Capítulo 8

Decaimento por emissão de
partícula alfa
8 Decaimento por emissão de partícula alfa 268
8.1 Introdução histórica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 268
8.2 Considerações energéticas sobre a emissão c . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 273
8.3 Tunelamento pela barreira coulombiana . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 275
8.3.1 Cálculo da constante de decaimento ` . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 280
8.4 Previsões teóricas e valores empíricos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 284
8.4.1 Espectros de decaimentos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 288
8.5 Problemas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 289
8.6 Apêndice A: Energias de duas partículas no RCM. . . . . . . . . . . . . . . . . 290
8.7 Bibliograa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 291
8.1 Introdução histórica
Apresentamos na seção um breve relato histórico sobre a descoberta da partícula alfa
e de seu papel nas séries radioativas. A denominação partícula alfa (que poderemos,
doravante, denotar simplesmente como c) vem da descoberta feita por Rutherford, em
1899, de uma radiação, que ele chamou "raios c", que emanava de certos materiais.
De fato, ele havia notado que as rochas e os minérios radioativos
1
emitem dois tipos
de radiação: uma era mais facilmente absorvida, (os "raios c"), do que a outra – que
ele denominou raios –, mas ambos os tipos de radiação são emitidos pela mesma
amostra. Em 1900, Rutherford e Soddy descobriram que do tório emana um elemento
1
O fenômeno da radioatividade foi descoberto por Becquerel em 1896. Pouco tempo depois, em 1900,
um terceiro tipo de radiação foi descoberto por Paul Villard – contemporâneo de Becquerel, do casal Curie
e de Rutherford – que ele chamou "raios ~". Ele percebeu que eles eram diferentes dos raios A devido à
sua maior penetrabilidade. Só mais tarde, em 1914, Rutherford mostrou que os raios ~ eram um tipo de luz
mas de comprimento de onda muito menor que o dos raios A.
268
S.S. Mizrahi & D. Galetti
8.1 Introdução histórica 269
gasoso radioativo que eles chamaram tóron
2
que, assim como o gás argônio, é quimi-
camente inerte. Pela medição de sua radioatividade, eles vericaram que o tóron decai
em outros elementos radioativos; isto levou à descoberta da transmutação dos elemen-
tos. Um ano mais tarde, Marie Curie descobriu um elemento gasoso similar, o isótopo
226
1:, que é emanado pelo elemento rádio. Essas descobertas levaram Rutherford e
Soddy a reportar, em uma seqüência de artigos, sua teoria sobre as complexas relações
entre os produtos de decaimento do urânio e do tório, e estabeleceram a lei exponen-
cial do decaimento radioativo. Constataram que essa lei continua válida mesmo com
a variação da temperatura (absorção ou liberação de calor), ou devido a combinações
químicas dos elementos (ações que afetam a estrutura eletrônica dos átomos)
3
. Em
1908 Rutherford e Hans Geiger [1] mostraram, conclusivamente, que os raios c eram
íons do elemento hélio
4
: o núcleo de
4
Hc. Como discutido no capítulo 3, vericou-se,
então, a existência de três séries radioativas: do urânio (que se inicia no
238
l), do ac-
tínio (com início no
235
l, e não no actínio, pois era originalmente chamado actinium-
uranium, ¹cl) e do tório (com início no
232
T/), como mostrado na Figura 8.1. As
séries radioativas naturais sâo rotuladas por números de massa 4:. 4: + 2. 4: + 3,
relativas ao número de massa ¹ e que dizem respeito aos números de núcleons em
múltiplos de quatro mais o resto da divisão. A quarta série, 4: + 1, não existe, pois
não há na natureza um núcleo-pai com tempo de meia-vida sucientemente longo e
em quantidade signicativa, que poderia ter sobrevivido na Terra desde a síntese pri-
mordial dos elementos até nossos dias,
De forma característica, as séries radioativas terminam no chumbo,
206
1/,
207
1/ e
208
1/, respectivamente, que têm camada fechada nos prótons, 7 = 82 (o
208
1/ tem
também camada fechada nos nêutrons, · = 126). O decaimento c ocorre sempre
que as condições energéticas permitem, de acordo com o princípio de conservação da
energia, a menos que seja precedido por um decaimento que seja energeticamente
mais favorável. Isto será discutido nas seções 8.2 e 8.4. Decaimentos c podem ocorrer
em transições do tipo estado fundamental ÷ estado fundamental e, também, do tipo
em estado fundamental ÷ estados excitados. Por exemplo, no decaimento
226
1a ÷
222
1:

+ c + 1
o
detecta-se um espectro constituído de quatro diferentes energias
cinéticas das c´s: 4. 782 'c\ (94. 6 %), 4. 599 'c\ (5. 4 %), 4. 340 'c\ (5. 1
10
3
%) e 4. 194 'c\ (710
4
%); as percentagens entre parênteses correspondem às
frações das ocorrências e cada energia corresponde a um nível de energia do nuclídeo-
lho. Este, encontrando-se em um estado excitado, geralmente decai para o estado
fundamental por emissão de raios .
2
Que vem de thoron, em inglês, depois ele foi identicado como um isótopo do radônio, o
228
1a.
3
Estes fatos estão na essência do maior problema presente nos projetos de construção de reatores nu-
cleares de potência para a produção de energia: O que fazer com as substâncias radioativas do combustível
queimado, cujos tempos de meia-vida podem durar decênios ou mais. A solução encontrada, até o presente
momento, é o armazenamento em recipientes blindados, guardados em locais seguros e regularmente mon-
itorados para detectar possíveis vazamentos. Uma solução (ideal) seria transportá-los até o Sol sobre o qual
seriam lançados. Porém este é um procedimento altamente custoso e portanto impraticável.
4
Elemento cujo espectro de emissão foi revelado, poucos anos antes de 1899, nos raios solares e depois
descoberto nos gases contidos em minérios de urânio.
S.S. Mizrahi & D. Galetti
270 Capítulo 8. Decaimento por emissão de partícula alfa
radioativas
1.,µa
Figura 8.1: Série radioativas de: (a) tório, (b) urânio e (c) actínio. As linhas diagonais, fazendo
um ângulo agudo com a abcissa, correspondem a decaimentos-c, as linhas diagonais, de ângulo
obtuso, correspondem a decaimentos-.
S.S. Mizrahi & D. Galetti
8.1 Introdução histórica 271
A constatação de que o isótopo
238
l (o mais abundante do urânio) tem tempo de
meia-vida de cerca de 4. 5 bilhões de anos e emite c´s com energia de 4. 2 'c\ , en-
quanto que o
212
1o, com meia-vida muito mais curta, 0. 314 j:, emite c´s com energia
muito mais alta, 8. 785 'c\ , levou Geiger e J. M. Nuttall [2], em 1911, a propor uma
relação entre tempo de vida-média `
1
e a energia da c: os nuclídeos emissores c com
vida mais curta são aqueles que ejetamc´s com maior energia cinética 1
o
. Essa relação
cou conhecida como lei de Geiger-Nuttall
ln` = c
2
+c
1
ln1
o
. (8.1)
onde c
1
e c
2
são duas constantes a seremajustadas para reproduzir os valores medidos
5
,
veja a Figura 8.2.Novamente, em 1927, Rutherford, [3] constatou que c´s emitidas
pelo
212
1o e espalhadas por uma na lâmina de urânio apresentavam uma seção de
choque de espalhamento elástico cuja forma é reconhecida como devida a um potencial
com dependência 1´r, exatamente um potencial coulombiano, e vericou que a menor
distância do centro espalhador era da ordem de 30 1:. Assim, a barreira coulombiana
do núcleo de urânio, como enxergado por uma c, deve ter uma altura da ordem de
6
8. 83 'c\ , e qualquer c que se candidate a sair do núcleo deve enxergar essa mesma
barreira. Pensando a c como partícula – ou seja, classicamente – essa deve ser a energia
cinética minimamente necessária que ela deve possuir para poder emergir do núcleo
passando por cima da barreira. Entretanto, medem-se energias de c´s expelidas do
238
l
a energias de 4. 2 'c\ ! Isto cria um impasse: como seria possível uma c incidente e
uma c emergente enxergarem barreiras de diferentes alturas? O grande feito explicativo
surgiu em 1928, devido a estudos feitos por George Gamow
7
[4] e, independentemente,
por Ronald W. Gurney e Edward W. Condon
8
[6].
O surgimento da então recente mecânica quântica e os novos conceitos sobre a na-
tureza microscópica das partículas foram utilizados para explicar o paradoxo clássico,
em seu primeiro grande teste na física nuclear, antes mesmo da descoberta do nêutron.
A explicação, cujos cálculos detalhados serão apresentados na seção 8.3, é a seguinte:
considera-se a c no núcleo não como uma partícula clássica, mas como um objeto que
também possui propriedades ondulatórias, sendo descrita por uma função de onda, que é
5
De fato, Geiger e Nuttall propuseram a relação
ln A = c
2
+c
1
ln 1
e vericaram que a variável 1 é proporcional a ·
3
, · sendo a velocidade da c.
6
Lembre-se de que a energia coulombiana é 1c = Z
1
Z
2
c
2
/v, logo para Z
1
= 2, Z
2
= 92 e v =
3 10
12
cn, obtém-se 8. 83 Ac\ .
7
Na época, Gamow era um jovem pós-doutorando ucraniano que trabalhava sob a supervisão de N. Bohr,
no Instituto de Física Teórica de Copenhague. A Gamow se devem notáveis descobertas, como a idéia do
conceito do Big-Bang para o "início do Universo", pesquisas em astrofísica – o chamado efeito Urca, em
parceria com o físico brasileiro Mário Schemberg –, as regras de transição Gamow-Teller no decaimento-o
e a teoria da nucleosíntese dos elementos, juntamente com Ralph A. Alpher.
8
Condon era norte-americano e Gurney um inglês que, na ocasião, tinha uma bolsa para estudar na Uni-
versidade de Princeton. Ele viera do laboratório Cavendish, onde trabalhara com Rutherford. Uma leitura
interessante do ponto de vista histórico encontra-se em [5].
S.S. Mizrahi & D. Galetti
272 Capítulo 8. Decaimento por emissão de partícula alfa
Figura 8.2: Gráco de Geiger-Nuttall; tempos de vida-média (em anos) em função da energia da
c para alguns núcleos emissores (núcleos-pai) par-par. Os pontos externos às curvas empíricas
são transições para estados excitados, ou pertencem a isótopos do Em e Po, cujo decaimento
envolve um número mágico.
S.S. Mizrahi & D. Galetti
8.2 Considerações energéticas sobre a emissão c 273
solução da equação de Schrödinger. A propriedade de onda da c, e não sua propriedade
de partícula, é que lhe permite atravessar a barreira coulombiana, mesmo se a sua en-
ergia cinética estiver abaixo da altura máxima da barreira! Este fenômeno é conhecido
como tunelamento através de uma barreira, a sua aplicabilidade não se restringe ape-
nas a c´s, mas a qualquer tipo de partícula descrita por uma função de onda. De fato,
o efeito túnel já fora usado, anteriormente, por R. H. Fowler e L. Nordheim [?] para
explicar como seria possível extrair, a frio, elétrons da superfície de metais.
8.2 Considerações energéticas sobre a emissão
Visto que a c tem duas unidades de carga elétrica positiva, surge, no processo de emis-
são, uma competição entre a força nuclear que atua de forma a mantê-la no núcleo e a
força de repulsão coulombiana que tende a ejetá-la. Do ponto de vista da física clás-
sica, a emissão da c é inibida quando a altura da barreira de potencial que ela sente
supera a sua energia total, o que a impede de sair livremente. Porém, visto que tanto o
núcleo `pai', (
.
2
A), quanto a c são objetos microscópicos, eles podem ser descritos de
acordo com as regras da mecânica quântica, e efeitos próprios do caráter ondulatório se
manifestam [7].
Por se encontrarem em estado instável, muitos núcleos podem decair perdendo ener-
gia por emissão c, uma vez que, como vimos na discussão sobre a energia de separação,
no nal da seção 3.1, dependendo da massa do nuclídeo ¹, menos energia é necessária
para emitir uma c do que um nêutron. Na notação própria, representa-se este decai-
mento como
.
2
A ÷÷
.4
22
1 +c.
Aanálise que faremos a seguir faz uso de argumentos devidos a Bethe [9], que utiliza
o conceito de excesso de massa. Na expressão
' = 7 ('1
1
÷1n) + (¹÷7) ('
n
÷1n) (8.2)
= 7. 297 + 8. 07 (¹÷7) 'c\´c
2
.
o excesso de massa é a diferença de massa de um sistema constituído de 7 átomos
de hidrogênio mais · nêutrons, livres, em relação a ¹ unidades de massa atômica, n,
ou seja, um átomo
9
de carbono-12. A segunda linha da equação (8.2) representa a
conversão de unidades n em'c\´c
2
, lembrando que '1
1
= 938. 78 'c\´c
2
, '
n
=
939. 56 'c\´c
2
e 1n = 931. 49 'c\´c
2
. Também pode-se calcular o excesso de
massa de um átomo neutro
.
2
A quando então sua energia de ligação deve ser inserida
na expressão (8.2),
'A
Z
·
= 'A
Z
·
÷¹ n = 7. 297 + 8. 07 (¹÷7) ÷1A
Z
·
.
sendo que esta quantidade pode ser positiva ou negativa (obviamente ela é nula para o
átomo de
12
6
C). No caso de um átomo de
4
Hc, substituindo os valores ¹ = 4, 7 = 2,
assim como a energia de ligação intrínseca da c, 1
o
= 28. 30 'c\ (vamos falar em
9
Para o nuclídeo
12
6
C, pela própria denição de excesso de massa, tem-se A = 0, pois A12
6
C
= 12 &.
S.S. Mizrahi & D. Galetti
274 Capítulo 8. Decaimento por emissão de partícula alfa
c em vez de átomo de
4
Hc), obtém-se o excesso de massa '
o
= 2. 42 'c\ . Se
consideramos o núcleo de
12
6
C como sendo constituído de três “partículas” – três c´s –,
cada uma delas tem 2. 42 'c\ de fração de ligação
10
, que iremos admitir como sendo
a energia de ligação típica que a mantém ligada, mesmo nos nuclídeos pesados.
Vamos agora considerar um nuclídeo
.
2
A e um sistema constituído de um nuclídeo
.4
22
1 mais uma c ligada a ele, e calculemos a diferença de energias de ligação
c =

1A4
Z2
Y
+1
o
+ '
o

÷1A
Z
·
=

1A4
Z2
Y
+ 30. 72 'c\

÷1A
Z
·
. (8.3)
Quando c 0 isso poderia signicar que a formação de uma estrutura de uma c em um
núcleo
.
2
A, isto é, formando um sistema
.4
22
1 + c é energeticamente mais favorável
(isto é, torna esta estrutura mais estável) do que um núcleo sem esta conformação. A
quantidade c é negativa para valores pequenos de ¹, entretanto para alguns núcleos
com massas intermediárias verica-se que c 0 e que eles são estáveis por emissão-
c, como por exemplo, o
124
54
Ac, para o qual c = 1. 75 'c\ . Assim pode-se supor
que haja a formação de uma c que, entretanto, nunca será emitida pelo núcleo, por ser
este um processo desfavorável, veja a Tabela 8.1. Conjectura-se então que a formação
.4
22
1 + c é favorecida, mas não a emissão da c. Por outro lado, alguns nuclídeos de
massas intermediárias (
146
62
o:,
148
64
Gd,
150
64
Gd,
152
64
Gd,
154
66
1n)
11
são instáveis e decaem
por emissão de c, para esses verica-se c _ 5 'c\ , o que signica que não apenas
a formação de uma c é favorecida mas que, também, ela será emitida pelo núcleo.
Para os nuclídeos de massas maiores ¹ _ 208, aqueles que decaem por emissão c
apresentam um valor c & 5 'c\ . Portanto, pode-se supor uma energia próxima ou
maior que 5 'c\ para a Eq. (8.3) deve ser a quantidade de energia necessária para
permitir a emissão c, veja a Tabela 8.1. Convém lembrar que 7 = 82 e ¹ = 208 são
números duplamente mágicos, o que caracteriza o nuclídeo
208
82
1/ como estável. Apesar
de apresentar um valor c = 2. 94 'c\ positivo, ele é bem menor que dos isótopos do
polônio (
84
1o), seus vizinhos e fortes emissores-c, que de outros núcleos nessa região
10
Aenergia de ligação empírica do
12
C, fornecida na Ref. [?], é 95. 16 Ac\ , que é igual a (3 28. 30 + 3 2. 42) Ac\ ,
que é a energia de ligação de três c ´s mais a energia de ligação de três pares.
11
Verica-se a existência de apenas esses cinco nuclídeos de massas intermediárias que decaempor emissão
c. Os demais nuclídeos instáveis decaem por decaimento o ou captura eletrônica. Somente com números de
massa ¹ 208, os radionuclídeos voltam a decair por emissão c.
S.S. Mizrahi & D. Galetti
8.3 Tunelamento pela barreira coulombiana 275
de valores de ¹ altos.
.
2
A 1A
Z
·
.4
22
1 1A4
Z2
Y
c
20
10
·c 160. 64
16
8
O 127. 62 ÷2. 30
40
20
Ca 342. 05
36
18
¹r 306. 72 ÷4. 51
56
26
1c 492. 25
52
24
Cr 456. 35 ÷5. 18
124
54
Ac 1 046. 25
120
52
Tc 1 017. 28 1. 75
146
62
o: 1 210. 91
142
60
·d 1 185. 15 4. 96
148
64
Gd 1220. 77
144
62
o: 1195. 74 5. 69
150
64
Gd 1236. 40
146
62
o: 1210. 91 5. 23
152
64
Gd 1251. 49
148
62
o: 1225. 40 4. 63
154
66
1n 1261. 75
150
64
Gd 1236. 40 5. 35
208
84
1o 1 630. 61
204
82
1/ 1 607. 53 7. 88
210
84
1o 1645. 23
206
82
1/ 1622. 34 7. 83
214
84
1o 1666. 03
210
82
1/ 1647. 57 12. 26
218
84
1o 1685. 48
214
82
1/ 1663. 30 8. 54
222
86
1: 1708. 19
218
84
1o 1685. 48 8. 01
226
88
1a 1731. 61
222
86
1: 1708. 19 7. 30
230
90
T/ 1755. 14
226
88
1a 1731. 61 7. 19
234
92
l 1778. 57
230
90
T/ 1755. 14 7. 29
238
92
l 1801. 69
234
90
T/ 1777. 67 6. 70
Tabela 8.1. Os quatro primeiros nuclídeos são estáveis, os demais decaem por emissão c. Todos
os números estão em unidades de MeV. Os valores das energias de ligação foram tomados da
Ref. [10].
8.3 Tunelamento pela barreira coulombiana
Vamos aqui revisar o fenômeno de tunelamento de uma partícula de massa :, cuja
descrição é dada pela função de onda que é solução da equação de Schrödinger. Ini-
cialmente, vamos considerar o caso mais simples de uma barreira quadrada, unidimen-
sional, conforme mostrado na Figura 8.3,
\ (r) =

0 para r < ÷a
\
0
para ÷a _ r _ a
0 para a < r
(8.4)
sendo 1 = 1 (1 < \
0
) a energia cinética antes da partícula atravessar a barreira. Para
assegurar que a energia seja conservada na região da barreira, a energia cinética deve
assumir valores negativos, 1 < 0, pois 1 = \
0
+1. Uma vez que o potencial apresenta
duas singularidades, as descontinuidades nos pontos ÷a e a, haverá uma função de onda
S.S. Mizrahi & D. Galetti
276 Capítulo 8. Decaimento por emissão de partícula alfa
Figura 8.3: Partícula com energia 0 < 1 < \
0
que incide sobre uma barreira de potencial
quadrada, de largura 2a. 1 é a energia cinética da partícula, que na região da barreira se torna
negativa.
(como solução da equação de Schrödinger) para cada uma das regiões I, II e III
c(r) =

c
I|r
+
~
1c
I|r
para r < ÷a
¹c
rr
+1c
rr
para ÷a < r < a
~
Tc
I|r
para a < r ,
(8.5)
onde os números de onda
/ =

2:1
~
2
e i =

2:(\
0
÷1)
~
2
dependem da energia. Os coecientes
~
1 e
~
T são as amplitudes de reexão e de trans-
missão da onda. Sem perda de generalidade, impusemos que o coeciente da onda
incidente c
I|r
é igual a 1 pois a introdução de um fator multiplicativo (digamos
~
') não
irá alterar o conteúdo físico dos resultados, levando apenas à necessidade de normalizar
os coecientes como
~

~
' e
~

~
'. Agora, impondo as condições de continuidade
da função de onda e de sua derivada nos pontos a e ÷a do potencial, obtém-se quatro
equações algébricas que podem ser escritas como

¹c
ro
+1c
ro
= c
I|o
+
¯
1c
I|o
¹c
ro
+1c
ro
=
¯
Tc
I|o
÷¹c
ro
+1c
ro
=
I|
r

c
I|o
÷
¯
1c
I|o

÷¹c
ro
+1c
ro
=
I|
r
¯
Tc
I|o
.
(8.6)
Eliminando ¹ e 1 podemos escrever as amplitudes
~
1 e
~
T como
~
1 = c
2I|o

/
2
+i
2

sinh(2ia)

/
2
÷i
2

sinh(2ia) ÷2i/icosh(2ia)

(/
2
÷i
2
)
2
sinh
2
(2ia) + 4/
2
i
2
cosh
2
(2ia)
(8.7)
S.S. Mizrahi & D. Galetti
8.3 Tunelamento pela barreira coulombiana 277
e
~
T = c
2I|o
2i/i

/
2
÷i
2

sinh(2ia) ÷2i/icosh(2ia)

(/
2
÷i
2
)
2
sinh
2
(2ia) + 4/
2
i
2
cosh
2
(2ia)
. (8.8)
Calculando o módulo ao quadrado de
~
1 e
~
T obtemos os coecientes de reexão e de
transmissão. Após alguma manipulação algébrica, obtemos
1 =

~
1

2
=

/
2
+i
2

2
sinh
2
(2ia)
(2/i)
2
+ (/
2
+i
2
)
2
sinh
2
(2ia)
(8.9)
e
T =

~
T

2
=
(2/i)
2
(2/i)
2
+ (/
2
+i
2
)
2
sinh
2
(2ia)
. (8.10)
Verica-se que a probabilidade total – de reexão 1 mais de transmissão T – é con-
servada, 1+T = 1, independentemente da forma da barreira e da energia da partícula.
A corrente é conservada, isto é, não há perda de uxo de probabilidade, ou ainda, a
partícula (ou onda) não pode “sumir” ou ser absorvida ao atravessar a barreira: a onda
pode ser reetida ou transmitida, mesmo que parcialmente. Se quisermos ainda pensar
a partícula estritamente como um objeto clássico, ela não poderia atravessar a barreira
por ter energia cinética menor do que a altura da mesma, como mostrado na Figura 8.3.
Porém, para uma partícula descrita por uma onda, desde que a altura máxima e a largura
da barreira sejam nitas, a probabilidade de a partícula atravessá-la é sempre não-nula,
fenômeno conhecido como efeito túnel.
Figura 8.4: Potencial repulsivo de formato arbitrário, cuja forma pode ser aproximada por uma
seqüência de barreiras de larguras innitesimais e de alturas variáveis.
Agora, vamos considerar uma barreira unidimensional de formato arbitrário, con-
forme mostrado na Figura 8.4, que pode ser aproximada por uma sucessão de um grande
S.S. Mizrahi & D. Galetti
278 Capítulo 8. Decaimento por emissão de partícula alfa
número de barreiras adjacentes, retangulares e estreitas. Nas situações em que a al-
tura da barreira é muito maior que energia de incidência da partícula, isto é, 1 <
8:a
2
(\
0
÷1) ´~
2
ou (2ia)
2
1, o coeciente de transmissão da barreira, Eq.
(8.10), – que dá a probabilidade da partícula atravessar a barreira por tunelamento –
pode ser reescrito como
T =
1
1 +

|
2
+r
2
2|r

2
sinh
2
(2ia)
-

4/i
/
2
+i
2

2
c
4ro
.
Considerando o logaritmo desta expressão temos
lnT - 2 ln

(2/a) (2ia)
(/a)
2
+ (ia)
2

÷2i(2a)
e, notando que o segundo termo é dominante, obtém-se lnT - ÷2i(2a), que depende
linearmente de i e da largura da barreira. Para muitas barreiras seqüenciais, como na
Figura 8.4, a probabilidade de tunelamente é denida como o produto das probabili-
dades de tunelamento por cada uma das barreiras parciais e, calculando o logaritmo,
obtemos
ln
¸
I
T
I
=
¸
I
lnT
I
= ÷2
¸
I
i
I
r
I
. (8.11)
onde r
I
é a espessura da i-ésima barreira e, obviamente, o número de onda i
I
deve
depender da posição r
I
. Transformando a soma (8.11) sobre todas as barreiras retangu-
lares em uma integral, o coeciente de transmissão – também chamado coeciente de
transparência ou parâmetro de penetração – é escrito como
T = exp

÷2

r2
r1
i(r)dr

= exp

÷2

r2
r1

2:
~
2
[\ (r) ÷1]dr

. (8.12)
onde r
1
e r
2
são os pontos de retorno clássicos (são as raízes da equação \ (r)÷1 = 0).
Note-se que a integral em (8.12) desconsidera as barreiras situadas fora do intervalo
[r
1
. r
2
], uma vez que a probabilidade de atravessar cada uma delas é aproximadamente
1. No caso de uma barreira tridimensional com simetria radial a integral irá depender
apenas da coordenada radial e não dos ângulos,
T = exp

÷2

:2
:1

2:j
~
2
¸
\ (r) +
~
2
|(| + 1)
2:r
2
÷1

dr

. (8.13)
e r
1
e r
2
são as raízes da equação \ (r) +~
2
|(| +1)´

2:r
2

÷1 = 0 com 0 < r
1
_ r
_ r
2
< ·.
No decaimento
.
2
A ÷÷
.4
22
1 +c, a equação do balanço energético é dada por
Q = ('
·
÷'
Y
÷:
o
) ´c
2
.
S.S. Mizrahi & D. Galetti
8.3 Tunelamento pela barreira coulombiana 279
onde Qé a energia liberada no processo, '
·
, '
Y
e :
o
são as massas dos nuclídeos A,
1 e da c (os nuclídeos
.
2
A e
.4
22
1 são também chamados núcleo-pai e núcleo-lho
12
,
respectivamente; o último é também conhecido como núcleo residual) e na expressão
(8.13) devemos trocar a massa : pela massa reduzida
j =
:
o
'
Y
:
o
+'
Y
.
Podemos fazer agora algumas aproximações para simplicar a análise física sem com-
prometer, entretanto, as conclusões: desconsideramos as energias de ligação dos nú-
cleons diante do valor das massas, isto é, :
o
- 4'1
1
e '
Y
- (¹ ÷4)'1
1
('1
1
é
a massa do átomo de hidrogênio)
13
; logo
j =
4(¹÷4)
4 + (¹÷4)
'1
1
=

1 +
4
¹÷4

1
4'1
1
;
e, visto que as emissões c se dão em nuclídeos com ¹ 140 – portanto (¹ ÷ 4) 4
–, e então a massa reduzida simplica-se para j - 4'1
1
.
Para a partícula c externa ao núcleo residual o potencial coulombiano é dado por
\
c
(r) = 2 (7 ÷2) c
2
´r e, supondo a emissão com momentum angular | = 0, tem-se
T = exp

÷
2
~

:2
:1

2j
¸
2 (7 ÷2) c
2
r
÷1

dr

.
Admitindo que, antes da emissão, o núcleo-pai estava em estado de repouso no
RCM, e visto que a energia 1 (= Q) do sistema, núcleo residual + c, é conservada
(em qualquer estágio do movimento), então ela é a soma das energias cinéticas da c e
do núcleo residual (
.4
22
1 ), assintoticamente. Uma vez que se mede apenas a energia
cinética da c, 1
o
, perguntamos: qual é a relação que existe entre 1 e 1
o
?
No RCM o núcleo de
.
2
A está em estado repouso, seu momentum linear total é nulo,

1
·
= 0, de tal forma que, pelo princípio da conservação do momentum linear, após o
decaimento tem-se
j
o
+

1
Y
= 0 ==

1
Y
= ÷ j
o
.
e a energia cinética total é escrita como
1 =

1
2
Y
2'
Y
+
j
2
o
2:
o
=
j
2
o
2:
o
¸
:
o
'
Y
+ 1

= 1
o

1 +
4
¹÷4

= 1
o
1
1 ÷4´¹
.
que é proporcional à energia cinética da c. Aqui também, dado que ¹ 4, isto permite
fazer a aproximação 1 - 1
o
. O cálculo é não-relativístico pois a energia cinética típica
12
No inglês, o gênero é invertido, usa-se mother ou parent nucleus e daughter nucleus.
13
Estas aproximações são válidas neste contexto.
S.S. Mizrahi & D. Galetti
280 Capítulo 8. Decaimento por emissão de partícula alfa
de uma c emitida por um núcleo está entre 4 e 10 'c\ , um valor muito menor que o
equivalente em energia da massa da c, que é aproximadamente 3 728 'c\ .
8.3.1 Cálculo da constante de decaimento
Vamos agora estabelecer a relação entre a constante para o decaimento radioativo `
e o coeciente de transmissão T. Recordemos que a expressão fenomenológica para
a probabilidade de decaimento radioativo (probabilidade de um núcleo não decair) é
j(t) = c
X|
, que no presente caso é a probabilidade de o núcleo-pai não emitir uma c
no intervalo de tempo [0. t], ou seja, ele continuar mantendo a sua identidade.
Dentro do núcleo a partícula c é descrita por uma onda de intensidade 1
0
que incide
sobre a barreira de potencial, conforme mostrado na Figura 8.5. Quando a c se forma
dentro do núcleo
14
a repulsão coulombiana tende a expelí-la, assim como poderia ocor-
rer com os prótons. Entretanto, devido à sua grande energia de ligação, para núcleos de
massas média e pesada é energeticamente mais favorável formar uma c e expelí-la do
que ejetar dois prótons e dois nêutrons independentes.
Visto que a c se comporta como uma onda, em uma primeira incidência contra a
barreira (poderíamos imaginar o potencial como uma esfera oca cuja casca seria feita
de material translúcido) a intensidade da onda emergente é T1
0
e a da onda reetida é
11
0
. Na segunda tentativa a intensidade da onda emergente é T (11
0
) e a da reetida é
1(11
0
). Este processo se repete, seguidamente, conforme mostrado na Tabela 8.2
N
0
da incidência Intens. da onda transm. Intens. da onda re.
1 T1
0
11
0
2 T (11
0
) 1(11
0
) = 1
2
1
0
3 T

1
2
1
0

1

1
2
1
0

= 1
3
1
0


n T

1
n1
1
0

1

1
n1
1
0

= 1
n
1
0
.
Tabela 8.2 Seqüência de incidências e probabilidades de transmissão e reexão.
Após : incidências a intensidade da onda que permanece no núcleo é 1
n
= 1
n
1
0
=
(1 ÷T)
n
1
0
. Para T <1, são feitas as aproximações 1
n
= 1
0
(1 ÷T)
n
- 1
0
(1 ÷:T) -
1
0
c
nT
, obtendo-se
1
n
= 1
0
c
Tn
.
Portanto, a probabilidade de a c permanecer no núcleo após : tentativas para emergir
adquire a forma exponencial
j
n
= 1
n
´1
0
= c
Tn
. (8.14)
14
Um tratamento mais rigoroso exigiria levar em conta a probabilidade de pré-formação da c dentro do
núcleo como feito por H. J. Mang [11] e J. O. Rasmussen [12]. Mang calcula a probabilidade de formação
como o produto das funções de onda dos núcleos pai e lho, no contexto do modelo de camadas. Rasmussen
dedica-se a um cálculo mais preciso do que a da probabilidade reduzida, ·
0
/ (21
0
), usada na Eq. (8.17).
S.S. Mizrahi & D. Galetti
8.3 Tunelamento pela barreira coulombiana 281
Agora, vamos considerar que: (1) t
0
seja o tempo médio entre duas reexões su-
cessivas pela barreira, (2) o caminho médio percorrido neste tempo seja da ordem do
diâmetro nuclear, 21
0
, e (3) a velocidade média da partícula c seja ·
0
; então temos a
seguinte relação entre essas quantidades
t
0
=
21
0
·
0
. (8.15)
Na realidade, falar de velocidade de uma c no núcleo torna-se um conceito bastante
nebuloso, e é contraditório também, pois já falamos de sua propriedade ondulatória para
tunelar e agora temos que considerar uma partícula no sentido clássico para estimar a sua
velocidade. Por conseguinte, para tratar com mais rigor a emissão c é necessário fazer
cálculos usando o formalismo da aproximação WKB, ou então tratar quanticamente um
sistema de muitos corpos, incluíndo as forças que atuam entre os núcleons, o que é
uma tarefa exeqüivel, mas bastante trabalhosa. Em contrapartida, podemos fazer uma
interpretação elástica do princípio de complementaridade proposto por N. Bohr e usá-lo
como argumento heurístico, como feito na abordagem seguida até aqui, justicando-se
a alternância de aspectos clássicos e quânticos desde que os resultados obtidos sejam
condizentes com o que é medido experimentalmente.
Para uma energia cinética de 1 'c\ , a velocidade média de uma c é
·
0
= c

21
o
:
o
c
2
- 3 10
10

2
(4 939 ÷28. 3)
- 7. 0 10
8
c:´:.
supondo um raio nuclear 1
0
= 1. 4 10
13
¹
1/3
e, admitindo um núcleo com número
de massa ¹ = 216, o tempo característico estimado para atravessá-lo é t
0
- 2. 6
10
21
:.
Após : incidências o tempo decorrido terá sido t = :t
0
, o que permite escrever a
probabilidade (8.14) em função do tempo,
j(t) = exp [÷(T´t
0
) t] = exp[÷`t] . (8.16)
onde
` = `
0
T = `
0
c
c
. (8.17)
é a constante de decaimento e `
0
= (t
0
)
1
é chamada probabilidade reduzida. O
expoente
G =
2
~

b
10

2j
¸
2 (7 ÷2) c
2
r
÷1
o

dr
=
¸
16j(7 ÷2) c
2
~
2

1/2

b
10
¸
1
r
÷
1
o
2 (7 ÷2) c
2

1/2
dr. (8.18)
é chamado fator de Gamow; veja a Figura 8.5 e onde 1
o
= 2 (7 ÷2) c
2
´/ é a energia
da c, sendo que
1
c
= 2 (7 ÷2) c
2
´1
0
(8.19)
S.S. Mizrahi & D. Galetti
282 Capítulo 8. Decaimento por emissão de partícula alfa
de potencial
5.,µa
Figura 8.5: Tunelamento da c por uma barreira de potencial, consistindo de uma força atrativa
(poço quadrado de profundidade V0) e uma repulsiva (a barreira coulombiana). Por termos con-
siderado um poço quadrado, o raio do núcleo 1
0
coincide o primeiro ponto de retorno clássico.
E
c
é a altura da barreira e E é a energia da c.
é a altura máxima da barreira de potencial. Mais rigorosamente, levando-se em conta o
potencial centrífugo e um potencial nuclear empírico proposto por G. Igo
15
, o fator de
Gamow se escreve como
G
l
=
0. 874
(1 + 4´¹
:ts
)
1/2

b
10
¸
2. 88 7
:ts
r
+
5. 23 (1 + 4´¹
:ts
) | (| + 1)
r
2
÷1 100 exp

÷
r ÷1. 17¹
1/3
0. 574

÷1
1/2
dr.
cuja integral pode ser calculada numericamente.
Voltando à Eq. (8.18) – onde | = 0 – e efetuando a integração obtemos a solução
15
Em 1958, G. Igo [13] mostrou que os dados experimentais obtidos a partir dos decaimentos nucleares
por emissão-c poderiam ser mais elmente reproduzidos usando-se o seguinte potencial
\
n+c
(v) =
2. 88Zres
v
1 100 exp
"

v 1. 17 ¹
1=3
res
0. 574
#
. (em Ac\ ).
onde (Zres = Z 2 e ¹res = ¹4.)
S.S. Mizrahi & D. Galetti
8.3 Tunelamento pela barreira coulombiana 283
analítica,
G =

16j(7 ÷2) c
2
/
~
2

1/2
¸
arccos

1
0
/

1/2
÷

1
0
/
÷
1
2
0
/
2

1/2
¸
. (8.20)
com o ponto de retorno / dado por
/ =
2 (7 ÷2) c
2
1
o
. (8.21)
Das Eqs. (8.19) e (8.21) obtém-se uma relação entre os pontos de retorno, a energia da
c e a altura da barreira,
1
0
/
=
1
o
1
c
. (8.22)
e G pode ser reescrito em termos da razão 1
o
´1
c
,
G =

8j1
2
0
1
c
~
2

1/2

1
o
1
c

1/2
¸
arccos

1
o
1
c

1/2
÷

1
o
1
c

1/2

1 ÷
1
o
1
c

1/2
¸
.
(8.23)
Admitindo-se que a energia cinética da c está bem abaixo da altura da barreira 1
o
<
1
c
, ou / 1
0
, e fazendo as aproximações pertinentes em (8.23) (arccos r = ¬´2
÷r ÷r
3
´6 ÷...), obtém-se uma expressão mais simples
G -

8j1
2
0
1
c
~
2

1/2
¸
¬
2

1
c
1
o

1/2
÷1
¸
. (8.24)
Inserindo este fator de Gamow na Eq. (8.17) a constante de decaimento é escrita como
` = `
0
exp

÷

8j1
2
0
1
c
~
2

1/2
¸
¬
2

1
c
1
o

1/2
÷1
¸¸
(8.25)
com a estimativa para a probabilidade reduzida `
0
- 10
21
:
1
tomada como sendo
o inverso do tempo de passagem pela barreira
16
. Essa dedução para a constante de
16
Uma aproximação adicional, usualmente encontrada, consiste em desprezar o termo 1 na expressão
entre colchetes, o que leva a
c
G
exp

2¬2 (Z 2) c
2

ou de forma mais geral, para duas partículas de cargas (:
1
c) e (:
2
c)
c
G
exp

2¬:
1
:
2
c
2

.
onde · é a sua velocidade relativa. Em um contexto mais geral, c
G
é um fator atenuante para a proba-
bilidade de uma reação, ou captura de um núcleo por um outro, mais especicamente uma fusão. Assim a
possibilidade de fusão entre núcleos com grande valor do produto :
1
:
2
é muito pouco provável. Por isso as
reações termonucleares articialmente produzidas envolvem apenas deutério e trítio, isótopos mais pesados
do elemento hidrogênio.
S.S. Mizrahi & D. Galetti
284 Capítulo 8. Decaimento por emissão de partícula alfa
decaimento é correta para transições entre estados de mesmo momentum angular, pois
consideramos | = 0. A constante de decaimento (8.25) descreve transições do tipo
estado fundamental ÷÷ estado fundamental (0
+
÷÷ 0
+
) dos núcleos par-par; veja a
Figura 8.6.
Figura 8.6: Transmutação nuclear com emissão de uma partícula c com transição estado funda-
mental ÷estado fundamental, com |
o
= 0.
Se as transições ocorrerementre níveis de energia de diferentes momenta angulares e
diferentes paridades, a c carregará essa informação e poderá ser ejetada commomentum
angular |
o
= 0. A título comparativo, apresentamos na Tabela 8.3, a razão de fatores de
penetração T
l
´T
0
para diversos valores do momentum angular, de onde se verica que
a probabilidade de emissão diminui com o crescimento do valor do momentum angular
| com que a c é ejetada do núcleo.
|
o
0 1 2 3 4 5 6
T
l
´T
0
1 0,84 0,60 0,36 0,18 0,078 0,028
Tabela 8.3: Fatores de penetração em função dos momenta angulares.
8.4 Previsões teóricas e valores empíricos
Agora vamos usar a presente abordagem do decaimento c para vericar a concordância
entre valores medidos e as previsões teóricas. Pode-se reescrever, com vantagem, a Eq.
S.S. Mizrahi & D. Galetti
8.4 Previsões teóricas e valores empíricos 285
(8.25) como
log
10
t
1
=
¸
log
10
t
1
0
+
4
~

2 (7 ÷2) jc
2

1/2
1
1/2
0

÷
¸
4¬ (7 ÷2) c
2
~

j
2

1/2

1
1/2
o
. (8.26)
para estabeler uma relação entre a vida-média t ( ` = t
1
) de um nuclídeo
.
2
A e a
energia da c. Nota-se que a Eq. (8.26) é da forma
log
10
t
1
· C
2
÷C
1
71
1/2
o
(8.27)
(compare com a expressão (8.1) de Geiger-Nuttall e note a diferença na dependencia em
1
o
) e que os coecientes podemassimser determinados. Aexpressão teórica prevê que,
para 7 xo, o log do inverso da vida-média dos nuclídeos emissores c deve variar lin-
earmente com1
1/2
o
, o que é conrmado pelos resultados experimentais para a maioria
daqueles nuclídeos; veja a Figura 8.2. A seguir apresentamos alguns resultados rela-
cionados com a emissão-c.
« A determinação das linhas de Geiger-Nuttall torna possível estimar o valor do
raio 1
0
= r
0
¹
1/3
do núcleo-pai a partir da Eq. (8.26). Este foi o primeiro
método usado para calcular os raios nucleares dos nuclídeos c-radioativos. O
valor assim obtido para r
0
é, sistematicamente, cerca de 20% maior do que
aquele calculado usando outros métodos, veja Tabela 8.4.
Núcleo-pai E
o
('c\ ) log
10
t
1
r
0
(1:)
208
1o 5. 24 ÷9. 87 1. 43
214
1o 7. 84 3. 67 1. 56
222
1a 6. 62 ÷1. 75 1. 59
226
T/ 6. 41 ÷3. 43 1. 58
236
1n 5. 85 ÷8. 09 1. 56
Tabela 8.4. Alguns nuclídeos pesados e as energias da partícula c. Na quarta coluna o
valor do parâmetro r
0
calculado por este método.
« A desintegração espontânea de um núcleo é inibida por um alto fator G; nos
núcleos pesados, grandes valores de 7 e / tendem a tornar G sucientemente
grande, proibindo praticamente o decaimento por emissão c. A título ilustrativo
vamos examinar o seguinte decaimento hipotético
200
82
1/ ÷÷
196
80
Ho +c +1
o
Para 1
o
= 3. 3 'c\ , obtemos
/ =
2 (7 ÷2) c
2
1
o
- 70 1:.
S.S. Mizrahi & D. Galetti
286 Capítulo 8. Decaimento por emissão de partícula alfa
que corresponde à largura da barreira na altura da energia 1
o
, enquanto que o
raio nuclear é 1
0
= r
0
¹
1/3
= 1. 4 (196)
1/3
- 8. 1 1:. O fator G - 111
implica uma vida-média
t = `
1
- 10
27
: = 3 10
19
a:o:,
o que mostra que o isótopo
200
82
1/ é, de fato, estável quanto ao decaimento por
emissão c. Entretanto, ele pode decair para o
200
81
Ti pela captura de um elétron
orbital (captura-1).
« A chamada série do urânio, que é uma seqüência de decaimentos c a partir do
nuclídeo
238
92
l, é apresentada na Tabela 8.5; veja também a Figura 8.1
1
exp
o
1
0
/ G t
exp
(:) t
teor
(:)
238
92
l ÷
234
90
T/ 4. 27 8. 52 60. 7 0. 53 2. 0 (17) 3. 3 (17)
234
92
l ÷
230
90
T/ 4. 86 8. 49 53. 3 0. 51 1. 1 (13) 1. 1 (13)
230
90
T/ ÷
226
88
1a 4. 77 8. 45 53. 1 0. 51 3. 5 (12) 3. 9 (12)
226
88
1a ÷
222
86
1: 4. 87 8. 41 50. 9 0. 50 7. 3 (10) 7. 4 (10)
222
86
1: ÷
218
84
1o 5. 59 8. 37 43. 3 0. 46 4. 8 (5) 4. 2 (5)
218
84
1o ÷
214
82
1/ 6. 11 8. 33 38. 7 0. 43 2. 6 (2) 1. 6 (2)
214
84
1o ÷
210
82
1/ 7. 84 8. 28 30. 1 0. 36 2. 3 (÷4) 1. 1 (÷4)
210
84
1o ÷
206
82
1/ 5. 41 8. 24 43. 7 0. 47 1. 7 (7) 5. 8 (5)
Tabela 8.5. Seqüência de decaimentos do nuclídeo
238
92
U até o
206
82
Pb por emissão c.
Q
exp
é expressa em 'c\ e, 1
0
e / em 1:. Nas duas últimas colunas comparam-se
os tempos de vida-média experimentais e teóricos. Cada número entre parenteses é o
expoente de 10 que multiplica o número à esquerda.
onde também podemos identicar decaimentos

: Na primeira linha da Tabela 8.5,
o
234
90
T/ decai para o
234
92
l através da seqüência
234
90
T/ ÷
234
91
1a ÷
234
92
l; na sexta
linha, o
214
82
1/ decai como
214
82
1/ ÷
214
83
1i ÷
214
84
1o; na sétima linha os decaimentos
são
210
82
1/ ÷
210
83
1i ÷
210
84
1o. Nas duas últimas colunas podemos comparar os
tempos de vida-média experimentais e teóricos é notável vericar que as estimativas
são compatíveis com os valores observados, exceto para o
210
84
1o.
« Na Figura 8.7 encontramos o gráco de log
10
t
1
contra a função [14]
1 (7. 1
o
) =

28. 9 + 1. 6 7
2/3
J

÷1. 61 7
J
1
1/2
o
(8.28)
que é semelhante, mas não igual à Eq. (8.26) de Gamow-Gurney-Condon. A
expressão (8.28) foi obtida a partir de um ajuste empírico dos parâmetros para
resultar na melhor concordância com os valores experimentais, obtidos para um
grande número de nuclídeos. Essa concordância entre as duas expressões é, ainda
assim, notável por se tratar de um modelo bastante simples que não leva em conta
detalhes da distribuição dos núcleons e nem envolve as forças nucleares.
S.S. Mizrahi & D. Galetti
8.4 Previsões teóricas e valores empíricos 287
Figura 8.7: Gráco de log
10
t
1
contra a expressão empírica C
2
÷C
1
7
J
1
1/2
o
. com os val-
ores da constantes C
1
e C
2
xados para o melhor ajuste com os valores medidos para uma larga
gama de nuclídeos.
S.S. Mizrahi & D. Galetti
288 Capítulo 8. Decaimento por emissão de partícula alfa
8.4.1 Espectros de decaimentos
Até aqui discutimos o decaimento c com momentum angular relativo | = 0, correspon-
dendo a transições J
t
I
= 0
+
÷÷ J
t
]
= 0
+
do núcleo-pai para o núcleo-lho. Porém,
deve-se salientar que podem ocorrer transições (sempre entre estados de paridades pos-
itiva) com J
t
I
= J
t
]
, correspondendo a diferentes valores de 1
o
em um mesmo decai-
mento, com diferentes probabilidades. Como exemplo ilustrativo vemos na Figura 8.8 O x pode ser minúsculo?
Asoma dá resultado maior que
1.
o decaimento do nuclídeo
242
94
1n por emissão c.
rotacional
8.,µa
Figura 8.8: Decaimento do
238
94
Pu por emissão-c. Os números entre parênteses representam as
probabilidades para cada canal. Na realidade a probabilidade de transição 0
+
÷2
+
é pouco
menor que 0,28, de forma que a soma das probabilidades seja igual a 1.
O
238
94
1n, no estado fundamental J
t
I
= 0
+
, decai para o
238
92
l que apresenta espectro
de uma banda rotacional, J
t
]
= 0
+
. 2
+
. 4
+
. 6
+
. 8
+
... , onde qualquer estado nal pode
ser atingido, sendo que cada uma das transições envolvidas apresenta uma probabilidade
especíca (que são os números entre parênteses). Entretanto, para isso, duas condições
devem ser satisfeitas:
a) A conservação da paridade
¬
I
= ¬
o
¬
]
onde ¬
I
e ¬
]
são as paridades antes e depois do núcleo decair e ¬
o
é a paridade da c.
b) A regra triangular para os momenta angulares envolvidos
[J
I
÷J
]
[ _ |
o
_ J
I
+J
]
.
S.S. Mizrahi & D. Galetti
8.5 Problemas 289
Do exemplo constatamos que o momentum angular da c pode tomar vários valores,
|
o
= 0. 2. 4. 6 e 8; este comportamento permite determinar os níveis de energia de um
núcleo-lho a partir da determinação do espectro das c´s.
8.5 Problemas
1. Resolva a equação de Schrödinger para a energia potencial (8.4) e obtenha a função
de onda (8.5).
2. Calcule os coecientes ¹ e 1 em (8.6).
3. Obtenha as amplitudes dadas em (8.7) e (8.8). Quais são as diferenças de fase en-
tre (1) a onda incidente e a transmitida, e (2) a onda incidente e a reetida? Discuta o
resultado.
4. Estabeleça uma relação entre (8.7) e (8.8) e discuta a física envolvida em função
da variação dos parâmetros.
5. Obtenha os coecientes (8.9) e (8.10).
6. Obtenha as expressões (8.18), (8.20) e (8.23).
7. No formalismo que descreve a emissão de partículas c por núcleos radioativos
.
2
A ÷÷
.4
22
1

+c +Q
(Q = 1
I
+ 1, onde 1
I
é a energia de excitação do núcleo-lho
.4
22
1

e 1 é a soma
das energias cinéticas da partícula c e do núcleo-lho no RCM), o fator de penetração,
ou fator-G de Gamow, é denido como
G =
2
~

b
10
[2j(\ (r) ÷1)]
1/2
dr.
onde j e 1 são a massa e a energia cinética da partícula reduzida proveniente dos pro-
dutos da reação (partícula c e núcleo-lho
.4
22
1 ), respectivamente. Dado que no RCM
o núcleo
.
2
A tem energia cinética nula, mostre que as energias cinéticas da partícula c
e do núcleo-lho (T
o
, T
Y
) são
T
o
- 1

1 ÷
4
¹

. T
Y
-
4
¹
1.
8. A partir da equação de Schrödinger deduza as expressões para os coecientes de
transmissão e de reexão para um feixe de partículas (não interagentes) que incidem
com energia cinética 1 sobre uma barreira de potencial retangular de altura \
0
e largura
S.S. Mizrahi & D. Galetti
290 Capítulo 8. Decaimento por emissão de partícula alfa
2a
\ (r) =

0 para r < 0
\
0
para 0 _ r _ 2a
0 para 2a < r
9. Considere o potencial unidimensional dado pela expressão
\ (r) =

\
0

1 ÷
r
2
o
2

para [r[ _ a e \
0
0
0 para [r[ a.
.
Use a aproximação semi-clássica (para o caso de barreira alta e larga, com 1 << \
0
)
para calcular a probabilidade de tunelamento pela barreira por uma partícula de massa
: e energia 1. De quanto muda a probabilidade se a massa for 4:?
8.6 Apêndice A: Energias de duas partículas no RCM
Para um sistema de duas partículas de massas :
1
e : e coordenadas r
1
e r
2
no
RL, fazendo uma transformação de coordenadas, conforme visto no capítulo 6, r =
r
1
÷ r
2
,

1 = (:
1
r
1
+:
2
r
2
) ´ (:
1
+:
2
), coordenada relativa e de CM, respecti-
vamente, as velocidades mantém as mesmas relações de transformação, · = ·
1
÷ ·
2
,

\ = (:
1
·
1
+:
2
·
1
) ´ (:
1
+:
2
). Invertendo as relações das velocidades, resulta
·
1
=

\ +
:
2
'
·. ·
2
=

\ ÷
:
1
'
·.
onde ' = :
1
+ :
2
. Com isso é imediato vericar que a energia cinética das duas
partículas mantém a forma em qualquer um dos dois conjuntos de coordenadas
1 = 1
1
+1
2
=
1
2
:
1
·
2
1
+
1
2
:
2
·
2
2
=
1
2

2
+
1
2
'

\
2
2
onde j = :
1
:
2
´ (:
1
+:
2
) é a massa reduzida do sistema.
Para um observador situado no RCM,

\ = 0, ele verá as duas partículas movendo-
se, em sentidos opostos, ao longo uma reta, com velocidades
·
1,c1
=
:
2
'
· e ·
2,c1
= ÷
:
1
'
·. (8.29)
No RCM a energia das partículas é
1
c1
=
1
2

2
ou ·
2
= 21
c1
´j, que substituída no quadrado de cada uma das expressões em (8.29)

·
2
1,c1
=
2:
2
:
1
'
1
c1
e ·
2
12,c1
=
2:
1
:
2
'
1
c1
.
S.S. Mizrahi & D. Galetti
8.7 Bibliograa 291
Estas últimas relações permitem expressar as energias de cada partícula como uma
fração da energia total no RCM,
1
1,c1
=
1
2
:
1
·
2
1,c1
=
:
2
:
1
+:
2
1
c1
.
1
2,c1
=
1
2
:
2
·
2
2,c1
=
:
1
:
1
+:
2
1
c1
e a razão das energias é inversamente proporcional à razão das massas,
1
1,c1
1
2,c1
=
:
2
:
1
.
8.7 Bibliograa
[1] Rutherford E. e Geiger H., 1908, Proc. Roy. Soc, A81, 141; ibid. 162.
[2] Geiger H. e. Nuttall J. M, 1911, Phil. Mag. 22, 613.
[3] Rutherford E., 1927, Phil. Mag. 4, 580; Proc. Roy. Soc. 39, 370.
[4] Gamow G. A., 1928, Zeit. f. Phys. 51, 204.
[5] Condon E.U., 1978, Am. J. Phys. 46, 319.
[6] Gurney R. W. e Condon E. U., 1928, Nature 122, 439; 1929, Phys. Rev. 33, 127.
[7] Gurney R.W., 1929, Nature 123, 565.
[8] Fowler R. H. e Nordheim L., 1928, Proc. Roy. Soc. A 119, 173.
[9] Bethe H , 1999, Rev. Mod. Phys. 71, S6.
[10] Audi G. e Wapstra A. H., 1995, Experimental atomic masses, Nucl. Phys. A 595,
409.
[11] Mang H. J., 1957, Z. Phys. 148, 572; 1960, Phys. Rev. 119, 1069.
[12] Rasmussen J. O., 1959, Phys. Rev. 113, 1593.
[13] Igo G., 1958, Phys. Rev. Lett. 1, 72.
S.S. Mizrahi & D. Galetti
292 Capítulo 8. Decaimento por emissão de partícula alfa
[14] Hyde E. K., Perlman I. e Seagorg G. T., 1964, The nuclear properies of heavy
elements, Vol I, Prentice Hall, Englewoods Clisss, NJ.
S.S. Mizrahi & D. Galetti

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