A INTEGRAL DE LEBESGUE

por
Luis Adauto Medeiros Eliel Amancio de Mello
Professor da UFRJ Professor da UFPb
SEXTA EDIC¸
˜
AO
Dedicado `a Mem´oria de Alv´ercio Moreira Gomes
(1916-2003)
Instituto de Matem´atica - UFRJ
Rio de Janeiro – RJ
2008
M488L
Medeiros, Luis Adauto da Justa, 1926 -
A Integral de Lebesgue/ Luis Adauto da Justa Medeiros,
Eliel Amancio de Mello - 6. Ed. - Rio de Janeiro: UFRJ.
IM, 2008.
174p.
Inclui ´ındice e bibliografia.
1. Lebesgue, Integral de - Tese . I. Mello, Eliel Amancio
de. II. Universidade Federal do Rio de Janeiro. Instituto de
Matem´atica. III. T´ıtulo.
ISBN: 85-87674-11-0 CDD-20
a
515.43
SUM
´
ARIO
Pref´ acio de 4
a
¯
Edi¸c˜ ao . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . i
Pref´ acio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . iii
Introdu¸c˜ ao . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1
CAP
´
ITULO 1 - FUNC¸
˜
OES ESCADA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 5
1.1 Conjuntos de medida nula . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 5
1.2 A integral de Riemann . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7
1.3 Integra¸c˜ ao das fun¸ c˜oes escada . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 16
1.4 Retorno `a integral de Riemann . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 31
CAP
´
ITULO 2 - INTEGRAL
`
A LEBESGUE-RIESZ . . . . . . . . . . . . . . . . . 39
2.1 A integral de Lebesgue . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 39
2.2 Sucess˜ oes de Fun¸c˜oes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 43
2.3 A integral sobre um intervalo n˜ ao limitado . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 56
CAP
´
ITULO 3 - CONJUNTOS E FUNC¸
˜
OES MENSUR
´
AVEIS . . . . . . 59
3.1 Conjuntos mensur´ aveis . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 59
3.2 A integral sobre conjuntos mensur´ aveis . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 64
3.3 O m´etodo de Lebesgue e sua compara¸ c˜ao com o m´etodo de Riesz . . . . . .66
3.4 Teoremas de Egoroff e Lusin . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 74
CAP
´
ITULO 4 - ESPAC¸ OS L
p
; FUNC¸
˜
OES DE V
´
ARIAS VARI
´
AVEIS 83
4.1 Os espa¸cos L
p
; o teorema de Riesz-Fischer . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 83
4.2 Os espa¸cos L

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 92
4.3 Convergˆencia fraca nos espa¸cos L
p
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 95
4.4 Fun¸c˜oes de v´arias vari´ aveis; o teorema de Fubini . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 101
CAP
´
ITULO 5 - DERIVAC¸
˜
AO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 113
5.1 Primitivas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 113
5.2 Fun¸c˜oes mon´ otonas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 114
5.3 Fun¸c˜oes de varia¸c˜ ao limitada . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 123
5.4 Determina¸c˜ ao de uma fun¸c˜ ao a partir de sua derivada . . . . . . . . . . . . . . . . 126
5.5 Integra¸c˜ ao por partes e mudan¸ca de vari´aveis . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 133
BIBLIOGRAFIA. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 137
COMPLEMENTOS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 143
PREF
´
ACIO DA 4
a
¯
EDIC¸
˜
AO
O presente texto vem sendo adotado na disciplina “Integral de Le-
besgue”, ministrada no primeiro semestre da P´ os-Gradua¸c˜ ao do Ins-
tituto de Matem´ atica da UFRJ.
Com a re-integra¸c˜ ao do Professor Alv´ercio Moreira Gomes `a Uni-
versidade em 1980, ap´ os o afastamento de suas atividades docentes em
1964, ele passou a colaborar, de modo substancial, na P´ os-Gradua¸c˜ ao
do IM. Ao ministrar esta disciplina, seguindo o presente texto, suge-
riu v´ arias modifica¸c˜oes que contribuiram, fortemente, para seu aper-
fei¸coamento e clareza. Podemos citar, entre v´ arias altera¸c˜ oes, as se-
guintes:
i) Na defini¸c˜ ao da classe L(a, b), fun¸c˜ oes integr´ aveis, observou que
S
1
´e apenas um cone convexo, sendo L(a, b) o espa¸ co vetorial por
ele gerado. Da´ı decorre que L(a, b) ´e constitu´ıdo pelas diferen¸cas
v −u de objetos de S
1
, como foi definido por F. Riesz. Esta ma-
neira de definir L(a, b) torna mais claro e compreens´ıvel o m´etodo
adotado.
ii) Incluiu, no texto, o Teorema de Lebesgue caracterizando as fun¸c˜oes
integr´ aveis `a Riemann.
iii) Corrigiu a demonstra¸ c˜ao do teorema de Egoroff tornando-a mais
compreens´ıvel e completa.
iv) Reescreveu, modificando, o Cap´ıtulo 5 sobre Deriva¸c˜ ao. Por meio
do teorema de recobrimento de Vitali, deu outra demonstra¸c˜ ao
ao teorema fundamental do C´alculo, tornando o cap´ıtulo trans-
parente.
Com estas modifica¸c˜oes profundas na edi¸c˜ ao anterior, apresenta-
se esta quarta edi¸ c˜ao, materializando um sonho que aliment´avamos,
quando trabalh´ avamos no Departamento de Matem´ atica da Faculdade
i
Nacional de Filosofia, da UB, em torno de 1960, de escrever um texto
conjunto sobre a Integral de Lebesgue, seguindo o pensamento de F.
Riesz, (cf. [14]), para facilitar a aprendizagem dos alunos. Aqui, est´a
uma aproxima¸c˜ ao do mesmo.
Agrade¸co, portanto, ao Professor Alv´ercio Moreira Gomes, mestre e
amigo, por suas sugest˜ oes e decisivas corre¸c˜ oes que contribuiram para
tornar este livro mais intelig´ıvel.
Ao Dr. Nikolai A. Larkin, professor na UEM, meu muito obrigado
por sugest˜oes que contribuiram para tornar mais completo este livro.
Agrade¸co ao Ivo Fernandez Lopez, professor do IM-UFRJ, pela lei-
tura de certos trechos do livro e pelas sugest˜oes sobre o Complemento
3, exemplo de conjuntos n˜ ao mensur´ aveis ` a Lebesgue.
`
A Lourdinha pela revis˜ ao cuidadosa do texto, pela organiza¸c˜ ao do
quadro de evolu¸c˜ ao da no¸c˜ ao de integral e, em particular, pelo perd˜ ao
permanente.
Uma vers˜ ao R
n
do m´etodo de F. Riesz para o estudo da Integra¸c˜ ao
` a Lebesgue encontra-se em J. Dixmier [5].
Ao Wilson G´ oes por mais um bonito trabalho de digita¸ c˜ao.
Rio de Janeiro, 1
o
¯
de maio de 1989
L.A. Medeiros
ii
PREF
´
ACIO
´
E indiscut´ıvel a necessidade do estudo da teoria da integral na
forma¸c˜ ao dos matem´aticos com tendˆencia para a An´ alise Matem´ atica
e suas aplica¸c˜ oes. Por este motivo, surge o problema de como le-
var ao conhecimento dos estudantes, de modo simples e intelig´ıvel, as
no¸c˜ oes iniciais daquela teoria, as quais aparecem sob o t´ıtulo: Inte-
gral de Lebesgue. Na realidade, deseja-se, nesta etapa, fazer um
estudo cr´ıtico e introdut´ orio, seguindo Lebesgue, da no¸ c˜ao de inte-
gral, previamente idealizada por Cauchy, Riemann, Darboux, assim
como de suas aplica¸c˜ oes ao estudo da convergˆencia de sucess˜ oes de
fun¸c˜ oes, bem como uma an´ alise do teorema fundamental sobre primi-
tivas. Entretanto, esta fase que chamar´ıamos preparat´oria ` a teoria da
integral, sempre teve dificuldades pedag´ ogicas, as quais se agravaram
nos ´ ultimos anos em nossas universidades. Em face ` a necessidade,
cada vez maior, da no¸ c˜ao de integral segundo Lebesgue, para que o
estudante possa prosseguir o estudo da An´alise Matem´ atica e suas
aplica¸c˜ oes, necess´ ario foi procurar um m´etodo simples de tornar esta
no¸c˜ ao presente na forma¸c˜ ao dos matem´aticos, com tendˆencia para a
An´ alise Matem´atica, o mais cedo poss´ıvel. V´ arias foram as tentati-
vas, sendo uma, razoavelmente simples, adotada no presente texto,
idealizada por F. Riesz.
Tivemos a oportunidade de ensinar pelo m´etodo original de Le-
besgue, segundo o qual faz-se a constru¸c˜ ao da medida, dos conjuntos
mensur´ aveis e posteriormente define-se a integral. Para os estudantes,
tal m´etodo parecia desvinculado de seus estudos anteriores e por isso
mesmo trazia certa d´ uvida, n˜ ao compreens˜ao nem localiza¸c˜ ao das no-
vas id´eias no contexto de sua forma¸c˜ ao. Experimentamos o m´etodo de
Riesz aqui adotado, nos parecendo mais intelig´ıvel ao estudante, al´em
de ir rapidamente `as no¸c˜ oes fundamentais e concluir, sem dificuldade,
as rela¸ c˜oes entre a integral e as sucess˜oes de fun¸c˜ oes. A partir de certo
ponto os m´etodos de Lebesgue e Riesz se confundem e se equivalem.
iii
A fim de que o leitor tenha uma id´eia do m´etodo de Riesz ´e inte-
ressante compar´ a-lo ao processo adotado por Cantor, para construir
os n´ umeros reais a partir de sucess˜oes de n´ umeros racionais. De modo
um tanto vago, a constru¸c˜ao de Riesz obedece `a mesma linha de id´eias,
que descreveremos suscintamente. Considera-se o espa¸co vetorial das
fun¸c˜ oes escada, no qual define-se, de maneira ´ obvia, uma no¸c˜ao de in-
tegral. Considera-se a classe das sucess˜oes crescentes de fun¸c˜ oes escada
cujas integrais s˜ ao limitadas. Demonstra-se que tais sucess˜oes conver-
gem. Define-se uma nova cole¸c˜ ao de fun¸c˜oes limites de sucess˜oes nas
condi¸c˜ oes anteriores. Estende-se a no¸ c˜ao de integral ` as fun¸c˜oes limites.
Amplia-se a nova cole¸c˜ ao obtida, por inclus˜ ao da diferen¸ca de seus ele-
mentos, fazendo-se nova extens˜ ao da no¸c˜ ao de integral. A classe assim
obtida, ´e a das fun¸ c˜oes integr´ aveis `a Lebesgue e a integral obtida na
nova cole¸ c˜ao ´e a de Lebesgue. Nesta constru¸c˜ao desempenha papel
fundamental o teorema de Beppo-Levi. Ele afirma que se repetirmos
o mesmo processo na classe obtida de fun¸ c˜oes integr´ aveis `a Lebesgue,
n˜ ao sairemos desta cole¸c˜ ao.
Resta-nos localizar este texto em nosso Ensino Universit´ario. Dir´ıa-
mos que ap´os um curso de An´ alise Matem´ atica ao n´ıvel da referˆencia
[6], ´e compreens´ıvel um curso baseado no presente livro.
´
E acon-
selh´ avel que ap´ os a leitura deste texto os estudantes vejam algumas
aplica¸c˜ oes, como por exemplo: s´eries e transforma¸ c˜oes de Fourier, ini-
cia¸c˜ ao aos espa¸cos de Hilbert com ˆenfase na topologia do espa¸ co L
2
,
demonstra¸c˜ ao de certos teoremas de existˆencia para equa¸c˜oes diferen-
ciais em hip´ oteses gerais de integrabilidade, etc.
Apesar do sum´ ario que acompanha o presente livro, n˜ao ser´a perda
de tempo um breve resumo do seu conte´ udo. Inicia-se com a no¸ c˜ao
de conjunto de medida nula, para, a seguir, definir-se a no¸ c˜ao de con-
vergˆencia quase sempre de fun¸c˜ oes escada. H´a duas proposi¸c˜oes, de-
nominadas Primeiro e Segundo Lema Fundamental, sobre as quais
se baseia a defini¸c˜ ao de integral. Eles devem ser lidos cuidadosa-
iv
mente. Com base no Segundo Lema Fundamental, define-se a classe
das fun¸c˜ oes integr´ aveis ` a Lebesgue e a respectiva integral de Lebesgue.
Compara-se a nova integral com a de Riemann, estudam-se as propri-
edades b´ asicas dos conjuntos e fun¸ c˜oes mensur´ aveis, demonstrando-se
a equivalˆencia entre os m´etodos de Riesz e Lebesgue. Faz-se um es-
tudo breve sobre os espa¸cos L
p
, finalizando-se com o estudo sobre a
deriva¸c˜ao e demonstra¸c˜ ao do teorema fundamental sobre primitivas.
Nossa gratid˜ao aos colegas da UFRJ pelo est´ımulo permanente.
Ao Luiz Henrique Medeiros nossos agradecimentos pelas figuras
contidas no texto.
Os Autores
v
INTRODUC¸
˜
AO
O m´etodo de calcular ´ areas e volumes de figuras geom´etricas com-
plicadas, por meio de ´ areas e volumes de figuras mais simples, j´a era
usado por Arquimedes (287-212 A.C.). Tal id´eia foi o germe do que
se convencionou chamar c´alculo infinitesimal. Embora esta id´eia seja
t˜ ao antiga, sua formaliza¸ c˜ao matem´atica, denominada teoria da inte-
gra¸c˜ ao, teve o seu apogeu no s´eculo passado. Podemos afirmar que
o conceito de integral aparece, de fato, em forma embrion´ aria, nos
trabalhos de Arquimedes, ao utilizar o m´etodo de exaust˜ ao criado por
Eudoxo (408-355 A.C.), no c´alculo do comprimento de curvas, ´ areas e
volumes de figuras geom´etricas.
Newton (1642-1727) e Leibniz (1646-1716), atualmente tidos como
os inventores do C´alculo Diferencial, aperfei¸coaram o m´etodo de Ar-
quimedes, lan¸cando as bases do C´ alculo Integral. Entretanto, Newton
e Leibniz n˜ ao possuiam com clareza a no¸c˜ ao de limite, deixando du-
vidosos e obscuros v´ arios pontos de seus trabalhos, com a introdu¸c˜ ao
do conceito de infinit´esimo.
Posteriormente, com os trabalhos de Cauchy (1789-1857) e Rie-
mann (1826-1866) o conceito de integral foi estabelecido em bases
rigorosas, tornando-se um instrumento poderoso, para a ´epoca, na
resolu¸c˜ ao de in´ umeros problemas.
Durante muito tempo foi desenvolvida uma teoria da integra¸ c˜ao ba-
seada nas id´eias de Riemann. Esta teoria, entretanto, cont´em certos
inconvenientes que a tornam inadequada ao estudo de v´ arios proble-
mas da An´ alise Matem´atica. No Cap´ıtulo 1 deste texto traremos ` a
luz alguns deles, no par´agrafo dedicado ` a integral de Riemann. Evi-
dentemente, com fortes hip´oteses sobre as fun¸c˜ oes em jogo, alguns dos
inconvenientes mencionados desaparecem. Todavia, cumpre-nos notar
que, tanto do ponto de vista das aplica¸c˜ oes como do ponto de vista
est´etico, os resultados contidos em uma teoria matem´ atica devem ser
1
os mais gerais poss´ıveis, em cada etapa do conhecimento, procurando-
se evitar as hip´oteses superfluas, muitas vezes motivadas por defini¸ c˜oes
inadequadas de determinados conceitos. Deste modo, com a no¸c˜ao de
integral de Riemann apresentando certas deficiˆencias que a tornavam
ineficaz para a resolu¸c˜ao de um grande n´ umero de problemas, fazia-se
necess´ aria uma reformula¸c˜ ao de tal no¸c˜ ao, tendo-se em mente obter
uma, sem as deficiˆencias da anterior, mas contendo aquela como caso
particular. Dito de outro modo, dever-se-ia obter um conceito de in-
tegral, tal que a nova classe de fun¸c˜ oes integr´ aveis contivesse a classe
das fun¸c˜ oes integr´aveis `a Riemann (onde as duas integrais deveriam
coincidir) e na qual os inconvenientes da integral de Riemann desapa-
recessem ou, pelo menos, fossem minimisados.
O passo decisivo no sentido de se obter uma defini¸c˜ao de integral que
eliminasse as deficiˆencias existentes na integral de Riemann foi dado
por Henri Lebesgue (1875-1941), quando em 1902 publicou sua famosa
tese de doutoramento, intitulada: “Int´egrale, longueur, aire”, que atu-
almente est´ a contida em seu famoso livro “Le¸cons sur l’Int´egration et
la Recherche des Fonctions Primitives” (cf. [9]). O conceito de integral
originalmente proposto por Lebesgue baseia-se na no¸c˜ ao de medida de
conjuntos. As id´eias de Lebesgue se afastaram tanto dos cˆ anones da
´epoca que foram, em princ´ıpio, refutadas e severamente criticadas ou,
na melhor das hip´oteses, aceitas com desconfian¸ca. Todavia, a origi-
nalidade de suas id´eias encontrou crescente reconhecimento, vindo a
completar definitivamente certas lacunas inerentes ` a integral de Rie-
mann.
A integral de Lebesgue foi a primeira tentativa frut´ıfera de orga-
niza¸c˜ ao matem´ atica da no¸c˜ ao de integral e, neste sentido, costuma-se
dizer que a teoria da integra¸c˜ ao foi criada no s´eculo vinte.
Com a evolu¸c˜ ao do pensamento matem´atico, a no¸ c˜ao de medida
e integral no sentido de Lebesgue foi se tornando cada vez mais im-
prescind´ıvel ao desenvolvimento e organiza¸c˜ao de novas teorias. Da´ı
2
resultou o problema pedag´ ogico de saber como introduzir, o mais cedo
poss´ıvel no ensino acadˆemico, as id´eias de Lebesgue. V´arias foram as
tentativas de obter outra defini¸c˜ ao da integral de Lebesgue. Entre
elas est˜ ao algumas que surtiram efeito, tais como a de W.H. Young
(1863-1942), baseada no m´etodo das sucess˜ oes mon´otonas; a de L. To-
nelli (1885-1946), por meio das fun¸c˜ oes quase cont´ınuas e, a que teve
maior sucesso, n˜ ao apenas do ponto de vista de generaliza¸c˜ oes como
tamb´em do ponto de vista pedag´ ogico, foi a idealizada por F. Riesz
(1880-1956), a qual ser´ a usada neste texto. (Cf. [14]).
Dos m´etodos de definir a integral de Lebesgue o que penetrou no
ensino foi o original, criado por Lebesgue, baseado na no¸c˜ ao de medida
de conjuntos. Tal procedimento foi sempre de dif´ıcil assimila¸c˜ ao, por
parte dos estudantes, porque parecia desvinculado do conhecimento
anterior da no¸c˜ao de integral de Cauchy e Riemann. Acreditamos
que o caminho originalmente seguido por Lebesgue, isto ´e, desenvol-
ver a teoria da medida dos conjuntos para depois definir a integral,
tornar-se-ia natural, na gradua¸c˜ ao, se fosse feita a rela¸c˜ ao entre a
integral de Riemann e a medida de Jordan. Esclarecemos esta ob-
serva¸ c˜ao. Limitando-nos ao caso de fun¸ c˜oes reais de uma vari´avel
real, identifica-se a integral de Riemann de uma fun¸c˜ ao limitada n˜ ao
negativa u: [a, b] → R, com a medida de Jordan do conjunto dos
pares (x, y) do R
2
tais que a ≤ x ≤ b, 0 ≤ y ≤ u(x) (este con-
junto ´e denominado conjunto ordenada de u). Assim, uma maneira
de introduzir a integral de Lebesgue, relacionada imediatamente com
a integral de Riemann, seria generalizar a medida de Jordan dos con-
juntos do R
2
, obtendo-se a medida de Lebesgue de tais conjuntos e
definir u: [a, b] →R limitada, como integr´ avel ` a Lebesgue quando seu
conjunto ordenada fosse mensur´avel ` a Lebesgue. A integral de Lebes-
gue de u seria, desta forma, a medida de Lebesgue de seu conjunto
ordenada. Assim, facilmente obter´ıamos a rela¸c˜ ao entre as integrais
de Riemann e de Lebesgue. Este procedimento, entretanto, n˜ ao ´e
3
aconselh´ avel, pois neste caso ter´ıamos de desenvolver uma teoria da
medida de Jordan, com pouca utilidade no est´ agio atual da An´ alise
Matem´ atica. Ali´ as, n˜ao devemos tamb´em perder muito tempo en-
sinando propriedades particulares a integral de Riemann. Devemos,
todavia, chamar a aten¸c˜ ao dos estudantes para alguns de seus aspectos
que servem de motiva¸c˜ ao para o estudo da integral de Lebesgue.
Da experiˆencia que acumulamos no ensino da Matem´ atica em nos-
sas Universidades concluimos que, o m´etodo de Riesz, j´ a mencionado,
´e de f´acil assimila¸c˜ ao por parte dos estudantes que, uma vez iniciados
e motivados no estudo da integral de Lebesgue por este m´etodo, po-
der˜ ao, posteriormente, estudar outros m´etodos de acordo com os seus
interesses e necessidades. O m´etodo de Riesz vem exposto tamb´em
em [16] e [17]. O texto que aqui apresentamos ´e uma exposi¸c˜ ao deste
m´etodo, baseada na bibliografia citada, organizada ao nosso gosto e
escrita, principalmente, visando os estudantes que nunca tiveram con-
tato algum com a no¸c˜ ao de integral de Lebesgue.
4
1
Fun¸c˜oes Escada
1.1 Conjuntos de medida nula
Como mencionamos na introdu¸ c˜ao deste texto, o m´etodo que iremos
usar para definir a integral de Lebesgue ´e o m´etodo de Riesz. Neste
m´etodo, apesar de n˜ ao ser necess´ aria a constru¸c˜ao de uma teoria da
medida para os conjuntos, necessitamos, todavia, do conceito de con-
junto de medida nula o qual ´e bastante simples e de f´ acil compreens˜ao.
O ´ unico conhecimento pr´evio de que precisamos ´e a no¸c˜ ao elementar
de comprimento (ou amplitude) de um intervalo da reta que ´e definido
como sendo o valor absoluto da diferen¸ca entre os extremos do inter-
valo, n˜ ao importando se o mesmo ´e aberto ou fechado. Naturalmente,
se o intervalo n˜ ao ´e limitado diremos que tem amplitude infinita. A
amplitude de um intervalo I ser´ a denotada por amp(I). Salvo men¸c˜ ao
expl´ıcita em contr´ario, todos os conjuntos a que nos referirmos s˜ ao
subconjuntos do conjunto dos n´ umeros reais, aqui denotado por R,
tamb´em denominado reta real.
1.1 Defini¸c˜ao. Diz-se que um conjunto E tem medida nula quando
para todo ε > 0 existe uma fam´ılia enumer´avel de intervalos abertos
¦I
k
¦
k∈N
satisfazendo `as seguintes condi¸c˜ oes:
6 Fun¸c˜oes Escada Cap. 1
(i) E ⊂

¸
k=1
I
k
, isto ´e, ¦I
k
¦ ´e um recobrimento de E.
(ii)

¸
k=1
amp(I
k
) < ε.
Decorre imediatamente desta defini¸c˜ ao que todo subconjunto de
um conjunto de medida nula tem ele mesmo medida nula.
Neste texto entendemos como enumer´avel uma cole¸c˜ ao que ´e finita
ou equipotente ao conjunto N dos n´ umeros naturais.
1.2 Exemplo. Seja E = ¦r
1
, r
2
, . . . , r
n
, . . . ¦ um subconjunto enu-
mer´ avel da reta real R. Para cada ε > 0, consideremos os intervalos
I
n
= ¦x ∈ R; r
n

ε
2
n+2
< x < r
n
+
ε
2
n+2
¦ para n = 1, 2, . . . . A fam´ılia
¦I
n
¦
n∈N
´e um recobrimento enumer´ avel de E e a amplitude de cada I
n
´e dada por
ε
2
n+1
Logo, a soma das amplitudes dos I
n
´e menor que ε.
Conclui-se que qualquer conjunto enumer´ avel tem medida nula. Como
conseq¨ uˆencia qualquer conjunto finito tem medida nula.
1.3 Exemplo. Consideremos um intervalo compacto I = [a, b], a = b,
e seja ¦I
k
¦
k∈N
um recobrimento enumer´ avel de I por intervalos abertos.
Do teorema de Borel-Lebesgue podemos extrair do recobrimento dado
um sub-recobrimento finito ¦J
1
, J
2
, . . . , J
n
¦.
´
E claro que
(1.1) b −a ≤
n
¸
j=1
amp(J
j
) ≤

¸
k=1
amp(I
k
).
Decorre de (1.1) que, se 0 < ε < b − a, a soma das amplitudes dos
intervalos de (I
k
)
k∈N
´e maior ou igual a ε. Portanto I n˜ ao tem medida
nula.
1.4 Proposi¸c˜ao. A uni˜ao de uma fam´ılia enumer´avel de conjuntos
de medida nula possui medida nula.
Demonstra¸c˜ao: Seja ¦E
k
¦
k∈N
uma fam´ılia de conjuntos de medida
nula. Para cada ε > 0 e para cada k ∈ N existe um recobrimento
Se¸ c˜ao 1.2 A integral de Riemann 7
enumer´ avel de E
k
por intervalos abertos ¦I
k
n
¦
n∈N
, tal que
(1.2)

¸
n=1
amp(I
k
n
) <
ε
2
k

Assim, o conjunto E =

¸
k=1
E
k
´e recoberto pela fam´ılia de intervalos
¦I
k
n
¦
k,n∈N
que ainda ´e enumer´ avel e por (1.2) tem-se:

¸
k=1

¸
n=1
amp(I
k
n
) <

¸
k=1
ε
2
k
= ε,
mostrando que E tem medida nula.
Quando uma propriedade ´e v´ alida em um conjunto E exceto em
um subconjunto de E com medida nula, diz-se que a propriedade vale
quase sempre em E. Por exemplo, suponha que u: (a, b) →R seja uma
fun¸c˜ ao cont´ınua exceto nos racionais de (a, b). Resulta do Exemplo
1.2 que u ´e cont´ınua quase sempre em (a, b).
1.2 A integral de Riemann
Embora o prop´ osito desta se¸ c˜ao seja fazer uma revis˜ao das proprieda-
des da integral de Riemann, esta n˜ao ser´ a pr´e-requisito para a com-
preens˜ ao da integral de Lebesgue como ser´ a apresentada neste texto.
Tal revis˜ao, no entanto, ser´ a feita para facilitar a sua compara¸c˜ ao
com a integral de Lebesgue e tamb´em analisar com alguns detalhes
as deficiˆencias da integral de Riemann, conforme j´ a nos referimos na
introdu¸c˜ ao deste texto.
Seja (a, b) um intervalo aberto e limitado de R (salvo men¸ c˜ao
expl´ıcita em contr´ ario todos os conjuntos considerados daqui at´e o
fim do Cap´ıtulo 2 s˜ao subconjuntos de (a, b)). Toda cole¸ c˜ao finita
¦x
0
, . . . , x
k
¦ de pontos de R tais que a = x
0
< x
1
< < x
k
= b de-
termina k subintervalos I
1
= (x
0
, x
1
), I
2
= (x
1
, x
2
), . . . , I
k
= (x
k−1
, x
k
)
8 Fun¸c˜oes Escada Cap. 1
de (a, b). Diz-se que a cole¸c˜ ao ¦I
1
, . . . , I
k
¦ ´e uma decomposi¸c˜ao de
(a, b) pelos pontos x
0
, . . . , x
k
e que x
0
, . . . , x
k
s˜ ao os pontos de divis˜ao
dessa decomposi¸c˜ao.
Considere u: I → R uma fun¸c˜ ao limitada e seja D uma decom-
posi¸c˜ ao do intervalo I pelos pontos x
0
, x
1
, . . . , x
k
. Para cada j =
1, 2, . . . , k, representemos por m
j
e M
j
, respectivamente, o ´ınfimo e
o supremo de u em I
j
= (x
j−1
, x
j
). Consideremos as somas s(u, D) e
S(u, D) denominadas, respectivamente, soma inferior e soma superior
de u, relativas `a decomposi¸c˜ ao D de I, definidas por
s(u, D) =
k
¸
j=1
m
j
amp(I
j
); S(u, D) =
k
¸
j=1
M
j
amp(I
j
).
Demonstra-se que se D
1
, D
2
forem decomposi¸c˜oes quaisquer de I
ent˜ ao s(u, D
1
) ≤ S(u, D
2
), isto ´e, qualquer soma inferior ´e um mino-
rante do conjunto das somas superiores e qualquer soma superior ´e
um majorante do conjunto das somas inferiores. Assim, o conjunto de
todas as somas superiores (obtido fazendo-se variar todas as decom-
posi¸c˜ oes poss´ıveis) tem um ´ınfimo que ser´ a representado por
¯

b
a
u(x) dx,
denominado integral superior segundo Riemann de u em (a, b). Analo-
gamente, o conjunto de todas as somas inferiores possui um supremo
que ser´a denotado por

a

b
u(x) dx,
denominado integral inferior segundo Riemann de u em (a, b).
´
E claro
que

a

b
u(x) dx ≤
¯

b
a
u(x) dx. Quando valer a igualdade, diz-se que u
´e integr´avel `a Riemann em (a, b) sendo o valor comum das integrais
Se¸ c˜ao 1.2 A integral de Riemann 9
inferior e superior denominado integral de Riemann de u em (a, b) e
representado por

b
a
u(x) dx.
´
E claro que, para u ser integr´avel ` a Riemann em (a, b) ´e necess´ ario
e suficiente que, para cada ε > 0, exista uma decomposi¸c˜ ao D de (a, b)
satisfazendo a condi¸c˜ao S(u, D) −s(u, D) < ε.
Na realidade Bernhard Riemann n˜ ao introduziu em sua defini¸c˜ ao os
conceitos de integral inferior e integral superior. Estes foram introdu-
zidos por G. Darboux num artigo intitulado “M´emoire sur les fonctions
discontinues”, publicado em Ann.
´
Ecole Norm. Sup. (2) IV (1875)
pp. 57-112, raz˜ao porque tais integrais s˜ ao conhecidas como integrais
superior e inferior de Darboux. Em sua defini¸c˜ao, Riemann considera,
para cada decompos¸c˜ ao D, a soma S =
k
¸
j=1

j
u(x
j−1
+ ε
j

j
) onde

j
= x
j
− x
j−1
, 0 ≤ ε
j
≤ 1; se S converge para um limite finito
quando ∆ = max¦∆
j
¦ tende a zero, ele diz que u ´e integr´ avel e o refe-
rido limite ´e a integral de u em (a, b). Demonstra-se que as defini¸ c˜oes
de Riemann e de Darboux s˜ao equivalentes e as integrais de u obtidas
segundo ambas as defini¸ c˜oes coincidem.
1.5 Exemplo. Seja I = (0, 1) e u a fun¸c˜ ao definida em I por
u(x) =

1 se x ´e um racional de I
0 se x ´e um irracional de I.
Seja D uma decomposi¸c˜ ao de I pelos pontos 0 = x
0
< x
1
< <
x
k
= 1. Como cada intervalo I
j
= (x
j−1
, x
j
), j = 1, 2, . . . , k, possui
pontos racionais e pontos irracionais, resulta que m
j
= 0 e M
j
= 1
para todo j = 1, 2, . . . , k. Logo,


1
0
u(x) dx = 0 e

0
1
u(x) dx = 1,
10 Fun¸c˜oes Escada Cap. 1
portanto u n˜ ao ´e integr´avel segundo Riemann em (a, b).
1.6 Exemplo. Seja u: (a, b) → R limitada e crescente. Ent˜ao u ´e
integr´ avel segundo Riemann em (a, b). (Aqui e em todo este texto
uma fun¸c˜ao u diz-se crescente se para todo x > y tem-se u(x) ≥ u(y);
quando valer sempre a desigualdade estrita diremos que u ´e estrita-
mente crescente. Considera¸ c˜oes an´alogas s˜ao feitas no caso decres-
cente).
A id´eia para provar a validade da afirmativa do Exemplo 1.6 ´e
esbo¸cada como segue. Fixado um k ∈ N, considere a decomposi¸c˜ ao
D de I obtida por meio dos pontos x
j
= a + j
b−a
k
, j = 0, 1, . . . , k.
Considere as somas s(u, D) e S(u, D). Simples ´e verificar que para
cada ε > 0 a diferen¸ca S(u, D) −s(u, D) ´e menor do que ε para k sufi-
cientemente grande o que implica a integrabilidade segundo Riemann
da fun¸c˜ ao u.
1.7 Exemplo. Toda fun¸c˜ ao cont´ınua e limitada ´e integr´ avel segundo
Riemann.
A afirmativa do exemplo anterior ´e na verdade, um caso particular
do resultado a seguir.
1.8 Teorema. Uma condi¸c˜ao necess´aria e suficiente para que uma
fun¸ c˜ao limitada, u: (a, b) → R, seja integr´avel segundo Riemann em
(a, b) ´e que u seja cont´ınua quase sempre em (a, b).
Demonstra¸c˜ao: Para demonstrar esse resultado, recorde-se que:
a) a oscila¸c˜ ao, ω(J), de u no subintervalo J de (a, b) ´e a diferen¸ca entre
o supremo e o ´ınfimo de u em J; b) a oscila¸ c˜ao ω(x) de u no ponto
x ∈ (a, b) ´e o n´ umero inf ¦ω(J); J ⊂ (a, b), x ∈ J¦; c) u ´e cont´ınua no
ponto x se e s´o se ω(x) = 0; d) designando por E o conjunto das des-
continuidades de u em (a, b) e pondo E
m
= ¦x ∈ (a, b); ω(x) ≥ 1/m¦
tem-se E =

¸
m=1
E
m
.
Isto posto, mostremos que a condi¸c˜ ao ´e necess´ aria. Seja, para isto,
u integr´ avel ` a Riemann em (a, b). Pelo que se acaba de dizer, para
Se¸ c˜ao 1.2 A integral de Riemann 11
demonstrar que u ´e cont´ınua quase sempre em (a, b) ´e bastante de-
monstrar que E
m
tem medida nula para todo m ∈ N. Suponha-se
ent˜ ao que, para algum m ∈ N, E
m
n˜ ao tenha medida nula. Resulta,
da´ı, que existe um δ > 0 tal que a soma das amplitudes dos intervalos
de qualquer recobrimento de E
m
, por intervalos abertos, ´e maior que
δ. Portanto, para toda decomposi¸c˜ ao D de (a, b), a soma das amplitu-
des dos intervalos de D, que contˆem pontos de E
m
, ´e maior ou igual
a δ. Logo, S(u, D) − s(u, D) ≥
1
m
δ > 0, donde u n˜ ao ´e integr´avel ` a
Riemann em (a, b), contra a hip´ otese. A condi¸c˜ ao ´e, pois, necess´ aria.
Reciprocamente, suponha-se que E tenha medida nula. Dado ε > 0
seja
(1.3) N >
2(b −a)
ε

De E
N
⊂ E resulta que E
N
tem medida nula, donde o conjunto F
N
=
E
N
∪ ¦a, b¦ tem medida nula e, portanto, existe um recobrimento
enumer´ avel (I
k
) de F
N
, por intervalos abertos, tal que
(1.4)

¸
k=1
amp(I
k
) <
ε
2(M −m)
,
onde M e m s˜ ao, respectivamente, o supremo e o ´ınfimo de u em (a, b).
Para todo x ∈ [a, b] − F
N
, seja I
x
um subintervalo de (a, b) que
cont´em x e tal que
ω(I
x
) <
1
N

Ent˜ ao ¦I
k
¦ ∪ ¦I
x
¦, k ∈ N, x ∈ [a, b] −F
N
´e um recobrimento de [a, b]
por intervalos abertos que, pelo Teorema de Heine-Borel, admite um
subrecobrimento finita
(1.6) I
k
1
, . . . , I
k
r
, I
x
1
, . . . , I
x
s
.
Seja D a decomposi¸c˜ ao de (a, b) cujos pontos de divis˜ao s˜ ao a, b e os
extremos dos intervalos da fam´ılia (1.6) contidos em (a, b).
´
E imediato
12 Fun¸c˜oes Escada Cap. 1
que cada intervalo de D est´ a contido em algum intervalo da fam´ılia
(1.6) e que se J
1
, . . . , J
n
s˜ ao intervalos de D contidos em um intervalo
I dessa fam´ılia, ent˜ ao
n
¸
i=1
ω(J
i
) amp(J
i
) ≤ ω(I) amp(I).
Da´ı e de (1.3)-(1.5) vem:
S(u, D) −s(u, D) ≤
r
¸
j=1
ω(I
k
j
) amp(I
k
j
) +
s
¸
j=1
ω(I
x
j
) amp(I
x
j
)

r
¸
j=1
(M −m) amp(I
k
j
) +
s
¸
j=1
1
N
amp(I
x
j
) < ε
donde u ´e integr´ avel `a Riemann e a condi¸c˜ ao ´e, pois, suficiente.
1.9 Observa¸c˜ao: Representaremos por 1(a, b) a classe de todas as
fun¸c˜ oes limitadas e integr´ aveis segundo Riemann em (a, b). Em1(a, b)
s˜ ao v´ alidas as seguintes propriedades, de f´acil verifica¸c˜ ao:
(i) Se u, v ∈ 1(a, b) e α, β ∈ R ent˜ ao αu +βv ∈ 1(a, b) e tem-se
(ii)

b
a
[αu(x) +βv(x)]dx = α

b
a
u(x)dx +β

b
a
v(x)dx.
Se V ´e um espa¸co vetorial sobre R, uma aplica¸c˜ ao f : V → R tal
que f(αu +βv) = αf(u) +βf(v) para todo par de vetores u, v ∈ V e
todo par de escalares α, β ∈ R diz-se funcional linear sobre V .
A propriedade (i) mencionada na Observa¸ c˜ao 1.9 nos diz que 1(a, b)
´e um espa¸co vetorial sobre R (na realidade, um subespa¸co do espa¸co
de todas as fun¸c˜ oes reais definidas em (a, b)). A propriedade (ii) nos
diz que a aplica¸c˜ ao que a cada u ∈ 1(a, b) associa o n´ umero real dado
por

b
a
u(x) dx ´e um funcional linear sobre 1(a, b).
Outra propriedade bem conhecida das fun¸c˜ oes integr´ aveis segundo
Riemann ´e a seguinte: se u ∈ 1(a, b) e x ∈ (a, b) ent˜ ao u ´e integr´ avel
Se¸ c˜ao 1.2 A integral de Riemann 13
em (a, x) segundo Riemann. Isto ´e, a restri¸c˜ ao de u a (a, x) pertence
a 1(a, x). Esta propriedade permite-nos construir, a partir de u ∈
1(a, b), uma nova fun¸c˜ ao w: [a, b] →R mediante a f´ormula
(1.7) w(x) =

x
a
u(t) dt.
Diz-se que uma fun¸c˜ ao v : [a, b] → R ´e integral indefinida de u se v ´e
dada por v(x) = w(x) + C, onde C ´e uma constante real arbitr´aria e
w ´e dada por (1.7). Portanto, se u ∈ 1(a, b) as integrais indefinidas
de u s˜ ao obtida por
(1.8) v(x) =

x
a
u(t) dt +C.
Dos cursos elementares de C´ alculo Infinitesimal, sabe-se que toda
integral indefinida, v, de uma fun¸c˜ ao u de 1(a, b) ´e uma fun¸c˜ao
cont´ınua em [a, b], diferenci´avel nos pontos de continuidade de u e
nesses pontos tem-se v
/
= u. Logo, se u ´e uma fun¸c˜ ao cont´ınua em
(a, b), toda integral indefinida v de u ´e uma primitiva de u, i.e., satisfaz
a condi¸c˜ ao
(1.9) v
/
(x) = u(x) ∀x ∈ (a, b).
Sabe-se, ainda, dos cursos elementares de C´alculo Infinitesimal que,
reciprocamente, se v ´e uma primitiva de u, ent˜ao v ´e uma integral
indefinida de u e, mais precisamente, v ´e dada pela f´ ormula (1.8) com
c = v(a). Portanto, se u ´e cont´ınua em (a, b), uma fun¸c˜ ao v : [a, b] →R
´e primitiva de u se, e s´ o se, v ´e uma integral indefinida de u. Este
resultado ´e o bem conhecido Teorema Fundamental do C´alculo Infi-
nitesimal. Ele d´ a, no espa¸co C(a, b) das fun¸c˜ oes cont´ınuas em [a, b],
uma rela¸ c˜ao harmoniosa e simples entre a deriva¸c˜ ao e a integra¸c˜ ao no
sentido de Riemann.
Suponha-se, agora, que a fun¸c˜ao u de 1(a, b) n˜ao seja necessaria-
mente cont´ınua. Ent˜ ao, pelo Teorema 1.8, u ´e cont´ınua quase sempre
14 Fun¸c˜oes Escada Cap. 1
em (a, b) e o que se pode afirmar ´e que as integrais indefinidas de u s˜ ao
deriv´ aveis quase sempre em (a, b) e, mais precisamente, nos pontos de
continuidade de u e nesses pontos tem-se v
/
= u. Portanto, no caso
geral, as integrais indefinidas de u n˜ ao s˜ ao primitivas de u quando se
entende por “primitiva de u” toda fun¸ c˜ao v que satisfaz a condi¸c˜ao
(1.9). Vˆe-se, assim, que (1.9) ´e uma condi¸c˜ao demasiadamente forte
e que a defini¸c˜ ao, de primitiva de uma fun¸c˜ ao, que se deve adotar ´e a
que se segue.
1.10 Defini¸c˜ao. Diz-se primitiva de uma fun¸c˜ao u: (a, b) →R toda
fun¸c˜ ao v : [a, b] →R deriv´ avel quase sempre em (a, b) e que satisfaz a
condi¸c˜ ao v
/
(x) = u(x) quase sempre em (a, b).
Com este conceito de primitiva pode-se dizer que as integrais indefi-
nidas de u s˜ ao primitivas de u. A rec´ıproca, por´em, n˜ao ´e verdadeira; o
exemplo a seguir mostra que existem primitivas de
u ∈ 1(a, b) que n˜ ao s˜ao integrais indefinidas de u.
1.11 Exemplo. Seja v a fun¸c˜ ao definida por
v(x) =

1 se 0 ≤ x ≤ 3
2 se 3 < x ≤ 5.
De acordo com a Defini¸c˜ ao 1.13, v ´e uma primitiva da fun¸c˜ ao u iden-
ticamente nula em (0,5), mas n˜ao ´e uma integral indefinida de u pois
as integrais indefinidas de u s˜ ao as fun¸c˜ oes constantes em [0, 5].
O conjunto das integrais indefinidas de u ∈ 1(a, b) est´a, pois, pro-
priamente contido no de suas primitivas. Da´ı a pergunta: dentre as
primitivas de u como caracterizar as que s˜ ao integrais indefinidas?
A dificuldade em responder essa pergunta ´e uma das deficiˆencias da
integral de Riemann. Voltaremos ao assunto no Cap´ıtulo 5.
Uma outra deficiˆencia da integral de Riemann est´ a na “passagem ao
limite sob o sinal de integral”, i.e., na possibilidade de concluir que, se
(u
n
) ´e uma sucess˜ao de fun¸c˜ oes de 1(a, b) convergente em (a, b) ent˜ao
Se¸ c˜ao 1.3 Integra¸ c˜ao das fun¸c˜oes escada 15
lim
n→∞
u
n
∈ 1(a, b) e
(1.10)

b
a
lim
n→∞
u
n
= lim
n→∞

b
a
u
n
.
Como se sabe dos cursos elementares de C´ alculo Infinitesimal, isto s´ o
´e poss´ıvel em casos muito particulares como, por exemplo, no caso
em que (u
n
) ´e uma sucess˜ao de fun¸c˜ oes cont´ınuas que converge uni-
formemente. O exemplo a seguir mostra o motivo dessa deficiˆencia da
integral de Riemann.
1.12 Exemplo. Seja r
1
, r
2
, . . . o conjunto dos racionais do intervalo
(0,1) e u
n
: (0, 1) →R definida por
u
n
(x) =

1 nos pontos r
1
, . . . , r
n
0 nos demais pontos de (0, 1).
Ent˜ ao (u
n
) ´e uma sucess˜ ao crescente de fun¸c˜ oes de 1(a, b), com

1
0
u
n
(x) = 0 ∀n ∈ N, que converge para a fun¸c˜ ao u definida por
u(x) =

1 nos pontos racionais de (0, 1)
0 nos demais pontos de (0, 1).
Neste caso n˜ao ´e poss´ıvel passar ao limite sob o sinal de integral por-
que, pelo Exemplo 1.5, u / ∈ 1(a, b) e assim, o primeiro membro de
(1.10) n˜ao tem sentido.
Este exemplo mostra claramente a seguinte falha da integral de Ri-
emann: o limite de uma sucess˜ ao crescente e convergente de fun¸c˜oes
de 1(a, b), cuja sucess˜ao dos integrais ´e limitada, nem sempre per-
tence a 1(a, b).
´
E uma falha muito grave que praticamente a torna
imprest´ avel no trato dos problemas que envolvem passagem ao limite
sob o sinal de integral.
Nos dois primeiros cap´ıtulos deste curso ser´ a constru´ıda a inte-
gral de Lebesgue. Para ela os inconvenientes da integral de Riemann,
apontados, deixam de existir.
16 Fun¸c˜oes Escada Cap. 1
1.3 Integra¸ c˜ao das fun¸c˜oes escada
A no¸c˜ ao de fun¸ c˜ao escada ´e fundamental no m´etodo escolhido para
o estudo da integral de Lebesgue neste texto. Ap´ os a defini¸ c˜ao das
fun¸c˜ oes escada ser˜ao demonstrados, entre outros resultados, dois lemas
fundamentais que ser˜ ao o alicerce sobre o qual se baseia a defini¸c˜ ao de
integral de Lebesgue proposta por F. Riesz.
Se D
1
e D
2
forem decomposi¸c˜ oes de um intervalo limitado (a, b),
representa-se por D
1
+D
2
a decomposi¸c˜ ao cujos pontos de divis˜ao s˜ ao
os de D
1
e os de D
2
.
Diz-se que u: (a, b) → R ´e uma fun¸c˜ ao escada, quando existe uma
decomposi¸c˜ ao D do intervalo (a, b) tal que u ´e constante em cada su-
bintervalo I
k
= (x
k−1
, x
k
), k = 1, 2, . . . , n, de D. A decomposi¸c˜ao D
diz-se associada ` a fun¸c˜ ao escada u, sendo claro que D n˜ ao ´e univoca-
mente determinada para cada u. Em verdade podemos sempre refinar
uma decomposi¸ c˜ao D, associada a u, acrescentando novos pontos de
divis˜ ao aos subintervalos de D.
1.13 Exemplo. A fun¸c˜ ao u: (a, b) →R que a cada x ∈ (a, b) associa
a sua parte inteira ´e uma fun¸c˜ ao escada.
1.14 Exemplo. Seja u: (−2, +2) →R definida por u(x) = lim
k→∞
1
1+x
2k

Esta ´e uma fun¸c˜ao escada.
1.15 Exemplo. Suponha u: (a, b) → R cont´ınua e D uma decom-
posi¸c˜ ao de (a, b). Sejam m
k
= inf¦u(x); x ∈ I
k
¦ e M
k
= sup¦u(x);
x ∈ I
k
¦, para k = 1, 2, . . . , n, sendo I
k
= (x
k−1
, x
k
) os intervalos de D.
As fun¸c˜ oes v e w definidas em (a, b) por v(x) = m
k
e w(x) = M
k
para
x ∈ I
k
, k = 1, 2, . . . , n, s˜ao fun¸c˜ oes escada em (a, b).
Note-se que alterando os valores de uma fun¸c˜ ao escada u em um
n´ umero finito de pontos de (a, b) e, em particular, nos pontos de di-
vis˜ ao de uma decomposi¸ c˜ao associada a u tem-se, ainda, uma fun¸c˜ ao
escada.
Se¸ c˜ao 1.3 Integra¸ c˜ao das fun¸c˜oes escada 17
1.16 Lema. Sejam u e v duas fun¸c˜oes escada definidas em (a, b).
Ent˜ ao existe uma decomposi¸c˜ao de (a, b) associada, simultaneamente,
a u e v.
Demonstra¸c˜ao: Sejam D
1
e D
2
decomposi¸c˜ oes de (a, b) associadas
a u e v, respectivamente. A decomposi¸ c˜ao D
1
+ D
2
tanto pode ser
obtida por acr´escimo a D
1
dos pontos de D
2
como por acr´escimo a D
2
dos pontos de D
1
. Portanto pelo que se observou acima, D
1
+ D
2
´e
associada tanto a u como a v.
Com aux´ılio do Lema 1.16 vˆe-se imediatamente que a classe das
fun¸c˜ oes escadas definidas em (a, b) ´e um espa¸co vetorial real. Para
represent´ a-lo ser´a usada a nota¸c˜ ao S
0
(a, b) ou apenas S
0
quando n˜ao
houver possibilidade de confus˜ ao.
Dadas duas fun¸c˜ oes reais u e w, definidas em [a, b] define-se as
fun¸c˜ oes u ∨ w, u ∧ w e [u[ do modo seguinte:
(u ∨ w)(x) = max¦u(x), w(x)¦
(u ∧ w)(x) = min¦u(x), w(x)¦
[u[(x) = [u(x)[
(veja figuras 1.1 a 1.4).
Se u, w s˜ ao fun¸ c˜oes escada, tamb´em o s˜ ao as fun¸c˜oes u∨w e u∧w,
em virtude do Lema 1.16. Assim, S
0
(a, b) ´e um reticulado vetorial
real.
Observe-se que de u ∈ S
0
(a, b) vem [u[ ∈ S
0
(a, b) pois, como ´e
´ obvio, [u[ = u ∨ (−u).
1.17 Proposi¸c˜ao. Sejam (u
k
) e (w
k
) duas sucess˜oes de fun¸c˜oes reais
definidas em [a, b], convergentes quase sempre em [a, b] para as fun¸c˜oes
u e w, respectivamente. Ent˜ao as sucess˜oes (u
k
∧ w
k
) e (u
k
∨ w
k
)
convergem quase sempre em [a, b] para u∧w e u∨w, respectivamente.
Demonstra¸c˜ao: Seja A o conjunto dos pontos x de [a, b] onde as
sucess˜ oes (u
k
) e (w
k
) n˜ao convergem. Logo A tem medida nula. Con-
18 Fun¸c˜oes Escada Cap. 1
sidere x em [a, b] − A. Ent˜ ao, para cada ε > 0 existem k
1
e k
2
∈ N
tais que
−ε +u(x) < u
k
(x) < ε +u(x) para k > k
1
. (1.11)
−ε +w(x) < w
k
(x) < ε +w(x) para k > k
2
. (1.12)
Tomando k

= max¦k
1
, k
2
¦ resulta que as desigualdades (1.11) e
(1.12) s˜ao v´ alidas para k > k

. Portanto,
max¦−ε +u(x), −ε +w(x)¦ < max¦u
k
(x), w
k
(x)¦
< max¦ε +u(x), ε +w(x)¦
para todo k > k

, ou seja
−ε + (u ∨ w)(x) < (u
k
∨ w
k
(x) < ε + (u ∨ w)(x), ∀k > k

,
ou ainda,
[(u
k
∨ w
k
)(x) −(u ∨ w)(x)[ < ε, ∀k > k

.
Logo (u
k
∨ w
k
) converge para (u ∨ w) quase sempre em [a, b].
De maneira an´aloga mostra-se que (u
k
∧ w
k
) converge para u ∧ w
quase sempre em [a, b].
Se¸ c˜ao 1.3 Integra¸ c˜ao das fun¸c˜oes escada 19
Definiremos a integral em S
0
como segue:
1.18 Defini¸c˜ao. Seja u ∈ S
0
e D uma decomposi¸c˜ ao de (a, b) asso-
ciada a u. Denotemos por C
k
o valor constante assumido por u no
intervalo I
k
= (x
k−1
, x
k
) de D, k = 1, 2, . . . , n. O n´ umero real
n
¸
k=1
C
k
(x
k
−x
k−1
)
denomina-se integral da fun¸c˜ ao u no intervalo (a, b), e ´e representado
por

b
a
u(x) dx,

(a,b)
u(x) dx ou simplesmente

u. Isto ´e,

u =

b
a
u(x) dx =
n
¸
k=1
C
k
(x
k
−x
k−1
).
Devemos provar, naturalmente, que a integral de uma fun¸c˜ ao escada
u obtida da Defini¸c˜ao 1.18 n˜ ao depende da decomposi¸c˜ ao D considera-
da.
20 Fun¸c˜oes Escada Cap. 1
1.19 Proposi¸c˜ao. Se u ∈ S
0
ent˜ao a integral de u em (a, b) n˜ao
depende da decomposi¸c˜ao D de (a, b) associada a u.
Demonstra¸c˜ao: Sejam D
1
e D
2
duas decomposi¸ c˜oes (a, b) associa-
das `a mesma fun¸c˜ ao u ∈ S
0
, obtidas, respectivamente, pelos pontos
a = x
0
< x
1
< < x
n
= b e a = y
0
< y
1
< < y
m
= b. Seja
D = D
1
+ D
2
e representemos por x
j−1
= z
j
0
< z
j
1
< < x
j
k(j)
=
x
j
os pontos de divis˜ao de D contidos no intervalo [x
j−1
, x
j
]. Sendo
x
j
−x
j−1
= (z
j
k(j)
−z
j
k(j)−1
) + +(z
j
1
−z
j
0
) e u constante em (x
j−1
, x
j
)
para j = 1, 2, . . . , n, resulta que
(1.13) C
j
(x
j
−x
j−1
) =
k(j)
¸
p=1
C
j
(z
j
p
−z
j
p−1
)
onde C
j
´e o valor de u em (x
j−1
, x
j
). Se denotarmos, nesta demons-
tra¸c˜ ao, a integral de u obtida usando-se uma decomposi¸ c˜ao D por
(D)

u, obtemos de (1.13) que
(D
1
)

u =
n
¸
j=1
C
j
(x
j
−x
j−1
) =
n
¸
j=1
k(j)
¸
p=1
C
j
(z
j
p
−z
j
p−1
) = (D)

u.
Procedento de maneira an´ aloga com os pontos de divis˜ao da decom-
posi¸c˜ ao D
2
chegaremos ` a conclus˜ao que (D
2
)

u = (D)

u e portanto
(D
1
)

u = (D
2
)

u.
Observe que a integral de u n˜ ao depende dos valores que u assume
nos pontos de divis˜ao de uma decomposi¸c˜ao D associada a u; depende
apenas dos valores assumidos por u nos intervalos I
k
. Pode-se, pois,
desconhecer os valores de u nos pontos de divis˜ ao de D ou atribuir-
lhe valores arbitr´arios ou, mesmo, nem defin´ı-la nesses pontos. E,
como refinando uma decomposi¸c˜ao associada a u por acr´escimo de
uma fam´ılia finita de pontos de (a, b) tem-se ainda uma decomposi¸c˜ ao
associada a u, o mesmo pode ser dito a respeito de qualquer fam´ılia
finita de pontos de (a, b).
Se¸ c˜ao 1.3 Integra¸ c˜ao das fun¸c˜oes escada 21
1.20 Observa¸c˜ao: Seja E um subconjunto de (a, b). A fun¸c˜ao
A
E
: (a, b) → R definida por A
E
(x) = 1 se x ∈ E e A
E
(x) = 0
nos demais pontos de (a, b), chama-se fun¸c˜ao caracter´ıstica de E. Se
E ⊂ (a, b) ´e uma uni˜ao de n intervalos abertos I
k
, k = 1, 2, . . . , n,
dois a dois sem ponto interior em comum, simples ´e verificar que
A
E
∈ S
0
(a, b). Para cada u ∈ S
0
(a, b) define-se

E
u =

b
a
uA
E
(ver
Exerc´ıcios 1.1 e 1.2) e verifica-se que

E
u =
n
¸
k=1

I
k
u, uma vez que
A
E
=
n
¸
k=1
A
I
k
exceto, possivelmente, em uma fam´ılia finita de pontos
de (a, b). Em particular, se u = A
E
,

E
A
E
=
n
¸
k=1
amp(I
k
). Neste caso
o n´ umero

E
A
E
chama-se amplitude de E e denota-se por amp(E).
1.21 Observa¸c˜ao: Se α, β ∈ R e u, v ∈ S
0
ent˜ ao

(αu + βv) =
α

u+β

v. Esta propriedade nos diz que a aplica¸ c˜ao u →

u que a
cada u ∈ S
0
associa o n´ umero real

b
a
u ´e um funcional linear sobre o
espa¸co vetorial S
0
. Al´em disto se u, v ∈ S
0
e u ≤ v ent˜ ao

b
a
u ≤

b
a
v
o que significa que o funcional linear u →

b
a
u ´e positivo sobre S
0
.
1.22 Observa¸c˜ao: Observemos que u ≤ v ´e entendido no sentido de
que existem decomposi¸c˜ oes D
1
, D
2
de (a, b), associadas `as fun¸c˜ oes u e
v, respectivamente, tais que u(x) ≤ v(x) para todo x de (a, b) distinto
dos pontos de divis˜ ao de D
1
+ D
2
. Todavia, tamb´em conv´em notar
que podemos admitir u(x) ≤ v(x) para todo x ∈ (a, b) uma vez que se
alterarmos os valores de uma fun¸c˜ ao escada em um n´ umero finito de
pontos a sua integral n˜ ao se modifica.
Passaremos agora a demonstrar duas proposi¸c˜oes, as mais signifi-
cativas deste cap´ıtulo. Sobre ela est´a moldada a defini¸ c˜ao de integral
de Lebesgue apresentada por F. Riesz. Dada a importˆancia de am-
bas, no presente texto, resolvemos identific´ a-las como “Primeiro Lema
Fundamental” e “Segundo Lema Fundamental” para facilitar futuras
22 Fun¸c˜oes Escada Cap. 1
referˆencias. Aconselhamos ao leitor memorizar estes resultados, pois,
no decorrer deste texto, faremos uso freq¨ uente dos mesmos.
1.23 Proposi¸c˜ao. (Primeiro Lema Fundamental) – Seja (u
k
) uma
sucess˜ao decrescente de fun¸c˜oes escada n˜ao negativas em (a, b). Se
lim
k→∞
u
k
= 0 quase sempre em (a, b) ent˜ao lim
k→∞

b
a
u
k
= 0.
Demonstra¸c˜ao: Para cada k ∈ N seja E
k
o conjunto dos pontos de
descontinuidade da fun¸c˜ ao u
k
em [a, b]. Como u
k
∈ S
0
ent˜ ao E
k
´e
finito e portanto E =

¸
k=1
E
k
´e enumer´ avel.
Logo, E possui medida nula. Representemos por F o conjunto
dos pontos de [a, b] nos quais a sucess˜ao (u
k
) n˜ ao converge para zero.
Por hip´ otese F possui medida nula. Se G = E ∪ F ent˜ ao G possui
medida nula. Resulta da´ı que para cada ε > 0, existe um recobrimento
enumer´ avel de G por intervalos abertos, cuja soma das amplitudes ´e
menor que ε/2M, onde M > sup¦u
1
(x); x ∈ (a, b)¦. Denotemos por
J
1
o citado recobrimento de G.
Se p ´e um ponto de [a, b] − G, resulta que lim
k→∞
u
k
(p) = 0. Logo,
existe um n´ umero natural m, dependendo de p e ε, tal que
u
m
(p) <
ε
2(b −a)

Como p / ∈ G, u
m
´e cont´ınua em p e sendo u
m
uma fun¸c˜ ao escada,
existe um intervalo aberto I(p) contido em (a, b) e contendo p, tal que
para todo x em I(p) se tem
(1.14) u
m
(x) <
ε
2(b −a)

Sendo (u
k
) decrescente, resulta que a desigualdade (1.14) ´e v´alida para
todo k ≥ m e todo x ∈ I(p), isto ´e,
(1.15) u
k
(x) <
ε
2(b −a)
Se¸ c˜ao 1.3 Integra¸ c˜ao das fun¸c˜oes escada 23
para todo k ≥ m e todo x ∈ I(p). Quando p varia em [a, b]−G, obt´em-
se uma cole¸c˜ ao de intervalos abertos J
2
= ¦I(p); p em [a, b] −G¦, nos
quais vale a desigualdade (1.15).
A uni˜ ao J
1
∪J
2
´e portanto um recobrimento do intervalo compacto
[a, b] por intervalos abertos. Pelo Teorema de Borel-Lebesgue existe
uma subfam´ılia finita de J
1
∪J
2
, que ainda ´e um recobrimento de [a, b],
a qual representaremos por B = ¦δ
1
, δ
2
, . . . , δ
r
, I(p
1
), I(p
2
), . . . , I(p
s
)¦,
onde os δ
i
s˜ ao os elementos de J
1
e os I(p
j
) s˜ ao os elementos de J
2
que
ocorrem em B.
Para cada intervalo I(p
j
), j = 1, 2, . . . , s de B, existe um m
j
∈ N
tal que
u
k
(x) <
ε
2(b −a)
para todo k > m
j
e todo x ∈ I(p
j
),
pela pr´opria defini¸c˜ ao dos I(p
j
). Seja m

= max¦m
1
, m
2
, . . . , m
s
¦.
Obt´em-se
u
k
(x) <
ε
2(b −a)
para todo x ∈ K =
s
¸
j=1
I(p
j
)
e para todo k > m

. Mas K pode ser escrito como uni˜ ao de um
n´ umero finito de sub-intervalos de [a, b] dois a dois sem ponto interior
em comum. Logo, pelo que vimos na Observa¸c˜ ao 1.20, tem-se que
para todo k > m

(1.16)

K
u
k
=

b
a
u
k
A
K

b
a
ε
2(b −a)
A
k
=
ε
2(b −a)

b
a
A
K
=
ε
2(b −a)

K
A
K
=
ε
2(b −a)
amp(K) ≤
ε
2

Considerando agora a parte correspondente aos δ
i
, seja δ =
r
¸
i=1
δ
i
e
seja S = δ ∩ [a, b].
´
E claro que S tamb´em pode ser escrito como uma
24 Fun¸c˜oes Escada Cap. 1
uni˜ ao de um n´ umero finito de sub-intervalos de [a, b] dois a dois sem
ponto interior em comum. Portanto, ∀k ∈ N tem-se
(1.17)

S
u
k
=

b
a
u
k
A
S

b
a
u
1
A
S
≤ M

b
a
A
S
= M

S
A
S
= M amp(S) <
ε
2
uma vez que amp(S) <
ε
2M
De (1.16) e (1.17) podemos concluir que
para todo k > m

0 ≤

b
a
u
k
=

b
a
u
k
A
(a,b)

b
a
u
k
(A
S
+A
K
)
=

b
a
u
k
A
S
+

b
a
u
k
A
K
=

S
u
k
+

K
u
k
.
1.24 Proposi¸c˜ao. (Segundo Lema Fundamental). Seja (u
k
) uma
sucess˜ao de fun¸c˜oes escada em (a, b), crescente e tal que a sucess˜ao
das integrais

u
k

tenha um majorante finito, isto ´e, existe uma
constante M tal que

u
k
< M para todo k ∈ N. Ent˜ao a sucess˜ao
(u
k
) converge para um limite finito u quase sempre em (a, b).
Demonstra¸c˜ao: Sem perda de generalidade podemos supor que as
u
k
s˜ ao fun¸c˜ oes n˜ ao negativas, pois em caso contr´ ario considerar´ıamos
as fun¸c˜ oes u
k
−u
1
em lugar de u
k
.
Consideremos o conjunto E
0
= ¦x ∈ (a, b); lim
k→∞
u
k
(x) = +∞¦.
Demonstraremos que E
0
possui medida nula. Isto ´e o suficiente para
demonstrar a proposi¸c˜ ao, porque nos pontos onde (u
k
) n˜ao tende para
o infinito ela ´e limitada e como ´e mon´ otona, resulta que ´e convergente.
Por hip´ otese, existe M > 0 tal que

u
k
< M para todo k ∈ N.
Dado ε > 0, para cada n´ umero natural k, considere o conjunto E
ε,k
definido do modo seguinte:
E
ε,k
=

x ∈ (a, b); u
k
(x) >
M
ε

.
Se¸ c˜ao 1.3 Integra¸ c˜ao das fun¸c˜oes escada 25
Quando k varia em N obt´em-se uma sucess˜ ao de conjuntos (E
ε,k
)
k∈N
,
crescente no sentido da inclus˜ ao, porque a sucess˜ ao (u
k
) ´e crescente.
Al´em disso, E
0


¸
k=1
E
ε,k
como ´e simples verificar. Sendo as u
k
fun¸c˜ oes
escada, resulta que para cada k, o conjunto E
ε,k
se n˜ao for vazio, ´e a
uni˜ ao de um n´ umero finito de intervalos disjuntos contidos em (a, b).
Representemos por m
ε,k
a soma das amplitudes destes intervalos. Para
cada k ∈ N tem-se
(1.18) M ≥

b
a
u
k
=
n(k)
¸
j=1
C
k
j

x
k
j
−x
k
j−1

sendo C
k
j
o valor de u
k
no intervalo (x
k
j−1
, x
k
j
), de uma decomposi¸ c˜ao
associada a u
k
.
Decomponhamos a soma do segundo membro de (1.18) nas parcelas
Σ
/
e Σ
//
, definidas do seguinte modo: Σ
/
´e a soma dos termos em que
C
k
j
>
M
ε
e Σ
//
´e a soma dos termos restantes. Destas considera¸ c˜oes
conclui-se que se E
ε,k
n˜ ao for vazio, ent˜ ao
M ≥ Σ
/
+ Σ
//
>
M
ε
m
ε,k
+ Σ
//
>
M
ε
m
ε,k
,
portanto m
ε,k
< ε. Se E
ε
=

¸
k=1
E
ε,k
, ent˜ao E
ε
´e uma uni˜ ao enu-
mer´ avel de intervalos cuja soma das amplitudes ´e inferior a ε (verifi-
que!). Segue-se ent˜ ao que E
0
tem medida nula.
Vimos que no espa¸co vetorial S
0
a integral definida ´e um funcional
linear. A pr´ oxima etapa ´e estender este funcional linear a um espa¸co
vetorial contendo S
0
, que ser´a o espa¸ co vetorial das fun¸c˜ oes integr´ aveis
` a Lebesgue, procurado.
Antes de alcan¸carmos este objetivo, passaremos por uma etapa
intermedi´ aria, construindo uma classe S
1
que cont´em S
0
mas n˜ ao ´e
ainda um espa¸ co vetorial.
26 Fun¸c˜oes Escada Cap. 1
Representaremos por S
1
ou S
1
(a, b) a classe de todas as fun¸c˜ oes
u: (a, b) → R que s˜ao limites quase sempre de sucess˜oes de fun¸c˜ oes
de S
0
, satisfazendo as hip´ oteses do Segundo Lema Fundamental. Isto
significa dizer que uma fun¸c˜ao u: (a, b) → R pertence a S
1
se e so-
mente se existe uma sucess˜ ao crescente (u
k
) de fun¸c˜oes de S
0
tal que a
sucess˜ ao das integrais

u
k

tem um majorante e lim
k→∞
u
k
(x) = u(x)
quase sempre em (a, b). Diremos que uma tal sucess˜ao define u.
´
E
claro que todo elemento de S
0
´e elemento de S
1
, por´em, nem todo ele-
mento de S
1
´e elemento de S
0
, conforme mostra o exemplo a seguir.
1.25 Exemplo. Seja u uma fun¸c˜ ao nula em (a, b) exceto nos pontos
de um conjunto E de medida nula. Ent˜ ao u ∈ S
1
, pois a sucess˜ ao
(u
k
), onde u
k
´e, para cada k, a fun¸c˜ ao identicamente nula, satisfaz
` as condi¸c˜ oes do Segundo Lema Fundamental e converge quase sempre
para u. Em geral u n˜ ao pertence a S
0
(a, b) como ocorre com a fun¸c˜ ao
caracter´ıstica do conjunto dos racionais do intervalo (a, b) como foi
visto no Exemplo 1.5.
A etapa seguinte ´e a extens˜ ao da no¸ c˜ao de integral definida em S
0
,
` a nova classe S
1
.
Seja u ∈ S
1
e (u
k
) uma sucess˜ao de fun¸c˜ oes de S
0
, satisfazendo as
hip´ oteses do Segundo Lema Fundamental, convergindo para u quase
sempre em (a, b). Sendo a sucess˜ ao (u
k
) crescente vem que

u
k

´e crescente e como esta ´ ultima tem um majorante ela ´e convergente,
isto ´e, existe e ´e finito o lim
k→∞

u
k
. Este limite ser´ a, por defini¸c˜ ao, a
integral de u em (a, b), como elemento de S
1
. Isto ´e

b
a
u(x) dx = lim
k→∞

b
a
u
k
(x) dx,
onde as integrais

b
a
u
k
s˜ ao aquelas definidas para fun¸ c˜oes de S
0
.
Para provar que esta no¸c˜ ao de integral em S
1
est´ a bem definida
devemos mostrar que

u n˜ ao depende da sucess˜ ao (u
k
) de S
0
, satis-
fazendo ao Segundo Lema Fundamental, que define u. Outro fato que
Se¸ c˜ao 1.3 Integra¸ c˜ao das fun¸c˜oes escada 27
precisamos constatar ´e que esta integral de S
1
, quando restrita aos
elementos de S
0
, coincide com a integral j´a existente em S
0
.
Antes de prosseguirmos nesta dire¸c˜ ao, introduziremos aqui mais al-
guns conceitos gerais sobre fun¸c˜ oes. Dada uma fun¸ c˜ao u: (a, b) → R
podemos definir as fun¸ c˜oes u
+
e u

chamadas, respectivamente, parte
positiva e parte negativa de u, da seguinte maneira: u
+
= u ∨ O e
u

= (−u) ∨O, conforme nota¸c˜ ao j´a introduzida ap´os a demonstra¸c˜ ao
do Lema 1.16 (aqui, o s´ımbolo O representa a fun¸ c˜ao nula). Obser-
vemos ainda que tanto a parte positiva quanto a parte negativa de
u s˜ ao fun¸c˜oes n˜ ao negativas.
´
E simples verificar que u = u
+
− u

e
[u[ = u
+
+ u

. Se u e w s˜ ao fun¸c˜ oes reais quaisquer, definidas em
(a, b), tem-se as seguintes identidades:
(u −w)
+
= (u ∨ w) −w = u −(u ∧ w) (1.19)
(u −w)

= (u ∨ w) −u = w −(u ∧ w) (1.20)
(veja Exerc´ıcio 1.5).
1.26 Proposi¸c˜ao. Sejam u, v fun¸c˜oes de S
1
definidas, respectiva-
mente, pelas sucess˜oes (u
k
) e (v
k
) de fun¸c˜oes de S
0
, satisfazendo as
hip´oteses do Segundo Lema Fundamental. Ent˜ao, se u ≤ v quase
sempre em (a, b), tem-se
lim
k→∞

u
k
≤ lim
k→∞

v
k
.
Demonstra¸c˜ao: Fixemos uma fun¸ c˜ao u
m
de (u
k
). Ent˜ao a sucess˜ao
(u
m
− v
k
)
k∈N
ser´ a decrescente e converge quase sempre para u
m
− v.
Al´em disto, tem-se que u
m
−v ≤ u−v ≤ 0 quase sempre em (a, b), de
acordo com a hip´ otese. Ent˜ ao, pela Proposi¸c˜ ao 1.17, ([u
m
− v
k
]
+
)
k∈N
converge quase sempre em (a, b) para a fun¸c˜ ao [u
m
− v]
+
≡ 0. Deste
modo temos uma sucess˜ ao ([u
m
−v
k
]
+
)
k∈N
de fun¸c˜ oes de S
0
decrescente
e convergente quase sempre para zero em (a, b). Pelo Primeiro Lema
28 Fun¸c˜oes Escada Cap. 1
Fundamental, resulta que a sucess˜ ao das integrais

[u
m
− v
k
]
+

k∈N
converge para zero. Mas como para todo k ∈ N tem-se
u
m
−v
k
≤ [u
m
−v
k
]
+
,
e estas fun¸ c˜oes s˜ao de S
0
, decorre da´ı que para todo k
(1.21)

(u
m
−v
k
) ≤

[u
m
−v
k
]
+
.
Tomando o limite em (1.21) quando k → ∞, levando em conta que o
segundo membro converge para zero, tem-se:

u
m
− lim
k→∞

v
k
= lim
k→∞

(u
m
−v
k
) ≤ lim
k→∞

[u
m
−v
k
]
+
= 0
ou seja
(1.22)

u
m
≤ lim
k→∞

v
k
.
Sendo a desigualdade (1.22) v´ alida para todo m ∈ N, resulta da´ı que
lim
k→∞

u
k
≤ lim
k→∞

v
k
.
1.27 Corol´ario. Se u ∈ S
1
´e limite de (u
k
) e (v
k
) de S
0
, nas hip´oteses
do Segundo Lema Fundamental, ent˜ao lim
k→∞

u
k
= lim
k→∞

v
k
, ou seja,
a integral em S
1
est´a bem definida.
Demonstra¸c˜ao:
´
E suficiente considerar, na Proposi¸c˜ao 1.26, v ≥ u e
v ≤ u.
1.28 Corol´ario. A restri¸c˜ao da integral definida em S
1
`a classe S
0
,
coincide com a integral definida em S
0
.
Demonstra¸c˜ao: A fim de facilitar a compreens˜ao, representaremos
nesta demonstra¸c˜ ao as integrais definidas em S
1
e S
0
por I
1
e I
0
, res-
pectivamente. Vamos provar que se u ∈ S
0
ent˜ ao I
1
(u) = I
0
(u). De
Se¸ c˜ao 1.3 Integra¸ c˜ao das fun¸c˜oes escada 29
fato, sendo u ∈ S
0
podemos considerar a sucess˜ ao (u
k
) onde u
k
= u
para todo k ∈ N. Ent˜ ao (u
k
) define u como elemento de S
1
, pois
u
k
∈ S
0
e satisfaz as hip´oteses do Segundo Lema Fundamental. Por
defini¸c˜ ao temos
I
1
(u) = lim
k→∞
I
0
(u
k
) = I
0
(u).
Resumindo, fica demonstrado que a integral em S
1
´e bem definida
como extens˜ ao daquela definida em S
0
. Al´em disto ela preserva a
ordem.
1.29 Proposi¸c˜ao. Sejam u, v pertencentes a S
1
e λ um n´ umero real
n˜ao negativo. Ent˜ao λu e u + v tamb´em pertencem a S
1
. Al´em disto
tem-se

λu = λ

u e

(u +v) =

u +

v.
Demonstra¸c˜ao: Sejam (u
k
) e (v
k
) sucess˜ oes de fun¸ c˜oes de S
0
, satis-
fazendo as hip´oteses do Segundo Lema Fundamental, que definem as
fun¸c˜ oes u e v, respectivamente. Como λ ≥ 0, a sucess˜ao (λu
k
) est´ a
nas condi¸c˜ oes do Segundo Lema Fundamental e define a fun¸c˜ao λu.
Portanto λu ∈ S
1
, obtendo-se

λu = lim
k→∞

λu
k
= lim
k→∞

λ

u
k

= λ

u,
porque

λu
k
= λ

u
k
, uma vez que as u
k
pertencem a S
0
.
Da mesma forma a sucess˜ao (u
k
+v
k
) est´ a nas condi¸c˜ oes do Segundo
Lema Fundamental e define a fun¸ c˜ao u +v. Deste modo,

(u +v) = lim
k→∞

(u
k
+v
k
) = lim
k→∞

u
k
+

v
k

= lim
k→∞

u
k
+ lim
k→∞

v
k
=

u +

v.
1.30 Observa¸c˜ao: A classe S
1
n˜ ao ´e um espa¸co vetorial pois n˜ ao ´e
verdade que u −v ∈ S
1
∀u, v ∈ S
1
(ver o Exerc´ıcio 1.6). Todavia, se
30 Fun¸c˜oes Escada Cap. 1
u ∈ S
1
e v ∈ S
0
, ent˜ ao u −v ∈ S
1
. De fato, de v ∈ S
0
vem −v ∈ S
0
,
pois S
0
´e um espa¸co vetorial, donde −v ∈ S
1
visto que S
0
⊂ S
1
; logo,
u −v ∈ S
1
pela Proposi¸ c˜ao 1.29.
1.31 Observa¸c˜ao: Diz-se que um subconjunto C de um espa¸co ve-
torial V ´e um cone se λu ∈ C ∀u ∈ C e ∀λ ≥ 0. Diz-se que C ´e
um cone convexo se C ´e um cone e u + v ∈ C ∀u, v ∈ C. Verifica-se
imediatamente que um cone convexo ´e um conjunto convexo e reci-
procamente, se um cone C ´e um conjunto convexo, ent˜ao C ´e um cone
convexo. Pela Proposi¸c˜ ao 1.29, S
1
´e um cone convexo.
Seja W o subespa¸co de V gerado por um cone convexo C. Como
´e bem sabido, cada elemento de W ´e uma combina¸c˜ ao linear de uma
fam´ılia finita de elementos de C, i.e., se w ∈ W, ent˜ ao
w = λ
1
w
1
+ +λ
n
w
n
, w
i
∈ C, λ
i
∈ R, i = 1, . . . , n.
Se, agora, u e v s˜ ao, respectivamente, as somas dos termos para os
quais λ
i
> 0 e λ
i
< 0, tem-se w = u−v com u, v ∈ C. Reciprocamente,
se u, v ∈ C e w = u − v, ent˜ ao w ∈ W. Logo, W ´e o conjunto dos
elementos de V da forma u −v, onde u, v ∈ C.
O espa¸ co vetorial gerado pelo cone convexo S
1
ser´ a estudado no
Cap´ıtulo 2.
1.32 Observa¸c˜ao: Seja u: (a, b) →R uma fun¸c˜ ao de S
1
. Para cada
t ∈ (a, b), a fun¸c˜ ao uA
(a,t)
´e tamb´em uma fun¸c˜ ao de S
1
. Define-se

t
a
u =

b
a
uA
(a,t)
. Da´ı, simples ´e demonstrar que se t ∈ (a, b) e u ∈ S
1
ent˜ ao

b
a
u =

t
a
u +

b
t
u.
Para tal ´e suficiente observar que u = uA
(a,t)
+uA
(t,b)
+uA
¦t¦
.
1.33 Proposi¸c˜ao. Se u e w s˜ao fun¸c˜oes de S
1
, ent˜ao u ∨ w e u ∧ w
tamb´em pertencem a S
1
.
Se¸ c˜ao 1.4 Retorno `a integral de Riemann 31
Demonstra¸c˜ao: Sejam (u
k
) e (w
k
), sucess˜ oes de fun¸c˜ oes de S
0
, sa-
tisfazendo as hip´ oteses do Segundo Lema Fundamental, definindo u e
w, respectivamente. Consideremos a sucess˜ ao (ϕ
k
) onde ϕ
k
= u
k
∨w
k
para cada k ∈ N. Pela Proposi¸ c˜ao 1.17, (ϕ
k
) converge quase sempre
para u ∨ w. Como (ϕ
k
) ´e uma sucess˜ao de fun¸c˜oes de S
0
, crescente,
resta-nos apenas provar que a sucess˜ ao das integrais

ϕ
k

tem um
majorante. Para isto, basta observar que, para cada k ∈ N, tem-se
(1.23) ϕ
k
= u
k
∨w
k
≤ (u
k
+u

1
) ∨(w
k
+w

1
) ≤ (u
k
+u

1
) +(w
k
+w

1
)
uma vez u
k
+ u

1
≥ 0, w
k
+ w

1
≥ 0 e o supremo de duas fun¸c˜ oes n˜ ao
negativas ´e menor ou igual `a sua soma. Decorre de (1.23), levando em
conta a Observa¸c˜ ao 1.22, que

ϕ
k

u
k
+

w
k
+

u

1
+

w

1
≤ M,
onde M ´e constante. Portanto u ∨ w pertence a S
1
.
Procedimento an´alogo, mostra-nos que, tamb´em, u ∧ w pertence a
S
1
. Basta observar que para cada k ∈ N, vale a desigualdade
u
k
∧ w
k
≤ u
k
.
1.4 Retorno `a integral de Riemann
Examinaremos a integral de Riemann, na linguagem introduzida para
as fun¸c˜oes escada. Os resultados que aqui obteremos facilitar˜ao o
entendimento da compara¸c˜ ao entre as integrais de Riemann e de Le-
besgue, que faremos posteriormente.
Consideremos u: (a, b) → R limitada, e D uma decomposi¸c˜ ao de
(a, b), por meio de pontos a = x
0
< x
1
< < x
k
= b. Para cada
j = 1, 2, . . . , k seja m
j
= inf¦u(x); x ∈ I
j
¦ e M
j
= sup¦u(x); x ∈ I
j
¦,
32 Fun¸c˜oes Escada Cap. 1
onde I
j
= (x
j−1
, x
j
). Deste modo, fixada u: (a, b) → R, limitada, a
cada decomposi¸c˜ ao D de (a, b) ficam definidas em (a, b) as seguintes
fun¸c˜ oes escada:

D
(x) = m
j
para x ∈ I
j
, j = 1, 2, . . . , k
L
D
(x) = M
j
para x ∈ I
j
, j = 1, 2, . . . , k

D
(x
j
) = L
D
(x
j
) = u(x
j
), j = 1, 2, . . . , k −1.
Resulta que as somas inferior e superior, respectivamente, s(u, D) e
S(u, D) podem ser representadas pelas integrais das fun¸c˜ oes escada

D
e L
D
, isto ´e
s(u, D) =

b
a

D
e S(u, D) =

b
a
L
D
.
Seja (D
i
) uma sucess˜ ao crescente de decomposi¸c˜oes de (a, b). Com
isto estamos dizendo que para cada i ∈ N, todo ponto de divis˜ ao de D
i
´e ponto de divis˜ ao de D
i+1
. Denotaremos esta inclus˜ao por D
i
< D
i+1
,
para i ∈ N. Representemos as fun¸c˜oes
D
i
e L
D
i
simplesmente por
i
e
L
i
, respectivamente, para i ∈ N. Observemos que D
i
< D
i+1
acarreta

i

i+1
e L
i
≥ L
i+1
, para todo i ∈ N, isto ´e, a sucess˜ ao (
i
) ´e crescente
e a sucess˜ ao (L
i
) ´e decrescente. Sendo
i
(x) ≤ u(x) ≤ L
i
(x) em (a, b)
para todo i ∈ N, conclui-se que estas sucess˜ oes s˜ ao convergentes em
(a, b) e tem-se:
(1.24) (x) = lim
i→∞

i
(x) ≤ u(x) ≤ lim
i→∞
L
i
(x) = L(x).
Se u ∈ 1(a, b), a sucess˜ao (D
i
) pode ser escolhida de modo que

b
a
(L
i

i
) converge para zero.
1.33 Proposi¸c˜ao. Se u for integr´avel `a Riemann em (a, b), ent˜ao
existe uma (D
i
) tal que (x) = u(x) = L(x) quase sempre em (a, b).
Antes de provarmos esta proposi¸c˜ao demonstraremos um lema, que
´e o rec´ıproco do Primeiro Lema Fundamental.
Se¸ c˜ao 1.4 Retorno `a integral de Riemann 33
1.34 Lema. Seja (u
k
) uma sucess˜ao decrescente de fun¸c˜oes escada
n˜ao negativas. Se lim
k→∞

u
k
= 0, ent˜ao a sucess˜ao (u
k
) converge para
zero, quase sempre em (a, b).
Demonstra¸c˜ao: Sendo a sucess˜ ao (u
k
) decrescente e limitada infe-
riormente por zero, conclui-se que u
k
converge, em (a, b), para uma
fun¸c˜ ao u n˜ ao negativa.
´
E suficiente provar que u ´e nula quase sem-
pre em (a, b). Como ´e n˜ ao negativa, o conjunto dos pontos onde ela
´e diferente de zero ´e a uni˜ ao enumer´ avel dos conjuntos E
j
= ¦x ∈
(a, b); u(x) ≥
1
j
¦, j ∈ N. Portanto, tudo que temos a fazer ´e provar
que para cada j ∈ N o conjunto E
j
tem medida nula. Sendo u
k
≥ u,
resulta que u
k
(x) ≥
1
j
para todo x ∈ E
j
e todo k ∈ N. Fixados k e j
em N, os subintervalos disjuntos de (a, b) onde u
k
´e constante e nos
quais u
k
(x) ≥
1
j
formam, evidentemente, um recobrimento finito dos
pontos de E
j
diferentes das discontinuidades de u
k
as quais s˜ao em
n´ umero finito, uma vez que u
k
´e uma fun¸c˜ ao escada.
Sejam I
1
, I
2
, . . . , I
s
os intervalos de tal recobrimento e S = I
1
∪I
2

∪ I
s
. Ent˜ ao

b
a
u
k

b
a
u
k
A
S

1
j

b
a
A
S
=
1
j
amp(S).
Portanto amp(S) ≤ j

b
a
u
k
onde amp(S) =
s
¸
n=1
amp(I
n
). Mas, como
lim
k→∞

b
a
u
k
= 0, segue-se que se ε > 0 ´e dado, e k suficientemente
grande, ent˜ ao amp(S) < ε. Portanto para cada ε > 0 existe um
recobrimento de E
j
cuja soma das amplitudes ´e menor que ε; logo E
j
tem medida nula, para cada j, uma vez que j era arbitr´ario.
Demonstra¸c˜ao da Proposi¸c˜ao 1.33: A fun¸ c˜ao L − ´e limite da
sucess˜ ao (L
i

i
), que ´e formada de fun¸c˜oes escada n˜ ao negativas, pois
L
i

i
≥ 0 para todo i ∈ N. Al´em disso, verifica-se sem dificuldade
que a sucess˜ ao (L
i

i
) ´e decrescente. Sendo u integr´ avel `a Riemann, a
34 Fun¸c˜oes Escada Cap. 1
sucess˜ ao (D
i
) pode ser escolhida de modo que a sucess˜ao das integrais

[L
i

i
]

converge para zero. Portanto, pelo Lema 1.34, a sucess˜ ao
(L
i

i
) converge para zero quase sempre em (a, b), concluindo-se
que (x) = L(x) quase sempre em (a, b). Levando-se em conta a
desigualdade (1.24), obt´em-se que (x) = u(x) = L(x) quase sempre
em (a, b).
1.35 Corol´ario. Toda fun¸c˜ao u ∈ 1(a, b) ´e uma fun¸c˜ao de S
1
e a
integral de u em S
1
´e a integral de u segundo Riemann.
Demonstra¸c˜ao: Basta observar que para uma conveniente (D
i
), (
i
)
´e uma sucess˜ ao de fun¸c˜ oes escada satisfazendo as hipoteses do Segundo
Lema Fundamental, que converge quase sempre para u, e que a integral
de u segundo Riemann ´e dada por

u = lim
i→∞

i
; mas esta ´e a integral
de u em S
1
.
1.36 Proposi¸c˜ao. Sejam u: (a, b) →R, limitada, (v
i
), (w
i
) sucess˜oes
de fun¸c˜oes escada em (a, b), a primeira crescente e a outra decres-
cente, ambas convergindo quase sempre para u e tais que para todo i,
v
i
≤ u ≤ w
i
em (a, b). Ent˜ao u ´e integr´avel `a Riemann em (a, b) e

u = lim
i→∞

v
i
= lim
i→∞

w
i
.
Demonstra¸c˜ao: Por hip´otese, para todo i ∈ N se tem v
i
(x) ≤ u(x) ≤
w
i
(x) para todo x em (a, b). Para cada i, seja D
i
uma decomposi¸c˜ ao
de (a, b) associada, simultaneamente, ` as fun¸ c˜oes v
i
e w
i
(ver Lema
1.16) e sejam (
i
) e (L
i
) as sucess˜oes de fun¸c˜ oes escada, definidas a
partir da sucess˜ao de decomposi¸c˜ao (D
i
) como fizemos no in´ıcio deste
par´ agrafo.
´
E claro que para todo i tem-se:
(1.25) v
i
(x) ≤
i
(x) ≤ u(x) ≤ L
i
(x) ≤ w
i
(x)
para todo x em (a, b). Mas como (w
i
− v
i
) converge para zero quase
sempre em (a, b) e ´e decrescente segue-se do Primeiro Lema Fundamen-
tal que lim
i→∞

(w
i
−v
i
) = 0 e por (1.25) conclui-se que lim
i→∞

(L
i

i
) = 0.
Se¸ c˜ao 1.4 Retorno `a integral de Riemann 35
Assim, S(u, D
i
) −s(u, D
i
) =

(L
i

i
) converge para zero e portanto
u ´e integr´ avel `a Riemann. Al´em disso

u = lim
i→∞

v
i
= lim
i→∞

i
= lim
i→∞

L
i
= lim
i→∞

w
i
.
Resumindo, ficou provado que uma fun¸c˜ ao u: (a, b) →R, limitada,
´e integr´avel ` a Riemann em (a, b) se e somente se existem sucess˜ oes de
fun¸c˜ oes escada (v
i
), (w
i
), uma crescente e a outra decrescente, ambas
convergentes para u quase sempre e tais que v
i
≤ u ≤ w
i
em (a, b)
para todo i. A integral de u ´e o valor comum dos limites das sucess˜oes
das integrais de v
i
e w
i
.
1.37 Observa¸c˜ao: Nem toda fun¸c˜ ao de S
1
´e uma fun¸c˜ ao de 1(a, b).
Para ver isto basta considerar, outra vez, a fun¸c˜ ao do Exemplo 1.5 e
comparar com o Exemplo 1.25.
1.38 Observa¸c˜ao: Se T ´e um conjunto de fun¸c˜ oes, representemos
por −T o conjunto das fun¸c˜ oes de T com sinal trocado. Ent˜ ao, do
Corol´ ario 1.35 tem-se 1(a, b) ⊂ S
1
, e 1(a, b) = −1(a, b) ⊂ −S
1
.
Logo, 1(a, b) ⊂ S
1
∩ (−S
1
). A inclus˜ao ´e forte porque a fun¸ c˜ao do
Exemplo 1.5 pertence a S
1
e a −S
1
.
36 Fun¸c˜oes escada Cap. 1
Exerc´ıcios
1.1 Mostre que o produto de duas fun¸c˜ oes escada ´e uma fun¸c˜ ao es-
cada.
1.2 Demonstre que

E
u, como definida na Observa¸c˜ ao 1.20, n˜ ao de-
pende da maneira como E ´e representado pela uni˜ ao de uma
fam´ılia finita de intervalos dois a dois sem ponto interior em co-
mum.
1.3 Se u, v s˜ ao fun¸ c˜oes escada tais que u ≥ v ent˜ ao

u ≥

v.
1.4 Use o Exerc´ıcio 1.3 para provar que se E ⊂ (a, b) como no
Exerc´ıcio 1.2, ent˜ ao

E
u ≤

b
a
u qualquer que seja u ∈ S
0
n˜ ao
negativa.
1.5 Prove as identidades (1.19) e (1.20) do texto.
1.6 Seja ¦I
n
¦ uma fam´ılia de intervalos em (0, 1) que cobre o conjunto
dos racionais de (0, 1) e ´e tal que Σamp(I
n
) ≤
1
2
Seja S =

¸
n=1
I
n
e u = A
(0,1)
− A
S
. Mostre que u / ∈ S
1
, embora A
(0,1)
e A
S
perten¸cam a S
1
.
Sugest˜ao: Para cada k ∈ N considere S
k
=
k
¸
n=1
I
n
e seja g
k
a
fun¸c˜ ao caracter´ıstica de S
k
. Ent˜ ao, (g
k
) ´e uma sucess˜ ao crescente
de fun¸c˜oes escada que converge quase sempre para A
S
e al´em disso

1
0
A
S
≤ 1/2. Assim, A
S
pertence a S
1
e portanto se u pertencesse
a S
1
ter´ıamos

1
0
u = 1 − A
S
≥ 1/2. Por outro lado, para cada
ponto racional p ∈ (0, 1) existe um intervalo aberto, da fam´ılia
¦I
n
¦, contendo p e no qual u assume o valor zero. Desta forma,
qualquer intervalo aberto J cont´em um intervalo aberto no qual
u ´e zero. Resulta da´ı que se Ψ ´e uma fun¸c˜ao escada tal que Ψ ≤ u
quase sempre ent˜ ao Ψ ≤ 0 quase sempre. Use estas considera¸ c˜oes
Exerc´ıcios 37
para concluir que se u pertencesse a S
1
ent˜ ao ter´ıamos

u ≤ 0,
o que seria uma contradi¸c˜ ao.
1.7 (a) Mostre que a palavra “aberto” pode ser omitida na Defini¸c˜ ao
1.1.
(b) Mostre que a Defini¸c˜ao 1.1 ´e equivalente ` a seguinte: “um
conjunto E ⊂ R tem medida nula se existe um recobrimento
enumer´ avel de E por intervalos ¦J
k
¦ tais que cada ponto de E
pertence a um n´ umero infinito de tais intervalos e a soma das
amplitudes dos J
k
´e finita”.
2
Integral `a Lebesgue-Riesz
2.1 A Integral de Lebesgue
Ser´ a representado por L(a, b) o subespa¸co do espa¸ co das fun¸ c˜oes reais
em (a, b) gerado pelo cone convexo S
1
(a, b). Pelo que foi visto na
Observa¸c˜ao 1.31, w ∈ L(a, b) se, e s´ o se, w = u−v, onde u, v ∈ S
1
(a, b).
2.1 Proposi¸c˜ao. L(a, b) ´e um reticulado vetorial.
Demonstra¸c˜ao: Como L(a, b) ´e um espa¸co vetorial ´e bastante de-
monstrar que L(a, b) ´e fechado para ∨ e ∧. Seja, para isto, ω = u −v,
u, v ∈ S
1
(a, b). Da´ı, por (1.19), vem ω
+
= (u−v)
+
= u∨v−v ∈ L(a, b)
uma vez que u ∨ v ∈ S
1
(a, b). Logo, se ω
1
, ω
2
∈ L(a, b), ent˜ ao

1
−ω
2
)
+
∈ L(a, b) e como, ainda por (1.19), (ω
1
−ω
2
)
+
= ω
1
∨ω
2
−ω
2
,
resulta que ω
1
∨ ω
2
= (ω
1
−ω
2
)
+
+ ω
2
∈ L(a, b). Analogamente vˆe-se
que ω
1
∧ ω
2
∈ L(a, b).
2.2 Corol´ario. Se ω ∈ L(a, b), ent˜ao ω
+
e ω

tamb´em pertencem a
L(a, b); conseq¨ uentemente, [w[ ∈ L(a, b).
Demonstra¸c˜ao: De fato, w
+
= w ∨ O ∈ L(a, b) e w

= (−w) ∨
O ∈ L(a, b), pela Proposi¸c˜ao 2.1 (O ´e a fun¸c˜ ao identicamente nula em
(a, b)). Al´em disto [w[ = w
+
+ w

∈ L(a, b) pois L(a, b) ´e um espa¸co
40 Integral `a Lebesgue-Riesz Cap. 2
vetorial.
Seja w ∈ L(a, b) e escrevamos w = u−v onde u, v ∈ S
1
. Define-se a
integral de w em L(a, b) como sendo

w =

u−

v, onde as integrais
do segundo membro s˜ ao definidas em S
1
. Devemos demonstrar que a
integral de w assim definida n˜ ao depende da escolha da representa¸c˜ ao
de w como diferen¸ca de fun¸c˜ oes de S
1
. De fato, suponhamos que
w = u − v = u
1
− v
1
, sendo u, v, u
1
, v
1
fun¸c˜ oes de S
1
. Resulta da´ı
que u
1
+v = u +v
1
e como u
1
+v, u +v
1
s˜ ao fun¸c˜ oes de S
1
, obt´em-se
que

u
1
+

v =

u +

v
1
,
e portanto

u
1

v
1
=

u −

v =

w,
provando assim que a integral de w est´ a bem definida.
2.3 Proposi¸c˜ao. A aplica¸c˜ao u →

u, que a cada u ∈ L(a, b) associa
a integral de u ´e um funcional linear sobre o espa¸co vetorial L(a, b).
Demonstra¸c˜ao: Sejam w, w
1
em L(a, b). Ent˜ao w + w
1
∈ L(a, b).
Vamos mostrar que

(w +w
1
) =

w +

w
1
. De fato, se w = u −v e
w
1
= u
1
−v
1
com u, v, u
1
, v
1
∈ S
1
, tem-se por defini¸c˜ ao:

(w +w
1
) =

(u +u
1
) −

(v +v
1
) =

u +

u
1

v −

v
1
=
=

u −

v

+

u
1

v
1

=

w +

w
1
provando que a integral em L(a, b) ´e uma fun¸c˜ ao aditiva. A seguir
verificaremos que ela ´e homogˆenea. Seja λ ∈ R e w ∈ L(a, b) com
w = u −v, u, v ∈ S
1
. Se λ ≥ 0 tem-se

λw =

(λu −λv) =

λu −

λv = λ

u −

v

= λ

w.
Se¸ c˜ao 2.1 A Integral de Lebesgue 41
Observando que

(−w) =

(v −u) =

v −

u = −

u −

v

= −

w
concluimos que se λ < 0 tem-se

λw =

(−[λ[w) = −

[λ[w = −[λ[

w = λ

w.
2.4 Defini¸c˜ao. L(a, b) ´e dito espa¸co vetorial das fun¸c˜oes integr´aveis
` a Lebesgue. A integral definida em L(a, b) denomina-se integral de
Lebesgue. Omitiremos a palavra Lebesgue e diremos apenas integral e
fun¸ c˜ao integr´avel (ou som´avel, como Lebesgue chamou originalmente)
quando nos referirmos aos elementos de L(a, b).
Observemos que a integral de Lebesgue, definida em L(a, b) ´e uma
extens˜ ao da integral definida em S
1
. Isto ´e, se w ∈ S
1
ent˜ ao a integral
de w como elemento de S
1
coincide com a integral de Lebesgue de
w. Basta considerar uma fun¸c˜ao v arbitr´ aria em S
1
e escrever w =
(w+v) −v. Ent˜ ao, por defini¸c˜ ao, a integral de Lebesgue de w ´e dada
por

w =

(w +v) −

v =

w +

v −

v =

w,
onde as integrais consideradas do segundo membro em diante s˜ ao aque-
las definidas para os elementos de S
1
. Como 1(a, b) ⊂ S
1
e a integral
de Riemann de uma fun¸c˜ ao de 1(a, b) coincide com a integral da
mesma fun¸c˜ ao como elemento de S
1
(ver Corol´ ario 1.35), conclui-se
que toda fun¸c˜ao integr´ avel ` a Riemann em (a, b) ´e integr´avel `a Lebes-
gue e as duas integrais coincidem. A rec´ıproca, como era de se esperar,
n˜ ao ´e verdadeira (veja Observa¸c˜ ao 1.37).
2.5 Proposi¸c˜ao. Se w ∈ L(a, b) e w ≥ 0 quase sempre, ent˜ao

w ≥ 0.
42 Integral `a Lebesgue-Riesz Cap. 2
Demonstra¸c˜ao: Seja w = u −v, com u, v ∈ S
1
. Sendo w ≥ 0 quase
sempre, obt´em-se u ≥ v quase sempre e portanto

u ≥

v (veja
Proposi¸c˜ ao 1.26). Resulta da´ı que

w =

u −

v ≥ 0.
2.6 Corol´ario. Se w
1
, w
2
∈ L(a, b) e w
1
≥ w
2
quase sempre ent˜ao

w
1

w
2
.
Demonstra¸c˜ao: Considere a fun¸c˜ ao w = w
1
− w
2
e aplique a Pro-
posi¸c˜ ao 2.5.
2.7 Proposi¸c˜ao. Se w pertence a L(a, b), ent˜ao [

w[ ≤

[w[.
Demonstra¸c˜ao: Do Corol´ ario 2.2 tem-se que [w[ ∈ L(a, b). Como
±w ≤ [w[, conclui-se pelo Corol´ ario 2.6 que ±

w ≤

[w[ e portanto
[

w[ ≤

[w[.
2.8 Proposi¸c˜ao. Se w ∈ L(a, b) ent˜ao existe uma sucess˜ao (w
n
)
n∈N
de fun¸c˜oes escada em (a, b) tal que lim
n→∞
w
n
= w quase sempre. Al´em
disso tem-se que lim
n→∞

[w
n
−w[ = 0.
Demonstra¸c˜ao: Seja w = u − v com u, v ∈ S
1
. Por defini¸c˜ao de
S
1
existem sucess˜ oes (u
n
) e (v
n
) de fun¸c˜ oes escada satisfazendo as
condi¸c˜ oes do Segundo Lema Fundamental, convergindo quase sempre
para u e v, respectivamente. Considere a sucess˜ ao (w
n
) onde para
cada n, w
n
= u
n
− v
n
.
´
E claro que cada w
n
´e uma fun¸ c˜ao escada
e lim
n→∞
w
n
= w quase sempre, ficando provada a primeira parte da
proposi¸c˜ ao. Al´em disso tem-se:
0 ≤

[w
n
−w[ =

[u
n
−v
n
−u +v[ ≤

[u −u
n
[ +

[v −v
n
[ =
=

(u −u
n
) +

(v −v
n
),
pois u ≥ u
n
e v ≥ v
n
.
Se¸ c˜ao 2.2 Sucess˜oes de Fun¸ c˜oes 43
Tomando o limite quando n tende para infinito, levando em conta
que lim
n→∞

(u −u
n
) = lim
n→∞

(v −v
n
) = 0, resulta que
lim
n→∞

[w
n
−w[ = 0.
2.2 Sucess˜oes de Fun¸ c˜ oes
Neste par´ agrafo estudaremos alguns teoremas de convergˆencia nota-
damente aqueles que dizem respeito ` a integra¸c˜ ao termo a termo. Ini-
ciaremos com o teorema de Beppo Levi (1906). Lembremos que a
partir de S
0
construimos a classe S
1
constituida das fun¸c˜ oes obtidas
como limite quase sempre de sucess˜ oes de fun¸c˜oes S
0
, satisfazendo
` as hip´oteses do Segundo Lema Fundamental. O teorema de Beppo
Levi nos assegura que se aplicarmos o mesmo m´etodo de constru¸ c˜ao
para sucess˜ oes de fun¸c˜ oes de L(a, b) n˜ ao obteremos uma nova classe
de fun¸c˜ oes.
2.9 Lema. Seja w uma fun¸c˜ao integr´avel. Ent˜ao, para cada ε > 0
existem fun¸c˜oes u, v ∈ S
1
tais que w = u − v, v ≥ 0 e

v dx < ε.
Al´em disso, se w ≥ 0 ent˜ao pode-se considerar u ≥ 0.
Demonstra¸c˜ao: Sendo w ∈ L(a, b), por defini¸c˜ ao, podemos escrever
w = u

− v

com u

, v

∈ S
1
. Seja (v
n
)
n∈N
uma sucess˜ ao de fun¸c˜ oes
de S
0
, satisfazendo `as hip´oteses do Segundo Lema Fundamental, con-
vergindo quase sempre para v

. Ent˜ ao, para todo n, tem-se
(2.1) w = u

−v

= (u

−v
n
) −(v

−v
n
) = U
n
−V
n
onde U
n
= u

− v
n
e V
n
= v

− v
n
. Como v
n
≤ v

para todo n, vem
que V
n
≥ 0 para todo n. Mais ainda, pela defini¸c˜ao da integral em
S
1
tem-se

v

= lim

v
n
, donde lim

V
n
= lim

(v

− v
n
) = 0 e,
portanto, dado ε > 0, podemos escolher um n
0
∈ N tal que

V
n
0
dx <
44 Integral `a Lebesgue-Riesz Cap. 2
ε. Considerando n = n
0
em (2.1) tem-se que w = U
n
0
− V
n
0
e as
fun¸c˜ oes u = U
n
0
e v = V
n
0
satisfazem ` as condi¸c˜ oes do lema, pela
Observa¸c˜ao 1.30. Al´em disso se w ≥ 0 temos de (2.1) que, para todo
n, U
n
= w +V
n
≥ 0. Em particular, u = U
n
0
≥ 0.
2.10 Lema. Seja (u
n
) uma sucess˜ao crescente de fun¸c˜oes de S
1
cuja
sucess˜ao das integrais

u
n

tem um majorante. Ent˜ao (u
n
) converge
quase sempre para uma fun¸c˜ao u ∈ S
1
e tem-se ainda que

u =
lim
n→∞

u
n
.
Demonstra¸c˜ao: De fato, consideremos uma sucess˜ao crescente (u
n
)
de elementos de S
1
tal que existe uma constante M satisfazendo a
desigualdade

u
n
< M para todo n ∈ N. Como as fun¸c˜ oes u
n
per-
tencem a S
1
, para cada n existe uma sucess˜ ao (u
nk
)
k∈N
de fun¸c˜ oes de
S
0
, nas condi¸c˜ oes do Segundo Lema Fundamental, convergindo quase
sempre para u
n
. Isto ´e,
u
11
≤ u
12
≤ . . . ≤ u
1n
≤ . . . e u
1n
→ u
1
u
21
≤ u
22
≤ . . . ≤ u
2n
≤ . . . e u
2n
→ u
2
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
u
s1
≤ u
s2
≤ . . . ≤ u
sn
≤ . . . e u
sn
→ u
s
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
Pondo v
n
(x) = max
1≤i≤n
¦u
in
(x)¦ = max¦u
1n
(x), u
2n
(x), . . . , u
nn
(x)¦ para
todo x ∈ (a, b) tem-se, para cada n, uma fun¸ c˜ao escada v
n
e a sucess˜ao
(v
n
) ´e crescente. Al´em disto, u
in
≤ u
i
≤ u
n
para 1 ≤ i ≤ n. Logo,
tomando o m´aximo para 1 ≤ i ≤ n, obt´em-se v
n
≤ u
n
e portanto

v
n

u
n
≤ M para todo n. Logo, a sucess˜ao das integrais das
fun¸c˜ oes v
n
´e limitada. Pelo Segundo Lema Fundamental conclui-se
que (v
n
) converge quase sempre para uma fun¸c˜ao u que est´a em S
1
,
por defini¸c˜ ao. Mostremos que lim
n→∞
u
n
= u quase sempre. Para cada
k ∈ N tem-se v
k
= max
1≤n≤k
¦u
nk
¦ ≥ u
nk
, qualquer que seja 1 ≤ n ≤ k.
Logo, tomando o limite quando k →∞ resulta que u ≥ u
n
para todo
Se¸ c˜ao 2.2 Sucess˜oes de Fun¸ c˜oes 45
n. Mas v
n
≤ u
n
para todo n; logo v
n
≤ u
n
≤ u para todo n. Sendo
lim
n→∞
v
n
= u quase sempre, conclui-se que lim
n→∞
u
n
= u quase sempre.
Da desigualdade v
n
≤ u
n
≤ u conclui-se ainda que

v
n

u
n

u
para todo n. Mas sendo, por defini¸c˜ ao,

u = lim
n→∞

v
n
conclui-se que

u = lim
n→∞

u
n
.
2.11 Corol´ario. Consideremos uma s´erie

¸
n=1
u
n
, com u
n
∈ S
1
,
u
n
≥ 0 para todo n. Se a sucess˜ao

k
¸
n=1
u
n

k∈N
for limitada,
ent˜ ao a s´erie

¸
n=1
u
n
converge quase sempre para uma fun¸c˜ao u de S
1
e

u =

¸
n=1

u
n
.
Demonstra¸c˜ao: Para cada n, seja U
n
=
n
¸
k=1
u
k
. Segue-se que a su-
cess˜ ao (U
n
) satisfaz `as hip´ oteses do Lema 2.10. Logo existe uma fun¸c˜ ao
u ∈ S
1
tal que lim
n→∞
U
n
= u quase sempre e tem-se que

u = lim
n→∞

U
n
= lim
n→∞

n
¸
k=1
u
k

= lim
n→∞
n
¸
k=1

u
k
=

¸
n=1

u
n
.
Teorema (Beppo Levi). Seja (u
n
) uma sucess˜ao crescente de fun¸c˜oes
de L(a, b) cuja sucess˜ao das integrais (

u
n
) ´e limitada superiormente.
Ent˜ ao (u
n
) converge quase sempre para uma fun¸c˜ao u ∈ L(a, b) e tem-
se que

u = lim
n→∞

u
n
.
Demonstra¸c˜ao: Seja (u
n
) uma sucess˜ao crescente de fun¸c˜ oes in-
tegr´ aveis e suponhamos que existe uma constante A tal que

u
n
< A
para todo n. Consideremos a s´erie u
1
+

¸
n=1
v
n
onde para cada n,
v
n
= u
n+1
− u
n
. A demonstra¸c˜ ao reduz-se a provar que a s´erie

¸
n=1
v
n
converge quase sempre para uma fun¸ c˜ao integr´ avel v e que
46 Integral `a Lebesgue-Riesz Cap. 2

v =

¸
n=1

v
n
, pois, se este ´e o caso a sucess˜ ao (u
n
) convergir´ a quase
sempre para a fun¸ c˜ao integr´ avel u = u
1
+ v e

u =

u
1
+

v =

u
1
+ lim
n→∞
n−1
¸
k=1

v
k
= lim
n→∞

u
n
.
Para cada n, temos que

u
n
=

u
1
+
n−1
¸
k=1

v
k
e portanto
(2.2)

n−1
¸
k=1
v
k
=

u
n

u
1
< A −

u
1
= B.
Sendo v
n
integr´ avel pode-se escrever: v
n
= U
n
− V
n
com U
n
, V
n
em
S
1
. Pelo Lema 2.9 pode-se admitir que U
n
, V
n
s˜ ao n˜ ao negativas e
(2.3)

V
n
<
1
2
n

Para concluir a demonstra¸c˜ao vamos provar que as s´eries

¸
n=1
U
n
e

¸
n=1
V
n
est˜ ao nas condi¸c˜ oes do Corol´ ario 2.11. De fato, tem-se U
n
≥ 0
e V
n
≥ 0 ∀n. Por (2.3) a s´erie

¸
n=1

V
n
´e convergente e portanto
a sucess˜ ao (

n
¸
k=1
V
k
)
k∈N
´e limitada. Como, por (2.2), a sucess˜ ao
(

n
¸
k=1
v
k
)
n∈N
´e limitada e, para todo n, vale a igualdade

n
¸
k=1
U
k
=

n
¸
k=1
v
k
+

n
¸
k=1
V
k
, conclui-se que a sucess˜ ao (

n
¸
k=1
U
k
)
n∈N
´e limitada.
Assim, as s´eries

¸
n=1
U
n
e

¸
n=1
V
n
satisfazem as condi¸c˜ oes do Corol´ario
2.11. Logo convergem quase sempre para fun¸c˜oes U e V , respectiva-
mente, onde U, V est˜ ao em S
1
. Ent˜ ao a s´erie

¸
n=1
v
n
=

¸
n=1
U
n


¸
n=1
V
n
Se¸ c˜ao 2.2 Sucess˜oes de Fun¸ c˜oes 47
converge quase sempre para v = U −V que ´e uma fun¸ c˜ao integr´avel.
Al´em disso tem-se que

v =

U −

V =

¸
n=1

U
n


¸
n=1

V
n
=

¸
n=1

(U
n
−V
n
) =

¸
n=1

v
n
.
O Teorema 2.12 ´e a forma crescente do Teorema de Beppo Levi.
Nele a sucess˜ ao (u
n
) ´e suposta crescente e a sucess˜ao (

u
n
) majorada
por uma constante. A forma decrescente, conseq¨ uˆencia imediata da
forma crescente, ´e a seguinte:
2.13 Teorema (Beppo Levi). Se (u
n
) ´e uma sucess˜ao decrescente
de fun¸c˜oes de L(a, b) cuja sucess˜ao das integais (

u
n
) ´e limitada in-
feriormente, ent˜ao (u
n
) converge quase sempre para uma fun¸c˜ao u de
L(a, b) e

u = lim
n→∞

u
n
.
Portanto, as conclus˜oes do Teorema de Beppo Levi s˜ao v´alidas para
as sucess˜oes mon´ otonas cuja sucess˜ ao das integrais ´e limitada. Por
motivo agora ´obvio, o Teorema de Beppo Levi ´e tamb´em conhecido
por Teorema da Convergˆencia Mon´otona.
Uma conseq¨ uˆencia imediata da forma crescente do Teorema de
Beppo Levi ´e o resultado a seguir.
2.14 Proposi¸c˜ao. Seja u ∈ L(a, b) tal que u ≥ 0 e

b
a
u = 0. Ent˜ao
u = 0 quase sempre em (a, b).
Demonstra¸c˜ao: Para cada n, seja v
n
= nu. Ent˜ ao v
n
´e integr´ avel,
(v
n
) ´e uma sucess˜ao crescente e

v
n
= n

u = 0 ∀n ∈ N. Pela forma
crescente do Teorema de Beppo Levi, (v
n
) converge quase sempre;
mas (v
n
) s´ o n˜ ao converge nos pontos onde u ´e diferente de zero. Logo,
u = 0 quase sempre em (a, b).
2.15 Observa¸c˜ao: Recorde-se que o ´ınfimo e o supremo de uma
sucess˜ ao (u
n
) de fun¸c˜ oes reais definidas em (a, b) s˜ ao as fun¸c˜ oes sup
n∈N
u
n
48 Integral `a Lebesgue-Riesz Cap. 2
e inf
n∈N
u
n
definidas em cada ponto x de (a, b) pelos limites
inf
n∈N
u
n
(x) = lim
n→∞
min
1≤i≤n
¦u
i
(x)¦ e sup
n∈N
u
n
(x) = lim
n→∞
max
1≤i≤n
¦u
i
(x)¦,
respectivamente. Assim, de acordo com a nota¸c˜ ao estabelecida ante-
riormente,
inf
n∈N
u
n
= lim
n→∞
u
1
∧ ∧ u
n
e sup
n∈N
u
n
= lim
n→∞
u
1
∨ ∨ u
n
.
Recorde-se, tamb´em, que o limite superior e o limite inferior de (u
n
)
s˜ ao as fun¸c˜ oes limsup
n→∞
u
n
e liminf
n→∞
u
n
definidas, respectivamente, por
limsup
n→∞
u
n
= inf
n∈N
sup
k≥n
u
k
e liminf
n→∞
u
n
= sup
n∈N
inf
k≥n
u
k
.
Como a sucess˜ ao (sup
k≥n
u
k
) ´e decrescente e a sucess˜ ao (inf
k≥n
u
k
) ´e cres-
cente, pode-se escrever, tamb´em,
limsup
n→∞
u
n
= lim
n→∞
sup
k≥n
u
k
e liminf
n→∞
u
n
= lim
n→∞
inf
k≥n
u
k
.
Recorde-se, ainda, que liminf
n→∞
u
n
≤ limsup
n→∞
u
n
e que se (u
n
) tem um
limite u(x) num ponto x de (a, b), ent˜ao
liminf
n→∞
u
n
(x) = limsup
n→∞
u
n
(x) = u(x).
2.16 Observa¸c˜ao: Seja u
0
∈ L(a, b) e L
s
(u
0
) o conjunto ¦u ∈
L(a, b); u ≤ u
0
¦. Ent˜ ao tem-se

u ≤

u
0
para toda u ∈ L
s
(u
0
).
Decorre da´ı que se (u
n
) ´e uma sucess˜ao de fun¸c˜ oes de L
s
(u
0
), a su-
cess˜ ao das integrais (

u
n
) ´e limitada superiormente. Se, al´em disso,
(u
n
) ´e crescente, ent˜ ao, pela forma crescente do Teorema de Beppo
Levi, (u
n
) converge em (a, b) para uma fun¸c˜ ao u de L(a, b) e como
u
n
∈ L
s
(u
0
), n = 1, . . . , tem-se que u ∈ L
s
(u
0
). Conclui-se da´ı que
Se¸ c˜ao 2.2 Sucess˜oes de Fun¸ c˜oes 49
L
s
(u
0
) ´e fechado por passagem ao limite das sucess˜ oes crescentes. Ana-
logamente, o conjunto L
i
(u
0
) = ¦u ∈ L(a, b); u ≥ u
0
¦ ´e fechado por
passagem ao limite das sucess˜ oes decrescentes e, se u
0
≥ 0, o conjunto
L(u
0
) = ¦u ∈ L(a, b); −u
0
≤ u ≤ u
0
¦ ´e fechado por passagem ao limite
das sucess˜oes mon´ otonas.
Uma conseq¨ uˆencia desse resultado ´e que, para toda sucess˜ao (u
n
)
de fun¸c˜ oes de L
s
(u
0
), a fun¸c˜ao sup
n∈N
u
n
pertence a L
s
(u
0
), uma vez
que sup
n∈N
u
n
´e o limite da sucess˜ ao crescente (u
1
∨ ∨ u
n
). Analoga-
mente, inf
n∈N
u
n
∈ L
i
(u
0
) para toda sucess˜ao (u
n
) de fun¸c˜ oes de L
i
(u
0
).
Conseq¨ uentemente, inf
n∈N
u
n
e sup
n∈N
u
n
pertencem a L(u
0
) para toda su-
cess˜ ao (u
n
) de fun¸c˜ oes de L(u
0
) e, desse modo, limsup
n→∞
u
n
e liminf
n→∞
u
n
pertencem a L(u
0
), visto que limsup
n→∞
u
n
´e o limite da sucess˜ ao decres-
cente (sup
k≥n
u
k
) e liminf
n→∞
u
n
´e o limite da sucess˜ao crescente (inf
k≥n
u
k
) de
fun¸c˜ oes de L(u
0
).
Com base nestas considera¸ c˜oes preliminares demonstraremos o se-
guinte teorema de Lebesgue, tamb´em conhecido por Teorema da Con-
vergˆencia Dominada.
2.17 Teorema (Lebesgue). Seja (u
n
) uma sucess˜ao de fun¸c˜oes
integr´aveis em (a, b), convergente quase sempre para a fun¸c˜ao u. Se
existir uma fun¸c˜ao integr´avel u
0
tal que [u
n
[ ≤ u
0
quase sempre para
todo n ∈ N, ent˜ao u ´e integr´avel e tem-se

u = lim
n→∞

u
n
.
Demonstra¸c˜ao: Pode-se supor que ∀n ∈ N, [u
n
[ ≤ u
0
em todo ponto
de (a, b). Com efeito, ´e bastante, se necess´ ario, redefinir conveniente-
mente as fun¸c˜ oes u
n
em conjuntos de medida nula; as fun¸c˜ oes obtidas
ser˜ ao ainda integr´ aveis, suas integrais coincidir˜ao com as das u
n
e a
sucess˜ ao delas ainda ser´a convergente quase sempre para u. Com essa
50 Integral `a Lebesgue-Riesz Cap. 2
hip´ otese e pelo que foi dito na Observa¸c˜ ao 2.16, liminf
n→∞
u
n
pertence a
L(u
0
) e, portanto, ´e integr´ avel. Mas, por hip´otese, (u
n
) converge quase
sempre para u; logo, u = liminf
n→∞
u
n
quase sempre, donde u ´e integr´ avel
e u = lim
n→∞
v
n
quase sempre, onde v
n
= inf
k≥n
u
k
. Temos v
n
≤ u
m
≤ u
0
,
m ≥ n, donde

v
n

u
m

u
0
, m ≥ n. De

v
n

u
0
resulta,
pela forma crescente do Teorema de Beppo Levi, que

u = lim
n→∞

v
n
e de

v
n

u
m
, m ≥ n, resulta que lim
n→∞

v
n
≤ liminf
n→∞

u
m
. Por-
tanto,

u ≤ liminf
n→∞

u
n
.
De maneira an´ aloga vˆe-se que

u ≥ limsup
n→∞

u
n
.
Logo,

u = lim
n→∞

u
n
.
2.18 Exemplo: Considere a fun¸c˜ ao v definida em (0, 1) por v(x) =
1
x

Usando o teorema de Lebesgue podemos afirmar que a fun¸c˜ao v n˜ ao
´e integr´avel. Para ver isto, considere, para cada n a seguinte fun¸c˜ao
definida em (0, 1):
u
n
(x) =

0, se x ≥
1
n
n, se 0 < x <
1
n
,
Ent˜ ao, as fun¸c˜ oes u
n
s˜ ao integr´ aveis e lim
n→∞
u
n
= 0. Al´em disso, [u
n
[ ≤
v para todo n. Se v fosse integr´ avel dever´ıamos ter, pelo Teorema de
Lebesgue, que lim
n→∞

1
0
u
n
=

1
0
lim
n→∞
u
n
= 0. Mas isto n˜ao ´e verdade
uma vez que para todo n tem-se

1
0
u
n
= 1. Logo v n˜ ao ´e integr´avel
em (0, 1).
2.19 Teorema (Lema de Fatou). Seja (u
n
) uma sucess˜ao de
fun¸ c˜oes integr´aveis e n˜ao negativas, convergente quase sempre para
Se¸ c˜ao 2.2 Sucess˜oes de Fun¸ c˜oes 51
uma fun¸c˜ao u. Suponhamos que exista uma constante C tal que 0 ≤

u
n
≤ C para todo n. Ent˜ao u ´e integr´avel e tem-se que 0 ≤

u ≤ C.
Demonstra¸c˜ao: Para cada n, seja v
n
= inf
k≥n
u
k
. Ent˜ ao v
n
≤ v
n+1
e,
pela Observa¸c˜ ao 2.16, v
n
∈ L
i
(0). Logo, (v
n
) ´e uma sucess˜ao crescente
de fun¸c˜ oes integr´aveis. Al´em disso v
n
≤ u
n
para todo n e, portanto,
de acordo com as hip´ oteses,

v
n

u
n
≤ C. Logo, pelo Teorema de
Beppo Levi, a sucess˜ ao (v
n
) converge para uma fun¸c˜ ao integr´avel v.
Sendo (v
n
) crescente resulta que
v = lim
n→∞
v
n
= sup
n∈N
v
n
= sup
n∈N
inf
k≥n
u
k
= liminf
n→∞
u
n
= u quase sempre
provando que u ´e integr´ avel. Ainda pelo Teorema de Beppo Levi

u =

v = lim

v
n
≤ C.
O lema de Fatou tamb´em pode ser enunciado da seguinte forma:
2.20 Teorema (Lema de Fatou). Seja (u
n
) uma sucess˜ao de
fun¸ c˜oes integr´aveis e n˜ao negativas que converge quase sempre para
uma fun¸c˜ao u. Se liminf
n→∞

u
n
´e finito, ent˜ao u ´e integr´avel e tem-se

u ≤ liminf
n→∞

u
n
.
´
E claro que o Lema de Fatou nesta forma implica a validade do
mesmo na forma anterior (Teorema 2.19). Mostremos que a rec´ıproca ´e
verdadeira, o que provar´ a a equivalˆencia das duas formas de enunciar o
Lema de Fatou. Para cada n, seja v
n
= inf
k≥n
¦u
k
¦. Ent˜ao v
n
´e integr´avel
para n = 1, . . . e v
n
≤ u
n+k
, k = 0, 1, . . . . Logo,

v
n

u
n+k
,
k = 0, 1, . . . , donde fazendo k →∞ tem-se

v
n
≤ liminf
k→∞

u
n+k
= liminf
k→∞

u
k
= C.
52 Integral `a Lebesgue-Riesz Cap. 2
Mas sendo (v
n
) uma sucess˜ ao crescente, tem-se v = limv
n
= sup
n
v
n
=
sup
n
inf
k≥n
¦u
k
¦ = liminf
n→∞
u
n
= u quase sempre donde, (v
n
) encontra-se
nas condi¸ c˜oes do Lema de Fatou 2.19, v´alido por hip´ otese. Logo
0 <

v < C = liminf
n→∞

u
n
isto ´e

u ≤ liminf
n→∞

u
n
.
NOTA: O Lema de Fatou pode ser enunciado de forma mais geral
substituindo-se a condi¸c˜ ao u
n
≥ 0 pela condi¸c˜ao u
n
≥ v, onde v
´e uma fun¸c˜ ao integr´ avel. Em particular, substituindo u
n
≥ 0 por
u
n
≥ C, onde C ´e uma constante negativa, no caso dos intervalos
limitados. Tem-se a demonstra¸c˜ ao dessa forma geral do Lema de Fatou
substituindo L
i
(0) por L
i
(v) na demonstra¸ c˜ao do Teorema 2.19.
2.21 Defini¸c˜ao: Diz-se que uma fun¸c˜ ao u: (a, b) → R ´e mensur´avel
quando u ´e o limite quase sempre de uma sucess˜ ao de fun¸c˜ oes escada.
Obviamente, as fun¸c˜ oes escada e, em particular, as fun¸c˜ oes cons-
tantes s˜ ao mensur´ aveis; de um modo geral, pela Proposi¸c˜ ao 2.8, toda
fun¸c˜ ao integr´ avel ´e mensur´ avel. A rec´ıproca, por´em, n˜ ao ´e v´alida.
Para ver isto, considere-se o Exemplo 2.18. Nele a fun¸c˜ ao v ´e men-
sur´ avel pois ´e limite quase sempre da sucess˜ ao de fun¸c˜oes escada
(w
n
), onde w
n
, n = 1, . . . , ´e definida em (0, 1) por w
n
(x) = n/k
se (k − 1)/n < x ≤ k/n, k = 1, . . . , n. No entanto, como foi visto, v
n˜ ao ´e integr´avel.
Seja, como no exemplo que se acaba de examinar, u ≥ 0 uma fun¸c˜ ao
mensur´ avel mas n˜ ao integr´ avel e (u
n
) uma sucess˜ ao de fun¸c˜ oes escada
que converge quase sempre para u. Podemos supor que u
n
≥ 0, n =
1, . . . , pois, se assim n˜ ao fosse, as fun¸c˜ oes escada u
/
n
definidas por u
/
n
=
u
n
∨ O, n = 1, . . . , seriam n˜ao negativas e ainda ter´ıamos lim
n→∞
u
/
n
=
u quase sempre. A sucess˜ ao (v
n
), onde v
n
= inf
k≥n
u
k
, ´e crescente,
v
n
∈ L
i
(0) e, portanto, v
n
´e integr´ avel e, al´em disto, lim
n→∞
v
n
= u
quase sempre. Mas n˜ ao existe M ∈ R tal que

v
n
≤ M, n = 1, . . . ,
porque se existisse um M nessas condi¸c˜ oes u seria integr´ avel, pela
Se¸ c˜ao 2.2 Sucess˜oes de Fun¸ c˜oes 53
forma crescente do teorema de Beppo Levi. Portanto, lim

v
n
= +∞
e como v
n
≤ u somos levados a por

u = +∞. Analogamente, se
u ≤ 0 ´e mensur´ avel mas n˜ao integr´ avel poremos

u = −∞. No
caso geral, se u ´e mensur´avel mas n˜ ao integr´ avel, de u = u
+
− u

resulta que se uma das fun¸c˜ oes u
+
ou u

for integr´ avel podemos por

u =

u
+

u

.
2.22 Proposi¸c˜ao. Se u e v s˜ao fun¸c˜oes mensur´aveis em (a, b) e
λ ∈ R, ent˜ao:
i) λu, u +v, uv, u ∨ v e u ∧ v s˜ao mensur´aveis;
ii) se v n˜ao se anula em (a, b), ent˜ao 1/v ´e mensur´avel.
Em outros termos, a fam´ılia das fun¸c˜oes mensur´aveis em (a, b) ´e um
reticulado vetorial de fun¸c˜oes, fechado para o produto e para o quoci-
ente por fun¸c˜oes que n˜ao se anulam em (a, b).
Demonstra¸c˜ao: Sejam u e v, respectivamente, limites quase sempre
das sucess˜ oes de fun¸c˜ oes escada (u
n
) e (v
n
). Como S
0
(a, b) ´e um reti-
culado vetorial fechado para o produto, λu
n
, u
n
+ v
n
, u
n
v
n
, u
n
∨ v
n
e u
n
∧ v
n
, n = 1, . . . , s˜ ao fun¸c˜oes escada e, pelas propriedades gerais
dos limites e a Proposi¸c˜ ao 1.17, as sucess˜oes (λu
n
), (u
n
+v
n
), (u
n
v
n
),
(u
n
∨v
n
) e (u
n
∧v
n
) convergem quase sempre para λu, u+v, uv, u∨v
e u∧v, respectivamente. Essas fun¸c˜ oes s˜ao, pois, mensur´aveis ficando
assim demonstrado i). Para cada n ∈ N vamos definir v
/
n
do seguinte
modo: v
/
n
´e igual a v
n
nos pontos onde v
n
´e diferente de zero e igual a
α, α ∈ R, α = 0, nos pontos onde v
n
´e zero. Ent˜ao, para cada n ∈ N,
v
/
n
´e uma fun¸ c˜ao escada, v
/
n
= 0 em (a, b) e limv
/
n
= v quase sempre,
donde (1/v
/
n
) ´e uma sucess˜ ao de fun¸c˜ oes escada que converge quase
sempre para 1/v. Portanto 1/v ´e mensur´ avel.
2.23 Corol´ario. Se u ´e mensur´avel o mesmo acontece com u
+
, u

e
[u[.
Com efeito, u
+
= u ∨ O, u

= −u ∨ O e [u[ = u
+
+u

.
Consideremos uma fun¸ c˜ao v : (a, b) →R, n˜ ao negativa e u: (a, b) →
R uma fun¸c˜ao qualquer. Denomina-se truncada de u por v a fun¸ c˜ao
54 Integral `a Lebesgue-Riesz Cap. 2
T
v
(u) definida do seguinte modo:
T
v
(u)(x) =

−v(x) se u(x) ≤ −v(x)
u(x) se [u(x)[ ≤ v(x)
v(x) se u(x) ≥ v(x).
Observe que vale sempre a desigualdade: −v(x) ≤ T
v
(u)(x) ≤ v(x)
para todo x ∈ (a, b). De acordo com a defini¸c˜ ao acima ´e f´acil concluir
que T
v
(u) tamb´em pode ser definida pela f´ormula: T
v
(u) = (−v) ∨
(u ∧ v) (verifique!).
2.24 Proposi¸c˜ao. Seja v uma fun¸c˜ao integr´avel. Se u for mensur´avel
e [u[ ≤ v, ent˜ao u ´e integr´avel.
Demonstra¸c˜ao: Seja (u
n
) uma sucess˜ ao de fun¸c˜ oes escada conver-
gindo quase sempre para u. Para cada n, considere a truncada de
u
n
pela fun¸c˜ao v, isto ´e, a fun¸ c˜ao v
n
= T
v
(u
n
) = (−v) ∨ (u
n
∧ v).
Ent˜ ao v
n
´e integr´avel para todo n ∈ N. Al´em disso v
n
∈ L(v).
Como lim
n→∞
v
n
= lim
n→∞
[(−v) ∨ (u
n
∧ v)] = (−v) ∨ (u ∧ v) e por hip´ otese
−v ≤ u ≤ v, vem que lim
n→∞
v
n
= u. Logo pelo teorema de Lebesgue u
´e integr´ avel.
2.25 Corol´ario. Se u ´e mensur´avel e [u[ ´e integr´avel ent˜ao u ´e
integr´avel.
Demonstra¸c˜ao: Basta fazer v = [u[ na proposi¸c˜ao.
2.26 Corol´ario. Se u ´e mensur´avel e limitada num intervalo (a, b)
de amplitude finita, ent˜ao u ´e integr´avel.
2.27 Proposi¸c˜ao. Seja (u
n
) uma sucess˜ao de fun¸c˜oes mensur´aveis
convergente quase sempre para uma fun¸c˜ao u. Ent˜ao u ´e mensur´avel.
Demonstra¸c˜ao: Podemos considerar u
n
≥ 0 para todo n, pois se
assim n˜ ao fosse considerar´ıamos as partes positiva e negativa de u
n
,
isto ´e, as fun¸c˜oes u
+
n
e u

n
.Para cada n seja v
n
=
1
1+u
n
Como lim
n→∞
u
n
= u
Se¸ c˜ao 2.2 Sucess˜oes de Fun¸ c˜oes 55
quase sempre, segue-se que lim
n→∞
v
n
=
1
1+u
quase sempre. Observe que
as fun¸c˜ oes v
n
s˜ ao mensur´ aveis pela Proposi¸c˜ ao 2.22 e 0 < v
n
≤ 1
para todo n. Resulta do Corol´ario 2.26 que as v
n
s˜ ao integr´aveis;
logo o limite de (v
n
) ´e uma fun¸c˜ao integr´ avel (Teorema de Lebesgue)
donde a fun¸c˜ ao v =
1
1+u
´e integr´avel e, portanto, mensur´ avel em (a, b).
Al´em disto v > 0. Logo, pela Proposi¸c˜ ao 2.22, a fun¸c˜ ao u =
1−v
v
´e
mensur´ avel.
2.28 Corol´ario. Seja (u
n
) uma sucess˜ao de fun¸c˜oes mensur´aveis que
converge para uma fun¸c˜ao u quase sempre em (a, b). Se existe uma
fun¸ c˜ao integr´avel g tal que se tenha [u[ ≤ g ent˜ao u ´e integr´avel.
Demonstra¸c˜ao: Sendo as fun¸c˜ oes u
n
mensur´ aveis, a fun¸c˜ao u ´e men-
sur´ avel pela Proposi¸c˜ ao 2.27. Segue-se da Proposi¸c˜ ao 2.24 que u ´e
integr´ avel.
2.29 Corol´ario. Seja u: (a, b) → R e suponha que para cada ε > 0
existem fun¸c˜oes integr´aveis v
ε
e w
ε
tais que se tenha v
ε
≤ u ≤ w
ε
e

b
a
(w
ε
−v
ε
) < ε. Ent˜ao u ´e integr´avel.
Demonstra¸c˜ao: Ponhamos sucessivamente ε =
1
2
n
e denotemos por
v
n
e w
n
as fun¸c˜ oes correspondentes. Ent˜ ao a s´erie

¸
n=1

b
a
(w
n
− v
n
) ´e
convergente, pois ´e majorada pela s´erie

¸
n=1
1
2
n
Ent˜ ao, pelo Teorema
2.12, a s´erie

¸
n=1
(w
n
−v
n
) ´e convergente quase sempre e portanto w
n
−v
n
converge para zero quase sempre. Isto ´e v
n
→ u e w
n
→ u quase
sempre. Se considerarmos a fun¸c˜ao H(x) = max¦[v
1
(x)[, [w
1
(x)[¦ ´e
claro que H ´e integr´ avel e [u[ ≤ H. Pelo Corol´ ario 2.28 segue-se que
u ´e integr´ avel.
56 Integral `a Lebesgue-Riesz Cap. 2
2.3 A integral sobre um intervalo n˜ao limitado
At´e aqui consideramos a integral para fun¸c˜ oes definidas num intervalo
limitado (a, b). O caso dos intervalos n˜ ao limitados como (a, +∞),
(−∞, b), (−∞, ∞) n˜ao apresenta dificuldade. Com pequenas modi-
fica¸c˜ oes nas defini¸ c˜oes poderemos obter todos os resultados j´ a vistos
at´e agora para o caso do intervalo limitado. Neste par´agrafo deno-
taremos por J um intervalo n˜ ao limitado de qualquer um dos tipos
mencionados acima. Uma fun¸c˜ ao ϕ definida em J ´e dita fun¸c˜ao es-
cada se existe um intervalo limitado (a, b) contido em J, fora do qual
ϕ ´e nula e no qual ϕ ´e fun¸ c˜ao escada no sentido da defini¸c˜ ao dada na
Se¸c˜ ao 1.3.
2.30 Exemplo: A fun¸ c˜ao ψ definida por
ψ(x) =

maior inteiro menor que x se [x[ < 5
0 se [x[ ≥ 5
´e uma fun¸c˜ ao escada definida em toda reta.
Se ϕ for uma fun¸ c˜ao escada definida em J e se denotarmos por C
k
os
valores assumidos por ϕ sobre os intervalos limitados I
k
⊂ (a, b) ⊂ J,
k = 1, . . . , n a sua integral ´e definida por

J
ϕ =
n
¸
k=1
C
k
amp(I
k
) =

b
a
ϕ.
As defini¸ c˜oes de fun¸c˜ oes mensur´ aveis e integr´aveis sobre J s˜ ao feitas
de modo an´alogo ao caso do intervalo finito e todos os resultados vistos
at´e agora s˜ ao v´ alidos, com exce¸c˜ao dos que fazem apelo `a integrabi-
lidade das fun¸c˜ oes constantes. Embora as fun¸c˜ oes constantes sejam
mensur´ aveis nos intervalos ilimitados, n˜ao s˜ ao, contudo, integr´ aveis
nesses intervalos (a fun¸c˜ ao u constante e igual a c no intervalo (0, +∞),
por exemplo, ´e mensur´ avel porque ´e o limite da sucess˜ ao (cA
(0,n)
) de
Se¸ c˜ao 2.3 A integral sobre um intervalo n˜ao limitado 57
fun¸c˜ oes escada, mas n˜ ao ´e integr´avel porque se fosse, sua suposta in-
tegral deveria ser maior que

cA
(0,n)
= nc, ∀n ∈ N, uma vez que
u > cA
(0,n)
, o que n˜ ao ´e poss´ıvel). Como conseq¨ uˆencia, o Corol´ ario
2.26 n˜ao ´e v´ alido nos intervalos ilimitados e, desse modo, a Proposi¸c˜ ao
2.27, que permanece v´alida nos intervalos ilimitados, deve ter sua de-
monstra¸c˜ ao revista pois faz apelo ` aquele corol´ ario. Para demonstr´ a-la
no caso ilimitado devemos substituir a fun¸ c˜ao constante e igual a 1
que figura no numerador de v
n
por uma fun¸c˜ao h integr´ avel e essenci-
almente positiva; as fun¸c˜ oes ˆ v
n
=
h
1+u
n
s˜ ao integr´aveis pela Proposi¸c˜ao
2.24, pois ˆ v
n
´e mensur´ avel e 0 < ˆ v
n
≤ h. Os demais argumentos da
demonstra¸c˜ ao permanecem v´alidos. (Uma fun¸c˜ao integr´avel e estrita-
mente positiva em (0, +∞), por exemplo, pode ser constru´ıda como
segue: seja u
k
=
1
2
k
A
(k−1,k)
, k = 1, . . . , e h
n
=
n
¸
k=1
u
k
; ent˜ ao (h
n
) ´e
uma sucess˜ ao crescente de fun¸c˜ oes escada cuja sucess˜ ao das integrais
´e limitada pois

h
n
=
n
¸
k=1
1/2
k
< 1. Pela forma crescente do Teorema
de Beppo Levi, (h
n
) converge para uma fun¸c˜ ao integr´ avel h e, como ´e
imediato, h > 0 em (0, +∞)).
58 Integral `a Lebesgue-Riesz Cap. 2
Exerc´ıcios
2.1 Prove que dada u integr´ avel em (a, b) tal que 0 ≤ u ≤ M, ent˜ao
existe uma fun¸c˜ao escada ϕ tal que [u −ϕ[ < M e

[u −ϕ[ < ε.
Sugest˜ao: Aplicar Proposi¸ c˜ao 2.8.
2.2 Mostre que E ⊂ (a, b) tem medida nula se e s´o se existe uma
seq¨ uˆencia (u
k
) de fun¸c˜ oes escada n˜ ao negativas tais que a s´erie
¸
u
k
´e divergente nos pontos de E e a s´erie das integrais
¸
u
k
´e convergente.
2.3 Prove que uma fun¸ c˜ao u: (a, b) →R ´e mensur´ avel se e s´o se T
v
(u)
´e integr´ avel em (a, b) qualquer que seja a fun¸ c˜ao v ≥ 0, integr´ avel
em (a, b).
2.4 Com exemplos mostre que de u, v ∈ L(a, b) n˜ ao decorre que
u v ∈ L(a, b).
2.5 Mostre que se u ´e mensur´ avel e limitada e v ´e integr´ avel, ent˜ao
uv ´e integr´ avel.
2.6 Seja u
n
= nA
(n,n+1)
. Ent˜ao (u
n
) converge a u = 0 em (0, ∞) mas

u = lim

u
n
. Por que o Teorema da Convergˆencia Limitada
n˜ ao se aplica a este caso?
2.7 Seja u
n
= −
1
n
A
(0,n)
. Ent˜ ao (u
n
) converge a u = 0 em (0, ∞) e

u ≥ liminf
n→∞

u
n
.
Por que este exemplo n˜ ao contraria o lema de Fatou?
2.8 Demonstre a seguinte forma generalizada do Lema de Fatou: se
(u
n
) ´e uma sucess˜ ao de fun¸c˜ oes de L(u
0
), ent˜ao liminf
n→∞
u
n
´e in-
tegr´ avel e

b
a
liminf
n→∞
u
n
≤ liminf
n→∞

b
a
u
n
.
3
Conjuntos e Fun¸ c˜oes Mensur´aveis
3.1 Conjuntos mensur´aveis
O conceito de medida de um conjunto generaliza os antigos conceitos
de comprimento, ´ area e volume das figuras elementares. Nesta se¸ c˜ao
iremos definir um conceito de medida paa subconjuntos da reta e estu-
dar as propriedades de tal medida. Mais precisamente, introduziremos
aqui o conceito de medida proposto por Lebesgue para os subconjun-
tos da reta, na formula¸ c˜ao de Riesz. Posteriormente, mostra-se a
equivalˆencia das formula¸c˜ oes de Riesz e de Lebesgue.
3.1 Defini¸c˜ao. Dado E ⊂ R dizemos que E ´e mensur´avel quando
sua fun¸c˜ ao caracter´ıstica A
E
for mensur´avel.
3.2 Defini¸c˜ao. Seja E um subconjunto mensur´avel de (a, b). A
medida de E, denotada por µ(E), ´e definida por
µ(E) =

b
A
A
E
,
caso A
E
seja integr´ avel em (a, b) e, por µ(E) = +∞, caso n˜ ao seja.
Da Defini¸c˜ ao 3.2 resulta que se (a, b) ´e limitado, ent˜ ao todos os
subconjuntos mensur´ aveis de (a, b) tˆem medida finita uma vez que,
60 Conjuntos e Fun¸ c˜oes Mensur´aveis Cap. 3
para cada E ⊂ (a, b), A
E
´e uma fun¸ c˜ao limitada e, portanto, integr´ avel
pelo Corol´ario 2.26. Logo os subconjuntos de medida infinita s´ o podem
ocorrer quando (a, b) ´e ilimitado.
Da Defini¸c˜ ao 3.2 resulta, ainda, que sempre se tem µ(E) ≥ 0.
3.3 Exemplo. Se E for um intervalo limitado ent˜ao E ´e mensur´ avel
e a medida de E ´e a sua amplitude.
3.4 Exemplo. a) O conjunto vazio ∅ ´e mensur´ avel e µ(∅) = 0.
Basta observar que A

≡ 0 em (a, b).
b) Sejam E e F mensur´ aveis. Ent˜ ao E∪F e E∩F s˜ ao mensur´aveis.
Basta observar que A
E∪F
= A
E
∨ A
F
e A
E∩F
= A
E
∧ A
F
.
3.5 Exemplo. Todo conjunto E de medida nula no sentido da De-
fini¸c˜ ao 1.1 ´e mensur´avel no sentido da Defini¸c˜ ao 3.1 e tem-se µ(E) = 0.
Reciprocamente se E ´e mensur´avel no sentido da Defini¸c˜ ao 3.1 e
µ(E) = 0 ent˜ ao E tem medida nula no sentido da Defini¸c˜ao 1.1.
Com efeito, seja E um conjunto de medida nula no sentido da
Defini¸c˜ ao 1.1. Ent˜ao x
E
= 0 quase sempre, donde x
E
∈ L(a, b) e

b
a
x
E
= 0. Logo, E mensur´ avel e µ(E) = 0.
Reciprocamente, de µ(E) = 0 resulta que A
E
´e integr´ avel e

A
E
= µ(E) = 0.
Como A
E
≥ 0 segue, pela Proposi¸c˜ ao 2.14, que A
E
= 0 quase sempre.
Logo E tem medida nula no sentido da Defini¸c˜ao 1.1.
Salvo men¸c˜ ao expl´ıcita em contr´ario, os conjuntos com os quais
lidaremos neste cap´ıtulo, s˜ao subconjuntos de um intervalo limitado
fixo (a, b).
3.6 Proposi¸c˜ao. Sejam E, F conjuntos mensur´aveis tais que E ⊂ F.
Ent˜ ao F −E ´e mensur´avel e µ(F −E) = µ(F) −µ(E).
Demonstra¸c˜ao: Basta observar que A
F−E
= A
F
−A
E
.
Se¸ c˜ao 3.1 Conjuntos mensur´aveis 61
3.7 Corol´ario. Se E ⊂ (a, b) ´e mensur´avel ent˜ao o complemento de
E em (a, b) ´e mensur´avel.
Demonstra¸c˜ao: Do Exemplo 3.3 sabemos que (a, b) ´e mensur´avel.
Logo, (a, b) −E ´e mensur´ avel pela Proposi¸c˜ ao 3.6.
3.8 Proposi¸c˜ao. Seja ¦M
ν
; ν ∈ N¦ uma fam´ılia enumer´avel de con-
juntos mensur´aveis e seja M =

¸
ν=1
M
ν
. Ent˜ao
i) M ´e mensur´avel.
ii) Se os M
ν
s˜ao dois a dois disjuntos tem-se µ(M) =

¸
ν=1
µ(V
ν
).
iii) Se a fam´ılia ¦M
ν
; ν ∈ N¦ ´e crescente, isto ´e, M
1
⊂ M
2
⊂ ⊂
M
ν
⊂ . . . tem-se µ(M) = lim
ν→∞
µ(V
ν
).
iv) Em qualquer caso tem-se µ(M) ≤

¸
ν=1
µ(V
ν
).
Demonstra¸c˜ao: i) Para cada k ∈ N, seja g
k
(x) = max
ν≤k
¦A
M
ν
(x)¦.
Sendo as fun¸c˜ oes A
M
ν
mensur´ aveis decorre que as g
k
s˜ ao mensur´aveis.
Por outro lado temos que A
M
(x) = sup
ν∈N
¦A
M
ν
(x)¦ = lim
k→∞
g
k
(x). Logo,
de acordo com a Proposi¸c˜ ao 2.27, temos que A
M
´e mensur´ avel e por-
tanto M ´e mensur´ avel.
ii) Se os M
ν
s˜ ao dois a dois disjuntos as fun¸c˜oes g
k
definidas no
item anterior podem ser descritas por g
k
(x) =
k
¸
ν=1
A
M
ν
(x). As fun¸c˜ oes
g
k
s˜ ao integr´aveis e lim
k→∞
g
k
= A
M
. Al´em disso A
M
´e integr´avel e
[g
k
[ ≤ A
M
para todo k. Pelo Teorema 2.17 (Lebesgue) tem-se que

b
a
A
M
= lim
k→∞

b
a
g
k
=

¸
ν=1

b
a
A
M
ν
62 Conjuntos e Fun¸ c˜oes Mensur´aveis Cap. 3
e portanto, µ(M) =

¸
ν=1
µ(M
ν
).
iii) Considere a seguinte fam´ılia de conjuntos:
N
1
= M
1
, N
2
= M
2
−M
1
, N
3
= M
3
−M
2
, . . . , N
ν
= M
ν
−M
ν−1
, . . . .
Pela Proposi¸c˜ ao 3.6 os conjuntos N
ν
s˜ ao mensur´aveis e tem-se µ(N
ν
) =
µ(M
ν
) − µ(M
ν−1
). Al´em do mais eles s˜ao dois a dois disjuntos e
M =

¸
ν=1
N
ν
. Logo, pelo item anterior, tem-se
µ(M)=

¸
ν=1
µ(N
ν
)=µ(M
1
)+µ(M
2
)−µ(M
1
)+. . .+µ(M
ν
)−µ(M
ν−1
)+. . .
= lim
ν→∞

µ(M
1
) +
ν
¸
k=2
(µ(M
k
) −µ(M
k−1
))

= lim
ν→∞
µ(M
ν
).
iv) Considere a fam´ılia ¦P
k
; k ∈ N¦ onde P
k
=
k
¸
n=1
M
ν
. Ent˜ao os P
k
s˜ ao mensur´ aveis e P
1
⊂ P
2
⊂ ⊂ P
k
⊂ . . . . Al´em disso M =

¸
k=1
P
k
.
Logo, pelo item anterior tem-se
µ(M) = lim
k→∞
µ(P
k
) = lim
k→∞
µ(M
1
∪ M
2
∪ ∪ M
k
¦.
Sendo M
1
∩ M
2
mensur´ avel (Exemplo 3.4, b)) e
µ(M
1
∪ M
2
) = µ(M
1
∪ (M
2
−(M
1
∩ M
2
)))
= µ(M
1
) +µ(M
2
−(M
1
∩ M
2
))
= µ(M
1
) +µ(M
2
) −µ(M
1
∩ M
2
) ≤ µ(M
1
) +µ(M
2
),
por indu¸c˜ ao conclui-se que µ(M
1
∪M
2
∪ ∪M
k
) ≤ µ(M
1
) +µ(M
2
) +
+ µ(M
k
) para todo k. Logo, µ(M) ≤ lim
k→∞
k
¸
i=1
µ(M
i
) =

¸
k=1
µ(M
k
).
Se¸ c˜ao 3.1 Conjuntos mensur´aveis 63
3.9 Proposi¸c˜ao. Seja ¦M
ν
; ν ∈ N¦ uma fam´ılia enumer´avel de con-
juntos mensur´aveis e seja M =

¸
ν=1
M
ν
. Ent˜ao
i) M ´e mensur´avel.
ii) Se a fam´ılia ¦M
ν
; ν ∈ N¦ ´e decrescente, isto ´e, M
1
⊃ M
2
⊃ ⊃
M
ν
⊃ . . . , ent˜ao µ(M) = lim
ν→∞
µ(M
ν
).
Demonstra¸c˜ao: i) Em virtude do Corol´ario 3.7, basta mostrar que
CM ´e mensur´ avel. Como CM =

¸
ν=1
CM
ν
e os M
ν
s˜ ao mensur´ aveis,
segue do Corol´ ario 3.7 que os CM
ν
s˜ ao mensur´ aveis e portanto CM
´e mensur´ avel em virtude do item (i) da Proposi¸c˜ ao 3.8. (Aqui e em
todo este texto CM denota o complementar de M).
ii) Sendo a fam´ılia ¦M
ν
; ν ∈ N¦ decrescente, segue-se que a fam´ılia
¦CM
ν
; ν ∈ N¦ ´e crescente. Al´em disso CM =

¸
ν=1
CM
ν
. Logo, pelo
item (iii) da Proposi¸c˜ ao anterior tem-se µ(CM) = lim
ν→∞
µ(CM
ν
). Ou
seja, (b − a) − µ(M) = (b − a) − lim
ν→∞
µ(M
ν
) e portanto, µ(M) =
lim
ν→∞
µ(M
ν
),.
Sabe-se que se A ´e um aberto de (a, b) ent˜ao A ´e uni˜ao de uma
fam´ılia enumer´avel de intervalos abertos dois a dois disjuntos. Como os
intervalos abertos s˜ ao mensur´ aveis, obt´em-se pela Proposi¸ c˜ao 3.8 que
A ´e mensur´ avel. Sendo fechado o complementar de um aberto, decorre
do Corol´ ario 3.7 que todo fechado ´e mensur´avel. Prosseguindo desta
maneira conclui-se que s˜ao mensur´aveis todos os conjuntos obtidos
a partir dos intervalos abertos, por meio das opera¸ c˜oes elementares
com conjuntos a saber, uni˜ oes, interse¸c˜ oes e complementa¸c˜ oes. Esses
particulares conjuntos mensur´ aveis s˜ ao conhecidos por conjuntos de
Borel ou Borelianos.
Neste ponto ´e natural indagar se existem conjuntos limitados n˜ao
mensur´ aveis. A resposta ´e afirmativa. Exemplos simples de tais con-
64 Conjuntos e Fun¸ c˜oes Mensur´aveis Cap. 3
juntos podem ser encontrados em Natanson [19], p´agina 76. Veja
Compl. 3, p.152.
3.2 A integral sobre conjuntos mensur´aveis
Se E ⊂ (a, b) ´e mensur´avel, pode-se definir a integral de uma fun¸c˜ao
sobre E. Diz-se que u ´e integr´avel sobre E se a fun¸c˜ ao uA
E
for in-
tegr´ avel sobre (a, b) e define-se

E
u =

b
a
uA
E
.
Dentre as propriedades da integral de uma fun¸c˜ ao u sobre um con-
junto mensur´ avel E destacaremos algumas que ser˜ ao estudadas a se-
guir.
3.10 Proposi¸c˜ao. Se u ´e integr´avel sobre E =

¸
i=1
E
i
, onde os E
i
s˜ao
mensur´aveis e dois a dois disjuntos ent˜ao u ´e integr´avel sobre cada E
i
e tem-se
(3.1)

E
u =

¸
i=1

E
i
u.
Demonstra¸c˜ao: Por defini¸c˜ ao a fun¸ c˜ao uA
E
´e integr´ avel sobre (a, b)
e portanto mensur´ avel. Ainda por defini¸ c˜ao, para cada i, a fun¸c˜ ao
A
E
i
´e mensur´avel. Logo, para cada i, a fun¸ c˜ao uA
E
i
´e mensur´avel pois
uA
E
i
= (uA
E
)A
E
i
. Al´em disso, para cada i tem-se
[uA
E
i
[ = [uA
E
[ [A
E
i
[ ≤ [u[A
E
,
uma vez que [A
E
i
[ ≤ 1. Como a fun¸c˜ ao [u[A
E
´e integr´ avel, segue-se da
Proposi¸c˜ ao 2.24 que uA
E
i
´e integr´avel. Sendo os E
i
disjuntos dois a
dois pode-se escrever que A
E
=

¸
i=1
A
E
i
e para todo n ∈ N,
n
¸
i=1
A
E
i
≤ 1.
Se¸ c˜ao 3.2 A integral sobre conjuntos mensur´aveis 65
Portanto,
(3.2) uA
E
=

¸
i=1
uA
E
i
;
(3.3)

n
¸
i=1
uA
E
i


n
¸
i=1
[u[A
E
A
E
i
= [u[A
E
n
¸
i=1
A
E
i
≤ [u[A
E
.
De (3.3) tem-se que as reduzidas de ordem n da s´erie (3.2) s˜ ao do-
minadas pela fun¸ c˜ao integr´ avel [u[A
E
e pelo Teorema 2.17 (Lebesgue)
pode-se integrar (3.2) termo a termo, obtendo (3.1).
A rec´ıproca da proposi¸c˜ ao anterior ´e v´alida se a s´erie

¸
i=1

E
i
[u[ ´e
suposta convergente, como mostra o resultado a seguir.
3.11 Proposi¸c˜ao. Seja E =

¸
i=1
E
i
onde os E
i
s˜ao mensur´aveis e dois
a dois disjuntos. Se u ´e integr´avel sobre cada E
i
e a s´erie

¸
i=1

E
i
[u[ ´e
convergente ent˜ao u ´e integr´avel sobre E e vale a igualdade (3.1).
Demonstra¸c˜ao: Seja, inicialmente, u ≥ 0 e observe-se que, nesse
caso, a fun¸c˜ ao uA
E
´e limite quase sempre da sucess˜ ao crescente cons-
tituida das somas parciais da s´erie de fun¸c˜ oes integr´aveis

¸
i=1
uA
E
i
,
cujas integrais s˜ ao limitadas por uma constante porque a s´erie

¸
i=1

E
i
u
´e convergente por hip´ otese. Segue-se do Teorema 2.12 (Beppo Levi)
que uA
E
´e integr´avel e vale (3.1). No caso geral, da integrabilidade de u
sobre cada E
i
, isto ´e, da integrabilidade de uA
E
i
e de u
+
A
E
i
= (uA
E
i
)
+
e u

A
E
i
= (uA
E
i
)

resulta, pelo Corol´ario 2.2, a integrabilidade de u
+
e u

sobre cada E
i
. Al´em disto, da convergˆencia da s´erie

¸
i=1

E
i
[u[
66 Conjuntos e Fun¸ c˜oes Mensur´aveis Cap. 3
resulta a das s´eries

¸
i=1

E
i
u
+
e

¸
i=1

E
i
u

. Pelo que j´a foi demonstrado
segue-se, ent˜ ao, que u
+
e u

s˜ ao integr´aveis sobre E e

E
u
+
=

¸
i=1

E
i
u
+
,

E
u

=

¸
i=1

E
i
u

.
Portanto a fun¸c˜ ao u
+
e u

= u ´e integr´ avel sobre E e

E
u =

E
(u
+
−u

) =

¸
i=1

E
i
u
+


¸
i=1

E
i
u

=

¸
i=1

E
i
u.
Quando u ≥ 0 a proposi¸cao anterior pode ser enunciada, equivalen-
temente, da seguinte forma: Se uma fun¸c˜ ao u ≥ 0 ´e integr´ avel sobre
cada um dos conjuntos E
1
⊂ E
2
⊂ ⊂ E
i
⊂ . . . , e se a sucess˜ ao das
integrais

E
i
u

´e limitada, ent˜ ao u ´e integr´avel sobre E =

¸
i=1
E
i
e
tem-se

E
= lim
i→∞

E
i
u.
3.12 Proposi¸c˜ao. Se u ´e integr´avel sobre (a, b), ent˜ao para cada
conjunto mensur´avel E ⊂ (a, b), u ´e integr´avel sobre E.
Demonstra¸c˜ao: Basta ver que a fun¸c˜ ao uA
E
´e mensur´avel e que
uA
E
[ ≤ [u[. Aplicando a Proposi¸c˜ao 2.24 obtemos o resultado dese-
jado.
Se os conjuntos considerados possuem medida infinita podemos de-
finir a intetgral sobre eles utilizando o conceito de integral sobre in-
tervalos s˜ ao limitados introduzido no par´agrafo 2.3.
3.3 O m´etodo de Lebesgue e sua compara¸ c˜ao com o m´etodo de
Riesz
At´e aqui consideramos o m´etodo de Riesz para definir a integral de
Lebesgue. Nesta se¸ c˜ao passaremos a expor sucintamente o m´etodo
Se¸ c˜ao 3.3 O m´etodo de Lebesgue e sua compara¸ c˜ao com o m´etodo de Riesz 67
original de Lebesgue e mostraremos a sua equivalˆencia com o m´etodo
de Riesz.
O m´etodo de Lebesgue consiste de trˆes etapas: a defini¸c˜ao dos con-
juntos mensur´ aveis, a defini¸ c˜ao das fun¸c˜ oes mensur´aveis e a defini¸c˜ ao
das fun¸c˜ oes integr´aveis. Para distinguir os conceitos de medida, men-
surabilidade e integrabilidade propostos por Riesz, dos mesmos concei-
tos propostos por Lebesgue, denotaremos estes ´ ultimos por L-medida,
L-mensurabilidade e L-integrabilidade. Esta nota¸ c˜ao ´e apenas tem-
por´aria uma vez que, como iremos ver, as defini¸ c˜oes de Riesz e de
Lebesgue s˜ao equivalentes.
Dado E ⊂ [a, b], chama-se medida exterior de E, e denota-se por
m
e
(E), o seguinte n´ umero
(3.4) m
e
(E) = inf
¦I
k
¦∈/
¸
k
amp(I
k
),
onde / denota a cole¸c˜ao de todos os recobrimentos ¦I
k
¦ enumer´ aveis
de E por intervalos I
k
abertos ou n˜ ao.
Observe-se que se ε > 0 e

¸
k=1
amp(I
k
) < m
e
(E)+
ε
2
, onde ¦I
k
¦ ∈ /,
ent˜ ao se a
k
e b
k
s˜ ao os extensos de I
k
e se designamos por I
/
k
, k = 1, . . . ,
o intervalo aberto

a
k

ε
2
k+2
, b
k
+
ε
2
k+2

, tem-se

¸
k=1
amp(I
/
k
) < m
e
(E) +
ε. Isto mostra que em (3.4) podemos supor que os intervalos I
k
s˜ ao
abertos.
Em geral vale a seguinte desigualdade
(3.5) m
e
(E) +m
e
(CE) ≥ b −a.
De fato, sejam ¦I
k
¦, ¦J
s
¦ recobrimentos enumer´ aveis de E e CE,
respectivamente, por intervalos abertos tais que
m
e
(E) +
ε
2
>
¸
k
amp(I
k
) e m
e
(CE) +
ε
2
>
¸
k
amp(J
s
),
68 Conjuntos e Fun¸ c˜oes Mensur´aveis Cap. 3
onde ε > 0 ´e arbitr´ ario. Ent˜ao ¦I
k
¦ ∪ ¦J
s
¦ ´e um recobrimento de
[a, b] e pelo teorema de Borel-Lebesgue podemos escolher um subre-
cobrimento S
1
, S
2
, . . . , S
n
finito de [a, b].
´
E claro que
n
¸
i=1
amp(S
i
) ≤
m
e
(E) +m
e
(CE) +ε. Al´em disso, b −a ≤
n
¸
i=1
amp(S
i
). Portanto,
b −a ≤ m
e
(E) +m
e
(CE) +ε.
Como ε ´e arbitr´ ario, obt´em-se (3.5).
Diremos que o conjunto E ´e L-mensur´avel quando em (3.5) for
v´ alida a igualdade. Neste caso m
e
(E) ´e dita L-medida de E e denotada
simplesmente por m(E).
´
E importante observar que esta defini¸c˜ ao n˜ao depende da escolha
do intervalo fechado [a, b] que cont´em E.
3.13 Teorema. Um conjunto E ´e L-mensur´avel se e somente se E
´e mensur´avel e tem-se m(E) = µ(E).
Demonstra¸c˜ao: Suponhamos que E seja L-mensur´ avel. Dado ε > 0,
sejam ¦I
k
¦, ¦J
s
¦ recobrimentos enumer´ aveis de E e CE, respectiva-
mente, tais que
¸
k
amp(I
k
) ≤ m(E) +
ε
2
e
¸
s
amp(J
s
) ≤ m(CE) +
ε
2

Sejam h e g as somas das fun¸c˜ oes caracter´ısticas dos intervalos cor-
respondentes aos recobrimentos ¦I
k
¦ e ¦J
s
¦, respectivamente. A exis-
tˆencia de h e g ´e assegurada pelo teorema de Beppo Levi. Al´em do
mais h e g s˜ ao integr´aveis e

b
a
h =
¸
s
amp(I
k
),

b
a
g =
¸
s
amp(J
s
).
Tamb´em s˜ao v´ alidas as seguintes desigualdades, cujas verifica¸c˜ oes s˜ao
imediatas:
h ≥ A
E
≥ A
[a,b]
−g
e

b
a
[h −(1 −g)] =
¸
k
amp(I
k
) +
¸
s
amp(J
s
) −(b −a)
≤ m(E) +m(CE) +ε −(b −a) = ε.
Se¸ c˜ao 3.3 O m´etodo de Lebesgue e sua compara¸ c˜ao com o m´etodo de Riesz 69
Segue-se do Corol´ ario 2.29 que A
E
´e integr´avel. Logo A
E
´e mensur´avel
e, portanto, E ´e mensur´avel. Como a integral de A
E
ser´ a compreen-
dida entre as integrais de 1−g e h e, al´em disso valem as desigualdades

b
a
(1 −g) = b −a −
¸
s
amp(J
s
) ≥ b −a −m(CE) −
ε
2
= m(E) −
ε
2

b
a
h =
¸
k
amp(I
k
) ≤ m(E) +
ε
2
, segue-se que m(E) −
ε
2

b
a
A
E

m(E) +
ε
2
Como ε ´e arbitr´ario, tem-se que

A
E
= m(E), mostrando
que µ(E) = m(E).
Reciprocamente, suponhamos que E seja mensur´avel. Vamos pro-
var que E ´e L-mensur´ avel. Por defini¸c˜ ao A
E
´e mensur´avel. Seja, ent˜ ao,

ν
) uma sucess˜ao de fun¸c˜ oes escada convergindo quase sempre para
A
E
. Podemos admitir que as fun¸c˜ oes ϕ
ν
s˜ ao fun¸ c˜oes caracter´ısticas
de conjuntos A
ν
que por sua vez s˜ao uni˜oes de um n´ umero finito de
intervalos. De fato, se este n˜ ao fosse o caso poder´ıamos modificar os
valores de ϕ
ν
redefinindo-as da seguinte forma: ϕ
ν
(x) = 1 se o valor
anterior ϕ
ν
(x) > 1/2 e ϕ
ν
(x) = 0 nos demais casos. A sucess˜ao assim
modificada ainda convergiria quase sempre para A
E
. Al´em disso a
fun¸c˜ ao A
E
´e limite quase sempre da sucess˜ao formada pelas fun¸ c˜oes
g
ν
(x) = sup
¸
ϕ
ν
(x), ϕ
ν+1
(x), . . .
¸
,
e cada g
ν
´e fun¸c˜ao caracter´ıstica do conjunto B
ν
= A
ν
∪ A
ν+1
∪ . . . e
´e claro que os B
ν
s˜ ao uni˜ oes de fam´ılias enumer´ aveis de intervalos que
podemos admitir serem dois a dois disjuntos suprimindo, se necess´ ario,
de cada A
k
os pontos contidos nos conjuntos A
i
de ´ındices i inferiores
a k. Assim, a integral de g
ν
´e a soma das amplitudes dos intervalos
que fazem parte de B
ν
e esta soma tende para a integral da fun¸ c˜ao A
E
quando ν →∞. Mais ainda, os intervalos que comp˜oem os B
ν
cobrem
E exceto, possivelmente, por um conjunto de medida nula. Segue-se
ent˜ ao que
(3.6) m
e
(E) ≤

A
E
.
70 Conjuntos e Fun¸ c˜oes Mensur´aveis Cap. 3
Como CE tamb´em ´e mensur´avel, permutando E por CE em (3.6),
obtemos
(3.7) m
e
(CE) ≤

A
CE
=

(1 −A
E
) = b −a −

A
E
.
Adicionando membro a membro (3.6) e (3.7) conclu´ımos que
(3.8) m
e
(E) +m
e
(CE) ≤ b −a.
De (3.5) e (3.8) vem que
m
e
(E) +m
e
(CE) = b −a
e portanto E ´e L-mensur´ avel.
Daqui em diante n˜ao necessitamos mais distinguir entre conjuntos
mensur´ aveis e L-mensur´ aveis pois j´ a vimos que os dois conceitos s˜ ao
equivalentes.
3.14 Defini¸c˜ao. Uma fun¸c˜ ao u: (a, b) → R ´e dita L-mensur´avel se
o conjunto ¦x ∈ (a, b); u(x) ≤ c¦ for mensur´ avel qualquer que seja
c ∈ R.
3.15 Observa¸c˜ao:
´
E um exerc´ıcio f´ acil demonstrar que, qualquer
que seja c ∈ R, se um dos seguintes conjuntos ¦x ∈ (a, b); u(x) ≤ c¦,
¦x ∈ (a, b); u(x) > c¦, ¦x ∈ (b, a); u(x) ≥ c¦, ¦x ∈ (a, b); u(x) < c¦ for
mensur´ avel, os outros tamb´em ser˜ao.
3.16 Teorema. Uma fun¸c˜ao u ´e L-mensur´avel se e somente se u ´e
mensur´avel.
Demonstra¸c˜ao: Suponhamos que u seja L-mensur´ avel. Ent˜ ao, para
cada k = 0, ±1, ±2, . . . e cada n ∈ N o conjunto E
k,n
=
¸
x ∈
(a, b); k/n < u(x) ≤
k+1
n
¸
´e mensur´ avel (em virtude da Defini¸c˜ ao
3.14 e da Observa¸ c˜ao 3.15). Para cada n, defina ϕ
n
(x) = k/n para
x ∈ E
k,n
. As fun¸ c˜oes ϕ
n
s˜ ao mensur´ aveis pois
ϕ
n
(x) =
+∞
¸
k=−∞
k
n
A
E
k,n
.
Se¸ c˜ao 3.3 O m´etodo de Lebesgue e sua compara¸ c˜ao com o m´etodo de Riesz 71
Al´em disso ϕ
n
converge para u quase sempre em (a, b). Logo u ´e
mensur´ avel.
Reciprocamente, suponhamos que u ´e mensur´avel. Seja c ∈ R e
considere a fun¸c˜ ao mensur´ avel u
c
(x) = max¦u(x), c¦. Consideremos a
sucess˜ ao (g
ν
) onde as g
ν
s˜ ao definidas por
g
ν
(x) = ν

u
c+1/ν
(x) −u
c
(x)

.
´
E claro que as g
ν
s˜ ao mensur´ aveis e ´e f´ acil constatar que a sucess˜ ao
(g
ν
) converge quase sempre para a fun¸ c˜ao caracter´ıstica do conjunto
A = ¦x ∈ (a, b); u(x) ≤ c¦. Portanto a fun¸c˜ ao caracter´ıstica de A ´e
mensur´ avel, o que acarreta A mensur´ avel. Por defini¸c˜ao, temos que u
´e L-mensur´ avel.
Daqui em diante n˜ao faremos mais distin¸c˜ ao entre as fun¸c˜oes men-
sur´ aveis e as L-mensur´ aveis.
Para finalizar esta se¸c˜ ao mostraremos a equivalˆencia entre os con-
ceitos de integral e de L-integral.
Consideremos uma fun¸ c˜ao u limitada e mensur´ avel definida num
intervalo limitado (a, b). Seja (m, M) um intervalo contendo o con-
junto de valores de u, isto ´e, tal que m < u(x) < M para todo
x ∈ (a, b). Seja π a decomposi¸ c˜ao de (m, M) cujos pontos de divis˜ ao
s˜ ao y
0
= m < y
1
< < y
ν
= M e consideremos as “somas integrais”
(3.9) s
π
(u) =
ν−1
¸
j=0
y
j
µ(E
j
) e S
π
(u) =
ν−1
¸
j=0
y
j+1
µ(E
j
),
onde
E
j
=
¸
x ∈ (a, b); y
j
< u(x) ≤ y
j+1
¸
, j = 0, . . . , ν −1.
Tem-se, obviamente, s
π
(u) ≤ S
π
(u).
Dado ε > 0, sejam π e π
/
duas decomposi¸ c˜oes de (m, M) cujas
amplitudes m´ aximas δ(π) e δ
/
(π) s˜ao menores que ε/(b − a). Ent˜ao
72 Conjuntos e Fun¸ c˜oes Mensur´aveis Cap. 3
temos
S
π
(u) −s
π
(u) =
ν−1
¸
j=0
y
j+1
µ(E
j
) −
ν−1
¸
j=0
y
j
µ(E
j
)
=
ν−1
¸
j=0
(y
j+1
−y
j
)µ(E
j
) ≤
ε
b −a
ν−1
¸
j=0
µ(E
j
) = ε,
e, analogamente, S
π
(u) − s
π
(u) ≤ ε. Designando por π
//
a decom-
posi¸c˜ ao cujos pontos de divis˜ ao s˜ao os de π e os de π
/
temos
s
π
≤ s
π
≤ S
π
≤ S
π
e s
π
≤ s
π
≤ S
π
≤ S
π
.
Logo, (s
π
, S
π
) ⊂ (s
π
, S
π
) ∩ (s
π
, S
π
), donde [s
π
− s
π
[ < ε e, assim,
quando δ(π) → 0 a fun¸ c˜ao s
π
tende para um limite que ´e dito L-
integral de u em (a, b).
Se a fun¸c˜ ao u ´e n˜ao limitada admitimos inicialmente que ´e n˜ao ne-
gativa. Neste caso, para cada ν ∈ N considera-se a fun¸ c˜ao u
ν
(x) =
min¦u(x), ν¦ que evidentemente ´e n˜ao negativa, mensur´avel e limi-
tada. Assim temos uma sucess˜ao (u
ν
), crescente, de fun¸c˜ oes L-integr´ a-
veis convergindo quase sempre para u. Se a sucess˜ ao num´erica das
L-integrais das fun¸c˜ oes u
ν
tiver um limite finito quando ν → ∞, a
fun¸c˜ ao u ´e dita L-integr´avel e tal limite ´e a sua L-integral.
No caso geral, escreve-se u = u
+
−u

e diz-se que u ´e L-integr´ avel
se o forem u
+
e u

definindo-se a L-integral de u como a diferen¸ca
entre as L-integrais de u
+
e u

.
3.17 Observa¸c˜ao: Notemos que a defini¸c˜ ao de integral dada por
Lebesgue difere da de Riemann no fato de que enquanto este conside-
rou decomposi¸c˜ oes do dom´ınio (a, b) de u, aquele considerou decom-
posi¸c˜ oes do conjunto de valores de u. Para isto ele admitiu a hip´ otese
de u ser mensur´ avel a fim de que os conjuntos ¦x ∈ (a, b); y
j
< u(x) ≤
y
j+1
¦ que aparecem em (3.9) fossem mensur´ aveis e as igualdades (3.9)
tivessem significado para toda decomposi¸c˜ ao π.
Se¸ c˜ao 3.3 O m´etodo de Lebesgue e sua compara¸ c˜ao com o m´etodo de Riesz 73
3.18 Teorema. Uma fun¸c˜ao u ´e L-integr´avel se e s´o se u ´e integr´avel
e sua L-integral coincide com sua integral.
Demonstra¸c˜ao: Se U ´e mensur´avel e limitada j´a sabemos que ´e
L-integr´ avel e tamb´em integr´avel. Resta ver apenas que estas duas
integrais coincidem. Observemos inicialmente que se π ´e uma decom-
posi¸c˜ ao do intervalo (m, M), m < u(x) < M ∀x ∈ (a, b), por meio
dos pontos m = y
0
< y
1
< < y
ν
= M, podemos associar a π
uma fun¸c˜ ao ϕ
π
(que depende de u) definida por ϕ
π
(x) = y
j
para
x ∈ ¦x ∈ (a, b); y
j
< u(x) ≤ y
j+1
¦.
´
E imediato que ϕ
π
´e integr´avel
e sua integral ´e igual a s
π
(u) dada pela primeira das f´ormulas (3.9).
Al´em disso, para todo x ∈ (a, b), tem-se [u(x) −ϕ
π
(x)[ < δ(π).
Tendo isto em mente consideremos uma sucess˜ao de decomposi¸c˜ oes

ν
) do intervalo (m, M) tais que para cada ν ∈ N se tenha δ(π
s
) <
1/s. Associada a esta sucess˜ ao de decomposi¸c˜ oes temos uma sucess˜ ao
de fun¸c˜oes (ϕ
ν
), onde ϕ
s
= ϕ
π
s
. As fun¸c˜ oes ϕ
s
s˜ ao integr´ aveis e a
sucess˜ ao (ϕ
ν
) converge quase sempre para u em (a, b). Al´em disso
existe uma constante C tal que [ϕ
ν
[ ≤ C para todo ν ∈ N. Basta con-
siderar C > max¦[m[, [M[¦. Portanto, pelo Teorema 2.17 (Lebesgue),

u = lim
ν→∞

ϕ
s
. Mas este limite ´e, por defini¸c˜ ao, a L-integral de u
uma vez que

ϕ
ν
= s
π
ν
(u) e δ(π
ν
) →0 quando ν →∞.
Mostremos a equivalˆencia das duas defini¸ c˜oes de integral no caso
em que u ´e n˜ ao limitada. Evidentemente basta nos restringirmos ao
caso em que u ´e n˜ ao negativa. Como j´ a vimos, neste caso u ´e limite
de uma sucess˜ao crescente (u
ν
) de fun¸c˜ao L-integr´ aveis. Como cada
u
ν
´e limitada as suas L-integrais coincidem com as suas integrais, con-
forme j´ a provamos acima. Se u ´e L-integr´ avel ent˜ ao existe lim
ν→∞

u
ν
e este limite ´e a L-integral de u, por defini¸c˜ ao. Mas pelo Teorema
2.12 (Beppo Levi) u ´e integr´ avel e tem-se

u = lim
ν→∞

u
ν
. Ou seja,
a integral de u no sentido de Lebesgue coincide com a integral de u
no sentido de Riesz. Reciprocamente, suponhamos que u ´e integr´ avel.
Como 0 ≤ u
ν
≤ u para todo ν, vem que 0 ≤

u
ν

u. Assim
74 Conjuntos e Fun¸ c˜oes Mensur´aveis Cap. 3
a sucess˜ao num´erica crescente

u
ν

´e limitada e portanto, tem um
limite finito. Decorre da´ı que u ´e L-integr´ avel e sua L-integral ´e igual
ao lim
ν→∞

u
ν
. Aplicando novamente o teorema de Beppo Levi conclui-
remos que as duas integrais coincidem.
3.4 Teoremas de Egoroff e Lusin
De posse do conceito de medida dos conjuntos podemos definir outros
tipos de convergˆencia para as sucess˜ oes de fun¸c˜ oes.
3.19 Defini¸c˜ao. Diremos que uma sucess˜ ao (u
ν
) de fun¸ c˜oes men-
sur´ aveis definidas em (a, b), n˜ ao necessariamente limitado, converge
quase uniformemente para uma fun¸c˜ ao mensur´ avel u em (a, b) se para
cada ε > 0 existe um conjunto mensur´avel E
ε
tal que µ(E
ε
) ≤ ε e (u
ν
)
converge para u uniformemente em CE
ε
.
Cabe aqui observar que da defini¸c˜ ao acima n˜ ao se deduz a existˆencia
de um conjunto de medida nula, fora do qual a convergˆencia ´e uni-
forme. O seguinte exemplo esclarece este ponto.
3.20 Exemplo. a) Consideremos a sucess˜ ao de fun¸c˜ oes (u
ν
) definidas
no intervalo (0, 2) da seguinte forma
u
ν
(x) = νA

1
ν
,
2
ν

(x).
Para cada ε > 0, podemos considerar E
ε
= (0, ε) se ε < 1 e E
ε
=
(0, 1) se ε ≥ 1. Assim, (u
ν
) converge uniformemente para zero no
complementar de E
ε
, logo (u
ν
) converge quase uniformemente para
zero em (0, 2). No entanto n˜ ao existe um conjunto de medida nula,
fora do qual a convergˆencia seja uniforme.
b) A sucess˜ao (u
γ
), onde u
ν
´e definida por u
ν
(x) = x
ν
, converge
quase uniformemente para a fun¸ c˜ao u = 0 em (0, 1). De fato, pondo
E
ε
= (1 −ε, 1) se ε <
1
2
e E
ε
=

1
2
, 1

se ε ≥
1
2
tem-se µ(E
ε
) ≤ ε e (u
ν
)
converge uniformemente a u = 0 em CE
ε
.
Se¸ c˜ao 3.4 Teorema de Egoroff e Lusin 75
c) A sucess˜ ao (u
ν
), onde u
ν
´e definida em (0, 1) por u
ν
(x) =
ν

x,
converge quase uniformemente a u = 1 em (0, 1). Com efeito, pondo
E
ε
= (0, ε) se ε < 1/2 e E
ε
= (0, 1/2) se ε ≥ 1/2, tem-se µ(E
ε
) ≤ ε e
(u
ν
) converge uniformemente a u = 1 em CE
ε
.
d) A sucess˜ao (u
ν
), onde u
ν
´e definida em (1, +∞) por u
ν
(x) =
1/x
ν
u, converge quase uniformemente para a fun¸c˜ ao u = 0. Aqui,
∀ε > 0, podemos tomar para E
ε
o intervalo (1, 1 +ε).
3.21 Defini¸c˜ao. Uma sucess˜ ao (u
ν
) de fun¸c˜ oes mensur´ aveis definidas
em (a, b) converge em medida para uma fun¸c˜ ao mensur´ avel u em (a, b)
quando para todo ε > 0 tem-se lim
ν→∞
µ(A
ν,ε
) = 0, onde A
ν,ε
= ¦x ∈
(a, b); [u
ν
(x) −u(x)[ ≥ ε¦.
3.22 Proposi¸c˜ao. Se (u
ν
) converge quase uniformemente para u
em (a, b) (n˜ao necessariamente limitado), ent˜ao (u
ν
) converge quase
sempre para u em (a, b).
Demonstra¸c˜ao: Seja E o conjunto dos pontos de (a, b) onde (u
ν
)
n˜ ao converge a u. Vamos mostrar que E tem medida nula. Para cada
n ∈ N seja F
n
tal que µ(F
n
) < 1/2
n
e (u
ν
) converge uniformemente
a u em CF
n
. Ponhamos E
n
=

¸
k=n
F
k
. Ent˜ ao (E
n
) ´e uma sucess˜ao
decrescente de conjuntos mensur´aveis tais que µ(E
n
) <
1
2
n−1
Logo,

µ

¸
n=1
E
n

= lim
n→∞
µ(E
n
) < lim
n→∞
1
2
n−1
= 0
e, como E ⊂ E
n
∀n ∈ N, segue-se que E ⊂

¸
n=1
E
n
, donde E ´e
mensur´ avel e µ(E) = 0.
A rec´ıproca da Proposi¸c˜ ao 3.22 n˜ ao ´e v´alida nos intervalos ilimita-
dos pois a sucess˜ ao (χ
(n,n+1)
), por exemplo, converge em todo ponto
de (1, +∞) mas n˜ ao converge quase uniformemente nesse intervalo.
Mas ´e v´alida nos intervalos limitados como se mostra a seguir.
76 Conjuntos e Fun¸ c˜oes Mensur´aveis Cap. 3
3.23 Teorema de Egoroff. Se a sucess˜ao (u
ν
) de fun¸c˜oes men-
sur´aveis converge quase sempre para uma fun¸c˜ao u em (a, b) e (a, b) ´e
limitado, ent˜ao (u
ν
) converge quase uniformemente para u em (a, b).
Demonstra¸c˜ao: Seja B
m,ν
=
¸
k≥ν
¸
x ∈ (a, b); [u
k
(x) − u(x)[ <
1
m
¸
,
m, ν ∈ N. Ent˜ ao (B
m,ν
) ´e, para cada m ∈ N, uma sucess˜ ao crescente
de conjuntos mensur´aveis. Seja E = ¦x ∈ (a, b); (u
ν
(x)) converge a
u(x)¦. Ent˜ ao E ´e mensur´ avel, E ⊂
¸
ν
B
m,ν
e µ(E) = b −a. Portanto
b −a ≥ lim
ν→∞
µ(B
m,ν
) = µ


¸
ν=1
B
m,ν

≥ µ(E) = b −a.
Logo, lim
ν→∞
µ(CB
m,ν
) = 0 donde, dado ε > 0, existe ν(m) ∈ N tal que
µ(CB
m,ν(m)
) ≤
ε
2
m
Ponhamos B =

¸
m=1
B
m,ν(m)
. Teremos
µ(CB) = µ


¸
m=1
CB
m,ν(m)
) ≤

¸
m=1
µ(CB
m,ν(m)
) ≤ ε.
Se k ≥ ν(m), ent˜ao [u
k
(x) − u(x)[ < 1/m ∀x ∈ B
m,ν(m)
e, como
B ⊂ B
m,ν(m)
, [u
k
(x) −u(x)[ < 1/m ∀x ∈ B, isto ´e, (u
ν
) converge uni-
formemente a u em B. Pondo E
ε
= CB tem-se que E
ε
´e mensur´avel,
µ(E
ε
) = µ(CB) ≤ ε e (u
ν
) converge uniformemente a u em CE
ε
, isto
´e, (u
ν
) converge quase uniformemente a u em (a, b).
3.24 Observa¸c˜oes: 1) Se E ´e mensur´ avel, ent˜ao
i) µ(E) = inf
E⊂G
µ(G), G aberto; (3.10)
ii) µ(E) = sup
F⊂E
µ(F), F fechado. (3.11)
i) Com efeito pelo que foi estabelecido na Se¸c˜ ao 3.3,
µ(E) = inf
¦I
k
¦⊂/

¸
k=1
amp(I
k
),
Se¸ c˜ao 3.4 Teorema de Egoroff e Lusin 77
onde / ´e a fam´ılia dos recobrimentos enumer´ aveis de E por interva-
los abertos. Como
¸
k∈N
I
k
´e um conjunto aberto cuja medida ´e, por
iv) da Proposi¸c˜ao 3.8, menor que

¸
k=1
amp(I
k
), segue-se que µ(E) ≥
inf
E⊂G
µ(G), G aberto. Seja, por outro lado, E ⊂ G, G aberto. Como
se sabe, G =

¸
k=1
J
k
, onde os J
k
, k = 1, . . . , s˜ao intervalos abertos e
disjuntos dois a dois. Logo, ¦J
k
¦ ∈ / e como, por ii) da Proposi¸c˜ao
3.8, µ(G) =

¸
k=1
amp(J
k
) tem=se µ(E) ≤ inf µ(G), G aberto. Logo,
µ(E) = inf
E⊂G
µ(G), G aberto.
ii) Como µ(E) +µ(CE) = b −a tem-se
µ(E) = b −a −µ(CE) = b −a − inf
CE⊂G
µ(G)
= b −a − inf
CE⊂G
(b −a −µ(CG)) = b −a −(b −a − sup
CE⊂G
(CG))
= sup
CE⊂G
µ(CG) = sup
CG⊂E
µ(CG) = sup
F⊂E
µ(F), F fechado.
2) O conjunto B que aparece na demonstra¸c˜ao do Teorema de Ego-
roff pode ser considerado como fechado. Com efeito, dado ε > 0 seja
ν(m) tal que µ(CB
m,ν(m)
) <
ε
2
m+1
e F
ν(m)
um conjunto fechado tal que
F
ν(m)
⊂ B
m,ν(m)
e µ(F
ν(m)
) > µ(B
m,ν(m)
) −
ε
2
m+1
O conjunto F
ν(m)
existe por (3.11). Ent˜ ao temos
b −a −µ(B
m,ν(m)
) <
ε
2
m+1
µ(B
m,ν(m)
) −µ(F
ν(m)
) <
ε
2
m+1
donde b − a − µ(F
ν(m)
) <
ε
2
m
, ou seja, µ(CF
ν(m)
) <
ε
2
m
Pondo B =

¸
m=1
F
ν(m)
temos B ⊂ B
m,ν(m)
, µ(CB) < ε e B ´e fechado.
78 Conjuntos e Fun¸ c˜oes Mensur´aveis Cap. 3
A seguinte proposi¸c˜ ao relaciona convergˆencia quase uniforme e con-
vergˆencia em medida.
3.25 Proposi¸c˜ao. Se uma sucess˜ao (u
ν
) converge quase uniforme-
mente para u ent˜ao ela converge em medida.
Demonstra¸c˜ao: Sejam α e ε n´ umeros positivos. Ent˜ ao existe um
conjunto E
ε
tal que µ(E
ε
) < ε e u converge uniformemente em CE
ε
.
Logo, se ν ´e suficientemente grande, o conjunto A
ν,α
= ¦x ∈ (a, b);
[u
ν
(x) − u(x)[ ≥ α¦ est´ a contido em E
ε
e portanto µ(A
ν,α
) < ε. Isto
mostra que lim
ν→∞
µ(A
ν,α
) = 0 e conseq¨ uentemente (u
ν
) converge em
medida.
3.26 Proposi¸c˜ao. Se (u
ν
) converge em medida para u em (a, b),
ent˜ ao existe uma subsucess˜ao de (u
ν
) que converge para u quase uni-
formemente (e portanto, quase sempre).
Demonstra¸c˜ao: Como (u
ν
) converge em medida para u. existe um
ν
1
∈ N tal que µ(A
ν
1
,1
) < 1 e denotemos A
1
= A
ν
1
,1
. Da mesma
forma encontramos ν
2
> ν
1
tal que µ(A
ν
2
,1/2
) < 1/2 e denotemos
A
2
= A
ν
2
,1/2
. Continuando este processo encontramos uma sucess˜ ao
ν
1
< ν
2
< < ν
k
< . . . tal que para cada k, tem-se µ(A
k
) <
1
2
k−1
,
onde A
k
=
¸
x ∈ (a, b); [u
ν
k
(x) − u(x)[ ≥
1
2
k−1
¸
. Portanto, dado ε > 0
existe ν
/
suficientemente grande, tal que
(3.12)

¸
k=ν

µ(A
k
) <

¸
k=ν

1
2
k−1
=
1
2
ν

−2
< ε.
Seja E
ε
=

¸
k=ν

A
k
. Ent˜ ao, por (3.12), µ(E
ε
) < ε. Resta mostrar que
(u
ν
k
) converge uniformemente em CE
ε
. Dado δ > 0, seja n
0
> ν
/
um
n´ umero natural tal que
1
2
n
0
−1
< δ. Ent˜ao, para todo k > n
0
o conjunto
A
k
est´ a contido em E
ε
. Portanto, quaisquer que sejam x ∈ CE
ε
e
k ≥ n
0
tem-se
[u
ν
k
(x) −u(x)[ <
1
2
k−1

1
2
n
0
−1
< δ.
Se¸ c˜ao 3.4 Teorema de Egoroff e Lusin 79
Logo, (u
ν
k
) converge para u uniformemente em CE
ε
.
Para concluir esta se¸ c˜ao, daremos uma caracteriza¸c˜ ao das fun¸ c˜oes
mensur´ aveis num intervalo (a, b) em termos das fun¸c˜ oes cont´ınuas.
3.28 Teorema (Lusin). Uma fun¸c˜ao u: (a, b) → R ´e mensur´avel se
e somente se, para cada ε > 0, existe um conjunto fechado A ⊂ (a, b)
tal que µ(CA) < ε e u[
A
´e cont´ınua.
Demonstra¸c˜ao: Suponhamos que u ´e mensur´avel e seja (ϕ
ν
) uma
sucess˜ ao de fun¸c˜ oes escada convergindo quase sempre para u. O con-
junto dos pontos de descontinuidade das ϕ
ν
tem medida nula donde,
dado ε > 0 existe, por (3.10), um conjunto aberto G que cont´em
as descontinuidades de todas as ϕ
ν
e µ(G) <
ε
2
Al´em disto, pelo
Teorema de Egoroff e a Observa¸c˜ ao 3.24-2, existe um conjunto fe-
chado B tal que µ(CB) < ε/2 e (ϕ
ν
) converge uniformemente a
u em B. Pondo, ent˜ao, A = B ∩ CG tem-se que A ´e fechado,
µ(CA) = µ(CB ∪ G) ≤ µ(CB) + µ(G) < ε, ϕ
ν
´e cont´ınua em A,
ν = 1, . . . e (ϕ
ν
) converge a u uniformemente em A. Logo, u ´e cont´ınua
em A. Reciprocamente, suponhamos que para cada ε > 0 exista um
fechado A tal que µ(CA) < ε e u ´e cont´ınua em A. Para cada k ∈ ^
seja A
k
fechado tal que µ(CA
k
) ≤ 1/k e u cont´ınua em A
k
. Definamos
B
k
=
k
¸
i=1
A
i
e u
k
: (a, b) →R por
u
k
(x) =

u(x) se x ∈ B
k
0 se x ∈ CB
k
´
E claro que as fun¸ c˜oes u
k
s˜ ao mensur´ aveis. Mostraremos que a su-
cess˜ ao (u
k
) converge quase sempre para u. Observemos inicialmente
que µ(CB
k
) = µ

k
¸
i=1
CA
i

≤ min
1≤i≤k
¦µ(CA
i
)¦ ≤
1
k
e portanto µ(B
k
) =
(b − a) − µ(CB
k
) ≥ (b − a) −
1
k
E como a sucess˜ ao (B
k
) ´e crescente
80 Conjuntos e Fun¸ c˜oes Mensur´aveis Cap. 3
no sentido da inclus˜ ao, segue-se que
µ


¸
k=1
B
k

= lim
k→∞
[µ(B
k
)] ≥ b −a
e portanto,
(3.13) µ


¸
k=1
B
k

= b −a.
Seja E o conjunto dos pontos x ∈ (a, b) tais que u
k
(x) n˜ao con-
verge para u(x). Ent˜ao x / ∈ B
k
qualquer que seja k ∈ N. Logo
x ∈ C


¸
k=1
B
k

, isto ´e, E ⊂ C


¸
k=1
B
k

. Mas, por (3.13) segue-se
µ(E) = 0.
O teorema de Lusin fornece-nos outra maneira de definir a inte-
gral de Lebesgue. Primeiro definimos fun¸c˜ao mensur´ avel no intervalo
(a, b) pela caracteriza¸c˜ao dada pelo teorema de Lusin; a seguir de-
finimos conjunto mensur´ avel como aquele que possui fun¸ c˜ao carac-
ter´ıstica mensur´ avel no sentido rec´em definido. Para definir integral
consideramos inicialmente as integrais das fun¸c˜oes que s˜ ao cont´ınuas
em conjuntos fechados e a seguir, tomando-se os limites definem-se as
fun¸c˜ oes integr´aveis.
Exerc´ıcios 81
Exerc´ıcios
3.1 Seja u: (0, +∞) tal que lim
x→+∞
u(x) = +∞ e u
n
= u/n. Mostre
que (u
n
) converge em todo ponto de (0, +∞) mas n˜ ao converge
quase uniformemente nesse intervalo.
3.2 Mostre que o teorema de Egoroff ´e v´ alido se supusermos as fun¸c˜oes
u
n
definidas num conjunto mensur´avel E de medida finita, con-
vergindo quase sempre em E para uma fun¸ c˜ao u.
3.3 Mostre que a sucess˜ao A
(ν,ν+1
) converge a zero em todo ponto de
(1, +∞) mas n˜ ao converge em medida.
3.4 Mostre que se (u
ν
) converge em medida a u, ent˜ ao toda subsu-
cess˜ ao de (u
ν
) tamb´em converge em medida a u.
3.5 Mostre que se (u
ν
) converge a u quase sempre em (0, ∞) ent˜ao
existe uma sucess˜ ao (E
ν
) de conjuntos E
ν
⊂ (0, ∞), ν = 1, . . . , e
um conjunto A ⊂ (0, ∞) tais que A ∪ ∪
ν
E
ν
= (0, ∞), µ(A) < ε,
ε > 0 dado, e (u
ν
) converge uniformemente a u em cada conjunto
E
ν
.
3.6 Mostre que o Teorema da Convergˆencia Dominada de Lebesgue,
e o Lema de Fatou continuam v´alidos se a convergˆencia quase
sempre ´e substituida pela convergˆencia em medida.
3.7 Seja (u
n
) uma sucess˜ ao de fun¸c˜ oes integr´ aveis e n˜ ao negativas
em (a, b) que converge quase sempre em (a, b) para uma fun¸c˜ ao
integr´ avel u e que satisfaz a condi¸c˜ ao

b
a
u = lim
n→∞

b
a
u
n
.
Mostre que

E
u = lim
n→∞

E
u
n
.
para todo E ⊂ (a, b) mensur´avel.
4
Os Espa¸ cos L
p
. Fun¸ c˜oes de V´arias
Vari´aveis
4.1 Os Espa¸ cos L
p
; o Teorema de Riesz-Fischer
No espa¸ co vetorial real L(a, b) identificaremos as fun¸c˜oes que diferem
apenas por um conjunto de medida nula, isto ´e, diremos que u = v
se u(x) = v(x) quase sempre em (a, b), o que ´e poss´ıvel visto que a
rela¸c˜ ao u = v definida desse modo ´e uma rela¸c˜ ao de equivalˆencia em
L(a, b) compat´ıvel com as opera¸c˜oes de L(a, b) no sentido que
u
1
= u e v
1
= v ⇒u
1
+v
1
= u +v
e
u
1
= u e λ ∈ R ⇒λu
1
= λu.
Com esta identifica¸c˜ ao obteremos um novo espa¸ co vetorial que deno-
taremos por L
1
(a, b). Assim, os elementos de L
1
(a, b) n˜ ao s˜ao, a rigor,
fun¸c˜ oes e sim classes de equivalˆencia de fun¸c˜ oes. Todavia ´e usual
considerar-se, nas aplica¸c˜ oes, os elementos de L
1
(a, b) como fun¸c˜ oes
em L(a, b) tomando-se o cuidado de n˜ao fazer distin¸c˜ ao entre duas
fun¸c˜ oes que s˜ ao iguais quase empre em (a, b). De um modo geral
temos:
4.1 Defini¸c˜ao. Seja p um n´ umero real tal que 1 ≤ p < ∞. Repre-
sentaremos por L
p
(a, b) a classe de todas as fun¸ c˜oes reais mensur´aveis
84 Os Espa¸ cos L
p
. Fun¸ c˜oes de V´arias Vari´aveis Cap. 4
u, definidas em (a, b) tais que [u[
p
´e integr´ avel.
Ainda aqui estamos identificando as fun¸c˜ oes que diferem entre si
nos pontos de um conjunto de medida nula.
Simples ´e verificar que L
p
(a, b) ´e um espa¸co vetorial real (ver Exer-
c´ıcio 4.1).
4.2 Observa¸c˜ao: Se em lugar do intervalo aberto (a, b), tivermos um
conjunto mensur´ avel E de medida n˜ao nula (podendo ser um conjunto
n˜ ao limitado), a defini¸c˜ ao dos espa¸cos L
p
(E) ´e feita de maneira intei-
ramente an´ aloga a que fizemos no caso de L
p
(a, b). Assim, quando
n˜ ao houver necessidade de se fazer referˆencia ao conjunto E onde as
fun¸c˜ oes est˜ ao definidas, escreveremos simplesmente L
p
em lugar de
L
p
(E).
4.3 Observa¸c˜ao: Note que ´e imprescind´ıvel, na Defini¸c˜ ao 4.1, exigir-
mos que as fun¸ c˜oes u de L
p
sejam mensur´aveis pois, se esta exigˆencia
n˜ ao for feita, n˜ ao podemos garantir que de u ∈ L
p
, v ∈ L
q
, resulta
que [uv[ ∈ L
1
como aplica¸c˜ ao da Proposi¸c˜ ao 2.24. Assim, muitas
propriedades fundamentais do espa¸co L
p
(a, b) n˜ao seriam v´alidas.
Em L
p
podemos definir uma norma, associando a cada u ∈ L
p
o
n´ umero real
(4.1) [[u[[
p
=

[u[
p

1/p
.
Para provarmos que [[ [[
p
, definida por (4.1), ´e de fato uma norma
em L
p
teremos que verificar o seguinte:
i) [[u[[
p
≥ 0, ∀u ∈ L
p
e [[u[[
p
= 0 se e somente se u = 0, no sentido
que u(x) = 0 quase sempre.
ii) [[λu[[
p
= [λ[ [[u[[
p
, ∀λ ∈ R, ∀u ∈ L
p
.
iii) [[u +v[[
p
≤ [[u[[
p
+[[v[[
p
, ∀u, v ∈ L
p
.
A primeira parte de (i) ´e trivial e a segunda ´e uma decorrˆencia
do Corol´ ario 2.14. (ii) ´e de verifica¸c˜ao imediata e (iii) ´e a chamada
Se¸ c˜ao 4.1 Os Espa¸ cos L
p
; o Teorema de Riesz-Fischer 85
Desigualdade de Minkowski cuja demonstra¸ c˜ao ser´a o nosso pr´oximo
objetivo.
Para cada p > 1 o n´ umero p/(p −1) ser´a denominado ´ındice conju-
gado de p e ser´a denotado por q. Desta forma temos a rela¸c˜ ao
1
p
+
1
q
= 1.
No caso p = 1 convenciona-se que o seu conjugado ´e q = +∞. Ob-
serve que p = q se e s´o se p = 2, ou seja, o ´ındice 2 ´e o ´ unico que ´e
autoconjugado.
4.4 Proposi¸c˜ao (Desigualdade de Young). Se a, b s˜ao n´ umeros reais
n˜ao negativos ent˜ao
(4.2) ab ≤
a
p
p
+
b
q
q
sempre que 1 < p < ∞ e
1
p
+
1
q
= 1.
Demonstra¸c˜ao: De fato, sendo a fun¸c˜ ao logar´ıtmica cˆoncava, obt´em-
se:
log

1
p
a
p
+
1
q
b
q


1
p
log a
p
+
1
q
log b
q
= log(ab).
Notando-se que ela ´e tamb´em crescente, resulta:
ab ≤
a
p
p
+
b
q
q

Se duas fun¸c˜ oes u, v s˜ ao integr´ aveis n˜ ao podemos afirmar que o
produto uv seja uma fun¸c˜ ao integr´avel. Entretanto, temos o seguinte
resultado:
4.5 Proposi¸c˜ao (Desigualdade de H¨ older). Se u ∈ L
p
e v ∈ L
q
ent˜ao
uv ∈ L
1
e tem-se a desigualdade
(4.6)

[uv[ ≤ [[u[[
p
[[v[[
q
,
onde 1 < p < ∞.
86 Os Espa¸ cos L
p
. Fun¸ c˜oes de V´arias Vari´aveis Cap. 4
Demonstra¸c˜ao: Seja m = [[u[[
p
, n = [[v[[
q
, a(t) =
[u(t)[
m
e b(t) =
[v(t)[
n
Ent˜ ao, para cada t tem-se, pela desiguldade de Young que
(4.7)
[u(t)v(t)[
mn

1
p

[u(t)[
1
m

p
+
1
q

[v(t)[
1
n

q
.
Como [u[
p
e [v[
q
s˜ ao integr´aveis e uv ´e mensur´ avel segue-se da Pro-
posi¸c˜ ao 2.24 que uv ´e integr´avel e portanto [uv[ tamb´em. Por inte-
gra¸c˜ ao obt´em-se de (4.7) que
(4.8)
1
mn

[uv[ ≤
1
p

1
m
[[u[[
p

p
+
1
q

1
n
[[v[[
q

q
=
1
p
+
1
q
= 1.
De (4.8) obt´em-se (4.6).
4.6 Proposi¸c˜ao (Desigualdade de Minkowski). Se u, v ∈ L
p
ent˜ao
(4.9) [u +v[[
p
≤ [[u[[
P
+[[v[[
p
,
onde 1 ≤ p < ∞.
Demonstra¸c˜ao: O caso p = 1 ´e uma conseq¨ uˆencia direta da desi-
gualdade [u + v[ ≤ [u[ + [v[. Suponhamos p > 1 e consideremos a
desigualdade
(4.10) [u +v[
p
= [u +v[ [u +v[
p−1
≤ ([u[ +[v[)[u +v[
p−1
.
Como L
p
´e espa¸co vetorial, u+v ∈ L
p
e portanto

[u+v[
p−1

q
= [u+v[
p
´e integr´avel. Logo, [u + v[
p−1
∈ L
q
. Consideremos h = [u + v[
p−1
.
Ent˜ ao, pela Proposi¸ c˜ao 4.5, uh e vh s˜ ao integr´aveis. Al´em disso (4.10)
pode ser escrita na forma:
(4.11) [u +v[
p
≤ [uh[ +[vh[
e portanto, por integra¸c˜ ao obtemos
(4.12)

[u +v[
p

[uh[ +

[vh[
Se¸ c˜ao 4.1 Os Espa¸ cos L
p
; o Teorema de Riesz-Fischer 87
e pela desigualdade de H¨older tem-se
(4.13)

[u +v[
p

[[u[[
p
+[[v[[
p

[[h[[
q
.
Se [[h[[
q
= 0, tem-se [[u + v[[
p
= 0 e a desigualdade (4.9) ´e trivial.
Se [[h[[
q
= 0, dividimos ambos os membros de (4.13) por [[h[[
q
=

[h[
q

1/q
=

[u + v[
q(p−1)

1/q
=

[u + v[
p

1/q
e obtemos

[u +v[
p

1−(1/q)
≤ [[u[[
p
+[[v[[
p
e da´ı segue-se da desigualdade (4.9)
uma vez que 1 −
1
q
=
1
p

Sendo L
p
um espa¸co vetorial normado podemos introduzir em L
p
uma m´etrica definindo a distˆancia entre duas fun¸c˜ oes u e v de L
p
por
[[u − v[[
p
. Com isto, L
p
torna-se um espa¸co m´etrico e, desse modo,
tem sentido falar de convergˆencia de uma sucess˜ao (u
k
) de fun¸c˜ oes de
L
p
. Explicitamente, uma sucess˜ ao (u
k
) de fun¸c˜ oes de L
p
converge para
uma fun¸c˜ ao u ∈ L
p
se lim
k→∞
[[u
k
− u[[
p
= 0. Este tipo de convergˆencia
´e conhecido como convergˆencia na norma de L
p
ou convergˆencia em
m´edia de ordem p ou convergˆencia forte em L
p
.
Se (u
ν
) converge forte L
p
(a, b), ent˜ ao ela converge em medida para
a mesma fun¸ c˜ao u. Isto ´e uma simples conseq¨ uˆencia da desigualdade

b
a
[u
ν
(x) −u(x)[
p
dx ≥

A
ν,ε
[u
ν
(x) −u(x)[
p
dx ≥ ε
p
µ(A
ν,ε
),
sendo A
ν,ε
os conjuntos da Defini¸c˜ ao 3.21. Portanto, da Proposi¸c˜ ao
3.27, existe uma subsucess˜ ao de (u
ν
) que converge quase sempre em
(a, b) para o mesmo limite.
Simples ´e mostrar que toda sucess˜ao convergente em L
p
´e uma
sucess˜ ao de Cauchy em L
p
(ver Exerc´ıcio 4.8). A rec´ıproca deste
resultado ´e verdadeira e ser´a demonstrada a seguir.
4.7 Teorema (Riesz-Fischer). Se (u
k
) ´e uma sucess˜ao de Cauchy em
L
p
ent˜ao (u
k
) ´e convergente em L
p
.
88 Os Espa¸ cos L
p
. Fun¸ c˜oes de V´arias Vari´aveis Cap. 4
Demonstra¸c˜ao: Seja (u
k
) uma sucess˜ ao de Cauchy em L
p
. Devemos
provar que existe uma fun¸c˜ao u ∈ L
p
tal que (u
k
) converge para u na
norma de L
p
.
Sendo (u
k
) uma sucess˜ ao de Cauchy em L
p
, existe um ´ındice k
1
tal
que [[u
k
− u
s
[[
p
< 1/2 para todo k, s ≥ k
1
. Pela mesma raz˜ao existe
um outro ´ındice k
2
, que pode ser escolhido de modo que k
1
< k
2
,
tal que [[u
k
− u
s
[[
p
< 1/4 para todo k, s ≥ k
2
e assim, sucessiva-
mente, obteremos uma sucess˜ ao de ´ındices (k
n
) tais que k
n+1
> k
n
e
[[u
k
−u
s
[[
p
<
1
2
n
para cada n = 0, 1, 2, . . . e todo k, s ≥ k
n
, onde, por
conveniˆencia de nota¸ c˜ao, definimos k
0
= 1. Deste modo temos uma
subsucess˜ ao

u
k
n

de (u
k
) tal que para cada n = 0, 1, 2, . . . tem-se
(4.14) [[u
k
n+1
−u
k
n
[[
p
<
1
2
n

Se E ⊂ R ´e o intervalo onde est˜ ao definidas as u
k
, seja I ⊂ E um
intervalo de amplitude finita. Ent˜ao, pela desigualdade de H¨ older,
obtemos

I
[u
k
n+1
−u
k
n
[ =

I
[u
k
n+1
−u
k
n

I
≤ (amp(I))
1/q
[[u
k
n+1
−u
k
n
[[
p
.
Levando em conta (4.14) tem-se
(4.15)

I
[u
k
n+1
−u
k
n
[ ≤

amp(I)

1/q
1
2
n

Da desigualdade (4.15) e do teorema de Beppo Levi conclui-se que a
s´erie de fun¸c˜ oes integr´aveis

¸
n=0
[u
k
n+1
−u
k
n
[ ´e convergente quase sempre
em I e portanto a s´erie

¸
n=0
(u
k
n+1
−u
k
n
) ´e convergente quase sempre em
I. Como a (n −1)-´esima soma parcial desta s´erie ´e u
k
n
−u
k
0
e como
o intervalo E ´e uma uni˜ ao enumer´ avel de intervalos de amplitude
finita (mesmo que E seja n˜ ao limitado), conclu´ımos que a sucess˜ ao
(u
k
n
) converge quase sempre em E para uma fun¸c˜ao mensur´ avel u.
Se¸ c˜ao 4.1 Os Espa¸ cos L
p
; o Teorema de Riesz-Fischer 89
Portanto, para cada k fixo, a sucess˜ao (w
n
), onde w
n
= [u
k
− u
k
n
[
p
,
converge quase sempre em E para a fun¸c˜ao [u
k
−u[
p
. Se r ∈ N, quando
k > k
r
e n > r obtemos, pela pr´ opria constru¸c˜ ao dos ´ındices k
n
que
(4.16)

w
n
=

[u
k
−u
k
n
[
p
= [[u
k
−u
k
n
[[
p
p

1
2
r

p
=
1
2
pr

Logo, pelo Lema de Fatou (Teorema 2.19) aplicado `a sucess˜ao (w
n
),
tem-se que [u
k
−u[
p
´e integr´ avel e
(4.17)

[u
k
−u[
p

1
2
pr
para todo k > k
r
.
Portanto (u
k
−u) ∈ L
p
e conseq¨ uentemente u = u
k
−(u
k
−u) ´e uma
fun¸c˜ ao de L
p
. Al´em disso, de (4.17) obt´em-se que lim
k→∞
[[u
k
− u[[
p
=
0.
Um espa¸co m´etrico ´e dito completo quando toda sucess˜ao de Cau-
chy nesse espa¸co for convergente. Um espa¸co vetorial normado que
´e completo, relativamente ` a m´etrica induzida pela norma, chama-se
espa¸co de Banach. Portanto, o Teorema 4.7 nos diz que L
p
´e um
espa¸co de Banach.
Mostraremos agora que toda fun¸ c˜ao de L
p
pode ser aproximada
por uma sucess˜ao de fun¸ c˜oes escada na norma de L
p
. Antes, por´em,
demonstraremos o seguinte:
4.8 Lema. Se u ´e uma fun¸c˜ao integr´avel limitada ent˜ao u pertence a
L
p
, onde 1 ≤ p < ∞.
Demonstra¸c˜ao: De fato se M ´e uma constante tal que [u[ ≤ M,
tem-se [u[
p
= [u[
p−1
≤ M
p−1
[u[. Logo, pela Proposi¸c˜ ao 2.24 segue-se
que [u[
p
´e integr´ avel.
4.9 Proposi¸c˜ao. Se u ∈ L
p
, 1 ≤ p < ∞, ent˜ao para cada ε > 0
existe uma fun¸c˜ao escada ϕ tal que [[u −ϕ[[
p
< ε.
Demonstra¸c˜ao: Observemos que em virtude do lema anterior toda
fun¸c˜ ao escada ´e uma fun¸cao de L
p
, qualquer que seja 1 ≤ p < ∞.
90 Os Espa¸ cos L
p
. Fun¸ c˜oes de V´arias Vari´aveis Cap. 4
Seja u ∈ L
p
, ent˜ ao u
+
e u

tamb´em pertencem a L
p
, pois u
+
=
1
2
(u +[u[) e u

= u
+
−u. Em vista disto podemos supor, sem perda
de generalidade, que u seja n˜ao negativa. Para cada n ∈ N, a fun¸c˜ ao
v
n
(x) = (n ∧ nu
p
∧ u)(x) = min¦n, n[u(x)]
p
, u(x)¦ ´e integr´ avel porque
0 ≤ v
n
≤ nu
p
e tamb´em v
n
∈ L
p
pois v
p
n
≤ u
p
. Al´em disso a sucess˜ao
(w
n
), onde w
n
= (u −v
n
)
p
, converge quase sempre para zero e ´e uma
sucess˜ ao decrescente. Logo, pelo teorema de Beppo Levi temos que
(4.18) lim
n→∞
[[u −v
n
[[
p
p
= lim
n→∞

[u −v
n
[
p
= 0.
Assim, existe k ∈ N tal que
(4.19) [[u −v
k
[[
p
<
ε
2

Uma vez que 0 ≤ v
k
≤ k, o Exerc´ıcio 2.1 nos garante a existˆencia de
uma fun¸c˜ ao escada ϕ, tal que
(4.20) [v
k
−ϕ[ ≤ k e

[v
k
−ϕ[ <
ε
p
2
p
k
p−1

Em vista de (4.20) temos:
[[v
k
−ϕ[[
p
p
=

[v
k
−ϕ[
p
=

[v
k
−ϕ[
p−1
[v
k
−ϕ[ ≤ k
p−1

[v
k
−ϕ[ <

ε
2

p
.
E portanto,
(4.21) [[v
k
−ϕ[[
p
<
ε
2

De (4.19) e (4.21) e da desigualdade de Minkowski temos:
[[u −ϕ[[
p
≤ [[u −v
k
[[
p
+[[v
k
−ϕ[[
p
< ε.
A proposi¸ c˜ao anterior nos diz que o espa¸co das fun¸c˜ oes escada ´e
denso em L
p
relativamente `a norma [[ [[
p
, qualquer que seja
Se¸ c˜ao 4.1 Os Espa¸ cos L
p
; o Teorema de Riesz-Fischer 91
1 ≤ p < ∞. Com este resultado pode-se demonstrar que o espa¸co
C(a, b) das fun¸c˜oes cont´ınuas no intervalo (a, b) ´e denso em L
p
(a, b)
relativamente `a norma [[ [[
p
qualquer que seja 1 ≤ p < ∞. (Veja
Exerc´ıcios 4.9 e 4.10).
A Proposi¸c˜ ao 4.9 tamb´em nos permite demonstrar o seguinte resul-
tado que nos ser´ a ´ util futuramente.
4.10 Proposi¸c˜ao. Seja u ∈ L(a, b). Ent˜ao, para cada ε > 0 existe
um δ > 0 tal que se E ⊂ (a, b) ´e mensur´avel e µ(E) < δ tem-se

E
u

< ε. Isto ´e,

E
u tende a zero quando µ(E) tende a zero, E
variando na fam´ılia dos subconjuntos mensur´aveis de (a, b).
Demonstra¸c˜ao: A existˆencia da integral

E
u j´ a foi estabelecida na
Proposi¸c˜ ao 3.12. Consideremos uma fun¸c˜ ao escada ϕ tal que

b
a
[u − ϕ[ <
ε
2
Isto ´e poss´ıvel em virtude da Proposi¸c˜ ao 4.9. Seja
M > 0 tal que [ϕ[ < M e seja δ =
ε
2M
Ent˜ ao, teremos:

E
u

E
[u[ ≤

b
a
[u −ϕ[
χ
E
+

b
a
[ϕ[χ
E
<
ε
2
+M µ(E) < ε
se µ(E) < δ.
Seja V um espa¸co vetorial sobre o corpo dos n´ umeros reais. Um
produto interno sobre V ´e uma aplica¸c˜ao a: V V →R satisfazendo
as seguintes condi¸c˜oes:
i) a(u +v, w) = a(u, w) +a(v, w), ∀u, v, w ∈ V .
ii) a(λu, v) = λa(u, v), ∀u, v ∈ V , ∀λ ∈ R.
iii) a(u, v) = a(v, u), ∀u, v ∈ V .
iv) a(v, v) > 0 se v = 0.
O n´ umero a(u, v) ´e dito produto interno de u por v e ser´a aqui denotado
por 'u, v`. Um exemplo de espa¸co vetorial com produto interno ´e o
92 Os Espa¸ cos L
p
; Fun¸ c˜oes de V´arias Vari´aveis Cap. 4
espa¸co R
n
das n-uplas ordenadas de n´ umeros reais munidos do produto
escalar usual.
Num espa¸co vetorial V com produto interno pode-se definir uma
norma mediante a f´ ormula
(4.22) [[u[[ = 'u, u`
1/2
.
Um espa¸ co vetorial normado V denomina-se espa¸co de Hilbert se
V ´e um espa¸co de Banach e est´ a definido em V um produto interno
tal que a norma de V ´e obtida mediante a f´ ormula (4.22).
4.11 Observa¸c˜ao: Os espa¸ cos L
2
s˜ ao espa¸cos de Hilbert. Pois em
L
2
podemos definir um produto interno por 'u, v` =

uv. Portanto,
em L
2
pode ser usada toda teoria concernente aos espa¸cos de Hilbert.
Em L
2
a desigualdade de H¨ older ´e conhecida como desigualdade de
Schwarz.
Est´ a fora dos prop´ositos deste texto, entrar em detalhes sobre a
teoria dos espa¸ cos de Hilbert. O leitor interessado em iniciar-se neste
importante assunto poder´ a consultar [10].
4.2 Os Espa¸ cos L

At´e aqui tomamos conhecimento dos espa¸cos L
p
com 1 ≤ p < ∞.
Nesta se¸c˜ ao iremos estudar o caso p = ∞ que num certo sentido,
como iremos ver, ´e um caso limite.
Um n´ umero real λ ´e dito majorante essencial de uma fun¸c˜ ao u
quando u(x) ≤ λ quase sempre, isto ´e, quando o conjunto dos pontos
x para os quais u(x) > λ tem medida nula.
´
E claro que se λ ´e um
majorante essencial de u ent˜ ao qualquer n´ umero maior que λ tamb´em
o ´e.
Seja A o conjunto de todos os majorantes essenciais de uma fun¸c˜ ao
u. Define-se o supremo essencial de u, e denota-se por supess u, como
Se¸ c˜ao 4.2 Os Espa¸cos L

93
sendo o ´ınfimo do conjunto A, isto ´e,
(4.23) supess u = inf A.
Observemos que supess u pode n˜ ao ser finito; basta para isto que
se tenha A = ∅ ou A = R. Se A = ∅ convencionaremos que supess
u = +∞ e se A = R escreveremos que supess u = −∞.
4.12 Proposi¸c˜ao. Seja u uma fun¸c˜ao real e L = supess u. Ent˜ao L
possui as seguintes propriedades:
i) u(x) ≤ L quase sempre.
ii) Se L ´e finito, para cada ε > 0 existe um conjunto B de medida
positiva tal que u(x) > L −ε para todo x ∈ B.
Demonstra¸c˜ao: Seja A como definido acima. Ent˜ao L = inf A. Se
L = +∞ ent˜ ao u(x) ≤ L para todo x e portanto u(x) ≤ L quase
sempre. Se L = +∞ ent˜ ao A = ∅ e por defini¸c˜ ao de ´ınfimo existe
uma sucess˜ ao (λ
n
) de elementos de A tal que L = lim
n→∞
λ
n
(mesmo
no caso L = −∞). Para cada n seja F
n
o conjunto dos pontos x
para os quais u(x) > λ
n
. Pela defini¸ c˜ao de majorante essencial tem-
se que a medida de F
n
´e nula e portanto F =

¸
n=1
F
n
tamb´em tem
medida nula. Se x n˜ ao pertence a F ent˜ ao u(x) ≤ λ
n
para todo n
e portanto u(x) ≤ lim
n→∞
λ
n
= L. Portanto u(x) ≤ L quase sempre,
ficando provado o item (i). Suponhamos, agora, que n˜ ao exista um
conjunto B nas condi¸c˜ oes do item (ii). Neste caso a cole¸c˜ ao dos pontos
x tais que u(x) > L −ε teria medida nula e conseq¨ uentemente L −ε
seria um elemento de A. Como L > L − ε seguir-se-ia que L = inf A
o que contradiz a defini¸c˜ ao de L.
Diz-se que uma fun¸ c˜ao u ´e essencialmente limitada quando supess
[u[ ´e finito.
94 Os Espa¸ cos L
p
; Fun¸ c˜oes de V´arias Vari´aveis Cap. 4
4.13 Proposi¸c˜ao. Seja u uma fun¸c˜ao mensur´avel, essencialmente
limitada, definida num intervalo limitado (a, b). Ent˜ao
i) u ∈ L
p
(a, b) para todo p ≥ 1.
ii) supess [u[ = lim
p→∞
[[u[[
p
.
Demonstra¸c˜ao: Seja M = supess [u[. Ent˜ao [u(x)[ ≤ M quase
sempre (pela proposi¸c˜ ao anterior). Portanto, para cada p ≥ 1, tem-
se [u(x)[
p
≤ M
p
quase sempre, e pelo Corol´ ario 2.26 segue-se que
[u[
p
´e integr´ avel e como u ´e mensur´avel (por hip´ otese) conclui-se que
u ∈ L
p
(a, b), ficando provado o item (i). Do fato de que [u(x)[
p
≤ M
p
quase sempre em (a, b) decorre ainda que
(4.24) [[u[[
p
=

b
a
[u[
p

1/p

M
p
(b −a)

1/p
= M(b −a)
1−p
.
Como lim
p→∞
(b −a)
1/p
= 1 decorre de (4.24) que
(4.25) limsup
p→∞
[[u[[
p
≤ M.
Por outro lado, pela Proposi¸c˜ ao 4.12, existe, para cada ε > 0, um
conjunto B tal que r = µ(B) > 0 e [u(x)[ > M−ε para todo x em B.
Portanto
[[u[[
p
=

b
a
[u[
p

1/p

B
[u[
p

1/p

(M −ε)
p
r

1/p
(4.26)
= (M −ε)r
1/p
.
Decorre de (4.26) que liminf
p→∞
[[u[[
p
≥ M−ε e conseq¨ uentemente, como
ε ´e arbitr´ ario,
(4.27) liminf
p→∞
[[u[[
p
≥ M.
De (4.25) e (4.27) obt´em-se que M = lim
p→∞
[[u[[
p
.
Se¸ c˜ao 4.3 Convergˆencia Fraca nos Espa¸ cos L
p
95
4.14 Defini¸c˜ao. O conjunto de todas as fun¸ c˜oes mensur´aveis u es-
sencialmente limitadas em (a, b) ´e representado por L

(a, b) e para
todo u ∈ L

(a, b) define-se a norma de u por
(4.28) [[u[[

= supess [u[.
Naturalmente, esta nota¸c˜ ao ´e motivada pela Proposi¸c˜ ao 4.13. Sim-
ples ´e verificar que L

(a, b) ´e um espa¸co vetorial e a express˜ ao (4.28)
define, realmente, uma norma sobre L

(a, b), desde que identifiquemos
as fun¸c˜ oes que diferem apenas nos pontos de um conjunto de medida
nula. Tamb´em n˜ao apresentam dificuldades as demonstra¸c˜oes das de-
sigualdades de H¨older e Minkowski para o caso p = ∞. O teorema de
Riesz-Fischer tamb´em ´e v´ alido em L

(a, b) e portanto L

(a, b) ´e um
espa¸co de Banach.
4.3 Convergˆencia fraca nos espa¸ cos L
p
Suponhamos que (u
n
) seja uma sucess˜ao de fun¸c˜ oes em L
p
que con-
verge em m´edia para uma fun¸ c˜ao u ∈ L
p
, onde 1 ≤ p < ∞. Ent˜ ao
(u
n
) satisfaz as seguintes condi¸c˜ oes:
i) Para toda fun¸ c˜ao v ∈ L
q

tem-se lim
n→∞

u
n
v =

uv.
ii) lim
n→∞
[[u
n
[[
p
= [[u[[
p
.
A demonstra¸c˜ ao destas condi¸c˜ oes n˜ ao apresenta dificuldade e deixa-
remos a cargo do leitor. (Ver Exerc´ıcio 4.13).
Diremos que a sucess˜ ao (u
n
) converge fracamente para u em L
p
se (u
n
) satisfaz a condi¸c˜ ao (i) acima. Portanto as sucess˜ oes que con-
vergem em m´edia (ou fortemente) em L
p
s˜ ao sucess˜ oes fracamente
convergentes. Por´em, a rec´ıproca n˜ ao ´e verdadeira, conforme mostra
o seguinte exemplo.
4.15 Exemplo. Seja 1 ≤ p < +∞ e consideremos em L
p
(0, 2) a
sucess˜ ao (u
n
) onde u
n
=
p


(1/n,2/n)
. Ent˜ ao, u
n
→ 0 fracamente em
96 Os Espa¸ cos L
p
; Fun¸ c˜oes de V´arias Vari´aveis Cap. 4
L
p
(0, 2), conforme Exerc´ıcio 4.15. No entanto, a convergˆencia n˜ao ´e
forte, pois, para todo n ∈ N tem-se
[[u
n
[[
p
p
=

2/n
1/n

p

n

p
dx = 1 e portanto [[u
n
[[
p
= 1.
Todavia, se uma suces˜ ao (u
n
) de fun¸c˜oes de L
p
satisfaz as condi¸ c˜oes
(i) e (ii) ela converge fortemente para u em L
p
, conforme foi demons-
trado por F. Riesz em [15].
Mostra-se que o limite fraco em L
p
´e ´ unico, no sentido de que se
(u
n
) ´e uma sucess˜ao de fun¸c˜ oes de L
p
que converge fracamente para
as fun¸c˜oes v e w de L
p
, ent˜ao v = w quase sempre.
Um outro resultado ´ util ´e o seguinte: se (u
n
) ´e uma sucess˜ ao de
fun¸c˜ oes de L
p
(1 < p < ∞) limitada na norma de L
p
, isto ´e, tal que
existe uma constante C para a qual [[u
n
[[
p
≤ C qualquer que seja
n ∈ N, ent˜ao (u
n
) cont´em uma subsucess˜ao fracamente convergente
em L
p
.
Os resultados acima e muitos outros a respeito da convergˆencia
fraca em L
p
podem ser obtidos como casos particulares dentro de uma
teoria mais geral (sem, no entanto, ser muito mais dif´ıcil) a respeito
de convergˆencia fraca em espa¸cos de Banach. Devido ao car´ater intro-
dut´ orio deste texto, limitamo-nos apenas em citar aqui os resultados
principais. O leitor interessado no assunto poder´ a consultar [10] ou
[16], por exemplo, a este respeito.
Encerraremos esta se¸c˜ ao com a demonstra¸c˜ao de um teorema de-
vido a W.A. Strauss [20], que tem aplica¸c˜ ao no estudo das equa¸c˜ oes
diferenciais parciais n˜ ao lineares e que pode ser encontrado, numa
forma um pouco mais geral que aqui, em [11].
4.16 Teorema (Strauss). Seja (u
n
) uma sucess˜ao de fun¸c˜oes reais
mensur´aveis num intervalo limitado (a, b). Para cada n ∈ N, sejam
F
n
e G
n
fun¸c˜oes de R em R tais que as fun¸c˜oes compostas F
n
◦ u
n
e
G
n
◦ u
n
sejam mensur´aveis em (a, b). Suponhamos que:
Se¸ c˜ao 4.3 Convergˆencia Fraca nos Espa¸ cos L
p
97
(a) (F
n
◦ u
n
) converge quase sempre em (a, b) para uma fun¸c˜ao v.
(b) Existe uma constante C tal que

b
a
([F
n
◦u
n
[ [G
n
◦u
n
[) dx < C para
todo n.
(c) Para cada M > 0 existe um N > 0 (independente de n) tal que
para todo x ∈ R, onde se verifica a desigualdade [G
n
(x)[ ≤ M,
tem-se necessariamente [F
n
(x)[ ≤ N, exceto por um n´ umero finito
de ´ındices n.
Ent˜ao
(d) v ∈ L
1
(a, b).
(e) (F
n
◦ u
n
) converge para v na norma de L
1
(a, b).
Demonstra¸c˜ao: Para cada n ∈ N consideremos o conjunto Ω
n
defi-
nido do seguinte modo:

n
=
¸
x ∈ (a, b); [G
n
(u
n
(x))[ ≤ 1
¸
.
Seja Ω
/
n
= (a, b)−Ω
n
. Ent˜ ao, para todo x ∈ Ω
/
n
tem-se [G
n
(u
n
(x))[ > 1
e portanto,
[F
n
(u
n
(x))[ ≤ [G
n
(u
n
(x))[ [F
n
(u
n
(x))[,
donde se obt´em, pela hip´ otese (b), que
(4.29)

n
[F
n
(u
n
(x))[ dx < C
para todo n ∈ N. Pela hip´otese (c) existe um N > 0, independente de
n, tal que para todo x ∈ Ω
n
tem-se [F
n
(u
n
(x))[ ≤ N, exceto por um
n´ umero finito de ´ındices n. Portanto,
(4.30)


n
[F
n
(u
n
(x))[ dx ≤ Nµ(Ω
n
) ≤ N(b −a).
98 Os Espa¸ cos L
p
; Fun¸ c˜oes de V´arias Vari´aveis Cap. 4
De (4.29) e (4.30) resulta que
(4.31)

b
a
[F
n
(u
n
(x))[ dx ≤ C +N(b −a),
exceto para um n´ umero finito de ´ındices n, isto ´e, a sucess˜ao das
integrais de [F
n
◦ u
n
[ ´e limitada. Como, pela hip´ otese (a), [v[ ´e limite
quase sempre de ([F
n
◦ u
n
[), obt´em-se pelo lema de Fatou que [v[ ´e
integr´ avel em (a, b), ficando provado (d), uma vez que v ´e mensur´avel
(pois ´e limite quase sempre de uma sucess˜ao de fun¸c˜ oes mensur´aveis).
Para completar a demonstra¸c˜ao, observemos que para cada δ > 0 o
Teorema de Egoroff nos assegura a existˆencia de um conjunto fechado
E ⊂ (a, b) tal que µ(CE) < δ e (F
n
◦u
n
) converge uniformemente para
v em E. Portanto,
lim
n→∞

E
[F
n
(u
n
(x)) −v(x)[ dx = 0.
Resta-nos demonstrar que

CE
[F
n
(u
n
(x)) −v(x)[ dx tamb´em converge
para zero quando n →∞. Inicialmente observemos que
(4.32)

CE
[F
n
(u
n
(x))−v(x)[ dx ≤

CE
[F
n
(u
n
(x))[ dx+

CE
[v(x)[ dx.
Sendo v integr´ avel e µ(CE) < δ resulta que, dado ε > 0, tem-se
(4.33)

CE
[v(x)[ dx <
ε
2
se δ ´e suficientemente pequeno (ver Proposi¸c˜ ao 4.10). Consideremos
M =
4C
ε
, onde C ´e a constante da hip´otese (b). Para cada n ∈ N
consideremos o conjunto
E
n
=
¸
x ∈ CE; [G
n
(u
n
(x))[ ≤ M
¸
Se¸ c˜ao 4.3 Convergˆencia Fraca nos Espa¸ cos L
p
99
e denotemos por E
/
n
= CE −E
n
. Sobre E
/
n
tem-se

E

n
[F
n
(u
n
(x))[ dx ≤

E

n
[G
n
(u
n
(x))[
M
[F
n
(u
n
(x))[ dx =
=
1
M

E

n
[G
n
(u
n
(x))F
n
(u
n
(x))[ dx <
C
M
=
ε
4
(4.34)
Sobre E
n
tem-se, pela hip´otese (c), que [F
n
(u
n
(x))[ ≤ N para algum
N > 0 (independente de n), exceto por um n´ umero finito de ´ındices
n. Logo, tomando-se δ <
ε
4N
e n suficientemente grande, tem-se
(4.35)

E
n
[F
n
(u
n
(x))[ dx ≤ Nµ(E
n
) < Nδ <
ε
4

De (4.33), (4.34) e (4.35) resulta que

CE
[F
n
(u
n
(x)) −v(x)[ dx < ε
para δ <
ε
4N
e n suficientemente grande.
4.17 Corol´ario. Seja 1 < p < ∞ e (u
n
) uma sucess˜ao de fun¸c˜oes
em L
p
(a, b) tais que [[u
n
[[
p
≤ C para todo n, onde C ´e uma constante
e (a, b) ´e um intervalo limitado. Se u
n
→ u quase sempre em (a, b)
ent˜ ao u ∈ L
p
(a, b) e u
n
→ u fracamente em L
p
(a, b). Al´em disso, se
1 ≤ r < p tem-se que u
n
→u fortemente em L
r
(a, b).
Demonstra¸c˜ao: Como u
n
→u quase sempre e as u
n
s˜ ao mensur´ aveis
por pertencerem a L
p
(a, b) decorre que u ´e mensur´avel. Al´em disso
[u
n
[
p
→[u[
p
quase sempre. Mas, por hip´otese,

b
a
[u
n
[
p
= [[u
n
[[
p
p
≤ C
p
.
Segue-se, ent˜ ao, do lema de Fatou que [u[
p
´e integr´avel e portanto
u ∈ L
p
(a, b). Pela desigualdade de Minkowski temos que
(4.36) [[u
n
−u[[
p
≤ [[u
n
[[
p
+[[u[[
p
≤ C +[[u[[
p
= K
onde K ´e uma constante independente de n.
100 Os Espa¸ cos L
p
; Fun¸ c˜oes de V´arias Vari´aveis Cap. 4
Se 1 ≤ r < p, ent˜ao u ∈ L
r
(a, b) uma vez que estamos supondo
(a, b) limitado (veja Exerc´ıcio 4.5). Provemos que u
n
→u fortemente
em L
r
(a, b). Para isto, consideremos F
n
(x) = x e G
n
(x) = x
(p−r)/r
para todo n ∈ N e todo x ∈ R. As fun¸ c˜oes F
n
e G
n
s˜ ao mensur´ aveis
e se definirmos, para cada n, v
n
= [u
n
− u[
r
teremos que as v
n
s˜ ao
mensur´ aveis e
(a) F
n
◦ v
n
= [u
n
−u[
r
→0 quase sempre em (a, b).
(b)

b
a
[F
n
◦ v
n
[ [G
n
◦ v
n
[ =

b
a
[u
n
−u[
p
= [[u
n
−u[[
p
p
≤ K
p
.
(c) Se [G
n
(x)[ = [x[
(p−r)/r
< M ent˜ ao [F
n
(x)[=[x[ <M
r/(p−r)
=N.
Resulta do teorema de Strauss que [u
n
−u[
r
→0 em L
1
(a, b), isto ´e,
lim
n→∞

b
a
[u
n
(x) −u(x)[
r
dx = 0.
Isto equivale a dizer que (u
n
− u) → 0 em L
r
(a, b) ou seja u
n
→ u
fortemente em L
r
(a, b). Resta-nos provar que u
n
→ u fracamente em
L
p
(a, b). Observemos inicialmente que como u
n
→ u fortemente em
L
r
(a, b) se 1 ≤ r < p, tem-se que u
n
→ u fracamente em L
r
(a, b).
Fixemos r tal que 1 < r < p e sejam s e q os ´ındices conjugados
de r e p, respectivamente. Seja v uma fun¸c˜ao arbitr´ aria em L
q
(a, b).
Devemos provar que

b
a
v(u
n
−u) →0. Dado ε > 0, existe uma fun¸c˜ ao
escada w ∈ L
q
(a, b) tal que
(4.37) [[v −w[[
q
<
ε
2K
,
de acordo com a Proposi¸ c˜ao 4.9. Mas sendo w uma fun¸c˜ ao escada
tem-se que w ∈ L
s
(a, b) e portanto
(4.38)

b
a
w(u
n
−u)

<
ε
2
para todo n suficientemente grande, porque u
n
→ u fracamente em
L
r
(a, b). Como

b
a
v(u
n
−u) =

b
a
(v −w)(u
n
−u) +

b
a
w(u
n
−u),
Se¸ c˜ao 4.4 Fun¸ c˜oes de v´arias vari´aveis; o Teorema de Fubini 101
tem-se
(4.39)

b
a
v(u
n
−u)

b
a
(v −w)(u
n
−u)

+

b
a
w(u
n
−u)

.
Pela desigualdade de H¨ older e levando-se em conta (4.36) e (4.37)
tem-se
(4.40)

b
a
(v −w)(u
n
−u)

≤ [[v −w[[
q
[[u
n
−u[[
p
< K
ε
2K
=
ε
2

De (4.38), (4.39) e (4.40) obt´em-se, finalmente, que

b
a
v(u
n
−u)

< ε,
para todo n suficientemente grande.
O corol´ ario acima tem aplica¸c˜ ao no estudo das solu¸ c˜oes fracas de
diversos tipos de equa¸c˜ oes diferenciais parciais n˜ ao lineares.
Um caso particular interesssante do Teorema de Strauss, ´e quando
se faz G
n
(x) = x para todo n ∈ N e todo x ∈ R, mantendo-se as
demais hip´ oteses. Neste caso a hip´otese (c) equivale a dizer que (F
n
)
´e uniformemente limitada para intervalos limitados de R. Ali´ as, esta
´e a forma do teorema que foi demonstrada por Strauss em [20], cf.
tamb´em a referˆencia bibliogr´afica [12].
4.4 Fun¸c˜oes de v´arias vari´aveis; o Teorema de Fubini
Para se construir a teoria da integra¸ c˜ao de Lebesgue para as fun¸ c˜oes de
v´ arias vari´aveis tudo o que se tem a fazer ´e repetir, com as adequa¸ c˜oes
devidas, as defini¸c˜oes e os m´etodos utilizados para o caso das fun¸c˜ oes
de uma ´ unica vari´ avel.
No que se segue iremos nos restringir apenas ao estudo das fun¸ c˜oes
de duas vari´ aveis n˜ ao s´o por amor ` a simplicidade como tamb´em porque
102 Os Espa¸ cos L
p
; Fun¸ c˜oes de V´arias Vari´aveis Cap. 4
isto ´e o suficiente para termos uma boa compreens˜ao do caso geral de
v´ arias vari´aveis.
Se I e J s˜ ao intervalos da reta (limitados ou n˜ ao) o seu produto
cartesiano G = I J ´e dito retˆangulo do R
2
. Se ambos os intervalos
I e J forem limitados, o retˆ angulo G ´e dito limitado e sua ´area ´e
definida por a(G) = amp(I) amp(J), isto ´e, a ´ area de G ´e o produto
das amplitudes dos seus lados. Se um dos intervalos I ou J ´e reduzido a
um s´o ponto (e portanto tem amplitude nula) diremos que o retˆ angulo
tem ´area nula, mesmo que o outro intervalo n˜ ao seja limitado. Assim,
um retˆangulo n˜ ao limitado pode ter ´ area nula, bastando para isto que
um dos seus lados seja reduzido a um s´ o ponto. Diz-se que o retˆ angulo
tem ´area infinita se um dos seus lados ´e n˜ ao limitado e o outro n˜ ao ´e
reduzido a um s´ o ponto.
Fixado um referencial cartesiano ortogonal, todos os retˆ angulos que
iremos considerar ter˜ao os lados paralelos aos eixos coordenados e ter˜ao
´ area n˜ ao nula e para garantir isto todos os intervalos que considerare-
mos ser˜ao abertos.
4.18 Defini¸c˜ao. Um conjunto E ⊂ R
2
tem medida nula quando, para
cada ε > 0, existe um recobrimento enumer´ avel de E, por retˆ angulos,
cuja soma das ´ areas ´e inferior a ε. Equivalentemente, podemos dizer
que E tem medida nula quando existe um recobrimento de E, por
retˆ angulos, cuja soma das ´ areas ´e finita e tal que cada ponto de E
pertence a um n´ umero infinito de tais retˆ angulos (reveja Exerc´ıcio
1.7).
Observe que, em virtude desta defini¸c˜ ao, uma reta, pensada como
subconjunto de R
2
, tem medida nula (ver Exerc´ıcio 4.16). Conseq¨ uen-
temente todo subconjunto da reta tem medida nula em R
2
. Assim, ao
lidarmos com subconjuntos da reta devemos ter o cuidado, no que diz
respeito ` a medida, de explicitarmos se as medidas consideradas s˜ ao em
R ou em R
2
. Isto, ali´as, est´a de acordo com os conceitos elementares
de ´ area e comprimento que temos. Assim como a medida de Lebes-
Se¸ c˜ao 4.4 Fun¸ c˜oes de v´arias vari´aveis; o Teorema de Fubini 103
gue em R generaliza a no¸c˜ao de comprimento, em R
2
ela generaliza a
no¸c˜ ao de ´ area. Neste contexto, dizer que um conjunto E ⊂ R
2
tem
medida nula significa dizer que o mesmo tem ´area nula.
4.19 Defini¸c˜ao. Seja G ⊂ R
2
um retˆ angulo limitado. Diz-se que
u: G → R ´e uma fun¸c˜ao escada em G quando existe uma decom-
posi¸c˜ ao de G em um n´ umero finito de subretˆangulos G
1
, G
2
, . . . , G
ν
tal
que u assume um valor constante b
j
em cada retˆ angulo G
j
,
j = 1, 2, . . . , ν. A integral da fun¸c˜ ao escada u em G ´e definida por
(4.41)

G
u(x, y)d(x, y) =
ν
¸
j=1
b
j
a(G
j
).
4.20 Observa¸c˜oes:
i) Se G = I J, onde I e J s˜ ao intervalos da reta, uma decom-
posi¸c˜ ao de G em subretˆ angulos ´e obtida considerando-se uma
decomposi¸c˜ ao de cada intervalo I e J em subintervalos e fazendo-
se os produtos cartesianos de cada subintervalo de I por cada
subintervalo de J.
ii) A extens˜ ao do conceito de fun¸c˜ao escada para o caso de retˆ angulos
n˜ ao limitados ´e feita de modo an´ alogo ao que ´e feito na Se¸c˜ ao 2.3
para intervalos n˜ ao limitados.
iii) Se u: G →R´e uma fun¸c˜ ao definida no retˆ angulo G = IJ ent˜ ao,
para cada x
0
∈ I podemos definir uma fun¸c˜ ao v
x
0
: J → R dada
por v
x
0
(y) = u(x
0
, y). Se u ´e uma fun¸ c˜ao escada em G ent˜ ao v
x
0
´e
uma fun¸ c˜ao escada em J, exceto para um n´ umero finito de valores
de x
0
(verifique!). Considera¸c˜ oes an´ alogas podem ser feitas com
rela¸c˜ ao `a fun¸c˜ ao dada por w
y
0
(x) = u(x, y
0
), para y
0
em J.
De posse dos conceitos de conjunto de medida nula e fun¸c˜ao escada
em R
2
podemos repetir toda a constru¸c˜ ao feita nas se¸c˜ oes e cap´ıtulos
104 Os Espa¸ cos L
p
; Fun¸ c˜oes de V´arias Vari´aveis Cap. 4
anteriores sem maiores modifica¸ c˜oes. Assim, os intervalos s˜ao subs-
titu´ıdos por retˆangulos e passa-se a pensar em R
2
. Desta forma cons-
tr´ oem-se as classes S
0
(G), S
1
(G), L(G), L
p
(G) de modo inteiramente
an´ alogo ao caso unidimensional.
A integral de uma fun¸c˜ao u: G → R ´e representada pela nota¸ c˜ao

G
u(x, y)d(x, y) ou simplesmente

G
u, quando n˜ao houver possibili-
dade de confus˜ ao.
Um problema que surge, ao se considerar integrais para fun¸c˜ oes de
v´ arias vari´ aveis, ´e o de verificar as rela¸c˜oes entre integrais em dife-
rentes dimens˜ oes. H´a um importante resultado, o Teorema de Fubini,
que permite o c´alculo da integral de uma fun¸c˜ ao definida e integr´ avel
num certo R
n
, mediante o c´ alculo da integral da mesma fun¸c˜ ao em di-
mens˜ oes inferiores. O nosso pr´ oximo objetivo ´e demonstrar o teorema
de Fubini em R
2
. A extens˜ ao para o caso geral ´e feita sem dificuldade.
4.21 Lema. Seja E ⊂ R
2
um conjunto de medida nula em R
2
. Para
cada x
0
∈ R seja E
x
0
= ¦y ∈ R; (x
0
, y) ∈ E¦. Ent˜ao E
x
0
tem medida
nula em R para quase todo x
0
∈ R. Dito de outra forma, se F = ¦x
0

R; µ(E
x
0
) > 0¦ ent˜ao F tem medida nula em R (ver Figura 4.1).
Obviamente, este lema ´e v´alido se permutarmos x por y.
Se¸ c˜ao 4.4 Fun¸ c˜oes de v´arias vari´aveis; o Teorema de Fubini 105
Demonstra¸c˜ao: Seja ¦G
ν
¦ um recobrimento enumer´ avel de E por
retˆ angulos tal que cada ponto de E pertence a um n´ umero infinito
de tais retˆ angulos e existe M > 0 tal que

¸
ν=1
a(G
ν
) < M. Seja
G = I J um retˆ angulo (podendo ser n˜ ao limitado) que cont´em
todos os retˆ angulos G
ν
. Para cada ν seja g
ν
a fun¸c˜ao caracter´ıstica
do retˆangulo G
ν
. Ent˜ ao, teremos, obviamente que
a(G
ν
) =

G
g
ν
(x, y)d(x, y) =

I

J
g
ν
(x, y)dy

dx.
Portanto a s´erie

¸
ν=1

I

J
g
ν
(x, y)dy

dx ´e convergente. Decorre do
teorema de Beppo Levi que a s´erie
(4.42)

¸
ν=1

J
g
ν
(x, y) dy
converge quase sempre em I, isto ´e, se A ´e o conjunto dos pontos de
I tais que (4.42) n˜ ao converge, ent˜ao A tem medida nula em I ⊂ R.
Se F = ¦x ∈ R; µ(E
x
) > 0¦, devemos provar que F tem medida nula
em R. Para isto vamos provar que F ⊂ A.
Se x
0
∈ I −A tem-se a s´erie

¸
ν=1

J
g
ν
(x
0
, y) dy converge. Uma nova
aplica¸c˜ ao do teorema de Beppo Levi nos permite concluir que a s´erie
(4.43)

¸
ν=1
g
ν
(x
0
, y)
converge quase sempre em J, isto ´e, se B ´e o conjunto dos pontos y de
J tais que (4.43) n˜ao converge, ent˜ao B tem medida nula em J ⊂ R.
Mas, nos pontos y ∈ E
x
0
a s´erie (4.43) certamente diverge porque
para tais y, os pontos (x
0
, y) est˜ ao em E e portanto est˜ ao contidos
em um n´ umero infinito de retˆ angulos G
ν
e, conseq¨ uentemente, h´ a
uma infinidade de termos iguais a 1 na s´erie (4.43). Resulta da´ı que
106 Os Espa¸ cos L
p
; Fun¸ c˜oes de V´arias Vari´aveis Cap. 4
E
x
0
⊂ B e portanto tem medida nula. Logo x
0
/ ∈ F. Como F ⊂ I e
x
0
´e arbitr´ ario em I −A, segue-se finalmente que F ⊂ A.
4.22 Teorema (Fubini). Seja G = I J um retˆangulo e u: G → R
uma fun¸c˜ao de L(G), isto ´e, u ´e integr´avel em G. Ent˜ao

G
u(x, y)d(x, y) =

I

J
u(x, y)dy

dx (4.44)
=

J

I
u(x, y)dx

dy.
Demonstra¸c˜ao:
´
E evidente que o teorema ´e v´alido para fun¸c˜ oes ca-
racter´ısticas de retˆangulos. Portanto, segue-se facilmente a sua vali-
dade para as fun¸ c˜oes escada (pois estas s˜ao combina¸c˜ oes lineares finitas
de fun¸c˜ oes caracter´ısticas de retˆangulos). Em vista disto, ´e suficiente
provarmos o teorema supondo u ∈ S
1
(G) uma vez que, por defini¸c˜ao,
as fun¸c˜ oes de L(G) s˜ao represent´ aveis por diferen¸cas de fun¸c˜oes de
S
1
(G). Seja (u
ν
) uma sucess˜ ao crescente de fun¸c˜ oes de S
0
(G) conver-
gindo quase sempre para u em G e tal que
(4.45) lim
ν→∞

G
u
ν
(x, y)d(x, y) =

G
u(x, y)d(x, y).
Como o teorema ´e v´alido para as fun¸c˜oes escada, temos que para cada
ν a fun¸c˜ ao w
ν
: I →R dada por
w
ν
(x) =

J
u
ν
(x, y) dy
´e integr´ avel em I e tem-se
(4.46)

I
w
ν
(x) dx =

G
u
ν
(x, y)d(x, y).
Segue-se de (4.45) e (4.46) que
(4.47) lim
ν→∞

I
w
ν
(x) dx =

G
u(x, y)d(x, y).
Se¸ c˜ao 4.4 Fun¸ c˜oes de v´arias vari´aveis; o Teorema de Fubini 107
Desta forma, (w
ν
) ´e uma sucess˜ao crescente de fun¸ c˜oes integr´ aveis em
I e, em vista de (4.47), a sucess˜ ao das integrais das w
ν
´e convergente.
Segue-se do teorema de Beppo Levi que (w
ν
) converge quase sempre
em I para uma fun¸c˜ao integr´ avel w, definida quase sempre em I, isto
´e,
(4.48) lim
ν→∞
w
ν
(x) = w(x)
para quase todo x em I e, tendo em vista (4.47), a integral de w ´e
dada por
(4.49)

I
w(x) ds = lim
ν→∞

I
w
ν
(x) dx =

G
u(x, y)d(x, y).
Seja A o conjunto dos pontos x de I nos quais (w
ν
) n˜ ao converge
para w e seja E o conjunto dos pontos (x, y) de G nos quais (u
ν
) n˜ao
converge para u. Ent˜ao A tem medida nula em R e E tem medida nula
em R
2
. Fixemos x
0
∈ I tal que x
0
/ ∈ A e E
x
0
= ¦y ∈ J; (x
0
, y) ∈ E¦
tenha medida nula em R. Isto ´e poss´ıvel para quase todo x
0
∈ I, em
virtude do Lema 4.21. Portanto,
(4.50) lim
ν→∞
u
ν
(x
0
, y) = u(x
0
, y)
quase sempre em J (precisamente para todo y / ∈ E
x
0
). Mas, pela
escolha de x
0
em (4.48) temos que
(4.51) lim
ν→∞

J
u
ν
(x
0
, y) dy = lim
ν→∞
w
ν
(x
0
) = w(x
0
).
Uma nova aplica¸c˜ ao do teorema de Beppo Levi nos assegura que a
fun¸c˜ ao v
x
0
: J → R dada por v
x
0
(y) = u(x
0
, y) ´e integr´avel em J e
tem-se
(4.52)

J
v
x
0
(y) dy =

J
u(x
0
, y) dy = lim
ν→∞

J
u
ν
(x
0
, y) dy = w(x
0
).
108 Os Espa¸ cos L
p
; Fun¸ c˜oes de V´arias Vari´aveis Cap. 4
Como isto ´e v´alido para quase todo x
0
em I, temos que a fun¸c˜ ao
integr´ avel w, dada por (4.48), ´e definida quase sempre em I por
w(x) =

J
u(x, y) dy.
Decorre de (4.49) que
(4.53)

G
u(x, y)d(x, y) =

I

J
u(x, y) dy

dx.
De modo an´ alogo, permutando-se x por y na argumenta¸ c˜ao anterior,
concluiremos que
(4.54)

G
u(x, y)d(x, y) =

J

I
u(x, y)dx

dy.
De (4.53) e (4.54) obt´em-se (4.44).
4.23 Exemplo. Considere a fun¸c˜ ao u: (0, 1) (0, 1) → R defi-
nida por u(x, y) =
x
2
−y
2
(x
2
+y
2
)
2
Um c´alculo elementar mostra-nos que
π
4
=

1
0

1
0
u(x, y)dy

dx =

1
0

1
0
u(x, y)dx

dy = −
π
4
Decorre do
teorema de Fubini que u n˜ ao ´e integr´ avel ` a Lebesgue no quadrado
(0, 1) (0, 1).
4.24 Observa¸c˜ao. Se G = I J ´e um retˆangulo e u: G →R ´e uma
fun¸c˜ ao tal que

I

J
u(x, y)dy

dx =

J

I
u(x, y)dx

dy
n˜ ao podemos assegurar que u ´e integr´ avel em G, mesmo que u seja
mensur´ avel (veja Exerc´ıcio 4.17). Todavia vale o seguinte resultado
conhecido como teorema de Tonelli.
4.25 Teorema (Tonelli). Se u: G = I J →R ´e mensur´avel e existe
uma das integrais repetidas
(4.55)

I

J
[u(x, y)[ dy

dx,

J

I
[u(x, y)[ dx

dy,
Se¸ c˜ao 4.4 Fun¸ c˜oes de v´arias vari´aveis; o Teorema de Fubini 109
ent˜ ao u ´e integr´avel em G (e conseq¨ uentemente vale, para u, o teorema
de Fubini).
Demonstra¸c˜ao: Sendo u mensur´ avel existe (cf. Defini¸c˜ ao 2.21) uma
sucess˜ ao (u
ν
) de fun¸c˜oes escada que converge para u quase sempre em
G. Para cada ν considere a fun¸c˜ ao g
ν
(x, y) = min¦[u
ν
(x, y)[, [u(x, y)[¦.
Ent˜ ao, as g
ν
est˜ ao definidas quase sempre em G. Al´em disso, as g
ν
s˜ ao mensur´ aveis e tem-se g
ν
≤ [u
ν
[ quase sempre em G. Como as u
ν
s˜ ao integr´ aveis em G, por serem fun¸c˜oes escada, segue-se que as g
ν
s˜ ao integr´aveis em G (ver Proposi¸c˜ ao 2.24). Pelo teorema de Fubini,
temos que

G
g
ν
(x, y)d(x, y) =

I

J
g
ν
(x, y)dy

dx (4.56)
=

J

I
g
ν
(x, y)dx

dy.
Admitindo a existˆencia de uma das integrais (4.55) e levando em conta
que g
ν
≤ [u[ quase sempre em G, resulta de (4.56) que, para todo ν,

G
g
ν
(x, y)d(x, y) ≤ C,
onde C ´e uma constante igual a uma das integrais (4.55). Mas, por sua
pr´ opria defini¸ c˜ao as g
ν
convergem quase sempre em G para a fun¸ c˜ao
[u[. Decorre ent˜ ao, do lema de Fatou, que [u[ ´e integr´avel em G e
como u ´e mensur´ avel resulta (Corol´ ario 2.25) que u ´e integr´ avel.
110 Os Espa¸ cos L
p
; Fun¸ c˜oes de V´arias Vari´aveis Cap. 4
Exerc´ıcios
4.1 Provar que L
p
(a, b) ´e um espa¸co vetorial (1 ≤ p < ∞).
Sugest˜ao: [u +v[ ≤ 2 max¦[u[, [v[¦.
4.2 Seja F ⊂ (a, b) um conjunto n˜ao mensur´ avel e defina u: (a, b) →
R por u(x) = 1 se x ∈ F e u(x) = −1 se x / ∈ F. Mostre que
u / ∈ L(a, b) embora [u[ seja integr´ avel.
4.3 Os espa¸cos L
p
tamb´em podem ser definidos no caso 0 < p < 1 e
s˜ ao ainda espa¸cos vetoriais (o mesmo argumento usado no Exer-
c´ıcio 4.1 ainda ´e v´alido neste caso). O leitor interessado nestes
espa¸cos poder´ a consultar [4]. Prove que no caso 0 < p < 1 a desi-
gualdade de Young (Proposi¸ c˜ao 4.4) tem o seu sentido invertido.
O que dizer das desigualdades de H¨ older e de Minkowski?
4.4 Seja 1 ≤ p < ∞. Para cada u ∈ L
p
(a, b) e cada λ > 0 prove
que µ(E) ≤
[[u[[
p
p
λ
p
(desigualdade de Chebychev), onde E = ¦x ∈
(a, b); [u(x)[ > λ¦.
Sugest˜ao: [[u[[
p
p
=

b
a
[u[
p

E
[u[
p
.
4.5 Se E tem medida finita e 1 ≤ p
1
≤ p
2
< ∞ ent˜ ao L
p
2
(E) ⊂
L
p
1
(E). Dˆe um contra-exemplo para o caso em que E tem medida
infinita.
4.6 Sejam 1 ≤ p < ∞, e (u
n
), (v
n
) sucess˜oes de fun¸c˜oes.
a) Se (u
n
) converge em m´edia para u em L
p
(a, b) e converge
quase sempre para w, ent˜ ao u = w quase sempre.
b) Se (u
n
) converge para u em L
p
e (v
n
) converge para v em L
q
,
onde q = p/(p −1), ent˜ao, lim

u
n
v
n
=

uv.
4.7 Se 1 ≤ p < ∞ e (u
n
) converge em L
p
, ent˜ ao (u
n
) ´e uma sucess˜ ao
de Cauchy na norma de L
p
.
Exerc´ıcios 111
4.8 Seja ϕ uma fun¸ c˜ao escada definida em (a, b). Prove que, para
cada ε > 0, existe uma fun¸c˜ ao cont´ınua u tal que [[u −ϕ[[
p
< ε,
qualquer que seja 1 ≤ p < ∞.
4.9 Prove que o espa¸co das fun¸c˜oes cont´ınuas em (a, b) ´e denso em
L
p
(a, b), qualquer que seja 1 ≤ p < ∞.
4.10 Se 1 ≤ p < ∞ e (u
n
) converge em m´edia para u em L
p
(a, b),
ent˜ ao (u
n
) converge em medida para u, mas n˜ao podemos garan-
tir que (u
n
) converge quase sempre para u. Como contra-exemplo,
considere a sucess˜ao (v
n
) das fun¸ c˜oes caracter´ısticas dos interva-
los I
1
= (0, 1/2], I
2
= [1/2, 1), I
3
= (0, 1/3], I
4
= [1/3, 2/3],
I
5
= [2/3, 1), I
6
= (0, 1/4], I
7
= [1/4, 2/4], I
8
= [2/4, 3/4],
I
9
= [3/4, 1), . . . ; a sucess˜ ao (v
n
) converge em m´edia para zero
em L
p
(0, 1) mas n˜ ao converge quase sempre para zero.
4.11 Mostre que L

(a, b) ´e um espa¸co vetorial e que [[ [[

, como de-
finido no texto ´e realmente uma norma.
4.12 Que dizer das desigualdades de H¨ older, Minkowski e do teorema
de Riesz-Fischer para L

(a, b)?
4.13 Se 1 ≤ p < ∞ e (u
n
) converge para u em L
p
(a, b), ent˜ao, para
todo v ∈ L
q
(a, b) tem-se lim

vu
n
=

vu, onde q = p/(p − 1);
al´em disso lim[[u
n
[[
p
= [[u[[
p
.
4.14 Mostre que a sucess˜ ao (u
n
) do Exemplo 4.15 converge fracamente
para zero em L
p
(0, 2). Mostre ainda que, se 1 < p < +∞ e
1 ≤ r < p ent˜ ao u
n
→ 0 fortemente em L
r
(0, 2). Observe,
tamb´em, que u
n
→ 0 quase sempre em (0, 2). [Tente resolver
este exerc´ıcio usando diretamente as defini¸c˜ oes de convergˆencia.
Depois, observe que ele ´e trivial se aplicarmos o Corol´ario 4.17].
4.15 Mostre que uma reta, pensada como subconjunto do R
2
, tem me-
dida nula.
112 Os Espa¸ cos L
p
; Fun¸ c˜oes de V´arias Vari´aveis Cap. 4
Sugest˜ao: Considere a reta como sendo o eixo dos x e os retˆangulos
R
ν
= I
ν
J
ν
onde I
ν
= (−2
ν−1
, 2
ν−1
) e J
ν
=


ε
2
ν+2
,
ε
2
2ν+2

, sendo
ε > 0 escolhido arbitrariamente.
4.16 Considere a fun¸c˜ ao u(x, y) =
xy
(x
2
+y
2
)
2
definida em G = (−1, 1)
(−1, 1), exceto em (0, 0). Mostre que

1
−1

1
−1
u(x, y)dx

dy =

1
−1

1
−1
u(x, y)dy

dx = 0, no entanto u n˜ ao ´e integr´avel em G.
Sugest˜ao: Considere o subretˆangulo G
1
= (0, 1) (0, 1). Ent˜ao

G
[u(x, y)[d(x, y) ≥

G
1
u(x, y)d(x, y). No entanto u n˜ ao ´e in-
tegr´ avel em G
1
pois

1
0


0
[ senθ cos θ[
r

dr n˜ ao existe.
5
Deriva¸ c˜ao
5.1 Primitivas
Consideremos uma fun¸c˜ ao u: (a, b) →R e retornemos ao problema de
estudar as solu¸ c˜oes da equa¸c˜ao
(5.1) u
/
= u,
isto ´e, queremos estudar as primitivas de u no sentido da Defini¸c˜ ao
1.10.
Tivemos ocasi˜ ao de verificar, na Se¸c˜ ao 1.2, que se u ´e integr´avel ` a
Riemann ent˜ ao as integrais indefinidas de u, isto ´e, as fun¸c˜oes v dadas
pela f´ormula
(5.2) v(x) =

x
a
u(t) dt +C,
onde C ´e uma constante, s˜ ao primitivas de u. Verificamos ainda,
naquele contexto, que nem toda primitiva de u ´e necessariamente uma
integral indefinida de u (cf. Exemplo 1.11). Surgiu, ent˜ao, o problema
de caracterizar as primitivas de u que s˜ao integrais indefinidas de u
e vimos que a integral de Riemann n˜ ao nos conduz a bons resultados
nesta dire¸c˜ ao (a n˜ ao ser sobre a restrita classe das fun¸ c˜oes cont´ınuas
com o conhecido Teorema Fundamental do C´alculo).
114 Deriva¸ c˜ao Cap. 5
O nosso objetivo principal neste cap´ıtulo ´e estudar o Teorema Fun-
damental do C´alculo no contexto da integral de Lebesgue. Para melhor
conduzir o nosso estudo formularemos as quest˜ oes seguintes:
(Q1) As fun¸c˜ oes v, dadas por (5.2), s˜ao solu¸c˜ oes de (5.1)?
(Q2) Existem solu¸c˜ oes de (5.1) que n˜ ao s˜ao obtidas mediante a f´ ormula
(5.2)?
(Q3) Como caracterizar as solu¸c˜oes de (5.1) que s˜ao dadas pela f´ormula
(5.2).
As quest˜oes (Q1) e (Q2) j´ a foram estudadas na Se¸c˜ao 1.2 ` a luz da
integral de Riemann.
Neste cap´ıtulo, suporemos a fun¸c˜ ao u integr´ avel ` a Lebesgue, rees-
tudaremos as quest˜ oes (Q1), (Q2) e procuraremos responder a quest˜ ao
(Q3).
5.2 Fun¸c˜oes mon´otonas
Uma das raz˜ oes pelas quais a obra de Lebesgue foi recebida com certa
dose de desconfian¸ca por alguns matem´ aticos de sua ´epoca ´e que para
eles as fun¸c˜ oes descont´ınuas e as fun¸ c˜oes sem derivada eram conside-
radas monstruosidades ou anormalidades e, precisamente tais fun¸c˜oes
tˆem um papel importante no trabalho de Lebesgue.
A maioria das fun¸c˜ oes usualmente utilizadas no c´ alculo elementar
s˜ ao diferenci´aveis, a menos de alguns pontos excepcionais que, via de
regra, s˜ ao isolados (por exemplo, fun¸ c˜oes do tipo u(x) = [x[).
´
E con-
ceb´ıvel pois pensar-se que se uma fun¸c˜ ao ´e cont´ınua, os pontos onde ela
n˜ ao ´e deriv´ avel formam um conjunto insignificante num certo sentido.
Este era o pensamento matem´atico no in´ıcio do s´eculo XIX e muitas
foram as tentativas de provar tal conjectura. Coube a Weierstrass o
m´erito de (em 1860) exibir o famoso exemplo de uma fun¸c˜ ao cont´ınua
que n˜ ao ´e diferenci´ avel em ponto algum, encerrando definitivamente
Se¸ c˜ao 5.2 Fun¸ c˜oes mon´otonas 115
as esperan¸ cas que haviam de caracterizar os pontos onde uma fun¸c˜ao
cont´ınua ´e diferenci´ avel (ver, por exemplo, [22]).
Assim, se estamos interessados em encontrar uma propriedade que
nos assegure a diferenciabilidade quase sempre de uma fun¸c˜ ao n˜ ao ´e a
continuidade da fun¸c˜ ao que resolve nosso problema.
Observando que se uma fun¸ c˜ao u ´e deriv´ avel num ponto x
0
e u
/
(x
0
) >
0 ent˜ ao existe uma vizinhan¸ca de x
0
onde u ´e crescente, cabe pergun-
tar se a monotonicidade de uma fun¸c˜ ao implica na diferenciabilidade.
A resposta a esta quest˜ ao ´e dada por um teorema devido a Lebesgue,
que oportunamente veremos. (Aqui os resultados em que intervˆem
fun¸c˜ oes crescentes s˜ ao estendidos ` as fun¸c˜ oes decrescentes u tomando-
se as fun¸c˜oes −u, como se faz usualmente).
Antes de enunciarmos o teorema de Lebesgue necessitamos de al-
guns conceitos e resultados que n˜ ao s˜ ao familiares aos cursos intro-
dut´ orios de An´ alise.
5.1 Defini¸c˜ao. Seja u: [a, b] →R e x um ponto interior de [a, b]. As
derivadas laterais (ou de Dini) de u no ponto x s˜ ao definidas por
(5.3) D
+
u(x) = limsup
h→0
+
1
h
[u(x +h) −u(x)]
(5.4) D
+
u(x) = liminf
h→0
+
1
h
[u(x +h) −u(x)]
(5.5) D

u(x) = limsup
h→0

1
h
[u(x +h) −u(x)]
(5.6) D

u(x) = liminf
h→0

1
h
[u(x +h) −u(x)]
As derivadas de Dini acima definidas podem assumir valores infini-
tos. De (5.3), (5.4), (5.5) e (5.6) obt´em-se que para todo x ∈ [a, b]
(5.7) D

u(x) ≤ D

u(x),
116 Deriva¸ c˜ao Cap. 5
(5.8) D
+
u(x) ≤ D
+
u(x).
A Figura 5.1 d´a-nos uma id´eia geom´etrica das quatro derivadas de
Dini.
Se D
+
u(x) e D
+
u(x) s˜ ao finitas e iguais, este valor ´e a derivada `a
direita da fun¸c˜ ao u no ponto x. Analogamente com D

u(x) e D

u(x),
dando-nos a derivada `a esquerda. Assim, u ´e deriv´avel em x se e s´ o
se s˜ ao finitas e coincidem todas as suas derivadas de Dini no ponto x
e este valor comum ´e a derivada de u no ponto x. Observemos ainda
que se u ´e uma fun¸c˜ ao crescente ent˜ ao todas as suas derivadas de Dini
s˜ ao n˜ ao negativas.
5.2 Defini¸c˜ao. Diz-se que uma fam´ılia 1 de intervalos cobre o con-
junto E no sentido de Vitali se, para cada x ∈ E e cada ε > 0, existe
um I ∈ 1 tal que x ∈ I e amp(I) < ε.
5.3 Lema (Vitali). Seja E ⊂ R um conjunto tal que m
e
(E) < +∞ e
1 uma fam´ılia de intervalos que cobre E no sentido de Vitali. Ent˜ao,
dado ε > 0, existe uma fam´ılia finita I
1
, . . . , I
N
de intervalos de 1,
disjuntos dois a dois e tal que
(5.9) m
e

E −
N
¸
j=1
I
j

< ε.
Se¸ c˜ao 5.2 Fun¸ c˜oes mon´otonas 117
Demonstra¸c˜ao: Podemos supor que os intervalos de 1 s˜ ao fechados
porque se I
1
, . . . , I
N
s˜ ao intervalos fechados, disjuntos dois a dois e
satisfazem (5.9), o mesmo acontece se alguns de seus extremos s˜ ao
exclu´ıdos. Seja G um conjunto aberto, de medida finita e tal que
E ⊂ G. A hip´otese m
e
(E) < +∞ assegura a existˆencia de G. Como
a fam´ılia dos intervalos de 1 contidos em G ainda cobre E no sentido
de Vitali podemos supor que I ⊂ G ∀I ∈ 1. Observe-se que se T
´e uma fam´ılia finita de intervalos de 1 e x ´e um ponto de E que n˜ ao
pertence ` a uni˜ ao dos intervalos de T, ent˜ao existe um intervalo de
1 que cont´em x e ´e disjunto de todos os de T. Isto se d´ a porque a
uni˜ ao dos intervalos de T ´e um conjunto fechado que n˜ ao cont´em x e
1 cobre E no sentido de Vitali. Isto posto, se existe uma fam´ılia finita
de intervalos de 1, disjuntos dois a dois e cuja uni˜ ao cont´em E, nada
h´ a a demonstrar porque a diferen¸ca em (5.9) ´e vazia. Caso contr´ario,
essa observa¸c˜ ao permite escolher, por indu¸c˜ ao, uma sucess˜ao (I
n
) de
intervalos de 1 do seguinte modo: I
1
´e qualquer elemento de 1 e,
suposto escolhidos I
1
, . . . , I
n
, ent˜ ao I
n+1
´e qualquer intervalo de 1
disjunto dos intervalos I
1
, . . . , I
n
e tal que
amp(I
n+1
>
α
n
2
,
onde α
n
´e o supremo das amplitudes dos intervalos de 1 disjuntos
de cada um dos I
j
, j = 1, . . . , n (observe-se que α
n
< µ(G) <
+∞). Os intervalos de (I
n
) s˜ ao, pois, disjuntos dois a dois e I
n
⊂ G,
n = 1, . . . . Segue-se da´ı que

¸
i
amp(I
n
) ≤ µ(G), i.e., a s´erie
¸
amp(I
n
)
´e convergente, donde existe N ∈ N tal que

¸
n=N+1
amp(I
n
) <
ε
5

Seja o = E −
N
¸
j=1
I
j
. Vamos mostrar que m
e
(o) < ε. Seja, para
isto, x ∈ o. Pela observa¸c˜ ao feita inicialmente, existe I ∈ 1 disjunto
118 Deriva¸ c˜ao Cap. 5
dos intervalos I
1
, . . . , I
N
e tal que x ∈ I. Observe-se, agora, que se
I ∩ I
n
= ∅, para n = 1, . . . , m, ent˜ ao
amp(I) ≤ α
m
≤ 2 amp(I
m+1
).
Logo, como lim
n→∞
amp(I
n
) = 0, existe um menor inteiro k tal que
I ∩ I
k
= ∅. Obviamente k > N e
amp(I) ≤ α
k−1
≤ 2 amp(I
k
).
Como x ∈ I e I ∩ I
k
= ∅, a distˆ ancia de x ao ponto m´edio de I
k
´e no
m´ aximo igual a
amp(I) + 1/2 amp(I
k
) ≤ 2 amp(I
k
) + 1/2 amp(I
k
) ≤ 5/2 amp(I
k
).
Deste modo, cada x de o pertence a um intervalo J
k
cujo ponto m´edio
coincide com o de I
k
e cuja amplitude ´e cinco vezes a de I
k
. Logo,
m
e
(o) ≤

¸
n=N+1
amp(J
n
) ≤

¸
n=N+1
5 amp(I
n
) = 5

¸
n=N+1
amp(I
n
) < ε.
5.4 Teorema (Lebesgue). Se u: [a, b] → R ´e mon´otona, ent˜ao u ´e
deriv´avel quase sempre em [a, b].
Demonstra¸c˜ao: Vamos supor que u seja crescente e demonstrar ini-
cialmente que o conjunto E dos pontos x de [a, b] tais que D

u(x) >
D
+
u(x) tem medida nula. Seja, para isto,
(5.10) E
r,s
=
¸
x ∈ [a, b]; D

u(x) > r > s > D
+
u(x)
¸
,
onde r e s s˜ ao n´ umeros racionais. Como E = ∪E
r,s
e a fam´ılia dos
conjuntos E
r,s
´e numer´ avel ´e bastante demonstrar que m
e
(E
r,s
) = 0.
Ponhamos m
e
(E
r,s
) = t. Seja ε > 0 e G um conjunto aberto tal que
E
r,s
⊂ G e µ(G) < t + ε. Como D
+
u(x) < s para todo x ∈ E
r,s
, a
fam´ılia dos intervalos [x, x+h], x ∈ E
r,s
e h > 0, contidos em G e tais
que
(5.11) u(x +h) −u(x) < sh,
Se¸ c˜ao 5.2 Fun¸ c˜oes mon´otonas 119
cobre E
r,s
no sentido de Vitali. Segue-se, pelo Lema de Vitali, que
existem intervalos I
1
, . . . , I
n
dessa fam´ılia, disjuntos dois a dois e tais
que m
e

E
r,s

n
¸
j=1
I
j

< ε. Conseq¨ uentemente, m
e

E
r,s

n
¸
j=1
I
j
) > t −ε
e, se A ´e o conjunto dos pontos de E
r,s

n
¸
j=1
I
j
situados no interior dos
intervalos I
1
, . . . , I
n
, ent˜ao m
e
(A) > t − ε. Pondo I
j
= [x
j
, x
j
+ h
j
],
j = 1, . . . , n, fazendo x = x
j
e h = h
j
em (5.11) e somando membro a
membro as n desigualdades obtidas tem-se
n
¸
j=1
(u(x
j
+h
j
) −u(x
j
)) ≤
n
¸
j=1
sh
j
(5.12)
= s
n
¸
j=1
h
j
≤ sµ(G) < s(t +ε).
Como D

u(x) > r para todo x ∈ E
r,s
, a fam´ılia dos intervalos
[y − k, y], y ∈ A, k > 0, [y − k, y] ⊂ I
j
para algum j, 1 ≤ j ≤ n,
e tais que
(5.13) u(y) −u(y −k) > rk
cobre A no sentido de Vitali. Logo, pelo Lema de Vitali, existem
intervalos J
1
, . . . , J
m
dessa fam´ılia, disjuntos dois a dois e tais que
m
e

A −
m
¸
i=1
J
i

< ε. Conseq¨ uentemente,
m
¸
i=1
amp(J
i
) ≥ m
e

A ∩
m
¸
i=1
J
i

> t −2ε.
Pondo J
i
= [y
i
−k
i
, y
i
], fazendo y = y
i
e k = k
i
em (5.13) e somando
as m desigualdades obtidas tem-se, pois,
(5.14)
m
¸
i=1
(u(y
i
) −u(y
i
−k
i
)) ≥
m
¸
i=1
rk
i
= r
m
¸
i=1
k
i
> r(t −2ε).
120 Deriva¸ c˜ao Cap. 5
Cada J
i
est´ a contido em algumI
j
. Somando em rela¸c˜ao aos J
i
contidos
em I
j
tem-se, visto que u ´e crescente,
¸
J
i
⊂I
j
(u(y
i
) −u(y
i
−k
i
)) ≤ u(x
j
+h
j
) −u(x
j
).
Logo,
s(t +ε) >
n
¸
j=1
(u(x
j
+h
j
) −u(x
j
))

m
¸
i=1
(u(y
i
) −u(y
i
−k
i
)) > r(t −2ε),
donde s(t + ε) > r(t − 2ε) e, pela arbitrariedade de ε, st ≥ rt. Mas
s < r; logo t = 0.
Analogamente, demonstra-se que tem medida nula o conjunto dos
pontos de [a, b] onde D

u(x) < D
+
u(x). Logo, D

u(x) = D
+
u(x)
quase sempre em [a, b]. Com o mesmo argumento demonstram-se
an´ alogas rela¸c˜ oes para as demais combina¸c˜oes das derivadas de Dini.
Logo, as quatro derivadas de Dini s˜ao iguais quase sempre em [a, b].
Para completar a demonstra¸ c˜ao vamos agora demonstrar que uma
das derivadas de Dini ´e finita quase sempre. Demonstremos, por
exemplo, que D
+
u < +∞ quase sempre em [a, b]. Seja, para isto,
E = ¦x ∈ [a, b]; D
+
u(x) = +∞¦ e mostremos que µ(E) = 0. Seja
t = m
e
(E) e α um real positivo qualquer. De D
+
u(x) = +∞ para
todo x ∈ E, resulta que a fam´ılia dos intervalos [x, x + h], x ∈ E,
h > 0, tais que [x, x +h] ⊂ [a, b] e
(5.15) u(x +h) −u(x) > αh,
cobre E no sentido de Vitali. Logo, pelo Lema de Vitali, existem
intervalos I
1
, . . . , I
n
dessa fam´ılia, disjuntos dois a dois e tais que
Se¸ c˜ao 5.2 Fun¸ c˜oes mon´otonas 121
m
e

E −
n
¸
j=1
I
j

< ε e, portanto, tais que
n
¸
j=1
amp(I
j
) ≥ m
e

E ∩
n
¸
j=1
I
j

> t −ε,
Pondo I
j
= [x
j
, x
j
+ h
j
], j = 1, . . . , n, fazendo x = x
j
e h = h
j
, j =
1, . . . , n, em (5.15) e somando membro a membro as n desigualdades
obtidas tem-se
n
¸
j=1
(u(x
j
+h
j
) −u(x
j
)) >
n
¸
j=1
αh
j
= α
n
¸
j=1
h
j
> α(t −ε).
Logo,
u(b) −u(a) ≥
n
¸
j=1
(u(x
j
+h
j
) −u(x
j
)) > α(t −ε)
donde, pela arbitrariedade de ε, u(b)−u(a) ≥ αt e, pela arbitrariedade
de α, t = 0.
Encerramos esta Se¸c˜ ao com um teorema de Fubini para s´eries de
fun¸c˜ oes mon´otonas.
5.5 Teorema (Fubini). Seja

¸
ν=1
u
ν
uma s´erie de fun¸c˜oes mon´otonas
crescentes que converge pontualmente em [a, b] para uma fun¸c˜ao u.
Ent˜ ao u ´e deriv´avel quase sempre em [a, b] e vale a deriva¸c˜ao termo a
termo quase sempre, isto ´e, u
/
(x) =

¸
ν=1
u
/
ν
(x) quase sempre em [a, b].
Demonstra¸c˜ao: Sem perda de generalidade podemos supor que to-
das as fun¸c˜ oes u
ν
s˜ ao n˜ ao negativas e se anulam no ponto x = a. Caso
contr´ ario bastaria considerar u
ν
(x) − u
ν
(a) em lugar de u
ν
(x). Seja
s
n
(x) a n-´esima soma parcial da s´erie, isto ´e, s
n
(x) =
n
¸
ν=1
u
ν
(x); por-
tanto s
n
(x) → u(x). Evidentemente as fun¸c˜ oes s
n
e u s˜ ao crescentes
122 Deriva¸ c˜ao Cap. 5
e pelo teorema de Lebesgue s˜ao deriv´ aveis exceto nos pontos de um
conjunto E
0
de medida nula, precisamente a uni˜ ao dos conjuntos nos
quais cada uma das fun¸c˜ oes mencionadas n˜ao ´e deriv´avel. As fun¸c˜ oes
u
ν
(x) sendo crescentes, podemos escrever que, para h > 0
0 ≤
s
n
(x +h) −s
n
(x)
h

s
n+1
(x +h) −s
n+1
(x)
h

u(x +h) −u(x)
h
,
e portanto para cada x / ∈ E
0
tem-se
0 ≤ s
/
n
(x) ≤ s
/
n+1
(x) ≤ u
/
(x).
Esta rela¸c˜ ao nos mostra que a seq¨ uˆencia (s
/
n
) ´e crescente n˜ ao negativa
e para cada x / ∈ E
0
ela ´e definida por u
/
(x). Assim, a s´erie

¸
ν=1
u
/
ν
(x)
´e convergente quase sempre em [a, b]. Resta provar que a sua soma ´e
precisamente u
/
(x). Como a seq¨ uˆencia (s
/
n
) ´e crescente, basta provar
que ela cont´em uma subseq¨ uˆencia (s
/
n
k
) tal que s
/
n
k
→ u
/
. Para isto
consideremos a reduzida s
n
(b) da s´erie num´erica

¸
ν=1
u
ν
(b). Como por
hip´ otese s
n
(b) → u(b), para cada k ∈ N existe um n
k
tal que u(b) −
s
n
k
(b) <
1
2
k
Da´ı conclui-se, levando em conta que as fun¸c˜ oes s˜ ao
crescentes,
0 ≤ u(x) −s
n
k
(x) =
¸
ν>n
k
u
ν
(x) ≤
¸
ν>n
k
u
ν
(b) = u(b) −s
n
k
(b) <
1
2
k

Portanto a s´erie

¸
k=1
[u(x) − s
n
k
(x)] ´e convergente em todo ponto do
intervalo [a, b]. Esta s´erie est´ a nas condi¸ c˜oes da hip´ otese do teorema e
pelo que j´a provamos at´e aqui ela pode ser diferenciada termo a termo
(quase sempre) dando como resultado uma s´erie convergente quase
sempre. Portanto a s´erie

¸
k=1
[u
/
(x) −s
/
n
k
(x)]
Se¸ c˜ao 5.3 Fun¸ c˜oes de varia¸ c˜ao limitada 123
´e convergente e conseq¨ uentemente u
/
(x)−s
/
n
k
(x) →0, ou seja, s
/
n
k
(x) →
u
/
(x) quase sempre [a, b].
5.3 Fun¸c˜oes de varia¸ c˜ao limitada
O conjunto das fun¸c˜oes mon´otonas crescentes ´e um cone convexo,
como ´e imediato. Os elementos do espa¸co vetorial gerado por esse
cone s˜ ao ditos fun¸c˜oes de varia¸c˜ao limitada e, pelo que se sabe acerca
dos espa¸cos vetoriais gerados por cones convexos (Observa¸ c˜ao 1.35),
s˜ ao as fun¸c˜ oes que podem ser escritas como diferen¸ca de duas fun¸c˜ oes
mon´ otonas crescentes. Assim, u ´e de varia¸c˜ ao limitada se u = v −w,
onde v, w s˜ ao fun¸ c˜oes mon´ otonas crescentes. A denomina¸c˜ao “va-
ria¸c˜ ao limitada” ´e justificada por meio da seguinte caracteriza¸c˜ ao de
tais fun¸c˜ oes.
5.6 Proposi¸c˜ao. Seja u: [a, b] → R. As seguintes condi¸c˜oes s˜ao
equivalentes:
(i) A fun¸c˜ao u ´e de varia¸c˜ao limitada.
(ii) Existe uma constante C tal que para toda decomposi¸c˜ao do inter-
valo [a, b] pelos pontos
a = x
0
< x
1
< < x
n
= b tem-se
n−1
¸
k=0
[u(x
k+1
) −u(x
k
)[ ≤ C.
Demonstra¸c˜ao: Se u satisfaz (i), sejam v, w crescentes tais que
u = v −w. Assim, para qualquer decomposi¸c´ ao de [a, b] tem-se
n−1
¸
k=0
[u(x
k+1
) −u(x
k
)[ ≤
n−1
¸
k=0
[v(x
k+1
) −v(x
k
) +w(x
k+1
) −w(x
k
)]
= v(b) −v(a) +w(b) −w(a) = C
124 Deriva¸ c˜ao Cap. 5
e portanto u satisfaz (ii). Reciprocamente, seja u uma fun¸c˜ ao satisfa-
zendo (ii). Para uma dada decomposi¸ c˜ao seja p a soma das diferen¸cas
u(x
k+1
) − u(x
k
) que n˜ ao s˜ ao negativas e seja −r a soma daquelas di-
feren¸cas que s˜ ao negativas. Assim, se s =
n−1
¸
k=0
[u(x
k+1
) −u(x
k
)[ tem-se
s = p +r, u(b) = u(a) +p −r.
Resulta da´ı que, sendo s < C independentemente da decomposi¸c˜ ao
escolhida, p e r tamb´em ser˜ ao limitados. Sejam S, P, R os supremos
de s, p, r respectivamente, quando variamos as decomposi¸c˜ ao de [a, b].
Ent˜ ao tem-se
S = P +R e u(b) = u(a) +P −R.
Procedento da mesma maneira, no intervalo [a, x], onde x ∈ [a, b],
obtemos os trˆes n´ umeros S(x), P(x), R(x). Assim, S, P, R definem
fun¸c˜ oes de [a, b] → R que s˜ao evidentemente crescentes e para cada
x ∈ [a, b] tem-se
S(x) = P(x) +R(x) e u(x) = u(a) +P(x) −R(x).
Esta ´ ultima igualdade mostra que u satisfaz (i).
A fun¸ c˜ao S(x) acima ´e dita varia¸c˜ao total de u em [a, x] e ´e usual-
mente denotada por V
x
a
[u].
5.7 Observa¸c˜ao: Decorre imediatamente do teorema de Lebesgue
que toda fun¸c˜ ao de varia¸c˜ ao limitada ´e deriv´ avel quase sempre.
5.8 Proposi¸c˜ao. Se u ∈ L(a, b) ent˜ao as integrais indefinidas de
u (ver Se¸c˜ ao 5.1) s˜ao fun¸c˜oes cont´ınuas deriv´aveis quase sempre em
[a, b].
Demonstra¸c˜ao: Seja v(x) =

x
a
u(t) dt + C. A continuidade de v ´e
uma conseq¨ uˆencia imediata da Proposi¸c˜ ao 4.10 (verifique!). Desta ma-
neira, pela Observa¸c˜ao 5.7, basta provar que v ´e de varia¸c˜ao limitada.
Se¸ c˜ao 5.3 Fun¸ c˜oes de varia¸ c˜ao limitada 125
De fato
n−1
¸
k=0
[v(x
k+1
−v(x
k
)[ =
n−1
¸
k=0

x
k+1
x
k
u(t) dt


n−1
¸
k=0

x
k+1
x
k
[u(t) dt =

b
a
[u(t)[ dt.
5.9 Teorema (Lebesgue). Se u ∈ L(a, b) ent˜ao v(x) =

x
a
u(t) dt ´e
diferenci´avel quase sempre em [a, b] e v
/
= u quase sempre.
Demonstra¸c˜ao: A derivabilidade de v j´ a foi vista na Proposi¸c˜ ao 5.8.
Resta-nos provar que v
/
= u quase sempre em [a, b]. Sem perda de
generalidade podemos supor que u ∈ S
1
. (Ver Se¸c˜ao 1.3). Seja (u
n
)
uma sucess˜ ao crescente de fun¸c˜ oes escada convergindo quase sempre
para u. Para cada n, seja U
n
(x) =

x
a
u
n
(t) dt. Como as u
n
s˜ ao fun¸ c˜oes
escada, U
n
´e deriv´avel quase sempre e U
/
n
= u
n
, uma vez que as
fun¸c˜ oes escada s˜ ao integr´ aveis `a Riemann. Por defini¸c˜ ao

x
a
u(t) dt =
lim
n→∞

x
a
u
n
(t) dt, isto ´e, v(x) = lim
n→∞
U
n
(x), ou seja v(x) = U
1
(x) +
lim
n→∞
n−1
¸
k=1
[U
k+1
(x) −U
k
(x)], ou ainda
(5.16) v(x) = U
1
(x) +

¸
k=1
[U
k+1
(x) −U
k
(x)],
isto ´e, a s´erie
¸
[U
j+1
(x) − U
j
(x)] converge em todo ponto x de [a, b]
a v(x) − U
1
(x). Al´em disto, as fun¸c˜ oes U
n+1
− U
n
s˜ ao mon´ otonas
crescentes uma vez que (U
n+1
− U
n
)
/
= u
n+1
− u
n
e (u
n
) ´e crescente.
Pelo Teorema 5.7 (Fibini) podemos, pois, derivar (5.16) termo a termo,
quase sempre em [a, b] e temos v
/
(x) = u
1
(x) +

¸
k=1
[u
k+1
(x) − u
k
(x)],
isto ´e, u
n
(x) →v
/
(x) quase sempre em [a, b] e, portanto, u = v
/
quase
sempre.
126 Deriva¸ c˜ao Cap. 5
Com este teorema fica resolvida a quest˜ ao (Q1) proposta na Se¸c˜ ao
5.1. Vamos passar agora ao estudo das outras quest˜ oes.
5.4 Determina¸ c˜ao de uma fun¸ c˜ao a partir de sua derivada
Consideremos a fun¸c˜ ao u(x) ≡ 0 em (0, 1) e seja v a fun¸c˜ao definida
por v(x) = 0 se 0 ≤ x < 1/2 e v(x) = 1 se 1/2 ≤ x ≤ 1. Ent˜ ao
v
/
= u quase sempre em (0, 1) mas v n˜ ao ´e uma integral indefinida
de u. Este exemplo nos mostra que a quest˜ ao (Q2) da Se¸c˜ ao 5.1 tem
resposta afirmativa. Sendo assim passaremos a considerar a quest˜ ao
(Q3). Isto ´e, passaremos ao problema de caracterizar as fun¸c˜oes v
tais que v
/
seja uma fun¸c˜ao integr´avel u e para as quais seja v´alida a
conhecida f´ormula de Newton-Leibniz:
(5.17) v(x) = v(a) +

x
a
u(t) dt = v(a) +

x
a
v
/
(t) dt.
Naturalmente devemos iniciar nossa procura entre as fun¸c˜ oes que
possuem derivada quase sempre em (a, b). Como j´ a vimos as fun¸c˜ oes de
varia¸ c˜ao limitada s˜ ao deste tipo. Por outro lado a integral da f´ ormula
(5.17) ´e uma fun¸ c˜ao de varia¸c˜ ao limitada. Portanto ´e in´ util estender
a nossa procura para uma classe de fun¸c˜oes mais ampla. Como toda
fun¸c˜ ao de varia¸c˜ ao limitada se representa por meio de uma diferen¸ca de
fun¸c˜ oes mon´ otonas crescentes, devemos come¸car nossa procura entre
as fun¸c˜ oes mon´ otonas crescentes.
O exemplo dado no in´ıcio desta Se¸c˜ ao nos mostra, no entanto, que a
igualdade (5.17) n˜ ao ´e v´alida em geral para fun¸c˜ oes crescentes. Poder-
se-ia conjecturar que o defeito no exemplo citado ´e que ali a fun¸c˜ ao v
apesar de ser crescente n˜ ao ´e cont´ınua. No entanto existem exemplos
de fun¸c˜ oes mon´ otonas crescentes cont´ınuas para as quais n˜ ao ´e v´ alida
a f´ormula (5.17) (ver [8] pag. 383), cfr. Complemento 1, pg. 140.
Todavia, para as fun¸c˜ oes mon´otonas crescentes vale o seguinte re-
sultado
Se¸ c˜ao 5.4 Determina¸c˜ao de uma fun¸ c˜ao a partir de sua derivada 127
5.10 Proposi¸c˜ao. Se v : [a, b] → R ´e mon´otona crescente ent˜ao sua
derivada v
/
´e integr´avel e

b
a
v
/
(t) dt ≤ v(b) −v(a).
Demonstra¸c˜ao: J´ a vimos que a derivada v
/
est´ a definida quase sem-
pre em [a, b]. Mostremos que v
/
´e integr´avel. Para evitar o apare-
cimento de pontos onde v n˜ ao ´e definida prolonguemos v definindo
v(x) = v(b) se x ≥ b. Para cada n ∈ N, considere
(5.18) ϕ
n
(x) =
v(x +h) −v(x)
h
, onde h = 1/n.
´
E claro que as fun¸c˜ oes ϕ
n
s˜ ao integr´ aveis e ϕ
n
→v
/
quase sempre em
[a, b]. Al´em disso, as ϕ
n
s˜ ao n˜ ao negativas. Vamos provar que para
todo n, tem-se

b
a
ϕ
n
(x) dx ≤ v(b) − v(a) = C e pelo Lema de Fatou
(Teorema 2.19) ter-se-´ a o resultado desejado. De (5.18) tem-se

b
a
ϕ
n
(x) dx =
1
h

b
a
v(x +h) dx −
1
h

b
a
v(x) dx
=
1
h

b+h
a+h
v(x) dx −
1
h

h
a
v(x) dx.
Da´ı podemos escrever que

b
a
ϕ
n
(x) dx =
1
h

b
a+h
v(x) dx +
1
h

b+h
b
v(x) dx

1
h

a+h
a
v(x) dx −
1
h

b
a+h
v(x) dx
=
1
h

b+h
b
v(x) dx −
1
h

a+h
a
v(x) dx ≤ v(b) −v(a),
uma vez que v ´e crescente e v(x) = v(b) para os valores de x superiores
a b.
Voltando `a discuss˜ao da quest˜ao (Q3) verificamos que as fun¸c˜ oes
mon´ otonas cont´ınuas n˜ ao resolvem o nosso problema. Necessitamos
128 Deriva¸ c˜ao Cap. 5
de uma condi¸c˜ ao mais forte que a continuidade a qual passaremos a
descrever.
5.11 Defini¸c˜ao. Uma fun¸c˜ao u: [a, b] → R ´e dita absolutamente
cont´ınua quando para cada ε > 0 existe um δ > 0 tal que para toda
cole¸c˜ ao finita (a
1
, b
1
), (a
2
, b
2
), . . . , (a
n
, b
n
) de subintervalos de [a, b] dois
a dois disjuntos satisfazendo a condi¸c˜ ao
n
¸
k=1
(b
k
−a
k
) < δ
tem-se, necessariamente,
(5.19)
n
¸
k=1
[u(b
k
) −u(a
k
)[ < ε.
´
E claro que toda fun¸c˜ ao absolutamente cont´ınua ´e uniformemente
cont´ınua e portanto ´e cont´ınua. No entanto a rec´ıproca n˜ao ´e verda-
deira pois existe fun¸c˜ oes uniformemente cont´ınuas que n˜ ao s˜ ao abso-
lutamente cont´ınuas (ver [8]).
As fun¸c˜ oes lipschitzianas s˜ ao absolutamente cont´ınuas. Diz-se que
u ´e lipschitziana quando existe uma constante C > 0 tal que [u(x) −
u(y)[ ≤ C[x−y[ para todo par x, y de [a, b]. Conseq¨ uentemente, se u ´e
lipschitziana, para todo cole¸c˜ao finita de subintervalos (a
1
, b
1
), (a
2
, b
2
)
, . . . , (a
n
, b
n
) de [a, b] dois a dois disjuntos tem-se
n
¸
k=1
[u(b
k
) −u(a
k
)[ ≤ C
n
¸
k=1
(b
k
−a
k
).
Portanto dado ε > 0, basta considerar δ = ε/C para se ter a condi¸c˜ ao
de continuidade absoluta satisfeita.
5.12 Proposi¸c˜ao. Se u ∈ L(a, b) ent˜ao as integrais indefinidas de u
s˜ao fun¸c˜oes absolutamente cont´ınuas.
Se¸ c˜ao 5.4 Determina¸c˜ao de uma fun¸ c˜ao a partir de sua derivada 129
Demonstra¸c˜ao: Seja v(x) =

x
a
u(t) dt + C uma integral indefinida
de u e seja (a
1
, b
1
), (a
2
, b
2
), . . . , (a
n
, b
n
) subintervalos de [a, b] dois a
dois disjuntos. Ent˜ ao
n
¸
k=1
[v(b
k
) −v(a
k
)[ =
n
¸
k=1

b
k
a
k
u(t) dt


n
¸
k=1

b
k
a
k
[u(t)[ dt −

E
[u(t)[ dt,
onde
E =
n
¸
k=1
¦(a
k
, b
k
)¦.
Mas, pela Proposi¸c˜ ao 4.10, tem-se que

E
[u(t)[dt →0 quando µ(E)→0.
Logo, dado ε > 0 existe δ > 0 tal que se µ(E)<δ ent˜ ao

E
[u(t)[dt <ε.
Observando que µ(E) =

¸
k=1
(b
k
−a
k
), fica provada a proposi¸c˜ ao.
5.13 Proposi¸c˜ao. Toda fun¸c˜ao absolutamente cont´ınua ´e de varia¸c˜ao
limitada.
Demonstra¸c˜ao: Seja ε > 0 dado. Da continuidade absoluta de u
decorre que podemos escolher um δ > 0 de modo que em cada subin-
tervalo de [a, b] com comprimento inferior de δ a varia¸c˜ ao total de u ´e
inferior a ε e portanto limitada. Como o intervalo [a, b] pode ser divi-
dido em um n´ umero finito de subintervalos de comprimentos inferiores
a δ, segue-se que a varia¸c˜ ao total de u em [a, b] ser´a limitada.
5.14 Observa¸c˜ao. Como conseq¨ uˆencia deste resultado, conclui-se
que toda fun¸c˜ ao absolutamente cont´ınua ´e deriv´ avel quase sempre em
[a, b], conforme Observa¸c˜ ao 5.7.
5.15 Observa¸c˜ao. O conjunto das fun¸c˜ oes absolutamente cont´ınuas
´e fechado para a soma e para o produto por escalares; assim ´e um
subespa¸co do espa¸ co das fun¸c˜ oes de varia¸c˜ao limitada.
5.16 Lema. Seja v : [a, b] → R absolutamente cont´ınua. Se a deri-
vada de v ´e nula quase sempre em [a, b], ent˜ao v ´e uma fun¸c˜ao cons-
tante.
130 Deriva¸ c˜ao Cap. 5
Demonstra¸c˜ao: Seja a < c ≤ b. Vamos mostrar que u(c) = u(a).
Designemos, para isto, por E o conjunto dos pontos de (a, c) onde
a derivada de v se anula. Por hip´ otese tem-se µ(E) = c − a. Seja
ε > 0 dado e δ > 0 o correspondente de ε na defini¸c˜ ao de fun¸c˜ ao
absolutamente cont´ınua. Os intervalos [x, x + h], x ∈ E, h > 0, tais
que [x, x +h] ⊂ (a, c) e
(5.20) [u(x +h) −u(x)[ <
εh
c −a
,
cobrem E no sentido de Vitali. Logo, pelo Lema de Vitali, uma
fam´ılia finita I
1
= [x
1
, x
1
+ h
1
], . . . , I
n
= [x
n
, x
n
+ h
n
], desses inter-
valos, I
1
, . . . , I
n
disjuntos dois a dois, ´e tal que m
e

E −
n
¸
j=1
I
j

< δ.
Sem quebra da generalidade podemos supor que x
j
+ h
j
< x
j+1
,
j = 1, . . . , n −1. Temos, por hip´otese, (a, c) = E ∪ F onde µ(F) = 0.
Da´ı vem
(x
1
−a) + (x
2
−x
1
−h
1
) + + (c −x
n
−h
n
) = m
e

(a, c) −
n
¸
j=1
I
j

= m
e

(a, c) ∩ C

n
¸
j=1
I
j

= m
e

(E ∪ F) ∩ C

n
¸
j=1
I
j

≤ m
e

E ∩ C

n
¸
j=1
I
j

+m
e

F ∩ C

n
¸
j=1
I
j

= m
e

E ∩ C

n
¸
j=1
I
j

< δ
donde, pela escolha de δ,
[u(x
1
) −u(a)[ +
n−1
¸
j=1
[u(x
j+1
) −u(x
j
+h
j
)[ (5.21)
+[u(c) −u(x
n
+h
n
)[ < ε.
Fazendo x = x
j
e h = h
j
, j = 1, . . . , n, em (5.20) e somando membro
Se¸ c˜ao 5.4 Determina¸c˜ao de uma fun¸ c˜ao a partir de sua derivada 131
a membro tem-se
(5.22)
n
¸
j=1
[u(x
j
+h
j
) −u(x
j
)[ <
ε
¸
h
j
c −a
≤ ε.
De (5.21) e (5.22) vem, somando membro a membro, [u(c)−u(a)[ < 2ε,
donde u(c) = u(a).
5.17 Teorema (Lebesgue). A derivada u de uma fun¸c˜ao v, absolu-
tamente cont´ınua em [a, b], ´e integr´avel em [a, b] e para cada x ∈ [a, b]
tem-se
v(x) =

x
a
u(t) dt +v(a).
Em outras palavras, toda fun¸c˜ao absolutamente cont´ınua ´e uma inte-
gral indefinida de sua derivada.
Demonstra¸c˜ao: Seja v uma fun¸c˜ ao absolutamente cont´ınua em [a, b].
Pela Proposi¸c˜ ao 5.13 v ´e de varia¸c˜ ao limitada, donde v = v
1
−v
2
, onde
v
1
e v
2
s˜ ao fun¸c˜ oes mon´otonas crescentes. Da´ı vem u = v
/
= v
/
1
− v
/
2
e, como pela Proposi¸c˜ao 5.10, v
/
1
e v
/
2
s˜ ao integr´ aveis, u ´e integr´ avel.
Seja, ent˜ ao, w a fun¸c˜ ao definida em [a, b] por
w(x) =

x
a
u(t) dt.
Pelo Teorema 5.9, w ´e deriv´ avel quase sempre em [a, b] e w
/
= u quase
sempre em [a, b]. Pela Proposi¸c˜ ao 5.12 w ´e absolutamente cont´ınua.
Logo a fun¸c˜ao g = v −w ´e absolutamente cont´ınua e g
/
= v
/
−w
/
= 0
quase sempre, donde g ´e uma fun¸c˜ ao constante, pelo Lema 5.16.
Portanto,
v(x) = w(x) +g(x) =

x
a
u(t) dt +g(a)
e como da´ı vem v(a) = g(a),
v(x) =

x
a
u(t) dt +v(a).
132 Deriva¸ c˜ao Cap. 5
5.18 Corol´ario. Uma fun¸c˜ao v ´e integral indefinida de sua derivada
se e s´o se v ´e absolutamente cont´ınua. Em outros termos, uma primi-
tiva v de u ´e uma integral indefinida de u se e s´o se v ´e absolutamente
cont´ınua.
Demonstra¸c˜ao: Conseq¨ uˆencia trivial do Teorema 5.17 e da Pro-
posi¸c˜ ao 5.12.
O Corol´ ario 5.18 responde ` a quest˜ao (Q3) proposta no in´ıcio deste
cap´ıtulo.
5.19 Observa¸c˜ao. Consideremos ainda a equa¸c˜ ao v
/
= u. J´ a vimos
que se u ´e integr´avel ` a Lebesgue esta equa¸ c˜ao pode ter dois tipos de
solu¸c˜ ao (no sentido quase sempre):
(i) Aquelas que s˜ ao integrais indefinidas de u;
(ii) Aquelas que n˜ ao s˜ao.
Se u n˜ ao ´e integr´ avel ` a Lebesgue a referida equa¸c˜ ao ainda pode
ter solu¸c˜ ao s´o que uma tal solu¸c˜ ao ´e obrigatoriamente do tipo
(ii). Na grande maioria dos casos pr´ aticos as solu¸c˜ oes do tipo (i)
s˜ ao as que interessam e neste caso a teoria de Lebesgue nos for-
nece um estudo completo de tais solu¸c˜ oes, o que n˜ ao ocorria com
a teoria de Riemann, conforme tivemos oportunidade de consta-
tar. Por´em, a integral de Lebesgue n˜ao se presta ao estudo das
solu¸c˜ oes do tipo (ii). Para isto pode-se recorrer `a teoria da To-
taliza¸c˜ ao ou integral de Denjoy em homenagem ao seu criador
Arnaud Denjoy (1915) e tamb´em ` a integral de Perron, idealizada
por Oskar Perron (1914). Todavia, tais teorias est˜ ao fora dos ob-
jetivos deste texto e por isso limitamo-nos apenas a cit´a-las. O
leitor interessado poder´ a encontr´ a-las em textos mais avan¸ cados
sobre a teoria da integra¸c˜ ao.
Se¸ c˜ao 5.5 Integra¸ c˜ao por partes e mudan¸ca de vari´aveis 133
5.5 Integra¸ c˜ao por partes e mudan¸ ca de vari´aveis
As f´ormulas cl´ assicas de integra¸c˜ ao por partes e mudan¸ca de vari´aveis
s˜ ao ainda v´ alidas para as fun¸c˜ oes integr´ aveis `a Lebesgue com ligeiras
adapta¸c˜ oes ao novo contexto.
Antes de demonstrarmos a f´ ormula de integra¸ c˜ao por partes, pro-
varemos o seguinte lema:
5.20 Lema. O produto de duas fun¸c˜oes absolutamente cont´ınuas ´e
uma fun¸c˜ao absolutamente cont´ınua.
Demonstra¸c˜ao: Sejam u e v fun¸c˜ oes absolutamente cont´ınuas defi-
nidas em [a, b]. Dado ε > 0 escolhamos um δ > 0 tal que para toda
cole¸c˜ ao finita (a
1
, b
1
), (a
2
, b
2
), . . . , (a
n
, b
n
) de subintervalos de [a, b] dois
a dois disjuntos satisfazendo a condi¸c˜ ao
n
¸
k=1
(b
k
−a
k
) < δ
se tenha
(5.23)
n
¸
k=1
[u(b
k
) −u(a
k
)[ <
ε
2
(5.24)
n
¸
k=1
[v(b
k
) −v(a
k
)[ <
ε
2

Sendo u, v absolutamente cont´ınuas elas s˜ao cont´ınuas em [a, b] e por-
tanto existe uma constante M > 0 tal que se tem [u(x)[ ≤ M e
[v(x)[ ≤ M para todo x ∈ [a, b]. Levando isto em conta e as desigual-
134 Deriva¸ c˜ao Cap. 5
dades (5.23), (5.24) obtemos que
n
¸
k=1
[u(b
k
)v(b
k
) −u(a
k
)v(a
k
)[
=
n
¸
k=1
[u(b
k
)[v(b
k
) −v(a
k
)] +v(a
k
)[u(b
k
) −u(a
k
)][
≤ M
n
¸
k=1
[v(b
k
) −v(a
k
)[ +M
n
¸
k=1
[u(b
k
) −u(a
k
)[ ≤ Mε.
Portanto uv ´e absolutamente cont´ınua.
5.21 Proposi¸c˜ao. Sejam u, v fun¸c˜oes integr´aveis em [a, b] e sejam
F, G integrais indefinidas de u, v, respectivamente. Ent˜ao Fv e Gu
s˜ao integr´aveis em [a, b] e tem-se

b
a
Fv +

b
a
Gu = F(b)G(b) −F(a)G(a).
Demonstra¸c˜ao: Pela Proposi¸c˜ ao 5.12 as fun¸c˜oes F e G s˜ ao absolu-
tamente cont´ınuas logo cont´ınuas. Se M ´e tal que [F(x)[ ≤ M para
todo x ∈ [a, b], obtemos que
[F(x)v(x)[ ≤ M[v(x)[
para todo x ∈ [a, b] e portanto Fv ´e integr´avel. De modo an´ alogo
prova-se que Gu ´e integr´avel. Sendo absolutamente cont´ınuas, as
fun¸c˜ oes F e G s˜ ao deriv´aveis quase sempre em [a, b]; portanto FG
´e deriv´ avel quase sempre e tem-se, naturalmente,
(5.25) (FG)
/
= FG
/
+F
/
G.
Pelo teorema de Lebesgue (Teorema 5.17), obt´em-se de (5.25) que

b
a
Fv +

b
a
Gu = F(b)G(b) −F(a)G(a),
Se¸ c˜ao 5.5 Integra¸ c˜ao por partes e mudan¸ca de vari´aveis 135
uma vez que G
/
= v e F
/
= u.
Para encerrar a Se¸c˜ ao, demonstraremos a f´ ormula de mudan¸ca de
vari´ aveis.
5.22 Proposi¸c˜ao. Seja u uma fun¸c˜ao crescente e absolutamente
cont´ınua no intervalo [a, b]. Seja f uma fun¸c˜ao integr´avel no intervalo
[u(a), u(b)]. Ent˜ao a fun¸c˜ao (f ◦ u)u
/
´e integr´avel em [a, b] e tem-se
(5.26)

b
a
(f ◦ u)u
/
=

u(b)
u(a)
f.
Demonstra¸c˜ao: Inicialmente suponhamos que f ´e a fun¸c˜ao cara-
cter´ıstica de um intervalo [α, β] ⊂ [u(a), u(b)]. Como u ´e cont´ınua
existem pontos de [a, b] onde u assume os valores α e β. Sejam
c = inf ¦x ∈ [a, b]; u(x) = α¦
d = sup¦x ∈ [a, b]; u(x) = β¦.
Portanto u(c) = α e u(d) = β pela continuidade da u. Al´em disso
c ≤ d porque u ´e crescente. Como f ◦ u ´e a fun¸c˜ ao caracter´ıstica de
[c, d], obtemos que

b
a
(f ◦ u)u
/
=

d
c
u
/
= u(d) −u(c) = β −α =

u(b)
u(a)
f.
Portanto, a f´ormula (5.26) ´e v´alida quando f ´e a fun¸c˜ao caracter´ıstica
de um intervalo contido em [u(a), u(b)] e conseq¨ uentemente ser´ a v´alida
quando f ´e uma fun¸ c˜ao escada neste mesmo intervalo. Suponha-
mos agora que f ´e uma fun¸c˜ ao pertencente `a classe S
1
no intervalo
[u(a), u(b)] (conforme defini¸ c˜ao dada na Se¸c˜ ao 1.3). Ent˜ ao existe uma
sucess˜ ao crescente de fun¸c˜oes escada (ϕ
n
) convergindo quase sempre
para f em [u(a), u(b)]. Como u
/
(t) ≥ 0 quase sempre em [a, b] uma vez
que u ´e crescente, a sucess˜ ao de fun¸c˜oes ([ϕ
n
◦u]u
/
) ´e tamb´em crescente.
Al´em disso ela converge quase sempre em [a, b] para (f ◦ u)u
/
. Para
136 Deriva¸ c˜ao Cap. 5
ver isto, seja E o conjunto dos pontos em [u(a), u(b)] para os quais ϕ
n
n˜ ao converge para f.
´
E claro que (ϕ
n
◦ u)u
/
converge para (f ◦ u)u
/
nos pontos t de [a, b] onde u
/
(t) = 0 e tamb´em naqueles pontos t para
os quais u(t) / ∈ E. Se denotarmos por A o conjunto dos pontos de
[a, b] onde (ϕ
n
◦ u)u
/
n˜ ao converge para (f ◦ u)u
/
ent˜ ao se t ∈ A deve-
mos ter necessariamente u(t) ∈ E e u
/
(t) > 0 (aqui estamos omitindo
os pontos de [a, b] onde u
/
n˜ ao existe uma vez que eles formam um
conjunto de medida nula). Devemos provar que A tem medida nula.
Seja ¦I
n
¦ um recobrimento enumer´ avel de E por intervalos tais que

¸
n=1
amp(I
n
) seja finita, e cada ponto de E est´ a contido num n´ umero
infinito de tais intervalos. Isto ´e poss´ıvel porque E tem medida nula.
Para cada k ∈ N, seja ψ
k
a soma das fun¸c˜ oes caracter´ısticas dos inter-
valos I
1
, I
2
, . . . , I
k
(que s˜ao subintervalos de [u(a), u(b)]). Logo (Ψ
k
) ´e
uma sucess˜ ao crescente de fun¸c˜ oes escada que tende para +∞em cada
ponto de E. Desta forma a sucess˜ao de fun¸c˜ oes ([Ψ
k
◦ u]u
/
) ´e tamb´em
crescente e tende para +∞ nos pontos de A. Como a sucess˜ao das
integrais

b
a

k
◦ u)u
/
=

u(b)
u(a)
Ψ
k
=
k
¸
i=1
amp(I
k
)
´e limitada, segue-se do Teorema de Beppo Lei que o conjunto A tem
medida nula. Assim (ϕ
n
◦ u)u
/
converge para (f ◦ u)u
/
quase sempre
em [a, b]. Al´em disso, tem-se

b
a

n
◦ u)u
/
=

u(b)
u(a)
ϕ
n

u(b)
u(a)
f (porque f ∈ S
1
).
Ainda pelo Teorema de Beppo Levi teremos que (f ◦ u)u
/
´e integr´ avel
e vale a f´ormula (5.26). Para se obter a validade da f´ ormula no caso
em que f ´e integr´ avel ´e s´o notar que f ´e, por defini¸c˜ ao, diferen¸ca de
duas fun¸c˜ oes de S
1
.
Bibliografia 137
Bibliografia
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´
Indice
Amplitude
de um intervalo, 5
da uni˜ao de intervalos disjun-
tos, 21
´
Area de um retˆ angulo, 102
Borelianos, 63
Classes L
i
(u
0
), L
p
(u
0
), L(u
0
), 48
Cobertura de Vitali, 116
Cone convexo, 30
Conjunto
de medida nula, 5, 102
mensur´ avel, 59
L-mensur´ avel, 68
Convergˆencia
em medida, 75
em m´edia de ordem p, 87
fraca, 95
forte, 87
quase uniforme, 74
Darboux, 9
Decomposi¸c˜ ao
de um intervalo, 8
associada a uma fun¸c˜ ao es-
cada, 16
Deriva¸c˜ao, 113
Derivadas de Dini, 115
Desigualdade
de H¨older, 85, 111
de Minkowski, 85, 111
de Schwarz, 92
de Young, 85
Egoroff, 74
Espa¸co
de Banach, 89
de Hilbert, 92
das fun¸c˜ oes integr´aveis `a Le-
besgue, 41
das fun¸c˜oes integr´ aveis `a Ri-
emann, 12
L
p
, 83
L

, 92
m´etrico completo, 89
normado, 89
Fun¸c˜ao
absolutamente cont´ınua, 128
caracter´ıstica, 21
escada, 16, 103
essencialmente limitada, 93
139
140
´
Indice Remissivo
integr´ avel `a Lebesgue, 41
integr´ avel `a Riemann, 8
L-mensur´ avel, 70
lipschitziana, 128
mensur´ avel, 52
mon´ otonas, 114
parte negativa de uma, 27
parte positiva de uma, 27
som´ avel, 41
de varia¸c˜ ao limitada, 123
Funcional linear sobre 1(a, b),
12
´
Indice conjugado, 85
Integrabilidade, das fun¸c˜ oes
cont´ınuas, 10
Integra¸c˜ao por partes, 133
Integral
de Denjoy, 132
indefinida, 13, 124
inferior, 8
de Lebesgue, 39, 41
de Perron, 132
de Riemann, 7
superior, 8
sobre os conjuntos mensur´aveis,
65
sobre os intervalos n˜ ao limi-
tados, 56
Lema
de Fatou, 50, 51
de Vitali, 116
Lema Fundamental
primeiro, 22
segundo, 24
Limite
forte, 95
fraco, 95
superior, 48
inferior, 48
L-integral, 73
L-medida, 68
Lusin, 79
Majorante essencial, 92
Medida
de um conjunto, 59
exterior, 67
M´etrica de L
p
, 87
Norma
de f ∈ L
p
, 84
de f ∈ L

, 95
Parte
negativa, 27
positiva, 27
Pontos de divis˜ ao de uma de-
composi¸c˜ ao, 8
Primeiro Lema Fundamental, 22
Primitiva de uma fun¸c˜ ao, 14, 113
Produto interno, 92
Quase sempre, 7
Retˆ angulo,
´
Indice Remissivo 141
de R
2
limitado, 102
Reticulado vetorial, 17
Segundo Lema Fundamental, 24
Somas de Darboux, 9
Sucess˜ ao, de Cauchy em L
p
, 87
fortemente convergente, 87
fracamente convergente, 95
Supremo essencial, 92
Teorema
de Beppo Levi, 45, 47
da Convergˆencia Dominada,
49, 81
da Convergˆencia Mon´otona,
47
de Egoroff, 74, 76, 81
de Fubini, 101, 106, 121
Fundamental do C´ alculo, 13
de Lebesgue, 49, 118, 125, 131
de Lusin, 74, 79
de Riesz-Fischer, 83, 87, 111
de Strauss, 96
de Tonelli, 108
Teoria da Totaliza¸c˜ ao, 132
Varia¸c˜ao total, 124
Weierstrass, 114
Complementos 143
COMPLEMENTOS
1.
Exemplo de Fun¸c˜ao n˜ao Absolutamente Cont´ınua
No Cap´ıtulo 5 foi estudada a validade do Teorema Fundamental do
C´ alculo na classe L(a, b) concluindo-se sua validade na subclasse de
L(a, b) constitu´ıda pelas fun¸c˜ oes Absolutamente Cont´ınuas. A seguir,
ser´ a estudado um exemplo significativo e educativo de uma fun¸c˜ ao
n˜ ao absolutamente cont´ınua. Trata-se de uma fun¸c˜ ao cont´ınua, n˜ ao
decrescente, n˜ ao constante com derivada nula quase sempre. Este
exemplo foi mencionado por H. Lebesgue em 1904. Na esperan¸ ca de
tornar clara a exposi¸c˜ ao, ser´ a feita a constru¸c˜ao do conjunto de Cantor.
(E. Hille-J.D. Tamarkin, Remarks on a known example of monotone
continuous function, Amer. Math. Monthly, 36 (1929), pp. 255-264).
• Considere-se o intervalo (0, 1) da reta real R. Ser´ a feita uma
sucess˜ ao de trisec¸c˜ oes e remo¸c˜ oes dos intervalos intermedi´ arios, pelo
processo seguinte:
Etapa 1. Divide-se [0, 1] em trˆes subintervalos iguais,

0,
1
3

,

1
3
,
2
3

,

2
3
, 1

, removendo-se de (0, 1) o subintervalo aberto intermedi´ario,

1
3
,
2
3

. Assim, restam em (0,1) os pontos

0,
1
3

,
1
3
,
2
3
,

2
3
, 1

.
Etapa 2. Divide-se cada um dos subintervalos restantes:

0,
1
3

e

2
3
, 1

em trˆes subintervalos iguais, obtendo-se:

0,
1
3
2

,

1
3
2
,
2
3
2

,

2
3
3
,
1
3

144 Integral de Lebesgue
e

2
3
,
2
3
+
1
3
2

,

2
3
+
1
3
2
,
2
3
+
2
3
2

,

2
3
+
2
3
2
, 1

.
Removendo-se os intervalos intermedi´arios:

1
3
2
,
2
3
2

e

2
3
+
1
3
2
,
2
3
+
2
3
2

,
restam em (0, 1) os pontos:

0,
1
3

,
1
3
,
2
3
2
,

2
3
2
,
1
3

e

2
3
,
2
3
+
1
3
2

,
2
3
+
1
3
2
,
2
3
+
2
3
2
,

2
3
+
2
3
2
, 1

.
Repete-se, indefinidamente, este processo de trisec¸c˜ ao e remo¸ c˜ao
dos intervalos intermedi´arios. O n´ umero de intervalos removidos na
etapa n ´e igual a 2
n−1
. Estes intervalos, em cada etapa, ser˜ ao ordena-
dos, da esquerda para a direita, representados por
δ
nk
, k = 1, 2, . . . , 2
n−1
.
A amplitude de cada δ
nk
´e
1
3
n

Etapa 1. Removeu-se
δ
11
=

1
3
,
2
3

.
Etapa 2. Foram removidos
δ
21
=

1
3
2
,
2
3
2

, δ
22
=

2
3
+
1
3
2
,
2
3
+
2
3
2

.
Complementos 145
Etapa 3. Foram removidos os 2
2
intervalos
δ
31
=

1
3
3
,
2
3
3

,
δ
32
=

1
3
2
+
1
3
3
,
1
3
2
+
2
3
3

,
δ
33
=

2
3
+
1
3
3
,
2
3
+
2
3
3

,
δ
34
=

2
3
+
2
3
2
+
1
3
3
,
2
3
+
2
3
2
+
2
3
3

O n´ umero total de subintervalos removidos de (0, 1), ao final de n
etapas, ´e:
1 + 2 + 2
2
+ + 2
n−1
= 2
n
−1.
Representa-se por E o subconjunto de (0, 1) constitu´ıdo pelos pon-
tos n˜ ao removidos no processo anterior. Representando-se por D o
complemento de E relativamente a (0, 1), obt´em-se:
D =
¸
δ
nk
.
Note-se que na uni˜ao anterior s˜ao considerados, somente os pontos
interiores dos δ
nk
. O conjunto E consiste de todos os pontos de (0, 1)
que s˜ ao extremos dos intervalos δ
nk
e de seus limites. Representando-se
por α
nk
< β
nk
os extremos de δ
nk
, obt´em-se para δ
34
os extremos:
α
34
=
2
3
+
2
3
2
+
1
3
3
e β
34
=
2
3
+
2
3
2
+
2
3
3

Os extremos β
34
representa-se pelo n´ umero tri´adico
β
34
= 0, 22200 . . .
enquanto
α
34
= 0, 22100 . . . .
Para o que se tem em mente considerar, ´e necess´ ario que apare¸ca
na parte fracion´ aria do n´ umero tri´adico apenas os algarismos 0 ou 2.
146 Integral de Lebesgue
Note-se que
1
3
3
=
0
3
3
+
2
3
4
+
2
3
5
+. . .
ou, no sistema tri´ adico:
1
3
2
= 0, 00022 . . . ,
com os algarismos 0 ou 2. Observe-se que obt´em-se, de fato,
1
3
3
= lim
p→∞

2
3
4
+
2
3
5
+ +
2
3
4+p

Conseg¨ uintemente,
α
34
= 0, 22022 . . .
com algarismos 0 ou 2, na base tri´adica.
De modo geral, os extremos α
nk
e β
nk
de δ
nk
s˜ ao da forma:
α
nk
=
a
1
3
+
a
2
3
2
+ +
a
n−1
3
n−1
+
1
3
n
e
β
nk
=
a
1
3
+
a
2
3
2
+ +
a
n−1
3
n−1
+
2
3
n

Sendo
1
3
n
=
0
3
n
+
2
3
n+1
+
2
3
n+2
+. . . ,
obt´em-se, na representa¸ c˜ao em n´ umeros tri´ adicos
α
nk
= 0, a
1
a
2
. . . a
n−1
0222 . . .
e
β
nk
= 0, a
1
a
2
. . . a
n−1
2000 . . .
sendo os a
i
iguais a 0 ou 2.
Portanto, os pontos de E s˜ ao representados pelas fra¸c˜ oes tri´ adicas
0, a
1
a
2
. . . a
n
. . .
Complementos 147
com os a
i
iguais a 0 ou 2.
Com o objetivo de deduzir algumas propriedades simples do con-
junto E, representa-se por η
nk
os k subintervalos n˜ao removidos de
(0, 1) na Etapa n sendo k = 2, 2
2
, . . . , 2
n
. A amplitude de η
nk
e
1
3
n

O n´ umero total de η
nk
na Etapa n ´e 2
n
, logo a soma das amplitudes
dos η
nk
na Etapa n ´e

2
3

n
, que tende a zero quando n tende para o
infinito. Portanto estando E contido na uni˜ ao dos η
nk
, conclui-se que
E possui medida de Lebesgue zero.
Note-se que os pontos de abcissas representados no sistema tri´ adico
por 0, a
1
a
2
. . . a
n
. . . , com os a
i
iguais a zero ou dois, s˜ao aproximados
por n´ umeros do mesmo tipo. Por conseguinte, E possui todos os seus
pontos de acumula¸c˜ ao, concluindo-se que E ´e um conjunto perfeito.
Observe-se que h´ a subintervalos de (0, 1) contidos nos subintervalos
removidos, os quais n˜ ao possuem pontos de E. Conclui-se, da´ı, que E
´e n˜ ao denso em (0, 1).
Outro resultado significativo do conjunto E ´e que seu n´ umero car-
dinal ´e igual ao do intervalo (0, 1). (Veja G. Birkoff–S. Mac Lane, A
survey of modern algebra, Mac Millan Co. (1948), N.Y., pp. 338-339).
ESCOLIUM. Pelo processo de trisec¸c˜ ao do intervalo (0, 1) e remo¸c˜ao
dos subintervalos intermedi´ arios, construiu-se um subconjunto E de
(0, 1), de medida de Lebesgue nula, perfeito, n˜ao denso em (0, 1) e
com cardinal igual ao cardinal do intervalo (0, 1). O conjunto E foi
idealizado por Cantor e por isto ´e denominado Conjunto de Cantor.
A seguir ser´a definida em (0, 1) com valores em (0, 1) uma fun¸c˜ ao
cont´ınua, deriv´ avel mas n˜ ao absolutamente cont´ınua. Este exemplo
foi idealizado por H. Lebesgue em 1904.
De fato, como foi visto anteriormente, todo ponto de E ´e da forma:
x = 0, a
1
a
2
. . . a
n
. . . ,
148 Integral de Lebesgue
no sistema tri´ adico, sendo os a
i
zero ou dois. Sob a forma de s´erie,
obt´em-se:
x =
a
1
3
+
a
2
3
2
+ +
a
n
3
n
+. . . .
Considere-se a fun¸ c˜ao ξ definida em E por
ξ(x) =
b
1
2
+
b
2
2
2
+ +
b
n
2
n
+. . .
sendo b
i
=
a
i
2
, os b
i
ser˜ ao 0 ou 1. Logo ξ(x) leva x tri´ adico na base
di´ adica. Ela est´ a bem definida em E com valores em (0, 1).
• C´ alculo de ξ nos extremos dos δ
nk
.
Como visto anteriormente, os extremos α
nk
e β
nk
de δ
nk
s˜ ao da
forma:
α
nk
=
a
1
3
+
a
2
3
2
+ +
a
n−1
3
n−1
+
0
3
n
+
2
3
n+1
+
2
3
n+2
+. . .
e
β
nk
=
a
1
3
+
a
2
3
2
+ +
a
n−1
3
n−1
+
2
3
n
,
com os a
i
iguais a zero ou dois.
Na defini¸c˜ ao de ξ, obt´em-se:
ξ(α
nk
) =
b
1
2
+
b
2
2
2
+ +
b
n−1
2
n−1
+
0
2
n
+
1
2
n+1
+
1
2
n+2
+ =
=
b
1
2
+
b
2
2
2
+ +
b
n−1
2
n−1
+
1
2
n
= ξ(β
nk
).
Portanto, ξ toma valores iguais nos extremos dos intervalos δ
nk
.
Estende-se a defini¸ c˜ao aos pontos interiores a δ
nk
, definido ξ constante
igual ao valor comum nos extremos.
Sendo
0 = 0, 000 . . . e 1 = 0, 222 . . . ,
na base tri´ adica, calcula-se ξ(0) = 0 e ξ(1) = 1.
Complementos 149
Portanto ξ est´ a definida em todos os pontos do intervalo (0, 1) com
valores em (0, 1), mesmo nos extremos.
• ξ ´e mon´ otona n˜ ao decrescente.
´
E suficiente provar para os pontos de E porque ela ´e constante nos
outros pontos. Considere dois pontos x
//
≥ x
/
de E. Tem-se
x
/
= 0, a
/
1
a
/
2
. . . a
/
n
. . . e x
//
= a, a
//
1
a
//
2
. . . a
//
n
. . . ,
e para algum n tem-se
a
/
1
= a
//
1
, . . . , a
/
n−1
= a
//
n−1
mas a
//
n
≥ a
/
n
.
Logo pela defini¸c˜ao de ξ obt´em-se ξ(x
//
) ≥ ξ(x
/
).
Assim ξ cresce de 0 a 1, permanecendo constante nos intervalos
δ
nk
.
• ξ ´e cont´ınua em (0, 1).
´
E suficiente restringir-se aos pontos de E. De fato, sejam
x = 0, a
1
a
2
. . . a
n
. . . e x
/
= 0, a
/
1
a
/
2
. . . a
/
n
. . .
pontos de E sendo x
/
→ x. Logo, h´ a valores de n, quando n cresce,
tais que
a
/
m
= a
m
para todo m < n.
Resulta que
ξ(x
/
) = 0, b
1
b
2
. . . b
n−1
b
n
→0, b
1
b
2
. . . b
n−1
b
n
= ξ(x).
Logo ξ cont´ınua e mon´otona ´e deriv´ avel quase sempre em (0, 1) e
ξ
/
(x) = 0 quase sempre. N˜ ao vale o Teorema Fundamental do C´alculo
para ξ, porque

1
0
ξ
/
(x) dx = ξ(1) −ξ(0).
150 Integral de Lebesgue
• ξ n˜ ao ´e absolutamente cont´ınua.
Deduz-se do ´ ultimo argumento. Ser´ a feita uma demonstra¸c˜ ao di-
reta.
Considere-se a decomposi¸ c˜ao (α
nk
, β
nk
) de (0, 1) sendo α
nk
, β
nk
os
extremos de δ
nk
. Tem-se
ξ(α
k
) = 0, b
1
. . . b
n−1
0111 . . .
e
ξ(β
nk
) = 0, b
1
. . . b
n−1
1000 . . .
no sistema di´ adico. A fun¸c˜ao ´e n˜ ao decrescente. Logo
¸
k
[ξ(β
nk
) −ξ(α
nk
)[ =
¸
k
¦ξ(β
nk
) −ξ(α
nk
)¦ = ξ(1) −ξ(0) = 1.
Tem-se
¸
k

k
−α
k
) =

2
3

n
→0 quando n →∞.
Logo ξ n˜ ao ´e absolutamente cont´ınua.
´
E simples obter-se uma imagem gr´afica da fun¸c˜ ao ξ no sistema
ortogonal de coordenadas cartesianas no plano R
2
. Relembrando-se
os intervalos δ
nk
, obt´em-se:
ξ(x) =
1
2
em δ
11
; ξ(x) =
1
4
em δ
21
; ξ(x) =
3
4
em δ
22
. . . .
Colocando estes n´ umeros no sistema de coordenadas obt´em-se uma
id´eia do gr´ afico de ξ. (A. Kolmogorov–S. Fomin,
´
El´ements de la
Th´eorie des Fonctions et d’Analyse Fonctionelle –
´
Editions Mir-Moscou
(1974), p. 336).
Complementos 151
2.
Henri Lebesgue (1875-1941)
Em 1901 Lebesgue publicou uma pequena nota no “C.R. Acad.
Sci. Paris, 132, (1901) pp. 86-88”, completando um s´eculo em 2001.
Ali´ as, o conte´ udo desta nota n˜ ao ocuparia mais de uma p´ agina. Nela,
Lebesgue muda de modo profundo a maneira de definir a integral
idealizada por Riemann-Darboux.
Dada a relevˆancia para o desenvolvimento da An´ alise Matem´ atica,
por ocasi˜ ao do centen´ario da nota de Lebesgue, op. cit., J.M. Bony,
G. Choquet, G. Lebeau, publicaram: “Le centenaire de l’integrale de
Lebesgue, C.R. Acad. Sci. Paris, t. 332, S´erie I, (2001) pp. 85-90”, sa-
lientando a profunda mudan¸ca na An´alise Matem´ atica motivada pelas
id´eias de Lebesgue.
Para definir seu novo conceito de integral, Lebesgue faz a observa¸c˜ao
que ´e repetida a seguir.
Sup˜ oe f : [a, b] → R, limitada, crescente, sendo m, M, respectiva-
mente, o ´ınfimo e o supremo de f em [a, b], veja Figura 1.
152 Integral de Lebesgue
Considere-se uma parti¸c˜ ao P de [a, b] em intervalos [x
k−1
, x
k
], k =
1, . . . , n. Esta determina uma parti¸c˜ ao em intervalos [y
k−1
, y
k
], k =
1, . . . , n, de [m, M]. Reciprocamente, em face de ser f crescente em
[a, b], uma parti¸c˜ao de [m, M] em intervalos [y
k−1
, y
k
], k = 1, . . . , n,
determina uma parti¸c˜ao de [a, b] em intervalos [x
k−1
, x
k
], k = 1, . . . , n.
Portanto, no caso crescente, qualquer m´etodo de parti¸ c˜ao de [a, b] ou
[m, M] conduz a um mesmo conceito de integral, considerando-se:
(1) s
P
=
n
¸
k=1
(x
k
−x
k−1
)y
k−1
e S
P
=
n
¸
k=1
(x
k
−x
k−1
)y
k
.
Conclui Lebesgue que no caso em que f ´e crescente, limitada, obt´em-
se as integrais inferior e superior de Riemann-Darboux com parti¸c˜ oes
de [a, b] ou [m, M], conduzindo ao mesmo conceito de integral. O caso
decrescente limitado ´e an´ alogo.
Suponha f : [a, b] →R limitada mas n˜ ao necessariamente mon´ otona,
cf. Figura 2.
Complementos 153
Uma parti¸c˜ ao em [a, b] em intervalos [x
k−1
, x
k
], k = 1, . . . , n, per-
mite definir as somas de Darboux conduzindo a um conceito de integral
de Riemann.
Entretanto, fazendo-se uma parti¸c˜ ao [y
k−1
, y
k
], k = 1, . . . , n, y
0
=
m, y
n
= M, conclui-se que em [a, b] n˜ao se tem uma parti¸c˜ao em
intervalos, veja Fig. 4, para um caso simples. Em [a, b] obt´em-se os
conjuntos:
¦x ∈ [a, b]; y
k−1
≤ f(x) ≤ y
k
¦,
que, no caso Fig. 2, comp˜ oe-se da uni˜ao de quatro intervalos, sem
ponto comum. Se f for muito oscilante em [a, b] a parti¸c˜ao de [m, M]
determina subconjuntos bem gerais em [a, b].
Assim, segue-se um m´etodo heur´ısitco para concluir a nova de-
fini¸c˜ ao proposta por Lebesgue.
De fato, da parti¸c˜ ao [y
k−1
, y
k
], k = 1, . . . , n, y
0
= m, y
n
= M, de
[m, M], resulta em [a, b] a parti¸ c˜ao
(2) E
k
=
¸
x ∈ [a, b]; y
k−1
≤ f(x) ≤ y
k
, k = 1, . . . , n
¸
,
mas em subconjuntos E
k
.
Desejando-se manter as somas (1) para obter o novo conceito de
Lebesgue, surgem os problemas:
(i) Como atribuir aos E
k
dados por (2) um n´ umero positivo que
corresponda a “medida” dos E
k
como x
k
−x
k−1
mede o comprimento
dos intervalos [x
k−1
, x
k
], k = 1, . . . , n?
Suponha resolvido este problema. A cada E
k
, dado por (2), atribui-
se um n´ umero positivo representado por µ(E
k
), que se lˆe “medida
do conjunto E
k
”, generalizando o conceito de amplitude do intervalo
[x
k−1
, x
k
]. A estes conjuntos E
k
aos quais atribui-se uma medida,
Lebesgue denominou mensur´aveis. Os intervalos [x
k−1
, x
k
] s˜ao men-
sur´aveis.
Desta forma, as somas (1) s˜ ao reescritas, no caso de parti¸c˜ ao em
[m, M] em intervalos [y
k−1
, y
k
], y
0
= m, y
n
= M, k = 1, . . . , n, sob a
154 Integral de Lebesgue
forma:
(3) s
P
=
n
¸
k=1
y
k−1
µ(E
k
) e S
P
=
n
¸
k=1
y
k
µ(E
k
).
Resolvida esta etapa, surge um problema crucial:
(ii) Para quais fun¸ c˜oes limitadas f : [a, b] → R ´e poss´ıvel atribuir
uma “medida” µ(E
k
) aos conjuntos E
k
, da parti¸c˜ ao de [a, b] ? Dito
de modo equivalente, para quais fun¸c˜oes f : [a, b] → R, limitadas, os
conjuntos E
k
de [a, b] s˜ao “mensur´ aveis”?
Deste modo, para responder a quest˜ao (ii) Lebesgue restringe as
fun¸ c˜oes limitadas `a classe que ele denominou “fun¸c˜oes mensur´aveis.”
Dada f : [a, b] → R, limitada, denominou “mensur´ avel” quando para
todo par de n´ umeros α < β, o conjunto
¸
x ∈ [a, b]; α < f(x) < β
¸
,
for “mensur´avel”.
Conclui-se que tudo fica em ordem para as fun¸c˜oes f : [a, b] → R,
limitadas e mensur´aveis. Ele observa que as fun¸c˜ oes cont´ınuas a menos
de conjunto de medida nula s˜ ao exemplos de fun¸c˜oes mensur´ aveis.
Conclus˜ao. Aceitando-se as no¸c˜ oes de conjunto e fun¸c˜ao mensur´avel,
se f : [a, b] → R for limitada e mensur´ avel as somas s
P
e S
P
defini-
das em (3) est˜ ao bem definidas. Assim, define-se as integrais inferior
e superior, respectivamente, por sup
P
¦s
P
¦ e inf
P
¦S
P
¦. Quando estas
integrais forem iguais, a este valor comum denomina-se integral de
Lebesgue da fun¸c˜ ao f : [a, b] →R, representada por
(L)

b
a
f(x) dx.
Lebesgue provou que se f : [a, b] → R for limitada e mensur´avel,
ent˜ ao f ´e integr´avel.
Complementos 155
Suponha que se deseja ensinar a integral como idealizou Lebesgue,
por exemplo para fun¸c˜ oes
u: (a, b) →R.
As etapas seriam as seguintes:
(i) definir a no¸c˜ao de medida e conjunto mensur´ avel para os sub-
conjuntos de (a, b),
(ii) definir a no¸c˜ao de fun¸c˜ ao mensur´ avel para as u: (a, b) →R,
(iii) de posse destas no¸c˜ oes tudo fica em ordem sendo poss´ıvel
seguir corretamente o processo heur´ıstico.
H´ a uma vasta bibliografia com a constru¸c˜ ao da integral de Lebesgue
pelo processo original de Lebesgue. Entre estes, veja por exemplo
Natanson [13], Titchmarsh [22].
Note-se que a cria¸ c˜ao de Lebesgue modificou a An´alise Matem´ atica
a partir de sua nota de 1901. Todos os cursos b´ asicos de matem´atica
incluem uma disciplina denominada Integral de Lebesgue, impres-
cind´ıvel na forma¸ c˜ao dos estudantes de matem´ atica.
3.
Conjuntos N˜ao Mensur´aveis `a Lebesgue
Ser´ a apresentado um exemplo de conjunto n˜ ao mensur´ avel `a Lebes-
gue. A id´eia aqui exposta vimos, pela primeira vez, no livro de John
Von Neumann, Functional Operators, Vol. I, Measures and Integrals,
p´ agina 38, Princeton, USA, 1954. Posteriormente encontramos em
outros textos, sendo reproduzida a id´eia no presente apˆendice.
Representando por R o corpo dos n´ umeros reais e por Q o dos
racionais, considere-se em R a rela¸c˜ ao bin´ aria “∼”, definida do modo
seguinte: para x, y ∈ R diz-se que x ∼ y, lendo-se x equivalente a y,
se x − y for um n´ umero racional. Demonstra-se que a rela¸c˜ ao “∼”
156 Integral de Lebesgue
assim definida em R ´e uma rela¸c˜ ao de equivalˆencia, isto ´e, reflexiva,
sim´etrica e transitiva. Como conseq¨ uˆencia, o corpo R fica decomposto
em classes de equivalˆencia do tipo
K(x) = ¦x +r; r ∈ Q¦,
para x variando em R. Resulta que x ∼ y ent˜ ao K(x) ∩ K(y) = ∅,
isto ´e, as classes K(x) e K(y) s˜ao disjuntas. Cada classe K(x) cont´em
pontos do intervalo [0, 1]. De fato, dado x ∈ R toma-se r ∈ Q tal que
−x ≤ r ≤ 1 − x, ou seja, 0 ≤ x + r ≤ 1. Por meio do axioma de
Zermelo, considera-se o conjunto E ⊆ [0, 1] definido pela escolha de
um ponto em cada classe de equivalˆencia K(x).
Represente-se por (r
i
)
i∈N
a sucess˜ ao de todos os racionais de [−1, +1].
Defina-se E
i
= E+r
i
, a transla¸c˜ao do conjunto E por meio do racional
r
i
∈ [−1, +1].
Temos as seguintes propriedades:
i. [0, 1] ´e parte de

¸
i=1
E
i
:
De fato, seja x ∈ [0, 1], existe e ∈ E ⊆ [0, 1] tal que x − e ´e
racional. Tem-se 0 ≤ x ≤ 1 e 0 ≤ e ≤ 1, logo x −e ´e um racional
de [−1, +1], isto ´e, x−e = r
i
, r
i
membro da sucess˜ao dos racionais
de [−1, +1]. Resulta que x = e+r
i
pertence a algum E
i
, ou seja,
[0, 1] ⊆

¸
i=1
E
i
.
ii.

¸
i=1
E
i
´e parte de [−1, 2]:
De fato, se x ∈

¸
i=1
E
i
resulta que x ∈ E
i
para algum i ∈ N. Pela
defini¸c˜ ao de E
i
, conclui-se que se x = e +r
i
com e ∈ [0, 1] e r
i

[−1, +1]. Resulta que −1 ≤ e +r
i
≤ +2, isto ´e, x ∈ [−1, +2].
iii. Das inclus˜oes (i) e (ii) obt´em-se que [0, 1] ⊆

¸
i=1
E
i
⊆ [−1, +2].
Complementos 157
iv. O conjunto E n˜ ao ´e mensur´avel:
Observe-se, inicialmente, que se e, ˆ e s˜ ao elementos distintos de
E, n˜ao pode ser e ∼ ˆ e, isto ´e, e − ˆ e racional, pois as classes
K(x) s˜ao disjuntas. Prova-se que esta propriedade de E implica
E
i
∩ E
j
= ∅ se i = j. De fato, se assim n˜ ao fosse, resultaria
que existiria x ∈ E
i
∩ E
j
, isto ´e, x = e + r
i
= ˆ e + r
j
, logo
e − ˆ e = r
j
−r
i
∈ Q, provando que e ∼ ˆ e, contradi¸c˜ ao.
Suponha E mensur´ avel. Resulta que suas transla¸c˜ oes E
i
= E + r
i
s˜ ao mensur´ aveis e possuem a mesma medida de E, isto ´e, µ(E) =
µ(E
i
). De (iii) e da σ-aditividade da medida de Lebesgue µ resulta,
1 ≤ µ


¸
i=1
E
i

=

¸
i=1
µ(E
i
) =

¸
i=1
µ(E) ≤ 3,
contradit´ orio, pois a s´erie

¸
i=1
µ(E) ou ´e nula ou n˜ ao converge. Logo E
n˜ ao ´e mensur´avel.
Observa¸c˜ao 1: Esta vers˜ao do exemplo de Von Neumann pode ser
vista em: Russel A. Gordon - The Integrals of Lebesgue, Denjoy, Per-
ron and Henstock - AMS - 1995. Ver tamb´em I.P. Natanson - Theory
of Functions of a Real Variable - Fred Ungar Publishing Co. NY, 1995.
4.
Integral de Kurzweil-Henstock
1. Nos cap´ıtulos um e cinco, do texto, foram investigados os proble-
mas de reconstru¸ c˜ao de uma fun¸c˜ao por meio do conhecimento de sua
derivada. Constatou-se que na classe 1(a, b), das fun¸c˜ oes integr´ aveis
a Riemann em (a, b), o problema ´e bem posto na subclasse de 1(a, b)
constitu´ıda pelas fun¸c˜ oes cont´ınuas em [a, b]. Tamb´em v´ alido na classe
158 Integral de Lebesgue
das u ∈ 1(a, b) tais que u
/
∈ 1(a, b). Na classe L(a, b) o problema da
reconstru¸c˜ ao de uma fun¸ c˜ao por meio do conhecimento de sua deri-
vada, seria bem resolvido na subclasse de L(a, b) formada pelas fun¸c˜ oes
absolutamente cont´ınuas. Assim, se u for a derivada de v em (a, b) a
igualdade
v(x) = v(a) +

x
a
u(s) ds,
para todo a ≤ x ≤ b ser´ a obtida para as fun¸c˜ oes cont´ınuas em 1(a, b)
e para as absolutamente cont´ınuas em L(a, b).
Da´ı, surgiu o problema, no in´ıcio do s´eculo XX, de obter um con-
ceito de integral para fun¸c˜ oes u definidas em (a, b), representada por
I
b
a
(u), de modo que na classe H(a, b) das fun¸c˜oes integr´ aveis com este
processo, fosse resolvido o problema da reconstru¸ c˜ao de uma fun¸c˜ao
por meio do conhecimento de sua derivada. De modo preciso, se uma
fun¸c˜ ao v de H(a, b) possui derivada u finita quase sempre em [a, b],
ent˜ ao u ∈ H(a, b) e vale a igualdade:
v(b) −v(a) = I
b
a
(u).
Inicialmente este problema central da An´ alise Matem´atica, da ´epo-
ca, foi abordado por A. Denjoy, matem´ atico francˆes, 1912, obtendo
um conceito de integral, contendo o de Lebesgue, segundo o qual o
problema acima ´e resolvido.
Simultaneamente, O. Perron, matem´ atico alem˜ ao, em 1914, ima-
ginou um processo de integra¸c˜ao segundo o qual o problema da recons-
tru¸c˜ ao da fun¸c˜ ao por meio de sua derivada ´e resolvido, O processo de
Perron cont´em o de Lebesgue e foi demonstrado que ´e equivalente ao
de Denjoy e mais simples. V´ arias outras constru¸c˜ oes foram feitas na
esperan¸ca de resolver o problema da reconstru¸c˜ao de uma fun¸ c˜ao.
Os processos acima mencionados tiveram origens na integral se-
gundo Lebesgue. Em 1960 foi investigado por R. Henstock, um pro-
cesso de integra¸c˜ ao com o objetivo de reconstru¸ c˜ao da fun¸c˜ ao, por´em
Complementos 159
baseado nas id´eias de Riemann. Ele obteve, o que denominou Inte-
gral de Riemann Generalizada ou Integral de Kurzweil-Henstock. (R.
Henstock, A Riemann type integral with Lebesgue power, Canadian J.
of Math. 20 (1968), pp. 79-87, e R.G. Bartle, Return to the Riemann
Integral, Amer. Math. Monthly (out. 1996), pp. 625-632). Tendo em
vista a simplicidade do processo de Henstock, ser´a feito um resumo
das id´eias no par´agrafo que se segue.
2. Integral de Riemann Generalizada. Considere-se um intervalo
(a, b) da reta real R e fun¸c˜oes reais definidas em (a, b).
Considere-se a distribui¸c˜ao de pontos de (a, b) como segue:
a = x
0
< x
1
< < x
j−1
< x
j
< < x
n
= b.
Os intervalos fechados ([x
j−1
, x
j
])
1≤j≤n
s˜ ao dois a dois sem ponto in-
terior comum e sua uni˜ ao ´e igual a [a, b]. Uma fam´ılia de intervalos
com estas propriedades denomina-se uma parti¸c˜ ao de [a, b].
Uma parti¸c˜ao de [a, b] na qual escolhe-se, em cada subintervalo
[x
j−1
, x
j
], um ponto t
j
, diz-se indexada. Assim, uma parti¸c˜ ao in-
dexada ´e uma cole¸c˜ ao ordenada de pares [x
j−1
, x
j
] e t
j
, para j =
1, 2, . . . , n. Representa-se por
P =
¸
[x
j−1
, x
j
]; t
j
¸
1≤j≤n
,
uma parti¸c˜ ao indexada de (a, b).
Considere-se uma fun¸c˜ao u: [a, b] → R. Denomina-se Soma de
Riemann de u, correspondente ` a parti¸c˜ ao indexada,
P =
¸
[x
j−1
, x
j
]; t
j
¸
1≤j≤n
,
ao n´ umero
S(u, P) =
n
¸
j=1
u(t
j
)(x
j
−x
j−1
).
160 Integral de Lebesgue
Integral de Riemann. Diz-se que um n´ umero real I ´e a integral
de Riemann de u: [a, b] → R, quando para cada ε > 0 existe uma
constante δ
ε
> 0 tal que se
P =
¸
[x
j−1
, x
j
]; t
j
¸
1≤j≤n
,
para qualquer parti¸c˜ao indexada de (a, b) com
0 < x
j
−x
j−1
< δ
ε
, j = 1, 2, . . . , n,
ent˜ ao
[S(u, P) −I[ < ε.
Observa¸c˜ao 1: Admitir que δ
ε
> 0 ´e constante, traz grande restri¸c˜ ao
` a defini¸c˜ ao de integral de Riemann. Assim, obt´em-se uma integral
mais geral quando δ
ε
´e uma fun¸ c˜ao de (a, b) em R, estritamente po-
sitiva. A integral assim obtida resolve o problema da reconstru¸c˜ ao de
uma fun¸c˜ ao por meio de sua derivada, no contexto de Riemann.
Calibre sobre (a, b) (a, b) (a, b). Denomina-se um calibre sobre (a, b) a uma
qualquer fun¸c˜ ao δ : [a, b] →R estritamente positiva.
Parti¸c˜ao δδδ-fina. Considere-se um calibre δ : (a, b) → R e seja
P = ¦[x
j−1
; x
j
]; t
j
¦
1≤j≤n
uma parti¸c˜ ao indexada de (a, b). Diz-se que
P ´e δ-fina quando
0 < x
j
−x
j−1
< δ(t
j
), para j = 1, 2, . . . , n.
Demonstra-se que conhecido um calibre δ sobre (a, b) existe uma
parti¸c˜ ao δ-fina de (a, b). (R.A. Gordon, The Integrals of Lebesgue,
Denjoy, Perron and Henstock, AMS, 1995, RI, USA).
Integral de Riemann Generalizada. Um n´ umero real H de-
nomina-se integral de Riemann Generalizada da fun¸c˜ao u: [a, b] →R,
quando, para cada ε > 0, existe um calibre δ
ε
sobre (a, b) tal que
[S(u, P) −H[ < ε,
Complementos 161
para toda parti¸ c˜ao P = ¦[x
j−1
, x
j
]; t
j
¦
1≤j≤n
de (a, b) que seja δ
ε
-fina.
Diz-se que u possui H para sua Integral de Riemann Generalizada
e escreve-se
H =

b
a
u.
Representa-se por 1

(a, b) a classe de todas as fun¸c˜ oes u: (a, b) →R,
que possuem Integral de Riemann Generalizada.
Exemplos
• As fun¸ c˜oes integr´aveis ` a Riemann em (a, b), isto ´e, 1(a, b) per-
tencem a 1

(a, b).
´
E suficiente considerar calibres δ constantes em
(a, b). Resulta que as fun¸ c˜oes cont´ınuas em [a, b] pertencem a 1

(a, b).
• Considere a fun¸c˜ ao caracter´ıstica dos racionais do intervalo (0, 1),
conhecida, tamb´em, sob a denomina¸c˜ ao de fun¸c˜ao de Dirichlet. Re-
presentando-a por χ, tem-se χ(x) = 1 se x for um racional de (0, 1)
e χ(x) = 0 nos irracionais de (0, 1). Sabe-se que χ n˜ ao pertence a
1(0, 1). Ser´ a demonstrado que χ pertence a 1

(0, 1) e

1
0
χ = 0.
De fato, o problema principal ´e definir, para cada ε > 0, um calibre
δ
ε
sobre (0, 1). Para tal considere-se todos os racionais de (0, 1) inde-
xados na sucess˜ ao (r
j
)
j∈N
. Dado ε > 0, define-se a fun¸c˜ao δ
ε
em (0, 1)
do modo seguinte:

δ
ε
(x) = 1 se x for irracional
δ
ε
(r
j
) =
ε
2
j+1
, j = 1, 2, . . . .
A fun¸ c˜ao δ
ε
assim definida ´e, de fato, um calibre em (0, 1). Considere-
se uma parti¸ c˜ao indexada
P = ¦[x
j−1
, x
j
]; t
j
¦
1≤j≤n
,
162 Integral de Lebesgue
que seja δ
ε
fina, sendo δ
ε
definida acima. Isto significa que x
j−1
≤ t
j

x
j
e
[x
j−1
, x
j
] ⊂

t
j

1
2
δ
ε
(t
j
), t
j
+
1
2
δ
ε
(t
j
)

.
Note-se que h´ a no m´ aximo dois subintervalos [x
j−1
, x
j
] possuindo r
j
para ´ındice cuja amplitude de cada um ´e menor ou igual a ε/2
j+1
.
Logo, a contribui¸c˜ ao para S(χ, P) dos intervalos [x
j−1
, x
j
], com t
j
= r
j
para ´ındice, ´e menor ou igual a ε/2
j
. A contribui¸c˜ ao para S(χ, P)
das parcelas com ´ındice t
j
irracional ´e zero, pois nestes χ(t
j
) = 0.
Conseg¨ uintemente:
0 ≤ S(χ, P) =
n
¸
j=1
χ(t
j
)(x
j
−x
j−1
) <

¸
j=1
ε
2
j
= ε,
provando que χ possui Integral de Riemann Generalizada igual a zero.
N˜ ao ´e verdade que se u ∈ 1

(a, b) resulte que seu valor absoluto
perten¸ca a 1

(a, b). Isto n˜ao acontece ` a integra¸c˜ ao segundo Lebes-
gue. Todavia, a reconstru¸c˜ ao de u ∈ L(a, b) por meio de sua derivada
n˜ ao vale em geral em L(a, b) mas sim na subclasse das fun¸c˜ oes abso-
lutamente cont´ınuas. Entretanto, na classe 1

(a, b) das Integrais de
Riemann Generalizadas, vale o resultado geral sem recorrer `a subclas-
ses, pois este foi o objetivo para a cria¸c˜ ao deste processo que elimina
o defeito da Integral de Riemann, como foi o de Perron, por exemplo,
para suprir a falha da integral de Lebesgue.
Teorema Fundamental. Suponha-se v ∈ 1

(a, b) diferenci´ avel em
todo ponto. Ent˜ ao sua derivada u = v
/
possui Integral de Riemann
Generalizada e
v(b) −v(a) =

b
a
u.
Complementos 163
Prova: Seja t ∈ [a, b]. Sendo v
/
(t) = u(t) obt´em-se:
lim
z→t
¸
v(z) −v(t)
z −t
−u(t)

= 0.
Portanto, para cada ε > 0 existe δ
ε
(t) > 0 em [a, b], tal que

v(z) −v(t)
z −t
−u(t)

< ε, para todo z ∈ [a, b]
tal que [z −t[ < δ
ε
(t). Assim, δ
ε
(t) ´e um calibre em [a, b].
Da desigualdade acima, obt´em-se:
[v(z) −v(t) −(z −t)u(t)[ < ε[z −t[
para todo z ∈ [a, b] tal que [z −t[ < δ
ε
(t).
Portanto, se a ≤ ξ ≤ t ≤ η ≤ b e 0 < η −ξ < δ
ε
(t), resulta que:
[v(η) −v(ξ) −(η −ξ)u(t)[ ≤
≤ [v(η) −v(t) −(η −t)u(t)[ +[v(t) −v(ξ) −(t −ξ)u(t)[ ≤
ε(η −t) +ε(t −ξ) = ε(η −ξ).
Considere-se a parti¸c˜ao indexada
P =
¸
[x
j−1
, x
j
]; t
j
¸
de [a, b],
com calibre δ
ε
(t). Obt´em-se:
v(b) −v(a) =
n
¸
j=1
¸
v(x
j
) −v(x
j−1
)
¸
.
164 Integral de Lebesgue
Logo,
[v(b) −v(a) −S(u, P)[ =
=

n
¸
j=1
¸
v(x
j
) −v(x
j−1
)
¸

n
¸
j=1
u(t
j
)(x
j
−x
j−1
)



n
¸
j=1
[v(x
j
) −v(x
j−1
) −u(t
j
)(x
j
−x
j−1
)[ ≤

n
¸
j=1
ε(x
j
−x
j−1
) = ε(b −a),
para todo ε > 0. Isto implica que u ∈ 1

(a, b) e que

b
a
u = v(b) −v(a).
Conclui-se que concernente ` a reconstru¸c˜ ao de uma fun¸c˜ ao por meio
de sua derivada, a Integral de Riemann Generalizada supera a integral
de Lebesgue.
3. Aspectos Hist´oricos. Prefere-se fixar como in´ıcio do estabeleci-
mento do conceito de integral as investiga¸c˜oes de Newton (1643-1727)
e Leibniz (1646-1712). Estas concep¸c˜ oes s˜ao sintetizadas nas duas
seguintes linhas de id´eias:
• Idealizada por Newton como integral indefinida, na nomencla-
tura atual ou como fun¸ c˜ao primitiva. Denomina-se m´etodo descritivo.
• Concebido por Leibniz como integral definida, isto ´e, como uma
´ area. Ser´a chamado m´etodo construtivo.
Segundo Newton, uma fun¸c˜ ao real de vari´ avel real v denomina-se
uma integral indefinida ou uma primitiva de Newton, quando v possui
Complementos 165
uma derivada finita igual a u, isto ´e
v
/
= u.
A fun¸c˜ ao u diz-se integr´ avel no sentido de Newton e a varia¸c˜ ao de v
em [a, b], isto ´e, v(b) −v(a) denomina-se integral de Newton da fun¸c˜ ao
u em [a, b]. Toda fun¸c˜ ao integr´avel no sentido de Newton ´e finita.
A teoria da integral desenvolveu-se, inicialmente, segundo as id´eias
de Newton, processo bem natural por ser o inverso da deriva¸c˜ ao. A
teoria de Newton cresceu razoalvemente na ´epoca com aplica¸c˜ oes ` a
Mecˆ anica e `a F´ısica em geral. As id´eias de Leibniz, entretanto, per-
maneceram est´ aticas. Cauchy (1789-1857) retornou ` as id´eias de Leib-
niz com o estudo do conceito de integral na classe das fun¸ c˜oes reais
cont´ınuas no intervalo [a, b]. Definiu a no¸c˜ ao de integral para uma
fun¸c˜ ao cont´ınua u em [a, b], representado-a por

b
a
u(x) dx.
Para este conceito de integral segundo Cauchy para as fun¸c˜oes
cont´ınuas, ele provou que os conceitos de Newton e Leibniz se equiva-
lem: Ele demonstrou que se u for uma fun¸c˜ ao real cont´ınua em [a, b]
e a < x < b, ent˜ ao
v(x) =

x
a
u(s) ds
´e uma primitiva de u em [a, b], isto ´e, v
/
= u e que
v(b) −v(a) =

b
a
u(s) ds.
Este resultado da reconstru¸c˜ao de uma fun¸c˜ ao por meio do conheci-
mento de sua derivada denomina-se, atualmente, teorema fundamental
do c´alculo.
Cauchy desenvolveu suas id´eias estendendo o conceito para o caso
de uma semireta em vez de um intervalo compacto [a, b], obtendo
166 Integral de Lebesgue
o que denominou integrais impr´oprias. Definiu o conceito de valor
principal de uma integral impr´ opria que ´e uma concep¸c˜ao bem geral
neste contexto. (Augustin Louis Cauchy – Le Calcul Infinit´esimal –
Tome Premier, 1823, Ellipses Ed., Paris, France).
Supondo-se, ainda, o caso compacto [a, b], deseja-se estender o con-
ceito de integral para uma classe mais ampla que a das cont´ınuas.
Neste ponto Riemann e Darboux idealizaram um processo para defi-
nir a integral de uma fun¸ c˜ao u definida em [a, b], por´em apenas limi-
tada. A classe das fun¸c˜oes integr´aveis em [a, b] no sentido de Riemann
representa-se por 1(a, b). Esta classe que cont´em as fun¸c˜ oes cont´ınuas
em [a, b] n˜ ao possui a propriedade do teorema fundamental do c´alculo.
Como foi visto foi superado com o conceito de integral de Riemann
generalizada de Henstock, obtendo a classe 1

(a, b).
A integral de Riemann n˜ ao atendia a outras quest˜ oes fundamentais
da An´alise Matem´atica, como por exemplo, no estudo de convergˆencia
de s´eries de fun¸c˜ oes, principalmente tratando-se das s´eries de Fourier.
Seria imperativo reexaminar o conceito e procurar obter um outro mais
eficiente contendo o anterior. Da´ı, Lebesgue (1875-1941) idealizou um
conceito de integral que domina a An´alise Matem´ atica at´e os dias de
hoje, (ver Complemento 2).
Lebesgue observou que sendo a fun¸c˜ ao u definida em [a, b], uma
fina divis˜ ao de [a, b] em subintervalos pequenos n˜ao implicaria, para
fun¸c˜ oes gerais, que os valores de u estariam pr´ oximos. Ent˜ao diz ele:
“... il est clair alors que nous devons morceler, non pas l’intervalle o` u
varies x, mais l’intervalle limit´e par les bornes inferieurs et superieurs
de u. On consid`ere valeurs des x qui correspond a
y
v−1
≤ u(x) ≤ y
v
.
Les valeurs de x forment un ensemble E
v
. Avec une fonction quelcon-
que il peu ˆetre tr`es compliqu´e, mais peut import on lui attachera une
mesure m(E
v
).” (Henri Lebesgue, Le¸cons sur l’Int´egration et Recher-
che des Fonctions Primitives – Gauthier Villars, Paris, 1950, France).
Complementos 167
Assim pensando, Lebesgue publicou sua primeira nota em 1901, na
qual fixava a defini¸c˜ ao de medida e de integral atualmente ligada a seu
nome, dando um impulso consider´ avel ao trabalho de investiga¸c˜ ao em
An´ alise Matem´ atica.
No que concerne aos teoremas de convergˆencia de s´eries o progresso
da integral segundo Lebesgue ´e grande. Outro aspecto fundamen-
tal ´e a classe das fun¸c˜ oes integr´ aveis a Lebesgue L(a, b) ou mesmo
L
p
(a, b), 1 ≤ p ≤ ∞ que desempenharam pap´eis decisivos no pro-
gresso da An´alise Matem´atica e suas v´ arias aplica¸ c˜oes, principalmente
` as equa¸ c˜oes diferenciais parciais.
Resta examinar a reconstru¸c˜ ao de uma fun¸c˜ ao v por meio do co-
nhecimento da derivada. Dito de outro modo, como fica o teorema
fundamental do c´alculo na classe L(a, b) das fun¸ c˜oes integr´aveis `a Le-
besgue em (a, b). Embora muito geral, Lebesgue demonstrou que o
teorema fundamental do c´ alculo vale apenas na subclasse de L(a, b)
constitu´ıda das fun¸c˜oes absolutamente cont´ınuas. (Veja Cap´ıtulo 5 do
texto). Para suprir esta falha da integral de Lebesgue, h´a os processos
de integra¸c˜ ao de Denjoy e Perron conforme j´ a foi mencionado nestes
complementos e outros que surgiram posteriormente.
V´ arios s˜ ao os processos de definir a integral. Para facilitar a com-
preens˜ ao do leitor, vem organizado, a seguir, um quadro sin´ optico
contendo os m´etodos e os matem´ aticos envolvidos. O quadro foi orga-
nizado dentro das trˆes linhas de id´eias: Newton - m´etodo descritivo;
Leibniz - m´etodo construtivo; Daniel - m´etodo axiom´ atico. O quadro
mostra a evolu¸c˜ ao, no tempo, destas trˆes id´eias centrais da An´alise
Matem´ atica.
168 Integral de Lebesgue
M
é
t
o
d
o

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r
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v
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6
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-
1
7
2
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Complementos 169

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