Angel Gabriel - Pacto de Sangue

Ana C. Nunes

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“Angel Gabriel – Pacto de Sangue”, de Ana C. Nunes

Capítulo 1

Há 165 anos, o mundo mudou. Diz-se que o universo começou com uma grande explosão, mas na noite que para sempre alterou a humanidade, foi o fogo-de-artifício a pintar o céu de cores garridas enquanto a espuma saía à força das garrafas de champanhe e o chão se tingia de vermelho. A 1 de Janeiro de 2010, vampiros e imortais, criaturas que os humanos nunca pensaram que poderiam existir, revelaram-se, e a partir daí tudo mudou. Eles multiplicaram-se e nós quase fomos levados à extinção. ** 12 de Janeiro 2175, 02h00 Há sons que, por mais baixos que sejam tocados, têm o poder de alertar de imediato qualquer ser. O da sirene é um deles. Tornamo-nos extremamente alertas e assustadiços só de as escutar, sabendo que nunca precedem algo de bom. É o resultado de vivermos em constante luta com seres que nos querem beber o sangue, sem a cortesia de deixarem o suficiente para que possamos regressar a casa. Vestindo o primeiro casaco que apanhei a jeito, enfiei à pressa as botas de cano alto nos pés e saí do quarto directamente para o corredor, onde a poeira acumulada no chão flutuava ao gosto das centenas de pares de pés que seguiam em filas ordenadas em direcção à luz ao fundo do túnel. As pedras das paredes mantinham-se incólumes ao reboliço e à passagem do tempo. O som da sirene punha-me nervosa, à medida que a multidão me dificultava a passagem, e eu não conseguia parar de praguejar entre dentes. «Não corram», diziam os sinais nas paredes. Pensar-se-ia que numa emergência todos iriam ignorar os avisos, mas desenganem-se. Empurrando algumas pessoas, desculpando-me a outras e saltando para tentar cobrir mais caminho por entre os corredores escuros e estreitos, cheguei finalmente à praça. A luz das centenas de tochas, seguradas pelos residentes, cegou-me
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momentaneamente. A galeria central da gruta estava aos poucos a ficar cheia de gente. Homens, mulheres e crianças que se haviam juntado ali com os pijamas ainda vestidos. As tochas resultavam ainda mais suor do que o que já advinha do medo, pois apesar de estarem calmos, não conseguiam evitar estar temerosos. A fraca luz da lua, que escoava pela pequena clarabóia no centro da praça, pouco se reflectia nos rostos preocupados. A sirene não parava de tocar, adicionando mais tensão aos corpos colados. E enquanto pensava que caso fosse necessária uma evacuação, o facto de estarem todos juntos na praça não ia ser uma vantagem, ouvi alguém chamar por mim. “Angel!” – Olhei na direcção da voz, que reconheci de imediato. Junto a um dos outros túneis, à minha direita, vi o cabelo preto da minha irmã adoptiva, Amilda, que me acenava vigorosamente. Como ela conseguia manter aquele belo sorriso mesmo em alturas de crise, seria para mim um eterno mistério. Enfiando os braços no meio da multidão, abri caminho até ela, ouvindo umas quantas queixas pela minha rudeza. Cheguei ao pé dela rapidamente e respirei fundo antes de perguntar: – “Onde está a mãe?” “Já está lá fora.” Agarrou-me a mão e puxou-me para a direita, em direcção às portas de aço que estavam abertas para deixar passar cinco homens e mulheres, cobertos por pesados casacos e de cabeças juntas em estratégias sussurradas. O aperto da multidão libertoume quando os alcançamos, e pude finalmente respirar normalmente mas, assim que passamos as portas de aço, fomos rapidamente acarinhadas pelo vento gelado do exterior. Um outro túnel, muito mais largo que os anteriores, mas igualmente mal iluminado, estendia-se várias centenas de metros até ao verdadeiro exterior. O vento uivava como uma alcateia coordenada, forçando-nos a puxar os capuzes para cima e a enfiarmos os visores de neve. Encostadas às paredes estavam alinhadas várias motos de neve, velhas, consertadas centenas de vezes a partir de peças antigas, retocadas para andarem à base de energia solar acumulada e, por isso mesmo, parecendo prontas a desfazerem-se mal alguém lhes ligasse o motor; tal como todos os outros transportes no refúgio. Os dois homens e três mulheres que seguiam à nossa frente montaram as três motos mais próximas do fim da gruta e saíram para a noite calma e gelada. Amilda pôsse em cima da seguinte, accionou o botão e deu à chave. O motor zuniu baixinho, fazendo tremer o veículo.

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Os seus olhos pretos brilharam quando se voltou para mim, desenrolando a gola da camisola grossa até tapar o nariz, dizendo numa voz abafada. – “Vou patrulhar as colinas. Vens?” Sorri-lhe. – “Achas que estou aqui só para apanhar frio?” “Nunca se sabe …” – Disse ela com um sorriso. Subi para a moto atrás dela e mal tive tempo de me agarrar antes de ela carregar na alavanca e a moto começar a deslizar pela neve acumulada. Aguardando a imensidão do branco que sabia já de cor, fiquei desapontada pela escuridão quase total que me impediu de ver para além do que os faróis iluminavam. Várias centenas de metros à nossa frente seguiam as outras três motos, e ainda mais à frente, quase imperceptíveis na distância, mais duas deslizavam com força em direcção a Norte. A ausência de nuvens e a fraca Lua permitiam ver o céu estrelado em todo o seu esplendor; ergui a cabeça afastando a marrafa para o admirar, enquanto Amilda se focava em não ir contra uma árvore ou embater num animal. Para grande parte dos outros humanos, a noite era uma maldição, mas eu não conseguia evitar vislumbrar-lhe uma beleza sombria e uma chama de esperança. Não podíamos odiar aquilo que também nos dava mais poder, pois nem o calor do Sol se sobrepunha à magia das estrelas e da Lua, e qualquer feiticeiro que quisesse convencerse do contrário estava a iludir-se. Na distância as primeiras duas motos pararam e demorei alguns segundos a reconhecer a silhueta da torre de vigia que se erguia alta no cimo de uma pequena colina. A torre era uma construção simples, esguia e alta, feita de madeira, com capacidade apenas para albergar um sentinela de cada vez. Não tinha luzes em volta, nem fora nem dentro do posto de vigia, e era impossível adivinhar-se qualquer forma humana ou animal nas imediações. Estava escuro demais. As restantes motas dispersaram, cada uma para uma colina diferente, e Amilda fez o mesmo, seguindo para a direita e desligando os faróis da moto. Teve de reduzir a velocidade e ouvi-a rezar baixinho. Levantou a mão direita na direcção dos visores e pressionou o pequeno botão ao lado da lente. Fiz o mesmo nos meus e a minha visão passou a ser processada em tons de verde e cinza escuro, discernindo com alguma facilidade as curvas da colina e os picos das árvores cobertos pela neve fofa que caíra nessa tarde. Avançamos para lá da torre, em direcção a Este, até alcançarmos o cimo de uma pequena montanha de onde podíamos vislumbrar as planícies em volta. Tirei os visores
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por uns instantes, perscrutando a paisagem em busca de focos de luz. Nada. Voltei a colocar os visores e, tanto eu como Amilda, usámos a visão nocturna e o zoom para procurar outras formas de vida. Vozes alteradas subiam com o vento na nossa direcção. Não estávamos muito longe da torre e as planícies eram propícias a espalhar conversas. Desviei a minha atenção para o encontro lá em baixo. A minha mãe, que distingui por ser a mais baixa e magra de todas, escondia-se atrás de um dos alicerces de madeira da torre. Uma outra mulher e um homem do refúgio, que não consegui reconhecer por estarem de costas viradas para nós, falavam com um casal jovem, ansioso e com roupa a menos para um Inverno tão rigoroso. Consegui apenas perceber trechos da conversa, mas ouvi-os mencionarem TS (Teia de Sangue). O que fazia sentido, já que a mono-sirene não era aviso de ataque, mas sim de um pedido de auxílio. Muitos novos vampiros escolhiam cooperar com humanos em troca de sangue. Como os humanos se tornavam cada vez mais difíceis de encontrar e os mais recentes vampiros não tinham a perícia dos seus antecessores, estes faziam um pacto com alguns refúgios. Em troca de silêncio sobre a localização dos esconderijos que conheciam, eralhes providenciado sangue sempre que necessitavam. Uma boa troca, já que os humanos não podiam abandonar os refúgios sempre que alguém se tornava vampiro, ou teriam de estar em constante movimento, o que limitaria o crescimento populacional. Infelizmente nem todos os novos vampiros aderiam à TS o que muitas vezes resultava em tragédia. A voz da Amilda fez-me desviar os olhos da cena lá em baixo. - “Parecem-te de confiança?” “São jovens. Parecem acabados de transformar e estão assustados.” Levantando o visor para me ver com cores naturais, Amilda desviou a gola da boca que se estendia num sorriso torto. – “E conseguiste perceber isso tudo só de olhares para as caras esverdeadas deles?” Encolhi os ombros com uma risada. – “Já sabes …” Abanando a cabeça ela voltou novamente a atenção para o espaço circundante. – “Um dia hás-de me ensinar esse truque.” “Não é um truque. É intuição--“ – Ela cortou-me as palavras. “Feminina. Já me disseste! Mas se assim é porque é que eu não a tenho, nem mais ninguém no refúgio?” Voltei a encolher os ombros. – “Talvez porque eu sou mais mulher que vocês?”

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Ela riu-se e eu senti-me tentada a imitá-la. Ao invés afastei-me um pouco, em direcção a Este, calcando o topo estreito da montanha, quase em forma de lâmina de tão fino que era. Não havia movimento algum, mas foi exactamente isso que me deixou alerta. Àquela hora, naquele local, era comum ouvirem-se lobos, tigres, corujas e uma miríade de animais que, ao longo das décadas, haviam retomado o território que os humanos em tempos lhes tinham roubado. Voltei-me novamente para a transacção lá em baixo. Os ânimos pareciam ter-se acalmado. A minha mãe mantinha-se escondida, em caso de problemas, mas o casal de jovens estava menos acobardado e uma outra moto de neve aproximava-se. Era bom sinal. Dei mais uns passos cuidadosos, afastando-me algumas dezenas de metros da Amilda que partiu na direcção oposta. Alguma coisa me estava a levantar os cabelos da nuca, e não era o frio, nem o casal de recém-chegados lá em baixo. Na ponta de um pequeno precipício, suspirei e fechei os olhos, tentando concentrar-me, abstrair-me das vozes e dos uivos do vento; e foi quando tudo isso desapareceu da minha mente que o senti. A força que me arrepiava os cabelos. Uma energia tão fraca e distante que me passaria despercebida, caso não estivesse à procura dela. Eu nunca fui considerada uma feiticeira, como a minha mãe ou mesmo como a Amilda; mas havia algo no qual eles sabiam que eu me sobrepunha a todos eles: os meus sentidos. Todos os humanos, quais presas alertadas pela presença do predador, conseguiam pressentir vampiros até cerca de quatrocentos ou quinhentos metros. Mas era aí que eu me destacava, pois desde cedo que desenvolvera um radar interno (vamos chamar-lhe assim) mais potente. Conseguia senti-los à distância de um quilómetro ou mais, se me concentrasse o suficiente. Naquele caso não necessitara de tanto. O vampiro que pressentia estava longe demais para os outros feiticeiros, o que era claramente deliberado, mas não o suficiente para mim. “Merda!” – Praguejei. “O que foi?” Corri na direcção da moto e Amilda encontrou-me lá. Com um simples olhar para o meu rosto obscurecido, ela saltou para a moto e ligou-a, perguntando: “Para onde?” Apontei um dedo para sudeste e ela arrancou a toda a velocidade, ligando os faróis no máximo. A neve voou à nossa volta, embatendo com força nas nossas pernas e caras. Em breve comecei a ouvir as outras três motas atrás de nós.
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Amilda gritou acima do barulho da moto na neve. - “Já nos viram!” – Eram os outros feiticeiros que vinham em nosso auxílio. Com as motos a andar àquela velocidade, a menos que intruso tivesse um meio de transporte, não conseguiria escaparse. De mãos fortemente fechadas em volta da Amilda, senti quando o corpo dela enrijeceu. - “Já o sinto!” “Boa! Segue-o e eu trato dele.” “Está bem!” A neve a embater no visor dos óculos não ajudava a uma maior visibilidade, mas eu não precisava dos olhos para o que tinha de fazer. Tranquei os pés nas ranhuras dos lados da moto e soltei-me da Amilda, quase sendo atirada para trás pelo vento. Recuperado o equilíbrio, tirei as luvas com os dentes e guardei-as nos bolsos do casaco. Ao longe uma figura solitária corria pelos campos de neve, tropeçando vez atrás de vez e voltando-se a cada dois passos para nos ver aproximar. Estávamos a menos de uma cinquenta metros dele. “Pára aqui!” – Gritei. Amilda obedeceu de imediato. Parou o veículo e virou-o ligeiramente para a esquerda, deixando-me a mira livre. Respirei fundo e, ignorando as leves picadas nas costas, estendi o braço esquerdo de punho fechado na direcção do alvo, estiquei o outro braço e puxei-o para junto do corpo lentamente enquanto dizia: “Invocare ad lacea ab spiritus.” À medida que a minha mão direita se retraía em direcção ao meu peito, com dois dedos esticado, um feixe de luz vermelho ficava no seu caminho, formando uma seta luminescente que pulsava nos meus dedos; e do punho do braço ainda estendido um outro feixe da mesma luz vermelha se abria, para cima e para baixo, em forma de arco. Redireccionei a mira e expirei à medida que largava a cauda da seta, deixando-a cortar o vazio do ar na direcção do intruso. O arco de magia desapareceu assim que a seta foi atirada mas a flecha não parou até se alojar nas costas do homem, trespassando-lhe o coração. Do vampiro não saiu nem um pequeno grito, antes que caísse na neve que seria o seu túmulo. Corremos até junto do cadáver e Amilda aproximou-se do corpo, voltando-o com os pés e baixando-se para lhe estudar o rosto. Ele era velho e tinha a cara coberta de cicatrizes antigas “Achas que estava com os outros dois?” – Perguntou Amilda.
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Baixei-me ao lado dela. Tal como acontecera com o arco, a seta desaparecera assim que cumprira a sua missão, mas um buraco ficara no seu lugar e sangue manchava as roupas velhas do homem cuja boca se abria num grito silencioso, mostrando as presas pontiagudas que lhe haviam providenciado alimento na segunda vida. “Não. Acho que este os andava a seguir, a espiá-los. Bem viste como se manteve longe o suficiente para que ninguém o sentisse.” - Respondi por fim. “Mas estava a segui-los para quê?” “Para descobrir o refúgio, talvez?” Ela inspirou fortemente. - “Pelo menos sabemos que agora não vai entregar a informação a ninguém.” Olhei para a distância, semicerrando os olhos, esperando ver algo mais, algo que não estava lá. Era a primeira vez que aquilo acontecia. Os vampiros que pediam auxílio tomavam precauções extra para não serem seguidos. Tudo aquilo parecia muito estranho. “Estou com um mau pressentimento.” - Disse. Amilda estremeceu, levantando-se e fechando os braços em volta do seu corpo. – “Não digas isso!” Os outros feiticeiros aproximaram-se e assim que viram o vampiro morto, também eles começaram a perscrutar atentamente a imensidão que se estendia à nossa volta. Levantei-me e ajudei-os a cobrir o corpo do vampiro com neve, não fosse alguém passar por ali e ver um corpo fresco. Dentro de umas horas os animais descobririam a carcaça e dariam conta dele num instante. Regressámos rapidamente para junto da torre e encontrámos a minha mãe, a Gigliona e o Borodorin (o casal que eu não reconhecera de costas) reunidos em volta dos corpos do jovem casal de vampiros. Desviei os olhos quando vi como os dois se haviam agarrado um ao outro antes de morrer. Eram crianças, não deviam ter mais de dezasseis anos e tinham morrido assustados, se não mesmo de susto. “Não precisavas matá-los!” – Gigliona gritava com Borodorin, que escolheu ignorá-la, cruzando os braços. “Estás a ser sentimentalista outra vez.” – O homem, muito mais novo que a sua colega, esfregou os dedos nos cotovelos e bufou os cabelos negros da frente dos olhos, como se aquilo nada mais fosse que rotina diária.

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“Sentimentalista?” – Os cabelos ruivos da Gigliona encaracolaram-se ainda mais com os nervos, como se ganhassem vida. – “Eram crianças, seu insensível!” Uma raiva animalesca brilhou nos olhos do feiticeiro e a minha mãe teve de se meter entre os dois para impedir um confronto corporal. - “Acalmem-se!” Quando Ishvar falava, os outros calavam e ouviam. Ter uma mãe assim era espectacular … de vez em quando … “O que está feito, feito está. Vamos regressar porque temos muito que fazer.” – Só quando sentiu que os outros dois se haviam acalmado é que a minha mãe baixou os braços e veio ter comigo e com Amilda. – “Filhas.” – Abraçou-nos, juntando-nos pelos ombros e esmagando-nos uma contra a outra. Mas tão depressa quanto o afecto aparecera, desapareceu e, no seu lugar, ficou a seriedade de uma profissional. – “Contem-me o que aconteceu.” – Ela pediu. Não precisei falar muito, pois rapidamente a Amilda a pôs a par de tudo. Mas, durante todo o tempo, não consegui afastar a sensação de que havia algo que me estava a iludir. A experiência tinha-me ensinado que o instinto é a mais forte arma que os humanos possuem na luta contra os vampiros e os meus instintos diziam-me que algo me estava a escapar.

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