma família iniciaram a formação de latifúndios. Através dos pedidos de datas de terras. tornaram-se proprietários de extensas faixas de terras antes habitadas por índios. através das relações de seus principais agentes que.89 A partir do contexto histórico. Gostaríamos de destacar a importância da proposta deste trabalho. Inúmeros índios se associaram ao colonizador movido por força ou interesse e. através de constantes solicitações de sesmarias. enfatizamos a ocupação colonial do sertão. atuaram de formas diversas. Nessa difícil transição que se foi estruturando esse espaço e essa nova sociedade. depois de muitas leituras e do levantamento documental. logo após a expulsão dos holandeses e subjugação dos índios. bem como das concessões de terras através do sistema sesmarial.

como se sabe. mas isso fica a encargo dos novos pesquisadores. .90 insuficiência de pesquisas nessa temática e o descaso dos arquivos públicos. ainda. No entanto. nossa formação como nação. nenhum pesquisador esgota o tema que propõe tratar. faz-se necessário trabalhos que abordem questões. No caso específico de Alagoa da Perdição. Há. além disso. Por isso. juntamente com as fontes orais e bibliográficas. permitiu visualizar uma parte do processo e vislumbrar novos caminhos. tais como esse que aqui desenvolvemos. enfim. possibilitando a perda de informações relevantes para a compreensão do tema. muito a ser feito. a história contada a partir da documentação. que nesse trabalho verão alguns caminhos por nós apontados. Eles são importantes para que compreendamos nossa formação territorial ou.

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ANEXOS ______________________________________________ .

meia para cada banda.FUNESC ‐ ARQUIVO HISTÓRICO  SESMARIAS – 1717 / 1768 Lourenço de Brito Correia 158. fazendo piam no poço do Jutuba da parte do norte. pegando do Serrote dos Tapuias ate as nascentes do Riacho xamado timbauba com todas as suas vertentes. e Sesmarias trez leguas de terra de cumprido e huma de largo. que a mim me enviou a diser por sua petição Lourenço de Brito Correia. capazes de criar gados.to 159. Jerônimo José de Melo e Castro # Faço saber aos que esta minha carta de data. e irrevogavel doação d‘este dia para todo sempre virem. e sesmarias de terras no distrito da serra da Borborema passada ao sobre.e já entrado a cultivar. e sesmarias de terras de pura.V Registro de huma carta de data. correndo pª o puente. não com- . que se achão déntro da comprehenção da dita data de trez leguas de terra as quaes tem o Supp. que elle no districto do certão do Piancó descobriu a custa de sua fazenda e muito trabalho terras ocultas. correndo para o Sul do poco da escorregadinha pelo Riacho Cravatá acima ate a Serra da Boborema da parte do nascente. e como o supplicante necessita déllas para criação de seus gados me pedia em conclusão fosse servido conceder-lhe em nome de Sua Magestade Fidelíssima por data.

V despacho de 4 de Novembro que informasse o Doutor Provedor da fazenda Real. e que respondeu a Câmara na forma da Ordem Regia. E res160. tudo na forma das Ordens de Sua Magestade Fidelíssima. o Procurador da CoRoa. o Supplicante faz menção devolutas. e fora destas será a sua concessão de três leguas de cumprido. ParaHiba 8 [?] de Novembro de 1766. e sendo-lhe a petição apresentada n’ella veio com a sua resposta do teor seguinte = Sem. o qual mandou enformar o doutor Procurador da Coroa. seja a margem de algum Rio Caudalozo. E sendome a petição apresentada mandei por despacho de 159. com a clausula porem que tendo no tempo futuro a possecão d’alguma Religião serão obrigados a pagar dizimos na forma dos mais seculares. e sendo em lugar de minas. e fazenda. e a requerer confirmação d’entro no quiquenio. e será obrigado a demarcar ao tomar da posse. e Fazenda Antonio José de Fajos [?]. e desaproveitadas. ou tão bem légua e meia em quadra. e não prejudicando a terceiro. não excedendo porem a taxa da lei.r Doutor Provedor da Fazenda Real. E respondeu a Câmara o seguinte = Conformamo nos com o parecer do Doutor Procurador da Co- . q. que para se passar necessite de Barca. ou caminho para ellas não lhe será concedido mais que meia légua em quatro. será reservado ao menos meia légua para publico. Estando as terras de q. não tenho duvida se lhe conceda por Sesmarias. e caso.testando as ditas terras com visinho algum por estarem muito distantes E receberia mercê.

e com todas as mais clausulas expreçadas na informação do Sto. pontes. e estradas necessarias pa160. e irrevogável doação d’este dia para todo o sempre para o Supplicante. e com todas as mais . e condições. nem foro. pena de ficarem devolutas para quem as denunciar. e faço pura.za mandará o que for servido. e resposta da Câmara não tenho duvida se conceda por data a terra que pede o Supplicante em sua petição. Parahiba 16 de Novembro de 1766 = Manoel Rodrigues Coelho = E sendome apresentado a petição mandará por final despacho de 17 de Novembro de 1766 que concedia ao Supplicante as terras. e impetrem [?] confirmação sua.roa e Fazenda. e seus herdeiros ascendentes. e desaproveitadas. e decendentes com as clausulas. [?] Coronel Governador A vista da informação do Dr. Procurador da Coroa. e fazenda. V. pedreiras. não prejudicando a terceiro. Cidade 15 de Novembro de 1766 = Mathias de Bastos Silva = Escrivão da Câmara A escrevi = Pires = Rego = Lima = Gomes = Respondeu o Doutor Provedor da Fazenda Real o seguinte = S. as quaes em nome de Sua Magestade Fidelissima lhe dou. que tão bem determina que dentro em cinco annos as cultivem. salvo disimo a Deos.V necessarias para o bem comum por ser tudo conforme as ordens de Sua Magestade. que aponta o Doutor Procurador da Coroa em sua resposta por serem na conformidade das Ordens de Sua Magestade. que pede em sua peticão. sem pencão. e povoem. reservando fontes. [?] Procurador da Coroa. e as ditas terras lhe dou como por devolutas.

clausulas. e confrontações. e Previsão das demarcações lh’as demarquem por seus verdadeiros rumos. que se cumprirá como nélla se contem. e o metão [?] de posse. morador no Certão do Piancó como n’esta se declara Para V. Sa. fazendo pião no poco da Jatuba da parte do nascente correndo para o puente. e Sesmarias de Terras de três leguas de cumprido. foi servido conceder em nome de Sua Magestade Fidelíssima a Lourenço de Brito Correia. e huma de largo. Dada nesta Cidade da Parahiba do Norte aos 17 de Novembro de 1766 = José Pinto Coelho = Secretario a fez escrever = lugar do Sello = Com a rubrica do Senhor Governador = Carta de Data. pegando do serrote dos Tapuios dos tapuios ate as nascentes do Riacho chamado Timbauba com huma alagoa estremando com as agoas do Pajaú. Parahiba 18 de Novembro de 1766. As. Pelo que mando ao Juiz. José Pinto Coelho . Ver [?] = E não se continha mais na dita Data a que me reporto. e onde mais tocar. que V. e condições. e sellada com o signete de minhas armas. e se registrará nesta Secretaria Provedoria da Fazenda. que aponta o Doutor Procurador da Coroa. e por firmesa lhe mandei passar a presente por mim assignada.

Orientadora: Ariane Norma de Menezes Sá Dissertação (mestrado) – UFPB/CCEN 1. /Emmanuel Conserva de Arruda. 2007.A779a ARRUDA. – João Pessoa. Colonização – Século XVIII – Paraíba. CDU: 325. 102p. Colonização – Paraíba (1766-1816). 2. A ação colonizadora produzindo o espaço: de aldeias indígenas à Alagoa da Perdição (1766-1816).3 (813.3) (043) UFPB/BC . Emmanuel Conserva de.