CONTEÚDO

Uma Família Precisando de Ajuda . . . . . . . . . . . . . 2 A Longa História dos Abusos Conjugais . . . . . . 3 Proteção Para as Mulheres sob a Lei de Moisés . . . . . . . . . 6 Proteção Para Uma Filha Vendida Como Escrava. . . . . . . . . 6 Proteção Para Mulheres Prisioneiras de Guerra . . . . . . . . . . . . 8 Proteção Para Esposas Não Amadas . . . . . . . . . . 9 Proteção Para Mulheres Divorciadas Injustamente. . . . . . . . . 12 A Proteção da Mulher no Novo Testamento . . 14 Proteção Contra o Divórcio por Qualquer Motivo . . 16 Proteção Contra a Dureza dos Corações . . . . . . . . 19 Proteção Para Situações que Jesus Não Mencionou . . . . . . . . . . 23 Conclusão . . . . . . . . . . . 25

PROTEÇÃO DE DEUS PARA MULHERESé Pior Quando o Abuso
do que o Divórcio

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propósito do casamento é proteger uma vida de amor. A permanência do relacionamento marido/mulher se baseia no compromisso mútuo projetado para sobreviver aos conflitos conjugais. Contudo, por vezes, abusos físicos e verbais, fazem ao casamento o mesmo que assassinato ou estupro fazem a uma vida. O que fazer então? O que fazer se esforços para salvar o casamento resultam em uma perda dupla de paz e de confiança no lar? Nas páginas que se seguem, Herb Vander Lugt, ex-pastor de uma igreja por longa data e ex-cooperador da RBC como Editor Senior, abre a Bíblia e mostra como Moisés, Jesus e Paulo reconhecem que algumas condições conjugais são piores do que o divórcio.

Martin R. De Haan II

Título Original: God´s Protection of Women:When abuse is worse than divorece ISBN: 978-1-58424-308-3 Ilustração da Capa: Terry Bidgood PORTUGUESE Passagens bíblicas: Edição Nova Versão Internacional 2000, Sociedade Bíblica Internacional® © 2007 RBC Ministries, Grand Rapids, Michigan Printed in Brazil

UMA FAMÍLIA PRECISANDO DE AJUDA

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ram quase 11h30 da noite quando atendi a porta da minha casa. Era uma jovem mãe, com o rosto marcado por uma surra, e com dois meninos amedrontados. Reconheci a mulher. Ela e o seu marido tinham ido à Igreja que eu pastoreava. Ambos me tinham impressionado por serem calorosos e amáveis. Eu não tinha visto qualquer sinal exterior de problemas. Naquela noite, porém, ela me contou os segredos da família. Admitiu que o marido, por vezes, batia nela. E que ocasionalmente aterrorizava a ela e às crianças, colocando uma faca em sua garganta. Nos dias que se seguiram, compreendi que o marido tentava segurá-la ao seu lado procurando apoio na Bíblia. Ele insistia que não tinha sido sexualmente infiel, por isso ela não tinha, biblicamente, o 2

direito de se divorciar dele. Quando esse homem viu que a sua esposa estava seriamente empenhada em encontrar ajuda para ela e para as crianças, ele foi embora sem dizer para onde. Ela conseguiu obter o divórcio e seguiu em frente, com a difícil tarefa de reconstruir a sua vida e cuidar dos seus dois filhos. Ao longo dos anos, tenho visto famílias em circunstâncias semelhantes. Tenho ouvido histórias de mulheres que foram orientadas, por conselheiros bem-intencionados e amigos, a perdoarem os abusos dos seus maridos e a se concentrarem em ser cônjuges mais amorosas e submissas. Também tenho visto o desespero e a perda da fé que tem ocorrido, quando mulheres têm que escolher entre suportar os abusos ou perder a sua família da igreja. Em mais de 50 anos de experiência pastoral, tenho feito tudo o que posso para ajudar casais a ultrapassarem conflitos

normais, ou até mesmo graves. Tenho visto os danos que as crianças sofrem quando os seus pais se decidem pelo divórcio. Mas também tenho visto as conseqüências de tentativas para salvar casamentos abusivos à custa de mulheres e crianças, que são tão vulneráveis como viúvas ou órfãos. Nesse estudo, quero mostrar como cheguei à conclusão de que infidelidade sexual e abandono não são os únicos motivos bíblicos a serem considerados quando se trata de salvar ou pôr termo a um casamento. Veremos, não apenas o ideal de preservar o casamento, mas também a evidência bíblica —que Moisés, Jesus e Paulo reconheciam— que existe uma série de condições conjugais que são piores do que o divórcio.

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A LONGA HISTÓRIA DOS ABUSOS CONJUGAIS

empre houve homens que foram protetores e amáveis para com as suas esposas e filhos, assim como existiram outros que foram abusadores. Nas culturas antigas, porém, os homens tinham muito mais direitos do que as mulheres e as crianças. Vencedores de batalhas, freqüentemente, matavam os homens das tribos inimigas, abusavam de algumas mulheres, e levavam outras para serem suas concubinas e escravas. Em geral, os homens viam as mulheres como propriedade, insistindo na fidelidade sexual absoluta por parte delas; ao mesmo tempo não impondo a mesma regra a si mesmos. Embora tenham existido exceções, nas casas reais e famílias ricas, os direitos legais das mulheres começaram a emergir. Mesmo nos Estados 3

Unidos, as mulheres não tiveram direito de voto até o ano de 1920. Curiosamente, uma exceção ocorreu na comunidade puritana da América Colonial. A preocupação dos puritanos em manter a vida cívica e familiar devotada a Deus, levavam-nos a ter em séria consideração a palavra de uma mulher em casos de difamação, infracções sexuais e divórcio. No espírito dos reformadores, os puritanos não viam o casamento como um sacramento indissolúvel, mas como um contrato civil que poderia ser terminado se uma das partes não cumprisse com os deveres fundamentais do matrimônio. Embora na Era Puritana, a crueldade não fosse reconhecida como argumento para o divórcio, havia quem entendesse que ser cruel para com a esposa era uma forma de deserção. Tal proteção legal para com as mulheres não sobreviveu ao declínio do puritanismo; em vez disso, foi substituída pelos tribunais que deram aos homens o benefício da dúvida. 4

Com o passar do tempo, a influência da tecnologia, e as exigências da economia de guerra, mudaram uma vez mais a forma como homens e mulheres se relacionavam uns com os outros. Muitas mulheres começaram a trabalhar fora das suas casas. Por sua vez, as suas filhas começaram a ver oportunidades educacionais e profissionais que as suas avós nunca conheceram. Nessa jornada, muitas mulheres têm tido que superar mais do que preconceitos sexistas (de gênero) por parte da sociedade. Têm que viver sob a expressão bíblica, mal compreendida: “auxiliadora” (Gênesis 2:18,20). Em resposta a este equívoco, o estudioso da Bíblia, Dr. Walter C. Kaiser, descreve a riqueza do significado deste termo encontrado no hebreu antigo: A palavra hebraica para “auxiliadora” é usada outras 16 vezes no Velho Testamento (Gênesis 2:18,20 como designação da mulher).

Nestes casos, é sempre uma designação de Deus como aquele que salva, apóia e sustenta o seu povo (como no Salmo 46:1). Não faz qualquer sentido conotar esta palavra com uma posição de inferioridade ou estado de subalterno. A expressão “que esteja como que diante dele”, significa literalmente “na frente de,” alguém que fica cara a cara com outro, qualitativamente o mesmo, no essencial igual e, por conseguinte, o seu correspondente (Hard Sayings of the Bible pág. 666-67, IPV, Downs Grove, 1996 — Declarações Duras da Bíblia). Outra interpretação errônea envolve a deturpação da maldição de Deus, pronunciada ao mundo decaído (Gênesis 3:16). Depois do pecado dos nossos primeiros pais, Deus disse a Eva: “o seu desejo será para o seu marido, e ele a dominará.” No passado, a intenção das palavras “e ele a dominará” foi

mal interpretada por muitos. Viram o domínio do homem como uma ordem divina a ser aceita, em vez de parte da maldição, a qual era para ser contrariada. O Deus de Gênesis disse aos nossos primeiros pais que, por causa do seu pecado, a partir daquele momento, a existência humana deveria envolver dor, tristeza e discórdia. As mulheres iriam ter as dores de parto aumentadas. Os homens teriam que trabalhar duro para conseguir colher da terra. Enquanto tentavam obter provisões e proteção para as suas famílias, eles teriam que lutar contra a inclinação de dominar as suas mulheres. Nós esperamos que os agricultores resistam às ervas daninhas. Pagamos aos médicos para diminuírem a dor das mulheres nos partos. Pela mesma lógica, precisamos lutar contra a convicção de que é um direito dos homens, reger e dominar as suas mulheres. 5

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PROTEÇÃO PARA AS MULHERES SOB A LEI DE MOISÉS

consideradas propriedade.

PROTEÇÃO PARA UMA FILHA VENDIDA COMO ESCRAVA
Nos dias de Moisés, homens financeiramente falidos podiam pagar as suas dívidas vendendo as suas filhas a outro israelita. Apesar de hoje ser uma prática impensável, comprar e vender mulheres era comum no Oriente Médio da antigüidade. Todavia Moisés, impôs limitações a esta prática para atenuar a crueldade. Para proteção das mulheres, que depois de serem vendidas pelos seus pais, não eram mais desejadas pelos seus maridos, Moisés escreveu: “E se um homem vender sua filha como escrava, ela não será libertada como os escravos homens. Se ela não agradar ao seu senhor que a escolheu, ele deverá permitir que ela seja resgatada. Não poderá vendêla a estrangeiros, pois isso seria deslealdade para com ela. Se o seu senhor a escolher para o seu filho, lhe dará os direitos

apóstolo Paulo nos lembra de que toda a Escritura é inspirada por Deus e cheia de sabedoria para viver em um mundo caído (2 Tim. 3:16). Com isto em mente, vamos rever algumas providências freqüentemente negligenciadas da lei de Moisés. Enquanto os rabinos judeus vêem significado nestas passagens, a Igreja tem muitas vezes se concentrado no idealismo do matrimônio, em vez daquelas circunstâncias que, segundo Moisés, requeriam proteção mesmo para as mulheres mais fracas e vulneráveis em Israel. Assim como Gênesis revela a intenção original de Deus para o casamento, Êxodo e Deuteronômio apresentam a justiça no casamento num mundo decaído, onde as mulheres eram freqüentemente 6

de uma filha. Se o senhor tomar uma segunda mulher para si, não poderá privar a primeira de alimento, de roupas e dos direitos conjugais. Se não lhe garantir essas três coisas, ela poderá ir embora sem precisar pagar nada” (Êxodo 21:7-11). Esse texto lista três fundamentos dos deveres conjugais. Por esta razão os estudiosos judeus têm visto isto como um modelo de pacto do casamento. Os rabinos vêem também em Êxodo 21:7-11 um princípio de interpretação que aplica o argumento do menor ao maior. Em outras palavras, se é dada proteção legal a uma mulher escrava, quanto mais deverá ser aplicável a uma mulher livre em Israel. Com esse pano de fundo, olhemos o assunto mais de perto. Qualquer que comprasse uma mulher e casasse com ela, tinha que a alimentar (a palavra hebraica aqui significa alimentos de alta qualidade), vestir e

conceder os “direitos maritais” (provavelmente uma referência a relações conjugais regulares para que pudesse ter filhos). Se o marido violasse as suas responsabilidades em proporcionar tais provisões, tinha que deixá-la ir “sem precisar pagar nada”. Joe M. Sprinkle, quando era professor de Velho Testamento na Universidade de Toccoa Falls, escreveu um artigo que foi publicado em dezembro de 1997, no Journal Of The Evangelical Theological Society (Jornal da Sociedade de Teologia Evangélica): A expressão “sem precisar pagar nada” pode significar nada menos do que o divórcio formal. O ponto aqui é que se uma mulher, vendida como esposa-escrava, não é mais tida como esposa, também não pode ser mantida como escrava, sob o pretexto de que é esposa daquele homem. Em vez disso, tem que lhe ser dada a liberdade. Então, o propósito 7

desta lei, era humanitário: assegurar que uma mulher vendida com o propósito do casamento, não poderia ficar em desvantagem sendo reduzida à escravatura comum. Assim, sob estas condições, e pelo bem-estar das mulheres envolvidas, Deus ordenou aos Israelitas menos dispostos a dar às mulheres plenos privilégios conjugais, a darlhes o divórcio sem reaverem o valor originalmente pago pela noiva. Idealisticamente, é claro, teria sido melhor para o homem cumprir totalmente as suas obrigações maritais e não se divorciar da sua mulher. Esta lei de modo algum desculpa o homem por abandonar os seus deveres conjugais. Mas as leis bíblicas não são utopias. No mundo real, as pessoas muitas vezes se recusam a fazer o que é certo. O que esta lei faz é mostrar que, quando há pecaminosidade humana e a recusa e teimosia de um

homem em manter o seu casamento, o divórcio pode ser prescrito como um mal menor (pág. 534). Num momento em que precisamos renovar o nosso compromisso por famílias e casamentos fortes, alguns pensarão que é perigoso chamar a atenção para as leis mosaicas, que abrem a porta ao divórcio. Lembremo-nos, porém, que tais leis fortalecem os valores do matrimônio, ao deixar claro que Deus não dá licença a um homem para ele ignorar os seus compromissos conjugais.

PROTEÇÃO PARA MULHERES PRISIONEIRAS DE GUERRA
Além da provisão de proteção para filhas que eram vendidas, a lei mosaica, provia proteção para o casamento, divórcio e re-casamento, até mesmo para mulheres estrangeiras capturadas pelos soldados israelitas, como prisioneiras de guerra.

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“Quando vocês guerrearem contra seus inimigos e o Senhor, o seu Deus, os entregar em suas mãos e vocês fizerem prisioneiros, um de vocês poderá ver entre eles uma mulher muito bonita, agradarse dela e tomá-la como esposa. Leve-a para casa, ela rapará a cabeça, cortará as unhas e se desfará das roupas que estava usando quando foi capturada. Ficará em casa e pranteará seu pai e sua mãe um mês inteiro. Depois você poderá chegar-se a ela e tornar-se o seu marido, e ela será sua mulher. Se você não se agradar dela, deixe-a ir para onde quiser, mas não poderá vendê-la nem tratá-la como escrava, pois você a desonrou” (Deuteronômio 21:10-14). Esta é outra prática que é difícil imaginarmos. Mas apresenta um toque misericordioso para com a desagradável realidade de guerra dos tempos antigos. Deus estava alcançando uma cultura caída e violenta. Era um mundo onde

freqüentemente os vencedores matavam qualquer inimigo que fosse capaz de manusear uma espada e faziam o que lhes apetecesse com as mulheres e crianças. Portanto, em um cenário como este, a legislação era de origem humanitária. De acordo com Moisés, mesmo uma mulher que fosse tomada como esposa dentre um despojo de guerra deveria ser protegida pela lei. Se o seu marido não estivesse satisfeito com ela, tinha que tratá-la como se fosse uma esposa do seu próprio povo. Não lhe era permitido sujeitá-la a tratamentos brutais. Pelo contrário, a lei requeria dele que desse à mulher o certificado de divórcio.

PROTEÇÃO PARA ESPOSAS NÃO AMADAS
Moisés escreveu uma outra lei que teria levado os homens a pensar duas vezes antes de se divorciarem das suas esposas. “Se um homem casar-se com

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uma mulher e depois não a quiser mais por encontrar nela algo que ele reprova, dará certidão de divórcio à mulher e a mandará embora. Se, depois de sair de casa, ela se tornar mulher de outro homem, e este não gostar mais dela, lhe dará certidão de divórcio, e a mandará embora. Ou se o segundo marido morrer, o primeiro, que se divorciou dela, não poderá casar-se com ela de novo, visto que ela foi contaminada. Seria detestável para o Senhor. Não tragam pecado sobre a terra que o Senhor, o seu Deus, lhes dá por herança” (Deuteronômio 24:1-4). É de notar que a lei aparentemente não requeria ao marido que tivesse bases válidas para o divórcio. Nem ainda sujeitou o homem ou a mulher à disciplina da comunidade. A única restrição era de que o homem que se divorciasse da sua mulher, perdia o direito de voltar a casar com ela, se ela tivesse sido 10

casada com outro homem. Mas o que implica a frase “visto que ela foi contaminada”? (v.4). Uma vez que Moisés não condenou o segundo casamento da mulher, podemos ter a certeza que não era uma declaração sobre a condição moral da mulher depois do divórcio. Em vez disso, o ponto da lei era assegurar que ela nunca mais fosse eleita para ser esposa do seu primeiro marido. A versão bíblica A Bíblia em Inglês Corrente reflete esta idéia ao declarar que o primeiro marido “não é livre para tomar de volta para ser de novo sua esposa depois dela ter se tornado impura para ele”. Essa restrição parece formalizar que o homem se implicava a si mesmo quando originalmente achou nela “algo que ele reprova” (v.1). Uma vez que o termo “algo que ele reprova”, é em si mesmo indefinido, ele tem sido, ao longo dos séculos, assunto de debate entre os rabinos.

Podemos seguramente concluir, contudo, que o marido não estava fazendo uma declaração pública de adultério. A lei de Moisés requeria a morte para os adúlteros, não a provisão do divórcio (Deuteronômio 22:22). Qualquer que fosse a razão da insatisfação do marido, é importante ter em mente que a tolerância de Moisés pelo divórcio, não era um indicador de que Deus aprovava o direito dos homens a se divorciarem por qualquer motivo. Jesus claramente declarou que Deus criou esta permissão por causa da dureza dos corações dos homens (Mateus 19:8). A questão que deve ser colocada é o porquê dessa lei proibir tão fortemente a possibilidade do re-casamento desse casal, depois da esposa ter sido casada com outro e divorciada ou até mesmo viúva. Uma possibilidade é que esta restrição deveria desencorajar a banalização da atitude para com o divórcio e o re-casamento. A lei teria também a intenção de

proteger as novas esposas destes maridos, de serem colocadas em segundo plano quando eles decidissem voltar para o seu “primeiro amor”. É claro que essas concessões não significam que Deus abandonou o seu ideal sobre o casamento, expresso em Gênesis 2:24, e repetido pelo Senhor: Ele respondeu: “Vocês não leram que, no princípio, o Criador os fez homem e mulher e disse: ‘Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne?’ Assim, eles já não são dois, mas sim uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, ninguém separe” (Mateus 19:4-6). O ideal de Deus e intenção para o casamento nunca mudou. O que mudou, porém, foram as condições das pessoas com “dureza de coração”, que quebram e são quebradas pelos princípios eternos de Deus. A mesma lei que continha 11

penalidades para o assassinato, roubo, perjúrio, e para o adultério, também prevê conseqüências quando o propósito e a convenção do casamento são quebrados pelo desprezo ou pelo abuso. Mas se Deus permite, e ainda providencia o divórcio sob tais circunstâncias, o que devemos fazer com a citação de Malaquias sobre um Deus que diz “Eu odeio o divórcio”? (Malaquias 2:16). Observemos o contexto.

PROTEÇÃO PARA MULHERES DIVORCIADAS INJUSTAMENTE
Nos dias que se seguiram ao exílio de Israel para a Babilônia, alguns homens de Judá começaram a se divorciar das suas mulheres e a casar com mulheres que adoravam outros deuses. Esta condição social comprometia tanto a saúde espiritual de Israel que os sacerdotes e os profetas de Deus ficaram alarmados 12

(Esdras 9:1-2, 10-12; Neemias13:23-27). Esdras, o sacerdote de Deus, estava tão zangado que exigiu que os homens de Israel se divorciassem das suas “mulheres estrangeiras” (Esdras 10). Quase na mesma altura, o profeta Malaquias expressou desagrado pela forma como os homens judeus estavam se divorciando das suas mulheres e casando com as filhas dos seus vizinhos pagãos. Assim, Malaquias declarou: “Eu odeio o divórcio” diz o Senhor, o Deus de Israel, e também o homem que se cobre de violência como se cobre de roupas (Malaquias 2:16). Aqui o profeta mostrou o coração de Deus para com as mulheres que estavam a ser injustamente divorciadas pelos seus maridos. Contudo, a partir deste texto, muitos têm concluído que Deus condena todo o tipo de divórcio, e conseqüentemente o tratam como um ato imoral. Vejamos

novamente os comentários do professor Sprinkle, sobre a declaração de Malaquias, de que Deus odeia o divórcio. Com relação ao v.16, o que é condenado segundo o contexto não é necessariamente todo o divórcio, sob qualquer condição —como se o texto fosse o oposto das ações de Esdras e Neemias 13— mas especificamente o divórcio de esposas judias inocentes, simplesmente porque os seus maridos preferiam as mulheres estrangeiras às suas esposas judias. Há assim dois pontos condenáveis: (1) eles estavam casando com mulheres pagãs, que minariam a religião de Israel e o seu pacto com Deus, e (2) há também homens repudiando, sem motivo, o pacto do casamento com as suas mulheres judias. Todavia, não podemos concluir a partir deste versículo, que Deus se opusesse ao divórcio em toda

e qualquer circunstância. O contexto é limitado. Deus se opunha àqueles divórcios em particular, e não a todo e qualquer divórcio, independentemente das circunstâncias. De outra maneira, este texto contradiz as passagens já consideradas acima onde o divórcio era prescrito. Alguns divórcios são errados, alguns são necessários, mas todos são de lamentar. Ninguém sabe isto melhor do que aqueles que passaram por eles. Estas pessoas não precisam da nossa condenação. Elas precisam que outros se juntem a elas na sua aflição pela perda do amor e pelos sonhos despedaçados. Alguns perguntarão, “Mas porque estamos tomando a lei do Velho Testamento como referência?” Bem, quando Paulo disse que toda a Escritura é inspirada por Deus e cheia de sabedoria para viver num mundo caído (2 Timóteo 3:16), ele tinha em mente Moisés, os 13

Salmos, os Provérbios, os Profetas e os escritos do Novo Testamento. Assim, se ignorarmos o Velho Testamento, estaremos agindo como alguém que pega um romance com 250 páginas e começa a lê-lo na página 200. Se não considerarmos o Velho Testamento, perderemos a forma como Jesus personificou e cumpriu o espírito e a intenção de Moisés. Só quando consideramos todo o conselho de Deus podemos ver que a lei mosaica do divórcio é o outro lado da moeda dos valores fundamentais do lar e da família. Ao mesmo tempo que reconheceu que a perseveração no casamento era o ideal de Deus, Moisés também compreendeu que haviam situações provocadas pela dureza dos corações que eram piores do que o divórcio. O próximo passo é ver como os princípios de Moisés complementam a sabedoria e ensino de Cristo. 14

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A PROTEÇÃO DA MULHER NO NOVO TESTAMENTO

amor de Deus e a proteção para ambos, homem e mulher, estão evidentes na vida e ensinamentos de Cristo. Como aquele que veio para cumprir tanto o âmago como o espírito da lei, Jesus mostrou respeito e consideração pelas mulheres, o que não era comum na sua sociedade. Em uma ocasião, ele mostrou compaixão por uma mulher descoberta em adultério (João 8:3-11). Noutra altura, revelou o seu cuidado e respeito para com uma mulher que tinha sido casada muitas vezes (João 4:7-30). Ironicamente, porém, muitas mulheres nos nossos dias têm sido confrontadas com um Jesus que parece estar do lado dos maridos que as estão maltratando. Considere, por momentos, a seguinte mulher. Para identificar

a sua situação crítica, imagine que ela é a sua própria filha: Ela não sabe para onde se virar, e culpa-se por terminar com um casamento abusivo. Você sabe que a sua filha não é perfeita. Mas o que você não tinha visto é a freqüência com que ela chorava, e o quanto ela tinha feito para que o seu casamento funcionasse. Nos últimos 12 anos, ela orou para que o Senhor lhe desse paciência e graça para se manter com o homem com quem se comprometera a amar por toda a sua vida. Contudo, por vezes, ela desejou nunca ter nascido. O seu marido diz-lhe que não a ama e que lamenta ter casado com ela. Ele a agride verbalmente e priva-a de afeto. Além disso, sempre que está disposto, ele espera que ela satisfaça as suas necessidades sexuais. Quando ela fala em pedir ajuda, ele ameaça em dizer aos amigos dela que ela é mentalmente instável ou que ela está tendo um caso com outro homem. Ela

não tem dúvidas que ele mentiria para se proteger. Ele deixa feridas e mágoas internas, onde os outros não podem ver. Quando a sua filha compartilhou o que estava acontecendo com os líderes da igreja, eles a advertiram para ser mais submissa e para não criticar ou provocar a ira do seu esposo. Eles freqüentemente perguntavam se ele tinha sido sexualmente infiel, mas ela pensava que não era o caso. Outros perguntavam se ela achava que ele era realmente crente. Ela dizia-lhes que ele afirmava ser. Quando ela perguntou a um ancião por que estas perguntas eram importantes, ele disse-lhe que, sem infidelidade sexual ou abandono por um cônjuge descrente, ela não tinha fundamentos bíblicos para deixar o seu marido. Os mesmos líderes da igreja disseram-lhe que a separação não era uma hipótese, porque é muitas vezes o primeiro passo para o divórcio. Quase sempre lembravam-na que Jesus 15

ensinou-nos a perdoar. Essa talvez não seja a sua filha, mas ela é filha de alguém. E agora ela precisa de ajuda. No entanto, é igualmente verdade, que a situação dela abre uma série de perguntas. Se usarmos o Velho Testamento para abrir a porta do divórcio, quantos casamentos mais se perderão? Como sabemos que uma mulher que declara maus-tratos não está meramente procurando uma desculpa para um casamento infeliz? Será que Jesus não nos ajuda a ultrapassarmos juntos problemas no lar, elevando os padrões da perseverança conjugal? Olhemos o assunto mais de perto.

PROTEÇÃO CONTRA O DIVÓRCIO POR QUALQUER MOTIVO
No Sermão da Montanha, Jesus repetidamente mostrou como homens religiosos abusavam da lei de Deus para criar uma cobertura para os seus pecados. Um dos seus exemplos foi sobre a visão rabínica dominante 16

sobre o texto que já consideramos. Um grupo influente de rabinos ensinavam, baseados em Deuteronômio 24:1-4, que um homem justo podia se divorciar da sua mulher por toda e qualquer razão. Por isso Jesus observou: “Foi dito: ‘Aquele que se divorciar de sua mulher deverá dar-lhe certidão de divórcio. Mas eu lhes digo que todo aquele que se divorciar de sua mulher, exceto por imoralidade sexual, faz que ela se torne adúltera, e quem se casar com a mulher divorciada estará cometendo adultério’” (Mateus 5:31-32). Não é difícil entender que Jesus estava enfocando o assunto a partir dos ensinamentos rabínicos do “divórcio por qualquer motivo”. Mas, o que quis dizer quando afirmou que um homem que erradamente se divorcia da sua mulher “, faz com que ela cometa adultério”? Estava Jesus em desacordo com Moisés, que permitia que tais homens se

divorciassem das suas mulheres? E, estaria ele dizendo que Moisés tinha permitido um tipo de divórcio que tornava mulheres injustamente divorciadas, em adúlteras? Podemos começar respondendo a essas perguntas olhando mais de perto o contexto. Jesus estava explicando que o reino de Deus é caracterizado pela retidão —correto relacionamento com Deus e uns com os outros— e isso começa no coração. Ele desafiou os professores religiosos que se focavam na letra da lei, ignorando a sua intenção. Quando Jesus disse que qualquer que olhasse para uma mulher, com luxúria, já cometia adultério (Mateus 5:28) e que se o olho de um homem o fizesse pecar, deveria arrancá-lo fora (v.29), ele estava focalizando a sua atenção na raiz prejudicial do comportamento. Com essas declarações, Jesus oferecia conhecimento profundo em vez de legislação. Nenhum tribunal ou governo de igreja

razoáveis, requer uma cirurgia para remover um olho como punição pela luxúria, ou excomunga da igreja alguém por intenção de adultério. Jesus estava, portanto, ajudando os seus ouvintes a se concentrarem na profundidade dos assuntos da alma e a verem os danos que maridos arrogantes estavam provocando nas suas esposas, quando se divorciavam delas por outro motivo que não fosse a infidelidade sexual. O professor Dallas Willard descreve os prejuízos que os maridos do primeiro século provocavam quando forçavam as suas mulheres ao estigma do divórcio. Ele escreve: Na sociedade judaica dos dias de Jesus, assim como ao longo do tempo e da história do homem, as conseqüências do divórcio eram devastadoras para as mulheres. Exceto em circunstâncias excepcionais, a vida delas estava simplesmente arruinada. Em contraste, nenhum mal 17

acontecia ao homem, exceto de tempos em tempos uma pequena perda financeira, e talvez um relacionamento mais “azedo” com os familiares da sua ex-mulher. Para a mulher, porém, nos dias de Jesus, só havia três possibilidades realistas: ela teria que encontrar um lugar na casa de um familiar generoso, mas muitas vezes em uma posição diminuída, um pouco mais do que uma serva; ela teria que arranjar um homem que casasse com ela, mas muitas vezes como um “bem desvalorizado” e assente em um relacionamento degradado; ou, ela teria que tomar um lugar na sociedade como prostituta. A sociedade simplesmente, não iria, como nos nossos dias, sustentar a nenhum nível uma mulher divorciada nem permitir que ela própria se sustentasse de uma forma decente. (A conspiração Divina, Mundo Cristão, 2001).

Tendo como base as afirmações acima, considere novamente as palavras de Jesus, “Mas eu lhes digo que todo aquele que se divorciar de sua mulher, exceto por imoralidade sexual, faz que ela se torne adúltera, e quem se casar com a mulher divorciada estará cometendo adultério” (Mateus 5:32). Isso parece mostrar que fosse pouco provável que Jesus estivesse intencionalmente, sobrecarregando os “pesados fardos” que as mulheres, vítimas de divórcios injustos tinham que suportar, ou que ele acreditasse que os homens que casassem com elas fossem culpados de adultério. Nem tão pouco é biblicamente consistente, pensar que ele estivesse criando uma questão com Moisés por este ter permitido o divórcio e o re-casamento. Se em vez disto, nos mantivermos no contexto, é possível vermos que o nosso Senhor estava confrontando os homens arrogantes e duros de coração. Ele estava se referindo àqueles que estavam

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“adulterando” as suas esposas por fazerem com que aquelas que casavam novamente vivessem num “estado de falta” para com o propósito original de Deus.

PROTEÇÃO CONTRA A DUREZA DOS CORAÇÕES
Em Mateus 19, encontramos um exemplo específico da visão rabínica do divórcio, que temos considerado. Começando no v.3, Mateus decreve os líderes religiosos que testaram Jesus para colocá-lo em uma posição de desacordo com Moisés. “Alguns fariseus aproximaramse dele para pô-lo à prova. E perguntaram-lhe: ‘É permitido ao homem divorciar-se de sua mulher por qualquer motivo?’ Ele respondeu: ‘Vocês não leram que, no princípio, o Criador os fez homem e mulher e disse: Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne? Assim, eles já não são dois, mas sim

uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, ninguém separe’. Perguntaram eles: ‘Então, por que Moisés mandou dar uma certidão de divórcio à mulher e mandá-la embora?’ Jesus respondeu: ‘Moisés permitiu que vocês se divorciassem de suas mulheres por causa da dureza de coração de vocês. Mas não foi assim desde o princípio. Eu lhes digo que todo aquele que se divorciar de sua mulher, exceto por imoralidade sexual, e se casar com outra mulher, estará cometendo adultério’” (Mateus 19:3-9). Aqui vemos que os fariseus estavam tentando colocar Jesus contra Moisés. Alguns versos depois, lemos que os seus discípulos, que partilhavam a mesma atitude dos fariseus sobre o casamento, também precisaram ser lembrados da intenção original de Deus (Mateus 19:10-12; Marcos 10:10-12). Assim Jesus apresentou as duas faces da moeda: enfatizou o ideal da 19

permanência do casamento sem discordar com a sabedoria de Moisés ao permitir o divórcio. Comentando sobre a permissão dada por causa da dureza dos corações, o Dr. Willard diz: Sem dúvida que o mais importante na mente de Jesus era o fato de a mulher sentir nitidamente o sopro da morte, ou ser brutalmente abusada, se o homem não a pudesse lançar fora. É claro que continua do mesmo modo hoje. Tal como a nossa “dureza de coração”. É melhor então que o divórcio aconteça do que a vida se torne insuportável. Jesus não fez nada para retirar este princípio [...] Ninguém considera um divórcio como algo a ser escolhido por si mesmo. [...] Mas é claro que um casamento brutal também não é uma coisa boa, e nós devemos resistir à tentação de classificar o divórcio como uma forma irremediável de perversão. Não o é. Algumas 20

vezes é a coisa certa a ser feita, depois de se ter tentado tudo (idem, pág. 169-170). Quando Jesus chamou a atenção dos seus ouvintes para a intenção original de Deus para o casamento, não estava levantando controvérsia com Moisés. Os dois tinham papéis diferentes. Jesus falava enquanto mestre da retidão, expondo a hipocrisia de homens que não tinham apenas perdido a visão do ideal de Deus, mas também os seus próprios corações. Na Israel do primeiro século, a prática rabínica tinha ignorado a provisão de Moisés para as mulheres. Leis judaicas contemporâneas não previam que mulheres não amadas ou vítimas de abusos, se divorciassem dos seus maridos. Só mulheres com fortuna ou posição podiam dar esse passo através das autoridades romanas. Porém, já vimos que apesar de Moisés não ter dado permissão às mulheres para escrever o certificado de divórcio, ele deu bases legais aos

anciãos de Israel para libertar uma mulher de um marido negligente, que a desprezasse, e abusasse dela cruelmente. Então por que o nosso Senhor, em Mateus 19, permitiu o divórcio apenas com base na infidelidade sexual? Por que não mencionou as outras justificações listadas por Moisés antes dele, ou por Paulo, depois dele? (1 Coríntios 7). Mais uma vez, a resposta está no contexto. Jesus não estava respondendo à mulheres angustiadas. Estava falando com homens arrogantes, que tentavam usar Moisés para justificar o direito de se divorciarem por qualquer motivo. Esta não foi a única ocasião em que Jesus escolheu cuidadosamente as palavras para irem ao encontro das necessidades dos seus ouvintes. Continuemos lendo alguns versículos mais adiante. Imediatamente após a sua conversa com os fariseus, lemos em Mateus 19:16, que um jovem rico, zeloso, foi até Jesus e

perguntou: “Mestre, que farei de bom para ter a vida eterna?” Do nosso ponto de vista, a pergunta aparenta ser uma oportunidade perfeita para o Senhor lhe explicar que a salvação não se baseia nos méritos pessoais mas pela fé no Messias de Deus. Porém, porque Jesus compreendia o coração dos homens arrogantes, não lhes disse tudo o que podia ter dito sobre a vida eterna. Em vez disto, Jesus disse ao jovem que tinha que guardar a lei de Deus. Quando o jovem lhe disse que já tinha feito isto, Jesus disse-lhe para vender tudo o que tinha e o seguisse. Porque compreendemos o contexto da conversa do nosso Senhor com este jovem rico, e porque ele não usou esta oportunidade para ensinar a salvação pela graça, através da fé, não usamos esta resposta de Jesus como o ensino definitivo sobre a salvação. Um contexto e intenção similar devem estar em vista quando lemos no mesmo 21

capítulo: “Alguns fariseus aproximaram-se dele para pô-lo à prova. E perguntaram-lhe: ‘É permitido ao homem divorciar-se de sua mulher por qualquer motivo?’” (Mateus 19:3). A resposta de Jesus é dada aos fariseus arrogantes, e não a uma mulher que pedia proteção por causa de um marido abusivo. Mas o que dizer da declaração de Jesus em Lucas 16:18, onde parece dizer que todo re-casamento depois do divórcio é um ato de adultério? De novo, na presença dos fariseus, Jesus estava oferecendo a profundidade de pensamento em vez de legislação. Apresentou como idolatria o amor deles pelo dinheiro. Ele irou-se com eles não somente dizendo “Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro” (Lucas 16:13 NIV), mas também acrescentou “Vocês são os que se justificam a si mesmos aos olhos dos homens, mas Deus conhece o coração de vocês” (v. 15). Depois Jesus continuou: 22

“A Lei e os Profetas profetizaram até João. Desse tempo em diante estão sendo pregadas as boas novas do Reino de Deus, e todos tentam forçar sua entrada nele. É mais fácil os céus e a terra desaparecerem do que cair da Lei o menor traço. ‘Quem se divorciar de sua mulher e se casar com outra mulher estará cometendo adultério, e o homem que se casar com uma mulher divorciada estará cometendo adultério’” (vv. 16-18). Aqui Jesus afirmou a toda a lei. Por essa razão podemos presumir com segurança que ele não estava em conflito com as permissões mosaicas sobre divórcio e re-casamento, como considerado anteriormente. Então, o que estava Jesus dizendo? Ele estava confrontando os corações dos fariseus, que não somente quebravam o primeiro mandamento pelo seu amor ao dinheiro, mas também o sétimo mandamento pelo modo casual

com que se divorciavam das suas esposas. Ao se divorciarem por toda e qualquer razão, eles estavam cometendo adultério assim como as suas mulheres e os futuros maridos delas. Por princípio, o amor ao dinheiro é idolatria e o divórcio injustificado e o re-casamento são adultério. Mas esta perspectiva foi usada para confrontar os corações arrogantes. Lucas 16:18, tal como Mateus 5 e 19, não têm como objetivo serem a única ou as palavras finais sobre casamento, divórcio e recasamento. Como veremos a seguir, o apóstolo Paulo discutiu outros assuntos.

PROTEÇÃO PARA SITUAÇÕES QUE JESUS NÃO MENCIONOU
Em outra passagem, freqüentemente negligenciada, o apóstolo Paulo dá-nos um exemplo, no Novo Testamento, que é consistente com Moisés e Jesus, sobre casamento e

divórcio. Na sua primeira carta aos Coríntios escreveu: “Aos casados dou este mandamento, não eu, mas o Senhor: Que a esposa não se separe do seu marido. Mas, se o fizer, que permaneça sem se casar ou, então, reconcilie-se com o seu marido. E o marido não se divorcie da sua mulher” (1 Coríntios 7:10-11). Notemos o que Paulo escreveu aqui. Com base na autoridade de Cristo, ele instruiu maridos e esposas a não se divorciarem. Mas, depois ele prosseguiu para dizer que, se a mulher deixar o marido (por razões não especificadas) e se divorciar (através da lei romana), ela deveria permanecer sem casar ou se reconciliar com o seu companheiro. O conselho de Paulo para a igreja levanta algumas questões. Por que é que, quando ele liga as suas instruções ao Senhor (v. 10), não mencionou a cláusula de exceção “não sendo em caso de prostituição”? E por que é que se mostrou contra o 23

re-casamento quando, ao fazê-lo, parecia ignorar a provisão de Moisés para o divórcio e o re-casamento? Por causa da atenção dada a estas leis, pela comunidade rabina do primeiro século, podemos ter a certeza de que Paulo estava familiarizado com a lei mosaica do divórcio. E o fato de Paulo ter baseado o seu mandamento na autoridade de Jesus, torna óbvio que ele conhecia e aceitava o que Jesus tinha dito. Estes fatos sugerem então que ele estava falando sobre algo diferente das razões para o divórcio que ambos, Moisés e Jesus, reconheciam. Para entender a intenção dos comentários de Paulo sobre casamento, divórcio e re-casamento, precisamos olhar para o contexto das suas palavras. Ele começa o capítulo 7 dizendo, “Quanto aos assuntos sobre os quais vocês escreveram”. Este comentário indica que ele estava escrevendo em resposta às perguntas feitas pelos seguidores de Cristo em Corinto. 24

O que Paulo escreveu a seguir mostra que as perguntas dos coríntios eram sobre casamento e sobre as regras da intimidade sexual no casamento (vv. 2-3). Em uma cultura coríntia marcada pela indulgência sexual, alguns aparentemente defediam a abstinência sexual, mesmo sendo casados, como sendo a forma mais completa de expressar a sua devoção a Cristo. A resposta de Paulo foi ao mesmo tempo idealista e prática. Ele disse que o seu desejo era que todos pudessem dar a Cristo uma devoção sem distrações. Mas ele era realista o suficiente para saber que o estado de solteiro requeria uma graça especial (1 Coríntios 7:7-9). Portanto, ele recomendou o casamento e a intimidade conjugal para aqueles que não pudessem ter uma devoção totalmente consagrada a Cristo, sem serem subjugados por tentações sexuais. É neste contexto que Paulo insta as mulheres a não se

divorciarem dos seus maridos, e depois acrescenta que se eles se separarem, que fiquem sem casar, ou que se reconciliem (vv. 10-11). Paulo prosseguiu depois para situações adicionais que Jesus não tinha mencionado. Com sensibilidade ao Espírito de Deus, escreveu, “Aos outros, eu mesmo digo isto, não o Senhor: Se um irmão tem mulher descrente, e ela se dispõe a viver com ele, não se divorcie dela [...]. Todavia, se o descrente separar-se, que se separe. Em tais casos, o irmão ou a irmã não fica debaixo de servidão; Deus nos chamou para vivermos em paz” (1 Coríntios 7:12,15). Ao dizer, “Em tais casos, o irmão ou a irmã não fica debaixo de servidão”, Paulo alivia a consciência daqueles que vivem com companheiros descrentes, os quais não querem mais manter o casamento. Ao acrescentar, “Deus nos chamou para vivermos em paz”, o apóstolo reconhece claramente a intenção do pacto do matrimônio.

Assim, em respostas às perguntas dos coríntios, Paulo discutiu assuntos adicionais do casamento e do divórcio que o nosso Senhor não tinha tratado. Neste processo, ele junta Moisés e Jesus como sendo parte de todo o conselho de Deus para se compreender o ideal do casamento, e as condições sob as quais um relacionamento pode ser rompido.

CONCLUSÃO

C

omo temos visto, o domínio de homens abusivos sobre mulheres é uma conseqüência da maldição lançada no Édem, tais como as ervas daninhas, e o aumento da dor nos partos. Muitos, contudo, ao tentarem voltar ao idealismo do amor e manutenção do casamento, não têm visto a sabedoria do próprio Deus expressa para circunstâncias de abuso conjugal. A lei mosaica para esses 25

casos mostra que é melhor terminar um casamento do que forçar um marido de coração duro a viver com uma mulher a quem ele não ama, nem quer. Para proteger a mulher de ser sujeita ao desprezo contínuo, ou de voltar para a sua família ou meio social como mulher casada não desejada, Moisés permitiu a emissão de um certificado formal de divórcio que declarava o fim do casamento. Com esta permissão, veio a liberdade legal para voltar a casar. Acredito que a falha em se reconhecer o conteúdo do Velho Testamento tem conduzido muitos estudantes da Bíblia a ignorarem a sabedoria de Moisés e a não compreenderem os ensinos de Cristo sobre os assuntos do divórcio e do re-casamento. Sim, o divórcio reflete um afastamento sério e custoso dos princípios originalmente desenhados por Deus. Mas a solução do problema não está baseada no falseamento do espírito da lei, ou ignorando a 26

situação crítica de esposas não amadas e sujeitas a abusos. Nem podemos manter, a infidelidade sexual e o abandono de um parceiro descrente como as únicas bases para o divórcio. Da mesma forma que Jesus não disse tudo sobre a salvação ao jovem rico que desejava saber “que coisa boa” podia fazer para ter a certeza da vida eterna (Mateus 19:16-26), ele também não apresentou todo o quadro sobre homens que interpretam mal a intenção e o espírito da lei do divórcio (vv. 3-12). Jesus veio a uma comunidade judaica do primeiro século, que freqüentemente refletia pouca consideração pelos direitos das mulheres. Por isso, ele deu àqueles homens apenas uma das bases sob a qual eles podiam se divorciar das suas esposas. Todavia Jesus não estava dizendo que Moisés tinha cometido um erro ao permitir o divórcio pela dureza dos corações. Nem estava se dirigindo às mulheres cujos

maridos se recusavam a honrar os seus compromissos. Moisés já tinha falado sobre estas situações. Eu sei que nos nossos dias, muitos têm sido comprados pelas filosofias do divórcio fácil. Como pastor, me preocupo profundamente com maridos e mulheres que se divorciam para casar com outros, pelos quais se dizem “apaixonados”. Tenho visto como fabricaram um conjunto de racionalizações para justificar o que fizeram. Em muitos casos, era evidente que estavam desapontados e aborrecidos com os seus casamentos. Sem uma razão melhor do que o seu egocentrismo, eles mostram uma desconfiança em Deus, e um descuido absoluto pelas lesões duradouras infligidas aos cônjuges, crianças, parentes e círculo de amigos. De igual modo, tenho encontrado situações muito tristes, nas quais mulheres e crianças em perigo foram exortadas a permanecer em

casamentos abusivos, porque não haviam evidências de que o marido fosse culpado de infidelidade sexual. Durante demasiado tempo, pastores e anciãos bem intencionados, têm trabalhado debaixo da suposição de que só há dois fundamentos bíblicos para o divórcio e re-casamento: infidelidade sexual e o abandono por um companheiro descrente. Estudos sob o modelo de revelação progressiva mostramnos que Jesus edificou sob Moisés, e que Paulo, por sua vez, escreveu sobre aspectos práticos adicionais que Jesus não abordou nas suas palavras aos fariseus. Há alguns anos, um pastor me perguntou: “Você tem mantido a posição mais rígida possível no que se tem escrito sobre o assunto do divórcio e re-casamento?” Eu disse, “Não, mas tenho tentado apresentar a posição mais bíblica possível.” Ele respondeu, “Então não estou interessado. O único caminho para pararmos com a epidemia 27

do divórcio nas nossas igrejas é tomar uma posição de absoluto ‘não’ ao re-casamento, e pôr todos os divórcio na prateleira, no que diz respeito ao serviço que a Igreja pode prestar.” Eu também vejo a “epidemia do divórcio” como um mal muito sério. E continuo comprometido em trabalhar duro para salvar o maior número de casamentos possíveis. Mas acredito que ignorar a situação difícil, daqueles que enfrentam desprezo contínuo e abuso por parte do cônjuge que quebra as regras do casamento, não é bíblico nem cristão. Ainda que tenhamos focado neste estudo as preocupações de Deus por mulheres vítimas de abusos, também é verdade que ele se preocupa com mulheres que se tenham tornado duras de coração e abusivas. Conheço um pastor, com o coração despedaçado, cuja esposa se divorciou dele porque não estava satisfeita com o seu salário, e que se apaixonou pelo seu patrão rico. Conheço outro 28

homem, cuja mulher depois de 20 anos de casamento, se divorciou dele porque preferia a liberdade de não estar casada. Neste caso, ela não lhe deu outra hipótese que não fosse cooperar no processo de divórcio. Ao longo dos anos, tenho visto também vítimas de divórcios —homens e mulheres— tratados como membros de segunda-classe na igreja, depois de terem sofrido a quebra, não desejada, dos seus casamentos. Muitos líderes de igrejas continuam a considerar todos os divórcios e re-casamentos como ações que desqualificam as pessoas divorciadas das posições de liderança da igreja. Compreendo que as igrejas freqüentemente tomem tais decisões com o desejo de se manterem fiéis às Escrituras. Muitos pastores e anciãos têm se sentido mal ao expressarem misericórdia e compaixão, ao mesmo tempo que se sentem pressionados pelo que acreditam

ser a declaração clara da Palavra de Deus. Tais líderes acreditam honestamente que só há dois motivos bíblicos para o divórcio: infidelidade sexual e o abandono de um parceiro descrente. Todavia, como vimos, tais restrições foram formadas sem considerações suficientes pelo contexto bíblico nos quais Jesus falou e Paulo escreveu. Palavras destinadas a religiosos orgulhosos, que se divorciavam voluntariamente das suas esposas, por toda e qualquer razão, têm sido aplicadas erroneamente à pessoas que vivem sob o peso terrível da dureza dos corações, do desprezo e do abuso. Mais uma vez, acredito que pessoas bem intencionadas têm falhado em considerar os contextos nos quais Jesus falou sobre o pecado do adultério. Têm falhado também em aprender com Moisés que um divórcio provocado pela dureza dos corações dissolve um casamento aos olhos de Deus. Muitas pessoas nas igrejas

continuam acreditando que qualquer pessoa casada depois de um divórcio vive num estado perpétuo de adultério. Acredito que estas pessoas precisam olhar de novo para o que Moisés disse da parte de Deus, em Deuteronômio 24:1-4. Nesta passagem, um divórcio dissolve tão completamente um casamento que a única restrição imposta a um homem que se divorcie da sua mulher, é a proibição de voltar a casar-se com ela, se ela tiver casado e divorciado, ou até mesmo enviuvado. Por favor, acredite em mim quando digo que, de modo algum, estou tentando enfraquecer nossa determinação para construir matrimônios saudáveis e permanentes. Tenho sido profundamente movido pelo amor altruísta de ambos, homens e mulheres, cujo cônjuge fica incapacitado em conseqüência de doença ou acidente. De repente, uma esposa com menos de 30 anos, desenvolveu esclerose múltipla e 29

artrite reumatóide, que rapidamente a debilita. O marido e o pai fizeram alterações no horário de trabalho para preparar o seu filho para a escola e poder voltar para casa mais cedo de modo a ajudá-la nas suas necessidades. O marido continuou sendo uma pessoa agradável e graciosa sem nunca dar a impressão de que a vida o tinha defraudado. Trabalhar para recuperar um casamento problemático vale a pena. Para pastores e conselheiros, o ideal, sempre que possível, é ajudar casais a ultrapassarem os conflitos normais, ou até mesmo sérios. Não podemos renunciar facilmente ao objetivo de conseguir casamentos restaurados, saudáveis e duradouros para todos os casais. Contudo, também não deveríamos tentar fazer mal uso da autoridade moral da igreja ao negar membresia ou comunhão àqueles que estão sofrendo a perda dos seus casamentos, por causa de cônjuges abusivo que 30

quebraram o pacto. Mas, e se uma mulher declara falsamente ser vítima de abusos físicos e emocionais como uma desculpa para abandonar o seu casamento? Esta é certamente uma possibilidade, mas não irá ser a norma. Muitas mulheres têm muitas razões para não quererem um divórcio. Elas estão muito mais dispostas a ocultar a sua vergonha do que a inventar histórias. Têm muito a perder quando se trata de família, filhos, e segurança financeira. Muitas continuam a alimentar sonhos de dias melhores. Elas precisam que acreditemos nelas, a menos que mostrem que não são confiáveis. Você continua sem a certeza se poderá encorajar uma mulher a pensar em abandonar o seu casamento por outros motivos além da infidelidade sexual ou abandono do lar por um cônjuge descrente? E se achasse por si mesmo que é mais fiel dar ouvidos à Palavra de Deus do que ao seu coração?

Se é isto que você está pensando, é muito bom que você queira obedecer a Deus acima de tudo. Esse é o porquê deste livro ter sido escrito. A Palavra de Deus nos ensina a ouvir não apenas a letra da lei, mas também a sua intenção. Para concluir, olhemos novamente para o exemplo do nosso Senhor. Em Lucas 13:1016, lemos que Jesus foi a uma sinagoga num sábado e curou uma mulher que tinha estado incapacitada por 18 anos. Quando o líder da sinagoga viu o que Jesus tinha feito, argumentou que o rabino visitante tinha violado a lei de não trabalhar no sábado. Jesus, contudo, demonstrou que era o líder da sinagoga quem não compreendia o coração e o espírito da lei do sábado (Lucas 13:15). Num incidente similar, Jesus perguntou, “Se um de vocês tiver um filho ou um boi, e este cair em um poço no dia de sábado, não irá tirá-lo imediatamente?” (Lucas 14:5).

Em Marcos 2:27 Jesus disse, “O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem, por causa do sábado.” Ao dizer isto, o nosso Senhor mostrou estar mais preocupado com as pessoas do que com a letra da lei do sábado. Ele estava zangado com aqueles que davam mais valor à guarda da lei do que em revelar amor àqueles a quem a lei queria proteger. Quando alguém a quem amamos está lutando com abuso conjugal, não é difícil vermos a relação entre a sua situação e a daquela mulher incapacitada que foi curada por Jesus num sábado. De modo semelhante, podemos dizer que o casamento foi feito para o homem e para a mulher, e não o homem e a mulher para o casamento. O Deus do Velho e do Novo Testamento tem nos mostrado de tão variadas formas que, em circunstâncias de dureza do coração, ele está mais preocupado com as pessoas 31

do que com a letra da lei do casamento. Graças a Deus, ele não aplica a rígida forma da letra da lei a nenhum de nós! Porque Cristo morreu em nosso lugar, Deus oferece misericórdia em vez de condenação para todos os que vão a ele com arrependimento e quebrantamento. Maridos abusivos, então, podem encontrar o perdão de Deus —mesmo que tenham perdido os seus casamentos.

Esta misericórdia é estendida também para aqueles que têm valorizado mais a lei do casamento em vez das pessoas que a lei do casamento pretende proteger. Que o nosso Senhor possa nos ajudar a discernir quando devemos trabalhar duro para a reconciliação e quando devemos estar disponíveis para sofrer com aqueles que estão experimentando a dor da perda dos sonhos e das promessas quebradas.

Recursos Disponiveis de Informação a Mulheres Vítimas de Violência Doméstica
No Brasil Central de Atendimento à Mulher —Ligue 180— funciona 24 horas por dia, de segunda à domingo, inclusive feriados. A ligação é gratuita e o atendimento é de âmbito nacional. A Central funciona com atendentes capacitadas em questões de gênero, nas políticas do Governo Federal para as mulheres, nas orientações sobre o enfrentamento à violência contra a mulher e, principalmente, na forma de receber a denúncia e acolher as mulheres. Em Portugal Serviço de Informação às Vítimas de Violência Doméstica —Ligue 800-202-148 Linha Nacional de Emergência Social —Ligue 144 Ambas linhas funcionam 24 horas por dia, 7 dias por semana, e providenciam informação, acompanhamento e, se necessário, reencaminhamento das vítimas para outras instituições. Para aconselhamento pastoral, escreva para:

violenciadomestica@ministeriosrbc.org
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www.ministeriosrbc.com.br