M.D.

Beber até a solidão, ou escrever o insuportável (*) Blanca Musachi

Durás nos ensina que a solidão, o álcool e escrever são, para ela, nomes da loucura. “Acredito que a pessoa entregue a si mesma já está atacada pela loucura porque no surto do delírio pessoal nada a detém” (DURAS,2010,p.40). A solidão, sempre perigosa, também significa ou a morte ou o livro, “mas antes de tudo significa o álcool”. (DURAS,2010,p.21) Na sua casa de Nauphle sucederam-se nove gerações de mulheres, suas paredes abrigam uma “persistência do feminino” diz sua biógrafa (LEBELLEY,1994,pp218-219). E Durás: “Todas as mulheres dos meus livros habitaram esta casa, todas…”(FUENTES,2012,p262).Também essa casa foi o cenário onde “o alcool adquiriu todo seu sentido” (SALAMONE,2012,P.96). Que sentido, qual sua função? Luis Salamone nos convida a deixarmo-nos ensinar por duas mulheres vinculadas ao álcool. Maria e Marguerite, uma personagem e sua autora. Maria é a personagem central de “As dez e meia de uma noite de verão”; o duplo de Marguerite diz sua biógrafa. Durás escrevera esse livro como saída de um amor impossível: “tem um jeito de fazer com que esse sofrimento seja suportável, é sendo dele o autor”, faz dizer a Maria. (LEBELLEY,1994,p.164) Maria não luta, se anula. “Emana dela o aroma do final do amor”. Bebe durante toda a novela. O corpo lhe pede álcool. Bebe a degradação do amor. Bebe até a solidão. Salamone situa as funções do álcool para Maria com Durás: “Quando Maria dorme o solitário sonho que segue ao álcool, vence totalmente o medo”. (SALAMONE,2012,p.94) M.D. teve uma relação tão forte com o álcool como Maria, e Salamone nos oferece detalhes do diário de Yann Andréia, companheiro de Durás quando ela

tinha 68 e ele 30 anos: Juntos vivem “a felicidade do álcool”. Porque bebendo nesse extremo podemos falar de felicidade? Porque beber tem uma função: “Esquecer o insuportável”. Na felicidade do álcool o alcoólico escapa do gozo anestesiado pelo gozo mesmo. É a felicidade da pulsão. Afastada do mundo ela bebe para esquecer o insuportável. Tem por função substituir a ausência da relação sexual: “Ocupa seu corpo, toma o lugar deixado pelos homens, substitui”, diz ela, “a aventura do gozo”. (LEBELLEY,1994,p.181). Numa passagem de “A vida material” Salamone nos mostra até que ponto ela capta a não relação sexual: “…onde o imaginário é mais forte é entre o homem e a mulher (…) Na heterossexualidade não tem solução. O Homem e a mulher são irreconciliáveis, e é nessa tentativa impossível e renovada, em cada amor, o que lhe dá sua grandeza”. (SALAMONE,2012,p.96). O álcool também tem por função suportar o vazio de Deus. “Está no lugar da criação capital”, mas M.D. não se engana. O álcool é estéril, não se leva bem com o significante, trata-se de uma ilusão. Em “Escrever”, M.D. é definitiva: “Se não tivesse escrito teria me convertido numa incurável do álcool” (DURAS,2010,p.24). No lugar onde não há mais nada a perder, onde é insuportável, impossível, nesse lugar M.D. escreve.”De repente tudo cobra um sentido relacionado com a escritura, é para enlouquecer” (DURAS,2010,P.27). Escreve apesar do desespero; com o desespero do inominável. Uma escrita sem Outro. Tal e como ela entrou na escrita, a loucura nunca está longe. O perigo, o inferno é real (LEBELLEY,1994,P.185). ”Uma loucura de escrever” se iniciara na casa de Nauphle. “Eu sei que quando escrevo há algo que se realiza. Deixo agir em mim algo que sem dúvida, procede da feminilidade…é como se eu retornasse para um terreno selvagem”. (MD citado por FUENTES, 2012, p.261). Nesse algo que se realiza, que procede da feminilidade, M.D. dá voz ao “direito de dizer absolutamente ignorado pelas mulheres”(DURAS,2010,p.22) apesar de que, como observa Salamone, algumas vezes preferiu a solidão do álcool.
Nota (*) M.D. “Ela mesma se resume nessas iniciais” diz sua biógrafa, comentando a forma como Marguerite Durás começou a assinar durante o tempo de sua terceira internação de desintoxicação do álcool, sua mão quase não conseguia escrever, mas foi também o tempo em que escreveu “A doença da morte”, obra de extrema lucidez e beleza. Bibliografia ANDRÉA, Yann: M.D., Ed. Marco Zero, São Paulo, 1987. DURAS, Marguerite: Escribir; Ed.Tusquets, Buenos Aires, 2010. _________________. El mal de la muerte, Ed. Tusquets, Buenos Aires, 2010. FUENTES, Maria Josefina: As mulheres e seus nomes: Lacan e o feminino, BH, 2012.

LEBELLEY, Frédérique: Marguerite Durás. Uma vida por escrito. Scritta, 1994. SALAMONE, Luis Darío: Alcohol, Tabaco y otros vicios; Grama, Buenos Aires, 2012.

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