Entram na terceira sala Guia: Como podem ver nesta sala, ali ao fundo encontra-se um conjunto de móveis do séc

.……………. O volume do guia e dos visitantes baixa, e começa a falar o Fantasma. Fantasma: Finalmente chegaram. Embora não tenham destino. Não sabem para onde vão, Não escolheram caminho, Andam à deriva a vida toda, À procura de amor, trabalho, Felicidade, riqueza, Tropeçam em tudo isto sem ver, Continuam à deriva, Sem Rei nem Rock, Ou se atropelam ou andam a reboque Mas têm “TODA A CERTEZA”! E eu, que não sou sábio nem doutor, Que certo estou de que certezas não há, Que já vivi (e morri), E ao olhar prós que andam cá… Dá-me uma certa tristeza, Que pairem, que parem o tempo todo Andem tão certos e cegos Tão barulhentos e mudos, Ouvem música, e discursos, e poesia, e fazem cursos, E só para a si mesmos são surdos. Talvez de surdos que andem, Me consigam a mim ouvir. O que digo vale o que vale, Mas como morto que estou, Fiquei melhor a sentir. Guia: … estas peças foram encontradas…. (olha para a porta).A porta fechou-se! Vamos continuar, não deve ser nada. Inês: Não, não! Alguma coisa não está bem. Eu sinto! É melhor ver o que se passa. Guia: Tenha calma, não é nada. Vai ver que foi uma corrente de ar. Inês: Uma corrente de ar? Guia: Sim… è normal, neste tipo de edifícios…

Inês: (assustada) Neste tipo de edifícios? Como assim? Guia: Sim… Construções antigas, muito amplas com muitas portas e janelas (ri). (Com ar novamente profissional) Por vezes, os mais antigos associavam estes acontecimentos tão naturais ao sobrenatural, ao oculto. Também a concentração de monóxido de carbono proveniente das lareiras, apesar da quantidade de chaminés (sorri), levava os habitantes deste tipo de construções a acreditarem ver seres do além, como almas penadas, fantasmas… Porque a alucinação por monóxido… Inês: Não, não! Eu não me estou a sentir bem. Guia: Tenha calma! Pense bem, quanto mais depressa acabar a visita a esta sala mais cedo saímos, ok? Tente respirar com calma e tome este pacotinho de açúcar… (para Valente) Deve ser uma quebra de tensão… Valente: Caramba, não vê que a mulher está a ficar nervosa? É melhor ver o raio da porta, se não nem a mulher acalma nem você acaba o raio da explicação. Helena: Eu vou lá rapidinho. Tá bem? (Toda acelerada vai tentar abrir a porta) Oi! Não abre! Valente: Não abre? Mulheres… (tenta abrir e não consegue) Foda-se! Helena: Homens… (risinhos) Inês: Eu bem disse. Mal entrei aqui nesta sala senti algo estranho. Faça alguma coisa, ligue para a segurança. Guia: Tenha calma, sabe que as portas neste tipo de edifícios… Isto é mais uma questão de jeito. Ora vamos lá ver! (Tenta abrir a porta e não consegue) Inês: Estão a ver?! Rosa: Ai meu Deus! Tenha calma minha senhora. Deus nos ajude. É só uma porta fechada. Guia: Bem, eu vou ligar para o segurança. (Liga para o segurança) Daqui guia Miguel escuto. Chefe seg: Fonseca. Estou à escuta! Guia: Olha estou aqui fechado no auditório, a porta fechou-se e não abre por dentro… preciso que alguém venha abrir por fora. Chefe seg: Ui!! Fechou-se ou fecharam-na? Eu avisei para teres cuidado que essas portas não se podem fechar!!!!! Está no regulamento caramba! Guia: Achas que fui eu que a fechei? Eu conheço o regulamento!

Chefe seg: Pois, não foste tu… Vais dizer que foi um fantasma, não? Agora vou ter que preencher o formulário 27 para explicar isto! Vou perder aí uma boa meia hora, mais as chatice todas por tu não fazeres o teu trabalho! Que raio! Guia: Por não fazer o meu trabalho? Achas que gosto de estar aqui trancado, hã?! (com voz mais baixa) Ainda por cima está aqui uma fulana a… passar-se!

Chef Seg: Mas já tentaram abrir? Guia: Claro! Não consegui! Chefe Seg: Isto está complicado… Só estou cá eu, o outro foi fazer a ronda e ainda demora umas 2 horitas, e eu não posso deixar o posto. Guia: Então, e o Paulo? Ele que venha abrir! Chefe Seg: O Paulo já não trabalha cá! Agora só estamos dois por turno… Guia: Dois por turno, ninguém pode vir cá?!!!! Mas isso é absurdo! É uma estupidez!!!! Chef Seg: Queixa-te ao governo. Duas horitas passam rápido. E pode ser que o outro gajo venha mais cedo da ronda, ele às vezes balda-se (ri). Guia: (fica a olhar para o telemóvel) Tenham calma! Eles por fora conseguem abrir a porta, de certeza. PAUSA Fantasma: Essa palavra: Certeza… Quantas vezes a disse eu E jurava que estava certo Aos 10 anos tinha a certeza De que nunca iria crescer Aos 17 a certeza De um amor até morrer. Aos vinte estava certo De que nunca iria trair (nem a Pátria nem a família) Aos 22 jurei de filho ao colo Nunca, jamais, desiludir… Tão certo estava de tudo Que nunca parei para ver Se a certeza do mundo Era a que eu pensava ter…

REGRESSO (o telemóvel cai. O Guia para por um segundo surpreendido. Baixa-se e apanha o telemóvel) Guia: Que estranho. Ficou sem rede… Será que avariou com a queda?! Valente: Então? Ninguém nos vem abrir a porta é? Nem que seja ao encontrão deitámola abaixo. Guia: Não! Calma, por favor, calma. Eles já vêm abrir a porta. Pode só demorar um bocadinho… Nada de mais. Sofia: Bocadinho? Quanto? Quanto tempo? Meia hora? Uma hora? Guia: Bem… Eles disseram… 3 horas. (consternação no grupo) Guia: Mas calma, passa rápido, se calhar não demoram tanto… Sofia: Três horas? Impossível. Tempo é dinheiro, não tenho tanto tempo para perder aqui dentro, com um bando de…. Vou telefonar à minha secretária. Valente: Um bando de quê?! Sofia: Ah… Também não tenho rede no telemóvel. Estranho ia jurar que à pouco… Helena: Eu também não tenho rede… Ói! Inês: Eu também não. Rosa: (Virada para Inês) Onde é que se vê a rede? Guia: Temos de manter a calma. Vamos sentar-nos um pouco enquanto aguardamos que a situação se resolva. Vamos sentar-nos um pouco. Valente: Calma?! Calma não… A porta vai abaixo… Eu parto isto tudo caralho! (E vai em direcção à porta) (O guia mete-se à frente dele para o impedir) Guia: O senhor nem pense fazer uma coisa dessas! Vai estragar a sua vida! Violar o código número 35 alínea b) que refere que as portas deste edifício são únicas e não são passíveis de serem arranhadas quanto mais arrombadas! Vá… Vamos parar um pouco e sentar. Assim temos tempo para falar, para reflectir… (Já todos sentados e levanta-se a Helena) Helena: Já sei! (Tira um gancho do cabelo) Eu uma vez vi isto num filme. (Vai até à porta e tenta abri-la com o gancho) Ói! Não funciona…

Fantasma: Gosto tanto desta rapariga! (Passando-lhe a mão na cabeça) (Helena volta para o pé dos outros, meia cabisbaixo) Longo silêncio. Ações: Tentar ligar telemóveis Pedir um cigarro Dizer que é proibido fumar Perguntar se alguém tem comida Dizer que é proibido comer Tirar uma foto da carteira e olhar a foto Beber água Descalçar os sapatos Estas ações devem ser espaçadas, não é necessário que sejam por esta ordem, e algumas podem ser simultâneas. Eduardo: Bom, que situação… Todos olham. Silêncio. Eduardo: É bastante… (ri nervoso), não é? Que coisa do diabo! Rosa: (para si própria) Valha-me Deus… Eduardo: (riso nervoso) Se não fossemos animais racionais… isso é que era tramado, não é?... Podíamos entrar em pânico, era tramado. Silêncio Eduardo: Mas sendo racionais também… Aliás em situação de crise o ser humano faz coisas que nem nos passa pela cabeça. Por exemplo, a antropofagia…. Ou necrofagia… necrofilia… zoofilia… e até suicídio! Inês: Suicidio?... Valente: Ouça lá, mas acha que essa conversa ajuda alguém? Sofia: Deixe-o, ele está só a desanuviar. Silêncio Rosa: O que é Zoofilia? Eduardo: Zoofilia é o ato de… Valente: Deixe lá isso senhora, isso não existe neste país. E você cuidadinho com a língua. Que coisa!

Helena: Também não percebi todas as palavras, mas já vamos ter tanto tempo aqui temos de nos entreter… Sofia: (para si própria) Entretenha-se com a sua vida (Inês senta-se a desenhar qualquer coisa num bloco) Rosa: Gosta de escrever? Eduardo: Não precisa de escrever o testamento… Bem, soube de um caso semelhante há uns anos atrás e a coisa não acabou bem… Acho que algumas pessoas se atiraram pela janela. O que vale é que aqui não há janelas. (Ri) E nem que houvesse, não é assim tão alto. Nós vamos sair daqui vivos, não se preocupe! (Consternação) Inês: Não, papel e caneta deixam-me mais calma. E não, não estou a escrever o meu testamento, de certeza. Guia: Calma, aproveitem… Não é todos os dias que temos tempo para parar, para pensar… Isto até tem o seu lado positivo. Valente: Deixe-se de tretas… (silêncio) Ó amigo, explique-me lá outra vez a história destas portas especiais… Guia: Sabe, estas portas foram construídas no reinado… Você não quer mesmo saber, pois não?! Valente: Não… Tava a tentar puxar conversa consigo… (Sofia está a olhar para uma medalha do fio, Helena chega ao pé dela pela frente) Helena: São os seus filhos? Sofia: Não… (hesita se continua a resposta ou não) Eduardo: (para o guia) Olhe, tenha calma… Não fique aí com esse ar de carneiro mal morto… Olhe, já vai ter uma história para contar aos netos. Daqui a uns aninhos estamos todos cá a jantar a relembrar esta situação. Guia: Não acredite nisso Eduardo: Os outros do Chile, os mineiros… O líder deles recebeu um prémio, vai ver que ainda vai ser condecorado… Valente: Oh homem… (cale-se…)

Rosa: A senhora escreve poemas? Inês: Não, não escrevo. Estou a desenhar. Rosa: Ah… Estou a aborrecê-la? Inês: (irónica) Comparada com esta situação toda, não incomoda nadinha… Helena: (Virada para Sofia) Foi herança? (Sofia não responde) Helena: Eu percebo, nestas alturas uma pessoa apega-se a tudo… Sofia: (Mais alto) Não, só estou a pensar… Deixe-me em paz! Silêncio curto Helena afasta-se constrangida e isola-se. Sofia fala para todos. Todos olham para ela. Sofia: Porque é que estão todos a olhar? Por estar a olhar para uma foto já tenho de falar sobre a minha vida, é isso?? Silêncio constrangedor Valente: Tenha calma minha senhora! Ninguém está aqui para saber da sua vida. Tenho mais que fazer. Só não quero que lhe dê o fanico, caralho, se não isto ainda descamba tudo de uma vez. Eduardo: Ai! Que ainda vai acabar em mortes! Sofia começa a chorar, e abraça o Valente Sofia: Aiiiiiiiiiiiiii! A minha vida não faz sentido nenhum. O meu marido não me apoia, os meus filhos só querem saber deles. Eu só quero desaparecer. Podia acabar o mundo! Eduardo: (sério) Eu bem disse que isto ainda podia acabar em mortes. Rosa: Cala-se homem, vire essa boca para lá. Você tanto fala, pelo amor de Deus, ainda trás a desgraça à nossa porta. Guia: Oh homem, cale-se! Que já não me responsabilizo pelos meus actos. Valente: (para Sofia) Tenha lá calma. Como é que a senhora se chama? Sofia: Nome? Porque é que precisa de saber o meu nome? Valente: Caralho! Tenha calma mulher, só lhe perguntei o nome, não lhe perguntei o nib... Sempre stressada o raio da mulher!!!

Helena comenta sobre Sofia, mas para outra parte da sala. Helena: Tanta coisa, tanta coisa... Uma pessoa preocupada com os outros, e chamamnos de bisbilhoteiros... Afinal, não tarda nada está aí a dizer a vida toda! Sofia: (para Helena) Eu ouvi!! Desculpe, mas eu estou muito nervosa... Helena: Sim, mas estamos todos... Sofia: Pois... Desculpe, não tinha motivos para lhe falar assim. Helena: Eu só a queria ajudar, não consegue perceber? Sofia: Sim, sim. Já lhe pedi desculpa... Valente: Mas quê, chateou-se com o marido é isso? Sofia: Eu já não me chateio com o meu marido. Eduardo: Ui! Isso não é nada bom...

Sofia: Ah! Finalmente que alguém me percebe. Tenho vivido na sombra do meu marido, no que ele é, no que ele faz... A minha vida vai sendo isso, uma estrada de sombras... como pode o meu marido permitir isto?! Ele vive como se tudo na nossa vida estivesse bem, mas não esta, e ele nem me vê... Valente: Não a vê? Guia: Não a vê… Fantasma: Não a vê nem lhe pode falar… E não há nada a fazer. Enquanto ainda era tempo Nenhum fez nada para mudar Para se redimir… O tempo passa tão depressa A vida passa a fugir.

Valente: Já lhe falou por acaso sobre isso que sente? Sofia: Falar? Não! Ele tem de se aperceber das coisas, não acha? Tenho de ser eu a dizer tudo? Sou eu que cuido da casa, da educação dos filhos, do colégio... Porra! Como é que ele não se apercebe das minhas necessidades. Eu abdiquei de tudo por ele e pelos nossos filhos. Eu sou mais do que isto… mas não o consigo ser... Helena: A senhora tem de se libertar! Além de esposa e mãe, é uma mulher... e tem de lutar pelos seu sonhos e ideais...

Fantasma: Falar é sempre tão fácil…~ Mas agir… Isso é tão complicado Expiamos a nossas angustias No rosto do vizinho do lado. (sorri) Inês: (para Sofia) A senhora não trabalha? Sofia: Sou mãe... Valente: Que rica profissão! De certeza que não passa recibos verdes nem tem 23% de IVA em cima... já para não falar do IRS. Inês: (insiste com Sofia) Mas nunca trabalhou? Sofia: Conheci o meu marido na faculdade... Apaixonamo-nos, casamo-nos, ele ficou a trabalhar na empresa do pai, eu dediquei-me ao casamento... Valente: (interrompendo Sofia) Ai que rica mulher... eu devia ter arranjado logo uma assim! Sofia: Mas vocês estão a tentar culpar-me de alguma coisa? As escolhas que fizeram sempre foram as corretas? Nunca erraram? São só opções de vida. Têm consequências e é nossa obrigação aceitá-las. Fantasma: Sempre as Culpas As Desculpas As nossas As vossas E assim se vive uma vida. Como um grande tribunal. Antecipam desde que nascem O Juízo final. Rosa: (boquiaberta) Mãe, uma profissão!? Você não me diga que acha que ser mãe é uma profissão? Sofia: (para Rosa) Você é casada? Rosa: Não. Sofia: Então não sabe o que é a responsabilidade de ter uma família, ter marido e filhos! Rosa: Eu não tenho marido mas tenho dois filhos... O João com 7 e o Romeu com 9. Sofia: Hum, pois… Viúva ou divorciada, é? Rosa: Não. Tenho dois filhos e nunca casei.

Eduardo: E não tem mal nenhum. Apaixonou-se e arriscou no amor… Teve azar, foram dois amores que correrem mal! Rosa: São os dois do mesmo pai! Silencio, todos olham para a Rosa Rosa: Apaixonei-me por ele quando ele veio morar para Guimarães. Ele é um homem fantástico, que nasceu para ajudar os outros. Engravidei do meu primeiro filho por acidente, mas sempre tive a noção que não podia prender o pai a uma relação. Isso ia impedi-lo de fazer aquilo para o qual nasceu, servir os outros. Eduardo: Está certo, então e o segundo filho? Isso já soa a masoquismo. Rosa: Não! Eu estou de bem com isso, e aceito. O segundo filho não foi planeado, mas foi uma dádiva. É uma honra para mim ser a mãe dos filhos dele. Simplesmente a relação não pode prendê-lo. Inês: Mas vocês estão juntos ou não? Rosa: Para todos os efeitos sou mãe solteira, ninguém sabe nem nunca saberá quem é o pai dos meus filhos. Aliás, não há relação nenhuma, simplesmente sou mãe dos filhos dele. Helena: Dessa não estava á espera… sem desrespeito. Não pensei que fosse assim, tão… moderna. Mas acho bem. Eu um dia quero ser mãe, mas não quero homem nenhum… Vou a um banco de esperma! Valente: Oiça, você não consegue ter uma opinião séria acerca de nada? A vida não como nos filmes. Helena: Quem é o senhor para achar que me pode ensinar alguma coisa sobre o que é a vida? Acha que tem o que me ensinar sobre ela? Guia: Tenha lá calma. Há de reconhecer que estamos a falar de assuntos sérios. Deixe-a desabafar! Quantas oportunidades temos na vida de dizer o que queremos, partilharmos sem sermos julgados. Falemos! Ouçamos! Helena: Eu não sou fundamentalista nem reaccionária! Eu tenho os pés bem assentes na terra! E não são contos de fadas. É o que eu quero para a minha vida. Porque é que os meus planos hão de ser menos legítimos do que os planos de quem quer casar e ter filhos? Sofia: Mas você não pode planear a sua vida dessa forma? Acha que tudo lhe vai correr como planeia? Que não vão surgir imprevistos? Se se apaixonar desalmadamente por um homem, vai rejeitá-lo só porque o seu sonho é ser mãe solteira? Helena. Não! Eu simplesmente sei o que quero da vida. Mais! Sei o que esperar dela. E não me vou apaixonar desalmadamente por ninguém. Não me interessa o que pensam, mas eu sei que já vivi o suficiente para saber o que é “a vida”.

Valente: Por muito que tenha vivido. Acredite que a vida consegue sempre fazer com que algo, ainda mais inesperado do que o que já viveu, torne a acontecer. Helena: Mas diga lá, quer ensinar-me o quê? Quer falar sobre que drama social? Eu fui voluntária em África… Vi lá mais do que o senhor possa imaginar. Eduardo: Ah, voluntária em África... Pois bem, mas com a finalidade de ajudar os outros ou a ajudar a si própria? Helena: Não, fui lá buscar todos os problemas que tenho. Eduardo: Problema é um problema, seja aqui ou noutro lado qualquer... Valente: (para si) Eu que o diga! Eduardo: Não é por ter ido para África que tem um problema maior... Ao menos em África estava mais calor que aqui em Guimarães e os homens podem casar com várias mulheres! (ri) Guia: (para Eduardo) Diga-me lá, tem problemas com relacionamentos, é? Eduardo: (surpreendido) Mas por que é que diz isso? Guia: Já reparou que ainda não conseguiu construir um diálogo? Sempre que tem hipótese, fala! E consegue calar toda a gente com a perplexidade das suas ideias. Eduardo: Não, sempre que falei, foi com a melhor das intenções. Eu respeito toda a gente... Não queria ser mal educado… Desculpe-me. Desculpem-me. Inês: Tenham calma! Nenhum dos dois falou com má intenção: nem o senhor guia, que apenas deu a sua opinião, nem o senhor que diz essas coisas sem ser por maldade. Mas a verdade é que á pouco, quando falou do testamento, me deixou bastante desconfortável, sabe? Eduardo: Mas tudo o que digo é verdade. Não é com má intenção! Mas eu sinto-me desconfortável ao ouvir tanta coisa... tanta coisa assim… Eu, apesar da minha idade, também já passei por algumas situações menos… boas. Mas eu gosto de me concentrar no lado positivo. Do que nos faz bem. E tento ver sempre a beleza das coisas. Refugiamo-nos nas missões em África, nos casamentos mal resolvidos, nas más notas nos exames, na falta de dinheiro…Mas a vida só por si é bela. E é belo a capacidade de lidarmos com os problemas que aparecem Valente: É belo lidarmos com os problemas que aparecem?! Tu… Tu… Tu não… Tu ainda és uma criança! O que é que tu sabes da vida? Tu trabalhas? Eduardo: Não.

Valente: E já trabalhaste? Eduardo: Não. Valente: Tu não sabes nada da vida, a vida aprende-se na rua rapaz! Já por acaso engataste uma miúda num bar? Eduardo: Hum, creio que não. Valente: Pois não! Um dia vens comigo ver um jogo de futebol para veres como é! O que é que vais gritar ao árbitro? Que não estás a perceber a racionalidade do jogo, é? Quando ele mostrar um cartão amarelo vais acusá-lo de zoofilia?! Ou quando um jogador tentar rematar de pontapé de bicicleta, vais pensar que é tentativa de suicídio? Ou vais dizer que um jogo de futebol são 22 homens a tentar esconder-se atrás da beleza de umas mascaras que são os equipamentos… Eduardo: Não estou a perceber! Valente: Não é para perceber, é para viver. E a seguir vamos ver um strip e apanhar uma bebedeira, que achas? Eduardo: (torce o nariz) Bebedeira? Valente: Não fiques assim, há uma primeira vez para tudo! (palmadinha nas costas) Eduardo: Mas eu…. Rosa: (interrompendo) Tu nada! Tu tens ideais, sabes o que queres da vida? Da tua idade não dá para perceber como é que ainda pensas dessa forma. Tu tens de experimentar. Tens de sair dessa redoma, a tua palavra de ordem é fazer. Eduardo: Mas por que é que estão todos contra mim? Eu só tenho 20 anos!! Inês: (para o Eduardo) Tenha calma… Podemos tirar uma conclusão, você tem razão no que diz, mas ao mesmo tempo esconde-se atrás da tal máscara de que fala. Mas não pode levar a mal, e não vai levar a mal o que lhe estou a dizer, porque tal como vê a realidade dos outros, vê a sua, a máscara da teoria. Eduardo: Está a dizer isso, vocês viram aquele filme? Aquela história do modelo decadente e egocêntrico em crise, que perdeu o seu posto de número um na classificação dos modelos para o seu rival. Deprimido vai procurar auxílio com o seu "papa" no mundo da moda, que tem outros planos para Zoolander. Zoolander acaba por sofrer lavagem cerebral de forma a que este se transforme num assassino frio e burro que faz o que lhe mandam. O plano é enviar Zoolander para assassinar o Presidente da Malásia quando este estiver na sua visita a Nova York. Inês: Não percebi! O que tem isso haver com o que estávamos a falar? Eduardo: Hum, não me lembro… Perdi-me entretanto…

Valente: Ah, eu vi esse filme, por acaso foi porreiro. Depois tem aquela gaja que é jornalista duma revista qualquer e que desconfia do plano e decide meter-se. E estraga tudo. Bem boa a gaja, por acaso. E o gajo até teve sorte, podia ter corrido bem pior. Guia: Eu é que fico perdido com isto tudo. Sinceramente que fico. Mas o que se está a passar? Isto é surreal demais para mim… Nada encaixa… Eduardo: Repara, isto é um tipico caso. (É interrompido por Sofia) Sofia: Por favor… Não acabe o que ia a dizer. Eduardo: Mas porquê? (é interrompido novamente por Sofia) Sofia: Por favor. Guia: Eu não tenho que estar aqui, não tenho de lidar com isto. Eu não sei lidar com isto… É o desespero. Helena: Vá, calma… Vamos ter calma. Você está a entrar em pânico. Respire fundo e não pense mais nisso. Inês: A verdade é que esta situação de tenção, leva-nos a reagir assim e criarmos um ambiente pesado. (para Helena). Você tem razão, devemos todos respirar fundo e lembrar-nos que só temos de esperar mais um pouco até que aquela porta se abra. Más situações, atraem más energias e essa energia invade-nos e é tudo uma bola de neve… Rosa: Eu concordo com a teoria das energias. Se sorrirmos para o mundo ele sorri para nós. Nada de pessimismos. Valente: Isso é que era. Eu até nem lhe digo que isso é mentira, mas isto lhe digo. Há pessoas que simplesmente têm AZAR. Puro azar. E podem sorrir até sangrar das gengivas. Simplesmente não nasceram para ter sorte. Eduardo: Isso lembra-me de outro filme por acaso… Guia: Eh pá, mais filmes não. Valente: Mas olhe que era uma boa conversa para aliviar o clima. Mas também podemos falar de futebol. Olhem para a nossa Vitória. Parece amaldiçoado pelo azar. Inês: Eu não quero parecer supersticiosa, mas se continuarmos a falar de azar… Vamos atrair o azar… Rosa: Mas você tem um sexto sentido ou assim? Inês: Não, não… Helena: Mas a verdade é que você tem mostrado uma sensibilidade diferente. Sabe lidar com as situações… Não sei bem explicar, mas sente-se isso…

Inês: Ah, mas deve ser só isso mesmo, sensibilidade… Rosa: Você à pouco estava a desenhar. É designer? Pintora?... das artes? Inês: (Um pouco envergonhada) ah, não…. Eu sou uma pessoa comum, trabalho. Gosto de arte e cultura sim. Desenho e música, gosto muito. Mas não ambicionaria tal coisa. Ser artista. Valente: Mas cante lá alguma coisa para nós. Sempre dá para passarmos o tempo. Inês: (apressadamente) Não. Definitivamente não. Valente: Ok, ok, calma… Niguém a vai obrigar a nada. Não canta você canto eu. (canta wish you were here – pink floyd) Alguém o interrompe, pega numa metralhadora e mata toda a gente. Ah espera. Já tão todos mortos!

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