JORNADA

A PERÍCIA PSICOLÓGICA NO DIREITO DE FAMÍLIA
21
DE MAIO DE

2007

PROMOÇÃO

JUSMULHER-RS

APOIO: EMA/AJURIS SPRGS CRP-07 ABMCJ SIPERGS

A J ORNADA “A P ERÍCIA P SICOLÓGICA NO DIREITO DE FAMÍLIA” FOI UM EVENTO PROMOVIDO PELO IBDFAM-RS E PELO JUSMULHERRGS, QUE OCORREU NO DIA 21 DE MAIO DE 2007 NO AUDITÓRIO DA AJURIS, RUA CELESTE G O B AT O , 229 E M P O RT O A L E G R E , C O M INSCRIÇÕES GRATUITAS AOS PARTICIPANTES, E QUE SE DESENVOLVEU EM TRÊS BLOCOS, CADA UM DELES
R E P R E S E N TA D O P O R U M A M E SA O N D E T R Ê S DIFERENTES GRUPOS DE CINCO CONVIDADOS DESENVOLVERAM OS TEMAS

“DO PERITO” E E S TA PU B L I C A Ç Ã O

“D O J UDICIÁRIO ”, “DO PERICIADO”.
T E N TA R E T R ATA R O S

CONCEITOS ALI EXPOSTOS DE FORMA A TORNAR PASSÍVEL SUA DIVULGAÇÃO E CONSULTA.

Palestrantes:

Ana Luiza Castro Delma Ibias Lucio Garcia Maria Aracy Costa Maria da Graça Corrêa Jacques Maria Inês Linck Maria Regina Fay de Azambuja Márcia Steffen Mônica Guazzelli Plínio Caminha de Azevedo Renato Caminha Rosa Magrinelli Silvia Tejadas Sonia Liane Reichert Rovinski Verônica Chaves

Coordenação: Ivone Coelho de Souza

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1 BLOCO - DO JUDICIÁRIO
COMPOSIÇÃO DA MESA

Ana Luiza Castro Maria Inês Linck Márcia Steffen Mônica Guazzelli Plínio Caminha de Azevedo

psicóloga juíza de direito psicóloga advogada juiz de direito

coordenadora relatora

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Mônica Guazzelli

A PERÍCIA EM DIREITO FAMÍLIA

DE

MÔNICA GUAZZELLI
Advogada Especialista em Direito de Família Mestre em Direito pela PUC/RS

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Mônica Guazzelli

I – NOÇÕES SOBRE PROVA PERICIAL

Antes de qualquer observação é preciso definir o que é e para o quê serve a produção de prova no processo. Assim, provar é investigar e demonstrar como ocorreu determinado FATO, confirmando sua exatidão. Ou seja, mesmo em um processo as questões de direito não são alvo de prova, pois esta se limita ao mundo fático. Vários são os meios de prova e a perícia ou a prova pericial, pode ser entendida como sendo qualquer trabalho de natureza específica. Pode haver em qualquer área, sempre onde existir a controvérsia ou a pendência. Sua origem é no interesse de pessoas litigantes, no interesse da justiça e no interesse público, podendo ser: arbitral, judicial, extrajudicial, administrativa ou operacional. As mais conhecidas são classificadas como sendo de natureza criminal, contábil, trabalhista e outras que, quando se necessite de constatação, prova ou demonstração, científica ou técnica, da veracidade de situações, coisas e fatos. Como sabido nos processos litigiosos diferentes são as provas que se podem valer as partes para formar o convencimento judicial. Basicamente se usa das provas documentais – trazidas aos autos- oitiva de testemunhas e das partes – o que se dá em audiência – e, em certos casos pode-se postular a realização de diferentes provas periciais, com exames e laudos mais específicos sobre determinado assunto. Assim a perícia – antes de tudo – é um dos meios de prova admitidos no processo judicial. No direito processual vigora o princípio da inércia da jurisdição, isto é, o juiz é inerte e só atua mediante a “provocação das partes”. Em geral o juiz não devassa, mas apenas verifica e analisa as provas trazidas pelos litigantes. Contudo, importa referir que também o próprio juiz poderá requisitar e determinar a realização de provas, mesmo 6

Mônica Guazzelli

que sem a provocação das partes, para que se sinta absolutamente seguro quanto a decisão que deverá dar ao caso. Veja-se que, por exemplo, mesmo que as partes não tenham requerido o juiz poderá fazer uma inspeção judicial ou determinar uma perícia. A orientação doutrinária mais recente é que o juiz, especialmente quando tratar de direitos indisponíveis - o que ocorre no direito de família em geral – tenha uma maior intervenção. O juiz pode não ser suficientemente apto a proceder pessoal e diretamente - a verificação e apreciação de certos fatos e – suas causas e conseqüências, precisando da atuação de entendidos na matéria. Este trabalho se apresentará ao juízo na forma de PROVA PERICIAL. Este requisito de especificidade é que determinará a necessidade – ou não – e, ou a conveniência - ou não- da realização deste tipo de prova.

II – OBJETO

DA

PERÍCIA

A perícia terá por fundamento a PERCEPÇÃO e CONSTATAÇÃO DE FATOS – os quais – na linguagem de Carnelutti – são fatos que devem ser percebidos e constatados por técnicos, pois necessitam de PERCEPÇÃO TÉCNICA, eis que exigem qualidades sensoriais especializadas e conhecimentos científicos e técnicos capazes de compreendê-los e distingui-los. Em Direito de Família um exemplo já clássico é o exame de DNA para determinar a existência ou não do vínculo biológico de paternidade. O qual precisa ser realizado através de perícia por especialistas em genética. Em casos como o exame de DNA, a perícia se limita em constatar o fato em si, mas há várias outras perícias – psiquiátricas e psicológicas, por exemplo – onde se conjuga não só a verificação do fato, mas a sua compreensão e apreciação, cumprindo ao perito, nesta hipótese, depois de informar quanto a existência do fato, emitir um parecer ou juízo 7

Mônica Guazzelli

no tocante a sua natureza, valor e importância ou, ainda, sobre suas causas e efeitos (presentes e futuros). Nestes casos é preciso tal valoração do experto, pois é ela que tornará o fato inteligível ao magistrado, o qual em tese é leigo no assunto específico. Percepção; Observação; Apreciação são momentos da Verificação. E a própria Interpretação dos fatos como apreciação que é – reclama prévia verificação. A perícia muitas vezes se resume na declaração de ciência de um fato, noutras é a declaração + a afirmação de um juízo, o que resume a interpretação técnica, que nos casos de perícia psicológica torna-se imprescindível. O que caracteriza a perícia é justamente a QUALIDADADE da declaração, posto que se trata de declaração de caráter técnico, isto é uma declaração técnica sobre um elemento de prova.

III – O PERITO / EXPERTO
Os peritos – que são as pessoas entendidas tecnicamente no assunto – vão fornecer a sua VERIFICAÇÃO + INTERPRETAÇÃO dos fatos através de um laudo ou parecer. O profissional no desempenho da função pericial deve considerar os efeitos em benefício da sociedade, propiciando bem-estar a todos que têm interesse no deslinde da controvérsia. As características de excelência moral, intelectual e técnica são condições essenciais para o encargo a ser confiado pelo Juízo. Dentre as principais qualidades que formarão o conjunto de capacitação do perito, temos como exemplo, a ética que conduz a um trabalho honesto e eficaz em decorrência de uma formação sadia do profissional. É acrescida também ao perito a capacidade de estar sempre atualizado, pesquisando novas técnicas e estar sempre preparado para a execução de trabalhos de boa qualidade. O principal lastro de sustentação da realização profissi8

Mônica Guazzelli

onal constitui-se basicamente pelo compromisso moral e ético do perito com a sua classe profissional e, consequentemente, com a sociedade.

IV – PERÍCIA JUDICIAL / EXTRAJUDICIAL
As perícias em relação ao processo podem ser JUDICIAIS ou EXTAJUDICIAIS – se for executada por ordem do juiz, de ofício ou a requerimento da parte dentro do feito, ou se realizada fora do processo por uma ou por ambas as partes e trazida para os autos. Os pareceres escritos trazidos pelas partes para corroborar alegações; ocorre com relativa freqüência na seara familiar e nestes casos o técnico funciona como um consultor da parte, e nessa condição seu parecer equivale a uma perícia extrajudicial – assemelha-se a um parecer emitido por um jurisconsulto. A perícia também pode ser realizada para ser aproveitada em processo futuro – quando se fala em perícia antecipada – ad perpetuam rei memoriam.

V – BREVES NOTAS CONCLUSIVAS
Nas disputas familiares é de grande importância a perícia psicológica até porque se está lidando com um ponto muito delicado do ser humano, representado pelo seu universo de relações mais íntimas. No processo, como se disse, o princípio é que o juiz é livre para ordenar a prova pericial, mas respeitando a necessidade e utilidade que a prova poderá trazer ao feito. Assim, as causas que envolvem direito familiar, justamente pela natureza dos direitos postos em julgamento, quase sempre indisponíveis, são justamente aqueles feitos em que o juiz pode e muitas vezes até deve, ante a omissão das partes, determinar a realização de prova pericial psicológica, pois a riqueza e abordagem que serão trazidas pelo experto darão ao caso outra visão, muitas vezes mais ampla e rica, o que com certeza dará ao magistrado mais subsídios para decidir o processo.

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Mônica Guazzelli

A família é um sistema único, onde entre os membros coexistem vários laços e uma enorme gama de afetos. Nem sempre estes afetos redundam em harmonia e quando ocorrem as crises, os profissionais da área psi são imprescindíveis para ajudar a compreender os dilemas que precisarão ser analisados e considerados pelo magistrado, para que a decisão judicial possa ser a mais justa possível, como se deseja.

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Plínio Caminha de Azevedo

PERÍCIA

É PROVA JUDICIAL?

PLÍNIO CAMINHA

DE

AZEVEDO

Juiz de Direito -

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Plínio Caminha de Azevedo

PERÍCIA
Diz o Código Civil de 2002:

É PROVA JUDICIAL?

DA PROVA
Art. 212. Salvo o negócio a que se impõe forma especial, o fato jurídico pode ser provado mediante: Vide art. 5º, XII e LVI, CF. Vide art. 136, CC/1916. Vide art. 332, CPC.
CONFISSÃO;

I-

Vide arts. 213 e 214, CC. Vide art. 136, I, CC/1916. Vide arts. 348 a 354, CPC.

II -

DOCUMENTO;

Vide arts. 107 a 109 e 215 a 226, CC. Vide art. 136, III, CC/1916. Vide arts. 364 a 399, CPC. Vide Lei 7.115/1983 (Prova documental). Vide Lei 7.116/1983 (Validade nacional das carteiras de identidade). Vide arts. 23 e 24, Lei 8.159/1991 (Política Nacional de Arquivos Públicos e Privados).

III -

TESTEMUNHA;

Vide arts. 227 a 229, CC. Vide art. 136, IV CC/1916. , Vide arts. 400 a 419, CPC.

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Plínio Caminha de Azevedo

IV -

PRESUNÇÃO;

Vide art. 136, V CC/1916. , Vide art. 335, CPC.

V-

PERÍCIA.

Vide arts. 231 e 232, CC. Vide art. 136, VI e VII, CC/1916. Vide arts. 18, § 2º, 420 a 439, 606, 607, 627, §§ 1º e 2º e 1.206, CPC. (...) Art. 231. Art. 232. Aquele que se nega a submeter-se a exame médico necessário não poderá aproveitar-se de sua recusa. A recusa à perícia médica ordenada pelo juiz poderá suprir a prova que se pretendia obter com o exame.

SEÇÃO VII
- DA PROVA PERICIAL (ARTIGOS 420
Art. 420.
A

439)

Art. 421.

A prova pericial consiste em exame, vistoria ou avaliação. Vide arts. 846, parte final, e 850, Código de Processo Civil. Parágrafo único. O juiz indeferirá a perícia quando: I - a prova do fato não depender do conhecimento especial de técnico; II - for desnecessária em vista de outras provas produzidas; III - a verificação for impraticável. O juiz nomeará o perito, fixando de imediato o prazo para a entrega do laudo. Caput com redação dada pela Lei nº 8.455, de 24.08.1992, DOU de 25.08.1992, em vigor quinze dias após sua publicação. Vide arts. 145, 331, § 2º, e 850, Código de Processo Civil. 13

Plínio Caminha de Azevedo

§ 1º

Vide art. 35, Lei nº 9.099/95 (Juizados Especiais). Incumbe às partes, dentro em 5 (cinco) dias, contados da intimação do despacho de nomeação do perito:
I - indicar o assistente técnico;

§ 2º

§ 2º Art. 422.

Art. 423.

Art. 424.

I-

II - apresentar quesitos. Vide arts. 276 e 426, II, Código de Processo Civil. Quando a natureza do fato o permitir, a perícia poderá consistir apenas na inquirição pelo juiz do perito e dos assistentes, por ocasião da audiência de instrução e julgamento a respeito das coisas que houverem informalmente examinado ou avaliado. com redação dada pela Lei nº 8.455, de 24.08.1992, DOU de 25.08.1992, em vigor quinze dias após sua publicação. O perito cumprirá escrupulosamente o encargo que lhe foi cometido, independentemente de termo de compromisso. Os assistentes técnicos são de confiança da parte, não sujeitos a impedimento ou suspeição. Artigo com redação dada pela Lei nº 8.455, de 24.08.1992, DOU de 25.08.1992, em vigor quinze dias após sua publicação. Vide art. 850, Código de Processo Civil. O perito pode escusar-se (art. 146), ou ser recusado por impedimento ou suspeição (art. 138, III); ao aceitar a escusa ou ao julgar procedente a impugnação, o juiz nomeará novo perito. Artigo com redação dada pela Lei nº 8.455, de 24.08.1992, DOU de 25.08.1992, em vigor quinze dias após sua publicação. Vide art. 850, Código de Processo Civil. O perito pode ser substituído quando: Caput com redação dada pela Lei nº 8.455, de 24.08.1992, DOU de 25.08.1992, em vigor quinze dias após sua publicação. Vide art. 850, Código de Processo Civil. carecer de conhecimento técnico ou científico; 14

Plínio Caminha de Azevedo

II -

Art. 425.

Art. 426.

III Art. 427.

Art. 428.

sem motivo legítimo, deixar de cumprir o encargo no prazo que lhe foi assinado. Inciso II com redação dada pela Lei nº 8.455, de 24.08.1992, DOU de 25.08.1992, em vigor quinze dias após sua publicação. Parágrafo único. No caso previsto no inciso II, o juiz comunicará a ocorrência à corporação profissional respectiva, podendo, ainda, impor multa ao perito, fixada tendo em vista o valor da causa e o possível prejuízo decorrente do atraso no processo. Parágrafo único com redação dada pela Lei nº 8.455, de 24.08.1992, DOU de 25.08.1992, em vigor quinze dias após sua publicação. Poderão as partes apresentar, durante a diligência, quesitos suplementares. Da juntada dos quesitos aos autos dará o escrivão ciência à parte contrária. Vide art. 850, Código de Processo Civil. Compete ao juiz: Vide art. 130, 421, § 1º, II, e 850, Código de Processo Civil. indeferir quesitos impertinentes; formular os que entender necessários ao esclarecimento da causa. O juiz poderá dispensar prova pericial quando as partes, na inicial e na contestação, apresentarem sobre as questões de fato pareceres técnicos ou documentos elucidativos que considerar suficientes. Artigo com redação dada pela Lei nº 8.455, de 24.08.1992, DOU de 25.08.1992, em vigor quinze dias após sua publicação. Vide art. 850, Código de Processo Civil. Quando a prova tiver de realizar-se por carta, poderá proceder-se à nomeação de perito e indicação de assistentes técnicos no juízo, ao qual se requisitar a perícia. Vide arts. 202, § 2º, e 850, Código de Processo Civil. 15

Plínio Caminha de Azevedo

Art. 429.

Para o desempenho de sua função, podem o perito e os assistentes técnicos utilizar-se de todos os meios necessários, ouvindo testemunhas, obtendo informações, solicitando documentos que estejam em poder de parte ou em repartições públicas, bem como instruir o laudo com plantas, desenhos, fotografias e outras quaisquer peças. (...) Art. 431-B. Tratando-se de perícia complexa, que abranja mais de uma área de conhecimento especializado, o juiz poderá nomear mais de um perito e a parte indicar mais de um assistente técnico. Artigo acrescido pela Lei nº 10.358, de 27.12.2001, DOU de 28.12.2001, em vigor três meses após sua publicação. Art. 432. Se o perito, por motivo justificado, não puder apresentar o laudo dentro do prazo, o juiz conceder-lhe-á, por uma vez, prorrogação, segundo o seu prudente arbítrio. (...) Art. 433. O perito apresentará o laudo em cartório, no prazo fixado pelo juiz, pelo menos 20 (vinte) dias antes da audiência da instrução e julgamento. Caput com redação dada pela Lei nº 8.455, de 24.08.1992, DOU de 25.08.1992, em vigor quinze dias após sua publicação. Parágrafo único. Os assistentes técnicos oferecerão seus pareceres no prazo comum de 10 (dez) dias, após intimadas as partes da apresentação do laudo. Parágrafo único com redação dada pela Lei nº 10.358, de 27.12.2001, DOU de 28.12.2001, em vigor três meses após sua publicação. O parágrafo alterado dispunha o seguinte: “Parágrafo único. Os assistentes técnicos oferecerão seus pareceres no prazo comum de 10 (dez) dias após a apresentação do laudo, independentemente de intimação.” * Parágrafo único com redação dada pela Lei nº 8.455, de 24.08.1992, DOU de 25.08.1992, em vigor quinze dias após 16

Plínio Caminha de Azevedo

Art. 435.

Art. 436.

Art. 437.

Art. 438.

Art. 439.

sua publicação. Vide art. 850 , Código de Processo Civil. (...) A parte, que desejar esclarecimento do perito e do assistente técnico, requererá ao juiz que mande intimá-lo a comparecer à audiência, formulando desde logo as perguntas, sob forma de quesitos. Vide arts. 452, I, e 850, Código de Processo Civil. Parágrafo único. O perito e o assistente técnico só estarão obrigados a prestar os esclarecimentos a que se refere este artigo, quando intimados 5 (cinco) dias antes da audiência. O juiz não está adstrito ao laudo pericial, podendo formar a sua convicção com outros elementos ou fatos provados nos autos. Vide arts. 131 e 850, Código de Processo Civil. O juiz poderá determinar, de ofício ou a requerimento da parte, a realização de nova perícia, quando a matéria não lhe parecer suficientemente esclarecida. Vide arts. 130 e 850, Código de Processo Civil. A segunda perícia tem por objeto os mesmos fatos sobre que recaiu a primeira e destina-se a corrigir eventual omissão ou inexatidão dos resultados a que esta conduziu. Vide art. 850, Código de Processo Civil. A segunda perícia rege-se pelas disposições estabelecidas para a primeira. Vide art. 850, Código de Processo Civil. Parágrafo único. A segunda perícia não substitui a primeira, cabendo ao juiz apreciar livremente o valor de uma e outra. STJ-201139) RECURSO ESPECIAL. ADMINISTRATIVO. SERVIDOR PÚBLICO. CONCURSO. EXAME PSICOTÉCNICO. CARÁTER SUBJETIVO. IRRECORRIBILIDADE DOS TESTES. ILEGALIDADE RECONHECIDA. 17

Plínio Caminha de Azevedo

1. Impossível a apreciação de violação de dispositivos constitucionais em sede de recurso especial. 2. No exame de recurso especial, não se conhece de matéria que não foi objeto de apreciação pelo Tribunal de origem, ausente assim o necessário prequestionamento. 3. Prequestionamento é o exame pelo Tribunal de origem, e não apenas nas manifestações das partes, dos dispositivos que se têm como afrontados pela decisão recorrida. 4. Embora reconhecida a legalidade do exame psicotécnico para a carreira de policial federal, é vedada sua realização de modo sigiloso e irrecorrível. 5. No que diz com a inexigibilidade da avaliação psicológica em razão de anterior aprovação em outro certame, a compreensão atual do Superior Tribunal de Justiça é no sentido da imprescindibilidade do aludido exame. 6. Recurso provido. (Recurso Especial nº 396002/RS (2001/01934420), 6ª Turma do STJ, Rel. Paulo Gallotti. j. 18.11.2003, unânime, DJ 30.10.2006).

TJSC-090569) DIREITO DE FAMÍLIA. PROCESSUAL CIVIL. AÇÃO DE GUARDA E REGULAMENTAÇÃO DE VISITAS. INSURGÊNCIA CONTRA A REALIZAÇÃO DE EXAMES TÉCNICOS DE CUNHO PERICIAL. INVIABILIDADE. PODER DISCRICIONÁRIO DO MAGISTRADO PARA AFERIR O MELHOR AMBIENTE CAPAZ DE PROPORCIONAR AO INFANTE PLENO DESENVOLVIMENTO. EXEGESE DO ART. 18

Plínio Caminha de Azevedo

130 DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL. PRETENSÃO DAS PARTES EM NOMEAREM ASSISTENTES TÉCNICOS. POSSIBILIDADE. INCLUSÃO DO ATUAL COMPANHEIRO DA GENITORA NOS ESTUDOS PERICIAIS RECOMENDÁVEL. RECURSO PROVIDO. 1. “Em procedimentos que têm por objetivo primordial a salvaguarda física, moral e psicológica da criança, conta o julgador com amplitude discricionária mais significativa para sublevar aspectos jurídico-formalísticos a fim de conferir maior segurança e eqüidade às decisões que proferir” (AI nº 2004.033800-4, de Ibirama). 2. Determinada a realização de estudo social, tomado este o caráter de perícia judicial ante a nomeação pelo juízo de especialistas que não fazem parte da equipe interprofissional, conveniente se faz, em respeito aos princípios do contraditório e ampla defesa, a intimação das partes para indicação de assistentes técnicos e apresentação de quesitos (arts. 420 e seguintes do Código de Processo Civil). (Agravo de Instrumento nº 2005.001485-3, 3ª Câmara de Direito Civil do TJSC, Itajaí, Rel. Des. Marcus Túlio Sartorato. unânime, DJ 15.12.2005).

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Plínio Caminha de Azevedo

A PROVA PERICIAL E A NOVA REDAÇÃO DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL
IVAN LIRA DE CARVALHO Juiz Federal Professor da UFRN Doutorando em Direito pela UFPE

I. II.

INTRODUÇÃO
(...)

A MODIFICAÇÃO DO PAPEL DO ASSISTENTE TÉCNICO.

O primeiro dos preceptivos a sofrer alteração com a lei nova foi o inciso III do artigo 138 do Código de Ritos. Dispunha a redação originária do prefalado inciso que os mesmos motivos ensanchadores do impedimento e da suspeição do Juiz (singular ou membro de Colegiado), do representante do Ministério Público não-parte na demanda, do serventuário da Justiça e do intérprete seriam também aplicáveis ao perito e aos assistentes técnicos. A nova dicção do Código de Processo Civil excluiu do rol dos passíveis de suspeição e impedimento o assistente técnico, reduzindo-o, ao que se depreende, a um mero colaborador da parte que o indicou, sem prejuízo de ser também visto como um eficaz colaborador do juízo (ainda que de forma transversa), no afã de atingir a verdade processual. A deliberada omissão do assistente técnico do elenco do artigo 138 do Código de Processo Civil está roborada, de forma explícita, na redação inovadora do artigo 422 do mesmo codex, que na parte final afirma que ditos auxiliares ‘são de confiança da parte, não sujeitos a impedimento ou suspeição’. Laborou acertadamente o legislador, ao impor esta revisão redacional do Código de Processo Civil. Com efeito, por ser pessoa geralmente da estreita confiança de um dos litigantes, não se lhe deve ser outorgado o mesmo status do perito judicial, este sim, um auxiliar precio20

Plínio Caminha de Azevedo

so do magistrado, que como tal deverá sempre exercer o encargo escrupulosamente e vinculado ao Judiciário por força de nomeação, sendo, por isso mesmo, afastado da missão opinativa quando sobre si pesarem motivos de impedimento ou de suspeição.

III.

O PERITO E O PROCESSO.

Havido para alguns doutrinadores como ‘sujeito secundário’ do processo, em face da sua configuração como auxiliar da Justiça (conforme MAURO CUNHA e ROBERTO G. COELHO SILVA, Guia para o Estudo da Teoria Geral do Processo, 1984, 122), o perito, ao dizer do artigo 146 do Código de Processo Civil, ‘tem o dever de cumprir o ofício, no prazo que lhe assina a lei, empregando toda a sua diligência’. Pode, inobstante, escusar-se do encargo, desde que por motivo legítimo. A escusa do experto tem prazo para ser apresentada: cinco dias, a contar da intimação de que foi escolhido para o encargo ou do aparecimento do motivo ensejador do impedimento ou da suspeição, sob pena de ser reputado como renunciado o direito de alegá-los. A vigente redação do parágrafo único do artigo 146 do Código de Processo Civil fixou, para a escusa do perito, um novo dies a quo: a intimação ou o impedimento ou a suspeição supervenientes ‘à referida comunicação processual’. Anteriormente, a suspeição e o impedimento ulteriores à intimação somente poderiam ser apresentados como base para a declinação do mister pelo perito, após a tomada do compromisso deste. Registre-se que o legislador perdeu, com a reforma em análise, excelente oportunidade para corrigir a omissão constatada no corpo do parágrafo único do artigo 146 do Código de Processo Civil, que apenas faz referência ‘ao impedimento’ como lastro para a escusa do perito, esquecendo elemento de igual importância interferidora na credibilidade do experto, que é a ‘suspeição’. Inobstante, como foi conservada, ao fim do texto, a expressa remissão ao artigo 423, e neste dispositivo está dito que o perito pode-se escusar ou ser recusado por impedimento ‘ou suspeição’, não resta dúvida que os dois motivos podem dar base à iniciativa do auxiliar pericial. 21

Plínio Caminha de Azevedo

IV.

FACILITANDO

A

PRODUÇÃO

DA

PROVA PERICIAL.

Inovação de grande relevo foi introduzida na produção da prova pericial com a substituição do absurdo texto do § 2º do artigo 421, que previa, em caso de pluralidade de autores ou de réus, a escolha do assistente técnico pelo voto da maioria, e em caso de empate, pela decisão da sorte. Agride ao bom senso a aparição da álea como instrumento processual, mormente em um sistema jurídico que consagra o monopólio do Estado na prestação jurisdicional, sendo tímidas as ‘delegações’ em sentido inverso (verbi gratia, O Juízo Arbitral - Código de Processo Civil, artigo 1.072, e Lei nº 7.244, artigo 25). THEOTÔNIO NEGRÃO já havia criticado com acidez: ‘Esta disposição não tem sentido, em face do sistema adotado pelo Código de Processo Civil. De acordo com o anteprojeto, os peritos eram indicados pelas partes. Justificava-se, portanto, o sorteio, quando houvesse pluralidade de autores ou de réus. O assistente técnico não passa, porém, de mero assessor dos litigantes: não é perito do juízo; e, assim sendo, inexiste razão para que cada litisconsorte não fique livre de indicar seu assistente técnico, especialmente no caso de interesses distintos ou opostos (argumento do artigo 509, caput)’ (Código de Processo Civil e Legislação Processual em Vigor, 1992, 274). Consoante o novo § 2º do artigo 421 do Código de Processo Civil, sempre que “a natureza do fato o permitir, a perícia poderá consistir apenas na inquirição pelo Juiz do perito e dos assistentes, por ocasião da audiência de instrução e julgamento a respeito das coisas que houverem ‘informalmente examinado’ ou ‘avaliado’” (grifei). Desnecessária, assim, a interferência presencial do Juiz na produção da prova técnica. Sequer a marcação de dia, hora e lugar para a realização da diligência é mais tarefa do magistrado, a teor da nova redação do artigo 427 do Código de Processo Civil. Suprimindo tais atributos, passou o artigo 427 a cuidar de tema mais importante, qual seja o de facultar ao Juiz a dispensa da prova pericial, desde que as partes, na inicial ou na contestação, apresentarem pareceres técnicos ou documentos suficientes ao esclarecimento das questões fáticas. Consagrada está assim a atividade saneadora do Juiz, 22

Plínio Caminha de Azevedo

independentemente da topografia processual, posto que, com esteio no mencionado artigo 427, exercerá mais confortavelmente a deliberação das provas que interessem ao desate da questão sub judice. Volvendo ao § 2º do artigo 421 do Código de Processo Civil, cumpre anotar que quando ali está permitida a inquirição do perito que houver examinado ou avaliado coisas, deve ser entendida a permissão, também, para que o experto seja perguntado sobre idêntica análise que porventura tenha desenvolvido em pessoas. Creio eu que houve imperfeição técnica na redação da norma, já que a produção da prova pericial é perfeitamente incidível nas pessoas, servindo como exemplo as que são apuradas em questões de Direito de Família.

V.

A DESNESCESSIDADE DO COMPROMISSO E A RESPONSABILIDADE PELA ATUAÇÃO DO PERITO.

Na redação antiga, dispunha o artigo 422 do Código de Processo Civil que os peritos e os assistentes técnicos seriam intimados a prestar, em dia, hora e local marcados pelo Juiz, o compromisso de bem cumprir o encargo que havia a eles sido cometido. A redação atual simplificou mais uma vez o processo, prescindindo o perito da assinatura do anacrônico termo de compromisso. Idem o assistente da parte. Já não era sem tempo a tomada de tão significativa providência legislativa, escoimadora de uma das célebres sandices que atravancam a marcha processual. O perito é havido como auxiliar da justiça, e ainda que seja serventuário excepcional e temporário (conforme CINTRA, GRINOVER e DINAMARCO, Teoria Geral do Processo, 1991, 184), máxime por exercer o encargo mediante remuneração (para uns, uma taxa; para outros, um preço público), não foge ao enquadramento de ‘particular em colaboração com o poder público’ (conforme MARIA SYLVIA ZANELLA DI PIETRO, Direito Administrativo, 1991, 308) ou mais precisamente de funcionário público, na amplitude conceptual do artigo 327 do Código Penal. Outro não era o desígnio do malfadado ‘termo de compromisso’ do perito e dos assistentes técnicos, senão o de vincular-lhes à atividade estatal judicante, sujeitando-se aos rigores disciplinares e penais 23

Plínio Caminha de Azevedo

em caso de tergiversação ou perjúrio. Mas, qual a necessidade do ‘termo’, se a própria lei prevê o sancionamento do experto que agir de maneira criminosa, levando inexatas informações ao processo? É indiscutível que ao exercer uma função pública (‘atribuição ou conjunto de atribuições que a administração confere a cada categoria profissional, ou comete individualmente a determinados servidores para a execução de serviços eventuais’ - HELY LOPES MEIRELLES, Direito Administrativo Brasileiro, 1990, 356), o perito configure-se como funcionário público e portanto está exposto às punições antevistas no artigo 147 do Código de Processo Civil, quais sejam a reparação civil dos prejuízos e a inabilitação, por dois anos, para funcionar em outras perícias. No que concerne ao encaixe do perito como funcionário público para efeitos penais (Código Penal, artigo 327), a matéria é pacífica, tanto em sede doutrinária como a nível pretoriano (conforme NELSON HUNGRIA, citado por JULIO FABBRINI MIRABETE, Manual de Direito Penal, 1991, 289, e Revista dos Tribunais, 640/349, 556/397, 569/ 376, 598/327; Revista Trimestral de Jurisprudência, 100/135; JUTACRIM, 69/552). Assim, se o perito, no exercício do seu mister, fizer afirmação falsa, ou negar ou calar a verdade, incorrerá no crime de falsa perícia (Código Penal, artigo 342) e sofrerá reclusão, de um a três anos, além de multa, desde que não se retrate oportunamente e as informações tenham potencialidade lesiva para desnaturar a distribuição de Justiça (Revista Trimestral de Jurisprudência, 107/134; e Revista dos Tribunais, 639/ 295). Além das sanções de natureza penal acima comentadas, é recomendável que o mau perito receba, também, o exemplamento do órgão administrativo incumbido de fiscalizar o seu exercício profissional (CREA, CRM, etc.). Se o perito, nessa condição, causar prejuízo a quaisquer das partes, responderá civilmente pelo seu agir, consoante dispõe o já citado artigo 147 do Código de Processo Civil. Mais fácil ainda será a repa24

Plínio Caminha de Azevedo

ração devida pelo perito, se tiver este sido condenado por falsa perícia (Código Penal, artigo 342), já que aí a indenização advirá em simples execução, precedida de liquidação. Em outro escrito, emiti opinião sobre o tema: ‘A liquidação da sentença condenatória criminal é feita por artigos (Código de Processo Civil, artigos 609 e seguintes), com a citação do executado para oferecer defesa (procedimento ordinário). Será aí apurado o montante da indenização e quem deverá recebê-la’ (Os Efeitos Civis da Sentença Penal Condenatória, Informativo ADV/COAD, 1992, 374). Por último, sendo o perito judicial um agente público, e tendo o seu agir dado azo ao prejuízo da parte, há base para que esta procure do Estado uma indenização, na conformação do artigo 37, § 6º, da Constituição Federal, bem assim do artigo 15 do Código Civil. Não é demais lembrar que, em casos tais, a responsabilidade do Estado é objetiva, já que ‘pouco importa para o prejudicado e para o bom Direito que o prejuízo tenha decorrido da culpa do funcionário ou da proclamada deficiência e insegurança do serviço público. O contribuinte, o usuário, paga para ter um serviço satisfatório e, se o serviço, por ser notoriamente falho e mal aparelhado, ocasiona um prejuízo inescusável, deve a administração pagar pelo dano, notadamente quando se tem em conta que a responsabilidade do Estado é objetiva, isto é, independe de culpa’ (MÁRIO MOACYR PORTO, Temas de Responsabilidade Civil, 1989, 148). A responsabilidade sem culpa do Estado tem inspiração ‘no risco e na solidariedade social’ (conforme JOSÉ AUGUSTO DELGADO, Responsabilidade Civil do Estado pela Demora da Prestação Jurisdicional, RF, 297/406; Associação dos Juízes do Rio Grande do Sul, 29/17, e RP, 40/147).

VI.

A SUBSTITUIÇÃO DO PERITO.

Dispunha o artigo 424 do Código de Processo Civil, em sua redação original, que poderia haver a substituição do perito ou do assistente, desde que estes carecessem de conhecimento técnico ou científico sobre a matéria em exame ou se, sem motivo legítimo, deixassem de prestar o compromisso. Atualmente, nada está regulado no que tange ao assistente e não mais será exigido o compromisso do perito, devendo este 25

Plínio Caminha de Azevedo

ser substituído se não reunir bagagem técnica ou científica sobre o tema examinado, bem assim se ‘deixar de cumprir o encargo no prazo que lhe foi assinado’ (inciso II). Nesta última hipótese, ‘o Juiz comunicará a ocorrência à corporação profissional respectiva, podendo, ainda, impor multa ao perito, fixada tendo em vista o valor da causa e o possível prejuízo decorrente do atraso no processo’.

VII. O LAUDO

E OS

PARECERES. PRAZOS.

Sobre o ‘atraso no processo’, é bem de ver que foi modificada a redação do artigo 433 do Código de Processo Civil, restando facultada ao Juiz a marcação do prazo para a entrega do laudo pericial em Cartório, pelo menos 20 dias antes da audiência de instrução e julgamento. Duas destacadas modificações foram introduzidas na produção da prova pericial pelo parágrafo único do prefalado artigo 433. A primeira diz respeito ao vocábulo usado para definir a peça informativa confeccionada pelo assistente técnico: ao invés de laudo, como dizia o dispositivo derrogado, chama-se agora de parecer, patenteando assim a intenção do legislador de excluir o assistente técnico da relação dos auxiliares da Justiça, para enquadrá-lo como ajudante da própria parte, às expensas desta, que tal qual um jurisconsulto emite uma opinião a pedido do litigante que com ele tenha contactado. Aliás, já era como mera ‘alegação da parte’ que a jurisprudência encarava o laudo extemporâneo apresentado pelo assistente técnico (1º Tribunal de Alçada Civil de São Paulo, Jurisprudência ADV/COAD, 1991, verbete nº 55.257). Era o gérmen do parecer agora consagrado na lei.
A segunda inovação trazida pelo novo texto do parágrafo único do artigo 433 do Código de Processo Civil é sobre o prazo para que os assistentes entreguem em juízo os seus pareceres.

É este de 20 dias; é comum; e correrá independentemente de intimação. O dies a quo deste prazo é a apresentação do laudo em Cartório, o que exigirá redobrada diligência das partes e dos seus respectivos advogados para evitar a preclusão, máxime em razão do prazo conferido ao perito ser de natureza judicial (marcado pelo Juiz, artigo 433, caput). 26

Plínio Caminha de Azevedo

VIII. CONCLUSÕES.
1ª) Com as modificações introduzidas no Código de Processo Civil, pela Lei nº 8.455, o assistente técnico é considerado um auxiliar da parte que o contactou para dele receber um opinamento acerca das questões técnicas ou científicas afloradas na sede da prova pericial. 2ª) O assistente técnico está expressamente excluído do rol das pessoas passíveis de suspeição ou impedimento no processo (Código de Processo Civil, artigo 422), não mais estando elencado no artigo 138 do Código de Processo Civil. 3ª) Para apresentar a sua escusa em não funcionar no processo, o perito tem o prazo de cinco dias, a contar da intimação de que foi nomeado ou do surgimento do fato novo ensejador do impedimento ou da suspeição. Não o fazendo nesse lapso, reputar-se-á renunciado o direito de argüir tais óbices. 4ª) Deveria o legislador de 1992 ter incluído na redação do artigo 146 a suspeição como causa autorizadora da escusa do perito em funcionar no processo. 5ª) Desde que compatível com a natureza do fato, é judicialmente válida a informação prestada em audiência, tanto pelo perito como pelo assistente técnico, acerca de fatos ou de pessoas que tenham sido examinadas por estes. 6ª) Se as partes oferecerem, no ajuizamento e/ou na defesa, pareceres técnicos ou documentos que bastem ao aclaramento da lide, o Juiz poderá dispensar a produção da prova pericial (Código de Processo Civil, artigo 427). 7ª) O perito e o assistente técnico não mais prestarão compromisso (Código de Processo Civil, artigo 422). 8ª) É permitida a substituição do perito se este carecer de base técnica ou científica, bem assim se deixar de cumprir o seu mister no prazo assinado. 9ª) O laudo do perito deve estar em Cartório no prazo fixado pelo Juiz até 20 dias antes da audiência de instrução e julgamento. 10ª) É chamada de parecer a peça de opinamento dos assistentes técnicos, e deverá chegar a juízo no prazo comum de 10 dias, a contar da entrega do laudo oficial.

27

Plínio Caminha de Azevedo

BIBLIOGRAFIA
1. ALVIM, Arruda e ALVIM PINTO, Tereza. ‘Manual de Direito Processual Civil’, 4ª edição, volume 2, São Paulo, Editora Revista dos Tribunais, 1991. 2. CARVALHO, Ivan Lira de. ‘Os Efeitos Civis da Sentença Penal Condenatória’, Informativo ADV/COAD, nº 34, Rio de Janeiro, 1992. 3. CINTRA, Antonio Carlos de Araújo; DINAMARCO, Cândido Rangel; e GRINOVER, Ada Pellegrini. ‘Teoria Geral do Processo’, 8ª edição, São Paulo, Editora Revista dos Tribunais, 1991. 4. CUNHA, Mauro e SILVA, Roberto Geraldo Coelho. ‘Guia Para o Estudo da Teoria Geral do Processo’, Porto Alegre, Sagra, 1984. 5. DELGADO, José Augusto. ‘Responsabilidade Civil do Estado pela Demora da Prestação Jurisdicional’, in Associação dos Juízes do Rio Grande do Sul, volume 29, Porto Alegre, 1983. 6. GRECCO FILHO, Vicente. ‘Direito Processual Civil Brasileiro’, 5ª edição, volume 2, São Paulo, Saraiva, 1992. 7. MEIRELLES, Hely Lopes. ‘Direito Administrativo Brasileiro’, 15ª edição, São Paulo, Editora Revista dos Tribunais, 1990. 8. MIRABETE, Julio Fabbrini. ‘Manual de Direito Penal’, 5ª edição, volume 3, São Paulo, 1991. 9. NEGRÃO, Theotônio. ‘Código de Processo Civil e Legislação Processual em Vigor’, 22ª edição, São Paulo, Malheiros, 1992. 10. PIETRO, Maria Sylvia Zanella di. ‘Direito Administrativo’, 2ª edição, São Paulo, Editora Atlas, 1991. 11. PORTO, Mário Moacyr. ‘Temas de Responsabilidade Civil’, São Paulo, Editora Revista dos Tribunais, 1989. 28

Plínio Caminha de Azevedo

A PROVA PERICIAL

NO

PROCESSO CIVIL

FRANCISCO MAIA NETO
Engenheiro Advogado Ex-presidente do Instituto Brasileiro de Avaliações e Perícias de Engenharia

Ao proferir a palestra de abertura do Congresso Extraordinário da Union Panamericana de Associaciones de Valuacion (UPAV), ocorrido em São Paulo, no ano de 1997, concomitantemente ao IX Congresso Brasileiro de Engenharia de Avaliações e Perícias (COBREAP), o ministro Carlos Mário da Silva Velloso, do Supremo Tribunal Federal, classificou a perícia como a “rainha das provas”, o que demonstra sua importância como instrumento probatório. Nossa análise da situação da perícia no processo civil inicia-se no Código de 1939, que previa a nomeação de um perito da livre escolha do juiz, permitindo a indicação pelas partes de assistentes técnicos, que poderiam acompanhar os trabalhos do perito e impugnar as conclusões trazidas em seu laudo, e segue a alteração, três anos depois, pelo Decreto-Lei nº 4.565, determinando que o juiz nomeasse o perito somente na hipótese de as partes não chegarem a um consenso sobre a escolha de um nome comum. Em 1946, surge outra alteração no texto legal, dessa vez consagrando a figura que vigorou até a publicação do Código de Processo 29

Plínio Caminha de Azevedo

Civil de 1973, do perito desempatador, que só era nomeado caso as partes não indicassem um perito comum, ou, na hipótese de cada parte indicar o seu perito, se as conclusões não satisfizessem o juiz, o que invariavelmente ocorria, pois eles transformavam-se em “advogados de defesa” das partes que os haviam indicado. A mudança introduzida pelo Código de 1973 retroage ao dispositivo previsto no Código de 1939, inovando apenas no que se referia a determinados requisitos exigidos dos assistentes técnicos, no tocante à sua imparcialidade, pois, ao contrário da concepção anterior, estes não eram mais os auxiliares da parte que os indicava, mas, antes de tudo, auxiliares do juiz. Essa foi a sistemática adotada até a edição da Lei nº 8.455, ocorrida em 1992, que retirou essas características, uma vez que o assistente técnico, na prática, nunca pautou pela imparcialidade, pois ninguém contratava um profissional senão com o intuito de demonstrar o acerto de suas posições, baseado nos elementos técnicos obtidos. O assistente técnico é o auxiliar da parte, aquele que tem por obrigação concordar, criticar ou complementar o laudo do perito, por meio de seu parecer, cabendo ao juiz, pelo princípio do livre convencimento, analisar seus argumentos, podendo fundamentar sua decisão em seu trabalho técnico. Seguindo o processo evolutivo do instituto da perícia, no final do ano de 2001, com a edição da Lei nº 10.358, surgiram algumas novidades, ainda muito recentes, pouco assimiladas e sem um acervo jurisprudencial, o que nos leva a interpretações doutrinárias sobre o tema. A primeira alteração refere-se à nomeação do perito e indicação dos assistentes técnicos, com a possibilidade de o juiz nomear mais de um perito e as partes indicarem mais de um assistente técnico, sendo a interpretação corrente que esta nova prerrogativa refere-se a uma mesma categoria profissional. Em nosso entendimento, a previsão legal se mostrou incompleta, uma vez não existir determinação quanto à forma de realização da perícia, que se recomenda seja feita em conjunto pelos profissio30

Plínio Caminha de Azevedo

nais envolvidos, caso contrário poderão surgir antagonismos entre os próprios peritos e até mesmo entre os assistentes, o que dificultará a apreciação da prova, existindo algumas opiniões no sentido de que o juiz deveria desde logo nomear um deles coordenador da perícia. No que tange à possibilidade de indicação de mais de um assistente, ainda que o juiz tenha nomeado um só perito, o entendimento é de sua admissibilidade, cabendo unicamente à parte o ônus dessa escolha, cuja rejeição se enquadraria em cerceamento de defesa, assim como, inversamente, se o juiz nomear mais de um perito, a parte pode indicar somente um assistente técnico. Essa questão inclusive se torna mais evidente após a reforma constitucional que extinguiu as férias forenses nos meses de janeiro e julho, uma vez não existir mais suspensão de prazos, o que pode resultar em perda de prazo do assistente técnico na entrega de seu parecer, caso se encontre em férias quando da entrega do laudo pelo perito. A outra novidade refere-se ao termo inicial da perícia, ao determinar que as partes tenham ciência da data e do local designados pelo juiz ou indicados pelo perito para início dos trabalhos periciais. Com essa previsão, alguns profissionais incorreram em grave equívoco, ao entenderem que o perito seria obrigado a comunicar aos assistentes técnicos, quando na verdade a previsão legal obriga a comunicação aos advogados, pois são eles que representam as partes. Uma corrente entende que o perito deve apresentar petição ao juiz solicitando essa marcação ou até mesmo sugerindo a data e o local, o que não nos parece recomendável, pela notória demora que resulta no processo judicial. O procedimento que muitos estão adotando compreende o envio de carta via AR (aviso de recebimento) aos advogados das partes, comunicando, com antecedência, a data, que engloba dia e hora, e o local, não esquecendo de, por questões éticas, comunicar por fax ou telefone aos assistentes técnicos. A terceira e última alteração faz referência ao prazo de entrega do parecer pelo assistente técnico, fixado em até dez dias depois 31

Plínio Caminha de Azevedo

de intimadas as partes da entrega do laudo, e não mais independente de intimação, que levou alguns a confundirem o termo inicial com o protocolo, em clara ofensa ao princípio do devido processo legal. Uma dúvida que ainda persiste se refere à coincidência de prazos entre a vista ao advogado, cinco dias, e a entrega do parecer do assistente técnico, dez dias, podendo este último acontecer após o término do prazo para manifestação pelos advogados. Dessa forma, o que tem acontecido são os advogados peticionarem sobre o laudo pericial, reservando-se o direito de comentarem os pareceres dos assistentes técnicos após os respectivos protocolos.

32

Plínio Caminha de Azevedo

PERÍCIA É PROVA JUDICIAL?
DIZ O CÓDIGO CIVIL DE 2002:
TÍTULO V - DA PROVA

ART. 212. SALVO O NEGÓCIO A QUE SE IMPÕE FORMA ESPECIAL , O FATO
JURÍDICO MEDIANTE:
33

PODE

SER

PROVADO

Plínio Caminha de Azevedo

I - confissão; II - documento; III - testemunha; IV - presunção;

V - perícia. E
DIZ AINDA:

A RT . 231. A QUELE QUE SE NEGA A SUBMETER -SE A EXAME MÉDICO NECESSÁRIO NÃO PODERÁ APROVEITAR-SE DE SUA RECUSA. ART. 232. A
RECUSA À PERÍCIA MÉDICA ORDENADA PELO JUIZ PODERÁ SUPRIR A PROVA QUE SE PRETENDIA OBTER COM O EXAME

34

Plínio Caminha de Azevedo

E O CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL COMPLETA:
SEÇÃO VII DA PROVA PERICIAL (ARTIGOS 420 A 439)

ART. 420. A PROVA PERICIAL CONSISTE EM EXAME, VISTORIA OU AVALIAÇÃO.

O MINISTRO CARLOS MÁRIO DA SILVA VELLOSO, DO SUPREMO TRIBUNAL F EDERAL , CLASSIFICOU A PERÍCIA COMO A “RAINHA DAS PROVAS”, O
QUE DEMONSTRA SUA IMPORTÂNCIA COMO INSTRUMENTO PROBATÓRIO.

35

Plínio Caminha de Azevedo

O O

PAPEL DO

ASSISTENTE

ASSISTENTE TÉCNICO NÃO PASSA,

PORÉM, DE MERO ASSESSOR DOS LITIGANTES: NÃO É PERITO DO JUÍZO!

O LAUDO E

OS

PARECERES

Uma das modificações introduzidas na produção da prova pericial pelo parágrafo único do art. 433, diz respeito ao vocábulo usado para definir a peça informativa confeccionada pelo assistente técnico: ao invés de laudo, como dizia o dispositivo derrogado, chama-se agora de parecer, patenteando assim a intenção do legislador de excluir o assistente técnico da relação dos auxiliares da Justiça, para enquadrá-lo como ajudante da própria parte, às expensas desta
36

Plínio Caminha de Azevedo

No § 2º do artigo 421 do CPC, houve imperfeição técnica na redação da norma, pois quando ali está permitida a inquirição do perito que houver examinado ou avaliado coisas, deve a permissão ser entendida, também, para que o experto seja perguntado sobre idêntica análise que porventura tenha desenvolvido em pessoas, já que a produção da prova pericial é perfeitamente cabível nas pessoas, servindo como exemplo as que são apuradas em questões de Direito de Família.

OS RECURSOS
ZADOS NA

A

SEREM UTILIPERÍCIA

Art. 429. Para o desempenho de sua função, podem o perito e os assistentes técnicos utilizarse de todos os meios necessários, ouvindo testemunhas, obtendo informações, solicitando documentos que estejam em poder de parte ou em repartições públicas, bem como instruir o laudo com plantas, desenhos, fotografias e outras quaisquer peças.

37

Plínio Caminha de Azevedo

A QUESTÃO DA AMPLA DEFESA E DO CONTRADITÓRIO:
N ÃO
HÁ DÚVIDA SOBRE A NECESSIDADE DA PERÍCIA RESGUARDAR OS PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS CITADOS, CONFORME EXEMPLIFI-CAM INÚMEROS JULGADOS.

STJ- RECURSO ESPECIAL. ADMINISTRATIVO. SERVIDOR PÚBLICO. CONCURSO. EXAME PSICOTÉCNICO. CARÁTER SUBJETIVO. IRRECORRIBILIDADE DOS TESTES. ILEGALIDADE RECONHECIDA. 1. (...) 2. (...) 3. (...) 4. Embora reconhecida a legalidade do exame psicotécnico para a carreira de policial federal, é vedada sua realização de modo sigiloso e irrecorrível. 5. No que diz com a inexigibilidade da avaliação psicológica em razão de anterior aprovação em outro certame, a compreensão atual do Superior Tribunal de Justiça é no sentido da imprescindibilidade do aludido exame. 6. (...) (Recurso Especial nº 396002/RS (2001/0193442-0), 6ª Turma do STJ, Rel. Paulo Gallotti. j. 18.11.2003, unânime, DJ 30.10.2006). 38

Plínio Caminha de Azevedo

TJSC DIREITO DE FAMÍLIA. PROCESSUAL CIVIL. AÇÃO DE GUARDA E REGULAMENTAÇÃO DE VISITAS. INSURGÊNCIA CONTRA A REALIZAÇÃO DE EXAMES TÉCNICOS DE CUNHO PERICIAL. INVIABILIDADE. PODER DISCRICIONÁRIO DO MAGISTRADO PARA AFERIR O MELHOR AMBIENTE CAPAZ DE PROPORCIONAR AO INFANTE PLENO DESENVOLVIMENTO. EXEGESE DO ART. 130 DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL. PRETENSÃO DAS PARTES EM NOMEAREM ASSISTENTES TÉCNICOS. POSSIBILIDADE. INCLUSÃO DO ATUAL COMPANHEIRO DA GENITORA NOS ESTUDOS PERICIAIS RECOMENDÁVEL. RECURSO PROVIDO. 1. “Em procedimentos que têm por objetivo primordial a salvaguarda física, moral e psicológica da criança, conta o julgador com amplitude discricionária mais significativa para sublevar aspectos jurídico-formalísticos a fim de conferir maior segurança e eqüidade às decisões que proferir” (AI nº 2004.033800-4, de Ibirama). Determinada a realização de estudo social, tomado este o caráter de perícia judicial ante a nomeação pelo juízo de especialistas que não fazem parte da equipe interprofissional, conveniente se faz, em respeito aos princípios do contraditório e ampla defesa, a intimação das partes para indicação de assistentes técnicos e apresentação de quesitos (arts. 420 e seguintes do Código de Processo Civil).

2.

(Agravo de Instrumento nº 2005.001485-3, 3ª Câmara de Direito Civil do TJSC, Itajaí, Rel. Des. Marcus Túlio Sartorato. unânime, DJ 15.12.2005).

39

Maria Inês Linck

CONSIDERAÇÕES
RELATORA

DA

MARIA INÊS LINCK
Juíza de Direito - Titular da 1ª Vara de Família e Sucessões Foro Central - Porto Alegre

40

Maria Inês Linck

Ao participar deste bloco como revisora, coube a mim realizar um “fechamento” sobre as participações anteriores, passando a tecer as seguintes considerações: Certamente a perícia é um elemento assessor ao jurídico pois pode e deve ser utilizada sempre que a capacitação requerida pela situação não estiver inserida nos parâmetros daquilo que se pode esperar de um juiz médio, ainda que seja um juiz “moderno” (que investiga) como diz Dra. Mônica Guazzeli, que mitiga o princípio da inércia da jurisdição não esperando a provocação, podendo também determinar a realização da prova. Justifica-se a assertiva porque o magistrado não pode valer-se de conhecimentos pessoais, mesmo que de natureza técnica, para dispensar a prova pericial, uma vez que não pode ser dispensado o contraditório (há diversas decisões jurisprudenciais neste sentido). Os critérios utilizados para solicitar a avaliação confundem-se com os que foram identificados em relação à função assessora. O perito não dever trazer fatos para os autos, e sim opiniões técnico-científicas a respeito dos fatos, apresenta juízos especializados, é alguém da confiança do juízo e pode ser levantado contra ele as mesmas exceções de suspeição, impedimentos... que ao juiz. É por isso que os peritos atuam diretamente com as partes e a eles cabe entrevistar as pessoas. Quanto aos assistentes técnicos cabe mais a observação para posterior conferência. Sem dúvida, a perícia é prova judicial. Para o Dr. Plínio Caminha de Azevedo é a “Rainha das Provas”, porque trás segurança ao julgador e por isso é necessário que todos os “operadores do direito” atuem de modo efetivo, sanando dúvidas, quesitando para que os laudos contenham as impressões técnicas com os embasamentos necessários, tendo em vista a possibilidade de influenciar diretamente na vida dos en41

Maria Inês Linck

volvidos. É necessário também que os laudos periciais contenham propostas de encaminhamentos baseados nos fundamentos de seus juízos especializados e que atinjam efetivamente o seu objetivo, conclusivo conforme o instrumental utilizado, cabendo ao juiz a valoração da prova, a livre valoração da prova desde que fundamentado. Em um segundo momento, trago à discussão a questão do exame psico-pericial como ato de profissional que atua na área médica, especialmente área psicológica e ressalto aqui a possibilidade do perito agir com plena autonomia, pois enfrentei, ao jurisdicionar, questionamento sobre a possibilidade do assistente técnico participar (entrar na sala) da entrevista do perito do juízo com o laudeando e a negativa do perito oficial fundamentada na autonomia do profissional, neste caso um médico psiquiatra, por acarretar inibição ou constrangimento ao periciado. Conforme parecer do Conselho Federal de Medicina, (que é mencionado pois no caso em relato o perito era médico psiquiatra) é dever inalienável do perito para com o paciente exigir a privacidade do ato. Pondero que neste aspecto a filmagem prevista no “Depoimento sem Dano”” poderá resolver o problema. Sobre o assistente técnico, o Código de Processo Civil, após a reforma não atribui a ele a função de auxiliar do juízo e sim da parte, portanto, sequer participa da confecção do laudo e deve emitir parecer após examinar o trabalho do perito do juízo (artigo 433 § único). Há possibilidade de conferência com o perito oficial visando transparência dos trabalhos.

EM

CONCLUSÃO:

Se não houver objeção do perito é possível o juiz admitir a entrada do assistente técnico na sala de entrevista Caso houver objeção, deve prevalecer a autonomia do perito do juízo. Já existe acórdão recente referente a este tema e transcrevo a ementa do julgamento do Agravo de Instrumento nº 700.158.70397 - 5º Câmara Cível TJRS - Relator: 42

Maria Inês Linck

Desembargador Umberto Guaspari Sudbrack, 16 de agosto de 2006, por bem apreciar e resumir a matéria: AGRAVO DE INSTRUMENTO. PROCESSUAL CIVIL. PERÍCIA MÉDICA. AVALIAÇÃO PSIQUIÁTRICA. PRESENÇA DOS ASSIST E N T E S T É C N I C O S N A E N T R E V I S TA D E A VA L I A Ç Ã O . DESNECESSIDADE. OFENSA AO PRINCÍPIO DA AMPLA DEFESA. INOCORRÊNCIA. Caso em que o fato de os assistentes técnicos não poderem participar de entrevista que avaliará o estado psiquiátrico do autor não consiste em ofensa aos princípios da ampla defesa e do contraditório. Presença de outras pessoas, além do examinador e do examinado, no “setting” da entrevista, é rica fonte de inibições à espontaneidade das respostas do periciado. Possibilidade de apresentação de parecer autônomo de avaliação pelos assistentes técnicos, bem como de realização de conferência com o perito judicial, que confere total transparência aos trabalhos. AGRAVO DE INSTRUMENTO DESPROVIDO. (Agravo de Instrumento Nº 70015870397, Quinta Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Umberto Guaspari Sudbrack, Julgado em 16/08/ 2006).

43

2º BLOCO - DO PERITO
COMPOSIÇÃO DA MESA

Lucio Garcia Rosa Magrinelli Sílvia Tejadas Sonia Liane R. Rovinski

psicólogo relatora coordenadora psicóloga assistente social psicóloga

Maria da Graça Corrêa Jacques psicóloga

44

Maria da Graça Corrêa Jacques

ALGUMAS REFLEXÕES ACERCA DA PERÍCIA PSICOLÓGICA (E SOCIAL)

MARIA

DA

GRAÇA CORRÊA JACQUES

Psicóloga, Mestre em Psicologia Organizacional, Doutora em Educação, Pós-Doutora em Psicologia Social, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e conselheira do Conselho Regional de Psicologia do Rio Grande do Sul.

45

Maria da Graça Corrêa Jacques

Inicio minha exposição como debatedora deste painel registrando a minha satisfação em estar aqui compartilhando com vocês da discussão de um tema que vem sendo objeto de preocupação entre os diversos segmentos sociais envolvidos: a questão da perícia no âmbito das relações entre Psicologia e Direito. Entre a categoria dos psicólogos e no Sistema Conselhos de Psicologia o tema da perícia psicológica é uma discussão recorrente. No último Congresso Nacional de Psicologia onde se elegem as prioridades de atuação do Sistema Conselhos no próximo triênio, a Psicologia Jurídica recebeu, em um primeiro momento, 11 teses entre as 156 apresentadas, quais sejam: diálogo com a sociedade acerca da Psicologia Jurídica e fortalecimento das entidades representativas, ações para inclusão do psicólogo no Sistema Judiciário e na Segurança Pública, formação em Psicologia Jurídica, parâmetros para orientação e fiscalização do trabalho do psicólogo, avaliação psicológica na perícia e mediação. As teses sobre a avaliação psicológica na perícia se concentraram em três grandes eixos: a definição de parâmetros mínimos para a realização da avaliação psicológica, a aquisição pelo Sistema Judiciário do instrumental para aplicação de testes psicológicos e a conscientização dos psicólogos para respeitarem os diferentes códigos jurídicos, especialmente o Código Civil. No Rio Grande do Sul, a discussão no VI Congresso Regional de Psicologia levou a rejeição de 7 dessas 11 teses e a aprovação de 4 delas com alterações por julgá-las ou repetitivas, ou não condizentes com as atribuições do Sistema Conselhos ou por demandarem uma regulamentação sem uma maior discussão com os vários segmentos envolvidos. O Rio Grande do Sul encaminhou como proposta, entre outras, a abertura de espaços para debate a partir dos quais se possa propor parâmetros para a avaliação psicológica na perícia para posterior regulamentação. 46

Maria da Graça Corrêa Jacques

Na plenária final do VI Congresso Nacional ocorrida em Brasília com a presença de delegados das diferentes regiões do país e com o objetivo de definir as prioridades de atuação do Sistema Conselhos, 4 teses foram aprovadas referentes à Psicologia Jurídica, no eixo ‘Intervenção dos psicólogos nos sistemas institucionais’, quais sejam: Tese nº 115, Tese nº 117, Tese nº 121 e Tese nº 125. A Tese nº 115 propõe ações para inclusão do psicólogo nos Sistemas de Justiça e de Segurança Pública; a Tese nº 117 versa sobre a avaliação psicológica no âmbito da Justiça, especificamente, a proposição de ações que fomentem essa discussão e que sugerem condições a serem oferecidas pelo Sistema Judiciário para a atuação do psicólogo; a Tese nº 121, uma tese especialmente voltada para a Mediação; e, a Tese 125 que se refere a alguns encaminhamentos para a construção de referências quanto à prática do psicólogo nos Sistemas de Justiça e Segurança. O tema dessas teses nos informa qual vem sendo a preocupação dos psicólogos e quais as suas expectativas em relação ao Sistema Conselhos. Chama a atenção a ausência de referências explícitas a questões sobre a perícia psicológica, embora as proposições referentes à avaliação psicológica as englobem. Neste caso, as proposições encaminham tanto para ampliação da discussão no âmbito da categoria dos psicólogos como uma interlocução com os representantes do Sistema Judiciário, esclarecendo e reivindicando condições básicas para a atuação dos psicólogos neste campo. Portanto, esse espaço vem atender a essa expectativa como um espaço em que se possa debater o tema e se ampliar o diálogo para além das fronteiras da Psicologia. Celso Pedro Luft1, em seu Dicionário da Língua Portuguesa, define o verbo debater como “discutir, despertar, contender; agitar-se, estrebuchar-se.” Tal definição aponta, especialmente, para o sentido negativo do debate que eu espero não seja a tendência de leitura da minha intervenção. Ao contrário. Espero que minha apresentação seja compreendida enquanto exposição de um ponto de vista e que se transforme em um estímulo para o nosso diálogo.
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LUFT, C.P. Pequeno Dicionário da Língua Portuguesa. S.P: Scipione, 1987, p. 159.

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Tomo como ponto de partida a referência de Silvia Tejadas, expositora que me precedeu, sobre a necessidade de contextualização histórica e política da perícia social. Compartilho com sua argumentação e entendo que a construção de objetos de estudo e espaços de intervenção em Psicologia, assim como no Serviço Social, não são algo acima ou à margem da sociedade, mas componentes da própria sociedade em que se produzem, sujeitos aos limites do tempo e do espaço. O meu olhar retrocede ao Renascimento e a criação no mundo ocidental de novos conceitos sobre a natureza e a sociedade pautados nos grandes progressos das chamadas Ciências Físicas e Naturais de onde decorre a conclusão epistemológica de que métodos e procedimentos devem se estender a todo o domínio do conhecimento científico. A partir do século XVIII o grande debate que se instala é sobre a objetividade do conhecimento, sobre a problemática da Verdade e sobre a aproximação maior ou menor com o real. Edgar Morin2 se refere criticamente a esse pensamento hegemônico qualificando-o de “Ciência-Verdade-Absoluta”, “Ciência-Solução”, “Ciência-Farol”, “Ciência-Guia”. Michel Foucault3, também um dos seus grandes críticos, escreve: “No fundo da prática científica existe um discurso que diz: nem tudo é verdadeiro, mas em todo o lugar e a todo o momento existe uma verdade a ser dita e a ser vista, uma verdade talvez adormecida que, no entanto, está somente a espera da nossa mão para ser desvelada”. É nesse contexto histórico que a Psicologia nasce como uma ciência autônoma da Filosofia. Ancora-se, na constituição do seu objeto, na noção de indivíduo e no antropocentrismo que se instaura a partir das descobertas científicas e se apropria dos pressupostos das Ciências Físicas e Naturais no afã por reconhecimento. Inscreve-se como importante braço científico de consolidação da ordem social, como um dispositivo
MORIN, E. O despertar da razão. S.P Melhoramentos, 1986, p. 79. .: FOUCAULT, M. Microfísica do poder. R.J.: Graal, 1982, p. 113. 4 PATTO, M.H. Psicologia e ideologia. S.P Queiroz, 1987. .:
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cujas práticas se circunscrevem a prever e controlar, selecionar e orientar, nas palavras de Maria Helena Patto4. Constitui-se como ciência normativa, definidora dos padrões de normalidade e construtora de instrumentos de medida e quantificação do psiquismo. É nesse contexto histórico-social que a Psicologia fornece as ferramentas para a individualização dos problemas sociais referidos por Silvia Tejadas quando se refere à construção do Serviço Social como profissão em que ao atribuir-se ao indivíduo a responsabilidade pela situação vivenciada, deixa-se de vislumbrar as determinações que emanam da estrutura econômica, social, política e cultural. Tais fundamentos que se expressam na constituição da Psicologia como ciência e profissão, encontram na avaliação psicológica um terreno fértil enquanto um modo de legitimação fundamentada em princípios científicos a partir de uma concepção de ciência. A descoberta da “Verdade”, a aproximação com o “real”, a objetividade, balizam sua atuação. Da mensuração da sensação através de recursos fornecidos pela psicofísica, passando pela mensuração da inteligência e das aptidões, a Psicologia passa a avaliar características de personalidade ou, aspectos do psiquismo com nomes variáveis. E, ainda, sob uma perspectiva crítica, a avaliação psicológica, especificamente a perícia psicológica (assim como a social) pode se apresentar como um substituto científico à moral clássica, com reconhecimento social, pautada pelos valores hegemônicos de um determinado contexto sócio-histórico. Hilton Japiassú5 alerta para o risco da prática psicológica se submeter aos ditames de uma ideologia dominante de caráter regulador sempre que desvinculada de uma reflexão ética constante sobre o seu fazer e sobre o que está sendo feito com o produto do seu trabalho. O mesmo autor assinala que assim como o indivíduo da Idade Média tinha certa compreensão de si mesmo graças ao modelo explicativo e moral proposto pela Igreja, constata-se, hoje, o que se poderia chamar de “psicologização” em que a sociedade delega com freqüência
5

JAPIASSÚ, H.

Introdução à epistemologia da Psicologia. R.J.: Imago, 1982.

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à Psicologia poderes de determinar os lugares na sociedade e de resolver problemas sociais. Tal “psicologização” pode ser uma das explicações para a crescente demanda pela avaliação psicológica em determinados espaços como, por exemplo, o espaço jurídico em que a decisão de julgar e suas conseqüências objetivas e subjetivas são delegadas a um saber técnico externo ao saber jurídico. Daí a importância do apontamento de Sonia Liane Rovinski, também uma das expositoras que me precedeu, sobre o lugar do psicólogo e o lugar do juiz, que não se confundem. A função da perícia, em tese, é de ampliar as possibilidades de decisão do juiz, fornecendo elementos para seu convencimento. Porém, o que se percebe com mais freqüência é que o laudo pericial acaba por receber um valor maior a partir de uma concepção de “Ciência-Verdade-Absoluta”, “Ciência-Solução”, ciência que desvela a Verdade oculta e que determina as conseqüências daí derivadas. Tal tendência é interpretada por Silvana de Oliveira6 como uma das expressões da maior “judicialização” da vida cotidiana que no Conselho Regional de Psicologia se reflete como uma grande demanda por orientação e fiscalização. Tal demanda se reflete no significativo número de Resoluções do Conselho Federal de Psicologia pertinentes ao trabalho da perícia psicológica como bem apontou o primeiro expositor dessa mesa-redonda Lúcio Garcia. Também com uma posição crítica a esta tendência, Neuza Maria Guareschi7 pontua o quanto a Psicologia naturalizou como um dever seu responder a determinadas demandas oriundas de outros campos disciplinares, os quais, também arbitrariamente, julgam que a Psicologia é capaz de atendê-las. Há alguns registros históricos da intervenção do Estado para manter a ordem social vigente através do aparato jurídico e da aproximação com os métodos de avaliação do psiquismo. É o caso, por exemplo, do uso de provas psicométricas de inteligência como critério de emi6 OLIVEIRA, S. 7 GUARESCHI, N. 8 MASIERO, A. Psicologia e Justiça. Jornal Entrelinhas, CRPRS, ano VIII, n. 39, maio/junho de 2007, p. 8. Editorial. Jornal Entrelinhas, CRPRS, ano VIII, n. 39, maio/junho de 2007, p.2. “Psicologia das raças” e religiosidade no Brasil: uma intersecção histórica. Psicologia, ciência e profissão, ano 22, n. 1, p. 66-79, 2002.

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Maria da Graça Corrêa Jacques

gração nos Estados Unidos no início do século XX. Deve-se lembrar, também, a posição de Galton como um dos principais defensores da proibição de casamentos entre loucos, débeis mentais e alcoólatras para retardar o nascimento dos chamados degenerados8. O que se constata, hoje, é um aumento da demanda pelo poder judiciário dos conhecimentos e intervenções da Psicologia. Incorporar os questionamentos quanto a essa demanda não significa, necessariamente, concordar plenamente com a qualificação de Louis Althusser9 à Psicologia de modo geral (e a perícia psicológica em particular) como “técnicas humanas de adaptação” ou com Michel Foucault10 como “uma prática generalizada de perícia”. Implica em examinar criticamente a filiação a práticas de dominação, segregação, exclusão. Implica em avaliar como insuficientes as pesquisas e regulamentações sobre a dimensão técnica da perícia para dar conta da dimensão ética envolvida. Implica em reforçar a necessidade da reflexão crítica como uma constância no exercício profissional. É esse o papel do Código de Ética dos Psicólogos como foi apontado inicialmente por Lucio Garcia. Importante considerar que nenhuma profissão existe no vácuo, mas que se constrói a partir da atividade de diferentes pessoas que se apropriam dos conhecimentos produzidos. Estimular a reflexão contemplando as dimensões técnicas, sociais, políticas e éticas envolvidas é o papel dos órgãos de orientação e fiscalização do exercício profissional. Daí a importância de espaços como este em que se exercite a reflexão e o diálogo interdisciplinar sobre os limites, possibilidades e responsabilidades de cada exercício profissional, os lugares que ocupam, as éticas que promovem e os efeitos das práticas que efetivam. Este é também o papel do debatedor em cada mesa-redonda: incitar o diálogo e a reflexão a partir das exposições que a precederam, compreendendo o verbo debater no sentido de discutir e, principalmente, despertar.

9 ALTHUSSER, L. 10 FOUCAULT, M.

Ideologia e aparelhos ideológicos do Estado. Lisboa: Presença, 1974. As palavras e as coisas. S.P Martins Fontes, 1981. .:

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Sonia Liane Reichert Rovinski

A PERÍCIA PSICOLÓGICA DIREITO DE FAMÍLIA

NO

SONIA LIANE REICHERT ROVINSKI
Psicóloga do Tribunal de Justiça do RS, Especialista em Psicologia Jurídica (CFP), Mestre em Psicologia Social e da Personalidade (PUC-RS) e Doutora em Psicologia Clínica e da Saúde (Universidade de Santiago de Compostela).

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Sonia Liane Reichert Rovinski

Perícia, em uma concepção genérica, é o “exame de situações ou fatos relacionados a coisas e pessoas, praticado por especialista na matéria que lhe é submetida, com o objetivo de elucidar determinados aspectos técnicos” (Brandimiller, 1996, p.25). No caso dela ser solicitada na área do Direito de Família, terá como especificidade questões técnicas decorrentes das demandas típicas desta área que chegam aos agentes jurídicos para julgamento, ou seja, questões ligadas à adoção, guarda de filhos, separação, divórcio, entre outras. Os casos mais freqüentes encaminhados aos psicólogos que assessoram juízes das Varas de Família dizem respeito a avaliações relacionadas à disputa do poder familiar, no sentido de que este profissional possa auxiliar na definição da guarda e da regulamentação de visitas. Muitas vezes, estes casos chegam acompanhados de denúncias de maustratos e abuso sexual, podendo a demanda jurídica incluir, nestas avaliações, questões ligadas à possibilidade da destituição do poder familiar. Apesar desta temática, do poder familiar, ser a mais freqüente nos encaminhamentos das avaliações psicológicas, não chegam a esgotar o tipo de trabalho realizado pelos psicólogos na área do Direito da Família. Outras solicitações podem ser requisitadas como, por exemplo, a avaliação da capacidade laborativa em situações de separação, em que uma pensão ao cônjuge pode estar em jogo, ou a verificação das condições pessoais para responder por atos da vida civil (interdição). Esta última bastante freqüente para os técnicos da área da saúde mental, mas preferencialmente encaminhada aos psiquiatras por ser, quase sempre, subsidiada por diagnóstico de doença mental; ainda que os casos de deficiência mental deveriam ser rotineiramente avaliados por psicólogos, que possuem o instrumental necessário para a definição exata de tal transtorno. Considerando que os tipos de avaliações citadas podem 53

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envolver temáticas psíquicas muito diferenciadas, privilegiar-se-á como foco de discussão na apresentação desta mesa sobre perícias apenas aquela relacionada à questão do poder familiar, seja pela freqüência com que as solicitações chegam aos psicólogos ou, mesmo, pelos desafios éticos e metodológicos que suscita. Discutir o trabalho do psicólogo em perícias que envolvam decisões quanto ao poder familiar exige de início uma reflexão sobre as questões éticas envolvidas. Primeiro, é muito importante que o psicólogo tenha em mente os limites de seu trabalho técnico quanto à definição das capacidades parentais. Ainda que possa como técnico identificar patologias de vínculos entre pais e filhos, até identificar situações de risco à criança, não é compatível ao seu trabalho assumir um papel de julgamento, definindo em que momento um genitor deve ser dado como impedido para o desempenho de sua função parental. Esta decisão deve ser considerada como um “ato de julgamento”, pois envolve expectativas sobre os papéis sociais e a tolerância do grupo quanto aos limites da normalidade, sempre circunstanciado pela norma jurídica - aspectos todos pertinentes exclusivamente ao agente judiciário. Em outras palavras, é ao juiz que cabe o ato de julgar, sendo o psicólogo apenas um auxiliar da Justiça no sentido de fornecer informações pertinentes e suficientemente fundamentadas pela ciência. Este posicionamento traz repercussões diretas na maneira do psicólogo trabalhar e na forma de escrever seu informe ao judiciário. O técnico deve estar atento, a todo o momento, sobre o que seria resultante de seus achados técnico-científicos e o que seria decorrente de suas crenças sociais, envolvendo os valores de sua própria formação pessoal. Não cabe aqui discutir o quão intrincado pode ser a dinâmica destas forças na fundamentação do raciocínio clínico que deve ser descrito no laudo, na medida em que ciência e crenças sociais se constituem em uma verdadeira inter-relação na formação da sociedade e do próprio sujeito. Uma outra questão ética que diz respeito ao posicionamento do psicólogo frente aos genitores que está avaliando, no sentido de se colocar como aquele sujeito capacitado para decidir quem 54

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seria o “melhor” dos pais para ter o cuidado da criança. Neste sentido, Emery, Otto e O’Donohue (2005), em uma revisão crítica sobre avaliações psicológicas para custódia nos EUA, chamaram a atenção para cuidado que os psicólogos devem ter ao dirigir seu trabalho pela premissa existente nestas avaliações “do melhor interesse da criança”. Salientam que além desta máxima ser um conceito vago, predispõe a que se construa estereótipos de genitores “mais ou menos saudáveis” pela indicação na avaliação daquele com quem a criança estaria sendo melhor cuidada. Estes autores sugerem que o foco da avaliação deveria ser deslocado para uma nova proposta, a da “regra da aproximação”, onde se buscaria manter de forma mais aproximada possível a organização da rotina de vida da criança com a que ela tinha antes da separação dos pais. Deste modo, não se buscaria um arranjo familiar “ideal” para esta criança, com o genitor mais “saudável”, mas aquele que lhe trouxesse menores mudanças. É claro que esta regra só pode ser seguida se o arranjo familiar prévio à separação vinha atendendo as necessidades da criança. Ainda, segundo Emery e colaboradores (2005), as pessoas mais capacitadas para definirem esta “melhor” reorganização familiar seriam os próprios pais. Toda a organização judiciária deveria estar preparada para facilitar, desde o início do processo, que os pais mantivessem o poder de decisão quanto a como definir a guarda, através de atividades técnicas como a mediação. Antes que os genitores entrassem em litígio judicial deveriam ser alertados quanto aos prejuízos que um processo judicial litigioso poderia gerar aos filhos. Estudos têm provado de que mais do que o tipo de arranjo familiar posterior a separação (guarda compartilhada ou individual), é o processo de dissolução e a natureza das relações familiares que se constroem que influenciarão no sofrimento psíquico dos filhos. Um processo de mediação judicial, ou preferencialmente extrajudicial, através do estímulo dos próprios advogados para que os genitores cheguem a um consenso, evitando o ingresso de um processo de separação litigiosa, é ainda a melhor e mais durável solução para todos os membros da família.

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No Brasil, já temos alguns exemplos de atividades que são desenvolvidas pelos psicólogos com o objetivo de valorizar o poder familiar, são: atividades de orientação a advogados, antes do início do processo judicial, para que não se acirrem situações de litígio entre seus clientes, favorecendo a comunicação e o entendimento entre os mesmos (Polanczyk, 2002); atividades de mediação para a busca de soluções conjuntas entre os ex-cônjuges (Silva, 2003; Rivera et al., 2002); grupos focais de atendimento a famílias, com o objetivo de resolução dos impasses surgidos com o processo judicial (Silva e Polanczyk, 1998). De modo mais recente, a preocupação do próprio Conselho Federal de Psicologia em regulamentar a atividade de mediação como uma das atividades do Psicólogo. No entanto, a realidade também mostra que nem sempre os genitores estão disponíveis, ou possuem capacidade para chegar a um acordo sobre a definição da guarda e do estabelecimento das visitas. Os diversos motivos e sentimentos associados à ruptura da relação, as questões financeiras, e as próprias limitações na capacidade emocional de lidar com fatores de estresse, podem criar situações de impasse e até de risco à integridade da criança, sendo necessária a intervenção do judiciário. Para Emery e colaboradores (2005) as perícias ficariam indicadas sempre que houvesse indícios de violência familiar ou negligência, antes ou durante o processo de separação, e suspeita de doença mental em algum dos genitores, que poderia, da mesma forma, levar a condutas de maustratos aos filhos.

O CONCEITO

DE

COMPETÊNCIA PARENTAL

A perícia psicológica forense tem sempre por fim subsidiar decisões judiciais, por isso é fundamental, para que possa atender sua demanda, que o foco do trabalho seja bem estabelecido desde o início, através das questões formuladas pela justiça (quesitos). Estas questões, via de regra, versam sobre as capacidades parentais para gerir o bemestar dos filhos. Para Grisso (1986) o técnico deveria trabalhar sempre 56

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com a noção de “competências legais”, que extrapola conceitos desenvolvimentistas ou psiquiátricos específicos, para incluir descritores legais sobre os comportamentos esperados. Porém, o próprio autor reconhece sobre a dificuldade em se definir uma competência factual que pudesse descrever, em comportamentos objetivos, a capacidade esperada. A noção de competência pode variar não só de uma tarefa para outra, como do contexto onde os sujeitos se encontram inseridos. Da mesma forma, apresenta-se em um continuum ou em níveis, onde, por exemplo, determinada pessoa pode ser competente para cuidar de seu filho desde que receba o apoio de um programa social. Há autores que concordam que diagnósticos de pacientes com doença mental não devem dirigir a avaliação da competência (Melton et al., 1997; Grisso, 1986) . Reconhecem que os tribunais ainda tendem a julgar na base do “tudo ou nada”, por meio de diagnósticos médicos que não apresentam evidências comportamentais e psiquiátricas suficientes para fundamentar tal decisão. Em muitas circunstâncias, não apenas na discussão sobre a manutenção do poder familiar, doença mental, retardo mental, idade (muito jovem ou muito velho) e até mesmo deficientes físicos são utilizados como indicadores de incompetência geral, sem uma avaliação adequada da competência individual e contextualizada, extrapolando os limites das funções que devem ser avaliadas. Para Grisso (1986), um modelo conceitual para a avaliação pericial relacionada à noção de competência precisa iniciar o trabalho por uma análise da visão da lei sobre a competência em questão. No caso de destituição do poder familiar, no Brasil, deve-se citar não só o Estatuto da Criança e do Adolescente (que fala, ainda, em pátrio poder) para a construção de padrões de avaliação, como o próprio Código Civil (2002) no artigo 1.638, quando refere descrições do tipo “castigar imoderadamente o filho”, “deixar o filho em abandono” ou “praticar atos contrários à moral e aos bons costumes”. Se, por um lado, essa doutrina nos oferece uma orientação quanto ao que deve ser avaliado, continua a não explicitar o que 57

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significa em termos comportamentais o castigo, o abandono ou, de forma ainda mais significativa, os “atos contrários à moral e aos bons costumes”. Melton e colaboradores (1997) já haviam salientado, a partir de uma revisão da literatura, que, mesmo quando são descritos em estatutos, os padrões de abuso e negligência se apresentam vagos e imprecisos, sofrendo grande influência das crenças e valores morais dos técnicos avaliadores quando os colocam em prática. Uma forma de dirigir o trabalho, então, é buscar mediante análise de padrões relacionais, a compatibilidade entre as necessidades da criança e as potencialidades para o atendimento destas por parte dos pais. O conceito de competência legal exige que ela seja avaliada em seus aspectos funcionais e contextuais, que sejam feitas inferências causais sobre um possível déficit relacional e este analisado quanto a demanda existente. Assim, na realização da perícia, o conceito de competência requer que seja descrito o que um pai (ou mãe) pensa, faz, conhece e acredita, e do que ele é capaz de vir a fazer como agente cuidador. A presença de um diagnóstico mental só terá sentido nesse contexto se estiver diretamente relacionado à produção dessas condutas relacionais consideradas incapacitantes.

COMO AVALIAR

A

COMPETÊNCIA PARENTAL

A metodologia na avaliação de casos de guarda e regulamentação de visitas pode variar conforme as características de cada caso. No entanto, uma revisão sobre o assunto (Rivera et al., 2002) mostra que as propostas de intervenção apresentadas por diversos autores se mostram muito semelhantes. De maneira geral, espera-se que o psicólogo perito realize entrevistas individuais com cada progenitor para colher dados de história pessoal, da relação matrimonial e de sua relação com o filho. Ackerman (1999) sugere que a entrevista inicial deva começar com um convite para que a pessoa fale sobre os motivos que provocaram aquela avaliação. Sugere que o psicólogo fique atento a esta resposta inicial, pois, geralmente, terá grande importância clínica para o entendimento do caso. 58

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No decorrer das entrevistas de coleta de dados deverão ainda ser investigados aspectos referentes a: informações de sua família de origem (relações familiares, história de vínculos afetivos, etc.), história educacional, história de trabalho e adaptação atual ao trabalho, tratamento psiquiátrico ou psicológico prévio, outros problemas médicos, história de problemas com a lei (na infância, adolescência ou na vida adulta), problemas com o uso de drogas lícitas ou ilícitas, história de abuso sexual, história prévia da relação conjugal (a atual que se rompeu e anteriores se houver), situações especiais de estresse relacionado a si e a seus parentes mais próximos. Rivera e colaboradores (2002) acrescentam a necessidade de se colherem dados da relação com a criança. Esses dados envolvem a rotina de vida com o filho (quem cuida quando fica doente, quem leva à escola, etc.), dados da vida escolar, como manejam situações-problema, sistema punitivo e de obediência, hábitos de higiene, história médica, padrões de desenvolvimento desde o nascimento, sexualidade e hábitos de higiene, impacto da separação, sistema de visitas e problemas decorrentes. Após as entrevistas iniciais de coleta de dados deve-se partir para uma avaliação de personalidade de cada progenitor. Essa avaliação envolve a aplicação de instrumentos psicológicos para uma compreensão mais aprofundada do tipo de personalidade de um deles, com suas características relacionais. Rivera e colaboradores (2002) indicam a aplicação de testes de nível intelectual (WAIS) e de personalidade (MMPI). Ackerman (1999) também sugere o uso do MMPI, principalmente por suas escalas de controle, que demonstrariam a predisposição dos sujeitos em relação à avaliação e à testagem. Na realidade brasileira observa-se não se ter por rotina a avaliação intelectual dos pais em uma perícia de guarda, desde que não haja indicação específica para tal uso – como no caso de uma suspeita de deficiência mental. Shine (2003) corrobora com essa visão, dizendo que, em São Paulo, esses testes quase nunca são utilizados. Cita, como preferência dos psicólogos, o uso de projetivos gráficos, o TAT e o CAT (em crianças). Na experiência pessoal que se tem, observa-se que o MMPI (no 59

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momento inabilitado ao uso em nosso país) sempre contribuiu muito para a compreensão da personalidade dos pais, principalmente associado ao Método de Rorschach. Outro instrumento que tem se mostrado muito útil para este tipo de perícia é o Inventário Fatorial de Personalidade (IFP – Casa do Psicólogo, 1997), pois, além das escalas de controle (validade e desejabilidade social), oferece a possibilidade de construção de um perfil, com fatores que podem ser relacionados ao cuidado do filho (por exemplo, assistência, afiliação, agressão, ordem, entre outros). Por fim, pode-se ainda citar o Inventário de Estilos Parentais (Editora Vozes) que permite levantar as práticas educativas dos pais através de questionários aplicados aos genitores e à própria criança. Após a avaliação dos pais, deve-se proceder a avaliação da criança. Nesse caso, é importante considerar alguns aspectos. Da mesma forma como foi realizado com os pais, deve-se colher dados com a criança sobre sua rotina com cada um dos genitores, bem como de características do relacionamento. Ackerman (1999) sugere que se façam perguntas do tipo: como você se sentiria se o juiz determinasse que você fosse morar com sua mãe ... e se ele determinasse que você fosse morar com seu pai? Em hipótese alguma a pergunta deveria ser feita no sentido de “Com quem você quer morar?” Questões sobre rotina, métodos de punição ou recompensa podem ser feitas através de exemplos concretos do dia a dia. Outras questões também são importantes: que tipo de atividades seu pai e sua mãe fazem com você? Quem cozinha para você ou quem serve o café? Quem o leva para a escola? Quem vai à escola quando tem uma reunião de pais? Que atividades você faz com seus avós, tios, primos? Quem ajuda com os temas? Quem leva ao médico? Quais são as regras da casa e quem as cobra de você? Em uma análise sobre os testes mais utilizados na avaliação de crianças em casos de disputas de guarda no Brasil, Shine (2003) verificou o uso freqüente dos testes gráficos (HTP e Desenho da família) e CAT. Silva (2003) reforça a utilização dos testes gráficos, afirmando sua importância para aliviar as tensões em crianças que apresentam excesso de defesas internas em função do elevado nível de conflito em que se 60

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encontram inseridas. Acrescenta o uso do ludodiagnóstico, principalmente entre crianças muito pequenas ou que se encontram muito comprometidas emocionalmente. Em avaliações feitas por esta apresentadora, confirma-se a utilidade destes instrumentos, acrescentando-se, ainda, o Teste de Fábulas (CETEPP, 1993). É importante citar que todos os testes referidos por psicólogos brasileiros são para utilização em contextos clínicos e por isso devem ser utilizados com cuidado no momento de servirem para inferências na área forense. Considerando-se que a perícia sobre a definição de guarda e visitas valoriza fundamentalmente as condutas relacionais entre pais e filhos, é indicado pelos autores que, além das entrevistas individuais e aplicação de testes, se realizem entrevistas conjuntas entre pais e filhos (Melton et al., 1997; Rivera et al., 2002, Ackerman, 1999). Estas ficam apenas contra-indicadas quando há suspeita de abuso sexual ou quando existir nível muito elevado de ansiedade por parte da criança de defrontar-se com a figura paterna/materna. Rivera e colaboradores (2002) sugerem que, para favorecer maior espontaneidade, as entrevistas também possam ocorrer na casa dos periciados e envolvam situações que reúnam todos os filhos com determinado genitor. Por último, devem ser citadas as entrevistas com terceiros ou também chamadas de “contatos colaterais”, procurando caracterizar as entrevistas com outros que não fossem aqueles diretamente referidos como parte no processo judicial. Shine (2003), ao revisar este tema, discute a quem estar-se-ia se referindo como “terceiros”. Salienta que essas pessoas são, muitas vezes, da família e sempre próximas à criança – porque senão não teria sentido entrevistá-las. Muitas vezes, pode-se obter dados importantes ao entrevistar uma avó, tia, madrinha ou babá. O importante é que essas pessoas, chamadas para complementar a avaliação, estejam diretamente relacionadas ao problema e tenham informações pertinentes para prestar.

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A REALIZAÇÃO

DO

LAUDO PSICOLÓGICO PERICIAL

O laudo final apresentado pelo psicólogo deve descrever todos os dados levantados e relacioná-los com a questão da competência parental, finalizando com sugestões quanto à matéria legal que deu origem ao pedido de avaliação. No caso específico da avaliação de guarda de filhos, o processo de síntese dos achados exige que o perito psicólogo realize um “julgamento” quanto ao grau de incongruência entre as habilidades parentais e as necessidades da criança, pois, é a partir da identificação de compatibilidades e de incompatibilidades, que se realizarão as sugestões quanto às condições de exercer o poder familiar. Em alguns casos, pode-se chegar à conclusão de que a criança não estará segura com nenhum de seus progenitores, sendo necessário colocar junto às sugestões a falta de condições dos pais para o cuidado com a criança. Voltando a discussão inicial desta apresentação, cabe lembrar que a tomada de decisão quanto a retirada do poder familiar dos pais (ou de um deles), envolve um julgamento a partir de inúmeros fatores. O fator de maior importância é o grau de risco à criança que a sociedade tem interesse em considerar na relação com a interpretação dos direitos parentais e os limites da intervenção que esta sociedade pode tomar frente aos mesmos. A decisão da retirada do poder familiar é uma decisão em que o prejuízo que a criança possa sofrer justifica a intervenção estatal – frente a uma relação considerada única, quanto à intimidade e privacidade. Assim, decidir sobre a retirada do poder familiar excede a tarefa técnica do psicólogo, pois, envolve julgamento social e moral da maior gravidade. Cabe ao perito psicólogo apresentar evidências empíricas do bem-estar da criança, deixando a avaliação final para o juiz – quem em última instância responde por uma decisão que seja moralmente justificável. Avaliar o “melhor interesse da criança” não é só consi-

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derar o momento atual do nível de cuidados parentais frente a ela; é, também, fazer previsões sobre o efeito da retirada do poder familiar de seus pais em sua vida futura, quando, então, a relação já estará irremediavelmente danificada. Nesse sentido, no campo empírico e da moral, o psicólogo forense não deve ir além da descrição da relação entre estes pais e filhos, além de descrever ou oferecer opiniões sobre a situação imediata, as conseqüências previsíveis da retirada ou manutenção do poder familiar, evitando-se as especulações que os próprios dados não permitem. Conforme Portillo (1995), na discussão da ética do psicólogo na administração da justiça é importante que ele aprenda a dizer “não sei”, aprenda a reconhecer os limites de sua competência e de suas técnicas, procedendo com cautela no momento de suas predições. A avaliação da destituição do poder familiar é matéria complexa e exige uma abordagem interdisciplinar. A psicologia como ciência do comportamento pode e deve interagir nesse campo de forma a contribuir para a construção desse objeto de estudo que é o da competência parental; porém, deve respeitar as limitações de sua atuação no campo do empírico, conscientizando-se das implicações morais envolvidas nessa tomada de decisão. Mediante maior integração entre os agentes jurídicos, os psicólogos peritos e os demais técnicos avaliadores é que se poderão esclarecer os próprios parâmetros sociais e morais envolvidos nesse processo, não com o objetivo de eliminá-los, pois, são da própria essência do problema, mas de verificar sua coerência quanto ao grupo avaliador e à legitimidade social.

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Sonia Liane Reichert Rovinski

BIBLIOGRAFIA
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PORTILLO, J. U.

RIVERA, F. F., MARTÍNEZ, D. S., FERNÁNDEZ, R. A.; PÉREZ, M. N. Psicología Jurídica de la Familia: Intervención de casos de separación y divórcio. Barcelona: Cedecs, 2002. SHINE, S. A espada de Salomão: a psicologia e a disputa de guarda. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2003.

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Sonia Liane Reichert Rovinski

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Silvia Tejadas

NOTAS SOBRE A PERÍCIA SOCIAL

SILVIA TEJADAS
Assistente Social do Ministério Público do Rio Grande do Sul e docente do Curso de Serviço Social da ULBRA. Mestre em Serviço Social pela PUCRS e doutoranda do curso de Serviço Social da PUCRS.

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Silvia Tejadas

INTRODUÇÃO

O presente texto visa apresentar sintéticas considerações acerca da perícia social, que compreende o processo de trabalho do assistente social requisitado a oferecer assessoria à autoridade judiciária, em matéria do Serviço Social. Esta produção é decorrente de participação da autora em Seminário promovido pelo Instituto Brasileiro de Direito de Família, seção Rio Grande do Sul, o qual abordou a temática da perícia psicológica, sem deixar de dar visibilidade às produções e contribuição de outras área do conhecimento. Para tanto, situa-se a profissão desde elementos de sua trajetória histórica até sua conformação e perspectivas contemporâneas. Em seguida situa-se a perícia e o laudo social, sua estrutura e as implicações ético-políticas presentes. Ao final do texto, são tecidas ponderações em torno do direcionamento da prática profissional, sua intencionalidade e contribuição na garantia de direitos.

1 O SERVIÇO SOCIAL COMO

PROFISSÃO

O Serviço Social, originalmente, é uma profissão constituída em um contexto sócio-político onde a reprodução das relações sociais capitalistas permeava a intervenção profissional, resultando em um tratamento moral da questão social e na legitimação das desigualdades como naturais. Nesse processo histórico da profissão, evidenciou-se a alienação moral: reprodução acrítica de valores, assimilação rígida de preconceitos e comportamentos, o pensamento ultrageneralizador, a não aceitação do que não se adequa aos padrões de comportamento estereotipados como “corretos” (BARROCO, 2001). Na prática, o efeito da moralização da questão social 67

Silvia Tejadas

está em individualizar os problemas sociais, obscurecendo seu viés econômico e político. Assim, atribui-se ao indivíduo isoladamente a responsabilidade pela situação vivenciada, deixando de vislumbrar as determinações que emanam da estrutura econômica, social, política e cultural. A partir das décadas de 1970 e 1980 tem-se o fortalecimento de uma vertente crítica na profissão. Tendo por base o conhecimento da realidade, amparado em uma visão do homem como ser histórico e social, sujeito capaz de alterar as bases da sociedade capitalista que gera a exploração da maioria da população, os assistentes sociais atuam com base na competência técnico-operativa e teórico-metodológica, onde o instrumental profissional não é vazio, mas dotado de sentido e intencionalidade. O fazer do assistente social adquire forma a partir de um projeto ético-político-profissional que busca a garantia de direitos sociais, pautado por uma sociedade democrática, que tem na liberdade um valor fundamental. Parte-se do pressuposto de que o trabalho do Serviço Social se constrói pela sua dimensão política, o que segundo Martinelli (1994), compõe-se de: direção ética que compreende um caminho a ser seguido, mas não pode ser considerada pronta e acabada; trata-se de uma construção coletiva, ou seja, não pode preceder os sujeitos, mas é construída com eles; competência técnica que se configura na capacidade e condições de transformar a realidade no exercício cotidiano e político. O Serviço Social tem nas expressões da questão social o seu objeto de trabalho no sentido mais genérico. Esse objeto remete a que se identifique como a desigualdade econômica afeta a vida social dos sujeitos e quais as formas de resistência acionadas. A partir desse entendimento, tem-se o Serviço Social como uma disciplina do conhecimento, que atua no campo das desigualdades sociais, com uma natureza interventiva. Assim, trata-se de uma profissão que se propõe, além da análise da realidade, a intervir, tendo como direcionamento a materialização dos direitos civis, políticos e sociais. A operacionalização do objeto da ação parte da questão social generica68

Silvia Tejadas

mente tomada, buscando identificar suas expressões, ou seja, como se apresenta no cotidiano, no campo da mediação de relações do sujeito com o seu contexto social. A intervenção profissional deve articular dialeticamente o referencial teórico, o método e a metodologia que a norteia. Essas três dimensões devem oferecer uma visão de totalidade dos fenômenos sociais, entendendo-os como permeados por contradições e produzidos historicamente. Assim, as estratégias, instrumentos, técnicas, documentos e o produto da ação profissional, que compõem a metodologia do trabalho profissional, não devem ser percebidos como um fim em si mesmos. Devem estar balizados por um referencial teórico e por um método que ofereça o caminho da análise. É neste fazer profissional que se efetiva o trabalho profissional e, no campo judiciário, a demanda pela perícia social. Devese indagar: qual a base teórica que o profissional possui para efetivar este trabalho, qual o direcionamento que ele imprimirá ao fazer profissional?

2. A

PERÍCIA E O LAUDO SOCIAL

A Lei n º 8.662/1993 regulamenta a profissão e prevê no seu artigo quarto as competências do assistente social, dentre elas a realização de “estudos sócio-econômicos com os usuários para fins de benefícios e serviços sociais junto a órgãos da administração pública direta e indireta, empresas privadas e outras entidades”. Já no artigo quinto da mesma Lei estão previstas as atribuições privativas do assistente social, dentre as quais “realizar vistorias, perícias técnicas, laudos periciais, informações e pareceres sobre a matéria de Serviço Social”. Isto posto, deve-se ressaltar que a perícia em matéria de Serviço Social somente pode ser efetivada por profissional da referida área. Não é demais pontuar o óbvio, uma vez que ocorrem situações onde, especialmente nas cidades desprovidas ou com pequeno número de assistentes sociais, é solicitado a pessoas leigas, como conselheiros tutelares, a 69

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efetivação de perícias sociais. O laudo social, por sua vez, constitui-se em um documento elaborado pelo Perito Assistente Social, o qual é o resultado documental de sua intervenção profissional. O laudo deve conter: identificação das principais pessoas ou partes envolvidas no processo judicial; os dados mais importantes coletados junto a estas partes; as impressões do profissional; a análise do profissional e suas indicações para resolução do conflito judicial (ARAUJO, 2000). A parte inicial do laudo deve caraterizar as situações, dando relevo às relações e pessoas envolvidas no processo. Nesse momento, devem ser explicitadas as expressões históricas, sociais, culturais e econômicas da vida cotidiana das pessoas. Adquirem relevância e devem ser apontas as diferentes narrativas e argumentos das partes e de outros significativos que guardam relação com a situação sub-judice (AGUINSKY, 2003). A análise implica na contextualização da situação avaliada, é o momento no qual o profissional atribui-lhe significados e implicações. São explicitados os argumentos técnicos acerca de aspectos relevantes, os quais darão sustentação ao parecer do assistente social (AGUINSKY, 2003). Por último, tem-se o parecer, no qual é visibilizada a opinião profissional. O assistente social expressa as conclusões técnicas acerca da situação avaliada, assim como sugestões de alternativas aos conflitos em questão, bem como de possíveis decisões judicial(is) para a situação sub-judice (AGUINSKY, 2003). Os instrumentos que poderão ser utilizados são variados e dependem das situações em avaliação e dos aspectos teóricos e metodológicos implicados, podendo constituir-se de observação, entrevistas individuais e/ou grupais, pesquisa documental, estudos de caso, história de vida, contatos institucionais, visitas a instituições, visitas domiciliares. O Laudo Social carrega emblematicamente a expressão da particularidade do poder do discurso profissional do Serviço Social no 70

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campo jurídico. Este poder se inscreve nas armadilhas da razão jurídica: a armadilha de quem detém “a” razão e a armadilha da razão tipificadora e simplificadora que nega e abstrai o mundo da vida, o cotidiano. Tais armadilhas implicam, por vezes, na negação da complexidade das situações analisadas, buscando encontrar esquemas explicativos que as classifiquem e que respondam a questão: com quem ou onde está a “verdade”? Ou, ainda, como “resolver” a questão sub-judice? Esses laudos são frutos de gestos de interpretação de sujeitos profissionais que, uma vez materializados em texto, participam de condições em que direitos são afirmados, mas também violados (AGUINSKY, 2003). As preocupações apresentadas por Aguinsky (2003) são compartilhadas por inúmeros profissionais da área, uma vez que, o posicionamento do profissional em um laudo poderá ser determinante nas condições e no modo de vida das pessoas envolvidas com a situação em análise. Desta forma, impõe-se uma preocupação ética sobre o direcionamento dos posicionamentos profissionais, visto que o risco de negar direitos é grande no cotidiano profissional. Por outro lado, a perícia social e o seu resultado documental, o laudo, pode se constituir em um meio de afirmação e garantia de direitos. Para tanto requer conhecimento, habilidades e atitudes do profissional que permitam realizar uma leitura da realidade que seja contextualizada, histórica e busque uma visão da totalidade social. Tal perspectiva fundamenta-se na compreensão de que os fenômenos sociais presentes nas situações objeto da perícia são passíveis de mudança, podendo o profissional atuar no fomento à resiliência. Ainda nesse contexto, o assistente social tem condições de promover a identificação, a construção e a consolidação de redes sociais de apoio, envolvendo a família, a rede de parentesco, de vizinhança, de instituições, favorecendo o pertencimento. O Poder Judiciário e os órgãos que compõem o Sistema de Justiça, assim como as demais instituições pertencentes à rede de proteção social estão a requerer intervenções que venham a favorecer a cons-

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Silvia Tejadas

trução de redes internas às instituições. Tais redes devem fomentar a ruptura com os preconceitos, a construção de estratégias conjuntas de ação, o trabalho interdisciplinar, a partir de uma percepção contextualizada da realidade. Posturas diferenciadas podem favorecer a que as situações judicializadas não sejam identificadas apenas como um processo a mais, mas oferecer visibilidade aos sujeitos humanos, cujas vidas podem ser fortemente afetadas por decisões judiciais. Por fim, o trabalho do assistente social não deve perder de vista a necessidade de atuar na perspectiva de políticas articuladas, fundamentadas na transversalidade, na superação da fragmentação, favorecendo abordagens integrais e a garantia de direitos que atendam às necessidades dos sujeitos, através do acesso às políticas públicas.

CONSIDERAÇÕES

FINAIS

A perícia social insere-se em um campo contraditório, de poderes e saberes diversos, no qual o assistente social dispõe de um arsenal ético-político, teórico-metodológico e técnico-operativo que pode contribuir para que as necessidades dos sujeitos históricos adquiram visibilidade e reconhecimento. Contudo, trata-se de um campo onde a busca “da verdade” impõe-se nos discursos e decisões, correndo-se o risco de posicionamentos técnicos que recorram ao julgamento moral, perdendo a densidade crítica e sócio-histórica. Por fim, destaca-se que as contribuições do Serviço Social se inserem em uma perspectiva interdisciplinar, que parte da percepção de que nenhuma área do conhecimento, isoladamente, é suficiente para intervir nos fenômenos que aportam ao Sistema de Justiça, caracterizados por grande complexidade.

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Silvia Tejadas

REFERÊNCIAS:
AGUINSKY, Beatriz Eticidades discursivas do serviço social no campo jurídico: gestos de leitura do cotidiano no claro-escuro da legalidade da moral. Tese de Doutorado em Serviço Social. Faculdade de Serviço Social. PUCRS, 2003. Perícia social judiciária: o modelo de Porto Alegre. Faculdade de Serviço Social. PUC Campinas, 2000.

ARAUJO, Rosângela.

BARROCO, Maria Lúcia Silva. Ética e serviço social: fundamentos ontológicos. São Paulo: Cortez, 2003. BRASIL, Lei nº 8.662 de 1993 Dispõe sobre a profissão de assistente social e dá outras providências. KERN, Francisco. Os produtos do trabalho profissional: a elaboração de estudos, laudos e pareceres sociais. Apresentação, 2006.

MARTINELLI, Maria Lúcia. Serviço Social: identidade e alienação. São Paulo: Cortez, 1994.

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3º BLOCO - DO PERICIADO
COMPOSIÇÃO DA MESA

Delma Ibias Maria Aracy Costa Maria Regina Fay de Azambuja Renato Caminha Verônica Petersen Chaves

advogada magistrada

coordenadora relatora

procuradora de justiça psicólogo psicóloga

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Maria Regina Fay de Azambuja

A INQUIRIÇÃO DA CRIANÇA VÍTIMA DE VIOLÊNCIA SEXUAL INTRAFAMILIAR

MARIA REGINA FAY

DE

AZAMBUJA

Procuradora de Justiça, Especialista em Violência Doméstica pela USP, Mestre em Direito pela UNISINOS, Professora de Direito Civil na PUCRS, Palestrante na Fundação Escola Superior do Ministério Público do RGS, Voluntária no Programa de Proteção à Criança e CAPS do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, Voluntária no Comitê de Proteção à Criança do Hospital São Lucas da PUCRS, Membro do Comitê de Ética da Faculdade de Psicologia da UFRGS, Sócia do IBDFAM, IARGS, SORBI, ABMCJ e ABENEPI.

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Maria Regina Fay de Azambuja

INTRODUÇÃO

A violência, na atualidade, através de suas inúmeras formas, expõe a população à situação de risco, sendo considerada um dos graves problemas de saúde pública. Nesse contexto, as crianças, as mulheres e os idosos são as principais vítimas. A mudança de paradigmas no que tange aos direitos da criança, operada com a Constituição Federal de 1988, reflete-se em todas as áreas do conhecimento, de forma especial, nos Sistemas de Proteção e Justiça. O reconhecimento da criança como pessoa em desenvolvimento, sujeito de direitos e prioridade absoluta tem exigido das instituições revisão e reestruturação de práticas utilizadas na vigência do anterior comando constitucional. O texto aborda aspectos da inquirição da criança nos crimes em que é vítima de violência sexual intrafamiliar, apontando para a necessidade de revisão de procedimentos adotados ao longo do tempo.

I. A CHEGADA

DA

CRIANÇA

AO

SISTEMA

DE

JUSTIÇA

Os casos de violência sexual intrafamiliar praticados contra a criança chegam ao Sistema de Justiça através do Conselho Tutelar, da Delegacia de Polícia (quando remete o inquérito policial) ou das disputas familiares envolvendo guarda, visitas, suspensão ou destituição do poder familiar. Dependendo da situação, será acionado o Sistema de Justiça Infanto-Juvenil, Criminal ou de Família. Cabe ao Conselho Tutelar receber, entre outras situações de ameaça ou violação dos direitos daqueles que ainda não atingiram os dezoito anos, os casos de suspeita ou confirmação de maus-tratos, mostrando-se de extrema urgência a sua criação e instalação, em todos os municípios, “para a efetivação da política de atendimento à criança e ao 76

Maria Regina Fay de Azambuja

adolescente, tendo em vista assegurar-lhes os direitos básicos, em prol da formação de sua cidadania”2. Embora sejam inúmeras as formas de violência e maustratos praticados contra a criança, o trabalho aborda o abuso sexual, especificamente o intrafamiliar, pois, “ainda que a violência com visibilidade seja a que ocorre fora de casa, o lar continua sendo a maior fonte de violência”3. Pesquisa realizada em 1997, pelo Governo do Estado do Rio Grande do Sul, apontou que, em uma amostra de 1.579 crianças e adolescentes em situação de rua, 23,4% não retornavam para casa para fugir dos maus-tratos. Flores e cols., em 1998, “estimaram que 18% das mulheres de Porto Alegre, com menos de 18 anos, sofreram algum tipo de assédio sexual cometido por pessoas de sua família”4. A violência sexual ou exploração sexual é “todo ato ou jogo sexual, relação hetero ou homossexual entre um ou mais adultos e uma criança ou adolescente, tendo por finalidade estimular sexualmente esta criança ou adolescente ou utilizá-la para obter uma estimulação sexual sobre sua pessoa ou de outra pessoa”5. É também definida como o envolvimento de crianças e adolescentes dependentes e imaturos quanto ao seu desenvolvimento em atividades sexuais que não têm condições de compreender plenamente e para as quais são incapazes de dar o consentimento informado ou que violam as regras sociais e os papéis familiares. Incluem a pedofilia, os abusos sexuais violentos e o incesto, sendo que os estudos sobre a freqüência da violência sexual são mais raros dos que os que envolvem a violência física6. O abuso sexual pode ser dividido em intrafamiliar e extrafamiliar. Autores apontam que “aproximadamente 80% são praticados por membros da família ou por pessoa conhecida
2 CARVALHO, Rose Mary de. Comentários ao art. 136 do ECA. In: CURY, Munir (coord.); AMARAL E SILVA, Antônio Fernando (coord.); GARCÍA MENDEZ, Emílio (coord.). Estatuto da Criança e do Adolescente Comentado. São Paulo: Malheiros, 1992, p. 419/420. KRISTENSEN, Chistian Haag; OLIVEIRA, Margrit Sauer; FLORES, Renato Zamora. Violência contra crianças e adolescentes na Grande Porto Alegre. In: ______ et al. Violência Doméstica. Porto Alegre: Fundação Maurício Sirotsky - AMENCAR, 1998, p. 115. Idem, p. 73. Idem, p. 33. KEMPE, Ruth S.; KEMPE, C. Henry. Niños maltratados. 4.ed. Madrid: Ediciones Morata, S. L., 1996, p. 84.

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confiável”, sendo que cinco tipos de relações incestuosas são conhecidas: pai-filha, irmão-irmã, mãe–filho, pai-filho e mãe-filha, sendo possível que o mais comum seja irmão-irmã; o mais relatado é entre pai-filha (75% dos casos), sendo que o tipo mãe-filho é considerado o mais patológico, freqüentemente relacionado com psicose7. A violência sexual intrafamiliar praticada contra a criança “retém os aspectos do abuso relativos ao apelo sexual feito à criança, bem como destaca tal ocorrência no interior da família”8. Insere-se o abuso sexual da criança em uma gama extensa de situações de violação dos direitos da infância. A demanda do Conselho Tutelar, no que se refere à violência intrafamiliar, abarca situações difíceis de serem enfrentadas. Ao mesmo grupo familiar pertencem os dois pólos da ação, agressor e vítima, sendo que “as crianças - vítimas inocentes e silenciosas do sistema e da prática de velhos hábitos e costumes arraigados na cultura do nosso povo - são as maiores prejudicadas neste contexto calamitoso”9. No Conselho Tutelar aporta uma demanda que não pode ser devidamente dimensionada, não só pelo fato de ser recente o reconhecimento da violência doméstica, como também em decorrência da “utilização de diferentes definições do fenômeno pelas instituições e pesquisadores responsáveis pelas estatísticas disponíveis, a diversidade das fontes de informações existentes e a inexistência de inquéritos populacionais nacionais”10, dificultando sobremaneira a oferta de estimativas seguras. No contexto atual, o Estatuto da Criança e do Adolescente passa a significar um “movimento mais amplo de melhoria e reforma da vida social no que diz respeito à promoção, defesa e atendimento
7 ZAVASCHI, Maria Lucrecia Scherer et al. Abuso sexual em crianças: uma revisão. Jornal de Pediatria, v. 67 (3/4), 1991, p. 131. 8 MEES, Lúcia Alves. Abuso sexual, trauma infantil e fantasias femininas. Porto Alegre: Artes e Ofício, 2001, p. 18. 9 ALBERTON, Mariza Silveira. ALBERTON, Marisa Silveira. O papel dos Conselhos Tutelares. In: ______; KRISTENSEN, Chistian Haag; OLIVEIRA, Margrit Sauer; FLORES, Renato Zamora et al. Op. cit., p. 26. 10 REICHENHEIM, Michael E.; HASSELMANN, Maria Helena; MORAIS, Claudia Leite. Conseqüências da violência familiar na saúde da criança e do adolescente: contribuições para a elaboração de proposta de ação. Ciência e Saúde Coletiva, 4 (1), 1999, p. 110.

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Maria Regina Fay de Azambuja

dos direitos da infância e da juventude”11. A Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança, ratificada pelo Brasil, em seu art. 3.1, prevê que “todas as ações relativas às crianças, levadas a efeito por instituições públicas ou privadas de bem-estar social, tribunais, autoridades administrativas ou órgãos legislativos, devem considerar, primordialmente, o interesse maior da criança”. Não há como admitir, neste nascer de século, por parte do Poder Público, uma atuação descomprometida com a “defesa dos interesses da criança que sofre maus-tratos praticados, muitas vezes, por aqueles que teriam legitimidade e possibilidade de defendêlas”12. Estarão os integrantes do Sistema de Justiça capacitados para enfrentar a demanda envolvendo violência sexual intrafamiliar praticada contra a criança? O tema exige constante reflexão e avaliação sob pena de a criança vítima de violência sexual ser exposta a mais uma violência praticada pelo Poder Público, por órgão ou instituição que têm o dever de zelar pelo cumprimento das disposições legais previstas na Constituição Federal e na Lei nº 8.069/90. Em decorrência do contexto em que a violência sexual intrafamiliar ocorre, os Tribunais, antes mesmo da Carta de 1988, passaram a valorizar a palavra da criança como elemento de prova da autoria e materialidade do crime. Com os novos princípios constitucionais, faz-se necessário reexaminar a inquirição da vítima criança.

II. A INQUIRIÇÃO

DA

CRIANÇA

É comum a violência sexual intrafamiliar praticada contra a criança vir desacompanhada de vestígios físicos, acarretando para o Sistema de Justiça inúmeras dificuldades para desvendar os comunicados
11 COSTA, Antônio Carlos Gomes da. Comentários ao artigo 6º do Estatuto da Criança e do Adolescente. In: CURY, Munir (coord.); AMARAL E SILVA, Antônio Fernando (coord.); GARCÍA MENDEZ, Emílio (coord.). Op. cit., p. 38. 12 SCHREIBER, Elisabeth. Os Direitos Fundamentais da Criança na Violência Intrafamiliar. Porto Alegre: Ricardo Lenz, 2001, p. 80.

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e ocorrências que chegam ao Conselho Tutelar e à Delegacia de Polícia, assim como as denúncias que aportam nas Varas Criminais e nos litígios que se deflagram nas Varas de Família, através de disputas de guarda e regulamentação de visitas. Dados colhidos na investigação de 464 casos de abuso sexual, no período de um ano, em Hospital Infantil (Child Abuse Program Annual Report, 1987), apontam que apenas 24% das crianças estudadas tinham achados físicos positivos13. A inexistência de vestígios físicos, aliada à falta de testemunhas presenciais, uma vez que a violência sexual intrafamiliar praticada contra a criança geralmente se dá na clandestinidade, levaram os Tribunais a valorizar a palavra da vítima, favorecendo a sua exposição a inúmeros depoimentos no afã de produzir a prova e possibilitar a condenação do réu. Neste sentido, vale ilustrar: PROVA. CRIME CONTRA OS COSTUMES. PALAVRA DA VÍTIMA. CRIANÇA. VALOR. Como se tem decidido, nos crimes contra os costumes, cometidos às escondidas, a palavra da vítima assume especial relevo, pois, via de regra, é a única. O fato dela (vítima) ser uma criança não impede o reconhecimento do valor de seu depoimento. Se suas palavras se mostram consistentes, despidas de senões, servem elas como prova bastante para a condenação do agente. É o que ocorre no caso em tela, onde o seguro depoimento da ofendida em juízo informa sobre o ato sexual sofrido, afirmando que o apelante foi o seu autor. Condenação mantida pela prática de crime contra os costumes. (...)14

13 JOHNSON, Charles F. Abuso na Infância e o Psiquiatra Infantil. In: GARFINKEL, Barry D.; CARLSON, Grabrielle A.; WELLER, Elizabeth B. Infância e Adolescência. Porto Alegre: Artes Médicas, 1992, p. 300. 14 BRASIL. Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul, Apelação Crime nº 70003007424, Sétima Câmara Criminal, Relator Des. Sylvio Baptista Neto, 4 de agosto de 2005, Nova Petrópolis.

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ATENTADO VIOLENTO AO PUDOR. PALAVRA DA VÍTIMA, DE 09 ANOS, COERENTE E MINUCIOSA NAS DUAS FASES DA PERSECUTIO CRIMINIS, CORROBORADA PELO RESTANTE DA PROVA TESTEMUNHAL CONSTANTE DOS AUTOS. CONDENAÇÃO MANTIDA. Em crimes contra a liberdade sexual geralmente cometidos na clandestinidade, a palavra da vítima assume vital importância na elucidação da autoria delitiva, ainda mais quando corroborada pelo restante do conjunto probatório constante dos autos. Outrossim, importante salientar que dificilmente a vítima mentiria em juízo, fantasiando ou inventando a estória narrada, com o fito de prejudicar o apelante; pelo contrário, em que pese ser uma criança de 09 anos, de maneira minuciosa e harmoniosa relatou, em ambas as fases da perquirição da culpa, os abusos sexuais praticados pelo padrasto. (...)15 A posição adotada pelos Tribunais16 data de várias décadas que antecederam a Constituição Federal de 1988. Neste tempo, não se questionava, nos feitos judiciais e extrajudiciais, o melhor interesse da criança (best interest of the child). Desconhecia-se a amplitude dos prejuízos que o depoimento da criança, colhido com o fim de produzir a prova da materialidade de um crime, em regra, praticado por um familiar (pai, padrasto, avô, tio, irmão)17 ou pessoa de suas relações, pudesse causar à
15 BRASIL. Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul, Apelação Crime nº 70008980013, Oitava Câmara Criminal, Relator Des. Marco Antônio Ribeiro de Oliveira, 1º de setembro de 2004, Uruguaiana. 16 “(...) alguns autores afirmam que a mais importante evidência nos casos de suspeita de abuso sexual, em crianças, é o testemunho prestado pela própria vítima (Lauritsen et al., 2000)”. (BENFICA, Francisco Silveira; SOUZA, Jeiselaure Rocha de. A importância da perícia na determinação da materialidade dos crimes sexuais. Revista do Ministério Público do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, n. 46, jan./mar. 2002, p. 183). 17 Dos casos atendidos pelo Serviço de Psicologia (Serviço de Atendimento Básico) da Vara Central da Infância e Juventude do Tribunal de Justiça de SP entre 1990 e 1998, em 90% dos casos o agressor , exercia a função paterna (65% de pais biológicos). (DUQUE, Cláudio. Parafilias e crimes sexuais. In: TABORDA, José G. V (org.); CHALUB, Miguel (org.); ABDALLA-FILHO, Elias (org.). Psiquiatria Fo. rense. Porto Alegre: Artmed, 2004, p. 303).

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vítima, bem como os danos que a violência sexual pudesse acarretar ao seu desenvolvimento social e, de forma especial, ao seu aparelho psíquico. A partir da década de setenta, estudos e pesquisas na área da saúde mental têm contribuído para um maior entendimento do fenômeno, em especial, quando a violência é praticada por aqueles que tem o dever de cuidá-la e protegê-la. Negar tais achados significaria caminhar na contramão dos princípios que alicerçam a Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança, a Constituição Federal e o Estatuto da Criança e do Adolescente. Os conhecimentos na área da saúde mental e o fortalecimento dos direitos humanos estão a exigir novas formas de proceder visando assegurar à criança o desenvolvimento em condições de dignidade, como reza o artigo 3º da Lei nº. 8.069/90, passando a ser responsabilidade de todos evitar qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão (art. 5º do ECA). Na mesma esteira, reza a Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança: Art. 19 – 1. Os Estados Partes adotarão todas as medidas legislativas, administrativas, sociais e educacionais apropriadas para proteger a criança contra todas as formas de violência física ou mental, abuso ou tratamento negligente, maus-tratos ou exploração, inclusive abuso sexual, enquanto a criança estiver sob a custódia dos pais, do representante legal ou de qualquer outra pessoa responsável por ela (sem grifo no original). Sob o prisma da nova ordem constitucional, inúmeras ações praticadas pelo Sistema de Justiça passam a merecer urgente revisão, como se vê de parte do acórdão proferido pelo Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, reformado, em 9/8/05, pelo Colendo Superior Tribunal de Justiça: (...) a ação, cometida pelo réu contra a vítima, não teve uma repercussão tão danosa que exigisse uma punição exemplar. Ainda que se afirme certo des82

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gaste psicológico (as informações dos pais dão conta disso), penso que ele se deve muito mais as atitudes dos adultos, tratando o assunto com grande alarde, que propriamente à ação do agente. Esta se deu através de toques em partes do corpo da ofendida e talvez o ato do cunilíngua. Tenho a impressão que o dano psicológico não foi tão intenso, tão marcante que determinasse, repito, uma reprimenda rigorosa18. Para o Superior Tribunal de Justiça, (...) plenamente justificado o grande alarde dos responsáveis pela menina que, como qualquer membro médio da sociedade, encara essa forma de criminalidade como das mais graves. Os crimes sexuais praticados contra menores têm conseqüências gravíssimas para as vítimas e suas famílias, comprometendo o normal desenvolvimento das crianças que tiveram o infortúnio de sofrer tão hedionda agressão, somente, por serem inocentes19. Exigir da criança a responsabilidade pela produção da prova da violência sexual, através do depoimento judicial, como costumeiramente se faz, não seria uma nova violência contra a criança? Estaria a criança obrigada a depor? Estes e outros questionamentos precisam ser enfrentados sob a ótica da Doutrina da Proteção Integral. No âmbito da regulação do exercício do poder familiar, a oitiva pode se dar de três formas: “(i) ex lege, ou seja, determinada pela lei em casos específicos que trazem, normalmente, regras de dispensa motivada do comparecimento da criança pelo juiz; (ii) por convoca-

18 BRASIL. Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul, Apelação Crime nº 70007781917, Oitava Câmara Criminal, Relator Des. Sylvio Baptista Neto, 7 de abril de 2004, Porto Alegre. 19 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça, Recurso Especial nº 714.919, Quinta Turma, Relatora Ministra Laurita Vaz, 9 de agosto de 2005, Rio Grande do Sul.

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ção do juiz, nas hipóteses possíveis, ou (iii) por solicitação da criança” (sem grifo no original)20. Não se deve permitir “a indicação de criança como testemunha por uma das partes, ou seja, por um dos seus pais ou de seus parentes, sob pena de a criança se sentir envolvida de forma que se mostra pouco conveniente” (sem grifo no original)21. Quando se aborda a oitiva da criança, importante lembrar que, com a vigência da Lei nº 8.069/90 e, posteriormente, com o Código Civil de 2002, o legislador passa a valorizar a opinião da criança, em especial, nos feitos que envolvem colocação em família substituta, como se vê do artigo 28, § 1º, do ECA, exigindo, no caso de tutela, a sua opinião, se já contar 12 anos (art. 1.740, III, do CC/02), e o seu consentimento, no caso de adoção, quando o adotando contar 12 anos (art. 45, § 2º, ECA). A inovação atende os princípios da Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança, consolidados na legislação pátria, permitindo que a criança e o adolescente expressem sua opinião sobre fatos que digam diretamente com sua rotina, oferecendo-lhes a oportunidade de participar ativamente do processo judicial e das decisões que interfiram na sua vida familiar. A Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança, ratificada pelo Brasil, responsável pelo estabelecimento de um “catálogo completo dos direitos substanciais, civis e políticos, econômicos, sociais e culturais, próprios à criança”, detentora da força jurídica cogente de tratado22, em seu artigo 12, dispõe: Os Estados partes assegurarão à criança que estiver capacitada a formular seus próprios juízos o direito de expressar suas opiniões livremente sobre todos os assuntos relacionados com a criança, levando-se devidamente em consideração essas opini20 MÔNACO, Gustavo Ferraz de Campos; CAMPOS, Maria Luiza Ferraz de. O Direito de Audição de Crianças e Jovens em Processo de Regulação do Exercício do Poder Familiar. Revista Brasileira de Direito de Família, IBDFAM, Síntese, n. 32, out./nov. 2005, p. 12. 21 Idem. Ibidem. 22 Artigo 5º, § 3º, da Constituição Federal – “Os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos que forem aprovados, em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos, por três quintos dos votos dos respectivos membros, serão equivalentes às emendas constitucionais”.

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ões, em função da idade e da maturidade da criança. Com tal propósito, se proporcionará à criança, em particular, a oportunidade de ser ouvida em todo processo judicial ou administrativo que afete a mesma, quer diretamente quer por intermédio de um representante ou órgão apropriado, em conformidade com as regras processuais da legislação nacional (sem grifo no original). Expressar as próprias opiniões, como menciona o documento internacional, tem sentido diverso de exigir da criança, em face de sua peculiar condição de pessoa em desenvolvimento, em Juízo ou fora dele, o relato de situação extremamente traumática e devassadora ao seu aparelho psíquico, vivenciada no ambiente familiar, e mais, praticada, em regra, por pessoa muito próxima, como o pai, o padrasto, o avô, o tio ou mesmo o irmão23. Nesse sentido, observa-se a palavra da vítima, registrada em processo de destituição do poder familiar motivado por violência sexual: Na primeira vez em que foi dormir na casa dele, ‘quando a tia V. não estava’, ele já a convidou para dormir na mesma cama que ele. Certa noite acordou com a cabeça dele no peito dela. T. evidencia séria preocupação com tais fatos, pára de falar mais de uma vez no meio da entrevista, abaixa a cabeça e a esconde entre seus braços. Muda de assunto, falando que já fez ‘um desenho de uma árvore, com uma corda e ela pendurada’, lembrando de momentos em que já quis abreviar sua vida (sem grifo no original)24.
23 Levantamento realizado em Hospital Infantil (Child Abuse Program Annual Report, 1987), analisando 464 casos de abuso sexual, no período de um ano, indicou que o perpetrador mais comum foi a pai (15%), seguido pelo padrasto (8%) e tio (7%). (JOHNSON, Charles F. Op. cit., p. 300). 24 BRASIL. Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul, Apelação Cível nº 70012117024, Sétima Câmara Cível, Relatora Desª. Maria Berenice Dias, 9 de novembro de 2005, Lajeado.

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Quando a Lei nº 8.069/90 reconhece a peculiar condição de pessoa em desenvolvimento da criança e do adolescente está a falar de sua imaturidade ou, em outras palavras, de seu estágio incompleto de desenvolvimento. Entende-se por maturidade “a fase da vida em que a pessoa atinge um completo desenvolvimento ou maturação físico-mental”25. As etapas do desenvolvimento humano se desdobram em várias fases: a) pré-natal; b) primeira infância; c) segunda infância; d) terceira infância; e) adolescência; f) o jovem adulto; g) meia-idade e h) terceira idade26, abrangendo mudanças que ocorrem ao longo da vida, envolvendo aspectos físicos, cognitivos e psicossociais. Integram o desenvolvimento físico, as mudanças no corpo, no cérebro, na capacidade sensorial e nas habilidades motoras capazes de influenciar outros aspectos do desenvolvimento. As mudanças ocorridas na capacidade mental, como aprendizagem, memória, raciocínio, pensamento e linguagem, situam-se no desenvolvimento cognitivo, ao passo que as mudanças nos relacionamentos com os outros se referem ao desenvolvimento psicossocial27. Não há que confundir a hipótese inovadora do artigo 28, § 1º, do ECA, com a inquirição cogente da criança nos processos criminais em que se apura a existência de violência sexual. Nestes casos, a inquirição da criança visa essencialmente produção da prova da autoria e materialidade em face dos escassos elementos que costumam instruir o processo com o fim de obter a condenação ou absolvição do abusador, recaindo na criança uma responsabilidade para a qual não se encontra preparada, em face de sua peculiar condição de pessoa em desenvolvimento ou, ainda, nos termos da Convenção, em razão de sua imaturidade física, cognitiva e psicossocial. No primeiro caso, - feitos que discutem a colocação em família substituta -, a oitiva da criança tem por objetivo conhecer seus sentimentos e desejos, permitindo ao Julgador considerá-los por ocasião da decisão; no segundo, diferentemente, o objetivo da inquirição da criança é a produção da prova, hipótese que não encontra respal25 ENCICLOPÉDIA SARAIVA DO DIREITO. São Paulo: Saraiva, 1977, v. 52, p. 81. 26 PAPALIA, Diane E.; OLDS, Sally Wendkos. Desenvolvimento Humano. 7.ed. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000, p. 26. 27 Idem. Ibidem.

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do na aludida Convenção Internacional e tampouco no ordenamento jurídico pátrio. É do texto internacional que emerge a expressa previsão de a opinião da criança ser colhida, de forma direta ou através de representante ou órgão apropriado, sinalizando a clara intenção de evitar exposições inapropriadas da criança, com riscos de danos à sua saúde psíquica. Por ser uma pessoa em desenvolvimento, a criança carece biologicamente de “maturação nos níveis emocional, social e cognitivo”, levando-a a comportar-se, relacionar-se e a pensar de forma diferente dos adultos28. As condições de maturidade da criança e do adulto se refletem na forma como a primeira enfrenta e reage a uma situação de abuso sexual e pela maneira como se manifesta quando é chamada a falar sobre o fato ocorrido29. Estudiosos da saúde mental afirmam que “a criança mais velha pode ter a capacidade verbal de relatar o abuso, mas pode estar relutante devido ao medo de represálias, culpa associada com o ato ou aceitação da sedução, ou medo de dissolução da família”30. Nos casos de violência sexual intrafamiliar, recomendam os estudiosos envolver a mãe no processo de revelação, sem desconhecer que, até as mães apoiadoras, muitas vezes, “ficam tão perturbadas durante a entrevista, que transmitem à criança a mensagem direta ou indireta de não revelar; ou as crianças ficam tão ansiosas que se fecham para protegerem as mães”31. A violência sexual traz no seu âmago a negação ou síndrome do segredo que envolve todo o desenrolar do processo de abuso sexual intrafamiliar, tanto nas etapas em que o fato ainda não foi identificado, e que pode durar vários anos32, acompanhado de freqüentes ame28 FURNISS, Tilman. Op. cit., p. 14. 29 Estima-se que 49% dos casos de abuso sexual acontecem com crianças com idade inferior a cinco anos (Marie-Pierre, Representante do UNICEF no Brasil, Revista Isto é, nº 1881, de 2/11/05, p. 49). 30 JOHNSON, Charles F. Op. cit., p. 300. 31 FURNISS, Tilman. Op. cit., p. 198. 32 Estudo realizado pelos autores aponta que “nos casos de violência sexual contra crianças e adolescentes, no âmbito doméstico, praticados pelos pais ou padrastos, há uma certa continuidade no delito que, não fosse por fatores externos, jamais chegaria ao conhecimento das autoridades” (BENFICA, Francisco Silveira; SOUZA, Jeiselaure Rocha de. Op. cit., p. 181).

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aças33; como nas etapas que se desenvolvem junto aos Sistemas de Saúde ou Justiça, cabendo referir que “sobreviver ao abuso sexual da criança como pessoa intacta pode ser tão difícil para o profissional como é para a criança e para os membros da família”34. No Brasil, são escassas as iniciativas voltadas a trabalhar com os agressores. No Canadá, a maioria dos grupos para homens agressores busca uma intervenção integrada e coordenada em relação ao problema da violência doméstica, possibilitando serviço às mulheres e crianças (assistência psicológica, jurídica, grupos de auto-ajuda, encaminhamento a abrigos, se necessário), treinamento profissional no manejo de questões envolvendo violência doméstica (como identificar a vítima de abuso, como abordar o problema, como fazer o encaminhamento e acompanhamento do caso), paralelamente ao trabalho realizado com os homens agressores.35 A falta de compreensão da dinâmica do abuso sexual intrafamiliar, verificado tanto nas agências de saúde como no Sistema de Justiça acaba por gerar intervenções inadequadas com sensíveis prejuízos ao desenvolvimento da criança. A nomeação do abuso sexual da criança “cria o abuso como um fato para a família”, podendo “refletir-se na rede profissional e no nosso próprio pânico e crise profissionais, quando intervimos cegamente em um processo que muitas vezes não compreendemos”36. Maria Helena Mariante Ferreira chama a atenção para os cuidados a serem dispensados aos profissionais que trabalham com o abuso sexual: É necessário salientar a necessidade de apoio e cuidado constante do profissional e equipe que aten33 “Nossa pesquisa observou que geralmente o réu exercia alguma autoridade sobre a vítima, gerando nesta o chamado temor referencial (Sznick, 1992), decorrente do dever de obediência para com o réu” (BENFICA, Francisco Silveira; SOUZA, Jeiselaure Rocha de. Op. cit., p. 181). 34 FURNISS, Tilman. Op. cit., p. 1. 35 GROSSI, Patrícia Krieger. Nem como uma flor: reflexões sobre abordagens com grupos de homens agressores. In: GROSSI, Patrícia Krieger; WERBA, Graziela C. Violência e Gênero: coisas que a gente não gostaria de saber. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2001, p.97. 36 Idem. Ibidem.

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de a criança abusada em função do aumento importante de stress que este tipo de trabalho traz. É bem superior ao encontrado no trabalho com os demais pacientes. É semelhantes stress que contamina as equipes que trabalham com pacientes em centros de tratamento intensivo, ultrapassando os limites do ambiente profissional e contaminando a vida familiar e pessoal dos cuidadores37. Inquirir a vítima, com o intuito de produzir prova e elevar os índices de condenação, não assegura a credibilidade pretendida, além de expô-la a nova forma de violência, ao permitir reviver situação traumática, reforçando o dano psíquico. Enquanto a primeira violência foi de origem sexual, a segunda passa a ser psíquica, na medida que se espera que a materialidade, que deveria ser produzida por peritos capacitados, venha ao bojo dos autos através do seu depoimento, sem qualquer respeito às suas condições de imaturidade. Considerar a “fala da criança”, como prevê a Convenção, necessariamente não exige o uso da palavra falada, porquanto o sentido da norma é muito mais amplo, estando a significar a necessidade de respeito incondicional à criança, como pessoa em fase peculiar de desenvolvimento. No campo psíquico, a violência sexual impingida à criança é considerada um trauma, sendo que a extensão dos danos está ligada a maior ou menor vulnerabilidade da vítima. Vários transtornos psiquiátricos em adultos têm sido relacionados a algum trauma vivenciado na infância, sendo que o abuso sexual está mais relacionado a transtornos dissociativos, o estresse pós-traumático a acidentes38. Estudos recentes apontam para a “influência do trauma na ‘configuração do aparato neuroendócrino, da arquitetura cerebral, da estruturação permanente da personalidade e dos padrões de relacionamento posteriores’, sabendo-se
37 FERREIRA, Maria Helena Mariante. Algumas reflexões sobre a perplexidade compartilhada diante do abuso sexual. Revista de Psicoterapia da Infância e Adolescência, Porto Alegre: CEAPIA, n. 12, nov. 1999, p. 42. 38 ZAVASCHI, Maria Lucrecia Scherer et al. Associação entre trauma por perda na infância e depressão na vida adulta. Revista Brasileira de Psiquiatria, v. 24, n. 4, out. 2002, p. 190.

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que ‘as experiências ficam marcadas na herança genética e nos padrões de vínculo, sendo, portanto, repassadas de uma forma ou outra para a descendência’”39. Grande número de casos de violência sexual sofrido na infância “permanece em segredo entre vítima intimidada e agressor ameaçador, só sendo detectados quando aquela, já adulta, procura ajuda profissional e relata o fato como significativo no seu passado”40. Trauma, de origem grega, significa ferida, furar, “sendo utilizado na medicina para identificar as conseqüências de uma violência externa”. Freud “transpôs o conceito de trauma para o plano psíquico, conferindo-lhe o significado de um choque violento capaz de romper a barreira protetora do ego, podendo acarretar perturbações duradouras sobre a organização psíquica do indivíduo”41. Em outras palavras, trauma ou dano psíquico existe quando há “deterioração, disfunção, distúrbio ou transtorno, ou desenvolvimento psico-gênico ou psico-orgânico que, afetando as esferas afetivas e/ou intelectual e/ou volitiva, limita a capacidade de gozo individual, familiar, atividade laborativa, social e/ou recreativa”42. Autores apontam que a oitiva da criança vítima de violência sexual intrafamiliar, devido ao “medo de represálias, culpa associada com o ato de aceitação da sedução ou medo de dissolução da família”, pode fazer com que a criança retire a acusação43, como confirma a prática forense. E, ainda, “a criança pode não desejar discutir o(s) incidente(s) novamente porque a recordação é dolorosa e os pais podem pertinentemente apoiar a criança nesta resistência”44. É comum a criança avistar o abusador no ambiente forense por ocasião de sua oitiva, ainda que o depoimento não seja prestado na sua presença, fato que contribui para reacender o conflito e a ambivalência de seus sentimentos, porquanto, em muitos casos, “nutre
39 AZAMBUJA, Maria Regina Fay de. Violência sexual intrafamiliar: é possível proteger a criança? Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2004, p. 125. 40 DUQUE, Cláudio. Op. cit., p. 303. 41 ZAVASCHI, Maria Lucrecia Sherer et al. Op. cit., p. 190. 42 PEREIRA GOMES, Celeste Leite dos Santos; LEITE SANTOS, Maria Celeste Cordeiro; SANTOS, José Américo dos. Dano Psíquico. São Paulo: Oliveira Mendes, 1998, p. 7. 43 JOHNSON, Charles F. Op. cit., p. 300. 44 Idem, p. 301.

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forte apego pelo abusador, com quem, no mais das vezes, mantém vínculos parentais significativos”. O abusador costuma “transferir para a criança a responsabilidade pelo ocorrido ou pelas conseqüências da revelação, convencendo a vítima de que será sua culpa se o pai for para a cadeia ou se a mãe ficar magoada com ela”45. Delegacias de Polícia, Fóruns e Tribunais não são locais apropriados para crianças; são, essencialmente, espaços de resolução de litígios da vida adulta. Eduardo de Oliveira Leite elenca três ordens de dificuldades decorrentes da inquirição da criança: a) as relativas à decisão de ouvir a criança; b) as que se referem às modalidades de oitiva; c) as que são criadas pela seqüência da oitiva46. Não há como confundir o respeito à criança, preconizado pela Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança, ao prever a sua oitiva (de forma direta ou indireta), como ressalta o artigo 12, com a violência decorrente da exigência de produzir judicialmente a prova da materialidade da violência sexual sofrida, através de sua inquirição, desconsiderando o estágio de maturidade e desenvolvimento em que se encontra. No que tange à modalidade de inquirição, em que pese algumas iniciativas que visam minorar as dificuldades impostas à criança47, em essência, continua a buscar a produção da prova, em especial, da materialidade, sem considerar os danos que o depoimento pode causar ao aparelho psíquico da vítima. No momento que a criança relata o fato, objetivo principal de sua inquirção, ao Juiz ou técnico do Juizado, não se observa a adoção de qualquer medida para auxiliar a criança a minimizar o sofrimento psíquico decorrente do trauma experimentado. O aumento das notificações de violência sexual aliado à necessidade de assegurar a proteção integral à criança tem despertado o
45 BORBA, Maria Rosi de Meira. O duplo processo de vitimização da criança abusada sexualmente: pelo abusador e pelo agente estatal, na apuração do evento delituoso, p. 3. Disponível em: <http:/ /jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=3246> Acesso em: 1º dez. 2005. 46 OLIVEIRA LEITE, Eduardo de. A oitiva de crianças nos processos de família. Revista Jurídica, n. 278, dez. 2000, p. 27. 47 No Rio Grande do Sul, foi instituído o Projeto Depoimento sem Dano. A oitiva da criança passa a ser em sala especial, através de assistentes sociais ou psicólogos, acompanhado pelo magistrado, promotor e advogado, com comunicação através de intercomunicadores, com filmagem, permitindo que o Juiz formule perguntas à técnica, a serem formuladas à criança.

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interesse dos profissionais em encontrar alternativas menos danosas à criança. Anualmente, “são comunicados 5.000 casos de incesto”; “o abusador é conhecido da criança e usa sedução ou suborno para que ela ceda”, sendo que “esta forma de tirar vantagem da imaturidade e vulnerabilidade infantil tem uma importante conseqüência para a criança que, mais tarde, poderá sentir-se culpada e responsável”48. Inúmeras tentativas têm sido testadas com o fim de minimizar os efeitos que a oitiva judicial acarreta à criança. Barry D. Garfinkel et al., ao tratar da violência na infância, assinalam: Embora não haja abordagens padronizadas para entrevistar crianças sobre qualquer assunto, tem havido uma tentativa de organizar a entrevista por abuso sexual para assegurar ao tribunal que a criança não foi instigada nem lhe foram feitas perguntas diretivas (Sgroi, 1985; Burgess, 1987; Johnson e Showers, 1985). Muitas das técnicas usadas em crianças pequenas, incluindo o uso de bonecas e desenhos para ajudar a criança a explicar possíveis eventos de abuso sexual, não foram estudadas com grupos-controle e são controvertidas (Cohn, 1988; Sivan, 1988)49. Países europeus investigam e estudam “a organização e a operacionalização de uma entrevista entre a criança e o juiz em condições mais ou menos formalistas”, sendo que a Bélgica, Holanda, França e Alemanha já publicaram textos legislativos neste sentido50. Para a doutrina tradicional, em face do princípio da verdade real, instala-se a obrigatoriedade da inquirição da vítima, porquanto “deve o juiz buscar todos os meios lícitos e plausíveis para atingir o estado de certeza que lhe permitirá formar o seu veredito”51. Paradoxalmente, é
48 LEWIS, Melvin; VOLKMAR, Fred R. Aspectos Clínicos do Desenvolvimento na Infância e Adolescência. 3.ed. Traduzido por Gabriela Giacomet. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993, p. 101. 49 GARFINKEL, Barry D.; CARLSON, Grabielle A.; WELLER, Elizabeth B. Op. cit., p. 301. 50 OLIVEIRA LEITE, Eduardo de. Op. cit., p. 27. 51 NUCCI, Guilherme de Souza. Código de Processo Penal Comentado. 4.ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2005, p. 200.

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na mesma doutrina que encontramos subsídios para afastar a inquirição da vítima, quando criança: (...) as declarações do ofendido constituem meio de prova, tanto quanto o interrogatório do réu, quando este resolve falar ao juiz; (...) não se pode dar o mesmo valor à palavra da vítima que se costuma conferir ao depoimento de uma testemunha, esta, presumidamente, imparcial; (...) a vítima é pessoa diretamente envolvida pela prática do crime, pois algum bem ou interesse seu foi violado, razão pela qual pode estar coberta por emoções perturbadoras do seu processo psíquico, levando-a à ira, ao medo, à mentira, ao erro, às ilusões de percepção, ao desejo de vingança, à esperança de obter vantagens econômicas e à vontade expressa de se desculpar - neste último caso, quando termina contribuindo para a prática do crime (Psicologia Jurídica, V. II, p. 155-157). Por outro lado, há aspectos ligados ao sofrimento pelo qual passou a vítima, quando da prática do delito, podendo, então, haver distorções naturais em suas declarações; (...) a ânsia de permanecer com os seres amados, mormente porque dá como certo e acabado o crime ocorrido, faz com que se voltem ao futuro, querendo, de todo o modo, absolver o culpado. É a situação muitas vezes enfrentada por mulheres agredidas por seus maridos, por filhos violentados por seus pais e, mesmo por genitores idosos atacados ou enganados por seus descendentes (sem grifo no original)52.
52 NUCCI, Guilherme de Souza. Código de Processo Penal Comentado. 4.ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2005,, p. 415/416.

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O depoimento da vítima, considerada por alguns autores como testemunha, não se reveste de credibilidade absoluta, porquanto suas declarações vêm impregnadas de impressões pessoais, havendo “um certo coeficiente pessoal na percepção e na evocação da memória, que torna, necessariamente incompleta a recordação, de forma que não há maior erro que considerar a testemunha como uma chapa fotográfica”. Diversos são os fatores a interferir na prova testemunhal, como o interesse, a emoção e, assim, sucessivamente53. Não se pode esquecer que a criança, “mesmo dizendo a verdade, é tão facilmente sugestionável que pode, com facilidade, ser induzida a retratar-se numa acareação, especialmente sendo-lhe oposta uma pessoa a quem tema e respeite”54. Há que se buscar, em juízo ou fora dele, (...) evitar a ocorrência do segundo processo de vitimização, que se dá nas Delegacias, Conselhos Tutelares e na presença do juiz, quando da apuração de evento delituoso, causando na vítima os chamados danos secundários advindos de uma equivocada abordagem realizada quando da comprovação do fato criminoso e que, segundo a melhor psicologia, poderiam ser tão ou mais graves que o próprio abuso sexual sofrido55. Substituir a inquirição da criança vítima de violência sexual pela perícia médica psiquiátrica, através de profissionais especializados na área da infância, mostra-se o caminho mais recomendado para assegurar à criança a proteção integral que a Constituição Federal preconiza, em sintonia com a Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança e a Lei nº 8.069/90, reservando-se a medida apenas aos casos em que a criança manifesta o desejo de ser ouvida pela autoridade judicial.
53 ALTAVILLA, Enrico. Psicologia Judiciária. 3.ed. Coimbra: Armênio Amado, 1982, p. 252. 54 Idem, p. 332. 55 BORBA, Maria Rosi de Meira. Op. cit., p. 1.

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É momento de pensar em mecanismos de averiguar o dano psíquico56, situado no campo da proteção à saúde, em substituição à exigência da inquirição da vítima, quando criança, como meio de provar a materialidade, evitando a reedição do trauma já experimentado. Raramente é possível apurar os danos físicos, sem afastar, contudo, a ocorrência do crime. As marcas mais importantes, como sinalizam os conhecimentos científicos disponíveis na contemporaneidade, se situam na esfera psíquica das pequenas vítimas cujas seqüelas podem se estender por toda a vida ao passo que as lesões físicas tendem a cicatrizar e desaparecer.

III. CONSIDERAÇÔES FINAIS
A condição de sujeito de direitos é uma conquista recente da criança. Historicamente vista como objeto a serviço dos interesses dos adultos, especialmente a partir do século XX, a infância passa a ser compreendida como uma etapa do desenvolvimento humano. Vários documentos internacionais alertam para a sua relevância, desencadeando a revisão das legislações, condutas e dos procedimentos adotados com o intuito de garantir direitos àqueles que ainda não atingiram dezoito anos. No Brasil, a Constituição Federal de 1988 é considerada o divisor de águas, seguida do Estatuto da Criança e do Adolescente. O desconhecimento por parte de muitos profissionais integrantes do Sistema de Justiça do funcionamento das famílias em que está presente o abuso sexual da criança, da extensão dos danos psíquicos causados, bem como a não utilização dos instrumentos jurídicos por um ângulo clínico (especialmente o conteúdo das perícias psiquiátricas dos pais e das vítimas; relevância do tratamento das vítimas; falta de exploração do trabalho terapêutico voltado para os pais que se encontram no sistema carcerário) faz com que a intervenção destes profissionais não contribua, como era de se esperar, para minimizar o sofrimento da criança
56 Dano psíquico, ligado à noção de sofrimento psíquico e de dano moral, enseja responsabilidade civil. Ver Apelações Cíveis nos 70011567195 (Quinta Câmara Cível, Relator Dr. Antonio Vinicius Amaro da Silveira, 23 de junho de 2005, Porto Alegre) e 70010597631 (Nona Câmara Cível, Relator Des. Odone Sanguiné, 15 de junho de 2005, Porto Alegre) do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul.

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vítima da violência sexual intrafamiliar. É tempo de valorizar, além das marcas físicas, os danos produzidos no aparelho psíquico, investindo na criação de cargos de peritos psicólogos e psiquiatras, especialistas em crianças e adolescentes e, quiçá, criando quesitos, a exemplo do que ocorre com as lesões corporais, o estupro, o atentado violento ao pudor, liberando a criança da reedição do trauma sempre que é chamada a prestar depoimento. O Sistema de Justiça começa a perceber a relevância do seu papel, repensando procedimentos e investindo em ações abraçadas pelo manto da interdisciplinaridade. Revisar condutas está na pauta das discussões internacionais, não podendo o Brasil aguardar o alerta vindo de outros cantos do mundo para sentir-se autorizado a dar efetividade aos paradigmas impostos pela Carta Maior.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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PERÍCIA PSICOLÓGICA

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Psicóloga do Juizado da Infância e da Juventude Especialista em psicoterapia da infância e da adolescência Mestre em psicologia - UFRGS

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O que é a perícia psicológica senão a nossa avaliação psicológica de nosso cotidiano enquanto psicólogos, estejamos onde estejamos. Nossa formação teórica e técnica de base irão nortear nossa metodologia adequando essa atividade básica ao contexto jurídico, mais especificamente forense. O que seria exatamente esta adequação. Seria a contextualização dos aspectos essenciais da avaliação ao âmbito jurídico: Demanda Sujeito Contrato Devolução Diferente do contexto da avaliação clínica, em uma perícia dificilmente teremos uma demanda espontânea das partes. O pedido de virá da autoridade judiciária – magistrado ou o promotor de justiça; ou do instrumentador do processo – defensor. O sujeito da perícia então, não necessariamente é aquele a quem se dirige o processo. A avaliação clínica de crianças é uma prática que exige do psicólogo conhecimentos específicos. É um sujeito em desenvolvimento e que precisa ser visto e compreendido como tal. A perícia então dobra a necessidade de cuidados e preparação, pois a esta questão se sobrepõe o contexto judicial – seja ele litigioso ou não. Nossas crianças são cada vez mais seres sociais, inseridos em diferentes contextos. Sabedoras de suas necessidades e direitos, dificilmente o objetivo de uma perícia psicológica lhe passará desapercebida. Este, dependendo de seu interlocutor direto, poderá ter sido distorcido voluntária ou involuntariamente, consciente ou inconscientemente. Examinar junto à criança qual a sua crença a respeito do trabalho a ser realizado e a importância disto, além de precioso dado avaliativo, é uma de nossas primeiras tarefas. Desta forma saberemos quais os desejos,

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necessidades e expectativas da criança e, principalmente, como poderemos estar a serviço dela enquanto profissionais de saúde mental. Ao definirmos junto à criança o objetivo de nosso trabalho, estaremos cumprindo a primeira etapa de nosso contrato com ela, definindo nosso papel e forma como iremos proceder juntos. A interferência do setting e de terceiros precisa ser abordada de forma a estabelecer uma comunicação fluida. Precisamos dizer claramente a criança o que precisamos saber, quem saberá o que estamos conversando e porquê (confidencialidade), que outras pessoas farão parte do processo de avaliação. Não raro, estaremos em contato com crianças em sofrimento, vítimas diretas ou indiretas das questões judiciais implicadas. A possibilidade de reinserí-las agora como agentes ativos no processo poderá ser salutar, desde que sejam respeitados os seus limites. Assim como na avaliação clínica, nossa linguagem e instrumentos deverão estar de acordo com a faixa etária e interesses da criança. A adequação do setting e dos instrumentos é essencial para que possamos efetivamente nos aproximar da criança. Colocaremos a disposição dela objetos que estejam ligados ao seu cotidiano e realidade, facilitando sua expressão. O uso do material lúdico se faz essencial. O material gráfico também será de grande valia, pois a produção gráfica da criança, além de possibilitar a manifestação subjetiva espontânea, nos trará dados possíveis de serem objetivados – HTP, desenho da família. Não existem instrumentos específicos para a perícia de crianças em nosso país. Precisaremos selecionar dentro dos instrumentos da psicologia aqueles que mais atendem a criança a qual estamos diante naquele momento. Nossa última e solitária e trabalhosa tarefa será traduzir a experiência de avaliação de crianças em um contexto lógico, objetivo e conciso como deve ser um laudo pericial. Garimpar aquilo que é essencial dentro de uma teia de dados é árduo e muitas vezes difícil. A linguagem lúdica da criança passará pelo crivo da interpretação do psicólogo. Este deverá redobrar o cuidado para que seja um tradutor fidedigno do contexto avaliativo, sem que a contaminação de seus próprios valores e prin104

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cípio tomem parte no trabalho. Também as informações fornecidas por outras pessoas que participam do processo devem ser filtradas e aproximadas da realidade que a própria criança traz. Por fim, podemos considerar que a perícia psicológica de crianças é um desafio aos psicólogos jurídicos em diversos níveis. Ela nos exige circular e aproximar diversos mundos que não necessariamente nos são tão naturais como o universo infantil e o universo jurídico.

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