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Seg, 21 de Março de 2011 00:52 Por Ale Esclapes O trabalho desenvolvido por Bion pode ser dividido em três ou quatro

fazes, variando de acordo com o estudioso. Em uma primeira fase Bion vai de debruçar sobre as questões kleinianas de identificação projetiva e o pensamento esquizofrênico. Em uma segunda fase Bion mantém o seu objeto de estudo, mas muda o seu enfoque, se tornando mais “bioniano” que “kleiniano”, ainda que todos os elementos desse possam ser vislumbrados sem nenhuma dificuldade naquele. Uma tentativa de sistematização quase que matemática (o que lembra Lacan) da psicanálise é tentada por Bion. Numa terceira fase, mais amadurecida e já ciente que essa tentativa não teria o sucesso pretendido, Bion vai abandonando lentamente o modelo matemático. Em uma quarta fase Bion se mostra mais “místico”, mais “holístico” em suas proposições. Não se deve aqui de forma alguma confundir o termo místico com modas e tendências da “nova era”. Bion vai encontrar algumas respostas a suas perguntas em São João da Cruz e Santa Edith Stein. Outro pensamento que sempre permeou o seu trabalho foi o pensamento Zen Budista, sendo nesse último que pretendo escrever, ou melhor dizendo, falar sobre onde podemos encontrar elementos Zen Budistas no pensamento de Bion. Os limites desses artigos se encontram primeiramente na não especialização do autor sobre Zen Budismo, tendo apenas estudos iniciais sobre o tema. O segundo se trata de identificar o que Bion queria dizer (sobre psicanálise) em sua última fase, que por ser mística, é motivo de diversas interpretações. Os artigos, portanto, são no máximo um exercício sobre as obras de Bion e do Zen Budismo, e não pretendem ser muito mais que isso. Nessa série de artigos será tratado um único texto do Zen Budismo – os preceitos budistas de acordo com Bodidharma ou Bodaidaruma, considerado o primeiro grande mestre do Zen budismo. Esse texto trata do juramento que o praticante faz para se tornar um “seguidor” oficial do Zen Budismo, ou “preceitado”. Em uma cerimônia especifica o praticante faz um juramento e recebe o seu nome budista. Maiores informações podem ser conseguidas no site do Zendo Brasil –www.zendobrasil.com.br . Segue abaixo o texto a ser trabalhado nessa série de artigos: Preceitos budistas de acordo com a escola Soto Zen do Japão. “Receber é transmitir, Transmitir é despertar, E despertar para a mente Buda, É o verdadeiro Jukai.” A natureza própria inconcebivelemente maravilhosa, No eterno Darma, não surgir o ponto de vista da extinção, É chamado não matar. A natureza própria inconcebivelemente maravilhosa, No Darma que não pode ser apanhado, não surgir o pensamento de ganho, É chamado não roubar. A natureza própria inconcebivelemente maravilhosa, No Darma do não-apego, não surgir o ponto de vista do apego, É chamado não ser ganancioso. A natureza própria inconcebivelemente maravilhosa, No inexplicável Darma, não expor uma palavra, É chamado não mentir. A natureza própria inconcebivelemente maravilhosa, No Darma intrinsecamente puro, não surgir ignorância, É o chamado não ficar intoxicado. A natureza própria inconcebivelemente maravilhosa, No Darma sem faltas, não falar sobre erros e faltas, É não falar sobre erros e faltas.

Bodaidaruma Daiossho (Tradução do texto em inglês de Maezumi Roshi pela Moja Coen Roshi). . No Darma do não-eu. não conceber uma realidade do eu. A natureza própria inconcebivelemente maravilhosa. No Darma da equinimidade. A natureza própria inconcebivelemente maravilhosa. No Darma genuíno que está em toda a parte. É chamado não falar mal dos Três Tesouros. não falar do eu e dos outros. A natureza própria inconcebivelemente maravilhosa. Não surgir a distinção de Budas e dos seres. não pegar uma coisa.A natureza própria inconcebivelemente maravilhosa. É chamado de não se rebaixar nem se elevar aos outros. É chamado de não ser dominado pela raiva. É chamado de não ser avarento.

Esse passo foi muito importante para entendermos diversos fenômenos. Winnicott vai questionar os excessos da teoria kleiniana. Em outras palavras. responsável pelo movimento de desintegração. mas também de ordem clínica. da desintegração.).. Não se trata de uma questão somente religiosa. A eterna luta entre o bem e o mal é aqui narrada a partir da integração/desintegração. como por exemplo. É chamado não matar. desintegra o pensar! Nesse ponto podemos com certa facilidade retomar o texto de Bodaidaruma. pois engloba uma posição sobre a própria formação dos pensamentos. os estudos de Bion privilegiam o pensar. principalmente no que tange as defesas do ego. A percepção da desintegração. o pendulo vai para o lado oposto. principalmente entre kleinianos e winnicottianos. Bion vai retomar o ponto de vista kleiniano nos seus estudos sobre o pensar – a pulsão de morte. e que os textos Zen Budistas podem ter (e tem) uma riqueza que merece ser estudada pelos psicanalistas. na própria percepção da realidade. mas também construtivo. mas mantém a alma do conceito de Pulsão de Morte como trabalhado pela escola inglesa (que difere do modo de utilização pelos autores da escola vienense ou francesa)." Bodaidaruma A questão da agressividade e da destrutividade já foi motivo de muita discussão na psicanálise. mas vai além – “não surgir o ponto de vista da extinção” Isso é muito. Mas. e a mente do homem é o palco dessa eterna luta entre o bem e o mal. No eterno Darma. mas muito diferente de simplesmente não matar. Com a teorização em 1920 sobre Pulsão de Vida e Pulsão de Morte.Qui. mas age muito antes. ao sabiamente explicitar a diferença entre agressividade de destrutividade. o masoquismo. . Em Freud a agressividade e destrutividade vão aparecer inicialmente ligadas à questão sexual – o prazer em destruir.. como parece ser o caso de Bion. os seres para formar sociedades. da Pulsão de Morte pelo ego foi denominado por Freud em 1926 como angústia (ver o artigo de Freud “Inibições. e posteriormente nas ligações entre essas percepções. que inicialmente Freud acreditava ser secundário. questão comum a praticamente todas as religiões. contrário a Pulsão de Vida que integraria (os elementos para formar a vida. Esse simples enunciado é de uma sofisticação muito grande. 24 de Março de 2011 13:37 "A natureza própria inconcebivelemente maravilhosa. Vamos primeiramente traçar uma pequena arqueologia desse tema nos escritos dos grandes autores para depois discutirmos o texto de Bodaidaruma. Agressividade é um movimento que pode ser destrutivo. A destrutividade em Bion se manifesta não somente na fantasia. sendo a destrutividade algo secundário ao ser humano. de uma visão ampla sobre a Pulsão de Morte na MENTE e não somente nas ações. mais precisamente a inveja primária. sintomas e ansiedade) e a partir daí rearranjou uma série de teorias. a agressividade e destrutividade estariam sob a égide da Pulsão de Morte. Não se trata simplesmente de “Não matarás!”. para posteriormente postular como primário. e os aspectos destrutivos são tratados como conseqüências das falhas ambientais. Nos seus primeiros estudos e sob influencia de Abrahan e posteriormente Ferenczi. Winnicott vai nos dizer que não existe criatividade sem agressividade e nos brinda com uma clínica onde a agressividade seria parte integrante da saúde mental. Esse passo foi decisivo pois a psicanálise deixa de privilegiar a libido para olhar a privilegiar a morte. sendo efeito dos destinos da pulsão no individuo (ver o artigo de Freud “Os instintos e suas vicissitudes” de 1914-15). Dando um passo além. não surgir o ponto de vista da extinção. ou melhor. Melanie Klein vai levar esses estudos as últimas conseqüências ao teorizar sobre as posições – defesa do ego frente a percepção da Pulsão de Morte – baseando nisso toda a sua concepção teórica. seria responsável por ataques aos elos de ligação entre os elementos do pensar. de ataques aos elos de ligação. as teorias sobre o sadismo oral e anal serão marcos nesse desenvolvimento. Se Klein privilegia a fantasia. ou seja. e a pulsão de morte é deixada de lado. pois por extinção estamos falando da inveja. etc.

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