Notas sobre a questão ambiental haitiana Livia Morena Brantes Bezerra Antecedentes históricos O Haiti se destaca como o primeiro

lugar onde Cristóvão Colombo aportou, nas águas azuis de Môle Saint-Nicolas. Nessa época, a riqueza de espécies e ambientes que se podia presenciar deve ter colocado belos sorrisos nos rostos dos colonos. Começa a exploração colonial, primeiramente espanhola e após o tratado de Riswik, francesa, e com ela a dizimação dos povos autóctones, e de sua relação harmônica com a biodiversidade. A exploração do acaju nativo e de outras madeiras de lei, foi a primeira a se estabeler na ilha La Hispaniola, e a partir dela começa o empobrecimento, num primeiro momento, e a devastação, logo em seguida, das suas florestas ancestrais.

A paisagem que encantou os tripulantes da Santa Maria, foto tirada em 2010. Durante o processo de colonização, nos duzentos anos que se seguiram após a “descoberta” de Colombo, priorizaram-se dois tipos de plantação, ambos extremamente daninhos ao ambiente, na forma com que foram conduzidos. O primeiro e mais importante foi a Cana-de-açúcar, que só se desenvolve em grandes extensões de terras planas e com grande quantidade de força-detrabalho envolvida, já o segundo, o café, se desenvolveu nos morros e encostas, deixando assim todo o território haitiano vulnerável ao desmatamento desenfreado, em busca de terras produtivas. Esse é o marco inicial do que chamamos comércio tringular, responsável pela grande acumulação primitiva que pode em seguida dar início ao desenvolvimento capitalista. Os escravos

eram trocados na África pelas famosas quinquilharias, amontoados nos navios negreiros chegavam às colônias, onde seriam trocados por matérias-primas valiosas ou pelos produtos coloniais, que seriam vendidos a ouro na Europa. A natureza e localização das Antilhas aí eram muito propícias, e o Haiti em especial chega a ser conhecido como a Pérola das Antilhas, sendo responsável por cerca de 2/3 de todas as riquezas da França. A presença de navios piratas era constante e assolava também o quadro devastador. Em 1793 começa a guerra de liberação dos escravos, que tinha sido planejada em baixo de uma frondosa árvore, numa nascente chamada Bwa Kayman. Muitas são as lendas haitianas que envolvem os elementos naturais, e daí advem o respeito que os ancestrais tem pela natureza e ao mesmo tempo a voracidade com que os exploradores a destróem, como se ao destruir a natureza estivessem também destruindo os elementos de organização do povo. Em 1804, ao fim da primeira rebelião de escravos triunfante na América, e ao início da primeira Nação livre de nosso continente, a terra ainda ardia pelos sucessivos incêndios nas plantações e nos seus arredores, utilizados como defesa contra o exército de Napoleão. O principal objetivo do Exército de Toussaint Louverture era o acesso à terra para os que nela trabalhavam. Ao estabelecer-se a pátria sob o comando de Dessalines essa foi a primeira tarefa empenhada, e foi também a causa de sua queda. Após a morte de Dessalines as terras agricultáveis passaram às mãos de poucos senhores, antigos generais e comandantes do exército, e os montes, único refúgio para os camponeses sem terra, passaram a fazer parte da propriedade do Estado. Até hoje reina a confusão daquela época, no que diz respeito à propriedade e titulação da terra. O que se seguiu foi uma opressão tremenda por parte das nações poderosas do mundo sobre o território haitiano, como que para mostrar para as demais colônias o que acontecia quando o povo tomava as rédeas da nação, evitando sempre que o Haiti pudesse servir de exemplo para outras colônias americanas. A cobrança de uma dívida pelos colonos franceses, sobre a perda do seu direito de explorar o solo alheio, e o pagamento absurdo da mesma, para que fosse reconhecido o direito do Haiti de ser uma Nação. As sucessivas ocupações militares norte-americanas, sob o pretexto de trazer a ordem (e o progresso) para o país. A ditadura Duvalier, que tentou desenvolver a indústria e explorar ao máximo a força-de-trabalho mais barata das américas, estabeleceu contratos comerciais e sanitários que destruíram a economia camponesa, e ainda sob o pretexto de combater formações guerrilheiras nas fronteiras com a República Dominicana devastou os últimos grandes remanescentes florestais do país. Causas estruturais O Haiti é o país mais empobrecido das Américas. Sua história é marcada por uma pressão externa que nunca deixou o Estado se fortalecer e estabelecer políticas necessárias para o desenvolvimento da nação. Nos últimos anos, com a força do neoliberalismo assolando as nações periféricas ao capital, essa fraqueza

do Estado se tornou algo que afeta muito negativamente todos os setores da população, mas também um atrativo a mais para se estabelecerem novas formas de exploração sobre o povo haitiano. Tem-se por costume chamá-lo de “Letà pepè”, referindo-se aos produtos vendidos na rua que vem de segundamão ou dos outlets norte-americanos e dominicanos. Não haveria figura de linguagem mais apropriada para o que se vê por aqui. Esse estado sem autonomia, é o que abre todas as torneiras da economia haitiana para o mercado internacional, e ao fazê-lo destrói qualquer tentativa de desenvolvimento endógeno. As poucas indústrias, têxteis e bebidas, estão nas mãos de grandes corporações. A agricultura está dependente dos insumos externos, fertilizantes, sementes, agrotóxicos, ou seus produtos tem seus preços subordinados aos preços dos produtos subsidiados, sendo comum a prática do dumping, enchendo o mercado de produtos alimentícios importandos e ao mesmo tempo inviabilizando a produção camponesa. Some-se a isso um neoliberalismo aplicado também aos serviços básicos que, além de privatizados, se encontram num estado de precarização absurdo. Cerca de 85% da educação está nas mãos da iniciativa privada, e não tem regulamentação quanto ao currículo básico que devem seguir, nem sobre a pedagogia adotada. É comum adolescentes chegarem em casa com as mãos vermelhas, pois a prática da violência entre os professores para com os estudantes ainda é rotineira. O direito à saúde é negado a milhares de habitantes e quando existe é ineficiente. A mortalidade média no Haiti é de 10,72 a cada mil habitantes. O estado mal tem orçamento para o saneamento básico, apenas 1 em cada 5 casas tem água encanada, as demais ou compram água nos caminhões pipa ou coletam sua água nos reservatórios públicos. A água potável é privilégio de apenas % da população. A questão energética é algo que deve ser analisado a parte, pois tem íntima ligação com a questão da degradação ambiental no país. Calcula-se que 71% da energia consumida no país provém de biomassa florestal, e são raras iniciativas de plantio para esse fim. Alguns estabelecimentos nas cidades utilizam o gás propano e a eletricidade tem fontes termelétricas (a base de petróleo) e hidrelétricas. Apenas 31,6% das casas haitianas estão ligadas à rede de distribuição pública. Todos os dias as cozinhas das principais cidades são abastecidas com o carvão dos poucos remanescentes de florestas Com a crescente pauperização das estruturas do estado e da economia haitiana, cresce a pressão sobre dos recursos naturais, que assim como outros elementos do território não tem regulamento para seu uso. O trabalhador, sem terra própria para plantar, sem insumos, sem oportunidade de trabalho assalariado se vê impelido a cortar as árvores dos montes, que pertencem ao Estado para fazer carvão e ter algum ingresso durante a semana. A responsabilidade pela absurda degradação ambiental no país está longe de ser da massa camponesa. Está nas mãos daqueles que desenharam esse quadro de exploração da população haitiana, que não deixa outra saída para o pobre, e

mais ainda naqueles que executam as políticas que nunca são voltadas para resolver os problemas da nação, e acabam trazendo ainda mais problemas.

Problemas observados Cobertura florestal Ecossistemas e Biodiversidade Solos Água Riquezas minerais Crescimento urbano desordenado Desastres naturais

Soluções encontradas Conclusões

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