You are on page 1of 113

ACADEMIA DAS SCIÊNCIAS DE

MONUMENTOS
DA
LITERATURA DRAMÁTICA PORTUGUESA
II
A VING1\NCA DE
.
TRAGÉDIA DE ANRRIQUE AYRES VICTORIA
Conforme a impressão de 1555,
publicada por ordem da Academia das Sciências de Lisboa
POR
Francisco Maria. Esteves Pereira.
Imprensa Nacional de Lisboa
1.918
Parecer
sôbre a publicação da tragédia • A vingança de Agamemnon)),
de Anriqne Aires Victoria, em traslado feito e prefaciado
pelo sócio correspondente Sr. Esteves Pereira
A tragédia quinhentista, que o Sr. Esteves Pereira co-
piou do único exemplar porn_•ntura existente e que pre-
faciou com a sua habitual erUtlição, é com efeito um mo-
numento literário digno de figurar na colecção já iniciada
pela Academia com a nova ('dição da que se
acha no pr('lo.
De pom·os eruditos era conheeitla esta obra dramática,
que rt_•prescnta uma das prinwiras tentativas de versão
do teatro grego em línguas modernas. Bastaria êste facto
para justificar a sua publicação, como testemunho da
contribuição prestada pelo engenho português para o
tudo da antiguidade dássica.
É certo <tue o sôpro viril de Sófocles passa diluído e
debilitado nesta parêifrase do nosso quinhentista. Aponta-
remos apenas como exemplo a scena do reconhecimento
de Ore:::;tes por Electra, em que o adaptador português,
seguindo provávelmente o modêlo castelhano de Hernan
Perez de Oliva, alonga por um sem número de incolores
redondilhas as fortes e incisivas frases dos dois irmãos:
-l.Dar-se-há caso que êle viva? pn•gunta Electra no
cúmulo do alvoroço.
visto <tne eu n•spiro! respowle ::;implesmente
Ore:::;tcs.
:\fas não é preciso os PXPmplos. Basta acen-
tuar a falta de vivacidade trúgica no diálogo. Cortado e
rápido, êlc é a. sublime característica do original grego.
6
Seja porêm como fôr, não há dúvida de que a obra de
Aires Yitória é um elemento valioso para o estudo das
letras portuguesas no século XYI, e que constitui para
o crítico, para o historiador e para o filólogo, um depoi-
mento digno de atenção desvelada.
Por todos estes motivos, a Segunda Classe deve con-
gratular-se COJll o nosso ilustre consócio Sr. Esteves Pe-
reira pelo importante trabalho com que Yem acrescer o
tesouro da literatura nacional, e julgamos que deve encor-
porá-lo na colecção, recentemente projectada, dos
mentos da literatura dramática·portuguesa no século XVD>.
Sala das sessões da Academia das Sciências de Lisboa,
22 de Novembro de 1917.
F. Teixeira àe Queiroz.
Da'Vid Lopes.
Lopes de 11/endonça, relator.
Pela da tragédia A r7ngança de Agamenom
é restituída à literatura portuguesa uma obra composta
na primeira metade do século XVI, conhecida quási só-
mente de nome, e que apesar do seu grande merecimento
tem estado sequestrada há mais de três séculos, não
intencionalmente pPlos sucessiYos possuidores do único
t>xemplar f'xistPnte, mas pPlo descuido e esquecimento
dos eruditos. Esta restitui<;ão é clevida à liberalidade e
hf'nPvolência do Sr. Conde de Samodães para a Acade-
mia das Sciências de Lisboa, a cuja solicitação concedeu,
da melhor vontadP, prrmissão para se fazer a cópia
fotográfica que serviu para esta impressão. Por isso
o Sr. Conde de Samodàes é credor do reconhecimento
e gratidão dos cultores da literatura portuguesa.
E eu cumpro aqui o grato dm·er de tornar público
o meu reconhecimento ao venerando titular e ilustre es-
critor, o Sr. Conde de pelo singular favor,
que me concedeu, de divulgar uma das mais preciosas
jóias da sua riquíssima livraria.
Lisboa, 28 de Junho de 1917.
\
PRÓLOGO
Os bibliógrafos e historiadores da literatura pátria
dão notícia de que no século XVI foram compostas em lín-
gua portuguesa diyersas tragédias, das quais restam só-
mente duas e um fragmento doutra
1
; essas tragédias são:
a Cleopatra, do Dr. Francisco de Sá de :Miranda ( 1485-
1558 ), composta pelos anos de 155:!:!; a Castro, do Dr.
António Ferreira 1_1526-1569), composta pelos anos de
1557
3
; e A r'tngança. de ..A!Jamenom, de Anrriques Ayres
Victoria, concluída em 1536
4
• Da Cleopatra, do Dr. Fran-
cisco de Sá de :Miranda, existe sómente uma estância for-
mada por duas sextilhas 5; a Cast1·o, à o Dr. António Fer-
reira, foi impressa pela primeira yez em 1587, e melhorada
na de 1598; .A de Agamenom foi impressa
l Geschichte der Pm·tugiesischen Litteratur, von Carolina Mi-
chaelis de Vasconcellos und Teófilo Braga, no G1·undriss der Ro-
manischen Philofo!Jie, vou G. Grõber, Strassburg, 1897, II. Band,
2. Ab., pp. 311 e 312; Teófilo Braga, Histó1·ia da Literatura Por-
tuyttesa, tomo u, Pôrto, 191-1, p. 370 sgs.
2 Teófilo Braga, Histórict da Literatnra Portuyuesa, u, p. 375.
3 J,lem, ibirl., 376; Castro, rle Ferreira, ed. de 1\leu-
des 1lo.s Reme,lius, Coimbra, pp. xv11 e xx.
4 Veja-se adiante p. H.
!i D. Carolina l\Iiehaelis 1lc Vascoucellos, Novos estudos sôbre
Sá de Miranda, no Boletim da Segunda Classe, vol. v, pp. 47 e 137.
10
pPla primeira vez entre 1536 e 1555, mas é conhecida
sómente pela segunela impr(ls8ão, feita om 1555.
A VINGANÇA DE AGAl\IENOl\1.-A tragédia Vingança de
Agameumn, de Anrrique Ayres Victoria, nãQ é uma com-
posjção original dês te autor; no título da segunda im-
pressão diz-se que o seu argumento é de poeta
grego, e qüe ela foi tirada agora novamente (recente-
mente) tio grego em linguagem; e na segunda das estân-
cias, que se seguem à do autor, diz-se que a
tragé(lia foi acabada. de traduzir em nossa linguagem em
15 de 1\Iarço de 1536, na cidade do Pôrto, por Anrrique
Ayres Victoria.
Da primeira impressão da tragédia não há outra no-
ticia senão a que resulta da Bf\guinte indicação dada no
título ela segunda impressão: I( agora segu111la vez im-
pressa f\ f'mtmdada e anhaelida pelo mesmo auton>. Desta
notícia conclui-se, que a primeira impressão foi feita entre
o <mo ele 1536, em que foi eonrluída a tradução, o o de
] 555, em que foi feita a segunda impressão.
A segunda impressão, como se declara na subscrição,
foi fpita em L is boa, por Germão Galhardo, e terminada
em G de Novembro de 1555.
Resumindo e coordenando estas notícias, rPsulta:
1.
0
Antes do ano de 1536 a tragédia ele Sófocles, cujo
nome não é dado, havia sido tirada (traduzida) do grego
em linguagem.
2.
0
Anrrique Ayres Victoria trovou tpôs em verso)
a mesma tragédia, acabando de a trasladar em nossa lin-
guagem a 15 de l\farço de 1536.
3.
0
Da tragédia de Anrriquo Ayres Victoria fez-se uma
. . l d h 'd
prune1ra nnpressao em ugar P ano escon ec1 os, mas
entre 1536 e 1555.
4.
0
O mesmo Anrrique Ayres Yictoria emendou e acres-
centou a tragédia, e assim revista foi impressa em Lisboa
por Germã.o Galhardo, tendo terminado a impressão em
6 de N ovein bro de 1555.
11
A TRAGÉDIA «ELECTRA)>, DE SóFOCLES. -Sófocles
1
,
que nasceu entre os anos de 497 e 495 e faleceu em 405
a.. C., foi um dos mais insignes poetas gregos; compôs rli-
Yersas tragédias, das qua.is restam sete, e entre elas é muito
notável a que tem por título Electra. O assunto desta
tragédia é tornado das tradições relativas ao regresso dos
guerreiros gregos depois da destrui<;ão da cidade de Tróia.
Agamenon, o vitorioso chefe dos Gregos, regressa a Ar-
gos, e aí é assassinado por Egisto e Clitemnestra. Electra
sah·a Orestes, quH era ainda criança, e o faz educar secre-
tamentfl para Yingar seu pai. Orestes, chegado à idade
Yiril, vinga a morte de seu pai, matando Egisto, que o
havia assassinado, e se apoderara do trono de 1\Iicenas,
e a sua mãe Clitemnestra, adúltera cúmplice do mesmo
crime. Os personagens da tragédia são: protagonista.,
Electra.; deuteragonistas: Or0stes, Crisótemis e Clitem-
nestra; tritagonistas: o pedagogo l aio), e Egisto; côro:
donzelas de 1\Iicenas.
Sófocles, pôsto que nesta tragédia trate do mesmo
assunto que Ésquilo nos Coéforos, mostra-se inteiramente
original. A pessoa Je Electra domina toda a tragédia, ~
atrai sôbre si a atenção pelo seu ódio implacável contra
o matador de seu pai, pela ardente YiYacidade das suas
.lembranças, pelo profundo sentimento. do dever, fl pela
sua energia quási viril, sPm ser destituída da ternura fe.,
minina. Ao lado dela está sua irmã CrisótPmis, que é ca-
racterizada pela sua bondade, quási rc:>signação, em se
submeter às desgraças que oprimem a sua família. O ar-
tifício, empregado para iludir os autores da morte d.e Aga-
menon, acêrca da morte df' Orestes, consistindo em fazer
anunciar pelo aio a morte dn Orestes, f' cm apresentar
uma urna com as cinzas dos seus restos mortais, trazida
pelo próprio Orestes e seu amigo Pilades, revela Yiva
l Cf. r.roiset, Hi.<;toire de la Litératu1·e Grecqu.e, Paris, 1R90,
tomo m, pp. 22!-282, especialmente p. 238.
imaginação. O reconhecimento que Electra faz cio f'eu irmão
Oref't('s
1
, diferido dum modo para o termo da
tragédia, manifesta-se fle impro,·iso, e de maneira muito
surpreendente e ('Oruovedora, quando o sofrimf'nto moral
de Electra tem atingido o maior auge com a falsa notícia
da morte de seu irmão Orestes. O êxito ( catá.strofe) da
tragédia é inteirarne11tP conforme à-R regras ela art<> cira-
mática PStabelecidas por Aristóteles e Horá.cio: a mortfl
de Clitemnestra é fora da scf'na., ouYindo-f'e sónwntP pri-
m<>iro as suas lanwntações P dPpois as suas iruprPcaçõPs;
a morte de Egisto é apenas anunciada, como deYPnclo
ser feita no mPsmo lugar, cm qup. Agnmenon haYia sido
assassinado. Emfim toda a acção da. tragédia passa-se <'lll
poucas horas dum mesmo dia.
VERSÃO CASTELHANA DA ((ELECTUA>>, DE SÓFOCLES.--
No título da tragédia A T"inymu;a de Ayameuom, do An-
rrique Ayres Victoria, não é llado o da tragédia
Sófocles de que aquela provêm; mas pela comparação
dos personagens, e do desenYoh-imento das scenas, é fácil
de rflconbecer, que o argumento da tragédia de Anrrique
Ayres Yictoria é o mesmo que o da tragédia de Sófocles,
denominada Electra2; contudo f'ntre t>las obserYam-sp di-
ferPnças consideráYeis nos discursos dos personagens, o
que faz suspeitar que a tragt'•dia portuguesa não provêm
t Electra reconheceu seu irmão Orestes, quando êste lhe mos-
trou o anel, sph1·agida (Electra, v. 1223), que havia sido de seu pai,
e que ela mesma lhe tinha dado. Ko drama indiano, a Xaknntalá.,
composto em sânscrito por Kalidasa (entre o rv e vn século «le
.J. C.), Xaknntali é pl'lo rei llnxyant.a, :-;cu marido,
,
1
11c a ;havia repwlia•lu, por um anel, muddi (rlimirmt.ivo n11ub·ikn),
que êlc lhe tinha datlo. Tauto a palavra ... phra!Jida corno nwdrâ
signifif·am pr·úpriamente siuetc ou anel com sinete. .
2 A Vin!Jamçn de A!Jwnenom é o assunto da tragé•lia, iutitHlatla
Electnt, eomposta em versos hendeeassílalJos por Francisco Dias
Gomes (1745-1795), publicada em Lisboa, 1798 e 17UU.
13
directamente da tragédia gre.ga, mas que entre elas houve
uma forma intPrmédia.
Entre os escritores castelhanos do século XVI foi notá-
vel pela sua erudição o maestro Hernan Perez de Oliva,
nascido em Córdova pelos anos ue 1-!94, e falecido em
1533. Êste escritor, uistinto humanista, trafluziu na língua
castelhana, em vrosa elegante, uiversas tragédias e comé-
dias ue escritores gregos e latinos, e entre elas uma, cuja
primeira impressão t, feita em Burgos em 1528, tem por tí-
tulo na página de rosto: La Vengança de Agan?enon. Tra-
gedict que hizo Ilernan Perez de Oliva, ;maestro, cuyo argu-
mento e.-: de 8oplwcles poeta fp·iego. A·no 1528. Na página
verso da primeira fôlha está impresso um parágrafo com
o título La mue1·te de .Agmnenon. Os personagens da tra-
gédia são: Orestes, filho de Agamenon; Qilénio, aio de
Orestes; Pílades, amigo de Orestes; Eleetra, irmã de
tes; Urisútemis, irmã dP Orel"tPs; Clitemnel"tra, viúva de
Agamenon; Fedra, dama Eleetra; Egisto, intruso rei
de l\Iicenas.
Comparando Lt primeira scena, P provávelmente as res-
tantes, da tragédia de Hernan Perez de Oliva com a parte
correspondente da Electra de Sófocles, reconhece-se que
o eseritor castnlhano não traduziu verbalmentl' a tragédia
mas, consen·ando a disposição geral desta, modi-
fieou-a nm conformidade com as idPas, costumes e gôsto
tio seu h-nnpo, e como se a acção se tiYPsse passado na
L Catálogo de la Biblioteca de Salvá, tomo I, Valencia, 1872,
p. 510, s. v. Sófocles, n.o 1:416. Esta tragédia foi reimpressa
sas e entre outras nas seguintes obras: Las obras dellJ/aes•
tro Fernan Perez de Oliva, Córdova 1586; ParnatJo espanol, cole·
ción de poesias escogidas de los mas célebres poetas castellanos,
por D. Juan José Sedano, Madrid, 1768-1782, nove tomos; Las
Obras del maestro Fernan Perez de Oliva, Madrid, 1787, dois tomos.
Nós não purlemos obter, nem e'<aminar, ne-nhuma das obras em que
foi reimpressa a tragédia e sómente obtivemos cópia
manuscrita da primeira scena da tragédia por favor tlo Sr. Afonso
de Dornelas.
14
primeira metade do século XVI na côrte do rei dum dos
estados da Europa culta. O côro das donzelas de Micenas
foi substituído por uma dama (aia) de Electra; os discur-
sos dos interlocutores uns foram abreviados, outros supri-
midos, e a outros ajuntou diversos desenvolvimentos literá-
rios e indicações históricas, que lhe pareceram necessários
para melhor compreensão do pensamento do trágico grego;
e em geral deu discursos uma feição moderna, com
o fim de provar que a prosa castelhana era susceptível de
l\xprimir os mais nobres e as mais vivas emo-
ções, e enfim para mostrar a sua grande erudição e os pró-
prios recursos literários. É ainda para notar que Hernan
Perez de Oliva parece esquecer-se por vezes que os per-
sonagens da tragédia eram pagãos, e os faz falar tle Deus
corno se fõssem cristãos. ;
ÜRIGE!tl DA TRAGÉDIA PORTUGUESA.-No título da tra-
gédia .A Vingança de Agamenorn, de Anrrique Ayres Yic-
tória, não se diz a linguagem para a qual a tragédia de Só-
focles foi tirada do grego; mas a expressão o: tirada em
linguagem» era geralmente usada, quando se tratava de
traduções feitas do grego ou do latim para as línguas mo-
dernas ou romances. Também na segunda das estâncias
que se seguem à exortação do autor não se diz de que
obra foi traduzida em nossa linguagem a tragédia portu-
guesa. Por isso é lícito fazer uma conjectura
1

Comparando a·tragédia A Vingança de Agamenorn, de
Anrrique Ayres Victória, com a tragédia La Vengança de
Agwnenon, de Hernan Perez de Oliva, observa-se que os
títulos são iguais; os personagens são os mesmos com pe-
quenas diferenças explicáveis fácilmente; ambas tragédias
são precedidas dum parágrafo em que se refere a ma-
neira como sucedeu a morte de Agamenon; há completa
1 Cf. A Castro de António Ferreira, ed. de Mendes dos Re-
lnédios, Coimbra, 1915, pp. xu-:s:Iv.
15
conformidade no número das scenas, na disposição e se-
quência das falas dos verso nagens ; e as ideas expressas
nas falas dos verso nagens são as mesmas salvo pequenas
diferenças; por estas razões conjecturamos t que a tragédia
portuguesa era a tradução da castelhana.; mas o escritor
português, que muitas vezes traduziu verbalmentf' a tra-
gédia castelhana, empregando até as mesmas palavras,
quando eram iguais nas duas línguas, reduziu-a a verso
(trovou-a), e por isso introduziu diversos desenvolvimen-
tos literários, evidentemente com o fim de satisfazer às
exigências da metrificação e da rima, e à tliRposição dos
versos em quintilhas.
A conjectura que é confirmada de certo modo
não só pe_la inserção, na qnintilha 1:?4, do provérlJio cas-
telhano:
Liuiauo es el dolor,
que de fora no paresce :
mas tambêm pelns palavras abominable (-!-!, algo
(103, 3), baldon 3), entonces (3-!-!, 1), lwno1· (139, 3),
"inefaúle \ -!4, 5), terrible (17, 5j, que por ventura são
da tragédia castelhana conservados pelo escritor
português.
MÉTRICA DA TRAGÉDIA. -A tragédia está· composta
em verso, «foi trovada», como se diz no título do lhTo.
Os versos são de sete sílabas, redondilha mnior, com
acentos nas sílabas 3. a e 7. a Os versos são dispostos em
quintilhas, com as rimas abaab, ou abbab.
O metro do verso adoptado por Anrrique Ayres Victo-
ria é o metro mais popular da língua portuguesa, e geral-
mente usado pelos poetas portugueses da primeira metade
do século XVI; foi o metro empregado nos autos compostos
por Gil Luís de Camões, António Prestes e An-
tónio Ribeiro Chiado; e parece que tambêm pelo Dr. Fran-
1 Boletim da Seyunda Classe da Academia das Sciências de Lis-
boa, vul. 1.:, Lisboa, 1916, p. 13 (do extracto).
16
cisco de Sá de Miranda na sua tragédia Cleopatra, quanto
se pode avaliar pela eRtância que dela resta.
As quintilhas são grupadas às duas e duas; mas como
entre elas não há nenhuma relação de rima, as duas quin-
tilhas grupadas formam não uma décima, mas simples-
mente uma estância. As quintilhas são em numero de 428.
VALOR LITERÁRIO DA TRAGÉDIA.-Do valor intrínseco
da tragédia nada há que dizer, senão que ela é obra de
Sófocles, o poeta grego que elevou a tragédia ao mais
alto grau de perfeição, e de erijas obras, assim como das
de Ésquilo e Aristóleles e Horácio deduziram
as regras da arte dramática. O eRcritor português, Ra-
bendo certamente que a tragédia é a narrac;ão dralll<ltica
duma acc;ão grave pelo assunto, ilustrP pelos persona-
gens, e desastrosa pelo êxito; e que por consequência o
seu estilo deYe de ser grave, nobre e patético: empregou
Ullla linguagem nobre e adequada à categoria dos inter-
locutores da tragédia, que eralll reis, príncipes e pessoas
da côrte, e como se a acçã.o se passasse no seu telllpo.
Aumenta muito ainda o valor da tragédia portuguesa a
circunstância de ser uma versão da tragédia de Sófocles,
certalllente muito modificada, que dá completa idea
da obra do trágico grego.
É bem para notar que na tragédia portuguesa não se
encontra nenhuma palavra da linguagem plebeia, que são
tão frequentes noR autos compostos no século xvr.
AUTOR.-Não alcançámos nenhuns dados biográficos
acêrca de Anrrique Ayres Victoria, nem relativos às cir-
cunstâncias da sua vida, nem doutras composições lite-
rárias suas. Os bibliógrafos Inocêncio Francisco da Silva,
e depois dele Ricardo Pinto do Matos e José dos Santos,
dizem sómente que Anrrique Ayres Victoria era natural
da cidade do Pôrto. Esta notícia provávelmente tem por
fundamento a indicação dada na dedicatória, em que se
diz que Anrrique Ayres Victoria era natural do Põrto, e
17
na segunda das f'Stâncias, que se seguem à exortação do
autor, da qual consta que Anrrique Ayres Victoria acahou
de traduzir a tragédia A ringançct de Agamenom a_.15 de
l\Iarço de 1536 na cidade do Pôrto. A falta de notícias
biográficas por parte de todos os bibliógrafos, e sobretudo
a circunstância, já notada, que Diogo· Barbosa Machado
não menciona o autor da tragédia entre os escritores por-
tugueses, nem se refere à mesma tragédia, fizeram con-
jecturar que a tragédia portuguesa foi composta, sôbre
a tragédia castelhana de Hernan Perez de Oliva, por um
escritor de origem popular, dotado certamente de talPnto
poético, e possuindo cultura literária não vulgar, residente,
pelo mPnos durante algum tempo, no Pôrt,0, e onde pro-
váv(..\lmente se fpz a primPira impreseão em fôlha volante.
A tragédia portuguPsa mostra tambêm que Anrrique
Ayreg Victoria tinha conhecimento das obras dos melho-
res mestres, os trágicos gregos, e porventura o desejo
de os imitar em suaH composições.
REPRESENTAÇÃO TEATRAL DA TRAGÉDIA. -Não se en-
contra nenhuma notícia escrita nem tradição oral, da qual
se conclua que a tragédia A F'ingança de Agarnenom foi
representada em- teatro português. Do que se diz no pró-
logo, certamente ajuntado pelo impressor Germão Galhar-
do, parece resultar que a segunda impressão da tragédia
foi fPita principalmente com o fim dn servir para instrução
moral o e.x:Pmplo dos que a lessem, e pelo proveito que
daí rPsultaria para viver bem e honPstamente,. conside-
rando que os maus sempre recebem o castigo das suas
m a l d a d l ~ s e crimes, e os bons, quando não são galardoados
neste mundo, recebem na outra vida o prémio devido às
suas virtudes.
HISTÓRIA DO PALEÓTIPO t DA TRAGÉDIA.-Diogo Bar-
bosa Machado parece não ter tido conhecimento da tragédia
1 Designa-se paleótipo o livro impresso em caracteres gótico!!.
18
A ringmu;a de pois que a não menciona na
Biblioteca Lusitana; foi António Hiheiro dos Santos o pri-
meiro bibliógrafo que descren.'u o palcótipo da tragédia
nas Jfemórias para a história da ti'pogntjia ern Portugal
no século XYI (p. 119). Um exemplar do paleótipo perten-
cPu a :Monsenhor Haflse, que foi sócio da Academia das
Scif>ncias de Lisboa, e faleceu em mas êle, "tendo-o
emprestado em sua vida ao Duque de Latões, D. João de
Bragança, extra,·iou-se, de modo que nunca mais se soubo
notícia dêle t.
Em 1858 um exemplnr do _paleótipo pertencia a ..l. J.
Saldanha :\Iachado, então tesoureiro da Casa da :Moeda,
que o luwia comprado alguns anos antes em casa de Antó-
nio Henriques, antigo comerciante de livros estabelecido
na Calçada do Duque. Inocêncio Francisco da Silva exa-
minou então o exemplar-pertencente a J . ..l. Saldanha l\Ia-
chado, e o dcscrevf'u no seu Dicionário bt:bb:ogdrfico por-
tuguê.;;, onde transcreyeu o título, as rubricas do prólogo
c dos dois parágrafos que se seguem, a listn dos interlo-
cutores, as primeiras quatro estâncias da a úl-
tima das duas estâncias que se seguem ll exortação do au-
tor, e a
Em 1878 Ricardo Pinto de l\Iatos, no seu J.1famwl bi-
bliogN!fico português (pp. -!4-.Jil), deu notícia dum exem-
11lar oa tragédia, transcrevendo o título c a subscrição;
e informou que o mesmo exemplar existia na livraria quf'
tinha sido do Conde de Az<'vedo, que o comprara por
81DÜÜ, e legada por êle ao Sr. Conde de Samodães.
Emfim em 1917 dos Santos, na. sua Bibliografia
da literatura luso-brasilica (1, pp. 8G-92), d<'u uma
noticia do exemplar pertencente ao Sr. Conde de Samo-
dães, com fac-similc-s ( zincografias) da pAgina recto da
primeira fõlha (rosto\ da página verso da primeira fõlha
l Inocêncio Francisco lla Silva, Diciontino biUiogt·áfico portu-
!Jltês, tomo m, LisLoa, 1859, pp. lí9-181.
2 lbidem.
19
'( comêço do prólogo), da página recto da terceira fôlha
{as seis primeiras estâncias da tragédia), e da página verso
da última fõlha (as duas estâncias que se seguem à exor-
tação do autor e a subscrição).
· muito provável que o exemplar do paleótipo que
pertenceu a ·Monsenhor Hasse, e depois o de J. J. Salda-
nha :Machado, seja o mesmo que actualmente pertence ao
Sr. Conde de Samodães, e que parece ser o único existente.
DE:O:CRIÇ'ÃO DO PALEÓTu>n.-0 exemplar paleótipo da
tragl•dia A Vingança de Agamenom, pertencente ao Sr.
Cowle de Samodães, é um livro encadernado de 20 fôlhas
do formato de 4.
0
, constituído por dez fõlhas duplas for-
Jllando um caderno. As primeiras dez fõlhas têm no ângulo
inferior clireito a assinatura: Aj Aij, Aiij, Aiiij, Av,
Avj, Aviij, Aviiij, Ax; as segundas dez fôlhas, pro-
longamento das dez primPiras, não têm assinatura. ·
As fõlhas do livro têm actualmente om,l8G de compri-
mento (altura') e om,135 de largura; mas
foram aparadas.
Em cada página, a parte impressa (chapa de im-
pressão) é um rectângulo, que na parte cm prosa
-om,170 X om,110, e na parte em verso om,lG8 X om,109.
As letrn.s são do tipo denominado gótico, e grandes. Cada
_página da parte em prosa está disposta em uma só coluna
·de 40 linhas quando completa, cada linha completa tem
·cerca de 60 letras: cada página da parte ocupada pela
tragédia é disposta em duas colunas; -e cada coluna, se
fôsse completa teria 34 linhas: e as páginas ocupadas pela
.exortação ao leitor, pelas duas estâncias que se lhe seguPm,
·e pela subscri<;ão, são em uma só coluna.
O rosto do livro (fôlha 1, r) é formado por uma es-
pécie ele portada, dentro da qual há na parto superior
uma vinlwta, e na parte inferior o título da obra. A por-
tada compõe-se de seis peças: a inferior (hn·gura om,OlO)
representa. um friso decorado com ornamentos guerreiros
(escudos, lanças, saia de malha, e na parte superior uma
20
águia·); as duas pt>ças laterais infPriores (largura cêrca
elo 0"\008) representam colunas salomónicas prolongadas
por colunas de ord(•m júnica; as quatro peças laterais
superiores (largura cêrca de om,OlOJ representmn frisos
decorados com diversas figuras (dragões, cornucópias,
máscaras, etc.); a peça superior (largura cêrca de om,OlO)
representa um friso decorado com objectos diversos (sih·a
de ramos de árvores, flores, caras do seres humanos, etc.).
A Yinheta tem cêrca de 0"\095 na direcc;ão da largura
da fôlha, e 0"\063 na direcção da da fôlha. :Na
vinhota está. representada uma casa, em cuja fronte há
uma porta e à direita desta uma janela, e na empena da
esquerda há outra janela. Diante da porta o junto dela
flstá um homem mancebo, do pé, descoberto, tendo na
mão direita um pequPno instrumento, um
punhal, e a m!io psquerda levantada à altura do peito
7
e fazendo gesto de falar. Doutro de casa o nas janelas
da frente e da. empena da esquerda vêem-sB os bustos
de duas mulheres, cm atitude de observar o que se passa
fora de casa. Diante do manceho que está à porta, jaz
deitado no chão o corpo dum personagem, sem cabec;a
e nu, as mãos atadas com uma corda sôbre a cintura,
e os pés atados com uma corda, que está ligada à re-
tranca do arreio dum solípedo (cavalo ou muar), montado
por um cavaleiro, que parece caminhar paralelamente
à empena esquerda da casa, levando de rastos o corpo
exânime. Ao lado direito da casa • outros dois
personagens, de pé e cobertos com chapéus; o da frentt"
representa um mancebo, tem a espada. desembainhada
na mão esquerda, o a mão dirflita à altura do peito,
e parece falar ao lllanc<>bo que está diante da porta; e o
do trás representa um holllem idoso, um velho. Os per-
sonagens representados são prován'lmento: o lllancebo
descoberto diante da porta, Orestes; as duas mulheres,
cujos bustos sp vêem pelas janelas; Electra e Crisóte-
lllis, irmãs do Orestes; o corpo dpcapitado, jazendo no
chão, o de Clitemnestera; o mancebo coberto e com a es-
21
pada na mão, Pílades, amigo de Orestes; o velho, colo-·
cado atrás do mancebo coberto, o aio de Orestes.
O título da obra tem as linhas dispostas em triângulo
isósceles, com o vértice para a parte inferior da página,
e com a seguinte disposição:

[Ramo de flores] Tragedia da VIngan-
ça que foy feita sobre a morte dei Roy Aga-
menom. Agora nouamente tirada de Grego
em lingoagem: trouada por Anrrique
Ayres Victoria. Cujo argumento he
de Sophocles poeta Grego.
Agora segtida vez impres-
sa e emendada e a-
nhadida pello
mesmo Au- ..
tor.
No alto da página verso da mesma fôlha (fôlha 1),
começa o prólogo com a dedicatória da tragédia a D. Vio-
lante de Távora, o qual certamente foi ajuntado pelo
impressor Germão Galhardo. Êste prólogo ocupa a p á g i n ~
verso da fôlha 1, e um pouco mais de metade da p á g i n ~
recto da fôlha 2; segue-se logo um parágrafo com a ru-
brica A mm·te de AgamenomJ que ocupa a parte restante
da página recto da fôlha 2, e metade da página verso da
mesma fülha; depois segue-se outro parágrafo com a ru-
brica Ar!fumento da presente tragédia; e nas últimas qua-
tro linhas desta mesma página está a lista dos interlo-
cutores da tragédia.
A tragédia ocupa as páginas 3 r a 19 v; está disposta
em duas colunas por página. Os versos são em quintilhas,
grupadas às duas e duas formando uma estância. O co-
I •
mêço das estâncias é indicado por um signal (crescente com
a concavidade voltada rmra a direita); e as estâncias são.-
separadas umas das outras pelo intervalo de uma linha
em claro. Todavia faltam algumas vezes os sinais do co-
mêço do estância, e a linha em _claro.
O nome do intC'flocutor, correspondendo ao coméço-
de estância, é dado umas vezes· em linha especial da co-
luna e por extenso, outras vezes na linha do }Jrimeiro
verso da estância e cm abreviatura. O nome do inter-
locutor, não correspondendo a princípio de estância,
dado na margem esquerda do· primeiro Ycrso da fala
e em abreviatura.
A página recto da fOlha 20 t'-. ocupada pela
do autor aos lectores, que se compõe de três estâncias,.
cada uma do oito versos de dez síla b,ls; tendo depois ao-
meio da. linha a palavra Fim.
A página verso ela fôlha 20 é ocupada por duas estfm--
cias, cada uma de oito '
9
ersos de dez sílabas; depois se--
gue-se a subscrição com as linhas dispos.tas cm triângulo ..
com o vértice para a parte inferior, e assim dividida:
Aqui feneçe a tragedia de Orostes tiratla
de Grego em lingoagcm Portugues e troua-
cla. Foy impressa na muy nobre e sempre leal .
cidade de Lixboa per Germão Ga-
lhardo impressor del Rey nosso
senhor. Acabo use aos . vj.
dias de Novembro de
mil e quinhentos
e cincoenta e
cinco anos.
Fim ..
23
Estas duas estâncias e a subscrição foram certamente
ajuntadas pelo impressor Germão Galhardo.
ABREVIATURAS.-Na impressão do paleótipo empre-
garam-se alguns· sinais representativos de grupos de le-
tras, e em geral sómente quando o espaço restante para
a linha ou verso não era suficiente para conter as letras
em separado. Os sinais de grupos de letras empregados
são: d' (de), q (que), scto (santo), ds (deus), p (per),
p (pro).
PARTICULARIDADES GRÁFICAS.-No paleótipo obser-
vam-se as seguintes partieulari1ladps de escrita:
1. a. Algumas letras têm mais de uma forma: e (duas);
,. (duas);.{] (três).
2. a. A vogal i, inicial de palavra, é representada umas
vezes por y, e outras vezes por j, assim yrrnào, jrmão;
a vogal i, subjuntiva do ditongo ui, é representada muitas
vezes por y para evitar confusão.
3. a A vogal u., inicial de palavra, é representada por v.
4. a A consoante 'l.', média de palavra, é sempre repre- ·
sentada por u; a consoante v é sómente empregada como
inicial de palavra.
5. a. A ditongação das vogais é representada por rn
antes das vogais e de b, rn, p, e do pronome enclítico,
e no fim de palavra; e por n antes das outras consoantes.
Quando na linha falta espaço, a ditongação é representada
por til.
6. a Nas vogais dobradas o til é colocado sobre a se-
gunda vogal, assim yrrnaà.
7. a O artigo definido singular masculino é escrito quási
sempre lw; a interjei<:ão (vocativo) ó, é escrita o.
A partícula ao é tambêm escrita lw, assim ho reuez
(1, 10; 245, 3).
8. a Os pronomes enclíticos são umas vezes juntos ao
verbo, formando com êle uma palavra,- outras vezes se-
parados.
24
9.a. A partícula (conjunc;ão) senmn é escrita poucas
vezes em uma só palavra, senam, mas quási sempre os
seus elementos são separados·, tJe nam.
SINAIS DE PONTUAÇÃO.-Üs sinais ds pontuação usados
no paleótipo são a vírgula (um inclinado na largura
da linha), os dois pontos e o ponto final: mas na impressão
do paleótipo estes sinais faltam quási vor completo.
Na impressão do paleótipo não se empregaram acen-
tos; esta falta alguma hesitação na lei-
tura de algumas palavras isoladamente; mas o sentido
do discurso desfaz fácilmente o equívoco.
REVISÃO DAS PROVAS DA Il\IPRESSÃO DO PALEÓTIPO.-
A composição tipográfica do paleótipo foi revista e corri-
gida; contudo observa-se ainda um número considerável
de erros tipográficos evidentes.
PALAVRAS RARAS.-A línguagem da tragédia é a da lín-
gua portuguesa culta, usada pelos escritores da primeira
metade do século XVI; todavia há a notar as seguintes
palavra·s pouco usadas: opertura ( apêrto ), canso (cansa-
ço), descuidança (descuido), desditado (desditoso), desigual
(sem" igual), escuridade (escuridão), falsia (falsidade), fol-
gura (folgança, folguedo·), lastúneira (lástima), mansidade
(mansidão), segu1·idade (seguranc;a'), seruidu,mbre ( serui-
dão), t01]Jidade (torpeza), tristor (tristeza), tristura (tris-
teza); contudo a maior parte destas palavras são empre-
gadas para satisfazer a rima dos versos.
TíTULO DA TRAGÉDIA. -0 título da tragédia, breve
e em poucas palavras, não é bem eYidente no paleótipo.
Na página do rosto está impresso: Tragedia da ringança
que foi feita sobre a nwrte del Rey Agamenom; e na subs-
cric;ão: Aqui fe'nece a tragédia de Orestes. Adoptou-se o
título A de Agamenom, que representa melhor
a primeira frase da página do rosto, e que provávelmente
25
é compos1çao de Anrrique Ayres Victoria, pois que a
subscrição é certamente composição do impressor Germão
Galhardo, e ta.mbêm porque é o título da tragédia
castelhana
1

lMPREssÃo.-A seguinte impressão da tragédia é con-
forme, quanto possível, com a do paleútipo; contudo fize-
ram-se as seguintes
1. a Para facilidade da composic,:ão tipográfica, e da lei-
tura, desfizeram-se as abreviaturas de grup·os de letras.
2.a Como sinal de nasnlac,:ão das vogais, em vez do
que é um sinal de abreviatura, empregou-se o m antes
das vogais, de m e p e no fim de e o n antes
das outras consoantes; com excepção das palavras
algüa, nenhüa.
3.a Em vez de J (vogal) inicial de palavra que começa
período, ou de nome próprio, empregou-se Y; e em vez
{lo j (vogal) de nome empregou-se y.
4. a Em vez de v (vogal) inicial de palavra empre-
gou-se u..
5. a letra maiúscula na inicial dos nomes
próprios de pessoa e de lugar.
6. a O pronome complemento que no paleótipo
é escrito mi, foi trnnscrito por mim antes de vogal,
e por uzi antes de consoante.
7. Uniformizou-se a escrita de algumas palavras,
como 1nillwr (melhor), pera (para), piadade (piedade), 1·e-
zam (razam).
1 O emprêgo ela palavra vingança no sentido de vingança que
foi feita (ou tomada) pela morte de, é usado no título ele outra obra
muito vulgar na idade média, a saber: Vindicta Salvatoris (em
latim): La vengence de nostre saulneur et 1·edempteur Jhesu crist( em
francês antigo); La vengeance du Sauveur (em francês moderno).
Cf. Gaston Paris, La littératw·e française au mm;en âge, Paris, 1905,
n.o 140; C. Chabaneau, La Prise de Jérw;alem ou la Vengeance du
Sauveur, texto provençal, Pari•, 1890; História dt. respasiano, impe-
rador de Roma, Lisboa, 1905.
26
8. a Corrigiram-se os Prros tipográficos (\Yidentes.
A urna. em que foi trazido a l\1icenas o corpo fin-
gido de Orestes, é designada quási semprt> pela palavra
caixa, e uma vez ( 219, B) por arca; adoptou-se sempre
esta palavra, que pra a mais comumrncntP usada no sé-
culo XVI, e que dt•signa mais 1n·ópriamente uma urna ca-
paz de encerrar o corpo de Ore8tes, em vez da palavra
caixa, que prov!wclrnento é alteração devida ao impressor
Gcrmão Galhardo.
10. a Para melhor compreensão colocaram-se sinais de
}JOntuação, que no paleótipo faitarn quási completamente.
O emprêgo dos sinais de pontuação é evidentemente uma
do texto; contudo procuramos com isso apro-
ximar-nos do pensamento, que o autor pretendeu exprimir.
Em seguida ao texto da tragédia são dadas as leitu-
ras exactas do paleótipo, correspondentes aos n. os 3, 4, 7,.
8 e 9.
t ~ Tragedia da ving·an-
ça que foy feita sobre a n1orte del Rey Aga-
Inenoin. Agora nouan1ente tirada de Grego
e1n lingoagen1: trouada por .. A __ nrrique
.A.yres Victoria. Cujo argu1nento he
de Sophocles poeta Grego.
Agora segunda vez ilnpres-
sa e e1n1nendada e a-
nhadida pello
1nesmo Au-
tor.
L. 6, Sophoeles.
Começa a tragedia de Orestes tirada de Grego
em Romance trouada por Anrrique Ayres Victoria,
natural do Porto, e deregida a muy manifica se-
nhora Dona Violante de Tauora.
Prologo.
numifica senhora, tem algus por openiam e a.ssi
hu ousam afirmar, ser vicio o tacha e cousa desnecessaria
ocuparemse os homes a ler tresladar ou declarar os
poetas antigos, e a e rezam que dizem e alegam
5
por si, e afirmam estes que a tal openiam tem: h e por- 10
quo os antigos poetas nam foram cristãos, nem souberam
os artigos da fee, nem as cousas que a nossa saluaçam
pertencem, assi como as escreueram e dei.""\:aram escriptas
os sanctos, em cujosliuros nos deuiamos ocupar mais afin-
cadamente: que nos outros que nam sam de tanto fruito. 15
Y sto nam me deixa do parecer bem, e digo que he cousa
assaz boa e nocessaria: porem nem por ysso lhes concedo
nam ser proueitoso_ e nam de pequeno proueito, leer e gas-
tar tempo nestes antigos, se lessem e entendessem ao fim
e moralidade pera que escritos foram: ysto se quiser ateu- 20
tar e esquadrinhar qualquer leitor, ilam deixara de tirar
delles muyta doutrina e grantle exemplo de vida, ainda que
cm h o mais fabuloso poeta se ocupasse: e porem se to
L. 2. trouado-3. derrigida-6. alguüs-R. ocuparemce-
9. razam -10. que] ê-openiam] operaçam -13. pertençem-----:--
18. prouueitoso-20. que] 1!.
30
nam teuer e consirar, nt'm de hiis de outros se apro-
ueitara rwm tirara fruyto algfi: e porque clara e
cous<t [h e J que se muytas cousas, que estam escritas as si
nas deuinas como humanas letras, se entendessem ao pe da.
5 letra tam soomente, que seria riso dizer que dellas se
podia redegir e tirar doutrina ou exemplo pPra bem o
onestamente viuer: as si como na ley velha mandar Deos
que ho animal que teuesse a unha fendida. fosse pera sa-
crificio e nam outro, porque este seneficaua ho amor que
. lO auemos de ter com Deos e com ho proximo: outras muytas
Cf'rimonias figuras e parabolas; c1ue em ho testamento nono
c velho se podem Yer, as quaes simplezmente
parecem cousa. mais tlc zombaria e escarneo que nam de
doutrina: mas se ho çumo e ho entrinseco dellas se atenta,
15 nam. ha hy cousa mais doce mais agradauel deleitosa nem
de mais fruyto: as si muyto manifica senhora, acho nam
auer ahy nenhua falmla escrita por qualc1ncr daquelles
antigos poetas que eram grandes pbilosophos, da qual nam
possamos tirar grande doutrina moral: exemplo daquelle
20 Prometheo que por auer elle restituydo h o fogo aos mortaPs
contra vontade de Jupiter, vieram ao mundo as doenças
e aduersidades que nelle ha, que outra cousa nos mostra
e senifica ysto se nam grandes males estarem prometidos
aos que a sciencia deuina c1uerem usurpar, dizendo que
25 adeuinbam, e que querem fazer cousas quP so a Deos per-
tencem: c aquelle Acteom grande caçador que nos mostra
por sua desastrada e cruel morte, se nam que os que em
cac;as e vícios delPitosos, nam se lembrando daquelle sumo
Deos que os criou, gastam seu tempo, e por derradeiro vem
.30 a ser comidos dos cães Actcom quP sam seus vicios, e })a-
dc>cem e acabam mal e com desuenturadp fim seus dias.
E asHi nesta presPnte obra Egisto, que era adultero viuendo
pt•rmanecendo em vicio sem se q uercr dt:'lle apartar,
foy a punhaladas por OrcstPs morto, que outra cousa he
L. 2. alguii-8. vnha-10. o-1-t. cumo-18. philofus-19 . .Io-
trina-20. cle-23. senão-2-1. vsurpar-25. pertêce-28. daquele.
31
se nam os maos ensistindo em sua maldade nam poderem
acabar em bem: e por Clitennestra molher del Rey Aga-
menom conhecemos de 'ltuLnta culpa sam dinas, e quanto
mal pera si buscam e causam a outrem, as que de taes
excessos e dilictos sam cometedoras: e as si pello contrairo 5
<li nas de eterna memoria c grande louuor, as que sempre
ham veuiuo bem e onestarneute cada hua em ::;;cu estado .
.A.ssi, muy manifica senhora, que considerando esta obra
trazer algu fi·uito, quis a Y. S. deregila, per a que as
pessoas que a vissem se enclinass<>m e rnouessem a lela, 10
vendo que pois me eu atr<>uia a clla ha entitular, que nam
podia deixar de me parecer 11ue traria doutrina aos que
a lessem, com aquella entençam e aquelle fim com· que ho
este e outrog poetas escreueram, os quaes sam espelhos
de exemplo pera os que querem euitar e fugir os maos 15
prineipios, donde poucas vezes ou nunca nos socede bem,
c imitar seguir e abraçar os bõs, dos 11uaes ainda que hem
nos nam venha neste mundo, ja nam se da culpa por os
eumeços serem rnaos, e ao fim 1p.1ando nos neste mundo
nam f'am galardoados, Deos c1ue he bom e justo por elles 20
da na outra vida a gloria: a qual tenha por bem de dar
depois de rnuytos annos de viua a vossa S.
A n1orte de Agamenom.
Qmmtlo os Gr(lgos, manifica s<>nhora, qu(lriam passar
sobre Troya por amor da roubada Ylt·na molher de :\Ie- 25
nalao que de Grecia ajuntaram seus <>xerci-
tos em Aulidc, onde el rey Agamenom yrmão de
matou h lia SPrtm de I >iann, que naquellc tt>mpo tinham
por cleosa, nam sa hendu que era sua: mas c listo nfiê>IHlida
Diana 1p.w tinha po1lPr suhro os YPntus, nmn lhes quis .
dar hom tPmpo ate 11ue lhe sacrificasst:nu a
L. 2. Clitl!nestra-6. «lynas-10. vissen-17. rlos quaes] dos
(?) qea-25. Ylena-23. seruaJ leia-se cerna (Electra, v. 5G8J.
32
filha de Agamenom e a matassPm em seu louuor: e como
quer que os Gn•gos tinham grandes desejos vingarse
da injuria a elles feita por Paris troyano, filho dei rey
Priamo do Troya, eonsentiram em ho por Diana a elles
5 podido, e mandaram pedir Yphigenia a Clitennestra sua
mãy dizendo a quPriam casar com Archiles, a qual
foy louada a AulitlP-, onde os Gregos estauam, por Cliten-
nostra sua mãy: o YPntlo pera que auium leuado que era
pera sacrificala a Di<ma, comPçou aborrecer Agamenom
10 seu marido, e por isto c por a longa tardança da guerra
do Troya deu lugar a Egisto que muyto a amaua, de cum-
prir sua vontade, e ,·iueo com Pile em adultorio, atn qm"
passados dez annos Troya foy dPstruida: tornando pois
Agamenom a Greeia venecdor, Clitennestn• lhe deu hua
15 yestidura sem alwrtnra por onde pod0sse tirar a cabeça.
A qual vestindo Agamenom achandose embaraçado com
ella, Egisto sayo de hii lugar C'SC'ondido donde cstaua,
e ellc e Clikmwstra ho mataram: e ficaram filhos de
Agamenom que ouue em ClitennPstra: Orestes que era
20 ainda nwnino de pouca ydade, e duas suas yrmãas Elecha
e Chrisott,mis. E Egisto C' ClitPnnestra queriam matar a
Orestes, porqu<' nam fi<'nsse quem podesso vingar a morte
de seu pay Agamonom. ElPcha que ho soube, o li-
urou de morte, c o den a hii bom home que ho criasse
25 escondido. Ho qual ho leuou a citladc de Crissa, e alli ho
criou o ensinou de tal mmlPira eomo a filho de Agame-
nom pC'rtencia.
L. 5. pcdindo-9. para-12. ella-17. Egysto-20. jrmãs-
21. o (2.
0
).
33
Argumento da presente tragedia.
Seendo Orestes de ydade pera poder vingar a morte
seu pay Agamenom, tornou a donde estaua
Egisto e Clitennestra a seu vicio. E trouxe consigo ho
ayo que ho auia criado, e a Pilades hü mancebo que 5
era seu especial amigo. E ho ayo se como mensageiro
que era mandado a Clitennestra de hii seu amigo, cha·
mado Phanoteo, com nonas que Orestes era morto. As
{1uaes ella creo. E da hi a pouco chegou Orestes e Pila·
des com hua arca cnherta com pano negro fingindo vir 10
.dentro ho corpo de Orestes defunto. E com isto ouueram
lugar de entrar seguros em ho pac:o real, e mataram a
Clitennestra: e despois saindo toparam com Egisto, h o
qual tambem mataram. E assi Orestes vingou a morte
de seu pay liurando a Elecha sua yrmãa de muyto ma 15
vida que lhe danam Clitennestra e Egisto, e de enfindas
lagrimas que choraua cuidando qu<' era morto.
Interlocutores.
AYO. ORESTES. PILADES. ELECHA. CHRISOTEMIS. CLI-
"TENNESTRA. EGISTO. CLil\IINES. ETHRA. Estas CLIMINES e 20
ETHitA sam duas molheres que acompanhauam a ELECHA.
L. 5. o-10. arca] caixa.
Sena primeira, en1 que se contem
. .
AYo. ÜRESTES.
AYo Aquestes, Orestes, sam 1
campos de Grecia chamados:
descance teu coraçam,
})Orque de todo seram
teus desejos acabados.
E aquella gram cidade, 2
que dessoutra parte ves,
he Arguos de anteguidade
e do grande potestade:
e olha ca h o reues:
E veras hua espessura ·
por esta parte estar soo,
que he ho bosque de Yo,
que cobrou sua figura
no Nilo feito de poo.
E a tua esquerda mão
aparecem htis edificios,
honde os sacerdotes vão
dApollo com deuac;am
a fazer seus sacrificios.
3
4
36
Reconhece pois agora
a cidade de
bonde a tua alma mora:
e descancPm nesta hora
tuas fadigas e penas.
Porque esta he aquelln, 6
onde os teus pensamentos
sempre tinhas sem cautela:
e pois te ves apar della
acabem ja teus tormentos.
E aqui foste liurado 7
por Elecha yrmãa tua,
tlaquelle tretlor maluado
de Egisto reprouado,
que tp, dera morte crua.
Deuteme que te criasse 8
com lealdade e amor,
e bõs co::;turnes te ensinasse,
c que sempre te animasse
que fosses bom vingador:
Da morte tam sem rezam, 9
que por tua mãy foy dada
a teu pay Agamenam,
e com muy grande treiçam
por Egisto ordenada.
E aquella principal 10
casa que ves torreada,
he honde se faz ho mal
da morte tam desigual
que Agamenam foy dada.
37
A qual çuja acharas 11
com h o sangue de teu pay:
e logo ho vingaras,
de que gloria ganharas
matando a tua ma y.
Teu animo exalça agora, 12
cuidando quanto te obriga
a virtude que em ti mora,
pera vingar nesta ora
morte tam m&.l merecida.
Acordate das feridas 1 ~
flue assi lhe foram dadas,
e das glorias tam sobidas
pollos tiranos auidas,
fjUO por isso tem ganhadas.
E teras atreuimento 14
de comprir tua ('mpresa,
pois que tees tam bom cimento
reuolue em teu pensamento
htia tam grande crueza.
Esta n9ite he ja. passada, 15
e ho sol quer sayr ja
a comprir sua jornada:
e aqui nossa estada
pouco proueito nos da.
Tambem ho tempo nos falta 16
pera conselho tomar
nesta empresa tam alta:
e pois que Febo se esmalta,
ser a bom determinar.
38
Olha pois com gram prudencia, 17
que ha breuidade do tempo
h e remedi o a deligencia:
nisto ha muyta negligencia
nunca faz bom fundamento.
ORESTES O ayo muyto amado, 18
por cuja doutrina espero
a meu pay fazer vingado,
e exalç>ar meu estado
nam cayndo em nenhum erro:
Corno a pay tP ey de amar, 19
pois como a filho me amas:
e em teu amoestar
bem me das a demostrar
que meus imigos desamas.
Teu conselho diligente 20
he a meu contentamento,
pois minha honrra he contente:
e mais me he pertencente
conselho que ardimento.
AYo Conselho nam faltara,
segundo tenho cuydado:
creo que muy bem sera,
que a estas casas Yaa
per a ser mais anisado:
e aos tiranos yrey,
como que sam mensageiro
e que es morto lhe direy,
e com isto fingirey
ser em todo Yerdadeyro.
21
22
39
O qual elles bem creram 23
d.e tu- s.eres ja finado,
e de ti descuydaram,
e nam- ficara em vão
aqueste nosso cuydado.
DRESTES mim ysso bem p·arece, 24
ayo, pcra auer entrada:
e aos tleoses aprouuesse
que verdade se fizesse
essa morte desastrada.
Se me ouuesse destronar 25
a fortuna muy cruel,
pois que soe de contrastar
aos bõs te os matar,
c aos ma.os h e fiel:
porem en em deos confio 26
pois que he tam poderoso,
(1ue nam mP dara df!suio
pera me sair valdio
meu desejo desejoso.
Porque a elle nam lhe apraz 27
h um feito tam ma o e visto:
clle me fara capnz,
e me clara assaz
pera me vingar de Egisto.
Pois em tanto que eu for, 28
cobri hüa arca capaz
com hu negro cobertor,
porque pareça milhor,
(fUC ho morto dentro jaz.
40
E quando vos parecer 29
que compri ho meu mandado,
ambos com grande saber
podereis yr e dizer
ser este h o corpo passado:
ho qual lhe he enuiado 30
de algu amigo delle
pera ca ser sepultado,
que assi ho deixou mandado
em seu testamento elle.
Desta maneira podeis 31
muy bem seguros entrar,
vossos imigos vereis,
e delles vos podereis
a vontade bem vingar.
ORESTES Todo assi se comprira,
como nos aconselhaes:
e a deos aprazera,
que ninguem nam olhara
em estes nossos ~ i n a e s .
32
l\Ias 111e te a ti aprouuer, 33
primeiro ao templo )Temos
aos ueoses nos ofterecer,
e como pera oft(lnder
ysto nos h o nam fazemos:
e despois tu tornaras 34
fazer ho que he acordado.
AYO Vamos, e tambem voras
ho sepulchro, fim que acharas
teu pay jazer sepultado.
Sena segunda, em que se contem
ELECHA. ÜLIMINES. ETHRA.
ELECHA O lumes, terra e ar, 35
c1ue no ceo resplandeceis,
Yinde a testemunhar
minha pena e meu pesar:
e dizeyme se sabeis,
nte quando durara 36
minha vida atormentada,
e quando se acabara,
porque me desejo ja
della ser cedo tirada.
Ja nam ha gentes que sintam 37
estes meus tristes gemidos :
e as casas donde abitam,
os lauores se despintam
com lagrimas de meus gemidos.
Que conforto posso ter, 38
pois estou antre estas dores:
quem me pode guarecer,
porque ja qualquer prazer
me da penas muy mayores.

-J2
l\Ieu pay despois que vcnceo 39
os Troynnos em crua guerra,
seu nome esdareceo,
como que muyta honrra deu
a Grecia, s na terra.
E ao tt>mpo que vinha 40
a sua casa folgar,
do trabalho que sostinha,
e que ja passado tinha,
polia terra e pollo_
Como aquelle que aportaua 41 · · T
no porto ele seu descanso,
onde ellc usperaua
que a gente que saluaua
h o seruissem sPm ter canso:
-:\linha mãy com qut:>m queria 42
comunicar sua gloria,
ho mntou com gram falsia,
t•m quanto elle queria
r se, sem ter memoria:
Do grande amor, que lhe tinha, 4J
sem nenhua falsidad<'.
Dize, ho molher nwsqninha,
porque foste tam daninha,
chea de tal crm·ldade.
E tu, Egisto, nmcido
ele amor tam abominahle
esteueste apercebif1o,
em hl"ia camara metido,
pera dar morte
43
O padre meu, que nas cruas 45
guerras foste vencedor,
nam temendo espadas nuas,
foste em as terras tuas
morto por este tredor.
Ay que os maos nam ofendem, 46
se nam onde nam ha confianç_a,
e ally sua yra estendem,
e a muytas gentes vendem,
sem nenhl\a temperança.
O madre minha, tredora, 47
a quem n<'nhua reuerencia
deu o, pois es matadora:
eu chorarey cada ora
tua pouca violencia.
Pois somente me pariste 48
pera chorar teus maos feitos:
dize ho que em meu pay viste:
pera sempre serey triste
por sQr criada a teus peitos.
Como podeste matar, 49
a q nem tanto te amaua,
e outro foste tomar:
mas ello te (ll'U lugar
porque de ti confiaua.
E nam quizeste olhar 50
ho inferno aparelhado,
pera os males castigar:
as penas que te ham de dar
por cometer tal pecado.
44
Nam viste ho merecimento 51
de meu pay Agamenam:
mas com maldade, sem tento,
a. mi deste gram tormento,
a elle morte a trei<;am.
N am olhas to a orfandade 52
dos filhos que deli e tinhas:
nam olhaste a lealdade,
nem as leis de castidade,
nem menos lagrimas minhas.
Deuia tomar vingança 53
todo genero humano
em ti logo sem tardança,
pois que sem ter temperança
offendeste ho soberano:
Em corromper foramente 54
as leis do ajuntamento,
em que todos juntamente
com amor muyto foruente
conseruam ho sacramento.
Inda que por outra parte 55
teueste algõa rezam,
nisto quero desculparte
de matares com tal arte
a meu 1)ay Agamenam:
que nam eras merecedora 5 ~
de tu teres tal marido,
nem deli e seres senhora:
e maldita seja a ora
que ho ouueste conhecido.
45
O Agarnenom, pay meu, 57
pay desta desuenturada,
que mais lagrimas verteo,
que tu verteste sangue teu,
quando a morte te foy dada:
se me visses tu agora 58
em seruidume tam forte,
nam se penaria a ora,
e a dor de tua morte,
dor de que minha alma chora.
A tua filha verias, 59
a qual tu tanto amaste,
que aborrece os seus dias,
porque orfãa a deixaste,
metida em taes agonias.
V eriala mal tratada, 60
por te ser muy piadosa,
de minha mãy desprezada:
veriala muy chorosa,
no coraçam lastimada.
Nam quero por terte amor 61
desejarte neuhü mal,
nem que vejas minha doi·,
a qual he tam desigunl,
que narn p o d ~ ser mayor.
V Pjo eu, desuenturada, 62
a Egisto teu reyno herdar:
e tua camara honrrada
com teus vestidos husar
com Cliteunestra maluada.
46
Em sua cabe<:a vejo 63
a coroa que foy tua:
e as mãos, que com desejo
te deram morte tam crua,
trazem ho ceptro sem ter pejo.
As quaes por mais crueis ser 6-l
ho meu sangue nam derramam:
bem h o querem inda verter,
porque muyto ho desamam,
sem do mi piadade auer.
Say, furias infernaes, 65
pois nam ha misericordia
em as gentes terreaes:
tirayme desta discordia,
Jlera que nam viu a mais.
Empregay a crueldade 66
em homes tanto danados,
que se saiba de verdade,
que vos fostes ordenados
pera vingar tal maldade.
ÜLUIINES Elecha, nobre donzclla, 67
chea de zelo muy sancto,
bem Yemos tua querela,
o quem causa este teu pranto,
e quem he a causa della.
Em te perder soo a ti, 68
teu pay muyto mais perdeo
que a vida, pois assi
ho tmr amor conheceo,
que. lhe teueste ate qui.
47
E os tam crueis tiranos, _ 69
que h o mataram cruamente,
nam fizeram tantos dannos
em ho matar duramente,
como em te ser humanos.
Peço a deos com affriçam, 70
que seja tal seu cimento,
que fartes teu coraçam
em veres seu perdimento,
perdimento com rezam.
1\Ias tu, senhora, antre tanto 71
algu remedi o procura:
cesse ja esse teu pranto,
nam te vas a sepultura
com tam terrible quebranto.
Que naru as de peruerter 72
tu as leys de natureza
com teu chorar e gemer:
mas antes tua tristeza
com ysso ver as crecer.
ETBKA As lagrimas cessem ja,
renoua teu coraçam:
e a teu pPsar fim da,
porque com ter mais pai..-x:am
ho remedio nam se ha.
73
De ti ho pesar desuia, 74
os males de ti desuara, _
espide toda agonia,
porque _nos em -tua cara
recebamos alegria... - : ·"'
48
ELECHÃ Y rmãs minhas, muyto 75
que assi me aconselhaes,
vossas palauras olhadas,
e ho conselho que me daes,
he de bem aconselhadas.
Porem ho acordo milhor, 76
eu nam sey se sarn discreta:
estando neste ardor,
he seguir home a praneta,
que lhe da h o alto senhor.
Porque a minha me condena 77
pera chorar e gemer,
resistila he mayor pena,
pena num per a sofrer,
e hua dor nam
Pois deixaime a mi fazer, 78
como fazem os doentes,
que desejam de beber,
nam olhando inconuenientes, •
que lhe podem recrecer:
Que ham por milhor gostar 79
daquolla agoa saborosa,
que polla vida esperar,
a qual esta perigosa
pera se assegurar.
E eu antes chorar quero 80
esta morte desastrada,
que a vida que espero,
nam sendo por mi chorada.
com este pranto tam fero.
49
Rogouos, que me digaes, 81
autos que me dar conforto,
que lagos ambas cuidafls
que eu tenho em meu corpo,
pera que nam chore mais.
Onde se hão de agasalhar 82
as lagrimas de meus olhos,
per a deixar de chorar,
pois que me saem aos molhos
sem as poder reti·ear.
Tambem quê capacidade 83
posso ter dentro em meu peito,
pera reter
de gemidos com dereito,
desta tam grande maldnde.
Os quaes despois de saydos H-1
os ares abafaram
com soma de alaridos:
auey de mi compaixam,
e f<tzey prontos ouuidos.
E nam me queiraes tapar 85
estes meus respiradores
do fogo, que he sem par,
que me causam tantas dores,
quaes nam saherey contar.
ETHRA Pois quo assi te apraz, HG
dize, se tees esperança,
ou se remedio te traz
d0 algua confhmça,
que em tua alma jaz.
GO
Pera que nos a
com verte alegre algu dia,
porque ja desesperamos
de te vermos alegria,
ho que tanto
ELECHA Sosteueme a esperança
de Orestes, meu yrmão:
mas a minha maa antlailça
causa tanta dilaçam,
dilaç:am com tal
RTHRA Pois nam a dcixos passar. 89
ELECHA l\fuy dura cousa seria
de me eu ja confiar,
de quem assi me queria
com dilaçam enganar.
Porque C'sta minha ydade 90
ja companhia,
c nam Psta orfandade:
P filhos jn ter (knia,
e sayr de' escuridadP.
Tambem receber conforto 91
com vinda do meu yrmão,
ho qual creo ser ja morto,
que esta sua dilaÇam
mo da muy gram desconforto.
Temo que de mi nam ache, 92
se nam os ossos somente,
c que a morte me despache:
que juro certamente,
quo a ella nam me ngachc.
ETIIRA Y do, nam creo: se narn
q nP muy cedo ellc vira, _
a liurarte de paixam:
e se narn, C'llc errara
fazendo doutra feiçam.
Porque tu os tnl
qun mereces todo hem,
com vontadP muyto sãa:
om dcos tem,
que tn sayra vãa.
93
ELECIIA Muyto me hc obrigado 05
a mim .Orestes, de sorte
que clle por mi foy liurado,
quercnclolho dar a morto
aq uelle Egisto maluaclo.
Eu ela morte h o tirny:
c tcndoo assi tirado
logo a crialo cley
a hu velho muyto honrraclo,
l' muyto lho oncarrcguC'y.
O yrmão, o yrmão mou, 97
pois te liuroy do perigo,
alombrete ora ou,
nam me enemigo,
pois padeço pollo teu.
Eu bC'rn posso ser cham:<tfla !>8
tua mãy muy·vcrdadeyra,
pois que por mi te foy dada
tocla tua viela inteyra,
sondo da mortC' liurada.
Tu tces por mim h o prazer, 99
e h o prazer por mim h o tees:
vem me, vemme socorrer,
dize, por que te detees,
que ja me nam vees a ver.
Tees minha alma desterrada 100
de meu corpo onde estas,
Yiuendo atribulada:
vem, vem o satisfaras
a esta yrmãa tam
1\Ias eu me tenho por paga 101
com a gloria de ho ter feito.
CLHIINES O senhora, acaba, acaba,
nam sejas pera teu peyto
hua tam cruel adaga.
Nam te ocupe o pensamento 102
em cousas de tanta dor:
toma algü contentamento,
o qual te sora
tomares tal tormento.
ELECHA Como podPrey falar 103
eu se nam neste meu mal
por algo desabafar:
que cousas doutro metal
mal me poderam fartar.
Vendo quo ey de scruir, 10-t
a quem a meu pay matou,
c quP ho veja residir
t•m os n•ynos quP deixou,
e os seus panos vestir.
53
E minha mày me aborrece, lOá
por(1ue sam tam piadosa:
em os males preualece,
c mo he muy rigurm;a, ~
minha f<'e uam ho morece.
ETHRA Coraçam te deu natureza, 106
e olhm1 e formosura,
e saber, que he gram riqueza,
e outros dões de natura
que pertencem a tua alteza.
l\Ias eom dares tcmtos ays 107
os corromp<'s com g<'midos.
ELECHA Ü:-5 dõos, q uo sam naturacs
p(lra outros sam amigos,
e a mi danmnme mais.
Olhos, pera que os quoro, 10>;
nem pera que quero ver,
pois hum yrmão, a que espero,
fortuna mo ha de deter,
c de vello desespero.
Vejo minha rnã y d ~ r m i r 1 0 ~
com seu adultf'ro Egisto,
sem ninguem lho empidir:
pois os olhos que vem ysto,
p0ra que querem seruir.
Vos outros milhor ostaes, 110
a quem os olhos falecem,
que eu dando tantos ays,
c os que douuidos carecem,
Jlorque meu mal nam ouçaes.
54
Porq uP eu, se a . : : ~ s i mo Yira, 111
ho mal nam mo fora mal,
se nam Yira nem ouuira.,
minha. pena desigual
ao menos num sintira.
CLil\IINES Di, senhora, sabes curto 112
que nos nam podem ouuir:
Egisto, que estumos perto
donde elle soe dormir,
nam ou<;a nosso concerto.
ELECIIA O dona, minha umiga, 113
do Egisto nam ey tC'mor,
que cm elle mo dar a Yidu,
se me acrecentu u dor,
e se me dobra a fadiga.
Quanto muis que meu falur ll!
hc com muyta munsiclade:
o elle foy a caçar
la bem fora da ciducle,
porem oje ha de "tornar.
ETIIRA E Orestes, yrmão teu, 115
sabC's onde' estara.
ELECHA Em:Crissu creo que esta,
e mil Yezes me escreueo,
que cedo ·dra de la.
PC'ra comprir meu desejo 116
sua Yinda desejada:
porem eu inda nam yejo,
que eumpra a esta jornada:
eu não sey que lhe faz pejo.
55
ETHRA Senhora, tem confiança, 117
que vira muy certamente:
e que esta sua tardan<;a
he pera mais fortemente
te dar inteira vingança.
Sena terceira, etn que se conte1n
ÜHRISOTEMIS. ELECHA
1\Iuytas eom cuydado, 118
yrmãa, te PJ rofluerido,
e com lagrimas rogado,
que este teu pranto crecido,
ja por ti fosse deixado:
e vejote eu agora 1 W
por elles em mais paixam:
rogote, yrmãa, senhora,
que tomes consolaçam,
nam te sejas matadora.
Pois se assi vai desta sorte, 120
Egisto esta indignado,
a te dar prisam mny forte,
por Orestes ser lim·ado
por tua mão de crua morte.
Peçote, yrmãa, por tanto, 121
que df' todo cesse ja
este teu crecido pranto:
pois remedio nam se da
chorares com tal quebranto.
57
Ei.ECHA Cbrisoternis, bem parece, 123
quam pouco tces no sentido
este pesar tam crecido,
que em desfalece
meu cora<;am aborrido.
Tambem nam posso deyxar 123
esta minha grande.> dor.
Tu nam deyxes o pPsar,
mas tira do fura a cor,
quo te podera danar.
ELECHA O fpwm fnzelo 121
mas dizem la hu primor,
ho qual he, SP nam nw esquece:
Liuiano es el dolor,
que de fora no paresce.
CHRISOTElii:o; Pois, Elecha, eu te digo, 125
q no h o deues de guardar
pera tempo sem perigo,
que se ho queres mostrar,
Egisto he teu cnemigo.
U.-gete com 126
amansa tuas querelas,
que os que vão com tempestade,
tiram a mor parte das velas,
por yr com seguridade.
Uecolhe tuas querelas 127
dentro em teu cora<;am:
e nam to enganem ella s,
e te deitem em pcrdi<;am
dandolhe todas as velas.
58
Nos c.leoses tPm 128
e n:tm te Yas a perder
com tua desternperan<;n,
porque auendo ahi bonan.;a
bem lhas podes estondL'r.
ELECIIA Teus conselhos, yrmãa m!nha, 12n
pcr<t en tomar prazer,
bem escusados os tinha:
o por tanto as de saber,
q ne a morte me ho mezinha.
rera ti gua.rda os prazeres, 130
leyxamo a mi chorar:
que de mija nam esperes,
que leyxe este pesar:
tu os toma, se poderes.
Porque tu fazendo assi, 131
de todos seras seruida,
acatada e temida:
e eu estarey aquy
maldizendo minha vida.
Tu comeras mil manjares, 132
quo te dem consolaçam:
eu estarey na prisam,
comendo tristes pesares,
bebendo grane pai..'\:am.
Dormirey na terra dura 133
sem do mi terem lembrança:
pois tenho tanta tristura,
queira minha boa andança,
que mo va a sepultura.
59
Entam tera companhia 134:
minha alma a do pay meu:
e entam lho mostraria,
como mouro pollo seu
recebendo alegria.
Pois vay tu, yrmãa, agora 135
este conselho vão:
o dize a tua senhora,
que abi'euie esta paixam,
o nam ando de ora em ora.
CnRISOTEi\IIS Pmbaixadas tttes
nam desejo de fazer:
mas vede se me mandaes,
o que omterdes mister,
ou necessidade tenhaes.
ELECIIA N am esta em tua mão
podcrnw remediar.
ÜIIRISOTEI\IIS Por eRsa art(l em vão
logo aqui h o meu tardar:
porem meu conselho h c são.
136 \
137
am me quero mais deter
ELECIL\.
CHRISOTK\1 IS
ELECHA
ÜHRISOTE:\118
ELECIIA
contigo nesta contenda:
pois nam te vejo prazer,
Yon lcuar minha offrcnda.
Ofti·enda de quo ha de ser.
:\Iuy ricos perfumes sam. 13U
E por quem se ham de queimar.
A honor de Agamenam.
He modo de celebrar
sua morte com trei<;am.
fiO
CtllUSOTEl\llS Sua yra quer aplacar: UO
e por ysso lhe ofttlrece
taes clwyros per a queimar,
porque diz que lho parece
em foguras dospantar.
Pollo qual esta ·espantada, 141
de ·noyto nunca repousa,
viue muy atribulaua
com tacs visões, que nam ousa
dormir desacompanhada.
ELECHA Y rmãa, as grandes mahl:ules 1-!2
dias sam as vingadoras
de taos torpes torpitladns,
recrecendo a todas horas
aquessas taes nouidades.
Trazendo no p('nsamento 1 !3
a maldade cometida,
que lhe do grane tormento,
nam tendo ~ e g u r a Yida,
nem em si contentamento.
Qtwndo vf'lam, tl'ffi tristeza, 144
quando dormem, sobresaltos,
sonham]o sua crueza.,
de temor nunca sam faltos,
nem lhes val sua riqueza.
E andam acompanhados 145
contino de gram temor:
o qual tem este primor,
que nunca d.ey:xa os culpados
descuydar de seu error.
ül
No pezar os acompanha, 14G
no prazer os traz cercados
de milhares de cuydados,
que nunca os desacompanha:
as.si os traz atormentados.
Assi nossa mãy agora 147
com ho medo, que tera
de ser ella a causadora
dP. tanto mal, cuydara
do que he merecedora.
Sempre tera seu sentido, 148
honde sabe que meteo
ho corpo de seu marido,
que ella nam mereceo,
que della fosse querido.
Vendo sua gram falsia, 119
do olhar pera os ceos
como tera ousadia:
onde sabe que esta deos,
que todas as cousas guia.
Pois eu, dosaurnturada, 150
ja nam tenho a que olhar,
-se nam como foy maluada
em a nosso pay mata.r
do morto tam atr0iç:oada.
Eu te rogo, que a maneyra 1!,1
desses sonhos tu me digas.
CHRISOTEl\IIS Esta noyte derradPyra
esportou com mil fa(ligas,
q u ~ ' lhe danam gram canseyra.
G2
Com gram dor de cor:u;::nn 152
osportou aluoroçada,
dizendo com gram paixam,
que ella vira Agamcnam
nhua fonte ensangoentada.
E daqu0lla agoa hnbia 153
com muyto grantlo roydo,
ho qual vinha assi fc1·itlo,
como foy na terra fria
1lespois d0 m o r ~ o metido.
Ex a causa principal. 15-l
porque vou a sepultura
com encenso e mirra tal,
pera ver se tera cura
0sta paixam desigual.
ELECIIA · A morte nam he ligeirn. 155
-cousa pcra perdoar:
posto que nossa mãy queira
com cncenso h o aplacar,
busque, hnsq uc outra mannira.
v ayte tu o m ~ r e c o r
as offrendas que louares:
que cu me quero retraer,
cercada do mil pesares,
apartada de prazo r.
15G
Sena quarta, mn que se contetn
Avo. ÜLIMINES. ETHRA. ÜLITENNESTRA.
Avo
ÜLUIINES
Avo
Cr.IMINES
Avo
Dizey, senhoras honrradas,
nam mo negueis ora isto,
se sam estas as moradas
de vosso príncipe Egisto.
Estas sam suas pousadas.
Fazcyme tanto prazer,
que me digais qut>m lw esta
tanto pomposa molher.
He a l'lenhora Clitennestra.
Comprido he meu querer:
157
1;)8
Que a ella Yenho buscar, 159
pera lhe dar hü recado,
com que muyto ha de folgar:
senhora de gram estado,
queyras me ora escuitar.
Phanoteo, teu amigo, 1 GO
por quem eu sam enuiado,
por seruiço assinalado,
to manda dizer comigo
ho quP sern declarado.
64
CLITENNESTRA Dizome ora essa embaixada, 1G1
pois he do tanto prazer,
que por mim he desejada.
AYo Senhora muyto prezada,
tu aum·as de saber,
que Orestes, que ja crecia 162
em grano e for<;: a e poder,
per a mayor magoa ser,
a quem lhe algu bem queria,
cruel morte fqy a uer.
E sendo ja em ydade,
pera que fosse temido,
a morte sem piadade,
sendo j a varam crecido,
ho matou com crueldade.
163
Estas sam mais prazentoirns 164
nonas que mandar podia.
CLITENNESTRA Nam sam se nam lastimoiras,
fora de toda alegria,
nem tu tal cuidar nam queiras.
Quem se nam cre, nem se vio, 1G5
que hua mãy tomo prazer,
com morte do q lWm pari o:
mas antes sinto crecor
o amor q no 1le mi partio.
Porque eu agora ho sento 1GG
sayr, que estaua escondido,
como qunndo leua ho n ~ n t o
n cinza, sendo crecido,
e fica ho lume ysento.
Pois tirado h o temor, 1 G7
que sempre a meu filho teue,
fica descuberto h o amo::.·,
que a mãy a filho ter deue,
de sua morte tenho dor.
Dons estremos me combatem, Hi8
hu ser segura da vida,
sem ter medo que me matAm,
outro morte tam dorida,
que o meu prazer abatem.
100
requere ter alegria,
e sua morte tristura,
muyto durar narn podia
que nam fosse a sepultura.
Milhor foy _ser sepultado, 170
antes que com mais tardanc;a
em ho meu sangue Yingado
morrera, tendo vingança
do por ello erro chamado.
Eu te rogo que me digas 171
ho modo de sua morte:
se foy em auendo brigas,
ou fazendo algua sorte,
ou sobre caso de amigas.
A YO Sey que os yllustres Yarões 172
com Orestes ordenaram,
tirando mil enuenções,
huas festas, e prouaram
sPus muy fortes coraçõPs.
5
GG
Ordenaram mil maneiras
. de exercitar as pessoas,
correndo muytas carreiras,
fazendo mil cousas boas,
nam lhe alembrando canseiras.
De todos ouue vitoria
Orestes sem auer falta,
tanto que estaua na gloria,
e sua fama tam alta,
que ficara por memoria.
173
174
Assi estaua no terreiro 175
posto em meyo da gente,
seu rosto como hu luzeiro,
tam claro e resplandecente,
como Yalente guerreyro.
Estando assi parecia 176
que era de todos senhor:
<' elle, que ho merecia
de todos com g-rande amor,
era olhado h o que fazia.
Olhauam Yelhos S{'U h'nto, 17i
mulheres sua mesura,
moços seu atreuimento,
damas sua fermosura,
dando gram contentamento.
E anelando campeando 1713
Orestes com seu caualo,
sua destreza mostrando,
tn.uto que nam scy lomwlu,
ho caualo apremando.
67
O qual muy afadigado
com a força, que trazia
de correr muyto cansado,
com quem ho assi regia,
cayo no chão estirado.
179
E sendo assi caydo, 180
tomou debaixo a Orestes,
e da gente costrangido
se aleuautou muyto prestes,
ficando Orestes tendido.
Parece que quis mostrar 1tl1
fortuna naquelle dia
seu poderio sem par,
aaquolla gram companhia,
em h o as si morto
As lagrimas foram tantas, 1tl2
como chuyua desigual,
ficando a festa tal,
quL' ho coraçam me quebranta
cuydar soo neste gram mal.
O qnal logo foy tomado 183
pollos daquella cidade,
em arca encerrado,
e mandamto com piadade,
pera ca Sl'r sepultado.
Y s:-;o tem fortuna cega, HH
e aquosses smn seus feitos,
que ho quo com lâía mão rega,
quando estam mais satisfeitos,
com a outra mão os sega.
GR
Orestes cm fortaleza 1 ~ 5
creceo e Yirtutle e fama,
por se ver nelle a firmeza,
que ha em a cousa humana,
morrendo com tal presteza.
Agora sera milhor ll:$G
ortlenarlhe a sepultura,
que por elle tomar dor,
pois agora estou segura,
t>svedin·y h o tPmor.
Tu que foste mensageiro 187
daquesta noua tam triste
a Phanoteo, meu verdadeiro
amigo, dize, estrangeiro,
a paixam que em mi sentiste.
:Mas antes que caminheis; 188
quero que logo nessora
a Elecha esta noua deis,
v o ~ outras della sabeis.
ETnRA Na c amara ficou agora.
Sena quinta, etu que se content
ÜRESTES. PILADES. AYo.
ORESTbS Pois que compri,lo auemos 1R!l
h o que nos co1mem fazer:
aquy meu ayo esperemos,
pera ho que passou saber,
e como nos disser, faremos.
PtLADES Eu tenho tal confiança
em sua muy sabia lingoa,
que os pora em descuidança
que nam cayamos em mingoa
de tomar nossa vingança.
Por tanto esta aparelhado
com teu animo muy forte,
como varam esforçado,
nam se <>strmw por maa sorte,
ho que tces tam desejado.
ÜlmSTES Como cres qtw mfl entrara l!l2
fraqueza em meu
Yendo, como assi esta
este rPyno, tanto ha,
em alhea sogeiçam.
70
O qual he a. mi deuido,
e tirado por maldade:
(1 uando cuydo em meu sentido
hua tam gram crueldade,
fico em mim esmorecido.
Quando olho os aposentos,
d<' que eu era senhor,
sendo meus proprios ysentos,
vendolhe outro possuydor,
se me dobram meus tormentos.
Pois Yoluendo a cn,rdar
oncle esta meu pay enterrado,
se me dobra meu pesar,
desejando ser vingado,
não queria a ysso tardar.
Cnydando nesta maldade 196
cPrtamente me parece,
q tH' tem tam gram potestade
bo fogo, que em mi floroce,
q no arderia esta cidade.
E nam presumir, 197
que meu fraco cora<;am
me aja isto de em pedir:
mas quero aguardar sazão,
e ate meu ayo vir.
1\Ias antes deues de crer, 198
a honrra e ho amor
e desejo de me ver ·
Yingado deste trPdor,
tambem por ho meu auer.
71
Que nam me pode dl'ter,
nem he cous:t tam bastante,
ho desejo de Yiuer,
que logo em este in:o;tant('
h o nam :tj a de fazer.
Principalmente olhando 200
os feytos "que outros ff'zeram,
em mim estou desejando,
Ycndo que Yitoria ouueram,
tle a YingaiH;a yr começando.
Nem ha dP quem recear, • 201
pois tP lcuo em companhia,
c s<'y que nam as dl' faltar,
IH!m mudar a fante:-;ia,
mas a Yida auenturar.
PILAUES X am sahcs que ::nnizadP 202
nos tPm assi ajuntados,
que nenhfia aduorsidadc
nos pod" ter apartados
hü momento om cantid:ule.
Tua ,-outadc he a minha, 203
<'U lw cplP tu sc•ntes,
tal que a alma mo adPuinha,
ctne nam ha inconucnientes,
por tal seguro caminha.
Tem de ambos tal confiança, 20!
qual mesmo tct:>s de ti soo:
pesamo em qualquer balnnc;a,
o nam aj:ts de mi doo,
mas em mi tem
-·)

Que eu Jarey de manf:'ira, 205
quP nos nam:falte vitoria,
tal que a nossa verdadeira
arnizad0 por memoria
fique a gente estrangeira.
OnESTES Pois te me deu por amigo, 206
fortuna nada me detw
do mal que usou comigo:
o meu coraçam se atreue
a mais estando
Porque se de algila sorte
nos vemos em apertura,
ou em perigo de morte,
Yendo a ti em auentura
seria dons tanto forte.
207
PILADES Certa cousa he que ho amor 2ClR
os conu;ões fortalece,
e lhes da muy gram fauor,
e por isso se acontece
a moor perigo se por.
SP dons amigos se Yern
nalgil perigo metidos,
duas vidas a cargo tem,
e tam bem em seus sPntidos
ambos trazer se conuem.
Entam a for<;a se esmalta 210
pera fazerem dobrado.
ORESTES Ora pois ja nam nos falta,
mais que o tempo ser chegado,
pera esta empresa alta.
13
Do ceo ajwia espero, 211
pois que em seu ,-itnpPrio
sf:' fez hu caso t a ~ n fero,
fi do cPleste imperio
vira Iw castigo mero.
E tu pois so es piadadP, 212
atar as mãos a Yinganí_;a,
soltarmas a crueldacle,
como rn tflnho esperanf_;a
pera Yingar tal maldade.
Se crueis, ,-endoas banhadas 213
no sangue de minha may,
. te parecerem untadas,
vendo h o que deu o a meu pay,
piadosas seram cJtamadas.
Principalnwnte que ella 214
perde ho dereyto deuido,
pois se maldiz com quPrela
por me auPr concebido,
pollo qual desejo Ycla.
AYo Dizey que fazeis aqui, 215
se quereis antecipar
este caso que hordi.
ÜRESTES N am: mas Yimoste espc>rar
por nam errarmos a ti.
AYO Tendes a arca ordPnada 216
onde ha de ser fingiclo
com maneyra simulada,
que tPu corpo Yem metido.
ORESTES Ja esta bem auiada.
7-i
Porem dinos, tem la crido 217
as nonas de ser eu morto.
AYo Todo esta ja bem comprido:
e tua mãy com gram conforto,
com ho que lhe ey mentido.
Elecha faz muy gram pranto 218
com aquestas nonas taes,
tal que de grande quebranto
me Yim pera onde estaes.
ORESTES Ora nam tardemos tanto.
E tu vay a consolala 219
de seu pranto tam crecido:
a arca yremos buscala, ·
em que esta o corpo fengido,
e tambem logo leuala.
Sena sexta, etn que se conten1
ELECHA. ÜLIMINES. ETHRA. CLITENNESTRA.
CBRISOTEMIS.
ELECHA Que farey desuenturada, 220
onde me yrey escondPr
dos rnale:; dP!'ta jornada,
que me siguem ate morrer,
Bllffi delles ser apartarla.
Dizey, gentes, em quem mora 221
de contino piadade,
onde me esconderey ora:
dayme ajuda com verdade
contra a. fortuna tredora.
Mas pera quf- he demandar 222
ajuda contra fortuna:
pois que ja nam ha lugar
em meu corpo parte algua
per a ja ferida dar.
J a tem em mi consomido 223
e mostrado seu poder,
e meu corpo tam partido,
que nam ha onde offender,
assi ho tem tam ferido.

J a !'am linre ele sua mão,
pero com gram dano meu,
fezme o pensamento Yão,
pois por derradeiro deu
tal morte a meu bom yrmão.
Agora nenhüa esperança
tenho com nona tam triste,
desta morte e ma andança,
de pesar minha alma viste,
Ycr que nam tenho_ vingant;a.
Agora eom alegria
a ClitPnnestra e Egisto
Yerey falar cada dia
nesta morte, e com isto
crecera minha agonia.
Agora confirmaram
ho seu muy t;njo amor:
e Yingança tomaram,
em quem ja foy sentidor
de meu pay Agmnenam.
O soberano senhor,
que nos ceos tees a morada,
das injurias vingador,
onue a esta cuytada,
da remedi o a sua dor.
Tuas orelhas piadosas,
onde escondidas as tees,
com que ouues as chorosas:
e senhor, porque nam Yees
com tuas mãos muy )TOsas:
22-1
225
226 .
227
22H
77
Sobre estes taes mnluatlos 230
cal:ltigar sua maldade,
e seus nefandos pecados,
sem temer tua magestade,
tem quebrado teus mandados.
O senhor, nam pares mente, 231
que, num auendo castigo,
dam a entender a gente,
qtw nnm dones ser temido,
qtw gram inconnenit-mtL•.
Manda sobre tua yrn, 232
que teu poder
na terra, e ho rosto vira
que IJossam os homes ver,
que ho tPu poder OR gira.
Pois, senhor, es pod0roso, 233
onde ha toda verdade,
nam qut>iras ser IJiadoso
aos màos: mas sua maldade
· castiga com rosto
ÜLDIINES Sossega, sossega, senhora, 234
hu pouco tuas paixões:
nam cónsintas cada hora,
que em ti façam impressões,
nem te sejas matadora.
RLECIIA O como sossegarey, 235
pois que eu com meu mnor
a morte encaminhey
a meu pay e meu senhor,
porque tanto h o amey.
78
Meu 1)ay, a quem eu amaua,
foy h o que morreo primeiro:
·e meu yrmão, a quem esperaua,
deste amor foy herdeiro,
e de vello desejaua.
Ao senhor aprouuesse, 237
pois em amar sam desditalla,
que comigo eu podesse,
que de mi fosse amada
Clitennestra, e h o fezes se:
Com Egisto, e sendo amados 238
de mi fossem llestroydos,
e da terra desterrados,
e das gentes muy corridos,
pois tristes sam meus fatlos.
ETIIRA. Senhora, tem diseriçam,
onde esta tua mesura.
ELECH .\ Onde nam tenho paixam:
porem minha llesuentura
temme cego ho coraçam.
E riiRA Teus olhos volue a traz,
que ca nnn a mais andar
tua yrmãa, P poderas
com ella algo amansar
esta congoxa, em que estas.
2-!0
Nouas te quero yrmãa dar, 2.U
as mais a tua vontade,
que podestP desejar:
pois que tua
eu a vt--jo come<;ar.
79
ELECHA Que nouas pode hi auer 242
de descanço, ou de que sorte,
se nam ou uerem de ser,
as nouas de minha mortA,
que eu ja queria ver.
Que alegria pode entrar 243 ·
em meu peito desditado,
donde h e senhor h o pesar:
esta tam senhoreado,
que h o nam posso deixar.
CHRISOTK\liS Estas nouas sam, yrmãu, 2H
que On·stes he chegudo,
e chegou esta mt>nhãa.
ELF.CHA Nam viuo, mas st>pultado:
com sua cara sãu.
CHRISOTE!\IIS Vindo h e porque agora
no templo vi a sepultura,
em que nosso pay ja mora.
com grinalda a figura
que sobre elle esta de foru.
I
E Lo SPpulchro enrramado,
e cheo ele muytas flores:
nam sey quem seria ousado
dP fazer estes primores,
se Orestes nam for chegado.
ELECHA Ja Orestes nam yra 247
ver a sua sepultura,
se narn pera ficar la.
CHRlSoTEl\liS Nam tornes tanta tristura,
pois remPdio nam da.
80
Rr...ECIIA Em chorar sua morte tal
a tristura uam he muyta.
( iHRISOTEl\liS O caso tam desigual,
morto he.
ELECHA Si, com gram cuita.
CHRISOTE.MIS O morte, morte Iilortal.
2-!8
O mancebo desditado,
de quem ja se dependia
h o restaurar 110sso estado:
j a feucceo neste dia
ho de ti sempre esperado.
ELECHA Chrisotemis, tu as ficado 250
so, pera em ty olhar
com vontade, e de grado,
se me queres escuitar,
com sentido bem delgado,
que tu me podes tirar 251
de ter contina tristeza.
Bem podes yrmãa falar,
eu te ouuirey com firmeza,
se h e per a to alegrar.
Er...ECTIA Pois escuita atentamente 252
ho que te aqui disser:
como estamos juntamente,
e nam tenhas que temer,
das donas que estam presf'nte.
Bem creo teras sabido, 253
que ho pay que nos gerou,
que era rey tam valido,
sempre vontado tomou
tlP no:-; c lar muba:.-; marido:
81
E nos por em tal estado, 2G l
que fossemos mais sohidas,
que no muwlo fosse acharlo,
acatadas e seruidas,
Rem tt•r de nada- cuydado.
E agora, como tu Yes, 2GG
de contino ameac;aclas,
sayndo tudo ho reues,
do toclos mPnosprezadas,
nos tt.1m debaixo elos 1ws.
Eu te rogo com amor, 2M
que tu e eu com firmeza,
sem nisso· duuida por,
que tornemos a emprPsa
de matar este tredor.
Porque a nos mataram, 2G7
sP nos nam anticipamos:
P memorias ficaram
disto, Sf' ho acabamos,
clP qnP tomaram.
E assi seremos auidas 258
c.lt"' todos por PXCl'lentPs:
doutra sortP somos tidas
como mesquinhas sPruPntes,
por fim mortas P fnriclas.
N am te espantPs elo l!UP digo, 2G9
pois tua mãy, sPntlo molher,
tleu azo a sPu amigo
pera matar t•
a seu tam rPal marido.
o
E a q U<' m c lia detwra 2GO
tirar de si os seus nnnos
per a lhos dar, se poder a,
e nam causar tantos darmos,
como ma serpente fera.
Pois nos, porque nam teremos 2Gl
esforç-o pera os matar,
._- fazer ho que dPuemos:
e nam nos cumpre tardar,
JWra <tne isto
E se tl' a ti aprouuer 262
de me teres companhia
pera isto _se fazer,
m uy perto ternos a via
1wra consoladas ser.
CnHis• Donas, nobres e honradas, ::?G3
primeiro quero rogaruos
que nisto st:>jaes caladas.
ETITHA Em nos
. eomo Plll fit--.is f·ria•las.
CnHisOTEMI!'\ Nmn ho digo com ÍL'llÇ'am,
<fUP flP ho fazc·r,
'l un meu fraco coraç-am
uam ter a esse poder,
porque nam he de varam.
l\fas agora Pstou trenwn.Io, :!G5
q tw ysto nam a aut'ntado:
pois, responJerulo,
ao <t UP as amoPstadu,
ja pollo dito tentt>nJo.

83
Nossa ma dita bem Y0jo, 2GG
P tenho considerada:
a liberdade J.psejo,
o a vingan<;a desejada
busquemos melhor
Se em nos outras nam ouuora 2G7
pera ysso forças taes,
muyto hem me parecera,
que por famas ymortaes
-nossa ma vida so dera.
Nem somos acostumadas 268
de com as armas tratar,
nem seriamos ousadas
per a sangue derramar,
ficando desamparadas:
De forças e sem abrigo, 2G9
sem termos nisso mais fpito,
se nam pera auer castigo,
pois nam podn mwr etfnito
PstP c>aso como digo.
'Mil Vf'ZCS IDP veyo a Illflntfl 270
ter i(ll·tuna ho poJ..---.rio,
(1ue tem hua goram
que os qnt"' vam ao som do rio,
nadam mais spguranwnte.
E os que querem porfiar
naclar pollo rio arriba,
nam Pstam muyto st:>m cansar:
P assi a agoa os
que se querem afogar.

84
Pois tu tambem se quiseres, 272
contra a fortuna nam sejas,
porque se a obedeceres,
ho que desejas,
se h o tu as1li fezeres.
ELECHA Em ninguem nam ucho fe, 273
e ninguem j a num tem ley :
o triste, pois assi he,
a quem me socorrerey,
que algu me de.
(
1
IIRHWTEMrs N am se chama a fe fu]tar! 27-!
por te assi nam quer0r
ao que queres ujudar:
que h e lançarte a perder,
sem ho que queres, cobrar.
ETimA Clitennestra aqui vem, 275
por ysso calay, senhoras,
que Yos pode ou uir bem :
nam vos tome a de:o;oras,
com mais pmws vos dem.
(
1
LITENNESTUA Elecha, a deos aprouu0ssfí, 276
que este teu crecido pranto,
ja em rayua se YoluessP,
e em crocido quebranto,
qup tua vida fenecessP.
Tu nam deyxas passar ora 277
sem me dizer maldiç-ões.
P como filha trpdora
clizes mim os balJõps,
e a quP t>m ti mora.
85
DizPs (pte eu to ouuira,
foras bem aueuturada
c clizelo eu to vira,
se a morte desastrada
de teu pay om mi cayra.
278
Taes cousas nam ousariRs 219
dizer, se aqui esteuesse
Egisto, que h o pagarias:
mas se cedo ellc viPsse,
tirarmia de agonias.
ELECHA Pois faze que presto ,·enba 2,-1,0
o teu verdugo cnlf'l
matarme, e nam se detenha:
porque minha alma fipl
Pm isso g-loria tenha.
Pois a dyr pollo caminho,
q uP foy a de .Agamenam:
P ho nwu corpo nwsquinho
tt>ra gram consolaçam
t'lll ,·er, que he seu Yezinho.
CLI r ENNESTUA Fo_v como ollP nwrecPo,
pois assi tam cruel morte
elle a Yphigenia deu,
t' a Diana desta sorte
St'U corpo lhe offereceo.

ho maluado,
leu asse a triste donzela:
e que Archiles, ho esforçado,
queria casar com ella:
tendo la ai acordado.
E la me manifestaram 2k4
ho <flie tinham a.cordado:
e dos bra<;os ma tiraram,
e a Diana, sem meu grado,
logo a :-::arrificaram :
Dizendo ter em podPr
Diana todos os Yt•ntos,
}Wra os fazer det('r:
c que por premiu dos 1Pmpos
c1 uena seu sangue aucr.
"
Vendo qne nam se 286
por meu rogo de matar,
com ella Illfl
e lagrimas de }H'sar
com as suas nw:-;turaua.
Dos peitos me foy tirada,
e seu eolo do marfil
e garganta foy cortada
com cutl'lo muy sotil,
e a d.eosa sacrifiGada.
E ysto por mim olhado 288
com tPmor, cpte nam fpzf'sse
assi outro tal recado,
em os filhos que teuPsse,
foy milhor ser sepultado.
1\Ias aos deoses aprouuera, 28n
pois taes de ser,
que eu ho tal nam fpzera,
mas antes bem lhe querer,
pera <1ue a morte vos dera.
87
ELECHA "Muy facil com;a seria 290
saherte eu rcspo111le"
· mas a licença q ueri:t.
l>ize ho que (jUeres dizer,
farta tua fantesia.
Nam te vas a outro lugar, 291
onde com mais dano meu
te ponhas a praguPjar:
pollo qual te quero cu
atentamente cscuitar.
ELECHA J a tu sabes (pte estaua
cm A ulidP h o gram
dos Gregos, e nam passana
a Troya, .110r mtm YPntar
· ho vento quP :o;e csperaua.
2fJ2
E Diana dcmandon,
por premio dP lho d:tr t0mpu,
ho sanguP, que se outorgou,
lle Y phigPnia: .-' h o YPnto
ora logo ventou.
E nam foy ysto fpngido,
como tu dezias agora,
tt'IHlu pur creeido,
tlP ser Pila a
lle hu viagem ser compritlu.
nam podiam Haupgar,
Iwm a viagPm com prir,
nam he pera estranhar,
pt•ra <JUe podes sem yr,
a Y phi{?Pnia matar.
294

(:luP num era cousa hoa, 296
q li(' <.'m mais se teness(:'
a \·itla dL' hfia
<fHP a honrra e intPrPsse,
<[III' a gn•ga coroa.
PonptP PU ouni rlizor, 297
'luo leuandoa dPzia
nam tr•r t•m nada morrer,
pois ljiiO por dia potlia
toda lirt'cia honrrada ser.
N am 8f'J como dizes ora, 298
qnL' hia mHda a padf'<'Pr;
e posto <J I H' aflsi fura,
nam clPlH'ra dt' morrer
meu pay de morte tredora.
Fazt>s maa lt•y pPrn ti, 299
toclos gram culpa Íf' dam,
'1 Hl' despois <ln morto as si
ho tristP tJ,• Aganwnam,
mayor culpa ouue ahy.
A qual foy tu tl' ras:.r
com Egisto matador:
(3- das tamhem a df'mostrar
enc1•nd(•rte ho c;ujo amor,
pera isto se ordl'IHtr.
300
As si <lllf' minhas q twrdas 301
sam mny justas e fieis,
f' por isso fogfls lh•llas:
f' as tuas mãos cnwis
causaraUl auer de tl'llas.
89
Bt:>m se .r q IW este fo;era
caminho da l-5Ppultura.
CLITENNESTRA 1\Iilhor estarias la,
que c a dando me tristura
eom tua Jingoa tam mau.
ELECHA T01los tristura te clam,
os q uo ahorrecpm maldade:
P contigo lwm nam estam,
os que amam a honda,le,
nem jmnais ho estaram.
l\Ior maldade po1le aner,
q HP a mi, (1'"' tf' ('riey,
ynj nrías sem tt-nwr,
a lH'na tt• darey,
.- ho CJII" podP nwu poder.
302
303
30-t
:\Ias PU sam nisto omecida, 30á
ELECHA

ELECHA
pois cpw com tanta brandura
te tt>nlw tanto sofrida,
nam t<> dando morte dura,
com que fosses fonecida.
Nunca Illü (ly datTPpender,
anh's :-l(llllpre Illf' aqueixar,
porque nam tenho poder,
ll(llll em mi se pode achar
as forças que ey mester.
Porq ne se as eu teuera.
Dizemt', o que fezeras.
Se eu fazl•lo podf'ra,
tu e Egisto nam tf'ueras
mais vida sobre a terra.
306
307

O muy furiul"H,
tees tanto atrcuinwnto,
rpw t1ssa vontade danosa
ousas tPr no pensamPnto,
dize, serpente rayuusa.
30rl.
Tacs cousas bastant('s sam 309
pcra eu nam ser culpada
em toda terminaçam,
que sohre ty for tomada
de aqnesta tua treiçam .
Yamonos sem mais tardar, 310
e ho PncPn!-'o quPimaremos,
Chrisotcmis, no altar,
ondo a dcos
qtw me aparte df' sonhar.
CHIH:-iOTE:\IIS Y rrnãa, n•jote t•m t•st<ulo 311
que as mcstPr companhia:
f' en mun posso mal pPccado,
fitH' gram pena me da.rin,
minha mãy sendo aucntado.
ELEt'HA () soo •' clPsemparada, 312
qnP farl'y em f'sta vida,
de tantas pC'nas ccrc:t(la,
f' de males l)t•r:-.;Pguida,
qnf' me tc•m atormPntacln.
Todos cm suas mfies tem 313
comum rPponso de amor,
t"' nos yrmãos tam bem:
o cn na minha acho dor,
P cm minha yrmãa dcsdt•m.
91
rois dizeinH', tfllO faroy,
tri:-;te de mi dPsta :-iorte,
a quem me :-;ocorrPrey,
se nam for a tristP morte:
mas -nam st>y a achar«'y.
3H
Ja, senhora, nam 3H1
nos outras, t<' cligamo::;:
pois (lUP tuas paixl'u•s Yt'llltJS
mores, do ILHC nam fuyclamus,
uem conselho ti uo tt• demos.
X em temos ja l'en:-;amento 316
tlP te ho clturu rc.frt•:H·:
mas nt'lle te
eomo quem eom muytu Yf'Hto
penlt• lw tum do guuPrll<tr.
ELECHA Algo Illl' aHt•is consulado 317
ETHRA
ELEl'HA
E TI-IRA
ELECHA
em ter meu mal por crcciclu:
mas (lizey, tr•ndes sahido
do outro tam desastrado,
que OUlll'l:il:ie acuuteeido.
Amphi:trao fuy :o;emPlhantP,
IJIH::l Erifile, sua mulher,
a Ermione ho foy ,.(_•ncler,
nam s1•ndo nada constante,
pu r h onde h o fpz morrer.
Erifile foy castigada.
lii"t seu filho a matou.
Pois tal morte foy Yingada,
consolaçarn nam faltou,
corno a mi desuenturada.
318

ÉTI-{HA Deos sahf' parto tlo trmpo, 320
qnP vira de mal o_u hPm,
descansa. ja teu tormento.
CLDHXES Quem sam estes que ca vem,
que trazem este muymonto.
Sena sethna, en1 que se conten1
ÜRESTES. ÜLIMINES. ETHRA. ELECHA. CLITENNESTRA.
ORESTES

ORESTES
ETHRA
EGISTO. A YO.
Qual he a casa triunfante
de Egisto, dizey, sünhora.
Esta que tendes diante,
e ao prPsente nella mora.
Pois nam vamos mais auante.
Dizeynos ora de grado,
que buscaes.
ORESTES Aqui trazemos
h li presente desejado:
a Clitennestra queremos
dalo, como he mandado.
321
322
ETHRA Dizeynos por vossa fe, 32:\
que dom he esse sohido.
ORESTES O corpo do Orestes he,
o qual vem aqui metido,
pcra que a ella dee.
ELECHA Pondeme aqui osso corpo, 32-t
ou vos rogo mensageiros,
ahra<;alo ey sn qtwr morto,
vuis meus marteirOB
ja uam podem auer conforto.
f'horart'Y com (1llo a cayda 325
dPsta casa e ma andanc;a,
choraroy, pois ho perdida
toda minha
o do todo fenecida.
ORESTES Por seruic;o te fazer, 32G
t' tambem por vir cansado,
a area quero dPcer:
aqui vom embalsamado,
mas nam h o podera_s ver.
ELÊf'HA O meu desditado yrmão, 327
toda minha confiança,
de te ver sayo em vão,
a vin's tomar vingança
dt,sta tam grandE\ treyçam.
Es tu aquolle por Vflntura, 328
qtw auias dtl ser reparo
dnsta casa, e desuentura:
hondt• osta tPu rostro craro,
P a tua
Assi frio f' sem ft.,ruor
a teus imigos vers Yfll",
tendoto _tal desamor,
metPstett' 0m
por a me dar mayor dor.
Assi te traz minha
mudo, nam me respondf\s:
porqut' nam vt:'t1s, cr1wl mortf\,
matarmo, dt• mi
ponlut• mais lllP Jesconfurtt."·
330
1\Iou peito mo rasgay ja, 331
furias, que em mi moraos:
e minha alma sayra,
donde a vos atormf:'ntaes,
e nos ares voara.
Porque sA possa apartar 332
dos olhos, que. tanta dor
nam cessam de lho mostrar,
porque nam lhe tem amor,
jamais a tlt•ixar.
O palauras elo piadaclt', 333
que o lias mesmas moueram
a natural crtwldade
dP auor clisto compaixam,
e clesta tam goram maldade.
ELECJIA 1\fas muy hem consicleraclo, 33t
fora estas da aduorsidacle,
e Plll porto nauegado:
c1 na tL•mpostacltl
muncln tam coytado.
A viela Ju ... mar dc' fortuna, 335
tfue a fortuna traz yraclo:
o ho porto u sepultura,
CflH' os quo Íf'lll ja nauflgado
1wlla re('ehPm folgm·a.
Tu, SPpultura, es morada, 336
rlos que fortuna quis bem,
c>lll ti lw gloria folgncla,
e em ti tc•m
da fortuna. ja passada.

CLDIINE:o;
ELEC'HA

ÜRE:';TES
Cr ..
ÜHESTES

Em ti nam moram cuydados, 33i
em ti nam vãa 'osperan<:a,
tu es dos atribulados
a Yerdadeyra folgança,
e remedio dos penados.
A tua porta ham de yr chamar, 338
aquelles que siso tem,
e dm1es de agasalhar,
aos que qui seres bem,
e Pm ti pousadas lhe dar.
Doyxa leuar ess4.'\ corpo,
porque recebes mais dor
em ho Yeres assi morto.
Hondo quer que elle for,
yrey eu sem ter conforto.
Rogouos com affriçam,
que me deyxees repousar
aqui ::;obre meu yrmão,
t! uP em h o ter aqui a par
rt>ceho C'Onsol:tt,:am.
he dP amansar
ho sentimento.
St' a tlor <1Pyxam passar,
sPu prinwiro mouimonto,
tlt'spois Yt'lll :t
tlona, por mesura.
lw Elecha Pst:t sr-nhora.
Esta ho a w•ntura.
am a t•rmlwC'i att' gora,
YendolhP sua figura.
339
3-tO
:Ht
Esta Yi ja tam
c com tam linclo
cara graciosa
a claua desejo
ele a tct·em por esposa.
E ·ontonces parecia,
que hi'1 {'lm·o resplar11lor
t.lt• sua cara saya,
nam tendo uella tristor,
P mas contina alt•gria.
3-11
V Pjoa agora tam mortal.
•fUI' nam h a quPm a (jUCira
tam disfor·nw c desigual,
SP nam tpiem llw hf'rn q uisP r·
por eru Yirtudt• ser tal.
ETHRA Nam tP th•ucs t•spantar 3-tG
de a n•res tal
qlll"' segunclo seu pesar
na sepultura cntt·rrada
H:tllJ Pr·a. muyto de .('star.
OnESTES Qtwm lhe da tanta paixam. iH7
E Tim A A memoria dP pay,
e a morte de seu yrmào.
ORESTES Dize.\-, ella nam tem
que lhe dP eonsolaçam.
ETHUA l\Ias dalhe pf'na crecida. 3!8
ÜHESTES Dizeyme porque rezam.
ETIIRA Por chorar com dor sentida.
a mortC> de Agamenam.
que ja deucis tt.!r sabida.
Tamhcm por auer liurndo
a sPn yrmào por spr vingada,
a ha indignado,
tal que Yida muy penada
tlc lhe tem procurado.
E temua ameaç:ada 350
de em prisam a ter metida,
P alli num ser Yesitada
de nenhlia alma nacida,
por lhe dar pena dobrada.
( JimSTES U donzela uflegitla,
tlc> mil h;':'cs mPrPcedora,
prouupsse a deos,qun a Yida
me custasse nesta ora,
por te Yer daqui say•la.
ELEC'HA • Ilo •ttH' ouç:o, h e as si,
por Yentura a piaclude
ht- agora aqui.
O nEsTES J cousa h c com YPnlade
auer eumpaixam ele ti.
Porq uc tu mcre<"id:t
da fortuna hoa andança:
e PU Y•:iotP cayda
sem nPnh\ia
seus pees metida.

ELECIIA O hii :-;o no mmulo. em quem 351
mura e YC'rdade,
pois cunht•res mal c ht-m,
nam h'· falte piadatlP
per a mi, pois num eonuPm.
Em me tlizer·ps t}UI'lll eg,
per a '1 uc- teu nome tenha
na memoria sem rPues,
pun1ue por te Yenha
ho pago de ser eurtes.
ORESTES Sam hi'i lwme, qui:} naucga 3:iG
cm a sua sepultura,
no mar tla fortuna ct•ga.
ELECHA Tal he mu.'r escura,
e a meu saber se nega .
..:-\_ fortuna ,. a Yitla,
dize, f}llC tf•m q ne fazer
U<t sPpultura metida.,
com fpa• mn f:tzt>s pt•nler
a • pur mi tida.
I >e ser liurn dn q
t' dl• minha tlesueutur<l,
pois 'lue eu fugindo
m,• t•neerram n:t =--.·pultur:t,
St'lll atwt· rem: ... dio :L l'llas.
ORESTES Em a sepultura estam,
nam mortas, mas eneuhcrtas,
pcra que sem tr•r paixam
acabt•m as jornatl:u.; n·rt:ts,
que limitadas lhe sam.
357
l\fas despois sendo ch('gadas 3GO
ao seu seguro porto,
scram bem
dallllo C'spanto e eonforto,
quando forem fledaradas.
lllet
E te a ti ho JWS<tr
nam
conhecermias sem tardar.
ELECIIA EstrangPiro, vur tua Yid:t
que te queiras declarar:
3Gl
que atribulada, 36:!
com diuerso pensamento,
narn t'sta Úuu aclar:tda
com lume de entendimento,
pera que te nada.
OnESTES te quem RG:l
ho chorar ja
ho corpo tle teu
H<'m por elle tP darias
a tanta trihulaçam.
ELECHA Pois se teu nome he tal,
que por elle deixaria
de chorar tmn grandl"' mal,
outro contrniro queria
pera as lag-rimas tlohrar.
Deyxtune a Xfift
fpw me da a
que tem ho meu cçraçam.
soulwsses a Yerda«lP,
nam terias tal paixam.
ELECJL\ <JlW muy grmn e:-;peran<:a 36G
eom isso Sl' lll«' otterece:
ma:s tenho desconfiança.
ittw despois eu a
foiPudo alg\ia
101
E uam queiras renouar 367
minhalma a pPnas mayores:
mas pois <1ue Yes meu pesar,
tiramf' de tantas dores •
com teu nome declarar.
c )RESTES )[eu nome eu to diria,
mas as donas q uo aqui estam,
que ho souhPssem_nam queria.
ELECHA te temas, pon1ue s:un,
mais fieis do ·(1ue cumpria.
ÜHESTES Pois este aiH:'l reconhee!',
0 ·por elle h o sahera:-;.
ELECIIA Este de meu part'l'C,
mas nam ereo que ser as
a(iUCllC (illC ho OUUCSS('.
Eu ho de.'· a meu yrmão,
porclllf' Yendou rcnouasse
tt morte de
porc1ue a Yingar
sutt mortf• com trei<:am.
338
3G9
310
E porque quando yo]ucsse, 3ít
se Yil•sse demurladu,
que por Pllt:> o •
nam cu ydandu que meu fado
assi morto mo truuxt•ssc'.
OuEsTES Pois yrmàa ag-ora.
reconhece minha c a r a
<tue Orestes s:un, senhora.
ELJ<:CHA n tam elara
da tristeza «illl' cm mi nwnt.

102
Em tC'u nome mP dizer 373
nam fov mais que me liurar
da que ey de morrer,
a qn!l me vinha buscar,
por eu a tua saber.
Ja a tua cara bem vPjo, 374.
JlOssome chamar ditosa,
pois se comprio meu desejo:
ja minha vida chorosa
toma prazer e despejo.
O poderoso senhor, 375
que o justo demandar
concedes ao pecador,
c de ti desconfiar
h e muy ini<pw erro r.
O tanto alegre dia, 3íG
que noite triste e escura
poueo ha me parecia.
em meus mmos tal ventura
por memoria ficaria.
Parece tJUe este prazer 377
:mia de ser tnm grande,
. tal (LUC ouuessc mester
q ne h o cora,<;ão dC' ·si mande
outros per a h o rec1•ber.
Amigas, que vos parece 378
de minha fortuna boa.
Tua virtude a merece
com hua real coroa;
que te a fortuna dPsse.
10:1
Empero tanta alt>gria
nam eles a entender a gente,
porque se descubriria,
h o q no tam discretamente
encuberto Re trnzia.
37!}
ELECIL\. Como se pode encubrir, iJêO
ho que de dPntro n:tm c:tbe.
Nam to ajam de sentir,
porc1ue se sP ysto sabe,
por morto me as de carpir.
Qne se Yircm praZL'l", 3·'1
h o qual tu com minha morte
sabem que nam podes ter,
sere_,. seutidu, de sorte
que me Yej as fencct•r.
ELECIJA PoscstPsme tal temor,
que farPy h o que mandaes:
was, yrmão, por meu mnur
YOS rogo que me digaes,
de yossa vida lw que for.
OnEsTEs Essa conta nam eununn 31-'3
que te de em tal I ugar,
mas largo tempo no_s ,·cm
pcra ta cu poder dar,
de meu lll<ll e de meu bPm.
AYO Vos outros qun as:-;i trazeis 3;-;J
esse corpo apr<'sentar,
nus lugares 'l ue sabeis,
cpre lwm de tom:tr pes:1r,
trazcyo, ja uam tarJeis.

10-1
Porque com vossa tard:m<;a.
tlnuida minha embaixada.
• ÜRESTE!' Irmãa, fac;as mudança.:
mas por via semulada.
chora com minha lembranc;a.
ELECHA Anda)· mensageiros ja,
c esse corpo levay,
onde gram prazer fara:
presto, e tornay
l'olla triste que assi esta.
Sua mã)· Yereís estar
aleg1·e sobre seu corpo,
cousa bem per a notar,
que em ver ho :filho morto
ella se aja de alegrar.
CLniiXES J a deu em de ser chegatlos, 38ê-
onde Clitennestra esta.
ELECHA Temo nam sejam
por algua dita uma.
CLDU);Es ho quereram teus
ELECHA
CLDII:XES
ELE(' HA
Ho teu grande desejar
dt"' te veres ja vingada.
gram tPmor te ba de dar.
Dizes Ycrdude prouada.
Pois nam cesses teu chorar.
O yrmão,. ja estaras,
onde eu ja esteuesse
assi morta, como estas,
porque meu sepulchro desse
H mãy, que taes olJras fnz.
10[>
Que justa cousa. sena. 3U1
de ta.l nü'í.y estar,
onde O::\ filhos ver queria.
V r. ITEX:XESTUA GentPs, vindeme ajudar,
que a morte diante Yia.
ETimA Ouues, senhora, os brados 392
que ja da.,
de choro acompanhados.
ELECIIA Claramente ouço ca:
o como ermu desejados.
CLITE:X:XESTI:A n como podes tirar, 393
Orestes, a mim a. vida,
pois (1 ue em mim a foste nchar.
ELECHA Como fora consumida
tu tempo e lugar.
CuTEXNESTRA O tredor, como ousaste, 394
tirar sang·ue. de meu peito,
donde tu lt•ite tirastt•,
dcuemlolhe :-:t.>r sog-cito,
pois com elle tP criaste.
EnmA No peito a tem ferido: 395
cruel cousa hc ouuila..
ELECHA Xam he espanto crccido
Orestes nelle ferila,
pois ho tem aborrecido.
C'LJ rEXNESTRA Pois que em os ceos nmn ha, 396
quem estorue esta maldade,
a Yos furias dei.'\.o ca,
que desta gram cruelJade
me Yingueis, pois mouro ja.
. '
10()
Enm.\ O casa- dcsuenturada, 3'J7
chea dP mortPs e brados,
dP sang-ue to1la banh:ttla
daqut•lles
que a vida perdem a
ELECHA Ex Orestes aqui yem, 3!18
sangrenta a mào e punhal.
ORESTES Ja. Ek•cha, nam conucm
temer <piC te fac:a mal
tua mãy que ho pago tPnl.
X este punhal potles ver
sangue de SL'U corac;am.
f'LDIINES O cousa pera teru0r,
que em cuy<lalo traz paixam,
e h o corpo faz tremer.
399
ORESTES Tu, Elecha, porquo choras, 400
pesate polla ventura,
do que tenho feito agora:
nam disso tristura,
mas prazer mostra tle fo1'a.
ELECIIA Orestes, nam choro eu -.101
E TI IRA
ELECIIA
a sua morte tam fera,
se nam porque a men•cpo:
c tal exPmplo IJa.m tlPra
como ella de si deu.
Senhores, f}tie vem Egisto.
EscotHle'te, yrmão, de sorte
que dello nam sejas visto,
pera que entrando, a morte
tu llll' des st•ndo 1wruisto.
402
107
(hmsTEs PilatlPs, vente comigo. 403
Ecw.;To Onde estam h\is estrangeiros,
que Phanoteo, meu umigo,
manda a mi por mensageiros
com Orestes, meu imigo.
ELECIIA A mi ckm's JH'Pgnntar, 401
porq uc• a mi soem primeiro
as mas nonas de chegar.
EfasTn Pois viste este mensageiro,
e cm que parte pode estar.
ELECII.A . Aqui hii homi? chegou,
o qiiC' UrestPs era morto
a Clitl•unestra contou:
....
e <lPpois eom ho triste corpo
· dal•y a pom·o tornou.
E agora sua l'Stada
com Clitermestra sc•ra,
qtw Yl'ras pouco penada:
mas de alegria tf't"a
sua tigura ImHla1la.
Yay tu tPrllu• companhia,
c eu ficnrey chorando
hn morto cnm agonia,
muy triste vida tomando,
c1ue te sera alegria.
405
40G
107
EGl:'TO Urande he teu contumaz, 408
pois te nam das por vencida.
lla fortuna, que te faz
tanta guerra: e consumida
com L.o choro ja estas.

..
ELECHA Forçacla cousa sr•ra,
lllll' por YPncitla me dPP.
Eu IsTO J a te nam tomara
em conta, pois assi ht•,
tna inclinaçam tam maa.
40!t
E logo om pago, oa qual -110
tu receberas tal Yi_da,
que se saiha quanto Yal,
c c1 nanto ha de ser temida
hita pessoa real.
Vâ:i<, donas, mandai fazer,
que sn nam Yeede a cntracla
desta porta, a ttur•m qnizer,
porque todos sem mais nada
t'ste morto Yenham n•r .
Porque"\ se Yam apagando 4:12
os maos th'sejos, cpw auia
ja contra mi, confianclo
q uc> hu sc>u OrPstes Yiria,
c temeram Lo meu mando.
O casas, meus dias
eu passaua com temor
c as noites de agonias,
Pntn·m com muyto fcrnor
em YOS outras alegrias.
muy descansado
nesta alt•grc morada,
dc> meus imigo:o; Yingado,
com a minha muito tun:ula
gozando ho rc>al estado.
-!13
De arnu1s ja nam III' tC'mpo, -!lõ
Sl' nam eh· prazt•r buscar,
c muyto ('Ontc>ntamento
com ( 'litc>nncstra tomar:
yr quero a seu aposPnto.
Quem ho este demudado,
que tira de seu puuhal:
o triste, desuenturado,
deu e daucr algu mal,
que de s:mgue vem manchaelo.
ORESTES .... \ssi merPeem taes reis
em ho S('n sPr recebidos.
EGlSTO
O nESTES
EGISTO
DP que mnnL•ira.
Da que vereis.
O mancebos atreuidos,
ho eastigo nam teml'is,
416
-U7
que dos meus podeis auf'r. -!18
0HESTES Nam he tc>u, que he furtado.
EGISTO O triste desuenturado,
bem vejo (pie estou em poder
de meu imigo prouado.
Agora aeaho de Yer, · 419
que .. da maiH')T:t que vay,
tu On•stes dem·s ser:
da Yirtuc:lc de teu pay
memoria deuias de tC'r.
ORESTES Quanto dle foy milhor, 4.20
tanto mais mereces mortP.
ELECHA O yrmão, por meu amor,
que com animo muy forte
mates ja esse tredur.
110
Se tua mã\· matar

dame ca essP punhal,
darlhe ey mil punhaladas,
sem hi'i momento passar.
ÜRESTES Xam he ho lugar,
· onde elle h a dC' morrer:
ãntes Yamolo lcnar,
onde nosso pay
c sobre elle h o degolar.

422
I
Porque vC'ndo esta -t.?3
lhe sPja a morte dobrada.
EnrsTO mais
tplC' a hora limitada
morrer. muyto me cansa.
ÜJ:E:o\TES Queremos atormentarte -l:!!
de tormento mnis dobrado,
e hu pouco assi d ... ixarte,
por<pw cuyde:-; no estado,
t'lll C'!'ltas por mais matartl·.
EmsTu Tiraymc prt'sto a vida. -!2;)
pois t{Ue ma não ttuerc'is dar.
ELEf'IL\ I >euclhe sPr conceclicla
a morte sem mais tardar,
a tem bPm mcn'cida.
E tu, yrmào, IW.Ill lha negues. 4::.?G
cumprclht> sua Yontade
ho mais presto que pocleres,
porqtw a aduersidadt>
nam no:-: tolha l'SÍPS prazt>rl's.
I
111
,.E asst nos te scguirPmos
indo de nosso <'spaço.
Om·:STES Sem tarJar logo leu\'mos:
telll, Jlibtd(•s, tlcsse bra\:o,
e seu galanlam lhe demos.
427
EGISTO Coroa e g-rande estado, 4 ~ 8
]aços que sois d<' morrer,
ficay com ho l a ~ o armado
dos outros a escarnecer,
que ... omigo he acabado.
Fim.
Exortr.çan1 do autor aos Iectores.
AtPnta agora, disereto lector, 1
nestes que assi sua Yida acabaram,
c como tam cru3.mentc pagaram
h o que merecia seu grande erro r.
Atente agora .todo gram senhor,
per a que ande bem acompanhado,
que pollo tirarem de ter seu estado
lhe perderam muy rijo ho amor.
Atente tamhem toda sabia molher 2
a ClitcnnPstra, quP foy tam maluadn,
a morte q uc ouuc tam desastrada,
sem seu estado lhl• a isso
Proeurem todas de gram amor ter
a seus maridos, e telos amatlos,
n:uu lhe acoutec:am tam desastntdos
casos, ftne aqui se podem hem YPr.
Att•ntl'lll taml)('m us uohres donzellas 3
na grando Yirtuth•, que Elech:t teue,
como aqui rH•sta obra se escrcue,
scu:o; ehoros, spus prantos. c suas que: elas.
Atentem tambcm todas aquel;ls
tplC a fortuna traz <'lll balnnc:a,
que se Pm Deos tem sua esperan<:a,
llws da o rcmedio, que
Fin1.
\.
Atente tambcm todo sahio ya.ram -1
na amizade tanto crccida
•le c Piladcs, que a .sua
por elles quis por cm t:1.l condic;am:
tomem exC'mplo cm esse: c vermn
ho muy gr:1.nde bem que he hu amigo,
que sendo com este, em todo perigo,
consigo a pcs juntos contino achannn.
A presentP ohra foy a.ca.h:1.da
de cm nossa lingoagem se traduzir,
a. quinze marc;o, sem naua mentir,
na era do parto da virgC'm sagrada,
de mil e quinhentos, sem errar nada,
e trinta c seis, falando Ycrdad•·,
no Porto, que hc muy nobre cid<.Hlt>,
5
f' por .. \ nrriq uc AyrPs foy trcsb,laf]a.
Aqui fo:wc;P a TragPdia ,ft. .. tit·aôa
J, .. GrPg-o t'IU PortugtH's, " troua-
ll.a. Foy impressa na muy noln·p <' semprP l••al
ci•ladt• Lixhoa p•·r (;prmãn ( Íêl-
lhardo impressor dei He.'· nosso
:;t"n]wr. Acahousc aos .vj.
dias J,, Xotu•mhro de
mil e tptinhPntos
" eincoPnta <'
Cllleu llllllOS.
Fin1.
VARIANTES DO P ALEÓTIPO
Pag .• 35, lin. 1: primeira] .j.
1, 3. •le6cançe.
2, 2, desou tra.
3, 3, o-Jo.
3, 5, nila.
5, 1, descançem.
7, 2, yrmaã.
9, 1, razam.
9, 2, may.
10, 3, faz] leia-se fez.
10, 4, rlesigoal.
13, 2,
13, 4:, polos.
11, 2, impresa.
17, 4, muita.
23, 3, descuidaram.
2G, 5. tiesejoso] descj n.
2.,, 2, arca] cayxa.
29, 2, o.
23, 4, jr.
3-!, 4, sepndtru.
37, 4, lauors.
38, 5, pena.
39, 4, muita.
42, 1, may.
·H, 2, ahominable] leia-se ahomi-
navel.
. -
4-1, 5, inefable] leict-se inefa,·el.
-Uí, 2, vençeflor.
46, 1, que -ofende.
-17, 5. vi•JICIII'Ía (?1,
55, 1, J n.]o.
59, 3, aborreçe.
61, 5, pietla•le.
66, -1, ordenados ent ve:.: de nrdc-
natlas, por cazt.wt da t·im,a.
6R, 2, muitu.
68, 4, narn conheceo (?).
69, 5, deshnmanos (?).
70, 1, atfriçam, leia-.se aflli<;am.
71, 1, seiiora.
71, 5, terribl•·] leia-se terriucl.
7-1, 2, desuaraJ dcsuaira (?).
7-1, 5, reçeb:tmvs.
75: 1, J rmls.
76, 1,. melhor.
79, 1, melhor.
79, 3, pola.
R6, 2, tês.
93, 1, ,J,Jo.
9-!, 1, jrmaã..
95, 3, my.
97, 1, jrmão bis.
97, 5, pello.
98, 2, may.
9ri, 4, to•lo.
99, 1, o.
99, 2, .
99, 4,
99, 5,
100. 1,
101, 2. u.
-1, HII'IIJOr.
105, l, may.
105, 3, preualeçc.
101), 5,
lOU, 1. may.
3, impidir.
110, 1, melhor.
112, 1, Dij pm· tlize.
5, co!lÇerto.
113, -!, ha.
11G, dcscjaclaJ he tle:;eja•b (?).
1Hi, .J, cumpre.
Pag. 5J, lin. 1: terceira] . iij.
Pag. 51, lin. 2: l'hrisotlu.·mis.
llo, 2, jrmaã.
120, 3, ate [até ("?).
121, 1, jrmaã.
1, Chrissutemis.
122, J, cudalo.
123, 1,
127, 5, vellas.
129, 1, jrmaã.
2, para.
130, 1, pam.
131, 2,
13-!, 4, pelo.
136, 1, .rnuaã.
1;)7, -1, lw] h e (?).
138, 1, uam] na.
1ilK, 3, não.
139, 3, houorlleia-se huurra.
1!2, 1, J rmaã.
1-!3, 3, que lhe] he lhe (?).
144, 1, velão.
Ufl, 4. deixa.
1!5, 5, descui.lar.
1 t7, 1, may.
117, 4. ffiPre\·edora.
1.)3, 2. ·muit.o.
156, 4,
1::>G, 5, apa1·t:ulo.
1()0, 3, asiual:.ttln.
1G3, 2, para.
1G3, 3, J•iedatle.
lG-!. -1, alêgria.
llG
lGli, 5, yzeuto.
1Gi, 2, t.eu'-') leia-se tine.
1G7, !, may.
Hi8, 2, seguro.
1G9, 5, sepuntura.
170, 1, melhor.
1í0, 3, o.
172, 1,
172, 2, lwnleuaram.
173, 4, hüas.
177, 1, seu]
181, 4, compaíiia.
182, 5, cudar.
1K3, 3, arca] cayxa.
183, 4, picfla.le.
1K4, 1, Js8o.
18G, 1, melhor.
187, 1, mcssageiro.
11':18, 4, dellas.
1 5, tês.
2, J•arescc.
19G, 4, flort•çe.
H)H, 2, !Ja.
199, 4, iustaute] estante.
20G, 3, vsou.
1, o.
212, 1, picda•le.
213, 3, vntadas.
21-1, 5, pello.
:HG, 1, arca] c ayxa.
Pag·. 75, lin. 2; Clitemnestra.
Pag. 75, liu. 3: Crissotemie.
22L, 5, furtuna.
223, 3, tam] tem (?).
225, 4, viste] veste (?).
231, 1, pares] })aras (?).
232, 1, eles.
232, 5, o.
23!, 1, sol;<>ga bis.
23t, 4, illiJII"CSÔes.
4, here.-leiro.
2-JO, 3, jrmaã.
fl, em] c:m.
211, 1, .i J"lllã.
2H. 1, jrmà.
2! l, 3, meu hã.
2!9, 2, se] so (?).
2!9, 3, o.
249, -!, feneçeo.
250, 1, Crissotemis.
2.)0, -!, escutar.
2f53, 2, o.
2,
25'), 1, não.
260, 1, tliuera.
2GO, 4, 1lannos] rlãnoo.
2G2, 2, cumpaií.ia.
262, 5, consolaLlos.
264, 5, varam.
265, 5, polo.
266, 5, ensejo] asejo.
267, 1, nam ("?)·
270, 4, vão.
5, seguramcnre.
271, 1, porfiarJ pertiar !?).
271, 2, pello.
275, 2, Í8SO.
27G, 3, holnesse.
279, -!, çcdP,
1, pPlO.
281, 3, o-mezquinho.
3, Ephigenia.
2·'\3, 1, o.
2M3, 3. o.
281, 5, a sacrificar_amJ sa acrifi-
caram.
1,
2:-58, 5, melhor.
291, 5, escutar.
292, 2, aluide.
292, 5, o.
293, 4, Ephigcuia.
2!) l, 1, isto. ·
1, 3, h ale lon.
29-!, 5, Yiage.
295, 5, Ephigenia.
2%, 1, bõa.
300, 5, hunlenar.
30:1. 3, melhor.
301: 3, iujnrias.
117
30li, -!, my.
307, 5, mays.
310, 2, cndbo.
311, 1, J rmaã.
311, 5, m:.ty.
313, 5, yrmã.
315, 4, ffiOlT<'S.
315, -!, cuiclamos.
3ltj, 3, nele.
316, 5, o.
3, o.
5, o.
Pag. 93, Iin. 1: setimaj .vij.
323, 5, para.
32G, 3, arca] cayxa-ucçet.
5, fremosura.
2, vt'ls.
330, 2,
331, 5, bnara.
33?>, 3, o.
338, 1, jr.
338, 5, ty.
3-10, 1, all"ri\·am, leia-se afllit;am.
340, 2, 1lcixcs.
340, 3, jrmão.
341, 3, 1leixam.
3-!i, 2, memoroa.
3-!7, 3, jrmão.
3!7, -!, mãy.
349, 2, jrmão.
351, 2, Ms.
352, 1, '·assy.
352, 2, pietla,le.
353, 1,
35!, 3,
35!, 4, pieclade.
355, 3, memora.
;)f,H, -1,
35!1, 3, para.
360, 3, lllanifesta•la.
3ü2, 5, para.
3G5, 2, 1Jiedade.
365, 1, deixarnc.
3G9, o.
371, 5. troxe:,:se.
372. 1, liberta.Ic.
379, -!, o.
31-iO, 4, isto.
382. 3, j rm ão.
3, jrmaã.
387, 1, may.
3S7, 2, allegre.
38!:1, 1, ho] o.
390, 1, j rmão.
390, 5, nuy.
3!J1, 2, may.
395, 4, ferilla.
. 398, 5, may.
402, 2, jrmão.
409, 2, dee] de.
412, 5, o.

-! l5, 3, muito.
415, 5, jr.
417, 1, assy.
4l7, 4, atrauidos.
419, 2, ineneira.
-!20, 1, melhor.
420, 3, jrmão.
423, 3, leuaime.
423, 5, muito.
425, 1, tiraime.
426, 3, o.
Pag. 112, l, 6, para .
Pag. 112, 1, 7, polo.
Pag. 112, 1. 8, lhe] h e.
Pag. 113, 4, 1, baram.
Pag. 113, lin. 21,
Aos 20 Je ){aio Je mil novecentos e dezúito
NOS PIIELOB DA
DIPIU.:X:o;.\ VE Llt;BO.\