“Gladiador” insere-se no contexto do Baixo Império Romano, retratando a sociedade daquela época, marcada pela política do Pão e Circo

, de acordo com o modo de se divertir e de se portar, segundo costumes pagãos. As intrigas palacianas, as brigas pelo poder também ganham destaque no desenrolar da história, tal como há foco na própria natureza humana, na ambição, no desejo de vingança; e, também, na capacidade de amar. No reinado de Marco Aurélio, Maximus apresenta-se como um importante general, destemido, sábio e corajoso, e por quem o imperador tem muita estima. Essa relação afetuosa e paternal é demonstrada logo no início do filme; quando, após mais uma batalha vitoriosa, o rei convida o guerreiro para ser-lhe o sucessor. Como queria, após os serviços militares, reencontrar sua família e viver uma vida mais tranqüila e doméstica, o general hesita em aceitar tamanha oferta. Ele, todavia, nem chega a tomar uma decisão concreta. Commodus - filho de Marco Aurélio e, até então, o esperado sucessor ao trono - assassina o pai a fim de assumir o comando do Império antes da nomeação de seu concorrente.

Diante da ascensão do outro, Maximus tem de fugir para escapar da morte. Vai, então, ao encontro de seu filho e de sua esposa; surpreendendo-se, por fim, ao vê-los já mortos. Nesse momento, de angústia, sofrimento e desamparo, o guerreiro se descuida e acaba sendo capturado como um escravo. Notando o físico do exgeneral, um comprador o escolhe e faz dele um gladiador. Desde o princípio, embora desmotivado e desiludido, Maximus já surpreende, com vitórias inesperadas que lhe garantem grande destaque. Com a fama conquistada, ele é convocado a participar de lutas no próprio Coliseu, o espaço de entretenimento dos romanos, reinaugurado no governo de Commodus. Disposto a vingar o assassinato de sua mulher, de seu filho e de Marco Aurélio, o gladiador vê na proposta uma nova maneira de se aproximar do Imperador para, enfim, obter sua revanche. Na capital, ele passa a fazer parte de planos e esquemas para depor o então governante, ao

mesmo tempo em que ganha o apoio da platéia com vitórias espetaculares na arena do Coliseu. A trama, que envolve uma série de alianças, entraves e complicações, acaba culminando, ante o combate final de Maximus e Commodus, na morte de ambos. Ao longo da história, podemos associar diversas atitudes do protagonista ao pensamento existencialista de Heidegger, cuja filosofia pretende definir o ser autêntico, o ser inautêntico, a angústia, a solidão e a morte. Desde o início do filme, Maximus já se mostra um personagem autêntico. Mesmo recebendo a proposta do Imperador para suceder-lhe o trono, o general ainda conserva, a princípio, seus juízos iniciais de voltar para casa, reencontrar a família. Caso fosse outra pessoa, dificilmente abdicaria de um cargo tão importante, a favor do bem-estar da família. O protagonista, entretanto, após momentos de angústia e da insistência de Marco Aurélio, começa a mudar de opinião. Renunciando ao cargo, ele também estaria renunciando a oportunidade de tomar atitudes muito boas e sábias, como governante. Ele deixaria de poder melhorar a vida de muitas pessoas e de trazer para o Império um grande progresso. A dúvida de Maximus provavelmente reside, justamente, em saber o que de fato é uma atitude autêntica: reencontrar a família ou tornar-se Imperador. No decorrer do filme, a autenticidade do protagonista torna- se ainda mais evidente. Com a morte da esposa e do filho, ele se insere numa solidão e desilusão profundas. Apenas a partir desses sofrimentos, todavia, ele passa a assumir maior responsabilidade por todas as suas escolhas existenciais, aceitando correr os riscos que forem necessários para atingir seu objetivo de vingar a morte das pessoas que amava. E, por fim, ele vivencia prontamente a morte, como uma experiência única, necessária e irremediável.