MINISTÉRIO DA CULTURA Fundação Biblioteca Nacional Departamento Nacional do Livro

DENTRO DA NOITE
João do Rio

Preservai-nos, Senhor, das coisas terríficas que andam à noite Rei Davi

A FELIX PACHECO Cordíalmente JOÃO DO RIO

INDICE

Dentro da noite..................................................................................................pag 2 Emoções.............................................................................................................pag 5 História de gente alegre.....................................................................................pag 8 O fim de Arsênio Godard..................................................................................pag 13 Duas criaturas....................................................................................................pag 19 Coração..............................................................................................................pag 24 A noiva do som..................................................................................................pag 32 A sensação do passado........................................................................... ...........pag 35 Aventura de hotel...............................................................................................pag 40 O monstro...........................................................................................................pag 44 O bebê de tarlatana rosa......................................................................................pag 47 A parada da ilusão...............................................................................................pag 51 Laurinda Belfort..................................................................................................pag 55 A peste.................................................................................................................pag 59 Última noite.........................................................................................................pag 63 Uma mulher excepcional.....................................................................................pag 67 A mais estranha moléstia.....................................................................................pag 72 O carro da semana santa......................................................................................pag 78

DENTRO DA NOITE

— Então causou sensação? —-Tanto mais quanto era inexplicável. Tu amavas a Clotilde, não? Ela, coitadita! parecia louca por ti, e os pais estavam radiantes de alegria. De repente, súbita transformação. Tu desapareces, a família fecha os salões como se estivesse de luto pesado. Clotilde chora... Evidentemente havia um mistério, uma dessas coisas capazes de fazer os espíritos imaginosos arquitetarem dramas horrendos. Por felicidade, o juizo geral é contra o teu procedimento. — Contra mim? Podia ser contra a pureza da Clotilde. Graças aos deuses, porém, é contra ti. Eu mesmo concordaria com o Prates que te chama velhaco, se não viesse encontrar o nosso Rodolfo, agora, onze da noite, por tamanha intempérie metido num trem de subúrbio, com o ar desvairado... — Eu tenho o ar desvairado? — Absolutamente desvairado. — Vê-se? — É claro. Pobre amigo! Então, sofreste muito? Conta lá. Estás pálido, suando apesar da temperatura fria, e com um olhar tão estranho, tão esquisito. Parece que bebeste e que choraste. Conta lá. Nunca pensei encontrar o Rodolfo Queiroz, o mais elegante artista desta terra, nem trem de subúrbio, às onze de uma noite de temporal. É curioso. Ocultas os pesares nas matas suburbanas? Estás a fazer passeios de vício perigoso? O trem rasgara a treva num silvo alanhante, e de novo cavalava sobre os trilhos. Um sino enorme ia com ele badalando, e pelas portinholas do vagão viam-se, a marginar a estrada, as luzes das casas ainda abertas, os silvedos empapados d’água e a chuva lastimável a tecer o seu infindável véu de lágrimas. Percebi então que o sujeito gordo da banqueta próxima — o que falava mais — dizia para o outro: — Mas como tremes, criatura de Deus! Estás doente? O outro sorriu desanimado. — Não; estou nervoso, estou com a maldita crise. E como o gordo esperasse: — Oh! meu caro, o Prates tem razão! E teve razão a família de Clotilde e tens razão tu cujo olhar é de assustada piedade. Sou um miserável desvairado, sou um infame desgraçado. — Mas que é isto, Rodolfo? — Que é isto! E’ o fim, meu bom amigo, é o meu fim. Não ha quem não tenha o seu vício, a sua tara, a sua brecha. Eu tenho um vício que é positivamente a loucura. Luto, resisto, grito, debato-me, não quero, não quero, mas o vício vem vindo a rir, toma-me a mão, faz-me inconsciente, apodera-se de mim. Estou com a crise. Lembras-te da Jeanne Dambreuil quando se picava com morfina? Lembras-te

do João Guedes quando nos convidava para as fumeries1 de ópio? Sabiam ambos que acabavam a vida e não podiam resistir. Eu quero resistir e não posso. Estás a conversar com um homem que se sente doido. — Tomas morfina, agora? Foi o desgosto decerto... O rapaz que tinha o olhar desvairado perscrutou o vagão. Não havia ninguém mais — a não ser eu, e eu dormia profundamente... Ele então aproximou-se do sujeito gordo, numa ânsia de explicações. — Foi de repente, Justino. Nunca pensei! Eu era um homem regular, de bons instintos, com uma família honesta. Ia casar com a Clotilde, ser de bondade a que amava perdidamente. E uma noite estávamos no baile das Praxedes, quando a Clotilde apareceu decotada, com os braços nus. Que braços! Eram delicadíssimos, de uma beleza ingênua e comovedora, meio infantil, meio mulher — a beleza dos braços das Oréadas2 pintadas por Botticeli, misto de castidade mística e de alegria pagã. Tive um estremecimento. Ciúmes? Não. Era um estado que nunca se apossara de mim: a vontade de tê-los só para os meus olhos, de beija-los, de acaricia-los, mas principalmente de faze-los sofrer. Fui ao encontro da pobre rapariga fazendo um enorme esforço, porque o meu desejo era agarrar-lhe os braços, sacudilos, aperta-los com toda a força, fazer-lhes manchas negras, bem negras, feri-los... Porque? Não sei, nem eu mesmo sei — uma nevrose! Essa noite passei-a numa agitação incrível. Mas contive-me. Contiveme dias, meses, um longo tempo, com pavor do que poderia acontecer. O desejo, porém ficou, cresceu, brotou, enraigou-se na minha pobre alma. No primeiro instante, a minha vontade era bater-lhe com pesos, brutalmente. Agora a grande vontade era de espeta-los, de enterrar-lhes longos alfinetes, de coze-los devagarinho, a picadas. E junto de Clotilde, por mais compridas que trouxesse as mangas, eu via esses braços nus como na primeira noite, via a sua forma grácil e suave, sentia a finura da pele e imaginava o súbito estremeção quando pudesse enterrar o primeiro alfinete, escolhia posições, compunha o prazer diante daquele susto de carne que havia de sentir. — Que horror 1 — Afinal, uma outra vez, encontrei-a na sauteríe3 da viscondessa de Lages, com um vestido em que as mangas eram de gaze. Os seus braços — oh! que braços, Justino, que braços ! — estavam quase nus. Quando Clotilde erguia-os, parecia uma ninfa que fosse se metamorfoseando em anjo. No canto da varanda, entre as roseiras, ela disse-me — “ Rodolfo, que olhar o seu. Está zangado? “ Não foi possível reter o desejo que me punha a tremer, rangendo os dentes. — “ Oh! não! fiz. Estou apenas com vontade de espetar este alfinete no seu braço. “ Sabes como é pura a Clotilde. A pobresita olhou-me assustada, pensou, sorriu com tristeza: —“Se não quer que eu mostre os braços porque não me disse a mais tempo, Rodolfo? Diga, é isso que o faz zangado? “ — “ É , é isso, Clotilde. “ E rindo — como esse riso devia parecer idiota! — continuei “ É preciso pagar ao meu ciúme a sua dívida de sangue. Deixe espetar o alfinete. “ —~ Está louco, Rodolfo? “ — “ Que tem? “ — “ Vai fazer-me doer. “ — “Não dói. “ — “ E o sangue? ” —“Beberei essa gota de sangue como a ambrosia do esquecimento. “ E dei por mim, quase de joelhos, implorando, suplicando, inventando frases, com um gosto de sangue na boca e as frontes a bater, a bater... Clotilde por fim estava atordoada, vencida, não compreendendo bem se devia ou não resistir. Ah! meu caro, as mulheres! Que estranho fundo de bondade, de submissão, de desejo, de dedicação inconsciente tem uma pobre menina! Ao cabo de um certo tempo, ela curvou a cabeça, murmurou num suspiro “Bem, Rodolfo, faça... mas devagar, Rodolfo! Há de doer tanto! “ E os seus dois braços tremiam. Tirei da botoeira da casaca um alfinete, e nervoso, nervoso como se fosse amar pela primeira vez, escolhi o lugar, passei a mão, senti a pele macia e enterrei-o. Foi como se fisgasse uma pétala de camélia, mas deu-me um gozo complexo de que participavam todos os meus sentidos. Ela teve um ah! de dor, levou o lenço ao sítio picado, e disse, magoadamente — “ Mau!” Ah! Justino, não dormi. Deitado, a delícia daquela carne que sofrera por meu desejo, a sensação do aço afundando devagar no braço da minha noiva, dava-me espasmos de horror! Que prazer tremendo!

E apertando os varões da cama, mordendo a travesseira, eu tinha a certeza de que dentro de mim rebentara a moléstia incurável. Ao mesmo tempo que forçava o pensamento a dizer nunca mais farei essa infâmia! todos os meus nervos latejavam: voltas amanhã; tens que gozar de novo o supremo prazer ! Era o delírio, era a moléstia, era o meu horror... Houve um silêncio. O trem corria em plena treva, acordando os campos com o desesperado badalar da máquina. O sujeito gordo tirou a carteira e acendeu uma cigarreta. — Caso muito interessante, Rodolfo. Não ha dúvida que é uma degeneração sexual, mas o altruísmo de S. Francisco de Assis também é degeneração e o amor de Santa Teresa não foi outra coisa. Sabes que Rousseau tinha pouco mais ou menos esse mal? És mais um tipo a enriquecer a série enorme dos discípulos do marques de Sade. Um homem de espírito já definiu o sadismo: a depravação intelectual do assassinato. És um Jack-the-ripper-civilisado4 , contentas-te com enterrar alfinetes nos braços. Não te assustes. O outro resfolegava, com a cabeça entre as mãos. — Não rias, Justino. Estás a tecer paradoxos diante de uma criatura já do outro lado da vida normal. É lúgubre. — Então continuaste? — Sim, continuei, voltei, imediatamente. No dia seguinte, à noitinha, estava em casa de Clotilde, e com um desejo louco, desvairado. Nós conversávamos na sala de visitas. Os velhos ficavam por ali a montar guarda. Eu e a Clotilde íamos para o fundo, para o sofá. Logo ao entrar tive o instinto de que podia praticar a minha infâmia na penumbra da sala, enquanto o pai conversasse. Estava tão agitado que o velho exclamou: — “ Parece, Rodolfo, que vieste a correr para não perder a festa.” Eu estava louco, apenas. Não poderás nunca imaginar o caos da minha alma naqueles momentos em que estive a seu lado no sofá, o maelstrom5 de angústias, de esforços, de desejos, a luta da razão e do mal, o mal que eu senti saltar-me á garganta, tomar-me a mão, ir agir, ir agir... Quando ao cabo de alguns minutos acariciei-lhe na sombra o braço, por cima da manga, numa carícia lenta que subia das mãos para os ombros, entre os dedos senti que já tinha o alfinete, o alfinete pavoroso. Então fechei os olhos, encolhi-me, encolhi-me, e finquei. Ela estremeceu, suspirou. Eu tive logo um relaxamento de nervos, uma doce acalmia. Passara a crise com a satisfação, mas sobre os meus olhos os olhos de Clotilde se fixaram enormes e eu vi que ela compreendia vagamente tudo, que ela descobria o seu infortúnio e a minha infâmia. Como era nobre, porém! Não disse uma palavra. Era a desgraça. Que se havia de fazer?... Então depois, Justino, sabes? foi todo o dia. Não lhe via a carne mas sentia-a marcada, ferida. Cosi-lhe os braços! Por último perguntava: — “Fez sangue, ontem?” E ela pálida e triste, num suspiro de rola: “Fez...” Pobre Clotilde! A que ponto eu chegara, na necessidade de saber se doera bem, se ferira bem, se estragara bem! E no quarto, á noite, vinham-me grandes pavores súbitos ao pensar no casamento porque sabia que se a tivesse toda havia de picar-lhe a carne virginal nos braços, no dorso, nos seios... Justino, que tristeza !... De novo a voz calou-se. O trem continuava aos solavancos na tempestade, e pareceu-me ouvir o rapaz soluçar. O outro porém estava interessado, e indagou: — Mas então como te saíste? — Em um mês ela emagreceu, perdeu as cores. Os seus dois olhos negros ardiam aumentados pelas olheiras roxas. Já não tinha risos. Quando eu chegava, fechava-se no quarto, no desejo de espaçar a hora do tormento. Era a mãe que a ia buscar. “Minha filha, o Rodolfo chegou. Avia-te. “ E lá de dentro:” Já vou, mãe “.Que dor eu tinha quando a via aparecer sem uma palavra ! Sentava-se à janela, consertava as flores da jarra, hesitava, até que sem forças vinha tombar a meu lado, no sofá, como esses pobres pássaros que as serpentes fascinam. Afinal, ha dois meses, uma criada viu-lhe os braços, deu o alarme. Clotilde foi interrogada, confessou tudo numa onda de soluços. Nessa mesma tarde recebi uma

as que parecem doentes. Elas gritam. num entrechocar de todos os vagões. Mas o comboio rasgara a treva com outro silvo. De novo os apitos trilaram. De novo porém a envolveu um tremor assustado. Para esquece-la percorri os lugares de má fama. espiou o vagão. Sou outro homem. apareceu. mas um sorriso de medo. estou. As mulheres apontavamme a sorrir. uma menina loura com um guarda-chuva a pingar. Gozo agora nos tramways8 . Dei então para agir livremente. Depois estendeu-se na banqueta. Esses entes querem apanhar do amante. cavalgando os trilhos vertiginosamente. outras idéias. Apitos trilaram. Gosto mais das magras. O trem teve um arranco. A pedir. Justino. — Mas que vais fazer? — Não posso.. caminhou para outro. perdi-me. mais pálido. Eu peço desculpa. — E fugiste? — Não fugi. às 6 horas da tarde. o comboio parou. frequentei alcouces6 . entrou. Eu estava incapaz de erguer-me. O homem gordo recolheu a sua curiosidade. O rapaz olhou para os lados. o teu pobre amigo vai ficar louco. É muito mais simples. mas tremem de nojo assustado diante do ser que pausadamente e sem cólera lhes enterra alfinetes. nas desconhecidas. Ontem. às vezes. imaginando ouvir a cada instante um grito doloroso no outro vagão. outra voz. fazendo subir a vidraça da janela. correu para o vagão onde desaparecera a menina loura. vinha a acompanhar uma rapariga magrinha. Nesse momento. numa enxurrada de apodos. — Saltas aqui? — Salto. Aproximo-me. — Quando te encontrei. Mas ninguém descobre se foi proposital. consultou a botoeira. Nada mais resta do antigo Rodolfo. rolei. em que estava a menina loura. A voz do desvairado tornara-se metálica. tenho outra alma.carta seca do velho pai desfazendo o compromisso e falando em crimes que estão com penas no código. O teu pobre amigo está perdido. Perder a Clotilde foi para mim o sossobramento total. A enorme massa resfolegando rangeu por sobre os trilhos. as sebes empapadas d’água sob a chuva torrencial. no alto da locomotiva. de horror. Estávamos numa estação suja. iluminada vagamente. enterro sem dó o alfinete. deixa-me! Adeus! Saiu. O rapaz pôs-se de pé logo. Uma já me esbofeteou. Logo o comboio partiu. Houve um silvo. ao acaso. Dois ou três empregados apareceram com lanternas rubras e verdes. acordando a noite. o enorme sino reboava. De repente. que me . Assisto-me endoidecer. nos comboios dos caminhos de ferro. hesitou um instante. EMOÇÕES A Henrique de Vasconcellos. Eu era ridículo e pavoroso. enchendo a treva de um clamor de desgraça e de delírio. sofrem lanhos na fúria do amor. outra vez. tomo posição. Estou com a crise. sem dar satisfações. Através das vidraças molhadas viam-se numa correria fantástica as luzes das casas ainda abertas. E à frente.. fui buscar ao clube da rua do Passeio o velho barão Belfort.. como o rebate do desespero. O rapaz apertou a cabeça com as duas mãos como se quisesse reter um irresistível impulso. nas ruas. aluguei por muito dinheiro a dor das mulheres infames. — Adeus. a rogar um instante de calma eu corria ás vezes ruas inteiras da Suburra7 . nos music-halls.. Até aí o meu perfil foi dentro em pouco o terror.

— Pois não imagina o mal que fez ao pobre Osvaldo. a sua cara coleção de esmaltes árabes. não chego a ser o bisbilhoteiro das taras do próximo. Pôs as duas mãos nervosas na mesa.. Acompanhei-o. com um pálido crisântemo. e assim pálido. os delírios. os seus olhos tinham chispas de susto e de prazer. De repente. — O Osvaldo permite? Vou embora sem mais um real. da cor da sua tez. Belfort aconchegou-se à almofada de cetim malva. quero gozá-lo.. mirou a gravata. Até amanhã. que ainda tem emoções. — Oh! ser horrível e macabro! — Seja.. tamborilando os dedos na mesa. O rapaz estava horrivelmente pálido! — Tal qual como o outro. queima. Mas daí a perde-lo. Ao ver-me. Embaixo. Preciso não limitar a minha ação humana aos passeios pelo Oriente. Havia meia hora que me roubava escandalosamente. para vender. Os seus olhares seguiam. e perguntou. sorrindo. que à lapela trazia um crisântemo amarelo. — Fazes bem. entre desconfiado e satisfeito. não sem olhar para traz. no vestiário. as pupilas acenderam-se-lhe. disse amavelmente — Estamos a jogar. paciente. dizia a cada instante frases amáveis. enquanto o carro rodava. os paroxismos sentimentais dos outros é a mais delicada das observações e a mais fina emoção. ativo. e saiu. Eu gosto de ver as emoções alheias. e. O Osvaldo ganha como um inglês e com a alucinação de um brasileiro. mas delicado. o jogo do bom Osvaldo.. a cada cartada. — O Chinês? Belfort soprou o fumo da cigarrilha. O Osvaldinho é tal qual o outro. Belfort sorria um sorriso mau. — Oh! não. o veneno! Sorriu com delicadeza. e. É por isso que eu não quero perder o Osvaldo. Não lhe disse nada. macabro. porém. acendeu uma cigarrilha do Egito com o seu monograma em ouro.. às coleções autênticas e a alguns deboches nos restaurantes de grão tom. mas sou o gozador das grandes emoções de em torno. enquanto mais pálido o moço estacava: — E tu não jogas? — Não. Ainda é possível salva-lo. três dias antes. O moço pendia a cabeça na sombra. rebenta numa banca de jogo. Levantou-se. Estou perdendo e apreciando este bom Osvaldo. — Imagina que vai para um ano fui apresentado a um rapaz chamado Praxedes. horrível.prometera mostrar.. o homem é um animal que gosta. forçar as paixões. a minha última observação. meu caro! que caso admirável! Esse pequeno ha seis rneses odiava o víspora10 . c’est trop fort. Ver sentir. O veneno! ora vê tu. Era imberbe. E não deixe de tomar água de flor de laranja. Que exemplar. e tamanha que já rouba. O gosto é que varia. e partimos discretamente. o Chinês. estava no comércio. sob a tarde luminosa e cor de pérola. Ah! o jogo! É o único instinto de perdição que ainda desencadeia tempestades nos nervos da humanidade. Um escritor do tempo de Balzac dizia que o jogo era para a mocidade o veneno da perdição. quero apenas gozá-lo. — Quer perde-lo? indaguei habituado ás excentricidades desse álgido ser. Simpatizei com ele.. deixando o jovem só naquele salão que o pleno verão tornara deserto. e casara com uma interessante . com um carregamento de poterias e bronzes por contrabando. frios e argutos. Hoje tem a voracidade de ganhar. e vinha de Xangai. Amanhã arde. filho de uma chinesa e de um negociante português em Macau. O barão jogava e perdia com um moço febril. o barão deixou que lhe enfiassem o paletó. mirou as unhas brunidas. indagou: — Que tal achaste o Osvaldo? É o meu estudo agora.. Tu sabes. mandou chamar o coupé9 . O homem falava inglês.

pediu a outros. as jóias da Clô. à cruz que cada homem tem de carregar na vida. rebenta. Estava pálido. abandonara o emprego. O duble-zero falhou. Conversou da China. já sem cantar. a chance desandou. as roupas. Praxedes voltou.” Agarrou a nota como um desesperado. definitivamente preso à sua cruz de horror. como homem delicado. escute aqui. a má sorte.. voltava para o jantar. Perdi. esperem!” E caiu por cima dos outros. Empreste-me cinquenta mil réis para arrumar tudo no 00.. meu caro.. A paixão estalara. Uma noite em que o convidara para jantar. fazia inúteis esforços para o arrancar à mesa. serve? ” Compreendi então a descabida vertigem daquela queda. Adivinharia alguém que cratera esperava o momento de rebentar nessa alma tranquila? A senhora. fraco. já o tratava de dom Praxedes. quando o chinês enleado12 apareceu pedindo outra partida. Praxedes começou a perder bruscamente com gestos de alucinado. pendido ao meu braço o miserável soluçava: “ — Havemos de melhorar. joguei e perdi No outro dia. deram-lho. de um abismo em vertigem. Ah ! está dando hoje escandalosamente. assoando-se de vez em quando. sem dragões e sem vícios! Estudei-o. jogamos. Jogamos outra. precipitou-se na roda que cercava o tableau da direita: “Tenho aqui cinquentão. a Clotilde — Clô para os íntimos. meses depois. Com os dedos trêmulos. murmurava ele. Pediu-me dinheiro. que cena! que fina emoção! O jogo. é o mais belo vício da vida. Disse-lhe despreocupado — “ Quer jogar?” — “ Não sei”. e Clotilde. Ele voltou cínico: “ É preciso insistir. o Praxedes rouquejava num estertor silvante que parecia agarrar-se desesperadamente à bola: 27. porém. A gente do clube. dos boxers11 . Acabou não voltando mais ao clube. vendera o mobiliário. Invejei-o. — “ Mas isso assim sem dinheiro? Ponhamos dois tostões ”.. com o fato enrugado e a gravata de lado. — “Calma. O Chinês era patético. espalhando as fichas como quem arranca pedaços da própria carne. Arrastei-o quase à força para a rua. ganhar mesmo uma fortuna. — a paixão voraz. Eu. empreste-me algum. trabalhava. num esforço que o tornava roxo. Estou farto de peruar14 . Pediu mais — deixou de ser o dom Praxedes. “ Redobra-se a parada?” — “Oito tostões?” — “ Sim”. Deitei-me sem conclusões. puxando-a para o numero desejado. dizia-lhe eu “. Não tinha um vício. Legislativamente moral. é que compreendi o assombro. Isto de mirone15 não me serve. quando empolga. nunca tivera um vício. Também durante três dias e três noites Praxedes não deixou a roleta.. Certa noite. mudara-se para uma casa menor e alugara a sala da frente. Que vida feliz a daquele casal! O Praxedes saía pela manhã. e. os olhos embaciados. dei-o. 15. estou sem níquel !” Deixei-o sem níquel. quase vítreos. olhou-as indiferente. com o braço esticado. Levei-o ao clube. era um chinês espantoso. domina e envolve o homem. sentia-o em outros antros. fi-lo contar-me a vida. à roleta. — “ Pois seja ”. Faremos uma vaca16 ? Vai dar pela certa. cantava no meu piano. Correu para mim. e só no dia seguinte. deixe ver mais algum. Eu estava receoso que depois surgissem variações sobre o bailado das Horas. com os olhos . analisei-o. Ah! meu caro. hipoteco-lhe uma mobília de quarto. uma flor de beleza. e. a ária do suicídio da detestável Gioconda. 2ª dúzia! 27. recebeu recusas brutais. com voz triste. “É sempre agradável ensinar mesmo o vício”. donde saiu a ganhar pela madrugada. Pegou das cartas. Jogamos a primeira partida. — “ Pois seja” À meia noite jogávamos a dez mil réis. confessou o contrabando e levou-me a vê-lo. 15. escorcha. — “ Impossível! impossível!”. Tive pena. encontrei-o numa batota13 da rua da Ajuda. Ao cabo de uma semana. Nada. Os seus olhos começaram a luzir. e a alma do pobre esfacelavase na corrida. vendo-o ganhar. e não se largava mais de junto da Clô. Estava desempregado. esforçando-se. Não dá? Olhe.. mas fui ao outro dia ver a Clotilde. a guigne perseguiam-no. Jantei no clube só para não perder algumas horas o interesse desse espetáculo. os vestidos. a Clotilde. entretanto. muito cansada. “Foi Deus que o trouxe. é o enlouquecedor espetáculo de uma catástrofe sempre iminente. A cábula17 . que corrói. — “ Então ensine”. 2ª dúzia! E a bola corria. mas as minhas palavras ouvia-as desvanecedoramente.rapariga.

— “ Onde vais?” — “Vou ver se arranjo uns cobres. para arranjar dinheiro . Praxedes. — Clô”. só quinhentos!” Era a alucinação. E o olhar vítreo. embrulhando a casaca do casamento. pois não? O homem tinha uma bola de aço e a fidelidade da mulher! Só esses seres especiais conseguem coisas tão difíceis! Um instante o barão calou-se. Hipotecou a mobília. O barão saltou. os juros eram semanais. com a cabeça fendida e os lábios coagulados de sangue roxo. Clô.. mercadejava-a aberta. a mão recurva. O som. Era ele. — Preciso sentir vendo os outros sentir. ah! esse som como me ensandece! Ainda o ouço ! E ele todo em sangue. caiu nos meus braços.... aquele homem que amava a mulher. porém. de repente. tão triste. esticou o pescoço desesperadamente e rodou.. — “Que queres tu? indaguei áspero. Garanto-te que o Osvaldo acaba como o chinês de Macau. Às vezes brigo. Quando cheguei. era acabar logo. como foi isso? ” — “ Sei lá como foi! Tinha que ser! A desgraça! Estava doido. tenho de jogar. não estou. que hei de fazer? É uma força. todo em sangue. Praxedes ! Praxedes ! Não faças isso! Praxedes! Gritei. Não arranjei dinheiro e o judeu levou-a. caindo. fui ver Praxedes. — “ Então. por aí. solucei. respondeu. e esperei ansioso como quem espera o final de uma tragédia. Eu fui cruel: olha que se vendes a casaca ficas sem roupa para o enterro. na cama. com sorrisinhos equívocos na face escaveirada: “ Esteve com a Clô. ele! ” — “Ele ama-me. uma força que me puxa os músculos. Dormi no chão. com os lábios em sangue. pois não?. digno no fundo. Afinal há de haver seis meses. Estava cor de cera. que saio a pedir.. é melhor mesmo. Oh! o horror! salve-me! salve-me!” Abri o grupo dos agentes.. mas ele diz-me : Ai ! Clô. e a noite. hein? Conservada apesar da desgraça. Ai ! menino. some-te! ” — “Eu hipoteco uma mobília. pareciam seguir ainda e acompanhar o mal a que o impelira a sua bola de aço. e ele? Que seria dele? ” — “ Ora. Corri-o. não sei o que senti. .” É espantoso. voltou-se. desdobrava por sobre o mar a talagarça18 fuliginosa das primeiras sombras. A minha vontade era ver. Preciso jogar.. assim. Mas que quer? Veio-lhe a desgraça.” — “ Abandone-o! ” — “ Abandona-lo eu? E a sociedade. Agarrei-o. Arrastou-me até à janela. Anda por aí a jogar. Clotilde..vermelhos de chorar e as roupas já estragadas. subiu de vagar as escadas de mármore.” — “Estás doido!” — Não estou. sob a luz da madrugada. Há dois dias não o vejo. vai. Acuda-me. tem vergonha. eu não posso mais !” E.” Recuei assombrado. Nunca vi sentir tão vertiginosamente. li. “ Para o enterro? para o meu enterro? É melhor mesmo. fez ele arregalando os olhos. Ele parou.. Praxedes matou-se. Ontem não apareceu. fez mirando-se no alto espelho do vestiário. este bilhete desesperado “Venha. amame como dantes. já assustado com as proporções emocionais do marido. Esse record de emoção desesperada prostrou-me.. lívido. Aquele homem bom. desesperado. Qual! Cada vez arrumava o crânio com mais força de encontro às quinas das portas. a minha mulherzinha. O coupé rolava pela praia. Parece que desenrolaram uma bola de aço dentro de mim. Estou sem ninguém. começou a bater com a cabeça pelas paredes. tão triste que até lhe vou arranjar dinheiro. era saber. Só assim tenho emoções. Só os chineses morrem às cabeçadas por sentir demais ! E fomos jantar tranquilamente na sua mesa florida de cravos e anêmonas brancas. — “ E seu marido? ” — “ Meu marido está perdido. por sistema. desgrenhada. cínica. Só quinhentos.com que satisfazer as cartas e a roleta. hoje não comi. O carro parara. E cai em prantos. antes do meu encontro com o Osvaldo. Hoje estava eu a dormir quando o senti que caminhava. sinto uma ânsia. mas por outro meio —com a morfina talvez. Risquei o fósforo. arranjar dinheiro. — Respeitei a Clotilde. às voltas com a polícia que queria levar o corpo para o Necrotério. Ao outro dia. porque tinha a certeza do paroxismo daquele vício. deixou-se cair em cheio com a nuca na sacada.. às 3 da manhã. Não sei o que me deu. enquanto no interior do palacete retiniam campainhas elétricas. Ia sair. despejadamente. não posso mais. Precipiteime.

De súbito. Havia na sombra do terraço. deus! goo. até o alemão com o predomínio do parigot. os cristais. que se cumprimentavam rápidos. empertigavam-se. havia fonfons roucos. cuja primeira refeição deve ser o jantar. ardia na noite serena. Falavam todas línguas estrangeiras — o espanhol. iam chegando as cocottes31 . muito gordas e pintadas. arrancos bruscos de máquinas H. era uma excitação para a gente chique. ingleses de smoking e parasita à lapela. os baldes de christofle28 tinham reflexos. um desfilar de figuras que lembravam Rossetti e Heleu. de piadas. antes de terminar o jantar teríamos a mesa guarnecida por alguma daquelas figurinhas escapas de Tanagra37 ou qualquer dos gordos monstros circulantes. Aquele ambiente de internacionalismo à parisiense cheio do rumor de risos. Julião e também Abel Faivre. mais uma “ vila ” da bacia do Mediterrâneo. no Cairo. porque havia cocottes gordas. que adejam vôos de mariposas e têm fermatas que parecem espasmos. criados italianos marca registrada como a melhor em Londres. e que apareciam de olheiras. esse maravilhoso terraço de vila do Estoril.. Os criados. americanos de casaca e também de brim branco com sapatos de jogar o foot-ball e o lawn-tenis23 . Evidentemente. Eram sete horas. estávamos ambos no terraço do Smart-Club. a voz pastosa. embebendo os olhos na beleza confusa das cores do ocaso e no banho viride19 de todo aquele verde em de redor.. os noceurs24 habituais. Algumas vinham a arrastar vestidos de cinco mil francos. vindos todos de Buenos-Aires e de S. No meio daquela roda de homens. A casa toda parecia mesmo ali pousada á beira dos horizontes sem fim como para admira-los. as toalhas brancas.HISTÓRIA DE GENTE ALEGRE O terraço era admirável. o mar.. uma dessas valsas de lento enebriar. Capielo e Sem. gestos a contragosto do corpo. e a luz dos pavimentos térreos. Mas a noite já estendia o seu negro brocado picado de estrelas e no plein-air do terraço começavam a chegar os smart-diners. na alegria do terraço ouvi por trás de mim uma voz de mulher dizer: . risos postiços. todos bonecos vítimas da diversão chantecler. Com o ardente verão ninguém tinha vontade de jantar. um cheiro de salsugem22 polvilhava a atmosfera tão levemente. de gluglus de garrafas. em New-York. Tomava-se um aperitivo qualquer. Fora.. 60. Paulo. Plo. do argot. a iluminação dos salões de cima contrastava violenta com o macio esmaecer da tarde. os elegantes cariocas com risos artificiais. O barão André de Belfort. Estávamos no Smart-Club. e vinha de cima uma valsa lânguida. o francês. da langue verte33 . E a viração era tão macia. P. que a vontade era de ficar ali muito tempo. a linha ardente do cais e o céu que tinha luminosidades polidas de faiança persa. dizendo apenas as últimas sílabas das palavras: — B’jour. parecia a miragem dos astros do alto. pensando no bac-chemin-de-fer26 . Por sobre as mesas corria como uma farândola29 fantasista de pequenas velas com capuchons30 coloridos. de gestos vulgares. O prédio. outras tinham atitudes simplistas dos primitivos italianos. O soalho envernisado brilhava. à entrada. porém. Que curioso aspecto! Havia franceses condecorados. a grande mesa de baccarat20 . As salas lá em cima estavam vazias. Mirande e Herman-Paul. dominando um lindo sítio da praia do Russel — as avenidas largas. ajaezadas de jóias. elegantíssimo na sua casaca impecável convidara-me para um jantar a dois em que se conversasse de arte antiga — porque ele tinha estudos pessoais sobre a noção da linha na Grécia de Péricles36 . no 9 de cara e nos pedidos do último béguin27 . o italiano. suando e praguejando. paravam as lanternas carbunculantes35 dos autos. as modernas Aspásias32 da insignificância. Só se falava mesmo calão de boulevard34 . onde algumas pequenas e alguns pequenos derretiam notas do banco — a descansar. Os divãs21 modorravam em fila encostados às paredes — os divãs que nesses clubes não têm muito trabalho. sem fazer nada. e os michés25 ricos ou jogadores.

Nesses almoços discute-se a generosidade. com a fobia do artifício. quando os vão ver fazem tais excessos que deixam de ser mães. cascateiam lagrimas. Não há mais nada de verdadeiro. A mulher conversava noutra mesa. Elas acordam para o almoço. descansou o monóculo em cima da mesa. embriagam-se em vez de beber. — A Elsa. Uma interessante pequena pode se resumir: nome falso. À noite. a gargalhada. crispação de nervos igual à exploração dos “gigolôs” e das proprietárias. Beleza horrível. têm que embriagar-se e discutir os homens. é sempre para além do natural. como direi? as excedidas das preocupações. altamente cotadas ou apenas da calçada. Se têm filhos. põem dinheiro pela janela à fora em vez de gastar. Parece que a apreciavas? Pobre rapariga! Foi com efeito ela. dançar entre cada serviço ou mesmo durante. mas soube morrer furiosamente. o jantar em que é preciso fazer muito barulho. a pele veludosa de rosa-chá e aquela esplêndida cabeleira negra de azeviche? E morrer em plena apoteose. Morreu esta madrugada. e murmurou: — É uma história interessante. não choram. cuja especialidade sexual era desvirginar meninas púberes? Seria ela com os seus olhos verdes. Elsa! Seria a Elsa d’Aragon. Todas amam de modo excepcional. Estão sempre enervadas. o champanhe. e elas fatalmente pela lei. com os quais tem contrato as proprietárias. e a obrigação de ir a um certo clube aquecer . mesmo porque não o são. toilette e o passeio obrigatório. então? — A Elsa foi atirada subitamente numa pensão do Catete. Às cinco. Devia ter sido uma linda morte. em todos os conventilhos elegantes patronados pelas velhas cocottes ricas. paroxismadas. tenha ela centenas de contos ou viva sem um real pelas bodegas reles. Depois o passeio aos music-halls. nas rodas dos jogadores. dizer tolices. a vida tem um regulamento geral de excessos. à luz elétrica. mesmo porque não o são. O barão atacou a “ bisque”. A tarde é dada a um ou a dois. Uma paixão de cocotte é sempre caricatural. Não se fala noutra coisa hoje nas pensões de artistas. O almoço é muito em conta. do verdadeiro. os vinhos são caríssimos. Desde manhã elas bebem champanhe e licores complicados. têm de amar um rapazola miserável que lhes coma a chelpa43 e as bata. e a sua pobre vida.— Pois então não sabes que a Elsa morreu hoje de madrugada? Não me voltei. — De repente? — Com certeza. praticam tais loucuras que deixam de ser amantes. Mas senti um pasmo assustado. Acabou tranquilamente a grave operação. ou a voracidade dos machos. — Como foi? Neste momento chegara a “bisque”40 e o balde com a Môet. A Elsa era muito nature39 . Duas horas depois os pequenos estão esquecidos. os negócios das outras. Você de certo ainda não quis fazer a psicologia da mulher alegre atirando-se a todos os excessos por enervamento de não ter o que fazer? Quase todas essas criaturas. ganem. em que aparecem vários homens ricos. a pintura encobrem uma lamentável pobreza de sentimentos e de sensações. mais dinheiro apanhado e beijos dados. tudo mais ou menos exorbitando. O meio é atrozmente artificial. Sabes o que é a vida em casas de tal espécie. são. Cinco anos de profissão acabam com a alma das galantes criaturinhas. têm que fazer pagar caro e arruinar os idiotas. é sempre uma hipótese falsificada de vida. A obrigação é fazer vir vinhos. brut imperiale41 . a tolice. Elas tem varias paixões na vida. São fantoches da loucura movidos por quatro cordelins da miséria humana. jogam excessivamente. cheia de jóias e de apaixonados! Indaguei do meu conviva: -— Morreu a Elsa d’Aragon? O barão Belfort encomendava enfim o cardápio. lançada havia apenas um mês por um manager38 de music hall. quando choram. deu não sei que ordem ao maître-d’hôtel. Ao demais. uma espécie de fiorde num copo d’água. que o velho 42 dandy bebe sempre desde o começo do jantar. — Exatamente. uivam. uma carnação maravilhosa de dezoito anos. Se amam.

muito naturalmente. — Corri-a ontem do meu quarto.. passar uma noite percorrendo os bairros pobres. as duas Lacroix Ducerny.” Quando dei a volta para falar a Elisa. coitadas ! mais malucas no manicômio obrigatório da luxúria. perdida.” —“Então. tem conhecimentos. Mas naturalmente ela é excepcional. minha querida. que ela percebe. já esta . Era a aproximação. a conversar com os anjos. Mesmo porque. É um demônio. homem!” — “ Se a menina continua a gritar.” — “ Já sei. Está magnifico. aconselhar a vida honesta. e para encher o vazio. Podia também. o nature.. não tenho mais liberdade. não é isso. ou se picam com morfina.. asseguraramme que Elisa já não servia para nada. os vícios bizarros surgem. nada de repugnâncias. eu vi a Elsa com um conhecido banqueiro e. toda a gente faz. como vai com esta vida?” — “ Como vê. éter ou morfina..” —“Não. como a pobre Elsa estava totalmente fora dos nervos e com um vestido verdadeiramente admirável..” —“Com um tão belo físico. o romântico. ou cheiram éter. e. por exemplo. um nojo em que havia medo ao mais simples contato. O resto é ainda o homem até dormir. muito bem.” — “É difícil. já não sou eu.” E de súbito — “ Diga-me. se fosse um idiota. fale-me sinceramente. a interessante Elisa. É que eu estou tão nervosa! tanto! tanto. arranja entrevistas. tive prazer em ir apertar-lhe a mão. a surmenagem46 do artificio. É feia. — “ Não fale alto. e Elsa sentia uma extraordinária repugnância. usa eternamente um gorro de lontra. Queria que me desse um conselho. Num camarote fronteiro a Elisa olhava com os seus dois olhos de morta.” — “ De acordo. é uma questão de nervos.. Cada uma delas têm o seu cachet por esse serviço e são multadas quando vão a outro — que. nos paraísos artificiais são muito mais para rir. Você sofre de um mal comum. por quem é. as que vestem sempre iguais e fazem fortuna em comum. no Casino.”— “ Mas você precisa de um demônio.” —. Nunca a vi com uma jóia e sem o seu tailleur cor de castanha. Nesse fantochismo lantejoulado há vários gêneros: o doidivana. há quando muito velhos recém-nascidos. pele sensível. Ancas largas. o sério. pregando-se a todos os seus gestos. Ora. participo-lhe que vou embora. ontem. estava excedida.. era Elisa com os seus dois olhos mortos e velados que olhava Elsa. os rapazes calvos e. deixe os cumprimentos. Uma noite.” Voltei-me para a sala.” — “Não seja mau..” — “ O que ela faz. paga a multa. não deve agradar aos homens. Depois não tem recursos e teria sempre que pôr em circulação o seu lindo capital. experimentar. A Elsa era do gênero nature. mas presta-se a todos os pequenos serviços dessas damas. Tem os cabelos cortados.” — “Mas não é isso. Acabo por acostumar.” — “ Mas está nervosa. Elisa ao lado. barão. o reservado.. desde o abuso do éter até o unisexualismo45 . “ Nesta roda não há belos rapazes. com oito dias estava com os nervos esgarçados. tinha uma imensa vontade de chorar. minha filha. animal sem vícios. Mas isso seria impossível porque o pesar de ter saído desta em que o desperdício é a norma. minha cara.” — “ Há de ser de falta de hábito.” — “ Adeus.” — “ Barão. a Elisa”. louca de paixão. — Ah! — Elisa é um tipo talvez normal nesse ambiente. Mas é recorrer à multidão. Eu podia dizer-lhe: recolha-se a um convento. — Safa! — Meu caro. como é de prever. não há um meio da gente se ver livre disto? Não posso. — “Para que?” — “ Para aliviar-me.” — Chore.o jogo. Tentou os petimetres. como Swedenborg47 . Ficará de certo aliviada. Elas ou tomam ópio. lambendo cada atitude da criatura. com grande pasmo meu ao entrar num clube ultra infame. meu amigo. a Elisa que está sempre nesses lugares. Conheci algumas que acabaram assim. desde a primeira hora olhava-a com o seu olhar de morta a Elisa. sem colete com o seu corpo de andrógino morto.” — “ Barão. Mas pareceria brincadeira e talvez viesse a morrer mística.” — “Então já a sabia lá?”.44 os banqueiros fatigados.. E era em toda parte aquele mesmo olhar acompanhando Elsa. a saudade e as lembrança deixá-la-iam amargurada. e dizem-na com todos os vícios. e ainda assim. — “ Então. Ora. aconselho uma paixão ou um excesso. vá embora. Ou então. “ E se não a repugna muito uma grande mestra dos paraísos artificiais. perdoe. um grande excesso : champanhe. um belo rapaz ou uma extravagância. Hoje. Prove este faisão. Elisa sorria. Escreve cartas.

arrancava-lhe os cabelos. Quando por volta de uma hora apareceu a figura de larva49 da Elisa. “Vão tomar morfina? interrogou um dos assistentes.. calada e misteriosamente fria. de joelhos. vítima de um suplício diabólico. No fim. Era o desespero. as pernas em compasso.. como . É o processo habitual. bateram muito. resistência de Elsa. para mergulhar inteiramente no horror. sentiu-se presa pelos cabelos. Pelas cinco horas da manhã. em?” Elsa deu de ombros. mas no último espasmo as suas mãos agarram a assassina. a cabeça no regaço do cadáver. a cabeça da Elisa. que mantinha nas mãos cerradas a massa dos seus cabelos de ouro. Mimi Gonzaga assegurou-me que ela recebera uma carta da mãe logo pela manhã. sorriu. tu hoje és minha!” Houve uma grande gargalhada. tão decomposta. e imaginei um instante a cena sinistramente atroz do quarto em que enfim.deixara vazio o camarote. cuidado. se algumas mulheres com ciúmes dos seus senhores — ah! como elas são idiotas! — não os tivessem levado. A sua morte pertence ao rnistério do quarto. machucava-lhe o rosto —aquele horror. a face contraída. o corpo da Elisa estava de joelhos à beira da cama. tão velha. a forte dor de cabeça — a clássica migraine48 das cocottes enfaradas ou excedidas E apareceu na ceia da pensão como uma louca. Uma das mulheres recorreu à tesoura para despegar a cabeça de Elisa das mãos do cadáver. Elisa molemente sentou-se ao lado da Elsa. empestava o ambiente. a pensão acordava a uns gemidos roucos. agarrou-lhe o pulso : “ Vem. Foi preciso arrombar a porta. e aquela vitória excitava-os. dizia: “Viens. apertava-a. Nunca porém pensei no fim súbito. Elsa entrara no nada debatendo-se.. E a cena fez recuar no primeiro momento a tropa do alcouce. e acabaria com todos os espectadores. Os olhos verdes da Elsa bistrados51 . Inteiramente nua. Os braços pendiam como dois tentáculos cortados. enquanto lá dentro o som rouco rouquejava. mas devia ser horrível. agarrando com um desespero de bacante a pastosidade oleosa e alourada da miserável que a queria. pretextando ao banqueiro que lhe ia pôr um pequeno palácio. A porta do quarto estava fechada. os criados ergueramse com o sorriso cínico habituado àquelas madrugadas agitadas de ataques e de delírios histéricos. Elsa partiu do music-hall diretamente para casa. O quarto. o polvo louro da roda iria arrancar um pouco de vida àquela linda criatura ardente. a raiva com que ela fazia a cena de Lesbos — pobre rapariga sem inversões e estetismos à Safo50 . Era Elisa que rouquejava. Elsa estava bem morta. as sedas e os dessous53 de renda da Elsa. que vinham do quarto de Elsa. Para mostrar a sua livre vontade caía na extravagância. que bebia mais champanhe. triunfo da mulher loura e por fim sem fim até a morte. A Elisa. o momento em que se vê para sempre o mundo perdido porque ficou imóvel rouquejando. o bando estremunhado viu surgir a face de Elisa. agarrava o tipo que a repugnava. Via-se a repugnância. Devia ter havido luta. ainda sentada agarrava com as duas mãos numa crispação atroz. como uma larva diabólica. a mandar abrir champanhe por conta própria. que je te baise!” e mordia raivosamente o pescoço da Elisa. enquanto a outra se estorcia. tentou lutar. Os dedos de resto pareciam de aço. — E então. Quando o corpo tombou no leito com o punhado da cabeleira nas mãos. pálida e ardente. como morreu a linda criatura? —. E a desaparição foi teatral ainda. Quando esta afinal satisfeita quis erguer-se. A ceia acabou em espetáculo. deu um pulo da cadeira. Estive quase a acreditar que tivesse recebido alguma lembrança dos parentes. Elsa d’Aragon. Bateram. Elsa às duas e meia fez erguer-se a Elisa. mon cheri. o corpo já frio. Essas damas e mais esses cavalheiros tinham uma grande complacência com a Elisa. E passou-se então para o monstro o momento do indizível terror. os cabelos negros amarrados ao alto como um casco de ébano. — Que horror! — A coitadinha aturdia-se.Aceitando o meu conselho.. Como luz havia apenas a lamparina numa redoma rosa. ainda com uns restos de alma de mulher. mostrava. cheio de sombra. As mulheres desceram em fralda. Elsa. saiu arrastando a outra. que parecia outra. a sua cabeleira desnastra52 . Eram bem gritos estertorados de socorro. em cima das poltronas. o corpo divino lívido. sentia afrontações e torcia os dedos da apaixonada por baixo da mesa. Um frasco de éter aberto. viu que a pobre era cadáver.

E mordeu com apetite a pêra. era tirar dos ombros aquela mão de ferro das situações insolúveis em que só complicavam as traições dos ingleses. O barão trincou de uma pêra. soprava um vento de chuva. Quase todos nós. as intimativas americanas e a falência das nossas vitórias. Seriam muitos? Seria um só? Ah! Se os bandidos fossem apanhados! Os nossos nervos. ficamos entretanto nervosos. Já a inquietação sucedia à fúria . Que seja. — É verdade. O patriotismo. E na treva da noite sem estrelas todas as cóleras se fundiam no ser que os nossos iam apanhar. grandes uvas negras. passamo-lo pelas armas! Era um exemplo. como se quisesse arrancar para o túmulo a prova desesperada da sua morte horrível. Assim. paisanos levados pelas circunstâncias e as perseguições tirânicas dos sequazes do marechal54 àquela vida do vaso de guerra. ao recebermos a denuncia amiga de que um ou mais homens conseguiam a nado levar instruções aos legalistas. Ah! íamos ter urna noite interessante e divertida afinal! O miserável veria com quem se metera! E no olhar de cada um de nós havia a expectativa e no riso dos outros. violento e úmido. É impossível justiçalo. Houve um silêncio. Tinha ainda nas mãos cerradas fios de cabelos louros. era acabar com aquilo.que aparvalhada. chorada pelos violinos. porém. A Elsa devia ter sido enterrada hoje á tarde. — E ele só sentiria uma vez! O comandante. qual será o castigo do patife? O comandante era um cavalheiro elegante e fino. Vo1tou-se a sorrir: — Conforme. Na carta que mo denunciou dizem-no estrangeiro. um repuxamento de lábios queria sorrir e mostrava os dentes como um esgar de fera. em terra o exemplo da bondade. passamo-lo pelas armas. Só se o fizéssemos mira de um tiro ao alvo geral. que castigo havemos de dar ao canalha? — É boa. ninguém deixaria de julgar as instruções causa única do nosso enervante estado. começavam a dar aos pequenos fatos uma importância capital. No salão de cima uma valsa lenta. Quando a lancha partiu. O desejo único era deixar a baía. como talvez no nosso. Estive lá a ver o cadáver. Esperamos assim entretanto até de madrugada. Se for brasileiro. uma importância desproporcional. estávamos encostados à amurada com os oficiais e o comandante a ver se víamos o trabalho da lancha no negror da noite. a lancha não voltava. enlanguecia o ar. Oh! era demais! Havia oito dias mastigáramos a meia ração de feijão preto sem toucinho. como se fosse ele a causa do ror de desastres havidos. Das mesas do terraço entre a iluminação bizantina das velas de capuchons coloridos subia o zumbido alegre feito de risos e de gorgeios de todas aquelas mulheres que o jantar alegrava. vendo-a. Todos nós atiraríamos. — Foi uma complicação para afastar a polícia e impedir notícias nos jornais que desmoralizariam a casa. Elisa seguiu horas depois para o hospício. esplêndidas pêras de Espanha e uvas das regiões vinhateiras da Borgonha. indagou um médico. O FIM DE ARSÊNIO GODARD / DO DIÁRIO ÍNTIMO DE UM REVOLTOSO A Goulart de Andrade. mas seria pouco para o infame. A fadiga prostrara alguns. o comandante recolhera. O criado servia frutas geladas. a indignação pelos descalabros do governo caíam intimamente num relaxamento lamentável. a explosão da nossa cólera foi tal que. excedidos já por aqueles três meses de enjaulamento na baía. babando e estertorando. sem rumor. Estava tudo combinado. Era impossível falhar. explorando a treva do oceano encapelado. sob o canhoneio das fortalezas e as necessidades mais duras.

Ia com um saco cheio de cartas. senhor. como que dobrado em dois.. Vocês não imaginam como é interessante passar a noite imaginando várias desgraças irremediáveis. ávidos de ver em primeiro lugar o torpe. Dois marinheiros curvaram-se. O comandante. Logo que o soltaram. na madrugada álgida. o senhor vai viver conosco até o fim da nossa ação. porque era impossível outro gênero de castigo. le comandant. estava amável e sentara-se. — Parece dormir. nossa vida. — Desamarrem o homem. senhores. Um marinheiro descia.. céus clementes? No dia seguinte. — Como vai o homem? indagamos. corajoso. Sou francês. Vê-se que o senhor é um homem. porém. carrancudo. já pensei. a oficialidade vinha de todos os pontos do vaso de guerra. nu. entretanto. Você não exige nada. um arrepio de medo. naquele surdo rumor de cólera. — E o castigo. outro acendeu uma lanterna de furta-fogo e assim conseguimos ver a cara do tipo. mas clara. — Ah ! muito bem. mordendo o bigode. com o olhar turvo. Levem esse homem para a sala de armas. houve um arrepio geral. meus amigos. manietado. fazia conduzir o saco à sua cabine. a aguardar as minhas ordens. nós é que fazemos de você o que quisermos. Recolhemos. — Direitos para um sujeito pescado de madrugada! — Eu exijo!. Nós é que não dormimos. nervosos. exclamou: — Mr. os companheiros de lancha içaram para o tombadilho. O comandante deixou a cabine apressadamente.. Nós ficamos na expectativa. . Que castigo imaginaria aquele homem refinado e distinto? Como estaria o outro. o infame. — Eu desejava explicar. que todas elas são perfeitamente possíveis e hão de se dar algumas horas depois. E.. j ‘suis français! — Os legalistas são brasileiros. Ninguém aqui compreende línguas estrangeiras. — Você ainda quer explicar.. fomos convidados a ir à sala de armas. a voz um tanto inquieta. — Oh! inteiramente inútil.. que toda noite passava por nós arriscando a vida para complicar e perder a. numa ânsia de vingança. — Muitos? — Um só. O comandante. Que se daria. fatal dali a momentos. — Eu falo o português. E quando o comandante chegou.quando à amurada a lancha acostou. Os marinheiros foram levando o homem aos trancos. daquela cena atroz. Venho dizer-lhe o que resolvi a respeito. um corpo nu. Ficamos no beliche. uma cara comum. Arsênio Godard. às 8 da manhã. Apenas só lho direi amanhã. — Boa noite. à espera daquela morte. hein? Que topete! — Mas é um direito... O homem nu lá estava.. lá em cima? Dormiria? Pensaria? Pensaria na morte decerto. É preciso faze-lo passar a noite fazendo palpites.. sim. comandante. peço explicar o fato.. — E o saco? — Aqui está. meus senhores.. membrudo e forte. — Como se chama? — Arsênio Godard. de bigode castanho e olhos turvos. Sr. Todos nós corremos numa ânsia má. amarrado. comandante? — Ah ! o castigo. forte. Até logo mais.

o nosso preso apareceu ao almoço sombrio. Até o almoço.Excelente companheiro! Vou mandar-lhe uma roupa. Sr. enfim. Também a explicação veio minutos depois. Ao primeiro prato atirou-se com uma fome indizível. se não fosse atroz. comandante. seguido de um marinheiro. Quando o comandante ergueu-se. Estou pois às ordens. mercadeja o seu valor. Godard parava junto de nós. verificando se lhe prestávamos atenção. Guardião.. come-se. cumprimentou sem ser correspondido. ninguém o percebia.. Não imagina o prazer que nos dá a sua companhia. imaginando as resultantes daquele sport. Terá um beliche seu. reunidos para tomar o mate. O francês olhava. terminante e terrível. Godard. Não desejamos que nos abandone. Era cômico. comandante proíbe que se converse ou se responda ao preso. À tarde começou o clássico bombardeio de terra para os navios. Outros sorriram. — Eu sei atirar muito bem. que. procurando saber que castigo horrendo aquele vencedor arquitetava entre frases de mel. Não me falam. acompanhado do marinheiro. O navio é inteiramente seu. insistiu: — Se o Sr. comandante. Godard atirou-se para frente: — Sim. não posso mercadejar. comandante considera uma deslealdade à causa e à sua pessoa dizer uma palavra ao Sr... a cena renovou-se. Como tomaria ele a vingança? À hora do almoço.. É justo o ressentimento. sem agradecer a bondade geral. Mas. Godard cruzou o talher e esperou até o fim o almoço. tentando descobrir a insídia. até segunda ordem. Pediu licença.. a generosidade dos senhores. foi até ele: — Devo agradecer a sua bondade. Vejo que não sou ouvido. ergueu-se. comandante me desse licença para expor um plano de ataque. porque pouparam a minha vida. a pouco e pouco. Está entendido então? Bem. não se conteve: — Sr. Agradeço. — Mas.. O comandante continuou a falar com o tenente João. agradeceu. como o senhor nada bem e pode não gostar da nossa companhia.. Não o ouvíamos. Oh! era evidente que Arsênio Godard.. abancou noutro lugar. Teria coragem o homem para resistir a essa humilhação sem palavras? Godard passou o dia passeando no convés. uma roupa ao Sr. O tenente João chamou-nos de parte e em voz seca deu a ordem de cima O Sr. Afinal. No dia seguinte. fazia um esforço sobre-humano para . sustentada à custa de muito risco. Era todo o dia aquela ceifa de vidas inútil e dispendiosa. Ah! nós não passamos à vela de libra. Sr. Mas eu não sou adversário. sentou-se. entretanto. Godard. deixar passar o dia. tipo voluntarioso. como os patriotas da cidade. Apenas. Os convivas do outro lado nem voltaram o rosto. Nem uma palavra. À noite. atrapalhou-se.. O Sr. Godard quis insistir. — Eu é que devo dizer que jantará à nossa mesa. Mas. mastigou sem dizer palavra. sou um ganhador. Ninguém olhava para ele. Era de tal modo grave a atitude do comandante que nenhum de nós se atreveu a interroga-lo.. Godard apareceu. — Não quero. permitam a palavra. Vai-ver. não sei como agradecer. comandante.. devo dizer. Perdão! É traição. será acompanhado sempre. O comandante nem voltou o rosto. como os condottieri. conhecendo eu como conheço as posições inimigas. os oficiais tinham saído e Godard estava só diante do marinheiro mudo e sério. Era o suplício do silêncio! Era o castigo! Alguns acharam fraco — eram os ingênuos. voltou para o vizinho da direita: — Eu devia dizer ao comandante. O vizinho da direita dirigiu a palavra ao companheiro ao lado. Com os revoltosos. Ao jantar... Godard de novo surgiu. a perseguição do silêncio ao pobre sujeito. dos navios para terra.

e Godard sofria. de raiva contida. havia apenas o diabólico sport de um homem contra trezentos. discussão espreitava o abandono dos marinheiros para obter uma palavra. esperava a pergunta. lacerando as pernas de três inferiores e espadanando sangue até na amurada. a falta de víveres e a certeza de um fim próximo. daquela máquina que o tenente João chamava o pneumático da vontade. Acautele-se contra o imediato que o venderá na primeira ocasião! E inventava intrigas entre os paisanos e os oficiais. Arsênio Godard caiu na humilhação. que nós cada dia erguíamos mais alto aquele muro de mudez que as suas palavras não podiam. se ele sofresse resignadamente. para consentir em perder. com o instinto animal de vencer. querendo falar. Para chegar a este excesso. porque. à fome. Saiu a bater com os pés para a sua cabine. não conseguiriam quebrar. arrastava reticências. Mas Godard era um voluntarioso. acolhia a infantilidade desesperada. sem o conseguir. o olhar apuado 57 pela preocupação constante. tinham um tremor de fúria. caiu de joelhos aos pés do comandante. Ia ao comandante: — A imoralidade do seu navio é assombrosa. pedia fósforos. à noite. entre a palavra e o silêncio. enquanto febrilmente todos nós tratávamos de remediar o mal. numa situação por demais irritante. Resistiu dois dias. erguia-se tinha um rictus irônico: — Obrigado! Ao cabo desse tempo veio-lhe o relaxamento dos nervos. era preciso sofrer estrafegadamente56 . Nós nem sorriamos. Acompanhava uma pessoa até saber-lhe o nome e de repente dizia-lhe nas costas. inteira e definitivamente só. — Deixe-me prestar auxílios também! Fale-me! Fale-me! Pela sua honra. Nós continuamos a conversar das coisas que nos interessavam. Só o marinheiro acompanhou-o. trocar palavras é sentir-se viver. entretanto.conter a cólera. Godard caiu nos meios baixos. o semblante lívido. querendo rebentar o sudário de silêncio com que o enterravam moralmente. De modo que no vaso de guerra em plena revolta. um animal. Um silêncio absoluto. com os tiroteios. Tinha as pálpebras arroxadas. no camarote. o sport mais doloroso e mais inquietante que jamais viramos.. Adeus. um leproso? Que sou eu? Não respondem? Matem-me! É infame. porém. Godard ergueu-se. é verdade. o acicate55 da vontade mordeu-o mais forte. Da intriga. Os infames sois vós. Godard sentia bem que nós o murávamos no silêncio. bruscamente. depois de uma bala ter rebentado no convés. a rarefação do homem. bufando e fumando. talvez algum sentimental abalado respondesse. não respondia porque responder seria a vitória do pobre diabo. Cada figura de bordo era um componente daquela máquina de separação. querendo viver.. Retiro-me Não como mais. para não desesperar diante daquela horrível situação que o fazia viver no navio como se estivesse só. Não fujo. Cada um de nós. a resignação não a compreendia. disfarçando a voz: — Ó José! Esperava em lugares solitários alguém. durante o almoço. Talvez ainda se julgasse capaz de vencer o castigo. como se diante dele estivéssemos diante de um objeto indiferente e inanimado. Ao demais. como a própria sombra muda. e falar. uma apenas. — Digam? É para sempre o silêncio? Ninguém me fala? Mas eu sou um idiota. E foi então a luta mais curiosa e mais atroz. um verdadeiro silêncio que ia até aos gestos. o gesto vago. mas morro de fome. de repente. os beiços estavam brancos e as mãos tremiam. Depois veio à mesa feroz e sombrio como um jaguar e nessa atitude conservou-se dez dias. pela sua farda! Diga sim! diga não! Diga qualquer coisa! . senhores. Nós estávamos. afinal. Se alguém passava por acaso. porque a palavra é a vida. foi ao comandante e de novo insistiu sobre os seus planos. Os olhos ardiam de cólera. Ao cabo de quatro dias. Uma noite. dizendo apenas : obrigado e bom dia. Cada dia passado era para os seus nervos mais um motivo de fúria. sentir que não estava morto! Inventou estratagemas. Ficava à porta do camarim. não respondia só para obedecer ao comandante. encartava nas palestras acaloradas uma frase dessas que exigem réplica. Dos meios sutis. Era preciso obter uma resposta.

uma palavra só. deitado de barriga para o ar. mas. Tudo anunciava o fim da nossa aventura. com as idéias empaladas num silêncio desesperador. Era trágico. por isso mesmo que enfurece. Godard foi à mesa silencioso e sério. São uns indignos! uns covardes! Não me satisfazem? Que sou eu? Eu não estou morto. — Deixai-o! — É verdade. Godard desesperava. Cada marinheiro que lhe postavam como sombra tinha-o logo de joelhos. Então ah! . a barba crescida. comandante. Godard voltou à vida do beliche. para iludir aos próprios sentidos. procurando beijar-lhe a mão. Já haviam passado dois meses. Mas também não preciso. porém. — Não quero este! não quero! Já disse! bradava quando mudavam os guardas. vozes de bichos. matar. O marinheiro era um caboclo enorme. havemos de o trancar cada vez mais no castigo. em ceroulas. o mercenário. o cabelo pelas orelhas. segurando-o pelo gasnete: — Vais responder. é impossível que o Sr. agora. deu um salto da cama. pedindo. pensava em ter pena. falo. Yes! Essa miss é deliciosa. Arsênio ficou sem resposta. Os acontecimentos. sessenta dias e sessenta noites. e diante de nós. Se fosse um resignado. Olhavam-no receosos. Ah! ah! O homem inteligente escapa aos maiores tormentos dos patetas! Ao cabo do sexagésimo nono dia. de humilhações. o preso. Está desesperado. estendendo a caixa. Não o ouvíamos. a dizer: obrigado! ironicamente quando por acaso alguém passava pela porta. — Oh! oh! Madame engana-se! Qual. Estou conversando. a chorar. sem ver a quem. dormiu direito e logo pela manhã seguinte. Arsênio aguentasse tamanha crueldade. imitando vozes de mulheres. Covardes! Mas a cólera. para enganar os ouvidos. falava alto para se ensurdecer. Que importa que não me respondam? Falo. Arsênio continou de rojo. indistintamente. não o sentíamos. Anda. estou ouvindo outras vozes responderem às minhas perguntas. — Dá-me um fósforo? O guarda aproximou-se. vencidos. batia de encontro ao ilimitado e asfixiante silêncio. estou falando. O bandido era o inimigo.. a pedir. o marinheiro que deixara a guarda foi dizer ao comandante que Arsênio Godard parecia febril e falava coisas sem nexo no beliche. Prendera a mão que apontara o . bateu a porta rápido e. vencer.O comandante passou-lhe por cima. — Pelo amor de Deus. se acabássemos com essa boca a mais? — Oh! é preciso que ele pague a dedicação aos outros. Responde! Faze sinal que sim! Faze sinal ou morres! Uma luta travou-se. chamou o guarda. Oh! perdão! Um patife! Ah! ah! Cocoricó ! Bum ! Vamos cantar um dueto? Valeu. No camarote. os desastres desenrolaram-se com o cortejo de mortes. mudando de voz.. desguedelhado58 : — Não me falam. O comandante repetiu as ordens severas. Uma tarde. o animal sofria a nossa vingança por todos a quem nos era impossível estraçalhar. pedindo. covardes. com a face no chão. Arsênio resolveu conquistar os guardas com as lágrimas. Nenhum de nós. falo. o traidor. Os marinheiros incultos estavam receosos de que a razão de Godard tivesse afinal sido estrangulada pelo círculo do silêncio. pediu um cigarro. A crise acentuou-se. Setenta dias. ouviram? falo. como as lágrimas. arrancando ao marinheiro a arma num súbito ataque. a fazer promessas. e cada vez mais o nosso ódio se acentuava contra aquele objeto solto a bordo. deitado. Com efeito. e cada vez que uma bala trazia o desastre. a cólera aumentava contra a sua figura lívida de traidor desesperado. uma palavrinha! chorava ele. não? Decidido! Afinal eu os desprezo. há muito estaria morto. cheios de preocupações. passeou pelo tombadilho. minha senhora! Eram uns castrados. pedindo a quem passava. depressa. e da humilhação passou à cólera. ridículo e macabro ao mesmo tempo. E Godard então pulava da cama.

revólver e com a outra arrumara um soco à cara do preso. Nem prestamos atenção ao marinheiro. e eu me entrego. As mesas. no círculo aberto por aquela inesperada sortida. Godard manejou-o. eu escapo. um ódio violento. Só uma vez. E foi um instante apenas. inteiro. ou então eu escapo. Godard. responde. os cabelos empastados. Cachorro! Cachorro! Responde-me! E móveis caíam. arrancou-o. brandindo o sabre. para sujeita-lo ao regime desesperador. Caíram ambos tropeçando num jarro. Arsênio Godard. O fragor de luta chegou até nós. na suave ondulação das cortinas brancas.. com a cara em sangue. A tropa59 precipitou-se para o sabre. Um jato de sangue golpeou no ar sombrio. o marinheiro era uma torre. de novo. enquanto cem braços estendiam-se. — É preciso acabar! É preciso acabar! Canalhas! Vocês vão falar-me ! Só uma vez! Digam: Arsênio. a aperta-lo infinitamente naquele sudário de silêncio que fora o nosso mais feroz. bateu-o em cheio no pescoço. como se aquele muro de silêncio fosse pior do que a própria morte. Godard parecia um florete. estou salvo. vivozinho. Estava morto. mais dilacerante castigo. encostara-se a um canto do salão de jantar. fazendo saltar a fechadura. — É o Godard ! Precisamos abrir. o infame? Os machados caíram na porta violentamente. Não fosse ele atirar-se ao mar! E foi uma caçada infernal a bordo. atirou-se ao sabre de outro marinheiro. O torpe fugira à sentença. esmurravam-no. devia esplender a pálida luz de um sol de inverno. surda. Lá fora. e por diante de nós saltou brandindo o sabre. entregue-se. dize qualquer coisa. todas ocupadas e cintilantes de cristais. nu. Assassinos! Vamos a ver quem é mais forte! Quem se aproximar morre ou matame! A vitória é minha! Escapo! Todos nós. O grande hall do hotel estava repleto. eu abro se me falarem! Digam: Godard abre! para mostrar que eu não estou morto. os corpos rolavam. berrava de dentro Godard. desvairadamente. deixara-nos impotentes para continuar. que eu sou Godard! Ah! bandido! que pensava ele. Corremos ao encalço do bandido. mordendo os lábios para não deixar escapar uma praga. A cabeça curvou de olhos arregalados. O corpo pendeu. que iam do . com o desejo desvairado de mata-lo. entrava um vago perfume de violeta e de rosa. eternamente. E. Corremos à cabine. Toda a guarnição parou. não sei por que. A voz de Godard bradava: — Fala. mas sentiu-se preso pelas pernas e emborcou. DUAS CRIATURAS A Viriato Correia. Com a mão livre atirou-se ao sabre do marinheiro. entre os tufos de verdura do jardim e o céu muito azul. O outro desviou. uma invectiva. — Está fechado! — Abre-se a machado! — Eu abro se me falarem. Pelas janelas semi-cerradas. escapara das nossas mãos. O desgraçado teve um grito.. arrancavam-lhe a arma. que eu vivo. silenciosamente. mais tremendo. — Outra vez! Para toda a vida! Oh! não! não! não! Com o pasmo de todos nós. um ódio desesperado fez-nos ainda segurar o cadáver a ver se vivia. prolongavam-se até ao fundo numa orquestração de tons brancos. reviravolteou-o no ar e. Mas Godard sentia decuplicadas as forças. paramos. Era preciso apanha-lo vivo.

a que mais tenta por consequência. Alta. um grupo de engenheiros. chalravam e sorriam. e. o nosso vasto ministro em Honduras desdobrava a sua simpática adiposidade numa roda de mocitos elegantes. o Rio tem. de vez em quando. enfiado numa redingote66 azul. Juan70 e também de Shylock71 . percorria com o olhar a extensa fila de mesas onde o debinage62 se acalorava. yatch-recorderman63 nas horas vagas e vendedor de gado nas outras. com gargalhadas brutais e decerto inconvenientes. perlavam64 risadinhas de flerte para o solitário e divino Alberto Guerra. da exibiçâo. E olhe que aqui. O seu lindo corpo era como que modelado pelo vestido de Irlanda e rendas verdadeiras. lá longe. a que seria impossível deixar de assistir. Mais adiante a encantadora viúva do milionário Guedes. de envolta com os políticos. baixo. mambembe naturalmente insuportável. A um canto. A season começa regularmente com a chegada do primeiro mambembe68 estrangeiro. que dizia as coisas mais horrendas com uma perfeita distinção. gordo. De vez em quando parava à porta um novo hóspede. como há cinco anos. na abertura do salão de pintura. como Paris ou Londres ou mesmo Montevideo. como pelo nosso fundo meio ingênuo de aceitar tudo o que brilha. com uma cintura de esmaltes translúcidos e o ar empoado de uma íntima do general Lafayette. a formosa divorciada do dia. aparecem essas figuras com um passado estranho. da tagarelice. mastigava gravemente. quase todos têm a sua história: as demoiselles Peres. sorria num vago sonho para a senhora Alda. Alberto Guerra. decididas a dominar. antes de casar. recortava na pele dos presentes as caricaturas perversas. O barão teve um sorriso cético. nos lóbulos das orelhas. os fazendeiros. — Meu caro. com o seu excepcional secretário cubano. a entrar nos lugares honestos. Estávamos a almoçar cinco ou seis. retinia imperiosamente o som de uma campainha elétrica. em que toda a gente fala mal do próximo e entende de arte. esse velho dandy sempre impecável. e um cavalheiro. Anualmente. do sacrifício para aparecer. os estrangeiros exploradores. hesitava. O barão. filhas de um rico argentino. é a época escolhida pelos que pretendem tomar lugar na sociedade. São figuras de inverno. Logo ao lado. a sua season67 . de veia. de que tanto mal se dizia. as senhoras quase todas com largos “ boás” 61 de plumas brancas. convidados pelo barão Belfort. duas negras pérolas e por sobre a gola leve de rendas brancas um virginal colar de pérolas. a Chilena aqui! À porta surgiu uma triunfal figura de Ceres. Mlles. comprida. dos seus brilhantes e quiçá dos seus versos. cortando o zumbido elegante do grande hall. E fora decerto uma extravagância aquele demorado almoço. erguendo numa azáfama os pratos de metal. a fazer horas para um match de foot-ball. Ao alto. ferozes pretendentes ao secretariado diplomático. a escritora americana. não só pelas suas taras. Nós já tínhamos rido muito e entrávamos com apetite num vulgaríssimo salmis65 de coelho. os ventiladores faziam um rumor de colmeias. a viscondessa Guilhermina. Senhoras e cavalheiros. Alda Pais anteontem. longa. que há vinte anos não eram julgadas mal. talvez enteadas de um rei morto. o sedutor irmão de D. Alda Pereira hoje. que chegou de Vicchy e só está aqui de . Querem dominar. bebia. três ou quatro pérolas rosas. porque vive de emprestar a juros. seguro dos seus bíceps. Acompanhavam-na um cachorrinho branco de neve. É a época do luxo. champanhe Munn. — A Chilena! A Chilena aqui! Mas que sociedade é esta? bradou o mais jovem dos convivas. Peres.. o wildeano69 conde Rossi. Os criados passavam apressados. a serem respeitadas. Bem ao centro. com o cabelo cor de ouro e o verde olhar coado por umas negras pestanas de azeviche. cheio de jóias.branco de prata ao branco gris60 nos lugares mais em sombra. de focinho impertinente. e fecha com os calores da primavera. Estávamos bem na bizarra sociedade de entalhe que é o escol dos hotéis. seja diamantino ou seja montana. também americanos. perfeitamente felizes. Nós somos uma sociedade em formação — a mais atraente. com a sua voz de navalha.. Nos dedos afilados e tênues como as pétalas esguias dos crisântemos. cuja admiração por Gonçalves Dias chegara a faze-la estudar e propagar o Brasil. quando de repente um dos nossos companheiros exclamou: — Olha. com o seu perfil de Luigni.

Natália recolheu com um negociante riquíssimo Ficou apenas Maria. Há mulheres que podem se entregar com frenesi a vida inteira sem conseguirem ser prostitutas Elas tinham o frenesi. Mas Azevedo. Azevedo apaixonou-se pela Maria. cada vez mais presente. traí-lo. Ora. esfomeado de mulher e cheio de dinheiro. Quanto mais dava. livre por completo. As duas primeiras casaram. convencendo os camaradas de que era preciso fazer mudar de opinião Maria. A opinião geral — e aliás alegre. os amorosos sem vintém prometeram vigor e paixão. Ao cabo de quatro meses. interessando na sua desgraça à custa de bilhetes de banco. Isso devia ter concorrido poderosamente para a paixão do animal. Teve o deslumbramento diante da beleza que Maria tornava provocante. esvaziar. roubar-lhe o corpo para o banquete dos esfomeados. Maria proibiu-lhe a entrada. no passeio. as amigas da Maria. aguilhoado por aquela despedida. É um caso de embrutecimento passional. Elas tinham topete. deixou-se prender. despediu-o. faziam grandes loucuras sensuais. domina. as mobílias. beleza. os fazendeiros ricos sentiram a necessidade de dar-lhes palácios. embriagando-se. até então a Vênus vingadora. arrasa. — Mas são realmente casados? — Não há dúvida. Era uma performance entre a paixão cega e a raiva de fugir dessa paixão. A sorte porém de Azevedo era intensa. Maria atravessava uma das suas crises. três lindas criaturas da fronteira que se diziam chilenas por picante e a que os rio-grandenses chamavam chilenas como lembrança de certos estribos em que os pés ficam à vontade e toda a gente pode usar. os banqueiros ofereceram-lhes as carteiras. — Então o homenzinho?. Mas tinham de ter um nome honesto. que diriam um caso anormal de luxúria. tinham o sinal de profissão. por acaso: ah! se . os cavalos. — Barão. os criados. malbaratando dinheiro. Estava coberta de jóias. só encontrava uma satisfação engana-lo. por favor! Cale-se! Figuras de inverno. De um dia para outro. era que Maria arruinaria o marchante selvagem. excedida pela convivência do pobre homem apaixonado e pagador. Esta é hoje a esposa do cônsul do Haiti no Pará. vendo-a guiar uma parelha de cavalos zebrados que foram acabar no Jardim Zoológico como raridade. raramente. mas prestavam atenção ao futuro. Falavam nas pândegas as amigas. a Chilena já não usa esse pseudônimo tão picante e ao mesmo tempo tão significativo para os guerreiros do Rio Grande. Tentou o assalto.. mais ganhava. Tivemos relações em Belém e em Paris. há sete anos. inimiga dos pagadores como todas as boêmias. aborrecida. não duvido. pôr o freio. Meteu-se na grande orgia. Azevedo foi seringueiro ou coisa que o valha. auferindo todos os lucros do cargo. Logo a Chilena sentiu em torno. Azevedo empolgoua inteiramente. ardentes mesmo demais.passagem. e irritar Maria. — Um explorador riquíssimo que se presta a ser cônsul.. e depois. não. montar. A Luisa partiu com um fazendeiro. tripudiando no torvelinho da vida. As gaúchas ardentes. fetiche como todos os simples. Ela. quanto mais pagava. Precisamente voltara do Amazonas. para se convencer de que estava livre. e se o engana é com os cometas. que arruina. Todos vocês sabem a história de vício dessas três irmãs que cerca de dez anos amaram e arruinaram varias criaturas. Mas a Chilena é menos que isso. a baronesa. Para ser o vício arrasador não precisava muito outrora no Rio. audácia. com o cofre cheio e enfarada. Deve ter uma fortuna superior a cinco mil contos. devendo a casa. aquela louquinha incapaz de pensar no futuro. e até mesmo o adolescente robusto que fazia de Augias72 no fundo do palacete e de Automedonte73 à tarde. haviam nascido sob as estrelas complacentes. — Ora. de gênio voluntarioso. Chegaram e logo a fama irradiou. sentira de repente que perdia a sua carne e a sua sorte e recorria a todos os meios imagináveis para de novo apanha-la. Vocês conhecem a história das chilenas. o fantasma do Azevedo. a Alda. peitando consciências. cale-se.

aqui estivesse o Azevedo! Falava a cartomante que de oito em oito dias lhe deitava as cartas: vejo aqui um homem sério que muito a ama e agora afastado voltará a faze-la feliz! Falavam os criados: Coitado do patrão. Não havia dúvida! O cônsul do Haiti berrou de cólera. Então caiu de joelhos. O barão limpou o seu monóculo de cristal e continuou tranquilamente: — Ela nesse tempo era mais magra e tinha os cabelos castanhos. entretanto. Maria. E Maria viu que tendo despedido o Azevedo agora é que o tinha a todo o instante na lembrança. pedindo perdão. vivia com o quarto fechado sem responder primeiro aos seus insultos. a goza-lo. sem poder fazer-lhe mal. que jamais acreditaria na calúnia. só pensando que de novo ela o deixaria. como recebesse uma denuncia violenta. sem descansar. que são dantescas. mas de um castanho que às vezes era quase negro e de outras vezes se tornava quase louro. Maria teve um grande ódio e no outro dia Azevedo estava de dentro outra vez. sem querer.. terra pequena. mais pudor. louco de amor e ainda mais perdulário... E depois engana-lo-ia ela? Há tantos inocentes condenados. a Chilena tinha a nevrose de engana-lo. sem dormir. Quinze dias depois da cena Azevedo sentiu que nem de negócio e de borracha poderia entender mais. porque. porém. obsedado pela idéia de não perder uma carne cada vez mais desejada. Já era uma consideração. o seu nome. procurava não o afrontar. . O escândalo. A grande desgraça do amor. fazendo-o realizar o seu fim. Ora. Agarrou o Azevedo pelo casaco. Uma vez. imaginem vocês. esse outro toma crueldades de tirano. solene. borrifada de lágrimas: Cale-se. e ao chegar à casa mediu-o de alto a baixo e teve esta frase. Certa vez disseram lhe : o Azevedo parece resignado : vai montar casa para a Benevente. Quando um se humilha a outro. A Chilena percebeu a excelência do momento. porque Azevedo vivia como à espera da notícia de ter um mal irremediável. e é passivo e é humilde. Maria dissera por cinismo profissional. que fez voltar-se o grupo aspirante ao secretariado diplomático. Ah! Eu imagino sempre. o tenor deu às gâmbias75 . Azevedo. mesmo com provas visíveis comprometedoras! E o tenor.. — Maria resignara-se? — Para a obra da vingança. teve um assomo de dignidade. E nenhuma como essa em que o ambiente. foi a pedra angular do casamento.. Há entre os sexos um ódio latente. Não importava a pessoa. o desespero de um pobre ente sem poder livrar-se de outro que se molda e curva e dá tudo. permitiu à Maria um desses cinismos épicos. impondo-o a outro corpo. Só se me der uma grande prova de confiança. meteu-o dentro do carro sem dizer palavra.. Maria devia ter crises de desespero e de lágrimas. mais brio.. quando o meu egoísmo quer eternizar o amor. onde Azevedo tinha uma posição evidente! As denuncias anônimas choveram exigindo vergonha. Maria fechava-lhe a porta semanas e semanas. Afinal se enganava. Azevedo teve tensões de ciúmes e foi encontra-la como a princesa Falconière da Dalila. jurando que não vira nada. grave. E dessa vez para sempre. a sua mão. — Oh! não. a senti-lo. cantando num barco com certo tenor de zarzuela74 . a polícia apareceu. célebre há cinco anos : — o senhor é um indigno! Desconfia de mim ! É preciso pensar o alcance. a extensão moral de uma dessas frases num cérebro. muda. o destino forçam a vitória do mais fraco dando-lhe o que deseja. O grosso Azevedo lia e calava. a palpa-lo. passou hoje por aqui. Azevedo! O senhor é um ingrato! Nunca mais serei sua! Desconfiar de mim. refocila em perversidades e em excessos. Esse cabelo era a sua alma. depois às suas ironias. depois aos desesperos e já agora aos rogos. se revelasse uma palavra das cartas. em Belém. enquanto Azevedo devia sofrer na sua muda humildade de cão sedento de carícias! E quando levou-a para o Pará. quase a convencer-se de que o idiota era bom. olhando muito. imperceptíveis à maioria dos mortais. a maior desgraça é essa porque laça ao mesmo horror duas almas. tornando-o epicamente ridículo. ofegante.. a fatalidade. Falavam até os camaradas de cama e mesa: Afinal o Azevedo é um bom homem. sem poder vingar-se. a questão era do ato. Há torturas. Ele sentiu-se comovido a princípio. Na roda correu um desabalado riso. suplicou.

Vocês riem! Eu afinal tenho pena. olhava-a a dormir. ou antes redundavam a favor da Maria. É mesmo provável que tivessem deixado Paris. E afinal. apesar de ter gostado. curvou-se. E se faço este ato indigno é para te salvar de uma horrível e irremediável indignidade. para beijar o conviva.” — “ Não admito que insultem uma mulher que vive comigo. coupé elétrico. Há casos piores a que apertamos a mão. com autênticos bambus de Calcutá. sem neurastenias.. Um rapaz.. desvairados. Mas isso não era nada! As exigências e o descaro de Maria cresceram na proporção do embrutecimento do marido. casou. dessa ilusão dos sentidos. que forneciam as traições ao Azevedo. correu casa. o deus dos ricos. É uma aspiração natural. Nesse momento. Não era. rastejando o ignóbil só para que lho consintam um pouco de amor pela criatura que lhe agradou aos sentidos. e no outro dia não cumprimentou mais nenhum dos seus amigos. arrastava à noite pelos pequenos teatros maravilhosas capas de peles de muitos bilhetes de mil. De outras vezes. O impertinente fraldiqueiro79 saltou da cadeira.” Azevedo fez-se pálido. de outra. sem azedumes. mas o desejo da completa satisfação. Os amigos.. quando já Maria dava uns chás a alguns vagos titulares internacionais. por algum chantage de escândalo. Todos os meios falhavam. sacrificou-se —“ Azevedo. lembrei-me que bem podia estar de paixão por algum jovem apache77 . Decerto já se resignou ao Azevedo e estão ambos aqui. a honra. Vi-a com ele. principalmente quando o jantar era a três. com certo desejo na Maria. Teofano de Abreu. ir buscar o seu leque ao segundo andar. Quando se quer assim. Era e é um ser que ama. boa.coitado! refletiu vinte dias. a vergonha. latagão inteligente e bem colocado da colônia portuguesa. disse em presença de várias testemunhas. e frequentava vários lugares maus porque vendo-a um dia a pé a rodar um bistrô76 . reuniram-se para salvar Azevedo. e Teofano. a posição e o respeito. Ela será incapaz de negar na minha cara. no desequilíbrio de moral. Maria era uma pilha de nervos. Julguei-o um indigno. com o sorriso no lábio e a vaga inquietação no olhar febril. e a sua neurastenia explodia em desejos de humilhações e um desenfreado apetite de sedução. que se levantou. Naturalmente ela quer ser família.” — “ Mas foi comigo. potiches de cobre de Benares. E nesses vinte dias. Esse homem ganhava rios de dinheiro. desejando. Era fatal. marcava-lhe a hora da entrada: — preciso estar só. graduando sabiamente as concessões que dessem ao velho apaixonado uma vaga idéia do que poderia ser o lar com uma doce criatura meiga. E entretanto a Maria é a alma envenenada. — Mas. em arte e manha. agora. Qual de nós não tem o seu segredo inconfessável e um desejo irreprimível? O amor é o desejo. numa pose de duquesa pintada pelo La Gandara. Maria tinha carruagens. para de novo possuir Maria. agrilhoada a um corpo que detesta. na abertura da Câmara. a bela Chilena. fiel. um Vixnu78 de marfim. que os apaches são os homens belos de Paris. A Maria não resistiu. Ela viu o barão. fazia o cônsul levantar-se. num palácio discreto.. que havia na terceira sala da ala esquerda. o dinheiro. não podes casar com a Maria” — “Porque?” — “ Porque te engana. O homenzinho baixo também. desejando. Frequentava-os por essa ocasião uma turba-multa de homens sem preconceitos e rapazes bem dispostos. onde se amontoava a coleção de armas usadas por todos os soldados dos rajás imagináveis. À mesa. os cortinados eram de gaze de Decã. prestou-se a um sacrifício colossal: fazer-lhe a corte. a mais leve gaze do mundo. O seu quarto tinha guarnições de seda verde pregadas a grampos de coral. no desequilíbrio de carne a tropa dos homens. se bem me recorda. sabedores do desastre. E ambos desgraçados. ergueu-se. mais que um diplomata. conseguir possui-la e vir contar depois para o Azevedo o fato. Não se resignara ao pobre cônsul. seguem a vida. que fazem eles? — Não os vejo há dois anos. venho agora de lá. Quando voltaram de Paris. a gozar o inverno.. somos arrastados como por uma corrente. ela exigiu no seu palacete toda a ala direita mobiliada à indiana. . elegantemente instalados numa das avenidas da Étoile. a Maria lutou. Fui encontra-los em Paris. o Azevedo é o pobre bruto sacrificando tudo.. deuses bramânicos de porcelana e de metal. que o Azevedo teve de saber e pagar. Aos pés da cama. Apareça depois da meia noite. Maria de Azevedo. gozava de boas relações. torturou-se vinte dias. a dar a impressão de que são felizes. E nesses dias sempre alguém conhecia a pele de tigre real com forro de brocado rubro.

minha filha? Maria não respondeu. seguro dos seus bíceps. louquinha. Quando chegou a casa para almoçar. Ele nem sorriu — porque sentia na sua alma um desejo infinito de amar e dedicar-se. teve vontade de tirar o cobertor ao mesmo tempo que lembrava ir buscar mais outro. e ficas outra vez boa. Anda. enquanto os seus olhos pousavam. e enquanto através do seu curso . Ele vem já. havia um ser excepcional. Diz-lhe que venha imediatamente. quedou-se com uma dor indizível a olhar a pequena. sob a luz opalisada das cortinas brancas. e tinha a pele de brasa. a pele que parecia fogo. era sempre aquele excesso. beijou-a. Naquele tipo de matemático. Era sempre assim. apanhou uma cadeira. dá-te umas drogas. como uma perturbadora carícia. Apenas agitou a cabeça como se a incomodasse qualquer coisa no pescoço. no brouhaha entontecedor do vasto hall. Filho de uma família rica e de raízes nobres. os olhos fixos. a mover a cabeça. Uma fruta decerto? Com este calor. ergueu-se. Comeste decerto alguma coisa que te fez mal. Que te parece a doença da Maria? — Oh! meu senhor. meio desconfiado. irmanados na infâmia.Azevedo abriu os braços. — Como foi? Como foi? perguntava o pai. uma das doenças da menina. numa grande cama. escreveu á pressa um bilhete. — São minhas irmãs! dizia. Diziam-no de grande talento os discípulos. dos seus brilhantes e talvez dos seus versos. — E o senhor não almoça? Está pálido. porque o pai morrera de congestão em véspera de certa combinação da Bolsa e os sócios. curvado sobre o leito. suspirou. sentou-se à beira da cama. vai. A pequena continuava numa ânsia. João Duarte soube pela criada que a menina ardia em febre. passeou nervoso. com uma larga fronte e um gênio arrebatado. Nem descansou o chapéu. pois não? Saiu para a sala de jantar. ensinando para viver. um sorriso misto de inexprimível ironia e de vaga satisfação. João entregou a parte que lhe cabia dos restos da herança às irmãs e continuou só a estudar. o estofo de um santo? Quem sabe? Ele resumia a vida no amor que se entrega suave e sem mácula. Oito dias. Os amigos acharam excessivo o gesto do rapaz. e sara. viu-se aos treze anos. uma vermelhidão na face. Ele parecia velho. tornou à filha. CORAÇÃO A Irineu Marinho. os braços também vermelhos. Depressa. perdi a fome. — Leva já isso ao doutor Guimarães. Ela. com este calor! Mas vamos mandar a Jesuina ao médico. João aconchegou-lhe as cobertas. Esta Maria! Decerto fez alguma imprudência. a sua querida filha! João Duarte era um pobre professor de rnatemáticas. na mesa em que Alberto Guerra continuava a almoçar. ao cursar o primeiro ano da Escola Central. posto que bastante original. na miséria. — Oh! você! Há dois anos! — Donde vem? E os dois homens abraçaram-se. haviam absorvido com descaro toda a fortuna. João Duarte forçou um sorriso de esperança e de novo foi-se ao quarto. A sua filha. olhou fora sem ver o movimento da rua. — Não. estendia o seu corpinho ardente. — Que tens. sorria. Precipitou-se no quarto onde a pequena Maria. abriu as cortinas das janelas. apalpou-a.

Ah! que idéia! . mas fica noiva. sendo a causa dos prazeres. está louco! Minha filha tem treze anos apenas. imaginou tomar pensão na sua casa. com as mãos bem tratadas. um simples gesto terno lhe acolheu sacrifícios de dinheiro. A mulher desconfiou a princípio e negou-lhe entrada. senhor doutor. Nunca amou a ninguém. Nós três sós e aflitíssimas. A moléstia da velha era grave e ele ficou para fazer-lhe fricções. tinha aulas particulares.. não és feliz? —Eu feliz?. pagando o triplo do que devia pagar. gesticulava. lentes e condiscípulos vaticinavam-lhe o mais brilhante futuro. menos que o apaixonado. no sotão do velho prédio. Casou com uma pequena de família humílima antes de terminar o curso. acabou pedindo-lhe um quarto. A família. e certa vez em aula: — Menina. cuidando.. muito trabalho.. enquanto naturalmente as despesas da casa corriam por sua conta. as suas ordens. dizia súplice: — Mas se não é verdade? Se a senhora sabe que não tenho tensões más? — Era melhor que as tivesse ! Ao menos sabia-se logo! engrolava a velha no auge do furor. um sorriso de resignação nos lábios. recebeu a primeira carta de amor: “ Venha já. Ele começou a presentear a criança. e eram elas que faziam a chuva e o bom tempo na casa de João. — Mas. bramia. casou. aos poucos. de quem sabia as necessidades. Ele foi dali à casa da mãe. Ele dava como um escravo.. Espero até aos quinze. Certa vez. — Que se há de fazer? Cada um como nasceu. Era um amor mais de pai que de noivo. ao entrar na aula. porém. vendo nele o protetor. João marido passou a ser a criatura que tem obrigação de dar. a velha em cólera. dar-lhe banhos. e darlhe dinheiro entre as folhas dos livros mandados à velha.brilhante. Às vezes. Ela aparecera aos treze anos. Ele indagou da família. queres casar comigo? Toda a aula riu. — Não importa. começou a quere-la menos. sentia-se feliz quando a Aurélia dizia: — O pai quando era vivo também fazia assim! Para não chocar a suscetibilidade da velha. O desequilíbrio nervoso da mãe redundara nela numa vaga histeria. o quarto em que estavam os cacaréos80 . A pequena ficou mais pálida e duas grossas lágrimas rolaram-lhe pelas faces brancas. Nunca um enlevo. Foi modesto o casamento. tanto era o luxo para a noiva e tantos os objetos comprados para a nova casa. ensinava à noite turmas de calouros. os seus conselhos era que a regiam. Aurélia entrava em casa a chorar: —. Ao cabo de dois anos. Encontrara perdida no mundo uma rara alma. Era um colégio gratuito em que meia dúzia de rapazes ensinavam meninas pobres. — Então. por ver Aurélia feliz. pensava em criar uma família. Não lhe sobrara dinheiro. em cima. que vivia com três filhas honestas a fornecer comida para fora. E João. achando graça na pilhéria do senhor professor. com mil sacrifícios e uma porção de trabalho. Ela foi a pouco e pouco acostumando-se.. Quantos sabiam do fato comentavam-no com acrimônia81 . Mas Aurélia não o amava. Quanto era preciso trabalhar! Lecionava em três colégios. em ter um lar para ter alguém seu e inteiramente dedicar-se. É uma criança. As duas irmãs solteiras açulavam os maus instintos da velha. depois de lhes ter dado uma porção de coisas! A cólera estalava na alma de João.São umas miseráveis ! Trataram-me como um cão. A influencia da mãe. sem forças. o principio das alegrias de alguém. a enche-la de cuidados. pálida. com três virgens! Que sátiro! Sempre que a opinião da rua filtrava através das portas. espiritual e enorme. Precisaria de certo de um homem brutal. num exagero que a assustava.. — Já não te tenho dito tanta vez? Não lhes fales! Elas invejam a tua felicidade.” Partiu. Morria de trabalho e estava satisfeitíssimo. — Se elas soubessem !. sacrifícios de trabalho. bradava. Mamãe com um ataque. velando. um amor sem desejo de carne. Ele apareceu com o mesmo fato preto com que diariamente labutava. uma senhora viúva de gênio irascível. Estava o João Duarte de dentro.

ria verificando que já não existiam frutas e bombons. Parecia ter vivido vinte. ou antes. Minha mãe é minha mãe. — Bom.. que ela. Saía. corria às obrigações. era ele de madrugada que ia acender o lume. Aurélia estava grávida. tolinha! Sorri ! Vai ser tão bom. E João Duarte recalcava bem no íntimo um vago e atroz ciúme do que não existia. — Trouxe-te figos e bombons. Não bebia senão água: comia sempre pensando noutra coisa. — Vamos ter um filho! Um filho! Sorri. os negócios a liquidar com os prestamistas. de gulosinas82 de que ela dizia gostar. — Não quero. a sentir os pés inchados. — Como estou aborrecida! Se me deixasses ir ver a mamã? Ela afinal é mãe. e ainda dava explicações a uma turma. Ela saia sempre contrariada porque o marido tinha pressa e voltava em cólera porque havia no teatro mulheres mais bem postas ou porque a peça não lhe agradara. dar a sua dedicação a alguém. deixou-se embalar. consentindo mesmo numa carícia. mas vê se consegues demorar as pazes. sem recursos. a vociferar com ciúmes. — Vai. da sua inteligência. entre o jantar e o teatro. Por que tentar o impossível? Ela não o compreenderia nunca. ia para a sala escrever e estudar até de madrugada.. dos seus nervos. e muita vez Aurélia acordou sobressaltada. os cortes de vestido. bom. as vontades de Aurélia a satisfazer.. João não acreditava. tão cheio de carinho para com a mulher. Como sentir aquela afeição tão fina.. Vai. para não se ver perdido. amando-a com aquele estranho amor de altruísmo e incapaz de viver senão para por ela sofrer e a ela dar todo o produto do seu sangue. As roupas de baixo tinha-as rasgadas. as aulas. Nos últimos dias era ele quem a vestia. Mas comia à pressa qualquer coisa. Aurélia rebentava em choro ou caía em profundos silêncios agonientos. Come. fazia ela instintivamente cruel. de súbito. Não insultes a minha família. a rodea-la de maiores carinhos para não perde-la. porque precisava amar alguém. nada de zangas. levá-lo à cama.Um grande desejo de insultar aquela criatura vulgar empurpurecia a face de João. despedindo as criadas aos gritos. João sorria. Era preciso diverti-la. Estava magro. — Se elas brigaram foi culpa tua. preparava-1he o chá. cada vez menos. João.. E eram passeios e eram consultas de médico e eram beijos. começou a ter vômitos. preparava-lhe o leito. Quando não havia criada. com a redingote verde e os sapatos em mau estado. Era a reviravolta. ele é que escolhera mal amando-a. a dedicação. filha. Os fatos duravam-lhe dois anos. leva-la ao teatro. Então João multiplicavase. Assim viveu dez anos. ia logo trabalhar. voltava para o a1moço carregado de frutas. abatido. Não te prendo. — Ah! que susto! até pareces um lobisomem! Mas. cedeu. empurrando os embrulhos. culpava-se e vinha a ama-la mais. Após dois lustros84 de união. culpava-se. havemos de chama-la Maria. Foi por essa ocasião que a mulher se fez mais criança ainda. mandava-a vestir para o teatro. os frascos de perfumes sumiam-se do guarda vestido. anda. Se for mulher. com ele ao lado a olha-la enternecido. tão superior em que a honra. preparar o primeiro almoço. Aurélia aparecia mais alegre. Mas para que? A pobre mulher não o compreendia. dar-lhe mimos. As frutas. os bombons iam embrulhados tal qual para a casa delas. Era um espírito de criança numa alma de mulher sem amor. humilde. e dormia pouco. com o cérebro cheio de preocupações. o sentimento da paternidade fê-lo tão loucamente feliz. Seria possível? Mas o médico não lhe deixou dúvidas. o sonho de um homem cheio de coração irradiavam? Um rapazola qualquer com três socos talvez abrisse na rocha a fonte do amor. Não há duas mães. Fizera as pazes com os parentes. uma vez na vida. hein? Querias que fosse homem? Ah! egoísta! Os filhos gostam sempre mais das . a velha mãe e as irmãs solteiras tinham vindo alegremente fazer-lhe uma visita. Ao jantar trazia-lhe sempre uma recordação. Ele tinha um vinco de tristeza e de raiva logo sopitada83 . Todo o desejo do pobre em fim realizado! O seu amor foi tão grande. De resto.. Um tipo cheio de dinheiro espalhando notas do banco talvez a fizesse esquecer os seus deveres de esposa.

a essa entregaria a sede de pureza e ideal do seu coração dedicado. por meta do sonho. aflito. vendo que os carinhos do escravo diminuíam e por uma feição dos seus nervos em desequilíbrio. a anima-la. Sem nunca ter aprendido. de coragem e de sofrimento tinha por fim. Não lhe demos mais medicamentos. — Minha filha. a olhar. Pois se não a largas! Ele queria sorrir. Era o próprio egoísmo.. Tu por exemplo és mulher e gostas muito da tua mãe. — Deixem! Tenho esperanças! Uma grande esperança. não compreendia bem aquele azedume eterno e lá se ia para o berço a olhar. o feroz egoísmo das histéricas. havia de saber que a sua vida inteira de esforço. parte do seu ser. — Sim. minha filha. O mundo se transfigurava. E ele ficou. a embala-la. Eu fico a acalenta-la até a morte.. apontando-o como o inimigo pronto a roubar-lhe o amor da filha.. ele podia amar totalmente. muito. que nunca na sua vida cantara por não ter tempo nem alegria. a incutir-lhe com toda a força da sua vontade o desejo de vê-la viver. João entrava da rua ansioso.. julgando-se desgraçada e intimamente culpando daquele horror o marido. . o tratamento contrário. Em casa havia uma balbúrdia. com uma voz muito triste. de vê-la renascida. pergunta à ama. o desdobramento belo do seu eu. sentia naquela obrigação de carinho paterno que cantar era para a sua alma como desabafar soluços guardados no seu peito de homem muitos anos antes. louco. com alguma coisa da sua alma. Maria nascera doente. Mas decerto o destino dando-lhe uma filha queria simplesmente aumentar as angústias desse humilde coração sensível. pálido. aflito. — Está perdida? — Meu pobre amigo. e a pequenita deu de piorar.. As irmãs e a mãe. com altas doses de quinino. incapaz de resistir. Um dia. uma noite de temporal no mês de junho. A essa sim. fez o médico a sorrir com descrença. julgavam a criança perdida e apostavam o dia da sua morte. no escândalo condenador de toda a casa.. ele chamou o médico. nem mais comia. a passear a filha. Aurélia. Era um erro de diagnóstico. Quando a pequena nasceu. Quando se anunciou a dentição. por último círculo do paraíso — ela. Aurélia gritou duas noites. hesitava. seguia-lhe as prescrições à risca.. — Está? — Infelizmente. Venha apenas passar o atestado. Os remédios enchiam os consolos da sala. Os móveis tocavam-se de uma luz estranha.. Afinal o destino realizava a sua única vontade: uma filha! O seu sangue. a cantar cantigas. murmurou num êxtase. sem consentir que a tocassem... que não dormia. feito de excessos de ternura e de dedicação. muito. a dar-lhe gotas de leite. toda a sua vida.. Peço-lhe um grande obséquio de camarada. fora de si.. inteiramente inúteis. O teto abria uma chuva de delícias. a essa devia amar e sentia amar. dormia nas cadeiras. — E a pequena? — Não sei. João ao toma-la ao colo sentiu uma tontura de alegria. Aurélia. talvez. E a velha muito sincera: — Qual! aqui só o milagre! Começaram as conferências.. com o seu grande amor sempre contido e represo. Ele nem mais dormia. com a pequenita nos braços. Maria foi presa de uma febre violenta. Ele. de um para outro lado. João desvairado mandou chamar um médico amigo. Mas há exceções. Talvez o meu amor. Custa-lhe tanto! Ela faz uma cara tão feinha. viu-se à perfeição a enfaixar a petiza. havia de senti-lo. — Não fales! Não fales! O parto foi laborioso. a morte.mães que dos pais. desinteressou-se dos carinhos maternos ao mesmo tempo que sentia um violento ciúme do marido. — Pois bem. porque ela havia de compreende-lo.

a arder em febre. de pior humor. resumia todos os amores na sua permanente carícia. Depois. tomava um tilburi85 . que entrava acompanhado da Jesuina. olhando-a. erguendo os braços. Por enquanto vamos dar-lhe um laxativo e um pouco de quinino para combater a febre. começou a examinar a doentinha. de aparência sã. a cada febre violenta da menina. João ficou no quarto. aquelas coisas. O pai fazia-lhe uma atmosfera de suavidades. e notou então que tinha ainda envelhecido. mas à proporção que o amor da filha mais se enraigava. com a gratidão das crianças que é de tão grande egoísmo. — Ora. João. a reação.. Estava grave! A pequena no leito crescia da agitação. a petiza. corada. grave! Sim. fez ele a rir para os outros que sorriam. Então João suspirou de novo. e como amigo da casa. João não podendo conceber esse coração. teria energia para vencer nessa nova luta? E foi ao encontro do Guimarães. Como queres tu combater a febre? Ela tem trinta e nove e oito décimos. o amor incomparável faziam a petiza grata. Maria só adoecera duas vezes e ele estava já pensando num fenômeno de saúde. indignada. — É difícil um diagnóstico. sã. Foi ele quem lhe ensinou os primeiros passos. deixa de tolices. ao passar. Aurélia. — Mas é espantoso! Adormecer ao colo uma pequena de cinco anos! Bem diz a mamã que as tuas maluquices estragam a menina! João deitava a filha recomendando à criada mil precauções. viu a pequena sorrir-lhe sem febre. tinha uma saúde de vidro. Não te aflijas. e fazia-lhe todas as vontades. demorou o exame num profundo silêncio. Então a sua filha doente? E grave. Entrou. — A Maria. Como a mãe nos seus acessos neurastênicos dava razão à família e batia-lhe. comprava-lhe brinquedos. Mas como sofreste. homem. Foi-se a receitar. E querer bem custa tanto! A doença da filha viera desorganisar-lhe a vida do lar. à hora de ir ao teatro. tinha pela mãe um sentimento muito vizinho do medo. sem pregar olho... Como a avó levava a fazer-lhe censuras com o pretexto de a educar assim como as tias. Era como se tivesse recebido a notícia de que o mundo ia a desaparecer. pondo um pouco do céu sobre a terra. meu amigo! Estás mais branco. Dos sete anos porém para diante. — Volto à tarde. — Que queres? É a vida. sacudindo a . em que João parecia de mármore para não deixar transparecer a sua angústia. Aurélia cada vez mais nervosa. da família. foi ele quem a fez repetir as duas primeiras sílabas formando sentido e quem toda noite até Maria ter cinco anos a adormecia numa vasta cadeira de balanço a cantar baixinho velhas canções de embalar crianças. e nada mais agradável para os seus curtos instantes de descanso do que ir fazer com a filha o “chicote queimado”.Assim passaram quarenta dias. exigindo que ela vivesse. pensou. Maria odiava os parentes. de todos. com medo dos médicos. fingir que não descobria um lenço escondido e vê-la rir. já descansado. com o chapéu na cabeça. — Quinino! Ela tem horror ao quinino. a sobrecasaca aberta. Teria coragem de ir até ao fim. a mágoa da esposa aumentava. se é que tinha isso. com efeito. Enfim ele realizara a felicidade. atenuava. Havia um ente por quem se sacrificava mas que só no mundo a ele via com amor ! E a cada achaque de moléstia. os dois olhos injetados. estava realmente doente e não se sentia senão irritada contra a filha. Esses cuidados. Parece-me sério. O pai era bem tudo. Não te aflijas. Até logo. mirou-se num espelho por acaso.. tal qual tinha entrado. quando ao entrar em casa encontrava-a assim. — Vamos a ver. Quando ao cabo desse século de dor e de tensão nervosa. surgia. Seria grave? Seria coisa de nada? Maria continuava a agitar a cabecita. já com o sonho de um futuro risonho ao ver a filha linda. sabes. ordenou a Jesuina levar a receita. dividia-se entre as duas. sadia. Maria. apanhava sempre alguns minutos. O médico chamado confirmou: — Sim. brincava com ela. rir como riem as crianças. ia até a casa ver se Maria dormia bem. ficava aí perto do leito. No teatro ou onde estivesse a conduzir a esposa.

cabeça nas travesseiras. De repente, ergueu-se atirando longe as cobertas, sentou-se. — Minha filha, que é isso? — Já é tarde, vou vestir-me. — Não podes; estás doente. — Ah! quanto fogo! É um fogo de artifício. Espera. Onde estão as botinas? — Maria! Maria! olha teu pai. — Ah! as baratas, as aranhas. Que porção de baratas! Vamos mata-las, vamos. As botinas... Era o delírio. Sem forças para rete-la, temendo magoa-la, João acompanhou-a. A pequena corria a casa, ele precipitava-se para fechar uma ou outra janela, para amparar-lhe os passos titubeantes. Era o delírio. Era a morte. Oh! sim, era a morte! Maria entretanto não caminhou muito. Súbito esmoreceramlhe as pernas, e ele levou-a ao colo para o leito, aconchegou-a bem, ajoelhou na borda da cama. — Maria, descansa; não morras, minha filha, não morras porque eu não resisto! E sentiu que chorava, que pela primeira vez na vida chorava na presciência da fatalidade inexorável. Mas era preciso lutar, arrancar o seu entesinho ao irremediável. Enxugou as lágrimas, as idéias um tanto confusas. Aquela calma de amor com que reagia sempre outrora se transformara numa agitação febril em que a sua vontade se perdia. Quando os medicamentos chegaram, foi ele mesmo a administralos. A febre continuava. Para o jantar Aurélia entrou, e ainda toda enfeitada no quarto: -— Então que é isso? A Aurélia mal, desde que saíste, parece. -— Não há de ser nada. -— É grave. Já delirou, está delirando. Maria, minha filha... — Se mandássemos prevenir a mamã? — Faze o que quiseres, deixa-me, deixa-me ! Ao escurecer, o doutor Guimarães reapareceu. A febre não cedera, antes aumentara. O médico balançou a cabeça. Era impossível fazer ainda um diagnóstico, mas o estado da menina inspirava cuidados. Se não tinham confiança nele, poderiam chamar outro para uma conferência, e mesmo não o preferir... De resto a casa já tinha esse aspecto que precede as tragédias, como se o inanimado, os móveis, os muros, os quadros, os objetos sentissem antes dos homens o arrepio da morte, a passagem da ceifadora. A família de Aurélia aparecera. A velha dogmática arrasava Guimarães e queria outro médico. As irmãs já asseguravam o caso perdido, como de costume. A vontade de João sossobrava. Ele queria estar apenas perto de Maria, não se tirar dali, ser o único a cuida-la. Então foi pela casa, dirigida pelas mulheres, como um vento de ensandecimento. A primeira conferência relegara Guimarães. Um outro médico moderno e célebre aparecera, imaginando banhos quentes e injeções hipodérmicas de quinino, enchendo os aparadores de frascos e de caixetas. Batiam à porta sinistramente os fornecedores. Uma grande banheira foi instalada no quarto. Para enche-la, cada um trazia o seu jarro d’água a ferver. João calafetava as portas, despia com uma delicadeza infinita a pobre Maria, tomava-a ao colo, depositava-a na banheira com um arrepio, como se estivesse a matar a filha, enquanto o médico contava os minutos. Tomava a pegar da criança, enxugava-a, envolvia-a nos cobertores, quedava-se, com os olhos muito abertos, um vinco de angústia entenebrecendo-lhe a boca. E o médico tomava da agulha, enterrava-a no ventre da filha, indiferente, conversando. Como apesar dos laxativos, o ventre continuava átono86 , recorreram aos clisteres87 . Ele os dava só, sabia de todos os remédios e passava a noite, aos pés da cama, olhando a filha. Quando ela dormia, chorava, e murmurava tão baixo que só a sua dor o ouvia. — Não me deixes, Maria, não me deixes... Ah! não que eu morro, que eu morro! Por que vieste, hein ? Por que? Para me fazer sofrer? E de uma vez em que estava assim, com a face molhada de lágrimas, ouviu a voz da filha:

— Ah! paisinho! Quanto trabalho está tendo comigo! — Maria! — E não vale a pena... — Meu amor, não fales, ouviste? dorme. Estás muito melhor. Tocou-lhe nas mãos, e, com efeito, sentiu-as menos quentes. A febre declinara. Uma chama de esperança brotou-lhe no coração. Esperou ansioso a manhã, e quando o médico chegou, disse-lhe quase a sorrir — Está melhor. A febre diminuiu. — Acontece. É do curso da moléstia. Tem trinta e oito graus de febre. — Então? — O perigo ainda não desapareceu, meu caro. Sua filha tem uma grave moléstia com períodos fatais. Há quanto tempo caiu? Há oito dias. Desde esse momento os dias tem se conservado firmes, de sol. Esperemos que assim continue o tempo mais uma semana e eu garanto a vida da pobre criança. Mas, se por acaso tivermos uma brusca mudança meteorológica, uma tempestade, o abaixamento da temperatura — é difícil dizer qualquer coisa. — Então, se o tempo conservar-se firme?... — E se houver a tempestade... Certo João Duarte nunca na sua vida se sentira tão a braços com o destino triste. Ouvira falar de moléstias em que a variação atmosférica influi perniciosamente, sabia mesmo o nome de algumas, mas a hiperestesia88 da sua angústia, a tensão nêurica89 em que o mantinha a iminência do desastre, aquele ror de noites passadas em claro, o esforço físico de andar com a petiza ao colo já tão crescida, e esse martírio de sofrer na alma todos os cruciantes sofrimentos físicos da filhinha faziam-no perder a noção nítida das coisas, esbatiam90 a vida em torno do grande problema : salvar Maria. A idéia da tempestade entrou-lhe no cérebro de matemático, de homem de ciência sem abusões, sem crendices, como o anúncio da catástrofe que era preciso evitar a todo transe. Um tremor convulsivo tomou-o, e a sua atenção bipartiu-se entre o céu e a filha com o pavor de um primitivo diante dos elementos. Se chovesse, se no céu lindo rolasse o fragor do trovão e nuvens negras toldassem o azul do firmamento, toda a razão de ser da sua existência naufragaria porque a filha não poderia escapar. Não se tirou mais do quarto. Passava a velar Maria e a ir de vez em quando levantar a cortina para olhar o céu, com um medo supersticioso. Era em novembro, no começo do verão, nessa época de bruscas tempestades em que amainavam os grandes calores. A temperatura subia, o sol era um disco de fogo no azul de cobalto, do céu sem nuvens; e as noites se diluíam num escandaloso luar cor de ouro e cor de opala. Estavam a findar os dias do plenilúnio91 , iam entrar na minguante. Talvez mudasse o tempo. A febre não cessara, queimando a fogo lento os membros emagrecidos de Maria. A nevrose da casa tivera um hiato de cansaço, à espera do acontecimento. A família dormia pelas salas, sem pouso. Aurélia tivera dois ataques com gritos despedaçadores que faziam no seu leito a doentinha contrair o semblante numa inédita angústia de cadáver horrorizado subitamente voltado à agonia. Ele quedava-se, ouvindo o crepitar da lamparina e o tic-tac do relógio na sala de jantar a coser o tempo no pesponto certo dos segundos. Qualquer outro rumor, o arrastar de uma cadeira na casa vizinha, as vassouradas dos varredores pela madrugada, faziam-no pensar em trovões ao longe, em quedas d’água. Corria então à janela, levantava a cortina, perscrutava o céu calmo. Ah! se não chovesse! Se o milagre se desse! Se Deus quisesse! Até mesmo em Deus ele acreditava, pondo a reger aqueles fenômenos que a sua ciência conhecia, um ser sobrenatural e todo poderoso. E assim os dias passaram. Um, dois, três, quatro dias que eram para ele a corrida do seu coração, o galope dos sentidos por um túnel de treva à procura da luz anúncio da vida, dias de que contava as horas e os minutos e os segundos como se os sorvesse sedentamente num contador de fel, dias que lhe chupavam das artérias anos de existência. — Façam uma promessa. segredava às mulheres, vocês que acreditam. Façam uma grande

promessa. Eu cumprirei... As criaturas, incapazes de sentir assim, estavam afinal tocadas de respeito, lamentando tanto a criança como aquela energia humilde que a seu lado se finava por ama-la demais. Os santos surgiam. Havia oratórios na sala de visitas, no quarto de Aurélia, com velas a crepitar. E a febre continuava a ressecar a pele branca de Maria, sempre, sempre, sem descontinuar. No quarto dia — era de madrugada e já João fora varias vezes olhar o céu — estava sentado a olhar o sono tenebroso da filha, quando pelos seus olhos passou um relâmpago. Não, era de certo alucinação da fraqueza. Correu à cortina e quedouse com um arrepio de horror. Grossas nuvens vinham vindo do ocidente. A luz da lua era de uma intensidade cegadora, envolvendo de tal sorte o casario que parecia libra-lo92 numa atmosfera de sol azul, coroando-o de icebergues de flocos. Na linha do horizonte, porém sucediam-se clarões como os que fazem os canhões ao longe a detonar. Era mesmo um canhoneio de chamas, de que ainda não se ouvia o barulho mas que barravam a barra do céu de putrefações luminosas. João Duarte correu à filha, apalpou-lhe o braço descarnado, que ardia. Nesse momento ouviuse um grande fragor pelo céu todo. Era o trovão. João passou várias vezes a mão pelo rosto. Era impossível! Era impossível! Talvez ele estivesse tentando os elementos, com a idéia permanente da chuva. Procurou alhear-se, pensar noutra coisa, arquitetou frases vagas, com os ouvidos à escuta, os olhos dilatados. Esteve assim um instante que lhe pareceu um século. Não resistiu, voltou á janela. Já o céu de um azul de vidro se achamalotava93 e se rendava de nuvens cor de cinamono94 . Qual! Era verdade! A chuva vinha, era fatal! Nunca na sua vida o destino sorrira senão para lhe lançar mais veneno na alma. Assistiria de pé à hecatombe. E depois estalaria, estalaria como estalara o trovão. Que fazer? O céu em pouco foi todo um licor que baixava, empedrado de nuvens, empurradas pelo vento. A rua, minutos antes banhada de luz, escurecia em treva. Grossos pingos d’água começaram de bater na vidraça onde João tinha a face colada. Em pouco os pingos redobraram saraivando nos vidros, e os trovões tonitroavam, trovoavam, fragoravam no arquejo despedaçante do vento alanhando o negror do espaço de coriscos súbitos que rachavam a treva. E, àquela violência, João, como um náufrago, ainda tinha esperança, ainda pensava, que após o temporal voltasse o tempo firme definitivamente, e ainda houvesse um meio. Qual! Aquilo ia acabar, tinha de acabar. Era chuva de durar pouco! Mas a chuva caía, jorrava do espaço violenta e brutal, inundando a rua. João olhou então a filha. A pobrinha mostrava apenas a face de cera entre os caracóis dos cabelos. As olheiras eram roxas e o nariz afilava na sombra do para-luz. Pobresita! Estava a descansar. Ele ficaria ali, contra o elemento, proibindo-o de entrar, impedindo-o de passar. As idéias fugiam do seu pobre cérebro sempre resignado. Abriu os braços nos portais, ficou assim longo tempo, pensando, pensando na tempestade, na filha, na tempestade que ia acabar, na filha que não podia morrer. Quanto tempo levou assim? Era impossível saber. Um zumbido tomara-lhe os ouvidos na recordação dos trovões, as fontes latejavam-lhe, e tinha as mãos frias como se as tivesse passado em gelo. Só deu acordo quando viu uma luz baça vir surgindo no espaço e viu que a chuva continuava lentamente, sem fim. Era das que não acabam! Deixou cair a cortina, veio na ponta dos pés até o leito, apalpou o corpo da filha. Estava sem febre, sim! sem febre alguma. Dera-se o prodígio? Seria possível? Então a chuva, a tempestade?... Apalpou bem a testa, o peito, os braços, os pés. Os pés estavam até frios. Ora esta! Um sorriso de satisfação abriu-lhe a boca, onde só a dor deixara vincos. Foi buscar um outro cobertor para os pés da queridinha, envolveu-os bem, e de novo apalpou as mãos. Estavam também a esfriar. Hein? Que era isso? Talvez o corpo, desacostumado da temperatura normal... Qual! Era idiota o que dizia! Chamou a filha, baixinho: — Maria, ó Maria, melhorzinha? A pobre não respondeu. Também tão fraca ! Nem de certo escutara... Chamou mais alto: — Maria, então? queres deixar o pai do seu coração sem uma resposta? Não vês? Estou só, eu

só aqui, eu que sofro contigo. Maria. Estava atormentando-a com certeza. Ah! que bruto era, que mau! As mãos, porém, esfriavam. Oh! Uma nova complicação na noite, mais dores, mais males, mais horrores. Que seria? Foi até a cômoda, acendeu uma vela, veio ver de perto a sua adoração. Maria tinha os olhos abertos, bem abertos, grandes, largos, abertos. Qualquer coisa de vidro cristalizava-lhe o brilho. E os lábios descerrados mostravam entre os dentes uns filamentos brancos, secos, uns filamentos que nunca vira. À luz da vela as pálpebras não bateram. Uma grossa lágrima rolava-lhe pela face. Já se lhe não sentia o respiração. João Duarte deixou a vela ao lado, na cadeira, virou-se para um lado, virou-se para outro, passou as duas mãos pela cara, esmagando os dedos de encontro aos olhos, quis falar, quis chamar. Parou, pousou de novo o olhar no olhar que se embaciava, olhou, olhou a filha. Um tremor tomou-o, sacudiu-o, abriu-lhe a boca, como que lhe esgarçou os músculos. As mãos crisparam-se-lhe. E, de chofre, caiu para frente, sem apoio, no chão, com a face de encontro ao pé da cama, estalado de muito amar desgraçadamente.

A NOIVA DO SOM

Estávamos na sala malva, a sala das recepções íntimas, das conversas leves em torno da mesa do chá. Mme de Sousa, linda no seu “ teagown”95 cor de pêssego, posava entre a trêfega mme Werneck e a sisuda viscondessa de Santa Maria, e nós, eu e o barão Belfort, já tínhamos esgotado o ataque à música italiana, quando mme Werneck deu conta da sua última descoberta: — O barão está triste. — Pois se venho de acompanhar um enterro. — Triste por isso? O barão, o homem sem emoções, triste porque acaba de fazer a coisa mais banal desta vida, entre pessoas de sociedade! — Não é propriamente por isso. Estou triste porque vi enterrar a última mocinha romântica deste agudo começo de século. Se lhes contasse a história da pobre Carlota Paes, ficavam para aí todos a chorar, e antes de tudo, nesta hora agradável, nunca me perdoariam ter envermelhecido os lindos olhos de mme Werneck. — Mas, pelo que vejo, a sua história tem a propriedade do dilúvio! fez asperamente a viscondessa. — Conte-nos isso, barão, disse mme Werneck; com a sua história contemporânea do dilúvio faremos decididamente coleção de antiguidades sisudas. Houve um aproximar de cadeiras. O barão bebeu um gole de chá. — Não conheceram a Carlota Paes? Pois a pobre Carlota Paes, coitada! já com um começo de tísica e um perfil romântico, dava mesmo pena, à noite, no parapeito da janela, muito branca, como desmaiada. Ninguém lhe sabia da vida, e vendo-a assim, à janela daquela velha casa, todos a deploravam. Quando a Carlota atravessava a brutalidade do bairro pobre, com a apagada dor dos humildes aristocratas, trazia no rosto um tal desgosto que era por quantos a conheciam um só lastimar. Também saía apenas para acompanhar a mãe, uma senhora escalavrada e roída como um vaso antigo, para acompanhar com o seu passo de visão a pobre velha carregada de pesadas costuras. Fôra assim desde nascida! Olhava os pobres e os parentes como se guardasse na alma a recordação de um mundo melhor, alheava-se deles, e quando a viam recolher ao sobrado em ruína, já todos tinham a certeza de vê-la aparecer à janela, muito loura, e muito branca. Que fazia ela, assim, por longas horas, alheia à rua, olhando o céu, como um personagem de

toda ela palpitava agora com uma tremura de folha ao vento. e como se a vida extra-humana fosse um só gemido de amor. decerto. cavava-se em soturnas mágoas. a vibração de uma corda na lamentável evocação de vidas que se não realizam. Não lhe pude saber a origem desse esquisito feitio. d. num resumo de mil emoções. como carícias de rosas. está de todo virada! E quando eu lhe levava alguma coisa: — Então a sra. Parecia um tipo de lenda à espera da fada que o fosse salvar do bairro escuro e daquela pobre senhora sempre a trabalhar e sempre de preto. julga-la-ia perdida de um paraíso artificial. envolviam-na. machucando-a. iam a pouco e pouco desfibrando-a. parecia uma ninfa virada em anjo da saudade — porque. como sumida da realidade. exprimindo o inexprimível. esboçava paisagens sutis e esfumadas. as estrelas palpitavam e a luz do luar lustrando as casas com o seu misericordioso brilho. Também. com um arrepio de gozo que lhe subia pelos braços e lentamente se irradiava pela nuca. endechas dolorosas. e que romantismo. quem lhe visse o olhar e os irresolutos gestos. nunca sentira os nervos tocados daquele brusco quebranto. Nós já ríamos da paixão. Esperava. que se desfiasse. como um rosário sem fim. Era. nada via. estarrecida. Ela ficou presa. perdidos soluços de paixão. toda ela espiralava tormentosos queixumes. Teria chegado a felicidade. continua a viver dos sons. e toda a suavidade sensitiva. assim ficava até tarde. entre a luz dos astros e os sons misteriosos. que me esfriou a alma. torturante do desejo que não se termina e se preludia. olhando o céu. a casa ao . e quando qualquer dificuldade emperrava do outro lado a mão do tocador. era uma menina romântica. Os sons. ela que sempre vivera na expectativa do bem! Essa noite passou-a à janela até muito depois do piano calar. Carlota ficava ali. Para que o sentir da pobre criança fosse mais intenso. diante da álgida luz do luar. Uma vez. no espaço. Oh! nunca a doce Carlota se sentira tão emocionada. e desde então andava o dia à escuta e toda a noite passava. a miséria que embota a alma e engrossa as delicadezas. quebrada pela incompreensão dos outros. de expressões subitâneas e diversas. nunca ninguém a tinha visto à janela baixar o seu severo perfil às vulgaridades do namoro. iniciavam-na numa religião de amor desencarnado. com o olhar cravado no infinito. o harpejo brusco e sonoro de um piano sobressaltou-a. e certa vez que lhe levava “bombons” e lhe falei em paixão. Para os grandes sensuais só ha um gozo integral que exprimia a ânsia de acabar e a fraqueza humana — o som. num turbilhão contínuo de notas. Como estão a ver. muito branca e muito loura. a Carlota sentia uma agonia como se hesitasse em compreender todo o alcance pecaminoso da frase. daquele epidérmico encanto do som. presa ao parapeito. a expressão persistente. desfiava risos perlados. a Carlota estava a chorar. nem sabia bem porque. envolvendo-lhe a alma. Quem seria? Nunca ouvira aquilo. o impalpável prazer até então vedado? Aconchegou-se mais ao xale. Do outro lado lentas espirais melódicas espraiavam-se. do amor cuja volúpia jamais alcança o paroxismo. em que o oculto pianista tocava. numas atitudes serenas de pássaro triste. Vinha-lhe às vezes a curiosidade de saber quem era esse tocador. mucilaginava96 uma dolorosa expectativa. velada. ela teve um gesto tal. — Então a Carlota? — Ai! meu senhor. Tossia mais. Do outro lado a música. quando na casa junto. estava diáfana.romance? Coitada! Era o único meio de esquecer a miséria da casa. Passava os dias à espreita. no mês de junho. ouvindo-lhe o último som perdido na cinza avelhada do luar. Carlota sempre com os sons? Ela pendia na cadeira sussurrando — É tão bom! Aqueles sons. e com a sua ansiedade. entrava pela janela num retângulo de ouro que parecia milagre. minhas senhoras! Até eu cheguei a admira-la.

Era preciso que a música lhe levasse o supremo consolo. ao longe. Venho pedir que toque. entre as bacias. o artista estranho da noite. bastava a inconsútil paixão que a rojava a seus pés! E perdia totalmente as noites. queixas em harpejos arquejados. quando eu subia a escada íngreme da sua velha casa. Fez um esforço. em que o piano parecia abalado e a musica estrebuchava. gozando com um gozo feroz de agonisante. esperava e era sempre com um susto que. como se fizesse o exame da sua alma de amorosa. quarto n°... o amor incorpóreo. ninguém no mundo amava. estendeu a mão. o músico não tocou. outro respondia. Bruscamente. Depois. de outras. traidoramente frias. ais sem fim. então. Pede-lhe que toque. essas noites de agosto. com um ar velho. um som subia. à direita. perdeu esse desejo. despreguei-me pelas escadas.. — É o senhor o pianista? — Sou. Perguntou à mãe se a informavam e a velha senhora respondeu que não sabia. Subi. Entrei pela casa ao lado. Vá com Deus. quase se arrastando. entre as muitas pessoas que entravam. a morte. sangue. d. — Como foi isso? -— Sei lá! Passou toda a noite à janela. ia para o peitoril. a música inquisidora amortalhava-a desabridamente no delirante tropel do amor! Ah! o gozo do som! Os seus nervos sensíveis chegavam ao pranto. ao soluço. parecem sudários consoladores. — Venha.. a lúgubre confusão que precede o eterno descanso. Cada nota já lhe exprimia um sentimento. ontem. Encostava-se ao parapeito. as mãos invisíveis soluçavam a mágoa e a tristeza. o êxtase da música encantada. pesados e sonoros. — O maluco? No primeiro andar. Vinha pedir.. dois acordes de contrabaixo. empurrei a porta. bebendo a pleno trago o delírio. coitada! estava caída numa cadeira de braços. há mais perfume no ar e as brumas. Ana apareceu-me desgrenhada. não lhe deixava adivinhar. de repente. Deixei-a. No fim. tocava várias árias simples. o aviário se encadeava num trinado. plenamente fora do mundo. como hipnotizados. e de cada vez. o pianista que fundia a alma com as notas. hemoptises. uma pensão. Essa menina vive há um mês de ouvi-lo. eram trechos modernos. trançando no ar uma flora bizarra de nervosos acordes e era então uma revoada de dores. Está morrendo. — O pianista? perguntei ao encarregado. noites em fora. Era um inebriamento até ao romper da alva. bati com força no quarto. — Para não tocar hoje... em que a luz brilha mais. desesperado. O homem passou a mão pelos cabelos. — Não. a coitada ardia em febre. Na sala de visitas. a chuva. adivinhando acordes. Encontrei um velho homem. as botijas. 5. Não é possível explicações. como acordando o piano. ao sorriso. os trechos repetidos pelo artista ela os seguia. Ora. mais maravilhada ficava. rugidos rubros de ciúme. que não era possível saber. Muita vez. ouvia abrir-se uma escala. a pobre Carlota. e as duas vibrações de bordão. -— Estou à espera da música. os panos.. enquanto ao lado.. . como se os séculos todos chorassem a vida. sentia-se ainda com esse sagrado e impalpável amor. Conhece-lo para que? Bastava a delícia de ouvi-lo. — Há aqui ao lado uma criança que agoniza. Nos últimos dias. Decerto. como para uma tortura e do outro lado. a Carlota morre. magro e adunco. ninguém.. adivinhando sons. acuda.lado.

envolveram-na. do acabado. acrescentou mme de Souza. o luar entrava pelas janelas. muito medíocre. por trás do paravento98 . aqui está porque eu estou triste! — Coisas da sua fantasia macabra. é uma loura. — Mas escute. o tabaco turco. da vertigem do tempo. quando o barão Belfort. Depois. docemente. os homens guardam na história o mesmo fenômeno de memória da sua vida interna. Ao lado.. Jorge oferecia chá em xícaras de porcelana da Pérsia. enquanto mme Werneck fazia um grande esforço para não chorar. Como a querer beija-la. abrindo um paraíso. não lhe diga como eu sou. rasgando o ar. A SENSAÇÃO DO PASSADO Estávamos a conversar no gabinete de Jorge Praxedes. como um coro de rosas. e ela. As dores. . atacamos a música italiana. exclamou: — Como tem você razão! Os grandes sentimentos e as grandes emoções são sempre os mesmos. só o que é medíocre. as alegrias. a ouvir um trecho de musica clássica. fez a severa viscondessa de Santa Maria. neste torvelinho moderno em que a beleza desapareceu. ouvindo a música do amor. Para um homem que vive a vida intensa não há propriamente passado. como artista nunca me foi possível ter a impressão do extinto diante de uma estátua grega. sem uma contração. com uma dor infinita. lembramse mais de fatos do tempo de infância do que do tempo de ontem. onde há conversas tão alegres. com afinco e erudição. há um acumulador que não dá a impressão especial do antigo. do não sentido. todos nós. Depois. — Para entristecer a gente. O barão limpou o monóculo: — Ora. num golfão de ouro. Como homem as minhas amantes mesmo mortas vivem todas na minha memória como se estivessem ali.. Por isso. e todos olhavam prudentemente as janelas. Um tropel de sons reboou.— Escute. as modas ficam na memória como coisas presentes que se afastaram. a ver uma linda tela antiga. entrechocou-se. onde os arcanjos cantassem e. vou tocar. Era um fim de tarde prolongado por um lindo e maravilhoso ocaso. perdia o encanto! Quando outra vez entrei na sala. disse um da roda. do que não volta mais e há muito tempo terminou. Como artistas. à hora suave do chá. Mas. vá. que tocava um pouco distante um vago Schumann num piano meio desafinado por falta de uso. enquanto Carlota sorria. subitamente. do total alheamento que o passado devia dar. tremulou brevemente. Houve um prudente silêncio. a atmosfera. tinha na face a tortura da agonia. tudo isso nos dava a lombeira97 das recordações e o desejo de fazer frases. muito loura? Meu Deus! Pobre pequenina! Então ela me ouvia? Vá. com as mãos de magnólia cruzadas sobre a peito. os acordes. a Carlota morria. — É curioso. o piano explodia uma indizível revolta. eu toco. havia largos divãs sonhadores entre as mesas atulhadas de bugigangas de arte. pareceu parar. linda e sentimental. do galope da existência e de outras coisas novas. E. de novo. e naturalmente. E ela morreu. dá a sensação do passado. o chá. nós os homens modernos não temos a sensação do passado. beijaram-na. — Paradoxo! — É fato. Já tínhamos falado do amor. agarrou-me o braço. teve um estremeção. como uma ronda de astros que se despregassem do infinito. Houve um longo silencio na sala malva. deslizou. Eu sou feio. da terra as estrelas.

. E até jamais esquecerei a sensação porque vi. sentindo a cada passagem uma sugestão aos sentimentos eternos. absolutamente fashion.triunfava nos salões modestos. fora do tempo. as matronas indagaram o meu nome e eu fui conduzido ao fumoir. a adejar a gracilidade suave dos gestos. Por esta apreensibilidade de motivos musicais. . os cavalheiros presentes aguçaram a atenção.. polcas. num dia de baile. Não era um sarau superelegante. O barão. — Grande fantasista. o nosso amor pela beleza vibra como vibrava o dos contemporâneos do grande artista. novas composições suas. — Aquela muito bonita. algumas notabilidades literárias e científicas arrumadas na saleta de fumar. O dono da casa recebeu-me com as reverências com que receberia um bonzo. e. baixinho. — Repito. com os colarinhos altíssimos e o jeito pernóstico de levantar o dedo mínimo onde fuzilava um solitário. a elegância das mulheres. E para isso bastam dois anos. olhei. com alguns erros e muitas aclamações. Diante da Vitória de Samotrácia no Louvre é impossível deixar de ter o enebriamento do triunfo diante daquele bloco de pedra ardente que parece arrastar as embaterias 99 da conquista. As moças olharamme curiosamente. do passado integral. o seu nome . Qual dos senhores que amam perfumes sente a velhice da essência de rosas? É dos mais velhos perfumes do mundo e é divino e sempre da nossa alma. que fosse tão simples e tão doloroso. trauteavam compassos. o afinamento nervoso dos homens. um farto serviço de buffet. do velho repugnante. ali mesmo. valsas e outros sons dançantes. casacas. — Nunca pensei. Como André de Belfort contava sempre coisas interessantes. eu que vibrara diante dos frescos de Botticeli como diante da revelação para o futuro. Eu já tive essa sensação. Um homem moderno não se admira do progresso porque o presente não sente o passado porque o guarda no próprio plasma. De vez em quando. os valsistas ergueram os olhos. radiante como um deus e suado como uma caldeira. E.. Ao ouvir uma valsa de 1870. cada um de vocês tratará de fugir. mas num salão de baile. A roda riu desabaladamente. encarei e sofri o miserável passado com toda a sua imensa insignificância. aquela mole. Eu apalpo as opiniões. como um decreto. sem se sentir fora da moda. Havia. — Tocas? — Pois não. agora. chegavam rapazes com vozes súplices: — Firmino. percebi estar diante de um desses pianistas da moda. peculiares à nossa sociedade. ninguém achará essa música velha. não solitariamente. nas pequenas coisas. como me aconteceria cheirando um frasco de perfume da exmoda..mesmo que seja de ontem. Nesta sala estava o piano. dirigia a caravana das notas. do velho quase incompreensível para nós. do velho antipático. entretanto. Eu que saía dos museus de indumentária da Idade Média com ensinamento de arte e a alma renascida. Só as coisas absolutamente insignificantes dão a sensação do passado.. levantou-se do piano. a “camelote”100 pode dar a sensação do bem velho. das moças vestidas de tecidos leves. Que digo! Diante dos simples pedaços de pedra apanhados nas escavações do Egito nós sentimos a vida porque eles sabiam reproduzir a feição eterna da Vida. e anima os nossos nervos de hoje como animaria os dos helenos. meus amigos. havia dois anos. — Qual delas? interrogava o pianista com a fronte de orango camarinhada de suor. onde murchavam cinco ou seis glórias urbanas. fiquei aniquilado. Aqueles senhores dançavam ao som de um piano. um pouco animado.. homenzinhos que vivem de escrever. Qual dos senhores será capaz de usar. nas emoções dos sentidos. Os jornais anunciavam mensalmente. o “ Jockey Clube” por exemplo? Ao ouvir uma sinfonia de Mozart. fui convidado para um baile nas Laranjeiras. um perfume lançado por qualquer fabricante francês com grande espalhafato e grande êxito há vinte anos. Um mulato de pastinhas101 . aquela tua polca. A vista da delicadeza préangelical de uma cabeça de Murilo. só a mediocridade. Há cerca de três anos. — Mas é um fato. o piano torturador.

subitamente. À roda do piano havia três ou quatro indivíduos hipnotizados pela sua virtuosidade. De vez em quando. com o lenço entre o pescoço e o colarinho a desabar. e o Firmino logo esticava mais os dedos... As meninas. O Firmino tinha a certeza de estar no galarim102 e. todas falavam a um tempo -— Firmino.. Julieta toca? D..? — Lolita. Aqueles sons eram do meu tempo. sentia-me moço. Então. quando o relógio batia uma hora.. Abigail deseja aquela tua valsa. Havia dor de dentes e. pôs a mão no queixo. senhoras. Firmino dá para ter dores de dentes. principalmente. Hortêncio tomou sorvete e absorveu as atenções. qual a vossa impressão ouvindo esse gênero musical. toca a Estrela d’alva. Durante dez minutos o dr. tem seis meses. Há gênios para tudo. hein? Uma festa que ia correndo tão bem! Logo hoje o sr. — Ah! v.. Era a desgraça. O pianista era. — Não! Antes a Irresistível. chorava o artista. quando o anfitrião surgiu: — Ora esta! E que tal. tamborilando nos braços da cadeira. e agora? Que se há de fazer? D. Hortêncio Guedes. Firmino. De repente. como se ele tivesse a nevralgia só para os desgostar. E. o dr. a Lolita. mlle. Hortêncio falava mal do próximo. ouvindo o Firmino e um velho químico. de modo que o Firmino não me escapava. beiço revirado.. Julieta era tímida e ainda estava estudando. a terrível nevralgia do Firmino rebentara. curiosíssimo..A vaidade enlouquecera-o quase. cheias de carinho. invadia a saleta para lhe fazer o pedido de uma composição comovente. fingindo-se em pleno sonho. aquela muito dançante. Aquilo não passa! É um mulato de maus dentes! E agora? Sim. Ninguém tocava. E. arrastando os dançarinos. tal qual um gênio inebriado com a própria revelação. um dançarino trouxera o espelhinho do toucador: — Põe isso. o pianista sacudia no piano os saracoteios da valsa. tocando. para ter um sobressalto. francamente. — Qual! não passa. dada a minha natural reserva de responder com monossílabos quando se ataca a vida alheia. dizer: — Minhas senhoras. erguia a cabeça ao teto. mais suado. Não sei. meus senhores. a ver se passa. já tinham ido buscar cocaína. de resto. algodão. desapareceu da sala. Como se chama. O dr. acompanhava com os ombros e a cabeça o balanço langoroso dos compassos. um rancho de moças. professor de Faculdade. ninguém sabia o que fazer? E tudo por . mlle. Talvez o fosse. O pianista lambia os beiços. o Firmino parou bruscamente. gosta da Lolita ? Um poucochinho velha. gostando. curvar-se. Eu ficara depositado numa rocking103 . porém. A nevralgia. A notabilidade passava o lenço da fronte ao queixo numa ânsia raivosa. um palito. a dor de não poder continuar a ser o ídolo do grupo. Eu já estava enfastiado. Eu. Estraga-me a noite! Atrás do anfitrião vinham a pouco e pouco surgindo os convidados e o interesse de gozar a noite aumentava o ódio contra o pianista. — Não posso mais! Logo acudiram rapazes. exa. o dono da casa. escoltadas por cavalheiros. de olho aberto. — Silêncio! Firmino. com vontade de dar à perna. — Mas é tão bonita! — Muito obrigado. — É isso.

onde. apesar de estarmos convencidos de que se Beethoven e os outros luminares aparecessem. que usava lunetas e parecia muito brincalhão.. de quebrar o piano. e minutos depois entrava na sala conduzindo um homem ventrudo que tinha um cavaignac de bode branco e rolava o chapéu nas mãos.... Lá está ele. — Sim. sentandoo ao piano. foi para uma fazenda. aproximouse do piano: — Ó Prates. coitado! Era a sua atmosfera. Que coisas cômicas.. moças nervosas sentavam-se aos cantos e era uma crescente exclamação de desprazer. O fato é que. — Bem. Uma voz rouca respondeu: . Não perdeu o hábito.. — Pareceu-me ouvir as composições do Sr. A sensação do passado enraivece sempre. toca qualquer coisa de mais novo. espiar a rua negra. um. ex. — Meus senhores. — Vai tocar alguma coisa? — Quem estava aqui? — Nós todos.... Hortêncio. Original. em pontas de pé.. murmurava o homem. Um bando de dançarinos já o envolvia. uma valsa dançante. se ali embaixo estivessem Beethoven. está tudo resolvido. O Prates. Um vago mal estar pareceu. essas notas de piano sugestionavam à gente !. que coisas estúpidas. Firmino. com um cavaignac branco estava o caso esquisito. há vinte e cinco anos. Descobri um pianista! Agarrei o impossível! Todos. Sr. indagaram onde o guardava — Ali. achei linda a festa. vou tocar uma valsa. Na sala. Um dos rapazes. entretanto. de repente. a face feliz. — É velho. que teve a bondade de aceitar o nosso convite. É aquele gorducho. Prates pareceu recordar. Abancou. De manhã lê os cumprimentos dos jornais e à noite espia os saraus.. Mozart ou outros luminares da música. teriam que ficar na calçada e sem abrigo. um holocausto a Terpsychore104 e. correu uma escala do piano. — Que tem isso? indagou facundamente105 o Dr.. na rua. o pianista Prates. sim. num ímpeto. em baixo. quando voltou. O mocinho indagou do anfitrião: — V. Os pares voltaram todos ao salão. oferecendo-lhe licores. com um ar de agente de polícia aposentado. sutilmente. as meninas largaram os pares desanimadas. Os convidados estavam irritados como se fossem recebendo uma longa humilhação. — Bem moderna. permite que o vá chamar? — Sei lá! se os senhores quiserem. — Eu passava na ocasião. Então. depois outro. e os primeiros compassos ecoaram. atirou-se à janela. Mas voltou de lá. era o Firmino de hoje. — Qual ! Não é possível! Ninguém compreende isso! Pára! Afinal. estreitar a sala. tirando-lhe o chapéu. — Que romântico! fez o Dr. mais ousado. atacou um acorde. de cavaignac branco. pedindo silêncio — Meus senhores. clamou alguém.causa desse Firmino. vendo o baile. Hein? Que era aquilo? Era uma outra escala. não sei. e todos nós fomos à janela. É o Prates. Hortêncio. já outros lhe tinham tomado o lugar. para dar o exemplo. O Prates anda por aí furioso contra os rivais. uma escala estranha. propôs o suicídio geral. e passa as noites assistindo aos bailes como convidado do sereno. Morreu-lhe a mulher. que coisas grotescas. Prates. Schumann. O jovem partira. nós não os deixaríamos entrar! Aquele argumento pareceu decisivo. Eu tinha vontade de rir e ao mesmo tempo de destruir.

AVENTURA DE HOTEL Naquele hotel da rua do Catete havia uma sociedade heteróclita mas toda bem colocada. o esmagamento com o dia de ontem. pegou do chapéu. — A Bleu? Ah! Essa não conheço. com uma luz baça de . o engenheiro Pereira mais a mulher. Dançar com aquela música tornava-se um tormento superior para os mais alegres. Eu nunca vira coisa tão assustadoramente horrenda. o proprietário. a primeira ex-grande atriz de revista. remexendo molemente as pernas bambas. mas que pagava bem. a Flor de baile. Não havia ninguém. tendo tudo. mais a criada. mais sete filhos. apertou o lenço na boca barbuda. um trambolho que é preciso destruir e ele estatelava nas sete oitavas uma espécie de belchior melódico. feliz. De repente. evocando recordações. mme de Santarém.. ornada de palmeiras e de flores comuns. O proprietário orgulhava-se de ter o senador Gomes com as suas sobrecasacas imundas. glorioso. o Prates querido. um negociante tuberculoso chegado das altitudes suíças com o fardo enorme da esposa. todo um mundo variado. um aparelho de duchas no terraço de cima e um cozinheiro chinês. fitou um instante a parede fronteira. entre os metais polidos das guarnições das mesas. corria os dedos. Havia eletricidade em todos os quartos. sem desanimar. Ao almoço era curioso ver toda aquela gente na sala de baixo. a notável trágica Zulmira Simões em conclusão da sua última peregrinação provincial em companhia do elegante Raimundo de Souza.. A sala era baixa. sem ver. No salão o gás silvava só. com certeza. o Prates de outrora. a Feíticeirinha e a Varsoviana. como assegurava a ex-estrela de revista. correspondia. solteiras ou estritamente casadas. com o seu cachorro. na sua peregrinação melancólica. parou. Os tais sons dançantes eram impossíveis de dançar. o barão de Somerino do Instituto Histórico. empinando o cavaignac. lhe acontecera aquilo. Era como se. limpou o suor das fontes. de umidade. isto é. divorciada pela quarta vez em diversas religiões. De resto. saltasse ao salão uma velha horrível. Dentro batiam os cristas da ceia. Foi esta a única vez que eu tive a sensação do passado. de ridículo. de súbito. Eu olhava-o como se olha um monstro. sem se encontrarem. duas senhoras entre viúvas. O pianista chegava ao fim em dificuldades. por mais esforços que fizessem os dançarinos hábeis no “ boston” e nas “ americanas” . Já muita vez. tão pálido que eu pensei vê-lo cair com uma vertigem. uma impressão de bolor. correu a mão pelo teclado: — Vou tocar um dos meus sucessos.. Por mais desejos. com o cavaignac pendente.— Hein? não estão gostando? — Muito. e as janelas abriam num largo bocejo para a escuridão da noite. Parou. num gozo infinito. Prates ergueu-se pálido. o ex-vice-presidente da ex-missão do México. A mixórdia espoucava como um rebate devastador. servia com cuidado. abriu a boca num sorriso alvar. não. Vê se nos dá a Valse Bleu. olhou para todos os lados. o Prates animado no turbilhão das valsas. enquanto cada um de nós sentia o acostar de um espectro. eram incapazes de fazer duas voltas sem errar. desde o Seu soldado não me prenda até os compassos do tempo em que o Furtado Coelho intitulava as valsas de homenagens e as meninas dançavam a Flor de neve. como afogando um soluço e saiu vagarosamente. ébrio de satisfação. E ele.. de mãos cruzadas no teclado. que dirigia os salões. enfim.

sou inteligente. batendo o talher. Que fazer? Prevenir o proprietário? Mas eu estava num hotel tão distinto! Era pouco correto e estabeleceria o desequilíbrio na confiança geral. ao vestir-me para o almoço. Três ou quatro dias depois. mas sempre o bastante para sermos mal servidos. a atriz murmurou: — Ah! meu amigo. não havia dúvida. prevenir o gerente. o velho ministro do Supremo. Cesar de Bazan com Zulmira Simões e o brumeliano109 de Sousa. O objeto tinha um valor todo estimativo. Respondi: — Tenho sim. Quando se quer achar um objeto. procurei. Não! seria melhor esperar. Porque pergunta? Ainda hoje saí com ele. Eu sou prudente. representante da justiça. os homens eram reservadíssimos. Quis descer. que só tinha livros e roupas velhas no seu aposento. Abri outras gavetas. Mas contive-me. que aquilo estava ali porque ele voltaria. perguntou-me de repente: — Você tem um alfinete de turmalina azul. e eu que nessa noite não saí de casa. fechei a porta por dentro.. — o gatuno ou farsista sem graça deixara a minha carteira e deixara até os níqueis. Gomes não respondeu à minha pergunta. dormi e no dia seguinte dei por falta do meu porte-monnaie108 de prata. certo para mostrar que aquilo era seu. oráculo teatral de aquém e de além mar. depois de apertar-lhe a mão. com vinte anos irresistíveis. o senador indagava de um alfinete desaparecido? Tê-lo-ia apanhado por farsa? Era pouco próprio para o alto cargo legislativo. enquanto de Sousa subia à frente. Menos talvez que as queixas com provas. Só quando havia hóspede novo é que surgiam frases breves. saguão de mármore que o gerente forrara de velha tapeçaria e guarnecera de um indizível mobiliário hesitante entre o estilo otomano. Podia tê-lo atirado para qualquer canto. — Quem é? — O deputado Gomensoro. tanto mais quanto o velho Melchior. rapaz elegante. Melchior. no saguão. uma discussão superior sobre Calderon de la Barca. como voltasse de ouvir o d. — Ah! Sempre grandes nomes. remexi malas e bolsas. fez-me o efeito de um piparote no ventre. ambos imputavam várias peças de Lope de Vega.recanto submarino. Precisamente tínhamos mais dois hóspedes. lembrei que na minha gravata creme ficava bem um alfinete de turmalina azul com brilhantes do Cabo. Abri a gaveta onde o deixara à noite. Coisa estúpida afinal! O gatuno — porque era o gatuno. o senador Gomes. a gente está vendo-o e é como se não o visse. Sabe que fui roubada? — Sério? — Sim. mostrava-se incomodado. No dia seguinte. E à noite. vivaz. a quem. encontrei no corredor apenas o velho Melchior meio abatido. Raul Pontes ria a bom rir. Tudo aquilo mastigava calado. aliás.. O relógio evaporara-se decerto. este hotel tem casos curiosos. ao subir antes do chá. e seu sobrinho Raul Pontes. Não estava lá. e ainda ninguém esquecera a sua verve quando o deputado Gomensoro. E ficou muito bem aquele estouvamento. A mim pelo menos. Parecia um aquário. gente importante. O alfinete desaparecera. um complexo armorial de celebridades funcionárias e de titulares empastilhados.. os belchiores106 e o confortável inglês. mas para mim uma confiança simpática. no saguão de entrada. Todos no hotel respeitavam Melchior e gostavam do Raul. Gomes travara com a genial Zulmira Simões. Era o calor. Depois uma queixa sem provas contra o criado acirra a má vontade. As atrizes tomavam ares graves de peixes evoluindo cerimoniosamente no fundo d’água para cumprimentar as damas sem palco.. era um berloque que me dera o Raimundo . Em tão elevada esfera da dramaturgia espanhola. No dia seguinte. não? Além de prudente. cada um na sua mesa. Porque diabo naquele distinto hotel. Onde se fora o relógio? No bonde? Roubado? Saíra Gomensoro com ele? O Dr.. dera por falta do relógio.. espirituoso. linda jóia e lindo presente. podia-se ver os representantes de todas as classes sociais desde a diplomacia até o trololó107 .

Pela manhã. — Pelo amor de Deus! gemia o proprietário. não saí do quarto. — Que besta! E aquela frase dita tristemente preocupou-me. E durante o almoço a conversa generalizou-se. Audácia? Loucura? Estupidez? No dia seguinte deu-se por falta do colar de ouro com pedras finas da atriz Simões. Mas. De resto. de um pintor húngaro. Pontes foi também roubado no seu “porte-monnaie”. com o barão de Somerino. ou dar queixa à polícia. os criados serviam. Uma vez encontrei na cidade Melchior e Pontes. — E prender o Antônio copeiro? Ora para ladrões desse gênero basta a nossa polícia! Aliás o tal Antônio gatuno parecia mais um doente. com grande pasmo nosso. andava à cata do ladrão naquele dia em que a encontrei no corredor? — Não. em varejar os quartos. E o gerente pôs fora o criado Antônio. — Roubos excepcionais. Havia até mesmo recordações. Só o senador Gomes resmungou. Ninguém saía sem necessidade urgente. — Estamos no domínio dos ladrões geniais. Não encontraram nada! Era esperto. ex. não sou eu a única. tínhamos que chegar à tragédia. Não lhe diga nada que o incomodaria. com o dr. dizia ela. Pontes. Antônio saiu protestando. Não era possível! Ou sair. era outro. Passamos assim uma semana e. O gatuno. O dr. Era um ladrão cínico. É uma aventura! É um caso de diabolismo! sentenciava o negociante tuberculoso. os brincos da mulher do tuberculoso sumiram-se. indagava da genial Simões: — V. — Mas não há provas! exclamava mme de Santarém. Precisamos de um grande agente dedutivo para resolver o crime. com receio de ser apontado pelo menos um segundo.. com o negociante tuberculoso. O que acontecera comigo acontecera com de Sousa. como o fora o Antônio. — Como eu! — O Sr. porém. furioso. existia. com o ex-vice-presidente da ex-missão do México. ou o sportsman da ladroeira não era Antônio.. continuarem a desaparecer objetos. o nosso caro Raul. Éramos os forçados daqueles crimes.. Falou até de processo por perdas e danos. estava ali. acompanhando mme de Santarém a uma confei- . Acho que deviam prender o homem. O homem afinal não tirara nunca dinheiro. ao nosso lado. com a estrela revisteira. O dr. acrescentava Gomes. armava uma polícia interna ferocíssima. Os hóspedes trancavam o quarto e saíam levando os valores no bolso. mme de Santarém e a atriz Zulmira Simões. ainda não sabia. mme de Santarém dera queixa por lhe terem roubado um face à main de madrepérola com incrustações de ouro sob desenhos. lívido. já ninguém conversava. anunciava a sua presença. Horas depois felizmente rebentava o escândalo. mesmo para almoçar. encontraram em cima do lavatório. no mesmo dia. Ninguém escapara. O gerente. divorciada pela quarta vez. o sujo e ilustre homem tinha razão. — É outra tolice. Tive apenas um pressentimento. também? Mas estamos na caverna de Ali-Babá. outra o seu berloque. Foi o terror. o ex-vice-presidente da ex-missão do México teimava em escrever ao chefe de polícia. Já ninguém se falava direito. Antônio partira e a confiança renascia. A limpeza era feita na presença dos respectivos locatários. No fundo. e as argolas de guardanapos do hotel eram lastimáveis como valores. porque a ele faltavam também passadores de guardanapos — dois. temendo a suspeita. uma o seu face à main. três por dia. à mesma hora. Melchior.logo no começo da nossa ligação. O hotel convulsionava-se. Todos tinham sido roubados e confessavam por desabafar. Um ladrão! O medo prendia as senhoras aos quartos.. Nós temos aqui gente respeitável. Havia entre nós um ladrão. E apesar da vigilância. — Pois está claro! dizia logo mme de Santarém. No dia em que desapareceu o meu face à main. coitados! com uma humildade dolorosa. fosse gatuno genial ou doente.

Abri a porta devagar. admirável. Tire-me a conta. Serve? — Eu tinha acabado de sorver o café e admirei Pontes : ou um gatuno esplêndido ou um inocente. façamos uma passeata pelo hotel. a desconfiança existe. alcancei-o no corredor. quando senti passos abafados. Era agarra-lo ali. Gomes sabia! Desde o dia em que falara do meu alfinete! Contive-me. Que se iria passar? — Serve? tornou a dizer Pontes. atalhei eu. Vinha para o seu quarto.. Oh! a imoralidade dos hotéis honestos! O felizardo ia gozar as delicias de um aprés-midi amoroso com a honestíssima senhora! Pouco depois. Parou no quarto de mme de Santarém. teve um esforço: — Eu também saio. ia contar tudo. mesmo pegado ao senador Gomes. para o exame. entretanto. o senador Gomes olhava a porta absolutamente pálido. eu já pensei mal de meu tio.. E no jantar mme de Santarém. que. que fechava o quarto e andava ligeiro. Pontes falou: — Vivemos nesta aflição há já algum tempo. No hotel ninguém poderia lembrar-se de sair depois daqueles roubos. O diplomata. Sou o engenheiro Salústio Pereira. balançando a cabeça... enquanto este. Era ele o gatuno! Não havia dúvida. Por uma coincidência. Uma idéia atravessou-me o espirito. diria ali que o vira entrar no quarto de mme de Santarém e as explicações viriam depois. quando a gentil senhora bradou: — Acabam de roubar o meu broche de rubis! Mais um! Os meus olhos cravaram-se no dr. Em compensação. que chegara momentos antes. ambos desesperados com o desaparecimento de um anel marquise. recolhi. a chave. ouvi um leve rumor. parecia por todos os modos pedir-me para não dizer nada. Era Pontes. Voltei à pensão. Quis fazer-lhe uma pilhéria. absolutamente contra.. Mas se fosse apenas o amante? Afinal era um homem que devia respeitar a família e o tio! As provas eram contra ele.. É o meio alegre de acabar com uma pressão séria. Eram duas horas da tarde. Mesmo porque entravam a Pepita. Há um gatuno aqui. o mesmo ar. pois. que ao sair daqui. — Gerente! Não fico mais um dia no seu hotel. — ah maganão! ou outra parvoice qualquer — porque eu sou de natural pândego.. — É isso. torceu. Proponho. com o ar mais natural. Eu cometeria um escândalo. incapazes.. Era o alegre e sempre espirituoso Pontes. quando senti que pesavam em mim os dois olhos do senador Gomes. mais o seu cachorro. fez o Gomes. — Não é. segundo a opinião da estrela. Ergui-me. devia cinco semanas.taria. As minhas malas passam pelo seu balcão. experimentou uma chave. Ia falar. Tenho família. morava no mesmo corredor que essas três pessoas. o dr. o mesmo olhar. A situação é delicada para o primeiro que sair do ergástulo110 . — Mas apesar do mútuo respeito que nos devemos. espiei de novo. A situação precisava ficar clara. Tinha o mesmo pasmo dos outros. Partimos todos para a passeata lá da entrada. Estávamos sós. Vi-o entrar no quarto da Santarém. entrando e varejando todos os quartos. entrou. Ora. apareceu transmudada: tinham-lhe roubado o broche de rubis. Estávamos todos no salão e sustiveram-se todos num pasmo raivoso. Mas deixei para o jantar. mas eu arrosto-a. Mas não. mas com grande admiração minha. Pontes. gritar. ou um gatuno de fora que possui a chave. logo. porém. — Mas está claro. Estava a despir-me.. Sussurrei-lhe: — O gatuno é ele. O engenheiro Pereira ergueu-se. tenho uma esposa nervosa e tenho valores. Os outros ficaram quietos. — Apoiado ! Este Pontes sempre o mesmo! Mas Gomes erguia-se no rumor das exclamações. balançando a faca entre os dedos. .

Já tenho feito isso. e bem se podia notar naquele ambiente. não a veja. Trêmulo.. Os jantares eram sempre excelentes. contendo um grito de pasmo. Estiquei o pescoço na ânsia da curiosidade. — É impossível negar mais tempo. Não a veja. Neste momento mesmo estamos à mercê da sorte e do disparate do Pontes. Psiu ! Esconda-se. Era depois de jantar e nós estávamos em casa de Lauriana de Araújo. vi mme de Santarém entrar no saguão sorridente e calma. Naquela casa de jantar cor . Gomes teve um gesto alucinado. era de uma ousadia. que Lauriana de Araújo sabia escolher com arte uma roda de homens citável. os serviços lindos. Tudo será restituído. Mas vamos salva-la. debaixo da escada. Amo-a como pai. esconda-se. uma das mais elegantes raparigas. amanhã saem muitos. a ver quem podia ser no hotel tão cheio de hóspedes.. a quem eu devia odiar. aquela que misteriosamente. nomes da alta elegância. sustentada por um velho banqueiro de tavolagens e com grandes pretensões a mulher de espírito e à literatura.. A voz do Gomes indagou: — Tudo? — Sim. Da sala de jantar vinham vindo os hóspedes. de uma afliteza. trouxera ao hotel atmosfera de dúvida. Só o muito respeito. o creme das duas casas do Parlamento. durante um mês. como amante. enquanto Gomes amparava-se ao corrimão. Luciano de Barros estendeu-se. eu tinha tudo junto. de infâmia. desalentado. excitados com aquela investigação policial aos quartos. Fosse quem fosse essa gatuna inteligente. junto à escada que dava para os aposentos superiores. como quiser. Jura segredo? — É um crime. salva-a! Era atroz. meu medroso. de crime. o “maitre d’hôtel ” irrepreensível. aquela de que me fazia cúmplice.. era trágico. de uma vaga semi-sociedade em falha.— Então quem é? — Não sei. E.. salve-mo-la! Não pergunte porque. Gomes meteu-me na mão um embrulho. meus amigos. Eu sou um infame.. enquanto empurrava nas vastas algibeiras da sobrecasaca e da calça outros pequenos rolos. É ela que rouba. até. no divã e soprou para o ar o fumo do charuto.. O vulto passou para o saguão de entrada. É louca. Vou manda-la embora e ao mesmo tempo tremo de vê-la no cárcere. Sê bom. — Nada de palavras inúteis. que pode confessar os seus apetites sem correr o risco de poder contemplar o mundo através das grades de um cárcere. — Pois salvemos uma pobre mulher. impalpavelmente. — Jura? — Juro. E agora. Não há meio de impedir. a dizer: — Amanhã. e sempre as altas figuras em trânsito propagador. restituiremos pelo correio. salvemos uma desvairada. Alguém descia a escada sutilmente. era ridículo ver aquele homem ilustre e honesto a guardar os roubos de uma cleptômana satânica e era estúpido o que eu fazia! Mas irresistível. Toma. O MONSTRO — Ah! Eu sou um monstro! — Palavra? — E um monstro. de um egoísmo diabolicamente esplendidos. Escondi-me com o coração batendo. é ela. lívido. onde o velho banqueiro tinha o bom gosto de não aparecer. Havia nomes da Academia. meu amigo. Ou o senhor diz-me ou eu explico tudo em público. sim. de um plano. O silêncio parecia aumentar a vastidão da escada. É preciso salva-la. Aí. a saber quem era. Ditas estas palavras.

nada mais banal. O Luciano é sempre bizarro. do egoísmo. e descobrir. porém. Ando por todos esses clubes e aborreço as mulheres que arrastam vestidos de contos de réis. mas é horrível. É. Era o conselheiro Andrade. Dizem que nas grandes cidades não há o tipo ingênuo. para sofrer-lhe as pancadas ou fazer-lhe da vida um rosário de beijos. ama ingenuamente e deixa-se seduzir. não sentem o amor. Vai dizer para aí alguma barbaridade e liquida a infâmia. e servidor sem interesse. Por que sou eu o dedicado servidor. gozar esse perfume e perde-lo. liquidar em seu proveito o dinheiro alheio sem estrépitos escandalosos. O deputado Almerindo quase engasga. probresitas e sem nada. conhecido por quarenta anos de ceias consecutivas. Só como amante de um ministro. muito vago o que estou a dizer. percorro os bailes e os “rahuts” com medo das “ flirteuses”. Os homens recostavam-se nos divãs e posavam. Tenho trinta e dois anos. mais ou menos culta. De vez em quando tocava-se piano. ingênuo? — Pois então? Um infame. através da perversão do flerte ou das luxúrias perdidas. talvez não ame nunca. da satisfação dos desejos. acendia um cigarro e palestrava. frequento as caixas113 de teatro e em cada mulher que se pende para mim. desde cedo obrigadas a uma profissão e ao exercício de encontrar um esposo. Uma pequena de sociedade elevada. visto discretamente. Um prolongado riso correu pelo salão de fumar... E mesmo as moças de família modesta. As outras paixões são o resultado do cálculo.. entretanto. entregando-se aos maiores excessos de permissão aos namorados. Uma rapariga atirada desde cedo ao torvelinho dos bailes. Mas o ambiente. o meio. Apenas. Lauriana. — É impossível. porém. — Afinal. E a minha imensa monstruosidade está exatamente em procurar o amor.. ouvia-se um septuor112 de instrumentos de cordas. É ela a sedutora e seja para o bem ou para o mal. E. talvez.. Com esses elementos congregados. intervinha Lauriana. para elevar o homem ou para perde-lo. entretanto. infame? Tu não passas de um ingênuo. o conselheiro Andrade ergueu as mãos ao teto e o célebre poeta acadêmico Clodomir rebolou positivamente no divã. como! Fazendo-me amar. obtendo concessões entre beijos.. deixa-se amar amando absolutamente uma vez na vida: a primeira. seduzida apenas pelo exterior. — Estou a dizer coisas velhas. A inocência é uma .. Quase sempre. sabendo que há de casar com alguém da sua roda. no espaço de três meses arranjara quinhentos contos. sou mais inteligente do que o vulgar e tenho algum dinheiro. quase sempre fatais. de todas as mulheres? Nunca ninguém mo perguntou. como envolta em espumas. a inocência. Para vocês. O amor é um perfume sutil.. na varanda guarnecida de jasmins.. conseguem também matar o primeiro sentimento. — Farsista! Tu. Ao acabar os jantares. Era perfeitamente agradável. o seu papel moral é sempre o ativo. como ninguém. desde o remoto Rocher de Cancale até os desvairamentos dos “ cercles” atuais. — Eu. — O amor morreu. um físico menos mau. é apenas por um permanente e cruciante remorso. das festas e dos flertes é uma lutadora prestes a devorar o seu marido próximo. — O amor é eterno. sinto a falsificação. e com uma alma incapaz de amar e de se dedicar senão à variedade. nunca diz que o é.de morango com frisos de faiança representando a glória de Pomona111 já tinham estado um embaixador severo e um quase presidente de grande republica européia. Como? Ora. — Conforme. sempre de rendas brancas. consigo numa sociedade moderna ser simplesmente o monstro.. Imaginem vocês um homem com todos os instintos de perversão da nossa roda como facilmente pode empolgar uma alma ingênua. — Estás a lançar paradoxos. Ninguém ignorava que a anfitriã amável realizara já uma grande fortuna e que sabia. o Luciano disse que era um monstro quando eu perguntava como compreendia o amor. Luciano continuou tranquilo: — É preciso partir do princípio que toda a mulher ama. mas nem todos o podem ver. Que fazer? Percorrer os meios humildes. minha amiga. as crianças que ainda não amaram.

É o grande momento. uma brincadeira agradável. que lhe reflete em admirações como um espelho simpático todas as pequenas belezas da sua beleza. se faz em torno do que a inocência mais custa a dar: a boca. o calor da pele. e Lauriana batia o leque de sândalo. o meu prazer de homem da cidade. pensando nela. Tudo é tão simples com os pobres! Dentro em pouco a criaturinha sente-se envolvida numa atmosfera de cuidados e de delicadezas. e certas criaturas quando riem sugerem-me auroras em que eu desejo estancar toda a sede de uma noite em claro. os cavalheiros pareciam um pouco nervosos.. Desfolhar essa flor. a loucura num ambiente em que mesmo de olhos abertos vejo. a absorção. mordido. as frases curtas de negativas. os olhos que enlanguecem e de repente se dilatam como ao reflexo de um clarão. intenção dupla. o beijo rogado vem de súbito. deploro-me. Um homem tão bem vestido. muito vaga sensibilidade.. nos meios mais miseráveis é que se encontra mais a flor da inocência. a sensação de que é melhor do que as outras por ter sido a preferida. soluço. depois uma pressão mais longa. tão distinto. vendo-a a todo o instante. Fico com um grande dó da criança.. — orgulho que se perfuma de gratidão. no silêncio do quarto. não é amor. eu sinto no intuito uma alegria infernal.. o menos excitado. Na roda. como um sátiro.. que é a minha vida. um doce e ingênuo ciúme que tem zelos até do inanimado. as carícias nos braços.. É o meu esporte. na nuca. o amor verdadeiro é um breve perfume da virgindade. Eu me . que podia ser amado por lindas mulheres da sua ordem. tão fino. com refinamento.. a alegria da intimidade de um ente que não a ralha. mas existe em toda a parte. continuo. consciente e ferozmente — é que é monstruoso. de olhos cerrados. puxando essa mão que resiste instintivamente e treme. exposta ao vendaval e guardando o perfume. anseia. ainda assim.. cometes o crime ainda maior de perder-lhe a honra. treme. A principio é apenas a vaidade. e a vitória sorri-me. os contatos fugazes que indicam tudo. e ri e chora sem saber porque. Há outras de um róseo peludo. De outras.. ouço toda uma sinfonia rósea dos sentidos. exclamou. Então. sinto. é brincadeira. O amor. Toda a minha tática. outro longo. não é crime — é instinto. As regras são infalíveis como para todos os jogos. enfim. entretanto.. É senti-lo e é partir. não podem imaginar a fúria de caçador que eu desenvolvo para as encontrar. Cerca-la. mando-lhe uma recordação. No dia seguinte torno a passar. uma vaga. o momento do iniciador. acaricio-a ainda mais. Às vezes. Eu vou. Então. se a levas contigo sem o casamento. o poeta indagou: — E que fazes depois? — Que faço? Aqui tens tu o meu horror. E de repente a criança sente o ciúme. eu cumprimento. porém. O conselheiro Andrade. Três dias depois. em que a vida se me faz dilema : — ou casas com essa rapariga para abandona-la ou. Então. Tenho satisfeito o meu desejo? Não! Ao contrário. Eu persisto. eu passo. choro. Mas. cheiro. o meu exercício. vocês não concebem o gozo meu ao prelibar a volúpia de um beijo de virgem.. toda ela possuída do perpétuo mal da vida. O movimento da língua passando pelos lábios dá-me crises desesperadas. uma qualidade que passa. guloso. E vocês não sabem. desfolhando pétala por pétala. violentamente.. Ha algumas muito vermelhas. As carícias na mão. chorando a frieza do meu coração incapaz de amar uma só criatura mais de seis meses. Gozar as gradações do reconhecimento do gozo. a face que enrubece.propriedade. ir aos poucos aspirando-a. Eu tenho a nevrose das bocas. Nas classes mais pobres. Luciano. escorcho a alma com a violenta idéia de achar um pretexto para não perdela. um beijo sugado na boca ainda não beijada. É a fascinação inebriante. E é o mês dos sofrimentos. a princípio é um leve roçar de lábios. então. o namoro — o namoro que está para o flerte como a pureza de uma água pura para a falsificação de um vinho mau. por um prodígio. Gozala naturalmente sem a intenção senão de a gozar — é a natureza. de olhos em alvo: — Caramba! É uma doença cerebral. envolvo-a na jura de um amor infinito. prende-la. prolongo a grande cena. Em seguida. parecia em êxtase. um beijo nos cabelos. Depois o orgulho.

parecia pasmo da própria fisionomia. porque já tem acontecido. entre os jasmins. — Ou perdida. Dera-lhe o meu nome. Há criaturinhas que morrem ceifadas em botão. que queres?” — “ Nada. ela amava.. Propus-lhe a fuga. — Não é muito bonito. nobre. Lauriana. continuei a vê-la. Ninguém rira. Que era ela? Um personagem de conto. Certa vez disse-me: — “ Às vezes quase não tenho coragem de voltar à casa. serias apenas um bandoleiro. porém.” — “ Mas. o rapto. depois de levemente aspiradas pelos intelectuais gastos como tu. Luciano de Barros deitou fora o charuto que se lhe apagara entre os dedos. O seu riso lembrava um chilreio e a sua boca cheirava a rosa.” Eu gozava aquele martírio por minha causa. a minha lamentável alma sentia a necessidade do afastamento. meio ridícula de me saber amado com um encanto de sonho.” — “ Não. mas nada tem de ofensivo. mas insensivelmente. — Mas não te julgues. Já hoje chorei tanto. alegre como um pássaro. Tinham-na levado os padrinhos por causa de umas crises de choro que a definhavam. Luciano de Barros. a pensar nessa criatura pura e doce. Até é bonito! E quem uma vez sentiu a delícia deliciosa de uma boca virgem que se entrega pela primeira vez. Agora. Três meses depois. em tomo desse grave e doloroso sentimento. A cidade está cheia desses defloradores do amor. sentenciou. — Achas? — Há quarenta anos. grave. sem psicologias malsãs. Amava como se ama aos quinze anos. onde morava. Que sou eu? Um homem que borboleteia a sua perversão pelos botões entreabertos da vida. pura. aquela inocência perturbada pela minha figura. erguendo os dois grandes olhos negros.. A crise do amor na estufa preparada por mim floriu. consertando a gravata branca. Que era eu? o príncipe. cegamente. com esse exagero de análise e de pretensão. mas ignorava o que eu era. então. Ela sorriu entre lágrimas. Mas.. nós somos levianos. O BEBÊ DE TARLATANA ROSA — Oh! uma história de máscaras! quem não a tem na sua vida? O carnaval só é interessante . A vida é uma luta de sexos.. o único monstro. iluminando o semblante quando me via. sossega! Hás de ver a pequena casada.. com essa mania de análise das próprias sensações. coisa nenhuma. nós os homens. com medo de me matar. Então. Era uma pequena de quinze anos... sincera. — Ou talvez morta. só. querendo conservá-la. Luciano ergueu-se. mas para que serve? Algumas desvairadas têm vindo até ao desenlace e estão por aí. Outras eu perco de vista. apesar de paupérrirna. tanto que lhe propus casamento.” — “ Vem comigo. a linda Lauriana sorriu com infinita tristeza. e eu tinha essa sensação meio triste. amava sem interesse. E. meu caro amigo. se eu me sinto infame? Ainda agora venho de um caso assim. então. Ela continuava tal qual. “ Eu voltei. não quero nada. e interroguei a vizinhança. Houve um prolongado silêncio. como as outras. diante de um grande espelho. Talvez eu mesmo estivesse mais apaixonado do que parecia. — D. —“Não sabes o que dizes! Somos de condições tão diferentes! Isso é impossível. aos poucos.. que resistem e ficam como eu. é que te julgas um monstro. Ha quinze dias não a vi à janela. Fora. muito pálido.debato. deve ter de mim inveja. qual o meu modo de vida. — Infelizmente. o septuor tocava uma valsa lenta. E eu estou na agonia. sem nunca ter recebido uma dádiva que não fosse inteiramente inútil. porque mais adiante outras parecem-me ainda em botão. Passei no outro dia. Há outras. Resistiu com o seu fundo honesto. João114 .

Heitor puxou um largo trago à cigarreta. enlamear-se bem. Verifiquei os braços. Heitor. Jorge118 . de guinchos. fumando um gianaclis115 autêntico.porque nos dá essa sensação de angustioso imprevisto. saio como na Fenícia saíam os navegadores para a procissão da primavera. — Está claro que este ano organizei uma partida com quatro ou cinco atrizes e quatro ou cinco companheiros. Quanto ao rosto era um rostinho atrevido. Olhei-lhe as pernas de meia curta. e nesses quatro dias paranóicos. a extravagante boêmia. Francamente. Não há quem se contente com uma. com dois olhos perversos e uma boca polpuda como se ofertando. um bebê de tarlatana121 rosa. parecia absorto. Íamos indistintamente beber champanhe aos clubes de jogo que anunciavam bailes e aos maxixes mais ordinários. conta! suplicava Anatólio. — Mas.. — Suja? — Pavorosa ao menos — De dia? — Não. Passei a mão e preguei-lhe um beliscão. É possível que muita gente consiga ser indiferente. e todos ardiam por saber a aventura de Heitor. Não tive dúvida. Era divertidíssimo e ao quinto clube estávamos de todo excitados. Olha que está adoecendo a Maria. Não havia o que temer e a gente conseguia realizar o maior desejo: acanalhar-se. à noite.. E Heitor de Alencar esticava-se preguiçosamente no divã. Não me sentia com coragem de ficar só como um trapo no vagalhão de volúpia e de prazer da cidade. gordinho e apetecível. que foi preciso observar para verifica-lo falso. o caído das espáduas. — “ Nossa Senhora! disse a primeira estrela de revistas. quase doentio é como incutido. Mas é horrível! Gente ordinária. tão acertado. as gargalhadas passam como ao arrepios de urtiga pelo ar. fúfias117 dos pedaços mais esconsos da rua de S. como o grupo parara diante dos dançarinos. os olhos suplicam. Só postiço trazia o nariz. de íncubos120 em frascos de álcool. Eu sinto tudo isso. — Nem com um. O bebê caiu mais e disse num suspiro — ai que dói! Estão vocês a ver que eu fiquei imediatamente disposto a fugir do grupo. gozando a nossa curiosidade. Anatólio de Azambuja de que as mulheres tinham tanta implicância. pálidas feitas de pasta de mata-borrão e de papel de arroz. — Muito bonito! ciciou Maria de Flor. O grupo era o meu salva-vidas. deliciosa ou macabra. Maria de Flor. No primeiro dia. Tudo respira luxúria. de pulos. Bonitas. Íamos juntos e fantasiadas as mulheres. andamos de automóvel a percorrer os bailes.. tudo é possível. — Conforme os temperamentos. Eu mesmo este ano tive uma aventura. — Os sorrisos são ofertas. todo o pessoal de azeiteiros das ruelas lôbregas e essas estranhas figuras de larvas diabólicas.. no sábado. Pela madrugada. Toda a gente tem a sua história de carnaval. Mas comigo iam cinco ou seis damas elegantes capazes .. homem de Deus.. ou os alexandrinos para a noite de Afrodite116 .. mas com os traços como amassados e todas pálidas. disposto aos transportes da carne e às maiores extravagâncias O desejo. Havia no gabinete o barão Belfort.. Um carnaval sem aventuras não é carnaval. Bem agradável. marinheiros à paisana. moças. um nariz tão bem feito. — É uma aventura alegre? indagou Maria. E saindo. um cheiro atroz. rolos constantes. Naturalmente fomos e era uma desolação com pretas beiçudas e desdentadas esparrimando belbutinas119 fedorentas pelo estrado da banda militar. atalhou Anatólio. tudo tem da ânsia e do espasmo. Não havia nada de novo. O silêncio tombou expectante. — Não há quem não saia no Carnaval disposto ao excesso. a curva do seio. Apenas.” — Que tem isso? Não vamos juntos? Com efeito. infiltrado pelo ambiente. de confianças ilimitadas. eu senti que se roçava em mim. álgida ou cheia de luxúrias atrozes. que tem as perdidas de certas ruas. Foi quando lembrei uma visita ao baile público do Recreio. para a pornéia da cidade. que ia conosco.

de se debochar mas de não perdoar os excessos alheios. o bom senso uma fadiga. horas antes incendiadas pelos projetores elétricos e as cambiantes enfurnadas dos fogos de bengala. parado. nesse momento há um riso que galvaniza123 os sentidos e o beijo se desata naturalmente. indo eu ao 1ado do chauffeur. com uma ânsia de acanalhar-me. É o momento em que por trás das máscaras as meninas confessam paixões aos rapazes. E só. Depois de uma dessas caçadas pelas avenidas e pelas praças. De resto a cidade inteira estava assim. rocei-me àquela gente em geral pouco limpa. Procurei dar-lhe um beijo. pegar. — A quem o dizes !. e era sem linha correr assim. era ver fugir a presa projetada.. sorrindo. meti-me nas danças. o deboche ritual de chegar. — E o bebê? — O bebê ficou. soprou desconfiado o amável Anatólio. com o caiporismo dos defuntos índios. . — Estava perseguindo-te! comentou Maria de Flor. é o instante em que as ligações mais secretas transparecem. a coleção indecisa dos máscaras de último instante arrastandose extenuados! Dei para andar pelo largo do Rocio e ia caminhando para os lados da secretaria do interior. um ou outro carro arriado levando máscaras aos beijos ou alguma fantasia tilintando guizos pelas calçadas fofas de “confetti”. Era ignóbil. ali. O bebê sorriu sem dizer palavra. — Talvez fosse um homem. O movimento das ruas abrandara.. Felizmente muita gente sofre do mesmo mal no carnaval. tilintando aqui. quando vi. Oh! a impressão enervante dessas figuras irreais na semisombra das horas mortas. — Não interrompam o Heitor! fez o barão. Na terça desliguei-me do grupo e caí no mar alto da depravação. continuou: — Não o vi mais nessa noite. continuar. Eu estava trepidante.. a honra uma caceteação. e saí mais desesperado. Heitor acendeu outro gianaclis. só. no borborinho colossal. Os outros bailes já tinham acabado. Fiquei nervoso até o fim do baile. os maiores crimes. em plena avenida. indicando a folia. com o nariz postiço. Voltamos para os automóveis e fomos cear no clube mais chique e mais secante122 da cidade. Mas no domingo. Nada! — É quando se fica mais nervoso! — Exatamente. Estás esperando alguém? Fez um gesto com a cabeça que não. o bebê de tarlatana rosa. aquele nariz tão bem feito. sorriu. acabar. Olhei. com uma roupa leve por cima da pele todos os maus instintos fustigados. a excitação da cidade. emergindo da treva aos pedaços. Era o bebê rosa. Estavam úmidas mas eram bem tratadas. estendendo a mão. em que a virgindade é dúbia e todos nós a achamos ínútil. Pedro.. As praças. — Onde quiseres! Peguei-lhe nas mãos. Enlacei-o. Ainda tive tempo de indagar: onde vais hoje? — À toda parte! respondeu. perdendo-se num grupo tumultuoso. roçando as calçadas. Parei. — Vens comigo? — Onde? indagou a sua voz áspera e rouca. ponta de ouro. de enorme. — “ Os bons amigos sempre se encontram” disse. insisti aqui. Eram três horas da manhã. Os meus lábios tocaram apenas a ponta fria do seu nariz. abandonando-as. mas o deboche anônimo. e segunda-feira não o vi também. embarafustei pelo S. nada do contato familiar. os maiores absurdos. E os dominós embuçados. atrás de uma frequentadora dos bailes do Recreio. Fiquei louco. as dançarinas amarfanhadas. Nada de raparigas do galarim perfumadas e por demais conhecidas. de vago. Era ele! Senti palpitar-me o coração. caíam em sombras — sombras cúmplices da madrugada urbana. vi sair toda a gente. senti um beliscão na perna e uma voz rouca dizer : “ para pagar o de ontem”. quase mórbida. suspirou Maria de Flor. ali um som perdido de guizo! Parece qualquer coisa de impalpável. — Mas eu estava sem sorte.. com a guigne.. Nesse momento tudo é possível. Era aproximarme. Ela recuou.

Presa dos meus lábios. Sacudi-a com fúria. ficamos bem em baixo das sombras espessas do Conservatório de Música. hesitou.. Então por aí. Heitor de Alencar parou. beijei-lhe o pescoço. Que mulher! Que vibração! Tínhamos voltado o jardim.Então. —. Mas abraçando-me.. A culpa não é minha! Só no Carnaval é que eu posso gozar. Eu sentia a ritmia desordenada do meu coração e o sangue em desespero. às quatro tens que tirar a máscara. Mas o meu nariz sentiu o contato do nariz postiço dela. Nessas fases do amor não se conversa. apagado. O nariz roçava o meu. —— Ah! não. uma cabeça sem nariz. parecia crescer. despir-me. o bebê de tarlatana rosa parecia uma possessa tendo pressa. Abracei-a.. ela parou. -— Ah! sim! E sem mais dizer puxou-me. Uma vontade de cuspir. Quando parei á porta de casa para tirar a chave. metemo-nos pela rua. Não trocamos uma frase.. com dois buracos sangrentos atulhados de algodão. Daqui a minutos passa a guarda. Era enorme o silêncio e o ambiente tinha uma cor vagamente russa com a treva espancada um pouco pela luz dos combustores distantes. O bebê de tarlatana rosa emborcara no chão com a caveira voltada para mim... Então. Era o nariz do bebê de tarlatana rosa.Disfarça sim! — Não! Procurei-lhe nos cabelos o cordão..“ Aqui não!” Passei-lhe o braço pela cintura e fomos andando sem dar palavra. Sorvi-lhe o lábio.. Diante da entrada que fica fronteira à rua Leopoldina. sair. atravessou a praça. — Perdoa! Perdoa! Não me batas. os queixo batendo. escura e sem luz. Depois. pu-la de pé num safanão que a devia ter desarticulado. o nariz que não era dela. e eu sentia um mal estar curioso. beijando-me. arranquei-o. Despeguei-a. Todo eu tremia de horror. — Tira o nariz! — Ela segredou: Não! não! custa tanto a colocar! Procurei não tocar no nariz tão frio naquela carne de chama. e de chofre agarrei o papelão. O pedaço de papelão. De novo os seus lábios aproximaram-se da minha boca. Em torno de nós o mundo era qualquer coisa de opaco e de indeciso. Ao fundo. Mas um apito trilou. filha? É impossível ficar aqui na rua. fui aproximando a mão. com o cigarro entre os dedos. de nojo. Gulosamente a sua boca se oferecia. com dois olhos que a cólera e o pavor pareciam fundir. Beijei-lhe os braços. num choro que lhe arregaçava o beiço mostrando singularmente abaixo do buraco do nariz os dentes alvos. é que reparei que a minha mão direita apertava uma pasta oleosa e sangrenta. Ela aconchegou-se mais. O guarda estava na esquina e o1hava-nos. de lançar apertava-me a glote. e vinha-me o imperioso desejo de esmurrar aquele nariz. mas era quem dirigia o passeio e os seus olhos molhados pareciam fruir todo o bestial desejo que os meus diziam. tanto mais quanto ela dizia com a sua voz arfante e lúbrica: —. Que fazer? Levar a caveira ao posto policial? Dizer a todo a mundo que a beijara? Não resisti. Não sou disso ! — Que queres tu. —Para onde? — Para a tua casa.— Por pouco. beijei-lhe o colo. ardendo em febre. —. — Não era preciso mais no Carnaval. avultava.. ouviste? aproveito. em casa não podes. porém. vamos? indaguei. sem poder resistir. Como os seus olhos brilhavam! Atravessamos a rua Luiz de Camões. na madrugada de cinzas. — Que tem? — Não é possível que nos julguem aqui para bom fim. — Que diabo! Não vás agora para casa com isso! Depois não te disfarça nada. Foste tu que quiseste. Depois arrastou-me.. um estado de inibição esquisito. aproximando. apressei o passo e ao chegar ao largo inconscientemente deitei a correr como um louco para a casa. recuei num imenso vômito de mim mesmo.. um nariz que fazia mal. uma cabeça que era alucinadamente —uma caveira com carne. reparando naquela cena da semi-treva. de matar aquele atroz reverso da luxúria. Maria de Flor mostrava uma . eu tinha uma cabeça estranha. Não tinha. Então. aproveito. o edifício das Belas Artes era desolador e lúgubre. um nariz com cheiro a resina.. de quebrar aqueles dentes. o nariz de fantasia. Apertei-a mais. Entreguei-me. -— Que máscara? — O nariz. — Entrar. Afastei-me. O meu bebê gordinho e rosa parecia um esquecimento do vício naquela austeridade da noite. enquanto com a esquerda a enlaçava mais. Ela apoiavase em mim.

Uma vez. as meninas assanhadas. o braço cabeludo.. na gesticulação. no meio da algazarra dos conquistadores e das pequenas. que tomavam banho de mar desde crianças. venha cá. beribéricos125 . Mas Geraldo não tinha pretensões a conquistas. que os mirones da praia até olhavam de binóculo. e resumiu: — Uma aventura. apenas o acaso. estava no corredor estreito e escuro a conversar com o Nicolau. do langor das serenatas. Quem o visse grosso. Mas por mais querido que fosse entre os colegas. Geraldo sorria o sorriso satisfeito e vagamente mau que têm todos os homens quando recordam uma aventura em que foram os mais expertos. rindo. graças à pertinácia da sua inteligência. as cocotes de uma palidez mortal àquela hora. e sempre tímido. a negra cabeleira ondeante. o ar da raça. quando mesmo ao pé abriu-se a porta de um dos quartinhos e uma linda criatura loura chamou: — O senhor banhista. os livros. havia sujeitos de passo trôpego. escura de roupas em trouxas com um quadro das chaves e o bico de gás aceso. era uma delícia para a sua alma ir arrastar as pernas pela madrugada nos corredores da casa de banhos. tão bizarro! A princípio. . Afinal atirava-se à água. a conversar em napolitano com os banhistas. reumáticos. só metido com a gente do serviço. Afinal o barão Belfort ergueu-se. que recomeçava horas mais tarde. O mar é um fornecedor de energia. junto da barraca do gerente. postava-se no pátio. Houve um silêncio agoniento. acordava cedo. Geraldo começara humilde. defronte do mar. burgueses de ar solene. os tradicionais banhistas há vinte anos os mesmos. com os pés nus metidos nuns enormes tamancos.contração de horror na face e o doce Anatólio parecia mal. Ninguém o tomaria por um estudante e o próprio pessoal da casa tratava-o familiarmente por tu. meus amigos. Contemplar as ondas. o ar que não falha. Basta olhar um homem para se sentir donde ele veio. ao estabelecimento balneário. Quem não tem do carnaval a sua aventura? Esta é pelo menos empolgante. brincando. aconselhando para todas as moléstias um mergulho no salso elemento. as cocotes. as lições de natação. de origem italiana. as aulas.. e como a vizinhança era quase toda de pescadores. não o diria jamais um estudante de medicina. De trabalho em trabalho fizera-se afinal acadêmico. aspirar o ar infiltrado de salsugem fazia-lhe bem. Havia no seu olhar qualquer coisa dos barqueiros de Nápoles. talvez tísicos. alugara por uma ninharia aquele casinhoto do morro. o bigode espesso. Era tão bom. bem na rua de Santa Luzia. havia os habituais. e aquele espreguiçamento na casa de banhos era apenas uma tonificação para o estudo. senhores respeitáveis. Pobre. sem pretensões. E foi sentar-se ao piano. e sujeitos que vinham especialmente para a pândega. de jovens dos centros de regatas. e na alegria do semblante. Como tinha sido !. acompanhadas de crianças e de criadas. de banhistas. tocou a campainha para que o criado trouxesse refrigerantes. ia mesmo de camisa de meia.. E havia também muita mulher chique. O próprio narrador tinha a camarinhar-lhe a fronte gotas de suor. verdadeiros regimentos de cloróticos124 . uma bela aventura. quase nu. a dar um laço frouxo no lenço de seda. Depois. quase de madrugada. Nicolau adiantou-se. com o curso dos hospitais. O acaso. mães de família. Depois de descansar na gerência ia a trocar palavras com os banhistas.. A PARADA DA ILUSÂO A João de Barros Como tinha sido aquilo! Diante do espelho. forte. Havia mulheres pálidas. muita mulher de estalo. os namoros com apertões debaixo da água. Era a chegada dos frequentadores.

de pés nus. — Tome. E Geraldo. Os outros riam a perder. — Grazzie. como era para ele. signorina! — Aposto que nem sabe ler? Ele parou um instante atônito. Mas. que o senador Eleutério pode saber. — Não. Não é que a mulherzinha o tomava mesmo por banhista? Entretanto. que não dissera a coisa na escola por um certo pudor. que ela lhe disse o nome. depois que me separei do meu marido. O homem. signorina. Geraldo seguiu para o oceano a dar banho na dama loura. porque não muda de vida? — Para que. que a tomara depois da separação do marido. e aproximou-se. aprendendo a nadar. rapaz. já sabedora de tudo? Seria o caso de avançar . No fim do quinto dia. — Criança! E não tem aspirações? — Não.. o senador Eleutério. Não ha meio. Infinitamente alegre com a aventura. Sim. Túlio. sentia um desejo imprevisto e romântico de se deixar passar por banhista e ter assim a sua primeira façanha de estudante.. consentia. teve um leve suspiro. era Alda Pereira. meu filho. prontinho. um estudante era tal qual eles.. e quando voltou estava a arrebentar de riso. Não quer receber? Ora esta! Receba. um estudante. ele fazia tão bem o papel de banhista de opereta. o outro. Ande lá.. calção de meia.. Ele procurava termos vulgares. — Ah! bem. não faltou mais. o meu quarto? — Pronto. Para esquentar.. do sul.. E falou ao dono da casa de banhos. Já se encostava ao seu ombro. E quantos tem de idade? — Vinte e due. Geraldo sorriu enleado. tinha vinte e sete anos. Sim. Ou então: — Palavra de rio-grandense e de Alda Pereira que aprender a nadar custa! Ele sorria. tenho muito medo do ciúme. A dama loura estava já vestida para o banho. Veja só. -— Ai! não me afogues. ao mesmo tempo que o fato o humilhava um pouco. Estaria ela a brincar. patroa. copiava o rir dos outros. o imprevisto do caso acendia-lhe o desejo de continuar. um pouco envaidecidos porque. um rapaz inteligente. sem uma palavra. Dizia essas coisas naturalmente. — Não quero mais aquele banhista velho. Geraldo. o seu tom de analfabeto. aqui hei de morrer. dizia coisa grossas com um ar ingênuo. Morrer aos vinte e sete anos. signorina? Aqui vivo. brasileira. — Venha dar-me banho. tirou uma nota. A dama loura olhou-o profundamente. Uma suave intimidade brotava aos poucos daquela hora de banho. A dama loura abriu a bolsa de prata. e eu. — Diga: é italiano? — Io sono venuto da Napoli fa tre anni. e ela parecia ter cada dia mais confiança.. e ainda indagou — Como se chama? — Túlio.. Logo cedo lá estava no estabelecimento.. Os estudantes são todos levados da breca! Apertou o braço do Nicolau.— Não. A dama loura chegava sempre às seis e meia. camisa aberta. você mesmo. um acadêmico! Mas. já lhe agarrava o pulso potente de certo modo. Tomavam-no por banhista! Ele. — Então. não gostava de patifarias no estabelecimento. e um protetor sério. continuaria. Fica você. um italiano velho. Quer? Geraldo curvava-se. queria leva-la para longe. Uma vez perguntou-lhe: — Você. afinal. Ha cinco dias que tomo banho e logo no primeiro pedi-lhe conservar-me o quarto seco. disse-lhe em calão de Nápoles que o deixasse.

. E começou a ensinar. sente-se. curvava-se muito para sentir os louros cabelos dela roçando-lhe ao de leve a fronte. Há sempre um vencedor na alma de um amante. Alda lá estava. — Palavra? — Quer tomar a lição hoje? — Não. As dela estavam geladas. tal qual nos vaudevilles franceses. queria confundir a linda mulher de estranha vontade. Outro qualquer teria avançado. — Meu Deus! Um rapaz de vinte e dois anos que não sabe ler! Os seus olhos nesse dia tornaram-se mais úmidos. numa cena de burla. Não tinha dúvida! A mulher amava-o como certas damas amam os impetuosos adolescentes das classes baixas. numa rua transversal à Lapa..e não gozar mais o prazer de ser conquistado. — Que letra é esta? Geraldo fazia-se inteiramente bronco. e ia toca-la. apaixonado. uma casa elegante e discreta. Mas. Ela mostrou-lhe o livro na mesa. olhando-a fixo. amanhã. quereria você aprender a ler? — A signorina paga o professor? — Ensino eu mesmo. Nada de acanhamentos. — É verdade. é a melhor hora. Sentou-se. Mas Alda tinha uma expressão de tão velutínea piedade. aproximando a cadeira do outro lado. Como saiu ele furioso! A sua vontade foi declarar a verdadeira posição. Evidentemente. com a voz molhada de mistério.. A paixão é quase sempre o desejo de um triunfo.. Ele quase não podia falar. comprara o lenço de seda e um chapéu desabado para aparecer com a cor local. acompanha o Túlio até á porta. Já sabia o alfabeto. Sabe que já lhe comprei o seu livro? Sente-se. as faces coradas. de fato. à noite. Fizeram-no entrar para uma saleta de estilo moderno. e foi. Túlio. E parecia-lhe o cúmulo aprender o alfabeto ensinado por aquela interessante mulher. porque apareceu de olheiras. foi espera-la na casa de banhos. Curvou-se mais. Ele se preparou. E fora. Alda Pereira sorria. e ao rebentar de uma onda na ponte ela se deixou positivamente cair no seu largo peito. — Entre. vai embora. Que peça? Enfim.. Decididamente estava de sorte. um capote comprido. Onde? — Vá á minha casa. No dia seguinte. não lhe escaparia. a pretensão de levar a cabo uma fantasia romântica inibiam-no de um movimento de ataque. Às vezes as mãos se encontravam. apaixonado. com um riso nervoso. que se imagina de um certo e determinado modo. em que os móveis eram incômodos e as paredes tinham mulheres de túnica soprando trombetas. desde a madrugada. E. quando ela chamou: — Francine. Nem sei ler.. com um ar fatigado. deixa a porta aberta. — Sabe que estudei? fez ele.. para que? Não teria realizado nada! Não a gozaria! Era uma aventura falha. com duas criadas apenas. enlevada. Francine. que não hesitou na farsa. Logo. Ele arranjara um dolmã126 de brim.. a sua natural timidez. Ao fim de uma hora. às sete. ao menos. As dele eram de brasa. Alda Pereira indagou: — Ó Túlio. ela estava comovida. . Ele achava aquilo deliciosamente ridículo. Nunca! Tivesse que estudar o alfabeto a vida inteira — aquela. Sim. E Alda Pereira parecia também ama-lo. à saída. ela disse num suspiro — Bom. tomar uma atitude. Ele queria pregar uma peça. respirando forte. a criatura era uma nevrosada romântica. menino. — Então quero. A dama loura habitava. Ele não estava senão apaixonado.

. o teu corpo. voltou a cabeça e a sua boca purpurina. A vida de delírio começou então. Alda chorava. ela mostrava desconfiar da sua verdadeira situação. meu amor. outro homem. Pois não? — Mas. os teus olhos que eu desejava.. meu. muito amor.. no verso de Dante. aturdido. a lembrar-se dos seus abraços e das palavras suas: — Túlio! Túlio! não digas a ninguém! É a minha vida! Lembra-te do que fiz por ti.. Nem uma palavra. No banho. Estendeu-lhe as mãos e a boca.. forte. resolvera mandar Alda à Europa.. Geraldo moveu apenas a cabeça e roçou o bigode no pescoço venusto127 . a ver se o escândalo terminava.... muito abatida. que o seu físico ajudava. Geraldo. A aula ia continuar. com o seu Túlio. E a necessidade de ocultar de olhares profanos aquele sentimento ainda mais os incendiava. E Geraldo voltou ao casinhoto. Alda estava na mesma sala da primeira vez.. Então penteou o cabelo como os banhistas.. Eleutério comprara as passagens.. ela pendeu. Ele firmou os lábios polpudos e apertou-lhe as mãos. pôs o chapéu e o capote. — Tu queres. meu adivinhado querido. Ele ia para o último ato. Nunca. e fora um verdadeiro trabalho o convence-la de uma breve separação.. com aquele tom vulgar e potente. Dize !.. o senador Eleutério soubera do caso. consertou ainda uma vez o lenço de seda. A luz era tênue. A própria paixão a vibrar.. Ela entregava-se e sentia-o como um imenso acorde do seu próprio ser. Ela se debateu.— Mas como é inteligente! Vamos a soletrar. sentindo-se indigno de si mesmo. de morde-lo. Túlio? — É para teu bem. e.. sugou o lábio de Geraldo. esperava com a porta do quarto entreaberta para um beijo. Era frenética e deliciosa. cada abraço a dissolução de um mundo. há um engano. estendeu as mãos e suspirou como uma rola. rolaram os dois... continuava a ser o banhista Túlio. sem compreender o que via. Geraldo. Alda.. relembrava aqueles dois meses loucos de romantismo. ansiosa e ávida. ameite. Só o amor.. Deliciosamente deliciosa. as lições de leitura eram a leitura de Paulo e Francesca. sem forças para dizer a verdade. Como aquilo fora! Era lá possível prever? Antes. Cada beijo era uma revelação. em casa. e Geraldo. porém. fiel. — Meu amor. Afinal. mais pai do que amante. —Ah! Túlio. desde que te vi. nunca mais sentirei o que senti por ti. Estavam num outro mundo. queria viver sem roupas. que é isso? ânimo. em Santa Luzia. ela estudava o momento de aperta-lo. tenho que te dizer.. preparando-se para a última visita. tens que as salvar. tens que as segurar. Olhe que você pode dar orgulho a um professor. — Alda. viu que era o momento.. porém. Ela estremeceu.. Nenhuma outra será como eu. — Queres mesmo? É o nosso amor que matas. Ele estava encostado à mesa. Jamais. . — Lembras-te? Há dois meses !. e partiu. mostrando a nuca nua. Ela tinha a cabeça curvada. da partida era preciso dizer-lhe a verdade. A última vez! E deixou-se cair. quando te tinha a meu lado. — Àquela casa vão tantas mulheres! E tu tens que servir a todas. — Alda. Que me importava que tu fosses banhista? Se era a tua carne. Quanto amor! Quando te vi. — Não digas! não digas nada! — Não. um engano que não pode continuar.. Ele caiu de joelhos. combinara tudo. Era no dia seguinte que Alda partiria. com muita brilhantina. no mar.

que se fez passar por banhista para te amar. Não tens. — Pois deixa-o! — Não. ouviste? eu sabia desde o primeiro dia. sem saber o que fazer do seu chapéu calabrês. queiras ser verdadeiro nas coisas do sentimento que ama a ilusão. a esquisita negação de todo o corpo como a tem a gente antes de fazer um enorme sacrifício. o olhar de Guilherme. uma vaga contrariedade. com a fisionomia demudada. — Criança! Eu sou estudante de medicina. como Geraldo se aproximasse. pois. sentia a lamentável. E só no quarto humilde é que pode chorar. és o meu Túlio. Nunca se desengana uma mulher porque não se mata a ilusão. nascido em Nápoles. não há !. quem eras tu. como Alda recuava. outra vez.— Não há. para voar. Tu pensas que eu sou o banhista Túlio. pensei que tinhas mais espirito. Não é preciso. um selvagem. Eu sabia. — Há.. que seria chocante se fosse verdadeiro. envergonhado. Eu amava um ser idealizado. senta-te. No primeiro dia. . Geraldo. teria chicoteado o cocheiro para andar depressa. Mas. Geraldo teve um resto de piedade. LAURINDA BELFORT Laurinda Belfort teve um sobressalto. um eu vulgar e comum. ingênuo rapaz. à noite teria a acompanha-la numa queixa muda e feroz. É melhor ires. estudante. hesitando entre a idéia de apressar o cocheiro e o desejo de lá não ir. Depois. O relógio de marfim.. nesta maldita quinta-feira vestira-se devagar. afastandoo. Ou vai-te. Amei-te. Se não soubesse. sorriu. e esse relógio. Laurinda recostou-se. nervoso. Vai-te. — E não és? És sim. apaixonado e comum. marcava duas e cinco. em ti que o fingias bem. ou no teatro ou no raout128 da condessa de Souto. à proporção que se aproximava o carro. um banhista imprevisto. filho do mar e das canções. certo. Mas. querendo fazer desse sentimento uma parada de gozo superfino em que ambos nos esforçássemos por dar a cada um a ilusão. uma curiosa e lamentável sensação de que retomava o seu eu. com o receio de que o conhecessem ainda mal vindo da parada romântica. — Mas a nossa última noite? — Vai-te. chorar longamente não ter sabido guardar integralmente o princípio da vida — a ilusão. o pobre rapaz deitou quase a correr. e.. Túlio. A verdade é a mentira porque é o comum e o vulgar. Eu sabia.. na manhã em que correra à primeira entrevista. engastado discretamente no canto esquerdo do carro. teria perguntado por ti e dar-me-iam informações. Que me importa a mim o estudante Geraldo? Já nem parto. Alda fez-lhe ainda um vago gesto. — Zangaste-te? — Não. — Não. marcava sempre a hora precisa para que Laurinda Belfort pudesse regularizar com calma e tempo os múltiplos afazeres dos seus perfumados dias.. Tu mataste Túlio. — Sim. chamo-me Geraldo Pietri. Alda sentara-se. furioso. Tudo na vida é ilusão e só a ilusão é verdadeira. incapaz de adiantamentos ou de atrasos... de falhar mais uma vez Vinha-lhe o guloso apetite de deixar sem o seu corpo a absorvente entrevista. Havia. O meu amor nasceu de uma brincadeira. triste. Na rua. Um silêncio tombou. Ah! Francamente já enfarava129 . Laurinda sentia as mãos frias. Geraldo. numa casa solitária. certamente. Adeus! E nunca.. trinta e cinco minutos que o pobre Guilherme Guimarães a esperava.

ansiando pelo fato que lhe fosse pretexto para não ir — porque Laurinda. O grave Belfort de vez enquanto pasmava. com as salas compostas segundo desenhos de decoristas130 ingleses. Nunca amaste? — Oh! Não! — Pois é chique. Uma Alice Verride. Grande época aquela! Época de excessos. de triunfo. Que fazer? Torturada pela súplica de Guilherme o marido. tal qual as damas dos romances a que uma grande paixão sacode. sempre se decidira. Deus do céu! E lá ia sem compreender porque. dar opiniões sobre artistas e pintores. Em criança. torturando as pontas farpadas do bigode. Laurinda acordou convencidíssima de que precisava de um amante. Era preciso mais alguma coisa. teria também o seu romance. Mas em breve. um ser violento. Tudo quanto é demais. — Pois que! Tu agora fumas? — Com efeito. enfastiava-se. Admira até que tu. quando apareceu ao almoço. inaugurando aquela grande vida artificial e custosa. retardava uns trinta anos pelo menos. .. em que a água da piscina parecia descer de um enorme vitral representando avalanches de neve em montes. No dia seguinte. essa admirável estesia ateniense herdada por Paris. o que já insistia de há muito era precisamente Guilherme. falar de viagens e manter o seu salão no Rio. incomparável como Edmond Rostand. sem indagar de razões. entre muitos adoradores profissionais. que tinha como nenhuma outra a arte sutil da maquilage. ela. cuja paixão seja um piment para a tua vida. Precisas de um homem que te preocupe. e. além da sua prezadíssima pessoa. A grande vida um tempo fê-la mesmo esquecer quase o marido. e quando a mamã lhe fez notar a necessidade de casar para satisfazer todos os apetites de luxo. imitava os gestos pretensiosos de altas linhagens de algumas das colegas de Sion. tão conhecedora de Paris. Laurinda tomou-a como quem consulta um pequeno Larousse. Que atraso. aborrece. em menina e moça a sua linha fora sempre copiada de alguns tipos de romance. e as suas extraordinárias toilletes. Mas viria a ter. grande conhecedora de arte. de conquista. Laurinda olhou o paciente Belfort com um vago desprezo. tudo quanto há de mais pré-rafaelita133 . o gesto lasso. ao dever do amor. em que as pedras brasileiras tinham rebrilhos inéditos cravadas em bri1hantes. sentia-se presa a esse dever. Ainda não tinha nenhuma. imediatamente casou.. feitos no Vevert da rua da Paz.132 E montou um salão de banho. Sim! Ela. ela ainda não tinha um amante. fora um acompanhamento de figurinos. eram desenhos da velha inglesa. passear os hotéis depravados do Cairo no inverno. o campanilo de S. E para realizar esse romance. decididamente. grelho uma cigarreta. que para sempre lhe tirara a idéia de amar alguém. E meu marido ? — O marido não conta nunca. Mais uma vez. senhora entendida em adultérios mas da melhor sociedade disse-lhe um dia: — Minha cara Laurinda. porque era preciso passar o carnaval em Nice. os seus adereços. Não sabes nada disso.conversara durante o almoço como toda a sua vida fora um resultado de imitações. a vitória mundana fatigou-a. menina. — É ultra fashion. Marcos. Também não fazia outra coisa agora. uma parisiense. — É boa. que femme vieux jeu134 ! Decididamente retardava. E. estar no outono em Paris. criticado. chegara talvez cedo de mais. Seria a última etapa de mundanismo e de puro sangue da sua já gloriosa carreira na alta sociedade. o seu salão invejado. principalmente quando nos faz todas as vontades. que sabia versos de Morris de cor e se apaixonara pelos fados portugueses a ponto de acabar caissière131 de hotel no Estoril. com os olhos cernés135 . — Mas é grosseiro. És old style. passava a vida amando-a. Fora nessa ocasião que tomara como dama de companhia uma velha inglesa esbelta. Todos os objetos e utensílios obedeciam ao motivo algas do fundo do mar. a erosão inglesa do esporte e a graça parisiense. para a casa à beira mar ouvir o marulhar do oceano e a voz do Guilherme! Pobre Guilherme! Estava decerto à espera. os vestidos vindos de Paris e um ar de boneca social. precisas de um homem. Afinal. o lábio rubro.

Então era fatalmente preciso? O desejo fora. valsando (depois de conversar com o marido. Ah ! as unhas desse Guilherme! Quando o jovem afortunado lhe premia a mão. que se machucavam desfazendo tecidos.. entregar-se à paixão do outro. a volúpia de uma jóia. A curiosidade aguçou-se. Naquele momento. dizia-lhe com antecedência os bailes e os five-o-clock137 que teriam a sua presença. tão clara. dava-lhe um brilho metálico. De resto custara. tinha uma porção de roupas. parecia furioso depois do primeiro dia. . discutir os tenores da companhia lírica e as infâmias da sua roda. a tentação. parecia ter nas pontas palhetas de nácar138 . rogasse a sua ida ao infalível ninho de amor.Fora levada àquilo por mundanice. no carro do seu marido. muito forte. Onde ela estivesse.. estava sempre em toda a parte. Ir assim. ela cedeu afinal. Era a sugestão. de mãos postas e joelhos em terra. Ela. e muito até.. Na rua dava-lhe cercos para lhe tirar o chapéu. Fez concessões a princípio. como diria a sra.. curvar-se. lembrava-lhe logo os romances de Paris. incrível. rouco. em casa. por cabriolice da alma. achara aquilo smart136 e comprometedor. muito risonha e muito audaz. não a julgaria no fundo tão profundamente temerosa das coisas positivas. Pobre homem! não se contentara! Antes pelo contrário. ficara de gelo. Acostumada ao louvor das costureiras e dos íntimos. Era-lhe grata como se a sua existência fosse a última elegância esperada para faze-la ultra superior. marcava-lhe o lugar da sua frisa para que ele comprasse uma poltrona fronteira. Mas. o prazer sutil de gozar e desfazer o artifício máximo do outro. E nos passeios. para acabar empalidecendo. quando movia os dedos. Guilherme! que nome horrível! Mas. escorria-lhe no pescoço declarações de amor respeitoso. limava as unhas. parecia-lhe uma nota essencial da moda. O pobre Guilherme vivera de platonismos longo tempo. e aquelas unhas brilhantes. diante da pertinácia alvar daquela paixão.. sentiu um desejo surdo de se negar. Fora talvez essa a única razão porque se entregara à sensualidade meio snob. andava à inglesa. Guilherme era chique. coitado. ainda tinha na memória a exasperação sensual da tarde intensa.. ele. e agora. de se sentir despir por aqueles pedaços de um vermelho especial e lustroso. o luxo de mais uma renda. tão moderna e tão perturbadora. no livro das costureiras e no lábio de toda a gente.. sem contar o esposo. repartia o cabelo ao meio como nos figurinos. que. muito seu amigo). foi só a trechos pouco frequentados conversar apenas. fenecendo de perpassar pela sua carne como fica sem cor um rosto sempre votado à oração. ele lá se achava. sem se incomodar com a calça. que às vezes tem dois. a psicologia passional das duquesas de alta linhagem.. que tinha o nome nos jornais mundanos. toda a sua alma vibrara de um prazer como nunca tivera. incapaz de resistir por mais tempo. nos banquetes. Como seria emocionante desmaiar. indo outra vez. que tocavam frias à sua epiderme. Nesse dia foi meia hora antes.. como de uma feita. trotando. que envermelheciam mais. entontecera-a. Guilherme. quis ouvi-lo pronunciado ternamente por um homem elegante. Mas. Quando Guilherme falou do grande acorde. com um leve tom de crime consentido. entretanto. de Souza Castro. outro. do cavalheiro elegante. De ver as outras damas amadas por homens discretos e bem vestidos. coralisadas. luziam nas batistes139 como carapaças de pequenos monstros estranhos. esfriara.. com os braços meio abertos. que se não pôde possuir senão à custa de um enorme sacrifício. Ela ouvia-o. desde então. amava-a. hoje dama de companhia. o contato daquelas unhas artificiais e extra-humanas. tal qual o pintam nas gravuras e nos romances! Seria antes de tudo high-life. titular em decadência. o contato envernizado daquelas unhas dava-lhe num arrepio a delícia de mais um ofertório à sua beleza tão aguda. ali no carro. as luminosas unhas de Guilherme preocupavam-na como o olhar invejoso de uma amiga. intimamente convencida de que onde fosse a admirariam. a perdição. meio cerebral. um lustro. no seu carro. quem a visse naquela vertigem de diversões inventando o prazer e o “flerte”. e possuía um encanto inédito.

Pedia-lhe entrevistas a todas as horas. complicados. e mais lentamente ainda ergueu os olhos tristes. roubar-se à admiração do próximo para ouvir aquele senhor soluçar queixas de amor. diante do espelho. estragar um dia por semana. Laurinda. Guilherme queria o insulso. o idiota? Tanto melhor! . a rua deserta modorrava. a ela. Em derredor. na sua face! O grosseirão insultava-a a ela.. De repente. certificou-se rangendo os dentes de desespero. A casa estava totalmente fechada. que a humilhava. eram amarfanhados por ele. soprou desesperada: — Mais devagar. tinha sempre nos olhos uma queixa. e obrigara-a a dias certos! Ela. caindo do céu a umidade. como se levantasse o mundo. em todos os lugares. Ao menos. José! Se aquele pobre Guilherme tivesse mais alguma novidade além das unhas! Mas — coitada dela! — era certo vê-lo ajoelhar. Porque ia então? Ora! porque ia! Por condescendência. suspendeu o store145 de seda branca. Mas. tanto o idiota custava para lhe atacar o colete — já com as unhas quebradas. o beijo infalível e a frase: — Sempre vieste! como te amo. Deus! ia começar a tortura. nem tinha préstimo para vestir uma senhora. na cara. era sempre aquele beijo. com ligaduras difíceis e ousadias de corte. No céu muito azul. Seria eterno aquilo? Não acabaria mais nunca? O monstro abusaria até o fim da sua posição de mulher honesta e fraca? De repente o carro parou. vinha a úmida aragem de um dia primaveril. bateu a portinhola. corria ao rendez-vous140 com a louca vontade de que ele não a esperasse mais. Oh! era ela — para seu castigo. O imbecil ainda acabava morando lá! Lentamente. naquele momento.. positivamente. era certo. ele também estava farto. sem brilho de se roçarem e de a apertarem. parecia até pouco sério. inexoravelmente tal qual. Depois. Mas isso. se o jovem feliz não a obrigasse a despir. para o suplício! Pegou do tubo acústico141 . E só então Laurinda lembrou que ia. estava cansado? Oh! ela já enjoava. era fatal que arrebentaria o cordão do seu espartilho diante do “psyché”143 -— que é como a alma do nosso físico. Deu dois ou três passos. tivesse. Mandava tocar à toda. enfim. demorava. conversasse apenas. Guilherme nem sabia. Laurinda Belfort. um aspecto novo — vá! Mas não. Hein? Seria possível? Ele. não era razão e plausível para tamanhos excessos. uma violência de quem paga e que a reduzia. por ter querido ser boa. o sol vibrava. Certamente era gentil esperava-a sempre com o quarto florido. No seu cérebro baralhavam as idéias como se a afronta a ensandecesse. não se continha. por fraqueza. uma senhora afinal. por ter pena do infeliz. era de entorpecer. Laurinda vestia-se lentamente com a dor de saber que se ia despir. achava aquilo brutal. num dia de frio. Laurinda suava de impaciência. Antes de ir para essas sessões. Oh! era estúpido! Um espasmo de raiva fê-la esticar os dedos coriscantes144 de anéis. rasgados. então — e de súbito o desespero sufocou-a — não a esperava mais? Acabara a paixão? Então. de um azul muito claro. por não achar o meio sério de se livrar de vez. Ah! não! nunca mais! estava acabado! O Sr. em a vendo. e mesmo. vê-lo dizer: —sempre vieste! mostrando as unhas polidas e brilhantes prestes ao sacrifício! Era infalível que teria um fato novo. que abria pelo espaço um outro céu. olhando o relógio. Os seus vestidos.. e do mar. Não havia duvida amava-a. imaginava afazeres. quando já os ponteiros passavam da hora. que a beijaria como a beijava sempre nos olhos para lhe tirar a veloutine142 do rosto. já aborrecia aquele cidadão que a perseguira dois anos! Mas então essas coisas acabavam assim com a porta fechada. era ela quem não se fazia receber! Oh! a vida! Quantas surpresas amargas! Meteu-se outra vez no carro. Havia de ser tal qual. como eu te amo! Uf! que banalidade! Era baboso. E. Saltou. esposa de Soares Belfort! Abriu a portinhola. o desespero! As janelas estariam abertas. porém.

e o mar. de desespero e de desejo. negar a sua ida lá. A PESTE A João Antonio Brandão E de súbito. dizia. a ver se o encontrava. — por não ter tido. um five-o-clock das Teixeira impreterivelmente às quatro e meia! Que bom! E o cretino a pensar que a humilhava. E eu vou para lá. despreza-las. E nos seus olhos brotavam. tomara quinino. ou fingir que não o via. roem para todo sempre ou afogam a vida em sangue podre? Para que pensar? E Francisco. ela a vencedora! desprezar as suas unhas. as unhas. que a incomodava! A rua do Ouvidor devia estar esplêndida. um pouco úmido e um pouco cortante. sobre um fundo de liberty verde gaio. daquelas frases tolas. ignorante. não ir mais — ela. e mesmo que ele dissesse não ter ido também mostrar um ar indiferente. sob essa impressão. Ou tocar à toda. Não havia dúvida. congela as mãos. tonifica a vegetação.. o prazer mórbido de toca-las. de óleo escorrido de feridas à superfície quase imóvel. Nada de cenas que demonstrem amor. eu! Um mês antes ria dessa epidemia. tomava informações. Para que pensar em males cruéis. O ar. põe-me no peito um apressado bater de coração e na garganta como um laço de medo. apenas naquele dia. Apenas. ao encontrar o mariola— uma frase triste: — Ah! meu amigo. achou-se bela com o seu chapéu que era uma rosa debruada de uma enorme pluma verde pálido. a falta daquela hora infame. para ao menos quebra-las mais uma vez morde-las. para parar o carro. o movimento sinistro das carrocinhas e dos automóveis galopando e correndo pela rua de mau piso.. lia os jornais. Coitado! Era impressionante. a idéia de fugir à humilhação apuou-lhe146 de novo o cérebro. E já organizara um regimen. aquela sujeira requeimada e manchada das calçadas. tinha o quarto cheio de antisépticos. abandona-lo. Laurinda torcendo os dedos. de fronte do espelho. O cheiro de desinfecção e ácido fênico. ah! canalha! Então.. na imensa confusão dos seus desejos.. foi-me impossível ir hoje! Gozar a cara dele. reclinada na almofada de seda. para a cidade. pensava todo o dia. A média de casos fatais é de trinta por dia. É um dia brumosamente invernal. E. lágrimas a fio. jantar. depressa! O carro tornou a rodar. O azul do céu parece tecido de filamentos de brumas.. até tê-lo uma última vez e deixa-lo. tem reflexos espelhentos de grandes escaras de chagas. Ela vem aí. viu-se. Se ao menos ela. a falta daquelas unhas que lhe davam a renovação de uma sensação toda cerebral. os bolsos com pedras das farmácias para afastar o vírus. que ainda não fora ao costureiro e tinha teatro à noite. Sabia lá! Mas para vê-lo um momento ao menos. O seu vestido era de rendas brancas. Laurinda Belfort inclinou-se vivamente: — José. sentia. com os seus bigodes e aquelas unhas da cor do nácar rosa.. a sinistra galeria de caras de choro que os meus olhos vão vendo. o meu querido Francisco a que eu amava como a melhor coisa do mundo. o ar sem pinga de sangue ou supremamente indiferente dos empregados da higiene. um pompon de pó de arroz. ela que tinha tanto que fazer. ela. um indizível pavor prega-me ao banco. por mais que não quisesse sentir.. enquanto. não estivesse muito mal! Sempre que vinha àquela horrível casa vinha tão sem gosto. Eu bem lhe dizia .Só assim não perderia mais o tempo. com alguns bocejos. Instintivamente. nesses males que deformam o físico. a ver se o via. Abriu o estojo do coufé. o brinquedo aborrecido uma hora antes. olhava os transeuntes com ânsia. que se vê à distância num recanto de lodo. eu vou para o isolamento.. A bexiga147 ! a bexiga! É verdade que há uma epidemia. o pobre diabo... a vermelha148 . tirou um espelho. O sol como que desabrocha dentre as brumas. Laurinda Belfort. Ah! Tortura-lo com uma indiferença calma.. ou cumprimenta-lo. o brinquedo de um pobre ente para torturar e espezinhar..

— É promessa. desfeito em pús. seguindo para a cova. De manhã. ao almoço. carroças que vêm de lá. é para que Santo Antônio não mate a todos nós de bexiga. limpo. Sente-se. Ao jantar encontrou-se comigo. precipito-me pela alameda que sobe ao hospital. A impressão de fim. sentiam febre. e passam carroças da Assistência. — Sabes! Estamos perdidos.— Mas criatura. Os empregados porém . A impressão prostrou-o. Havia várias espécies. afasta-te. Sinto as mãos frias. Tomei o tramway149 quase tranquilo.. Tudo é branco.. oh! muito medo. a angústia. Era uma pobre família levando à igreja o cadáver de uma criança em holocausto. Depois a cidade estava tão alegre. sobe à montanha. E quando param — como elas param ! — é o pavor de ver descer um monstro varioloso. Teve a curiosidade de saber por quem tão tristes badalavam e perguntou a um velho. Para que mentir? Havia. uma noite. homem. As pernas tremem. havia sim! A sinistra rebentava em purulências toda a cidade. É impossível lutar. Então. paro à porta de uma sala que parece escritório. O Francisco abalara para o Corcovado. E comecei eu também a indagar. virando os bancos. sem me falar. — Ah! filho. Sebastião. Ela está aí. O senhor está pálido. — Acabas doido. para que Deus tivesse piedade e misericórdia. com bexiga também. O chão está todo sujo.. Caio numa cadeira. apodrecendo em horas! Palavra. nos móveis sem uma poeira. a querer saber. os jornais. talvez morto! Deu-me um grande ímpeto! Covarde! Fôra o medo. não era para brincadeiras. vou não querendo ir. Nunca tive medo de moléstias. cada dia aumenta. a lepra de dentro encherá as ruas. Um dia em que passava por uma igreja. Como deve morrer gente ali. — Vou preveni-lo. Faço um esforço. hoje. meu senhor. E agora? Era preciso vê-lo. Mas ali. dentro da gente. Francisco ouviu os sinos a badalar sinistramente. aquele hospital com ar de cottage150 inglês aviltado por usinas de porcelana. como devem estar morrendo naquele instante. vamos aos teatros. Há uma semana.. Qual varíola! Vê como toda gente ri e goza. sem me dar um abraço. Deixa de preocupações. Desço a rua atordoado. A pior é a que matava sem rebentar. Eu tenho medo. com um zumbido nos ouvidos. — O diretor? — É alguma coisa de urgente? indaga um jovem. porém. Francisco ficou como desvairado. É e não é. um frio. Só as carroças fazem barulho.. e eu sentia um frio. Dentro em pouco só lepra. É como se os transeuntes trouxessem rama de algodão nos pés. ali é impossível. A polícia já deixa arrastarem os variolosos pela rua. tudo indica a morte. matava dentro. o horror. não era possível deixa-lo morrer sem um amigo ao lado.. Vou quase a correr. tão descuidosa. morre quem tem de morrer. que para lá vão. — Antes! fez no orgulho da sua beleza. Vou devagar. Cada dia aumenta mais. e de repente naquela manhã. salto. Quase não ha rumor. O mar é um vasto coalho de putrefações. indo por uma rua de subúrbio encontrou com gritos e imprecações um bando de gente que arrastava ao sol um caixão. asseado. Andamos todo o dia pelas ruas. com o ar indiferente nas paredes. Quando chegará a nossa vez? — Mas vai embora. de lodo que se bronzeia e se esverdinha em gosmas reluzentes na praia morta.. de extinção violenta! Aquele recanto. continuava? Como era? Como se morria de bexigas? As pessoas ficavam muito coradas. E aquele trecho de secretaria não é para acalmar o destrambelhamento dos meus nervos. Estamos perdidos.. tão movimentada. não tenhas medo. sabia por urna nota que ele estava no S. — Estamos no ponto terminal. E vou. Chegou à casa ainda mais assustado. não salta? diz-me o condutor. — É. nós líamos juntos. é bem o grande forno da peste sangrenta. falta-me o apetite. Espero que não haja nenhuma carroça à porta.

faz-me um gesto. e desde que saiu. esperando.. muito louro. Os retintins telefônicos continuam. há homens de face desfeita.. diálogos em que as vozes falam para dores invisíveis. E há marcados. a minha mulherinha. Falaram ambos. está lá reinando. Os funcionários têm uma delicadeza fria. É preciso vê-lo! É preciso! O rapaz volta.. Vou mandar ver. entre as árvores. sem ninguém a não ser eu que tremia. — Meu senhor. Vou mandar ver. Ainda elas não tinham saído. Nada de barulho. que vão sair. diga-me. estarão dentro em pouco na rua com a fisionomia torcida. há mulheres pálidas e desgrenhadas que esperam novas dos seus doentes. esperando. Os diálogos cruzam-se. tão entusiástica. morro acima. que mata em horas. fora.. Estão lá sentadas. apenas para tratar do enterro dos que lhe deram o ser. desfeita para todo o sempre. com a sua face inteligente vincada de tristeza. — Eu desejava tomar uma informação. passa a foice purulenta em tudo. um tremor apoderou-se do meu corpo. O de nome José Bernardino? Vou ver.movem-se com a precipitação triste a que a morte obriga os que ficam. Sebastião esteve assim. horrível. é inaudito. por mais que se esteja habituado. roída. Enquanto essas notícias são dadas à boca dos fones. Foi o médico que disse. — É o diabo. esperando. É 390. Nunca S. uma série de caras em que o mistério da morte. marcados do terrível mal. os teatros. o desejo de encobrir tamanha emoção forçava-me a fingir um sorriso. Retintins de telefone repicam seguidamente nos quatro cantos. Estaria morto? Estaria vivo? Aquela carne feita de ouro e de rosas já se teria transformado numa chaga purulenta? E se estivesse morto? Uma criança tão cheia de esperanças. Tenho presentemente no hospital setecentos e vinte doentes desde a varíola hemorrágica. homem. sem os pais aqui. Algumas faces não dizem nada. Apareceu um funcionário. até a bexiga branca que nem sempre mata. -— Qual? Não há mais lugar. Ela não respeita idade. não morreram. Ah! meu amigo. lá fora. Quantas mães sem filhos! Quantos pais à espera da certeza da morte dos filhos! Quantos filhos ali. a dizer mundanamente coisas frívolas ao homem bom cujos olhos tinham tanta piedade. ciente. estudante. Estou arrasado de trabalho e desolado. diga-me por Deus. — Que deseja. As grandes estrelas mundiais. tão pura. dou no gabinete do diretor. Mas que deseja? diga.. Ai! o meu pequeno! — Está decerto no pavilhão de observação. . Afinal. Tocou um tímpano.. E ele? E Francisco? Ficará assim? Assim. Está aqui no hospital um rapaz do norte. a apostar que não acreditava na devastação do mal? Pois é horrível. Se já seguiu? Já. — Mais um doente? — Ah! sim.. 425? Morreu ontem à noite. Francisco Nogueira. horrível. sempre se tem coração para sentir a dolorosa atmosfera de desgraça. E mais adiante: — Olhe. sigo-o. O funcionário saiu. Nossa Senhora! Que me viriam dizer? E ao mesmo tempo. — Francisco? Há tanta gente que entra e tão pouca que sai. — Pouca gente. minha senhora? — Saber do meu filho. — Espere. Já não há lugares. A epidemia tem impedido vários prazeres da season. Em que dia entrou? -— Creio que anteontem.. — Há quantos dias? — Há quatro. incute um apavorado respeito e uma sinistra revolta. Mandei construir à pressa mais dois pavilhões. — Então por cá? não teve medo? Está com a mão fria. no jardim. entre as árvores. há velhos.

os lábios lívidos. Está vivo. — Já viu um varioloso? — Não. Houve uma pausa grave. já sem pestanas e com as sobrancelhas comidas. — Não há engano? — A papeleta não erra. Mas um nó subitâneo estrangula-me a frase. Era como se aquela face fosse queimada por dentro e estalasse em empolas152 e em apostemas153 a epiderme. um pequeno volume. Certo cavalheiro indagava: — Quer ver então? — Sim. — Quero vê-lo. comecei a subir para o morro.— Menos do que se devia esperar. senhor. — Ninguém dirá entretanto que a varíola. tornei a fecha-los. Depois: — É melhor não vê-lo. Abriu uma porta de tela. Passei com ele. A ele nada falta. Só consegui dizer para o horror: — Francisco. Era ali. As faces inchadas. passou vagarosa: — Ah! és tu? Enquanto o corpo não fazia um gesto. Esta escapa. entrou.. Aceite o meu conselho..Quero vê-lo. uma voz que era outra. cobrindo a negregada. com as têmporas batendo. dava informações baixo ao diretor. doutor. O diretor pensou. sim. O médico pôs-se de pé e diante de mim: — Está cá. como para rebentar em sânie151 .. com janelas forradas de tela rubra que a varíola punha putrefações e gangrenas em corpos dias antes bons. — Gosta desse rapaz? — É meu amigo. fez um gesto e eu acompanhei o funcionário. — Na Idade Média. passei a secretaria. sem forças. só uma coisa . Subi também. Onde estava eu? Sei lá! Não sabia! Não sabia! Vi-me diante de um leito. Encaminhou-se para um compartimento. parou. doutor. Entrou anteontem. abri-os. onde entre as árvores erguiam-se os grandes pavilhões. O funcionário voltara. Eu tinha diante de mim um monstro. As emoções fazem mal neste período. Quis recuar. É um grande obséquio que lhe fico a dever. com infinito cuidado. Fechei os olhos. naqueles enormes galpões. doutor. Segui-o. vermelhas e em pus. O homem ia depressa. Tenha esperança. — É vacinado? — Sou. Mas tenha coragem! Depois. Francisco. —. O senhor parece tão comovido. Para diante havia outros leitos cobertos de vermelhos. subiu uma escada. porque sobre a travesseira. pegou das pontas do cobertor e foi levantando aos poucos. passou. quero.. Os olhos desapareciam meio afundados em lama amarela. É ele mesmo. O médico da enfermaria diz que há esperanças. Meu Deus! Que iria ver? Que se daria? De repente. — Nas grandes cidades as pestes dão uma impressão muito menos dolorosa do que outrora. mas diante da minha resolução que se fazia súplica. O diretor ainda hesitou um instante. Entrei com ele. e uma voz. não. entrei no jardim. outra voz. Era ele. com as redes das janelas pintadas de vermelho. ele. as orelhas enormes. — Não é grave. vá descansar. Não frequenta? — Não tenho tempo. Abriu outra. então como vais? Os lábios moveram-se. por completo. e eu arquejava atrás. quis aproxima-me. outros muitos. onde um cobertor tapava.

O caixeiro. Sentiu uma tonteira. oh! sim.não desaparecera dele e da podridão parecia tomar um redobro de brilho: a sua enorme cabeleira negra.. na apoteose de luz. Mas o Jeremias vinha arrastando as chinelas. Obaluaiê154 .. de olhar desconfiado. vagou um pouco pela atmosfera deletéria do botequim.” Armando suspirou. Saiu devagar. As plantas. Estava pálido. homem. E Luciano Torres.. fora conduzido em automóvel da Assistência do seu elegante apartamento das Laranjeiras para o posto de observação. com medo dos camaradas necessitados. as roupas. emprestado. tremendo. quem dá a sorte é Deus. pareceu-me gangrenado e pútrido. Deus do céu! Eu tinha febre. Não comera desde a véspera. Ontem vieram dizer-me que Luciano Torres. bateu com o taco no soalho. olhou-se um instante no espelho. o recanto do mar escamoso. parceiro? silvou o contendor. Veja você a cábula155 ! E Armando recebia do parceiro mil réis pela partida de bilhar. com olheiras. um camaradão esse. repartido afetuosamente com o Clodomiro.. entre os empregados num vaivém constante e as macas que subiam com as podridões. Pois ainda não ganhaste? Olha que se perdes. assentou as duas mãos na toalha suja. a barba por fazer e o seu colarinho. —. Não lhe dês conversas. o barro da encosta. de certo. as grades de ferro do portão. e desfiou diante dele a lista cantada das iguarias. com o ventre muito grande e o nariz rubicundo. resmungou tirânico: — Deixa-o lá. meu amigo. entrou numa casa de pasto da rua do Espirito Santo. ÚLTIMA NOITE — Perdeste? — Não. e o dia anterior passara-o com uma media e meio pão com manteiga. Tenho onde estar às sete. corri daquela casa. tremendo. e foi bem para o fundo. as flores dos canteiros. apanhando as bolas no pano sujo de giz. “Anda com isso. entregou-lhe a nota do empréstimo. Um pixote156 com uma sorte maluca. Um delírio tomava-me. um desastrado pavor. após a narrativa. . com reflexos de ouro azul-tinta. escancarava a face deglutindo pus. — Não posso. Encarei o sol. desceu a rua do Senado.. Há epidemia. que trabalhavam o dia para fazer da claque158 à noite. grasnando. em mangas de camisa. de vendedores de senhas. há epidemia! E eu tenho medo.Ah! filho. caiu-me nos braços a soluçar. pareciam atacados daquele horror de sangue maculado e de gangrena. foi até à cigarreria receber fiado um maço dos de carteirinha e uma caixa de fósforos. Está com varíola. um sujeito lívido. tremendo. E atirei-me ao bonde. as árvores. O funcionário abriu-me a porta e eu saí tropeçando. meu amigo e colega. e o próprio sol. que emprestara os dez tostões e durante toda a partida levara a peruar. o principal caixeiro.. — Quem? você? Qual! o que você tem é medo. Era de noite e foi há dois dias. piscou o olho para outro caixeiro. E. a rua suja.. repleto de cambistas. — Vamos outra. Acendeu um. daquele laboratório de horror em que o africano deus selvagem da bexiga. um grande. desci o morro a correr quase. ganhei por treze. havia oito dias que lhe apertava o pescoço. O dianho157 perde e ainda se põe com luxos! Mesmo ali. Para fazer semelhante aposta fora preciso a boa vontade do Jeremias. Fiz um vago gesto. Então veio-me um louco desejo de chorar. um desejo desvairado.. Parei. os homens. Iria comer um bife no frege159 . a apagar um dos bicos de gás. Corri mais. de gente que não tinha o que fazer ao lado de uns tipos de torrinha. que talvez quisessem repartir. um gordo. Fome.

os artistas exerciam a sua fatal tentação e para a folia da noite Armando cortava na gaveta do patrão uma féria permanente. e na noite de despedida da companhia. e o estômago pareceu-lhe que acordava — o seu bom estômago. mas ele conhecia todas. ao deus-dará da vaga humana. um senador. sabia de cor uma porção de coplas161 . impondo ainda o seu tipo sensual de adolescente. Logo que o caldo lhe caiu no estômago. às onze horas saiu pé ante pé para não acordar os outros. As mulheres não o amavam. Acabou por desprezar os seus antigos colegas. devorou o bife. um calorsinho agradável percorreu-lhe o corpo. Empregos! Todas . O teatro. à porta. com as mãos no bolso. os grandes cômicos não lhe sabiam o nome. bateu a porta e voltou ao teatro.. a Etelvina Soares. mastigou duas bananas. Ele ia indo bem e assim passou dois anos. encontrou de pé. que o espancou furiosamente. sem queixumes. passava bilhetes de benefício. de hombridade. apesar de tomar conta da taberna.. um estômago que perdera a noção do jantar e do almoço e parecia dormir-lhe nas suas entranhas. Ora se ainda! Os seus orgulhos. Passava os dias nos ensaios. de terno novo. Apanhou os níqueis do troco. e sua altivez. de vergonha tinham naqueles quatro meses de miséria se adelgaçado assaz. e caiu no oceano daquela vida sedutora. nas bodegas de artistas meio esfomeados. perdendo a cor da face. Para onde iria ele. mas já conhecia os coristas. saiu. conservara rijos os músculos e cheia de ambições a alma. como um trapo. despreocupado e feliz. e verificou no meio da rua que não tinha nada a fazer. insultando-o a berrar: — Pensavas. E ele. Oh! o emprego! Quantas desilusões e a quanta coisa descera para arranja-lo ! Lembrou-se de que uma grande influencia política. —. Por causa da cabrocha o tio despachara-o para uma taberna na cidade. E como não tivessem percebido a sua fugida. completara vinte anos. Entretanto estava ali. arranjava pequenas ladroeiras mais perigosas que grandes roubos. Armando. olhando-o muito intimamente. recebeu economias de dois anos que o patrão com a ameaça da polícia dera imediatamente. desfizera-o a vida na cidade. a uma grande revista de certa companhia portuguesa. aquele roçar com cômicos transformara. E talvez no dia seguinte encontrasse um emprego. sem exigências. e já era muito aquele jantar. mas ele. já dizia a sua piada às coristas. Foi. a noção de honra. o patrão a bufar de cólera. criticava. começou logo a considerar os cômicos grandes homens. e uma artista. o tom grosso de caixeiro. entrava em intimidades perigosas. — O bife depois? — Está visto. Nunca vira um teatro. Era forte. que eu não viria a saber! Ele foi digno. Estava de dia a cair de sono. já o porteiro da caixa 160 lhe pedira dinheiro para o deixar passar. Aquilo acontecera a tantos! Ele viera da terra remetido a um tio padre que vivia em mancebia com uma cabrocha gorda para os lados da Penha. Era um homem. O ar pezado da aldeia. Apaixonou-se por todas as mulheres. ao voltar uma noite à taberna. Que importavam empregos? Exigiu as suas contas. e lentamente. sem morada. Mas. no embarque da mesma. a caixa. ainda se pode arranjar. Oh! Tinha fome para muito mais! O proprietário porém não fiava. sem trabalho. fez loucuras de entusiasmo. dissera-lhe: — Veremos. cada dia descia mais. Tudo é tão relativo neste mundo! Quando está a roupa no fio e o estômago vazio está. airoso e com essa sensualidade à flor da pele que só têm os homens de Portugal. Nessa noite esperou a saída dos artistas. metia-se em histórias inconfessáveis. sorveu a meia garrafa de vinho. Devorou o caldo com grossos pedaços de pão. com um ramo de violetas à lapela. tira-se partido mesmo do que nos repugna ao menos para jantar. coitado? Era onde calhasse que havia de dormir. No dia seguinte. todas as noites deu para fazer o mesmo. amigo às direitas. Talvez ceiasse. na calçada. patife.— Um bife e um caldo verde. tinha opiniões. Mas um dia uns camaradas lembraram ir ao teatro. uma de pernas grossas. Ainda se pode! Armando sorriu. Ah! Aquilo é que era! Mas já não lhe restava mais nada das economias e era preciso empregar-se. Armando pediu tambem vinho. já lhe passara duas cadeiras de beneficio.Salta um caldo verde! ladrou para dentro o homem. conhecia-lhes todos os papéis.

nas baiucas fétidas de jogo. dormir apenas. estender-se na relva.. São conhecimentos das noites passadas em claro nos cafés-bilhares. julgando-se mais. Por último era aquilo sujo. atravessa o jardim sem ver ninguém. Alguns sabiam mesmo a história. Não poder saltar aquele gradil. Vamos para o interior? Com quem? — Um pequeno grupo. Quem é o Espínola? Ninguém sabe. É o do ator Espínola. de músicas. há tipos reles. às pândegas das noites. E vê então que há luar. volta de novo ao botequim onde ganhou dez tostões. Há sujeitinhos lavados. Tudo é calmo. fala-lhe. Terminou o espetáculo. não pensar. e do alto. estende pela casaria a poesia misteriosa da sua luz. Mas naquela noite ir amanhecer no Leme ou no Mercado? Não. o astro derrama a delícia tranquila do seu esplendor. embarafusta pelo teatro. — Parece que a companhia dissolve. só. Há como ele outros rapazes. e por uma evidente infelicidade Armando não arranjou nenhuma. muito lânguida e muito pálida. Espínola pinta-se mal e dá informações. Vira à esquerda.. O bom Espínola. Com os olhos queimados. é assustadiço. É tímido. penteia o cabelo. cortado de toques de sino. Armando está ainda à esquina. rareia o trânsito. não é possível. A brisa leve embala os ramos das árvores num suave perpassar.as portas se lhe fechavam nas casas de comércio. De posse da entrada. passou misérias atrozes. a face oleosa pela falta de repouso. passa pelo pano do fundo para a carreira de camarins das notabilidades. há coristas. A lua cheia. que de vez em quando saem da poeira letárgica para um espetáculo de arromba. Que vida! Armando parou à porta de um botequim numa roda de atores principiantes. amplo. e entretanto julgando-se mais do que fora antes. sobe outra escada. — É o diabo. dá em meia dúzia de bricoetes162 . Armando ouve-o. rescendente de aromas silvestres. de inferneiras de mulheres. Afinal. há tipos em mangas de camisa. sobe uma estreita escada de quatro ou cinco degraus. de contra-regras. Espínola acorda-o. reagindo contra uma resolução que o fizesse mandar buscar pelos pais ou de novo o pusesse a trabalhar. aos desejos misteriosos. tudo é docemente quieto. Vai começar. atravessa um monte de cenários velhos. sem ter onde dormir. de figurantes. Armando abre um. interrompido pelas entradas do Espínola. à cata de dinheiro. fatigante. pelos botequins. Armando. dorme um sono mau. — Então que há. Tomam café no largo do Rocio. Oh! a velha lua! Como consola os tristes e os desgraçados! Armando vai indo a pé. tira o casaco e deita-se na mala. Espínola não tem amantes. que habita um cômodo com mais cinco pessoas. Armando olha um sujeito de grosso bengalão: é o chefe da claque. não! Fomente-se! Mas é bom. Os botequins vão fechando. Lá em baixo tocam um grande sino. o rapaz põe-se logo a andar.. sabendo do tempo em que estivera desempregado. e o próprio Armando sentia não poder mais voltar àquele trabalho. — Não tem disso. Dormir.. bem como os coristas. olhando a lua. com fome. Às vezes fazem-se pândegas. Aparecem os varredores da Limpeza Pública. Faz no camarim uma temperatura de caldeira. e tem piedade pelos outros. de gritos. amoldando-se ainda mais à infâmia. entra na caixa. E dorme. numa nuvem sufocante de poeira... mastigando a ponta do cigarro. enquanto os dias iam se passando pelos teatros. sem coragem. preparase. dá-lhe uma senha. despede-se. apaixonou-se pelo teatro. e vive agora de fazer pontas com cento e cinquenta mil réis por mês. Armando lava a cara. como uma ânfora de consolo e bem-aventurança. Passa de vez em quando um bonde. ofertar-se à lua numa longa hora de choro e de lágrimas. O Espínola foi comerciante. Dói-lhe . olhando o céu. Cumprimenta-o. à meia noite. há também estômagos vazios. Espínola sai. saem os dois devagar. dá no gradil do campo de Santana. Desce as ruelas escuras. Armando diminui a luz do gás.

um par de botas. dorme. muito. ao lado de sua mãe. ele é que longe da família.. porque tinha de ser. mas a mãezinha lá estava à espera. virou o rosto. dormia tão bem na sua cama. caminhou até ao saguão. Um momento hesitou. Armando abre os olhos. do trabalho. Olha teu pai. e ao seu lado um canzarrão cinzento com vestígios de lepra. — Dorme. Os campos inundados de luar passavam numa visão branca. talvez cocheiros. No vagão. O vagão estava cheio. porém. — Faz obséquio do seu bilhete. e quando ela ria.. A manhã nascia lavada e cor de pérola. contava-lhe tudo. das tipografias. ela prometia chorando. A negra lavava a louça. o seu abandono. Ele parecia radiante. tinha menos quatro anos. Gostava tanto de chocolate! Ele pedia. os engates no jogo. Palavrões choviam. foi até ao embarcadouro. Queria uma roupa nova. de parelhas. correu a um vagão de segunda classe. o diminuto número de passageiros tem um ar de sono e de fadiga. Descansa que eu te arranjo tudo. a principio devagar. na sua casa! dormia bem mesmo. Acordou. Quando a viu aberta. saltando para a plataforma. Mas tu tens tua mãe. e um da roda. as duas fitas dos combustores. No saguão havia o vigia a dormir. mas incapaz de soltar um grito — por falta de coragem. sentindo o prazer indizível de estar dormindo. Não vás apanhar uma constipação. sentiu um estalo no ouvido. — Praia Formosa! grita o condutor. anda. Não há pedido de mãe que Deus não ouça. as dormidas ao relento.. sacolejando os corpos. Tomaria o mingau? Mas a viagem? Não! Era melhor dormir. já com os focos apagados. outros apenas cochilando. deixando na corrida louca o renque do casario. indiferente. Uns vinham estirados sobre os bancos. Vai dormir. Entrou. — Má cabeça tua. Os artífices bulhentos tinham resolvido acorda-lo. o pai ralharia. as infâmias. meu filho. Armando sentiu um bemestar. Era tarde. com este frio da noite !. — Meu filho. Preocupava-o a bilheteira. O chefe do trem acenou para o maquinista com um lanternim de vidros vermelhos e verdes. E. tudo por má cabeça. E ele dormia. Oh! a sua mãezinha. sem auxílios. estendeu-se refasteladamente Estava só. Por que veio assim tão tarde? E suado.. Havia gente vinda dos bailes. para aquentar o café. de atrasos. puxou as abas do chapéu. Para ocultar as lágrimas. O trem voltava cheio de operários. Armando não olhou sequer. E assim os dois. mãe. Então sentava-se. chocolate. lá se achavam apenas para passar algumas horas fora do relento. vai descansar. um silvo partiu. também como Armando. Armando reconhecia-os.. fúfias de galhinho de arruda e chinelas sujeitos ambíguos de calça balão. meu filho. batia-lhe palmas junto ao ouvido. O trem moveu-se. o seu riso animava a tristeza sombria da estação. cheio de vontades. o sonho que tivera. Era de madrugada. Ia caminho da casa. por falta de energia. e muitos. roncava. longe da sua terra. de repente. — Boa noite. a velha é que o deitava. todo a gingar. Ele sim. Então ele sentia-se ainda mais pequeno. Na gare. O trem continuava a galopar. com o fogareiro de espírito. Um soluço sacudiu-lhe o peito. Um perfume delicado errava à sua passagem. Há uma negra vendendo mingau para uma roda de notâmbulos: marinheiros e soldados ébrios.tanto o estômago! Vai até a Central. descia a rampa da vida certo de encontrar o abismo. depois vertiginosamente. houve um ranger de ferros. que o cobria com a colcha limpa.. baixo. Ia dormir! Pouco depois soaram campainhas. dormir tranquilo. . e ela tinha esse olhar amortecido que as mulheres têm quando querem saber mais alguma coisa na vida. sem pena. comprou um bilhete de ida e volta para o subúrbio. Falam de burros. Tinha que ser. um cavalheiro passeava devagar com uma formosa senhora. Entram alguns indivíduos. De repente. Talvez alguns tivessem ainda a pensão do jantar. com ar de desafio e de troça.

.. deitada é a Vênus Andrógina. Sentou-se na escadinha. Não era uma pequena qualquer. A critica fora jantar a sua “ vila” de Copacabana.. esmaltes árabes. quase deitado. — Não. fotografias com dedicatórias notáveis. num regimen essencialmente esportivo. bela como a Vênus de Médicis. bergeres163 mais ou menos autênticas do século XVIII. — Estou incomodando. Cristovão. de sossego. o salão em que a esplendida atriz fundira o confortável inglês com o luxo do antigo. rico. Quis salvar-se. sob o calor do sol que começava. acabado. estatuetas raras. a arrastar nos decadentes tablados cariocas vestidos de muitos bilhetes de mil. Ao certo porém ninguém sabia senão aquela aparição brusca no teatro. tão amiga. tão séria. por cima dos móveis.. diante da secretária. tão simples. Que havia de fazer agora? O mesmo que fizera antes. e foi célebre a frase de um jornalistinha desprezado: — De pé é a Vênus de Médicis. encarou-o. numa súbita e desesperada angústia. O pobre rapaz recalcou a cólera. Preciso um pouco de ar. marfins orientais. Era a bela Irene de Souza que queria ser a boa. É irrevogável. estendendo-me as duas mãos finas. estendeu mais. A natureza abria em flor. As rodas do outro vagão esmigalharam qualquer coisa. casado. de Irene repentinamente footlight. o mesmo horror. a crítica elogiara Irene. E a crítica suportara o seu companheiro Agostinho Azambuja. e por cima das mesas. outros diziam-na filha de uma família muito distinta do Sul. Nossa Senhora! Mas não haveria meio de ganhar a vida. a simpática. um pouco de descanso. Irene de pé. O trem continuou na luminosidade da manhã. O corpo falseou. cidadão? chalaceou o outro. Com os pés enlaçados na grade. ainda conseguiu prender as mãos nos para-choques. Inconscientemente estendeu a mão. Tudo no mundo custa.. Tão séria? Deram-lhe todos os amantes imagináveis em vão. Seria tão interessante pega-la. criados pelo Paquin e pelo Ruff. a talentosa Irene. Mas Irene mostrava o claro . emprestaram-lhe instintos perversos. o nome de Irene en vedette.. nos porta-bugigangas de luxo. a mesma infâmia. onde Irene. contadores164 do tempo de Carlos V. e de chofre todas as atrizes. de comer. Estendeu mais o corpo. enquanto os seus dois grandes olhos ardiam mais loucos e mais passionais. ao beijo da madrugada. como os seus sapatos. eram feitos em Paris. todos os cabotinos sentiram-se diminuídos lendo no cartaz. empreiteiro. UMA MULHER EXCEPCIONAL A Forjaz de Sampaio — Está a brincar! — Sério.. de viver? Não haveria quem tivesse piedade da sua atroz agonia?. pendeu. fazia duas horas de bicicleta e sessenta minutos de natação. Irene de Souza! Que legenda e que beleza! Os seus inimigos asseguravam-na apanhada como criada de servir perto de um quartel para os lados de S. a humilde. O corpo caiu.. de dormir. Ela continuava tão boa porém. sorria. E ninguém do trem reparou naquele fim de vida tão desconsolada. Uma corrente pendia entre o vagão em que estava e o outro vagão.. Era no salão de Irene de Souza. Tirou-me um sonho! E foi para a plataforma do vagão olhar os últimos vestígios de uma das suas noites. ao nascer do sol. até me fez bem.Armando ergueu-se. Mas custava. nervosas. a mesma miséria. sorriu. Mas um solavanco desprendeu-o.. espalhando entre os divãs fartos da casa Mapple. A vida desta cidade ataca-me muito os nervos. e por vingança afirmaram que os seus dentes. em grossas letras.. de repouso. O trem continuava a galopar pelos campos dourados do sol nascente.

e lucrarias mais se fosses sua amiga. Mas isso é que ninguém concebia: a Irene sem enganar o Azambuja. tinha razão. comprava-lhe casas. deixando-a sair só. A perfeição da alma que nos traz o prazer Supremo e a suprema ilusão! Ela suspirou. amando a perfeição. talvez mesmo para Irene. as narinas palpitavam e com o seu ar de Diana à caça. Lembrar-te da frase do Gomide? A legenda foi mesmo tão espalhada que súbitas ternuras apareceram. No dia em que correu ter o Azambuja presenteado Irene com uma baixela de ouro lavrado. forrado de seda côr de rosa. Conheço os homens. Afinal era uma rapariga de vinte e cinco anos. porque lhe assegurava o futuro. Mas respeito-o e sou-lhe grata. e vários convites surgiram para tê-la na companhia de senhoras bem cotadas.. sem esquecer o lado prático. colocando-a numa posição verdadeiramente superior. É quanto basta. já não estou na idade de satisfazer os caprichos de uma mulher.. primeira ingênua165 casada e adúltera da companhia: — Minha filha. não lhe perguntando nunca donde viera. faziam-se comentários. A Irene procura alguém de quem o Azambuja não tenha ciúmes. — Mas não ama o velho Agostinho? — Está claro que não o posso amar como Julieta a Romeu. Deus! . mais falsas que a onda. recebendo na própria casa os apaixonados que a ela poderiam ser úteis para o reclamo. e não virá nunca. conhecendo música. Há uma grande diferença de idades. falando quatro ou cinco línguas. logo se formou irrevogável a legenda. A Irene quem a fez tal qual é fui eu. — E se o trair? — Tem bastante espírito para o não fazer. Lembra-te dos versos do Poeta: Que os vossos corações aprendam a viver.fio da dentadura com uma despreocupação tal. possuído de uma paixão devoradora. as mulheres tiveram a certeza da superioridade da rival. não vem. — Francamente? — Deve compreender que seria muito parva se fosse perturbar a minha vida e a beleza que vocês proclamam com uma paixão. uma mulher perfeita. agarra uma pobre rapariga no mais reles alcouce e fizeraa uma obra sua para dominar a cidade. o ciúme. De resto Agostinho Azambuja tinha uma confiança muito elegante. Azambuja encobria-os numa serenidade de bom-tom. disse-lhe eu um dia. um verão ardentíssimo. vibrante de arte e de elegância que é a arte de ser sempre a tentação. herdada do avô. um vago judeu argentário. Amando o amor. — Por que? — Porque não amas o amor. Eis a razão por que resisti a princípio e hoje sou invulnerável. Mas a paixão. jóias. ela permitia-se abraços e beijos com as companheiras. Como o seu sorriso tornava-se cortante. esses paroxismos fatais de quem quer muito bem. — Se é assim? Que hei de eu fazer? Mas que romântico. Essa não vem. De fato. É o meu chique. — Irene? Amantes não. e alguns camarotes eram insistentemente ocupados pelas mesmas damas nas noites das suas representações. tratava tão camarariamente os homens que a calúnia tombou. e foi notada a resposta do Azambuja a Etelvina. Vivo do orgulho que ela me dá. Ora só a paixão poderia influir. uma beleza que chamava paixões! Muita vez no seu camarim. — És uma criatura imperfeita. tristemente. A lenda era que esse homem vulgar.

De modo que aquela partida brusca. Até Irene mesmo. — Oh! não se assuste! Essa paixão é uma das faces do meu amor ao teatro. A primeira carta que abri tinha ao canto um passarinho voando.E todos nós. — Irene. parecia sossegar com a esquisita calúnia e mostrava uma alegria. Guardo os artigos de jornal num álbum e a chama amorosa na secretária. não resisti. Como é bonita!” — Conheceu? — Nunca o vi. Ao saber a resolução pelo velho Azambuja na rua. ameaças de suicídio. Ah! o estranho capítulo de psicologia. e acabo considerando-as a homenagem anônima. às vezes. — Mas por que partir. . Eu ia com efeito vendo. — Cruel! — Oh! É lá possível ler tudo quanto a tolice humana escreve? Recebo as cartas de bom humor porque é impossível zangar.. Eu lia versos.. — Paixão? Sabe o que estava a fazer. mas foi por falta de tempo. enviado diretamente da China para um inglês rico que me adorou em vão. uma imensa satisfação na vida. e estava ali. não acabavam mais.. queira desculpar. Houve um deslocamento de perfumes. flor da minha vida! E que nas outras cidades deixe os mesmos corações despedaçados. — Cá tenho outro : “ Senhora. lê as cartas comigo. de loucura. — Maníaco.. Tudo quanto está vendo nesta secretária. no seu quimono rosa. Peguei de outro : “ Adeus. interessado como diante da saída de um ministro. no meio da desordem do salão. uma espécie de palmas num teatro cheio. os gritos de paixão. Nunca tinha visto tanta paixão reunida e um sorriso tão destruidor nos lábios de Irene.. Quer lê-las? Uma ansiedade invadiu-me. interrogando-a. Ergueu-se. de doença. a descrasiante página de análise! Daquela papelada subia como uma fúria de paixão. que são sempre ridículos. ao receber estas mal traçadas linhas que lhe envio do internato. fez ela. escrevendo a respeito do seu talento. tudo quanto vê neste cesto — é paixão! Recuei assombrado. Pobre pequeno! Do seu primeiro amor não guardará ao menos más recordações. nunca amou? Francamente? Posso ler todas. ” — Quantos nestas condições! Vá vendo. guarnecido de uma leve renda antiga. a rasgar declarações amorosas e a atira-las para este cesto.. feito da flor. Mas as tolices. Hesitei. via toda a palpitação ingênua do coração dos homens. mostrando predileções excessivas. diante das minhas mãos a secretária escancarava-se. eu tomara um tilburi166 . Havia mais de quinhentas cartas. quando entrou? Estava a limpar a secretária. tínhamos aceitado o caso como definitivo. jantando nas suas pratas. e começava assim: “ Dona Irene. As horas fogem e a esperança fica. plumas. Divirta-se! Eu vou mandar fazer um pouco de chá. Sem receio. após o seu último sucesso agradável numa comedia inglesa. e um intenso cheiro de heliotrópio167 . O Azambuja sabe e. Algumas ainda não li. — Uma briga com o Azambuja? Não? Aquele ataque da Suzana Serny? Também não? Então? Querem ver que afinal tem uma paixão? Irene sorriu. olhei-a. Tenho quinze anos e vi-a ontem. Quem a chamou de feia e a senhora não sabe quem é. Irene? — Porque é preciso. havia mais de mil postais e nesses quadriláteros de papel ardia um arco-íris passional desde a chama roxa da melancolia à chama rosa do amor precoce. A meus pés o cesto abria a face abarrotada.” — Este confessa-se maluco! — O que não fazem os outros. onde havia malas. era de desnortear. lia pensamentos patetas. chapéus. todas? — Todas.

ó 8. A criada servia.. A encantadora Irene parara . — E eu que ainda não tinha lido! Com efeito. os seus olhos pareciam levemente inquietos. inacessível aos mortais. Tirei-a do invólucro : “ Cruel. pedidos de uma humildade de rafeiro168 . Abri-a. agonias com erros de português. Curvei-me. É curioso. Apanho uma ao acaso. Ela estava preocupada. — Palavra? — Um sujeito que está na Itália.ofertas de dinheiro. Eu continuava a remexer a secretária. espezinhado. Bebamo-lo! — Ah! minha querida! como os homens são idiotas! Essa mania de escrever cartas de amor é bem o sintoma de inferioridade. E assina-se César! Não faz coleção de selos? A filatelia está em moda.. então. vigilante.. graças nevrálgicas de palhaço amoroso. a miséria lamentável dos homens. parei.. Deus! O amor. ó 8. eu procurava com ânsia. que dolorosa moléstia. séria. E era de compreender. Ainda não tive amante que com ela não rasgasse as cartas dos que me tinham precedido. Ainda lá não cheguei. Preciso muito.Basta! Basta! fez Irene. ex. várias cartas. um tanto fria talvez. genuflexo. Decididamente aborrecia a bela Irene de Souza. Nunca a linda Irene de Souza amara um homem! Era honesta. Olhe a frase de Ibsen. Era realmente bela. era o polo do desejo! Ah! não. Hei de matar-te se alguma vez te encontrar a jeito. o chá num lindo “tête-à-tête”169 de porcelana com guarnições en vermeille170 .” —. naquele quimono de seda. Não sei fazer poesia.. no mesmo lugar. peno há cinco anos. descrições de vida futura. Uma das missivas era enorme. na Comédia do Amor: o amor é como o chá. como se fosse responsável por todas as sandices do meu fraco sexo. — Quem sabe? Ela sorria com a chávena na mão. Não me quiseste e eu peno.” Não continuei. Um selo italiano. lembrava uma flor maravilhosa. desejava estar só. — Era uma afirmação de que pelo menos no momento não o enganavam. Mas porque ia ela para a Europa? Porque me humilhava com aquela intimidade de correspondência aberta? Por que? Os meus dedos encontraram uma gaveta. — E olhe que tem também um doido. — A carta anônima é as vezes melhor que a carta de amor! — Sabe que teve um pensamento? — Como os que acabou de ler? —. um pensamento diamantino. Toda de rosa. eu não sei porque um nervosismo incompreensível fazia-me trêmulos os dedos. Depois. — É a paixão — Venha antes tomar çhá.. sem crimes. chama-a cruel. da Vênus que não se entregara nunca.. reclamo o seu carinho para os queixumes de um coração sofredor. terna e durável!” . máximas idiotas e generosas: “A amizade da mulher tem um encanto mais suave do que a do homem: é ativa. humilhado. Eu compreendia a futilidade. Abri-a. diante da sedução de Vênus Vingadora. e. uma flor de lenda. Fala do numero 8. — Pois venha tomar chá. Conto que ainda hei de ver o teu sorriso indiferente. com efeito. a tolice. tapando os ouvidos. oitavo do século. e era honesta sem amantes. sou imensamente avesso às flores de retórica e suponho que não me igualarei ao gorgeio dos rouxinóis ou às asas das borboletas inquietas. — Eu? Com os espias e as agências de informação pagas pelo Azambuja? Da última vez que . Seja mais humana lá fora. ao que parece. Irene preparava a sua partida. — Como todas as parvoices inofensivas. Se eles soubessem o fim das suas letras e o pouco caso que delas fazem as mulheres.. que me perdoe a ousadia. — Adeus.. sem calúnias..Não. “ Peço a v.

aturdido. trilos. à hora da noite nas cidades. sentara-me a uma das mesas do terraço de confeitaria. Tradução : preciso de dinheiro. funcionários públicos e comerciantes. idéias. operários e dândis. É o seu grande trunfo. A MAIS ESTRANHA MOLÉSTIA A Afrânio Peixoto Era o momento verde. Peno há cinco anos. Qual. um espírito prático. ociosos e bolsistas. o cinema colossal de homens das classes mais diversas. — As mulheres nunca mostram todas as cartas. Por exemplo : Hei de matar-te.estive em Paris. incapaz de amar.. olhos devoradores.. cornetas de automóvel buzinando arredas174 . e indo pela Avenida Beira Mar a matutar naquela criatura excepcional encontrei o velho Justino Pereira. Mas no mundo não há uma que não tenha um segredo simples. chama-se Vitorino Maesa e partiu há dois meses para a Itália. estaquei. sou invulnerável. Saí varado. o estrépito natural do instante. Irene está acima de maledicência. sem sentido.. o momento do aperitivo outrora absinto172 . Tradução : não deixes de vir. como se fosse uma questão de honra pessoal. É até um lindo rapaz. — Oh! filho. — Ora o fantasista! Não me vá dizer que a Irene tem amantes. Paulo. não tenho que guardar. largo bater de patas de cavalos. gente a correr. meu amigo. a passear tarnbém. apitos. Venho da casa da Irene. Nas calçadas uma dupla fila de transeuntes sempre a renovar-se. à espera de um claro para poder passar. — Poesia? — Não. — Sr.. Por hábito. Azambuja mostrou-me um dossier tão copioso que eu pensei no Affaire Dreyffus171 . E desatou a rir enquanto eu esforçava-me por fazer o mesmo. chicotadas estalando no pelo das magras pilecas 173 dos tilburis. E rindo alegremente : já se vê que pour cause. a quem sustenta? Indignado.. carroções em disparada. os olhos perdidos na contemplação da Avenida. devagar ou . — Velho cético! — Mesmo porque há cartas que os maridos e amantes podem ler. cartas desvairadas. O senhor calunia e é pelo menos incapaz de nomear o tal gigolô. Nasceu em S. ou parada nos refúgios. sem saber que como um imbecil eu tivera a carta na mão: — Estás apaixonado? Contrariei-te? Todas as mulheres são excepcionais quando se lhes quer prestar atenção. Que cara a tua! Pareces criança. a que a leve estética sem inventiva dos cafés e das confeitarias continuava de chamar sempre o momento da água glauca. nada de calúnias. basta uma chave do sentido oculto. hoje uma série de envenenamentos de cores variadas e de nomes ingleses. Pois meu tolo basta uma combinação prévia. — E se disser que tem mesmo uma espécie de gigolô. Soube-o por um acaso. sem saber o motivo daquela emoção. Como me visse pálido. que lhe mostra um reverso inteiramente diverso da aparência. — Boa pega! — Oh ! não. àquela hora vaga tão cheia de movimento e de ruído.. corpo de esgrimista. Mostrou-me verdadeiras cascatas de cartas de amor. porque afinal não há nada mais impertinente do que encontrar realmente honesta uma mulher que não tem o direito de o ser. fez Justino a sorrir. No asfalto da rua era a corrida dos carros. Justino Pereira.

depois de um cinza espesso.. tenho feito observações a ver se encontro outro tipo igual. Tenho estudado. — Mas não tenho segredos. Que estaria Oscar Flores. a pele morena. Tomou um gole de cock-tail com evidente prazer. e era aqui o estralejamento surdo das lâmpadas elétricas de um estabelecimento. o incêndio das montras177 faiscantes. tenho lido. sentindo em cada tabuleta o sonho postiço de um tesouro de Golconda. isto é — sossega — vi que procuravas alguém. protestou cansado. Oscar. E fechou-se num silêncio nervoso. a gravata presa de um raro esmalte. Estava visivelmente contrariado. um ente muito fino. — Ah! tornou sorrindo. Curioso. E eu sofro desde criança. De resto ha sempre na voz do povo um pouco de razão. Ele voltou-se. A existência concentro-a nela.. cocottes notáveis. Que será? Os mais espessos — e dessa espessura intelectual se faz a opinião da massa — pensam logo nas degenerações normais. À beira das calçadas. no desejo de doma-la e na irresistível vontade de satisfaze-la.. — Não. chamei-o ruidosamente. como sempre à espera de um sinal misterioso para partir e desaparecer. íntimo e confidencial: — Então. Ora os segredos deixam-se para as mulheres e para os homens sem interesse. com a sua bengala de castão de turquesa. senhoras de distinção. vendo em cada roseta um caleidoscópio. os homens vulgares. quando o jovem se resolvia a continuar. meninas casadeiras. deixou-se cair na cadeira. lágrimas de esmeraldas. Era encantadoramente lindo com o seu ar de adolescente de Veroneso. Olhei-o então com vagar. outras casas. onde estás? É por isso que te caluniam. o delicado Oscar Flores. simples apanhadoras de amor. Tenho que fazer. Algum tempo depois reconheci. a escorrer para a semi-opacidade da noite cascatas de rubis. — Pois se já perdeste a pessoa a quem acompanhavas?. suprema orquestração do bom gosto urbano. As sombras. a teoria infinita do feminino para todos os gêneros : pequenas operárias. Já agora tomava um cock-tail. no centro das loucuras que é a cidade. Absolutamente impossível. é outra coisa — é a minha moléstia. Ele teve um suspiro. como se fosse apanhado em flagrante. outra esfera... Ah! os contos de fadas que são as cidades! Os meus olhos se fixavam na confusão mirionima das cores. brasonando178 de pedrarias irradiantes as fachadas. E não é nada disso. obrigado. como tendo perdido alguma coisa. — Vem daí tomar um aperitivo. mais adiante. de espaço a espaço as rosetas como talhadas em vestes de arlequins dos cinematógrafos. os olhos à procura. a procurar assim? Esperei alguns minutos olhando a ver se via a causa daquela aflição e por fim. a pouco e pouco os pingos de gás dos combustores176 formavam uma tríplice candelária de pequenos focos. o negro cabelo anelado. Estou a acreditar que realmente tens um segredo. espelhamentos jaldes1 79 de topázios. — Viste? fez ainda mais pálido. — Todos pensam que é um segredo porque ninguém imagina. Que fazer? Os meus olhos descansaram na multidão. muito sensível.apressados ao lado de uma multicor galeria de mulheres. outra vibração. Tudo vai de ocasião. o eterno boulevard. longos rosários de contas ardentes. Como devia ser feliz assim rico e belo. A . o nariz ao vento.. do qual diziam horrores e que de resto parecia ter na alma um fatigante segredo. O seu caso porém era outro. Os segredos fizeram-se para ser contados. ainda falam de mim? — Cada vez mais. o Oscar Flores! E falavam tanto mal dele! Disse-lhe. sorriu mais acalmado. reflexos cegadores de safiras. com a sua palidez e as suas lindas mãos. És o leit-motiv da falta de assunto. a princípio de um azul furfureáceo175 . hein? Diante de mim toda a gente sente a anormalidade. cortado de sobressaltos. Tenho apenas a mais estranha moléstia nervosa —que ninguém sabe.. alheado de mim — o seu habitual silêncio em todas as rodas. iam preguiçosamente espalhando o veludo da noite na silhueta em perspectiva das grandes fachadas. — Vi. e eu recordava outras cidades. a atitude inquieta de um príncipe assassino e radiante.

Tudo é cheiro. o império de um único sentido no meu organismo e nesta sensibilidade caldeado numa ascendência de requintados. Esse teu desequilíbrio é de fato de uma psicologia muito sutil. a classe das pessoas que as habitam pelo cheiro. ao saltar no desembarcadouro. deu-me da vida íntima uma prévia noção incorpórea. repele. É outra coisa. no ideal que jamais se corporifica e é na nossa alma como o perpétuo sonho irrealisável. o ergastulado179 do cheiro. A alma dos entes revela-se pelo cheiro. o empolgado da miragem da vida. do perfume com a significação normal de extrato fabricado para o mercado. atrai. o desenvolvimento assustador de um dos sentidos. Em criança. o meu desequilíbrio. com o cheiro do mar e três ou quatro escalas de cheiros de óleos refrescados pela viração larga. repugna. Como comecei a sofrer desse desenvolvimento paroxismado do sentido olfativo? Sei lá! Não foi o perfume. instintivamente cheirava-a de olhos cerrados. quando me tomavam ao colo. deslocou-me para um mundo de fantasia exasperante. do cheiro da terra. És o homem dos perfumes. É o cheiro que guia. de aspirar as pessoas agradáveis. cheiros honestos. os que falam na realização da arte. Daí o poder ouvir sem comentário todas as narrativas lindas com que me queres honrar. o gozador das essências esparsas. — É atroz. em tirano da impalpável luxúria. — Quando digo! É tão inverossímil que ninguém acreditaria. na mais tenra idade. A minha moléstia. Um homem sensível não pode viver muito tempo nesses lugares porque o cheiro permanente dá-lhe como uma continuidade da visão oceânica e um estado trepidante que lembra a vagabundagem de grandes navios por mares ignotos. Depois. em primeiro lugar porque és belo. muito trabalhada. Oscar teve um gesto de impaciência. Os caracteres dos homens são feitos de essências. só pelo cheiro. castigo e prazer do pecado. submete-los e virar aos poucos em fonte de todos os prazeres. — Não me fales de perfumes. A das coisas também. Conheço os interiores das casas. As nossas impressões são filhas do cheiro que atua como a luz e muito mais porque há cegos e não há ser vivo que não respire e não sinta o cheiro. apareceu como escandalosa precocidade. Sente o cheiro dos marinheiros. antes de levar qualquer gulodice à boca. o cheiro é o condutor das almas. achava sempre meio de cheirar. Sabes que é o sentido soberano? O olfato. de idéias efeminadas. há cheiros desagradáveis. foi a extensão vasta dos cheiros que não são perfumes. Vive oito dias numa casa de perfumes ou no boudoir180 de uma mulher galante. do cheiro dos estábulos e do cheiro das rosas. até a adolescência tive-o como um crime horrível. porque está no ambiente. Já decerto conversaste com os artistas jovens. fez-me o lascivo da atmosfera. Sou a vítima do cheiro. tenho uma profunda simpatia por ti. em terceiro porque nem a beleza nem o espírito conseguiram reduzir-te à atroz banalidade de ser totalmente feliz. e as tuas idéias tomam o aspecto de idéias com pó de arroz. Entretanto tens diante de ti o homem que analisa o seu tormento e não lhe resiste. e que eu os sinto ao aproximar-me. o detalhador do imponderável. e murmurei: — Meu caro Oscar. cheiros de seio. cheiros que conseguem dar a impressão geral dos habitantes. o gênero. Posso mesmo dizer-te que cada cidade tem um cheiro próprio. em segundo porque tens espírito. Para mim não há cheiros repugnantes. Cada Pessoa tem um cheiro . — A hiper-acuidade de um sentido dirigida com estética. apenas o olfato.princípio. cheiros voluptuosos. — Mas.. para sentir bem e prelibar deliciosamente o prazer de degusta-la. as profissões dão aos entes certos e determinados cheiros. Sou como o escravo. do cheiro da erva. em único foco das sensações agradáveis. Emborquei tranquilamente o veneno que me tirava o apetite. made expressely181 para uma certa roda pueril. O cheiro plasma. Tenho a sensualidade dos cheiros os mais diversos. como de olhos fechados dir-te-ei a casa vazia apenas aspirando-a. Com a razão — porque eu sou um sujeito muito razoável e muito refletido — vim a descobrir que era um desequilíbrio dos sentidos. é delicioso. a exaltação lírica. ao beijar-me.. capaz de dominar os outros. realmente.

do grande pecado da natureza. As flores são as caçoulas184 dos perfumes naturais. dos cheiros artificiais. Ah! esse tempo ainda ingênuo. amei as flores. estudei longamente. de calor opressivo. O que eu sinto não o dizem palavras. Odiar as rosas! . tive baterias de perfumes em frascos de cristal.. um cheiro de nuca. mas devia tranquilisar-me. esses perfumes com que vocês se civilizam e se friccionam são ignóbeis. Ah! que pequeno vicioso! Elas diziam convencidas de que eu gostava apenas do cheiro das suas roupas. evolando-se lentamente. perfumes frios. perfumes tépidos. semioleosos. Eram maravilhosos. que eram tão violentas quanto a fome ou o amor. dividindo em classes de almas a diversa temperatura : perfumes quentes. Gostei da carne porque cada nuca é um pouco do olor da natureza. com frases de antifonário183 e sonhos de rosas de Shiraz. virilidades de ambiente. outras cujo olor se celestisa. entretanto. É possível ter à lapela uma gardênia sem sentir cefalalgias185 horas depois? É possível cheirar certas rosas sem odia-las? — Mas. com uma alma de serralho182 e de mel por aspirar um frasco de essência de rosas. Na composição química da enorme quantidade por mim aspirada senti apenas que poderia fazer um catálogo. não distinguia o que me poderia conceder o prazer : a erva molhada. os reles. apertões nas têmporas. de volta do Oriente. renovando as camadas de ar do aposento com pulverizadores cheios de misturas sábias ao lado de incensários a queimar olências exóticas. cada dia mais com caráter desabridamente sensual.. porém. Porque lisonjear os deuses com perfumes. meu querido. Andei doente e morno. de frenesis ou de grandes repousos celestes. as flores. dores de cabeça. Deixavam-me sonambúlico. Meia dúzia de refinados franceses conseguem a meia temperatura. Não sorrias. uma impressão angustiosa de acachapamento. e há bocas que são como orquestrações de odores. a alegoria dos perfumes. deixar a roda dos conhecidos. um cheiro de corpo. esse tempo instintivo. Os perfumes de Haubigant dão sempre a impressão de calidez. O meu olfato desejava. acabaram por me fazer mal. havia as flores. — Tinhas a obsessão de um cheiro nunca sentido? — Exatamente. tal as marafonas que a sorte eleva ao grande luxo. Os ingleses e os americanos fazem-nos frios. A minha nevrose olfativa se acentuava cada vez mais. combinando essências. pendia para as cabeleiras com tal ânsia aspiradora. excessos de natureza.. Esses perfumes que as mulheres usam. outras cujo cheiro é banal. A natureza condensa nelas o olor das suas paixões. desses que a gente ao aspirar pensa em águas geladas e madrugadas hibernais.. e já começava a sentir as cruciantes necessidades de certos cheiros. que ele representa? Há flores cujo perfume é cínico. — Príncipe encantador. Na minha infância a perversão — se-lo-á de fato? — surgiu ensinando-me todo o pecado. Ainda era romântico e até aos dezoito anos tentei com um pouco de literatura e alguns conhecimentos químicos. tateando na sombra do mal. a sinfonia dos perfumes. os que lembram montras de boulevards em blefes de luxo e de conforto. sair por aí a ver se descobria o cheiro que eu precisava. procuras apenas pretexto para dizer coisas infantilmente interessantes. Era perturbador e era irritante. Não era. Esses perfumes entravamme no crânio como estofos bordados de pedraria. como broqueis encrustrados de gemas coruscantes. se não tivéssemos a idéia do sacrifício.. trouxe-me então uma coleção de perfumes. Vi então que a minha doença não amava as concentrações mais ou menos industriais. E há também os medíocres. Mas era muito artista. o prazer dos perfumes. elegâncias por todo o preço de armazéns duvidosos.. Olha que antes de ti outros estetas falaram. a pintura sugestiva dos perfumes. as recordações das tonturas. de Kashmir. Um amigo. Arranjei catálogos. o cheiro dos estábulos. a alma dos seus desejos. de Kernar. o perfume exorta e exalta. o cheiro que não sabia qual era. tinha uns modos tão pouco normais que a família se assustava e as raparigas achavam uma infinita graça. Os deuses gostavam de perfumes. Então era preciso alhear-me. outras ainda que nos dão desesperos de carne.diverso. — Sim. e já rapazola. fiz como todo sujeito lido em livros franceses. que percebe para além das coisas visíveis. Eu me envolvia nas roupas brancas que as raparigas já tinham usado. Quer uns quer outros. É preciso descobrir frases prismáticas como certos cristais e vê-las à luz do sentimento.

. de músicas. daí para a minha sensibilidade compreender que a natureza é inconsciente. no meu pobre corpo. as rosas rosas. E tudo quanto na vida se faz. Talvez pela toilette e a perfumaria sejam-me indiferentes as formosas mulheres . cheiro resumo do cheiro inicial da vida. cabelos musicais que fazem pensar em manacás e em magnólias. porque cada cheiro é como um som diverso e o cheiro da baunilha é bem uma nota abemolada diversa do cheiro do cravo vermelho.. dãome sensações de cor. morbidamente absorve os outros e leva louco. E. o estonteante cheiro das axilas. como um “setter”187 humano.. cabelos que são o tecido de todos os cheiros reconfortantes. cabelos em que a gente se perde como num imenso oceano de olências reparadoras. porque os cheiros têm gosto. uma existência em que os cheiros visionam ambientes. quando criava a criatura. estranhamente perdido entre as ervas. para notares a correspondência de cheiros idênticos nas coisas mais diversas. demoníaco. Desejo cego. porque há odores de todas as cores. Há cabelos. sabes? que relembram o aconchego arminoso dos ninhos dos pássaros. se não amas os perfumes que te fazem mal. o cheiro das bocas. em grandes abraços pagãos sobre as liras. não nos completam o prazer anunciado pelo cheiro. é também. Tenho entre mim e a vida comum um como véu de talagarça186 espessa. — Realmente. cheira.. em que consiste o desproporcional domínio do olfato sobre os teus sentidos? É decerto um estado de anemia. do cheiro que se procura para aquietar e amar. o resedá. se odeias as flores que te exasperam. temes todos os cheiros desde que eles se especializam. carnes feitas de leite e de sangue de cerejas que ao aspira-las pensa um pobre no descanso dos bosques. amarrado à corrente da conveniência. perpétuo. crispantes de cio. pelos cheiros. Quando ele ama e sente assim. com um pouco de “toilette”. o cheiro dos cabelos. porque todos os sentidos calcados por tamanha acuidade vibram a arcada furiosa de um desejo incompreensível. Há flores carnudas.. Há carnes douradas.. em fraudas rústicas.. cujas emanações são como sons de violino em noites de luar. fez. o cheiro das nucas. sempre uma orquestração. fez Oscar afastando nervosamente o cock-tail em meio. no delírio perpétuo. a flor do resedá que o Fezensac cantou idiotamente num trocadilho e que entretanto guardam um frio e exasperante odor de gérmen fecundante. E as bocas? Já reparaste nas bocas? Ha bocas quentes e frias. bocas sem cheiro algum. Não amas os cheiros. O que eu amo é o olor da carne. cada qual faz o seu cheiro. porém vítima de um só sentido. que o faz amar a harmonia das coisas e o faz pensar na beleza esplendente. — Ao contrário. cheiro de marfim raspado. e bocas que quando falam junto a ti têm um cheiro intimo de rosa murcha. absorve o odor. Oscar caíra num abatimento. a flor que cheira a marfim. minhando o seu pensamento sutil e vaga essa misteriosa afinidade entrelaça os sentidos. desse cheiro que cada um tem próprio e jamais igual ao do outro. em ragaes. eu sinto pelo cheiro. e quando as sugas transfundem a alma como uma essência especial que parece o mel feito de todos os perfumes dos campos. uma grande fraqueza que te adoece e te faz sensível aos odores. Oh! não estejas a olhar para mim assim irônico. onde todos os cheiros da terra se encontram em suaves nuanças. cheira. no entreabrir de um lábio o sabor dos frutos. para que o homem sinta numa curva de anca a música das linhas. É a existência de miragem olfativa. de sons. quando fazia a carne. as tuberosas. na carne de uma espádua o perfume da rosa... As criaturas são as ânforas da harmonia dos cheiros. cada ser faz-me sentir a alma pela veste incorpórea do cheiro. Há uma íntima correlação entre as sensações do homem normal. uma sinfonia de recordações de outros cheiros.. que a gente aspira. e depois estraçalha com ódio porque prometem mais do que dão. se individualizam. descrevem as almas dos tipos que me rodeiam.— Sim! Odia-las. Cada carne tem o seu corpo odico que é o cheiro. esse sustenido de clarim. Ah! essa aflição que dá aos sentidos o cheiro de algumas flores. de novo animado. na criatura que se desnuda o bruto. — Daí. as rosas chá que cheiram como carnes morenas. e que só um instante a razão lhe voltou. — Daí. caos das sensações. que todos esses perfumes elas os espalhou brutalmente.. desvairadamente. porque deixam em meio o gozo. Quando é como eu. quando te beijam parecem feitas de pétalas de rosas. a tentar reaver a harmonia. — Não! não é isso. de excitação. as rubro negro como sangue coagulado. de gosto. Eu começava a temer o delírio.. ao contrário. — Então. na floração da arte. as violetas. que é o arrimo da vida. irmão odor do odor da semente criadora.

Beijar corpos assim.. Um lindo corpo. a boca lavada por águas e pós brilhantes. há quatro anos senti esse cheiro. Sorriu. sempre mais amargos e menos consoladores. que tem todos os suspiros campinos das boninas. segundo Porque ninguém como ela tem no mundo Este esquisito. Ergueu-se. basta o contato das mãos pelo seu corpo. o cheiro animal de qualquer coisa que se não sabe! Um corpo moreno. — Espera um instante. que a procuro e jamais a encontro. Sumiu-se apressado. E é. do perfume que amo. um pedaço de móvel. O cheiro dos outros fica. Ah! não! E dizer-te que eu uma vez. como queres tu que pense noutra coisa? Vou em busca do meu perfume. Como o personagem do poema. Pobre rapaz! Talvez fosse na desvairada luxúria o grande sensual do ideal. a face empoada. porém. Como queres tu que eu ouça as conversas idiotas. — A mais rara moléstia que ninguém sabe. andou. Somos todos loucos mais ou menos.. a essência doce dessa carne de ouro. aspira-los. e guardam o próprio cheiro: as crianças. à calentura do cheiro dela. E talvez não. E degringolo a razão. os brutais. É a música mortal. um corpo branco. É quando há a simpatia do cheiro.. as que ignoram o postiço ignóbil da civilização. Alguém passara que se parecera com o seu cheiro. que é o irmanamento das almas. — Por isso.. impera.. as adolescências rústicas. O cheiro é a alma dos seres. Não as amo. da urna desse sonho. enigmas para nós mesmos indecifráveis. os lábios carminados. porque. Eu também sorri então.. me-queres. murmurou. De volta de um cheiro amado. Que digo eu? A roupa? Os trastes? Não! Basta o lábio cansado de roçar. — Ah! disse eu vendo a expirar a confissão. é grave. cor de leite. dos mal-. Oscar procurava novos perfumes no seu cheiro ideal e os prazeres não sentidos.que deixam rastileos188 de perfumes industriais e parecem feitas para os retratos de Heleu ou do Amoedo. Já com toda a Avenida. aspira-los. Não voltada. Nós não conhecemos a própria alma porque não sentimos o nosso cheiro. faz-nos reviver delícias e nevroses da gama que se acordava com o teu desejo.. aspiro todos os corpos a espera de um dia encontrar o perfume incomparável. as que não se perfumam. Ergui-me. os seus olhos chisparam. Tudo quanto toca a pessoa fica com o seu cheiro. dizer que não me lembro das suas feições pelo muito que me lembro da completa satisfação do meu desejo. maceradas de essências. e cansado como se sustentasse nos ombros o mundo. com os vestidos pulverisados de perfumes. rolo o abismo dos lugares pouco distintos. a moral. das margaridas. este suave cheiro. morrem em frente dessas baiadeiras189 mascaradas com a mascara transparente de outros cheiros. é cheirar as mãos e sentir o olor do amor como um velador nos próprios dedos. o cheiro do meu amor. numa criatura miserável. os que não sabem se cheiram bem porque pensam que o cheiro é a falsificação dos perfumistas. Houve um silêncio pesado. guardando a carnação das rosas e o cheiro da lascívia !. o respeito da sociedade. Elas afogam a alma no artificial para encantar os simples. Parta ela. dizer que nunca mais a vi. cheira aquele pedaço. uma onda de gozo nos transmuda. desapareça. o sonho casto das violetas brancas e o anseio tranquilo. — Curioso.. De chofre. dou-me a relações pouco brilhantes. Os meus instintos gelam-se. que a procuro. cândido como Adonis190 . Oscar olhou para mim. são como os manequins da moda. O poeta sensual já escreveu: Ela andou por aqui. o lenço esquecido. procuro — é horrível! — procuro as criaturas simples. De repente. Foi então que vi serem oito horas. talvez fosse um louco. do corpo dessa alma. centenas de lâmpadas . as criaturas que saem do banho brilhando mais e cheirando mais. Primeiro Porque há vestígios das suas mãos. feito de um raio de Sol.

Mas é também verdade. com gargalhadinhas agudas. os panos negros dos templos . nos grandes agrupamentos.. Tomavamos uma mistura repugnante de álcoois variados e tínhamos vindo cansados de dar encontrões na última igreja. fartos de igrejas e de sacrilégios. de horrível havíamos visto no redemoinhar da turba pela nave dos templos? Fúfias dos bairros sórdidos esmolando com a opa das irmandades para o Senhor morto. velhos espelhos que reproduziam apagadamente os perfis. Nós sorriamos. um menino com ares de Antino191 viçoso. Em S. As turbas estrebucham. para dizer-nos quando já ela se sumia: “Uma nevrosada gatuna de carteiras pela semana santa. as degenerações escondidas. esquisitos. Há histéricas batendo nos peitos ao lado de carnações ardentes ao beliscão dos machos. sem tempo. murmurou: — Tudo na vida é luxúria. — Fazer horrores junto ao corpo do Senhor morto! Mas deve ser uma delícia! paradoxou o jovem ambíguo. o cidadão Honório batera no ombro de uma espanhola de mantilha. desoladoramente desinteressante. de cores vivas. Havia também um homem chamado Honório.. que até aquele momento não falara. é como um sinal de pornéia192 . impalpável. raparigas vestidas de branco de azul. as obsessões ocultas. e mulheres. naquele café do Carceler. os criados arrastavam os passos já meio exaustos.elétricas acendiam a sua grande extensão no clarão da luz. mestiças cheirando a éter floral. a noite fora curiosa. e íamos sair. e era desinteressante. os altares. e como a sala fosse forrada de espelhos.. Francisco. sobem na maré desse oceano. na raiva de possuir. exasperante. todas como que picadas pela tarântula do desejo. o olhar ardente. taras e podridões desafivelam-se. cujos princípios todos ignoravam. vindos de peregrinar pelas igrejas. Basta que vejamos o povo para ver o cio que ruge. junto a uma das colunas. espectadores de uma cena em que tomávamos parte. o rapaz que lembrava Antino tivera a lembrança de se colocar entre uma cabrocha e um alentado sujeito “para verificar o escândalo” dizia ele. rebolam. Na Candelária. com uma face de orgia. apontando-lhe a porta. — “a mensageira da verdade visível ”. entre as mesas de mármore lustroso. quando o cidadão Honório. as loucuras mascaradas. É uma doença? Talvez. De resto. O CARRO DA SEMANA SANTA A Elísio de Carvalho Para nós. eu. matronas de luto fechado. em que os instintos inconfessáveis se escancaram ao atrito dos corpos. muitas mulheres. escancaram. estávamos como num aquário. bandos de rapazes estabelecendo o arroxo junto do altar-mor para beliscar as nádegas das raparigas. em que nos víamos a representar noutro mundo — um mundo sem data. pretas quase apagadas em panos negros. gozar é sentir até ao espasmo. A dolorosa cerimônia tinha qualquer coisa da orgíaco. Todas as vesânias193 anônimas. Quanta coisa de profano. Éramos um pequeno grupo : dois homens que riam de tudo e pagavam a despesa. a luz Auer que iluminava o café era talvez desagradável. Nós todos vivemos na alucinação de gozar. dois jornalistas. perto de duas igrejas a comentar a extravagância sensual da multidão. — Pois está visto! gaguejou um dos desconhecidos que pagara.” E nós estávamos afinal. Ficáramos todos lívidos. Algumas vezes dávamos com um gesto nosso a desaparecer de súbito esburado pela falta de aço num pedaço de espelho. inversões e vícios. adolescentes do comércio com os olhos injetados roçando-se silenciosamente entre as mulheres. como em geral as cerimônias religiosas deste fim de raça. de fundir desejos. A quinta-feira santa dissolvera na cidade a impalpável essência da luxúria e dos maus instintos. há nevropatas místicas junto a invertidos em que os círios. Sentir é gozar. um cio vago. todas as hiperestesias ignoradas. de sacrílego. Um deus morto é a convulsão. um poeta obrigado a ser espirituoso. Sob o teto baixo. sem fim.

peles de mãos ásperas umas. Neste dia a cidade visita igrejas. o vulcão das paixões perversas. e tive. Os encontrões brutais dos marçanos198 em traje de ver a Deus. e os stores de pano vermelho estavam imóveis. Além das igrejas só a impressionam as confeitarias com os seus balcões de bombons e os botequins. Ainda agora. com vontade de uma perversão qualquer. talvez apenas fosse o fundo de lama com que fomos todos feitos. Ele. Morremos de curiosidade.. como estivesse no largo da Carioca. assim de preto. algumas macias. parecia esperar alguém. com o instinto de qualquer coisa de bem baixo. faziam-me parar. A vontade do acanalhamento devorava-me. de perfume barato. após uma pausa. quinta-feira de endoenças197 . com um fraque idêntico. o cheiro de suor. cujos nervos vibram mais. num repente: Há três anos. Estive numa confeitaria. cuja percepção da luxúria é mais aguda. Estaria vazia? Esperava mesmo alguém? Dei uma volta indagadora em torno. definitivo. pelos trechos de carne ocultos. Só. fatal. — É o carro da semana santa. sem campainhas. o vício misterioso e devorador rodando em torno das igrejas. dera ainda por aquela nevrose. Só então reparamos que não ria e talvez assustasse almas menos céticas. Estava vestido de preto e a sua mão exangue tinha no dedo mínimo como a quebra-lo um negro morcego de aço prendendo entre as garras o turvo brilho de uma opala. — O carro? regougou196 um dos cavalheiros. filhos! Lembrava um velho carro da Assistência.. resolvi sair à noite. eu os sentia bem. que vício é esse? Fale. e afinal. aquela gente que subia devagar e descia depressa. comecei a subir para a igreja da Ordem 3ª. Eu vi o vício que se não vê e dá o calafrio do supremo horror. com as têmporas a suar frio e um calor nas faces. continuou sem que lho pedissem. o vício que os jornais não noticiam apenas em atenção ao arcebispado. era grande. de bem indigno. Às palavras do cidadão Honório fizera-se em torno um espectante silêncio O homem era pálido.. até o céu cheio de estrelas e de luar põe no corpo dos homens a ânsia vaga e sensual de um prazer que se espera. de bem vil. observei. Ia inconscientemente quase. Ninguém. Era suja. sugestionassem os nervos do meu pobre ser. hesitei alguns minutos. excitado pela frescura das peles. quase um leito. pensar em frases. Na boléia o cocheiro parecia de pedra. era vasta. é um tremendo dia em que os súcubos194 e os íncubos195 voltam a viver.. queria oculta-la. Talvez as luzes trêmulas. de uma palidez bistrada. o vício às claras. Não havia ali cara que me olhasse. e eu ao mesmo tempo que queria satisfaze-la. o roçar da canalha. Depois. A turba rumorejava na semi-penumbra. esperando. retroceder. lá estava ele na praça. Onde esses dois olhos? Eu os sentia. — Oh! sim! Tenho medo desta quinta-feira porque vocês vêm o vício aparente. Não deveria ter saído... Que berlinda. de resto. em que refocilar o meu temperamento à solta. perto do chafariz.acendem o braseiro. morder o bigode. que ali vibrava estranhamente alguém. Ha três anos acompanho-o. Saí. uma velha berlinda199 com os stores200 arriados. Ao deixar a confeitaria. O fato é que ao voltar a rua da Carioca. esse dia especial sem rumores. ao sairmos da Candelária. todavia. oh! sim! tive a certeza de que ali dentro havia uma criatura. e estava ali. o incêndio. é boa. entretanto. de repente. A semana santa ! Tenho medo desta quinta-feira. cruel. . — O vício que ninguém vê? Conta lá. tinha o vago desejo de ver se encontrava qualquer coisa de interessante. O pequeno Antino abriu a polpa carnuda do lábio num sorriso de flor que desabrocha — Honório. o relevo forte de uma anca. Uma saia repuxada. dois olhos mais acesos. Para quem conhece bem uma grande cidade. eu era um homem que deseja. uma palpitação. Onde? Voltei-me. andar devagar em torno dos vendedores de doces e de refrescos. dando àquele canto uma nota anormal. quando senti perfeitamente dois olhos pregados nos meus movimentos. o contato do meu corpo com outros corpos. desconfiado. de cosméticos e de cera. Até as ruas cheias de sombra parecem incitar ao crime. Aquela confissão era a de um doente. é muito boa! — Quem sabe? fez Honório pensativo.

E a procura-la. Há desses encontros de gente que nunca se falará.” — “Tem alguém aí então?” O cocheiro cuspiu para o lado. E de fato. de repente.. Precipitei-me. Quem estaria naquele carro? Quem? Um homem? Uma mulher? Quis falar ao cocheiro. Não encontrei a sombra. no céu andava a lua num estendal201 de ouro pálido. do lado do largo do Paço. e foi encontra-lo. Fuzileiros navais ébrios. rodou devagar.. “Ainda a vejo hoje!” pensava. ia chegando ao Arsenal. Era. seja quem for. O trecho da rua ardia em luzes. — “Olá. malandros de calça bombacha. vá se pondo fora. fui encontra-la quase ao fim da noite. Como? Não sei. com a face a queimar. Bento. No meu cérebro havia um escachoar de idéias. a então aí a berlinda precipitou a marcha. A sombra cobria a calçada. um suor viscoso molhava-me a pa1ma das mãos. Gente de preto ia. A berlinda misteriosa acompanhava um marinheiro. exatamente igual. com desejo flutuante. porém. — “Pago bem. foi até a Rua Sete. o vulto que eu vira sair do carro. Em frente ao Telégrafo parou. vinha. Passaram-se dez minutos assim.. Depois. Ao chegar ao escuro beco de Bragança parou.. em que o luar punha uma suave pulverização de sonho.” — “ Não posso. devagar. em reuniões dominadas pelo vício. Fiquei um instante trepidante. Segui por onde vira perder-se a berlinda. a descobrir-me a alma. A berlinda rodou mais depressa pela primeira quebra dos jardins. mergulhei de novo nas ruas mal iluminadas. O carro desaparecendo caiu-me uma vaga tristeza. . e estava lá roçando-me à turba. de rua em rua. Oh! se era! Ia devagar. Criaturas ambíguas chispavam olhares desvairados de esguelha. Em seguida pareceu compreender a ínutilidade de fugir. para o lado dos jardins. Saí então. Deus! que seria aquilo? Um crime? Uma extravagância? A passeata de algum crente agonizando. fui até a igreja do Rosário. Vendedores ambulantes serviam com estrépito refrescos e doces. “Ó seu.. em frente à catedral.porque assim como sentira o calor.. como se fosse para o ex-mercado. cortou pelo jardim. saí. tinha diante de mim a velha igreja. Fui ao cocheiro. depois embicou para a esquerda. Concidência. o Arsenal pegado e a vista do mar — o pai de todos os grandes vícios incomensuráveis. desaparecendo pesadamente na rua do Uruguaiana. que tem um morro. que me pareceu um teatro tanta era a gente e tanta a luz elétrica. Não me aproximei. forte homenzarrão hercúleo e jovem. desocupado?” — “Não”. Mas é um fato que quando as crises de pornéia da multidão agem sobre os nervos dos fracos. A berlinda parecia tremer a capota empoeirada sob o sudário do luar. com o cocheiro impassível e os stores vermelhos. já atravessando a rua para a rampa. formavam grupos perigosos. respondeu ele seco. —um passo que espera o chamado. Aí o rapagão estacou. mais recantos sugestivos. já disse. a portinhola abriu-se. nervoso.” Fiquei sem palavra e ele tocou.. e ao canto esquerdo do templo. que tivesse feito a promessa de arrastar a sua agonia aos pés de todos os corpos de Jesus expostos? Mas a sombra? Eu amo o horror das coisas inacreditáveis. sem lhe dar tempo aos cumprimentos e às fatais perguntas . lá dei com o carro outra vez. a princípio hesitava. o fluido ardente de dois olhos fixos sobre mim. Que esquisito peregrinar! que estranha peregrinação ! Abriguei-me no desvão de uma porta. e seguiu bamboleando o passo. tal qual como hoje. relanceou os olhos a ver se o espreitavam. fora da calçada. nas suas velhas almofadas! Larguei-me para a Candelária. árvores. vasto como um quarto. esses começam por desejar seguir alguém. O marinheiro. passava. mas. Não havia dúvida. mais sombras. e era impossível apagar a ansiedade dos meus nervos para descobrir o enigma. Não filosofei. a berlinda pôs-se em movimento. marinheiros. uma sombra golfou. Quando. desdobrando pelas calçadas negras serpentes intérminas. porém. Quando dei por mim. o seio indeciso e como que tocado também de uma curiosidade malsã pelo vício dos outros. se não quer que lhe aconteça alguma. Era melhor esperar de longe. tal qual. querendo saber. camarada. sentia agora que a minha observação perturbava esses olhos. O sangue latejava-me nas têmporas. Iria a S.. Mas o desejo de conhecer a razão daquelas paradas à beira das igrejas era muito. o carro começou a mover-se. Meti-me quase a correr pelo beco. como se tivesse uma alma e estivesse a disfarçar uma ação feia. De repente. Como seria agradável o que se fazia dentro. a velha berlinda. no borborinho da populaça. quando vi um conhecido. à pressa.

É apenas o horrível vício que se não vê. que recordava os pagens dos Valois. Todos nós fizemos o mesmo em silêncio. Perto de mim. a ânsia de uma diabólica fundia nos braços um bando de homens com o desespero sensual despedaçador! Oh! o vício que se não vê! Essa criatura. É o segredo dela apenas. Havia a confusão natural nos fins de tais solenidades: gente apressada. Honório pôs-se de pé. Outros asseguram que tem pústulas. porque o marinheiro aproximou-se da portinhola que se abriu. como a rua tivesse caído na sombra.. e logo o ruído seco da portinhola. não sabe? É a mulher do carro da semana santa. — Como resistência? — Pois v. A vítima sairá do beco. — E vocês vão? — Rapaziada não respeita. a portinhola abrir-se. e ia despedir-se... Conta que é queimada. Espera de certo alguém. Já ouvi dizer que é uma mulher com bexigas. carros. outrora bela. há três anos. meia dúzia de catraeiros olhavam com esse ar de mordente complacência que a canalha tem para receber as fraquezas da gente da alta. procurando encarar o polvo de luxúria. uma desgraçada. lá está ela. — É boa aquela do carro. vimos o rapaz pôr o pé no estribo. Fiquei estarrecido. Não! não é nada disso. e parou subitamente de falar. Estão vendo? Naquele pedaço de sombra. E... naquela berlinda. senhoras nervosas por apanhar conduções. com tais palpitações que sentia no pescoço a artéria bater. -— O que admira é a resistência dela! exclamou outro.. Espantoso. ela paga bem. essa criatura! E.. já se .. apesar do gesto. ver-lhe a cara através do véu. ser como que puxado. Ninguém sabe o que encerra. naquele carro silencioso estorcia-se uma nevrose desesperada. misteriosamente a fúria de um súcubo. rodando à beira das igrejas. acompanho a berlinda procurando vê-la.. s. Recuei.. de que ninguém talvez possa reconhecer o semblante. indaguei. pragas. A história impressionara. A opinião geral é mesmo a de ser uma formosa senhora de alta posição. ao próprio narrador.O carro também. uma desvairada. chamados. Talvez quisesse ainda rever a berlinda. Não. hein? — É danada! respondeu um dos tipos. naquele velho carro.. Vimos um gesto de negativa. na rua. e principalmente a ele.. parara... vimos. Quem será? Uma senhora de sociedade? Uma perdida? Sei lá! Uma louca. como à espera.. lá está. ao Honório. — Olhem. uma Górgona de vício abria a fauce tragando as flores da ralé. Já a berlinda descia lentamente. Compus a fisionomia. consultou o relógio. junto à igreja. — Mas é um crime! ganiu um dos senhores que pagavam as despesas. Uma camisa branca surgira à portinhola da berlinda. quando de súbito esticou a mão exangue. O fato é que chegou à porta. Já está muito conhecida. como quem dá uma volta à espera de freguês. nervosos.. Era fatal. homens parados a ver se lhe agradavam as mulheres. Nesse momento as luminárias da igreja apagaram. Ao lado há um beco. disse-me. É a lenda.” — Delicioso caso! fez o efebo literato erguendo o corpo airoso.. onde a opala lembrava o perturbado brilho de sua alma. Acabara a visitação ao Senhor morto. Honório falava entrecortado. — E são muitos? — Ela só aparece na semana santa. Mas é até pela manhãzinha. Nós olhávamos a sombra. Era um adolescente. De dentro falaram. — Quem sabe? fez frio o cidadão Honório. estava quase de cera. estalar de chicotes. que lá dentro distende os tentáculos. gente que lhe servia de pasto a troco de dinheiro. quando passa. todas as quintas-feiras santas. gritos mais fortes de vendedores ambulantes. de que ninguém sabe o nome. Vem sempre naquele carro e chama os que lhe agradam. Ali. tragando-o. É o segredo das vítimas. Um dos convidados conseguiu.. A luxúria exasperada. Mas não. deviam ter falado.

Em inglês no texto. Em francês no texto. 5 Turbilhão. 27 Flerte. em que tomam parte um banqueiro e vários jogadores. Em francês no texto. a fúria da volúpia voraz. vasto. 26 Modalidade do bacará. esverdeado. 32 Companheira de Péricles. sujo. 2 37 1 Relativo à cidade grega de Tanagra. 4 Alusão ao famoso assassino londrino Jack-the-ripper (Jack. de natureza íntima. 6 Prostíbulo. Ninfas dos bosques e montanhas na mitologia greco-romana. perfizer o total de pontos mais próximo de nove. 9 Automóvel de passeio com duas portas. Em francês no texto. 30 Protetor de velas de cera. governante de Atenas durante o século V AC. 8 Bonde. 7 Alusão ao bairro boêmio da Roma antiga. lembrando a Assistência. que recebeu o nome de seu criador. caiporismo. Casas onde se fumava ópio. Em inglês no texto. 14 Observar um jogo. dando palpites. 21 Espécie de sofá ou canapé de origem persa. 20 Jogo de cartas de origem francesa. intitulada Guerra dos Boxers. Da cor vermelha. mais longe. Era o mesmo carro de que ouvíramos a história. inaugurando a Avenida Central ( Rio Branco). o industrial francês Charles Christofle (1808-1863). sem encosto ou braço. O pavoroso mistério do vício delirante. velho. Em francês no texto. 17 Má sorte.. bordel. Em francês no texto. 29 Tipo de dança popular provençal. 33 Parigot. 28 Aplicação ornamental de ouro em cristal. argot e langue verte são denominações da gíria parisiense do baixo mundo. azar. 16 Parada no jogo proposta por um parceiro em nome de dois ou mais.sentia o luar da noite esplêndida iluminar os jardins intérminos. sem dele fazer parte. Em inglês no texto. boêmio. No Rio de Janeiro. 23 Tênis de gramado. Bacará. símbolo da modernidade de Paris após a reforma urbana de Haussmans. 24 Pessoa de vida dissoluta. 19 Verde. vidro ou metal. lá. Em francês no texto. Em francês no texto. ganhando o grupo que com duas ou mais cartas. que as impede de serem apagadas pelo vento. 13 Casa de jogo de azar. que encabeçou no final do século XIX uma sangrenta revolta contra os ocidentais. Diz-se de quem paga ou recebe por favores sexuais. 3 Reunião dançante. 10 Loto. . o mesmo a levar o horror desesperado. O carro rodava devagar no meio da turba compacta. 31 Mulheres de vida alegre. 11 Seita nacionalista chinesa. célebre por suas esculturas de linda mulheres esbeltas.. 25 Michês. 12 Envolvido de forma irresistível. Em francês no texto. 18 Tecido ralo.. o estripador). ou rubi. por sobre o qual se tece um bordado. um típico boulevard carioca. 34 Rua larga e arborizada. 35 De carbúnculo. o período áureo do cultura clássica. O cidadão Honório despediu-se. 22 Maresia. o prefeito Pereira Passos realizou reforma semelhante entre 1904 e 1909. 15 Aquele que observa o jogo.

típico do período entre 1870 e 1918 (Bele-époque). que instituiu na ilha de Lesbos uma escola apenas para moças. 64 Dar forma ou aparência de pérola. 50 Poetisa da Grécia clássica. 65 Tipo de ensopado. Janota. Em francês no texto. O marechal. 76 Restaurante pequeno e simples. é o presidente em exercício. 74 Tipo de ópera cômica espanhola. 49 Fantasma. Sinônimo de cocheiro hábil. Em inglês no texto. Em francês no texto. 57 Aflito. 78 Deus. com senso de humor debochado e iconoclasta. mas aconchegante. Suas idéias influenciaram muito o Romantismo. Em inglês no texto. condenado em 1895 a 2 anos de prisão por homossexualismo. Em francês no texto. 69 Referente ao escritor inglês Oscar Wilde. Espírito malfazejo que vaga entre os vivos para fazer o mal. 40 Sopa de frutos do mar. que também estudou o mundo sobrenatural. é um judeu em empresta dinheiro a juros. forma a trindade sagrada do Hinduísmo. 67 Temporada anual elegante. portanto. 58 Descabelado. 43 Dinheiro. Em inglês no texto. Em francês no texto. Fofoca. condutor do carro de Aquiles e seu companheiro de combates. 44 Indivíduo vestido com apuro exagerado.Empresário. 66 Sobrecasaca. 63 Batedor de recordes no iatismo. 71 Personagem da peça de Shakespeare O mercador de Veneza. 45 Homossexualismo. Evidentemente um erro de impressão. 73 Na mitologia grega. 61 Boá. Espécie de xale de plumas. Como Augias não quis pagar o combinado. 62 Maledicência. ao lado de Brama e Xiva. 72 Na mitologia grega. arquétipo do grande conquistador de corações femininos. Dar às gâmbias: fugir. No original está: rendingote. Em francês no texto. 48 Enxaqueca. Novo-rico. 39 38 . que. em geral de segunda classe. Mulher que dispensa os artifícios da maquiagem. acontecida em setembro de 1893. Em inglês no texto. 55 Espora. 68 Companhia teatral em excursão. Originou-se daí a denominação de lesbianismo ou safismo para o homossexualismo feminino. 56 Dilaceradamente. cientista e filósofo sueco. Em francês no texto. o que não era feito há 30 anos. Oscar Wilde e João do Rio foram típicos dândis. Hércules o matou. 42 Tipo de homem elegante e refinado. 54 O conto se passa durante a Revolta da Esquadra. Em francês no texto. 52 Destrançada. 46 Exagêro. 77 Gigolô. 41 Marca nobre de champanhe. 60 Acinzentado. que teve de limpar sua famosas cavalariças de 3000 animais. personagem do 7ª Façanha de Hércules. Aguilhão. Ferrão. 70 Personagem da literatura européia. 53 Roupas de baixo. Floriano Peixoto. Em francês no texto. Uma seita de seus seguidores foi estudada por João Rio in As religiões no Rio (1904). 51 Olhos bistrados: com olheiras. 75 Pernas. Trata-se certamente de um erro de impressão. Em francês no texto. 47 Emanuel Swedenborg (1688-1772). 59 No original está : tromba.

Prisão. 98 Biombos. 83 Adormecida. Sonolência. 93 Referente a chamalote. 88 Sensibilidade exagerada a qualquer estímulo. sinônimo de ruminar. 117 Prostituta de baixa categoria. 99 Esbarrão. 81 Acidez. Encontro violento ou brusco entre dois objetos. 116 Afrodite ou Vênus. Aspereza. 95 Vestido para o chá das cinco. 108 Porta-moedas. um dos parâmetros da elegância masculina. 101 Penteado em que o cabelo forma uma ou mais ondas sobre a testa. 123 Arrebata. atual Gonçalves Lêdo. favorito do rei Jorge IV. 96 No texto. Em francês no texto. Entretela. 119 Tecido de algodão aveludado. demônio masculino que vem à noite copular com uma mulher durante o sono. sem capota ou boléia. 110 Cárcere. Quinquilharia. célebre dândi inglês. Em francês no texto. puxado por um só animal. 80 79 . 86 Sem emitir nenhum som. Bastidores de teatro. tecido pesado de lã. a deusa do amor na mitologia greco-romana. 103 Abreviação de rocking chair (cadeira de balanço). 85 Carros de duas rodas e dois lugares. Reanima. 124 Anêmicos. 114 Referência a Don Juan. 82 Guloseimas. 89 Referente ao sistema nervoso. 115 Famosa marca de charuto. 109 Referente a George Bryan Brummel (1778-1840). 106 Comerciante de objetos usados. A expressão vem da notória Companhia Trololó. remoer. Aborrecido. Cacarecos. 100 Bugiganga. 104 Musa da dança na mitologia greco-romana. 121 Tecido encorpado usado para fôrro. Suspender. Em inglês no texto. Mercadoria de baixa qualidade. 92 Erguer. 113 Coxia. 87 Injeção de água ou outro líquido medicamentoso via anal. lendário conquistador amoroso da literatura francesa e espanhola. 111 Divindade romana das frutas e dos jardins. 122 Chato. 97 Moleza. com efeito ondeado. 91 Lua cheia. 94 Árvore ornamental cujas flores possuem uma tonalidade azulada. Trastes e utensílios velhos. 84 Dez anos. 120 Segundo a lenda. Enema. 102 O ponto mais alto. Pináculo. 118 A rua de São Jorge. Choque. 107 Referente ao teatro do gênero alegre. 112 Conjunto de sete músicos.Afeminado. 105 Eloquentemente. era no início do século XX o centro do baixo meretrício. 90 Atenuar. Em inglês no texto.

Referente à beribéri. 163 Poltrona cujo encosto alto se prolonga para os lados como uma espécie de orelha. 145 Cortina. 151 Pus. 166 Carro de duas rodas e dois assentos. 139 Tecido fino de cambraia. nos automóveis antigos. 157 Diabo. 155 Pessoa astuta ou manhosa. Old style = fora de moda. Chalé. Olhos cerrados. 140 Encontro marcado. 143 Espelho de penteadeira. 154 Obaluaiê ou Babaluaiê. 128 Reunião mundana. 164 Espécie de armário de quatro pés com pequenas gavetas. Em francês no texto. 149 Bonde. com capota. 156 No texto: pessoa que joga mal. 136 Picante. 144 Faiscantes. típica da Belle-Époque. 159 Restaurante popular pouco asseado. 130 Decoradores. 138 Madrepérola. 148 A bexiga vermelha (varíola) se diferenciava de bexiga branca (varicela ou catapora). separados por uma parede de vidro à prova de som. 127 Referente a Vênus. 129 Entediar. puxar palmas em horas pré-determinadas. Em francês no texto. 150 Casa de campo ou veraneio. 134 Em francês no texto. Persiana. orixá da varíola no culto nos negros iorubás. 142 Pó de arroz. Em inglês no texto. cujos principais componentes foram o crítico John Ruskin e os pintores Dante Gabriel Rossetti. Coxia. reunião social no cair da tarde. O mesmo que Omolú ou Xapanã. 126 125 . matando milhares de pessoas anualmente. 131 Empregada que trabalha na caixa. 147 Varíola. doença originada pela carência da vitamina B1. geralmente em quadras. do alto da torrinha. 153 Abcesso. 161 Pequena composição poética. 162 Cochicholo. 152 Bolha dágua. Malicioso. Essa doença era endêmica no Rio de Janeiro até o início do século XX. Em inglês no texto. Em inglês no texto. ao contrário da primeira. Tipo de casaco militar. Em francês no texto. Abreviação de five-o-clock-tea. e Edward Burne Jones. o personagem da jovem bela e inexperiente. 160 Bastidores de palco teatral. 137 Em inglês no texto. No início foram combatidos pelos acadêmicos e conservadores. assim como a atriz que o interpreta. Aposento pequeno e abafado. sem boléia. 132 Ultra-fashion = super na moda. Em francês no texto. mas posteriormente consagrados. a deusa greco-romana do Amor. 141 Objeto utilizado. o chá das cinco. 158 Pessoas contratadas pelos empresários teatrais para. puxado por um só animal. 146 Torturar ou supliciar com pua ou outro objeto perfurante. esta raramente fatal. 133 Escola de pintura romântica da Inglaterra no século XIX. feita para ser cantada. 165 Em dramaturgia. Tradução aproximada: “que mulher ultrapassada!” 135 Em francês no texto. para comunicação entre o passageiro e o motorista. Em inglês no texto.

185 Dores de cabeça. Em inglês no texto. favorito do imperador romano Adriano. 179 Amarelo vivo. que logrou conquistar a própria deusa Astarte (Vênus). 197 Quinta-feira da Semana Santa. Jovem mortal de grande beleza física. foi expulso do exército e condenado sem provas à prisão perpétua na terrível Ilha do Diabo na Guiana Francesa como espião alemão. Em francês no texto. na qual predominariam as tonalidades da cor verde. 182 Harém. 169 Serviço de chá ou café para duas pessoas. 198 Aprendiz de caixeiro. Rastilhos. 192 Devassidão. Cão treinado para guardar gado. 196 Som emitido pelas raposas. 194 Demônio feminino que faz visitas noturnas aos homens adormecidos para copular com eles. cujas flores se voltam para o sol.Planta da família das boragináceas. muito comum nos jardins brasileiros. e o prisioneiro foi finalmente absolvido e reabilitado. 200 Cortina. farinhento. da qual a mais conhecida é a variedade irlandesa ( irish setter ). 187 Raça de cães de caça. 191 Adolescente grego. que se veste luxuosamente nas suas apresentações. 173 Diz-se de uma cavalgadura de baixa categoria. 190 Personagem da mitologia greco-romana. 172 Licor da erva artemísia. Exemplo de beleza andrógina. de origem judaica. Foi morto numa caçada por um javali. 171 Famoso caso judicial que abalou a França no final do século XIX. 180 Pequeno gabinete particular de mulher. sobre o qual se tecem os bordados. 184 Vaso de porcelana onde se queimam ervas aromáticas. Em inglês no texto. 195 Demônio masculino que faz visitas noturnas às mulheres adormecidas para copular com elas. Era tido como indutor de visões alucinógenas. Foi posteriormente proibido em quase todos os países. 177 Vitrine. 168 167 . 193 Doença mental. Persiana. comandada pelo escritor Emile Zola. 188 Rastros. 174 Aviso ou ordem para sair do caminho ou da frente. Em francês no texto. O caso foi posteriormente reaberto por pressão da opinião pública. 183 Livro de antífonas – versículo cantado depois de um salmo. de quatro a seis lugares. 175 Relativo à farinha. 189 Dançarina sagrada da religião hinduísta. de sabor amargo e alto teor alcoólico. velha ou doente. 186 Tecido de fios ralos. 201 Superfície ampla. decorado elegantemente. respondido alternadamente pelas duas metades do coro. 181 Feito expressamente. O capitão Dreyffus. 170 Vermeil = prata dourada. 178 Enfeitar. Em francês no texto. 199 Coche de quatro rodas. 179 Prisioneiro. Libertinagem. muito popular entre os artistas da Belle-Époque. 176 Poste de iluminação pública.

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