Goldschmidt vs Goldschmidt, Leitura Dogmática e Genética, Harry Edmar Schulz

GOLDSCHMIDT VERSUS GOLDSCHMIDT LEITURA DOGMÁTICA E LEITURA GENÉTICA

Harry Edmar Schulz

Texto elaborado em Outubro de 2012

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São Carlos, 2012. Projeto:Humanização como ferramenta de aumento de interesse nas exatas

Goldschmidt vs Goldschmidt, Leitura Dogmática e Genética, Harry Edmar Schulz

Prefácio
O presente texto decorre de um exercício acadêmico feito no contexto de disciplina de Estudo Dirigido de Filosofia 3, no curso de Filosofia da Universidade Federal de São Carlos. A sua inclusão na série de textos do projeto “Humanização como ferramenta de aumento de interesse nas exatas” decorre da proposta contida no texto original, de defender uma metodologia de leitura de sistemas filosóficos. Nesse caso, expõem-se duas metodologias e discorre-se sobre as mesmas. Esse tipo de abordagem, que envolve aplicação, é altamente interessante ao projeto mencionado. Embora as metodologias sejam dirigidas ao texto filosófico, a sua possibilidade de aplicação a textos técnicos das exatas cria um viés interessante, que se adiciona à análise das estratégias de transmissão de idéias do autor lido. Interessantemente, o texto também permite ao leitor inserir-se no contexto filosófico de “metodologia”, que difere do contexto científico. Um método, segundo o autor lido, interroga o texto. A interrogação pode ser feita com dois objetivos distintos, mas sugere-se não arrolar um conjunto de normas dogmáticas, o que coloca o leitor como um intérprete cujo “método” deve ser a descoberta do método do autor, sem se fixar a normas “arroladas como normas”, mas a uma norma comportamental ou postural. O “método” proposto emana do texto como uma postura de leitura pré-condicionada do leitor. Ao final do texto original, o autor introduz conceitos não aventados na leitura do texto como um todo. Esses conceitos são utilizados para expor um problema não
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resolvido e para indicar a sua possível solução. A leitura do texto original é interessante para localizar esses diferentes momentos na proposição do autor original. Para comparações ou comentários, por favor entrar em contato com o presente autor, através de heschulz@sc.usp.br, ou harry.schulz@pq.cnpq.br.

Harry Edmar Schulz São Carlos, 18 de Outubro de 2012
Projeto: Humanização como ferramenta de de aumento de interesse nas exatas

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Sumário 1 - Introdução:.............................................................(6) 2 - Leitura propriamente dita:...................................(6)
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2.1 - Goldschmidt 1:..................................................(6) 2.2 - Goldschmidt 2:..................................................(8) 2.3 - Goldschmidt 3:................................................(10) 2.4 - Goldschmidt 4:................................................(13) 2.5 - Goldschmidt 5:................................................(14) 2.6 - Goldschmidt 6:................................................(15) 2.7 - Goldschmidt 7:................................................(17) 2.8 - Goldschmidt 8:................................................(18) 2.9 - Goldschmidt 9:................................................(20) 2.10 - Goldschmidt 10:.......................................... (21)
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2.11 - Goldschmidt 11:...........................................(24) 2.12 - Goldschmidt 12:...........................................(24) 2.13 - Goldschmidt 13:...........................................(26) 2.14 - Goldschmidt 14:...........................................(28) 2.15 - Goldschmidt 15:...........................................(30) 2.16 - Goldschmidt 16:...........................................(32) 2.17 - Goldschmidt 17:...........................................(33) 2.18 - Goldschmidt 18:...........................................(34) 2.19 - Goldschmidt 19:...........................................(35) 3 - Resumo e Considerações Finais:.........................(37) 4 - Posfácio:................................................................(41) 5 - Referências Bibliográficas:..................................(42)

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Objeto de estudo: Tempo histórico e tempo lógico na interpretação dos sistemas filosóficos. Autor: Victor Goldschmidt.

1 - Introdução:
A proposta apresentada no contexto disciplinar do “Estudo Dirigido de Filosofia 3”, no curso de Filosofia da Universidade Federal de São Carlos, foi de aplicar o método descrito por Goldschmidt ao texto por ele gerado. A metodologia adotada no presente texto, no cumprimento dessa tarefa, foi a leitura de segmentos sucessivos do texto, efetuando-se tentativamente uma análise conforme a proposta do próprio autor. Também essa análise foi segmentada, de acordo com as partes lidas. Note-se que esta metodologia de leitura está sendo recorrentemente seguida nos textos que compõem aqueles elaborados no âmago do projeto “Humanização como ferramenta de aumento de interesse nas exatas”. No presente texto, entretanto, não se apresenta o resumo de cada segmento, feito pelo leitor, à guisa de economia de espaço.

2 - Leitura propriamente dita: 2.1 - Goldschmidt 1:
Parece que haveria duas maneiras distintas de interpretar um sistema; ele pode ser interrogado, seja sobre
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sua verdade, seja sobre sua origem; pode-se pedir-lhe que dê razões, ou buscar suas causas. Mas, nos dois casos, considera-se ele, sobretudo, como um conjunto de teses, de dogmata. O primeiro método, que se pode chamar dogmático, aceita, sob ressalva, a pretensão dos dogmas a serem verdadeiros, e não separa a léxis (A. Lalande) da crença; o segundo, que se pode chamar genético, considera os dogmas como efeitos, sintomas, de que o historiador deverá escrever a etiologia (fatos econômicos e políticos, constituição fisiológica do autor, suas leituras, sua biografia intelectual ou espiritual etc.). – HES1: No primeiro contato com Goldschmidt, o leitor pode entender que o autor apresenta a possibilidade de interpretação de “um sistema”, aqui colocado de forma indefinida (“um”) permitindo inferir que haja mais sistemas que possam ser analisados e, em adição, permitindo inferir, ainda que tangencialmente, que esse texto se coloca em um momento histórico em que essa discussão de abordagens pudesse ser entendida pelos leitores. Em outras palavras, em havendo um público alvo (leitores que se interessam por sistemas), eles teriam um volume de informações que permitiria entender que há diferentes maneiras de conduzir uma leitura acerca desses sistemas. O texto informa que o autor localizou duas maneiras de leitura, resumidamente identificadas como interrogações feitas sobre a “verdade (razões, dogmático)” ou sobre a “origem (causa, genético)”. Em se aplicando essa divisão ao seu próprio texto, portanto, seria preciso interrogar o texto quanto a sua verdade ou a sua origem, de forma que uma ou outra metodologia de leitura pudesse ser convenientemente seguida. Considerando o primeiro parágrafo deste HES1, e considerando que uma causa genética seria as leituras
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efetuadas pelo autor de um sistema, pode-se talvez aventar a possibilidade de que o texto de Goldschmidt tenha sido escrito porque o autor leu textos explicitando diferentes sistemas, ou porque leu diferentes sistemas. Com esse conjunto de informações, então, verificou que a leitura poderia seguir pelo menos duas diferentes vertentes (apontadas explicitamente no presente texto) e, com base nesta observação acerca de suas leituras (geneticamente, por conseguinte), abordou a própria questão da forma de conduzir uma leitura. Em sendo o caso, tem-se uma causa genética para a confecção deste texto. Por outro lado, o autor pode ter apresentado este texto na forma de uma tese a ser defendida genericamente, sem a necessidade de sistemas anteriores, ou sem a necessidade de um sistema a ser analisado, mas em considerando que se possa imaginar que algo como um sistema venha a ser proposto e que se possa efetuar uma leitura do mesmo buscando a verdade que o autor (desse “eventual” sistema) procurou desvendar ou demonstrar. Nesse caso, não importam suas leituras anteriores (mesmo dos sistemas, tomando conhecimento de sua existência) ou sua biografia intelectual (o que o teria direcionado para este questionamento), mas o seu arrazoado em si. Eventualmente o termo “léxis” corrobore esta visão, se entendido como termo utilizado pelos lógicos para designar uma proposição que se enuncia sem que seja afirmada nem negada a sua verdade, bem como o termo “crença”. Em sendo este o caso, tem-se uma análise dogmática.

2.2 - Goldschmidt 2:
O primeiro método é eminentemente filosófico: ele aborda uma doutrina conforme a intenção de seu autor e, até o fim, conserva, no primeiro plano, o problema da verdade; em compensação, quando ele termina em crítica e
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em refutação, pode-se perguntar se mantém, até o fim, a exigência da compreensão. HES 2: O autor coloca o método dogmático como “eminentemente filosófico”, o que exigiria talvez ter definido o que seja algo “tão” filosófico, e mesmo o que seria “menos” filosófico. Caminhando entre os textos de diferentes autores, permito-me por vezes perguntar o que seria mesmo este “filosófico” (mas entendo antes como uma possível limitação pessoal, e não necessariamente dos textos lidos). Ao informar que este método aborda uma doutrina conforme a intenção do autor, considerando o problema da verdade, uma margem para uma dúvida talvez tenha sido lançada: ao fazermos esse exercício (de nos fixar na intenção do autor) não devemos nos reportar ao conjunto de informações disponíveis ao autor quando efetuou seu estudo? Em outros termos, não devemos nos reportar ao seu tempo (uma vez que o volume de informações que dispomos ao longo do tempo sempre nos coloca “correções” para as “verdades” antes assumidas?). Utilizando um exemplo que, talvez, não seja feliz, pode-se lembrar que, em suas meditações, Descartes busca provar a existência de Deus e a diferença entre a constituição da alma e do corpo. Suas motivações induziram-no às reflexões, e essas motivações, salvo melhor juízo, estavam vinculadas ao seu momento histórico. Em outros termos, provar suas afirmações podia ser importante no seu momento histórico. Essas mesmas questões são conduzidas hoje? O presente momento histórico aponta para a relevância deste tipo de questionamento? A resposta talvez seja: “parece que não”. Pode-se talvez aventar que as suas conclusões, tomadas em si próprias, apenas considerando os argumentos sem causas, seriam extra-temporais no tocante ao seu conjunto assumido de restrições (mas isso apenas poderia ser dito até o momento presente - a temporalidade continua atuando) e que a sua verdade foi atingida naquele
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momento, segundo aquelas restrições assumidas. Mas, nesse caso, não estamos justamente confirmando que o questionamento é vinculado a um momento, ou pelo menos, a um momento do autor? (E, portanto, a leitura estaria sendo genética?). Sendo assim, pode-se efetuar uma leitura do texto de Goldschmidt que seja apenas dogmática? Admitamos que a “verdade” almejada pelo autor seja atemporal, enquanto respeitadas as restrições assumidas. Nesse caso, Goldschmidt apresenta seu texto, no qual crê permitir analisar a leitura de algo que seria um sistema, que está aqui sendo exemplificado como o seu próprio texto, e no qual se está também buscando a verdade almejada pelo autor. Em outras palavras, a presente leitura seria conduzida desvinculada de qualquer momento histórico ou causa bibliográfica e intelectual para o texto lido. O texto “existe” e exprime a busca de uma verdade. Em efetuando esta leitura, e em entendendo a mensagem de Goldschmidt, sua “verdade” atemporal teria sido compreendida. Isto seria a litura dogmática. Note-se que a busca de uma verdade expressa no texto é plausível. A “existência” do texto, sem causas em leituras prévias (por exemplo, porque essas seriam uma causa genética), é que causa certa estranheza. Ademais, não parece claro que essa busca de causas poderia prejudicar a busca da verdade do autor.

2.3 - Goldschmidt 3:
A interpretação genética, sob todas as suas formas, é ou pode ser um método científico e, por isso, sempre instrutivo; em compensação, buscando as causas, ela se arrisca a explicar o sistema além ou por cima da intenção de seu autor; ela repousa freqüentemente sobre pressupostos que, diferentemente do que acontece na
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interpretação dogmática, não enfrentam a doutrina estudada para medir-se com ela, mas se estabelecem, de certo modo, por sobre ela e servem, ao contrário, para medi-la. HES 3 - Uma curiosa série de afirmações foi feita: uma interpretação genética é científica. A busca das causas pode levar a uma explicação distante da intenção do autor, pode estar baseada em pressupostos e não enfrenta a doutrina “medindo-se com ela”, mas a “mede”. Pode-se inferir, salvo melhor juízo, que se sugere que uma interpretação científica não “atinge” a idéia em debate. Adicionalmente, um método científico considera “pressupostos” e não estaria indo ao “embate” com a doutrina, mas a estaria julgando.

Aqui vale talvez defender a denominada “posição científica”: 1 – Buscar as causas pode economizar muito tempo e esforço eventualmente gasto acerca de pretensos conceitos complexos, cuja causa principal seja histórica e não filosófica. Não se está dizendo que se admite de antemão que hajam causas históricas para as teses de um sistema, mas pode ser que hajam, e, nesse caso, é melhor conhecê-las do que desconhecê-las. A menos que a ignorância acerca da realidade na qual se move o autor e o sistema seja desejada. 2 – Reconhecer que em alguma tese de um texto há causas externas, temporais, efêmeras, também faz com que não seja necessário considerar algo como “se esses contornos fossem de fato válidos, a doutrina seria aplicável em situações similares” ou coisas do gênero. Assim, não há necessidade de dispender esforços “medindo-se com uma doutrina” que está circunscrita a contornos que passam a ser
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conhecidos através de um método “científico”. Entretanto, isto não impede que se efetue o exercício de buscar a “verdade” do autor circunscrito ao seu universo, estabelecido pelos contornos que assumiu. 3 – Sobre “medir” a doutrina: parece que emitir juízos é uma característica do ser pensante. Emitir juízos exige estabelecer uma base que habilite esse julgamento. Em que medida uma base científica seria prejudicial à emissão de um juízo não parece, nesta leitura, estar aclarado na sequência de proposições do autor. Novamente fica a ressalva de que eventualmente pode-se estar desejando a ignorância acerca do meio, o que pelo menos soa estranho em uma discussão acerca da verdade de um sistema. 4 – Foi dito que o método científico está frequentemente baseado em pressupostos. No que tange a esta leitura, esta afirmação pediria uma justificação (não fornecida), uma vez que a postura dogmática aceitou a presença da “crença” para o autor, que, salvo melhor juízo, também se baseia em pressupostos. Assim, o autor pode ter suas teses repousadas em crenças, mas o intérprete não pode adotar um método científico, porque ele estaria “frequentemente” baseado em pressupostos. Goldschmidt não exemplifica, nem argumenta em defesa da tese de que a leitura científica de fato usa de pressupostos. É um aforismo: “a leitura científica frequentemente se baseia em pressupostos”. O que leva a essa conclusão? Esta parte do texto não é convincente. Note-se que o presente texto (de Goldschmidt), se escrito a partir do conhecimento de um rol de sistemas que, analisados segundo uma postura que visa sua compreensão, leva à proposta classificatória de dois tipos de análise, também aplicou um método científico.
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2.4 - Goldschmidt 4:
Enfim, o método dogmático, examinando um sistema sobre sua verdade, subtrai-o ao tempo; as contradições que é levado a constatar no interior de um sistema ou na anarquia dos sistemas sucessivos, provêm, precisamente, de que todas as teses de uma doutrina e de todas as doutrinas pretendem ser conjuntamente verdadeiras, "ao mesmo tempo". HES 4: O autor admite, neste parágrafo, que as contradições internas a um sistema existente, ou no contexto de um conjunto de sistemas sucessivos, repousam na sua pretensão de “verdade conjunta”. Isso é admitido como atemporal, dizendo que a pretensão de verdade é independente do tempo. Note-se que isto é a descrição de uma limitação do método dogmático. Não se trata da descrição de uma qualidade: a busca da verdade. Pelo contrário, mostra que a não consideração do tempo cria uma anarquia. Sobre o presente texto: seria o caso, para utilizar o método dogmático, de aceitar que a busca da verdade almejada por Goldschmidt seja o objetivo a perseguir nessa leitura. Seus argumentos, entretanto, podem envolver incongruências internas que necessitam ser aclaradas. Assumindo que possa haver a leitura de “seu sistema” eventualmente imaginado sem vínculo a uma realidade externa, esta leitura talvez seja livre de incongruências. O sistema se “auto-sustentaria”, independente das influências externas (históricas, etc.). Mas como o seu texto pretende ser aplicado à realidade, ou seja, ele propõe uma metodologia para sistemas já existentes, sistemas que são diferentes entre si e
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que povoam a realidade dos pensadores, essa independência já estaria comprometida.

2.5 - Goldschmidt 5:
O método genético, pelo contrário, põe, com a causalidade, o tempo; além disso, o recurso ao tempo e a uma "evolução" permite-lhe, precisamente, explicar e dissolver essas contradições. – Ora, a história da filosofia, assim como Husserl o exigira da própria filosofia, deveria, e ao mesmo tempo, ser "ciência rigorosa" e, entretanto, permanecer filosófica. M. Guéroult, comentando a obra de E. Bréhier, lembrou, não faz muito, que "a história da filosofia é, antes de tudo, filosofia, mas que ela não tem valor para a filosofia senão permanecendo intransigente sobre a verdade histórica". – É para a elaboração de um método, ao mesmo tempo, científico e filosófico, que quereriam contribuir as notas seguintes. HES 5 – Goldschmidt apresenta agora uma vantagem do método genético. Ele dissipa as contradições ao considerar um tempo e uma evolução. Note-se que as observações bibliográficas, se fossem entendidas como parte da biografia intelectual do autor ou de suas leituras, não poderiam ser consideradas, rigorosamente, na discussão de um método que pretenderia ser puramente dogmático. A biografia intelectual e a leitura prévia não poderiam direcionar este texto, uma vez que se estaria caminhando em direção à “suspensão dos valores de verdade”, por se vincular o texto à história do autor ou da sociedade (admitindo, evidentemente, que apenas a causa externa estaria sendo aventada na formação de uma tese). Por outro lado, sem haver uma comprovação do valor de verdade das palavras emitidas por outros autores, as referências passam a ser meras “manifestações de opiniões”. O fato de um excerto de outro texto ter sido mencionado não implica
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imediatamente em aceitação de sua mensagem como uma “verdade” que sustente o presente texto. Em suma, essas referências, sem verificação de sua verdade, em uma análise dogmática, não são relevantes. Adicionalmente, o fato de o autor inserí-las mostra que usa de artifícios “biograficamente intelectuais” e “de leitura” em sua argumentação, que, conforme afirmado em Goldschmidt 1, aponta para uma ferramenta genética. A proposta do autor, após essas observações que apontam uma série de incompatibilidades em se utilizar apenas um método dogmático ou um método genético, é um método misto – filosófico e científico. Então há um terceiro método de leitura, que é proposto pelo autor nesta altura do texto. Dizer que um método eminentemente filosófico deve ser ciência, mostra que, ou não há contradição entre ambos, ou se busca a dissolução de um paradoxo. Nesse caso, inicialmente os métodos são apresentados como excludentes, e, introduzindo o tempo no texto de Goldschmidt, posteriormente são apresentados como não excludentes (um método ao mesmo tempo científico e filosófico, nas palavras do autor).

2.6 - Goldschmidt 6:
A filosofia é explicitação e discurso. Ela se explicita em movimentos sucessivos, no curso dos quais produz, abandona e ultrapassa teses ligadas umas às outras numa ordem por razões. A progressão (método) desses movimentos dá à obra escrita sua estrutura e efetua-se num tempo lógico. A interpretação consistirá em reapreender, conforme à intenção do autor, essa ordem por razões, e em jamais separar as teses dos movimentos que as produziram. Precisemos esses diferentes pontos.
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HES 6 – O autor explicita o que entende por filosofia: explicitação e discurso. A “ordem das razões” é apontada como geradora de um movimento que dá estrutura ao texto, conferindo-lhe, adicionalmente, um tempo lógico. Isto lembra M. Guéroult, mas este vínculo bibliográfico é estranho de ser aventado em uma análise dogmática, uma vez que corresponderia a um vínculo genético (note-se, mais uma vez, que a biografia intelectual do autor não seria relevante na análise puramente dogmática, conforme Goldschmidt 1). Assim, dogmaticamente deve-se desconsiderar este eventual vínculo e considerar apenas o movimento de um texto, com sua ordem das razões, como sendo relevante. Mas sendo conhecedor desses termos em outros autores, que os definiram, isto implicaria então em desconsiderar que Goldschmidt transitava entre idéias já lançadas por outros no meio no qual atuava. A leitura a ser feita deveria desconsiderar o conhecimento prévio também do leitor que se debruça sobre este texto, ou seja, o intérprete deveria desconsiderar o seu próprio trânsito no tema – do contrário estaria inserindo um desvio genético. Não parece que o presente texto permita esse tipo de postura (aplicando Goldschmidt a Goldschmidt), nem a análise do autor estaria apontando para isto. Assim, ainda poderia haver a possibilidade de o método proposto por Goldschmidt não ser aplicável a Goldschmidt (neste texto ou em parte dele), ou, o que é mais plausível a partir da proposta de um método misto, ao mesmo tempo científico e filosófico, de que a análise dogmática admite ferramentas genéticas. Nesse caso, todo o cabedal de conhecimentos prévios do autor, bem como o seu momento histórico para a apresentação de sua tese, podem ser relevantes na análise de seu texto. Ou seja, não há contradição no uso de ferramentas genéticas na análise “dogmática”, ou, melhor, na análise mista. Note-se que conhecer a realidade na qual se movem autor e sistema não
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impede de estudar o movimento interno do sistema, com suas proposições, argumentos e conclusões. Pelo contrário, pode deixar claro porque uma determinada tese despontou como relevante, gerando uma necessidade da análise de seu conteúdo de verdade no movimento do texto.

2.7 - Goldschmidt 7:
A filosofia é explicitação. Que esta explicitação proceda de uma "intuição original", que haja, por trás do que está "desenvolvido e exteriorizado", "um núcleo, uno, simples, voluntário e livre que lhe (ao historiador) revelará um sujeito", é coisa que se pode, certamente, conceder. Mas tendo o filósofo pretendido dar-nos um pensamento desenvolvido, o ofício do intérprete não pode consistir em reduzir à força esse desenvolvimento a sua fase embrionária, nem em sugerir, por imagens, uma interpretação que o filósofo julgou dever formular em razões. O primeiro motor de um sistema, que se chame intuição, sujeito,* pensamento central, não permaneceu na inação. HES 7 – Curiosamente o autor coloca o esforço de um eventual intérprete de uma “intuição original” explicitada filosoficamente como “reduzir à força esse desenvolvimento a sua fase embrionária...O primeiro motor...não permaneceu na inação”. Subentende-se que o autor critica esta posição de um eventual intérprete e, evidentemente, também o leitor assim fará. Mas a pergunta que se pode fazer aqui é se de fato há ou haverá um intérprete que se esforçará em reduzir à incompreensão ou à sua origem mais remota aquilo que um autor pretendeu transmitir. Qual é a vantagem em deturpar uma idéia? Se se assume que o pensador original agiu com honestidade ao transmitir suas idéias, não é mais adequado também assumir que o intérprete está agindo com honestidade nos
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seus esforços de interpretação do autor? Não é honesto verificar a causa da tese, em sendo esta externa, independente da discussão em torno de seu conteúdo de verdade? No texto de Goldschmidt está-se procurando efetuar uma leitura conforme as suas sugestões. Em nenhum momento pretende-se gerar uma situação de inação para seu pensamento. Esta afirmação surge então como estranha, parecendo antes que Goldschmidt se utiliza de uma caricatura de um intérprete. Por outro lado, o uso de imagens é intenso na Filosofia, sendo curiosa a crítica ao seu uso por um intérprete que seriamente busca transmitir o entendimento de uma passagem (desde os pré-socráticos, com suas luzes, passando por Platão, com suas alegorias – vide caverna, por exemplo – até Sartre – pródigo em imagens, os filósofos usam de paráfrases sensoriais para explicar o não-sensível – porque limitar seu uso a um intérprete?)

2.8 - Goldschmidt 8:
Reduz-se ele a isso, cada vez que se toma um sistema assim, às avessas; ora, a intuição, tão bem denominada "original", tendeu, quanto a ela, a explicitar-se. Além disso, recorre-se a uma causa inteligível que teria isto de paradoxal, que, permanecendo oculta, como é preciso, aos olhos do filósofo, se entregaria ao intérprete. É que, tanto aqui como em outras pesquisas etiológicas, o intérprete se coloca acima do sistema e, em relação ao filósofo, ao invés de adotar primeiramente a atitude de discípulo, faz-se analista, médico, confessor. O sistema, entretanto, não é escrito para fornecer sintomas e índices destinados a uma desvalorização radical, em troca de sua causa produtora oculta, que eles teriam permitido inferir,
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mas, inversamente, para mostrar e para fazer compreender as produções desta causa, qualquer que seja ela. HES 8 – Salvo melhor juízo, o autor critica a posição do intérprete que sugere conhecer uma “causa necessariamente oculta aos olhos do filósofo”. Parece que mais uma vez o intérprete é colocado caricatamente como “pretendendo-se superior”, ou algo que caminhe nesse sentido. Novamente, salvo melhor juízo, o autor defende uma causa oculta que gera algo que se deve compreender (causa esta que o intérprete caricaturado erroneamente pretende inferir). Nesse caso, aplicando essa interpretação ao próprio texto de Goldschmidt, a causa deste “sistema de leitura” poderia estar oculta. Todavia, em estando oculta, como se poderia inferir que se trata de uma proposta de diferenciação entre as maneiras de ler uma doutrina? É possível interpretar o seu texto como não possuindo uma causa aparente? Isto seria um tanto estranho e é-se induzido a concluir que não. Em outros termos, seu texto tem uma causa: um sistema, mesmo eventual, mesmo ainda a existir, necessita de uma leitura. Nesse caso, talvez se esteja extrapolando a possibilidade de paralelismo entre um texto aplicativo (como este de Goldschmidt em sua totalidade) e um sistema. Eventualmente um sistema possa induzir a esta interpretação de uma causa oculta, (invisível ou indescritível? – pergunta nossa), da qual se pode observar a produção e, adicionalmente compreendê-la (note-se que não se está defendendo esta postura, mas apenas evidenciando uma eventual dificuldade de aplicação do texto de Goldschmidt a ele mesmo). Uma segunda interpretação talvez seja: o autor de um sistema pode apresentar a sua ordem de razões sujeita a uma causa externa, mas não reconhecível por ele
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(como deve ser, caso contrário poderia estar suspenso o valor de verdade de sua tese) por estar imerso na própria realidade/causa. Usando um exemplo: o peixe não vê a água porque está imerso nela. Qualquer movimento deste peixe ocorrerá neste meio, sem que ele vincule racionalmente ambos. Portanto, a ordem de razões de um autor pode ter uma estrutura que não toma conhecimento da causa da tese. Mas não se pode afirmar que o seu conhecimento por um intérprete posterior venha prejudicar a própria tese. Interessantemente, a possibilidade de uma produção sem causa remeteria (talvez se possa adjetivar como “naturalmente”) a uma analogia com ensinamentos religiosos nos quais a causa oculta (invisível ou indescritível?) das coisas do mundo seriam os deuses, mas que permitem observar a produção (o próprio mundo) e entende-lo (a partir dos sistemas religiosos em pauta).

2.9 - Goldschmidt 9:
Ora, as asserções de um sistema não podem ter por causas, tanto próximas quanto adequadas,¨ senão razões conhecidas do filósofo e alegadas por ele. É possível, sem dúvida, colocar, na origem de um sistema, qualquer coisa como um caráter inteligível; mas, para o intérprete, esse caráter somente é dado no seu comportamento e nos seus atos, isto é, nos seus movimentos filosóficos e nas teses que eles produzem. O que é preciso estudar é essa "estrutura do comportamento", e referir cada asserção a seu movimento produtor, o que significa, finalmente, a doutrina ao método. HES 9 – O autor fala que as razões devem ser conhecidas pelo filósofo e retoma a idéia de que a estrutura do comportamento é relevante. Assim, a impressão de defesa de uma causa necessariamente oculta ao filósofo
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poderia ser colocada como contraditória à presente passagem. Mas ter razões conhecidas não implica em não ter causa para apresentar as razões, apenas que essas razões não são vistas com o seu vínculo à causa. Note-se que Goldschmidt diz que as teses apresentadas são produzidas nos atos do sistema, sendo o sistema apresentado pelo autor (que pode ser movido por uma causa não reconhecida). Na argumentação de Goldschmidt as razões do filósofo estão independentes da causa e não seria desejável reconhecê-la como relevante ao sistema em uma análise de um intérprete. A releitura de ambas as passagens, entretanto, pode ainda suscitar este caráter eventualmente contraditório na interpretação possível. Assim, esta característica é mencionada aqui. Em seu texto, então, a argumentação de Goldschmidt conduz à defesa da “estrutura do comportamento”. A leitura, por conseguinte, tem este caráter dogmático em meio à sua realidade genética. (Considera-se aqui a última linha de Goldschmidt 5)

2.10 - Goldschmidt 10:
Doutrina e método, com efeito, não são elementos separados. O método se encontra em ato nos próprios movimentos do pensamento filosófico, e a principal tarefa do intérprete é restituir a unidade indissolúvel deste pensamento que inventa teses, praticando um método. Quando um autor consagrou a seu método uma exposição teórica, é preciso evitar interpretar esta última como um conjunto de normas dogmáticas, a serem classificadas ao lado dos dogmas propriamente ditos. Podese generalizar, a esse respeito, o que Descartes diz de seu próprio método, que "ele consiste mais em prática que em teoria" (a Mersenne, março de 1637); e quando, a propósito dos "Ensaios desse método", Descartes precisa "que as
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coisas que eles contêm não puderam ser achadas sem ele, e que se pode conhecer por eles o que ele vale", é preciso acrescentar que, sem eles, nem mesmo se pode conhecer o que ele é. Inversamente, tampouco se conhecem as teses, se abstraídas do método de que resultam. HES 10 - Afirma-se: Doutrina e método são indissolúveis e “a principal tarefa do intérprete é restituir a unidade indissolúvel deste pensamento que inventa teses, praticando um método”. Nesse caso, aplicando essa idéia ao presente texto, pode-se dizer que a “doutrina” do autor é a leitura dogmática e genética (filosófica e científica) de seu texto e que é este método que deve ser aplicado (ver última linha de Goldschmidt 5). Afirma-se: É preciso evitar interpretar a exposição teórica como um conjunto de normas dogmáticas, classificadas com os dogmas. Mas porque não fazer isso? Como entender um método se não se estabelecem suas regras? Que método é esse que não pode ser descrito? Cientificamente, classificam-se coisas e regras. Da leitura do texto, nesta passagem, parece que filosoficamente isto não é aceitável (salvo melhor juízo). Verifica-se que novamente o autor utiliza referências bibliográficas que atestam o seu momento de leitura, o seu conjunto de informações consideradas relevantes. Uma pergunta que surge dessas referências é: poderiam outras informações iniciais levar a outras conclusões? Não se pode descartar essa possibilidade, e, nesse caso, o autor se movimenta de acordo com o seu reservatório de conhecimentos aceitos. Nesse caso, não se pode dizer que não seja possível efetuar uma análise desvinculada de causas externas, mas pode-se aventar a possiblidade de ser uma análise eventualmente fútil, porque essas causas sempre estarão presentes na própria
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argumentação do autor. Em outros termos, o autor é o vínculo entre o sistema e o momento histórico no qual este foi apresentado. Sem o autor, naquele momento histórico, não haveria o sistema tal qual foi apresentado. Note-se que não aceitar essa afirmação implica em se ter possibilidades alternativas como: 1) Não haveria qualquer sistema, 2) O mesmo sistema existiria independentemente do autor. O primeiro caso não se observa. Têm-se vários sistemas e provavelmente outros serão propostos. O segundo caso sugere que a verdade se impõe independente do autor. Nesse caso, não precisaria ter havido Kant, porque o sistema que ele criou seria apresentado por outro. O mesmo se pode falar de Descartes e de todos os filósofos que geraram sistemas próprios. Parece também que esta afirmação não se verifica, porque mesmo os que aceitam os diferentes sistemas os explicam de maneiras diversas (ver os diferentes comentadores). Presentemente está-se entendendo que o conjunto de conhecimentos de Goldschmidt e seu momento histórico foram relevantes para que o texto por ele apresentado tenha as características internas observadas. Assim, observa-se que o movimento de seus argumentos permite uma leitura dogmática, e que suas inserções bibliográficas denotam as influências genéticas. Nas influências genéticas está a causa do movimento do texto, que é analisado de forma dogmática, mostrando que essas influências que geram o texto não impedem a sua análise interna. Eventualmente o intérprete não terá acesso às causas, ou mesmo o autor não as conhecerá como causas genéticas, porque para ele trata-se de ordenar razões segundo a sua intuição original. Por conseguinte, o intérprete pode também seguir o movimento do texto sem atingir suas causas.

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2.11 - Goldschmidt 11:
A pesquisa, em matéria de filosofia, não procede somente da verdade, mas faz corpo com ela. Assim, para compreender uma doutrina, não é suficiente não separar a léxis da crença, a regra, de sua prática; é preciso, após o autor, refazer os movimentos concretos, aplicando as regras e chegando a resultados que, não por causa de seu conteúdo material, mas em razão desses movimentos, se pretendem verdadeiros. Ora, esses movimentos se nos apresentam na obra escrita. HES 11 – Entende-se que não sendo apenas a verdade a causa da pesquisa filosófica, o autor esteja reafirmando a possibilidade de uma leitura mista. O autor menciona a aplicação de regras ao refazer os movimentos concretos do texto lido. Mas o que são as regras não está necessariamente claro. Entende-se que seja a leitura dogmática/genética proposta no final de Goldschmidt 5. Não obstante, a valorização dos movimentos aponta para uma leitura dogmática nesta parte de seu texto.

2.12 - Goldschmidt 12:
Seria ainda separar método e doutrina o achar na obra um método somente de exposição, e não de descoberta. Mas, na oposição entre esses dois métodos, pensada até o fim, ou bem os dois termos acabam por coincidir, ou então o último destrói-se por si mesmo, porque sustentar, com E. Le Roy, que "a invenção se cumpre no nebuloso, no obscuro, no ininteligível, quase no contraditório", é dizer que ela não é, de modo algum, um método. E é possível, sem dúvida, na exegese dos sistemas, dedicar-se à reconstituição de uma tal "invenção", isto é, abandonar o filosófico pelo psicológico e pelo biográfico, e
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as razões pelas causas. Sem dúvida, é preciso também reconhecer que um autor possui, sob certa forma, idéias, antes de poder pensar em expô-las. Mas essas idéias não terão sua forma certa, sua descoberta não estará propriamente concluída senão com o traço final da obra. Crendo o contrário, corre-se o risco de ceder à ilusão retrógrada denunciada por Bergson; admite-se que uma doutrina preexiste à sua exposição, qual um conjunto de verdades inteiramente constituídas e indiferentes a seu modo de explicitação (e não se deve ter o temor de precisar: à sua expressão verbal). Mas a opinião não se confunde com a ciência; a tese simplesmente "descoberta", isto é, entrevista e que flutua livremente diante do espírito, não estará inventada, de verdade, senão quando for "exposta", isto é, "encadeada por um raciocínio" (Menão, 98 a). "Este ensaio", escreve Condillac, "estava acabado, e, entretanto, eu ainda não conhecia, em toda a sua extensão, o princípio da ligação das idéias. Isso provinha unicamente de um fragmento de cerca de duas páginas, que não estava no lugar onde deveria estar" (Essai sur l’orig. des conn. hum., II, II, 4). HES 12 – O autor repele a possibilidade de não haver um método. Também repele a possibilidade de haver idéias concluídas senão com a conclusão de uma obra. O autor fixa essa conclusão à expressão verbal. Note-se que não se está falando apenas do pensamento criativo, mas da gênese do pensamento criativo. Creio que aqui no máximo se pode opinar sobre tal tema (pelo menos, HES apenas se admite uma opinião no presente momento). No que tange ao volume de informações contido no texto e no reservatório de conhecimentos de HES até o presente momento, nem este breve comentário, nem Goldschmidt, possuem base para discursar com propriedade sobre o que seria a gênese do pensamento criativo. Nesse caso, o ensaio abandona a sua característica objetiva e transita pelo reino
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da opinião. Infere-se, das afirmações feitas, que uma tese estará inventada apenas após a sua exposição verbal (inferese escrita). Entretanto, poderiam haver idéias filosóficas que se originaram da experimentação física, ou biológica, ou química, ou política, ou social, enfim, emana do texto a impressão de ter havido uma abordagem superficial deste tema, havendo a necessidade de uma discussão mais profunda caso se queira um argumento mais sólido. Ao mencionar suas referências bibliográficas, que atestam um estado precedente à sua análise, Goldschmidt fornece em si próprio o exemplo de que há uma interdependência entre o desenvolvimento do raciocínio que aqui apresenta e sua própria história (intelectual, se assim se quiser exprimir). Ou seja, pode-se sugerir mais uma vez, nesta altura do texto, que análise dogmática e genética caminham juntas.

2.13 - Goldschmidt 13:
Os movimentos do pensamento filosófico estão inscritos na estrutura da obra, nada mais sendo esta estrutura, inversamente, que as articulações do método em ato; mais exatamente: é uma mesma estrutura, que se constrói ao longo da progressão metódica e que, uma vez terminada, define a arquitetura da obra. Ora, falar de movimentos e de progressão é, a não ser que fique em metáforas, supor um tempo, e um tempo estritamente metodológico ou, guardando para o termo sua etimologia, um tempo lógico. Em nada se cede, com isso, a um "psicologismo" qualquer. O tempo necessário para escrever um livro e para lê-lo é medido, sem dúvida, pelos relógios, ritmado por eventos de todos os tipos, encurtado ou alongado por toda espécie de causas; a esse tempo, nem o autor nem o leitor escapam inteiramente, assim como aos outros dados (estudados pelos métodos genéticos) que condicionam a filosofia, mas não a constituem. Porém, como escreve G. Bachelard, "o pensamento racional se
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estabelecerá num tempo de total não-vida, recusando o vital. Que a vida, por seu lado, se desenvolva e traga suas necessidades, é, sem dúvida, uma fatalidade corporal. Mas isso não suprime a possibilidade de retirar-se do tempo vivido, para encadear pensamentos numa ordem de uma nova temporalidade". Esta "temporalidade” está contida, como cristalizada, na estrutura da obra, como o tempo musical na partitura. HES 13 – O autor parece estar afirmando que há um tempo próprio inerente a uma obra humana, relativo ao seu desenvolvimento, movimento ou estrutura. Salvo melhor juízo, esse tempo se encontra nas obras derivadas do pensamento humano: artes e ciências, por exemplo. O próprio autor menciona a música como um exemplo. O texto de Goldschmidt possui esse tempo próprio, esse desenvolvimento/ acompanhamento de seu raciocínio. Mas isso não implica que a análise desse tempo seja independente de sua genética. O autor menciona que os dados genéticos condicionam a Filosofia, mas não a constituem. Isto também ocorre com as ciências, onde se reconhece sem preconceitos que o tempo no qual uma descoberta científica ocorreu condiciona a descoberta e a sua própria aplicabilidade momentânea. De forma geral, as ciências “evoluem” e suas “verdades” são vistas como vinculadas aos contornos então reconhecidos como relevantes. Posteriormente refutações e correções são apresentadas, evidenciando-se aquilo que não estava evidente no momento da criação do modelo. Novos contornos são colocados para novas aproximações e modelos, sempre sabendo que também esses serão refutados e corrigidos futuramente. A afirmação de que dados genéticos são condicionantes é relevante. No caso das ciências, o grau de
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conhecimento atingido em determinado momento permite que uma resposta seja atingida, ou uma proposição diferente seja apresentada. As conclusões de qualquer desenvolvimento científico são utilizadas de acordo com o seu universo de aplicação. E são válidas nesse universo. Assim, as conclusões da mecânica newtoniana continuam a ser válidas e verdadeiras em nosso dia-a-dia. O eletromagnetismo é aplicado na sua forma clássica e a ótica geométrica permite a produção das lentes de nossos óculos, binóculos, telescópios, enfim, do aparato ao nosso alcance. Não obstante, em um universo quântico ou relativísticoquântico, uma mecânica mais geral deve ser usada, o que não invalida a primeira nem generaliza o uso da segunda. Apenas enfatiza o seu caráter complementar, quando os contornos são definidos. Assim, espera-se que os dados genéticos sejam considerados mesmo na Filosofia, porque permitem entender as condições de contorno utilizáveis em um sistema. Isto não implica em condenar sistemas ao ostracismo devido as suas incoerências, quando vistos à luz de sistemas pretensamente mais gerais. Seria o mesmo que abandonar a mecânica Newtoniana e resolver problemas comuns de engenharia utilizando a mecânica quânticorelativística. O bom-senso evidentemente impede esta ação.

2.14 - Goldschmidt 14:
Admitir um tempo lógico é bem menos formular uma teoria, por sua vez, dogmática, que uma regra de interpretação, de que é preciso, ao menos, assinalar algumas aplicações. Essa regra, em primeiro lugar, concerne à própria exegese dos métodos. Refazer, após o autor, os movimentos de que a estrutura da obra guarda o traçado, é repor em movimento a estrutura e, desse modo, situar-se num tempo lógico. Assim, o movimento inicial do
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método cartesiano dá às duas primeiras Meditações sua estrutura; esta estrutura, da maneira mais aparente, exprime-se no fato que há duas; a razão deste fato é que, para cumprir esse movimento, é preciso tempo. Descartes escreve sobre a dúvida universal: "Eu não pude (entretanto) dispensar-me de dar-lhe uma Meditação inteira; e eu gostaria que os leitores não empregassem apenas o pouco de tempo necessário para lê-la, mas alguns meses, ou, ao menos, algumas semanas, a considerar as coisas de que ela trata, antes de passar adianta", e, sobre o modo de conhecer o espírito: " É preciso examiná-lo frequentemente e considerá-lo longamente… o que me pareceu uma razão suficientemente justa para não tratar outra matéria, na segunda Meditação" ( Seg. Resp., com.). Esse tempo, sem dúvida, varia segundo o leitor; ele dura "alguns meses" ou "algumas semanas". Mas a estrutura das Meditações é dada objetivamente, o método que a subtende tem pretensões a um valor universal, e o tempo onde se desenvolve esse método é um tempo lógico, apreendido pelo leitor-filósofo, ainda que esse leitor, se ele se chama Pedro, possa gastar com isso menos tempo físico que se ele se chama Paulo. O erro de interpretação, que Descartes censura em Gassendi, consiste em arrancar a dúvida universal ao movimento estrutural e ao tempo lógico. No método platônico, o quarto e o último movimento caracterizam-se não somente por sua certeza, seu desembaraço, mas, ainda, de uma maneira correspondente, pelo pouco tempo que ela supõe . HES 14 - O autor exemplifica erros e propostas de acertos a partir das primeiras duas meditações de Descartes, agora associando um tempo lógico ao tempo de correta compreensão da leitura de Descartes. O autor fala de semanas ou meses, ou seja, o tempo físico necessário ao entendimento do movimento do texto, ainda que informando não ser este tempo relevante. Interessantemente havia inicialmente a compreensão de que o tempo inerente
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ao texto estava vinculado ao próprio movimento do texto, portanto sendo desnecessária uma menção de uma correspondência aos dias, semanas ou meses, ainda que ilustrativa. Colocando Pedro e Paulo com diferentes características “temporais”, pode-se aventar que Goldschmidt implicitamente retorna às características fisiológicas do leitor, ou à sua história intelectual, ou às suas leituras, que são componentes genéticas. Esta passagem, se não teve esta intenção, parece reforçar a idéia de que o texto deve ser lido de forma dogmática. Esta ressalva é feita no sentido de que se reconhece que pode ser necessária uma releitura para captar a verdadeira intenção de Goldschmidt (no sentido de aplicar Goldschmidt a Goldschmidt).

2.15 - Goldschmidt 15:
Em certas filosofias, o método em ato, não somente se move num tempo lógico, mas mantém relações, implícitas ou explícitas, com uma doutrina do tempo em geral; isto, tentaremos mostra-lo alhures, acontece em Bergson, aquilo, nos Estóicos. De um modo mais geral, repor os sistemas num tempo lógico é compreender sua independência, relativa talvez, mas essencial, em relação aos outros tempos em que as pesquisas genéticas os encadeiam. A história dos fatos econômicos e políticos, a história das ciências, a história das idéias gerais (que são as de ninguém) fornecem um quadro cômodo, talvez indispensável, em todo o caso, não-filosófico, para a exposição das filosofias; eis aí, escreve E. Bréhier, "o tempo exterior ao sistema" . – A biografia, sob todas as suas formas, supõe um tempo vivido e, em última instância, não-filosófico, porque é o autor da biografia, não autor do sistema, que comanda seu desenrolar-se; mas o sistema, qualquer que seja seu condicionamento, é uma promoção; como diz M. Guéroult, a propósito de Fichte: "Bem se pode
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(pois) transpor na ordem do especulativo o que se passou na alma do filósofo"; seguindo-se o caminho inverso, impõe-se ao sistema uma desqualificação. É bastante notável que seja Bergson quem tenha afirmado a independência essencial de uma doutrina em relação ao tempo histórico em que ela aparece. "Tais ucronias fazem ver o que é essencial num pensamento filosófico é uma certa estrutura". Pondo em primeiro plano "a preocupação pela estrutura" que, para citar ainda E. Bréhier, "domina decididamente a da gênese, cuja pesquisa tantas decepções causou" , a interpretação metodológica pode, pelo menos, quanto a seu princípio, pretender-se "científica"; além disso, do mesmo modo que as outras exegeses científicas, às quais ela não visa substituir-se, ela supõe um devir, mas que seja interior ao sistema, e busca as causas de um doutrina, aquelas pelas quais o próprio autor a engendra, diante de nós. HES 15 - O autor menciona referências bibliográficas que ilustram sua posição. Mas ao dizer que o que é essencial ao pensamento filosófico é que possua certa estrutura apenas afirma uma necessidade inerente a qualquer transmissão de idéias. Há que haver uma estrutura. Isto não é prerrogativa do pensamento filosófico. O pensamento científico tem que ter uma estrutura. O pensamento artístico tem que ter uma estrutura. Seu próprio texto deve ter uma estrutura. E ele a tem. Na presente passagem, contradizendo a última linha de Goldschmidt 5, o autor defende que a análise dogmática é aquela que deve ser feita. Se isto convence ou não o leitor após buscar compreender a proposta mista anteriormente colocada, depende da interação do leitor com seu texto. As deficiências para a transmissão de idéias podem se localizar tanto no autor, como no leitor. Eventualmente, deficiências na estrutura do texto produzem deficiências na sua interpretação. Goldschmidt quis ou não defender a leitura mista? Se sim, porque agora valoriza a leitura dogmática?
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Se não, porque apresentou a última linha de Goldschmidt 5? Em nenhum momento o autor refutou sua busca por um método “ao mesmo tempo” científico e filosófico.

2.16 - Goldschmidt 16:
Filosófica, ela o é, na medida em que tenta compreender um sistema, conforme à intenção de seu autor. Indo mais além, ela poderia fornecer indicações, ao menos, para o que concerne ao problema da verdade formal de uma doutrina. – Que os movimentos filosóficos se cumpram num tempo próprio, isso significa, essencialmente, que a filosofia é discurso, que a verdade não lhe é dada em bloco e de uma só vez, mas sucessivamente e progressivamente, isto é, em tempos e em níveis diferentes. Se assim é, não parece, então, que se possa exigir de um sistema, o acordo simultâneo, resultando de uma conspiração intemporal, de seus dogmas considerados, unicamente, em seu conteúdo material. É o mesmo desconhecimento do tempo lógico que está na raiz destas duas exigências, a nosso ver, ilusórias: medir a coerência de um sistema pela concordância, efetuada num presente eterno, dos dogmas que o compõem, e realizar o esforço filosófico por uma intuição única e total, estabelecendo-se, também ela, na eternidade. HES 16 - Salvo melhor juízo, o autor defende que não há verdade atemporal no movimento interno de um sistema (anteriormente foi utilizado o momento histórico nas argumentações, mas FORA do sistema – ou a temporalidade, como um exemplo de influência genética – ver HES2, onde isso foi utilizado no comentário). Na presente argumentação, é dito que se pode estar seguindo uma “conspiração intemporal” ao propor um acordo simultâneo de suas conclusões. Entende-se que essa argumentação se localize “dentro” do sistema, ou seja, as teses podem ser aceitas ou refutadas no “desenrolar” das
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argumentações, mas não precisam ser concomitantemente verdadeiras. Após as afirmações de Goldschmidt 16 não se pode afirmar que essa conclusão possa ser aplicada ao presente texto, a menos que se possa considerar que a análise Dogmática e a análise Genética possam coexistir na argumentação, porém em tempos diferentes no contexto de “seu sistema”.

2.17 - Goldschmidt 17:
O "pleroma" das filosofias jamais poderá constituir-se pela concordância intemporal dos dogmas; eis aí o contra-senso fundamental de toda tentativa de ecletismo. Para constituí-lo solidamente, seria preciso unificar os diferentes tempos lógicos, mas sem recorrer ao tempo histórico (que não pode contê-los), nem a um tempo universal à maneira hegeliana (que os desregra e esmaga). Este tempo único englobante, não se pode conceber ele senão à maneira da idéia kantiana, tentando-se, unicamente, transpondo uma indicação dada por Bergson, restituir fragmentos dele que sejam comuns a duas consciências (filosóficas) "suficientemente aproximadas umas das outras", para ter "o mesmo ritmo de duração" (Durée e Simultanéité 2, pág. 58); tais comparações, institui-las-á o historiador, sem levar, necessariamente, em conta o tempo histórico, entre pensadores cujo "comportamento" filosófico ofereça estruturas aparentadas. As pesquisas sobre as "formas de pensamento", ou "estudos arquitetônicos" vão nesse sentido. HES 17 – (pleroma – plenitude, totalidade dos poderes divinos) O autor menciona uma possibilidade de unificação dos tempos de diferentes sistemas apenas sob condições especiais. Para tanto, utiliza uma menção da
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“duração” de Bergson, um conceito de difícil aplicação, ainda mais em se visando uma aplicação metodológica. A duração possui sentidos como “o intervalo entre duas apreensões do espaço” e “uma noção de eternidade”. Entretanto, utilizar um conceito externo ao próprio desenvolvimento das idéias do presente texto, conferindo a este conceito a possibilidade de ser um elemento de unificação dos tempos que estão em discussão, torna o próprio texto vinculado ao seu ambiente. Goldschmidt cita Bergson, no que tange à passagem em que a duração é mencionada. Em outras palavras, as leituras efetuadas por Goldschmidt tornam-se relevantes na sequência de suas propostas, não sendo explicadas em seu texto, mas remetendo o leitor às referências originais. O seu texto, portanto, remete ao seu entorno, ou á sua biografia intelectual. No caso do texto de Goldschmidt, não se trata de compará-lo a outros textos similares, que possuem “durações” próprias e, através dessas durações, unificá-los. Nesse caso, o texto não se aplica à análise de Goldschmidt. Pode-se, como já foi mencionado, considerar tempos diferentes dentro do próprio texto, onde a leitura mista é sugerida, mas havendo momentos em que a leitura dogmática desponta como defendida.

2.18 - Goldschmidt 18:
O problema da verdade material dos dogmas, considerado em si mesmo, não está, com isso, resolvido. Mas, pelo menos, parece que não se pode ele colocar em si mesmo e separadamente; toda filosofia é uma totalidade, onde se juntam, indissoluvelmente, as teses e os movimentos. Esses movimentos, efetuando-se num tempo lógico, implicam memória e previsão; mesmo se eles se apresentam como rupturas, são feitos em conhecimento de
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causa; são decisões ("batalhas", dizia Descartes); o que, ao mesmo tempo, mede a coerência de um sistema e seu acordo com o real, não é o princípio de não contradição, mas a responsabilidade filosófica. HES 18 – Há uma assunção de que há aspectos não resolvidos na discussão efetuada. O princípio da nãocontradição não é indicado como relevante para a “medida” da coerência de um sistema, mas a “responsabilidade filosófica” seria relevante. O que seria esta “responsabilidade filosófica” não foi de fato definido, ficando sua interpretação ligada à “interpretação que o leitor fizer do texto apresentado”. Assim, discussões podem ser geradas em torno deste termo que, de certa forma, conclui o pensamento do autor sem comprometê-lo com algo conhecido, mas lançando essa conclusão no entendimento da “responsabilidade filosófica”. Acerca da filosofia ser uma totalidade, onde se juntam teses e movimentos, havendo rupturas “com conhecimento de causa”, havendo decisões, mostra uma proposta de fechamento poética, algo dramática. Mas ao agir assim, coloca ao leitor as rupturas e os movimentos com um “conhecimento de causa”, precisamente uma causa anteriormente refutada, ou colocada como não relevante ao desenvolvimento da ordem das razões do autor de um sistema. Assim, sem explicitar o que pretende com o “conhecimento de causa”, Goldschmidt dá um fechamento paradoxal ao seu texto, remetendo ainda, como já mencionado, os aspectos não resolvidos para uma indefinida “responsabilidade filosófica”.

2.19 - Goldschmidt 19:
É o que explica o recurso necessário, da parte do historiador, à obra assumida. Seja qual for o valor dos
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inéditos, eles não são, enquanto concebidos num tempo unicamente vivido, construídos no tempo lógico, que é o único a permitir o exercício da responsabilidade filosófica. Notas preparatórias, onde o pensamento se experimenta e se lança, sem ainda determinar-se, são léxis sem crença e, filosoficamente, irresponsáveis; elas não podem prevalecer contra a obra, para corrigi-la, prolongá-la, ou coroá-la; muito freqüentemente, não servem senão para governá-la, e, desse modo, falseá-la. Ora, o historiador não é, em primeiro lugar, crítico, médico, diretor de consciência; ele é quem deve aceitar ser dirigido, e isso, consentindo em colocar-se nesse tempo lógico, de que pertence ao filósofo a iniciativa. HES 19 – Uma conclusão específica do último parágrafo é: “o intérprete deve aceitar ser dirigido”. A conclusão mais geral do autor parece ser de que a obra estabelece uma “verdade inerente a ela”. Mesmo informações incompletas do autor não podem ser usadas, porque poderão falsear a obra pronta. Assim, o presente texto deve ser entendido, se aplicado a ele o método proposto, como contendo uma verdade em si. Não cabe ao intérprete mais do que ser dirigido. Nesse sentido, o texto apresenta-se como propondo um método dogmático e genético (ao mesmo tempo), mas seguramente defende o uso do método dogmático em passagens posteriores a esta afirmação. A leitura feita buscou inicialmente seguir o método misto. Os movimentos do autor foram seguidos (e comentados). O ambiente genético foi reconhecido, principalmente no tocante as suas referências bibliográficas e ao remeter a metodologia para fora do próprio texto, ao mencionar a duração de Bergson.

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De forma geral, o autor argumenta exemplificando com os textos que possuía à época. Suas idéias serão indubitavelmente lidas e, nesse ler, suas referências serão mencionadas. Nesse contexto de leitura, o autor teve uma inspiração independente da sua história, ou motivada pela sua história? O seu texto foi condicionado pelo momento vivido, mas a sua inspiração teria sido possível em outro momento? Sua construção (seu movimento) e sua conclusão seriam as mesmas em outro tempo? Talvez não, e, nesse caso, parece que a verdade pode ser talvez melhor aproximada em se considerando a análise dogmática em conjunto com a análise genética. Se, por outro lado, o movimento do texto não depender do autor, de seus conhecimentos aceitos, e puder ser entendido como detentor de uma busca de verdade que leva a mesma conclusão, independente de seus caminhos, então a análise puramente dogmática é possível. Entretanto, é necessário, antes, mostrar que um sistema independe do seu autor, que o autor não representa um vínculo entre o sistema e seu momento histórico e que o sistema se formaria mesmo na ausência daquele autor.

3 - Resumo e Considerações Finais
O texto comenta que o “movimento do texto” é o método do autor. A interpretação é reaprender. Mas, nessa definição de interpretação, esse reaprender depende do leitor, ou, em outras palavras, cada leitor reaprenderá a sua maneira, uma vez que cada leitor possui uma carga própria de conhecimento prévio que permitirá a apreensão das idéias do autor. Apesar de lançar a responsabilidade de “reaprender” sobre o leitor, subordina-se o método do leitor ao método do autor, que, por sua vez, estando vinculado ao autor, é um método próprio. A “tarefa” do leitor intérprete passa a ser definida
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como a restituição da unidade de um pensamento que inventa teses praticando um método. Utilizando outras palavras, o inventar remete imediatamente à capacidade criativa de cada autor. Essa capacidade é “pessoal e intransferível”, sendo, portanto, cada método criativo inerente a cada autor. Assim, então, parece que o leitor intérprete deve tentar entender o processo criativo do autor lido (o movimento do autor em seu texto). Pode-se questionar se isso é um método, uma vez que se trata de entender um método criativo pessoal a partir de uma leitura condicionada pelo reservatório de conhecimento pessoal do leitor. Nesse caso, é a postura do leitor que deve ser de subordinação. Valorizar a subordinação também pode induzir a se entender a proposta como a negação da possibilidade de interpretação com a emissão de um juízo. Nesse caso, é uma defesa de uma leitura que acompanhe incondicionalmente o sistema conforme proposto pelo autor. Mas essa defesa não precisa ser feita, se aceitamos que o sistema se aplica no contexto de seus contornos. Ele já existe segundo esses contornos, defendido pelo seu autor. Mas é a interpretação considerando causas e a possibilidade de justificação dos contornos aquela que permite ir além desses mesmos contornos e, portanto, gera a possibilidade de evoluir no pensamento de forma global. Alguns passos do texto são aqui resumidos e, eventualmente, analisados. 1 – O autor apresenta uma hipótese: há dois caminhos que podem ser seguidos pelo intérprete de sistemas: análise dogmática e análise genética. 2 – O autor vincula a análise dogmática a um tempo lógico e a análise genética ao tempo físico.

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3 – O autor explicita características da análise dogmática, com sua busca da verdade do autor, seu desvinculo do tempo real, colocando como regra (ao que parece) o estudo da "estrutura do comportamento" do texto, seu movimento, sua argumentação. 4 – O autor explicita que a análise genética retira incongruências derivadas da análise dogmática ao inserir o tempo e a evolução. 5 – O autor propõe um método ao mesmo tempo científico e filosófico. 6 – Resumindo radicalmente, parece que a consequência de uma análise puramente dogmática é que, dado um autor e os limites que ele impõe a seu sistema, o valor de verdade de suas conclusões é dado pelo sistema propriamente dito. 7 – Embora não se possa inferir isso imediatamente do texto, porque uma análise mais abrangente é necessária, parece que a análise inserida no texto do autor, ou no sistema estudado, vinculado aos seus contornos, torna os sistemas incomparáveis. Não se pode afirmar isso com a breve leitura efetuada. Assim, a leitura contínua deste texto e de comentadores deverá permitir concluir mais adequadamente acerca deste ponto. Em termos de ciência, entende-se que o momento histórico condiciona as propostas de um ou outro modelo, podendo haver correções e apresentações de modelos mais gerais, daí condicionados pelo momento histórico dessa nova apresentação. Mas geralmente os modelos científicos são entendidos como complementares, e não excludentes. A leitura do texto de Goldschmidt não transmitiu essa idéia de complementaridade aos sistemas filosóficos. Contudo fazse a ressalva aqui de que isso pode ser decorrente do
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aspecto pessoal do leitor: a sua biografia intelectual ainda pode estar necessitando de insumos que permitam atingir um reservatório de conhecimentos específicos que o habilitem ao reconhecimento da complementaridade, se assim de fato está expressa pelo autor. 8 – O texto de Goldschmidt se refere a outros autores, mostrando que há um conhecimento evolutivo utilizado na construção de suas idéias, conhecimento este gerado por outros autores. Nesse sentido, o texto mostra que uma idéia depende do meio no qual é gerada. Embora o autor mencione que a genética condiciona a Filosofia, mas não a constitua, a leitura efetuada pode conduzir à conclusão de que as análises dogmática e genética seriam interdependentes ou complementares. 9 – O autor não permite, entretanto, uma conclusão definitiva como aquela apresentada em 8. Suas últimas linhas mencionam um “conhecimento de causa” (anteriormente não considerado relevante) e remetem a uma “responsabilidade filosófica” indefinida a resolução do problema da “verdade material dos dogmas”. Tanto a “responsabilidade filosófica” como a “verdade material” são expressões apenas usadas em Goldschmidt 18, isto é, no final do texto. Esta menção tardia, sem vínculo com o texto propriamente dito, conferem mais “teatralidade” a este final, de certa forma frustrando o leitor honestamente interessado na discussão acerca da leitura a ser efetuada em textos filosóficos. 10 – Repetindo uma conclusão final já expressa desta forma, tem-se que, se o movimento do texto não depender do autor, de seus conhecimentos aceitos, e puder ser entendido como detentor de uma busca de verdade que leva a mesma conclusão, independente de seus caminhos, então a análise puramente dogmática é possível. Entretanto,
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é necessário, antes, mostrar que um sistema independe do seu autor, que o autor não representa um vínculo entre o sistema e seu momento histórico e que o sistema se formaria mesmo na ausência daquele autor. Uma análise do sincretismo entre o tempo histórico e o tempo lógico pode ser eventualmente elaborada a partir da aplicação da fórmula recorrente: “só se poderá aplicar Goldschmidt em Goldschmidt em havendo antes Goldschmidt”. Finalmente, menciona-se uma análise histórica (portanto genética) feita acerca de um texto de Nietzsche, no qual também despontam esforços de entender o movimento dado pelo autor mencionado às suas idéias. Entende-se que essa análise pode ilustrar a presente discussão. Ver Schulz (2011).

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4 - Posfácio:
O texto de Goldschmidt é interessante para leitura no contexto do Projeto Humanização como ferramenta de interesse de aumento nas exatas, porque visa discutir formas de leitura de sistemas no contexto filosófico. Isto conduz o leitor do texto a uma visão crítica acerca de si mesmo enquanto interagindo com textos filosóficos. Nesse sentido, o autor da presente análise também refletiu sobre a leitura essencialmente voltada á filosofia, que os textos dessa área merecem. Entretanto, mesmo sabedor de que há comprometimento da abrangência filosófica que poderia usufruir dos textos lidos, o objetivo inicial deste projeto deve ser mantido, sob a pena de dispersão e perda de coerência no esforço empreendido para adquirir ferramentas de transmissão de idéias complexas. Nesse sentido, no que tange à transmissão de sua idéia, Goldschmidt oscila entre uma proposta mista e uma (aparente) convicção de leitura dogmática. Por conseguinte, uma melhor clareza acerca daquilo que pretende com o artigo seria desejável. Também a conclusão, que remete a novas “teses” (se assim se pode dizer), ou idéias, quais sejam a da responsabilidade filosófica e da verdade material dos dogmas, emprestam uma indefinição na finalização da proposta. De forma geral a leitura é agradável e coloca a questão de que a análise genética não é suficiente no estudo de um texto. Isto é utilizável também para os textos científicos, onde o momento histórico condiciona, mas não impede o estudo da teoria proposta em seu universo.

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5 - Bibliografia:
Goldschmidt, Victor. Tempo histórico e tempo lógico na interpretação dos sistemas filosóficos: A religião de Platão. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1963. pp. 139-147. Texto indicado no curso de Filosofia e obtido de http://www.jcrisostomodesouza.ufba.br/goldsc.html Schulz, Harry Edmar. Nietzsche e a doutrina do objetivo da vida, Projeto Humanização como ferramenta de aumento de interesse nas exatas, 2011, Texto obtido de http://stoa.usp.br/heschulz/files/3255/18262/Nietzsche+e+a +doutrina+do+objetivo+da+vida.pdf

Imagem da capa: O tabuleiro de xadrez apresenta dois peões, peças de igual peso, representando o embate entre as duas visões colocadas por Goldschmidt. A dúvida que aparece em cada peão aponta para a incerteza acerca do método mais adequado.

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