Resenha: Frost, Mervyn (1998). “A Turn not Taken: Ethics in IR at the Millenium”. IN: Dunne, Tim et alli.

The Eighty Years’ Crisis: International Relations 1919-1999. Cambridge University Press. Mervyn Frost, em “A Turn not taken: Ethics in IR at the Millennium”, ressalta a não correspondência entre a presença de questões éticas na política mundial e no campo de estudo das RI. Segundo o professor da King‟s College of London, as posições éticas tomadas pelos teóricos da área são disfarçadas pela objetividade científica. A teoria normativa, portanto, ainda não seria efetivamente engajada nos trabalhos dos teóricos de relações internacionais. Em sua obra, Frost sustenta que os todos os indivíduos participam, em algum grau, da política mundial quotidiana, sendo esta participação guiada por crenças que influenciam a forma como cada um acredita que os eventos devem ser conduzidos. Tais crenças podem ser relacionadas a grupos, movimentos e formações sociais diversas nas quais os sujeitos estão inseridos. O autor frisa que alguns setores estão mais profundamente ligados à busca ativa do que é eticamente correto, tais como políticos, diplomatas, líderes religiosos, entre outros, enquanto os demais, embora tenham fortes crenças, não agem de maneira tão incisiva para defendê-las. Guerras, terrorismo, direitos humanos e meio ambiente são questões típicas acerca da ética no contexto internacional sobre as quais há, necessariamente, divergências sobre o que é certo e o que é errado. São questionados, inclusive, os ditos direitos “naturais” dos quais os seres humanos são detentores. Tais discussões adquirem maior polêmica na medida em que são ampliadas de grupos específicos para a comunidade em geral, tornando-se uma “conversação global”. Nesse sentido, Mervyn Frost ressalta que, mesmo com as discordâncias acerca do que é eticamente aceitável, não é possível afirmar que os julgamentos éticos são escolhas arbitrárias, pois as diferentes pessoas, ao sustentarem uma dada crença, acreditam existir boas razões que podem resguarda-la. Desta forma justificam-a e diferenciam-a de uma posição arbitrária. Caso fossem arbitrariamente escolhidos, tais princípios seriam facilmente questionados acerca de sua natureza ética stricto sensu. Ademais, diferenças de conduta ética no âmbito da política internacional não são encaradas simplesmente como meras divergências de gostos, mas sim como um desvio de pensamento. Os indivíduos, portanto, ao discutirem com aqueles que os opõem, vêem as crenças alheias como erradas, defendendo os méritos de suas próprias crenças e criticando as tentativas de atacar suas posições éticas. Frost apresenta três tipos diferentes de questões éticas presentes no dia-a-dia. Sendo estas: a forma como nos comportamos em um contexto específico, a avaliação ética da conduta de terceiros como indivíduos ou membros de instituições sociais e a avaliação ética das estruturas institucionais básicas nas quais vivemos. Tais questões anteriormente apresentadas não são restritas a um grupo seleto de pessoas éticas (pessoas justas), mas sim a todos os seres humanos, devido ao imperativo da ação. Questões éticas nos são constantemente apresentadas e de alguma forma são

respondidas, sendo até mesmo a decisão de nada fazer uma decisão. Logo, quando uma questão ética nos é apresentada, temos que responder, impossibilitando levar a ética internacional de forma leviana. Em suma, os indivíduos, em geral, encontram todo dia uma série de questões éticas referentes ao contexto internacional sobre os quais devem chegar a uma decisão sobre e, assim o fazendo, não baseiam esta decisão em um mero capricho, mas em argumentos razoáveis. Focando-se no campo das relações, entretanto, a imagem muda de forma notável. Nesse sentido, Frost destaca que o constante interesse que o ser humano possui na ética quando o foco são os assuntos quotidianos, não se reflete na disciplina. Essa divergência deve-se, basicamente, a duas razões. Primeiramente, destaca-se o viés positivista da disciplina, segundo o qual os estudiosos das Relações Internacionais buscam explicar o mundo da política a partir de leis baseadas em dados factualmente observáveis. Em segundo lugar, tem-se o ceticismo generalizado em relação ao status epistemológico do julgamento de valores geralmente apresentados como subjetivos, arbitrários, relativos, e não baseados em algo que os aproxime da sólida base que são os dados observáveis sobre julgamentos factuais. (FROST, 1998:123). Contudo, diferentemente do que ocorre na teoria empiricista, na teoria normativa as proposições não são submetidas ao teste empírico como instrumento para garantia de sua veracidade, ou seja, a teoria normativa não lida com “o que é”, mas com o que “deve ser”. Dessa maneira, os teóricos que baseiam suas análises na rígida distinção fato/valor (os positivistas) têm nas proposições normativas algo “compassivo” (soft), em contraposição ao “sólido” (hard). Para eles, assim, as proposições normativas são assim classificadas pois não estão sujeitas ao teste empírico como mecanismo para estabelecer sua veracidade ou falseabilidade. Apesar da atual aderência do “mainstream” das Relações Internacionais à distinção fato/valor, observou-se recentemente o aparecimento de uma série de possibilidades que apontam na direção da teoria normativa. Dentre as referidas possibilidades, destaca-se, dentro do próprio mainstream, uma série de autores que defendem a inclusão das normas dentro das explicações referentes aos assuntos internacionais. Em meio a esses ditos autores, destaca-se Gregory Raymond. Partindo de autores como Audie Klotz (que aplica o foco nas normas em seus estudos sobre o regime do Apartheid), Raymond enfatiza a necessidade de se incluir as normas como variáveis a serem consideradas entre as explicações acerca dos padrões dos assuntos internacionais. Ademais, continua Raymond, as análises que não incluam tal

consideração, (tal como o neorealismo e neoliberalismo, na visão de Klotz) serão tidas como deficientes. Cabe ainda realçar que, na visão de Raymond, os estudiosos não devem avaliar as normas por eles estudadas, mas determinar se determinada norma é digna de ser apoiada, ou seja, determinar a quem ela será aplicada, como ela será entendida em relação às demais normas ou qual ação nela embasada será justificada. Outra possibilidade, ainda mais promissora, de inclusão da teoria normativa em meio ao mainstream das Relações Internacionais, continua Frost, é encontrada na, por alguns assim denominada, teoria pós-positivista. Essa teoria, na realidade, engloba uma estarrecedora variedade de subgrupos que, apesar de suas grandes diferenças, possuem alguns pontos em comum. Nesse sentido, Frost destaca oito dos principais focos de convergência desses subgrupos. Em primeiro lugar, todas essas distintas abordagens asseveram que o objeto de estudo dos cientistas sociais são as ações e interações humanas. Segundo, as totalidades sociais estudadas são resultado das escolhas humanas. Terceiro, o mundo social é uma construção humana, ou seja, não é algo natural, mas erigido pelos seres humanos. Quarto, o nosso auto-entendimento, dentro dos quais encontram-se as teorias sobre o funcionamento da sociedade, não é um mero reflexo do mundo, mas construções humanas criadas para propostas especificas que ajudam, também, no processo de construção do mundo. Quinto, nossas identidades, igualmente, são construídas a partir das totalidades sociais dentro das quais nos encontramos. Sexto, assim como a identidade, o que conhecemos como razão também é fruto das mesmas totalidades sociais que nos formou. Sétimo, todas essas abordagens destacam o papel fundamental da linguagem nas atividades auto-constitutivas. Por último, o contexto das regras dentro do qual estamos inseridos pode ser compreendido tanto como permissivo como restritivo, em relação as diversas ações que podem ser realizada A partir dessas abordagens existentes dentro da teoria pós-positivista, ou dessas “teorias constitutivas”, pode-se inferir que o mundo por nós construído refletirá nossas crenças éticas. Para os estudiosos dessa linha de pensamento, as crenças éticas não são fenômenos resultantes de um profundo conjunto de causas empíricas, mas sim entendidas como sendo parte do que está sendo analisado. Para esses teóricos, ainda, a principal tarefa a ser por eles empreendida é revelar nossa ordem internacional global como uma construção humana dentro da qual estão embutidos certos valores por nós escolhidos. Além disso, cabe ao teórico demonstrar que essa construção beneficia alguns em detrimento de outros. Contudo, apesar dos diversos pontos e avanços que essas esperanças para uma evolução rumo à teoria ética ainda não se grande medida devido ao bloqueio que os teóricos constitutivistas seu comprometimento para com a distinção fato/valor e para teorias geraram, as materializaram, em possuem devido ao com um completo

descritivismo. Descritivismo o qual é diferente daquele positivista. O objeto muda dos dados empiricamente observados, no primeiro caso, para as práticas, no segundo. De qualquer forma, essas abordagens descritivistas geralmente visam o “ser”, e não o “dever ser”, perdendo dessa forma a capacidade de expressar valores. É possível encontrar, portanto, teóricos constitutivistas tomando por vezes esse papel. Mesmo que isso sirva para destacar pontos chaves de suas teorias, tais como o papel das normas na ordem internacional, os silêncios nos discursos de RI, as conseqüências do discurso Estado-centrista ou como os discursos agem/moldam as estruturas, eles recorrem a uma abordagem que confunde suas práticas com aquelas dos positivistas. Novamente, para fazer a distinção entre Pós-positivistas e Positivistas nas RI, é preciso olhar para o critério usado para descrição da realidade. Os teóricos positivistas encontram suas fontes nos dados brutos e diretamente analisados e os teóricos pósPositivistas, por sua vez, coletam dados básicos e os interpretam. A partir de ontologias, epistemologias, metodologias e sistemas éticos próprios de cada teoria, os teóricos constitutivistas nos desafiam a conceber e esquematizar alternativas de mundo e modos de ser que sejam diferentes dos existentes. Por exemplo, tendo concebido o Estado hoje como ator primário da concepção de identidades, os teóricos aqui referidos nos imputam a consideração de se haver práticas de criação de identidades que não tenham o Estado como referência. Entretanto, apesar de já haverem concebido várias, diferentes e fluidas formas de mundo, os Pós-positivistas não completaram suas responsabilidades para com a prática normativa. Eles falharam em responder à pendência normativa mais importante: Conceber uma ordem mundial justa. Eles apontam os problemas, necessidades e deficiências de arranjo, mas não dão um parecer direto à pergunta de o quê e como isso deve ser realizado. Além disso, ao considerar modelos, também faz-se necessário responder aos detalhes, problemas éticos e conceituais endógenos sobre a ética política. É importante, no debate entre argumentos éticos, que os problemas e os argumentos sejam intra-práticos, ou seja, se refiram não àqueles que classificados como „estranhos‟ ao sistema, mas sim, àqueles que compartilham de regras, discursos e estruturas comuns. Pois, o argumento ético só pode proceder dentro dos debates nos quais as partes em conflito possuam, pelo menos, pontos de partida comuns. Não obstante, a coerência dentro do debate intra-prático, as conclusões dele podem ser contestadas. Isso se deve ao fato de que os fundamentos do debate são passíveis à dúvida. O processo de produção de teorias ético/normativas pode revelar as coerências e incoerências nas normas que regem a nossa prática internacional comum. O autor evidencia oito incoerências que devem ser confrontadas, ou seja:
1) Entre a soberania do Estado e os direitos individuais.

2) Entre o sistema de valor e a participação diferentes no mercado global livre e

o que sofre intervenção dos Estados autônomos.
3) Entre a importância ética das diversas etnias e a do Estado democrático. 4) Entre a importância ética da autonomia Estatal e a das congruências/

convergências globais
5) Entre a soberania/ auto-determinação dos quase-Estados e o respeito aos

direitos humanos, bem como a intervenção dentro deles.
6) Entre a norma de não intervenção em Estados com guerra civil e a defesa dos

direito humanos.
7) Entre a alegação de auto-defesa na detenção de armas nucleares e os clamores

em nome da paz mundial de segurança e ordem.
8) Entre os valores embutidos sistema de Estados soberanos e o tipo de sistema

necessário para o florescimento das mulheres fora do sistema patriarcal. Por fim, os teóricos de RI hesitam quanto à perspectiva normativa, com receio de que isso venha tirar o caráter disciplinar de ciência social neutral, incapaz de ser transformada em instrumento de poder, além de tirar a questão ética do poder de exclusivo dos indivíduos. Outro fator determinante da não adesão significativa à teoria normativa concerne ao conceito de autonomia, extremamente importante para os teóricos das RI, o qual poderia ser comprometido ao ocasionar-se um constrangimento em relação à um determinado padrão ético.