Reflexão acerca do documentário “Terra para Rose” (1987) de Tetê Moraes.

João Rodrigo Costa de Souza A diretora1 Tetê Moraes, nasceu no Rio de Janeiro, em 1943, formou-se em Direito, pela UFRJ, em 1966, mas foi trabalhar como jornalista em várias frentes, entre 1967 à 1970, quando foi presa e exilada, devido a promulgação do AI-5, tendo que ir morar no Chile, Estados Unidos, França e Portugal, até retornar ao Brasil em 1979. Em 1981 estréia no cinema, com o curta Quando a rua vira casa, sobre o planejamento urbano no bairro carioca do Catumbi. Segue dirigindo, roteirizando e produzindo filmes e vídeos documentários, tanto para o circuito cinematográfico, quanto para o televisivo, especialmente para televisões européias, como a BBC de Londres. Terra para Rose (ou Mulheres da Terra) Foi gravando uma série de TV sobre o Brasil para a emissora inglesa que Tetê teve a idéia de realizar o Terra para Rose:
Viajamos e filmamos em nove estados brasileiros. A série tratava de cultura, economia, política, e quase sempre eu esbarrava com o problema da terra. Então vi, concretamente, a enorme importância dos conflitos pela posse da terra, realidade distante do nosso cotidiano urbano. Também me chamava a atenção a força das mulheres. Vi coisas incríveis acontecendo no Nordeste, no Norte, no Centro. Só não tinha visto ainda no Sul. Ninguém imaginava que pudesse haver esse tipo de problema naquela região, a mais rica e desenvolvida do país. Tive então vontade de fazer um documentário sobre a questão da terra no Brasil naquele momento de transição da sociedade brasileira pós-ditadura militar. Achei que o filme ia ser feito no Norte ou no Nordeste e fiz um projeto chamado Mulheres da Terra, que foi aprovado pela Embrafilme. Aí vi nos jornais as fotos do acampamento da Fazenda Anoni, que foi a primeira ocupação feita pelo MST de um latifúndio improdutivo, tão improdutivo, que estava há 14 anos em processo de desapropriação na justiça. Eram 1.500 famílias, outubro de 1985.2

Terra para Rose, lançado em 1987, foi o filme que projetou Tetê Moraes para o público de cinema no Brasil e no mundo. Ganhador do prêmio de melhor filme no festival de Havana e de Brasília, o documentário foi uma das testemunhas de uma das origens do MST no Brasil. Hoje cumpre papel histórico para o remonte do processo de luta pela terra no país. A partir da fazenda Anoni, Tetê Moares documenta o cotidiano daquele agrupamento
1 As informações biográficas da diretora foram obtidas através dos sítios “Filme B” e “Mulheres do Cinema Brasileiro”. Ambos, disponíveis, respectivamente, em: <http://www.filmeb.com.br/quemequem/html/QEQ_profissional.php?get_cd_profissional=PE465> e <http://www.mulheresdocinemabrasileiro.com/tetemoraes.htm>. Acesso em: 23 nov. 2012. 2 Trecho de uma entrevista de Tetê Moraes obtidas no sítio “Webcine”. Disponível em: <http://www.webcine.com.br/notaspro/npsonros.htm>. Acesso em: 23 nov. 2012.

humano em busca de sua dignidade, que se estabeleceria na terra. O país estava efervescente, discutindo uma nova constituição, renascendo após o regime militar e a causa sem-terra ganhara a opinião pública. Tanto, que a narração, na voz da atriz Lucélia Santos, chega a falar que, no Brasil, ninguém era contrário a reforma agrária. O problema era que cada um queria a sua. A equipe acompanha o movimento em suas ações na fazenda e fora dela, nas marchas, nas discussões e assembéias. Entrevista as pessoas e desvela suas subjetividades. Parece ter como objetivo apresentar ao país aqueles sujeitos que estavam ganhando as capas de jornais em sua luta. Apresentar sua humanidade e a validade de seus propósitos. A película trata esta questão de maneira interessante. Não chega a cair na personificação individualista, típica do jornalismo, que precisa identificar personagens arquetípicas para representar o todo e promover identificação com o público. O filme não é sobre Rose. Contudo, também não se perde num generalismo enfadonho, que não gera sentido. O coletivo que compunha aquele grupo de luta pela terra era composto por pessoas com histórias singulares e interessantes para a construção narrativa de Tetê. Rose, ao longo da trama cresce em força discursiva e os fatos ocorridos em sua vida lhe competem um destaque na obra. Mas não conta a história sozinha. É uma dialética instigante. Falo aqui de narrativa, trama e discurso, porque estou, a cada dia, mais convencido de que o documentário é um operador discursivo. Através de imagens e sons, o documentarista argumenta. A edição é uma organização de idéias que se apresentam para um debate. Podem até convencer. E esta argumentação, me parece ser composta dramaticamente. Existem personagens, diálogos, pontos de virada, cenários, ênfases, obliterações, etc. Terra para Rose parece um romance trágico. Termina com um golpe duro para o espectador. Rose, quem mais emanava esperança na “terra prometida”, morre. É atropelada durante uma manifestação em sua luta e de seus/suas companheiros/as por um pedaço de chão. Dos vários/as atropelados/as, três morreram. Uma morte misteriosa, não se sabe se foi acidente ou homicídio. O motorista do caminhão que avançou sobre os sem-terra fugiu do local e “Rose morreu. Atropelada. Despedaçada.”3 É um documentário cheio de simbolismo, talvez por tratar de um movimento muito místico, bem influenciado pelo religiosidade daquele povo, contém muitas imagens carregadas de sentido: enxada erguida, bandeira do Brasil, prédios públicos do governo, cruz, etc. O início, quando a narração relata a situação política do Brasil, na época em transição da ditadura para a democracia, e a situação da concentração e conflitos de terra no país, ao invés de mostrar as terras improdutivas, imagens chocantes de gente com fome ou situações de conflito direto, é exibido cenas panorâmicas e lentas dos prédios dos poderes legislativo, executivo e judiciário, sob uma trilha sonora pomposa
3 Trecho da narração do filme quando fala da morte de Rose e mostra a foto de seu corpo no local do atropelamento.

do hino nacional. Isso dá uma força de sentido muito expressiva para começar a contar a história. Mescla narração em off e entrevistas, misturando o “didatismo” do documentário clássico com a profundidade subjetiva moderna. Além disso, também lança mão imagens de arquivo da mídia televisiva para obter discursos oficiais e da mídia impressa. E ainda, usa cartelas como recurso demarcador de assunto. Parece ter esse caráter pedagógico, porque pretender apresentar o movimento, nascente no Brasil, naquela época, não permitindo muitos riscos de linguagem. É um filme que tem lado. Apesar de entrevistar agentes do governo e o dono da terra em questão, a montagem trata de desqualificar seus discursos, quando contrapõe com as falas do povo sem-terra. A abertura e encerramento é montada de maneira interessante. O filme abre com imagens de uma marcha dos sem-terra, que só vai ser contextualizada cronologicamente no final, quando as mesmas imagens voltam. Porém, trazem sentidos diferentes. No início, a marcha leva para a crescente da luta que o filme vai mostrar, mas, no fim, leva para a morte de Rose, para a queda. Considerações Escolhi Terra para Rose por um conjunto de motivos, entre os quais: por ser nacional; por tratar de uma temática que é muito cara a mim e por ser um projeto que teve uma continuidade. As aulas de análise de documentário me apresentaram projetos de filmes de longa duração em sua produção, que resultaram em experiências audiovisuais densas, englobantes de uma totalidade maior das circunstâncias documentadas. Ao assistir Terra para Rose, senti falta disso. Achava que o filme deveria ter ficado mais tempo com os sem-terra para ver mais desdobramentos daquelas lutas. Para a minha surpresa, ao pesquisar sobre o filme, descobri que Tetê Moraes voltou à região 10 anos depois para realizar outro documentário sobre a situação daquele povo depois de tudo aqui. O resultado disso é O sonho de Rose – 10 anos depois. Filme, inclusive, mais premiado que o primeiro.4 Além disso, tem um documentário de 15min com o filho de Rose, chamado Fruto da Terra, que foi a primeira criança nascida no primeiro acampamento da história do MST, com 22 anos, contando sua situação depois daqueles anos. Para mim, estes três filmes completam o ciclo. Isto me fascinou. Pretendo, em minha apresentação, além de realizar uma breve análise técnica, discursiva e estética, abordar esta “completude” composta pelas três obras.

4 Ainda estou baixando para assistir.

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