O que fazer quando o adolescente comete ato infracional?

Na cidade de Campinas – SP, onde eu nasci, assim como acontece em todas as metrópoles ou capitais deste país, não é raro o crime organizado recrutar crianças e adolescentes para praticarem os mais violentos atos infracionais porque se instaurou há anos no Brasil a cultura do “não dá nada” para “menor de idade”. Ou como me disse recentemente um educador aqui da cidade de Irati: “Já virou uma expressão como se fosse apenas uma só palavra „numdánada‟”. Mesmo assim, concordo plenamente com a jornalista Cristiane Batista, do Instituto Avante Brasil, quanto ao que escreveu em matéria intitulada “Criminalização social, política e midiática do adolescente em conflito com a lei” publicada no dia 31/10/2012 através deste jornal, destacando aspectos da realidade de adolescentes que cometeram atos infracionais no Brasil. Ela salienta fatos que nós, profissionais que atuam no Serviço de Proteção a Adolescente em Cumprimento de Media Socioeducativa de Liberdade Assistida e de Prestação de Serviço à Comunidade constatamos no dia-a-dia. As famílias de origem destes adolescentes são, em sua maioria, de baixa renda, com pouco ou sem acesso aos direitos básicos que deveriam ser garantidos pelas políticas públicas como de educação e saúde. Também concordo com a jornalista a respeito da tendência midiática sensacionalista aos atos praticados por adolescentes generalizando como se todos fossem “crimes” violentos contra a pessoa quando, na verdade, a maior parte é contra o patrimônio. Apoio seu questionamento sobre não se realizar um controle mais rígido em relação à evasão escolar, apontando dados que revelam a terrível realidade dos adolescentes em cumprimento de Medida Socioeducativa de Privação da Liberdade em relação à escolaridade. Ela cita o levantamento realizado pelo Departamento de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário (DMF) entre os anos de 2010 e 2011, afirmando que 8% desses adolescentes não sabem ler e escrever. Percebemos em nossa prática uma relação diretamente proporcional entre baixo nível de escolaridade ou abandono escolar com o envolvimento em atos infracionais. Como exemplo, podemos analisar os índices de desenvolvimento da cidade de Irati para compreender o iminente aumento do número de adolescentes que chegam a cometer atos infracionais. De acordo com a Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (FIRJan) que publica a cada dois anos o Indice FIRJan de Desenvolvimento Municipal (IFDM) de todas as cidades brasileiras, em relação a Educação esta cidade ocupa a 2.387ª posição no país – relatório de 2011 com base em 2009. São analisados dentro da categoria Educação no

existem medidas em meio aberto (Prestação de Serviço a Comunidade e Liberdade Assistida) e medidas de privação da liberdade (Semiliberdade e Internação). O SINASE determina através dos artigos 52. alínea VII). muito embora a medida socioeducativa não . seja em meio aberto ou de privação da liberdade. Com base nesta construção coletiva entre equipe técnica. pois regulamenta os processos de cumprimento da medida socioeducativa. Por ser uma sanção.IFDM. mas não descreve o modo como essas medidas devem ser efetuadas.594 de janeiro de 2012 está “massacrando a autoestima desses adolescentes e os sentenciando a viver em uma realidade violenta”? Sinto muito. O adolescente não deixa de ter garantido seus direitos. o Sistema Socioeducativo também o protege de abusos punitivos desproporcionais e ilegais. uma leitura equivocada ou mesmo a falta de conhecimento a respeito da Lei 12. alguns aspectos do SINASE devem ficar claros à sociedade. restrita ao necessário para a realização dos objetivos da medida. 35. a taxa de abandono escolar. Ainda afirmo que. o que deveríamos fazer diante disto? Culpar os professores e a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) como causadora dos problemas de educação no Brasil? Culpar o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) pela falta de cumprimento dos direitos? O Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (SINASE). Com a instituição do SINASE o adolescente em conflito com a lei tem uma garantia de direito. pelo contrário. no mínimo.594/2012 a elaboração de um Plano Individual de Atendimento (PIA) que deve incluir.” (Art. instituído pela Lei 12.594/2012 seriam razões compreensíveis para recomendar que “É preciso tratar os adolescentes como sujeitos ativos na construção de sua própria história” quando a própria lei referida e criticada pela autora do texto preconiza este procedimento. a participação efetiva do adolescente e responsável declarando seus objetivos. muitas vezes é a partir deste PIA que o adolescente inicia a retomada de sua cidadania. adolescente e sua família é que se delineia o processo de cumprimento da medida socioeducativa. o ECA estabelece medidas socioeducativas para adolescentes que cometerem atos infracionais. 53 e 54 da Lei 12. é que um dos princípios do SINASE é o de “mínima intervenção. dentre outros dados. Como por exemplo. Porém. chegando ao ponto absurdo de comparar o sistema californiano nos EUA com o sistema brasileiro. Neste sentido. num processo reflexivo de planejamento das suas metas de vida. mas nisto não posso concordar com a jornalista e tenho o dever de esclarecer alguns pontos através do mesmo veículo de informação que divulgou seu texto. Outro fato que também deve ficar claro para não generalizar Medidas Socioeducativas. Por isso. a taxa de distorção idade-série e percentual de docentes com nível superior.

juntamente com os crimes de corrupção e falta de cumprimento delas. apenas criticar e não esclarecer uma Lei e ainda comparar com exemplos descontextualizados à realidade do nosso país não ajuda a resolver problemas sociais. Contudo. pois este é o sentido da verdadeira cidadania e da pretensa “democracia” em nossa sociedade. Caso contrário. ou não. as leis precisam mesmo ser melhoradas e construídas com a participação efetiva de cada vez mais cidadãos. Com toda certeza elas são passíveis de críticas e questionamentos. garantir seus direitos. deixando um péssimo exemplo para as futuras gerações que tanto desejamos que aprendam valores éticos e morais. além do partidarismo ideológico tendencioso que promove a divisão da sociedade e interpretações deturpadas. nossos jovens continuarão confusos quanto ao que queremos para o nosso país! . se fossem garantidos anteriormente poderiam servir como fatores protetivos e de prevenção à prática do ato infracional.deva existir para garantir direitos básicos que. É preciso sim. sem deixar de tomar devidas providências quando estes cometem atos infracionais. porém. Por isso. antes de punir os adolescentes. O que realmente deve ser denunciado é a não divulgação das leis de Políticas Públicas.

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