You are on page 1of 16

Universidade de Coimbra Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação Mestrado em Psicologia da Educação

TENTATIVAS DE SUICÍDIO E DEPRESSÃO NA ADOLESCÊNCIA José Farinha

Trabalho apresentado à disciplina de PSICOLOGIA DO ADOLESCENTE

DR. JOAQUIM ARMANDO G. A. FERREIRA

Coimbra Junho de 1989

Infância ou morte! Grito de guerra suicida. .

................... 9 O MODELO PSIQUIÁTRICO ........................................... 5 DEFINIÇÃO DO PROBLEMA ...................... 11 Estudos retrospectivos .................................................... 8 O COMPORTAMENTO SUICIDA NO ADOLESCENTE .................................................................................................................................... 4 A NOÇÃO DE ADOLESCÊNCIA ..................................... 14 José Farinha Mestrado ........ RUPTURAS E PERDA NA ADOLESCÊNCIA ............................................................ 10 OS MÉTODOS .................................... 11 Estudo das tentativas de suicídio ........................................................................................................... 6 A REGRESSÃO NARCÍSICA .................................................................................................... 6 SEPARAÇÃO.......................................................... 8 DEFINIÇÃO E TENTATIVA DE DELIMITAÇÃO DO PROBLEMA ....................................................................................................................................................................................................................................................................................... 3 INTRODUÇÃO ..................................................................................... 13 BIBLIOGRAFIA ......................... 8 O MODELO PSICOLÓGICO ................................................................. 8 AS TEORIAS ................................................................................................ 12 MÉTODOS UTILIZADOS NA TENTATIVA DE SUICÍDIO ...................................................................................... 12 RELAÇÃO ENTRE DEPRESSÃO E SUICÍDIO ................................................ 10 O MODELO SOCIOLÓGICO ......................................... 4 A DEPRESSÃO NA ADOLESCÊNCIA ...................Índice 3 Índice ÍNDICE .................. 11 Estudo das estatísticas oficiais ...........................................................................................................................................................................................................

já clássica. própria do adolescente? Os autores que consultámos dividem-se quanto a este aspecto. deve ser entendido de forma algo diferente no adolescente relativamente ao adulto.(1981). de suma importância para todos aqueles que lidam com adolescentes. ou. De qualquer forma. ao chamar a atenção para as mudanças de comportamento relacionadas com a mudança de idade. inscreve-se quase naturalmente no processo de re-elaboração psicodinâmica. "um número importante de adolescentes suicidários devem ser considerados como normais ou como apresentando perturbações menores provávelmente passageiras. de suma importância e actualidade: . um conjunto de características epidemiológicas e psicodinâmicas que permitem distinguir nítidamente as depressões e tentativas de suicídio adolescentes das mesmas situações infantis ou adultas. Phillipe Ariés (1978) considera que o aumento da escolaridade é o factor mais significativo na determinação da adolescência como etapa de desenvolvimento. na nossa opinião. Neste trabalho partimos da idéia de que. Isto é.A tentativa de suicídio é parte integrante de um contexto psicopatológico desviante. Sobretudo no século actual. o comportamento suicida no adolescente põe o problema da depressão enquanto experiência existencial própria da adolescência. pela resposta do adulto que o adolescente parece esperar. relançar uma questão. acabam por se constituir como comportamentos especialmente significativos nesta idade. Existe. Esse entendimento é. pelo carácter drástico e irremediável de que muitas vezes se revestem. A noção de Adolescência A noção de adolescente tal como a própria noção de criança é relativamente recente. porque inscrito num período especialmente conturbado e perturbado do desenvolvimento. sobretudo nas comunidades José Farinha Mestrado ." Outros autores vêm a tentativa de suicídio como um sinal de uma perturbação grave das tarefas de re-estruturação da personalidade durante a adolescência. tanto a depressão como o comportamento suicida. procurando em cada uma delas descobrir características e factores de organização comuns. pela pressão sobre o outro que implica o gesto suicida. geralmente com uma forte componente depressiva. com efeito. a demora na entrada no mundo do trabalho. Este ponto de vista pretende. parece-nos que o significado do atentar contra a própria vida. pelo contrário. quanto a nós. que vai determinar o estudo das suas várias fases. Para Davison e col.Introdução 4 Introdução Não sendo situações exclusivas da adolescência. a tentativa de suicídio deve ser sempre entendida como um gesto último e por vezes desesperado para manter ou re-estabelecer uma relação interpessoal. de certa forma. É a elaboração do conceito de desenvolvimento. mas. pelo contexto depressivo que geralmente o rodeia.

(1984) consideram que os limites da adolescência são eminentemente sociais e culturais. isto é. Não havendo nenhum acontecimento biológico que nos possa servir de indicador preciso." Neste trabalho consideramos a adolescência uma etapa do desenvolvimento. a determinação do fim da adolescência e consequente entrada na idade adulta revela dificuldades particulares. classicamente marcada pelo aparecimento da menarca. ser entendidas da mesma forma que a depressão no adulto. que em 1850 a idade média da menarca na Europa era de 16 anos. A determinação dos limites cronológicos da adolescência tem-se revelado. enquanto nos nossos dias a média é de 12-13 anos. José Farinha Mestrado . sendo uma condição social. de uma forma geral. tendo em conta que muitas das perturbações e conflitos próprios da adolescência são determinadas por alterações de tipo psico-biológico. que identifica socialmente a juventude. criando um espaço altamente significativo entalado entre a infância e o estado adulto. associam o início da adolescência ao início da puberdade. dado o carácter de instabilidade próprio desta fase. ocorrendo desde a puberdade à idade adulta. caracterizada pela existência dos elementos que conferem a plenitude dos atributos da cidadania social. Sabe-se.A depressão na adolescência 5 de tipo urbano. (1984) consideram que o aparecimento da juventude é um produto histórico do processo de industrialização e desenvolvimento tecnológico das sociedades de escolarização de massas. uma tarefa de difícil realização. É por isso que a existência de surtos depressivos no adolescente não permite imediatamente supor a existência de qualquer situação psicopatológica. até à idade em que um sistema de valores e crenças se enquadra numa identidade estabelecida. Braga da Cruz et alt. que por sua vez atrasa a entrada do jovem no mundo produtivo. os autores. não podem. pela complexidade e multiplicidade dos factores envolvidos. por exemplo. desde a altura em que as alterações psicobiológicas iniciam a maturação. Braga da Cruz et alt. etc. independentes dos interesses sociais globais contrastantes. na perspectiva de desenvolvimento que partilham. enquanto que Erikson considera a formação da identidade como o marco final deste período. tem revelado alguma variabilidade cronológica. Os critérios usados aqui são essencialmente de carácter psicológico. psicodinâmico e mesmo de tipo sociológico. pela capacidade de participação na produção e reprodução da própria sociedade. ou seja. vai permitir uma intensificação da família e dos pares como espaço emotivo.. Blos considera a formação do carácter como tarefa final da adolescência. traçados fundamentalmente pela sua capacidade activa. situação geográfica. Por exemplo. Mesmo assim. sendo influenciada pela classe social. "uma situação de dependência e de subordinação. sendo um acontecimento marcadamente de ordem biológica. É a existência de interesses colectivos de geração. A depressão na adolescência A depressão no adolescente. da mesma forma que quase todas as outras perturbações da vida afectiva. Mesmo o início da puberdade. ou seja. Numa perspectiva mais sociológica.

alguns dos comportamentos depressivos. ao nível do comportamento. sociais e de grupo. DEFINIÇÃO DO PROBLEMA De uma forma geral os autores que trabalham numa linha de tipo psicodinâmico consideram que podem ser encontrados no comportamento depressivo três grandes componentes:  a perda de objecto e os sucedâneos da componente narcísica da personalidade. por sua vez. uma inibição ou uma lentidão. segundo alguns autores (Marcelli & Braconnier. SEPARAÇÃO. assim como dará pistas interessantes para todos aqueles que lidam com adolescentes quer num contexto clínico. são igualmente característicos nas duas situações. da destruição e da ambivalência.   elementos que giram à volta da agressividade. perda de objecto. a uma situação intersubjectiva. Com efeito. A adolescência como etapa de desenvolvimento de todo o indivíduo pode ser descrita em termos que poderiam aplicar-se da mesma forma à depressão ou à luta contra a depressão. Importa. Pensamos que a compreensão da problemática depressiva na adolescência pode ser extremamente interessante do ponto de vista psicológico. fazendo notar que. para a compreensão das perturbações mentais na adolescência. é mais de valorizar o estudo dos traços de personalidade que a preocupação por fazer um diagnóstico muito preciso.. Separação refere-se a um facto concreto. 1983). No sentido de esclarecer esta questão abordaremos seguidamente a psicodinâmica característica do processo adolescente que parece abrir a via para a depressão. a ruptura dos laços afectivos tradicionais refere-se. tristeza. enquanto que a perda de objecto tem essencialmente a ver com um problema intrasubjectivo. o afecto depressivo de base que. Os amigos. fixação narcísica.A depressão na adolescência 6 Daniel Sampaio (1985) refere que todos os diagnósticos psiquiátricos na adolescência devem ser encarados com as máximas reservas. contudo. etc. RUPTURAS E PERDA NA ADOLESCÊNCIA Estes termos não se referem exactamente aos mesmos processos. quer num contexto pedagógico. ambivalência e agressividade. Somo de opinião que a presença quase habitual dos diferentes aspectos psíquicos da depressão (1) representa um argumento da hipótese de que não há adolescência sem depressão. agitação. cólera. Com efeito. as actividades escolares. José Farinha Mestrado . distinguir entre a depressão considerada como um fenómeno normal em todo adolescente e o problema da depressão como perturbação psicopatológica que só se verifica em alguns indivíduos. Esta formulação permitir-nos-à compreender o contexto em que aparece o luto e a depressão na adolescência. modificam-se ao sabor das 1 Luto. mas apontam outros tantos níveis de abordagem da psicodinâmica adolescente. uma das manifestações concretas da adolescência é a separação do meio familiar tanto no que diz respeito ao local de vida como das pessoas à sua volta. se manifesta por um retraimento.

Seguindo a mesma via de exploração dinãmica podemos considerar que as perdas se podem situar a quatro níveis. o adolescente não pode deixar de sentir que há laços profundos e antigos que se rompem de tal forma que. Daniel Sampaio (1985) refere o facto de que esta alteração das relações pais-filhos é difícil para ambos na medida em que os pais necessitam igualmente de alterar o tipo de relacionamento que até aí mantinham com os filhos.Se o adolescente conseguir abandonar a depedência afectiva relativamente aos pais ele irá igualmente alterar a relação com os seus companheiros e entrar num grupo de pares e. Como refere Dias Cordeiro. vivida até aí como potencial. . eventualmente. Ao nível dos pais. Ao nível de si. As bruscas modificações corporais. Segundo Dias Cordeiro (1979) o "luto face aos imagos parentais" é decisivo para o prosseguimento do curso normal do desenvolvimento. contudo. Por vezes o adolescente não se reconhece a si próprio e o mesmo sucede com o Super-Ego. no momento próprio da separação. e as novas "características" fisiológicas são em determinados momentos difícilmente contrabalançados pelas potencialidades emergentes e pela experiência dos novos factores de satisfação. e meios de existência. níveis sócio-económicos. novos interesses e novos objectivos. Ao nível das formações psíquicas as remodelações do Ego. das aspirações sócio-culturais. Ao nível do corpo. significam sempre uma perda. nesta aventura de perdas e encontros.A este nível o que o adolescente perde é a relativa estabilidade e quietude da infância. muitas vezes distante da família ao nível das idades. porque "a partir da liquidação conseguida dos imagos parentais passa a existir a possibilidade do estabelecimento de novas relações amorosas extra familiares. de adultos. . partilha de segredos e experiências que se nos afigura essencial para o seu desenvolvimento emotivo. a perda de objecto e a perda narcísica atinjem o adolescente alternativa ou simultâneamente." O que está aqui em causa é na verdade o estabelecimento de um novo modo de realação tanto interna como externa com os pais e a família. quaisquer que elas sejam. Daniel Sampaio mostra que a ruptura da ligação com o grupo de jovens é um forte sinal de alarme face à eventualidade de uma tentativa de suicídio.A este nível o adolescente terá que abandonar pouco a pouco a posição de dependência face aos pais e caminhar para uma progressiva autonomia face à família.i. das obrigações e dos projectos para o futuro.O processo de revisão e re-avaliação das posições infantis associado à emergência de novos investimentos obrigam o adolescente a definir opções que. O grupo vai permitir ao jovem um jogo de identificações. Naturalmente que a maioria dessas separações se seguem de novos encontros. dos ideais. Ao nível do grupo .A depressão na adolescência 7 circunstâncias. Ao nível do Ideal do Eu verifica-se um duplo José Farinha Mestrado . do Super-Ego e do Ideal do Eu são igualmente vividas como perdas. (1979) ao nível da sua identidade sexual o adolescente vai ter que se orientar no sentido da escolha de um objecto heterossexual o que implica necessariamente o luto da sua bi-sexualidade. a incapacidade momentânea para se controlar a si próprio. assim como a reintegração no grupo após o gesto suicida é essencial para uma recuperação. .

seja de uma forma mais lata como referindo todo o tipo de comportamentos que pela sua natureza põem em perigo a vida do sujeito ou a sua integridade física. DEFINIÇÃO E TENTATIVA DE DELIMITAÇÃO DO PROBLEMA A complexidade. no caso de ser demasiado profunda. consoante o desejo de morrer esteja ou não supostamente subjacente.M.autodestruição por um acto deliberadamente realizado para conseguir esse fim. em determinados adolescentes. É de notar que esta definição omite propositadamente a noção de "intenção de morte". Com efeito podemos definir comportamento suicida de uma forma mais estrita como referindo a vontade e/ou o desejo conscientes de morrer assim como os actos realizados para esse fim. já referida. A REGRESSÃO NARCÍSICA Nesta perspectiva os autores estão geralmente de acordo em que a regressão é um componente importante do processo adolescente. para se apaixonar o adolescente tem que revisitar as paixões da infância." No que diz respeito às tentativas de suicídio as dificuldades começam com a própria delimitação do campo. O comportamento suicida no adolescente Como sugerimos no primeiro ponto deste trabalho o comportamento suicida adolescente. AS TEORIAS Pensamos ter deixado já claro que. a revelar-se insatisfatória. pela sua natureza. do comportamento suicida começa logo ao nível da própria definição. dar origem a sentimentos de inferioridade. eventualmente fazendo apelo a uma abordagem de tipo multidisciplinar para o seu estudo e compreensão. Para Peter Blos na adolescência tem que existir regressão. de vergonha e de perda de auto-estima. incidência e consequências. por sua vez.S. é um fenómeno complexo. Contudo. ou na falta de apoio no sentido progressivo. Neste trabalho considerámos mais útil adoptar a definição de Vaz Serra (1971): "Suicídio . ou seja. tal como a própria adolescência. a regressão pode. multifacetado.O comportamento suicida no adolescente 8 confronto: entre a realidade e a megalomania infantil e entre o ideal parental e a imagem substituta do objecto ideal que não tardará. muitas vezes difícil de precisar e que tem levado a uma falsa e perigosa divisão entre tentativas de suicídio "sérias" e "leves". Dadas as características especiais das tentativas de suícidio na adolescência decidimos adoptar uma definição mais lata de acordo com as recomendações da Organização Mundial de Saúde (O. 1984) segundo a qual uma tentativa de suicídio engloba todo o acto não fatal de auto-mutilação ou de auto-envenenamento. só poderemos aceder a uma compreensão minimamente completa do suicídio se adoptarmos José Farinha Mestrado .

Na obra "Luto e Melancolia" (Freud. o processo melancólico caracteriza-se essencialmente pela existência de uma forte ambivalência face ao objecto amado. para estabelecer uma identificação do Eu com o objecto perdido. como por exemplo numa ilha do Pacífico Ocidental. identificado agora com o objecto perdido. para tentar controlar a torrente de sentimentos agressivos presentes na ambivalência. a um afastamento progressivo do investimento libidinal no objecto perdido ao qual deveria seguir-se uma reorientação da líbido para outros objectos. assim. Em traços gerais. assim. nesta alínea. com especial referência ao modelo psicanalítico. ao nível intra ou inter-individual e envolvendo de uma forma especial o sistema de afectos do sujeito. Embora Freud não tenha nunca elaborado uma teoria específica do suicídio. se por um lado nos pode parecer clara a relação entre determinado tipo de conflitualidade individual e a tendência suicida. 1917 cit.O Modelo Médico/Psiquiátrico. de uma forma necessariamente resumida.O comportamento suicida no adolescente 9 uma perspectiva interdisciplinar. enquanto não há objecções a um acto suicida se as pessoas o fazem por afogamento. . Parte da energia libidinal serviria. parece-nos claro que esses impulsos sádicos destrutivos podem constituir a chave do comportamento suicida. Com efeito. em que o comportamento suicida é entendido como resultado de uma situação problemática.O Modelo Sociológico. Abordaremos. as teorias psicanalíticas sobre o suicídio. está igualmente relacionada com um determinado sistema de valores de ordem eminentemente sócio-cultural. estando relacionado de uma forma geral com factores de ordem psico-biológica. não consiga reinvestir a sua líbido num objecto exterior e a reinvista no seu próprio Eu. como por exemplo no Japão em que os maus resultados escolares são muitas vezes causa de suicídio de crianças. a reacção de luto corresponderia. O MODELO PSICOLÓGICO O Modelo Psicológico de compreensão do suicídio tem sido quase exclusivamente dominado pelos modelos de tipo psicodinâmico. essencialmente constituída por impulsos sádicos se vira igualmente contra o Eu. Esta relação define-se tanto no que diz respeito à motivação suicida. o indivíduo. in Sampaio. como acentua Luís Prats (1987). Por outro lado. no qual o suicídio é de alguma forma um comportamento previsível que se segue a uma determinada posição do indivíduo na sociedade e tem fundamentalmente a ver com factores de ordem sócio-cultural. geralmente de tipo conflitual. em que o suicídio enforcamento (o método mais utilizado) é abertamente condenado pela cultura e religião locais. Freud propõe uma explicação para o suicídio baseada essencialmente no processo de investimento objectal.O Modelo Psicológico. . Isto vai fazer com que. A tendência à auto-destruição. como na metodologia utilizada. não podemos deixar de considerar que a respectiva passagem ao acto. face à sua perda. por outro. Tikopia. assim. Uma rápida revisão da literatura levou-nos a pensar que as teorias explicativas do suicídio podem ser agrupadas em três grandes modelos teóricos: . A introdução em 1920 do instinto de morte representa uma mudança radical na orientação freudiana. enquanto a líbido restante. 1985). sendo colocada no eixo central do José Farinha Mestrado . no qual o suicídio é visto como uma doença.

sendo portanto um sintoma de uma condição subjacente. embora gerido em cada uma delas de forma diferenciada. esta abordagem parte do reconhecimento de que o suicídio surge em todas as culturas. O MODELO SOCIOLÓGICO O Modelo Sociológico. ou Sócio-cultural assenta basicamente na ideia de que tanto as perspectivas psicológicas como as perspectivas psiquiátrico/nosológicas são insuficientes para compreender o fenómeno do suicídio na sua globalidade. A adaptação é vista aqui como um valor biológico adequado. a atenção para a dimensão essencialmente humana do acto suicida. liga. resulta da convergência das perspectivas psiquiátrica e psicológica e segue a orientação por nós acima referida. permissivas. distribui por um naipe de doenças psiquiátricas os casos de suicídio e tentativa de suicídio. enquanto que a não-adaptação é entendida como resultando de situações patológicas e anti-naturais.O comportamento suicida no adolescente 10 funcionamento psíquico. Segundo Daniel Sampaio (1985): José Farinha Mestrado . com as suas normas impeditivas. uma reacção-limite. sobre a morte e o significado do pós-morte. Como refere Luís Prats (1987). resultando essencialmente da perturbação de um mecanismo adaptativo. Chama. b) Uma outra vertente de tipo psicodinâmico. dominante na prática psiquiátrica. ilustra bem este ponto de vista ao afirmar: O homem só atenta contra a vida se está em delírio: Os suicidas são alienados. tanto físico como social. específica. segundo Laplanche e Pontalis. c) Finalmente. citado por Baechler (1975). por isso. e que parte do pressuposto que o ser humano possui condições naturais de adaptação ao seu meio. as quais vão agir no sentido de lhe tornar todas as situações da vida como mais ou menos suportáveis. A perspectiva nosológica distingue-se ainda das anteriores pela sua preocupação em catalogar e classificar a sintomatologia psicopatológica que geralmente acompanha o acto suicida. sendo nela implícita a hipótese de que não há suicídio sem uma doença. De um modo esquemático podemos perspectivá-lo como articulando-se em três vertentes essenciais: a) Uma vertente a que poderíamos chamar adaptativa. assim como para a teia de relações sócio-culturais na qual se insere. (1976) indissoluvelmente todo o desejo agressivo ou sexual ao desejo de morte. e até facilitadoras intimamente relacionadas com a respectiva mentalidade e ideologia específica sobre a vida e o seu valor social e simbólico. O MODELO PSIQUIÁTRICO O Modelo Psiquiátrico tem como característica principal o facto de relacionar o suicídio com alterações psicopatológicas surgidas no decurso de uma doença mental. a partir do estudo clássico de Durkheim publicado em 1897. permitindo às pessoas assegurar a sua sobrevivência. conhecida ou desconhecida concomitante. Esquirol. a vertente nosológica. O suicídio é pois. Esta perspectiva desenvolve-se. nesta perspectiva.

OS MÉTODOS Pensamos ter deixado já clara a ideia de que o suicídio sendo um fenómeno complexo exige um estudo rigoroso e tanto quanto possível interdisciplinar." Após eliminar os factores biológicos e os factores ambientais físicos. Podemos sistematizá-los do seguinte modo: a) Estudo das estatísticas oficiais. pôr à prova a articulação indivíduo/sociedade. se bem que as os dados recolhidos possam.O comportamento suicida no adolescente 11 "O confronto de Durkheim com o problema do suicídio visa um duplo desafio: Por um lado demonstrar a especificidade do facto social e do método sociológico. Mais recentemente têm sido feitas muitas críticas às conceptualizações e métodos de Durkheim. isto é. os métodos mais utilizados para estudar o suicídio reflectem de alguma forma os modelos e perspectivas teóricas atrás enunciadas. a época do ano. alguns autores consideram José Farinha Mestrado . analisando sociologicamente o facto considerado mais social. Estudo das tentativas de suicídio O método de estudo do suicídio mais utilizado é. o suicídio. por vezes. o conjunto de costumes. Se bem que rigorosamente não se possa identificar uma população de indivíduos que fizeram tentativas de suicídio com a população de suicidas fatais. Durkheim define os factores sociais. sem dúvida. 1985) incide essencialmente no uso das estatísticas oficiais acentuando as suas deficiências em termos de fiabilidade e estabilidade. a abordagem directa das tentativas de suicídio. b) Estudo das tentativas de suicídio e/ou estudo dos casos em tratamento. o estatuto sócio-económico. quer de psiquiatria. Trata-se de um método importante no sentido de obtermos uma visão global do problema e.autópsias psicológicas Estudo das estatísticas oficiais Assenta essencialmente sobre a análise dos dados oficialmente publicados sobre o suicídio e incide sobre variáveis tais como a idade. etc. A crítica de Douglas (citado em Sampaio.. por outro lado. suscitar algumas dúvidas. crenças e maneiras de ser que resultam das ocupações habituais das pessoas numa determinada sociedade. prolongando assim os princípios enunciados em anteriores trabalhos. tem-se verificado que algumas tendências gerais acabam por se impor. permitindo mesmo fazer comparações internacionais. quer através de consultas especializadas. Por exemplo Halbwachs (citado em Sampaio. o sexo. 1985) considera ser necessária uma abordagem global dos factores sociais do suicídio sendo fundamental precisar os "modos de vida" de cada um. aquilo a que chamou as correntes suicidogéneas explicativas dos vários tipos de suicídios. c) Estudos retrospectivos . o método escolhido. quer globalmente a partir de inquéritos. quer de psicologia. Como veremos.

O quadro seguinte apresenta de modo esquemático os principais passos a seguir na utilização do método retrospectivo. pistas-suicídio Alteração dos hábitos Perdas/Sucessos recentes Sistema Relacional-elementos significativos Explicação do suicídio Síntese final Escola Trabalho MÉTODOS UTILIZADOS NA TENTATIVA DE SUICÍDIO Os estudos estatísticos têm mostrado que a absorção maciça de medicamentos é de longe o método mais utilizado nas tentativas de suicídio adolescentes. de Suicídio anteriores Comunicações. pretende-se essencialmente saber quais e em que condições as tentativas de suicídio têm tendência a repetir-se e eventualmente atingirem um suicídio fatal. 1985) extremamente importante. AUTÓPSIA PSICOLÓGICA 123Identificação Descrição da Morte História Pessoal Desenvolvimento : 4- 56- Doenças Relações Interpessoais Letalidade T. Estudos retrospectivos Se bem que levante numerosos problemas práticos. José Farinha Mestrado . sociólogos e outros." Ainda segundo Daniel Sampaio (1987) este método exige uma equipa de trabalho constituída por especialistas de medicina legal. técnicos de serviço social.O comportamento suicida no adolescente 12 que a "tentativa de suicídio" é em si própria um problema que merece ser estudado. essencialmente numa perspectiva de acção preventiva. trabalhando numa perspectiva interdisciplinar. apelos. Trata-se naturalmente de uma linha de orientação que será adaptada caso a caso. a autópsia psicológica contribui para esclarecer as razões do suicídio e determinar os acontecimentos que o precederam. psicólogos. Segundo Daniel Sampaio (1987). Esta circunstância contrasta vivamente com os métodos utilizados noutras idades em que os métodos são mais diversificados. Neste contexto. Esta espécie de autópsia psicológica refere todos os métodos para esclarecer as causas de um suicídio focando os seus aspectos psicológicos. este conceito nasceu da convicção de que: "Estudando retrospectivamente o sistema relacional do suicida. nomeadamente na população feminina (Marcelli & Braconnier. psiquiatras. o estudo retrospectivo dos suicídios fatais é para alguns autores (Sampaio. 1983).

se integram muitas vezes numa organização psicopatológica na qual o esquema corporal e mesmo a constituição da individualidade estão seriamente perturbados.Relação entre depressão e suicídio 13 Os outros meios utilizados são mais raros. Por outro lado. Os estudos clínicos mostraram. Com efeito. por um lado. isto porque não existe adolescência normal sem um qualquer tipo de depressão. Podemos assim falar de momentos depressivos na adolescência como resposta a situações de frustração e perda que ocorrem durante este período. Para já gostaríamos de apresentar a nossa hipótese: Se. Deste ponto de vista parece-nos que os métodos que envolvem uma desorganização ou mutilação do corpo. de acordo com a personalidade do adolescente assim como da gravidade das mesmas podem dar origem a tentativas concretas de suicídio. ainda que necessariamente breve deste problema. contudo. não se verifica da mesma forma nas tentativas de suicídio adolescentes. (quem de entre nós não pensou pelo menos uma vez em por termo à vida). seguindo-se em termos de frequência de utilização o corte das artérias dos pulsos. que. outras características típicas da adolescência nomeadamente a impulsividade podem estar na base da tentativa de suicídio. de uma maneira geral concretizada em termos de baixa de auto-estima. a medida em que o método utilizado atinge a integridade do corpo. Mais raramente a morte é procurada através do saltar de pontos altos. e a a intensidade do desejo de morrer. por outro lado. para além destas situações geralmente passageiras quando José Farinha Mestrado . a importância que o objecto utilizado pode ter para a compreensão da motivação suicida. que não existe um paralelismo estrito entre a gravidade da tentativa de suicídio. Uma característica significativa parece ser. assim como a ideia que lhe serve de base supõe a existência de uma relação significativa entre a depressão e as tentativas de suicídio no adolescente. No seguimento destas situações surgem quase sempre ideias de suicídio. sendo por vezes extremamente difícil fazer sobressair este ou aquele factor determinante. Em certos casos pode acontecer que determinados produtos altamente tóxicos possam ser ingeridos com consequências funestas para o indivíduo sem que esse gesto apareça claramente enquadrado num quadro psicopatológico muito grave ou associado a uma determinação firme de acabar com a vida. enforcamento. que é real noutras idades. em termos de vida ou de morte. é a depressão e que a torna grave e que deve centralizar as nossas preocupações. chegando mesmo a atingir o nível psicótico. como por exemplo as quedas ou o atropelamento. Contudo. afogamento. Relação entre depressão e suicídio O título do presente trabalho. Na verdade estas duas noções podem parecer contraditórias e por isso gostaríamos de concluir o nosso trabalho com uma discussão. Um dos problemas com a abordagem da depressão no adolescente é que nem sempre é fácil apercebermo-nos dela. precipitação sob um veículo. esperamos ter conseguido mostrar a complexidade inerente ao comportamento suicida.

. Lisboa.Les Suicides. Dias . Moraes Ed. ? BRAGA DA CRUZ. J. Como já referimos a dificuldade aqui é enorme porque muitos adolescentes não se queixam directamente de depressão. . ou não. 1975 BLOS. e CHOQUET. 1978 BAECHLER. A existência de depressão vai constituir um factor de risco extremamente importante (Marceli & Braconnier 1983). M.. 1981 José Farinha Mestrado . com efeito. M. C...Bibliografia 14 o ambiente do adolescente se mobiliza no sentido de o apoiar e responder ao apelo que estes gestos muitas vezes representam. vai fazer aumentar enormemente o risco de recidivas. ela vai determinar a gravidade da tentativa de suicídio em si. Em primeiro lugar. Dias. Análise Social. J. P. Esta circunstância mostra. F. Essas medidas podem ir desde um intensificar do contexto de apoio psico-social até uma psicoterapia ou farmacoterapia nos casos de patologia subjacente. Sabemos por experiência e pela literatura que a maior parte de suicídios fatais na adolescência são quase sempre precedidos de várias tentativas. a importância da compreensão da situação em que ocorre uma tentativa de suicídio. REIS. surgem situações clínicas de depressão que se afastam do desenvolvimento normal. Rio de Janeiro. J. L. 1979 DAVISON. por duas razões. P. 1984). ao depararmos com uma tentativa de suicídio num jovem temos de concluir pela existência.História Social da Criança e da Família.Le Suicide de L'Adolescent . 1984) e perdas emocionais típicas deste período. para além de um conhecimento dos momentos depressivos na adolescência necessários à elaboração reflexiva dos lutos (Amaral Dias. Podemos concluir que a depressão constitui um terreno onde as ideias e impulsos suicidas até certo ponto naturais na adolescência têm oportunidade de se fixarem e crescerem e. Zahar Ed.A Adolescência. Isto é. SERUYA. não se enquadra nos momentos depressivos normais desta fase de desenvolvimento e relaciona-se com um retorno à posição depressiva e ao modo como esta foi vivenciada na infância. Paris. A depressão doença caracteriza-se pela compulsividade (A. . deverão ser detectados e identificados os síndromas depressivos não explicáveis pela perspectiva de desenvolvimento acima referida. XX (81-82):285-308 CORDEIRO. de depressão.Étude Epidémiologique. ESF. Paris. B. em segundo lugar. ?. Martins Fontes. e uma entrevista psiquiátrica não estruturada nem sempre a detecta. Bibliografia ARIÉS. isto no sentido de se poderem tomar as medidas mais indicadas para prevenir novas tentativas.O Adolescente e a Família. por vezes dar os seus frutos fatais. M.. Calmann-Levy. dada esta correlação significativa entre depressão e suicídio. . e SCHMIDT . Assim.A Condição Social da Juventude Portuguesa.

. Edições Afrontamento. S. ... 1985 -----. E. C. . .Deuil et Mélancolie en Méthapsychologie.Considerações Gerais sobre o Suicídio. A. J. pp. Psicologia. A. Masson. . Rio de Janeiro. E. BRACONNIER. (4).O Suicídio.Suicídio e Autópsia Psicológica.Tentativas de Suicídio na Adolescência: Interpretação sistémica e redefinição de estratégias terapêuticas. .O Determinismo do Suicídio.. . Coimbra Médica. Paris. .Identidade Juventude e Crise. . N. Porto. T. C.A depressão do adolescente. . 221-230. D.S. (1987) V. 1984 O.Vocabulário de Psicanálise. Amaral e VICENTE. ? FREUD. E.Aspectos Culturais do Suícidio. (1987) V.Psychopathologie de L'Adolescent. L. S. 1971 José Farinha Mestrado . Rio de Janeiro. Moraes Ed. D.L'Évolution des Comportements Suicidaires. J. ? ERIKSON. Psiquiatria Clínica. B. Psicologia.Infância e Sociedade. Genebra. Paris Gallimard. 1984 DURKHEIM. 1917 LAPLANCHE. ZaharáEd. 1981 VAZ SERRA. XVIII (VII): 683-704. Rapport Technique sur Réunion de l' OMS. Lisboa. Lisboa. Presença. Dissertação de Doutoramento apresentada à Faculdade de Medicina de Lisboa. e PONTALIS.Bibliografia 15 DIAS. ZaharáEd. 1984 PRATS. 1976 MARCELI. 2: 177:180 SARAIVA. . 2: 181-187 SAMPAIO. 2.. .M. 1977 ERIKSON. . B. L. Lisboa.

Bibliografia 16 .