A Agenda de Lisboa: uma via para a Modernização da Europa

Ricardo Abreu (14707) Sociologia da Modernidade
Mestrado em Estudos Sociais da Ciência
Este ensaio faz parte da avaliação do aluno em epígrafe para a unidade curricular de Sociologia da Modernidade. O ensaio é uma reflexão teórica sobre o contributo das políticas publicas europeias para modernidade contemporânea. A estrutura do ensaio pretende proporcionar ao leitor um entendimento de complementaridade dos conceitos de modernidade, tecnologia e Estado-Nação úteis no enquadramento da Agenda de Lisboa como caminho para a modernização da sociedade. Para o efeito é analisado três indicadores estratégicos: Emprego, I&D e crescimento económico.

ISCTE-IUL Junho 2012

Índice
Introdução ! A modernidade contemporânea: Principais autores ! A modernidade e o desenvolvimento tecnológico ! A modernidade dos Estados ! A Agenda de Lisboa e a modernização dos Estados-Membros! Notas conclusivas! Bibliografia! Anexos ! 1 2 5 7 8 11 14 16

A Agenda de Lisboa: uma via para a Modernização da Europa!

Soc. Modernidade

A Agenda de Lisboa a caminho da Modernidade Introdução
A modernidade e os efeitos desta tem percorrido muita tinta e controvérsias nas últimas dezenas de anos. São imensos os autores que se debatem por defender a sua tese de modernidade para a sociedade contemporânea. Neste ensaio é apresentado alguns desses autores principalmente os mais clássicos, aqueles que foram fontes de inspiração.

Este ensaio pretende abordar a modernidade num enquadramento das políticas públicas para a Europa. É sugerido que a Agenda de Lisboa, um programa estratégico de crescimento para a Europa, seja um instrumento para a modernização dos Estados-Nação compreendidos no projecto da União Europeia. Desta forma o ensaio é dividido em 4 capítulos que se complementam com o objectivo de conjugar os conceitos de modernidade e a estratégia da Agenda de Lisboa.

No primeiro capitulo é apresentado o conceito de modernidade na perspectiva de três autores fundamentais para este estudo. Karl Marx, mais conhecido pelo seu trabalho ideológico no manifesto comunista, mas com Friedrich Engel mostram uma visão da sociedade constituída por classes sociais distintas e divergentes nos seus objectivos finais. Uma sociedade dividida essencialmente por dois estratos sociais, a classe trabalhadora e os capitalistas.

Neste capitulo é também abordada a perspectiva de Émile Durkheim de uma modernidade objectiva e construída factos. Para este autor na sociedade os indivíduos competem entre si mas com um sentido de solidariedade. Esta solidariedade pode ser de dois tipos: do tipo mecânica e do tipo orgânica. Outro autor, outra visão de sociedade moderna é proposta por Max Weber, que propõe uma sociedade baseada na acção dos indivíduos e caracterizada por conceitos amplos a que designa de ideais-tipo.

No segundo capitulo do ensaio é proposto discutir a relação entre a modernidade e a tecnologia. Sendo a Agenda de Lisboa uma estratégia baseada na tecnologia disponível, este capitulo pretende enquadrar o fenómeno da tecnologia na modernidade. É realçado algumas teorias dos estudos sociais da tecnologia, nomeadamente as visões construtitivistas e deterministas de alguns autores relativamente à tecnologia. É ainda chamada atenção a visão de Andrew Feenberg do papel mediador da tecnologia na sociedade contemporânea.
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O terceiro capitulo encoraja o leitor a reflectir sobre as teorias do Estado no contexto da modernidade. É abordada em síntese as noções de Estado segundo Marx, Durkheim e Weber, culminando no conceito de Estado-Nação, descrito pelo sociólogo Anthony Giddens. Este conceito de Estado tem a sua importância no enquadramento da acção da Agenda de Lisboa nos diversos Estados-Nação que implementaram esta estratégia.

O último capitulo pretende apresentar a estratégia associada a Agenda de Lisboa e os seus principais objectivos. O ensaio não descreve em pormenor a origem e todos os objectivos desta estratégia Europeia, mas foca o seu interesse no trabalho fundamental da professora Maria João Rodrigues na criação e posterior análise das políticas da Agenda de Lisboa. É apresentado as principais orientações estratégicas e as fases de implementação estratégica, como também algumas criticas aos objectivos da Agenda de Lisboa.

Este ensaio não pretende fazer uma recessão critica ao projecto da Agenda de Lisboa, nem abordar todo o trabalho feito pelos diversos governos europeus. Este ensaio é uma reflexão teórica sobre a modernidade com o objectivo de a enquadrar nas políticas publicas europeias. A estrutura do ensaio pretende proporcionar ao leitor um entendimento de complementaridade dos conceitos de modernidade, tecnologia e Estado-Nação úteis no enquadramento da Agenda de Lisboa como caminho para a modernização da sociedade.

A modernidade contemporânea: Principais autores
A Modernidade está associada a fenómenos que respeitam à acção e estrutura da sociedade. E a sociologia é o campo científico que mais se aproxima a uma análise e interpretação destes fenómenos. São vários os autores que documentam esta analise e tomam para si opiniões divergentes e de consenso. São exemplo os trabalhos de Karl Marx e Friedrich Engel (Marx, 1968; Marx & Engels, 1970), Max Weber (Weber, 1983; Weber, Henderson, & Parsons, 1964) e Émile Durkheim (Emile Durkheim, 1970, 1984) que inspiram muitos pensadores e sociólogos da modernidade.

Os trabalhos de Marx reflectem a sua opinião disruptiva da sociedade contemporânea. É uma visão histórica da sociedade e sendo a modernidade uma transformação continua da sociedade. Porque a história é limitada a um conjunto de situações. É na mudança que o Homem encontra a capacidade de transformar por via da interacção entre a acção colectiva e as circunstancias históricas.
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Para Marx a base das estruturas sociais estão localizadas nas trocas de bens e serviços ao nível da produção. As forças de produção tem a capacidade de gerar riquezas por via essencialmente da capacidade laboral dos trabalhadores (força produtiva), pela disseminação de conhecimento, etc. E a organização da força de trabalho origina relações entre os Homens de âmbito social, político e económico. É sobre estas relações sócio-económicas que Karl Marx analisa e critica o sistema capitalista (Marx, 1996).

Para este sociólogo o capitalismo induz um elevado nível de stress entre as estruturas das forças laborais e de poder económico. Ou seja, entre dois tipos de poder ou classes sociais: o poder de quem coordena e o poder de que executa o trabalho (Giddens, 1993b). Enquanto a classe operária (proletariado) contribui para o aumento da riqueza da sociedade, as relações entre esta classe e os poderes do capitalismo (burguesia) não contribuem para alteração ou mudança, mas sim para desigualdades.

A visão de modernidade marxista é conotada por um conflito continuo entre classes sociais diferentes no sentido em que a suas relações sociais, económicas e políticas definem as transformações necessárias para o desenvolvimento e modernização das sociedades. Portanto podemos afirmar que a modernização da sociedade assenta na criação de riqueza por via do proletariado e que este deve ser o foco de interesse nas políticas publicas dos dirigentes. Políticas ao nível da educação, formação, emprego e rendimento.

Em contraposto á noção de classe social adjacente à teoria de modernidade de Marx. Emile Durkheim apresenta uma visão da modernidade baseada em factos. E explica que o os comportamentos e atitudes sociais dos Homens tem origem no conceito de competitividade entre os indivíduos. No entanto alerta para o facto que esta competitividade exige solidariedade entre os actores sociais para a estabilização e continuidade da sociedade.

Na sociedade de Durkheim existe dois tipos de solidariedade, aquela que assenta na semelhança entre o colectivo dos actores sociais, a que denomina por solidariedade mecânica. E por outro lado a sociedade apresenta também um tipo de solidariedade orgânica, que diz respeito à interdependência da divisão de trabalho. É precisamente através da divisão laboral que a competitividade se

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desenvolve e é por esta via que se diferencia e especializa (da Cruz, 2004a; Emile Durkheim, 1970) .

Para este sociólogo, a modernidade surge da dinâmica destes dois tipos de solidariedade. Reside na evolução de uma sociedade baseada na solidariedade mecânica para uma tipologia mais orgânica. Ou seja, a modernização da sociedade depende em muito do grau de especialização e diferenciação do mercado de trabalho e da força laboral (Emile Durkheim, 1984) .

Para ambas teorias retratadas anteriormente a modernidade é justificada por uma visão estruturalista da sociedade. Quer seja por uma divisão estrita de classes sociais, quer por uma divisão sistémica da prática laboral. Outros autores, como Max Weber, apresentam uma visão oposta á modernização estrutural. Este autor teoriza a modernização por via da acção consciente dos indivíduos representados na sociedade (da Cruz, 2004b) .

Weber relativiza a importância das ciências sociais concebendo-a como uma interiorização das normas e valores dos cientistas sociais. Contudo, afirma que existem correntes predominantes concebidas pelos cientistas que disseminam pela sociedade. Ou seja, é possível desenvolver conhecimento sociológico pela criação de modelos tipo, ou tipo-ideal, aceites por todos como conceitos universais. Para Weber existem 4 modelos tipo-ideal (da Cruz, 2004b): o modelo baseado na acção racional (por objectivos e valor) de caracter legal; modelo de acção tradicional assente na crença quotidiana; e o modelo de acção afectiva de domínio carismático.

Se considerarmos o Capitalismo como um tipo ideal segundo Weber, este é reflexo de uma acção racional com objectivos económicos e valores sociais partilhados por grande diversas nações e sociedades. O capitalismo, neste ponto vista, é um processo de racionalização económica que associado a uma ética protestante e calvinista incute um aspecto moral na obtenção do lucro económico (Weber, 1983). Para Weber a modernização é um processo de racionalização assente numa acção guiada por objectivos.

Nem sempre este processo de modernização é linear, por vezes opõem-se à própria razão. Na medida em que, na senda da eficiência os indivíduos tomam acções que ultrapassam a razoabilidade. Como é exemplo a burocracia, outro ideal-tipo, que pretende optimizar os processos

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mas por vezes esquece objectivos iniciais (Giddens, 1993b). No processo de modernização existe o perigo dos meios justificarem os fins.

Verificamos com estes autores contemporâneos três visões da modernidade antagónicas e complementares de uma sociedade capitalista heterogénea. Por um lado o capitalismo caracterizado por lutas de classes sociais, para um outro em que a solidariedade é fonte do progresso e por fim uma visão do capitalismo e modernidade orientada por processos de racionalização da acção dos indivíduos. Em suma podemos afirmar que a modernidade é um conjunto de transformações sociais que configuram a sociedade ao longo do tempo.

Estas transformações só existem pela acção dos diversos actores sociais, os indivíduos, as instituições e os governos que tem uma papel fundamental na construção social da modernidade. Em relevo este último que sob a égide de um estado implementa e coordena políticas que influenciam os comportamentos e atitudes dos restantes actores. O desenvolvimento da modernidade está implícito no próprio desenvolvimento do estado.

A modernidade e o desenvolvimento tecnológico
Quando abordamos a modernização das sociedades não podemos excluir a importância da tecnologia e inovação nas transformações sociais. Recordemos o impacto que a revolução industrial entre os séculos XVII e XIX teve nas sociedade ocidentais. A introdução da máquina a vapor, de maquinaria e de novos processos organizacionais permitiu a esta região do mundo atingir crescimentos de produtividade e riqueza nunca antes alcançado. O século XX foi também um período extraordinário para a inovação tecnológica. Da electricidade ao desenvolvimentos industriais na construção automóvel trouxe mobilidade às populações, o surgimento da microelectrónica permitiu aparecimento dos computadores. O início do século XXI foi marcado com a grande transformação social influenciada pelas tecnologia de informação e comunicação que elevou o grau de complexidade nas relações entres os indivíduos.

A tecnologia é um factor catalisador de modernidade e que afecta toda sua a infra-estrutura (Brey, 2004). Segundo alguns autores (Bijker, Hughes, & Pinch, 1987) a tecnologia é uma construção social, ou seja, o surgimento de novas tecnologias é feito com o envolvimento de diversos actores sociais que em conjunto com os artefactos tecnológicos produzem sistemas e estruturas técno-

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sociais. Nesta perspectiva podemos sugerir que a modernização é feita pela construção sóciotécnica das sociedades.

Os sistemas sociais modernos são sistemas sócio-técnicos em que a tecnologia é parte integrante da actividade das instituições sociais e agentes económicos (Brey, 2004). Podemos afirmar que a actividade social não se estrita somente ao resultado do comportamento do colectivos mas depende em muito da tecnologia utilizada nas transacções e relacionamentos sociais. As sociedades modernas são caracterizadas por uma transformação cultural influenciada pela tecnologia. Mesmo do ponto de vista do marxismo a tecnologia de produção é tida em conta, contudo como factor constrangedor à estrutura económica (idem, 2004).

Outra forma de perspectivar a relação entre a tecnologia a a sociedade surge por alguns autores como Heidegger, Marcurse e Ellul que teorizam a tecnologia como factor determinante para submissão da humanidade e racionalização da sociedade e cultura (Brey, 2004). O determinismo tecnológico assenta na base que a tecnologia é desenvolvida segundo uma lógica não influenciada por factores sociais mas que gera consequências sociais inevitáveis (idem,2004). Ou seja, as transformações tecnológicas são independentes da actividade social contudo têm um impacto na estrutura económica, social e cultural da sociedade.

Sem dúvida que a tecnologia é uma das maior fontes de poder publico nas sociedades modernas. As decisões do dia-a-dia são definidas por mecanismos associados a sistemas tecnológicos e dominados por sectores que exercem o seu poder na sociedade. Andrew Feenberg (Feenberg & Hannay, 1995) afirma que a tecnologia não deve ser perspectivada pela forma determinista ou neutral. Ele argumenta que o papel da tecnologia na sociedade moderna deve prevalecer como mediadora das diversas actividades sociais, como na produção, medicina, educação ou sector militar. O autor adianta ainda que em consequência mediação tecnológica a democratização da nossa sociedade requer também mudanças políticas.

Podemos conceber a sociedade contemporânea como uma definição particular da tecnologia com objectivos associados ao lucro e poder (Feenberg & Hannay, 1995). Para Feenberg (1995) numa visão mais ampla da tecnologia, um tipo de racionalidade societal pode ser interpretada com base na responsabilidade das acções tecnológicas em contextos humanos e naturais. A tecnologia pode

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assegurar mais do que um tipo de civilização tecnológica e ser incorporada em diferentes sociedades democráticas (idem, 1995).

A modernidade dos Estados
Para Karl Marx o Estado não é mais do que um instrumento para regular a sociedade capitalista a bem das classe dominantes. São estas que exercem poder sobre as classes trabalhadoras e definem o seu funcionamento (Marx & Engels, 1970). Para Emile Durkhein o Estado é o garante da coesão das suas populações e promove a moral e ética entre os cidadãos. Um Estado solidário deve assegurar os meios para que as suas populações cresçam e desenvolvam em ambientes de cooperação entre governantes e governados (E. Durkheim & Giddens, 1986). A visão de Max Weber do Estado assenta na capacidade de poder por via da acção social. Ou seja, por uma tipo burocracia civil, caracterizada por regras administrativas e legais a que podemos chamar política democrática (Weber, Roth, & Wittich, 1978).

Os Estados são a forma mais completa de organização da sociedade. Porque dele emanam a identidade e representação do seu povo que diferenciam dos restantes. O Estado é o garante da independência como do desenvolvimento da sua sociedade. Os Estados podem surgir com limitações territoriais e formas políticas de governação diferentes, uns com grande extensão de território, outros podem somente ser uma cidade. Cada Estado é governado por regras e políticas que asseguram a independência e o bem estar dos seus cidadãos. Num mundo globalizado o papel do Estado assenta na capacidade de competir para capacitar as suas populações com recursos suficientes para o seu bem-estar.

Consideramos a organização das sociedades modernas como Estado-Nação. E são definidos por possuir uma soberania, ou seja os governos exercem um poder total dentro das suas fronteiras territoriais. São constituídos por cidadãos que dentro da fronteira política e territorial possuem direitos e deveres comuns. O Estado-Nação é caracterizado ainda por tipo de nacionalismo caracterizado por símbolos e crenças que identificam a comunidade política desse mesmo EstadoNação (Giddens, 1993b).

Um Estado moderno usa todos os meios disponíveis para garantir a segurança, o bem-estar e o desenvolvimento do seu povo, da sua sociedade. Como já foi referido o uso da tecnologia é um factor determinante para a diferenciação entre Estados ditos modernos. A Educação, é um outro
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factor importante para o desenvolvimento de uma sociedade moderna. A Educação é uma forma de modernidade que envolve alunos e comunidade, é um centro de saber onde onde o conhecimento é criado, retido e reproduzido (Giddens, 1993a).

Com o advento da industrialização até aos nossos dias o trabalho tornou-se cada vez mais especializado. E a exigência do sistema de educação perante as necessidades das populações permitiu o desenvolvimento amplo de instituições de ensino, contudo esse mesmo ensino tornou-se mais abstracto, focando a sua atenção para as competências de leitura, escrita e calculo. Vários autores afirmam que a expansão do ensino, principalmente no século XX, permitiu reduzir as desigualdades entre os cidadãos, contudo a história demonstra o contrário ao longo deste último século (idem, 1993a).

A Europa eleva o esplendor da noção de Estado-Nação desde do tratado de Paris de 1958 em que nesta região do mundo foi estabelecido um mercado comum de transacções de bens entre os Estados-Nação que completam a União Económica Europeia (Giddens, 1993b). Mais tarde foi criada um tipo de união política que originou a designação de União Europeia (UE). Apesar das diferenças sociais, culturais e económicas entre as nações que integram a UE, os Estados-Nação são receptores de políticas económicas e sociais que têm o objectivo de estreitar os diferentes níveis de desenvolvimento.

A Agenda de Lisboa e a modernização dos EstadosMembros
Como definido anteriormente a modernidade é um processo de transformação social por via de diversas acções e actividades dos agentes e instituições sociais. A União Europeia defronta-se no final do século XX com emancipação da globalização estendida às regiões do Sul, nomeadamente a Asia. Em termos de competitividade económica a Europa confronta a capacidade científica e tecnológica dos Estados Unidos da América e do Japão e da produtividade desenfreada das economias Asiáticas.

O intitulado relatório “Paradoxo Europeu” de Dosi (Dosi, Llerena, & Labini, 2006) demonstra de facto o atraso da Europa na competitividade científica e tecnológica. Este relatório é peremptório ao afirmar que apesar dos países europeus liderarem a produção científica não conseguem transformar

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esse conhecimento acumulado em produção industrial e produtos inovadores. A responsabilidade cai sobre os sistemas científicos de investigação e numa indústria muito fraca.

Em Março de 2000 o Concelho Europeu reuniu-se para uma sessão extraordinária da qual surgiu uma nova estratégia para a competitividade europeia face ao mundo globalizado. Os objectivos desta estratégia assentava em três pilares fundamentais com um horizonte de implementação até 2010 (Europeu, 2000; Rodrigues, 2003): Um emprego forte, uma reforma económica e uma coesão social como parte integrante de uma sociedade e economia baseada no conhecimento. Tal como Maria João Rodrigues, fundadora desta estratégia, cita na sua análise uma das conclusões deste concelho (Rodrigues, 2009a): “the union has today set itself a new strategic goal for the next decade: to become the most competitive and dynamic knowledge-base economy in the world capable of sustainable economic growth with more and better jobs and greater social cohesion”.

Este esforço gigantesco para tornar a Europa uma região e força mundial assente numa sociedade e economia baseada em conhecimento e inovação, exige dos Estados-Nação europeus um rigor na implementação das estratégias e implicações ao nível dos indicadores comparativos. Desta forma foram criadas diversas orientações europeias para aplicação em políticas públicas de cada EstadoMembro (idem, 2009a): a) Elaboração de uma política para a Sociedade de Informação. Pretendia melhorar a qualidade de vida dos cidadãos por via das tecnologias de informação e comunicação em áreas como a gestão da saúde e urbana ou na educação e serviços públicos. Acções concretas na criação de redes de telecomunicações avançadas ou democratizar o acesso à internet. b) Criar uma política comum para a Investigação e Desenvolvimento com um intuito de estabelecer uma área de I&D europeu por via de programas cientifico-tecnológicos partilhados. c) Promover de uma política de inovação e propriedade intelectual com o objectivo de criar uma patente comunitária. d) Promover o empreendedorismo criando políticas nacionais que simplifiquem os processos administrativos, melhores regulações e acesso a capital de risco. e) Avançar com reformas económicas que promovam o crescimento e a inovação, que incentivem os mercados financeiros a suportar novos investimento. E uma liberalização total em sector mais protegidos pelos Estados.

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f) Definir novas prioridades para política nacional de educação. Um ensino aberto à sociedade e baseado em novas ferramentas como o multimedia e a internet. Iniciativas como o diploma Europeu ou o processo de Bolonha são exemplos destas políticas. g) Intensificar as políticas activas de emprego como a aprendizagem ao longo da vida, ou a promoção da igualdade de géneros. Sem descurar a sustentabilidade dos sistemas de segurança social deve ser reduzida a taxa de desemprego. h) Procurar a modernização do Estado Social Europeu com a convergência da idade de reforma com a idade activa das populações (esperança média de vida). i) Elaborações de planos nacionais que garantem a inclusão social, entre outros, planos para a educação, saúde e habitação. E também para grupos de risco como os idosos ou crianças. j) Implementação de políticas publicas para o desenvolvimento sustentável ambiental. Uma orientação que chega com Concelho de Estocolmo em 2001.

Esta agenda para um crescimento sustentável que colocaria a Europa no topo das economias mais competitivas e poderosas do mundo numa década tinha três fazes de implementação (Rodrigues, 2009a): Primeira fase que consistiu em transpor as conclusões deste concelho de Março em instrumentos políticos da União Europeia que por sua vez traduzidos para os Estados-Membros. Segunda fase, foi programada na avaliação intercalar de 2005. Esta fase consistiu em optimizar as relações de governança e aspectos financeiros entre as instituições europeias e consignados e novos Estados-Membros. A terceira fase, começou em 2007 com o objectivo de consolidar a agenda para 2010 e criar condições para a realização de um novo tratado Europeu, designado mais tarde por Tratado de Lisboa.

O Tratado de Lisboa vem proporcionar uma nova dinâmica entre os Estados-Membros. O seu propósito assentava em duas grandes novidades no processo de construção europeia (Lopes, 2007) : no método e nas políticas. No método por um sistema Aberto de Coordenação que permitiria desenvolver o mercado de trabalho por via de uma abordagem flexível que conjugava diversos eixos de acção como a cognição, a apreendizagem mútua e a coordenação de esforços. Nas

políticas liberais, proporcionando mais concorrência intra e inter Estados-Membros com o objectivo de crescimento económico. São reforçadas as políticas de emprego, de educação e formação profissional, de I&D e inovação.

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As criticas à implementação desta agenda de crescimento são diversas e oriundas dos diversos quadrantes políticos e ideológicos. Nem todos os objectivos forma atingidos, da análise da performance da implementação da agenda dos 28 dos objectivos 17 falharam ou não foram cumpridos até 2007. Penalizando sobretudo as acções para o desenvolvimento do mercado de trabalho e do ensino ao longo da vida (Rodrigues, 2009b).

Na revisão de 2005 os resultados não foram muito esperançosos, a Europa continuava a ter uma diferença elevada com as regiões mais avançadas do mundo. Por isso reviu-se os objectivos e os processos de implementação. E reduziu-se quase todos os indicadores quantitativos excepto o objectivo de atingir os 3% do PIB em Investigação e Desenvolvimento. Os processos de implementação das reformas no crescimento e emprego foram também reprogramados ao nível dos Estados-Membro (Johansson, Karlsson, Backman, & Juusola, 2007).

O relatório da Comissão Europeia, em 2010, relativamente à avaliação da Estratégia de Lisboa, revela as dificuldades em implementar esta estratégia. A taxa de emprego atingiu 66% em 2008 um crescimento somente de 4 pp. Apesar deste pequeno crescimento de emprego os mais pobres foram deixados de fora o que comprometeu os objectivos da inclusão social. A esta mesma data a despesa em I&D representava em média europeia de 1,9% do PIB face aos 1,82% em 2000. Contudo os mecanismos de Coordenação Mútua permitiu à Europa e aos seus Estados-Membros maior resiliência ao início da crise financeira de 2008. É um facto de que a Estratégia de Lisboa não estava preparada para bloquear a onda de crise que se espalhou por todo o globo.

Notas conclusivas
A modernidade pode ter diversas interpretações e análises. Mas uma certeza se impõe, é uma transformação social que movimenta as pessoas e estabelece dinâmicas institucionais na sociedade. A modernidade atinge o seu apogeu quando é interiorizada conscientemente pelos os actores sociais que actuam e relacionam-se com o objectivo de desenvolver o seu tipo de modernidade. Neste ensaio foi apresentado de forma sintética algumas perspectivas de modernidade que serviram de mote para enquadrar a Agenda de Lisboa no processo de transformação Europeia.

A Agenda de Lisboa consistiu em implementar uma estratégia política comum aos Estados-Nação pertencentes à União Europeia como objectivo de retirar a Europa do marasmo social e económico que vivia no final do século XX. Por via de instrumentos e objectivos específicos a Europa avanço
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para a grande transformação social dos últimos tempos. Podemos intuir que a estratégia da Agenda de Lisboa, mais tarde materializada no Tratado de Lisboa, é um processo de modernização da sociedade europeia.

Uma modernização que pretendia elevar a Europa a um estágio de evolução que permitisse afirmarse como uma economia baseada no conhecimento e uma sociedade inovadora. Como afirma Robert Lindley (Lindley, 2003) a sociedade do conhecimento procura a mudanças estruturais a longo prazo pela via da produção, dessiminação e utilização do conhecimento como fonte de riqueza e desenvolvimento. Acrescenta ainda que a sociedade de conhecimento não é resultado de um enquadramento teórico mas sim de uma maturação na evolução do capitalismo.

Os primeiros resultados da implementação da estratégia da Agenda de Lisboa não abonam para o sucesso desta transformação social. Como podemos verificar1
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nos dois indicadores de emprego e

despesa em I&D, os vários Estados-Membros tem desenvolvimentos diferentes. O objectivo de 70% de taxa de emprego só foi alcançado em 2008 por 9 dos 27 países e encontramos elevadas diferenças entre os países do norte e sul da Europa como também nos Estados-Membros mais recentes vindos do Leste Europeu.

No que respeita ao indicador de despesa em I&D o objectivo dos 3% do PIB só foi alcançado por dois países, a Suécia e a Finlândia. Verificamos um grupo considerável de Estados com níveis que não ultrapassam 1,5% e outro grupo que consegue ultrapassar metade do objectivo. Esta diferença entre os países do centro e norte e leste da Europeu demonstra a dificuldade em aplicar as orientações da estratégia e o Mecanismo de Coordenação Mútua.

No quadro indicador do crescimento económico podemos identificar o efeito da crise instalada em 2008 e verificar a quebra do crescimento do PIB a partir de 2009. Mais acentuado na Europa do que nos EUA, mas com uma recuperação prevista de maior valor nos EUA e Japão. O quadro demonstra o atraso da Europa relativamente a outras plataformas regionais nas últimas décadas e revela que no decénio 2000-2010 a taxa de crescimento entre alguns Estados-Membros é diferenciada apesar de estarem todos sobre a mesma estratégia de crescimento.

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Ver anexo A

Para efeitos deste ensaio o autor só analisa 3 indicadores: Emprego, I&D e Crescimento económico. Ricardo Abreu ©2012 ISCTE-IUL! 12/18

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Dados estes dados podemos sugerir que a transformação social e económica implícita na Agenda de Lisboa não foi implementada de igual forma pelos vários Estados-Nação membros da União Europeia. A modernização da Europa teve um caracter heterogéneo, cada Estado partiu de realidades diferentes e a implementação das orientações estratégicas tiveram diferentes implementações. Como afirma Samuel Eisenstadt (Eisenstadt, 2002) podem coexistir várias modernidades ou diferentes níveis de modernidade. Nesta perspectiva temos que analisar os resultados da Agenda de Lisboa como um caminho para a modernidade num respectivo espaço temporal.

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Bibliografia
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Rodrigues, M. J. (2009b). The Lisbon Aenda: relative achivements and failures as of 2007. Europe, Globalization and the Lisbon Agenda: Edward Elgar. Weber, M. (1983). A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo (A. F. Bastos, Trans.): Editorial Presença. Weber, M., Henderson, A. M., & Parsons, T. (1964). The Theory Of Social And Economic Organization: Free Press. Weber, M., Roth, G., & Wittich, C. (1978). Domination. Economy and Society: CALIFORNIA UNIVERSIT.

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Anexos
Anexo A

Gráfico A1. Taxa de emprego na União Europeia 2000-2008. Objectivo Agenda de Lisboa

F Fonte: Comissão Europeia, SEC (2010) 114 final
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Gráfico A2. Despesa em Investigação e Desenvolvimento em %PIB. Objectivo Agenda Lisboa

Fonte: Comissão Europeia, SEC (2010) 114 final
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Quadro A1. Crescimento do PIB, Taxa anual média de variação.

Fonte: European Economy – Statistical Annex, Autumn 2011: 48-49
(1) 1960-91 D_W; (2) 1960-91 including D_W; (3) Former EU-15; 1960-91 including D_W * Provisório ** Estimado

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