Toolkit de Advocacia Social Em defesa de um sistema nanceiro mais inclusivo

Toolkit de Advocacia Social Em defesa de um sistema financeiro mais inclusivo

Este trabalho representa apenas o ponto de vista dos seus autores e não pode, em qualquer circunstância, ser considerado a posição o cial ou um compromisso formal por parte da Comissão Européia.

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Nas últimas décadas, a finança ética tem emergido como um novo modelo de desenvolvimento baseado na ideia de que o dinheiro pode ser investido de forma socialmente consciente e responsável, i.e., promovendo o desenvolvimento sustentável da economia local, regional, nacional e global.

Provavelmente já todos ouvimos falar sobre os excessos da especulação financeira, o uso muitas vezes abusivo do poder por parte da banca e a exclusão do acesso ao crédito a que são condenadas sectores importantes da população. Contudo, e muitas vezes por culpa da nossa tendência em evitar falar de dinheiro por ser visto como algo indelicado e inapropriado, acabamos por pôr de parte a oportunidade para discutirmos seriamente a nossa relação com o dinheiro, e de como ele poderia ser usado de forma mais positiva. Por isso, acaba por ser pouco habitual falar da responsabilidade que temos como indivíduos ou como membros de organizações sem fins lucrativos no uso das nossas poupanças ou dos nossos investimentos. O uso do dinheiro tornou-se, desta forma, excluido dos instrumentos tradicionais para contribuir para um mundo mais solidário e justo.

De facto, muitas vezes participamos em associações, iniciativas, campanhas e outras actividades cívicas que promovem determinados valores éticos como a justiça, paz, solidariedade, ecologia, etc. Contudo, e provavelmente sem estar ciente da situação, pode acontecer que as nossas poupanças e investimentos estejam precisamente a financiar acções que vão contra os valores que defendemos.

As poupanças e os investimentos éticos são uma resposta a tal contradição, ao converter este ciclo vicioso num ciclo virtuoso, no qual se garante que as nossas poupanças e investimentos também apoiam aquelas iniciativas que são coerentes com os nossos valores éticos. Para além de permitir-nos ser mais coerentes, os investimentos éticos também permitem o financiamento de pequenos projectos e de micro-empresas que, por falta de garantias suficientes ou outras razões, não podem obter crédito das entidades tradicionais. Finalmente, os investimentos éticos e solidários, como no caso do Comércio Justo, não só nos educam a ser mais responsáveis socialmente de modo a contribuir para construir um mundo mais justo, como podem, por força do nosso papel como

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aforrador e investidor, obrigar a banca tradicional a também contribuir para esse objectivo.

A finança ética aparece pois como uma alternativa à ideia tradicional de finança que tem como ponto de referência a pessoa humana e não o capital, a ideia e não o património, a remuneração justa do investimento e não a especulação.

A finança ética é, em particular, um instrumento crucial para a promoção do desenvolvimento sustentável nos países do Sul. Neste contexto, onde o acesso ao crédito é normalmente difícil, não só pela escassez mas também pela impossibilidade de apresentação de garantias bancárias exigidas pelas instituições financeiras tradicionais, as actividades económicas locais acabam por ser afectadas negativamente. Em consequência, muitos daqueles que poderiam ser potenciais empreendedores nos países do Sul ao serem excluídos do sistema produtivo, acabam por se revelarem impotentes para quebrar o ciclo de pobreza em que vivem. A finança ética pode afirmar-se pois como um mecanismo de fortalecimento (“empowerment”) das comunidades mais desfavorecidas.

FINANÇAS ÉTICAS EM PORTUGAL Ao contrário da maior parte dos países da zona Euro onde a questão da finança ética tem gerado não só grande reflexão mas também dado lugar ao desenvolvimento rápido de uma nova indústria financeira alternativa, Portugal continua a ser um país onde as instituições financeiras ditas éticas (como a Banca Ética em Itália) não existem, os fundos de investimentos socialmente responsáveis tem um papel quase irrisório no mercado financeiro, e o microcrédito, embora em crescimento, carece de maior apoio institucional e regulador..

O país carece pois, de um quadro legislativo, que favoreça o desenvolvimento da finança ética através não só da promoção da angariação (colecta) de poupanças éticas mas também do investimento desta poupanças angariadas. Acreditamos que a criação de um sistema financeiro mais inclusivo via finança ética terá como resultado final:

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• Uma multiplicação dos actores comprometidos com a angariação de investimentos e poupanças éticas e um fortalecimento da sua actividade como consequência de políticas mais activas em favor do desenvolvimento da finança ética. Estas políticas devem ser produto de uma acção concertada das partes interessadas facilitada pelo trabalho conjunto na plataforma e pela emergência de uma legislação facilitadora e promotora da finança ética; • A promoção de fundos de garantia bancários como forma de facilitar o emprego de fundos éticos destinados a apoiar projectos de desenvolvimento; • O crescimento do volume de fundos éticos angariados como uma consequência de uma maior propensão dos investidores privados (individuais ou empresas) para investir parte das suas poupanças em instituições de microfinança. Essa maior propensão deve ser resultado de uma maior sensibilização da opinião pública propiciada pelo projecto; • Uma maior facilidade no emprego de fundos éticos angariados em países em desenvolvimento, como consequência de uma maior e melhor interrelação entre as várias partes interessadas na finança ética.

Estes resultados irão determinar o impacto positivo da finança ética em responder aos recursos limitados para o desenvolvimento, e em específico a acessibilidade das comunidades mais desfavorecidas dos países em desenvolvimento ao crédito, quase sempre negado pelas instituições bancárias e financeiras tradicionais. Desta forma, os efeitos multiplicadores que a promoção da finança ética em Portugal pode gerar irá determinar em grande medida um maior e melhor acesso aos recursos financeiros para o financiamento de projectos de luta contra a pobreza não só em Portugal mas também nos países em desenvolvimento . O facto da finança ética ser praticamente inexistente em Portugal, e tendo em conta a experiência positiva de outros países, permite antever grandes potencialidades de crescimento deste novo sistema financeiro a nível nacional.

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Para que a finança ética tenha sucesso em Portugal, é preciso contar com o apoio de vários stakeholders:

Uma opinião pública capaz em pressionar desde baixo o processo de decisão político-económico através do exercício dos seus direitos constitucionais e de cidadão.

As universidades são também importantes não só como potenciais centros de investigação e pesquisa sobre finança ética mas também na formação de futuros decisores políticos e económicos.

Opinion makers e Jornalistas, i.e., os media desempenham um papel crucial na sensibilização da opinião pública quanto ao impacto positivo que a finança ética pode desempenhar no financiamento de projectos de luta contra a pobreza em países em desenvolvimento.

Investidores Privados, i.e., cidadãos ou cidadãs interessados em desempenharem um papel activo na sociedade no sentido de uma transformação do sistema político, económico e financeiro de forma a ser mais justo e solidário. As suas poupanças e investimentos, mesmo que sendo de baixo valor, podem afectar os mecanismos económicos e financeiros actuais, se forem aplicados em bancos éticos ou instituições similares. Assim podem contribuir através da suas opções financeiras para operações e acções beneficiando indivíduos, famílias, comunidades e micro-empresários que raramente conseguem obter crédito junto das instituições financeiras tradicionais;

Organizações do Terceiro Sector, i.e., todo o tipo de organizações deste sector que estão já envolvidas ou interessadas em apreender metodologias de operação da finança ética, em particular de operações e acções de microcrédito. Um exemplo são as associações do comércio justo que procuram angariar fundos para (a) consolidar as suas actividades; (b) pré-financiar a produção das organizações de produtores dos países em desenvolvimento com quem trabalham e (c) promover o microcrédito nesses países;

Organizações empresariais, i.e., empresas ou associações de empresas que, conscientes do seu papel na sociedade e do impacto que as suas actividades têm na vida política, social, económica e financeira, procuram adoptar políticas de res-

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ponsabilidade social empresarial (RSE) de forma a responder às exigências de um consumidor cada mais ético. As empresas podem também investir o seu dinheiro em sistemas financeiros alternativos e éticos ou promover a justiça social nos países em desenvolvimento;

Instituições financeiras e bancárias tradicionais, i.e., todas aquelas instituições que já intervêm ou estão interessadas em intervir no sentido de facilitar o financiamento de projectos de luta contra a pobreza nos países em desenvolvimento através, por exemplo, de linhas de microcrédito ou outro tipo de instrumento financeiro ético;

Mas mais ou tão importante que todos estes stakeholders, é o papel que pode ser desempenhado pelos Membros do Governo e do Parlamento, autoridades regionais, i.e., todos aqueles que podem contribuir através das suas funções no aparelho estatal não só para a criação e implementação de um quadro legislativo favorecedor e facilitador da finança ética mas também para o aumento da ajuda pública para o desenvolvimento (APD) para os 0,51% em 2010. O papel destes actores é relevante porque podem de forma clara e inequívoca:

• Incentivar as instituições financeiras, bancárias e não-bancárias a procederem a uma avaliação/escrutínio ética(o) (“ethical screening”) de todas as sua aplicações financeiras segundo critérios sociais e ambientais consensualmente predefinidos pelos stakeholders (instituições, empresas, consumidores, ONG e outros);

• Incentivar a criação de fundos de investimento éticos composto por “pacote misto” que inclua aplicações em empresas cotadas em índices de Responsabilidade Social, tais como o FTSE4good ou Dow Jones Sustainability Index, e em iniciativas sócioeconómicas que promovam o desenvolvimento humano sustentável e incentivem a solidariedade social em Portugal e entre Portugal e países do Sul;

• Incentivar o estabelecimento de instituições financeiras éticas sob a supervisão da FEBEA (Federação Europeia de Bancos Éticos Alternativos), e em colaboração com organismos oficiais, empresas, ONG, organizações sem fins lucrativos, cidadãos e

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outros potenciais stakeholders, destinadas a apostar na dinamização económica e inclusão social das comunidades mais desfavorecidas do país. Estas instituições seriam depois responsáveis pelo financiamento, por exemplo, de programas de apoio ao empreendorismo e micro-empresas, comércio justo/consumo responsável, etc.

Para concluir, a persistência de situações sérias de pobreza e exclusão social é inaceitável. Num momento onde o nível de vida de uma ínfima parte da população não pára de crescer, num momento em que novos tipos de exclusão social se desenvolvem, não só é necessário como fundamental que a assistência e as políticas de protecção social dos Estados sejam renovadas. Para que assim sejam providenciados aos cidadãos novos instrumentos para lutar contra as adversidades e exclusão e a esperança de uma vida sustentável. A concretização destes novos instrumentos mais não é do que o respeito pela liberdade, igualdade e justiça, as fundaçoes de todas as democracias. A finança ética é um desses novos instrumentos.

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