O SENTIDO DA INCERTEZA

LUIS FELIPE GOMES DA SIL VA BACHARELADO EM MATEMÁTICA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA

Resumo. Este artigo trata de como um problema não determinístico
não pode ser reduzido a um problema determinístico, sem que tal redução provoque a perda de seu sentido. E discute sobre os novos rumos da computação.

Date

: Agosto de 2012.

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1 É certo que quando Magali jogou sua moeda, para tirar a sorte com seu irmão mais novo e decidir quem caria com o último picolé justo naquele dia no qual fazia um calor infernal, não pensou muito em probabilidades ou eventos equiprováveis, quanto menos em moedas viciadas e coisas do tipo. Ela sabia apenas que era um método justo de sorteio e que tranferia ao acaso, representado naquela pobre moedinha, a chance de julgar. Tais eventos em cuja decisão está alheia a vontade dos participantes são conhecidos como não determinísticos. Por mais incrível que pareça, eles governam grande parte das ações humanas corriqueiras. Não é algo que uma estratégia consiga resolver, pois não há como determinar uma estratégia, pois os participantes do evento nem sequer possuem uma estratégia. O mesmo acontece no mundo dos computadores. Quando Alan Turing deniu sua máquina de calcular, antes mesmo da invenção de um computador, ele foi estritamente clássico na maneira como a máquina deveria se comportar e o mundo em que ele escolheu foi o mundo da absoluta certeza matemática, em outras palavras, sua máquina estaria connada ao mundo determinista. No entanto, em seu artigo mais famoso "On computable numbers, with an application to the entscheindungproblem"(Acerca dos números computáveis com uma aplicação no problema de decisão), Turing chega a cogitar a existência de uma c-machine ou choice-machine(máquina de escolha) e diz "Quando tal máquina alcança

uma dessas ambiguas congurações, ela não pode continuar até que alguma escolha arbitrária seja feita por um operador externo". Implicações desse tipo são muito comuns na Física Quântica, quando um operador externo parece inuenciar no experimento de medida onde dois fótons são submetidos a polarizações ortogonais. Gostaria que o leitor detesse sua atenção sobre o simples algoritmo, que será chamado de *1, por falta de criatividade mesmo. O algoritmo *1 diz o seguinte: 1) Comece com um número n qualquer; 2) Se n for ímpar, multiplique por 2; 3) Se for par some 1 ou subtraia 1, segundo um evento aleatório(ou pseudoaleatório), com a probabilidade de 1 para cada um. 4)Se o 2 número atual for primo, pare. Observações interessantes sobre *1 podem ser assumidas como teses. Primeiro e mais importante. Esse algoritmo sempre para? para qualquer n?. Outra, perceba que o passo três introduz um elemento não determinístico no algoritmo. A questão é um tanto mais complexa do que parece. Imagine-se que não existe uma escolha, mas que o algoritmo sempre escolhe o caminho da esquerda quando desce na árvore de decisão. O mesmo acontece no caso simétrico, ele desceria sempre pelo lado esquerdo da árvore. Ele pararia? Para todo n? Sabemos da Estatística que quando um evento equiprovável N acontece 1 uma uma probabilidade P = N a tendência natural é que quando tal evento se repita tendendo ao innito, então, o número de vezes em que

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cada evento ocorre tende a aproximar- de eventos similares e a experiênse da probabilidade P. No caso do cia contam muito na tomada de delançamento de uma moeda, cuja prob- cisões. 1 abilidade de cara e coroa é de 2 a Nada obstante a juventude da Intendência é que quanto mais evento teligência Articial, já foram obtiforem gerados mais a quantidade de dos muitos resultados relevantes com caras e coroas cam iguais. o uso de Algoritmos Genéticos, RePois bem, voltando ao algoritmo des Neurais e Lógica Nebulosa, prati*1. Se considerarmos que o mecancamente os três pilares dessa ciência. ismo de escolha divide o espaço em Com isso, o mundo das máquinas duas regiões equiprováveis, quanto pensadas por Alan Turing distanciamais rodarmos o programa para um se cada vez mais do mundo dos probcerto n xo a tendência é de que lemas reais, muitos deles envoltos na obtenhamos a árvore completa de de- economia, assemelhando-se a divisão cisão! Ou seja, hipoteticamente, teríamos ocorreu na Física entre a mecânica que que rodar o programa para cada n clássica de Newton e a mecânica quâninnitas vezes, mas no m a escolha tica de Bohr, Heisenberg e Schrödinger. entre a direita e a esquerda seria igual Atualmente, vários modelos de máquinas e nesse caso poder-se-ia pensar em de Turing surgiram, inclusive para todas as possibilidades de bifurcações. acomodar tais eventos não determinísEmbora sejam muitas e de ordem ticos, no entanto, não parece tratarexponencial, 2p , cujo p é o nível, o se apenas de invocar uma nova máquina algoritmo que considera-se apenas um em moldes antigos, mas de mudar o dos lados da escolha, não estaria busponto de vista de como deve ser feita cando apenas uma das muitas soluções a computação do futuro. disponíveis. Em seu dicílimo artigo "QuanÉ muito pouco provável que o altum theory, the Church-Turing pringoritmo *1 não pare em algum mociple and the universal quantum commento, posto que o número de priputer", o físico David Deutsch transmos é innito, embora o algoritmo formou a célebre tese de Church-Turing só gere dois tipos de primos, os 2k+1 em um princípio físico e deniu uma e 2k − 1. máquina universal que poderia calNota-se que a riqueza de um probcular o comportamento de qualquer lema não determinístico é muito susistema. perior à de um problema determinísTalvez, estejamos ainda muito distico. Paradoxalmente a retirada da tantes de uma computação quântica, incerteza, acarretaria uma escassez pois sua realidade depende dos avanços de soluções, enquanto que a escolha na mecânica quântica que não tem de um padrão determinístico torne sido muito elucidativos e permanecem restritos a um grupo de acadêmicos o problema insolúvel na maior parte de sua abordagem. que dominam essa parte da ciência. Sabemos mais do que nunca que o Ainda não se pode saber quando ser humano utiliza muito o raciocínio alguém poderá ver um computador intuitivo quando se depara com um quântico em funcionamento, porém problema. É claro que a memória sabemos que temos que, como disse

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o matemático do século XVII Blaise Pascal, "precisamos aprender a caminhar no incerto". Talvez esse seja o verdadeiro sentido da incerteza.