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“Eu, que me apaixono por tudo e por nada”
Paulo Jorge Dias

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Título: Eu, que me apaixono por tudo e por nada Autor: Paulo Jorge Dias

Revisão: Maria do Céu Dias Fotografia de Capa: Paulo Pires Design de Capa: Maurício Reis Consultor de Design: Luís Silveira e Castro

Paginação e Execução Gráfica: FazImpressão Lda. © 2012 Paulo Jorge Dias [Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor] Editor: Paulo Jorge Dias Apartado 1381 4471-909 Maia

Aviso Este livro é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, factos ou situações reais é pura coincidência.

CONTRA A CÓPIA ILEGAL O Autor informa que esta obra está protegida pelas leis internacionais que regulam os direitos de autor. Os autores de cópias ilegais de parte ou da totalidade deste livro incorrem numa catanada na região temporal. Ou mais abaixo. Depende de fatores como o vento, a hora do dia, a boa ou má disposição, etc.

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Dedicado à Rosa e ao Rodrigo. Às vezes tenho a sensação de que vos amo até ficar com o coração em carne viva.

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"Uma pessoa não é quem quer ser, não faz o que gostava mais do que tudo fazer, não dita a vida que a leva consigo. (...) Salvo nos momentos de paixão em que vivemos a tremenda certeza de estarmos a ser quem somos”. Pedro Paixão, «Rosa Vermelha em Quarto Escuro»

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O lado mais divertido do Amor
Alto aí! Ninguém avança nem mais uma linha sem que eu antes faça um esclarecimento prévio. Quanto mais não seja, porque toda a vida sonhei em começar um livro com um esclarecimento prévio. Então cá vai: este “Eu” que se apaixona por tudo e por nada não sou propriamente “Eu”. Até porque sempre fui um atinadinho de primeira e nunca fiz nada que se comparasse com as façanhas do herói desta história. O tal “Eu” que se apaixona por tudo e por nada é sim um “Eu” que se esconde dentro de todos nós, assim muito bem escondidinho. E só se atreve a deixar o conforto do esconderijo naqueles raros momentos em que estamos verdadeiramente apaixonados. Ora, é nessas alturas que se fazem as coisas mais divertidamente disparatadas. Muda-se de casa, de cidade, de emprego e só não se muda de planeta porque o low cost ainda não chegou às viagens espaciais. Ou, então, cultivamos gostos que nunca tivemos, vamos a sítios que detestamos, andamos à pancada com Deus, fazemos as pazes com o Diabo… Enfim, o tipo de parvoíces que só podíamos encontrar num livro como este. Um livro especial que marca o meu regresso a estas coisas, quase dez anos depois do infame “A Trombeta de Casal da Burra”. Que, para quem não sabe, esgotou a primeira edição e, logo a seguir, ajudou a falir a editora. Um regresso que eu fui sempre adiando, ora por preguiça, ora por desinteresse na escrita, ora porque tinha o computador avariado, ora porque tinha uma consulta nesse dia. Mas pronto, o que interessa verdadeiramente é que o livro aqui está, nas suas mãos. E por se tratar do regresso a algo que amo verdadeiramente, esmerei-me. E juntei – perdoem-me a imodéstia – dez das melhores histórias que alguma vez escrevi. Todas inventadas, é certo. Mas com uma pitadinha de verdade. Ou não fosse a minha imagem de marca a frase “há sempre uma boa dose de verdade em todas as mentiras que vos conto”.

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Neste caso, a tal “boa dose de verdade” são os retalhos de episódios reais vividos por amigos, conhecidos, ou simples desconhecidos cujos relatos ouvi acidentalmente (que é como quem diz, por pura coscuvilhice). Tudo isto faz de “Eu, que me apaixono por tudo e por nada” um livro que não pode ser deixado a apanhar pó na prateleira. Deve ser lido com olhos de ler. Porque nas minhas histórias há sempre um episódio hilariante ou uma situação confrangedora que se escondem por entre os parágrafos, à espera que os seus olhos se fixem nela. E, quando menos esperar, a gargalhada há muito contida no peito solta-se, finalmente. Quer queira, quer não. Por isso, de que é que está à espera? Compre. Leia, divirta-se e, se estiver para aí virado, apaixone-se. Por tudo. Por nada. Por coisa nenhuma. Mas apaixone-se. Ou então, se já se apaixonou o que tinha para apaixonar, olhe, recorde como é bom apaixonar-se. E descubra o lado mais divertido do amor.

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As paixões
Shakira ….……………………………………………………… 10 Gabriela ………………….…………………………………….. 19 Laidinha …………………………………………………………. 26 Bom Chérie …………………………………...………………… 33 Âncora ………………………………..……….………...……… 48 Epifania …………………………………………………………. 58 Wonderwoman ………………………………………………… 70 Hermengarda & Sueli ……………………………….……….… 84 Patinadora ……………………………………………….……. 102 Casablanca ..……………………………………….………… 121

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Shakira

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Quase todos temos uma música especial, que associamos a determinada pessoa, tipo ex-mulher, ex-namorada, ex-empregada de limpeza. Aquela música que escutávamos quando trocámos o primeiro beijo, quando fizemos amor pela primeira vez, ou quando o leitor de cassetes do carro avariou e tivemos que nos contentar com a primeira coisa que passou na rádio. Eu, que me apaixono por tudo e por nada, tenho duas ou três dessas músicas que me dão cá um aperto no coração cada vez que as oiço... "My first, my last, my everything" do Barry White; "She" cantada pelo Elvis Costello; e "Romaria em Honra de Nossa Senhora da Agonia" do Rancho Folclórico da Carriça... Isso mesmo que vocês acabaram de ler. Uma das músicas mais marcantes na minha vida é, precisamente, esse clássico do folclore português. Para começar é marcante porque, da primeira vez que a ouvi, levei com um tamanco de madeira na testa. E ainda hoje tenho a marca para o provar: uma bela cicatriz com seis pontos mal dados. E, ao mesmo tempo, é marcante porque foi do pezinho delicado da Arminda que voou o acima mencionado tamanco, durante o momento mais vibrante da sua atuação. O incidente, além de me ter valido uma bela mancha de sangue na camisa Gant – comprada na tarde anterior a um cigano, na Feira de Espinho – permitiu-me travar conhecimento com a única estrela da música que figura na extensa lista das minhas ex-namoradas ou romances ocasionais. Mas não julguem que foi fácil cair nas suas boas graças. Quando ela veio ter comigo no final do espetáculo para pedir a soca de volta, armei uma ceninha tipo Cinderela. 10

- Como é que eu posso saber se és tu a princesa a quem pertence este sapatinho? Vamos lá ver se serve? Pela resposta, deu para perceber que desde cedo a Arminda trocou os livros com histórias de encantar pela sachola e pelas embalagens de 605 Forte. - Ò morcão dá-me lá a p... da soca que eu tenho de me ir vestir pr'á "Modinha do Minho"!!! Por segundos, pensei que estava tudo perdido, até que a salvação chegou de onde menos eu esperava: a minha atividade profissional. Nunca pensei que ser vendedor de componentes de madeira tivesse alguma utilidade prática ao nível das técnicas de engate. Só que este era um daqueles momentos em que dava graças ao deus das insónias – e, já agora, ao da obstipação – por me terem ajudado a ler mais do que as três primeiras páginas do Diretório de Madeiras de Portugal. - Hum, tamancos em carvalho!? - Claro... em amieiro é só pr'ás amadoras, que se escacham todas em palco. Comigo só o melhor!!! Não foi o que ela disse. Nem como ela disse. Foi o seu olhar, surpreendida pelo meu conhecimento na matéria, que me fez esperar por ela duas horas, à porta do camarim... Pelo menos era esse o nome que davam à velha Iveco, onde a prima-dona da companhia se trocava. As outras tinham que se contentar com uma barraca, nas traseiras da Igreja. Esperava uma reação fria, típica das grandes estrelas da música. Mas uma vez mais a Arminda surpreendeu-me ao furar uma fila de 3 dezenas de fãs para vir ter comigo. 11

Ai, ai... por momentos senti-me como a personagem do Hugh Grant no filme Notting Hill. A Arminda era a minha Anna Scott e eu era um outsider, naquele mundo de luxo e glamour. Passámos a noite a beber malgas de vinho tinto, daquele que nos deixa os lábios pintados e nos provoca diarreias dolorosas. Ali ficamos, juntinhos, à espera que o céu se iluminasse com o grandioso fogo-de-artifício... coisa que só aconteceu depois da Comissão de Festas ter pago ao fogueteiro os 300 euros que ainda lhe devia do ano anterior. E foi quando rebentou o primeiro morteiro que eu me apercebi verdadeiramente da beleza invulgar da minha nova amiga. Os seus longos cabelos tinham uma cor variável. Ora totalmente loira, ora loira com raiz preta, ora morena com as pontas loiras... Como viria a constatar nas semanas seguintes, tudo dependia da altura do mês. E do atraso com que se pagavam os salários lá na fábrica de confeções onde ela trabalhava. Ah pois, que a cabeleireira lá da aldeia não fiava. Ficámos assim, bem juntinhos, até o céu voltar a cobrir-se de negro. A partilhar aquele breve instante que seria só nosso. Um instante em que a Arminda dançou o "Vira" só para mim. Presenteando-me com um movimento de ancas que a tornou conhecida como a Shakira da Carriça. E, quase sem dar por ela, aquela noite transformou-se numa semana. E a semana transformou-se num mês. E, sem me aperceber muito bem como, eu, que me apaixono por tudo e por nada, tinha-me tornado no namorado de uma celebridade. Era todo um novo mundo que se abria perante mim. E a Arminda seria a minha guia. Ensinou-me coisas que jamais esquecerei, como a posição do carrinho-de-mão, ou como fazer amor no campo de 12

milho sem que as toupeiras nos confundissem o “júnior” com uma massaroca. Ao seu lado descobri as propriedades afrodisíacas da cebola com sal. E graças a isso, pela primeira vez em muito tempo, estive à vontade para beijar uma mulher sem ter de me preocupar por ter comido meia cebola ou três rodelas de salpicão da aldeia. Sim, porque não é fácil a uma mulher detetar este tipo de paladares, quando a sua própria boca exala uma mistura explosiva de aromas: chouriço de sangue, alho picado e vinho verde. Foram onze semanas nas quais esqueci por completo a caixa de Trident... Mais importante do que tudo isso, com ela aprendi a amar uma arte até aí desconhecida. Um mundo à parte, com as suas regras próprias e com um código de conduta rígido, que não admite falhas. Um mundo onde todos trabalham em prol da perfeição: o Folclore! Não sei ao certo o que me levou a interessar-me por uma atividade que até aí não me provocava outra reação que não fosse uma imensa vontade de ser surdo. Talvez fossem as coreografias, mais sensuais do que qualquer tango. Ou os sons da concertina, a fazerem lembrar os velhos discos do Ástor Piazzolla. Nah… nada disso. O que me fez apaixonar perdidamente pelo Folclore foram, definitivamente, as roupas. Ai, aqueles trajes exalam sensualidade. Qual lingerie Victoria's Secret, qual La Perla! Se querem deixar o vosso homem mesmo doidinho de todo, experimentem aparecer-lhe à frente com um traje típico de Alhos Vedros ou Sernancelhe. Aquelas cores vivas, aquelas rendas, os barretes, os folhinhos, o 13

cheiro corporal intenso depois de uma atuação em pleno mês de agosto... E, claro, as indispensáveis socas em madeira, que deixam a léguas qualquer sandália de cristal ou bota de tacão-agulha. Isto, desde que sejam acompanhadas de um acessório fundamental: as meias brancas, daquelas a fazer lembrar a Heidi. Ou o equipamento de futebol feminino. Foi assim que me deixei seduzir por essa arte. E me envolvi nela com tal intensidade que, em breve, estava a frequentar a muito elitista Academia de Folclore da Carriça. Aí me tornei aprendiz de uma manifestação artística que está ao alcance de um grupo muito restrito de eleitos. E trabalhei com afinco sob as ordens da professora Natália. Mulher robusta, típica trabalhadora rural, mas que, aos meus olhos, era uma espécie de reencarnação da professora Lydia, da série Fame. Lembram-se dela? Era a negrinha que batia com uma vara no chão e dizia qualquer coisa do género: "You’ve got big dreams. you want fame? Well fame costs, and right here is where you’ll start paying, in sweat!" A diferença é que, em vez de usar uma vara, a dona Natália usava um pau de marmeleiro. Ah, e havia outra nuance: em vez de bater com ele no chão, batia com ele nas costas dos bailarinos sempre que nos enganávamos na coreografia. Como veem, a vida era dura nos ensaios lá na Casa do Povo da Carriça. Tão dura que, na aldeia, o grupo era conhecido como Reich Folclórico, tal era a influência dos métodos de educação neonazis. Lutei, dia após dia, até, finalmente, conquistar o meu lugar ao sol! Não por mérito próprio, mas porque a estrela da companhia, o Asdrúbal, caiu de um andaime, quando estava a instalar a 14

iluminação elétrica na fachada da Igreja. Na altura houve muito falatório lá pela aldeia, mas a verdade é que nunca ninguém soube dizer, ao certo, se o carro que embateu no andaime imediatamente antes da queda era um AX – igualzinho ao meu, ai que coincidência, cof, cof – ou um Peugeot 205. E assim chegou o grande dia. Ou antes, a grande noite. Estávamos em plena Romaria em Honra de Santa Eufémia, o evento mais importante do calendário folclórico regional. A jogar em casa, o nosso Rancho não era apenas obrigado a brilhar. Tínhamos que atingir a perfeição, ir para lá das estrelas. Fazer da concertina uma extensão do nosso corpo. Não havia margem para erros. Ainda para mais porque, para apimentar ainda mais as coisas, alguém se lembrou de instalar dois palcos e organizar uma competição de dançares ao desafio. Coisa inédita, que não viria a repetir-se, por motivos que mais tarde irão compreender. Lado a lado, dois Ranchos Folclóricos rivais atuariam ao mesmo tempo. E o público, esse feroz avaliador das artes rurais, havia de decidir quem era o melhor. Porque no impiedoso mundo do Rancho as coisas passavam-se um bocadinho como no filme "Highlander - Duelo Imortal": "Só pode haver um". Eu sabia os riscos que corríamos. Por isso, segundos antes do momento decisivo, fechei os olhos e concentrei-me. Um movimento mais arrojado podia significar a glória... mas um passo em falso podia determinar a miséria. E foi equilibrado nessa verdadeira corda bamba que eu entrei em palco. Tremia que nem varas verdes... não tanto por causa dos nervos, mas porque tinha assistido à montagem do palco. 15

Doze pessoas aos saltos, numa estrutura assente em grades de cerveja, faziam daquela atuação uma espécie de desporto radical. Mas, quando a música começou, todo o medo desapareceu. Dois meses de treinos bi-diários e três vértebras fissuradas a golpes de pau de marmeleiro tinham valido a pena. Deslizei pelo palco com uma destreza, uma suavidade e uma elegância dignas de um Rudolf Nureyev. Os meus pés, esses, moviam-se com uma cadência a fazer lembrar o sapateado do Fred Astaire. As coisas estavam a correr bem. Bem de mais até. A única coisa que me fazia confusão era não encontrar, no meio das bailarinas, a minha Arminda. Nem ela, nem nenhuma das outras colegas do Rancho. Pudera, não era propriamente fácil vê-las àquela distância. É que a Arminda e todas as outras dançavam e rodopiavam nos seus trajes vistosos… mas no outro palco, instalado aí a uns cinco metros de distância. Pois é. Com o nervoso miudinho nem dei conta que me enganara e estava a encher a noite de brilho e glamour, mas no grupo errado: os arquirrivais do Rancho Folclórico da Carriça de Cima. É certo que eu era pouco conhecedor das rivalidades lá da zona. E ainda por cima, sofro de um leve problema de daltonismo que me impediu de distinguir o vermelho tripa de cabra (cores oficiais da Carriça de Cima) do vermelho sangue de boi (característico da Carriça de Baixo). Mas de pouco me valiam esses argumentos perante uma multidão em fúria. - Judas! Traidor! Vais morrer, cabrão!!! Os meus novos colegas tentavam acalmar-me, dizendo que, no dia 16

seguinte, já ninguém se lembrava daquilo. Pois, pois. Se eles, dez anos antes, tinham ateado fogo à Junta de Freguesia só porque os da Carriça de Cima lhes desviaram o padre, imaginem o que fariam agora por lhes terem roubado a nova vedeta do rancho. O público exigia um encore e eu ainda vacilei. Mas quando ouvi a multidão gritar: - Vamos afogá-lo no poço! Aí, meus meninos e minhas meninas, percebi que os meus dias de "vira" e "malhão" tinham chegado ao fim. Colocava-se, porém, uma questãozinha quase insignificante: como escapar de um palco rodeado de lavradores, tomados da pinga e com o orgulho ferido? Ainda para mais, armados de varapaus e forquilhas. Quer-se dizer, a forquilha era de um cromo que se tinha perdido a caminho de um baile de máscaras e que achou que não seria má ideia passar o resto da noite numa romaria de aldeia, vestido de Ceifeiro da Morte. E foi aí que me lembrei que a Arminda, como qualquer superestrela da música que se preze, guardava sempre um traje extra para surpreender o público na segunda parte da atuação. Foi só esgueirar-me até à Iveco e, a partir daí, o Travolta do Rancho Folclórico transformou-se em Belle Dominique. Naquele que viria a ser o único caso registado de travestismo no mundo do folclore. De socas na mão, consegui correr até à paragem de camionetas, mesmo a tempo de apanhar a última carreira de Auto-Viação Carricense. Troquei a fama e fortuna pela minha vida. E confesso que não fiquei 17

de todo arrependido com o negócio. Mas sentia um enorme buraco no meu coração. Enquanto a camioneta me levava dali para fora, fiquei a olhar para as labaredas que entretanto se erguiam lá para os lados da Carriça de Cima, enquanto segurava nas mãos o tamanco de madeira. Quem sabe um dia não voltaria a encontrar a minha Cinderela para enfiar o sapato no seu pezinho. E daí, talvez não. Às pratadas de massa à lavrador que a miúda enfardava, daqui a meia dúzia de anos mal lhe vão servir nas orelhas, quanto mais nos pezinhos. Porque nesta história de desencantar, quem se transforma em abóbora não é a carruagem. É a própria princesa.

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