Série V

DESAFIOS DA VIDA NA SOCIEDADE

A IDOLATRIA DO MERCADO
Ensaio sobre Economia e Teologia

Hugo Assmann Franz J. Hinkelammert
B Coleção ^ T E O L O G I A E LIBERTAÇÃO

Optar pelo investidor e não pelo pobre - é esta uma posição defendida pelos teólogos do capitalismo democrático, grande parte dos evangélicos fundamentalistas e mesmo por muitos católicos sinceros. Os autores procuram neste ensaio instigador identificar e desvelar os pressupostos teológicos que se escondem atrás das teorias e práticas da economia de mercado. Segundo sua análise, o mercado foi transformado num ídolo opressor que exige sacrificios de vidas humanas. E urgente resgatar o Deus vivo e verdadeiro do cativeiro dos ídolos e devolver assim à economia sua função primeira que é promover a vida humana, sobretudo dos mais pobres. COLEÇÃO EM 50 V O L U M E S

, VOZES ,

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Optar pelo investidor e não pelo pobre - é esta uma posição defendida pelos teólogos oficiais do capitalismo democrático, grande parte dos evangélicos fundamentalistas e mesmo por muitos católicos sinceros. Deus, o amor ao próximo e a teologia da libertação foram assumidos à sua maneira pelo sistema capitalista. 0 propósito deste livro é a identificação e o desocultamento dos pressupostos teológicos que se escondem atrás das teorias e práticas da economia de mercado. Perguntam-se os autores: como teorias opressoras que exigem sacrifícios de vidas humanas podem ser propaladas como evangelhos, como boas notícias? Com ampla erudição e aguda análise revelam que o mercado foi transformado em uma divindade a cuja sabedoria devemos nos entregar. As mercadorias, o dinheiro e o capital se fizeram fetiches que comandam nossas vidas. Existem ídolos, sólidamente estabelecidos, que são deuses que oprimem e exigem sacrifícios de vidas. E mesmo Jesus, com sua mensagem de amor ao próximo, corre o risco de ser seqüestrado para o panteão burguês. Pelo novo evangelho desta religião econômica, quem obedece aos impulsos de seu próprio interesse e se insere, competitivamente, nos mecanismos do mercado pode ficar tranqüilo de que encontrou a melhor maneira do amar o próximo. O interesse próprio e a concorrência alijam o altruísmo e a solidariedade. Com um zelo

A IDOLATRIA DO MERCADO

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Coleção TEOLOGIA E LIBERTAÇÃO

Tomos já publicados:
1/3 1/5 II/2 II/4 II/5 III/l III/2 III/5 III/8 111/10 IV/5 IV/6 IV/9 — — — — — — — — — — — — — A Memória do Povo Cristão — Eduardo Hoornaert Opção Pelos Pobres — Clodovis Boff e Jorge'Pixley O Deus dos Cristãos — Ronaldo Muñoz O Espírito Santo e a Libertação — José Comblin A Trindade e a Sociedade — Leonardo Boff Antropologia Cristã — José Comblin Criação e História — Pedro Trigo Teologia Moral: Impasses e Alternativas — Antônio Moser e Bernardino Leers Ética Comunitária — Enrique Dussel Escatologia Cristã — J. B. Libânio e Maria Clara Bingemer Sacramentos, Práxis e Festa — Francisco Taborda Sacramentos de Iniciação — Víctor Codina e Diego Irarrazaval Vida Religiosa: História e Teologia — Víctor Codina e Noé Zevallos Ensino Social da Igreja — R. Antoncich e J. M. Munarriz Maria, Mãe de Deus e Mãe dos Pobres — Ivone Gebara e Maria Clara L. Bingemer Ecumenismo e Libertação — Júlio de Santa Ana Teologia da Terra — Marcelo de Barros Souza e José L. Caravias A Idolatria do Mercado — Hugo Assmann e Franz J. Hinkelammert O Rosto índio de Deus — Manuel M. Marzal, José Ricardo Robles, Eugenio Maurer, Xavier Albó, Bartomeu Meliá

IV/11 — IV/13 — IV/14 — V/4 — V/5 —

VII/1 —

Este livro foi composto e impresso em agosto de 1989 nas oficinas gráficas da Editora Vozes Ltda. Rua Frei Luís, 100 Caixa Postal 90023, End. Telegráfico VOZES. 25689 Petiópolis, RJ. Tel.: (0242)43-5112. CGC 31.127.301/0001-04. Inscr. Est 80.647.050.

HUGO ASSMANN £ FRANZ ). HINKELAMMERT

Tomo V A IDOLATRIA DO MERCADO Ensaio sobre Economia e Teologia
Série V: DESAFIOS DA VIDA NA SOCIEDADE

São Paulo 1989

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.VOZES,

Detentor dos direitos autorais

Centro Ecumênico de Serviço à Evangelização e Educação Popular — CESEP Rua Martiniano de Carvalho, 114, 3? andai 01321 São Paulo, SP Editora Vozes Ltda. Petrópolis — Brasil Ediciones Paulinas Madri — Espanha Ediciones Paulinas Buenos Aires — Argentina

Projeto editorial conjunto de:

Direitos de publicação em todos os idiomas, com exceção do espanhol: Editora Vozes Ltda. Rua Frei Luís, 100 25689 Petrópolis, RJ Brasil Tradução dos textos em espanhol de Franz J. Hinkelammert

por Jaime A. Ciasen Nihil Obstat Imprimatur

Pe. Márcio Fabri dos Anjos, C.SS.R. São Paulo, 8 de janeiro de 1989 São Paulo, 16 de fevereiro de 1989 Paulo Evaristo, Cardeal Ains Arcebispo Metropolitano de São Paulo

Diagramação

Daniel Sant'Anna

CONSELHO EDITORIAL Leonardo Boff — Brasil Sergio Torres — Chile Gustavo Gutiérrez — Peru José Comblin — Brasil Ronaldo Muñoz — Chile Enrique Dussel — México José Oscar Beozzo — Brasil Pedro Trigo — Venezuela Ivone Gebara — Brasil Jon Sobrino — El Salvador Virgil Elizondo — EUA

Consultor para Assuntos Ecumênicos
Júlio de Santa Ana — Brasil

SUMÁRIO

PRÓLOGO I — ECONOMIA E TEOLOGIA: UM QUESTIONAMENTO NECESSÁRIO 1 (Hugo Assmann) I Por que urge este questionamento? a) Razões a partir da economia 1 b) Razões a partir da teologia 2 Como se apresenta atualmente o debate? a) Abordagens a partir da economia H j ) Abordagens a partir da teologia 3 A quem interessa a luta contra os ídolos?
:

7

ENSAIOS TEMÁTICOS: _ . 1, Problemas atuais da Economia Política 2 A Teologia do Império
(Franz J. Hinkelammert)
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9 9 9 18 30 30 57 81

85 97 114 114 119 125 135 142 162 171

(Franz J. Hinkelammert)

II — ECONOMIA: O OCULTAMENTO DOS PRESSUPOSTOS (Hugo Assmann) ' ' 1 A escolha entre as vias de acesso ao tema 2. Os diferentes níveis dos pressupostos . ^3. Reações nervosas contra a vacuidade retórica da economia 4. A crítica usual aos pressupostos: uma dança em círculo 5 O paradigma articulador : o interesse próprio como a melhòr forma econômica de amor ao próximo ' 6 "Racionalidade econômica": um veto ideológico às metas sociais 7. O ocultamente maior: o da teologia subjacente

ENSAIO TEMÁTICO: O significado dos critérios de decisão econômica
(Franz J. Hinkelammert)

178

III — A IDOLATRIA DO MERCADO (Hugo Assmann) 1 Os dogmas sobre o mercado como código de censura 2. A comunhão idílica de destinos cruéis e destinos benignos 3 . A distinção necessária entre mercados e sistema de mercado 4 O modo peculiar de incorporação da moral (e da teología) na economia de mercado » 5, De como o mercado nos "revela" a verdade e a liberdade 6 O sistema de mercado como enraizamento econômico da idolatria

198 198 204 211 218 236 250

ENSAIO TEMÁTICO: Do mercado total ao império totalitário
(Franz I. Hinkelammert)

263

IV — IDOLATRIA DO MERCADO E SACRIFICIOS HUMANOS (Hugo Assmann) 29 i : 1 Economia e sacrificio de vidas: enfoques do tema 291 i 2. Os disfarces do processo vitimário na economia 302 3 Basta o repudio aos sacrifícios aberrantes? 323 4 Racionalidade formal, éticas funcionais e sacrificialismo 331 5 Raízes teológicas do sacrificialismo da "religião econômica" 341 6. Anti-sacrificialismo e sacrifícios inevitáveis 352

ENSAIOS TEMÁTICOS: 1. Afirmação da vida e sacrificio humano
(Franz J. Hinkelammert)

2 A historia do céu: Problemas do fundamentalismo cristão 3 O uso de símbolos bíblicos em Marx
(Hugo Assmann) (Franz }. Hinkelammert)

363 368 388

CONCLUSÃO: TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO E ECONOMIA POLITICA (Hugo Assmann) 413 — A articulação dos critérios teológicos / A articulação dos critérios econômicos / O "lugar econômico" da fé crista / Reivindicando o primado do espiritual 413

ENSAIO TEMÁTICO: Economia e Teologia: o Deus da vida e a vida humana
(Franz J. Hinkelammert)

435
456

BIBLIOGRAFIA MÍNIMA

dessa parte final e de muitas alusões ao longo do livro. optamos por concentrar nossa atenção naqueles poucos temas que nos pareceram fundamentais num ensaio introdutório. . Nas partes seguintes do livro. como o próprio título indica. constitui a melhor porta de entrada para ulteriores aprofundamentos acerca do binômio economia e teologia. essa idolatria econômica se alimenta de uma ideologia sacrificai que implica em constantes sacrifícios de vidas humanas. Na apertada seção final. sem haver podido tratá-los diretamente. O leitor atento saberá recolher. ]A primeira parte destaca a relevancia de um debate cada vez mais intenso em relação a tais temas. a nosso modo de ver. Os temas que abordamos mais detidamente são: a maneira como a racionalidade econômica "seqüestrou" e funcionalizou aspectos essenciais do cristianismo. os abundantes temas para os quais este livro pretende motivar. Quisemos sensibilizar o leitor para um núcleo temático que. para uma racionalidade econômica diferente é para uma vivência da fé cristã que saiba distanciar-se da idolatria. é apenas um estudo introdutório a um vasto conjunto de temas: o da inter-relação entre economia e teologia. indicam-se alguns critérios.PRÓLOGO Este livro. que encontra sua expressão mais evidente na suposta auto-regulação dos mecanismos de mercado. a "religião econômica" desencadeou um ingente processo de idolatria. a partir dos problemas que afetam mais diretamente as maiorias populares dos nossos países latino-americanos. econômicos e teológicos.

A estrutura geral do livro foi redigida por Hugo Assmann. Costa Rica. 1988 . com a exceção de apenas um. o leitor tenha presente o fato de que ela obedece a uma seqüência tal que aquilo que ê posterior no texto pressupõe a informação e a reflexão que precedeu. sem dúvida alguma. Os ensaios temáticos. uma das manifestações mais evidentes da lógica perversa de uma determinada racionalidade econômica. podem ser lidos de forma completamente independente. foram redigidos por Franz J. Embora vivam distanciados greograficümente. Vozes„ Como o leitor perceberá imediatamente. Os autores chegaram. Recomendaríamos apenas que. no tocante à estrutura restante do livro. os autores compartiram as idéias deste livro em freqüentes encontros. teóricas e práticas. Conjugaram esforços para transformar o binômio economia e teologia em assunto de atenção prioritária no DEI (Departamento Ecumênico de Investigaciones). o livro admite diversas entradas para a leitura. que se expressam parcialmente neste livro. contudo. que concluem cada parte do livro. cujas características fundamentais analisamos neste livro. Sintonizam em muitas preocupações. à convicção de que seria mais oportuno deixar este assunto para um outro livro. a autoria redacional indicada: Hugo Assmann / Franz J. Os autores são amigos e companheiros de lutas comuns há muitos anos. Hinkelammert Setembro. Hinkelammert. porém. que sairá próximamente pela Ed.A crise da dívida externa do Terceiro Mundo é. Era nosso propósito original dedicar uma ampla seção deste livro ao assunto da dívida externa. Os ensaios temáticos. preservada.

O simples fato de que nós — e tantos outros.ECONOMIA E TEOLOGIA: UM QUESTIONAMENTO NECESSÁRIO (Hugo Assmann) i.. r q'ue: toüitos" afirmam ser a mais avançada e "científica" das Ciênciás Sociais? Eis. ^Nossas reflexões teóricas estarão colocadas inteiramente na perspectiva desse propósito prático. como fica a severa austeridade da economia. Uma primeira razão para encontrar interesse no assunto. economia e valores éticos. como veremos — suspeitemos que a economia trabalha muitas vezes eom. eminentemente prático: a luta em favor da vida humana real e concreta. POR QUE URGE ESTE QUESTIONAMENTO? a) Razões a partir da economia 1 " Este iivrp pretende mostrar que existem entrelaçamentos entre a economia e a teologia. ou diretamente . O propósito que nos move é. pressupostos teológicos é de molde a mexer com a tranqüilidade de qualquer economista. de economistas e outros. sobre e c o nomia e ideologia. que têm conseqüências bastante sérias para a maneira de encarar e enfrentar muitos problemas humanos. 2 Existe farta literatura. Se houver confirmação desta suspeita. portanto. portanto.

HUTCHINSON. Economia e ideologia. pois. The Politics and JPhilosophy of Êcoriomics Oxford. no entanto. mas refletir sobre as implicações que isso tem para o encaminhamento de políticas econômicas e para os problemas humanos em geral.. Madrid. Zahar. Ronaldo L. Sobrevive. . de modo algum. 1980. há pelo menos um século.1 Como é sabido. Rio de Janeiro. O passo que se pretende dar além dessas colocações bastante usuais. uma estranha insensibilidade de muitos diante deste ataque ao cerne da "ciência econômica". da ética ou de expressos posicionamentos políticos. e a sua abundante denúncia. Busquemos. constituem já o contexto mais amplo no qual se insere o nosso questionamento. consiste uma das principais facetas da perigosa e pertinaz ideologia da economia. ardorosamente perseguido. Economia y filosofia. Em outras palavras. BUNGE.. R.. é o de uma cientificidade isenta e neutra. H. agarrar a peculiaridade do nosso questionamento. Ideology and Methods in Economics. se acoberta nas acusações de ideologia ou "metafísica". 1 Para familiarizar-se com a vastidão desse debate. Alianza. BLAUG. derivados da filosofia. T. Mas o que nos interessa não é propriamente lançar acusações. Zahar. precisamente. ou precise de pressupostos valorativos. Avançamos. especialmente nos compêndios de orientação neoclássica. contudo. em níveis diversificados de elaboração. não deveriam vdeixar despreocupados os economistas. "fala sobre Deus" (god-talk) na economia. reluta. Rio de Janeiro. KATOUZIAN." L. HEILBRONER. implícita ou explícita. a economia enquanto disciplina acadêmica. ou temas afins. Madrid. "WARD. MacMillan. Não se descartam.. afirma-se que os economistas são também. La metodologia de la economía.sobre a filosofia da economia. como se fossem inúteis e infecundas. as análises sobre a ideologia da economia. O ideal. à sua maneira. Benjamín. O que há de errado com a economia Rio de Janeiro. contra qualquer presunção de que a "ciência econômica" esteja penetrada por. Zahar. Basil Blackwell. 1982. Mark. 1981. London. 1981. refere-se ao desvendamento de uma. Teologia é isso: a reflexão. e como fontes para ulterior bibliografia. Tecnos. embora desconsideradas por muitos economistas. Falamos diretamente de teologías presentes na economia. As muitas maneiras nas quais se procurou demonstrar que nisto. 1985. 1975. 1971. podem servil: MEEK. eminentes e perigosos teólogos.. genérica e difusamente. um passo além do que. Introdução à história das idéias econômicas. Mario. A existência desta insensibilidade.

isto é. o conceito ^ de ídolo e idolatria está diretamente vinculado à manipulação de símbolos religiosos para criar sujeições. É bom. um aspecto útil ou valor de uso. Consumindo-os (já que os mitos são bons para serem comidos). Neste livro se apontará para um ingente processo de idolatria que está vinculado à maneira como se concebem e organizam os processos econômicos. na solução dos problemas humanos. para o bem ou para o mal. Os deuses (e os demônios). Todos os deuses são. 3 ídolos são os deuses da opressão. nossa preocupação principal não é de tipo abstratamente doutrinário. acreditam e com os quais presumem ter diferentes graus de contato na história. i de alguma forma. por tudo o que implica. de uma ou outra forma. Fascinados por essa "serventia" dos seus deuses. têm — pelo menos na imaginação dos homens — o peculiar hábito da sorrateirice e da imprevisão: aparecem onde menos se espera. deveria mexer com os brios científicos de qualquer economista. os seres humanos se entregam prazerosamente a eles. os homens perdem em geral a consciência de que existem deuses devoradores da vida humana.sobre os deuses (e os demônios) nos quais os homens. legitimar opressões e apoiar poderes dominadores na organização do convívio humano. Os ídolos são implacáveis em suas exigências de sacrifícios. a troca simbólica de objetos e representações de cunho sagrado costuma preservar uma determinada "utilidade". de acordo com idéias/ superadas a respeito de deuses falsos. quando se fala de idolatria. esclarecer que. reais e verdadeiros para aqueles que os ( . Nossa hipótese é a seguinte: nas teorias econômicas e nos processos econômicos se verifica uma estranha metamorfose dos deuses e uma aguerrida luta entre os deuses. talvez. Os homens lhes atribuem estranhos poderes de intervenção. Bíblicamente. como é sabido. Esta suspeita. No interior dos processos de intercâmbio valorativo ^ entre os homens.

Um nível é o da simples constatação da metamorfose dos deuses. J . 123 . e até contrapostos. Hisloty of Economic Analysis. . por exemplo. presentes na economia. 2 2. já estamos em outro nível: o da luta dos deuses. "Seus conteúdos propriamente teológicos tendiam a encolherse em direção a um insípido deísmo". Discernir deuses diferentes. que aparece. É de supor que todo economista seja sensível a esse problema. Schumpeter quando procura caracterizar os traços dominantes do deus de Adam Smith. nesta pluralidade de deuses nem sempre harmônicos. têm a respeito da sua vida na história. Quando se aponta para conflitos e antagonismos entre os \deuses. Convém manter a distinção de diferentes níveis nos quais se move o "discurso teológico". como uma metamorfose determinada do Deus cristão: . . por J. já é claramente um passo além da sua simples constatação. É lógico que. • . com freqüência até asperamente antagônicos. mesmo se tiver chegado à visão "realista" de que não todas as vidas humanas podem ser integralmente protegidas de ameaças de destruição. Nossa questão é um pouco diferente: se falamos em idolatria e "perversas teologías". economista e psicólogo) pode perfeitamente manifestar interesse no assunto. é inevitável a distinção entre deuses propícios ou adversos à causa de cada qual. sociólogo. London. então. além do teólogo. Provavelmente concordará que vale a pena preocupar-se com a preservação do maior número possível de vidas humanas. historiador. ou seja. 1964. é porque nos preocupa o sacrifício de vidas humanas legitimado por concepções idolátricas dos processos econômicos. apoiados /em suas imaginações teológicas. Nesse nível. da variação das "imagens" a respeito de divindades. que penetram em teorias e políticas econômicas. qualquer cientista social (antropólogo. SCHUMPETER. Este passo é dado. politólogo. /Sempre houve deuses conflitantes entre sij porque são conflitantes entre si as concepções que os seres humanos.. ¡ ' cultuam. p.

adquire a notável virtude de ser um deus vago e vagante. ontem e hoje.se vislumbram sérias conseqüências práticas da constatação e do discernimento das variantes dos deuses. no plano da economia. se dá quando. pode certamente. O terceiro nível é. Já não é um deus determinado. É neste nível que aparece o discurso teológico sobre a idolatria. ao contrário. chamando umas de nocivas e outras de não tão nocivas ou até propícias a determinado projeto histórico. como se não houvesse nenhuma variante possível na fidelidade básica ao cristianismo. porque exigem sacrifícios. o da descoberta das utilidades específicas dos deuses. disponível para ser introduzido nas mais variadas regras do jogo na história. já bastante mais empenhado em aspectos valorativos. pois. É. muito diferente de um deus humanizado na história dos homens.^ nhuma rigidez dogmática em relação ao Deus cristão. um deus determinável: uma espécie de coringa. isto é.revelar algum interesse para o economista. Mas parece inevitável aplicar também às diversas concepções do cristianismo um sério discernimento dos deuses. sobre os ídolos que matam. Já que é impossível evitar que o adjetivo "cristão" seja aposto a posicionamentos muito diferenciados diante dos problemas humanos. Mas se ele apenas . Também este último nível. v ^ Um quinto nível se relaciona com a busca de uma coerência em relação ao cristianismo. cabe aos cristãos assumirem a dura. com posições determinadas diante dos fatos humanos. já que ele.Um terceiro nível. Um quarto nível é o da referência dessas funções possíveis dos variados deuses: começa-se a dar nome concreto a essas funções. mas inescapável. Eles são úteis para determinadas funções. no qual se está "esquentando" a discussão teológica contemporânea. Não é necessário assumir ne. Uma visão deísta incrementa enormemente a manipulabilidade do "seu deus". por exemplo. A história do cristianismo demonstra que já se atribuíram e continuam sendo atribuídas ao Deus cristão as mais variadas e contraditórias funções. essa carta utilíssima em muitas cartadas. tarefa de discernirem os ídolos da opressão e a busca do Deus libertador no interior da própria realidade do cristianismo.

É inegável um declínio relativo do predomínio econômico norte-americano no mundo. Outros centros econômicos. Pelo contrário. vanaos a um exemplo de como um determinado cenário. Por ora. a um imaginativo cenário. O declínio relativo não se deu apesar dos EUA.nos acompanhasse nos quatro primeiros níveis. pois. segundo. Os outros cresceram — afirma-se — porque os EUA garantiram o contexto no qual pudessem emergir. Ou não tem nenhuma implicação teológica a proposta de um cenário. se projetam como subpólos-chaves do sistema econômico regido pelo Ocidente. a presença determinante de uma teoria sacrificai que estabelece critérios de valorização de umas vidas humanas e flagrante desvalorização de outras? Vamos. Disso trataremos um pouco mais adiante. adquire rapidamente um viés não apenas claramente ideológico. 5 Não estamos ainda tratando das formas. mas por causa dos EUA. porque sabem que cresceram ao amparo da liderança econômica. Para não ficar em generalidades. primeiro porque não podem dispensar a garantia de segurança propiciada pelos EUA no plano militar e. estarão dispôs.1 . no qual os problemas humanos mais imediatos da maioria dos habitantes do planeta simplesmente não aparecem como importantes? Não se percebe. especialmente Alemanha Ocidental e Japão. estamos elencando apenas algumas razões que sugerem a importância do nosso questionamento a partir da própria economia. nenhum interesse real em opor-se 'A à continuidade dessa liderança. portanto. com o qual evidentemente não concordamos. como para a teologia. Eles não podem ter. ideológica e militar dos EUA. em tal cenário. dentro do qual se concebem tarefas prioritárias no plano econômico. Não se trata de rivais. mas até teológico. que assume a teologia no interior da economia. explícitas ou solapadas. que ameacem a liderança global dos EUA. já estaria iniciado um debate explosivo e de fartas conseqüências tanto para a economia. com vistas à determinação de urgências no plano econômico.

no ¡ futuro previsível. ¡ Havendo acordo básico quanto às linhas grossas deste cenário. saltam à vista alguns imperativos geopolíticos. Sem chegar a detalhes exaustivos. à semelhança da famosa "primavera das nações" de 1848. trata-se de assumir cooperativamente. mas não representa um desafio ao predomínio norte-americano em termos globais. como parece possível. a preservação da liderança mundial dos EUA. assegurada a superioridade econômica do Ocidente. Outro importante aspecto neste cenário é que a União Soviética tampouco representa um rival econômico. não pode haver afrouxamento na demonstração constante da superioridade de seus valores. Daí segue que a única alternativa i à anarquia global e ao caos internacional é efetivamente. as tarefas que este cenário impõe. Por outro lado. Distingamos três regiões que demandam peculiar atenção. Primeira região: no Leste europeu surge uma vasta área. Não há dúvida de que a Rússia é uma ameaça à segurança e aos interesses geopolíticos dos EUA e do Ocidente. incluindo uns quatro ou cinco países que ainda estão na órbita soviética. compartindo • cada vez mais o ônus dessa estabilidade. perdendo terreno até no plano ideológico. dada a sua debilidade econômica internacional e os sinais de recesso ideológico. um sistema internacional não pode operar na base de espontaneísmos. onde começa a notar-se uma instabilidade potencialmente explosiva. a União Soviética é simplesmente incapaz de tornar-se o centro financeiro do mundo e assumir uma liderança econômica global. Necessita um centro articulador das cooperações. já desponta um contexto classicamente pré-revolucionário. Ela por ora não passa de um poder unidimensional. um ponto de irra-1 diação das iniciativas relacionadas com o controle financeiro I e até do poder político. A insatisfação popular está nitidamente em aumento e. porque é um desafio exclusivamente no plano militar. inclusive em gastos relativos à segurança e à preservação dos valores em que se apóia.tos a assegurar a estabilidade global do sistema. Em outras palavras. circunstância essa que evidencia que. Se for possível evitar. um auge de crescimento econômico na União Sovié- 1 . numa ampla visão de interdependência de interesses.

e isto seria problemático. Um é a "questão alemã". cada qual na medida do possível. por sua vizinhança geopolítica com os EUA. já que a liderança dos EUA estaria arranhada em sua confiabilidade. . Neste caso específico. assim como o Mercado Comum Europeu. rçcentemente. como o Brasil e outros. é a Bacia do Caribe. geopoliticamentè vital para os EUA. Outra área crucial. Haverá. Reagan cometeram a imprudência de exagerar na delegação de responsabilidades a intermediários locais.tica e seus aliados. Já é hora de marcar a data para vinculações que eliminem as últimas barreiras na total cooperação em todos os sentidos. um potente centro econômico. De resto. pois. custos econômicos (e militares) elevados a serem cobertos cooperativamente nesta área. custe o que custar. se forem incrementadas as relações amistosas com a República Popular da China — o que implica prioritariamente empenhos econômicos — o resto fica mais tranqüilo com "Amerippon". a crise sistêmica do Leste europeu se transformará numa crise generalizada do comunismo como tal. a corresponsabilidade nesse panorama global. Este equívoco deveria ser eliminado. mas a sábia conjugação dos interesses recíprocos entre EUA e o Japão. Quanto ao Extremo Oriente. basta um pouco de informação para constatar que as forças de um lado encaixam perfeitamente nas debilidades do outro. onde a cadeia das alianças com o Ocidente é visivelmente frágil e os pivôs de aliança devem ser mantidos é ampliados. se refere ao controle do Oriente Médio. nome imaginoso que não designa nenhuma nova droga de farmácia. O outro. porque a Alemanha Ocidental. o Japão. Os "new-comers" (países emergentes) do Hemisfério Sul. deverão condividir harmónicamente com os EUA principalmente as responsabilidades financeiras relacionadas com crises potenciais nas regiões instáveis do Terceiro Mundo. incluindo o México e a América Central. deverão assumir. Mas há pelo menos dois problemas nesta área e suas adjacências. poderia começar a flertar com os mercados potenciais do Leste europeu e sua demanda tecnológica. Kennedy outrora e. Um aumento da instabilidade nesta região. provavelmente redundaria em ameaças de toda ordem para a estabilidade do sistema internacional.

3 Ê bastante comum defrontar-se com esse tipo de amplos cenários. in: Folha de S Pauto. a descrição do cenário corresponde bastante fielmente ao que foi delineado recentemente por Zbigniew Brzezinski. 66 (4. Oct. 1987. in: Foreign Affalrs. BRZEZINSKI. Recortamos o cenário de tal modo que aparecessem sobretudo os aspectos econômicos. Spring 1988. dando algumas razões iniciais da importância do nosso questionamento. em relação ao qual enfatizamos nossa total discrepância. "America's New Geostrategy. 5 À luz desse cenário. inclusive na literatura que se pretende especificamente econômica. que implicações tem este fato tanto para a economia como para a teologia? 6 Estamos ainda no primeiro passo. Z.. James. Tampouco detalhamos a questão das corresr ponsabilidades na segurança. adicionais aos poucos elencados até agora. 680-699. in: Foreign Policy. PETERSON. Praticamente todo o resto deste livro subministra um sem-número de motivos. 4. "A New Grand Strategy". podemos.. incluindo diversos Prêmios Nobel. Tomando em conta este recorte. 43-69. neste cenário. MAYER. 5 Cf. muitos detalhes. 14-21. "Manifesto para salvar o capitalismo". G. a visão de 10 destacados economistas. 1987. 46-51. in: Policy Review.1967. Martin. Nem sequer se nomeou um eventual papel das Igrejas ou dos cristãos e das demais religiões. .). Com este envio às restantes partes do livro. Spring 1988. 17. CHACE. Fali 1986. De maneira que esta seção não se encerra em si mesma. resumir-nos 3.. "How Capitalism Survived the Twentieth Century". por ora. "The Moining A f t e r " . P. -in: 'American Heriiage.12. 79-97. 2-25. retornamos ao nosso questionamento específico: dá para descobrir claros pressupostos míticos e teológicos nisso? A solene desconsideração dos interesses reais da maioria da humanidade não suscita nenhuma pergunta teológica? E se fosse verdade que os principais organismos econômicos internacionais se comportam de acordo com cenários semelhantes. "If America Won't Lead". in: The Atlantic Monthly.Omitimos. elaborou recentemente um "Manifesto para salvar o capitalismo". STOGA. Alan J. "Economlc Priorities for the Next President". nov. in: Foreign Policy. que contém um cenário bastante parecido.. Spring 1988.4 Um grupo internacional de grandes nomes na economia.

veremos que é altamente questionável a pretensão da "ciência econômica" de haver logrado. Salamanca. 2 A Teologia da Libertação denunciou. a separação entre argumentos éticos e argumentos propriamente teológicos (entre "dogma" e "moral"). com freqüência surgem em mim suspeitas que só posso comprovar recorrendo às ciências sociais". desde seus primordios. É nosso propósito demonstrar que o verdadeiro cerne teológico da economia ficou praticamente inalterado. num encontro de teologia. Sigúeme. desvencilhar-se de pressupostos claramente teológicos (coisa que alguns lamentavam como parcialmente inegável nos clássicos). veremos que a forte repolitização da economia.a dois lembretes ulteriores. 1973. E continuou explicando o papel mediador dessas ciências numa reflexão teológica comprometida com a realidade social dos homens. desde os clássicos até a atualidade. p. obviamente. Hugo. 6 Com isso. um destacado teólogo latino-americano explicou desta forma o seu método teológico: 'Quando faço teologia. b) Razões a partir da teologia 1 Há quase vinte anos. Primeiro. especialmente a partir dos neoclássicos. surgem-me inevitavelmente suspeitas que só posso comprovar recorrendo à teologia". Em segundo lugar. nos anos mais recentes. como eivada de perigosa ideologia. com o ascenso da vertente neoliberal. . Havia entre os participantes um economista que enriqueceu o debate da seguinte maneira: "Quando reflito sobre a economia política. \J Teología desde la praxis de la liberación. 89s. na forma que se constata freqüentemente em escritos sobre "ética social cristã" e em documentos sociais das igrejas. trouxe consigo uma peculiar reteologização da economia. Ed. não se pretendia 6 ASSMANN. na forma de um paradigma persistente com raízes teológicas.

Paulinas.7 7 SEGUNDO. precisamente na concepção da relação dos homens com Deus no âmbito social da história. Mas estas não esgotam a avaliação da ação na história. " . a fidelidade ao Magistério mais solene da Igreja me obriga a negar que exista uma transcendência própria da pessoa humana que não se estenda à história. ao analisar a Primeira Instrução do Vaticano sobre "alguns aspectos da Teologia da Libertação". com tais proporções e intensidade. Cristiandad. .invalidar o recurso a fundamentações filosóficas e outras não estritamente teológicas em reflexões sobre moral social. Juan Lilis. desde o ponto de vista cristão. p. em relação a nenhuma outra corrente teológica neste século. . Sempre está em jogo o caráter teologal — de encontro com Deus na relação sócio-histórica entre os homens — que é objeto da reflexão propriamente teológica. quando foram objeto de uma campanha persecutoria. Teologia da Libertação. Ed. coisa que não se havia visto. Fé cristã ou idolatria. Juan Luis Segundo. . agudamente. soterrar de todo a importância central deste ponto: a confrontação com as teologías neoconservadoras. Os teólogos da Libertação sempre estiveram bastante conscientes do fato de que o punctum dolens no seu diálogo com outras vertentes teológicas se situava. eis a questão inescapável. A referida disposição constante para o diálogo não permitiu. 1987 (orig. nas concepções diferentes em relação à experiência da transcendência no interior da história humana concreta. Uma advertência u São Paulo. onde o homem se encontra com a transcendência". é enfático a respeito desta discrepância fundamental: " . . Esses mesmos teólogos demonstraram uma admirável abertura e flexibilidade no diálogo. desencadeada a partir de instâncias eclesiásticas e políticomilitares. É lógico que existem para isso ponderações que podem ser chamadas éticas. 191. Madri. Igreja. 1985). O ponto que se buscava sublinhar dizia respeito à qualificação da fé cristã enquanto práxis concreta na história. com uma ressonância agressiva nos meios de comunicação. onde os homens procuram dar à sociedade estruturas mais justas e amistosas". contudo. exceção feita de casos individuais. . a ihistória já não poderá ser separada do lugar humano.

México. de seus modelos de ciência são obrigados a pronunciarse sobre eles.Ao longo deste livro o leitor poderá conferir que a questão já não é apenas esta tendência tradicional. aqueles que não se negam a tomar consciência dos pressupostos. Álém do jogo duro dos poderes adquiridos. porque se redescobre a inclusão de pressupostos teológicos em seus paradigmas. nas instituições criadas pelo assim chamado "capitalismo democrático". Hoje constatamos uma crise profunda e generalizada dos paradigmas da racionalidade científica. KUHN. Em muitas áreas científicas. 1973. à sua maneira. Thomas. Os pressupostos teológicos ficam ocultados sob a aparência de linguagens secularizadas. no interior das quais os seres humanos vislumbram a reorganização das esperanças. 1985 (ver blbliogr ) . Fomos alertados por T. desatendendo sua incidência na qualidade histórica da fé cristã. Hilton. Hoje nos defrontamos com "teólogos do sistema" que assumem. JAPIASSU. A revolução científica moderna Rio de Janeiro. La estructura de Ias revoluciones científicas. Muitos documentos sociais das igrejas e muitas incursões de teólogos nos problemas do mundo "profano" caíram ingenuamente nessa armadilha da modernidade. . Nesse contexto começa a tornar-se mais claro o caráter solapadamente religioso da ciência. 3 1 A redução da teologia a mera ética é uma característica j marcante do pensamento burguês. de retrotração das questões ligadas à economia para o campo da mera ética social. Fondo de Cultura Económica. Imago. muitas vezes tácitos e irrefletidos. Ó "colégio" dos apoiadores não se desfaz em nome de meras evidências científicas. compulsoriamente. existe o problema da relativa lentidão na substituição de "estruturas de crenças". Kuhn e outros 8 sobre os ingredientes necessários para que um paradigma científico em crise passe a ser efetivamente revisto e eventualmente abandonado. do sentido da 8. o reclamo da Teologia da Libertação: eles pretendem impingir-nos uma obrigaçãç histórica de vivenciar a fé cristã. em documentos de "moralistas" sociais e documentos das igrejas.

como gestação de pensamento económico-político. emigrou em larga escala dos centros docentes de economia. é porque tanto a economia quanto a teologia são exemplos fantásticos para constatar este fenômeno. há tanto tempo.vida e da historia humana. Se trazemos o assunto à baila. a persistência do modelo neoclássico na maioria das Escolas de Economia. O ensino da teologia nos educandários teológicos. Muitos assessores econômicos se estão formando em Escolas de Administração de Empresas e similares. Se. A teologia dos últimos quatro séculos pagou pesados tributos de inconsciente subserviência a modelos profundamente desumanos de concepção da vida dos homens na sociedade. Uma das analogias interessantes entre a economia e a teologia é a seguinte: também na ciência econômica se constata um fenômeno parecido. inclusive na América Latina. A impotência da teologia na modernidade é um capítulo da história da teologia que ainda nos desafia. incluídas aí muitas universidades de renome. não é menos enigmática. os teólogos mal se deram conta de que as teologías mais importantes já não eram as de seus compêndios. a metamorfose das próprias doutrinas teológicas inscritas nas teorias e práticas do âmbito econômico. um fenômeno relativamente secundário quando comparado ao ingente processo de gestação e incorporação de teologías sub-reptícias nos modelos de pensamento e atuação dos homens (incluídos os cristãos). e ainda constitui em larga escala. no interior das instituições e dos movimentos sociais. Esta é urna simples e rápida alusão à questão sumamente complexa da persistente sobrevivência de paradigmas teoricamente falidos. constituiu. Em larga escala. quando a inconsistência teórica desse modelo vem sendo denunciada por tantos. . parece enigmática uma teologiade-ensino flagrantemente distante da realidade do mundo e até da vida real dos cristãos. numa presença contemporânea aos sucessivos acontecimentos sociais. Semelhantes fenômenos nos impõem a pergunta sobre o verdadeiro papel ideológico exercido pelas teorias totalmente inservíveis na prática. Em outras palavras. neste momento. a teologia se revelou impotente para analisar. político e social. por outro lado. Hoje a economia. mas as dos economistas e pensadores sociais em geral. por um lado.

que "na prática a economia subjacente é a mesma". continua: atolada em moralismos sem vitalidade e em abstratas categorias éticas". p. tomadas cm conjunto. a respeito da economia. grande paite da teologia ainda não conseguiu desembaraçar-se do "culto ao homem abstrato". Mas. "A primeira vista pareceria que teologia e economia são ciências completamente diferentes. Nijmegen. precisamente. ao olhá-las mais de perto. 19. Neste sentido. talvez seja mais correto dizer. Por isso também . SUN. 4 Arend Th.. Tanto a Doutrina Social da Igreja Católica como as Éticas Protestantes continuam. nos confrontam com o dilema da história moderna". salta à vista um parentesco inquietante". 15. Arend Th. segundo o autor citado. Falta-lhe um instrumental para a análise econômica. à margem da nossa sociedade burguesa. van Leeuwen faz afirmações contundentes nessa mesma direção. VAN LEEUWEN. Ambas. Isto pode ser correto quanto à substância teórica de grande parte da "economia ensinada". Segundo ele. . "Por isso. assim como as 'marcas dos pés' da moderna teologia se situam na economia. denunciado por Marx como sendo o elo de vinculação mais propício para a integração ideológica do cristianismo no pensamento burguês. 1984. e a respeito da teologia. "dominadas por um pensamento burguês. 9 9.. "O problema central da economia burguesa se situa no nível da religião (implícita nela).Entre assessores econômicos de empresários e políticos. que "na prática a teologia subjacente é a mesma". incapazes de desmascarar a teoria econômica como religião burguesa". Mas provavelmente não é tão correto quanto ao pape] ideológico que as teorias inservíveis de fato cumprem. De Nacht van het Kapitaal. 795. e também entre comentaristas econômicos dos meios de comunicação. corre o dito de que "na prática a teoria e outra". a teologia se encontra tão impotente. em termos de legitimação do "status quo".

A sociedade real ficava ocultada atrás do mercado-ficção. o Antigo Testamento era a referência fundamental. pelas características peculiares que reveste a argumentação de Owen: a incrível impotência do cristianismo diante do fenômeno do capitalismo emergente. uma vez que fosse plenamente admitido esse extremo artifício que é a plena submissão do ser humano. O segundo fato consti- . socialista utópico de trajetória errática. o empobrecimento brutal de verdadeiras massas humanas. manifesta um certo fascínio por aspectos do pensamento de Robert Owen (1771-1858). Saint-Simon (1760-1825). É necessário assinalar que Owen percebeu apenas a meias o caráter dramático desta inversão. do caráter inexorável do sistema de mercado. Sentiu. regida agora por "leis" que lhe eram atribuídas como "naturais". esse notável desmistificador da ideologia do mercado. mas principalmente à maneira como Owen fundamenta o seu distanciamento do cristianismo. Havia surgido. de acordo com sua visão bastante simplificadora. à margem de critérios morais. o conhecimento da morte e da finitude histórica. a ficção das pretendidas "leis naturais" do sistema de mercado. ao mesmo tempo em que outro socialista utópico. claramente o desafio que representava a descoberta da sociedade. contudo. às inconsistentes experiências práticas de Owen. sem chegar a analisar a fundo a construção social das aparências engendrada pela ficção do sistema de mercado. que só sabiam referir-se à esfera dos indivíduos. como força de trabalho. obviamente. Owen se deu conta.Karl Polanyi. na França. por outro. como uma referência provocadora entre tantas outras. sonhava. o terceiro fato constitutivo do homem ocidental: a necessária consciência da sociedade. como poucos. cuja pretendida auto-regulação ocultava poderes reais que se tornavam invisíveis. com um reavivamento socialista do cristianismo. que impedia vislumbrar uma priorização efetiva de metas sociais. aos mecanismos supostamente naturais do mercado. O fascínio não se refere. Para o primeiro fato. Por um lado. Este episódio nos interessa.

Campus. 173. Owen reconhecia que a liberdade adquirida através dos ensinamentos de Jesus não se aplicava a uma sociedade complexa. Ele chamava isso a 'individualização' do homem por parte do cristianismo e parecia acreditar que 'tudo aquilo que é realmente valioso no cristianismo' só seria incorporado ao homem numa comunidade corporativa. 252 A grande 'transformação.. estes foram quiçá os dois problemas fundamentais que. . pois. o cristianismo não conseguia enfrentar. r 10. "Robert Owen foi o primeiro a reconhecer que os Evangelhos ignoravam a realidade da sociedade. segundo Owen. ou de fixar no próprio indivíduo a responsabilidade. (Dizia:) 'O homem individualizado e tudo o que o cristianismo realmente valoriza estão tão separados que são inteiramente incapazes de se unirem por toda a eternidade'. Mas agora. o conhecimento da sociedade. A condição do homem numa sociedade complexa. a descoberta da singularidade da pessoa e sua liberdade. o cristianismo se revelavã impotente. num terceiro fato inteiramente singular e novo. 135. regida por mecanismos historicamente instituídos mas declarados naturais. recebera de Jesus de Nazaré e de todo o Novo Testamento um impulso decisivo. e a origem social das motivações humanas nesse contexto. 1980. "Owen foi o primeiro adversário do cristianismo entre os líderes da classe trabalhadora moderna". Foi a descoberta da sociedade que fez Owen transcender o cristianismo e situar-se além dele". Ed. Urgia. Seu socialismo sustentava a exigência da liberdade do homem numa sociedade como esta: A era pós-cristã da civilização ocidental havia começado e os Evangelhos não eram mais suficientes. "O fulcro do seu pensamento foi seu afastamento do cristianismo que ele acusava de 'individualização'. embora continuassem a ser a base da nossa civilização".tutivo. p. essa mesma individualidade livre era devorada por mecanismos instaurados na sociedade. POLANYI. E nisso. segundo Owen. Karl. Rio de Janeiro.. O mundo real dos homens escapava à percepção dos cristãos.

está visão do cristianismo impede a captação do desafio histórico contido na mensagem evangélica e faz de Jesus um ídolo bem-vindo no panteão burguês. as teorias econômicas alentam esta visão do cristianismo embora não lhes baste. esta visão do cristianismo já provocou um sem-número de abandonos do cristianismo. sem dúvida. provavelmente. naqui- . É evidente que os aspectos explicitamente religiosos dessa catequese não são sempre os mais manifestos. É óbvio que o aspecto teológico é apenas um aspecto importante da ideologia econômica.Que conste claramente que não estamos manifestando ne¿ nhum entusiasmo por propostas owenistas. hoje. O vetor principal do magistério teológico da economia consiste. Se aduzimos o caso de Owen é pelas seguintes razões: o cristianismo que ele rechaça é efetivamente a visão do cristianismo mais aceita e incorporada à socie dade capitalista (e possivelmente também a menos incômoda a certos "socialismos reais"). grandes associações de empresários passaram a preocupar-se diretamente com os suportes teológicos de sua ideologia. 6 Mais importante que as diatribes mais ou menos acadêmicas sobre a interpenetração entre a economia e a teologia é. Mas sua incrementação explícita aumentou enormemente nos anos recentes. Existe. contudo. uma espécie de catequese persistente e difusa em relação a muitos elementos que constituem peçaschaves do substrato teológico da economia. razão pela qual inventaram perversas teologías complementares. Os equívocos de Owen foram palmares em inúmeros aspectos e há muita coisa totalmente ambígua em suas propostas de educação social das motivações humanas. Veremos mais adiante neste livro que. esta visão do cristianismo foi amparada por distorções teológicas ao longo de séculos e sobrevive ainda hoje em muitos setores das igrejas cristãs. embora também eles apareçam com uma freqüência maior da que geralmente se suspeita. o estudo da inculcação sistemática das perversas teologías econômicas na mentalidade de nossos povos.

suas sólidas organizações. que atingem duramente os interesses das classes subalternas. Tomada em seu conjunto. As formas de pensar os fatos sociais emergem. sua vasta rede de bombardeio ideológico. esta catequese é notavelmente mais poderosa do que a contraideologia elaborada por grupos cristãos críticos. seus inúmeros simpósios e congressos. Quando a publicidade dos bancos nos diz "ponha o seu dinheiro a trabalhar".i lo que poderíamos chamai a ''teologia endógena" das concepções econômicas. seus intelectuais orgánicamente incorporados. integrada numa luta de classes deflagrada de cima para baixo. Trata-se de uma espécie de pedagogia permanente. as elites orgânicas do empresariado transnacional — isto é. e assim é de fato na construção social das aparências. essas elites orgânicas transnacionais servem-se das chamadas estratégias de intervenção "fria". embora estes contem. Essa teologia infiltrada na linguagem cotidiana sobre os fatos econômicos é a que passa a integrar o universo mítico do sentido comum do povo e da maneira como o povo é levado a pensar sobre os fatos mais corriquei' ros da economia. de uma ampla catequese planejada? Não é salutar aderir a teorias conspiratórias da história. Em condições normais. isto é. seus "tanques' de pensamento". seus meios de comunicação e sua publicidade. brandas. com suma naturalidade. persistentes e não abertamente agressivas. surgem situações de crises agudas ou ameaças de con- . Os objetos "devocionais" e as relações "devocionais" se cotidianizam no bojo da própria institucionalidade econômica. em seu favor. contudo. porém. Por exemplo. porventura. Trata-se. da própria realidade objetiva das instituições. a própria universalização das relações mercantis gera uma espécie de consenso quanto às "virtudes do mercado". Quando. muitos começam a imaginar que o di? nheiro efetivamente "trabalha". com as contradições insalváveis dos modelos econômicos implantados. não esquecendo a capital importância dos movimentos internacionais do laicato cristão de linha conservadora — não descuidam as formas planejadas de inculcação dos "valores espirituais" do sistema. Hoje.

em décadas recentes. O cientificismo da modernidade foi (e ainda é) o experimento fracassado da criação de projetos históricos com a pretensão de apoiar-se exclusivamente na racionalidade. Se o trazemos à baila. essas elites — como pudemos constatar com freqüência. Trabalhou com conceitos que incluem em si mesmos. o diferente. então. o alternativo? Agarrando-nos à racionalidade supostamente auto-suficiente de análises "científicas" da realidade? Quando se desvencilharão as esquerdas latinoamericanas do mito decimonónico da cientificidade. ao longo deste livro. Hoje sabemos que este cientificismo incorporou perversas infinitudes nos seus 1 projetos. com públicos-objeto (targets) mais seletivamente definidos. As instituições humanas são inconcebíveis sem a referência a valores. Estratégias e táticas do empresariado transnacional. 1918-1986. nesta seção inicial sobre as urgências de aprofundamento do binômio economia e teologia. Empregam-se. 11 Tocaremos apenas escassamente neste vasto e importante assunto. como pensar ò novo. fazendo abstração dos valores. Espaço e Tempo. é porque quiséramos deixar bem claro que não nos referimos unicamente a formulações livres: cas ou acadêmicas da economia. Rio de Janeiro. René. 1986 . incríveis saltos transcendentais. ao qual o próprio Marx pagou devotamente um pesado tributo? " O socialismo será científico ou não será" (Engels) — esta pérola religiosa em linguagem secular ainda não foi cabalmente desmistificada por muitos. Ed. isto é. A Internacional Capitalista. e geralmente com mais presença do elemento religioso na dnculcação de valores "conjunturais". 7 Num mundo no qual as teorias econômicas e os processos econômicos se apoiam em sub-reptícias teologías. Os horizontes surgiriam do bojo da pura racionalidade científica. mas sobretudo no seu manejo. na América Latina — passam agressivamente à ofensiva. de intervenção "quente".» vulsão soeial. estratégias mais contundentes. O 11: DREIFUSS.

E esta afirmação de que tais ou quais efeitos são funestos. acusam de utópicos aos que se inspiram num horizonte além do possível-agora. as perversas teologías que declaram a guerra à radicalidade dos horizontes utópicos (isto é. no caso daquelas teorias e políticas econômicas que tendem a ignorar os custos sociais. Trata-se de teologías em conflito. e a respectiva teologia subjacente. Em cada um deles se dão operações teológicas. Julgamos que ela é a mais coerente com o cristianismo. se apresenta como uma inevitável con: frontaçãô entre mundos de valores discrepantes ou francamen: te antagônicos. Em outras palavras. assim. onde o que é histórico é rebaixado novamente a. "natureza". se ousa impugnar como perversa uma determinada afirmação de valores? Uma primeira resposta pode ser a seguinte:. então. Essa "naturalização" da história. com que critérios valorativos opera? Como se pode ver. Em nome de que. a sacralização do "status quo". detonante motivacional que os seres humanos necessitam na organização da sua esperança na história. opera de fato com valores absolutos que se pressupõem como já aprisionados no real. . mas praticam. Os valores absolutos não passam. em nome de posturas antiutópicas. etc. Surgiram. dissimulada em cientificidade não-valorativa e neutra. não há como escapar do compromisso com valores.) não passam de utopias invertidas e encarceramento das esperan'1 ças no já-dado. para sustentar as mudanças necessárias). foi vilmente aprisionado na sacralização de projetos específicos. afinal. Muito diferente é a fonte de critérios. Desmascarar essa operação teológica e caracterizá-la como perversa teologia não significa despedir-se da teologia ou poder dispensá-la para sempre. com leis não infringíveis. A questão. de uma absolutização banal de valores concretos que correspondem a interesses concretos. do mercado. portanto.horizonte utópico. pelas suas conseqüências desastrosas para muitos seres humanos. A reprodução da vida humana real e concreta é a fonte de critérios com a qual opera a teologia que defendemos. Trabalham com modelos de apreensão da reàrlidade. está em jogo uma luta dos deuses. As perversas infinitudes (do capital.

1987. na ciência econômica. São Paulo. valha uma opinião de Fritjof Capra: "Não é nada fácil para os não-iniciados compreender a linguagem abstrata e técnica da economia moderna. mas. como verfemos. meras palavras a respeito de palavras. É um dos vícios denunciados. No caso da teo^ logia. a fuga dos referentes históricos se dá quando ela se transforma em simples logologiã. diferentes? D lugar do encontro deve ser buscado na coincidência dos referentes na historia concreta dos homens. CAPRA. trata-se dos abstratos formalismos matemáticos ou da pura interligação formal de peças conceituais que já não têm nada a ver com problemas reais. Tanto na economia como na teologia existem tendências que evitam nomear esses referentes. 8 Como estabelecer um diálogo entre a economia e a teologia quando as linguagens respectivas são tão . No caso da economia.: 204. Descobrem-se verdadeiras danças de divindades buscando manipular os destinos humanos. Cultrix. ou seja. A Teologia da Libertação se caracteriza. pela crítica de eminentes economistas.12 12. Quanto à economia. Nos dois casos — no das teologías logológicas e no das teorizações econômicas sem relação com problemas reais — o assunto se torna fascinante quando se começa a tomar os marcos teóricos como o verdadeiro problema. Paia a vida humana sobra apenas o "valor marginal" que o último consumidor representa para a formação dos preços no mercado. p. tornam-se rapidamente evidentes as principais falhas do pensamento econômico contemporâneo". ou que o último trabalhador "empregável" representa para o custo de produção de um produto. pelo esforço de jamais cair em mera logologiã. O ponto áe mutação. Fritjof.rotulando-os de variáveis "externas" — as famosas "externalidades" — que viciariam o rigor "científico" de seus modelos. uma vez dominada. . entre outras coisas.

que nò fundo é de uma espantosa simplicidade? Quando. Como se constituiu e consolidou essa estranha constante. Damos preferência à detectação de pressupostos teológicos na economia. desde William Petty e Adam Smith até hoje. 1986 . Este núcleo se tornou tão sólido que. Marshall. Nossa informação não pretende ser exaustiva. e as paixões e os interesses dos industriosos atores dá. Quanto à teologia. apesar das significativas mudanças — dos neoclássicos. neo-lceynesianos e. Embora bastante artificial e não de todo adequada. dós neoliberais — até hoje não se "desmancha no ar". em: BERMAN. Tudo o que é sólido desmancha no ar São Paulo. mantemos. estáva criado o núcleo dogmático de uma nova ortodoxia. Mas cada exemplo nos servirá para ir amarrando um pequeno avanço na reflexão sobre o tema. Cia de Letras. Dão-se apenas alguns exemplos ilustrativos que permitem perceber a variedade dos enfoques. no alvorecèr da modernidade. Trata-se. fundamentalmente de uma seção informativa. do bojo das aparentes variações profundas. como diluição etérea de tudo e reino da inconsistência. pois. iniciativa privada foram declarados benfazejos para todos. registrámos sobretudo insistências no sentido de que ela comece a levar a sério o binômio economia e teologia. COMO SE APRESENTA ATUALMENTE O DEBATE? Nesta seção estaremos complementando a anterior mediante a constatação de que o entrelaçamento entre a economia e a teologia está sendo afirmado com crescente insistência e está sendo abordado de distintas maneiras. keynesianos.2. deixando para depois o aprofundamento questionador. 13 13 Alusão à discutível supersiníplificação acerca da modernidade. atualmente. os vícios privados dos donos do poder econômico foram -declarados virtudes públicas. a) Abordagens 1 a partir da economia Nas últimas décadas constata-se um fecundo esforço de releitura da história do> pensamento econômico. pouco a pouco. o enigma da persistência tenaz de um núcleo praticamente inalterado. a distinção dos campos a partir dos quais surgem as abordagens. para efeito de mais rápido ordenamento. Busca-se desentranhar.

ela mesma. p. podem constituir uma poderosa influência sobre o pensamento e a ação". The Origin of Economic Ideas. New York. 16 ROBINSON. se confrontam necessariamente com o que Joan Robinson chama "a misteriosa maneira com que as proposições metafísicas. topou-se com uma tal metamorfose dos deuses que. em: ROUTH. não por sua força explicativa. As paixões e os interesses. 17 ROBINSON. 24s e passim. Robert L.. sobre' a origem e apenas parcial versatilidade _dos dogmas econômicos fundamentais. 1979. 22. A pré-história da economia. governos juradamente conservadores estão no poder em um bom número dos maiores países industriais e assistimos a um reavivamento peculiarmente forte da retórica do mercado. . embora este um dos caminhos mais promissores e convenientes aprofundar nosso tema. 16 Quando essa economista buscou vasculhai. sem nenhum conteúdo lógico. nos Estados Unidos com o Presidente Ronald Reagan e na Inglaterra com a Primeira Ministra Margareth Thatcher. Paz e Terra. W.. ibld. 1977. New York. p. Filosofia Econômica Rio de Janeiro. HEILBRONER. o conceito "modelo consistente" (the adamant paradigm). BIANCHI.17 2 Não cabe nas intenções deste livro um mergulho em fundidade na história do pensamento econômico. ver: HIRSCHMAN. 1988. The Nature and Logic of Capitalism. Isto era plausível e previsível.' Hucitec. Vintage Books. 1986. Norton. os meandros metafísicos do pensamento de Adam Smith e uma série de outros economistas. A retórica do mercado do 14. Demos um rápido salto no tempo chegar à opinião de dois economistas sobre o que sucede na vertente neoliberal da economia. Rio de Janeiro. na mesma linha. Joan. Cf. Joan. 1979. Zahar. ou a trazer à luz "o paradigma duro como diamante" (adamant paradigm) da ciencia econômica15. Ana Maria. São Paulo. soltou a tirada famosa: "A economia não é apenas um ramo da teologia". Guy. a fim de lograr distanciar-se um pouco desse "imbroglio" teológico.Os que se aventuram a pesquisar "a natureza e a lógica do capitalismo" 14. Albett O. proseja para para hoje "No momento em que este livro ingressa na tipografia. W. mas enquanto coagulação de crenças autovalidantes e supostamente inquestionáveis. 15.. p 23.

. estão fortemente a serviço desses interesses.: " L a fe fundante de A. neste livro. um pequeno trecho: "Mas. a importância que Samuelson confere a este seu novo capítulo sobre " o fascismo de mercado" é testemunhada por suas próprias. 1975.. esclarece o nexo existente entrega essência-religiosa da . 821-829 (Sexto Congresso Mundial de Economistas). J. "La economía mundial a finales del siglo". à opinião de Paul A. K. apesar da sua fama como economista. nesta variante do fascismo de mercado. : . o modo como é ensinado e o seu amplo e penetrante papel na consciência pública. atuais "defensores da f é " William Simón. Economics arid the Public Purpose.economia. "Los defensores de la f e " (onde analisa a " í é " dos. e as formas de exercício -do poder pelos economistas. 33-64 (texto retomado em müitas coletâneas). . ' 19. 1987.. p. Boston.. Gedisa. aparece com suma freqüência em toda á vasta obra de Galbraith. aplicada à economia. autor de um dos mais difundidos compêndios neoclássicos. é um notório heterodoxo. in: Comercio Exterior (México). 178-198). Galbraith. na sua famosa conferência " O poder e o economista útil" (ibid. que voltará como referência mais adiante.Buenos Aires.conservatismo atual tem raízes firmes e muito sólidas em interesses econômicos. Houghton Mifflin Company.. porque é ele um dos que mais duramente acusa os economistas de escamotear constantemente a questão do poder em suas teorias. 19 É certo.. GALBRAITH. Economics. A Criticai History.. Paul A. Anales de un liberal impenitente. 286 (grifo nosso). 20. Periferia. 18 Poderá alguém dizer que J. Critica a la ciencia económica. Paul A. na qualidade de Presidente da Associação (Norte-)Americana de Economistas.. K. Entregam toda a economia a fanáticos religiosos cuja religião é o mercado de laissez-faire. Samuelson. 1972. 2 vols.. por ora. 11» ed. O compromisso econômico com o mercado clássico. 241-250. Apenas alguns exemplos: " L a economia como un sistema de creencias". de "A fé fundante" (de Adam Smith) e dos atuais "Defensores da fé". s/d. McGraw-Hill. in: GALBRAITH. New York. 20 18. 1980. p. John Kenneth. cf. "The Emancipation of Belief". 815s (grifo nosso). no 1« vol. ago/1980. J. GALBRAITH. Não planejam e não se deixam subornar. SAMUELSON. Economics in Perspective. SAMUELSON. Numa recente edição desse compêndio sentiu-se obrigado a inserir uma nova seção dedicada ao que ele chama "o desagradável tema do fascismo capitalista". e ela (essa retórica do mercado) tem uma qualidade teológica que se eleva muito acima de qualquer necessidade de comprovação empírica".palavras. Já estamos habituados a vê-lo falar de "A economia como um sistema de crenças". in: VÁRIOS AUTORES. Ed. Irving Kristol e outros). Smith". pois. A terminologia religiosa. Destaquemos.. os dirigentes militares se mantêm fora da economia. Barcelona. que tampouco aceitam subornos". Penguin Books.. K-. Passemos.

115. portanto antiintervencionistas. Benjamín Ward. analisava o estranho fato de que os defensores do livre mercado. Approaches". Business Civilization in Decline New York. Norton. 1976). também p. 22 Em 1976. Zahar. Beniamin. Robert L. cf. 24. aludindo à mesma auto-suficiência das teorias. "Os argumentos empíricos diretos simplesmente não são muito eficazes para derrubar crenças fortemente aceitas porque os cientistas. 1975. 22. quase seguramente. KAPP." Robert L. p. . 137. 112. Journal of Économic íssues. atribuem valor corroborativo às suas teorias".Há. no mesmo ano. alertava para o ensimesmamento das teorias econômicas. . "Economics: Its History. 23. as teorias estabelecidas resistem a qualquer mudança e não desaparecem simplesmente por estarem em conflito com a evidência empírica". . " o desejo de conservar a doutrina tradicional as tornará cada vez mais dogmáticas e provocará um congelamento conceituai". p. K. W. W. K. William Kapp. pelo menos.23 ". 1976. refletindo sobre a significação do fato de que o confronto sistemático com os problemas reais nunca foi uma característica da disciplina economia. apontava na mesma direção. Themes. . Rio de Janeiro. anunciando que o crescente Mato entre a teoria e a realidade econômicas levaria. 104.. Zahar. WARD. sempre que o mercado entra em crise exigem a intervenção do Estado para restabelecer a "liberdade do mercado". " . p. " . . Spengler constatava. HEILBRONER. . a economia? Rio dè Janeiro. que um processo de "congelamento conceituai" estava em andamento e que ele desembocaria em novos dogmatismos. 1979 (orig. p. vinte anos que escutamos vozes de advertência. J.. SPENGLER. na prática. 24 21. já em 1968. in: março/1968. J. A economia do futuro. ] J. . 215. William. está emergindo uma religião coercitiva desde o Estado (a coercive statist religión) para manter o funcionamento do sistema". Heilbroner. in: VARIOS AUTORES. a uma aguda re-politização (e re-teologização) da economia. O que há de errado com.21 Quatro anos mais tarde.

sendo incapaz de desvencilhar-se de seus dogmas. . trabalha em favor das perversas estruturas existentes e não admite alternativas que se afastem delas. Femando Henrique. É necessário meditar sobre o fato de que Comercio Exterior 25. CARDOSO. Deuses estabelecidos são.. ago/1980. portanto algo mais do que simetria casual.Ao que tudo indica. já que os fenômenos se dão simultaneamente. por exemplo. apesar (e talvez por causa) da enorme acumulação de riqueza nos países ricos. profundamente comprometida com interesses estabelecidos. . a exigência de fidelidades fanáticas ao credo religioso das teses centrais de economia burguesa? Na opinião de muitos. Em termos teológicos. e com tamanho ímpeto. a reconversão da história dos deuses na crônica dos homens vem sendo feita penosamente. qual é o sentido preciso e quantas coisas implica um linguajar econômico tão corriqueiro como o que insiste. e a ciência econômica dominante. iñ: . " . 846-860. esse endurecimento do credo ortodoxo se deve a duas causas simultâneas: em escala internacional. os problemas sócio-econômicos da maioria da humanidade se agigantam e agudizam. 25 No contexto atual.deuses endurecidos. isto significa que existe uma idolatria sólidamente estabelecida e que as divindades cultuadas não favorecem a criação de evangelhos (boas notícias) para a humanidade. existe uma interligação real. cit p„ 846. em "imperativos da racionalidade econômica"? Para decifrá-lo não basta a familiaridade com esse idioma esotérico que é o "economês". e nunca à custa do Olimpo". entre os fortes rebentos de neoconservadorismo na teologia e nas igrejas e o aumento de dogmatismos na economia. Por que ressurge precisamente hoje. "El desarrollo en (México). sobretudo quando se originaram de uma longa e difícil metamorfose anterior. el banquillo".

com as características de uma ordem religiosa que busca autoperpetuar-se (a selfperpetuating religious order)". Se por ciência se entende uma explicação adequada dos acontecimentos reais. Fernando Henrique." . e preservar-se. p. por um momento sequer. a força do guerreiro.CARDOSO. É exatamente isto qúe Galbraith V tantos outros procuram denunciar como a substância religiosa da economia. Mas ela pode tornar-se positiva se por ciência se entende o que T. Guy. . ideologia e poder. 28 ROUTH. que sirva de base para o encaminhamento de soluções para os problemas mais cruciais. que serve paia escamotear a adesão a esquemas de poder. n„ 1. E quando um paradigma científico assume as características religiosas de um sistema de crenças com amplo consenso. quando é notório que os economistas dificilmente se põem de acordo sobre os detalhes de qualquer questão concreta? ibid : 26. The Origin of Economic Ideas New York. com os paradigmas científicos.26 Inúmeras têm sido as diatribes sobre se a economia já ascendeu à categoria de verdadeira ciência ou não. já que o caminho está bloqueado por poderosos interesses estabelecidos. 311. atrás da sua condição sagrada. qualquer proposta alternativa se enfrenta com resistências tipificáveis como religiosas. Bunge e Blaug. que se blinda contra qualquer alteração em seu cerne.' Oü seja. Vintage' Books. o "paradigma" consegue impor-se. uma estrutura ou marco categorial de leitura da realidade. Ver bibliogr. as dificuldades que temos por diante. a resposta é claramente negativa. 27 O debate se torna irrelevante quando não se introduz uma distinção bastante simples. do empresário e do político". . 27. "Não subestimo. a racionalidade formal se converteu numa espécie de lei divina suprema e o cientista se escondeu atrás do fetiche do grande sacerdote. que se apoia no consenso de um "colégio invisível".28 5 Como é possível afirmar a existência de um credo congelado. Kuhn analisa precisamente que isto sucede assim. . por razões não científicas mas de prestígio. 1977. nas obras citadas supra. Kuhn caracteriza como "paradigma científico". disfarçando. embora reconheçam que a economia ainda não é uma "ciência madura" se inclinam a aceitar que os requisitos kuhnianos se cumprem razoavelmente. por exemplo. isto é..

e nada conserva a simplicidade da lágrima. no atacado.Também o cone arredondado da estátua egípcia da fecundídade" (do Rio Nilo) ostenta as suas numerosas tetas em todas as direções. todas as exigências concretas se tornam discutíveis. têm "corpos astrais". o da "crença totalizante e metafísica" (F. Cabe. uma rápida ponderação sobre este estranho fenômeno de concordâncias.. Desapareceram as certezas concretas sobre a fome real. Elas já não podem ser conhecidas e determinadas. então. com características praticamente idênticas. pelo visto.consegue romper esse hiato entre o reino da fé nas teorias e os dados gritantes do mundo real. contudo. mesmo porque este fenômeno se repete. Uma das análises mais originais sobre a separação entre o "conhecimento no âmbito de crenças apriori" e o conhecimen- . H. Cardoso). não deixar-se levar por moralismos. nada se pode saber ao certo. nas teologías conservadoras. contudo. tudo é ilimitadamente complexo. tudo o que se refere a corporalidades tangíveis se tornou infinitamente discutível. e infinitas discrepâncias. "Temos um fenômeno perfeitamente análogo na abstração do mundo real das teologías "espiritualistas" (no sentido pejorativo do termo). se preocupam quase exclusivamente com a construção do código lingüístico-conceitual de consensos sobre relações-chave entre as variáveis teóricas. da fome e do perigo de morte. mas apenas gostos e preferências). As certezas intocáveis se deslocam. Desde o momento no qual os neoclássicos inventaram a estranha ficção do homo oeconomicus (este ser etéreo e abstrato que já não tem necessidades. O que se deve analisar é o processo reflexivo que permite que cinismos objetivos sejam vividos como total inocência subjetiva. a outro plano. na economia. do grito. o que não afeta a sua solidez. a morte real e todas as necessidades reais. já que se apagou todo limite mínimo nas necessidades físico-espirituais do ser humano. com suas muitas estatísticas. Convém. Está à mão a suspeita de que se trate de pura manobra cínica. porque esses economistas só conhecem seres-com-desejos que. Nem a econometria. Então. no varejo. Os sistemas de crenças.

. extrojetam de seu aparato conceituai todas as variáveis que não se ajustam à sua lógica abstrata. no pensamento econômico. 12.. obsessionados com modelos matemáticos. vivemos numa época na qual se verifica um retorno explícito da política. tenta compreender de que modo. em nome da "verdade científica". pois. Kenneth. Pelo contrário. p. Todo o problema se concentra. mas cada vez mais sensível aos problemas do subdesenvolvimento. Em conseqüência disso.to . Que os economistas já não escondam as suas opções ideológicopolíticas é. na qualificação e no direcionamento dessas opções. posto que suas abstrações econômicas são incapazes de abordar a complexidade total dos sistemas sociais. "The Economics oí Knowledge and the Knowlèdge of Economics". Acentua que isto só se explica porque. in: American Economic Review.29 Autor de um compêndio acadêmico impecavelmente ortodoxo. Os economistas. maió/1966 30. como tal. em dezembro de 1965. a um gesto de sinceridade.. . a economia nunca deveria haver deixado de reconhecer-se como Economia Política. e também da teologia. Na linha das idéias acima.. sentiu-se obrigado. ibid. se pode chegar a uma impotência teórica e uma insensibilidade prática -diante de desafios gritantes. negligenciam os principais problemas da atualidade".do mundo real nos foi brindada pelo economista Kenneth Boulding. os economistas fracassaram na compreensão dos problemas do desenvolvimento dos países pobres. Em si não há nisso nada de aviltante para a ciencia econômica. 29. BOULDING. 30 6 Como já ficou assinalado. " .. ao estarem as teorias econômicas penetradas por crenças que já não se questionam. uma simples questão de honestidade. Kennèth. BOULDING. já que nunca esteve isenta de juízos valorativos ou descompromissada do jogo real do poder. . numa oportunidade de grande significação ritual no calendário da Associação Norte-americana de Economistas.

de uma expansão do objeto que era de esperar. convém ressaltar que não tudo o que se pesquisa ou reflete. Como primeira matriz articuladora. segundo. que escamoteia a sua "utilidade política". problemas psicológicos. que tem como lema: existe apenas uma ciência social. L.. etc. etc. hábitos grupais. especialmente de acordo com o figurino neoclássico. que se consideravam. conduta moral. Que tem tudo isso a ver com o binômio economia e teologia? Se fizemos uma rápida alusão a este vasto panorama. As três últimas vertentes citadas têm em comum a aplicação de métodos de análise de mercado a uma série de aspectos da vida humana na sociedade (opções ideológicas. Bem ao contrário.). recordemõs que os neoliberáis voltaram a criar Centros e Editoras pujantes. ao mesmo tempo — há veios fantásticos de teologías mais ou menos sub-reptícias. Hayek. Nesse tipo de literatura — que é econômica. Antes de tudo. no entanto. o movimento dos estudos de Escolha Pública (Public Choice — com James Bu* chanan à frente) e. a partir dos neoclássicos. está igualmente em aumento a produção de escritos sobre a "expansão do domínio da economia". seu discurso sobre a economia. etc. mas aos que politizam. von Mises. nos confrontamos com uma variedade de focos ou matrizes das quais emana a articulação desse novo pensar político misturado à reflexão sobre a economia. junto a produções maís recentes. Dois outros focos referenciais são. que nos referimos agora. em economia. as teorias sobre o Capital Humano (Gary Becker. prática religiosa. Embora não chegue a ser propriamente um foco articulador. primeiro. grande número de economistas continuam fazendo o que consideram ciência econômica isenta de valores. como "externos" ao objeto da economia. mais ou menos explicitamente. Não é a esse tipo de "economista útil" (para usar uma expressão de Galbraith). com muita presença na América Latina. tradicionalmente.). Trata-se. sob o comando da economia. dentro da lógica da definição do homo oeconomicus. Estes Centros se esmeram em difundir F. filosófica e fortemente política.No contexto dessa re-politização pronunciada do pensamento econômico. . obedece a essa tendência de explícita re-politização.

capaz de reacender a criatividade. numa economia que estaria perdendo algo do seu ânimo competitivo (a norte-americana). Sublinhamos que se trata apenas de exemplos elucidativos. DIGGINS. por exemplo: PASSMORE. matço-abril/1988. Ty. um representante exímio do ingente esforço do conservatismo atual na reconstrução de uma "espiritualidade". já que não é este o lugar para deter-nos longamente nestes toques informativos. o clássico tema de que é necessário manter bem acesas "as paixões e os interesses". Looking Forward. 32 O velho tema da industry (industriosida31.W. 1986. Barry. KRISTOL. . MACINTYRE.> _ 32 Constata-se uma verdadeira onda de acirrada urgência por manter legitimado o modelo antropológico que procura imunizar-nos "realisticamente" contra "paixões sociais". Ver. Como é sabido. Cf. The Battle for Human Nature: Science. Por tratar-se de casos. 1984. Altruism and Rationatity. Cambridge. que alentam a coragem de assumir riscos e o ímpeto da iniciativa. intensificação da competitividade tecnológica. foi para situarnos melhor. Norton. etc.. onde se conjuga explicitamente a relação entre economia e teologia. Harvard Business Review. Ind. Howard. em confronto com outros países. . da economia com o qual se opera nessa conjunção. sem dúvida. SCHWARTZ. 31 O motivo de fundo é porque em Gilder temos. Univ. voltou ao centro das atenções num contexto de ameaças de estancamente. 7 O caso de George Gilder é evocado aqui por duas razões. Selfishness. Charles Scribner's Sons. The 'Lost Soul' of American Politics: Virtue. 1970. porque o "egoísmo" é a felix culpa necessária pata ser "racionalmente altruísta". New York. uma circunstancial e a outra mais de fundo. 1982. New York. Tohn. Propugna-se que o único caminho paia atuar beneficamente em favor de nossos semelhantes é seguindo nossos próprios interesses. of Notre Dame Press. é necessário estar atento ao tipo de concepção. The Perfectibility of Man. Basic Books. Basic Books. altos índices da desemprego. 49. John P. Self-Interest and the Foundai{ons of Liberalism. Morality and Modem Life. O motivo circunstancial se relaciona com o fato de que seu livro "Riqueza e Pobreza" chegou a ser uma espécie de livro-de-texto para os intentos de reestruturação das políticas econômicas na administração Reagan. alguns poucos exemplos de manejo peculiar do conceito de economia e da sua relação com a teologia. New York. nesse contexto mais amplo. After Virtue Notre Dame. MAGOLIS. Alasdair. O mesmo vale quanto ao conceito específico da teologia que está em jogo. 1984.. living. 1983.dentro do qual se pratica hoje o discurso econômico. Cambridge Univ. Reflections of a Neoconservative: Looking Back. p. . Piess. New York. segundo um testemunho autorizado.

que acabamos de designar. a questão é á seguinte: que é mais importante para o bem da humanidade. olhando para o passado histórico. O ponto de bifurcação. as melhores nietas sociais possíveis são mágicamente recuperadas. Pelo contrário. incentivando seu potencial criativo e confiando que uma Divina Providência se encarregará de somar os interesses particulares para o bem comum de todos? Este é. o ponto de bifurcação das diferentes maneiras de conceber a racionalidade possível na economia. Ê fácil perceber que este recorte da racionalidade possível não è decorrência de um cínico pessimismo diante de quaisquer metas sociais. aposta tudo na clássica equação liberal: interesses e iniciativas individuais. Os resultados nunca foram claramente previstos. portanto. Descrente de que a humanidade possa elevar-se a uma consciência de seus objetivos coletivos. está de volta com muita força. cuja atuação se pressupõe. soa gssim nas palavras de J. crê poder constatar que a história nunca avançou de acordo a projetos intencionais. na política e em tantas coisas mais. que foi assunto inevitável para os economistas clássicos. necessária e suficiente. embora se cale o seu nome. É a partir. o de que esta é a condição. pois tamanha aposta nos interesses da iniciativa privada somente guarda um mínimo de racionalidade porque inclui um pressuposto tácito. mediante um salto transcendental de cunho inadvertidamente teológico. espíiito inventivo.deste ponto que se bifurcam também os enfoques teológicos.de. para garantir um direcionamento benéfico das atividades humanas em proveito de: todos. tudo o que devemos fazer é apostar no interesse próprio dos indivíduos. são a única matéria-prima disponível no progresso da história. No essencial. no seu cerne. quando não atrapalhados por intervencionismos e deixados em completa liberdade. como é sabido. È nesse pressuposto que localizamos a fé numa divindade providencial. para guiar racionalmente a sua história. iniciativa). Passmore: . Hayek. fazer planos nos quais as forças dos homens se possam somar com vistas à melhoria das condições sociais do convívio coletivo. ou aceitar que os avanços da história não obedecem a projetos intencionais e que.

por que não se podem imaginar propostas pedagógicas em outra direção? Essa potencialidade específica. Esta palavra polissêmica é praticamente. a ser cultivada e aperfeiçoada. p. sobretudo em épocas de crise. possuem em suas profundidades simbólicas a maior das verdades históricas e pragmáticas. essa potencialidade específica não é uma qualidade natural. 222. "Temos. "O risco e a concorrência. a morte e a mudança são a verdadeira essência da condição humana". não porque os homens se proponham. aventurar-se no imprevisível. em muitos escritos econômicos. „ . ter a coragém de confiar na sorte. porém. inteiramente garantida em qualquer ser humano. são eminentemente as qualidades humanas do capitalismo".". op. 33 Pelo visto. e sempre houve. um 'mito'.. se existe em todos. Senão. enfim. por que tanto empenho em aperfeiçoála? Há.. . como mínimo. necessitamos crenças religiosas.. . uma fé na Providência. portanto. mas porque eles se empenham ém aperfeiçoar uma potencialidade humana específica". . Criatividade é arriscar-se. . com fé no futuro è comprometidos com ele. ter uma fé ilimitada na Providência. Ou. que. uma proposta pedagógica: potenciar em interesse próprio. pode deteriorar-se ou tomar rumos não desejados. apesar da sua duvidosa 'irracionalidade'. terão êxito". Se isso é necessário."A humanidade como um todo. não temer obstáculos. fazer a humanidade progredir. "A tentativa do Estado benfeitor de impedir. Gilder (como M. Elas nos dizem que os homens livres. 33 PASSMORE. John. "O heroísmo. como seu objetivo. Novak e tantos outros) faz dela a virtude essencial da iniciativa privada. uma esperança. . progride. suprimir e eliminar os riscos e as incertezas de nossas vidas — para domesticar o fator inevitável do desconhecido — viola não apenas o espírito do capitalismo. onipresente na literatura contemporânea sobre a livre iniciativa. um nome mais bonito que o do feio self-interest: chama-se criatividade. cit. " . evidentemente. recebe hoje. mas também a náturezà humana". o desejo de lançar-se ao desconhecido.

Pelo contrário. ) A lógica da criatividade é 'saltar antes de olhar' ( . na qual o homem abandona a racionalidade. . salta corajosamente a riscos desafiadores. opção e projeto. "Uma lei fundamental da mente é que a fé é anterior ao conhecimento. há questões sérias a discutir. nem planejar o futuro. toda a criatividade e descobrimento humanos exigem que se transcenda uma racionalidade reduzida e a adoção de valores religiosos". amor. ( . não o fato de olhar. e conseqüentemente da vontade e da opção (sobre isso. A razão pela qual o capitalismo tem êxito é porque suas leis concordam com as leis da mente". . a teoria vem primeiro e determina que evidências podem ser observadas". porém. de "teoria": o "O pensamento criativo não é um processo indutivo no qual o cientista acumula evidências de maneira neutra e 'objetiva' até que se torne visível uma teoria. ) É o" salto. . Como se pode notar. . conflito e 'falsabilidade' ( . desse salto e dessa opção: só a total liberdade de iniciativa. confiante em deuses providenciais. A verdadeira teologia de Gilder. Só quando temos fé podemos conhecer algo. . que gera a informação decisiva " Voltamos. abertura. é a condição que tem garantias divinas. não consiste na afirmação de um primado da crença. . "As regras mais importantes do pensamento criativo se podem resumir como fé. ) . " . . . sem quaisquer interferências planejadoras de metas sociais. precisamos adequar a esse fato as nossas teorías do conhecimento. Toda a dialética é eliminada por uma teologia banal. pois. nos defrontamos com um equacionamento claramente definido de velhas questões filosóficas e políticas: a dialética entre vontade e inteligência. . O essencial da sua teologia se encontra na direção pré-definida dessa fé. ao sentido etimológico "olhar divino" ou "olhar-deus". sem abdicar da razão). fé e razão. A fé vem sempre primeiro.Como não podemos prever nossas metas. aliás.

Geoige. das muitas leituras "espirituais" para empresários e banqueiros. mas sumamente sedutora. o problema da fome. Esta fé nos permitirá ver a melhor forma de ajudar aos pobres. 1988. uma obra de refinada espiritualidade para empresários. "The Revitalization of Everything". The Spirit of Enterprise. . Nosso maior e único recurso é o milagre da criatividade humana numa relação de abertura ao divino". misturado a alusões a uni tipo de deus para cujo sadismo somente conhecemos paralelos no Rev. New York. não se pode esperar um elevado nível intelectual. distribuição dos ingressos e planejamento futurista. New York. É a teologia banal. De quem torce tão fortemente pela superação da racionalidade "soberba". . as idéias é que são a sua substância"). a melhor forma de compreender as verdades da igualdade diante de Deus que só podem derivar-se da liberdade e diversidade na terra. Malthus. Wealth and Poverty. dos que anseiam por metas sociais definidas. GILDER. De fato.) é necessário ter fé. ."Para superá-las (a crise de recursos. de capítulos-chaves em Estudios Públicos (Santiago de Chile). em primeiro lugar. n. o que lamentavelmente não lhes diminui a penetração. 24/1986: "Acerca de la riqueza y la pobreza". apartar-se do acaso e da sorte mediante um cerco de administração racional dos recursos. março-abril/1988. George Gilder lançotí " O Espírito de Empresa" (1984). 34 34. 1986.. Essa fé nos levará a abandonar.. Microcosm. Basic Books. n. Depois do seu "Riqueza e Pobreza" (1981). na genialidade dos homens livres e temerosos de Deus. a idéia de que a raça humana pode independizar-se. in: Harvard Business Review. . 28/1987: " L a economia de la f e " (são daí nossas citações). e está por lançar "Microcosmo" (1988). New York. Basic Books. recuperar a confiança na Providência e na sorte. há um século e meio atrás. R. a ameaça nuclear. Ver a trad. sobre como os EUA deveriam retomar a liderança na indústria eletrônica ("os circuitos semicondutores estão escritos na areia. os livros de Gilder são de uma trivialidade espantosa. 1981. Sua "visão econômica" da situação dos pobres e dos países subdesenvolvidos é de um desprezo chocante. 49-61. Não cabe dúvida de que esse tipo de teologização descarada de um capitalismo sem freios conta com muitos adeptos e inúmeras formas de divulgação. Simon and Schuster. ao estilo "Deus investe em ti".

em 1987. expressão da qual se considera o genitor. por assim dizê-lo. a sua » . Adversário ferrenho da Teologia da Libertação. . segundo ele. o novo nome do self-interest dos clássicos. No lançamento de mais um agressivo libelo contra a teologia latino-americana. na qual se enfatiza a teologia da economia por se encontrarem amarradas nela todos os elementos-chave que engendram todas as demais "estruturas mediadoras".Michael Novak propõe. nesta linha. ainda existe capitalismo de menos. que julga ser o lugar do encontro definitivo entre cristianismo e capitalismo. O caráter democrático do "capitalismo democrático" aparece com uma vinculação total com a suposta democraticidade radical da economia. A institucionalidade global — política. no Brasil) o felicitava por essa revelação da profunda ignorância econômica dos teólogos da Libertação. O conceito de economia. hauridas em outros adversários dela. Além do seu incontido desprezo pela teologia latino-americana. Queixa-se Novak de que muitos enxergam capitalismo onde não deveriam. ele a considera obsessionada pelo primado do político e totalmente carente de uma reflexão séria sobre a economia. há mais de uma década. Cria. revela total ignorância do que esta vem produzindo. em termos teológicos. economia e cultura — é considerada como objeto da sua proposta teológica. Kirkpatrick (segundo telex distribuído pela USIS. se inscreve na sua visão conjunta da "unidade trinitária" do que ele denomina "capitalismo democrático". Também Novak desencadeia toda a sua teologia a partir da teologização inicial da criatividade competitiva. Por exemplo. em M. Considera-se inovador neste terreno. Teologiza. na América Latina. a respeito do interesse próprio. com insistência. um conceito surpreendentemente ousado. porém. Jeane J. uma explícita teologia da economia. O escasso conhecimento que M. e essa é uma das causas que impede o florescimento da democracia nq terreno político. Novak tem da Teologia da Libertação fica patente quando documenta suas limitadas informações geralmente em fontes indiretas. Novak.

Todas essas extrapolações exóticas. de que existe o perigo de ser tomado como sacralizador direto do sistema capitalista. em certos momentos. transformando a criatividade competitiva em virtude teologal: ela é o único caminho viável para o amor ao próximo. onde a humanidade aparece como incapaz de introjetar o "amor verdadeiro" em suas instituições. teologia do comércio e da indústria. A dura luta de pessoas capazes e impulsadas pela coragem criativa. sob o acicate da relação competitiva. a essência espiritual das grandes corporações estava preludiada nos conventos medievais dos beneditinos). Cremos. no entanto. Novak se dá conta. que uma crítica séria da aberrante e descarada teologização das instituições norteamericanas. excitando-se a criatividade e o respeito de parte a parte. adquirem uma certa lógica quando não se desfaz o nó central: a concorrência do mercado competitivo como a melhor forma da caridade cristã. com muita ênfase. já que tudo transcorre "sob os desígnios de Deus". Julgamos que. Não há dúvida de que ele realmente realiza esta sacralização. porque sabe valorizar a capacidade do outro de não se deixar esmagar. por exemplo. conduz às mais ricas manifestações do amor fraterno. que estendem um manto teológico sobre praticamente todas as formas institucionais do capitalismo. Novak. É claro que existem muitas acrobacias adicionais — teologia da corporação (isto é. sem tomar em conta esta teologização do próprio cerne da economia burguesa. a sua lírica visão "comunitária" de cada uma das instituições do capitalismo (segundo ele. as demais elucubrações teologizantes de Novak se debilitam muito. Mas defende-se desta objeção introduzindo. etc. a criatividade competitiva é o único caminho realista para a fraternidade. nos abundantes escritos de M. uma peculiar teologia do pecado. tem igualmente sua amarração fundamental nessa teologização básica da criatividade competitiva. não deveria ater-se demasiado a certas debilidades adicionais como. Embora a teologia do pecado ori- .substância. Portanto. A sua invocação freqüente da Divina Providência. da grande empresa transnacional). — com longos tratamentos específicos.

então. A diferença mais profunda. a discrepância? Novak não está sozinho èm suas ponderações acerca do caráter1 imperfeito de qualquer instituição humana. mas que inspira projetos que incluem. em Novak. em conseqüência do pecado. é freqüentemente chamada a "restabelecer a liberdade de mercado". por uma fonte de critérios ligados à afirmação da vida humana real e concreta. O horizonte utópico aponta para uma radicalidade de valores que jamais cabe completamente em nenhum projeto histórico. constituídos acima dos indivíduos. É uma das razões por que nos opomos a qualquer sacralização de instituições humanas. então. o poder de uns contra os outros. seja carregadamente agostiniana e possa ser questionada como tal. a sacralização de um "princípio que impede e proíbe planejar aspectos sociais da história humana? Porque esta é uma das formas pelas quais se busca "naturalizar" e legitimar. Onde está.ginal. teológicamente. Sabemos que esse tipo de capitalismo não existe em estado puro. não há por que negar-se a acompanhálo na sua visão do caráter limitante. Ao contrário. em suas metas factíveis. provavelmente reside no fato de que o capitalismo. sabemos que a intervenção de poderes. Estamos no cerne do problema da relação entre utopia e projeto histórico. princípios de moralidade coletiva. por exemplo. . entre uma perspectiva radicalmente capitalista e outras possíveis. pelo menos parcialmente. ao expor os homens à luta pela vida sem o socorro de uma moralidade coletiva. em relação à perfeição do amor. regendo-se. à margem e contra metas sociais coletivamente assumidas. por um horizonte utópico que inspire valores praticáveis de moralidade coletiva. A diferença começa a delinear-se quando se concebe uma total impossibilidade de criar instituições orientadas. no que toca à produção e distribuição dos bens necessários para a vida. de qualquer institucionalidade humana. Nisso estamos todos de acordo. Por que. Este aspecto é claramente sublinhado por teólogos da Libertação. o que permite o estabelecimento de prioridades sociais a serem cumpridas por meio de formas institucionais. cai fatalmente na sacralização da iniciativa privada.

Falta num duplo sentido. Mais ao fundo. que aparecem inocentemente transformados em "criatividade competitiva". Novak. o Pecado Original (para que não ¡se caia em utopias anticapitalistas). Preferimos uma abordagem mais interpretativa. a Competição (que vira emulação criativa. ademais da volta constante à Providência Divina. claro está. o autor indicado. a Separação dos Reinos (porque. Não convém esquecer que M. não satisfeito com tal enfoque. Novak dirige a seção teológica do Instituto das Empresas Americanas. Cárter e Reagan. geradora da melhor fraternidade possível. os que mais aprecia abordar são: a Providência Divina (tema que atravessa praticamente toda a sua teologia da economia). fica eclipsado o poder de oprimir inerente à concorrência e ao entrechoque dos interesses privados. integra — por nomeação apro- . ainda não chegamos à perfeição). nos fala da "riqueza espiritual das nações". Quanto a temas teológicos específicos. Novak. as "instituições mediadoras" têm sua materialidade). uma incrível "naturalização" dos processos históricos). Desistimos. dada a abundante e repetitiva bibliografia de > M. a Criação (que lhe enseja. O poder exercido nas instituições mais amplas do "capitalismo democrático" fica eclipsado mediante o véu teológico que se estende sobre cada uma delas para despolitizá-las e conferir-lhes plausibilidade humanizadora. porém.Em Novak falta completamente uma teoria do poder. Mas para quem aprecia florilégios de formulações teológicas das mais exóticas. Adam Smith escreveu sobre "a riqueza das nações". a Encarnação (afinal. a Trindade (com evidentes reflexos na "unidade trinitária" do sistema do "capitalismo democrático"). engendrando a fraternidade na melhor das suas formas). de jogar com citações fragmentárias. porque nele encontramos um duplo ocultamente do poder. sem dúvida. foi assessor de Ford. Ele efetivamente se empenha por revelar-nos a "espiritualidade" do capitalismo. a Caridade (porque há inegavelmente pessoas incapazes e até vítimas). é um dos fundadores do Instituto para a Religião e a Democracia. este é.

New York. Será a liberdade? Rio de Janeiro. Democracy and Mediating Structures. Alguns de seus livros. liderou o grupo de leigos católicos que editaram um opúsculo agressivo contra a Carta Pastoral sobre assuntos econômicos. J. A Theological Inquiry (1980). Questões acerca da Teologia da Libertação). São . A importante contribuição de Arend Th. Corporation (1981). porém. com o subtítulo. Estudios Públicos (Santiago do Chile) não lhe poupa elogios ou nega espaço. ajudou a difundir suas idéias.. 1985 (orig. entendida como desmascaramento da religião burguesa amarrada ao caráter teológico do Capital. NOVAK. Capitalism and Socialism. van Leeuwen culmina no seu magnum opus: A noite do capital. A USIS. etc. que postula uma "teologia da atividade econômica" ou. co-orienta a revista This World (com freqüentes artigos sòbre teologia e economia) e a revista Catholicism in Crisis. Francisco.vada pelo Senado —. A Theological Inquiry (1981). Mas não convém silenciar os antecedentes de uma longa trajetória. uma "teologia econômica". 1984. Veremos que 35.35 9 Acabamos de ver um exemplo de proposta explícita de uma teologia da economia. como autor único ou editor/co-autor: The American Vision. foram amplamente difundidos entre empresários na América Latina. Sua assessoria "teológica" ao AEI se reflete em parte nos livros editados pelo AEI. Freedom with Justice. sendo a "soberba" o pecado mais comum dos pobres. 1982). por exemplo no Brasil. 1988 (oiig. livros de F. desta vez. traduzidos para o português e o espanhol. A Theological Inquiry (1979). Rio de Janeiro.a direção da International Broadcasters (organização que administra as rádios de propaganda norteamericana no mundo). 1986. Através da selva da economia às fontes da religião burguesa (1984). não se esqueça o que . 5» ed. cf. em formulação mais sintética. Hinkelammert). Já que a "humildade" é uma yirtude-çhave nos servidores do Capital (cf. 1982). que não passa de uma trivial teologização do sistema de mercado e do capitalismo na sua fase atual.Novak diz que deve a São João da Cruz. The Denigration of Capitalism (1979). An Essay on the Future of Demociatic Capitalism (1978. O espírito do capitalismo democrático. 1970 Catholic Social Thoüght and Liberal Institutions. Nórdica. Nórdica. da Conferencia Católica de Bispos dos EUA. seu livro: The Experience of Nothingness. já que eles contêm lições importantes. Toward a Theology of the. também ela insistentemente explícita. Passemos agora a um breve exame de outra proposta. Michael. Harper and Row. Harper and Row. The Corporation.

seu livro Desenvolvimento mediante revolução. através de uma apropriação inédita de uma substância religiosa. desde as suas origens. na qual se apóia o funcionamento do capitálismo. van Leeuwen. para desvendar-nos. onde busca discernir. as urgências e as resistências de um mundo em revolução. mas que é a fonte oculta da qual emanam as legitimações dessa "religião da vida cotidiana" (Marx). Viajando com freqüência à Inglaterra. — Terceira fase: de 1970 em diante. que já não se percebe à primeira vista. as raízes teológicas do paradigma econômico.este autor não se deu por satisfeito enquanto não penetrava no âmago do pensamento econômico dos clássicos. a opção por vasculhar as entranhas do pensamento econômico. Sente-se. A trajetória de Arend Th. seu livro O cristianismo e a história do mundo. Como tantos outros. a falta de distinções necessárias quanto às promessas vislumbráveis nos avanços científico-tecnológicos e as prioridades sociais de uma perspectiva revolucionária. então. para trazer à luz a inversão da realidade na economia. que teve apreciável repercussão e diversas traduções. Via. cuja substância se mantém intacta até hoje. Descobre na economia o caudal submerso dessa teologização. na "secularidade" o traço mais característico do mundo moderno e buscava demonstrar a coerência desse fenômeno com as raízes bíblicas do cristianismo. O desafio maior consiste em mostrar que a modernidade burguesa está totalmente teologizada. — Segunda fase: 1968. como teólogo que começa a acostumar-se às lentes do economista. com base em dados que ele mesmo nos fornece na "entrevista do autor a si mesmo" (no livro citado) e algumas outras fontes. o autor levou alguns anos até chegar a distinguir o que havia de consistente e o que era bastante ingênuo nesse enfoque. às vezes ainda. pode ser resumida nas seguintes etapas: — Primeita fase: 1964. O autor começa a dar-se conta de que existe uma falácia em todos os intentos de teologizar ingenuamente aspectos do mundo "secularizado" ou da "revolução". nas .

etc. de fato haveria que acrescentar um novo capítulo à narrativa de Pentecostes: o poder criador da burguesia pretende impor-nos uma nova unilíngua. a universalidade do sistema monetário. "Deus seja louvado" do cruzado brasileiro. Isto lhe permite "ser política" de maneira inédita. independente da política. van Leeuwen começa a trabalhar. e todas as pretendidas universalidades com que nos defrontamos nos assim chamados imperativos da racionalidade . para começar. contra a Teologia da Libertação. O autor valoriza as "teologías políticas" em muitos aspectos. que haviam despontado no panorama teológico. todo o poder: a ciência econômica afirma haver chegado. em aspectos fundamentais. supostamente obsessionada pelo primado do político e pouco atenta à economia. porque esta crítica é lançada também. do próprio dinheiro como linguagem comum (com um deus ecumênico invocado nas legendas: "Em Deus confiamos" do dólar. "Deus esteja conosco" do florim. Moltmann. Surge nele a convicção de que "a teologia somente chegará a colocar seus pés sobre a terra se estiver disposta a começar a engatinhar através da análise crítica que Marx fez da economia".). programáticamente. etc. embora com argumentos completamente diferentes (M. a uma maturidade autônoma e desfralda uma enganosa "racionalidade própria". Urge. mas lhes objeta que sua aproximação às ciências sociais desconsidera um obstáculo real que lhes dificulta penetrar até as raízes onde se aloja.). em seu projeto de uma "teologia econômica". enquanto ciência. um idioma ecumênico por cima de todas as diferenças. um código no qual todos se entendam. pois.suas Gifford Lectures (1970-72). É a universalidade. Talvez seja importante resgatar um aspecto forte da crítica de van Leeuwen às deficiência das "teologías políticas" (Metz. mostrando que ela foi construída através de uma operação teológica ocultada. desvendar as ambigüidades dessa misteriosa "autonomia". Novak). Que estamos aceitando se não destrinchamos os pressupostos ocultados na pretendida universalidade e autonomia da "racionalidade econômica"? Uma vez criada e aceita esta esfera autônoma.

Para além dos detalhes. um fato inédito no mundo acadêmico. teologia ou religião chegou a tanto. sem chegar a expressá-lo nesta forma — foi o próprio monoteísmo. no fundo o que mudou — parece insinuar às vezes. Convidado a Glasgow. Acha necessário a análise minuciosa de cada detalhe. Surge. A partir dessa data. Van Leeuwen ainda perambula no átrio. isto é. ingl. Nenhuma filosofía. em forma . nesse contexto. É isso que fica insinuado na Crítica do céu (1971) e na Crítica da terra (1972. van Leeuwen se espanta com a incrível cegueira dos peritos em Adam Smith: nenhum deles colocava críticas de fundo em relação à estrutura teológica subjacente à obra clássica de Adam Smith. para o segundo centenário da publicação de A riqueza das Nações de Adam Smith. o fundo teológico de A riqueza das nações emerge não só a partir do que consta. os seis volumes da Glasgow Edition (1975s). cultura. o autor procura refundamentar e ampliar a crítica a A. Em síntese. No mundo moderno começaram a funcionar de fato. impera uma globalidade que precisa ser questionada. que serviria de base para tantos contrabandos teológicos posteriores nas teorias econômicas. Còm a ótica de Marx. em 1976. Por esses anos consolida-se uma novidade que é necessário registrar: van Leeuwen cria. o ecumenismo da "ciência" e o ecumenismo do mercado mundial.econômica. Apesar das aparências flutuantes dos muitos deuses. porque reina um deus uno que se tornou endógeno no próprio Capital. na Universidade de Nimega. a cátedra de "teologia econômica". O resultado desse trabalho de fôlego se projetou na sua obra culminante de 1984. van Leeuwen dedica anos de pesquisa às matrizes teológicas nos clássicos da economia. Quem captou o caráter essencialmente religioso dos pressupostos dessa pretendida ecumenicidade da ciência econômica já não pode contentar-se com a análise de aspectos parciais. tomando como objeto de estudo toda a vasta obra de Adam Smith. 1974). Smith por ele iniciada. como poderes que se pretendem universais. especialmente em Adam Smith. mas já intui que agora urgem críticas globais. um ensaio sobre o fetichismo do dinheiro. arte.

que exige da parte de todos os que intervém na encenação das aparências econômicas uma relação radicalmente transcendental. O essencial da realidade econômica se tornou completamente invisível. . na circulação e no consumo. a esferas divinas. e sua vasta Correspondência — esclarecem e sublinham a presença dos esquemas teológicos em seu pensamento econômico. sem vir à luz nas teorias éconômicas. essa projeção do ócio parasita dos que odiavam o trabalho. aos escravos (lembremos que até o termo trabalho vem de tripalium. agora. Na "entrevista a si mesmo". A restante obra de Adam Smith •— Teoria dos sentimentos morais. desde a sua impotência. o deus otiosus greco-iomano. que permitem captar conotações e ênfases. A Mão Invisível utiliza as mãos de todos. Já não se trata de meras projeções que o homem faz. transformando-se fantasmagóricamente no único Sujeito ao qual tudo se adjudica na produção. as intervenções reais do poder efetivo de um "deus oculto". que se arroga o direito de mover tudo no âmbito de uma história concreta. Ensaios sobre temas filosóficos. no escuro. Agora a força de trabalho é mercadoria liberada e entregue ao jogo competitivo do mercado de trabalho. já não serve como referência. Van Leeuwen constata: "Nisso Feuerbach já não nos ajuda em nada". instrumento de tortura de três paus). invisível. fica ocultada. No Capital temos um deus sumamente ativo e expansivo. o autor se pergunta: qual a razão da imagem da "noite" no título do livro? Sua resposta: porque a "quintessência" do Capital. uma atitude devocional em relação à sua onipotência.pontos convergentes dos demais escritos.. existem. Também o deus motor immobilis. mas também a partir de todos os . cujo processo acumulativo se reveste de uma infinitude dinâmica. O Capital é o deus absconditus. nesse texto clássico. É somente porque opera numa região invisível — sua esfera sacralizada — que o Capital consegue integrar à sua essência oculta todos os fatores de produção. coisa imposta.denotativa. una e indivisível. Longe ficou. ou seja. Lições de jurisprudencia. lá atrás. Van Leeuwen procura demonstrar que Marx tinha perfeitamente razão ao caracterizar a Adam Smith como "o Lutero secular". aristotélico-tomista.

e sobretudo em suas expressões burguesas no protestantismo. seção IV) . o fetichismo do Capital é a mais adequada forma de religião.. porque é o deus dinâmico da a-scholé. na teologia burguesa: uma divindade adequada ao "culto do homem abstrato". o da redução da teologia à ética. eles continuam presentes. desmentindo os que supunham abolidos todos os deuses. livro I. É realmente o contrário dos deuses ociosos. etc." O outro mecanismo. transformado em trabalho abstrato. na esfera da sua "noite". vale a pena insistir nelas.É o God who acts. Nesse trabalho do Capital-fetiche (o termo provém do português "feitiço"/factível) todas as factibilidades são potencialmente ilimitadas. com seu culto do homem abstrato. nec-otium (negócio). não se epifaniza. com úm sentido preciso. 1. mas se mantém na sua noite ocultadora. terminologia teológica que surge. Van Leeuwen se pergunta por que a presença ativa desse novo deus não se manifesta. E descobre a simultaneidade de dois processos conjugados: o culto do homem abstrato e a inibição do discurso teológico. deísmo. ò trabalho concreto de todos. É conhecida a afirmação de Marx: " ( O capitalismo) encontra no cristianismo. na sua penumbrosa atividade. a mais adequada forma de religião" (Ò Capital. O problema central da economia burguesa se situa no nível da religião. Dé maneira que. Van Leeuwen comenta: "Podemos também inverter o texto: para o cristianismo moderno. E a teologia reaparece onde menos se esperava: na pura e profana teoria econômica.. mediante a redução da teologia a vagas generalidades éticas. negadòr dó ócio. endógenamente absorvidos no que parecia secular e profano. Por tratar-se de chaves interpretativas fundamentais. cap.. A mera ética — e essa ainda extrojetada da racionalidade econômica supostamente autônoma —èvita que o deus oculto -seja convocável à arena do ma- . serve para dissimular a idolatria. Este deus oculto incorpora.

a busca da transcendência no interior da história. especialmente para os que nos situamos no Terceiro Mundo. . dificultada a irrupção do novo e do diferente. Londres. como ruptura com os grilhões do já-dado. que possui também grande perspicácia teológica. Em termos dè fé cristã. Mas não cabe dúvida de que o leitor de Arend Th. SUN. porque é difícil transcender identidades que não se mostram. 839 p. entre outras razões. pelo seu detalhismo analítico excessivo para muitos leitores. 36 10 Na América Latina. De Nacht van het Kapitaal. isto é. Pensar assim seria cair num equívoco.nifesto. Arend Th.. van Leeuwen tem certa razão ao reclamar pela falta de pontes. é autor de 36. Fica. Hinkelammert. assim. o paradigma persistente dà ciência econômica deriva basicamente dessa origem. van Leeuwen desafia os teólogos a que rompam suas cumplicidades com o culto do homem abstrato e superem a ideologia do "meramente ético". seja obrigado a "dar a cara". o Deus-totalmente-Outro. Em suma. porque está sempre "à frente".. Como já vimos numa seção anterior. Door het oerwoud van de econotnie naar de bronnen van de burgerlifke religie. Pecunia non olet. Nimega. para que — desde um novo patamar: a teologia do econômico — saiam da sua impotência diante da religião do Capital. o economista Franz J. a obra de van Leeuwen merece muita atenção.. VAN LEEUWEN. é coisa tremendamente séria que fique dificultada. cuja realidade dramática não aparece diretamente na valiosíssima obra deste autor. a busca da transcendentalidade que irrompe como o Deus diferente. o fato de limitar-se praticamente à fase inaugural da ciência econômica (Adam Smith e sua obra fundante) pode deixar a impressão de que nada ficou dito sobre o capitalismo atual. 1972). Lamentavelmente ela se tornou pouco acessível. que não tem compromissos com o status quo. Critique of Heaven. Critique of Earth. 1971. 1974 (ambos em holandês. Contra deuses que não aparecem é muito difícil lutar. nessa forma. Londres. Além disso. 1984. 1973. Nimega. Nimega. porque. revelando a sua identidade de ídolo. como veremos.

Apesar da sua co-autoria neste livro (mas não neste trecho). tudo isso marca profundamente as publicações de Hinkelammert. a Teologia da Libertação é avaliada no seu fundamen- I S E D ET . Concentra-se. A economia realiza geralmente apenas a análise dos mecanismos institucionais do sistema. O autor se serve da teoria do fetichismo. Já nos seus escritos mais antigos. na maneira como o pensamento econômico burguês desloca e extrojeta a produção dá vida humana real e concreta do eixo articulador de seus critérios: O esvaziamento da corporeidade redunda numa lógica oposta à afirmação dessa vida. transparece a sua insatisfação com análises que se limitam às aparências externas das variáveis econômicas. da oposição entre uma teologia da vida e uma teologia da morte nas manifestações do pensamento cristão. o número crescente de reflexões sobre economia e teologia. a seguir. sobre a dialética do desenvolvimento desigual. assim. denso e exigente. ña fase mais recente da teologia latino-americana. Mais de vinte e cinco anos de América Latina. O livro As armas ideológicas da morte vai à busca do traço que une a religiosidade intrínseca da economia capitalista e as conivências ou discrepâncias dos cristãos em relação ao capitalismo. que é também uma lógica idolátrica. o estudo dos seus demais escritos é indispensável para um aprofundamento do assunto desde uma visão integradora de muitos aspectos. o convívio diuturno com a maioria dos mais destacados cientistas sociais e teólogos latino-americanos. Isto é insuficiente para compreendê-lo. uma lógica de morte. retraduzida e aplicada à fase atual do capitalismo.contribuições notáveis e inovadoras sobre o tema economia e teologia. Desnuda. tem muito a ver com valiosas provocações oriundas deste autor. a experiência do Chile. As formas de dominação não se esgotam nos seus aspectos institucionais. Neste livro. para isso. que só reconhece um ser humano abstrato. Como veremos na próxima seção. Trata. que recebem somente um tratamento tangencial neste livro. porque a dominação essencial reside no espírito que as anima. no cerne da economia. para penetrar no espírito religioso que o pervade. O capitalismo se apóia numa espiritualidade necrófila e antivida.

E por outro. capaz de pensar conjuntamente a importância do planejamento e a tolerância a manifestações de mercado. etc. trata-se da difícil calibragem entre as perspectivas radicais do horizonte da fé cristã (Reino de Deus. " O Deus mortal: Lúcifer e a Besta. da história concreta. de resto. Surge. de quem faz. Denunciam-se. Na "Crítica à Razão Utópica" Hinkelammert aborda as características que assumem os saltos transcendentais — que. no pensamento anarquista e na ortodoxia soviética de corte estalinista. O autor mostra como os pretensos antiutópicos congelam utopicamente a esperança mediante sacralizações de projetos históricos. novo céu e nova terra. a oportunidade para enfrentar-se ao espinhoso tema da relação entre os horizontes utópicos. assim. que o autor se confine à análise do fetichismo em Marx.to mais vigoroso: como uma teologia que se articula a partir da afirmação da vida humana real e concreta. sempre limitadas. e as limitações inerente a qualquer projeto histórico. ressurreição) e o compromisso. Quanto às formas do "pensamento cristão. A legitimação da dominação na tradição cristã" é outra amostra do fascínio de Hinkelammert pelo rastreio histórico das formas de perversão do ideário cristão. Friedman. Teológicamente. . uma releitura com aspectos inéditos. as utopias perversas dos antiutópicos.dos cristãos com as transformações. que pretendem anular as esperanças de transformaçãodo mundo. são jogos teológicos — no pensamento neoconservador (Peter Berger e outros). porém. o leitor se surpreende com a maneira como são trazidas à -luz as inversões dos valores cristãos no pensamento conservador. As raízes econômicas da idolatria são desvendadas ainda no politeísmo de novo cunho de Max Weber. detonantes da ação na transitoriedade do que é imperioso e possível. assentam-se as bases para um pensamento econômico no qual apareça uma nova racionalidade. no fetichismo feliz de Milton Friedman. Não se creia. no credo econômico da Comissão Trilateral e na mentalidade fetichista dos empresários.). no fundo. nos economistas neoliberais (Hayek. por um lado.

1978.) é que nós insistimos tanto ém falar em Deus". Não vamos restringir demasiado o conceito de teologia.. mas qualitativos. San José de Costa Rica. Já é um comentário muito comum entre os teólogos latino-americanos: "O que lhes preocupa (aos dominadores. DEI/ÉDUCA. sempre atento ao tema economia e teologia. 1988.1978). . I. São Paulo. 1986 (orig. Ed. a maneira como os teólogos falam da economia mexe profundamente com a teologia (e com a economia). explicitamente. DEI. TRINIDAD. Ed. Dialéctica del desarrollo desigual San José de Costa Rica. "El dios mortal: Lú'cifer y la Bestia.. que devemos chamar 37. in: TAMEZ. respectivamente). DEI. Em suma. EDUCA. "fala sobre Deus" (god-talk). Paulinas. 2» ed. orig.37 b) Abordagens a partir da teologia 1 O propósito desta seção é: tornar plausível ao leitor a suspeita de que as formas nas quais a teologia manifesta um interesse cada vez maior pela economia têm implicações importantes. Crítica à razão utópica. por causa das suas implicações quanto à qualificação do discurso teológico (e do discurso econômico.. 199-314 : . cf. 1981. Sigúeme. Buenos Aires. Esta comprovação aparecerá como "subproduto" natural do enfoque assumido. 1983 (orig. -embora tenhamos grande interesse em que o conceito se mantenha sempre muito próximo a isso. ampliada. tanto para a própria teologia como para a economia. DEI. Saúl (eds. DEI. Sán José de Costa Rica. 1977. não é demonstrar qué o interesse dos teólogos pela economia está em aumento.). com suas obras posteriores sobre Democracia e totalitarismo. 1984). Ideología del Sometimiento. La legitimación de la dominación en 1 á tradición cristiana". yls armas ideológicas da morte. mas tampouco nos interessa deixá-lo demasiado genérico. São Paulo. Não podemos apertar o conceito de tal modo que o limitemos ao que é. 1977. HINKELAMMERT. Eranz J.Hinkelammert prossegue em suas contribuições.. . Nosso objetivo direto. 2 vols. Democracia y totalitarismo. La deuda externa de América Latina. É óbvio.. vol. O debate está "esquentando" não apenas em termos quantitativos. 1972). A dívida externa da América Latina e numerosos artigos e conferências. Ed. 1983 (reedição. Elsa y. Capitalismo: violencia y antivida. DEI. portanto. no entanto. Paulinas. El automatismo de la deuda. 1987.

em última instância.também teologia — no sentido cristão do conceito —. o manejo desse tipo de valorações apodíticas na forma de "perversa infinitude" ou fantasmagoría teológica. Este quase-aforismo nos serve de porta de entrada para detectar a maneira mais comum na qual a Teologia da Li- . por isso. no sentido pejorativo do termo (fetichismo). porém. Aqui.o discurso que se refere aos critérios e condições radicais do amor fraternal entre os homens. jogos pretensamente explicativos que aludem a um dever-ser definitivo. já que aí está implicada a sua relação com Deus segundo a visão cristã. conservador busca exorcizar demônios. enquanto o da Libertação busca exorcizar falsos deuses. ao conceito de teologia a seguinte precisão mínima: primeiro. Conferimos. 2 Um dito um tanto malicioso. que se escuta às vezes na América Latina. como os teólogos da Libertação. está preocupado com o ateísmo. Sobretudo para quem. está mais preocupado com a idolatria". segundo. o jeito de falar sobre as coisas que se julgam convenientes entre os homens sempre tem conseqüências para o discurso possível sobre Deus. queremos manter uma distinção. teo-logicarnente neutro. entre o que denominamos teologia e considerações vagamente éticas. O conservador está aferrado a um tipo de deus e. O teólogo da Libertação. para nosso objetivo. pois. nenhum discurso sobre a história humana é. a valorações últimas do que sucede na história. por isso mesmo e também por razões políticas e econômicas. mesmo quando esta teo-logia não aparece explicitamente. afirma o seguinte: "Uma diferença básica entre um teólogo conservador e um teólogo da Libertação consiste no fato de que o teólogo. Nessa perspectiva cristã. a alusão direta à esfera divina ou humano-divina. terceiro. insistem em compreender a relação com Deus primordialmente como experiência da transcendência no interior da história. isto é.

. Esta é. na Bíblia. mas não sempre muito extensas. Essas referências são abundantíssimas.) segundo as opções históricas daqueles que emitem essas "falas". de acordo com as fontes bíblicas. o Deus da Vida. a rejeição frontal de um dogma dos neoclássicos. portanto. Geralmente tem algo a ver com o que. por Jesus. na Teologia da Libertação. Mesmo para quem se irritasse com certas imprecisões desse tipo de linguagem (no fundo. Como primeiro elemento temos. manifestação de Deus como libertador. a ação da Igreja. Elas vão diretamente a um núcleo central de critérios: a defesa da vida humana real e concreta. Para a Teologia da Libertação. a contextuação teológica mais usual na qual nos defrontamos. Grande número de alusões a este núcleo básico de critérios se reveste imediatamente de expressões explícitas sobre Deus e a relação dos homens com Deus (Deus dos pobres. Às formas de expressar isto são muitas e variadas. — fica patente: fala-se de seres humanos que têm necessidades reais. isto é. com referências à economia. são discernidas (pelos profetas. às diferentes posições dos homens em relação a si mesmos e seus semelhantes enquanto afetados por necessidades e problemas concretos na história.bertação aborda problemas da economia. Por isso. Deus da Vida. imediatamente. os pobres como preferidos do Reino. A eles se contrapõe o Deus que liberta. corresponde. Os deuses que se nomeiam para oprimir chamamse ídolos. E acrescenta-se. as "falas sobre Deus". e muitas outras variantes) . nem muito analíticas. a "fala sobre Deus". em determinados círculos. e não simplesmente preferências no mercado. passou a ser chamado de "as raízes econômicas da idolatria". geralmente de forte cunho pastoral). etc. etc. sempre é historicamente determinada. a nosso modo de ver. mas coincidentes no essencial. em suas variações. que não todas essas "falas sobre Deus" merecem igual aceitação. ao estilo da ficção do homo oeconomicus dos economistas neoclássicos. um primeiro elemento que tem a ver diretamente com a economia — mesmo quando essas "falas" atingem ao mesmo tempo a política.

É importante estabelecer isto para que não se procurem as coisas nó lugar errado. no sentido de que há mentiras econômicas é teorias econômicas equivocadas e enganadoras. quando se trata de teorias econômicas. as suas teologías sub-reptícias devem ser buscadas onde falam da economia. mesmo quando estas entram em conluio com mentiras políticas. apesar de suas variantes formais. com mais detalhes. Os teólogos da Libertação têm lutado muito contra o ardil pouco honesto dos economistas. Assim como. pouco acima. Os teólogos da Libertação certamente não tendem a inocentar os políticos. ou seja: as formas como a teologia se expressa acerca da economia? Vamos por passos. de cunho teológico. que se expressa de diversas mâneiras. que sempre pretendem fazer-nos aceitar que as suas teorias estão corretas. se fazem análises detalhadas dos pressupostos de teoria econômica que fundamentam tais modelos. é provável . É certo que muitos teólogos da Libertação não tiveram ainda a oportunidade ou a preocupação de estudar. supostamente comuns aos teólogos da Libertação. a respeito dá economia? Não íamos ver algo mais elaborado. porém. e não primordialmente em suas mais escassas incursões explícitas no terreno da teologia. freqüentíssima na Teologia da Libertação. constata-se e denunciase o fato de que eles não funcionam em favor da vida das maiorias. Isto. Primeiro: insinuamos. de que os modelos econômicos implantados em nossos países. obedecem a uma lógica contrária à satisfação das necessidades elementares da maioria de nossas populações. Talvez algum leitor se esteja perguntando: a que vem essa alusão tão genérica a dois elementos. Trata-se da afirmação. de forma análoga. como estão estruturadas teóricamente essas mentiras econômicas. não invalida a sua certeza de que se trata efetivamente de mentiras econômicas. mas é muito difícil encontrar afirmações rotundas de que tudo é culpa dos maus políticos. preponderantemente. É que existe a convicção.Um segundo elemento acompanha imediatamente o primeito. que a contextuação ou o entrecho conceptual no interior do qual os teólogos latinoamericanos se expressam acerca da economia é. mas que lamentavelmente elas não são devidamente aplicadas. Mesmo quando nao.

Os dois exemplos dados deixam isto muito claro. Em outras palavras. (3) o caráter relativamente secundário. adoção de fragmentos conceituais emprestados dos teóricos da "dependência". porque os sujeitos da economia são seres humanos. começa a entender diversas coisas aparentemente estranhas na Teologia da Libertação como: (1) a razão do lugar central que ocupam nela certos temas como o Deus dos pobres. forças da vida contra forças da morte. das teorias explicativas especificamente sócio-econômicas (recurso a elementos da análise marxista. porque não estabelecem suas prioridades a partir da satisfação: das necessidades reais da vida humana das maiorias empobrecidas. como a maneira mais constante de os teólogos da Libertação falarem da economia. exercendo a livre "escolha racional" de suas preferências subjetivas. a dimensão social do pecado. de fato estão falando de temas teológicos. estruturas de pecado. os teólogos incidem na economia quando falam. do "Deus dos pobres". operam com critérios inaceitáveis. com freqüência.. aos pobres (plano factual) e com base em suas reflexões bíblicoteológicas (plano doutrinário). no contexto global da Teologia da Libertação.). com as teorias econômicas e com os modelos econômicos imperantes. a problemas determinados. com simples alusões quase tangenciais à economia. embora também se aluda. Terceiro: quem sabe avaliar a importância dessa forma básica. sobre as análises tópicas a respeito de detalhes específicos do funcionamento da economia. e as teorias nas quais se apoiam.qüè os teólogos digam as coisas mais importantes sobre a economia quando. e não simples atores no "livre mercado". utilização casual de conceitos elaborados pela CEPAL. os teólogos insistem que: (1) é inaceitável uma visão da economia que separa as variáveis econômicas das variáveis sociais. (2) o predomínio dessa forma radical de falar da economia. e que: (2) os modelos econômicos implantados.. Segundo: é preciso entender que é neste entrecho teológico que aparecem as primeiras confrontações. . etc. possivelmente as mais fundamentais. por exemplo. a idolatria. Com base em suas experiências junto. com necessidades reais não satisfeitas. teologia da vida contra teologia necrófila. etc.

nas referencias dos teólogos da Libertação à economia. enquanto outros os utilizam. como recurso adicional e emergencial para reforçar argumentos que se podiam apoiar em estatísticas da mais distinta proveniência. parece que ele foi captado imediata e corretamente pelos adversários da Teologia da Libertação (os militares. como veremos. que isto se fazia num entrecho de reflexões teológicas. O que mais irritou foi. a um diálogo cada vez mais intenso com economistas e cientistas sociais em geral. já que são tantas e facilmente encontráveis).Se a forma descrita até aqui resulta ser de fato a mais freqüente e constante. além do fato de que essas teorias. sobretudo na fase inicial. Quanto ao seu aspecto forte. mas sempre de maneira auxiliar e crítica). fica patente que se trata de uma forma predominantemente teológica. Alegações de "puro marxismo" (quando muitos teólogos da Libertação fazem escasso uso de conceitos marxistas. Daí os inumeráveis subterfúgios tendentes a esvaziar a forma teológica dessa incursão na economia. frágeis por sua menor ênfase em certos aspectos endógenos das classes dominantes de cada país. elas se foram manifestando no próprio embate confrontativo com os adversários. os defensores do status quo em geral). A acusação bastante freqüente de um simplismo distributivista — acusação feita. aliás. Ficavam desguarnecidas certos flancos que tinham a ver sobretudo com a escassa penetração em teorias econômicas questionadas no seu próprio cerne. mas pouco manejadas ou conhecidas pelos teólogos. aos documentos da hierarquia católica em geral — é um assunto a ser . Foi" isso que levou posteriormente. ao coração dos próprios temas teológicos •(razão pela qual se omitem aqui as referências bibliográficas. Percebe-se logo que essa forma de referir-se à economia tem muita força. Para documentá-la o leitor é remetido. Acusações de adoção ingênua das teorias da "dependência" (quando elas serviram apenas. como vimos. afirmavam coisas pertinentes quanto ao sistema internacional). provavelmente. Todos perceberam que algo muito central nas formas de dominação econômica estava sendo questionado. Quanto às debilidades. mas tem também uma série de debilidades.

a questão central tem a ver diretamente com a substância teologal (de relação com Deus) das ações humanas na história. Já não é suficiente detonar a crítica às opressões a partir dos "espaços religiosos" extrojetados da história real e marginalizados em relação aos espaços sócio-econômicos. O ponto fulcral dessa Libertação da Teologia se refere à experiência da transcendência no interior da 'história. foi delimitando e circunscrevendo os "espaços" da experiência religiosa. ostenta outro flanco para fáceis ataques. com maior freqüência. alude à economia — sem revisar profundamente as versões tradicionais da teologia cristã em pontos muito centrais. quando surge como algo aparentemente separável do primado do político na economia. Portanto. onde se localiza o lugar econômico e social da fé cristã. O primado do político. nas formas insti- . não só por causa da ficção que isto representaria. 3 O teólogo uruguaio Juan Luis Segundo sempre alertou para as debilidades da teologia tradicional para questionar as aparentes coerências teóricas em que se apóiam os sistemas de opressão. num esforço exigente de refontização bíblica. obsessionadas pelo mito do crescimento como sinônimo de desenvolvimento. conivente com os mecanismos institucionalizados nela. Não se pode avançar muito no questionamento da dominação econômica — é um dos autores que. A teologia tradicional. não é possível uma Teologia da Libertação sem uma Libertação da Teologia. num distanciamento crescente dos processos sóciohistóricos.enfrentado seriamente quando abordarnos. A razão mais forte é porque. Criticar a sociedade desde a Igreja e desde a teologia se tornou tarefa ambígua e insuficiente. a incapacidade das teorías econômicas para lidarem com o problema da distribuição. tantas vezes. numa adaptação lenta e multissecular às exigências do individualismo burguês. Para ele. já que a Igreja está integrada na sociedade e é. mais adiante.

tomo I : "Fé e ideologia". na medida em que trabalhava os temas centrais da Teologia da Libertação com uma radicalidade de difícil transmissão e no seu estilo peculiar de persistente desconfiança dos populismos de todo tipo. Cabe refazer. A voz de Juan Luis Segundo pode ter parecido um tanto solitária. se consolidaram apropriações do religioso que funcionam sem a menor possibilidade de controle por parte da Igreja. SEGUNDO. 1978. derivadas das urgências políticas da . Lohlé. pouco a pouco. e especialmente o. As Igrejas se desgastarão num profetismo tático e conjuntural. portanto. De la sociedad a la teologia. . Muitas das suas mais antigas preocupações teológicas — entre elas a questão da idolatria — foram aparecendo. Loyola.38 Julgamos conveniente chamar a atenção para os equívocos de uma leitura bastante distorcida da Teologia da Libertação: a que pretende reduzi-la a uma "teologia política" com características peculiares.38. da racionalidade própria das ciências e dos projetos históricos. na restante teologia latino-americana. de cunho impensadamente oportunista. o caminho da sociedade à teologia para que possa surgir uma teologia desafiadora para a sociedade. que já não é perceptível por causa do surgimento. À medida que essa teo : logia começou a debruçar-se mais seriamente sobre o binômio economia e teologia. sua obra: O homem de hoje diante de Jesus de Nazaré São Paulo. se não houver uma revisão cabal de sua teologia. Libertação da Teologia. Buenos Aires.tucionais da sociedade. na modernidade. incluídos os pastorais. Quem fica aprisionado nessas versões teológicas não consegue ir além das adaptações. sem uma visão estratégica de aporte à transformação profunda das estruturas sociais. muitas contribuições de Juan Luis Segundo se revelam fecundas e até antecipatórias. Ed Paulinas. prevalentemente denunciatorio. Ed. escapa completamente às versões tradicionais da teologia. 1985 (com freqüentes incursões na economia). 1970. São Paulo. da. A visceralidade religiosa de muitas teorias e instituições da sociedade. Juan Luis.

Por um lado. Segundo esta interpretação. Como vimos. Mas a distorção aparece igualmente em muitas teses. Novak.""'•„' ' Na sua teologia da Graça. que se opõem a uma historicidade conscientemente assumida pelo sujeito humano. esta é uma acusação agudizada por M. na inabarcável bibliografia sobre esta vertente teológica. luta pela preservação do '•'comunitário" e da dialogalidade fraternal como princípio inspirador de novas maneiras de praticar a política) e o aspecto econômico (a recusa de um conceito abstrato e etéreo de vida que não se articula a partir dos meios para viver. na mera posse de bens materiais. Por outro lado. em nossa opinião. a produção da Ivida real e concreta como fonte de critérios pára poder falar dè acesso ao "dom". no panorama da teologia latino-americana. que se torna impossível reduzi-las a aspectos marginais e secundários. a interpelação da graça como desafio que nos advém "de fora". de forma bastante generalizada. . nesta historicidade social do acesso aos "bens da salvação" o aspecto político (participação. nd final da dédada de 70.América Latina. algumas percepções de graiide vigor — como as elencadas acima e outras correlatas — estão a tal ponto presentes na Teologia da Libertação. :¡ Deve ser admitido. que se desvincula de automatismos rituais religiosos e é inserida na exigência de condições sócio-históricas. desde seu início. por exemplo. dissertações e. -. ~ . o primado do político teria concentrado toda a atenção dos teólogos latinoamericanos sobre o binomio "fé e política". os teólogos latino-americanos .deixando num segundo plano a preocupação com a economia. porém.•. o reducionismo que trivializa e banaliza a experiência humana no mero "ter". do interior de circunstâncias "históricas gratificantes porque propícias à vida. se esforçam por rechaçar dois tipos de reducionismo. esvaziando-os do seu significado relacionai de bens destinados a possibilitar o convívio social humani- . das referências econômicas presentes em novas abordagens da teologia da Graça. as dificuldades dé acesso a "salvação" ligadas a obstáculos históricos que esmagam :a vida) são dois aspectos inseparáveis. que um tratamento mais elaborado sobre economia e teologia somente desponta. Tal é o caso.

Sobre o "reducionismo espiritualista". não se explicaria se uma retomada de insistências no econômico não fosse um elemento importante na sua reelaboração das categorias teológicas. São Paulo. etc. Uma advertência à Igreja. "Economic Systems and Economic Ethics". Ed. Univ. Fundamentos. 203-264. 1960 Teologia da Libertação supera os reducionismos pode ser vista abundante literatura sobre a Graça. junho/1986. Joseph. Hugo. provavelmente. O acento meramente político (posto que é evidente que também se trata de uma versão fortemente política da teologia) não parece suficiente para esse tipo de falsas acusações de reducionismo "materialista". A acusação tão freqüente de reducionismo imanentista. A maneira como a especialmente ña 40. o reducionismo "espiritualista". cf. 11-21. surge como condição e interpelação — acesso possível e chamado — para a salvação espiritual dos indivíduos. em aprofundamentos latino-americanos da Penitência e da Eucaristia. contra a Teologia da Libertação. precisam esvaziá-lo da sua historicidade concreta. Teologia da Libertação. o reducionismo mais perigoso. Assim se pode manter confortavelmente um conceito de pecado totalmente individualizado. que é a característica peculiar das teologías que acreditam que. 1967. Por outro lado. SEGUNDO. "estruturas de pecado". que falar de "pecado social". sem tomar em conta as mediações históricosociais. chegando. Pastoral da Penitência. 1970. especialmente depois de Medellín. ASSMANN. HOEFFNER. A dimensão social do pecado — tema de difícil trânsito acadêmico. a demonologia dos fundamentalistas continua como desafio teológico. (tese de doutorado). Juan Luis. a acusação parte precisamente dos piores reducionistas. Embora muitos continuassem insinuando. 41. Como é sabido. a declarar que a graça está sempre disponível para individualidades isoladas. Portanto. cf. Vozes. in: Catholicism in Crisis. Como exemplo desse mal-entendido. síntese parcial in: VÁRIOS AUTORES. . no plano da história.zãdór. Paulinas. para salvar a dignidade do "dom divino". 1968. Petrópolis. antes de 196040 — aparece como tema sumamente freqüentado na teologia latino-americana. mas sobretudo das suas implicações econômicas. os de corte "espiritualista". por isso. As alusões mais abundantes à economia se constatam. "violência institucionalizada".39 Outro tanto se constata na teologia dos Sacramentos. em faculdades de teologia. por bastante tempo. Die soziale Dimensión der persoenlichen Suende. Gregoriana. pudesse significar a negação -de responsabilidades individuais 41 — quando o tema se presta 39. onde a "graça comum". Os "poderes obscuros" (demonologia) aparecem inevitavelmente em substituição às "estruturas de pecado". que não querem distanciar a fé apenas da política.

Que o leitor reveja textos acatados para confirmá-lo. o que se torna palpável. segundo a encíclica. ao estabelecer uma quasé sinonimia entrei "mecanismos perversos". não há como ignorar a constante alusão a mecanismos econômicos nesse tipo de teologia do Pecado e da Penitência. desde uma perspectiva acentuadamente econômica e não apenas política. como "solidariedade" coletivamente assumida. Araya. Dussel e outros). etc. na teologia latino-americana. Segundo. V. Sobrino. a prática histórica de Jesus e o seu significado teológico (como Salvador e Redentor. da terminologia Deus Libertador. Sobrino. Muñoz.43 5 Poderíamos prosseguir nessa peregrinação através de temas teológicos específicos mostrando. Boff. etc. J. Cristo Libertador? Uma vez desfeita a pretensão absurda de atribuir aos teólogos da Libertação o desejo de transformar a Jesus numa espécie de caricatural chefe guerrilheiro. A luta contra esses automatismos só é possível. São abundantes os textos que avançam em apreciações ousadas sobre o caráter sacrilego da profanação eucaristica: o roubo do pão dos pobres. Fica dito expressamente que existe um automatismo de resultados destrutivos que escapa ao controle dos indivíduos. a própria simbologia do pão partilhado. . 42 Em síntese. Gutiérrez. nas mais variadas formas de celebração litúrgica. a aparição de 42. na clássica terminologia cristã) aparecem claramente reimersos em referências acentuadamente econômicas. A encíclica Sollicitudo rei socialis de João Paulo II (1988) representa um notável avanço teológico. J. E por que não tentar uma releitura. e "estruturas de pecado".precisamente para reforçá-las — essa terminologia consta heje em muitos documentos oficiais das Igrejas e até em encíclicas papais. é profanação do pão consagrado.). Remetemos o leitor à literatura abundante sobre o "Deus dos pobres" (J. 43. da pujante introdução. em cada caso. além da radicalidade das exigências sociais deste sacramento da vida e da alegria de viver (como indica a etimologia do seu nome). R. Quanto à Eucaristia. hoje em dia. L. o Corpo de Cristo (ênfase repetida em E. levou os teólogos a incursões vigorosas na economia. na economia.) e às "cristologias" (L. G. especialmente nas CEBs (Comunidades Eclesiais de Base). por ser um atentado a corporalidade humana.

conexões com a economia. se nutriam de fortes influências neoliberais. altos índices de desemprego. Agora. no retorno a taxas de mortalidade infantil que já haviam ficado para trás e na postergação das metas sociais em geral. na defesa dos direitos humanos. mas também numa amplitude que desborda em muito suas fronteiras. pelo menos por duas razões: a causa verdadeira da implantação de regimes repressivos devia ser buscada nos interesses econômicos. coisa não prioritária para nós neste momento. reciclagem do fluxo de capitais para os EUA que acumula espantosos déficits inter- . Esta pista. e os modelos econômicos. ameaça de estagflação. inflação elevada. Já insistimos que a mina mais promissora é. Neste contexto. o próprio discurso sobre Deus (teo-logia). Para captar adequadamente este fenômeno convém somar uma série de circunstâncias. nos parece mais importante apontar1 para um fenômeno mais global de transformação das estruturas comunicativas do pensamento cristão: a penetração rapidíssima de um novo modo. uma percepção mais aguda dos problemas econômicos. contra as forças da morte. Somem-se a esse panorama doméstico a agudização da crise internacional no plano econômico-financciro (os sucessivos choques no preço do petróleo. sem o menor temor de estar induzindo o leitor a descobrir ou buscar coisas onde elas não existem. contudo. Os regimes militares repressivos e a dura e prolongada luta pelo retorno a regimes mais democráticos colocavam no primeiro plano das preocupações os problemas políticos e. de falar da luta pela afirmação da vida. Subterráneamente avançava. exigiria uma análise mais detida de cada tema. no entanto. a questão da repressão. especialmente na América Latina. porém. no fosso crescente entre ricos e pobres. que esses regimes amparavam. Sem avaliar este fenômeno fascinante dificilmente se entenderão o novo contexto e a nova radicalidade na qual se coloca hoje a questão do entrelaçamento entre economia e teologia. a ênfase maior no binômio "fé e política" era compreensível. por aparecer mais consentâneo com as circunstâncias. locais e internacionais. Os resultados se revelaram desastrosos na concentração da renda. neste sentido.

Ainda que não seja um fato isolável.) que os países latino-americanos ensaiam lentamente seu retorno a regimes mais democráticos. É um fenômeno impressionante. nas suas celebrações comunitárias e nas suas reflexões sobre a sua práxis? Redescobrem-se. Embora inseparáveis do fenômeno que estamos analisando. a recuperação do lugar central da Ressurreição. etc. as forças da vida. deterioração dos termos de intercâmbio de seus produtos. o elo entre luta pela vida e evangelização. soteriologia — esse tema em fase de radical enriquecimento. torna-se praticamente impossível entender a real significação do fenômeno que mencionamos: o rápido surgimento de novas estruturas de linguagem a respeito dá vivência da fé cristã. — com uma visão econômica neoliberal). de maneira inédita. com os núcleos doutrinários do cristianismo (fé. Thatcher. graça. etc. a luta contra as forças da morte.).lios e na balança comercial. . o aumento exponencial da dívida do Terceiro Mundo e a transformação dos maiores países devedores em exportadores de capital líquido. as CEBs. estamos apontando para a profunda transformação do sentido comum e suas expressões comunicativas. o "lugar econômico" da fé e o cerne econômico das novas formas de expressar as convicções cristãs. e uma enorme quantidade de expressões análogas invadem literalmente a nova linguagem dos cristãos em todos os níveis e penetram rapidamente em documentos oficiais. no tocante às vivências religiosas de vastos contingentes populares no seio das Igrejas.) e no plano político (governos neoconservadores — Reagan. etc. por uma parte. É nesse contexto de debilitamento de suas posições (dívidas gigantescas. a celebração da vida. O Deus da Vida. etc. podemos apenas mencionar os novos aspectos semi-institucionais ou já diretamente institucionais (novos serviços e ministérios pastorais.) disso que se convencionou chamar de "a irrupção dos pobres na Igreja". Quando não se tem em mente esse amplo contexto. nos seus cantos. etc. sobretudo se estivemos atentos para a profunda rearticulação dos conceitos referidos. Que novidades se revelam na sua linguagem sobre a fé. até do ponto de vista meramente lingüístico.

"Quando a vivência da fé remexe o senso comum dos pobres". Para nosso propósito nesta seção. Não há previsão de fáceis conciliações. Como fonte bibliogr. hoje. Mas ainda é claramente perceptível.e por outra. apesar de haver ainda desagradáveis mal-entendidos entre documentos solenes das Igrejas e o "capitalismo democrático". (REB). até o momento. E é bom que os cristãos não se iludam: o cristianismo. in Rev Ecles. São linguagens relativamente flutuantes no que toca a seus referentes concretos na história. oculta-se cada vez mais o seu núcleo articulador. que elas não têm ainda livre trânsito nos assim chamados Movimentos. sobre essas novas linguagens. "o potencial evangelizador dos pobres" de que falam os documentos de Puebla? Há os que apostam que. São Paulo. 44 As considerações que estivemos fazendo nos permitem entrever embates futuros entre as diferentes formas de posicionamentos e linguagens. Brasil. ASSMANN. há motivos para esperar que o "matri. e. cf. paia uma hipótese de análise. cf. da ameaça de despotenciamento dessas novas linguagens. GALETTA. fazia falta assinalar este fenômeno como uma das formas mais significativas de referência à economia no discurso dos cristãos hoje. e em que versões diferentes. Ricardo. 44. 561-569. primeiro. 1987. Começa a tomar-se consciência. set/1986. segundo. É evidente que não se deve supor ingenuamente que essas novas linguagens estejam imunizadas contra cooptações esvaziadoras. com os conteúdos ds experiências qüe as linguagens supõem. Paulinas. no Brasil. já que existem tendências conflitantes no seio das Igrejas cristãs. Quantos entenderão. que o vigor dessas linguagens se conjuga melhor com a experiência de fé dos cristãos comprometidos com a luta dos oprimidos. Ed. Hugo. Pastoral popular e política partidária. de inspiração acentuadamente neoconservadora. é hoje um imenso campo de provas. Há uma "luta dos deuses" atravessando o vector central dessa metamorfose de linguagens. porque. ao ritmo da sua própria aceitação ampla. É no coração do que chamamos "o ceine econômico estruturante" dessas linguagens que se tornam experimentalmente óbvias "as raízes econômicas da idolatria". . como realidade sociológica de posições e linguagens conflitantes. Um certo esvaziamento sucede com a sua própria aceitação ampla.

na adoção de parte das novas linguagens citadas e 45 A imagem é de M NOVAK. etc. ao referente central da opressão. a que nos referimos. ousado. como "matrimônio na terra". que a própria compreensão dos direitos humanos nos remete principalmente a conteúdos econômicos. Há documentos corajosos (por exemplo. no Brasil) que testemunham este esforço. isto é. obedientes a orientações neoliberais. Os tempos foram mudando. O Conselho Mundial de Igrejas. Freedom with Justice. mesmo alguns setores da esquerda se foram abrindo para aceitar um resgate de certos valores radicais do liberalismo clássico no que tange a valores democráticos no plano político. Certos documentos eclesiásticos de alto nível demonstram as dificuldades do campo de provas. quando a repressão aparecia como a referência-chave na compreensão desses direitos. no entanto. tornam cada vez mais evidente. Mas as características dos modelos econômicos.mônio no céu" (de supostas coincidências em princípios que admitiriam adaptações) "se consumará". ao contrário do passado. Muitos setores das Igrejas cristãs se empenharam decididamente na defesa dos direitos humanos. As Igrejas procuram acompanhar esta metamorfose conceptual dos direitos humanos. os ecologistas. surgiram difíceis transições para a democracia.) contam com forte participação de cristãos. Na América Latina sucedeu um giro significativo na mentalidade das lideranças progressistas. da CNBB. Más as coisas não se apresentam tão óbvias para todas as chefias eclesiásticas.43 Cabe registrar. um fato que aponta em direção oposta: as forças organizadas que exigem mudanças profundas na economia mundial (os movimentos e partidos populares. . As motivações de tipo religioso são vistas. Por um lado. houve necessidade de esclarecer melhor os conteúdos econômicos e sociais da democracia. sexismo. os que lutam contra opressões específicas: racismo. os pacifistas. hoje e na maioria de nossos países. em certos pronunciamentos. há um apreço positivo do papel dos cristãos. mediante coincidências factuais no plano das instituições mediadoras da economia de mercado. p XIV. como virtualmente propícias à exigência de mudanças.

inovadora em expressões fortes como "mecanismos perversos" e "estruturas de pecado" na economia. será possível perceber melhor a importância das contribuições. 28/1987. Ed. SADOWSKI. o "desastre em: termos de relações públicas" e o "grave prejuízo à reputação do Papa" causado pelas repercussões da -encíclica Sollicitudo .46 A recente encíclica papal Sollicitudo rei socialis. rapidamente transformados em legitimação da "iniciativa privada" de acordo com a versão neoliberal.: M Novak). 1987.de Chile). Justicia económica pára iodos. Catholic Social Thought and the U S. "John Paul II's 'Economic Initiative'". ética y doctrina . Toward the Futures. . nov/1985).rei socialis. 47 NOVAK. oriundos de di46.. de um grupo de cientistas sociais e teólogos. um gtupo ultraconservador (presid.47 Mundo afora ainda prosperam os esforços de perfeita conciliação entre a Doutrina Social da Igreja Católica e a irrestrita economía de mercado. ria sua força e em suas debilidades. social católica clásica". Gabriel J„. é contudo explorada em pontos imprecisos sobre a "iniciativa econômica". DC. Economia de mercado y doctrina social de la Iglesia. OCCHIOGROSSO. Santiago. 1985. IBAÑEZ LANGLOIS. vice-presid. 49-62. 1987 (perfis de católicos).: V/illiam E Simon. in: •Crisis. HOEFFNER. Belgrano. J.: Buenos Aires. Ed. Washington. . cont. 8s. Ed Presença. 48. que convém situar a urgência de aprofundamentos sobre o binômio economia e teologia. 1984. o fenômeno acima descrito de profundo revolucionamento das linguagens em áreas significativas do cristianismo. New York. n. Peter. A.. J. Católica de Chile.no incentivo a programas de rediscussão do panorama econômico mundial. 6 À medida que a teologia for trabalhando mais detidamente seus inevitáveis vínculos com a economia. Os bispos católicos norté-americanos tiveram dificuldades na redação do seu documento mais corajoso sobre problemas econômicos e também despertaram furiosa animosidade contrária. 1987 (em português: SEDOC out/1985. neste sentido. Rio de Janeiro. Cremos que é também dentro desse contexto. "Capitalismo. José Miguel. 1986..48 Estes são alguns alcances contextuáis para avaliar. despertou as mais iradas agressões de parte das correntes neoconservadoras. ZANOTTI. prenunciando inclusive uma teologia antiidolátrica. com incontida irritação. Depois de lamentar. parte para a exegese cooptadora. Economy. da autodenominada "Comissão de Leigos" católicos dos EUÁ. O Estado a serviço da ordem. Cf.. Ê um ataque duro à carta pastoral: NCCB. complexo e conflitivo. Univ. Once a Catholic Houghton Mifflin. in: Estudios públicos (Santiago . março/ 1988.. M. Doctrina social de la Iglesia.

Referimo-nos ao DEI (Departamento Ecuménico de Investigaciones). houve no DEI uma consciência bastante clara sobre o que. Para os que. aprofundar este tema de maneira programada e sistemática. eis como percebíamos o desafio. desde sempre. sem entrar em análises de detalhe. não só para abrir a Teologia da Libertação em direção a problemas centrais da economia. Aqui nos interessa unicamente chamar a atenção para a maneira como se foram encadeando sucessivamente os diversos subtemas. na sua complementaridade. opções ideológicas e peri- . vale a informação: os autores de tais suspeitas tinham razão. sediado em San José de Costa Rica. dentro da proposta global da Teologia da Libertação. As tendências conservadoras se sentem incrivelmente "donas da espiritualidade". mas sobretudo para alentar uma verdadeira mística da luta em favor da afirmação da vida (compactando neste conceito: os meios para viver e a alegria de viver). por diversas circunstâncias.versos países. até no interior das Igrejas. há mais de uma década. Contudo. As novas formas emergentes de "Igreja dos pobres" não eram devidamente apreciadas naquilo que constitui seu aspecto mais fundamental: um ingente movimento de espiritualidade. mas por motivos inteiramente diferentes dos que eles supunham. A verdadeira radicalidade deste grupo consistiu. se designava como "nó epistemológico" (nudo epistemológico) a ser aprofundado. Desde o seu início (1976). Para ser um pouco mais claros. Na seção anterior já foi mencionada brevemente a relevância dos escritos do economista Franz J. que se propôs. que foi o verdadeiro berço da Teologia da Libertação. viam neste grupo excessos de radicalidade. também no seio das Igrejas. Hinkelammert. no jargão interno do grupo. ao lado dos empobrecidos. Ao mesmo tempo se estavam trazendo à tona as raízes que alimentam a perversão da "espiritualidade" por forças contrárias à vida. na busca das raízes de uma espiritualidade consistente. Sua produção em torno dos diversos aspectos do assunto é ampla e multifacética. Viam-no como simples esquerdismo político. muitos viam esse fenômeno mais bèm como ameaça à "verdadeira espiritualidade". pessoa-chave nesse grupo.

Marx havia sido claro ao denominar as relações mercantis. isto é. buscava-se invalidar. universalizadas nó capitalismo. a teoria do fetichismo. que não se originava simplesmente em más intenções. em nome da salvaguarda da fé e da espiritualidade. O próprio amor à Igreja nos impulsava a desmanchar este equívoco. Deixava-se intacto o núcleo de pressupostos efetivamente "espirituais" e "religiosos" que nutria as legitimações da dominação. . Não é verdade que "análises da realidade". Ou seja. que encara o capitalismo em geral. Para tudo o mais se empregavam trilhados simplismos de suposta análise da "ideologia". era amplamente desconsiderada pelos próprios marxistas. Era evidente para o grupo do DEI que isto não bastava. o que havia de mais consistente na experiência de fé dos oprimidos. e as teorias econômicas burguesas em especial. Percebia-se que somente uma séria análise da "espiritualidade" do sistema dominador nos daria algumas chaves explicativas. Assim se conseguiria também dar um passo importante para superar muitos simplismos nos esquemas de análise mais usuais das esquerdas que — muitas vezes em nome de um marxismo bastante vulgar — se limitavam às variáveis mais ou menos aparentes da economia e da política. Também os processos revolucionários precisam de profundas motivações espirituais. Era necessário encontrar cientistas sociais sensíveis a um novo tipo de análise. de "religião da vida cotidiana". Por outro lado. Mas esta peça-chave da sua análise. não convinha continuar enganando-se: qualquer processo de mudanças precisa de uma motivação espiritual. ao "espírito" dos sistemas dominadores. como um ingente processo de idolatria. Deixamos à imaginação do leitor os detalhes do que significou sentir-se literalmente entre 'dois fogos. sem maior atenção a uma lógica invisível. especialmente pela moda das interpretações althusserianas funestamente campeante na América Latina.go para a fé e a espiritualidade cristãs. naquele momento. alimentado por um sem-número de "atos devocionais e "objetos devocionais". gerem automaticamente opções decididas e coerentes. mesmo quando razoavelmente bem feitas.

a importância do amplo fenômeno de gestação de novas linguagens a respeito da fé. à qual não estão alheias profundas inversões do e no cristianismo. como no terreno das opções práticas. só depois de trazer à luz o caráter necrófilo e de antivida do sistema. como última instância e fonte de critérios de decisão no plano econômico e político. deve ser pensada a partir dos laços corporais na história humana. contudo. em termos de afirmação da vida humana real e concreta. Mencionamos. porque o capitalismo é uma construção social de aparências enganosas. mais acima. tanto no plano teórico da economia e da teologia. a experiência espiritual que nutre a organização das esperanças humanas. portanto. isto é. e não apenas político. uma Espiritualidade da Libertação tem. e a questão dos "deuses necrófilos". uma releitura da teoria do fetichismo nos permite penetrar nas inversões espirituais que sustentam o esvaziamento dos laços corporais entre os homens. que a difusão de seu pensamento tenha influenciado substancialmente a signi- . estamos lidando com um confronto de "espiritualidades". porque sua fonte de critérios e seu campo de vivências é a afirmação da vida humana em contextos históricos determinados. em suma. dos ídolos que matam se coloca de maneira inevitável para os que crêem no Deus da Vida e procuram afirmar a vida. as "espiritualidades perversas" buscam invalidar sistematicamente as implicações históricas deste nexo corporal. torna-se possível reconstituir o núcleo referencial: a produção social da vida humana real e concreta. trata-se de uma lógica que esvazia a corporalidade humana concreta e maneja uma concepção abstrata do ser humano (o que possibilita pontes com todas as formas de culto do homem abstrato no cristianismo). É provável. O grupo do DEI evidentemente não se arroga uma função detonante neste amplíssimo fenômeno. a experiência da transcendência no interior da história. a inversão da realidade se processa mediante inversões no interior da "lógica espiritual" do sistema. e indicávamos sua ligação com referenciais econômicos. um lugar e um conteúdo econômico.O nó articulador das reflexões do DEI se estruturou com elementos como estes: a lógica do sistema dominador é invisível e o visível não é o que aparenta ser.

Paulinas. R. Vieram. 1978. ASSMANN. Capitalismo. ( e d s ) .. TAMEZ. La fuerza espiritual de la Iglesia de los pobres. La esperanza en el presenté ídolos de la opresión y la búsqueda del Dios Liberador).49 Realizaram-se também sucessivos encontros de cientistas sociais e teólogos. (ed. Raúl. 52. trad. 2 vols. 1979. H. DEI/EDUCA 1978. O núcleo referencial cfa produção da vida humana real e concreta sugeria que se desse atenção ao caráter ambíguo do esquema sobre necessidades básicas utilizado por organizações financeiras internacionais. DEI. y TRINIDAD. DEI 1982. 51. 52 A reflexão sobre a economia desenvolveu-se por diversos caminhos complementares. (eds. Cárter y la lógica del imperialismo DEI/EDUCA. 51 E o tema da Espiritualidade não se deslocou nunca do centro das atenções. 1978 de América Latina. as longas sessões de reflexão do grupo encontraram uma sistematização e m "As armas ideológicas da morte" de Hinkelammert e diversas publicações de colegas. já que ele ficou felizmente intocado pelo furacão de diatribes. Pablo. 50. D E I . Elsa. y RIVERA PAGAN. VARIOS AUTORES. em seguida. S. Espiritualidad y liberación en América Latina.. até chegar-se a um certo clima de tolerância e mesmo um certo apoio oficial de autoridades eclesiásticas. Aos poucos o grupo do D E I começou a preocupar-se com o perigo de diluição destes referentes econômicos. Numa primeira fase. mesmo nos escritos de alguns teólogos d a Libertação que assumiam expressamente o tema central do Deus da Vida.). teólogos e cientistas sociais na produção de um dos livros mais traduzidos do DEI. teología de la dominación — teología de la muerte) DEI 1978.ficatividade concreta dessas novas linguagens em muitos grupos. H .53 Os processos 49. DEI/EDUCA. DEI. 1987. VIDALES. Tecnología y necesidades básicas. La lucha de los dioses (Los . Cristianismo antiburgués (Teología de la liberación — teología de la vida. ASSMANN. VIDALES. serve de patamar para aprofundamentos e avanços.). ( e d ) . El Banco Mundial — un caso de "progresismo conservador". Seria o caso de verificar até que ponto o núcleo articulador. BONIN. de conteúdo por vezes puramente ficcional. RICHARD.50 A hipótese "ídolos são os deuses da opressão" orientou as pesquisas de um grupo de biblistas. acerca da Teologia da Libertação. violencia y antivida (La opresión de las mayorías y la domesticación de los dioses). La hora de la vida. L. E (ed. 1980. trabalhado especialmente pelo DEI. E. TAMEZ. 53. na busca de uma concepção alternativa mais aceitável. 1983. as invectivas contra a Teologia da Libertação. DEI. ASSMANN. em seis idiomas). Ed. 1980 (port.). D E I . H et al.

na dupla busca de flexibilização do pensamento político e econômico (economia mista. discernir as perversas utopias dos antiutópicos (neoconservadores e neoliberais) e trazer à tona suas ocultas teologizações. DEI. que é a questão da dívida externa. havia que enfrentar não apenas as propostas de mercado total e irrestrito dos neoliberais.políticos em marcha na América Central impunham uma reflexão sobre as alianças possíveis. Ingenai. cuja discussão deverá prosseguir e possivelmente tardará em ser digerida. é claro. 1981. Não esquecendo. mas também as propostas de planificação omnímoda e burocratizante. etc. Isto impunha enfrentar um tema praticamente ausente de toda a discussão dós economistas e teólogos até hoje: a relação entre horizontes utópicos e projetos históricos. El juego de los reformismos frente a la revolución Somos parte de un gran equilibrio. Por último. radicalismos abstratos de pouco serviriam. em data mais recente.54 Quanto à economia. (ed. Não estamos redigindo uma tese centroamericana. já que tem conseqüências importantes quanto ao afinamento necessário de conceitos e linguagens. 55 7 Não é nossa intenção fazer um levantamento da vastíssima bibliografia acerca do debate teológico sobre problemas sociais e econômicos na atualidade. por um lado. 1985. era mister. ASSMANN. refletir sobre as implicações do fato de que tódo' caminhar histórico passa pela mediação de instituições. É novamente a Franz Hinkelammert que se devem avanços substanciais neste assunto.). . 54. H.) e superação de sectarismos nocivos.) integram-se cada vez mais nos projetos do DEI. negro. Para avançar na análise teológicá da economia. Embora isto não soasse bem a todos os ouvidos de pessoas que se julgam revolucionárias. onde se busca a difícil conjugação entre o desejável e o possível. onde tantas coisas aparecem em sua lógica implacável. o DEI se propôs avançar na reflexão teológica sobre este agudo problema-teste. e por outro. DEI. que a ecoteologia e opressões específicas (mulher. Era necessário refletir sobre as implicações de um caminho não ilusório. 55. HEDSTRÕM. etc.

Um aspecto absolutamente central deste enfoque é a insistência na qualidade teológica. London. Michael. 57 (3) Tudo indica que a priorização de enfoques econômicos é de molde a introduzir fecunda intranqüilidade nos estudos bíblicos. mas certamente ainda bastante incompleto. o tipo de enfoque teológico preconizado neste livro. Wirtschaftssysteme (Suplemento de "Junge Kirche". G. J. den Voelkern Frieden. SCHAEFER. 111. Rinehart and Winston. mais ou menos..). 1985. Atlanta. Ronald. 1977 56. Der Schoepfung Befreiung. Wirtschaft heute — Muenchen. mas o conceito de teologia com o qual se trabalha é tão amplo e difuso que se torna praticamente impossível deslindar tais escritos da abundante literatura que se limita.Press. Fairleigh Dickenson Univ. ingl. Rutherford. SIDER.56 (2) Com certa freqüência encontramos o reclamo de uma "perspectiva teológica" acerca da economia. 1982. etc. 1986 (trad. Billings and Sons. U. 1985. 1981. Crossway Books. Kreuz-Verlag. 1979. John Knox Press. ./WOODYARD. G. DUCHROW.. A consulta de um número relativamente amplo. Larry L. den Menschen Gerechtigkeit. a saber. 1987. Kaiser. Westchester.. acima referidas. D. Ulrich.com as usuais sofisticações e aparatos bibliográficos ao sabor das academias. Faith and the-Prospects of Economic Collapse. 57. Franky (ed. ao inserir-se nesta perspectiva. Robert. Augshurg Publishing House. N. WCC. DUCHROW. Minneapolis. ian/1988.. questões estritamente teológicas como a perversão da qualidade da fé. PRESTON. Schalom — . as hermenêuticas mais conhecidas se revelam bastante insuficientes e a "catividade ideológica" das interpretações bíblicas se manifesta como um duro Ein Feld fuer bekennende Kirche? Economy.: Global DUCHROW. Religión and the Persistence of Capitalism.. Em outras palavras. Stuttgart. U. 1981. D-. a deformação da imagem de Deus. 1987). Chtisten. RASMUSSEN. embora sejam bordeados de alguma forma. Como era de esperar. não aparecem como centrais. HARRINGTON. Kirchen. Holt. Genève. Ulrich Duchrow se reporta inclusive às contribuições latinoamericanas. está em jogo a qualificação cristã da fé e um tema inevitável é o da idolatria. Ronald. aos enfoques éticos. LEE. de escritos nos deixa a seguinte impressão: (1) Já é claramente perceptível. o problema da idolatria. Rich Christians in an Age of Hunget Intervarsity Press. em alguns autores e grupos cristãos. The Journey Toward Freedotn: Economic Structures and Theological Perspectives. The Politics of Cod's Funeral: The Spiritual Crisis of Western Civilization„• New York. P./LIEDKE. Is Capitalism Christian? Toward a Christian Perspective on Economics. Economic Anxiety and Christian Faith. KING.

in: funge Kirche.60 (6) Como já ficou claro para o leitor. DUMOUCHEL. da Bíblia em geral. n. Beikeley. El chivo expiatorio Barcelona.. D. n. OAKMAN. Revista Bíblica (Buenos Aires) n.. Imaging Ooã. United Church Press. Richard K. Economics and the Cospel. presentes sobretudo-na soteriologia.desafio. 1/1981. Des choses cachées depuis la fondation du monde. consideramos fundamental o desentulhamento da mensagem cristã de algumas aberrantes teorias sacrificáis. Univ. assim como julgamos importante detectar as teorias sacrificáis embutidas na economia. Renê Girard et la logique de 1'économie. Iniciais repercussões na América Latina. que chegou ao nosso conhecimento. com omissão de critérios propriamente teológicos. Sojourners.59 (5) Paralelamente aos muitos estudos (em favor ou contra) sobre a "Reaganomics".). L'enfer des choses. 1986. cf.). BRETTMANN. de Cultura Vozes. TAYLOR. 59. mediante a redução do cristianismo a mera ética. p . E-. denunciamos como nefastamente ideológico o abafamento da teologia. Anagrama. Eerdmans. Grasset. Como se verá ao longo deste livro.. nos próximos anos. contudo. 1983 (pretende demonstrar que a exaltação social dos profetas foi prejudiciaí à economia. a aliança profunda que se produziu entre ideólogos neoconservadores (muitos deles religiosos) e economistas neoliberais trouxe o desafio de enfrentar-se criticamente com essa forma de economia teologizada. Para muitos isto representou um alerta factual que os levou a desmascarar os ídolos implicados. H. Prophets and Markets: The Political Economy of Ancient Israel. Paris. Cf. Paul/DUPUY. Por ora. Das obras de René GIRARD destacam-se: La violence et le sacré. a leitura anti-sacrifical. Seuil. nov/1985. K. Paris. 1979. 10/1986. não aborda esses pontos de contato mais essenciais. maio/1986: Empire — The Religión of America. Cal. 551s. propiciasse inéditas incursões bíblico-teológicas na economia. Mas constatam-se inovações significativas. nas considerações acerca da economia.. Philadelphia. os dois). "Der Kapitalismus ist die Inkarnation Gottes".58 (4) Não seria algo inesperado se. ao íado de formas soezes de despotenciamento da mensagem bíblica. 1978 (esp.. 1986 (diss.. New York. 1973. e antiidolátrica. Paris. D. Silver. a única obra sobre o pensamento de René Girard e suas implicações para a economia. HALL. Dominion as Stewardship. MORRIS. é o que prepondera na prática em toda a vasta literatura sobre os 58. Grasset. 60. 1986. especialmente do Novo Testamento.. sugerida por René Girard. Tean-Pierre. The Economia Aspect in the Words and Ministry of Jesus. 19/1985. Também já foi dito que esta redução a mera ética. Cf. Rev. 1972. Anagrama.. Kluwer-Nijhoff Publ.

NORMAN. a bibliografia é enorme.61 (7) Dentro deste campo imenso cabe. Kapitalismus ais Kultur. uma relação profunda entre o cristianismo pós-medieval.cristãos em face da economia. Hoje. 1986. para futuras garimpagens. GRIFFITHS. Press. com uma tirada cortante: "Max Weber ajudou a aumentar a mistificação do capitalismo moderno. consentânea com o "homo oeconomicus" dos neoclássicos). \ . repetimos. Press. pois representa sempre uma espécie de dança ao redor do fogo. Por isso o incessante retorno ao debate sobre Max Weber não deixa de ser sintomático.. Jacob. 1973 (segundo os autores. Durham. Duesseldorf. O que. Christianity and the World Order. embora devamos supor que pode haver nele riquezas ocultas. van Leeuwen descarta Max Weber. ao que parece. Este imenso campo bibliográfico não polariza nossa atenção neste livro. por uma parte. sim. os mais acirrados defensores de uma irrestrita economia de mercado (à la Novak) sabem perfeitamente que o problema se refere sempre ao "espírito" e à "riqueza espiritual". Não podemos detectar o 'espírito' do capitalismo mediante a investigação histórica da ética do pie61. R. etc. K.C. por outra. como nos tenta mostrar Franz Hinkelammert. é um fetichizador que propicia um novo politeísmo. escamoteia o desafio propriamente teológico. CLAESSENS. com a metamorfose de deuses antigos evocados dos seus túmulos. A. New York. e . Th. Religious Thought and Economic Society. interessa registrar aqui é a nítida impressão de que está havendo uma crescente agitação e um acirramento de ânimos e posições neste terreno quase inabarcável. via puritanismo). E. mas além de não juntar esta com outras hipóteses teológicas. Oxford Univ. a constatação de que. Mas.o sistema de mercado se deve precisamente à privatização da experiência religiosa. dilui tudo no terreno "ético". nos perguntamos: por que será? Como é sabido. Duke Univ. N. VINER. The Creation of Wealth: A Christian's Case for Capitalism Intervarsity Press. Max Weber reconhece um "espírito" do capitalismo e lança uma hipótese de raiz teológica (a influência da doutrina da predestinação. Enquanto. "D„ u. 1979... A partir de nosso enfoque. 1978. Brian. sobre Ética Cristã e o ensino social das Igrejas. as águas não se aquietam jamais a respeito da hipótese de Max Weber no seu livro A ética protestante e o espírito do capitalismo. mais uma vez.

Unión Ed. e VINER. se convertam decididamente ao "capitalismo real": Enrique M. no plano da segunda. A. Unión Ed. São Paulo. El engaño de un capitalismo aceptable. No vaivém de um debate crispado. Iglesia Viva. mar po-Junho/1984: Economías y futuro humano.tismo. S. 1981. —• cf. MENÉNDEZ UREÑA. 1968. mesmo com a melhor boa vontade. Ureña. O mito do cristianismo socialistá. O outro. A QUEM INTERESSA A LUTA CONTRA OS ÍDOLOS? Ao longo deste livro falaremos. Th. Madrid. De Nacht van het certa insistência. no plano da primeira. 1982 (orig. Kurt. em perversas. Tudo isto surgirá tanto a partir Kapitaal. Ed. Weber".Religión y economía. VAN LEEUWEN. 61). 385 a 400 de: EISENSTADT. etc.. The Protestan! Ethic and Modernization. H. Loyola. Crítica econômica de uma controvérsia ideológica. 1983. 1970 (o restante do livro busca desrelacionar quasé totalmente religião e economia.63 3. Este quis servir-se de uma distinção introduzida por um teólogo da Libertação (Clodovis Boff) entre "teologia estrita" e "teologia mediada pela análise social" para sugerir que. que manifestou bloqueios insanáveis. ocorrido na Espanha. etc. I. (ed.. Sal Terrae. O discurso 62. posto que o 'espírito' do capitalismo nao é outro que o próprio Capital". Um deles é um aliado firme dos teólogos da Libertação: José Ignacio González Faus. p.. . Santander. R (cf. e adepto da posição de que existem argumentos teológicos paia que os cristãos. Fangani. num simplismo ingênuo). portanto. Madrid. N. Madrid. 63 MENÉNDEZ UREÑA. o debate extravasou pelas revistas. não há como argumentar teológicamente para optar por qualquer sistema econômico específico. E. W.). Tawney. supra. Além de ensejar a produção de diversos livros. Sucedeu entre dois colegas jesuítas. face às deficiências dos "socialismos reais". é de uma relevância suprema.: mas que. e as vozes discordantes — R. 776: sobre a famosa tese de Max Weber. Uma bibliografia mais ampla sobre o "caso M. A.. 62 (8) Para concluir esta parte de incitações a ulteriores pesquisas. El neoclericalismó de izquierda. Basic Books. 1984. Marova. Rev. teorias sacrificáis e infinitudes relacionado com a economia. New York. existem diálogos bloqueados devido à nitidez de posicionamentos contrapostos.. nas p. Sombart. J. o registro de um fato. saiu a reluzir uma evidência: a questão economia e teologia atravessa o centro das concepções históricas da fé e. GONZALEZ FAUS. E. a parte inicial de: SAMUELSON. autor de uma versão bastante questionável sobre "Marx economista".. n. com idolatria. no qual fica patente que. há fortes argumentos teológicos para optar pelo capitalismo.

pecam por omissão. muitas vezes se equivocam de alvo. Em relação. O ateísmo. nos bancos. mas não sabem muito a respeito de idolatria.aos ídolos.da economía. É claro que não sempre se equivocam de alvo. É de supor que este questionamento envolva também o interesse dos cristãos enquanto tais. e muito particularmente o dos teólogos. como a partir da teologia. Embo ra se enfrentem a deuses cultuados como reais. que tanto preocupa a tantos. no sistema de mercado em geral. os que se dizem ateus. Atacam divindades explicitamente religiosas. reverenciadas por religiões institucionais. Que tal se. Ao não detectar a função real dos ídolos. atacar as Igrejas com fúria de ateus obviamente não resolveria o problema. mas na bolsa de valores. por que e como os combateriam? E ao tratar-se de atos devocionais que não transcorrem (exclusivamente) em templos ou lugares conhecidos como religiosos. nossa preocupação se dirige inteiramente às conseqüências práticas dos pontos questionados na vida real das pessoas. É nesta perspectiva que tais temas foram surgindo na América Latina. Julgamos que nosso questionamento possa interessar simultaneamente ao economista e ao teólogo. Mas uma coisa deve ficar bem clara: nossa preocupação central não se refere a acertos sobre o caráter científico ou as pretensões de cientificidade dessas "ciências". O ateísmo militante quer derrubá-las e aboli-las. nos organismos financeiros internacionais e. os deuses da opressão. algum dia. como "religião da vida cotidiana". Pensamos que a luta contra os ídolos é um assunto de real interesse para os oprimidos. mas sim em muitos casos. Os sacrifícios aos ídolos destroem vidas concretas. especialmente dos empobrecidos. os únicos cultuados e os mais perniciosos? Neste livro trabalhamos com a hipótese de que existem outras divindades sumamente reais e perniciosas: os ídolos que matam. é normalmente a renúncia ou o simples descaso em relação a divindades supostamente inócuas ou até consideradas prejudiciais. . Presumimos que este tipo de questionamentos tenha uma importância não pequena para a vida deles. Embora este aspecto também apareça. se fizessem a pergunta: serão estes deuses explícitos os únicos reais.

finalmente. estaremos falando de outro nível. mesmo no seio do cristianismo. Andamos realmente preocupados com as metamorfoses a que foi submetido o Deus dos cristãos. de jeito nenhum. É de supor que isto interesse muito aos que são vítimas das violências e crueldades que se praticam em nome desses ídolos. mas eles estão na rua. com a maior naturalidade. No essencial. é isto: a naturalização da história. É algo muito mais sério do que declarar-se ateu. Os teólogos da Libertação dizem que o Deus Libertador não é objeto de posse. Tão óbvios no seu caráter de deuses reais e verdadeiros. Fazer aparecer como natural (natureza) aquilo que é produto histórico da ação humana (história). porém. Os deuses econômicos são deuses óbvios. É transcendência que se busca. São deuses que se têm. é horizonte que chama. no fundo. Todos os deuses demasiado óbvios geralmente são ídolos.De maneira que os que estivessem pensando que tudo isto não passa de assuntos de religião (no sentido tradicional da expressão). É trazê-los à luz para que todos percebam. aos . nas casas e sobretudo no comércio e em todas as instituições econômicas. Sua identidade se ocultou no funcionamento da economia. Ser antiidólatra significa mostrar que os ídolos são violentos e cruéis. A economia. Ninguém os vê caminhando pela rua. muito equivocados andariam.. Quando falarmos de ídolos podemos referir-nos até mesmo a divindades cultuadas nas Igrejas (desculpem o plural divindades. que se cultuam. Denunciar os deuses demasiado óbvios. onde existem deuses sumamente ativos: no plano da economia. que geralmente nem nos ocorre chamá-los de falsos. São deuses tão óbvios e verdadeiros que sua presença não é notada. a função que têm no sistema opressor. Mas também é de supor que isto não interesse. São deuses verdadeiros demais para serem facilmente questionados. mesmo em relação ao Deus cristão. E lamentavelmente conjuga-se muito o verbo ter. falar de idolatria no terreno da economia (e em outros terrenos) é desfazer a sua obviedade. já que existem imagens conflitantes de Deus). mas não M como escapar a isto. ao referir-nos a ídolos que exigem vidas humanas. Como diz o poeta brasileiro Moacyr Félix: "O verbo ter é a morte de Deus".

Por isso contra-atacam. Portanto. Isto até é condição necessária para poder ter fé no Deus cristão. mas "ateus" em relação a esses ídolos. Mas esta economia real não funcionaria assim se houvesse muitos questionando as regras do jogo. Muitos economistas se acusam uns aos outros. que se define como aliado irrestrito de todos os oprimidos. mas insistem em dizer que é assim porque não são aplicadas coerentemente. Mas o mais estranho é que a maioria dos economistas continua acreditando que. para poder questioná-las. Claro que são "ateus". Claro que é desagradável para os economistas que muitas de suas teorias não resolvam os problemas da gente. em boa parte porque os economistas nos fizeram acreditar neles? Deuses óbvios se apóiam em pressupostos autovalidantes. Os idolatras se sentem ameaçados em seu poder quando se denunciam seus ídolos. e por que razões. Isto significa penetrar nas teorias econômicas. os ídolos nascem também nas teorias. Que tal se descobríssemos que os deuses econômicos se tornaram óbvios demais. Os deuses óbvios se tornaram óbvios porque ninguém mais os questiona. Pressupostos óbvios impõem ídolos óbvios. São os idolatras que perseguem violentamente os que crêem num Deus Libertador. É necessário pesquisar quem foi que estabeleceu. no plano da economia real. porque não dá conta de certos problemas econômicos reais Esta é uma briga que ainda não vai ao fundo do assunto. Afirmam que as "verdades" e os pressupostos de suas teorias são óbvios. * * * .que são protegidos dos ídolos. Chegam até a dizer que aqueles que combatem seus ídolos não passam de perigosos ateus. é preciso entrar mais fundo no assunto. e por isso precisam tanto deles. Em outras palavras. dizendo que tal ou qual teoria não é realista. admitem que as teorias não funcionam bem na prática. Para poder questionar essas regras do jogo econômico. e nada mais. no fundo. Note-se bem: hoje existe muita idolatria militante. Os deuses econômicos têm seu campo de atividade principal no funcionamento das coisas tidas como óbvias. que as coisas tinham que funcionar assim. aos que os criaram à sua imagem e semelhança. Nós é que não as deixaríamos funcionar. suas teorias estão corretas.

Na tradição burguesa ou liberal ela ê vista mais como uma simples interdependência. Realmen-. Programas econômicos determinados exigem soluções políticas determinadas do poder econômico e político. ao passo que na tradição marxista a economia é vista antes como a última instância. Sem dúvida há diferentes maneiras de ver esta relação entre economia e política. Cada problema econômico tem sua dimensão política e cada problema político tem sua dimensão econômica. Sabemos também que a seleção entre tais possibilidades não é arbitrariamente possível e que o ¡grau de desenvolvimento econômico precondiciona as possibilidades da implantação de determinados esquemas econômicos ou políticos. que se expressa geralmente numa determinada burocratização do exercício do poder político.ENSAIOS TEMÁTICOS 1 PROBLEMAS ATUAIS DA ECONOMIA POLÍTICA * (Franz J. Sabemos que a economia está intimamente relacionada com a política. Tegucigalpa. Embora a relação não seja mecânica e embora possa haver exceções explicáveis. e que não é possível sustentar u m Estado liberal a não ser sobre a base de uma política de reformas sociais muitas vezes muito radicais. Mas sejam quais forem as razões desta diferença —• que tampouco é nitidamente válida — a vinculação estrei* Conferência proferida em março de 1980 na inauguração da segunda Promoción del Postgrado Centroamericano en Economía y Planificación del Desarrollo da Universidad Nacional Autónoma de Honduras. te.. sabemos que uma política ultraliberal como a insinuada pela escola de Chicago tem que ser acompanhada de um Estado de segurança nacional.. Sabemos também que uma economia socialista é acompanhada por um sistema político de índole própria. o significado literal da própria expressão nos ajuda muito pouco para este propósito. . Hinkelammert) Ao falar dos problemas atuais da economia política. como surgiu na América do Sul. e pela predominância de um partido único em toda a estrutura de poder. temos que saber o que entendemos por economia política.

de fato. Portanto. Marshall é um homem de uma. Certamente.ta entre as duas raramente é negada. uma afirmação como a de uma instância última q u e seja econômica pressupõe uma conceitualização determinada dp econômico e. Contudo. já vimos que a economia política não é constituída pelo reconhecimento de uma inter-relação estreita . não tem nenhum sentido discutir a afirmação de uma última instância econômica do político. sem uma discussão desta diferença. ou. Como veremos. é sobretudo a teoria neoclássica que muitas vezes induz a esquecer esta relação para se refugiar em modelos de pressupostos teóricos arbitrários dos quais deduz efeitos econômicos de uma maneira tal como se o âmbito político nem sequer parecesse existir. Mas nem esta censura tem uma validade gerai.análise aguda da economia e da política de seu tempo. Isto nos leva obrigatoriamente a uma segunda advertência. como diz Eucken. Isto já pode ser visto nos fundadores deste pensamento. do ponto de vista desta. Portanto. que jamais se esquece das implicações políticas das relações econômicas. ao passo que outros enfoques vêem esta relação em termos de uma "interdependência entre as duas". como Jevons ou BohmBawerk. Os modelos abstratos. no sentido da expressão economia política. estaríamos já mais perto de uma compreensão do enfoque da economia política ao postular que. Enquanto Bohm-Bawerk ou Jevons não reparam sequer na realidade económico-política de seu tempo. como uma "interdependência das ordens". vagando por abstrações puras. na tradição da economia política se entende a economia de uma maneira diferente do modo como ocorre na economia neoclássica. não nos referimos apenas a pensamentos que levam em conta a inter-relação entre o econômico e o político. Marshall não pertence sem dúvida à corrente do pensamento de uma economia política. a relação entre economia e política supõe a existência de uma última instância econômica. Por um lado. com os quais se maneja. que desenvolve seus esquemas teóricos tendo presente estes aspectos. se falamos de economia política. aparecem como simples notas de um texto dedicado à análise concreta do econômico. No entanto.

temos que nos precaver de um erro freqüente que dificulta a discussão sobre a economia política em geral. Por outro lado. A análise que segue partirá desta segunda polaridade sem identificá-la a priori com a primeira. Referimo-nos à identificação muito corrente da análise da economia política com a economia política marxista.entre economia e política. Este fato é importante para se poder compreender os passos da economia política na atualidade e seus problemas atuais. pensamento socialista. Sempre houve — e segundo nossa opinião hoje está sendo reforçada — uma economia política burguesa. Tampouco podemos identificar sem mais as conquistas do pensamento neoclássico com o pensamento burguês. Também o pensamento neoclássico termina em conhecimentos. introduzimos a polaridade economia política e teoria econômica neoclássica. Dentro do pensamento econômico. Com todo o risco que tal proposição contém. Com isto sustentamos que tais opções existem. é antípoda da economia política não o pensamento econômico burguês e sim o pensamento neoclássico. dizendo melhor. Por um lado. Descartamos o reconhecimento ou não de uma inter-relação entre o econômico e o político como um elemento decisivo da problemática a ser discutida. pensamento burguês e. referindo-nos a opções quanto ao sistema econômico a partir das quais tais pensamentos são elaborados. atrevemo-nos a dizer que a diferença . que não devem ser confundidos com sua opção implícita pela sociedade burguesa. esta primeira parte de nossa análise nos leva a descartar um elemento e a destacar duas polaridades com as quais temos que continuar trabalhando. que de fato tem uma história mais longa do que a economia política socialista. Resumindo.agora destacar o elemento teórico central que nos permite distinguir estes dois pólos. A economia política marxista — ou. embora o teórico correspondente não as explicite e inclusive não as reconheça. Por outro lado. Temos que procurar utilizar estas denominações de burguês ou socialista em termos objetivos sem misturar nelas depressa demais nossas próprias opções pessoais. por outro. socialista — é uma corrente determinada do gênero da economia política. Destacamos que vamos contrapor duas polaridades. Precisamos .

portanto.a partir da reprodução dos fatores de produção.entre estes dois pólos é o ponto de partida radicalmente distinto daquelas. A economia política focaliza a economia a partir do problema da reprodução dos fatores da produção. afirmando que apenas a transformação da sociedade burguesa em sociedade socialista pode garantir esta reprodução. Vou procurar explicar esta última polaridade para podei usá-la na análise a seguir. o que os leva à teoria deles do salário baseada na subsistência de que o operário necessita e. nestes autores a economia já aparece ao mesmo tempo como reprodução dos fatores de produção e como instância última ou limite objetivo de todas as decisões políticas. todas as possíveis alternativas das decisões na sociedade capitalista estão subordinadas a este quadro econômico objetivo e. (Neste caso o econômico é: reprodução da força de trabalho e do aparelho produtivo). concentrando o problema da reprodução dos fatores de produção na reprodução de um só fator: o homem. Malthus e Ricardo. portanto. a maquinaria gasta deve ser constantemente substituída e. portanto. Eles fazem seu enfoque . O pensamento econômico começou como economia política com seus principais representantes: Adam Smith. A partir deste ponto de vista Marx transforma a economia política burguesa através do que ele chama de sua "crítica". A reprodução material da vida humana aparece agora como instância última de todas as decisões econômicas e políticas. independente da escassez relativa do mercado. sendo a reprodução dos outros fatores — em Marx já como aparelho produtivo mais natureza — umá conseqüência dá reprodução mãterial da vida humana. Malthus constrói sobre esta base a sua teoria da população e sua reprodução. Poderíamos. reproduzida. Ao lado da reprodução da força de trabalho aparece também a reprodução do próprio aparelho reprodutivo: para que haja produção contínua. ao passo que a teoria neoclássica a focaliza a partir do ponto de vista da determinação ótima dos recursos. substituir a polaridade economia política-teoria neoclássica por outra que seria reprodução-alocação. Deste ponto de vista. com sua respectiva mediação através da estrutura de classes. portanto. A economia política de Marx parte deste ponto de vista. .

para poder apagar a economia política do próprio pensamento econômico. Embora hoje em dia a discussão da alocação de recursos ultrapasse amplamente a escola neoclássica. Isso é feito quando seus principais teóricos abandonam todo o enfoque da economia política tradicional. como cidadãos votantes. Trata-se de uma conceitualização do econômico na qual não teria nenhum sentido a afirmação de algo como itma última instância econômica. o pensamento burguês faz uma volta igualmente radical que leva à constituição da teoria econômica neoclássica. seja pelos gostos dos consumidores ou politicamente. No entanto. dirigindo em última instância as próprias decisões políticas pelos gostos dos consumidores. Esta economia neoclássica se transformou rapidamente no pensamento dominante do mundo burguês e de suas universi- . O econômico agora é visto como o campo de decisões sobre meios escassos em função de fins dados. ao lado da economia política burguesa.Com isso chega a aparecer. dão as metas. ao passo que a produção é o âmbito no qual a orientação pelo critério do lucro leva à satisfação ótima da demanda expressa. Mas levou-a também a seu extremo. considera um plano de fins. os consumidores que. gastando sua renda em forma de demanda. apoiando-se numa deficiência óbvia da economia política anterior. tão importante na economia política. Em todos os seus representantes — de Smith a Marx — está praticamente ausente e apenas marginalmente mencionado um problema econômico que será a bandeira da escola neoclássica: a alocação ótima dos recursos econômicos. portanto. A teoria neoclássica. que é extra-econômico e que é expresso pela demanda derivada da renda dos consumidores. uma economia política socialista. que Marx chama de socialismo científico. que na escola neoclássica é mantido apenas ocultamente como reprodução do capital amortização — sem maior discussão da problemática anterior. Com isso desaparece todo o enfoque anterior da produção. em função dos quais são dirigidos os esforços produtivos. o que levou a uma teoria da democracia correspondente. São. esta sem dúvida tem o mérito teórico de ter desenvolvido esta problemática. portanto. frente a esta alternativa radical.

conseguiu-se desenvolver teoricamente o problema da alocação ótima dos recursos. No entanto. Horyat. Por outro lado. especialmente em sua teoria do capital. Elementos da economia política burguesa voltaram a aparecer recentemente com o desenvolvimento de novas teorias críticas frente às neoclássicas.dades. por outro lado. Foram confrontadas. porém. a partir do final dos anos trinta (Kantorovic). como fez com a marxista. Para entrar agora na problemática atual da economia política. portanto. transformando-se esta última no pensamento burguês dominante. a economia política tem que recuperar sua afirmação de que entre todas as decisões dos consumidores ou produtores apenas são viáveis aquelas que não destroem esta reprodução do processo pro- . economia política e teoria da destinação de recursos em sua forma neoclássica. a escola neoclássica rompeu também com a economia política burguesa. tinha que se defrontar ferozmente com a nova problemática da destinação dos recursos e conseguiu. Por um lado. podemos apenas esboçar a posição básica que uma economia política atual deve focalizar. Seus portadores são. uma formulação satisfatória de suas posições recentemente. Venek e sua escola. Sua posição foi assumida também pela corrente -principal da sociologia e expressa em termos gerais na metodologia de Max Weber e sua posição diante dos juízos de valor. o que deu à economia uma perspectiva nova anteriormente não suspeitada. por um lado. que insiste de novo na necessária reprodução da força de trabalho e busca instrumentos políticos adequados para este fim e. Sendo seu ponto de partida a necessidade da reprodução material. A economia política marxista. sobretudo Keynes continua estreitamente ligado à escola neoclássica. de fato. Keynes. como os de Oscar Lange (nos anos trinta). Embora esta transformação do pensamento burguês esteja muito ligada ao surgimento da economia política marxista. não deve ser reduzida a tal posição "apologética". Schumpeter. com muito menos impacto político. ocorrendo ao mesmo tempo pensamentos socialistas que são claramente neoclássicos.

atualizando-os para nossa discussão: 1) A reprodução material da vida humana é a ultima instância de toda vida humana e. a destinação ótima dos recursos tem sentido. Isso não é pretender poder derivai os valores específicos da sociedade mas poder estabelecer o quadro logicamente prévio à multiplicidade das decisões que devem sei tomadas na economia. sua necessidade e sua importância podem transparecer no momento em que o sistema econômico atual entra em crise por causa de sua impossibilidade de garantir esta mesma reprodução dos fatores produtivos.dütivo em si. portanto. é capaz de englobá-la — ao passo que o pensamento neoclássico exclui as preocupações da economia política na medida em que declara a destinação ótima dos recursos como a raiz do problema econômico. transforma-se em ideologia. As exigências de tal destinação. recentemente. necessárias e imprescindíveis. com a exclusividade que dá à destinação de recursos. Sendo ela uma teoria que parte da reprodução dos fatores de produção. portanto. os elementos de julgamento centrais derivados do enfoque da reprodução da economia política. são secundárias. não pode oferecer lugar à preocupação teórica da economia política. Isto permite agora que focalizemos os problemas atuais da economia política. impõe um padrão objetivo dentro do qual. Para que a reprodução funcione. embora de suma importância. de sua liberdade: o homem morto — ou ameaçado de morte — deixa de ser . Portanto. Na medida em que a teoria neoclássica radicaliza sua insistência na destinação dos recursos. portanto. pelo menos. Repitamos. Embora seja possível situai a problemática da alocação dentro do modelo da economia política. a economia política engloba a preocupação teórica neoclássica — ou. nem todas as decisões e aspirações subjetivamente aceitáveis são objetivamente possíveis. a teoria neoclássica. apesar de todas as conquistas alcançadas. portanto. Temos ali também a razão do conflito entre economia política e teoria neoclássica. A reprodução.

cristão. à qual a teoria neoclássica restringe todo o problema da liberdade humana. na progressiva destruição do meio ambiente e no malba- . Ela se torna. O meio ambiente não é um fim em si. No mundo burguês atual as falhas da reprodução dos fatores de produção se fazem notar de uma maneira nova e inauditamente urgente. um a priori de todas as suas decisões. Surge no âmbito prático e no teórico sucessivamente. que desemboca num desemprego dramático. Da própria necessidade de reproduzir a vida humana material se segue a necessidade de garantir a reprodução da natureza ou. Apenas em parte surgiram nos próprios países do centro.livre. budista. do meio ambiente. Pará ser muçulmano. em termos atuais. Daí surge a problemática atual da economia política. Com muito mais força impulsiva se fizeram notar nos países dependentes. porém. e sempre de novo segundo as condições. liberal ou comunista é preciso viver materialmente porque só pode sê-lo se viver. Sendo neste sentido ilusória. Trata-se dos grandes problemas da extrema miséria. ilusória. ameaçando a própria estabilidade do centro e obrigando a um enfoque diferente por parte dos organismos políticos que definem a política imperial dos centros em relação aos países dependentes. 2) A reprodução dos elementos derivados desta reprodução material da vida: trata-se da reprodução constante do aparelho produtivo — substituição e investimentos líquidos — e da própria natureza. pois apenas em intercâmbio com ela pode ser reproduzida a vida humana material. portanto. exceto se decidir morrer. Na economia política é preciso elaborar constantemente. na explosão demográfica. mas a mediação material imprescindível da reprodução da vida humana em seus termos materiais. este quadro objetivo e material da liberdade humana que condiciona inevitavelmente a liberdade do consumidor propriamente dita. Às condições da reprodução de sua vida material formam. não serve. da expulsão dos produtores' potenciais do sistema da divisão mundial do trabalho. portanto. independentemente do contexto sociaí no qual vive.

este centro (EUA) tem que perfilar uma política para enfrentar tais problemas. a incapacidade da teoria neoclássica para dar categorias de interpretação para as crises que se aproximam é óbvia e leva a uma frustração rápida frente a elas. Reprodução da vida humana. a uma progressiva revitalização da economia política. Ao homem que morre de fome pode ensinar como escolher com seus recursos limitados a sepultura que lhe propicia a maior utilidade marginal. Do ponto de vista da burguesia imperial. e se sabe que. com sua insistência exclusiva na destinação de recursos. a burguesia imperial precisa de outras soluções. não pode senão dizer como levar "otimamente" a sociedade humana à sua própria destruição. Neste ambiente geral. portanto. sem uma compreensão teórica mínima. Contudo. Portanto.ratamente desenfreado das matérias-primas. voltou-se com necessidade pujante para a elaboração de enfoques teóricos da problemática da reprodução dos fatores de produção. e o desastre que podem provocar não é menor do que o de uma guerra atômica. isto provocou um auge insuspeitado da . a única de longa continuidade de elaboração. não se pode traçar uma política coerente. devem ser solucionados pelo menos num grau tal que o próprio império pos^ sa se estabilizar. emprego. mas não lhe oferece escapatória da sepultura. Não há um mínimo de categorias para interpretar a situação. Não apenas o centro imperial mas todo o mundo burguês se compenetra. No entanto. a partir da Segunda Guerra Mundial. Esta crise geral da reprodução dos fatores de produção' levou. o único pensamento nesta linha do qual esta vitalização podia partir era a economia política marxista. se preocupa com problemas cuja existência as teorias burguesas negaram já há mais de um século. Todos estes pro-: blemas são resultantes dos fracassos da reprodução dos fatores de produção. De fato. meio ambiente têm que ter uma solução. A existência mesma do sistema mundial está em jogo e possivelmente a da própria vida humana. No grau em que este sistema mundial está organizado por um centro imperial mundial. No campo econômico.

O Clube de Roma. o próprio Robert McNamara com o Banco Mundial e. E o que havia era a economia política marxista. embora num grau limitado. ultimamente. e que em seus escritos seja notável o esforço em transformar conceitos marxistas básicos para esta nova economia política burguesa. que cada vez mais são vistos como integrantes de um estudo da reprodução da própria sociedade. Sua conceituação. nó próprio âmbito das universidades burguesas. distanciando-se rapidamente da economia política marxista. acompanhados por um semnúmero de instituições que estão nesta linha. que parecia ter terminado há um século atrás. porém. porém. ou em estreita ligação com eles. Sem dúvida. voltou assim a partir dos próprios centros do poder imperial.economia política marxista. Esta nova economia política burguesa não podia surgir nas universidades. que não estavam preparadas para isso a não ser excepcionalmente. Não é por acaso que o fundador da Comissão Trilateral. A economia política burguesa. é o fato de que naquela mesma década se formava novamente algo que existiu apenas há um século: uma economia política burguesa. em grande parte é constituída por uma transformação e adaptação desta própria economia política marxista em função de seus fins imperiais. esta nova economia política burguesa tinha que partir do que dispunha. que em grande parte se apoiou num recebimento muitas vezes arbitrário e deformador da própria economia política marxista. o esforço da Comissão Trilateral em criar uma visão mundial da reprodução econômica como condição da estabilidade social. de uma "sociedade tecnotrônica" futura é visivelmente . como as universidades burgyesas não tinham formado pensamentos adequados para a nova e urgente problemática. Zbigniew Brzezinski. pela primeira vez em sua história. seja um "sovietólogo". Ela surgiu nos departamentos de estudo e planejamento dos próprios organismos políticos que fazem a política do império. que nos anos sessenta entrou. Mas. por exemplo. O que chama ainda mais a atenção. no plano do meio ambiente e da reorientação dos estudos sobre a população. a Comissão Willy Brandt das Nações Unidas são esforços nesta linha.

o que provavelmente provocará no futuro uma reformulação do ensino universitário tradicional da economia para tornar as universidades funcionais a novos pensamentos já dominantes no âmbito político burguês. A nova economia política burguesa não se sente em casa nas universidades. Isto tinha que levai1 a uma cisão entre o pensamento burguês politicamente vigente e a tradição estabelecida do ensino econômico nas universidades ocidentais.para o uso em função da estabilização ideológica da sociedade norte-americana. mas as universidades já não servem para a elaboração de pensamentos que entram em contradição com seu ensinamento tradicional. Primeiro levou à elaboração do pensamento burguês atual fora do âmbito das universidades. Cremos que já se podem vislumbrar algumas linhas desta reorientação do próprio pensamento econômico. Por um lado. Trata-se de discussões extremamente abstratas que. Desemboca na demonstração da impossibilidade de uma homogeneização dos fatores trabalho e capital em termos desta . depois da Segunda Guerra Mundial. Já mencionamos o fato de o pensamento de Keynes ter provocado uma primeira confrontação com a teoria neoclássica. sobre a qual esta teoria é construída. na crítica da teoria econômica neoclássica e. na crítica da economia política marxista. No entanto. sem produzir uma ruptura. no entanto. aparecem pensamentos de ruptura que provavelmente terão uma importância-chave para a formulação teórica da nova economia política burguesa. Os que o elaboram saem destas universidades. Das duas críticas está surgindo a orientação teórica abstrata desta nova economia política burguesa. formam a referência teórica das necessidades prático-concretas mencionadas. Referimo-nos à importância atual das discussões teóricas da Escola de Cambridge (Inglaterra) e a todo o surgimento de uma nova escola de economia política que se autodenomina neo-ricardiana (Jóan Robinson. Em relação à teoria neoclássica esta crítica é dirigida para a função de produção básica. por outro. Estes exemplos podem ser dados aos milhares. Este neo-ricardismo é exercido em duas frentes. Sraffa).

Marx solucionou este problema da comensurabilidade dos fatores da economia política clássica de Smith através da teoría do valor-trabalho. No entanto. O que. porérq.gostaríamos de mostrar é. Salama. Napoleoni. em seus representantes mais destacados. Em seu aspecto . Nisso consiste a grande importância de Sraffa que tenta formular esta solução sobre a base de um "sistema padrão" que substitui a comensurabilidade anterior derivada da teoria do valor-trabalho. e é notável o impacto que este pensamento neo-ricardiano teve sobre o pensamento marxista europeu que. certamente não depende apenas de seu conteúdo teórico. Esta nova escola neo-ricardiana. Trata-se do problema que Marx enfoca como o da comensurabilidade. tenta solucionar este problema teórico básico prescindindo da" teoría do valor-trabalho. etc. Não é aqui o lugar para se discutir os alcances e as debilidades desta teoria.teoría. Trata-se de um processo teórico que acompanhou a própria constituição do assim chamado Eurocomunismo. Trata-se de um processo de mudança que está levando a um ressurgimento da economia política burguesa e que está tendo impactos sumamente fortes sobre a própria economia política marxista . que a economia política no mundo de hoje entrou num: rápido processo de mudança que é produto da necessidade de interpretação dos problemas da própria reprodução do sistema e que obriga o próprio pensamento burguês a uma íe-situação do pensamento neoclássico que até agora manteve o monopólio nas universidades e no ensino da economia. De fato. Benetti. Garegnani. Coletti. está abandonando a própria teoria do valor-trabalho (Dobbs.tradicional. Não podemos nem queremos predizer aqui o resultado que terá esta discussão teórica abstrata.). Até que ponto estas novas teorias se imporão. somente sobre a base desta teoria do valor-trabalho a crítica de Marx à economia política clássica teve como resultado sua afirmação da transformação necessária da sociedade capitalista em socialista. Até agora os teóricos neoclássicos foram incapazes de refutar tais críticas. embora esta tenha servido de ponto de partida para as novas formulações dadas.

Surge primeiro uma posição teológica do governo dos Estados Unidos e. Esta sur- . segundo a qual a religião é tratada como um assunto privado. levando ao abandono total da economia política por1 parte da teoria econômica burguesa. não poderá tornar a fazer uma crítica da economia burguesa do tipo que Marx fez da economia política burguesa de seu tempo. que se impõe a nível do império. Se não for capaz de recuperar a teoria do valor trabalho. Hinkelammert) A teologia do império aparece em sua nudez nos Estados Unidos na década dos 70 e logo se estende rapidamente. pois somente desta maneira poderá evitar uma renovação da crítica marxista que ocorreu no século XIX. Daqui em diante procuraremos formular algumas teses sobre o pano de fundó e o conteúdo deste fenômeno.teórico. posição que é defendida publicamente e reforçada por seus respectivos . -paralelamente. a constituição de uma nova economia política burguesa num plano mais amplo do que hoje dependerá certamente de sua capacidade de evitar a teoria do valor trabalho como seu fundamento. militares e policiais. 2 A TEOLOGIA DO IMPÉRIO (Franz ]. Por outro lado. É rompida assim uma fachada tradicional da sociedade burguesa. Tratasse de uma teologia política a partir do exercício do poder. O Estado burguês volta a assumir uma posição religiosa expressa e começa assim a participar da§ defrontações que surgem entre grupos religiosos. a própria economia política marxista dependerá em seu futuro da solução deste mesmo problema teórico.aparelhos repressivos. em outros governos. 1 A resposta à Teologia da Libertação Esta teologia do império é evidentemente uma reação e uma tentativa de resposta à teologia da libertação.

não ir ao cinema e não fumar. cuja origem é antes apolítica. portanto. percebem o Estado como próximo da besta do Apocalipse e esperam o .gira na América Latina durante os anos sessenta. alcançando um impacto público maior entre 1970 e 1973. São importantes nesta ética precisamente não dançar. com alta tendência a se isolarem de todas as esferas políticas. Tende à formação de comunidades separadas que formulam sua ética de preferência em termos puritanos. Nelson Rockefeller já tinha anunciado. de uma maneira maniquéia. no entanto. a partir de sua. especialmente a experiência da Unidade Popular remexeu suficientemente o terreno para que aparecesse uma reação em massa. há cerca de cem anos. O mundo que ameaça o fiel crente é o mundo da política. ao passo que o mundo da política e do Estado. altamente ativa no campo econômico. Contudo. que considera a política como algo mundano. Trata-se. Trata-se do fundamentalismo protestante. Embora seja tão desconfiada em relação à política e ao Estado. já o Relatório Rockefeller chama atenção especial para este novo fenômeno. onde busca o lucro e incentiva toda atividade comercial. constituem um perigo para ele. afirmação pelos Cristãos para o Socialismo no Chile da Unidade Popular.e todos os outros. não beber. Sentem-se os escolhidos de Deus. Esta reação nasceu a partir de u m movimento religioso dos EUA que se formara. depois de sua viagem pela América Latina em 1968. não o mundo do mercado. mas com um forte acento antipolítico e antiestatal. de grupos relativamente prósperos. dividem o mundo entre eles . Já neste tempo era notável a grande influência que estes grupos e esta teologia poderia conseguir não apenas na América Latina mas também nos próprios EUA. O fiel pode participar ativamente do mundo do mercado sem nenhum perigo. é. Formou uma corrente religiosa muitas vezes subjacente. alheia à preocupação religiosa e normalmente como seu obstáculo. bem como o mundo das organizações populares. Portanto. esta importância.

uma tarefa executada especialmente pela Igreja Eletrônica. por um lado. a Moral Majority. sua direção espiritual. um governo que assumisse explicitamente posições religiosas e teológicas para basear nelas sua política imperial. o que tornou possível a transformação do fundamentalismo em movimento político. mas cuja importância vai além desse grupo. Este encontro se torna possível pelo fato de que a posição neoliberal reproduz quase exatamente. por outro lado. ambos têm uma posição comum em relação à percepção da política e do Estado. Embora o neoliberalismo o vincule com outro tipo de ética privada. de fato. Importância especial nesta transformação tem o pregador Jerry Falwell. que assume. que é um movimento de massa antipopular sumamente parecido com o que foram os movimentos fascistas dos anos vinte e trinta. que a partir de 1980 chegou ao poder nos EUA com a presidência de Reagan. reduzida às simplificações da ética puritana restrita. com uma teologia sem maiores sutilezas. Estão convencidos de poder sustentar suas posições no que chamam de leitura literal da Bíblia. Nos anos setenta estes grupos são transformados na base de um movimento religioso contra a Teologia da Libertação e a favor do novo conservadorismo de massa. Agora se fazem presentes na sociedade. Fazem dinheiro para agradar a Deus e se isolam dos outros para conservar sua fé.fim do mundo para muito breve. e da importância da busca do lucro e dos mercados. embora seja percebida como a única literal possível. Isso mesmo lhe permitiu . São movimentos fortemente influenciados pela Igreja Eletrônica recentemente surgida. Poderia surgir. Isso permitiu chegar a uma coincidência entre o interesse político liberal e estas correntes fundamentalistas. apoiando a posição política neoliberal e neoconservadora. Surge assim um conservadorismo de massa. portanto. Pensam em termos altamente dogmáticos. que começa a formar um movimento que se origina diretamente nessa tradição fundamentalista. o esquema que o fundamentalismo desenvolvera anteriormente em termos religiosos. no plano da economia e da teoria econômica. Esta leitura é altamente arbitrária.

porém. A ideologia imperial das décadas anteriores era mais a de um capitalismo intervencionista. É no final dos ãnos sessenta. Junto com o choque de interesses. o mercado total A partir do fundamentalismo cristão dos EUA é formulada a nova teologia do império. e especialmente durante os anos setenta. Associações como o American Enterprise Institute criam agora departamentos teológicos. Isso somente é possível. A Aliança para o Progresso é uma das expressões desta orientação política geral. os serviços secretos assumem atividades de promoção religiosa. O neoliberalismo e o fundamentalismo. O Estado liberal já não considera a religião como assunto privado mas a transforma novamente n u m assunto público. contida na Teologia da Libertação.qüé respondesse à Teologia da Libertação — que se vinculara estreitamente com os movimentos populares na América Latina — com uma teologia antilibertadora que tornava possível mobilizar massas nos EUA contra os movimentos populares na América Latina. 2. Para responder à teologia política. Aparece então um ceticismo profundo em relação ao intervencionismo capitalista e surge a impressão de que o reformismo do Estado burguês . cria-se uma teologia política antilibertadora. porque agora o império passa para uma visão da economia mundial e do sistema de mercado claramente diferente da visão predominante nas décadas anteriores. Através da resposta à Teologia da Libertação. os poderes públicos dos EUA assumem sua teologia própria. Surge agora o neoliberalismo antiestatal que corresponde efetivamente a esta nova visão do sistema mundial. que muda profundamente esta orientação. que sustenta toda uma política reformista do Estado burguês. surge o confronto num conflito religioso. a polícia e o exército capacitam especialistas em teologia. o presidente dos EUA dá a todos os seus discursos uma estrutura que transmite um determinado tipo de religiosidade.

" portanto. e o Estado deixa de ter qualquer função em relação ao mercado. Se não existissem tais grupos sociais. é necessário renunciar a qualquer política sistemática de reformas sociais e estabelecer um capitalismo completamente excludente. O neoliberalismo resultante é antireformista e antiintervencionista em relação ao Estado é -sua relação com o mercado. na ditadura militar peruana do general Alvarado. É conservada uma função. Mas este reformismo burguês certamente influenciou de modo decisivo para o êxito da Unidade Popular no ano de 1970. na Frente Ampla no Uruguai. O ambiente político influenciado pela Aliança para o Progresso contribuíra. O governo democrata-cristão de Eduardo Frei inicia no Chile um processo de reformas sociais intenso e sério. Parecia haver uma lógica no desenvolvimento desde a Aliança. que procuram utilizar o Estado para fins reformistas. Fenômenos parecidos ocorreram durante os anos sessenta em muitos outros países: no Brasil do presidente Goulart. Expressa-se especialmente na reforma agrária e no fomento da organização popular pela Promoção Popular nos bairros marginais e no campo. a qual é derivada do fato de continuar havendo grupos interessados. Tanto os neoliberais como os neoconservadores tiraram desta experiência a conclusão de que a política de reformas do Estado burguês não é mais do que um passo para a transformação da própria sociedade burguesa em sociedade socialista. até a Unidade Popular. O mercado é tratado como a instância capaz de resolver todos os problemas da sociedade. Um antecedente importante para esta interpretação é a experiência chilena dos anos sessenta. O Estado adquire. a única função de derrotar e eliminar aqueles movimentos sociais que o querem utilizar para estes fins. sem dúvida. no peronismo argentino. . O império se sente em perigo e responde com uma reorientação completa de seu enfoque geral da política de reformas. não haveria Estado. O próprio reformismo burguês parece ter uma lógica que acabará destruindo a sociedade burguesa.tende a subverter o próprio caráter burguês da sociedade. com sua intenção mais revolucionária. com sua intenção reformista. Se se quer estabilizar a sociedade burguesa. para a possibilidade de seu surgimento.

A experiência correspondente pode ser resumida através de um lema que a descreve perfeitamente: da revolução à reforma. Assim.O Estado. Esta confiança é rompida nos anos 60 e 70. portanto. movimentos populistas e reformistas na América Latina se transformam em movimentos revolucionários. neste sentido. Daí surgiram os movimentos social-democratas atuais que se orientam predominantemente por metas escolhidas dentro do quadro das possibilidades de estabilidade da sociedade burguesa. a experiência européia. É um Estado militante do mercado. Neste mesmo sentido. Especialmente depois da II Guerra Mundial. de um Estado "anti-Estado". que confia em poder cumprir todas as metas realistas dos movimentos revolucionários socialistas dentro da sociedade burguesa. a política reformista do Estado burguês levou. tem sua única legitimidade na destruição das forças sociais que se opõem ao mercado. era. Tratase. inspirou o desenvolvimento latino-americano das décadas de 50 e 60. Trata-se de um reformismo seguro de si mesmo. cuja necessidade tem sua origem na falta de compreensão dos intervencionistas e reformistas. É um Estado que rapidamente se transforma num Estado terrorista. Nela. . o que leva ao enfoque oposto ao sistema capitalista. Estado totalitário montado em cima do mercado total. à dissolução desses movimentos revolucionários e à sociedade burguesa. As sociedades burguesas européias de hoje ainda funcionam com a presença desta experiência. o refoimismo do Estado burguês se mostrara eficaz contra os movimentos revolucionários surgidos no século XIX. A experiência latinoamericana destas décadas apontava para o sentido contrário. na Europa Ocidental. de um Estado empenhado na destruição do Estado para que o mercado possa ser o meio de socialização exclusivo de toda a sociedade. particularmente. Da mesma maneira inspirou a Aliança para o Progresso e o governo reformista de Frei no Chile dos anos 60. Fazem-no com . Esta transformação do mercado em mercado total termina com um desenvolvimento anterior do sistema capitalista que se baseava numa experiência contrária.

Nesse tempo havia um espírito sério de reformas e existia a disposição de realizá-las. Insistir. Por um lado. exatamente. depois. esses movimentos reformistas queriam reformas. formando assim um novo tipo de movimentos revolucionários. Os movimentos reformistas têm que se definir nos anos 60 e 70 diante destas duas alternativas e. pelo contrário. se tornou nefasta. A experiência latino-americana das reformas sociais é uma profunda frustração resultante de sua ineficácia e da busca de caminhos para além da sociedade burguesa que possam assegurar o êxito de reformas. se encontraram diante de uma alternativa que. Não se duvidava. O mesmo se pode dizer de muitos partidos social-democratas ou democrata-cristãos da época. por outro lado. que na sociedade burguesa não podem ocorrer. Exatamente a seriedade do esforço reformista deste período explica o fato de que os movimentos reformistas sejam reestruturados e tendam a se transformar em movimentos revolucionários. aparecem as correntes que se definem na linha da mudança de estruturas. Um reformismo sem seriedade teria levado a reclamar um reformismo mais profundo. Na medida em que. aparecem os grupos que impulsionam um capitalismo anti-reformista que . Trata-se antes de um movimento que busca com seriedade a solução dos problemas econômicos e sociais pendentes e que está disposto a aceitar sacrifícios neste caminho. uma mudança que só podia ser revolucionária. mas queriam realizá-las dentro da estabilidade da própria sociedade burguesa. como resultado. Realmente. isso é impossível.tanto mais força quanto mais experimentam os resultados das reformas do Estado burguês. da seriedade de muitos dos reformistas burgueses deste período. como aqueles que promoveram o desenvolvimentismo da CEPAL e o modelo de substituição de importações. se dividem. Contudo. Isso ocorre com maior força quanto mais sério é o esforço de reformas por parte da sociedade burguesa. os reformistas dos anos 50 e 60 na América Latina não são puramente demagógicos. O próprio impulso reformista da sociedade burguesa leva à mudança revolucionária. na estabilidade da sociedade burguesa resultou na necessidade de ficar atrás nesse ímpeto reformista. porém. Realizar eficientemente as reformas iniciadas exigiu mudança das estruturas.

Para salvar o capitalismo. e o capitalismo na exigência igualmente inevitável de abandonar a tradição reformista para voltar a ser capitalismo bruto. O próprio reformismo transformou-se numa exigência inevitável da mudança de estruturas. A conseqüente polarização que agora ocorre na América Latina é a seguinte: reformas ou capitalismo. a relação entre capitalismo e reformismo mudou profundamente. isso leva a uma nova polarização maniquéia que permi104 n . Já não é apenas reforma ou capitalismo mas também direitos humanos ou capitalismo. Por de trás deles não há nenhuma seriedade porque não há essa profunda convicção que dá legitimidade intrínseca à exigência popular da satisfação das necessidades básicas que tinha o reformismo dos anos 50 e 60. na América Latina se pode dizer que na origem dos movimentos revolucionários de hoje se encontra um movimento reformista. Trata-se neste caso de um reformismo demagógico. em El Salvador.parece ser a única alternativa possível contra a lógica revolucionária do ímpeto reformista. que nega os direitos humanos mais essenciais. Na ideologia imperial isso leva a considerar todo reformista como socialista. Há um grão de verdade nesta posição: reformismo hoje significa a mudança do capitalismo para o socialismo. esteja consciente ou inconsciente deste fato. agora é mais um reformismo cínico da guerra anti-subversiva que realiza reformas para quebrar os movimentos populares e que reverte as reformas no momento da vitória sobre eles. Trata-se de algo que realmente é imposto por uma lógica dos fatos. a sociedade burguesa se define num sentido antireformista. Portanto. Portanto. Se na Europa ainda se pode dizer que na origem dos grandes movimentos reformistas de hoje se encontra um movimento revolucionário. sacrifica o humanismo liberal anterior e transforma o capitalismo num regime declarado de destruição humana em nome do capital e do mercado. Se sobrevive algum reformismo burguês. O império reage diante deste fato. tal como aparece naqueles países onde existe um moviñiento popular combativo com possibilidades de êxito como. Guatemala ou Honduras. Ao aparecer o reformismo revolucionário como única perspectiva eficaz e realista do reformismo. por exemplo.

não misericórdia. cuja honra é a vingança pelas ofensas recebidas por parte deles. exatamente. pelo intervencionismo e pela planificação econômica. Aparece assim um Deus que devora os pobres. ao identificar o diabo e a Besta com as reformas econômicas e sociais. como ocorreu durante a década de 70 nos EUA e foi exportada dali para a totalidade do império. Império e mercado: o Deus-Dinheiro Ao contrapor rigidamente capitalismo e reformas sociais. sua utopia fulminante. capitalismo e direitos humanos (econômicos e sociais). 3. um Deus que pede sacrifícios. mo. Desta maneira o mundo é polarizado entre Deus e o Diabo. que se realiza pela destruição e eliminação de todas as resistências contrárias a ele.. / Aparece o Deus que é glorificado pela destruição de seus inimigos. o diabo e a Besta são identificados com a reivindicação dos pobres. a ideologia do império se torna nitidamente maniquéia. entre a nova Jerusalém prometida pelo mercado e a Besta promovida pelo reformis. Esta relação com o Deus-mercado é completamente sacrificai. A ¡ divinização do mercado cria um Deus-dinheiro: in God we trust. A morte do inimigo deste Deus é a vida do próprio Deus e daqueles que se relacionam com ele. Da morte nasce a vida. Mas. a honra de Deus é a destruição dos pobres.te. dos movimentos populares e de toda reivindicação do direito à vida de todos. Introduz nas lutas sociais um princípio transcendente de polarização segundo o qual a destruição de um pólo — o das reformas sociais — é a realização do outro — a harmonia paradisíaca dos mercados. entre Reino do bem e Reino do mal. um Deus que não é: mais do que a personificação transcendentalizada das leis do mercado. Portanto. O mercado é visto como o caminho para o bem absoluto da humanidade. da destruição da resistência aos resultados destruidores dõ mercado e da morte dos que se lhe opõem nasce o brilho ^ . a aliança do neoliberalismo com o fundamentalismo cristão.

determinados enfoques apocalípticos. que criou o mundo concreto circundante apenas como campo de aplicação de sua lei central: o dinheiro e o capital. O próprio mercado se transforma num altar sacrificai e a vida nele é um ato religioso. trata simplesmente de haver destruição no caminho. única lei válida de Deus. Resistir seria orgulho humano. A própria destruição e morte agora parecem ser salvíficas. ao qual há que sacrificar toda vida humana em caso de necessidade.utopista da harmonia preestabelecida do mercado. Proteger árvores e animais é mais uma rebelião contra a natureza. Por isso jamais pode ser protegida protegendo-se árvores e animais. a natureza está adequadamente protegida se esta destruição for realizada dentro dos limites da sociedade do mercado. O que a tradição liberal chama de natureza não tem nada a ver com o que é a natureza concreta. seu" coração se alegra para cumpri-la. A lei natural dos antigos sacrificava a Lei do Valor em favor da vida humana concreta. Esta lei natural identificada com a Lei do Valor só conhece a vida do capital no mercado. Não se. se chegar a limitar as leis econômicas do mercado. Quando o homem conhece esta sua lei. o homem chega a compreender o mercado como a lei básica que o Deus-Criador fundou em sua natureza e em sua alma. visando à maximização dos lucros. ao se conhecer. esta nova lei natural liberal sacrifica agora a vida humana concreta às exigências da Lei do Valor e do mercado. especialmente de Aristóteles e Tomás de Aquino. Quando seus autores percebem o caráter destruidor do sistema e a possibilidade de . Esta lei é a Lei do Valor. que criou o homem de uma maneira tal que. Deús como criador foi transformado num criador da Lei do Valor e do mercado. Deste modo substitui-se a lei natural dos antigos. Esta teologia parte sempre de uma teologia do Deus criador. O Deus criador assim estabeleceu e ele arca com os riscos e as conseqüências. Isso explica a proximidade desta teologia do império com. Embora todas as árvores sejam destruídas. que é uma lei da vida concreta que concede ao homem o direito de viver.

Ao falarem de seu império como um milênio (tausendjaehriges Reich) ou como Terceiro Reich (ãrittes Reich). O Apocalipse é agora o grande auto-sacrifício humano que traz a redenção. Desta maneira dá um aparente sentido à destruição total e. Realizaram-no com o mesmo sentido sacrificai que deriva a esperança de realização de seu milênio do sacrifício dos outros. Deus promete este milênio àqueles que mantêm esta lei embora a terra pereça. especialmente. O holocausto do povo judeu se insere nesta sacrificialidade. A teologia do império tem esta perspectiva apocalíptica que lhe dá sua coerência aparente. expressa pelo milênio do Apocalipse. seu suicídio coletivo.acabar com a própria humanidade. Isso adquire novamente um sentido sacrificai. neste século. à continuação sem limites de um sistema econômico-social destruidor. Adquiriu cada vez mais este significado de fuga destruidora que legitima sistemas de opressão para além da própria existência da humanidade e de seu suicídio coletivo. Pode continuar com seu esquema básico sem se preocupar mesmo com a sobrevivência de ninguém. através do milenarismo. para que além dela surja o milênio da humanidade. Quanto mais o pensamento moderno se transforma num pensamento de práxis. criam uma esperança para além da destruição total. tanto mais a referência ao milênio se transforma no pensamento da negação da práxis libertadora para justificar a destruição até o fim. Viu-se pela primeira vez a capacidade ideológica do milênio na referência que a ele fizeram os nazistas nos anos trinta. É nesta forma que o Apocalipse e a esperança do milênio existem na idade moderna e. porque a destruição tem que vir. estabeleceram esta referência aproveitando-se também desta possibilidade de legitimar. Esta percepção do milênio não conserva nenhum sentido de libertação humana mas é a legitimação da dominação mais absoluta sobre o homem. Deus pede que se colabore. Mesmo que o mundo termine por causa desta fidelidade do homem às leis do mercado. nem sequer de si mesmo. ao prometer a terra nova para além deste fim. portanto. . A destruição da terra e da humanidade aparece como o sacrifício do qual resulta a glória do milênio.

Nesta ética individualista o próprio autor da justiça se identifica com o cumprimento de contratos aos quais jamais é possível se contrapor. mas se refere unicamente " à recomendação referente aos resultados econômicos justamente obtidos. que são sua renda. 4. pelo contrário. ò indivíduo é livre na determinação destes resultados. se identificam. e não a raça superior. Transforma até o respeito à vida do outro num aspecto da propriedade privada que cada um tem sobre seu próprio corpo. Não interfere com a justiça.A teologia do império repete hoje este fenômeno e parece ter um êxito parecido com aquele dos nazistas. No entanto. è o direito natural consiste no reconhecimento destes contratos como única base legítima da ética. embora ponham agora o mercado no centro. O individualismo ético não reconhece senão os valores do mercado para esta relação com o mundo exterior: propriedade privada e cumprimento de contratos.víduo como homem solitário. que é a rebelião de üma classe dominante contra o direito à vida de todos. Até os próprios direitos humanos são transformados em direitos de propriedade privada sobre si mesmo e o matrimônio. que se defronta com um mundo exterior composto pela natureza objetiva e pelo conjunto de todos os outros indivíduos. a luta de raças que os nazistas propagaram não era mais do que uma transformação daiwiniana da própria luta de mercados. Fora deste mundo de contratos não há obrigações. Mas ela não é norma ética nem obrigação. um contrato igual aos outros. Ambos têm a mesma raiz. Ética e relação mercantil já não se diferenciam e. Pode destiná-los livremente. com a única condição do respeito à propriedade e aos contratos. com a garantia de que jamais interferirá com a justiça iden- . Fora desta justiça pode existir também o valor da caridade. A justiça é isso: propriedade privada é cumprimento de contratos. O individualismo ético: a privatização da ética Esta teologia do império contém uma ética baseada no indi. Todo resultado obtido no mercado é justo. No entanto.

tifiçada com os procedimentos do mercado. a caridade pode ajudar com . Quando quiser. É uma ética que se refere ao tipo de vida que o indivíduo realiza. Transforma o "não dar" no princípio máximo da ética. sem interferir com sua individualidade. mas a ética obriga a não tocar na situação de miséria em si. mas é. não fumar. A ética privada é a ética do indivíduo que se determina dentro do limite de liberdade deixado pela ética individualista. Na linha do fundamentalismo cristão esta ética privada é uma ética formalmente puritana e rigorosa: não beber. Perante o homem desempregado não reage exigindo solução para seu problema. mas ele não a pode exigir. Trata-se de uma ética sem piedade que exige uma inversão de todos os valores da vida concreta. portanto. Mas é preciso deixar o mercado agir e jamais interferir nele. que transforma qualquer relação humana numa relação abstrata entre objetos. mesmo que pereçam três continentes inteiros. Portanto. pode destiná-los também às obras de caridade. Exige uma dureza de coração nunca vista. reduzindo-a a uma relação mediatizada pelo mercado. mas pede que suporte a situação porque o mercado algum dia a resolverá. a destruição do outro em imperativo categórico. É uma ética que aproveita o espaço que a ética individualista deixa aberto e livre para o comportamento privado. Ao privatizar a ética do comportamento diário. Pressupõe. Deste modo a ética liberal constitui üm âmbito privado não determinado pela ética da propriedade privada e do cumprimento de contratos. Mas fora do mercado não há obrigações. Nos problemas resultantes. pode-se dar esmola. A mesma coisa em relação à dívida externa. Destaca assim os valores individualistas da participação através do trabalho na luta dos mercados. a vigência estrita da ética individualista. ao mesmo tempo. A ética obriga a cobrá-la. É possível dar esmola. sem interferir nela. uma ética do trabalho em função da ética individualista. não dançar. Também contra a miséria não se deve agir mas suportá-la na mesma perspectiva do mercado. destrói qualquer relação direta com os outros homens.

Esta ética não é passiva mas extremamente ativa. ela reage em nome dos . É difícil deixar o pobre e miserável em sua situação de pobreza sem se comover. É difícil cobrar a dívida externa quando se sabe que disso se segue um genocídio incomparável.uma parte da soma cobrada. Mas a justiça exige a cobrança sem misericórdia como imperativo categórico. Chegar à capacidade de tratar o outro nestes termos é certamente um problema moral muito difícil de solucionar. Interiorizada esta ética. a qual é denunciada como um atavismo. se aprende a não ajudá-lo. Uma ética de um indivíduo solitário que luta com Deus contra todos os outros e que garante sua solidão através de sua agressão contra qualquer tentativa de mudar o sentido destruidor desta máquina do mercado. a tolerar infinitamente sua miséria. porém. e mais ainda sua privatização. Realmente. Toda moralidade espontânea se rebela contra um comportamento deste tipo. a não tolerar sua miséria. O próprio sentido desta ética vai contra qualquer sentimento de solidariedade humana. Para que o homem decida não fazer nada diante da miséria e para que sinta isso como seu dever ético. Por isso a ética individualista. tem que haver nele uma inversão de todos os seus valores espontaneamente adquiridos. como seu imperativo categórico. Na ética individualista. Têm que mudar para adquirir a dureza de coração necessária para conseguir um sujeito capaz de sentir a destruição do outro como seu dever ético máximo. É a ética da ação febril e impiedosa nos mercados e passiva diante dos resultados desastrosos a que dá origem em relação aos outros. faz falta uma mudança de coração. Mais difícil ainda é fazer isso tudo como dever. fala constantemente da mudança dos corações. deste automatismo mercantil. Aprendese a ajudar o próximo. porém. É moralmente difícil devolver o desempregado à sua condição de desempregado sem nenhuma ação. tem que conseguir precisamente isso. como imperativo categórico. Esta ética individualista. É uma ética agressiva contra qualquer compaixão ou misericórdia. Na vida comum se aprende exatamente o contrário.

Grande parte da ética da doutrina social preconciliar da Igreja Católica é uma ética privada deste tipo. Apenas muito aparentemente as pessoas entram em confronto com ela. que em certo sentido não é mais do que a expressão política e teológica desta ética individualista. A única condição é que se trate realmente de éticas privadas que não interfiram no âmbito de vigência da ética individualista. No entanto. a ética individualista pode ser combinada com outras éticas privadas. A libertação foi concebida como uma situação na qual é garantido a todos o direito de viver. o que explica que sua politização tenha desembocado nesta teologia do império de ¡hoje. a partir de seu trabalho. a politização do fundamentalismo cristão e sua integração no conservadorismo de massa tinha que integrar esta ética puritana numa orientação ideológica que respondesse às razões políticas do império. durante os anos setenta. A mansão liberal-individualista tem muitas moradas. assegurando a satisfação das necessidades básicas para todos. Foi submetida à vigência da ética individualista e se desenvolve como ética privada num espaço deixado aberto pela ética individualista. portanto. Sendo teologia da vida neste sentido. Dá. Mas há lugar também para éticas até libertinas.mais altos valores da humanidade contra o sentido de solidariedade. Esta ponte foi a reformulação do direito à vida a partir da ética individualista. a ética individualista não é necessariamente puritana no sentido em que o é a ética do fundamentalismo. Ela é uma ética privada que pressupõe e integra a ética individualista. O fundamentalismo cristão dos EUA certamente se desenvolveu no âmbito desta ética individualista. inclusive como o Anticristo. cada vez mais como uma teologia da vida. mas todas estão pintadas da mesma cor. Naturalmente. especialmente à necessidade de criar uma contraproposta à Teologia da Libertação. A Teologia da Libertação foi elaborada. Interpreta este sentido de solidariedade como orgulho humano. um apoio ideal para a atual teologia do império. Contudo. podia se integrar com aquelas projetos políticos que realmente eram orientados para a liber- .

não tem sido mais do que uma filosofia da morte disfarçada como vida. A teologia do império tinha que enfrentar esta teologia da vida humana para desviá-la. morte alheia ou morte própria). Toda a literatura fascista celebra esta luta e seu fim trágico como a verdade da luta em si e. da vida (Esta celebração pode ser encontrada também em Vargas Llosa: La guerra dei fin del mundo. por outro lado. e o sentido de ser vencedor numa luta de morte como vivência da vida. que é um livro que está compenetrado por estas ideologias fascistas da vida como vivência da morte. para o vencedor tirar. No entanto. Embora o Estado intervenha legalmente contra o aborto. trata-se . O direito à vida é agora completamente privatizado. O pensamento fascista fez isso criando. Ela precisa recorrer à afirmação da vida humana. portanto.tação. de fato. Deixa de ser um problema da sociedade e se transforma num problema do indivíduo. Contra o direito à vida que ameaça o império e que é sustentado pela Teologia da Libertação é montada agora uma máquina propagandística em favor de um direito à vida que é totalmente irrelevante para a" subsistência do império. Isso desemboca na celebração trágica da luta na qual os dois lutadores se matam mutuamente para encontrar sua unidade no momento de sua morte. O resultado era sua proximidade dos movimentos socialistas. sem comprometer a própria ética individualista. uma filosofia de vida que. e cada um decide se o dá ou não. portanto. Fez algo que desde o começo do século já haviam feito os movimentos fascistas contra o projeto de vida surgido com o socialismo do século XIX. Na ideologia do império esta referência à vida continua tendo o seu papel. à vida dos não nascidos e declara o direito de nascer como o direito à vida. não pode afirmar a vida humana no sentido concreto como o faz a Teologia da Libertação. não pode servir à ideologia do império sem se referir à vida. Mas. Portanto. seu próprio gozo de vida. É a vida como vitalidade que vive sua expressão máxima ao destruir o inimigo. não aparece da mesma maneira em sua teologia. da morte dele. Trata-se de um conceito da vida no qual a expressão máxima dela é a morte infligida ao outro. na linha do pensamento de Nietzsche. Refere-se.

o que se fez é uma complementação teológica da ideologia do sistema que se defronta. Simplesmente estende o tratamento dos homens.de uma obrigação em favor de determinada ética privada contra a outra. por razões ideológicas levanta-se agora o direito de nascer1. esta fraqueza é decisiva. No entanto. à vida humana não nascida. No entanto. "verdadeiro". com grande coerência aparente. Más continua sendo nada mais do que uma maneira de afirmar o direito de matar. com a Teologia da Libertação. . Assim como aconselha a deixar morrer ou matar o pobre. em todos os campos. Deste modo. A ética liberal não tem nenhum argumento para pedir um tratamento especial para os não nascidos. Não existe a mínima contradição entre os dois tratamentos. sendo a atitude ética que pronuncia o direito de nascer. aquela que leva ao problema da negação deste direito. se transforma em mais um motivo para que o problema que ela ataca continue. que a própria teologia do império promove. No entanto. ao negar precisamente esta única fonte possível de uma nova ética frente à vida não nascida. Os povos não procuram uma morte disfarçada mas sua possibilidade concreta de viver. A teologia do império. Contudo. usado e legitimado pelo sistema. a teologia do império afirma o direito à vida dos não nascidos para evitar o reconhecimento do direito à vida para os seres humanos já nascidos. agora tem a bandeira de que precisava para enfrentar a Teologia da Libertação em nome de algum direito à vida "essencial". A liberdade de aborto não é mais do que a liberdade de tratar a vida humana não nascida do mesmo modo como se está tratando a vida dos seres humanos nascidos. Deste modo. sem questionar o caráter privado da ética. Sua única fraqueza é que se trata de uma celebração da morte disfarçada de vida. tornando-se inclusive extremamente rigorosa. Há agora umá instância teológica que permite que o império se defronte. Somente uma afirmação do direito à vida dos já nascidos pode criar uma nova ética que estenda este reconhecimento da vida dos homens à vida humana não nascida. também deixa morrer ou se matam os não nascidos. o aborto é produto de uma atitude frente à vida humana. com os movimentos de libertação no Terceiro Mundo e na América Latina.

a determinados propósitos. para bom entendedor fica evidente que já estamos. bordeia quase sempre problemas teológicos. Certamente não é de pouca monta o fato de se caracterizar como "teológica" a exacerbação da retórica do mercado. de acordo com a concepção bíblica. O objetivo deste livro evidentemente não se esgota com o mero levantamento da importância do problema. Vimos ainda que existem diversas abordagens possíveis no questionamento acerca das imbricações mútuas entre economia e teologia. Trata-se de ver como enfrentá-lo. A ESCOLHA ENTRE AS VIAS DE ACESSO AO TEMA Vimos. terra adentro. geralmente. . porque levantam o problema sem deter-se nele. no coração das teorias e práticas econômicas. A intenção que nos anima já se tornou evidente para o leitor: o aprofundamento teórico nos interessa na medida em que deriva de exigencias do compromisso prático ao lado dos empobrecidos. Algumas dessas abordagens são aparentemente apenas tangenciais. no capítulo anterior. insinuada a suspeita de que o problema do poder. no mínimo. As maneiras de enfrentar um problema obedecem. em nossos dias. Não diríamos que são superficiais. pois fica. ou de "religiosa" a imposição fascista de modelos econômicos neoliberais.ECONOMIA: O OCULTAMENTO DOS PRESSUPOSTOS (Hugo Assmann) 1. que existem diversos caminhos para mostrar que o entrelaçamento entre economia e teologia é uma questão desafiadora. Toca-se aí numa questão de fundo. no terreno da idolatria. Embora não se avance ulteriormente na hipótese insinuada.

portanto. não bastaria apontar. mas porque a economia não pode evitar o uso de princípios e critérios obtidos fora dela. é a seguinte: que tipo de teologia subjaz às teorias econômicas? Que tipo de concepção do ser humano e do relacionamento entre os homens supõem os economistas como desejável ou possível? É a partir . uma vez mais. Ê a teologia transformada em insulto. É sintomático que a teologia-como-insulto tenha aparecido. com certa freqüência. brindar ao leitor um fartíssimo florilegio de insultos desse tipo. os economistas para atacarem posições de seus colegas. e inevitavelmente o farão. esses economistas se corrijam de seus remanescentes teológicos e façam "pura economia". começou a julgar-se adultamente científica. Teria sido sumamente fácil e até divertido. Isso teria servido. as pretensões ideológicas de uma ciência econômica asséptica e neutra. incursionam pela teologia. não por defeitos de cientificidade apenas.Evidenciou-se também que palavras como "teologia". Pode ser interpretado como um anelo: oxalá. com as quais não estão de acordo. porém. com os quais simulam poder deixar "de lado" o que sempre está "dentro". por uma parte. alguns o fazem precisamente para provocar a seus colegas para que se defrontem com a inevitável questão do poder e não se desculpem mediante sofismas "metodológicos". Ao contrário. como recurso mais freqüente. embora repetitivo. aqui ou acolá. uma vez emitido e registrado o insulto? Secundaríamos. "crença". "religião". de modo algum se inclinam a este tipo de economicismo pseudocientífico. com o dedo em riste. que se valem deste uso pejorativo e insultatório do termo "teologia" e afins. que esse vocabulário irônico pode confundir. que os economistas. já que os próprios economistas são tão assíduos em detectar teologizações na economia. Para nossos propósitos. precisamente desde que a ciência econômica. algum dia. para reforçar nosso argumento de que existe um problema real. A questão. imune a "externalidades" supostamente alheias às puras variáveis econômicas? Sabemos que muitos autores. em que ficamos. na verdade. há pouco mais de um século. na literatura econômica. Por outra parte. Sempre o fizeram. porém. Ocorre. "credo" e um sortido vocabulário de proveniência religiosa são também um recurso despectivo -do qual se valem.

EZCURRA. A Igreja Eletrônica e seu impacto na América Latina. Nuevomar. nos anos recentes. Petrópolis. Uma vez assumido esse patamar. sempre em confronto com tal ou qual concepção do convívio social dos homens. da nossa parte. 1986 (trad. Alfredo. 1984. Agresión ideológica contra. É. Eliminada. 2í ed. 1983. que se torna imperioso estudar as formas concretas — organizacionais. Madrid. incluindo um forte uso dos meios de comunicação. financeiras e de explosiva "luta ideológica" — que esse fenômeno vem assumindo. DEI. la Revolución Sandinista. 1988). 1988. . Multinacionales de la fe Buenos Aires. El Vaticano y la administración Reagan. o próprio estudo das implementações práticas dessa indústria do "consenso" remete aos princípios doutrinários dos quais essa indústria se nutre. visa a consolidar um conservadorismo de massas. provável que o biblista necessite algo mais que hipóteses mais ou menos familiares à literatura exegética. ÍEPALA. -IDEAS. Ed. Para o trabalho pastoral este caminho é de suma importância e auguramos que surjam esforços cada vez mais sistemáticos nesta linha. Séria ingênuo imaginar que um determinado credo econômico pudesse legitimar-se na opinião pública pelo simples fato de contar com "defensores da fé" entre os economistas e políticos. pois. ainda assim se impõe uma escolha entre diversas possibilidades. Ed. Nuevomar. 1 As propostas econômicas do neoliberalismo vêm acompanhadas de uma gigantesca operação adoutrinadora que. Ed Contrapunto. -1986. no entanto. Importa. 1982. A manipulação de temas religiosos se tornou tão ostensiva no terreno da política e da economia. precisará freqüentar também textos econômicos. 1. 1987. 1987. escolher um caminho entre outros possíveis. abrem-se diante de nós ainda diversos caminhos de acesso ao binômio economia e teologia. que procuram legitimar teológicamente a opressão. ASSMANN. Ana Maria. Consideramos da maior importância os estudos que vêm sendo feitos neste sentido. Uma via certamente fecunda seria trabalhar o tema preponderantemente a partir das fontes cristãs da Bíblia e da Tradição. esp. Também neste assunto. La ofensiva neoconservadora. SILLETTA. Hugo. Centroamérica: La guerra de baja intensidad DEI/CRIES. VARIOS AUTORES. Vozes. porém. México.[ desse patamar que se estabelece o discernimento entre teologías perversas e outras.. Guerra de desgaste y religión en Nicaragua¡ Bueftos Aires. México. Não podemos trilhá-los todos neste livro. qualquer adesão a teologías perversas.

por uma via que poderíamos caracterizar como: esforço de identificação e desocultamento dos pressupostos silenciados. Dita nesta forma. a superioridade sacralizada do docente sobre o discente. A que nos estamos referindo? Em termos ainda muito gerais. o ferir como forma de fazer o bem. é a pista das fontes históricas que podem revelar-nos como se foram conformando os códigos comunicativos do credo econômico. E isto a partir da única certeza fundamental: a de que não há . a questão soa bastante abstrata. de forma preponderante embora não exclusiva. Em muitos casos — sobretudo no plano das crenças de todo tipo — chegou-se àquilo que Heidegger chamava "o pior esquecimento": haver esquecido que algo ficou esquecido. como se verá mais adiante. optamos neste livro. Nosso mundo está saturado de respostas que já não admitem perguntas. etc. tanto no plano das teorias. Em matéria econômica existe uma série de "convicções" cuja irracionalidade é supina. uma persistência no melhoramento das perguntas. uma capacitação para questionar o que se apresenta como inquestionável. A escolha deste caminho (o dos pressupostos tácitos) tem muito a ver com a metodologia geral que nos propuseníos neste livro: umã espécie de pedagogia da pergunta. mas que ficaram "racionalizadas" no sentido comum (dos economistas e do povo em geral) ao ponto de parecer uma profanação aberrante querer questioná-las. mantendo um alto apreço a todos os que vierem a enriquecer a nossa perspectiva. como no da sua trivialização no sentido comum. o terrorismo de divindades contra os "culposos".). mas não o é. também nos pressupostos da economia há muito de que espantar-se. Entre os vários caminhos possíveis. Como se chegou a isso? Fazem falta estudos históricos que nos iluminem. para visualizar a abrangência da questão que nos ocupa. Assim como um professor autoritário se espantaria se tomasse consciência da quantidade de critérios violentos e anti-humanos que se encontram na raiz dos métodos autoritários (a intimidação como arma do amor. trata-se de um esforço de desenterrar algumas das raízes mais profundas do entrelaçamento da economia com a teologia.Extremamente fecunda.

Juan Luis Segundo nos entregou uma propedêutica apreciável acerca desse requi2. De pouco ou nada servem os moralismos nesta tarefa desocultadora. Mas não o consegue fazer.. A eterna busca do "inimigo" 2 . muitas vezes — nos propõe caminhos enganosos. a questão dos pressupostos — outros e contrários à vida — que foram ocultados. simulações deste mesmo princípio de opção pela vida. Por isso mesmo. 1987. A origem do arquétipo do inimigo deve ser buscada. sem invocar. Convém. E a demonização (dos "maus") só é factível/ feitiça (fetichismo) a partir da sacralização (dos "bons").. em si mesma. A realidade da história humana é espessa. a cria e recria sempre de novo. analisa as imbricaçóes entie teologia e política no que diz respeito à paranóia do "inimigo". entender que esta é uma herança que provém dos dominadores. Isto requer demonizações. a economia — e a própria teologia. essa enfermidade "religiosa" do Ocidente. Beltz-Verlag. O autor é um teólogo e psicólogo norte-americano. Hoje a sua complexidade é tanta que se requer uma flexibilidade enorme para não ser vítima de esquemas simplistas. . . Sam.nenhuma forma abstrata de amor que possa substituir o sentido humano e cristão da luta em favor da vida humana real e concreta. As esquerdas caem com freqüência em maniqueísmos simplistas. e as economias necrófilas se ostentam plausíveis como amor "realista" ao próximo. KEEN. no mesmo instante em que destrõem suas vidas? É sobre isto que gostaríamos de encaminhar "melhoramentos de perguntas". As teologías da morte se apresentam como teologías da vida "verdadeira". de uma vez por todas. Bilder des Boesen. Para escapar a esta certeza. mas sempre potencial). Weinheim/ Basel. legitimação consistente. provavelmente. em última instância. na ameaça que os oprimidos sempre representaram para os poderosos (ameaça real ou imaginária. contínua a gerar esquemas maniqueus. e fugir das opções que ela gera. os subterfúgios que simulam a prática do bem aos homens. Como o conseguem? Como se estruturam essas inversões? Esta é. no essencial. A dominação não tem. concretamente na economia. sempre de novo. Seria um equívoco apoiar-se em teorias conspiratórias. Wie man sich Teinde macht. Como funcionam.

Fé e ideologia (tomo I de: O homem diante de Jesus de Nazaré). há teorias e modelos econômicos efetivamente prejudiciais a muitos seres humanos e. de hoje . de pressupostos não realistas das teorias econômicas. da maioria). isto é. com certa freqüência.cionamento dos credos econômicos. mas o desafio que enfrentamos é realmente este: que foi que conferiu o caráter de "evangelhos" a teorias opressoras? 2.3 Se quisermos entender de fato alguma coisa acerca do fun. SEGUNDO. mereceram a "fé" de muitos. que o reclamo de uma elucidação mais clara dos pressupostos das teorias econômicas aparece. 1985. são aceitos como o melhor encaminhamento para a felicidade de todos (ou ao menos. Não será este o ponto crucial que deve ser entendido e :explicado? Pode parecer chocante. geralmente o conceito fica circunscrito em níveis pouco satisfatórios para levantar as questões mais radicais. como os exemplos indicarão. Fala-se. Foram "testemunhados" — para usar a terminologia de Juan Luis Segundo — de tal forma que se tornaram críveis. Juan Luis. por outro. Mas se. OS DIFERENTES NÍVEIS DOS PRESSUPOSTOS Talvez seja conveniente uma aproximação gradual à compreensão dos pressupostos.sito exigente da flexibilidade. na discussão econômica. Esse tipo de discussão pode ser-nos 3. não basta denunciá-los como conjuntos de crenças. isto só se explica porque se tornaram plausíveis. Ed. Veremos. necessários aos seres humanos para poderem viver e conviver. por exemplo. por Um lado. Mas. Talvez pareça estranho a algum leitor que estejamos usando uma linguagem tão carregadamente religiosa. São Paulo. É necessário captar em que principios se apóiam para conseguir estruturar-se como "boasnovas" (evangelhos) e tornar-se plausíveis. com vistas a assinalar o abismo existente entre as teorias e a economia real ou para evidenciar que os economistas têm pouco a dizer sobre certqs desafios cruciais. apesar disso. mais abaixo. além de algumas hipóteses valiosas sobre como se estruturam os sistemas de crenças. A palavra pode designar coisas bastante diferentes. Paulinas.

Não registramos igrejas que estejam em funcionamento hoje". Não a encontrou no mapa turístico. 4 Quem leu os livros filosófico-místicos da fase final da vida desse economista pode certamente discordar de algum detalhe quase desesperado da sua descrição da irracionalidade das teorias econômicas ou sobretudo das soluções que propõe (por 4. O guia explicou: "Mas esta é hoje um museu. inclusive para perceber chocantes analogias entre a vacuidade de certas teorias econômicas e paralelos constatáveis na teologia. este lhe explicou: "Não registramos igrejas em nossos mapas". F„ Harper & Row. Esta experiência é introduzida por Schumacher para asseverar-nos que algo semelhante sucede com os "mapas filosóficos": sempre se omitem coisas que podem ser de vital interesse para nós. e não havia intérprete que viesse em minha ajuda. E. Lembro-me que. E recordando a sua extensa carreira como economista. . Para começar. ls. Contestou-lhe que. Perguntando ao seu guia. a minha perplexidade foi completa. porém. onde certas coisas não foram registradas por uma clara determinação de cunho ideológico. F. desde a escola e a universidade.. London-New York. SCHUMACHER. de um enfoque bastante limitado. quis visitar runa antiga igreja histórica. por muitos anos. p. meditemos sobre algumas afirmações que se referem ao assunto. E. comecei a suspeitar da sanidade dos mapas". acrescenta: "Ao longo de toda a minha formação. Trata-se. A Guide foi the Perplexed. Com o propósito de percebermos melhor que o jogo dos pressupostos opera em níveis distintos. em lugar disso. uma determinada igreja constava no mapa. em contradição com o que estava afirmando. tomemos a comparação com mapas incompletos. Schumacher nos relata que. 1977. ao visitar Leningrado. Ela perdurou até que deixei de suspeitar da sanidade de minhas percepções e. tinham-me sido entregues mapas acerca da vida e do conhecimento nos quais nem vestígio havia das coisas que me importavam sobremaneira e que me pareciam de uma importância suprema para a condução de minha vida.útil.

deveria confinar-se totalmente na pura "análise". não deveria propor qualquer tipo de solução a qualquer problema. já que é algo que está excluído "metodológicamente" do seu objeto. são questões externas ao objeto da sua ciência. portanto. Que significaria semelhante resposta (que corresponde de fato. não têm por que preocupar o economista. a uma estranha constatação: de acordo com esse primeiro sentido da resposta do economista. assim. Apenas silencio totalmente a seu respeito. seria: são questões que não se podem expressar em variáveis estritamente econômicas. em Small is Beautiful). o mais usual entre os economistas. nesta visão do específico da economia. Que significariam pressupostos. este postulado é comum. trata-se de meras "externalidades". nesse caso? Embora soe genérica. Um economista que fosse coerente com semelhante postulado metodológico da sua ciência (e não estamos falando de ficção. Mas dificilmente poderá negar a relevância do problema colocado. porém. à sua maneira. circunscrito a variáveis econômicas e nada mais. os pressupostos. üma teoria tem os seus pressupostos unicamente nas peças con- .exemplo. então. a um sem-número de casos reais no pensamento econômico) ? O primeiro sentido. pode rebater: essas questões não constam nos mapas das minhas teorias porque não são questões econômicas. ele existe nos manuais e nas cabeças) não deveria jamais propor nada que envolvesse a vida real das pessoas. Chegamos. se não os constituem os problemas da vida real? Um economista perspicaz terá imediatamente o que responder: os pressupostos de uma teoria jamais devem ser buscados fora dela. a resposta é clara quando aplicada à economia: pressupostos são aquelas questões fundamentais da existência humana. em relação às quais a economia guarda um silêncio muito suspeito. Trata-se de questões excluídas por uma razão bem explícita: em relação ao objeto da economia. O economista. Não as nego. Este primeiro sentido nos revela que não se trata apenas de questões não "mapeadas" ou simplesmente omitidas. Quais são. nenhum problema da vida real deve ser considerado pressuposto interno da teoria econômica. Elas não constam nos seus mapas.

instalado numa ciência não valorativá. na boca ou pena de economistas. Uma das mais banais é a seguinte: em muitas de suas teorizações. . eu me ocupo exclusivamente de variáveis econômicas. van Leeuwen: . assim. Em linguagem talvez abrupta demais. os economistas se declaram dçscompromissados em relação a. eu não julgo o "status quo" do mundo. eu assumo como válidos os valores do mundo assim como ele está. isto é. Chegamos. contudo. É o jogo fantástico de declarar-se neutro. Porque agora: chegamos um pouco mais perto do cerne ideológico desse tipo de metodologia. ao nível dos pressupostos ocultados. . podem ser excluídos da preocupação do economista porque não afetam. seja de relevância para. O leitor. Que se está afirmando com isso? Nada menos que o seguinte: eu presumo que o mundo esteja em ordem. mas efetivamente assumidos. . de jeito nenhum. Esta resposta já não é tão freqüente. o sentido é este: ceíeris paribus (esta famosa carta-coringa). já se haverá adiantado ao passo seguinte.. já suspeitou que a referida resposta inicial do economista admite diversas outras interpretações.. conformam o objeto da economia. não precisam mais ser postas em tela de juízo. por isso. porque efetivamente pressupõem que as regras do jogo existentes são autovalidantes e. chamando uma outra citação. dos pressupostos. para ver se nos leva a um nível diferente do conceito de pressupostos. Isto poderia ser expresso de muitas maneiras. desta vez de Arend Th. estas sim. Vamos pois a um segundo sentido dela. e assumindo os valores implicados nelas. que não formam parte do objeto da economia. Não aceitando que a conversa termine aí (onde tantos querem que termine!). quando de fato se está pressupondo a validez das regras do jogo existentes.ceptuais que integram a estrutura interna dessa teoria. Qual seria? Talvez este: esses problemas da vida real.Prossigamos. De quê? Ora. É assim que as mais exóticas teorias conseguem blindar-se contra qualquer cobrança. supondo que tudo fique igual no mundo real. pressupostos valorativos. Seria abrir demais o jogo. as variáveis estritamente econômicas que. seja de compromisso com os desafios cruciais da ¡história humana.

mas que é a forma que a economia utiliza para ocultar o que a economia realmente é: uma gigantesca operação de ocultamente do pressuposto de que o único ator. é um agente invisibilizado. Ele insiste em dizer-nos que isto não é apenas um ledo engano. Na teoria econômica ela não vem jamais à luz. esta afirmação enuncia um problema grave. dado o tipo de formação recebida. que incorporou tudo a si. conformariam a essência da economia burguesa. Vislumbramos também algo do que implicam as seguintes frases: "A. no coração da teoria econômica. "a estrutura da nossa convivência burguesa perraanece como um livro fechado". substância divinizada e subtraída a qualquer olhar que se concentre apenas em variáveis econômicas. Deriva daí a 'noite' do Capital". Dita deste modo e sem ulteriores esclarecimentos."Os economistas. Isto nos remeteria ao resto do seu volumoso livro. toda a produção é obra do Capital. isto é. cheguei a descobrir. ao qual se atribuem todas as potencialidades produtivas. "Ao refletir sobre a aparente arreligiosidade da nossa cultura 'secularizada'. como tais. lenta mas firmemen- . sem uma teoria adequada do Capital. Por isso. sem uma penetração neste reino dos pressupostos ocultados nas fantasmagorías teológicas acerca do Capital. mas o faz na forma de puro libelo acusatorio.'quintessência' do Capital é una e indivisível. como uma substância que se move a si mesma. como um valor que se autovaloriza numa completa desconsideração de todo o resto: o Capital. Van Leeuwen deseja mostrar-nos o que há de ocultado no fato de que a ciência econômica opera com o pressuposto de que as variáveis econômicas. Somente agora podemos entender algo do que pretendia efetivamente dizer a frase anteriormente citada. o autor pode acrescentar que. na visão burguesa da economia. já não se encontram em condições de refletir sobre os pressupostos da sua própria ciência". mas algo pode ser sintetizado. Por isso devemos dar ao autor da frase a oportunidade de explicar-se. Em primeira e última instância.

"ascender do abstrato ao concreto". ocultam conflitos de valores que só podem ser resolvidos politicamente". ) . 6 5 VAN LEEUWEN. os economistas tendem a ignorar esses custos. desse modo. "Os economistas contemporâneos. requer um bisturí elaborado com conceitos abstratos. Isto não deveria servir de desculpa para desdenhar mergulhos em profundidade. não obstante isso. tem uma característica totalmente nova e ainda não compreendida: é uma religião econômica". . O ponto de 183. 1987. ) convertem opções sociais e morais em opções pseudotécnicas. 6 CAPRA. numa tentativa equivocada de dotar sua disciplina de rigor científico. . numa invisibilidade totalmente consentânea com transcendências intransparentes. da alusão a referentes mais perceptíveis a partir da experiência. normalmente. totalmente dominada por uma 'religião'. A evasão de questões relacionadas com valores levou os economistas a voltar-se para problemas mais fáceis.te. "Como a estrutura conceituai da economia é inadequada para explicar os custos sociais e ambientais gerados por toda a atividade econômica. porém menos importantes. assim. evitaram sistematicamente a questão de valores não-enunciados ( . a economia é. Cultrix. Valha. para poder. p. que nossa moderna sociedade burguesa está. entre as ciências sociais. . a este nível. e a mascarar o conflito de valores mediante o uso de uma elaborada linguagem técnica. De Nacht van het Kapitaal. mutação São Paulo. a mais normativa e a mais claramente dependente de valores. . o nível mais profundo onde se alojam. possivelmente. . 13-15. um exemplo de como se pode tratar a questão dos pressupostos num nível intermédio. Fiitjof. ( . porém. Seu desvelamento. os pressupostos da economia. „) raras vezes são explicitamente incluídos no pensamento econômico contemporâneo". 217. 182. Arend Th.5 Este é. contudo. como diria Marx.. . (Esses valores. Esta. rotulando-os de variáveis 'externas' que não se ajustam a seus modelos teóricos". p. Em nossa vida prática necessitamos. "Portanto. e.

Impõe-se. As teologías não são muito mais do que infinitas variações retóricas acerca de núcleos de crenças extremamente simples. Mas o mistério de uma estranha persistência do núcleo mítico da economia continua praticamente indevassado. antes de definirmos quais são os níveis onde o jogo dos pressupostos se transforma claramente em operação teológica. Falta que juntemos • ainda outras considerações às que antecederam. mais adiante. Tentaremos. 3 REAÇÕES NERVOSAS CONTRA A VACUIDADE RETÓRICA DA ECONOMIA Façamos agora um curto intermezzo. uma aproximação mais explícita a esse núcleo mítico. portanto. Podemos adivinhar. a pergunta: foram críticas que só atingiam o colorido externo dos trajes fantasmagóricos de um corpo central que não apenas sobrevive intacto. que se encontram embutidas nas teorias e práticas da economia.Com os elementos reunidos ate agora deveria ter ficado evidente que existem níveis muito diferentes aos quais se pode aplicar o conceito de pressupostos. ao fim e ao cabo. Este núcleo mítico perdura à revelia de um sem-número de críticas. desde já. Quem não souber discernir os limitados alcances desse fenômeno para o propósito que nos anima (o desocultamento dos pressupostos) poderá cair na armadilha de achar que tudo o que havia para dizer já foi dito e que todas as críticas já foram feitas. Este intermezzo servirá de registro para um fenômeno que realmente não se . Também as teorias econômicas se resumem. mas ardorosamente desejado? Isto nos devolve ao desafio fundamental que já formulamos anteriormente e que não queremos perder de vista: importa entender por que as lógicas da opressão conseguem funcionar como se fossem "boas notícias" (evangelhos). A crítica de não poucos economistas à vacuidade de muitas teorizações econômicas é de uma contundência impressionante. que toda esta questão dos pressupostos tem a ver com pré-decisões acerca do sentido da vida humana. a um eterno girar em torno de um núcleo mítico de Uma espantosa simplicidade.

1988. 481-517. multinacionais (A . onde se ensina economia. Atos retóricos (Mensagens estratégicas de políticos e igrejas). com o avanço decidido dos neoliberais. aspectos misteriosos. McCLOSKEY. neste sentido. Summus. As bandeiras. passando.7 A razão que nos leva a usar o termo é simples: a economia e a teologia são campos de incríveis exercícios retóricos. Ou não há nada de estranho no fato de que aquilo. ém si mesmo. em seguida. consideramos básicas. com seu forte acento do papel ativo do Estado para reajustes em épocas de crise aguda. in: Journal of Ecojun/1983. a elemento integrável no conjunto. of California Press. que já foi criticado de mil maneiras. HALLIDAY. ficou evidente que. mormente quando oportunamente aplicadas à própria economia e à religião. nos comentava. A retórica das legitimação das organizações pela palavra). que se animara a estudar teologia. entendidos estes como solenes e vaporosas variações sobre o mesmo. o que implicou numa aberta repolitização da economia. Summus. 1970. nomic Literature. O keynesianismo. T. Não é necessário filiar-se a nenhuma teoria específica sobre a retórica para que nos entendamos. em certas circunstâncias. Empregamos o termo "retórica'5. The Rhetoric of Religión Univ.. como uma espécie de guia adicional para percalços esporádicos. "tudo é tão simples". são as mesmas. certa vez. Tereza Lúcia. "que o essencial se poderia aprender em poucas horas. dizia ele. São Paulo. (org. No diálogo que 7. insinuemos o motivo. só que agora são desfraldadas a plena luz. L. Sem alongar-nos. Só recentemente. A assim chamada síntese neoclássico-keynesiana o demonstra. é uma armação de poucos conceitos-chaves que se exigem reciprocamente".1987. N. que não acabava de entender por que se requerem tantos anos para estudar teologia. São Paulo. se tudo fosse dito claramente". Um leigo. E acrescentava: "a soteriologia. esp. Talvez seja proveitoso conhecer algo a respeito de teorias contemporâneas sobre atos e efeitos retóricos. sobreviva lampante em todas as academias? A escola neoclássica realmente conseguiu transformar-se em modelo dominante da ciencia econômica em praticamente todas as universidades. também na América Latina. D. é imprescindível agir com bandeiras declaradas.).pode ignorar é que tem. no fundo. por exemplo. HALLIDAY. "The Rethoric of Economics". as obras de Kenneth BURKE. apenas arranhou a superfície desse modelo.

mais de perto. é o uso retórico da matemática na economia. sucede algo semelhante com os rituais de assimilação da ciência econômica. nos entretivemos com divertidas suspeitas acerca dos longos ritos necessários para que os mitos. infinitas variações. de tão amarrado à sua infinita veracidade e justiça. Os arautos da lógica matemática sonhavam com um emprego tão perfeito dos símbolos matemáticos. . etc. quando ¡se analisa. Passemos já a conferir alguns exemplos de queixas a respeito ¡das sofisticações retóricas dos economistas. . Pois. das teorias científicas. que mereceria uma análise mais detida. na escolástica decadente (que já dura tantos séculos e ainda respira). com seus fantásticos contructos conceptuáis. estava condicionado a não mais poder perdoar ilimitadamente. com inúmeras subvariáveis para os atos divinos e humanos.seguiu. a exacerbação dos jogos matemáticos na economia. a graça. contraposta a todas as linguagens ambíguas e nonsensicàl (da metafísica. à teologia e tantas outras coisas — até que se transformem em credos incontestes e rotineiros? Um dos aspectos. o pecado. os escalonáveis efeitos múltiplos dos sacramentos. sejam assimilados como explicações do mundo e como alimentos de esquisito sabor. Como funciona a ingestão e o metabolismo dos alimentos míticos — quanto à economia. Com pequenas diferenças quanto ao instrumental lingüístico. mas a partir de um ente infinito infinitamente atingido.). E isto requer tempo. é difícil escapar à hipótese de que a própria matemática pode ser rebaixada a funções pouco mais que retóricas. A matemática. das éticas. ao que parece. Sem o menor desprezo ao imprescindível instrumento científico que é a matemática. Sismonde de . Mais importante ainda é compreender como atua a retórica repetitiva em nossa vida cotidiana. afirmam tantos. no fundo. não faltam paralelos na teologia. é a linguagem. extremamente simples. por excelência. repetições. o credo a ser assimilado era de uma simplicidade cruel: Deus. etc. E a chave de todo este constructo soteriológico estava invariavelmente no caráter infinito dos pecados humanos. por exemplo. quando.. ao ponto de se obter uma linguagem ide expressividade incontestável. já não definidos a partir do sujeito humano pecador.

em relação aos. Sismondi não se conteve: "Talvez seja porque se esmerou a tal ponto em ser obscuro. a humanidade deveria estar em guarda contra todo tipo de generalização de idéias que nos levam a perder de vista os fatos. . p 3s — Grifo nosso).). 1827 (1» ed. SISMONDI Sismonde de. fatos (. 324 (apuei ROUTH. Numa questão de tamanha importância. Nunca isto foi tão necessário como neste tempo.) e emitir sua opinião: "Existe de fato um tipo de economia política que floresce numa orgulhosa independência. Ela deveria ensinar-nos uma teoria do bem-estar geral. que ainda viveu bastante para familiarizar-se com os escritos fundacionais dos neoclássicos (Jevons. Marshall. etc. . quando se está fazendo abstração dos sofrimentos dos seres humanos que criaram essa riqueza". 8 TTenry Sidgwick (1838-1900) foi um economista inglês da era vitoriana. que se aproxime da compreensão de todos e se aplique à realidade. que aqueles que o entenderam. tinham o fôlego teórico para entender seus escritos. p. . transformaram-se numa seita de adeptos com uma linguagem própria só deles". envolvida em cálculos cada vez mais difíceis de seguir.' 1977. Nouveaux principes á'économie politique. sobretudo numa época em que os sofrimentos da humanidade exigem que essa ciência fale uma linguagem que o povo entenda. por simples dedução de um ou dois pressupostos gerais — Ideas 8. perdendo-se em abstrações e tornando-se.Sismondi (1773-1842) sempre se confessou adepto fiel dos esquemas fundamentais de Adam Smith. adota a cada dia uma linguagem mais sentenciadora. ou acham que o entenderam. na Inglaterra. The Qrigins of Vintage Books. . na Inglaterra. Ao escutar que D. e sobretudo contra o erro de achar que o bem público se identifica com simples aumento da riqueza. Say mexia com seus nervos. 1818). Ricardo se gabava de que não mais de vinte pessoas. no entanto. suas dúvidas a respeito da capacidade auto-reguladora do laissezfaire. Walras. sob todos : os aspectos. . Guy. Economic 2«~ed.. que venha em ajuda às necessidades de todos. uma ciência oculta. Teve. " é com pesar que vemos que a economia política.

que chegou a limitar de fato a economia política à Inglaterra.". E. sentimentos que. London. variariam muito no homem e na mulher.10 Já um pouco mais próximo a nós. e não uma realidade — uma personificação de duas abstrações. maio/1966. Longmans. E. Phelps Brown (jul/1971). cit. por exemplo. 207. BOULDING.. K. op. pronunciamentos de Wassily Leoritief (dez/1970). com um desprezo quase total pelos principais problemas do nosso tempo". "The Economics oi Knowledge and . T. Galbraith (dez/1972) — todos eles feitos em oportunidades muito solenes. 12). ao sexo masculino. numa famosa palestra como presidente da American Economic Association. 1904. seguem. 10. G . ... Macmillàn.) percebeu tão fortemente a inaplicabilidade dos pressupostos do sistema à maior parte do mundo. N. tem meras preferências: "O ser humano ou 'indivíduo'. n. . 11. torna-se mordaz ao opinar sobre o homo oeconomicus recéminventado. . ) que tem preocupado toda uma geração de economistas. p. SIDGWICK. Henry. the Kno^yledgé Of Economics". 17 (apud ROUTH. esse estranho ser que. J. em lugar de necessidades. dez/1965. p. •Essays in Politicaí Economy. de cujas supostas tendências derivam as conclusões do sistema dedutivo (da economia). American Economic Revieiv. 1888. Bagehot (economista da época. D. Worswick (set/1971). London. o desejo da riqueza e a aversão ao trabalho. qualifica a tentativa .. p.da maioria dos economistas de evitar sistematicamente o problema dos pressupostos valorativos não-enunciados como: " um exercício monumentalmente malogrado ( .sendo que o principal deles é o pressuposto dos efeitos universalmente benéficos e beneficiosos do interesse próprio . Thomas Edward Cliffe Leslie (1827-1882). G. Miscellaneous Essays and Addresses. Groen & Co. p. Mr. Kenneth. na seqüência indicada. H. seja diante da Seção Econômica da British Association. na própria Inglaterra. ls. levando a um beco sem saída. CLIFFE LESLIE. in. 9 Outro vitoriano. . 11 Para enriquecer ainda um pouco este florilégio. no tempo. 9. é uma ficção. Kenneth Boulding. seja diante da American Economic Association. no seu atual estágio de desenvolvimento comercial e.deixado em inteira liberdade". Joan Robinson (dez/1971) . trad.

K. .Leontief: " . Há. ipso facto. E. fnaio/1973. (sobre a distribuição da renda) nada temos a dizer sobre este assunto que. . D. . in: Economic Journal. A débil e lentíssima fundamentação empírica evidentemente não serve de suporte para a proliferação de uma superestrutura de teoria econômica pura ou.. deve ser primeiramente abstraído d e . em termos científicos e práti' cos. p. "The Underdevelopment of Economy". "Power and tire UsçfuI Economist". Ph." 1 2 12. não tem nada a dizer sobre questões que. pois. Brown: " . acima de todos os demais. . in: American Economic Review. uma evidente falência da teoria econômica que. efetivamente. que a economia deveria iluminar. ) os assim chamados países em desenvolvimento não podem dar-se o luxo de uma profissão de economista que apenas serve para construir intricadas teorias no ar". . Worswick: "Existem agora ramos inteiros de abstrata teoria econômica que não têm nenhuma relação com fatos concretos e são praticamente indistinguíveis da matemática pura". mas o que mais prejudicou a teoria econômica. Joan. . BROWN.. aparecem como as que mais exigem uma resposta. . . para que algo possa ser abstrato. in: Economic Journal. um comportamento de persistente indiferença em relação à aplicação prática é. pela segunda vez.. ROBINSON. para qualquer pessoa exceto os economistas. in: American Economic Review. J.. maiço/1972. N „ "Is Progress in Economic Science Possible?". . . in: American Economic Review. maio/1972. por assim dizer. março/1972. . um sintoma do desequilíbrio fundamental da nossa disciplina. Robinson: "Os economistas ortodoxos negligenciaram os grandes problemas que todo o mundo percebe que nos ameaçam e que são urgentes.. H. só a inclusão do conceito de poder pode curar algo das enfermidades da ciência econômica a economia ortodoxa tornou-se um assunto de fé e. . GALBRAITH.. ocupa o pensamento das pessoas. imunizado diante das críticas. ( . Galbraith (resumo): "A economia tornou-se um conjunto de constructos que servem para evitar que o cidadão e o estudante possam dar-se conta de como de fato são governados . maio/ 1971. ls. . especulativa". . WORSWICK. "The Second Crisis of Economic Theory". . foi o fato de que seus pressupostos acerca do compor: támento humano foram tirados do ar". Ph. W „ "Theoretical Assumptions and Non-observed Facts". Seguindo a seqüência dos textos citados: LEÓÑTIEF. G.

Antes de prosseguir com outros exemplos de crítica. ao invés. Avisamos que esta não é. sim. Em muitos casos nem sequer fica claro a que nível de pressupostos os autores se estão referindo. apesar de tudo. como um conjunto de mecanismos fetichizadores e ocultadores de uma essência convenientemente invisibilizada. o irrealismo. deixar-nos com a pergunta por que. a perda de tempo. de boa saúde. Não seria de todo saudável deixar-se embalar. academicamente. e não a validez dos aspectos centrais do sistema. Não há um rechaço total a esse sistema teórico. segundo. sem ver seu prestígio golpeado de morte. sem nenhuma exceção. portanto. a intenção que nos levou a registrar esse tipo de críticas. de que os críticos já desembarcaram definitivamente do mesmo. em outros. embora se aluda a um nível de pressupostos questionáveis (por exemplo. o núcleo de concepções básicas a partir das quais se estruturou o pensamento econômico burguês — o que chamaremos. foi o seguinte: primeiro. O que se critica. fazer-nos meditar por que todos esses críticos. ao mesmo tempo. o sistema teórico ao qual se referem continua gozando. quanto à própria concepção dos atores da cena econômica e quanto aos excluídos do cenário). façamos uma pequena pausa para perceber melhor de que se está falando. embora se tenha a impressão. apesar da abundância e virulência de críticas desse tipo. se mantiveram como passageiros de um barco que estaria fazendo água por todos os lados. que o que está sendo criticado são as imperfeições de um sistema teórico. Pois de muita coisa difusa. Criticam-se apenas alguns de seus vícios mais recorrentes. no mais das vezes. mais adiante. de paradigma articulador — não é colocado no centro da crítica e. numa espécie de animosidade crítica predominantemente emocional. Em síntese. em dados momentos. embora com assentimento diversificado. Por algo o sis- . menos turismo errático e mais apego às rotas percorridas pelos fatos reais. de modo algum. a irrelevância. Não há dúvida de que se exigem enfaticamente certas mudanças de rumo. Podemos suspeitar. é outra coisa: a improdutividade prática. nem sequer claramente evocado. Mas se tudo isso servisse. diríamos até que a coisa talvez nem seja tão improdutiva. preponderantemente. O motivo. ao som de semelhantes frases.

a acusação de irrelevância por estar ela operando com "pressupostos irrealistas" e a crítica ao caráter demasiado artificial dos pressupostos de algumas teorias específicas. no passo ulterior. Quem estivesse interessado em ulteriores pesquisas no assunto encontraria farto material sobretudo nas críticas referentes à Teoria do Mercado Competitivo ou Teoria do Equilíbrio . garbosamente. É talvez precisamente por isso que estas críticas podem ser tão abundantes. se entenda melhor a que nível distinto de pressupostos queremos que se dedique a máxima atenção. tomemos agora alguns exemplos que revelam ainda mais claramente que se pode ser duramente crítico sem tocar as raízes da ideologia econômica. Como dissemos. um determinado núcleo doutrinário — possivelmente propício a encaixes com sistemas de opressão — sobreviveu intocado e praticamente inquestionado. se prosseguimos ainda. em termos bastante universais (embora não identificando claramente. algumas das críticas registradas até aqui se estendiam às teorias econômicas contemporâneas. os exemplos a seguir denotam um nível ainda mais superficial de críticas aos pressupostos das teorias econômicas. como acabamos de insistir. se procure entender por que. a todos esses embates. neste prelúdio a questões mais importantes. seu núcleo articulador básico) . Novamente. De todos os modos. isolemos apenas três faixas por onde estas críticas disparam com suma freqüência: o questionamento da maturidade científica da economia. após séculos de correntes fortemente críticas na teologia cristã. Para que se entendam melhor as ressalvas que estamos fazendo quanto ao vigor desse tipo de crítica. Para não alongar-nos demais. surgem analogias espontâneas com as sete felinas vidas do arcabouço conceptível da teologia tradicional. para que. para que. estabelecendo analogias com a teologia. é pelos seguintes motivos: primeiro. Mais uma vez.. Na prática essas distintas acoplagens da crítica se misturam e são até intercambiáveis. segundo. Esta distinção de três canais da crítica tem apenas o valor relativo de servir para identificar a maior ou menor ênfase neste "oü naquele aspecto.tema teórico criticado tem sabido sobreviver.

não interessa entrar em detalhes menores. 1980. BUNGE. Vamos. 13 — Mário Bunge. "The Irrelevance of Equilibrium 'Economics' " . seu livro Ciência e desenvolvimento. exclusão indevida de variáveis nãoeconômicas. prisão dentro de teoremas matemáticos. ausência de uma teoria crítica do Capital. Tese fundamental: a irrelevância e o irrealismo. 13 KALDOR. Omissão: apesar da freqüente terminologia de cunho "religioso" como arma de ironias. Belo Horizonte. Nicholas. falta de referentes reais. mero pretexto para exercícios matemáticos. na linha da teoria do fetichismo. . se encontram tendencialmente na direção desse ideal. acusação forte: os problemas do Terceiro Mundo não são considerados pela maioria dos economistas. Para o fim que nos propomos. — Nicholas Kaldor. in: Tecnos. . 14. a alguns exemplos. à luz dessa teoria. pelo lugar central que ocupa no aparato conceituai neoclássico e já no clássico. etc. ver também Itatiaia/EDUSP. pressupostos arbitrários. permitem afirmar que as condições reais. à Teoria da Empresa e uma série de outras. 1237-55. uma vez identificado o nível aonde se assenta a crítica. Madrid. 1982. por ser um corpo de teoremas sem pressupostos empíricos (não existem economias globais nem mercados onde se verifiquem as condições supostas). à Teoria do Consumidor. o paradigma kuhniano se cumpre razoavelmente. pela perda de tempo no seu eterno refinamento. Omissão: não se analisam os saltos transcendentais que. equilibrios inexistentes em mercados competitivos imaginados. teorizações tolas por causa da sua estrutura generalizante. Omissão: a própria Economic Journal. efeitos deletérios por não se abordarem problemas prementes. fraquíssima relação com a realidade. porque houve avanços reais em direção à madurez científica e existe o "colégio invisível" de apoio. Teorias não testáveis por meios empíricos. pois. dez/1972. Mario.Geral. Crítica contundente à Teoria do Equilíbrio por estéril e irrelevante. à Teoría das Expectativas Racionais. Comentário: farto material sobre teorias específicas. as teorias falam de fantasmas e objetos fictícios.14 — Thomas Balogh. embora tão distantes da teoria.no entanto. Economía y filosofía. por obra e graça de uma divindade não nomeada. .

. 1982. algumas dessas teorias são tão abstratas que nem cabe solicitar que sejam testadas.. 1975. . in: ÊÉLL. no mais.18 — Katouzian. New York. dispersão em teorias erosivas da consistência global. num sentido especial de falsidade. pouca penetração nos supostos profundos do núcleo estruturante. a saber. (eds. As generalizações da teoria econômica não captam o impacto econômico de muitos aspectos do comportamento humano. The Crisis of Economic Theory. Press. M. Filosofía de la economia Buenos Aires. 1982 (orig. mas não consegue responder à crise atual../KRISTOL. BELL. 18. DYKE. ela se perde em questões abstratas e inteiramente imaginárias. a teoria do mercado é um ideal abstrato de um mercado de atores ideáis. . New York. os referentes são tão ficcionais que não podem existir. HOLLIS. Livenigh Publ.13 — Daniel Bell. Comentário: como é sabido. Basic Books. como tais. Bell se preocupa com as fissuras no sistema capitalista e com as ameaças à liderança norte-americana. D. a economia conta com suporte de adesões impressionante e alguns avanços teóricos. 16 — Hollis e Nell. projetam alguma luz sobre o desejável.ênfase escolhida obstruiu questionamentos sobre o nível mais profundo dos pressupostos.de racionalidade que os neoclássicos imaginam no homo oeconomicus.. as idealizações. Falta de aplicabilidade da teoria neoclássica. não só peca por irrealismo. As maiorias empobrecidas não são o foco central. "Models and Reality in Economic Discourse". embora não iluminem a realidade. que atua economicamente também quando não se limita a variáveis econômicas.• . 1982). Paidós. Cambridge Univ. por carentes de suporte empírico. que tem pouco a ver com os atores dos mercados existentes. mas. Comentário: o ponto forte é a rejeição do conceito. London. Rational Economic Man.. Daniel. BALOGH. seus pressupostos são declarados falsos. Como paradigma kuhniano. E.). nem no capitalismo. I. Cliarles E. •:--•-•. 15. não tem conteúdo empírico. 1981. Questiona sobretudo a pretensão de çientificidade da economia ortodoxa. a economia se acomoda numa ficção conveniente acerca de ideais de ações ou "ações lógicas". 17./NELL. 17 — Dyke. 16. Thomas. The Irtelevatice of Conventional Economics.

num mundo relativamente estático. Mac- .acusa as teorias neoclássicas por sua esterilidade para oferecer soluções aos desafios da crise contemporânea do capitalismo. que servia para ritualizar purificações e restabelecer. o núcleo da soteriologia: Cruz e Ressurreição. pelo menos aparentemente. millan. éros terreno e agapé espiritual. Em muitos casos. Outrora. Sem perder de vista as características próprias das diferentes coreografias. ao redor de um centro no qual ardem chamas persistentes. os autores refletem no interior de uma perspectiva bastante limitante como. Que chamas são essas? São chamas sagradas. na preocupação com as crises do ¡hemisfério norte. Quem as toca é um profanador que corre perigo de queimar-se. Faltam. especialmente nos últimos dois séculos. London. seguranças coletivas. A CRÍTICA USUAL AOS PRESSUPOSTOS: UMA DANÇA EM CÍRCULO Quem analisa as expressões mais críticas do pensamento teológico. A literatura. perdão incondicional e redenção difícil. São questões fundamentais como a relação natural-sobrenatural. era perfeitamente possível transformar essas chamas centrais em fogueira. Homa. pode cair facilmente no equívoco de obsessionar-se com a distinção de correntes ou escolas mais ou menos claramente definíveis. neste particular. por exemplo. 4.19 Seguir com mais exemplos significaria cansar o leitor com excessivas repetições. deixando em evi19 ¿CATOUZIAN. talvez não seja absurdo considerar esse complexo fenômeno como uma variedade de danças em círculo. amor ao próximo e amor a Deus. é abundante. a graça "barata" (de uma espécie de distributivispio sacramentalista) e a arredia graça imerecida. porém. enfim. Ironias com vocabulário "religioso" são freqüentíssimas.' Ideology and Method in Economics. Cabe duvidar que semelhante tentativa nos conduza à descoberta dos problemas de fundo. 1980. as hipóteses que mais nos interessam para os objetivos deste livro. O material reunido é uma verdadeira mina.

As certezas. Não nos interessa. divagar pelas muitas ressonâncias e conotações desse núcleo em chamas. Mas o cristianismo é. incluídas as psicanalíticas.ciência que os profanadores. é refletir sobre aquilo que sobreveio à perda de um significado único e inquestionável dessas chamas centrais. enquanto instituições que se sentem obrigadas a manter acesas as chamas doutrinárias. no que tem de mais substancial. e sobretudo as profanadoras desse núcleo aceso e ardente seriam por ele consumidos. E o Concilio de Trento. Como nas festas juninas no Brasil — São João sobretudo. e aprendeu a dançar sobre brasas ardentes. em comparação çom„as demais . circunscritas a esse núcleo. à importância do amor ao próximo no aprofundamento da experiência religiosa. neste momento. Hoje começamos a dar-nos conta de que a Reforma Protestante consistiu. embora se possa ter a impressão de que se trata de versões contraditórias. na forma inédita que assumiu. transformou-a em diversão. Todas as religiões se referem. nos albores dà modernidade. ameaçaram explodir. a insistência na síntese necessária: o amor a Deus concretizado no amor ao próximo. Preferem insistir em variações coreográficas ao redor do fogo. mas também São Pedro e São Paulo — o povo perdeu o medo da fogueira.sínteses religiosas elaboradas pela humanidade em sua longa trajétória evolutiva. Numa aproximação um tanto simplificadora. talvez possamos identificar esse núcleo. o clássico e mais tradicional problema do cristianismo: a identidade do amor a Deus com o amor ao próximo. tudo gira ao redor de um paradigma articulador no qual se busca a garantia de um sentido suficientemente preciso para evitar explosões do núcleo. neste instante. não foi outra coisa. O que nos interessa. A tentação de "brincar com o fogo" era quase irresistível. Nos dois casos. E as Igrejas. no fundo. Mantêm a certeza de que o fogo queima. numa reassignação de um sentido peculiar à soteriologia. que ameaçava explodir em novas efervescências. sabem que um sentido preciso dessas chamas é uma questão fundamental. . Os teólogos dificilmente imitam as ousadias profanadoras do povo simples. da Igreja Católica. Ê provável que resida neste problema a marca distintiva do cristianismo. com maior ou menor ênfase.

esta mesma imagem. Neste sentido.! í Não estamos querendo entrar. com o lançamento dessa hipótese para uma releiiura da história da teologia. acerca das formas viáveis e dos caminhos possíveis para fazer o bem a seus semelhantes. ao redor desse núcleo desafiador. etc. Ela nos levaria a discutir em que medida as mais diferentes teorias teológicas. o moderno pensamento burguês acerca da economia) o redefiniu cabalmente. O pensar mento econômico burguês opera com redefinições muito sérias e muito profundas da natureza dos seres humanos e dos j . teórica e prática. agora. numa. a religião econômica (isto é. por ora. O qüe realmente nos importa. aplicando-a às teorias econômicas. é uma hipótese muito mais radical: enquanto as teologías cristãs dos últimos séculos dançavam circularmente ao redor desse núcleo efervescente. discussão propriamente teológica. mesmo quando aparentam ter como objeto único uma determinada doutrina — o conceito de Deus. Talvez seja esta a questão teológica mais grávida de implicações concretamente históricas. Usaremos. em última instância. Antes de entrarmos a analisar a consistência desse paradigma articulador. cujos pressupostos só raras vezes são enunciados. em que medida as teologías críticas dos últimos séculos se resumem em giros circulares. portanto. uma tomada de posição. Também as teorias econômicas são uma espécie de danças em círculo ao redor de um paradigma articulador. da graça. a esta altura. neste instante. O pensamento econômico é. mais ou menos próximos. também do amor a Deus). e praticamente nunca são analisados em suas implicações. neste momento. nos contentamos. Aplicamos às teologías modernas (como sugestão de uma hipótese de releitura) a imagem de coreografias circulares ao redor de um núcleo explosivo. da redenção. no que se refere ao entrelaçamento da economia com a teologia. Tampouco nos interessa detalhar. que consiste numa proposta de um novo evangelho acerca do amor ao próximo (e. — de fato são extensões temáticas do tema central da relação entre o desafio histórico de convivência fraternal entre os homens e a sua experiência da transcendência. convém retomar brevemente nossa afirmação anterior de que as críticas usuais à economia não vão ao fundo da questão dos pressupostos.

Não existe. o que denota uma evidente insegurança quanto aos pressupostos básicos. Não estamos propondo nenhum tipo de marco interpretativo simplista. a nosso modo de ver. Seria petulante simplismo. com o retorno explícito do político na vertente neoliberal da economia. Só que esse credo metafísico e religioso não transparece. preservemos uma grande flexibilidade para não incidir em esquemas maniqueus. evitemos cair num discurso linear e pouco dialético. na história do pensamento econômico. e apesar de reaparecerem. aquisição tranqüila e pacífica de um paradigma articulador. se pretendêssemos insinuar que um determinado dogma econômico acerca do único acesso possível ao amor do próximo houvesse logrado importe como crença incontestável. a história do pensamento econôí . Na atualidade. Uma advertência se faz necessária: façamos um esforço para manter uma elasticidade em nossa maneira de proceder na reflexão. mas não por isso'menos espantosa: apesar da fragilidade dos argumentos teóricos e das supostas comprovações práticas. no aparato instrumental das teorías econômicas. Não temos a intenção de fazer aparecer como extremamente simples o que na realidade é uma história longa e complexa. da nossa parte. As atitudes dogmáticas geralmente visam superar incertezas inegáveis. A retomada freqüente da discussão acerca -da perfectibilidade limitada da "natureza humana". Sempre houve também profundas inquietudes acerca dos postulados centrais genericamente pressupostos pelas teorias econômicas. Constata-se uma vasta gama de rearticulações e reformulações. a . dúvidas preocupantes. às claras. revelam que há uma questão de fundo para a qual se estabeleceram respostas não inteiramente satisfatórias. como uma espécie de credo absolutamente inquestionado e inquestionável. A questão é mais matizada. o próprio acirramento dogmático em relação ao núcleo articulador dos pressupostos pode ser também interpretado como insegurança agressiva. tendente a anular a complexidade inerente à evolução do pensamento econômico (e teológico). cada passo.modos de relacionamento inter-humano mais profícuos e promissores para criar a felicidade humana. o retorno inquieto a velhos temas como o caráter pretensamente altruísta do interesse próprio e outros temas afins.

dessa vez. p. 183 e a economia? passim. 20 A crítica insiste em dizer-nos que a ciência econômica se. Daí o sentido de um resumido lembrete dessas críticas. tornou estéril por haver-se enredado em exacerbados formalismos. é o caráter óbvio que tudo isso foi assumindo na teoria e na prática da economia. É em confronto com a espantosa obviedade atribuída a dogmas tão inovado res quando comparados com as organizações do sentido. 23. O leitor se recorda dos exemplos de crítica arrolados na seção anterior . 24. deixandonos guiar. e as articulações da esperança. nos passos que ainda temos por frente em nossa reflexão. as mais variadas. excluindo decididamente outras maneiras de conceber o convívio social entre os homens. alguns pontos fortes da crítica usual à economia para nos darmos conta de que há um núcleo de pressupostos que fica intocado. nesta adesão a dogmas acerca do ser humano e sua história social. 20. Prosseguiremos. depois. surpreende a escassa consciência que parece existir a respeito da profundidade e amplitude dessa incursão de pré-definições econômicas no próprio âmago da compreensão da fé cristã.mico nos revela uma adesão impressionante a um paradigma articulador cujos pressupostos básicos implicam numa determinada concepção da natureza humana e sugerem um determinado caminho para formas viáveis do amor ao próximo. com a exposição mais direta do paradigma articulador do pensamento econômico burguês. 136. a economia se constituiu num âmbito de elucubrações esotéri20 WARD. A formalização dos procedimentos tornou-se. Quanto aos teólogos e às Igrejas cristãs. Quiséramos que esse impacto ficasse vivo em nossa memória para poder aquilatar suas limitações. 48. O que espanta. 1975. Sua contundência e seu peso eram inegáveis. Retomemos. rapidamente. Rio de Janeiro. as mais diferenciadas. por Benjamín Ward. ela mesma. O que há de errado com Zahar. Benjamin. . a base para julgar a qualidade do esforço científico. na história da humanidade e suas culturas — que as críticas mais corriqueiras a aspectos da teoria e prática da economia se nos afiguram extremamente superficiais e apenas tangenciais. Uma vez declarada autônoma da esfera moral e política. 137.

pelo menos em boa parte. suas conclusões sempre surgem por malabarismos um tanto misteriosos. embora as apresentem da maneira mais enfática. Cada vez que alguém reclama a inclusão de variáveis extrojetadas da teoria. Seu material conceituai se transformou numa redoma fechada. Já não admite que esteja vinculada a motivações hauridas fora dela. que mais nos interessam. os economistas arrancam resultados inesperados de uma seleção recortada de dados estatísticos è. esta se blinda frente a tais ataques com a desculpa de estar elaborando modelos referenciais de tipo ideal para efeitos comparativos. uma série de coisas interessantes. deve-se. Os teoremas matemáticos se elevaram a suporte qualificador das teorias. A crítica prossegue afirmando que. . Os próprios procedimentos formais se apresentam como referencia para a sua validez. Quando a crítica prioriza esse tipo de denúncias nas quais. Além da denúncia desse tipo de procedimentos formais. Exemplos: conceitos nebulosos e formalismos totalmente abstratos representam um empecilho para a análise e solução de problemas reais. os problemas do economista já não são os desafios da realidade. quando transformados em conselheiros de governos. aliás. que mais acrescenta a crítica usual? Pois. aos próprios procedimentos formais dos economistas a sua incrível inconsciência em relação à simetria ideológica de suas teorias com a manutenção do status quo. Á partir de então. Nesse plano teórico também os problemas são necessariamente teóricos e são tratados sob a condição de ceferis paribus. mas que também freiam uma discussão radical dos pressupostos. na corrente neoclássica é literalmente anticientífico estudar qualquer proposta dramática da sociedade existente. criados. tem farta razão — é provável que permaneça no limiar das questões de fundo. que exigem tentativas engenhosas para resolver problemasficção dentro de uma estrutura de correspondencias e correlações internas aos modelos totalmente abstratos.cas e autovalidantes. além de soberanamente autônoma em sua esfera. mas os enigmas teoricamente . a ciência econômica se declarou conceptualmente auto-suficiente.

Já sabemos que isto está sucedendo na atualidade de maneira manifesta. na totalidade e que seu conceito de economia é distinto e mais abrangente. O mais fatal desse tipo de críticas é que tende a situar o sistema de crenças preferentemente ao nível dos próprios procedimentos formais dos economistas. em parte. ao mesmo tempo em que nos declaram abertamente o seu credo. implica em assumir abertamente a luta ideológica no terreno dos valores morais e até mesmo no campo teológico e religioso. Abandonaram. sobretudo os que se dizem de esquerda. ideológica. mas de ciência. Dissemos "em parte". Isto. com a conseqüência de excluir qualquer sistema de crenças alternativo. a ficção da neutralidade na medida em que se declaram militantes ferrenhos de orientações políticas e causas ideológicas bem determinadas. a honestidade de não escamotear o debate ideológico sobre os. Pouco sobraria desse tipo de críticas quando um economista neoliberal chegasse e dissesse que as comparte quase. mas em dados cientificamente demonstráveis.Poderá constatar que a ciência econômica tende a ser visceralmente conservadora e. De modo que. enfatizam que não se trata de um credo com exigência de fé. muitas crenças específicas. valores que defendem. neste sentido. cujo fulcro é um núcleo de problemas imaginários. morais e culturais. quando Associações de Empresários — como no caso do American Enterprise Institute — mantêm departamentos teológicos. se é que acompanham essa evolução dos . Mesmo este último gesto de sinceridade é constatável com freqüência crescente. nesse nível. Se desistissem inteiramente dessa pretensão de cientificidade ficaria a descoberto que sua postura só é expli' cável a partir de um determinado embasamento filosófico e teológico. Não há por que negar que existam.se apoiam em crenças subjetivas. porque também eles insistem em querer convencer-nos de que suas opções valorativas não . porém. Poderá avançar um pouco mais e asseverar que se trata de um sistema de crenças. pelo menos. embutidas no constructo formal de cada teorização. Mas a maioria dos economistas. porque inclui explicitamente variáveis políticas. para adesões racionais. Os neoliberais têm. Mas existe uma pré-concepção fundamental que geralmente nem sequer aparece no material conceituai dessas teorias. .

. como experiência humana consciente das implicações de tanta novidade. PUF. Os descobrimentos expandem as fronteiras geográficas e os continentes e as ilhas são vistos como espaços conquistáveis. é lentamente dessacralizado e devassado pelo bisturi e abre os seus segredos ao anatomista (Paracelso.. segundo a formulação impactante de A. pois. os animais — começa a perder seu halo misterioso e a ordem de todas as coisas. essa imagem tão apreciada por Newton e Galileu. O entesourador de riquezas mortas torna-se um idiota obsoleto e começa a predominar o dinheiro "que trabalha". 5. que significavam uma ruptura definitiva com um mundo estático. . Du monde cios à 1'univers infini Paris.) e ao pintor (Leonardo da Vinci.. A burguesia emergente se 21. 1979). provavelmente vêem nisso algo que "até fingido e imaginado causa horror" (para usar a velha linguagem de um sermão do P. como algo humanamente factível. que funciona com a perfeição de um imenso relógio. esse templo ou jardim fechado (hortus conclusus). de admirável passa a medível. A. O corpo humano. Despontam as ideologias do progresso. só eram assimiláveis. O PARADIGMA ARTICULADOR: O INTERESSE PRÓPRIO COMO A MELHOR FORMA ECONÔMICA DE AMOR AO PRÓXIMO No alvorecer da modernidade os limites do mundo explodem. a descoberta da sociedade: a transformação dá cultura. embora o impacto fosse imediato sob muitos aspectos. ao longo de séculos.21 A astronomia joga nosso minúsculo planeta num universo incomensurável. KOYRÉ. Sobreveio.. um pouco mais tarde. Rio de Janeiro. Antônio Vieira).. Koyré. 1962 (Do inundo fechado ao universo infinito. Essas e muitas outras circunstâncias. Passa-se "do mundo fechado ao universo infinito". A natureza — os minerais.). as plantas. Forense-Universitárla. de verificarmos quanto de teologia contém o paradigma articulador do pensamento econômico burguês. Já é hora.fatos. da organização social e o direcionamento da produção de riqueza. possível e necessário.

A maldade humana intencional certamente não serve como chave explicativa das inovações que foram surgindo. com o brutal extermínio de milhões de indígenas. por imposição da coroa espanhola). embora nunca falte como ingrediente. O paradigma articulador do pensamento econômico se origina num contexto histórico. O comerciante. a nossa análise se puséssemos a ênfase em enfoques moralizantes. por exemplo. na expressão de Fritjof Capra. • O contexto amplo. Mal podemos imaginar-nos hoje o que tudo isso representou como transformação radical do sentido da vida e do convívio humano. e o jogo duro do comércio passa a ser visto como socialidade amigável e "doce". A notícia suficiente das matanças brutais que estavam ocorrendo na América não encontrou eco. não pretende esgotar a análise das condições nas quais se inscreve a fan tástica operação teológica de que falaremos em seguida. Qui- . num lapso de tempo muito mais breve. com uma violência a ferro e fogo. e com as perspectivas positivas em contraste ameaçador com a possibilidade de autodestruição completa da humanidade. os bispos latino-americanos foram impedidos de participar. convencidos da justificação plena de seu direito a conquistas ilimitadas. de resto. Embora ficasse diluído ao longo de séculos. ao qual estamos aludindo. Estaríamos sujeitos a falsear. como quem está à cata das intenções perversas de pensadores e atores dos processos econômicos. a cujos ingredientes impulsadores acabamos de aludir.apresenta como arauto de benefícios universais. em termos muito gerais. também havia transcorrido (e seguia ocorrendo) ao amparo de — para o nosso sentimento atual — uma incrível tranqüilidade da consciência dos conquistadores. agora. vilipendiado no início como usurpador do que não lhe era devido. Nossos contemporâneos mais avisados nos alertam para o fato de que hoje nos desafia uma -análoga transformação. Só que. nos anais do Concilio de Trento (do qual. foi um ponto de mutação sem precedentes na história da humanidade. de entrada. um ponto de mutação radical. Talvez seja de ponderar que a própria conquista das imensas regiões descobertas. impõe um fim ao velho capítulo medieval do "preço justo".

p. segundo. Rio de Janeiro. de uma clara visão alternativa acerca de formas de organização social menos desastrosas e. a nosso modo de ver. claro está) da parte do pensamento econômico. em conseqüência. Quanto ao primeiro aspecto. o despertar para a possibilidade da produção acelerada de riqueza e. 22 Não se entenda essa afirmação como se os oprimidos achassem correta e justificada qualquer opressão. uma esplêndida amostra de ideologia econômica. Isso. para o caráter factível/feitiço dos processos societais através da economia. ou seja. No que postas da questão é ricos mais diz respeito ao segundo aspecto. 1974.sernos apenas indicar aiguns condicionantes que a tornam mais plausível. Reflexões sobre as causas da miséria humana e sobre certos propósitos para eliminá-la. 30. a ausência de resteologia cristã frente à novidade da situação. este livro é um exemplo incrível de como se podem diluir certezas mínimas acerca das causas e soluções possíveis ao desafio da miséria. Barrington. embora até nesse plano pudesse haver a incidência destrutiva de teologías perversas acerca da culpabilidade humana e os castigos merecidos. nos parece. Zahar. — De resto. industrial e democrática dos últimos quatro séculos. Duas são. ao alcance das suas ações. dificilmente poderia ocorrer às vítimas de qualquer ordem social que as sociedades humanas pudessem tomar forma diferente". deve sér tomado em conta para entender o surgimento de um efetivo magistério teológico (sem que levasse esse nome. no sentido comum das vítimas. convém insistir na penetração lenta da consciência do que chamamos a descoberta da sociedade. provavelmente é bastante correto o que afirma Barrington Moore: "Antes das revoluções científica. que levem em conta tanto as várias 22 MOORE. A frase foi citada para indicar a ausência. . a certamente complexa e fazem falta estudos históaprofundados. a carência generalizada de respostas teológicas adequadas a essa nova situação. ao mesmo tempo. as circunstâncias-chaves desse processo de "tradução econômica" do mandamento do amor ao próximo: primeiro. Em traços gerais.

os próprios jansenistas. num assunto de tamanha envergadura. e daí as vacilações. que o leitor saberá recolher. incrcmentando-a como "boa-nova". (3) indícios da firme adesão dos economistas a esta versão teológica. nos dá a entender que as brigas teológicas entre probabilistas e probabilioristas — entre os que achavam moralmente lícito atuar com razões "prováveis" e os que exigiam "o mais provável" — tinham como referência a falta de critérios claros. com mínimas resistências da parte da teologia cristã.5 j tendências da Reforma como a Escolástica dos séculos XVI a XVIII. tidos como "estritíssimos" e adversários ferrenhos do "laxismo" jesuítico. e por terem ajudado a isentá-los de excessivas preocupações morais. com razoável fundamentação. 502 e 503). passa a ocupar o centro do paradigma econômico. Em suma. só podemos lançar algumas provocações para ulteriores estudos do assunto. O que se pode afirmar. diante das novidades do mercado emergente. tinham certezas acerca da excelência da competitividade no plano econômico. Sintetizemos. Schumpeter e o próprio Cardeal Hoeffner louvam os esforços da Escolástica em secundar o caráter "virtuoso" dos atores do capitalismo mercantil. Weber. segundo Pascal (Pensamentos. agora. em linguagem de aparência secular. pelo menos segundo a "recepção" registrada pelos historiadores das idéias econômicas e políticas. n. Ê evidente que. Procederemos em três passos sucessivos: (1) exemplos indicativos de como se foi construindo a teologia econômica sobre o modo "realista" de amar ao próximo. constituindo-se num pressuposto básico. porque a grandeza do homem se manifestava no fato "de ele ter sabido extrair da concupiscência uma regra admirável" e "uma ordem tão bela". o pensamento econômico conseguiu impor uma nova versão teológica sobre o amor ao próximo. Paradoxalmente. e não tanto os escrúpulos no campo da moral privada e familiar. é a escassa influência de toda essa teologia cristã no pujante pensamento econômico e político da época. acatado historiador e sistematizador do pensamento social cristão. Oswald von Nell-Breuning. não vê nada de chocante em propor uma relação funcional do comportamento religioso prático do pietismo com o paradigma do interesse próprio. . os aspectos centrais da nossa argumentação. como é sabido. (2) amostras de como essa versão teológica.

planos e corpos. Os realismos. e na sua Ética arremete contra os que "preferem detestar e zombar dos gostos e ações humanas" e faz uma proposta em tom "científico": considerar as ações è os apetites humanos assim como o geómetra considera linhas. mas silenciam os pressupostos com os quais se estabelece que determinada visão da realidade é "factual". Entra em jogo. útil somente àqueles poucos que desejam viver na República de Platão e não aos que se atiram aos detritos de Rômulo. e só depois analisa a vida em sociedade. apud HIRSCHMÀN. Hobbes. o recorte da realidade — que determina por que se acredita que o homem "seja assim". Maquiavel elabora uma conhecida distinção entre "a verdade efetiva das coisas" e as visões "imaginárias". 1977). argumentando que sua teoria antropológica se baseia na ciência de Galileu. Press. calando ou ocultando o marco categorial — isto é. Paz e Terra. As leis consideram o homem como ele é e tentam aproveitá-lo na sociedade humana". e é. O contexto é de um chamado ao realismo. 1979 (orig Princeton Univ. Spinoza. escreve em sua Scienza Nuova: "A filosofia considera o homem como ele deve ser. quando não foi indicada outra fonte. por isso. com argumentos supostamente mais científicos. no seu Tractatus politicus. Isto soava simpático por diversas razões. portanto. É de notar que esse realismo se enfeita. Albert O . 23 Esta e as citações nas páginas seguintes. Vico. já entrando no século XVIII. Passa-se a falar do homem "como ele realmente é". Rio de Janeiro. "operam com "fatos".(1) No início da idade moderna constata-se um forte rechaço de antropologías essencialistas e moralizantes^ que falavam do ser humano "como ele deveria ser". 23 Este é o clima intelectual dentro do qual devemos situarnos para continuar nossa reflexão. dedica nada menos que os dez capítulos iniciais de seu Leviatã a uma teoria da natureza humana. ontem e hoje. entre elas o argumento da "cientificidade". . desde o início. As paixões e os interesses. um contrabando ideológico disfarçado de realismo: fala-se do homem "como ele realmente ê". ataca veementemente os pensadores que "concebem os homens não como eles são mas como gostariam que fossem". descartando filosofias e teologías "imaginárias".

Mas não apenas na economia. Esse princípio prova a existência da Divina Providência. um conjunto de mecanismos automáticos. desse modo. nos fala da excitante descoberta. a "Mão Invisível" de Adam Smith e até a "subíimação" de Freud tratam do mesmo tema. A "astúcia da Razão" de Hegel. O que se descobriu. é o "jeitinho" de Deus em relação aos pecados ¡humanos. ela produz a força. inteiramente alheios à nossa consciência e intencionalidade (chamem-se "leis da Providência Divina'' ou de outro modo). um primeiro elemento: com base em "fatos". porque essa é realmente a convicção que. da avareza e da ambição — os três vícios que levaram tantos homens à perdição — (a sociedade) faz a defesa nacional. com recursos teológicos explícitos. desses três vícios que seguramente acabariam por destruir o homem na terra. pois. solucionam o problema em nosso lugar. assim. mas sempre assinalada como uma importante "descoberta". as paixões dos homens inteiramente ocupados na busca de sua vantagem privada são transformadas em uma ordem civil que permite aos homens viver em sociedade humana". é um tema real com o qual nos defrontamos toda vez que refletimos sobre a vida dos indivíduos e as formas institucionais da sociedade. . trata-se de "aproveitar" os homens — suas paixões e seus interesses concretos — na organização da sociedade. parece que se preferiu apostar numa espécie de solução fácil. a felicidade civil. E este tema não é ficção. camuflada em outras linguagens. "Da ferocidade.Temos. Finalmente os homens descobriram cómo a Divina Providência dá um jeito para tirar um saldo positivo dos vícios e pecados humanos. por obra de suas leis inteligentes. a sociedade faz surgir1. que constitui um problema verdadeiro. a riqueza e a sabedoria das repúblicas. portanto. o comércio e a política. Não estamos ironizando.respostas dialéticas para essa inter-relação. Giambattista Vico. se instala no cerne do paradigma econômico burguês. como já estamos vendo. Opções individuais e projetos coletivos têm uma inter-relação dialética. e. até quase automática: não tocaria ao nosso esforço consciente achar. Só que.

alguém descobrir defeitos. Portanto. registremos uma alusão mais-genérica às circunstâncias-requeridas:. às objeçÕes provenientes de espíritos escrupulosos (ademais. ou não conseguem. Por ora. dotados de uma misteriosa sabedoria oculta. Respondia-se. por um lado. Por ora. e a dos que. consciente e racionalmente. se autodefine como "uma porção daquela força que sempre deseja o mal e sempre faz aflorar o bem". virtudes individuais que são socialmente prejudiciais? Só que o problema dos "pecados" parece mais intrigante e até mórbidamente fascinante. existem subvariantes. não se limita aos .vícios e às paixões. porventura. parcial ou incondicional? O Mefisto. uma parte. o tema é recorrente ao longo da história das culturas. Tem sentido propor-se. a questão levantada se refere ao sentido ou sem-sentido de qualquer plano coletivo. desistindo de metas conscientes. ao longo deste livro. com um . Nas frases citadas até agora ainda não fomos esclarecidos sobre as circunstâncias nas quais os vícios se metamorfoseiam maravilhosamente em virtudes. Prossigamos para ver se o paradigma do interesse próprio permite manter semelhantes distinções ou se é um apelo de "confiança total". Não existem apenas duas alternativas: a dos que apostam na concepção e no domínio consciente e racional de projetos humanos coletivos. apostam no caráter beneficioso de mecanismos institucionais automáticos. "uma porção". Este assunto retornará. inevitavelmente.O problema. com os projetos correspondentes? A história coletiva dos homens passa sempre à margem de intencionalidades coletivamente elaboradas? Veremos que é neste ponto que os caminhos se bifurcám. portanto. Ou não existem condições para tal prodígio? Fiquemos atentos a este aspecto. porque elé se tornará a chave explicativa quando. tais ou quais metas. em relação ao paradigma econômico. ser socialmente fecundas? Ou existem. uma simples provocação: onde inserimos o clássico tema dos "pactos com o diabo"? Como se sabe. Pacto de que tipo?. do Fausto de Goethe. obviamente. Entre esses dois extremos. paixões se direcionam para o bem mediante outras paixões. assim. seus equivalentes contrários. Ele se apresenta igualmente para as virtudes: como é que elas conseguem. No fundo.

Sobreveio. não procuremos destruí-las. como apêndice. onde expõe extensamente sua filosofia econômica. A pré-história da economia. Foi editado originalmente em 1705 e continuou best-seller até boa parte do século XIX. não resolvia grande coisa. em velhos textos ascéticos. O próprio Adam Smith polemiza com Mandeville. pois esta foi realmente uma novela de muitos capítulos.24 O tom debochado do poema provocou críticas dos escrupulosos. . Diante dó escândalo o autor agregou ao poema vinte e quatro ensaios em prosa. em: BIANCHI. Coisa preludiada. ao espanhol. era. Fondo de Cultura Económica. mas esforcemo-nos por dirigi-las: compensemos aquelas que são prejudiciais por aquelas que são úteis à sociedade. México. port. A razão ( . 1988. possivelmente. . O poema é considerado uma obra-prima da literatura de divulgação da sabedoria econômica. 151-163. Ana Maria. a descoberta de uma paixão — ou um feixe de paixões — que não era uma simples paixão-contrapeso. de passagem. assim. Assim D'Holbach: "As paixões são os verdadeiros contrapesos das paixões..leve toque de "boa notícia"). da obra que mais ajudou para que a "descoberta" da chave solucionadora "vícios privados. 24. ) não é senão o ato de escolher aquelas paixões que devemos seguir em favor de nossa própria felicidade". de resto. Qual o seu nome? Refreemos a excessiva pressa. O jogo econômico estava exigindo uma "direção espiritual" mais específica. Hucitec. mais sobré as expressões inapropriadas que sobre o fundo. especialmente no plano econômico. trad. São Paulo. em meio ao torvelinho das paixões humanas. 1982. completa com os anexos em prosa. Ttad. . bastante aceitável e registrada por muitos autores. Ela não só "provê" mas também "prevê". p. A fábula das abelhas de Bernard Mandeville. encontrava o caminho em direção ao amor ao próximo. Seu título original é elucidativo: A colméiá murmurante ou Os velhacos que se tornaram honestos. benefícios públicos" penetrasse no sentido comum de gerações inteiras. a paixão que. Esta "regra espiritual". Trata-se. As "leis da Providência" certamente incluíam outras astúcias. Seria omissão imperdoável se não mencionássemos.

as boas idéias de Mandeville já não serviam. . " . somente tolos podem querer uma colméia honesta. com inicial maiúscula. atribuída. a criatividade passional (como se chama. a vida e o suporte de todos os comércios e empregos sem exceção". hoje. . ela é basicamente "racionalidade dos indivíduos" atores da cena econômica. pois. se quiserem. baseadas na autonegação. que fundamentam a ordem social. Abandonemos as "vãs utopias (sociais) radicadas no cérebro". Retém-se integralmente o que de valioso já havia sido "identificado e descoberto" nas paixões: sua função mobilizadora. em G. ao consumidor. ou.. Pelo contrário. É interessante como. . o que é uma forma peculiar de repolitização dessa "racionalidade" subjetiva. a Public Choice estende este conceito a subjetividadesem-conjunto. Estava-se. nesta perspectiva econômica. luxo. ao "homo oeconomicus". era uma chave política: um bom administrador que saiba como manipular os vícios de todos. A Razão. Só recentemente. sim. Essa "racionalidade" subjetiva será. a chave de solução não era propriamente econômica. A "racionalidade econômica" é outra coisa. mas de uma paixão domadora e direcionadora das paixões. mas o que neste mundo chamamos m a l . Uma espécie de ditadura orgiástica e escravagista ao mesmo tempo. . a "racionalidade" se subjetiviza. Revolução Francesa). a base sólida. Isto explica as reticências dos economistas. serve apenas como símbolo abstrato para encenações políticas (cf. mais tarde. sem fraude. . é o grande princípio que nos torna criaturas sociais.. orgulho e : necessárias doses de violência. Não são as virtudes. um mecanismo econômico independente do governo. As abelhas demonstram quanto tudo isso é necessário. E quando o mecanismo econômico de direcionamento beneficioso foi declarado autônomo da política. Acrescentava-se um elemento novo: mobilizar paixões. Em Mandeville.Em síntese. já não de paixões que contrabalançam proficuamente paixões. clássicos. Gilder e muitos outros). mas com direcionamento "racional". pelos neo-. à procura.

. ato I. que derivam do mecanismo (divinizado) da concorrência. . achando graça nesse "homem novo" recém-criado: ' "Se é necessário supor. que corre de boca em boca e se projeta nos escritos de muitos autores. cena 6). Mas essa "racionalidade" não deve ser confundida. porque se liga diretamente ao conceito de "liberdade econômica" e propriedade privada. com consciência. Há ainda alguns discretos protestos (do Cardèal de Retz. sem mais.) e alguma fina ironia. o universo moral é regido pelas leis do interesse". É no âmbito da "racionalidade" subjetiva que ela é santificada. que estes sempre seguem seus interesses verdadeiros. Interest governs the world. Servo de quê? É aí que se dá um salto de uma teologização a outra. deve-se então estar : falando de uma nova manufatura de homens por Deus Todo-Poderoso. Como se pode ver. A "racionalidade" é atribuída também a algo que está fora dos indivíduos: o mecanismo da competitividade. acerca dos homens. " O interesse governa o mundo" torna-se um dito corriqueiro. A "racionalidade econômica" é esse conjunto: a "racionalidade" subjetiva dos indivíduos (proprietários) governada pelos "imperativos da racionalidade econômica".A "racionalidade econômica" reside basicamente nos Indivíduos. para que sintamos quão forte era a convicção de que se tratava da "descoberta" de um princípio extremamente confiável e seguro: Helvetius: "Assim como o mundo físico é regido pelas leis do movimento. Demos novamente a palavra a alguém de categoria. pois a velha lama nunca produziu até agora uma criatura tão infalível". como a do Marquês de Halifax. Pode até ser considerada na linha do "servo arbítrio" (de Lutero). deve existir uma nova argila. um constructo teológico fantástico. Schiller coloca o provérbio na boca de uma sua personagem: Denn nur vom Nutzen wird die Welt regiert (A morte de Wallenstein. É fundamental reter este aspecto. do Bispo Butler. .

portanto. Importante: a maneira como ele cria "constâncias" e. propriedade privada e livre jogo da competitividade. É certo que Adam Smith. E assim se originou o paradigma econômico centrado no interesse próprio. desenvolve apenas os aspectos essenciais de uma teoria do mercado. por haver escrito sua obra magna nos albores da Revolução Industrial. Que foi que Adam Smith acrescentou à evolução do conceito? Pois. em seu funcionamento implacável. fixando-lhe. as características peculiares. Em outras palavras. Adam Smith inseriu o interesse próprio no código genético do paradigma econômico burguês. mas os diferentes autores o inseriam ora nos processos políticos. que entram na solidificação sucessiva do conceito de "interesse próprio" (self-interest). previsibilidade e confiabilidade. Deixemos à imaginação (melhor. ora nos processos societais em geral. a partir de então. mas incrivelmente muito quanto à sua exata localização num paradigma econômico determinado. o sistema de livre mercado. sua substância consistia em "mecanismos econômicos".Enganava-se o irônico Marquês: esta nova criação já não requeria a argila bíblica. o que Adam Smith fez foi implantar e fixar o conceito no cerne de uma concepção bem determinada da economia. Isto é fundamental para a dignificação do mecanismo da competitividade: identificando os interesses do concorrente. praticamente nada enquanto conceito. Já vimos uma série de aspectos-chave para que esse interesse próprio pudesse ser elevado à categoria de detonante. Mas deve-se a ele a justificativa especificamente econômica da "busca desimpedida do interesse próprio indi- . pois não chegou a conhecer. ao estudo) do leitor uma série de elementos adicionais. um detalhamento mínimo das implicações básicas: iniciativa privada. podemos. você sabe como deve competir. Os historiadores do pensamento econômico concordam neste ponto: o conceito como tal estava praticamente maduro. e usando uma comparação com a biotecnologia. o que passou a exigir. assim. ser bastante breves em relação ao papel articulador que o interesse próprio passa a ocupar no paradigma econômico burguês. agora. (2) Com base no que precedeu.

Sobretudo quando se está veiculando uma mensagem nova sobre as formas mais apropriadas do amor ao próximo. A "racionalidade econômica" se entronizou no seio da "liberdade". vinculado ao próprio reino da livre criatividade. que poderíamos chamar de "a fase das palavras purificadas". que se expressa no desdobramento ulterior das linguagens econômicas. Já nem se precisa falar. Agora. mais e mais e até obsessivamente. é de suma importância. Já nao há obstáculos para que se veja por onde passa o melhor caminho para o bem de todos. economia de livre iniciativa ou de livre mercado. de interesse próprio. Poderia alguém sentir conotações ambíguas. Agora o interesse próprio passa por uma "libertação" radical. embora já elevado a "melhor caminho" para fazer o bem aos demais na sociedade. essa palavra que. em termos de trânsito comunicativo das linguagens. porque este "melhor caminho" foi projetado apropriadamente para . livre mercado. ligadas à evolução anterior do conceito. ainda estava imerso em terminologias um tanto pejorativas (vícios privados. na boca de moralistas. A teoria econômica se apropria. Mas. agora se inicia uma fase nova. iniciativa privada de proprietários. Isto. poderia ter ressonâncias acusatorias contra o "instinto do lucro". o interesse próprio. paixões individuais — benefícios públicos). Seu nome se limpa de todas as escórias. do conceito de "liberdade" e passa a controlá-lo. sem serem atrapalhados por ninguém). Mas as poucas citações que seguem deixarão claro um outro aspecto: antes de Adam Smith. não façamos nenhuma cobrança. Isto nos leva a entender melhor a carga emocional e conceituai. no terreno econômico. As ressonâncias pejorativas desaparecem mais e mais. Isto sucede mediante uma vinculação definitiva a um conceito bem determinado de "liberdade". A teologia da caridade se encontra' embutida no conceito econômico do interesse próprio e da livre iniciativa. com base nessa vinculação com um conceito domesticado de liberdade. os novos nomes do interesse próprio correm livremente: livre iniciativa (isto é. francamente positiva. Lucro. a toda hora. etc. guiados por seu interesse próprio. livre concorrência (competitividade desimpedida dos interesses próprios em interação). para os economistas é um conceito inteiramente limpo.vidual".

quando se tolera que seja exercido com liberdade e segurança. Modem Library. que o deveriam complementar.- Nations . mas à sua auto-estima.25 Um aspecto fundamental.. into the Nature and Causes of the Wealth of New York. op cit . existem diversas trad. SMITH. cit. 14. Adam. p. E é desta forma que obtemos uns dos outros a maior parte dos bons ofícios de que necessitamos. 1937.. do qual devemos dar-nos cabalmente conta. M . Se fosse esta a concepção. do fabricante de cerveja ou do padeiro que esperamos nosso alimento. mas de sua preocupação com seu próprio interesse. À. cit. HIRSCHMAN. algumas das formulações de Adam Smith acerca do paradigma articulador se transformaram em referências clássicas: "Quem quer que seja que oferece a outrem uma barganha de qualquer tipo. 125. levam. An Inquiry. senão de suas vantagens. "O esforço natural de cada indivíduo para melhorar sita própria condição. apud BIANCHI. propõe o seguinte: 'Dê-me o que eu quero. parciais ao p o r t . eis o significado de cada oferta como esta. Não é da benevolência do açougueiro. é princípio tão poderoso que sozinho. em conta essa sua condição para fazer dela a própria "encarnação" do amor possível. op. e sem qualquer assistência. E a "racionalidade econômica" se encapsula contra esse tipo de alternativa. mas¡ sendo pecadores. Dirigimo-nos não à sua humanidade. Pelo seu extraordinário vigor1 expressivo. e nunca lhes falamos de nossas próprias necessidades. é que este princípio articulador já não é apresentado como um princípio relevante entre outros. p. e você terá o que quer'. 98. onde os homens não são perfeitos. é não somente capaz de levar a sociedade à riqueza e à prosperidade. quanto de superar uma centena de obstáculos impertinentes com os quais a loucura das leis humanas freqüentemente sobrecarrega suas operações". ela poderia ser ponderada e até aceita por todos aqueles que — como — 25.. declarando-a não-realista. A. significa operar com outro tipo de racionalidade. Só um mendigo opta por depender basicamente da benevolência de seus semelhantes". Querer outro caminho. O.um mundo "realista". 508.

um "em nome de todos" e "para todos". sob a forma de iniciativa privada não interferida. mediante a implantação do paradigma econômico burguês. é o núcleo duro do paradigma instituído a partir da total identificação da liberdade com o interesse próprio. com a conseqüente obstrução da iniciativa econômica ou do acesso a ela. fazendo do homem. é parte essencial de uma plena valorização do -sujeito humano. com a exclusão de quaisquer interferências provenientes de critérios sociais que ultrapassam o mero interesse privado de indivíduos. foi um reducionismo excludente: a redução da iniciativa econômica à iniciativa privada dos que já são proprietários. de todos os demais. Mas. Só mesmo uma proposta totalizante de centralização planificadora. sozinho. onde se retenha qualquer vestígio de livre jogo dos interesses particulares dos indivíduos. Esta redefinição tem nitidamente um caráter reducionista e excludente. não se estabelece um princípio. se encarregará dos melhores benefícios para todos. manter distinções sutis. como vimos. portanto. Isto seria cair numa visão idealista da natureza humana. rechaça frontalmente uma concepção das interações econômicas. mas o princípio que. Esta sinonimia perfeita entre iniciativa econômica e iniciativa privada. agora.nós —. portanto. Houve uma redefinição total do sujeito humano e da sua liberdade. Mas. A iniciativa econômica dos indivíduos. a iniciativa econômica. reside menos na aceitação de interesses particulares — defensáveis na medida em que resguardam a identidade do indivíduo no convívio social — do que no dogma da natureza beneficiosa universal do interesse privado de um número limi- IS E D E T . abarcando todos os aspectos da economia. Devemos. como todas as demais formas de iniciativa e participação. O que ocorreu. não um sujeito criativo de metas pessoais e sociais. mas um simples executor obediente e pouco participativo de objetivos globais pré-definidos sem tomá-lo em conta enquanto sujeito histórico.não pleiteiam por uma abolição completa da livre concorrência e de formas coordenadas de mercado. porém. O problema./ para ocultar completamente este reducionismo e esta excludência (dos que ficam privados de exercer a sua iniciativa econômica è de incrementar a sua participação) acoplou-se ao interesse próprio dos que monopolizam.

portanto. uma mística do serviço ao próximo incorporada nas piores formas de dominação e exploração do próximo. Em síntese. no cerne da eficiência produtivista conseguiu-se implantar. E quando esta eficiência social é desmentida pelos fatos. é a de que o apoio pleno ao interesse próprio gera o mais rápido crescimento econômico e. deixem-nos trabalhar nesta linha porque tudo o mais (a eficiência distributiva e social) já virá por acréscimo' e a seu tempo devido. tornou-se plausível uma série de falácias: mãis riqueza e mais crescimento é sinônimo de mais desenvolvimento. Limitamonos. Esta promessa distributiva esteve embutida. a produção dos bens necessários à vida plena de todos os homens — é um imperativo permanente. a maior produção de riqueza. onde a abundância dos bens produzidos já é enorme). que a própria história dos fatos econômicos obrigou a incorporar no paradigma. é necessário. não adianta distribuir o bolo. retoma-se. Deriva daí a possibilidade de proclamar. E não cabe dúvida de que o capitalismo demonstrou sua eficiência produtiva. enquanto versão econômica do evangelho do amor ao próximo. Eis como Adam Smith o coloca: . antes de mais nada. desde a origem. a promessa de eficiência social. no paradigma do interesse próprio. da maneira mais enfática. A brevidade necessária nos impede de detalhar os passos ulteriores. por isso. a promessa original sob a forma de premissa inegável: de todos os modos. a que sempre se retorna da maneira mais enfática. na evolução desse paradigma articulador. Já que a produção de riqueza — melhor diríamos. aumentá-lo. já que forma parte substancial do mesmo. falaciosamente. maior riqueza global é sinônimo de mais bemestar para todos.tado de proprietários. opera-se com uma lógica falaciosa: já que a eficiência produtiva (que podemos garantir) é pressuposto inegável (nem isso é plenamente verdade em economias razoavelmente produtivas. Ò evangelho da caridade ficou totalmente confiado à paixão do interesse próprio. A promessa original. com o maior vigor. Ou seja. a chamar a atenção para a importância fundamental de algumas das promessas complementares.

apud HIRSCHMAN. para tais empregos. continua sendo propalada como mensagem messiânica acerca do caminho necessário para fazer o bem a nossos semelhantes. e tanto quanto possível na proporção que é mais agradável para o interesse de toda a sociedade".. acrescentam uma ênfase não desprezível ao evangelho econômico: a sensação gostosa de usufruir vantagens mereci26. mais vantajosos para a sociedade. p. nos termos analisados anteriormente. pela evidência de bolsões de pauperização. toda vez que se mantiver1 uma vinculação básica do conceito de liberdade com o de iniciativa privada. entre todos os diferentes empreendimentos que nela têm lugar. porém. Porém. como um dos eixos articuladores da desmistificação dessa promessa mentirosa. de abismo crescente entre ricos e pobres. O encaixe dessa promessa de crescente democratização política no paradigma indicado cobra certa lógica. p 104 (glifo . é a de que o paradigma do interesse próprio é a base imprescindível para uma sociedade democrática. são. op. neste momento. A divisão do trabalho. Os utilitaristas. os interesses privados e as paixões dos homens levam-nos. a queda do lucro nesses e o aumento do lucro em todos os outros dispõem-nos imediatamente a alterar essa distribuição defeituosa. um tema de tais proporções que não cabe entrarmos nele. Este é. cit. de descaracterizar e invalidar essa promessa. simplesmente não encontra lugar apreciável no coração das teorias econômicas. de brutal desigualdade das rendas. SMITH. em casos ordinários. de monopólios e oligopólios. que. nosso) op. etc. por isso mesmo..26 O mais cabal desmentido dessa promessa distributiva. eternamente repetida. a dividir e distribuir o conjunto dos recursos de cada sociedade. de fosso espantoso entre países. A. Sem qualquer intervenção da lei."É assim que os interesses privados e as paixões dos indivíduos naturalmente dispõem-se a encaminhar seus recursos para os empregos que. até hoje. portanto. não foi capaz. naturalmente. (3) Toda a ulterior evolução do pensamento econômico burguês continua firmemente vinculada a esse paradigma básico. se dessa preferência natural eles tiverem que desviar muito deles (dos recursos). 594s. especialmente John Stuart Mili (18061873).. cit. Outra promessa complementar..

até o ponto de que o trabalho corporal mais fatigante e esgotador não pode contar com a certeza de que lhe toque até o que é indispensável à subsistência. todas as dificuldades. J. apuã ROUTH. John.). como conseqüência sua. transpira de uma de suas frases mais citadas. "Se. p. empreendedor. Inglaterra). nucleado no interesse próprio. desde seu início. desfrutando da "boa notícia" de gozar benesses. se a alternativa fosse isto ou o Comunismo. A fé inabalável de John Stuart Mili no papel beneficioso universal do paradigma. se a instituição da propriedade privada necessariamente trouxesse consigo. London. 1987. Principies of Politícal Econamy.. e o atual estado da sociedade (1852. neste momento. lamentavelmente. do Comunismo seriam nada mais que fumaça. na comparação".. com todos os seus sofrimentos e injustiças... cit. Houghton Mifflin Co. e a seguinte maior àqueles cujo trabalho é quase puramente nominal. em conexão com o caráter de evangelho caridoso que o capitalismo se autoassigna. Longmans. p. 120 (com comentário. a escolha tivesse que ser feita entre o Cómunismo. 1909. Gostaríamos de lançar a provocação de que se estude o utilitarismo com uma hipótese nova: como vertente do pensamento econômico burguês que trabalhou profundamente a ideologia da felicidade de ser industrious (industrioso. para concentrar-se numa contribuição fetichizadora peculiar dessa corrente. 27 Economics "27 STUART MILL. destacando que se trata de uma prova singular da intensidade da fé . com todas as suas chances.. e de irradiar felicidade no mundo. que o produto do trabalho tivesse que ser distribuído na forma que agora vemos. . É um tema fascinante :que. por isso. a remuneração cada vez mais escassa na medida em que o trabalho se torna mais pesado e mais desagradável. diligente). numa proporção praticamente inversa à contribuição em trabalho — cabendo as porções maiores àqueles que nunca sequer trabalharam. mas que seus desastrosos efeitos chegaram a empanar fortemente em muitos momentos da sua evolução. em escala decrescente. sem ressaibos de falsos escrúpulos. grandes ou pequenas. Esta hipótese deixaria um pouco de lado o aspecto ganancioso das urgências lucrativas. K„ in Perspective. 174 e GALBRAITH. p„ 208.das e a vivência espontânea e saborosa de sentir-se útil aos demais. G. não podemos desenvolver. op. e assim. Boston.

Penguin Books. note-se que.28 Surgem. O economista inglês William Stanley Jevons (18351882). .). maximizar o prazer. ou qual mercadoria. nas circunstâncias globais de um determinado processo econômico (esse cálculo é difícil. a assim chamada "teoria subjetiva do valor" ou "teoria hedonista do valor". não poderia ter sido mais explícito: "Satisfazer nossas apetências no grau máximo. imediatamente após o trecho citado. S. em contraposição.Para que se tenha uma idéia da intensidade da fé de Stuart Mili na iniciativa privada. retomando o tema da "prazerosidade" que já fora tão caro a Jeremias Benthám (1748-1832). mas elas não são tomadas em conta nessa nova teoria do valor). mas ruptura com a tese central da teoria do valor-trabalho. entre tantos outros possíveis. amarrada ao conceito do "homo oeconomicus". 28 JEVONS. com o mínimo esforço — proporcionar a maior quantidade do qué é desejável a expensas do mínimo do que. que só o trabalho produz. é indesejável — em outras palavras. retoma o fio da mais esplêndida ortodoxia. p 101 . 1970. The Theory of Political Economy Harmondswoith. todos os mitos acerca da "soberania do consumidor". tese que é o fundamento para sustentar o primado do trabalho sobre o Capital. Ruptura não apenas com tentativas de medição aproximada da média de trabalho requerida para a produção de tal. posto que haveria que avaliar simultaneamente o valor do trabalho "incorporado" nos bens de capital. que já não tem necessidades vitais (quer dizer: ele as tem. seria oportuno aprofundar a "teoria do prazer" desencadeada pelos neoclássicos. etc. W. foi necessária a ruptura definitiva com qualquer resquício da teoria do valor-trabalho. a saber. a partir daí. entendido como ser de puras preferências. Tomemos apenas um exemplo. porém. este é o problema da economia". celebrando as milagrosas potencialidades do mercado.'Instaurou-se. que tem tudo a ver com o papel da publicidade no jogo da economia de mercado.. o Capital não "trabalha". Para tanto. Sempre dentro da perspectiva de fazer-nos entender como e por que o paradigma do interesse próprio consegue imporse como "boa-nova" messiânica.

depois da anulação sádica da dignidade do trabalho e do trabalhador. e para que volte a trabalhar (embora este seu trabalho futuro perca de novo imediatamente seu valor. O trabalho como tal. o grau final da utilidade determina o valor que depende inteiramente das preferências de um sujeito de puros desejos prazerosos. O trabalho. o suor do trabalhador só vale enquanto é necessário para produzir. anulase também qualquer consideração necessária que diga respeito ao trabalhador. segundo a lógica dessa teoria. -seja inutilizado e considerado de nenhum valor. supostamente centrada no "prazer". uma vez executado. Agóra dá para entender por que a teoria do valbrtrabalho preocupava tanto ao neoclássico Knut Wickselí (18511926): . Ficaram apagados os últimos vestígios de qualquer semelhança possível entre o pobre trabalhador e o Pobre da Cruz. que nega necessidades e afirma preferências. Então. não porque e pelo que trábalhou. uma vez que esteja executado. não tem nenhuma influência no futuro valor de qualquer artigo: este trabalho passou e está perdido para sempre. Em tese. Já dá para perceber que essa teoria "hedonista" do valor. conseqüentemente. é completamente riscado da 'história e. mas por duas outras razões: para que tenha alguns rendimentos e possa tornar-se consumidor (esta será sua única função "produtiva" diretamente dignificável). no plano valorativo da economia.' o suor e o sangue não valem absolutamente nada. assim que estiver executado). nos termos lógicos dessa teoria. Estamos tocando num aspecto central da teoria sacrificai embutida na teoria econômica neoclássica: a desconsideração e inutilização total do esforço humano.A equação dessa nova teoria do valor (reduzida: a uma simples teoria da formação dos preços no mercado) é de uma simplicidade espantosa: o custo da produção determina a oferta. por que pagá-lo? No fundo. e é a partir daí que se tenta refazer uma mensagem afirmadora da "vida". a oferta determina o grau final da utilidade. como sacrifício totalmente desvalorizado. uma vez que escorreram. A manipulação das preferências "prazerosas" é a única coisa que interessa a essa teoria do valor. isto é. é uma teoria macabra do sacrifício.

sendo o trabalho o único com direito à remuneração". se fosse possível restabelecer a confiança. a fonte do valor. Lectures in Political Economy. O trabalho foi concebido por eles — coisa que Ricardo jamais disse. 30 . Principies of Economics. 298. possivelmente o mais influente dos neoclássicos. cit. Alfred Marshall (1842-1924). 1901). é. p. nem quis dizer — como o único criador de valor. "estado de confiança" (state of confidence) e similares. Sobre este tema os economistas são inesgotáveis. é esta a faceta da fé no credo econômico na qual mais se insiste. in: Cahiers Internationaux de Sociologie. "Smith et Keynes: la religión dans la phiiosophie économique". . • 31. . Marx — a teoria do valor-trabalho tornou-se " uma arma terrível contra a ordem existente. Gerhard W. 29 Credos não se sustentam.. se não houver quem os tome como base para ilimitadas confianças nas regras do jõgo implantadas.. Knut. Londoh.31 A repolitização e 29 WICKSELL. G . a quem provavelmente muito poucos se inclinariam a qualificar como contrabandista de sub-reptícias teologías. op. Routledge & Kegan Paul."Nas mãos dos socialistas — especialmente Rodbertus e. como roubo às expensas do trabalho. como exemplo: "A causa principal de todo o mal (na economia) é a falta de confiança. A maior parte dos males poderia ser remo' vida. um dos economistas que mais empregava conceitos como "espírito de confiança". 307-338. apud ROUTH. Ela tornou todas as demais críticas praticamente supérfluas. quase ao instante. John Mavnard Keynes (1883-1946). agora. em outras palavras. mais ainda. cit. 28. de uma vasta rede de linguagens aparentemente seculares. e fazê-las continuar sua produção e sua demanda das mercadorias de outros". que se mantinham em mãos privadas. Isto nos conduz a outro nutrido capítulo do pensamento econômico: alentar a fé cujo conteúdo esseíiciàl é a confiança. e dessa maneira todos os demais fatores de produção. 711. impulsionar todas as iniciativas com seu toque mágico. jul-dez/1987. Sobretudo em épocas de aguda crise. 30 MARSHALL.. 1934 (1» ed. mas cujo conteúdo não deixa de ser nítido: é aquele aspecto da teologia bíblica da fé que se expressa na "fidelidade" e confiabilidade dos parceiros da Aliança. no entanto. tinham que ser considerados como parasitas da produção. p. Alfred. Cf DITZ. Trata-se. e a sua retribuição..

"What is Socialism?". com o discernimento necessário para rebater uma objeção que a própria sensibilidade profissional dos economistas sugere. verão/1978. diz expressamente que não lida com esse tipo de valorações? Senão. . "RACIONALIDADE ECONÔMICA": UM VETO IDEOLÓGICO ÀS METAS SOCIAIS Devemos defrontar-nos. . É ¡honesto tomá-los a sério. é precisamente o núcleo articulador de todo o paradigma: o cerne dogmático da fé ilimitada no caráter benéfico da livre iniciativa centrada no interesse próprio. com o máximo vigor. ao contrário do socialismo. segundo se diz. ) a celebração do individualismo está em oposição direta ao compromisso básico socialista de aceitar deliberadamente a meta de uma moral coletiva". in: Dissent. porque se baseia na eficiência econômica. e isto lhe basta. 6. confira-se: o capitalismo. que trabalha (ou pretende trabalhar) exclusivamente com "variáveis econômicas". HEILBRONER. E assistem-lhes muitos "argumentos à mão" pára tentar invalidar nossa posição. . 25. seria algo totalmente inimaginável se desconsiderássemos toda essa "tradição teológica" do pensamento econômico burguês. R 346-348.reíeologização explícita da economia pelos neoliberais. O que os neoliberais retomam. ( . É inteiramente normal que lhes soe abstrusa a suposição de um "cerne teológico" nas teorias econômicas. agora. Eles se habituaram ã pensar em termos de "racionalidade econômica". "Só o capitalismo expõe os seus constituintes à ansiedade de uma vida sem o socorro de uma moralidade coletiva. precisamente. L. na atualidade. não se fundamenta em projetos elaborados com critérios morais.32 32. quando ela. Como se pode pretender que a economia se esteja querendo substituir a credos morais e até exerça um fantástico "magistério paralelo" à doutrina cristã sobre a identidade do am°* a Deus com o amor histórico ao próximo.

e por isso são subtraídos a qualquer discussão. A resposta a tudo isso é muito simples: é exatamente isto que quisemos dizer. "Dennis Robertson. porque se pode permitir o luxo de semelhantes simulações devido ao fato de que já pré-definiu. 27 jan/1988. Robertson insistia com seus alunos para que desconfiassem de todas as propostas que requeiram. Antônio. com o menor número de imposições de ordem moral. que realiza sempre o oposto de suas boas intenções". pretender sustentar que a economia capitalista tenha usurpado o coração do Evangelho soa realmente bastante estranho. costumava dizer aos seus alunos que a principal tarefa dos economistas era minimizar o uso do mais escasso de todos os recursos: o amor ao próximo. ou seja. este princípio áureo da caridade "não foi invenção de nihgüém. já qüe se trata de um aspecto tão central do cristianismo. in: Catholicism in Crisis.33 E prosseguindo: até um (já falecido) Cardeal da Igreja Católica. e o pior: isso é feito em nome de uma assim cha33. . que a economia simula estar extrojetando da sua "racionalidade econômica" todo e qualquer critério valorativo. já que se opõe a afirmações explícitas em contrário. 34. como dizia João Guimarães Rosa. Paulo. 34 Portanto. "Economic Systems and Economic Ethics". quais são seus critérios valorativos. um soberbo economista inglês. DELFIM NETTO. coincide em afirmar que seria prejudicial à eficiência econômica esse tipo de intromissões valór ativas. ou seja. que agora se pretende que albergue em seu bojo estranhas pré-definições teológicas. certas formas de altruísmo ingênuo. " O amor ao próximo". Segundo ele. para o seu bom funcionamento. com toda a firmeza. in: Folha de S. fica comprovado que "Deus é traiçoeiro". Joseph Hoeffner. O prof..E tem mais: ninguém pode ignorar que todo o pensamento econômico. Foi descoberta acidental tornada possível por Curtos instantes ocasionais de redução da vigilância do poder estatal". HOEFFNER. J. p. parece concordar com um antigo moralista — Konrad Summenhart von Wuertemberg (f 1502) — 'que teria sustentado que sempre deveríamos preferir o sistema econômico que trata de funcionar com um "mínimo de moralidade". jun/1986. mais: introjetou de tal maneira esses critérios que eles são tidos como autovalidantes. 11. De acordo com esta "teologia da revelação".

solidariedade humana. Ê lógico. e outras coisas deste estilõ: Caminhar nesta direção. Agora. Pode-se chegar ainda mais longe: dizer que a aposta incondicional nesse interesse próprio é a defesa da "liberdade". qualquer concepção diferente de liberdade. isto é meio difícil. também no plano estrito da economia. porém. que declara haver descober* to o único princípio — o do interesse próprio — com base no qual se pode ser economicamente "racional". Significa somente que se acredita que faça sentido. que. que os homens — que. não se queira saber de outra coisa. amparo aos mais necessitados. querer sustentar ainda. Ñote-se bem: confrontamo-nos com a recusa explícita a admitir que. certamente. sem querer que todo o mundo venha a aderir a um código completo de valores. que se tenha que invadir todos os recantos da individualidade. e por essa razão são totalmente refratários a qualquer outro tipo de "opções fundamentais". De repente. defesa dos desprotegidos. proteger e não deixar que se perturbe esse reino do indivíduo com seu self-interest. para seres humanos normais. operar com um outro conceito de "racionalidade econômica". óbvia e corretamente. implica. Não significa. em base a semelhante concepção do ser humano enquanto agente econômico. Que isto alteraria completamente o quadro é coisa óbvia. E mais ainda: pode-se acrescentar que este é o único caminho possível para fazer algo de proveitoso em favor de seus semelhantes. que isto não é uma reformulação completa do que o Evangelho nos propõe quanto ao amor aos nossos semelhantes. trabalham com a hipótese de que determinadas metas sociais prioritárias podem perfeitamente chegar a ser objeto de consenso coletivo. no plano da economia. e excluir. têm interesses individuais — são uns seres que só têm isso. oportunidades reais de satisfação das necessidades básicas. quando se trata de economia. depois de haver completado esse constructo ficcional. como . falar de justiça sociál. Declara. portanto. É por isso que a economia pode sustentar que é adversa a outros critérios. conceitos como "eficiência social".macla "racionalidade econômica". possam ser elaboradas outras propostas que. por exemplo. que de alentar. com isso.

as distintas vertentes que. como funciona. mediante "outras descobertas": de que existem concentrações do poder. a integridade dò credo. lhe foram dando novas e ampliadas formulações.condição para que se possa falar1 significativamente de "eficiência econômica". Notaram também que a "racionalidade" dos mecanismos econômicos "espontâneos" (o interesse próprio. que no fundo é uma perversa teologia. através de alguns exemplos. que só o self-interest cria bene. Vejamos agora. os neoliberais sabem que essa "racionalidade". e que é necessário reconstituir. Os economistas neoliberais de hoje não são meros repetidores e difusores do núcleo dogmático tradicional da economia burguesa. essa blindagem de um determinado conceito de "racionalidade econômica" contra qualquer tentativa de introduzir. neste momento. após demasiadas concessões aos que a ques- . no interior da própria reflexão sobre problemas econômicos. contra toda e qualquer assunção consciente de metas sociais na economia. como o têm sido. critérios valorativos de tipo social. que somente poderemos levantar a ponta do véu que recobre uma ideologia cuja estrutura lógica é bastante complexa. que consiste precisamente na crença de que se trata de algo "natural" e inteiramente "espontâneo". porque obedecem a cálculos do poder — todo o magnífico edifício ameaça ruir. o jogo da competitividade. Por essas e outras razões. Na medida em que se começa a questionar seu caráter "natural" e superior a qualquer intencionalidade individual — por exemplo. porém. na prática. de antemão. Para analisá-la se requer muito mais do que os poucos elementos que aqui entregamos. frente a ameaças de erosão. até agora. não se tornam estranhos a não ser aos que definiram. retendo a substância ortodoxa do paradigma. fícios sociais. Nosso propósito se limita. a mostrar um fato evidente: a blindagem dessa ideologia. Os neoliberais se dão conta de que houve perigosos diversionismos teóricos. Advertimos. monopólios e muitas manobras que têm pouca aparência de espontaneidade. ligados geralmente a sérios percalços e crises. as "leis" do mercado) está ameaçada na sua legitimação mais essencial.

esses valores brotam da própria realidade econômica. como descoberta casual e não como adesão propositada a valores predefinidos. Em um plano. ou seja. simplesmente se tornou irrefutável que o fato de deixar soltas as rédeas do interesse próprio levava à maior produção de riquezas e conduzia aos melhores benefícios para todos. já se conta com uma base para rechaçar como antinaturais e utópicos todos os intentos de introduzir metas sociais conscientes no processo econômico. Uma vez feita essa descoberta e criada a tradição desses "valores insubstituíveis". A novidade consiste no fato de que. a "descoberta" de "leis científicas" da economia. reafirma-se. Em um segundo plano. A "racionalidade econômica" os gerou. com a máxima contundência. no coração de um jogo de interesses próprios que vai configurando mecanismos racionais na economia. Esta nova defesa se move em dois planos conjugados. precisa de uma nova defesa. à margem de propósitos conscientes dos homens. mas que eles emergiram e se constituíram natural e objetivamente. Essa tradição de valores. Com a reafirmação não apenas da eficiência produtiva. propriedade privada intocável e auto-regulação do mercado. De repente. as duas coisas se juntam: sabemos agora que os melhores valores aparecem. insiste-se na solidez teórica do paradigma econômico articulado a partir do interesse próprio e seu coerente desdobramento: iniciativa privada soberana. ao contrário dos economistas que se declaram totalmente isentos de valores. natural e espontaneamente. sem que os homens precisem preocupar-se com gerar valores aceitáveis. agora já não se insiste nesta completa isenção valorativa.tionam. e que são esses valores que estão ameaçados. que os mecanismos econômicos nos . Chegamos aqui num ponto fundamental. Afirmase que realmente existe uma tradição de valores. mas do caráter natural desses mecanismos "objetivos" da economia. quando não interferida por projetos de valores intencionalmente buscados. admite-se agora que de fato existem "valores insubstituíveis aos quais devemos nossa ordem social e nossa civilização" (Hayek). A tradição de "valores insubstituíveis" surgiu espontaneamente. os "revelou" aos homens. que não precisaram aderir a nenhum tipo de propósitos conscientes para chegar a isso.

é só uma ilusão". engendrador dos mais beneficiosos valores. possa elevar-se acima dos valores da civilização para julgá-los desde fora. Há evidentemente uma teologia subjacente a tudo isso. temos aí um conceito enriquecido e ampliado de. portanto. ou desde um ponto de vista mais elevado. é necessário assumi-los com humildade e confiar neles. que se presta magníficamente para uma explícita repolitização da economia. "cientificamente estabelecidos". Falta-lhes fé numa racionalidade maior que a dos imperfeitos conhecimentos humanos. já não se pre-¡ . cria-se uma "tradição" desses valores. dos mecanismos espontâneos da "racionalidade econômica": são os construtivistas. "Desta forma é possível demonstrar que aquilo que depende da aceitação de valores. Retenhamos apenas o que está mais do que insinuado: mecanismos econômicos espontâneos "revelam" valores inalienáveis. Hayek inventou um nome. como divino darwinista social. eles "sabem" mais do que nossa limitada razão e seria irracional buscar intencionalmente metas alternativas. Já que se trata de valores "racionais". Eles constroem projetos irracionais com base em valores intencionais.revelaram. graças à sua razão. que emprega com forte sentido pejorativo. são os verdadeiros fundamentos da ordem real. seria irracional apoiar-se em outro tipo de valores. inclusive porque "são o resultado da ação humana. cujá existência pressupomos em todos os nossos esforços individuais". sem serem fruto de concepção humana" (Hayek). porque são inteiramente humanos. mas não é nosso assunto neste momento. para todos aqueles que não confiam humildemente no poder. que não se apresentam como metas conscientemente perseguidas pelos indivíduos ou grupos. são os valores mais racionais que possamos seguir. uma seleção natural? Ou uma fantástica apropriação domesticadora do Deus cristão. sol) a imagem de uma Divina Providência totalmente identificada com essa "racionalidade econômica" e que. Como certamente não lhe escapa ao leitor. "racionalidade econômica". Deísmo genérico? Uma divindade que direciona. "A representação do homem como um ser que.

Roberto Campos. posto que é espontaneamente cultuada na própria adesão a essa "racionalidade"? Neste momento nos interessa destacar a obstrução cabal de quaisquer propósitos relativos a metas sociais: " . ou seja. "Los errores del constructivismo". 36. Não sei se vocês conhecem tal expressão. 104. E se justiça social significa deter o controle da distribuição da renda. um weasel word e. 85-106. p. destruir-se-ia completamente o mecanismo ordenador que nos permite produzir tanto quanto produzimos". doninha. não existem nem os critérios positivos. 15. cit. Você tem a justiça. já não significa mais nada.cisa nomear. n. pois não constitui um objetivo definitivo. 35 "Quanto ao problema da justiça social. sem que se saiba que a casca está oca. Não se pode defini-la. . in: Estudios (Santiago de Chile). p. 29. 1981. com qualquer que seja a finalidade. a partir dos quais se possa definir ou pôr à prova a assim chamada 'justiça social'. nem os negativos. recentemente fiz uma piada no sentido de que social é o que os norteamericanos chamam de weasel word. mas quando você diz justiça social. Ed. Intrat Hayek! Adepto incondicional do "individualismo criador e da excitação competitiva". públicos . Weasel. ninguém sabe realmente o que significa justiça social. quando ligada a algum outro termo tradicional. HAYEK. Nós temos uma economia de mercado. a palavra perde seu significado.36 . " . exigindo "uma injeção de cultura capitalista competitiva" como solução a nossos problemas. também ele maneja um conceito ampliado de "racionalidade econômica" no sentido de "cultura capitalista de economia de mercado". 106. 45. mas quando você a classifica como uma economia social de mercado. . que é uma das frases mais vazias". . UnB. Social é. neste sentido. verão/1988. 102. ela não quer dizer mais nada". . HAYEK na UnB (Univ de Brasília) . No Brasil. um dos admiradores de Hayek é o ex-Ministro do Planejamento dó início do regime militar. que cunhou o lema: Exit Keynes. Friedrich. Diante 35. é aquele animal que é capaz de sugar o conteúdo de um ovo sem que se note do lado de fora.

os ensaios de justificação teológica do capitalismo mais propalados (ética protestante inspiradora da industriosidade. 39. ética darwiniana com floreios acerca da Divina Providencia. ficam avisados de que " . Ensaios imprudentes.do desafio dé "explicar as teimosas tentativas de simbiose entre cristianismo e marxismo". Robeito. 38 Ibid. Elas podem. por menor possibilidade de matematização dos teoremas". Ibid. propensos a fugir da "racionalidade econômica". Isto cria a cômoda possibilidade de insurgir-se contra outras teologías. Uma vez atingido este plano da confiança plena na obtenção dos melhores resultados humanizadores por obra e graça dos mecanismos da livre iniciativa econômica. dá-se perfeitamente conta de que. . o lema citado. propugnadoras de objetivos sociais conscientes. .37 Pelo visto. o comentário é curto e grosso: 37. p. p. a transformação de bens econômicos em tabus ideológicos . 130 (grifo nosso). concordando com Irving Kristol. . . 23. então.39 Quanto aos teólogos e eclesiásticos progressistas. 195. . os economistas propendem a considerar seus colegas da área social mais 'artistas' que 'cientistas'. Rio de Janeiro. • . p.. uma 'sacralização do profano' pior que a profanação do sagrado". 1987. comparável ao fervor dogmático do socialismo". 38 Os cientistas sociais. . essa teologização radical pode até mesmo declarar-se a-teológica e puramente secular. p. Record. ser acusadas de "mitopoéticas". porque buscam " . e convenientemente ocultada a sacralização desses mecanismos em si mesmos. . a necessária "teologia moralmente tranquilizadora" somente se alcança quando todas as preocupações morais encontram uma solução automática através dos mecanismos espontâneos da "racionalidade econômica".. "Nenhuma dessas explicações chega a constituir uma teologia moralmente tranquilizadora. ) não expõem toda a riqueza da "cultura capitalista". 29. ética tecnocrática. . CAMPOS.

não necessariamente por oposição a benefícios sociais para todos. um salto acrobático. A : opção que se tem que fazer é pelo investidor. 171.(A Teologia da Libertação de Fiei Leonardo Boff:) "Uma ingenua e beata admiração pelo sistema coletivista de distribuição da renda". Guia para os perplexos. é porque se crê que os mecanismos do mercado resolverão tais questões. p. pode-se invalidar qualquer reclamo de justiça social. Roberto. Deseja-se um exemplo ilustràtivo? Refere-se à segunda redação do Documento dos Bispos Católicos dos EUA. 169. assim. 41. Nórdica. "Suponhamos que exigíssemos que se testasse a afirmação " (dos bispos) de que 'os atuais níveis de desemprego são moralmente inaceitáveis'.. ibid. sem a menor cerimônia. . 41 • Vimos. Como poderíamos proceder? A • 40. 138. como se articula. porque já se dizia na Idade Média: só a Deus é lícito conhecer o preço justo". e não se deixa de sugerir uma alternativa racional à opção pelos pobres: "Quando ouço falar em preço justo. lucio razoável. sobre os quais assenta o capitalismo". 1988. desde o interior de uma determinada forma de conceber a "racionalidade econômica". Rio de Janeiro. é porque já se tem uma solução para isso. Isto se dá. fico horrorizado. A partir dessa crença. Essa via é tida como a única "racional". CAMPOS. da peculiaridade do debate da Escolástica sobre o "preço justo" a temas atuais bastante diferentes. "A rigor ninguém pode optar diretamente pelos pobres. que já não requer comprovações ou testes. 142. que cria emprego para os pobres". Ficam despotenciados todos os apelos sociais das encíclicas e documentos similares. um veto cabal a todo tipo de formulação de metas sociais conscientemente assumidas.40 Dá-se. p. pelo contrário. "O que vejo nas discussões eclesiásticas no Brasil é urna profunda ignorancia dos mecanismos do mercado.

curiosas superposições de imagens estáticas (o Grande Arquiteto ou o Grande Relojoeíro da ordem cósmica) e imagens dinâmicas (uma redefinição profunda do conceito de Providência). que estamos analisando. Rompe-se. cit p. pudessem dar qualquer resposta satisfatória a tal questionamento". os inícios de uma profunda transformação na imagem ou concepção de Deus. nos séculos XVII a XIX. ostensivamente no início e cada vez mais camuflada depois. na realidade. Estamos simplesmente enunciando uma hipó-r 42. e que os atuais níveis de desemprego. sobrevivem. Paul. ou um Deus das contingências mutáveis da história. Há indícios sugestivos no sentido de que a própria imagem da Providência Divina difere: muito: os teólogos e pregadores. Com a virada bastante abrupta para a modernidade. Certamente não é igual a noção de Providência Divina dos antigos pensadores greco-romanos e a que aparece. quando retomam enfaticamente esta imagem. 26-39. "Christianity inverno/1988. .42 Porque "transações despersonalizadas são a característica essencial da economia". O OCULTAMENTO MAIOR: O DA TEOLOGIA SUBJACENTE Na sua origem. HEYNE. com uma visão relativamente estática de um Deus-da-ordem em direção a um Deus-Providência. por algum tempo. que se pronunciaram ultimamente acerca da perspectiva cristã em relação à vida econômica. surgiu acompanhado de um grande número de elementos teológicos explícitos. no interior do pensamento econômico. o paradigma econômico. and 'the Economy'". aos poucos.que deveríamos apontar. desde bem atrás na Idade Média. Pode-se rastrear. 27. são perfeitamente aceitáveis de um ponto de vista moral? Não creio que os bispos ou quaisquer outras comissões ou peritos. que argumentos usaríamos para persuadir os bispos de que de fato são eles que estão equivocados. parecem estar claramente defasados em relação aos recursos eventuais de economistas a essa imagem. E acabada está a discussão! 7. in: This Worlâ.

já havia adquirido ressonâncias dinâmicas. 44 Valham dois exemplos da teologia explícita. nesta seção. in: International Encyctopaedia of the Social Sciences.tese ainda pouco pesquisada.43 Os teólogos e pregadores. New York. sobretudo quando de autoridades eclesiásticas. sociopolíticas. Nosso assunto. Implicações São Paulo. Seabury. Roque. sub-repticiamente incorporada às categorias seculares da linguagem econômica. o arcebispo Richard Whately e muitos outros) e uma vasta literatura "popular". por exemplo. na evolução do pensamento econômico. "Adam Smith". efetivamente. como o arcebispo norte-americano William Temple recolhia. Jacob. 1977. até o ponto de essa teologia ficar completamente submersa e subjacente. não nos deteremos em muitos exemplos da presença explícita da teologia na origem do paradigma econômico burguês. caps. A doutrina tradicional da Providência.: o autor. existe unicamente por disposição de uma Providência Superior. William. utilizam Uma linguagem que. 2 e 3. 44. se refere ao crescente ocultamente dos supostos teológicos. vol. implícita. 14. 1986 (of. Malthus. Christianity and Social Order. nostálgicamente presos a ordens estáticas. London. que se encontra à base de todos os assuntos. No final do século XVIII e no início do século passado houve teologizações incrivelmente explícitas (R. nos inícios: Pierre Le Pésant. a arte de ordenar de tal modo a vida que o interesse próprio propicie o que a justiça requer". Paulinas. VINER. MacMillan. não priorizou a lit. e seu ait. de cunho religioso. na medida em que encontravam eco nos fatos sociais. que a susten43. econômica em seu estudo bastante sucinto). numa formulação compacta. subjacente. 65 (1* ed. hoje. aí a bibliogr. TEMPLE. esp. Veja-se. p. . 1942). 1968. lamentavelmente. Os centros neoconservadores e neoliberais se esmeram. Ed. Por ser este o ponto que nos interessa destacar. a essência do paradigma: "A arte de governar é. em recolher testemunhos desse apoio "cristão". Philadelphia. American Philosophical Society. em apoio ao paradigma econômico burguês. Interessa-nos muito mais a teologia invisibilizada. Ê verdade que o pensamento burguês jamais desdenhou de todo o suporte teológico explícito. Sieur de Boisgillebert: "A opulência. FRANGIOTTI. 1972. ao capitalismo.. The Role of Providende in the Social Order.

revelando-nos a substância teológica da "religião econômica" do capitalismo. O essencial. por isso. dessas inversões teológicas. Arend Th. no extremo desprezo aos pobres e na sádica teoria sacrificai de R. Ed. Sigúeme. 1979. p. tomo I: Marx e Engets. Apud ROUTH. nem um só momento. van Leeuwen em seu minucioso estudo." 4 5 Já em Adam Smith.. assim como torna frutífera a produção do solo.. II /MATE. cada vez mais. Marx tratou. Com a afirmação definitiva do paradigma do interesse próprio.. op. Sobre la religión. François Quesnay: "Toda a mágica da sociedade bem ordenada consiste no fato de que o homem trabalha para outros. 7-60 (cf. 1984. às implicações profundas da sua teologia da "Mão Invisível" em toda a sua obra econômica. Voltaremos. um recurso emergencial para legitimações em casos específicos (por exemplo. n. mais adiante. São Paulo. Loyola/Ed. Somos da opinião de que esta porta de entrada é da maior importância para desocultar o caráter idolátrico da economia. Uma filosofia da religião antifetichista (vol. G. Como é sabido. cit. com admirável profundidade. ^ 45. enquanto acredita estar trabalhando para si mesmo. DUSSEL.. R . ai citada). Salamanca. 2» ed. V de: Para uma ética da libertação latino-americana).ta. UNIMEP. O que. não está aí. os princípios da harmonia econômica. de dar uma rápida amarração de conjunto a tudo isso. na sua teoria do fetichismo. não havendo. ainda emerge de forma explícita é. a coisa é bastante diferente. posteriormente. Ed. "El concepto de fetichismo en el pensamiento de Marx: elementos para una teoría general marxista de la religión". bibliogr. nem um único mercado no qual essa Providência deixe de atuar". como Pai. mas na inversão dos temas mais profundos do cristianismo que se opera no interior do próprio paradigma econômico. 75 46. Enrique.. cujo caráter e efeitos gerais são revelados pelo assunto que estamos estudando. in: Cristianismo y sociedad. ASSMANN. . . agora. Trata-se. van Leeuwen nos dá a entender que as chaves interpretativas fornecidas por Marx vão realmente ao fundo do processo teologizante do pensamento burguês. o que realmente nos interessa mais diretamente. Nas seções anteriores já fomos elaborando fragmentos decisivos a respeito disso. como nos demonstra Arend Th. 58. 85/1985 . Id. Malthus). Esta mágica. submerge-se também definitivamente a teologia nos meandros da linguagem econômica. nos mostra que o Ser Supremo designou sobre nós.

é.O que Marx nos mostra. ou o que foi que não interessou a Marx fazer. :: Vamos a alguns exemplos quase banais. a reviravolta em praticamente todas as virtudes (os pobres passam a soberbos e invejosos. a inversão do preceito do amor ao próximo-. As mercadorias. Em outras palavras. no entanto. antes de mais nada. da vida íntima na família ou em grupos de amizade. dinâmicos. como importante segunda parte do De natura deofum 1 Capitalis. As categorias do pensamento econômico burguês e a própria realidade econômica em funcionamento invisibilizam o real. Por razões diversas. não foi elaborado por Marx. o caráter essencialmente dinâmico das categorias fetichizadoras do pensamento econômico e da realidade correspondente. Até aí vai. sobrando apenas a tolerância para eventuais gestos beneficentes na privaticidade dos indivíduos. e já é muito. Marx mostrou que o capitalismo é um reino dé deuses sumamente ativos. Sua característica fundamental é a perversa infinitude. de ilimitado. não parece haver preocupado. Quando se entende o que . Todos os conceitos e as próprias teorias específicas da economia burguesa têm uma marca de infinito. os vícios privados se tornando virtudes públicas. enquanto os ricos se transformam em humildes servidores) . Em termos talvez exageradamente simplificadores. a metamorfose radical da mensagem cristã — tudo isso. o dinheiro e o Capital se personalizam como agentes ativos. próximo fica radicalmente desvalorizada no plano econômico. a Marx a inversão detalhada das verdades fundamentais do cristianismo nesse processo. enfim. sobretudo. o De natura deorum Capitalis (alusão nossa à famosa obra de Cícero) de Marx. Quem nos acompanhou até aqui percebeu a nossa insistência no que nos parece uma perversão radical do cristianismo: a fixação do caminho para o amor ao próximo no interesse próprio. mas isto de um modo tal que qualquer outra concepção do amor ao.. a inversão da imagem de Deus. Aqui nos interessa mostrar onde foi que Marx parou. e as pessoas se transformam em coisas (reificação) movidas por esses fetiches. diríamos que Marx iluminou. a maneira como se processa a inversão de toda a realidade na economia burguesa. processuais. em demasia.

: . Passemos a usar.ser realmente o Deus dos Pobres. ños mecanismos do mercado pode estar tranqüilo de que encontrou a melhor maneira de fazer o bem a seus semelhantes. enquanto permanecem desrelacionadas de um questionamento crítico da economia e da vida global dos homens na sociedade. uma linguagem mais provocativa para ressaltar melhor alguns aspectos. agora. começa a aparecer. evangélicamente. no plano da economia. A "religião econômica" também resolveu uma outra área de problemas. das linguagens microprocessuais (pessoa. etc. porque apostar no interesse próprio dos agentes econômicos é a única maneira de ser Providente. isto ficará ainda mais claro.isto significa. a quaisquer propostas alternativas sobre o modo de conceber a eficácia do amor ao próximo. comunidade. . no plano da sua vida privada. na milagrosa descoberta de uma capacidade ilimitada de desencadear o amor entre os homens. com tenacidade. para poder . saboreando a alegria de estar servindo de modo eficiente aos demais seres humanos. Na parte que seguirá. Ninguém poderá proporcionar-lhe uma proposta melhor do que esta. com os quais se perdeu muito tempo inútil no passado: a questão do pecado. De acordo com a lógica do paradigma econômico — coisa que ficava sumamente clara numa das citações de Roberto Campos. na seção anterior — o Deus dos Pobres. sobre o mercado.). no plano da economia. Deve resistir. Mas isto fica inteiramente à sua livre escolha. As teorias econômicas vêm em seu auxílio. funcional ao sistema. correndo o risco das evidentes limitações de uma linguagem com essas características. numa luz bastante nova. Ninguém lhe proibirá alguma caridade adicional. Quem obedece plenamente aos impulsos do seu interesse próprio e se insere. como mensagens reconfortantes para que se sinta bem. competitivamente. Com a imagem de Deus sucedeu algo sumamente estranho. só tem uma saída: ser o Deus dos Ricos. contanto que não infrinja a "racionalidade econômica" dos seus negócios. o caráter. A economia burguesa se resume. Nossos pecados estão aí para serem usados como matéria-prima do amor ao próximo.

mas não deveria destruir a ilimitada confiança que temos na sabedoria objetiva dos mecanismos econômicos. a virtude básica. e tão firmemente inserido . Faltavam-lhes mecanismos de implementação prática. pôde despedir-se definitivamente das falsas angústias da religiosidade pré-capitalistâ. O novo deus é expansivo. Nunca houve antes uma religião tão satisfatória para o desejo do prazer. a ser aprendida da própria natureza do interesse próprio. às do cristianismo. Também os atos devocionais da "religião econômica" são muito mais gratificantes. A economia soube recolher. Uma fascinante explosão da caridade. e é agradável viver sob os auspícios de um deus tão propício. Aliás. Quem è religioso. a explosão iniciàl que deu origem ao universo. todos esses velhos sonhos religiosos explodem fecundamente em todas as direções. suas limitações e as contingências que estrangulam nossos mais lindos sonhos. ou seja. A "liberdade de escolher" (alusão ao famoso livro de Milton e Rose Friedman) consiste em não precisar escolher. inseridos na lógica sábia do mercado. a não ser na racionalidade miúda da competitividade no mercado. é a criatividade. e sempre atento aos imperativos da racionalidade econômica. Depois que 6 paradigma econômico descobriu o caminho verdadeiro.Os homens costumam sentir um certo mal-estar com sua finitude. em particular. A "religião econômica" tem isto de reconfortante: ela soube dar vida e dinamismo às mais antigas verdades das religiões e. Que se nos releve a imagem ousada: é algo só comparável com o big-bang. é um deus semper maior. não deve temer. A liberdade consiste nisto. Eles sucedem no coração da vida "real. A questão é ser suficientemente humilde e confiante. Quem procura fazer isso. Tudo isso é lamentavelmente real. a iniciativa na concorrência implacável com os demais seres criativos. sem que a gente tenha que estar consciente a respeito das metas por escolher. e não em opções utópicas em relação a outras maneiras de organizar a economia e a sociedade. natural ao ser humano. neste sentido da "religião econômica". cujos desígnios se executam providencialmente. amarrar num feixe todos esses velhos sonhos religiosos.

apesar de estar ativo. Mas esta já não é a trilha principal por onde passam as experiências religiosas. . O deus dessa "religião econômica" detesta aparecer. E o ocultamente maior ou. que sempre guardam uma certa utilidade. que quisemos transmitir. que obedece ao paradigma anteriormente descrito é um ingente processo de idolatria. embora seus sacramentos sejam muito estáticos. tão poderosa e providencialmente. da qual os atores não tomam consciência porque se trata da teologização do próprio cerne da economia. a coisa mais fantástica na "religião econômica" é que ela opera com todas essas profundas experiências devocionais sem precisar apresentar-se como religião. Se não fosse tão ofensivo para as Igrejas. afinal. a religião das Igrejas. Aliás. se quiserem. Nada mal que continuem existindo outras formas institucionais de religião. A idéia básica. é de uma infinita modéstia. Que o leitor nos desculpe os excessos (?) desse jogo de ironias. Uma certa defasagem das Igrejas deve ser vista com tolerância e compreensão porque. o nível mais profundo dos pressupostos ocultados. em tudo o que se refere à economia. é a de que â economia. quando comparados com os sacramentos dinâmicos da "religião econômica". poderíamos até dizer que a elas lhes toca ocupar-se de relações teologais com aspectos menos essenciais de deus e da religião. Agora. as Igrejas têm ritos de certa beleza artística que emociona. São socorros complementares. O ocultamente dessa teologia econômica corresponde ao ocultamente dos pressupostos autovalidantes do conjunto e das diferentes partes do pensamento econômico.no interesse próprio. ela funciona muito melhor quando a gente nem se dá conta de que está realizando atos devocionais e tendo experiências de caráter religioso.

do meio ambiente e da paz". Oekologie und Entwicklung" do Gustav Stresemann-Institut. com o título: "Condições estruturais para uma política do desenvolvimento.ENSAIO TEMATICO O SIGNIFICADO DOS CRITERIOS DE DECISÃO ECONÔMICA * (Franz /. Do ponto de vista dos países subdesenvolvidos. sem negar que também nos últimos anos se transformou num problema-chave do capitalismo nos países desenvolvidos centrais. do ponto de vista dos países subdesenvolvidos. Hinkelammert) Advertência prévia As considerações seguintes sobre o entrelaçamento da política do desenvolvimento. e da redação do jornal (EPD). Frankfurt. O resultado é que a pauperização crescente nestes países só pode ser entendida como uma conseqüência do desemprego e que a repressão política e policial é orientada cada vez mais para a supressão das muitas conseqüências do desemprego em massa. o desemprego torna-se o problema decisivo na política econômica dos países subdesenvolvidos. como a ameaça principal para o sistema capitalista mundial. que em muitos países chega a cifras em torno de 40% da força de trabalho. de maneira crescente. Este fato tem uma influência decisiva sobre o caráter dos movimentos revolucionários nos países subdesenvolvidos. A dinâmica revolucionária parte antes de grupos que vivem em relações de trabalho sumamenEntwicklungspolitik * Conferência proferida aos 5-64982 no "Fórum fuer Frieden. do meio ambiente e da paz tentam formular esta sua conexão interna a partir de um elemento que. o desemprego aparece. Bonn. Mais do que nos países desenvolvidos centrais. . Já não são compostos predominantemente pelo proletariado organizado e sim por grupos sociais excluídos do status de um proletariado integrado e garantido por relações de trabalho duradouras e_de longo prazo. se mostra cada vez mais como decisivo: trata-se do problema do desemprego.

O direito à vida implica. corresponde um conceito de liberdade segundo a qual as possibilidades materiais da existência humana são a condição de uma sociedade livre. Ao direito à vida. Cada vez mais o direito à vida se transforma num critério decisivo e numa exigência primordial a partir da qual a sociedade atual é entendida como uma sociedade que condena à morte a maioria de seus membros. porque ele pressupõe relações de trabalho predominantemente duradouras. mas é entendido. esta não é a situação da maioria da população dos países subdesenvolvidos. como o direito de viver numa sociedade em que cada um de seus membros possa satisfazer suas necessidades básicas através de um trabalho seguro. que não se dirige tanto à nacionalização dos meios de produção mas sobretudo a uma planificação econômica capaz de garantir o direito à vida. que não permitem uma existência humana segura. esta ênfase . assim entendido. O fato de este subproletariado se ter tornado um novo grupo dinâmico ficou claro especialmente na América Central. sobretudo. No entanto. Especialmente na América Central. em seu centro se encontra um movimento radical de reforma. sem a qual não é possível a liberdade humana. sua base material. Algo parecido ocorre hoje na situação de El Salvador e da Guatemala. Esta situação de fundo levou a uma mudança das expressões ideológicas de tais movimentos revolucionários. na revolução sandinista da Nicarágua. mas também em toda a América Latina com sua forte tradição cristã. na qual o subproletariado toma a iniciativa e o proletariado propriamente dito apenas participa de uma maneira muito mais esporádica. Não resta dúvida de que esta forma do direito à vida é incompatível com a existência da sociedade burguesa capitalista e. portanto.te precárias. naturalmente. tende a levar à afirmação de movimentos socialistas revolucionários. Mesmo o termo "desemprego" é pouco exato. Contudo. o direito contra as arbitrariedades da polícia e dos aparelhos estatais. em oposição a um mercado que é considerado como uma ameaça para a vida humana.

exatamente. Esses critérios se referem. Na medida em que aparecem movimentos ¡ populares que lutam por uma nova sociedade baseada no direito de todos à vida. A análise que segue é a tentativa de mostrar este critério do direito à vida como critério central para a discussão das condições estruturais de uma política do desenvolvimento. A ressurreição aparece como vitória sobre a cruz. para a proteção do meio ambiente e para a paz. sendo que o Domingo da Ressurreição não desempenha quase nenhum papel. tão exclusivamente. como antecipação da terra nova. A interpretação tradicional do cristianismo na América Latina enfatiza a morte. A celebração da Semana Santa tem sido 0 centro da religiosidade e ela termina na Sexta-feira Santa. dó meio ambiente e da paz. Durante os anos setenta se percebe cada vez mais a ressurreição como o centro do cristianismo e se chega a transformar assim a celebração da Semana Santa. o que é evidente particularmente na ênfase que a religiosidade popular dá à Semana Santa e à Sexta-feira Santa. por outro lado. como religião da cruz como o é. ocorre uma transformação interna deste aspecto central da religiosidade popular.do desenvolvimento.especial no direito à vida encontrou uma expressão especificamente religiosa. Não há nenhuma outra região no mundo onde o cristianismo foi entendido. que sempre foi o pano de fundo de esperança da ressurreição na tradição cristã. mas na forma de ressurreição e cruçifixão. na América Latina. Enquanto na ideologia política dos movimentos populares a polaridade vida ou morte chega ao primeiro plano. 1 O significado dos critérios de decisão econômica (sistema de coordenação da divisão social dõ trabalho) A política. do meio ambiente e dá paz pressupõe ações concretas orientadas para o desenvolvimento. na medula da religiosidade popular aparece esta mesma polaridade. à vida como sua base material. a tudo . Trata-se de uma atividade que tem que ser orientada segundo critérios de decisão. a vida como vitória sobre a morte e a nova sociedade com o direito.

estes mesmos critérios condicionam as medidas que podem ser tomadas. sem poder esperar um lucro mínimo correspondente. enquanto outras são excluídas pelo simples fato de que sua realização levaria ao conflito com a própria existência do sistema de coordenação e. com as relações de produção correspondentes. necessariamente. do meio ambiente e da paz. Mas. Os processos de decisão estão estreitamente ligados com sistemas de coordenação da divisão social do trabalho.o que tem que ser feito em favor do desenvolvimento. Estes sistemas de coordenação da divisão social do trabalho são constituídos a partir de critérios de decisão de caráter formal que são institucionalizados no sistema de coordenação. dentro do qual seja factível uma política que realmente garanta o desenvolvimento. Expressam os critérios formais de todas as ações possíveis dentro de um sistema dado e. Daí se segue a pergunta óbvia: em que grau esta orientação. excluem a realização de determinados fins na medida em que estes não são factíveis dentro do sistema de decisão estabelecido. com as relações sociais de produção e com os sistemas de propriedade. por outro lado. portanto. Orienta para o lucro no sentido de que não se podem realizar ações de qualquer índole. Este critério não orienta. por seu formalismo. o sistema de coordenação correspondente às relações capitalistas de produção a partir do critério dos lucros como critério formal de decisão. a proteção do meio ambiente e a paz. Neste sentido podemos e devemos conceber as relações de produção capitalistas Ou socialistas como sistemas de coordenação de uma divisão social do trabalho dentro das quais apenas podem ser realizadas determinadas metas. faz falta contar com um sistema de decisões ou sistema de coordenação da divisão social do trabalho. orientadas para qualquer fim. Desta maneira é constituído. Além desta disposição subjetiva e objetiva. para a maximização absoluta dos lucros. para o lucro influi sobre os fins da atividade subordinada à esta orientação e em que grau exclui determinados fins. Estas medidas possíveis não dependem apenas de nossa disposição subjetiva ou da quantidade de meios dos quais podemos dispor. .

ao passo que um sistema de coordenação. O critério formal de decisão contrário ao critério do lucro é o critério do crescimento. A teoria e a ideologia burguesa estão orientadas. de fazer . constituído pelo critério do lucro. sem que isso seja necessário. o critério do crescimento parte do resultado quantitativo da economia inteira. que também pode ter a forma de maximização absoluta do crescimento. hoje em dia. produz determinados processos de crescimento. porém. Às relações de produção socialistas corresponde um sistema de coordenação que é constituído por este critério formal do crescimento econômico. Contudo. tem que levar em conta a rentabilidade de suas empresas. Enquanto o critério do lucro parte do resultado quantitativo do lucro empresarial. Os critérios formais do lucro e do crescimento podem descrever os sistemas de coordenação correspondentes às relações de produção capitalistas ou socialistas em forma polarizada.O critério do lucro não é o único critério formal de decisão a partir do qual se pode constituir o sistema de coordenação da divisão social do trabalho. Isto implica que um sistema de coordenação. nosso problema é o seguinte: em que medida as metas políticas são condicionadas pelo próprio sistema de coordenação e em que medida estes sistemas de coordenação são compatíveis. promovem ou impossibilitam uma política eficaz do desenvolvimento. O lucro como critério de decisão: as conseqüências para a política do do meio ambiente e da paz desenvolvimento. quase exclusivamente para a justificação do sistema de coordenação da divisão social do trabalho. Não se tematiza diretamente o conflito possível entre as metas políticas ou econômicas e a existência do sistema de coordenação em questão. Trata-se. orientado pelo critério do lucro. do mesmo modo que este. só pode ser expresso em termos de dinheiro e de preços. Este critério é tão formal como o critério do lucro e. orientado pelo critério do crescimento. do meio ambiente e da paz? 2.

mas da existência de um sistema de coordenação constituído pelo critério formal dos lucros. elas estão impregnadas de sua possibilidade. Por isso se insiste em seu caráter completamente universal. que se seguem da necessidade da sobrevivência da humanidade e de cada um dos seres humanos. dos lucros da indústria atômica ou química e.a seguinte pergunta: até onde as metas da política do desenvolvimento. orientado pelo critério do lucro? Se não o fossem. . temos que introduzir um elemento até agora não mencionado: a crise econômica mundial atual como demonstração da incapacidade do sistema capitalista de garantir o pleno emprego e uma distribuição adequada de renda. Nos conflitos em torno de uma política eficaz do desenvolvimento. Considerado do ponto de vista do sistema de coordenação. o sistema capitalista não pode realizar metas como o pleno emprego ou uma distribuição de renda que permita a satisfação das necessidades básicas. Para a discussão é decisivo partir do critério de lucro como constituinte de um sistema de coordenação da divisão social do trabalho e não simplesmente do tamanho dos lucros. no caso de uma política da paz. Desta maneira o mencionado conflito está presente na teoria burguesa por sua ausência. são compatíveis com a existência de um sistema de coordenação capitalista da divisão social do trabalho. Para discutir esta problemática do sistema capitalista de coordenação da divisão social do trabalho. dos lucros da indústria de armamentos. Pelo menos não se trata apenas destes lucros. no caso da política do meio ambiente. haveria um conflito entre a existência da sociedade burguesa e a sobrevivência da humanidade. do meio ambiente e da paz. do meio ambiente e da paz. não se trata simplesmente dos altos lucros de determinadas indústrias. Apesar de as teorias burguesas jamais expressarem abertamente este conflito. seja no caso da política de desenvolvimento dos lucros do capital estrangeiro nos países do Terceiro Mundo. estão constantemente dedicadas à tentativa de demonstrar que o sistema de coordenação das sociedades burguesas não exclui a realização de determinadas metas. Sem mencionar a possibilidade do conflito.

Uma vez assumido este ponto de vista. a ideologia neoliberal pode convencer. o sistema capitalista é também o sistema mais irracional e destruidor que jamais existiu. Elas são apresentadas agora como verdadeiras perturbadoras de nossa capacidade de solucionar nossos problemas. Diante das exigências correspondentes. o desemprego como conseqüência de salários altos demais e a pauperização como conseqüência da política da redistribuição da renda. toma-se perfeitamente inflexível. a tese: mais mercado. então. Através desta transformação pseudodialética. em sua capacidade de produzir um ou outro produto e de aplicar uma ou outra tecnologia. Aparentemente já não se trata de um conflito entre trabalho e capital mas entre o mercado como sistema de coordenação . Diante do desemprego e da pauperização sè segue. muitas vezes. E continua a ideologia do mercado total: o mercado pode tudo mas não é deixado livre. Se se deixasse o mercado agir. precisamente. muito além da própria burguesia. na medida em que consegue manter fora de vista as possíveis soluções socialistas. muda-se radicalmente a visão da política do desenvolvimento. Contra toda evidência empírica se torna a assinalar o mercado como o lugar ideal da realização de qualquer meta humana. O neoliberalismo atual apresenta. na medida em que medirmos a racionalidade de um sistema econômico por estes critérios. precisamente em tempos de crise econômica aberta. o movimento para a paz é um obstáculo à paz. mas no que se refere ao emprego e à distribuição de renda trata-se do sistema econômico menos flexível que jamais existiu. segundo o qual aqueles problemas que o mercado cria parecem solucionáveis pelo mercado tòtal. unilateralmente. A política do pleno emprego e õs sindicatos são declarados os verdadeiros causadores do desemprego. Portanto. do meio ambiente e da paz. As teorias econômicas burguesas dão conta parcialmente desta inflexibilidade. a proteção do meio ambiente é a causa do perigo para o meio ambiente. Esta capacidade de convicção aumenta. a política do desenvolvimento é o obstáculo principal do próprio desenvolvimento.Pode falar de tais metas mas não pode realizá-las. estes problemas não existiriam. O sistema capitalista tem sua flexibilidade. Mas evitam a discussão.

da divisão social do trabalho. Isto implica a crença de que a falta de mercado é a causa do desemprego e não o sistema de coordenação baseado no. No entanto. exatamente em torno deste ponto. etc. os caóticos. Com este pano de fundo se pode explicar por que as iniciativas contra a produção de armamento. de uma política do emprego . os subversivos. da destruição do meio ambiente ou da atividade ilimitada do capital internacional nos países do Terceiro Mundo. num perigo para os postos de trabalho. Pelo menos esta é a intenção ideológica. aparentemente. contra a energia atômica ou contra a destruição das florestas se transformam. por um lado. Trata-se. Esta ideologia burguesa procura transformar o desespero pela perda dos postos de trabalho em agressão contra os movimentos pelo desenvolvimento. Desta maneira o conflito é transformado de tal forma que pode arrastar a própria classe operária para o neoliberalismo: de um lado os operários e de outro os movimentos sociais em favor de uma nova política do desenvolvimento. do meio ambiente e da paz. que se torna decisivo para as possibilidades de uma política do desenvolvimento. a eficácia desta ideologia pressupõe que a fé no mercado tenha se transformado numa espécie de senso comum. pela proteção do meio ambiente e da paz. portanto. com o resultado de que a preocupação pelos postos de trabalho seja orientada em favor da produção de armamentos. exatamente da política do emprego. sua base se quiser alcançar suas metas. a ideologia burguesa o transforma numa fonte de agressão contra estes movimentos. os utopistas. porém. O conflito em torno do desemprego não aparece mais como um conflito originado pelo sistema capitalista de coordenação da divisão social do trabalho e sim como um conflito entre os trabalhadores por um lado. pelo meio ambiente e a paz. A discussão ideológica gira. o que implica que uma possível alternativa socialista seja a priori excluída. por outro. e os perturbadores. e os movimentos pelo desenvolvimento. do meio ambiente e da paz. Enquanto na realidade o desemprego é precisamente um indicio-chave do fracasso deste sistema capitalista de coordenação.mercado. Esta política deverá fazer.

Um sistema capitalista de coordenação não pode assegurar uma situa- . Se são pedidas altas taxas de crescimento numa economia capitalista. do sistema de coordenação da divisão social do trabalho. um aumento do emprego com um aumento do crescimento econômico. A taxa de crescimento como critério formal de decisão: a competição dos sistemas sociais Já tínhamos dito que o sistema de coordenação da divisão social do trabalho das sociedades capitalistas é constituído a partir do critério do lucro. Sempre e quando se procurar a solução do problema do emprego na expansão ilimitada do mercado se identificará. contra seus próprios interesses no desenvolvimento. com o resultado de que agora se poderão mobilizar òs trabalhadores em nome do crescimento econômico. na proteção do meio ambiente e da paz. portanto. O emprego depende das relações sociais de produção e. da divisão social do trabalho.baseada numa mudança do próprio sistema de coordenação. ela só o pode fazer influindo sobre o lucro e esperando que isso tenha também influência sobre as taxas de crescimento. 3. isso é um eufemismo de lucros altos e da exigência do mercado total. Será considerado mais mercado = mais crescimento. Se uma economia capitalista procura o aumento das taxas de crescimento. Não é uma relação direta com a taxa de crescimento porque isso suporia um planejamento econômico incompatível com a economia capitalista. necessariamente. Crer que altas taxas de crescimento podem solucionar o problema do emprego é apenas uma variante da crença de que o mercado total solucionará o problema do emprego. A solução do problema do emprego não depende do tamanho do investimento nem da taxa de crescimento. Estas sociedades produzem taxas de crescimento econômico sem que estas se tornem critérios formais de decisão. mais crescimento = mais emprego. que liberte da prisão do mercado e de uma adoração cega do crescimento econômico.

do que os existentes nas sociedades capitalistas. portanto. Tomando este caso teórico de um crescimento zero. Desta maneira o emprego e a distribuição de renda . no qual o pleno emprego seja uma meta factível. podemos sustentar que tal economia só pode ser possível numa sociedade em que o sistema de coordenação da divisão social do trabalho seja orientada pelo critério formal de crescimento. Se . isto pode ser feito exclusivamente pela criação de um sistema de coordenação da divisão social do trabalho. Apenas num sistema de coordenação como este seria possível a decisão política em favor de um crescimento zero. sua renda média. Decide sobre lucros.se tornam objeto direto de decisões econômicas e não simplesmente uma conseqüência direta de decisões orientadas pelo lucro. também aqui o emprego não é diretamente o critério formal de decisão e sim a taxa de crescimento. Nos países socialistas surgiram — a partir de novas relações sociais de produção — sistemas de coordenação da divisão social do trabalho que acabaram resultando numa maior flexibilidade. Pode ter um crescimento até negativo. a orientação das decisões econômicas pelo critério formal da taxa de crescimento permite uma decisão direta sobre emprego e distribuição da renda. No entanto. Para explicar este papel do critério formal do crescimento podemos recorrer ao exemplo do assim chamado crescimento zero. em relação ao emprego e a distribuição de renda. ou nenhum crescimento. o que pressupõe a vigência de uma planificação econômica global. Querendo-se garantir o emprego. Um sistema capitalista de coordenação não pode tomar tal decisão porque não cabe em suas possibilidades de decisão. Não obstante.cão de pleno emprego. mas não pode organizar a economia para um crescimento zero. Trata-se de sistemas de coordenação que são constituídos a partir da taxa de crescimento como critério formal de decisão. O tamanho dos investimentos e da taxa de crescimento — ou em geral a disposição dos meios de produção — não determinam o emprego mas a produtividade média do trabalho numa economia e. não sobre taxas de crescimento. Os sistemas socialistas de coordenação têm sido eficazes em sua política do emprego.

Também não podé haver dúvidas de que esta política armamentista esteja em conexão estreita com a competição de crescimento.numa economia capitalista não há nenhum crescimento. Enquanto competição de crescimento. sobre a base de um sistema de coordenação orientado pelo critério formal do lucro. isto é. sobre a base de um sistema de coordenação orientado pelo critério formal da taxa de crescimento e. um sinal de crise e. Em sua forma pacífica. Portanto. Inclusive o conceito de crescimento econômico e de taxa de crescimento apareceu pela primeira vez na União Soviética dos anos vinte e é posteriormente assimilado pelas sociedades capitalistas. Alcançar e passar os países capitalistas se tornou o lema desta política e a maximização do crescimento foi assumida como um problema de sobrevivência da própria sociedade socialista. uma catástrofe. o qual. Um crescimento zero pressupõe pleno emprego. pelo menos provisoriamente. da parte dos países capitalistas. por sua vez. do meio ambiente e do desenvolvimento. Embora a competição de crescimento não seja intrínsecamente uma competição de armamento. no entanto. pressupõe um sistema de coordenação capaz de determinar o emprego independentemente das taxas de crescimento e dos lucros. que foi originada pelo fato de os diferentes sistemas terem que reconhecer. normalmente. esta competição dos sistemas chegou a ser uma competição de crescimento econômico mediante a maximização das taxas de crescimento. Isto vale especialmente para os países socialistas que começaram sua transformação para o socialismo a partir de uma situação de subdesenvolvimento. para a política da paz. ela é necessariamente uma competição por uma capacidade produtiva autônoma. em suas conseqüências. Com o surgimento de países socialistas começou a competição de sistemas sociais. sua existência. A política da paz está intimamente ligada com o problema da corrida armamentista. portanto. da parte dos países socialistas. Esta competição de crescimento se realiza. tem'efeitos de ambos os lados que muitas vezes são análogos. que finalmente resulta sempre também numa capacidade produtiva de armamento. .

transforma-se de fato numa corrida armamentista e praticamente já não é possível separar as duas. contra o qual a lógica da competição do crescimento hão admite nenhuma oposição. Este elemento dinamizador da demanda armamentista não pode ser reduzido simplesmente ao lucro da indústria armamentista. portanto. Por isso pode explicar por que também nos países socialistas a competição de crescimento solicita. numa corrida armamentista. realmente. por conseguinte. Por outro lado. opera com um horizonte de tempo relativamente curto. . pelo menos potencialmente. Por isso se produz um processo de destruição do meio ambiente a longo prazo. No entanto. Com um horizonte de tempo tão curto. por razões imanentes. A demanda civil — demanda "civilizada" — se dirige de maneira indireta para estes setores de produção que são mais produtores de meios de produção e não de bens finais civis. esta competição do crescimento e do armamentismo é na verdade um processo de longa duração. cujos participantes têm um horizonte de tempo curto. que é medido em anos e não em décadas. Na medida em que esta competição de crescimento contém a competição de sistemas sociais. um fator de poder. a recusa à destruição do meio ambiente parece ser egoísmo ou cegueira perante a realidade. Isso leva ao problema da destruição do meio ambiente.ã competição de ciescimento contém em si um elemento de ameaça que a transforma. uma alta demanda armamentista. Isso acontece assim precisamente pelo fato de que a demanda armamentista é aquela demanda que dinamiza de maneira mais direta a economia porque é a demanda mais direta de produtos dos setores p r o dutivos tecnológicamente mais dinâmicos. Ele ocorre porque a política de crescimento. combinada com a corrida armamentista. a corrida armamentista transforma-se num elemento integrado à própria política de crescimento. a economia tem que crescer. ao passo que. também uma vantagem dò armamentismo e. A competição do crescimento econômico implica maximização do crescimento. Para sustentar a corrida armamentista. a possibilidade da destruição do meio ambiente parece ser uma vantagem do crescimento.

A produção de armamentos já não limita a produção civil como. São reduzidos a fornecedores dos fatores naturais importantes para o crescimento dos países capitalistas centrais. Isso causa cada vez mais o desemprego e á pauperização no Terceiro Mundo. finalmente.Por esta razão uma possível resistência contra a destruição do meio ambiente tem que ser também uma resistência contra esta lógica da competição do crescimento. na tendência atual que inverte a relação entre produção civil e militar de tal forma que toda competição de crescimento se baseia na corrida armamentista.sentido próprio do processo produtivo. mas é a necessidade de uma produção civil que limita a produção de armamentos. impedindo uma política de crescimento econômico própria da parte deles. que é transformada no verdadeiro núcleo e sentido do processo produtivo. Portanto. naturalmente. sendo a produção civil uma espécie de custos indiretos da produção de armamentos. O acesso a estes países — praticamente monopolizado pelos países capitalistas — tem importância apenas para o fornecimento de matériasprimas e para a transferência de produtos industrializados intermediários para aproveitar o nível de vida baixo dos países subdesenvolvidos. suas taxas de crescimento potenciais são irrelevantes para a competição do crescimento. a política do desenvolvimento e. Enquanto a ideologia de desenvolvimento dos anos cinqüenta e sessenta foi industrializadora. Esta união de destruição do meio ambiente e de corrida armamentista na competição de crescimento dos sistemas resulta. Esta competição de crescimento dos sistemas sociais impregna. . A participação na competição do crescimento e do armamentismo pressupõe um nível tecnológico alto. n o s anos setenta chegou a ser antiindustrializadora e é orientada cada vez mais para ser fornecedora de matérias-primas pára os países centrais. se produz para poder continuar a corrida armamentista. Em vez de produzir para viver. o mundo inteiro. com isso. Começa o carrossel da morte. que os países subdesenvolvidos não têm e a longo prazo não terão. Especialmente a partir da última década os países subdesenvolvidos são reduzidos sempre mais á esta função. que chegou a ser o conteúdo da política da administração Reagan na atualidade.

portanto. A superação das contradições Demonstramos a inter-relação existente entre competição de crescimento. em princípio. Assim. sem a impedir a prazos curtos ou médios. como a política de desenvolvimento dominante está orientada pelo modelo de civilização dominante. 4. isto leva à impossibilidade de estender o modelo de civilização dominante pelo mundo inteiro. Dada a limitação. por sua vez. a concentração do crescimento econômico e do desenvolvimento tecnológico nos países centrais leva à formação de um modelo de civilização que pode reivindicar cada vez menos um caráter universal. este modelo de civilização não tem um caráter universal. A maximização do crescimento leva também à concentração do crescimento em determinadas regiões minoritárias do mundo para as quais o crescimento autônomo das outras regiões. a maximização do crescimento tende à destruição do meio ambiente.Por outro lado. Neste sentido. Este modelo de civilização baseia-se nas tecnologias que já não podem ser1 estendidas a todo o mundo. Portanto. armamentismo. O acesso aos fatores naturais do mundo inteiro se transformou em suposição da existência do modelo de civilização dominante numa pequena parte do mundo. destruição do meio ambiente e subdesenvolvimento. Mas. ela promove a corrida armamentista. A destruição do meio ambiente oferece sempre vantagens de crescimento a curto e médio prazo e. se transforma em elemento central desta mesma maximização. traz consigo vantagens para a maximização da produção armamentista. A concentração do crescimento econômico nos países desenvolvidos leva estes países a um modelo de civilização que pressupõe continuar também com a concentração do crescimento nestes mesmos países. A maximização do crescimento acarreta inevitavelmente a maximização da capacidade armamentista. apesar de o meio ambiente determinar o limite da maximização do crescimento a longo prazo. que acabam sendo . esta leva a esforços de desenvolvimento que jamais podem alcançar sua meta. dos fatores naturais. dada a escassez absoluta dos fatores naturais. que.

uma perspectiva realista se não levarem a uma política de crescimento consciente. As muitas medidas parciais e ações em favor da paz. segundo o qual o pleno emprego e a distribuição da renda são resultado do sistema de coordenação da divisão social do trabalho e das relações sociais de produção.que . Por isso.coordenação derivado do critério do lucro e das denominadas leis do mercado. Faz falta superar este sistema por um de coordenação. no resultado anterior. Na raiz do problema se. do meio ambiente e da paz tem que ser uma sociedade que tenha um sistema de coordenação e relações sociais de produção capazes de tomar medidas para a solução efetiva de tais problemas. uma política de limitação do crescimento. do meio ambiente e da paz se segue — se levarmos em conta o pano de fundo da política do emprego e da distribuição da renda — a direção na qual se deveria buscar uma solução. que realizam entre si a competição do crescimento. da proteção do meio ambiente e do desenvolvimento não podem ter um quadro estratégico e. portanto. a não ser garantindo uma política do emprego e da renda que seja independente da maximização do crescimento. Isso explica que. A possibilidade de tal política se baseia. se transforma em obstáculo de sua própria maximização do crescimento. portanto. por um sistema de . seja capaz de decidir autónomamente sobre as taxas de crescimento . Para os países desenvolvidos isso implica a necessidade de uma limitação do próprio crescimento. torna visível o caráter capitalista do sistema social. Desta maneira. Como conseqüência aparece nas regiões centrais desenvolvidas um determinado modelo de civilização que não é universalizado. não se pode esperar. sendo realistas. a perspectiva destas políticas seja anticapitalista na medidaem que uma política consciente de crescimento se torna impossível dentro de relações capitalistas de produção. Da análise desta inter-relação entre a política do desenvolvimento. estas: regiões subdesenvolvidas tornam-se tendencialmente o objeto de maximização do crescimento das regiões desenvolvidas. a perspectiva das medidas parciais de uma política do desenvolvimento. Contudo.as regiões subdesenvolvidas. determinado.

è derivado das exigências do pleno emprego e de uma distribuição adequada da renda. Portanto. dependendo das situáçõès concretas determinadas. trata-se de uma condição necessária para que haja uma possível solução das contradições. mas tanto quanto for necessário. por exemplo. portanto. a base material destas políticas não é o crescimento das forças produtivas e sim o desemprego e uma adequada distribuição da renda. tal planejamento global não implica automaticamente ñá solução das contradições analisadas. Mas. que é preciso realizar na medida que a necessidade do pleno emprego o exigir. •Não se trata de planejar o máximo possível. Apenas se ¡se conseguir realizar estas metas se pode ter a flexibilidade realista para a solução dos problemas ligados à política do desenvolvimento. Um planejamento global pressupõe também. Naturalmentè. a industrialização ou a limitação do armamentismo. como. porém.•da economia. sem dúvida. Tem que ser um planejamento obrigatório. Sobre esta base material se pode julgar e tomar decisões em função de outras metas. O grau necessário do planejamento. sujeita aos mesmos limites que vigoram para esse sistema de coordenação.. A planificação indicativa respeita o critério de lucros como constituinte do sistema de coordenação e está. Este planejamento não pode ser simplesmente indicativo. podem resultar. a proteção do meio ambiente. Não se pode determinar a priori que grau será necessário. Segundo ás possibilidades de assegurar o pleno emprego e a distribuição da rénda. naturalmente. chegar a uma solução exige . O critério do necessário é derivado outra vez das necessidades do pleno emprego e da adequada distribuição da renda garantida pelo planejamento global.correspondente. que possa garantir o pleno emprego e uma distribuição da renda independentemente das taxas de crescimento. Embora os problemas analisados apareçam em ambos os sistemas sociais em competição. Mas não sc trata de ter tanta propriedade pública quanto for possível. do meio ambiente e da paz. uma propriedade pública. graus de planejamento global "e dé propriedade pública sumamente diversos. Sem um planejamento global da economia isso não será possível. mas quanto for necessário.

. Trata-se dos elementos materiais necessários para que haja uma satisfação de necessidades humanas em toda a sua amplitude. em direção a uma maior flexibilidade em relação com a política de emprego e de distribuição da renda. Os países socialistas não podem contribuir com muito para esta solução pelo fato de estarem obrigados a aceitar o desafio da competição de crescimento por razões elementares de sua segurança. especialmente: a) a satisfação das necessidades básicas humanas dentro das possibilidades da renda social. Mas é precisamente este o problema dos países capitalistas. A base de todos os direitos concretos à vida é o direito a um trabalho seguro. A idéia subjacente do homem e da sociedade A análise anterior pressupõe uma imagem do homem que o concebe como sujeito de direitos concretos à vida. apenas a partir destes países pode ser iniciado um processo de solução.mudanças profundas. Esta imagem de direitos concretos do homem parte. independentemente da política da maximização do crescimento. ambos devem ter a possibilidade de determinar autónomamente o emprego e a distribuição da renda. b) a participação na vida social e política dentro do planejamento global que assegure o emprego e a distribuição adequada da renda. do trabalho humano no conjunto da divisão social do trabalho. incluindo suas necessidades culturais e espirituais. 5. portanto. A partir deste direito ao trabalho derivam-se outros direitos à vida que são. Mas para que ambos os lados possam diminuir ou terminar com esta competição. exatamente do sistema capitalista. Nenhum lado pode terminar com esta competição sem considerações do outro. Reconhece em favor do sujeito humano trabalhador determinados direitos à vida — direitos fundamentais — que têm que impregnar a sociedade inteira para que possa ser realmente uma sociedade de homens livres. essencialmente.

A partir do conceito de socialização utilizado por nós segue-se um conceito de exploração que contrapõe o capital mundial e a humanidade. a socialização se mede pela vigência efetiva dos direitos à vida mencionados e de modo algum pelo grau de nacionalização dos meios de produção ou da planificação. O conceito ortodoxo de exploração contrapõe o capital particular e o trabalhador e deriva o grau de exploração da cota de mais-valia vigente para o capital. também ninguém lhe expropria uma mais-valia. Este conceito de exploração resultante é diferente daquele que poderíamos chamar ortodoxo. Esta conceituação da socialização é necessária para evitar soluções apriorístiças em relação à determinação do sistema de propriedade e do planejamento. também.c) uma determinada ordem da vida econômica e social na qual seja possível manter o meio ambiente como base natural •de toda a vida humana. O ca- . A socialização dos meios de produção consiste no cumprimento dos direitos concretos à vida e determina o grau em que os meios de produção devem ser de propriedade pública e em que o processo econômico tem que ser planejado. Estes direitos concretos à vida devem determinar o limite de vigência de todos os direitos humanos em conjunto. Se quisermos dar um nome a este tipo de segurança em relação aos direitos concretos à vida humana na sociedade. sem a qual nenhuma ordem social poderia sobreviver. podemos denominá-la socialização dos meios de produção. como o desempregado não produz valor. sendo a acumulação do capital uma acumulação em escala mundial. Estes direitos fundamentais são todos. pois. Teria que ser exatamente o contrário. direitos sociais e determinam o quadro da ordem social. Portanto. Um conceito de exploração particülar deste tipo não pode conceber o desempregado como explorado. Daí se segue o conceito de exploração como um conceito relacionado com a própria socialização dos meios de produção. O pólo contrário da socialização é a exploração. Trata-se de uma ordem social que não destrua as condições da existência material dessa mesma ordem.

O capital dá trabalho. portanto. . é o centro de toda a ideologia burguesa. é supérflua e pauperizada. Quanto mais capital. para que haja vida. A exploração. o capital dá renda. Do ponto de vista desta ideologia burguesa. o capital dá desenvolvimento. que hoje está crescendo. O capital parece ser a fonte verdadeira de toda a humanidade. manter e aprofundar a situação de exploração para que haja-garantia de vida. conservar a confiança do capital. Onde o capital perde esta confiança. nem renda nem desenvolvimento. No entanto. por conseguinte. porém. esta servidão em relação ao capital. Não pode haver vida sem esta pertença ao capital. Por isso se deve fomentar a acumulação de capital. Onde o capital não dá trabalho ou renda ou desenvolvimento. portanto. sendo também a liberdade. Quanto mais total for o mercado e o capital. Esta celebra exatamente o capital ou o mercado como o grande doador da vida. Esta ênfase nos direitos concretos à vida desemboca. este capital precisa da humanidade apenas em parte para sua acumulação. sem •fundamentá-la. A tarefa básica do homem é.pitai como sujeito — ou quase sujeito — da acumulação vive da exploração da humanidade. Como o capital domina todas as fontes da vida. como interpretada pela ortodoxia. é apenas uma parte desta situação geral de exploração da humanidade inteira pelo capital. Com ele regressam as fontes da vida. e constata. fogem todas as fontes da vida. tanto mais parece o capital ser o doador da vida. Esta pertença da humanidade ao capital. mais vida. precisamente. numa crítica da ideologia burguesa. Ela parte desta pertença da humanidade ao capital. A doutrina neoliberal do mercado total nos apresenta isso como seu resultado. •Uma grande paite da humanidade. faz falta. Trata-se de uma ideologia que hoje é apresentada em sua forma mais radical e nua pelos ideólogos que se inspiram -na ideologia neoliberal elaborada pela Escola de Chicago. Esta parte é exatamente a mais explorada. Por isso há de se organizar a economia em função do mercado total para que o capital volte a encontrar sua confiança e regresse. ocorre a fuga e. ninguém pode chegar à vida a não ser através do capital. e sem o capital não há trabalho. ali há escassez de capital. que finalmente já ninguém pode viver sem o capital. com ele.

A lógica do capital é a morte. e a mística do capital é a mística da morte. A vida não pode ser afirmada a não ser concebendo-a e vivendo-a a partir do que é sua base real: os direitos concretos à vida de todos os seres humanos. Por trás da lógica do mercado total aparece a mesma mística da morte que anteriormente esteve por trás da lógica da guerra total dos estados fascistas.É preciso contrapor' os direitos concretos à vida a esta ideologia ilusória da vida que na realidade não é mais do que uma ideologia da morte. .

por força de seus pressupostos (geralmente ocultados). a felicidade dos homens neste mundo. Penetrando um pouco mais nesse núcleo articulador de todo um paradigma econômico. Toca-nos. foi-nos possível começar a perceber que. Dois são os obje- . nos confrontamos com a fixação de critérios teológicos. uma ética pretensamente objetiva e científica. em última instancia. bem no fundo. pelo menos no tocante aos problemas econômicos que afligem a 'humanidade. da maneira mais eficiente. Vimos também como essa "racionalidade" incorpora em si. e busca impor-se. OS DOGMAS SOBRE O MERCADO COMO CÓDIGO DE CENSURA No final da parte anterior começamos a entrever até onde chegam as pretensões de uma determinada maneira de conceber a "racionalidade econômica". entrar no desdobramento dessa "racionalidade econômica" enquanto fonte de critérios organizativos da "ordem ampliada do mercado" (extended order of the market) e da "sociedade de ordem ampliada" (extended order society). que passa a funcionar como núcleo de critérios para esvaziar e invalidar qualquer proposta alternativa. Ela se propõe. como única saída racionalmente aceitável para a solução dos mais urgentes problemas da humanidade . num mistério teológico: a fé ilimitada na validez exclusiva de um determinado paradigma econômico para chegar a realizar. nucleada em e articulada a partir de critérios diferentes. A adoção rígida de uma determinada concepção da "racionalidade econômica" se resume.A IDOLATRIA DO MERCADO (Hugo Assmann) 1. na terminologia de Hayek. agora.

Muito ao contrário. que as coisas aparecem mais nítidas — quanto às premissas econômicas e até quanto às teológicas — nos proponentes mais audazes dessa ideologia. algumas das teses. ou precisamente porque se utilizam de linguagens mais flutuantes. O engano consistiria na eventual impressão de que se trata de argumentos tão absurdos que certamente não encontram . É certo. Mas. Não quiséramos que o leitor se deixasse induzir a engano quando. mais adiante. e igualmente rígido. o cerne desse credo permanece inalterado. mesmo quando. ern um sem-número de manifestações incondicionais em favor da economia de mercado. tentarmos fazer ver. em economia. em nossa breve exposição: primeiro. e que dificultam. trazer à luz as teologías que impregnam a retórica sobre o mercado. que torna muito difícil qualquer diálogo sereno sobre o assunto. mostrando em que medida a idolatria do mercado representa uma profunda perversão do cristianismo. como se fossem casos particulares de escassa representatividade. que são defendidas explicitamente por denodados mentores do pensamento neoliberal. não são exceções facilmente isoláveis ou até descartáveis.tivos que nos guiarão. porventura chocantes. e nos neoconservadores. qualquer discussão minimamente racional sobre uma necessária conjugação dialética entre doses de planificação imprescindível e doses convenientes de mercado e livre iniciativa. assim. trata-se das lideranças ou. pelo menos. às claras. contudo. Essa rigidez dogmática assume formas singularmente explícitas nos pensadores neoliberais. por um lado. por outro lado. das expressões de ponta de um fenômeno ideológico de amplitude universal. segundo. Comecemos por um aspecto crucial desse vasto assunto: os economistas neoliberais tornaram a enrijecer de tal forma as linguagens acerca do mercado que elas funcionam efetivamente como código de censura e patrulhamento ideológico. o que facilita. O credo fervoroso e militante dessas vanguardas da ideologia extremada do mercado. a discussão crítica de seus argumentos. de forma simultânea. até certo ponto. o esforço quase insano de desobstruir o tema do mercado dos dogmas irracionais que o envolvem. no campo político e religioso.

quando comparado com o vigor e a persistência de outros grupos de pressão. Os setores das Igrejas cristãs da América Latina. da censura pública ao pensamento dos bispos. Embota seja verdade que muitos não se esmeram na explicitação coerente das premissas subjacentes a suas posições. que se consideram social e politicamente progressistas — como é o caso da linha predominante da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) — transformaram-se em alvo freqüente de ataques. se quiserem. o pensamento sócio-econômico que se poderia supor como mais representativo da CNBB. não é endossar. É melhor não enganar-se: uma propugnação exacerbada da ideologia do mercado conta. é o aumento da vigilância ideológica ou. Nossa intenção.). um fato inequívoco que muitos compartem as conclusões que derivam dessas premissas. Vamos a um exemplo particularmente esclarecedor. mesmo quando este pensamento é ainda tão fragmentário e assistemático. sem reticências.acolhida ampla. é. mediante estratégias que objetivam o conservadorismo de massas. na atualidade. que adquiriram pujança no interior da Igreja Católica. . mesmo por parte de órgãos da imprensa tidos como razoavelmente abertos e críticos. neste momento. já se cotidianizou no sentido comum das classes dirigentes do Terceiro Mundo. de acordo com o tipo de documentos ocasionais que se elegessem para tal efeito. com o apoio da quase totalidade dos grandes meios de comunicação no Ocidente. neste instante. etc. com exceção de minorias contestatárias. como no caso em questão. mediante o emprego de uma terminologia surpreendente para alguns: são acusados de serem retrógrados em questões econômicas. no entanto. como cooptação da mentalidade do povo simples. Dilata-se também. A questão que nos interessa. mas também nos assim chamados Movimentos de leigos. está incorporada no ideário político da maioria dos partidos políticos de centro e de direita. Através de um lobby discreto e até pouco incisivo. A ideologia do mercado. no que tange a suas teses fundamentais. e encontra acolhida substancial na concepção do cristianismo não apenas das vertentes abertamente fundamentalistas (tele-evangelistas da Igreja Eletrônica.

. movidas por um impulso ultraconservador. com acerto. um descompasso maior entre o plano das aspirações legítimas que busca representar e as soluções puramente imaginárias. defesa dos sindicatos. . contudo. diga-se de passagem. ao lado de um impressionante esforço de mobilização popular. uma tentativa de prendê-la aos quadros de um pré-capitalismo idílico e sentimental. desumanidade e violência que o país não pode suportar indefinidamente.). Esta foi uma ocasião. que defende. não teriam por que depor contra a imagem da instituição. apenas o sinônimo de uma visão ultrapassada da sociedade brasileira. É inevitável que. para que a imprensa partisse para o ataque. quando não retrógradas. a cada dia. de dinamizar a produção. entre outras similares que se vêm acumulando nos anos recentes. a CNBB enfrente críticas acerbas de parcelas ponderáveis da opinião pública — para além das que. dirigem à entidade um tipo de condena- .a CNBB se posicionou em relação a alguns temas socioeconómicos previstos na nova Constituição (reíorma agrária. parcela preponderante do clero brasileiro procura responder a uma realidade de distorções. alguns direitos sociais. O que se passa. do suposto 'progressismo' da CNBB. Um redistributivismo agrário que colide com quaisquer pretensões de modernização e de fortalecimento da empresa produtiva no campo ( . não cessa de apontar. dentro de um necessário impulso de renovação e de justas preocupações no campo social. E as acusações? "Sem dúvida. A própria CNBB estaria sendo a responsável pela deterioração da sua imagem. eis a sutileza elefantina empregada. de confiar nos mecanismos de mercado. etc. incapaz de propor soluções viáveis e modernas para os problemas sociais que. com reduzido êxito. Num momento em que os próprios líderes do mundo socialista reconhecem a necessidade de incentivar a competitividade. situando-se firmemente na contracorrente da história. ) : tudo vai fazendo. A luta pelos direitos humanos e a crítica às desigualdades sociais. a idéia de que o regime de livre empresa é inimigo do desenvolvimento social parece ainda ser hegemônica no clero brasileiro. é que a atuação da Igreja Católica no Brasil vai conhecendo.

O mercado as cumprirá espontaneamente. além do mais. . são citadas como uma prova definitiva em favor da superioridade social da irrestrita economia de mercado. Em nome de "soluções viáveis e modernas". Os que não o fazem são utópicos. dados os corretivos. Portanto. numa concepção omniabarcante e burocratizante da planificação socialista. Cf. As metas sociais — querem dar-nos a entender — deixaram de ser prioridade. vendo em suas atividades um caso patente de criptocomunismo". em apertada síntese. ia: Folha de S. Já na parte anterior insinuávamos a radicalidade com a qual se está perpetrando a expropriação do magistério social 1. Quase cada palavra mereceria destaque e comentário. meros redistributivistas. pré-modernos. a quitessência de todas as críticas dos ideólogos do American Enterprise Institute e muitas outras instâncias similares à Teologia da Libertação e aos documentos sociais de Igrejas e grupos cristãos. Em outras palavras. cuja realidade se deplora. inclusive nos países socialistas. Só que o editorialista do jornal brasileiro podia contar com uma vantagem adicional: seu jornal tinha o prestígio de haver lutado contra o regime militar. os próprios países socialistas servem de argumento para reforçar a ideologia do mercado ilimitado. nos pareceu necessária pelo seu caráter altamente ilustrativo. reconhecendo à CNBB o direito de continuar a deplorá-los. contanto que não aponte jamais soluções que possam infringir a lógica do mercado. Paulo. situados "na contracoirente da história". adota-se irrestritamente os artigos básicos do credo do mercado. um tanto longa. evidentemente necessários.cão diretamente tributário dos tempos da guerra fria. Isto lhe permitia. mais mercado e mais capitalismo são a única saída viável para os agudos problemas sociais. lO/junho/1988. sem que ninguém precise pensar nelas. embora de forma discreta. v Esta citação. somar-se à versão predominante no Ocidente acerca das inovações nos países socialistas. " A imagem da CNBB". que aparece como o caminho certo para a fraternidade humana e cristã. em matéria econômica. e não tinha fama de anticomunismo obtuso. Temos aqui.

Jo 16. que está implicado nas pretensões de vigência exclusiva. e nada menos. de antemão. porém. inquestionável e universal dos princípios inerentes ao piaradigma econômico articulado a partir do interesse próprio. Pretender negar-lhes essa prenhez de promessas sociais é cometer o pecado imperdoável: o pecado contra o Espírito Santo. não importa. Galbraith e P. na sua versão ampliada como ordem do mercado. J. pois o espírito do mercado é o único "Espírito da Verdade". E se houver coisas "que ainda não podemos compreender". ao longo dos últimos duzentos anos. É isto. Todos os ingredientes do desdobramento desse paradigma. no plano da economia. É necessário insistir na profunda significação de um fato que sucedeu. Trunca-se qualquer atuação profética. Falávamos do despotenciamento dos temas sociais. sinônimo de ordem da sociedade. por restringi-la à mera denúncia. fica definido. contanto que não haja propostas de solução alheias à lógica do mercado.das Igrejas. é ele "que nos conduzirá à verdade plena" (cf. e cujas manifestações recrudescem em nossos dias: a "religião econômica" expropriou e se adjudicou um magistério infalível acerca do único sentido histórico aceitável do "mandamento novo" ("Amai-vos uns aos outros como eu vos amei").13). cujos mecanismos têm um caráter naturalmente benéfico para todos. nos seus aspectos substanciais. no econômico. sem anúncio. Samuelson. testemunhas do fato de que os próprios aderentes de um paradigma conseguem . porventura. foram ungidos de messianidade social. sempre de novo evocados em documentos eclesiásticos. K. Pela própria virtude dos pressupostos básicos do paradigma interesse próprio-mercado competitivo. já foi "descoberto" e devidamente anunciado como única solução: o paradigma econômico articulado a partir do interesse próprio e desdobrado nos mecanismos "espontâneos" do mercado. o único caminho transitável em direção a quaisquer objetivos sociais. No exemplo citado percebemos uma manobra mais sutil: as denúncias podem prosseguir. não. Outros magistérios — eclesiásticos ou de qualquer outra instância extraeconômica — poderão ainda aspirar a alguma relevância em outros terrenos. houvesse para anunciar. Só eles merecem toda a nossa confiança. O que.

Nenhum projeto histórico de organização das esperanças efetivamente realizáveis consegue alcançar a plenitude dessa utopia. Pelo contrário. não hesitaram em caracteiizar o acirramento da retórica do mercado como um fenômeno "teológico" e "religioso" (ver I). aliás. A COMUNHÃO IDÍLICA DE DESTINOS CRUÉIS E DESTINOS BENIGNOS Necessitamos de um pensamento econômico que salvaguarde. às vezes. ao mesmo tempo. por não contar com a razão.horrorizar-se. de todas as expressões de esperança humana radical). Este fenômeno se inscreve em circunstâncias particularmente graves. recorre a novas sutilezas da violência. etc. Todas as crueldades praticadas em nome da religião foram obra de um tipo de religião que apostou em falsas saídas para a defesa do indivíduo com a simultânea melhoria do convívio social dos homens. Isto não é motivo para abdicar da utopia cristã.). tanto no plano do comércio internacional (mercados artificializados e fortemente direcionados. A existência de estruturas perversas consolidadas nos mercados reais confere à retórica exacerbada sobre o "livre" mercado uma dramaticidade e irracionalidade muito peculiar. é a marca característica da utopia cristã (como. A rejeição da fatalidade de destinos pré-definidos. nos dois pólos do equacionamento indivíduo-sociedade. Neste sentido também nenhum momento histórico do cristianismo consegue realizar todas as exigências do cristianismo. é a razão mais cabal para a sua necessária vigência. 2. Vivemos a era de um dogmatismo que. tanto no plano individual como no so- . enquanto ideal religioso que se opõe à aceitação resignada de destinos fatais. o acesso à criatividade e à iniciativa individual e às metas sociais de uma felicidade humana. Este é o sonho mais visceral de todas as religiões. como no plano doméstico dos países latinoamericanos (modelos econômicos que priorizam a exportação e impedem o fortalecimento de mercados internos). instituições "protetoras" rígidas. que só adquire sabor prazeroso quando plenifica a vida de todos. ante crueldades aberrantes.

O primeiro se refere à ausência de uma elaboração. sejam assumidos como elementos constitutivos do ser livre e do ser feliz. ao longo da história do cristianismo. estejam na raiz de todas as recaídas. É presumível que o caráter limitante de todas as instituições humanas. a afirmação da vida individual e a afirmação da dimensão enriquecedora do convívio social. nas teologías e práticas cristãs. e que encontra sua expressão consumada na ideologia do mercado. que anele um prazer que não se satisfaça jamais com substitutos sádicos ou masoquistas do prazer. nesta sua radicalidade. e o seu simultâneo caráter insubstituível. neste momento. é uma aposta ousada na capacidade do ser humano de desenvolver uma libido. em "religiões do destino". saídas que levam a marca de um destino certo e ineludível. na precariedade dos projetos históricos. das carências de liberdade e felicidade humanas no interior da história. A utopia cristã é a fonte inspiradora e motivadora paia manter unidas. Interessa-nos destacar.ciai. Ao arrogar-se esse papel solucionados a ciência moderna tornou plausível que se adotassem. que passou a arrogar-se o papel de solucionadora. de maneira determinante. sob a égide de uma procura da liberdade e da felicidade concebidas de tal modo que os dois pólos. a ausência de uma teoria social sobre caminhos viáveis para a melhoria da fraternidade entre os homens — ou seja. O segundo acontecimento foi a ocupação desse vazio por uma determinada concepção da ciência. que precederam o surgimento das sociedades complexas na era moderna. O cristianismo. nas correntes de pensamento e nas práticas cristãs (e outras). subjetiva e socializada. o surgimento dessa peculiar "religião do destino" que é a "religião econômica". o individual e o social. Ém outras palavras. Não é este o momento para analisar o quanto disso foi reaparecendo. pela via de encaminhamentos supostamente científicos. sempre de novo. das noções de liberdade-com-dimensãosocial e felicidade-com-dimensão-social. dois acontecimentos históricos que parecem haver influenciado. parciais ou tragicamente totais. em seu nome e como únicas soluções viáveis. a ausência de conceitos adequados de liberdade : e felicidade em sociedades complexas — permitiu que se bus- . suficientemente sistemática e satisfatória.

a necessidade de total confiança nas forças benéficas do mercado. Os mecanismos do mercado agem como o outro nome dos "desígnios de Deus" — este manto teológico do destino que é nomeado. alheio à consciência e vontade humanas. beneficamente providencial. por M. trata-se de uma recaída brutal numa "religião do destino". e os mecanismos do mercado que direcionam tudo ao bem comum). da condição humana em sociedades complexas. Gilder e outros. porém. Nòvak. individual e social. precisamente nesses termos teológicos. se encarregam dos resultados benéficos. só que esse destino. Na "religião econômica" burguesa a recaída nas malhas de um destino pré-esboçado é muito clara. com reclamos de cientificidade. Não é à intencionalidade consciente dos homens que se atribui o encargo de criar resultados individual e socialmente benéficos no plano da economia. com a invocação da racionalidade científica. é visto agora como destino "científico" e. em grande parte. até certo ponto. como veremos. G. É importante entender que os neoliberais não se reconhecem menos "científicos" quando exacerbam. o único caminho transitável em direção à liberdade e à felicidade. embora a sua proposta de um caminho "científico" para a melhoria da condição humana em sociedades complexas desfatalize. De passagem convém registrar que o próprio marxismo ficou.casse determinar. Mecanismos alheios à vontade consciente dos homens (o desencadeamento "livre" dos interesses próprios que logram resultados que jamais se propuseram. . o processo da caminhada social dos homens. Uma coisa. posto que para eles é um sólido "dado científico" a total incapacidade de os homens conceberem conscientemente as metas socialmente melhores para o seu convívio. assim. ademais. fica absolutamente clara. aprisionado no mito decimonónico da inevitável "saída científica". como o único caminho "livre" e "feliz" para a melhoria. mas que se declaram dignificados com racionalidade científica. Apontamos. já que insiste tão fortemente na assunção consciente de metas sociais. na qual os homens se entregam ao arbítrio de forças externas que não controlam. para dois filões que seria necessário pesquisar para entender melhor como a "religião econômica" chegou a propor-se. na melhor liberdade e maior felicidade.

Nisto divergem do repouso definitivo das consciências insinuado pelas teorias da competição perfeita e do equilíbrio geral do mercado. vai "revelando" aos que estão atentos à sua voz. é a confiança e a humildade. porém. Quando se adere a semelhante saída. a conversão se consumou.Quando se adota semelhante saída. A busca cessou. adquire formas agressivas nos que se sentem eleitos. talvez. por não terem suficiente fé em seu caráter providencial e benéfico. no bojo desse destino. porque ele sempre continuou conjugando o "coração inquieto" com o verbo no tempo presente. Não cabe dúvida. essas virtudes básicas da ética capitalista do mercado. Senhor". A dialética se extinguiu no interior de um destino manifesto. e ainda mais quando é adotada em nome de uma racionalidade científica incorporada à "racionalidade econômica". sem repouso definitivo (embora. Teóricos neoliberais voltam a enfatizar esse não-repouso-definitivo. industriosa. a liberdade e a socialidade. sobretudo das vítimas da trajetória traçada de antemão. A humildade. porque também para eles a confiança no caráter pro- . O próprio Santo Agostinho (que por algo é tido como "pai" da predestinação) ficou para trás. criativa e arriscadamente com a direção que esse destino. o horizonte utópico e a precariedade dos projetos. porém. Cumpriu-se o salto da confiança nas divindades benfazejas que governam o mercado. demasiado). de que mesmo os empresários sempre atentos a "novas revelações" emergentes do mercado podem usufruir uma tranqüilidade invejável em seu coração. as consciências podem tranqüilizar-se e repousar. Os que não foram eleitos para tão humilde entrega serviçal estão sempre tentados pelo verme da inveja e da soberba que os induz à rebeldia contra tal destino. quando insistem no papel ativo da competitividade empresarial. "Inquieto está o meu coração enquanto não repousa em ti. o ser real e o dever-ser. para coincidir ativa. sempre alerta para "escutar a revelação" que brota do mercado como "mobilizador de conhecimentos" (Hayek). Deuses do destino pré-fixado reclamam humilde submissão total. o ser humano não precisa mais preocupar-se com a difícil unidade dialética entre a teoria e a prática. ainda e somente. no seu desdobramento histórico. O que se requer.

O que restava do cristianismo medieval não entregava respostas adequadas ao novo contexto. que surgia pujante. se encontraram órfãs de conceitos apropriados para construir novas formas de liberdade e felicidade em contextos societais cada vez mais complexos. Em sociedades muito amplas e complexas. Como se pôde chegar a semelhante "religião do destino"? Em sociedades não demasiado complexas — por exemplo. Tal não parece haver sucedido em tempo. no conceito de liberdade e felicidade. cf. relacionados com a liberdade e a felicidade. para outros é a adesão tranqüila às tendências seguras em direção ao equilíbrio. I) era sua incapacidade de recoriceituar o núcleo central da mensagem de Cristo — a descoberta da liberdade para entreamar-se como irmãos — para um contexto. isto é. na explícita integração da dimensão social. o cristianismo deixou de cumprir no momento certo? Usando uma linguagem com a qual ò leitor já sé familiarizou. e incentivador de determinadas "virtudes necessárias" à fraternidade comunitária. provavelmente. consoante às circunstâncias novas de sociedades complexas. Para uns a "metanóia" — esse conceito neotestamentário forte que inclui toda a dialética de uma conversão que jamais se conclui — é quietude definitiva do coração que se equilibrou no equilíbrio do mercado. as sociedades mais complexas. nos albores da modernidade. Em ambos os casos. em comunidades relativamente pequenas e bastante autônomas — religiões de tipo mais ou menos fatalista. atraiu uma atenção maior dos buscadores de novas respostas a novas perguntas. A Reforma Protestante se . os desafios humanos fundamentais. diríamos: teria consistido. a confiabilidade total dos mecanismos do mercado. por uma parte. onde a descoberta da sociedade complexa e das potencialidades novas da economia eram os desafios mais imperativos. que foram nascendo. segundo esta leitura da história. podem exercer um certo papel estabilizador. "religiões do destino". O que mais irritava a Robert Owen no cristianismo (como vimos. sem desmerecer a dimensão subjetiva. A ciência. Em que haveria consistido essa missão que. Como dissemos. como as das nações modernas e suas relações mútuas. se revestem de uma problematicidade inédita.videncial do mercado é um artigo de fé indiscutível. por outra.

caracteriza pela ênfase nova na liberdade do individuo frente à esmagadora hierarquização das instituições eclesiásticas existentes, o que até certo ponto explica suas omissões quanto à criação de consciência social para a luta no mundo. Como se pôde chegar à cadeia fatal de sinônimos: liberdade individual — iniciativa — iniciativa privada — interesse próprio, com o salto acrobático: vícios privados — virtudes públicas? Não haverá sido, exatamente, pela ausência de um conceito individual-social de liberdade analiticamente mediado, de cara às novas circunstâncias? Na ausência de tal conceito, a lógica da economia se apropriou do único conceito mais elaborado de liberdade, que existia: o que se ancorava quase exclusivamente no indivíduo. Outro aspecto, que importa frisar, é o da trágica ausência de uma noção, positiva e afirmativa, da felicidade-em-sociedade, isto é, a falta de uma teoria do prazer, no cristianismo medieval, de corte acentuadamente crucicêntrico, dolorista e penitencial, com sua positivação do sofrimento. A bandeira da felicidade e do prazer pôde, assim, ser desfraldada pelo paradigma econômico. Chama poderosamente a atenção o fato de que todo o pensãmento da modernidade está penetrado pela preocupação com "ideais de felicidade", culminando nas teorias "hedonistas" e subjetivas do valor, nos economistas neoclássicos. São fatos a ponderar. O ponto ao qual estamos dando maior ênfase, nesta seção, é a característica de "religião de um destino determinado", que identificamos na "religião econômica". O traçado do destino — que, dizem os economistas, foi "descoberto" c por isso é, agora, destino manifestado a e para todos — caminha pelos meandros da ativação dos interesses próprios, sob a égide da dinâmica direcionadora e equilibradora dos mecanismos do mercado. As imperfeições e pecados da imperfeita colaboração humana com a racionalidade objetiva inscrita nesse processo se redimem no interior do próprio processo do mercado pelo mecanismo da competição. A competição é vista como o mecanismo de controle e redirecionamento,1 no caso de haver desdobramentos indesejáveis do comportamento movido pelo interesse próprio. É dessa maneira que as divindades benfazejas do mercado transformam os próprios pe-

cados humanos em matéria-prima aproveitável no traçado de um plano, cujo caminho histórico está substancialmente traçado. Vemos, portanto, que o mercado é um destino superior, ao qual os destinos individuais devem ajustar-se. Os que não se ajustam serão vítimas moídas pelo próprio processo que, tomado em conjunto, assegura sempre um saldo amplamente positivo de êxitos benéficos, em termos de bem comum. Uma vez estabelecido este dogma fundamental (que é uma reformulação cabal do "mandamento novo" do amor ao próximo), criou-se a "koinonia" (a comunhão) dos destinos individuais cruéis com os destinos individuais benignos, numa solidariedade misteriosamente benéfica para todos, dentro de um destino comum superior. É a Communio sanctorum et peccatorum, o Corpo Místico do Mercado, que cumpre infalivelmente os desígnios de um destino global superior. Estamos tocando o núcleo ardente das teorias sacrificáis embutidas nessa "religião econômica", que serão assunto no qual nos deteremos mais adiante. O leitor certamente não consegue evitar, a esta altura, a evocação de alguns dos múltiplos temas centrais do cristianismo assimilados, capturados e invertidos por essa "religião econômica". A questão desafiadora, que se coloca para a teologia, é a da "abertura", predisposição ou disponibilidade das versões correntes desses temas cristãos para que sei tornasse possível esse seqüestro e esse cativeiro. Uma vez realizada essa inversão, qual é o papel que cumpre, nesse contexto tão radicalmente transformado, a pregação repetitiva acerca desses mesmos temas cristãos? Sem uma des-inversão — isto é, sem um "recolocar sobre os pés" o que está invertido (para utilizar a imagem da câmara escura fotográfica, que tanto fascinavá a Marx) — qual é o impacto de uma "mensagem já invertida" em ouvintes que já são adeptos fiéis da idolatria do mercado? Um exemplo apenas: se os mecanismos implacáveis do mercado — outrora chamados, às vezes, de "moinhos satânicos" 2 , porque moem a vida das vítimas inevitáveis — já não são vistos nessa forma despectiva, mas são chamados benéficos, já que, numa visão global da lógica
2. POLANYI, Karl, A grande transformação. Rio de Janeiro, Campus, 1980, 1* parte. A expressão "moinhos satânicos", primeiramente aplicada às fábricas, estende-se depois ao sistema de mercado.

do mercado, tudo redunda em benefícios comuns a todos, qual é a motivação que resta para uma solidariedade humana, não como atitude beneficente esporádica apenas, mas como solidariedade mediada por estruturas econômicas? Sobra ainda espaço para a comiseração sincera, quando a confiança nas soluções providenciais do mercado a privou de sua substância, para não dizer que praticamente a ilegitimou?

3. A DISTINÇÃO NECESSÁRIA ENTRE MERCADOS E SISTEMA DE MERCADO A esta altura, necessitamos um breve intermezzo para esclarecer minimamente alguns termos, na intrincada selva terminológica relativa ao mercado. As linguagens sobre o mercado se revestem, com freqüência, de uma estranha vaporosidade propícia a ocultar significados pré-direcionados dentro da lógica global do sistema de mercado, ou seja, dentro de uma economia que considera os mecanismos do mercado como seu princípio determinante, quando não exclusivo, Façamos, pois, um exercício de sensibilização para discernir maleabilidades necessárias nas linguagens sobre o mercado, buscando quebrar a falsa suposição de que só é possível um referencial único, em termos de modelo econômico, para o discurso sobre o mercado. Lutar por uma difração, possível e necessária, nesse discurso é algo imprescindível para romper com a submissão idolátrica à lógica do sistema de mercado. Devemos começar bastante atrás na história. O que se entende, hoje, por idéias econômicas, de acordo com as pretensões "científicas" das teorias econômicas modernas, não existia, como tal, na Idade Média ou antes. A ciência econômica, como conceito moderno, e também o papel que se atribui à realidade econômica nas modernas sociedades complexas, não existiam, como tais, na fase histórica anterior. Existiam, no entanto, formas diferenciadas de intercâmbio de bens, seja, como troca por outros bens, seja como troca mediante um equivalente geral, o dinheiro. Neste sentido preciso existiam também mercados, mas eles eram um aspecto parcial, às vezes bastante reduzido, na satisfação geral das necessidades

vitais. Este conceito restrito de mercado é ainda aplicável a microprocessos de economias muito limitadas e localizadas, comunitárias ou não. É o conceito de mercado restrito que retorna, hoje, em minúsculos projetos de convivência "alternativa", mas sua total auto-suficiência, como chegou a existir no passado remoto, já não é praticável. Mercados restritos, com aberturas parciais para outros mercados restritos, determinaram basicamente a vida econômica dos conjuntos humanos na maior parte do passado. É no contexto de concepções pré-modernas da economia que devemos situar antigas discussões dos teólogos sobre o "preço justo" (e também sobre os juros e a usura, como tema pré-moderno). Todo o moderno pensamento econômico, quando se refere ao mercado, está falando de uma coisa completamente diferente: mercados amplos e sua inevitável interligação. E quando os economistas, que elevaram a economia a disciplina científica autônoma, se referem ao mercado, estão aludindo, quase sempre, ao. mercado como princípio articulador de todo um paradigma econômico. Neste último sentido, absolutamente predominante no pensamento econômico burguês, toda economia "verdadeira" é entendida como economia de mercado, contraposta a outras formas de condução da economia — economias planificadas — nas quais não se "respeitam" as regras "naturais" da economia. De entrada, portanto, a linguagem predominante na ciência econômica tende a censurar e invalidar linguagens alternativas acerca da economia. Teorias econômicas não coerentes com o paradigma do interesse próprio e do mercado são vistas como infração da lógica do pensamento e dos processos econômicos. Isso dificulta enormemente uma reabilitação de linguagens sobre o mercado em modelos de economia mista ou de economias com metas sociais planificadas e adoção limitada de métodos de mercado, estando estes supeditados a metas sociais prioritárias. De igual forma, se torna sumamente difícil recuperar um sentido positivo para "iniciativa econômica" ou propriedade individual sem ficar aprisionado, imediata e fatalmente, na falaz sinonimia com "iniciativa privada" (conceito ainda mais difícil de recuperar) e propriedade privada, con-

ceitos esses plenamente integrados no paradigma econômico burguês. Até o conceito de mercado doméstico ou interno costuma estar atrelado de tal forma a uma concepção de mercado global e internacional que se torna difícil enunciar metas prioritárias de projetos econômicos nacionais, O conceito de interdependência (dos diferentes mercados nacionais) se inscreve, igualmente, num código pré-direciónado„ Já não significa a interligação, perfeitamente óbvia, de mercados com uma base nacional de sólida autonomia relativa e fundamental independência. Pelo contrário, trata-se, no seu uso mais corrente, de um conceito adscrito à lógica de uma totalização dos princípios do mercado, como princípios diretivos em escala internacional. Na prática, dada a existência de centros econômicos e instituições financeiras tão fortes que podem impor suas condições aos demais, não existe, de fato, um sistema livre mundial de mercados, nem uma interligação livre dos mercados. Existem, em escala mundial, economias que comandam (estas são as verdadeiras "economias de comando", e não as que planificam metas sociais) e economias dependentes. É esta concatenação, regida por poderes acentuadamente desiguais, que se costuma chamar de mercado internacional, uma noção altamente ambígua dadas as disparidades e interferências de toda ordem. Mas essa interligação é um fato consumado, é uma trama da qual só a coesão política de povos inteiros, ou pelo menos sólidos consensos de maiorias políticas, conseguem libertar-se parcialmente. Este é, grosso modo, o contexto dentro do qual devemos "ler" as linguagens sobre o mercado. São linguagens fetichistas, que simulam a existência de algo que de fato não existe nessa forma (ocultamento da realidade mediante aparências enganadoras). É evidente que existe, na realidade, a vigência prática de métodos de mercado. Essa não é a questão, e tampouco é o problema maior. Seria perfeitamente imaginável um comércio internacional que conjugasse a aceitação de mecanismos de mercado com acordos internacionais sérios acerca de objetivos sociais da humanidade inteira, correspondentes a interesses comuns. A paz, a proteção ambiental e as urgências sociais em escala planetária jamais encontrarão solução

mediante mecanismos "naturais" de mercado. Portanto, não é tão difícil imaginai planificação e mercado conjugados, tanto no plano internacional como no plano doméstico dos diferentes países. O que falta são instâncias adequadas para a criação de consenso (porque as existentes estão viciadas pela ideologia do mercado). O que realmente predomina, apesar de todos os fatos contrários, é a oikouméne do paradigma do mercado, como única ecumenicidade real no mundo de hoje, da qual dependem também, em suas relações econômicas com o mundo capitalista, os próprios países socialistas, embora estes tenham conseguido organizar precários bolsões geográficos não regidos primordialmente pelos princípios do paradigma do mercado. Enfatizamos: a oikouméne ideológica do mercado é a "religião econômica" com pretensões de validez universal e exclusiva, e ela continua aprisionando os conceitos de liberdade e felicidade, como metas com caminho definido nos mecanismos de mercado, embora seja clamorosamente evidente que ; tais metas não se cumprem por esse caminho para as maiorias da humanidade. Convidávamos o leitor, no início desta seção, a um Intermezzo sensibilizador em relação à carga emocional e ideológica embutida nas linguagens sobre o mercado, coisa que nós parece importante no atual contexto de acirramento da retórica do mercado. Como é sabido, a força de censura e direcionamento das linguagens não reside primordialmente' em seu peso argumentativo. As linguagens mais corriqueiras sobre o mercado contêm, pela sua própria estruturação, um constante incitamento a saltos transcendentais. Entendemos, aqui, por "saltos transcendentais" (sem necessidade de largas digressões sobre variados usos possíveis da noção "transcendental") uma coisa muito simples: saltar indevidamente de um plano a outro, por exemplo, do plano dos mecanismos econômicos ao plano de enunciados gerais sobre a sociedade; ou do plano econômico ao plano de enunciados antropológicos acerca do que ê a melhor forma de realização humana. Para fazer-nos entender melhor, valham dois exemplos sumamente banais, com a observação de que, nestes exemplos,

o "salto" não está diretamente insinuado, mas é indevidamente introduzido mediante uma analogia capciosa, enquanto nas categorias econômicas, de que estamos falando, o "salto transcendental" já é uma incitação interna à própria linguagem. Primeiro exemplo: um/a professor/a explica a seus alunos que não estranhem que os peixes grandes comam os peixes menores, ou que os insetos sirvam de alimento aos passarinhos, porque é assim que funciona o equilíbrio ecológico natural. E conclui: no mundo dos homens também ocorrem coisas parecidas que, embora impliquem sofrimento, estão em função da melhoria moral da sociedade , . . Segundo exemplo: um/a professor/a explica a seus alunos que o movimento dos ventos se deve, em boa parte, ao deslocamento de camadas de ar com temperaturas diferentes; como num copo de bebida, a parte mais quente tende a subir e a parte fria, a baixar. E conclui: no mundo dos homens também é assim; quem se esforça sempre sobe porque é quente, e quem é frio, desce; querer é poder . . . Como deu para notar, houve em cada caso um salto transcendental da natureza à história. Nas categorias econômicas dá-se, geralmente, o contrário: o salto: se dá das relações sociais de produção (história) para o "natural". O que é ação humana passa a natureza. Dessa forma, o que é arbitrário passa a um "assim tem que ser". A ciência econômica é, em grande parte, uma "naturalização da história". Sintamos, agora, como tais saltos são pré-incitados pela linguagem econômica. Na linguagem sobre a "economia de mercado", muitas expressões incitam a um salto "natural" em direção à liberdade, à racionalidade, à eficiência, à "democracia", etc. Nas linguagens usuais sobre a economia com planificação, insinuam-se saltos em direção à ausência de liberdade, ao totalitarismo, ao controle total. As linguagens sobre economias mistas, além de escassas, são facilmente jogáveis de um campo referencial (mercado ou plano) ao outro; por isso, facilmente cooptáveis ou, como sucede o mais das vezes, tidas como inconsistentes. ' Linguagens acerca do mercado: as leis do mercado, os mecanismos do mercado, o livre jogo do mercado, forças do mercado, livre competição do mercado, as decisões que sur-

gem do próprio mercado, a eficiência própria do mercado, o dinamismo do mercado, a racionalidade do mercado, as opções do mercado, sinais dados pelo mercado, alta ou baixa do mercado, mercado auto-regulado, equilibrio do mercado, "ordem ampliada do mercado" (Hayek), ordenamento livre pelo mercado, economia de mercado, economia de livre mercado, sociedade de livre mercado, sistema de mercado, etc. Linguagens acerca da planificação: planejamento da produção (pela sociedade?), planejamento estatal da economia, planejamento centralizado, economia dirigida, economia de administração central, planejamento burocrático, economia não livre, economia de comando, etc. Linguagens intermédias: de mercado. economia mista, economia social

São apenas alguns exemplos para nos darmos conta do "cativeiro ideológico" das linguagens econômicas. Há um predomínio quase absoluto das linguagens articuladas desde a ótica do paradigma do mercado. Estende-se um manto de ressonâncias pejorativas sobre qualquer referência à planificação. Os equívocos das planificações omniabarcantes em que incorreram os países ditos socialistas pioraram a situação. A ineficiência e o empreguismo de certas empresas estatais, nos países latinoamericanos, servem de pretexto para tornar ainda mais irracional a retórica sobre o mercado. Nesse contexto exacerbado, as linguagens de discernimento se enfrentam com verdadeiras muralhas ideológicas. Um exemplo muito claro disso é a interpretação da imprensa e de muitos economistas do Ocidente a respeito do esforço de reformas nos países socialistas. Ele é visto como um retorno, necessário e incondicional, embora gradual, ao paradigma do mercado, e não como aquilo que, ao que tudo indica, pretende ser: o passo da planificação omnímoda a uma dosagem de mercado com planificação. Pelo menos, é o que nos dizem os textos: "O que nos oferecem do Ocidente, em termos de economia, é inaceitável para nós"; "Houve uma opinião, por exemplo, de que deveríamos desistir da economia planejada e sancionar o desemprego. Contudo, não podemos

permitir isso, uma vez que nosso objetivo é fortalecer o socialismo, e não substituí-lo por um outro sistema" (afirmações nesse teor são inúmeras). Basta, porém, que surjam algumas formulações, que já adquiriram um sentido pré-direcionado no jargão ocidental, para que apareça a interpretação pró-mercado-irrestrito. Exemplos: "modelo econômico mais eficaz", "transformação radical do controle centralizado da economia", "forma mais eficaz de propriedade socialista", "substituição dos métodos predominantemente administrativos por métodos predominantemente econômicos", "competição socialista", "iniciativa das unidades de trabalho", etc. Nessa leitura distorcida, já não sobra nenhum sentido real para insistências como: "Temos em vista a democratização do planejamento . . . com base nas necessidades sociais"; "Em suma, as vantagens do planejamento serão combinadas cada vez mais com os fatores estimulantes do mercado socialista".3 O impasse nas linguagens econômicas evidentemente não é apenas um impasse no terreno econômico. A intenção primordial deste livro é mostrar que o impasse envolve também a teologia. Neste instante, porém, queremos apontar carências sérias no próprio aparato conceituai da economia. As préconcepções impregnam de tal maneira a linguagem econômica mais usual que se tornou espinhoso elaborar conceitos ainda praticamente inexistentes como: eficiência social, propriedade participativa, planejamento democrático e participado, iniciativa econômica, democracia econômica e social, e tantos outros para os quais qualquer verbalização se vê afetada, de entrada, por impedimentos provenientes de uma longa história de captura ideológica das linguagens pelo paradigma do mercado.. A distinção fundamental, que julgamos necessário recuperar, refere-se a uma urgente ruptura com o dogmatismo avassalador do paradigma do mercado irrestrito. Aceitar e propiciar formas de mercado não é a mesma coisa que aderir incondicionalmente ao sistema de mercado. Este, aliás, não existe, em forma pura, em nenhuma parte, como tampouco existe, em nenhuma parte, uma economia de puras variáveis econômicas. c '_ 3 GORBACHEV, Mikhail, Peresiroika Novas idéias para o meu país e o •nundo São Paulo, Ed Best Seller, 16» ed , 1987, cit. p. 93-115.

é uma ideologia propugnadora de interesses bem determinados. contudo. de maneira que aquilo que foi incorporado o tenha sido ao ponto de nem aparecer mais à primeira vista. quando. reciprocamente ou unilateralmente. e quarto. na realidade. é. só muito raramente. Esse paradigma incorporou. é provável que nenhuma absorção recíproca entre economia e teologia seja tão tranqüila e completa que já não exista nenhuma possibilidade de revolver esta absorção e desalojar o que foi absorvido. nas suas linguagens. é de supor que. e vice-versa. evitar as supersimplificações. embora isso possa requerer um esforço árduo. segundo.Impingem-nos a economia-ficçao de um paradigma. uma absorção recíproca entre os pontos de vista da economia e os da teologia (ambos sujeitos a variados enfoques e interpretações) se realize de modo completo. . o que pretendemos insinuar é o seguinte conjunto de hipóteses: primeiro. 4 O MODO PECULIAR DE INCORPORAÇÃO DA MORAL (E DA TEOLOGIA) NA ECONOMIA DE MERCADO Vamos dedicar uma breve seção a um objetivo bastante preciso: reafirmar. todo tipo de promessas sociais. perfeitamente plausível que elementos-chaves de uma ou outra sejam incorporados. uma série de pontos que viemos sustentando até agora. seja qual for a posição ideológica assumida. sem fissuras e franjas oscilantes. mas também redialectizar. tem de confrontar-se necessariamente com a teologia que já está imbricada ou que já é endógena na economia. qualquer abordagem do binômio economia e teologia. Em outras palavras. terceiro. capacitar-nos para a flexibilidade. Ele existe para impedir que propósitos sociais sejam articulados a partir de outras matrizes ou fontes de critérios. que se apresenta como meramente econômico. precaver-nos para não estabelecer ligações que redundam em curto-circuitos ou oferecem um flanco aberto para revides e objeções demasiado fáceis. Em síntese.

Para quem procura familiarizar-se com a abundante literatura que versa. do modo peculiar como se processou e ainda se processa a incorporação dos valores éticos (e dos temas teológicos) nas próprias categorias econômicas. incorporados — nas linguagens sobre o mercado. tese central da ideologia econômica) que isso ocasiona. já nos pronunciamos sobre o caráter ideológico da usual separação entre a ética e a teologia. ficando claro que não é apenas. .Nessas hipóteses estivemos falando constantemente de teologia. como se diz no título. O autor certamente tem razão quanto às dificuldades de comunicação com os economistas (que se julgam geralmente isentos de valorações ético-políticas. ademais. Com isto já estaremos antecipando sobre onde buscar a teologia incorporada na economia. que se desdobra na economia de mercado. Comecemos com um exemplo de advertência às autoridades eclesiásticas. Na seção imediatamente anterior a esta sugeríamos um teste de captação dos direcionamentos ideológicos embutidos — portan-' to. Mas não parece ser este o ponto de interesse do autor. uma das debilidades do tipo de apelos ou argumentos utilizados em documentos eclesiásticos de cunho social. de um ou outro modo. no título desta seção. feita por um sacerdote. mas que essa teologia incorporada representa uma inversão de temas centrais da mensagem cristã. no sentido de que não misturem constantemente conceitos éticos com conceitos econômicos. " . sobre esse tipo de questões. não só contém uma teologia endógena. foi por isso que colocamos a palavra "teologia" momentaneamente entre parênteses. Basicamente. Agora se trata de avançar um pouco mais na caracterização da maneira singular ou. Ele insinua. . em todo o seu livro. principalmente do amor ao próximo. um certo privilégio científico das categorias próprias da economia. o que mais aparece no debate é a "ética". De resto. Ao longo de todo o texto anterior deste livro já nos posicionamos quanto ao assunto: sustentamos que o paradigma econômico do interesse próprio. que é. nem principalmente. não me parece cientificamente acertado rejeitar o capitalismo 'por estar baseado no lucro como motivo de . onde ela é nomeada explicitamente.

e de qualificar assim superficial e ilegítimamente a economia de mercado como intrínsecamente perversa". 182. que pode sugerir voracidade gananciosa. pelo menos. Paulo. entre outros motivos. Um dos méritos de Marx consiste. dito de outra forma. precisamente. podem adjudicar-se a pretensão de um discurso "científico" totalizador acerca da história social dos homens. Ed. é no caráter fetichizador das categorias econômicas — isto é. O mito do cristianismo socialista. porém. só é compreensível dentro da globalidade do paradigma do interesse próprio e só é criticável numa teoria mais ampla de acumulação do capital. categorías econômicas com categorias morais: induz ao erro de identificar a obtenção do benefício empresarial numa economia livre de mercado com uma determinada perversão moral. De fato. são fetichizadoras. mas de fato sempre expressam relações sociais. Loyola. como creio ter demonstrado suficientemente no presente livro. na "aura teológica" ou "fantasmagoría teológica" que as constitui (utilizando a linguagem de Marx) — que se encontra a "perversa infinitude" que lhes permite instaurar. O autor. embora se declare omniabarcante em relação à produção e reprodução social da vida humana. a legitimação (aparente) de um discurso universali4. que está ancorado no econômico e jura que permanece exclusivamente neste terreno. e pelo fato de esta sua característica ficar ocultada na sua forma econômica. Dito de outro modo. o conceito de "lucro". posto que nunca são mera expressão de variáveis econômicas. desde o econômico. 4 Nada a objetar quanto à crítica a moralismos emocionais. em haver-nos mostrado que todas as categorias essenciais da economia burguesa são fetichizadoras. 1982. p Enrique. São . que este processo de incorporação não avançou a tal ponto que deva preocupar-nos seriamente. Este tipo de argumentação. porque se apresentam como econômicas. MENÊNDEZ UREÑA. induz ao erro de confundir mecanismos econômicos de funcionamento com mecanismos morais ou.atuação'. sugere uma distinção nítida entre ética e economia. Isto só aparece possível quando se opera com o pressuposto de que não houve absorção de categorias éticas nas categorias econômicas ou.

É nisso que consiste. em suas próprias categorias. embora muitos "marxistas" não consigam acompanhar a Maix neste preciso ponto). recobrindo-o com "fantasmagorías teológicas". é o seu sonho de contrapor à mitologia das categorias econômicas burguesas um outro tipo de concepção básica da economia. a moral e a política. embora numa perspectiva claramente distinta do paradigma burguês. é necessário devolvei as categorias econômicas ao terreno material da economia e. que se opôs ao evidente determinismo do paradigma burguês. Outro assunto. parece objetável na medida em que. que propicie diretamente a priorização de metas sociais. uma vez mais. ficará facilmente a impressão de que se pretende impor outro caminho predefinido pela própria forma de encaminhamento da economia. o materialismo de Marx. uma vez instaurado. Só neste sentido. pode permitir-se o luxo de desdenhai a moral e a política. que no fundo é de cunho teológico (coisa que Marx insiste em revelar-nos. Supor que isso seja possível. onde Marx parece reincidir no cientificismo decimonónico. o Marx antideterminista. arrancando-lhe o direito de incorporar.zante. Neste esforço desfetichizador. que. desfazendo a inversão fetichista que elevou as coisas (mercadorias. invalidá-las como categorias apegadas tão-somente a esse plano material. dinheiro. a fé. já que sua matriz articuladora — totalmente diferente do núcleo articulador (o interesse próprio) que determina o paradigma da economia de mercado — está centrada na produção social da vida. que de fato procurou absorver. no fundo. se torna acusá- . com as categorias correspondentes. Para desfazei1 essa operação fetichizante. Maix — tão estranha-mente acusado de deteiminista — é radicalmente contrário ao determinismo que se arrogam as categorias da economia burguesa. Capital) a agentes "hypostasiados" (personalizados). Em outras palavras. que é uma luta por devolvei a economia ao seu plano próprio. em nome da pura ciência acerca da economia. se necessário. erigindo-se outro tipo de sonho cientificista (o socialismo científico). poique de fato já os incorporou. e simular uma neutralidade nesses terrenos. rebaixando as pessoas a coisas. desfetichizai a economia significa destruir seu determinismo em relação às relações sociais dos homens. já que o ocultam.

vel de um novo determinismo, já que também a sua visão alternativa da economia pretende, evidentemente, assegurar uma inclusão de categorias ético-políticas no encaminhamento econômico dos projetos socialistas. A objeção mais séria não é a essa inclusão, mas se refere à ameaça de esvaziamento do primado do ético e do político, como instâncias articuladoras de critérios sociais, alimentando a participação ativa e consciente dos homens em quaisquer projetos históricos. Estamos tentando radicalizar a questão em direção a perguntas fundamentais. É inevitável, e por isso necessária, a incorporação de critérios éticos e políticos nas categorias econômicas de qualquer projeto histórico, dada a importância fundamental da economia na produção social da vida? Se a resposta for "sim", em princípio, esta resposta afirmativa não nos joga irremediavelmente em deterninismos econômicos. Duas coisas, porém, ficariam estabelecidas: primeiro, a própria relevância do econômico na produção social da vida (que, no entanto, pode variar muito segundo avance ou se atrase a satisfação das necessidades vitais dos homens, o que nos obriga a conceituações contextuáis e historicamente concretas do que se entende por produção social da vida) obriga qualquer projeto histórico a incluir, em suas perspectivas econômicas, determinados valores ético-políticos, inter-relacionando, portanto, dialeticamente a esfera econômica, a éticopolítica, a cultural e inclusive a religiosa de tal mòdo que, abolidas as autonomias completas de qualquer delas, tampouco desapareça, nessa interpenetração, uma sólida autonomia relativa, sem a qual se extinguiría a crítica recíproca e a dialética se estancaria num monismo; segundo, tudo depende, portanto, de quais são as categorias éticas pelas quais se opta em determinado projeto histórico e qual é o modo de incorporação das mesmas nas diversas formas institucionais (econômicas, políticas, etc.) que se assumem como mediadoras na consecução dos objetivos desse projeto histórico. Agora chegamos realmente ao ponto no qual o título desta seção adquire um sentido preciso. Qual é o modo peculiar de incorporação das categorias éticas (e teológicas) no paradigma da economia de mercado? A questão, portanto, já não

é se ela incorporou ou não determinadas categorias éticas, mas quais incorpora e como as incorporou. A pergunta genérica (incorporou ou não?) só persiste para aqueles — e são a maioria dos economistas, adeptos ferrenhos da irrestrita economia de mercado — que mantêm a absurda convicção de que suas teorias econômicas sejam ciência pura, sem quaisquer inclusões valorativas. A persistência dessa ideologia é o motivo pelo qual aquilo que já não é, per se, a questão que nos interessa, torna-se, uma vez mais e ainda, parte dessa questão. Por quê? A resposta é: porque a própria pretensão de neutralidade valorativa cumpre um papel decisivo no modo como as categorias econômicas absorvem categorias éticopolíticas. Ê por esta razão que não podemos mergulhar diretamente em outros aspectos relevantes desse modo peculiar de absorção de categorias éticas, que precisamos captar no tocante ao paradigma de economia de mercado. Por que o "sistema de crenças" (Galbraith) da economia de mercado conseguiu que "a defesa da fé" se operacionalize através de uma pretensa "ciência"? No início do século passado, Nassau Sênior estabeleceu uma comparação notável entre a astronomia e a economia. Assim como a astronomia é algo bem diferente da navegação, e ninguém pede que os astrônomos se encarreguem de dirigir os navios, assim também a ciência econômica não deve ser envolvida em questões morais ou na política prática. A comparação é evidentemente falaciosa, porque oculta que, antigamente, nenhum navegador dispensava os conhecimentos da astronomia. Depois de muitos antecedentes preparatórios, os economistas neoclássicos declaram a emancipação definitiva da ciência econômica de quaisquer preocupações morais. É famosa a frase de W. S. Jevons: "Se a economia quiser ser efetivamente uma ciência, ela deve tornar-se uma ciência matemática". E é assim que a maioria dos economistas passou a ver a sua "ciência": como um reino de verdades isentas de valorações. Na formulação agudamente crítica de Galbraith, essa ideologia afirma o seguinte: "As coisas podem distar do que é bom, do que é fair, do que é tolerável; este não é o problema do economista enquanto economista. Em virtude do reclamo de que a eco-

nomia deve ser considerada como ciência, ela deve separarse da justiça ou injustiça, do sofrimento e da opressão causados pelo sistema. A tarefa do economista é permanecer distante, analisar, descrever e, se possível, expressar tudo em fórmulas matemáticas, mas não passar jamais a juízos morais ou envolver-se de qualquer outro modo". 5 Galbraith passa a uma ironia feroz acerca do despreparo dos economistas, devido à sua distorção profissional, para se darem conta dos pressupostos do poder implicados em sua ciência. "Como uma questão prática, talvez seja até bom que nem todos os economistas comecem a envolver-se em problemas práticos. O resultado poderia muito bem ser uma mistura ensurdecedora de vozes. Mas a história não pode ser negada: a pretensão da economia de ser uma ciência está firmemente enraizada na necessidade de uma escapatória diante da queixa acerca das inadequações e injustiças de um sistema, com o qual a grande tradição clássica está comprometida. E esta pretensão continua a servir como anteparo defensivo para ir levando uma vida profissional tranqüila e não controvertida, também hoje". 6 Portanto, o reclamo da mais isenta cientificidade é, em si mesmo, um salto transcendental. Este salto se dá a partir do patamar de pressupostos éticos bem determinados — a prédefinição do único caminho viável para a consecução do bem comum — em direção ao plano "científico", no qual as categorias econômicas assumem uma função reduplicativa e homologadora da -opção ético-política já preestabelecida, e agora enterrada nas próprias categorias- econômicas. Dessa forma a ciência econômica se erige em teoria geral do que passa e deve continuar acontecendo no mundo dos homens. Quem acompanha as modernas discussões epistemológicas sobre a terrível ambigüidade que se cristalizou no estatuto de cientificidade das ciências em geral saberá, agora, aplicar
5 GALBRAITH, J. K,, Co., 1987, p. 124,

6 lei., ibid , p. 125

Economias in Perspective,

Boston, Houghton Mifflln

essa crítica epistemológica, com peculiar ênfase, à ciência econômica. Um grupo de jovens cientistas mexicanos expressa essa crítica de um modo particularmente impactante, parafraseando formulações do jovem Marx na sua crítica à intencionalidade totalizadora da religião. "A ciência se tornou uma totalidade acabada. ( . . . ) É a realização fantástica da essência humana, onde esta essência humana passa a carecer de realidade. A ciência de nossos dias é, por um lado, a expressão da miséria real, justificação, explicação racional, e, por outro lado, é esperança, é ilusão: é a felicidade ilusória do povo. A exigência de abandonar as ilusões acerca de um estado de coisas é o mesmo que exigir que se abandone um estado de coisas que requer tais ilusões. Na medida em que a ciência se constitui em juiz e árbitro, (postula-se) que só o conhecimento científico é verdadeiro e que a verdade só pode ser científica. Já que a ciência se transformou em falsa consciência, sua falsidade consiste nesta afirmação: ciência e verdade são idênticas. Posto que a ciência se diz objetiva, e isto forma parte da falsa consciência que temos a seu respeito, declara-se independente da consciência social. Está, pois, à margem do acontecer político, de toda 'análise concreta de situações concretas' e, no dizer de Marx, tem tanto mais valor quanto mais carece, aparentemente, de significação política. A empresa de dominação na qual a ciência se comprometeu é tanto mais eficaz quanto mais neutra ela aparenta ser. Esta - aparência de ;neutralidade é o que lhe confere sua terrível eficácia". 7 Retomando, uma vez mais, a questão precisa acerca de como (o modo peculiar) se incorporaram que categorias éticas nas categorias econômicas do paradigma da economia de mercado, já podemos limitar-nos a uma espécie de guia-mapa para ulterior aprofundamento da reflexão, Embora a muitos isso pareça inverossímil, dada a sua deformação profissional, já podemos partir da pressuposição firme de que houve realmente tal incorporação. Poderíamos, ainda, demorar-nos em ias ciencias.
7. ÁLVAREZ, C. et al., El silencio dei saber. México, Ed Nueva Imagen, 1979, p 26s.

Notas para otra filosofía de

exemplos de como se torna espinhoso, pata muitos economistas, chegar a este ponto já estabelecido. Valha, como'exemplo, a confissão sincera de um economista, assessor freqüente do Conselho Mundial de Igrejas em assuntos econômicos, ao relatar o quanto lhe custou descobrir que "o princípio do mercado é o interesse próprio sem quaisquer considerações altruístas", que "a distinção entre decisões, científicas e decisões éticas é falsa", que "a assim chamada economia ds 'livre mercado' está baseada em decisões fora. da esfera da economia", que a economia como tal "não possui regras científicas para decidir sobre a alocação de recursos", que "os economistas que se declaram valorativamente neutros sempre..santificara o status quo", que "não é válido argumentar que as considerações éticas para as opções só devem ser mencionadas quando os cálculos econômicos estiverem completados", que as decisões mais cruciais "não podem, ser tomadas sobre a base de princípios econômicos ou a lógica do mercado", que existe um determinismo embutido na ciência econômica na medida em que chama de 'genuinamente livres" as escolhas feitas em obediência a "leis deterministas da economia", etc, 8 Convenhamos, portanto, para que a nossa reflexão, põssa prosseguir frutiferamente, que pensar instituições e seus ingredientes organizativos, assim como criar instituições na prática da organização social, qualquer que seja a esfera¡predominante dessa institucionalidade — a economia, a política, etc. —- sempre significa adotar determinados valores ligados, e só parcialmente dissociáveis, de uma determinada racionalidade científica. Isto nos obriga a refletir sobre as formas como se concatenam os pólos só relativamente autônomos _ dos valores éticos, por um lado, e das racionalidades científicas, pór outro. Õ que o moderno cientificismo ainda admite é a rèflexão sobre uma concatenação de esferas relativamente autônomas —- num segundo sentido deste conceito — entre as diversas racionalidades científicas, cada qual com uma certa especificidade, no interior da racionalidade científica entendida como uma somatória de todas elas. Já aí surgem
8 KURIEN, C. T., "Economics and Ethics — A Reflection", in: SCHMIDT, W„ R. ( e d ) , Catalysing Hope for Justice. Genève, WCC, J«87. 185-19Ü

problemas, porque a racionalidade de urna determinada ciencia, por exemplo a economia, pode pretender devorar, impertelis'ticamente, todas as demais, anulando a sua — sempre precaria — cientificidade. É o que aconteceu, em larga escala, «m detrimento da psicologia, quando uma determinada visão do comportamento humano (prazer, para o ser humano, significaria sempre a priorização de seus próprios interesses) foi incorporada na antropologia econômica dos neoclássicos. O que os economistas dificilmente admitem discutir é a inter-relação - entre a racionalidade econômica propriamente dita e as esferas relativamente autônomas das matrizes de critérios éticos, estéticos, religiosos. Dito de outra maneira, a inter-relação entre a esfera da ciência e a esfera dos valores (quaisquer que sejam) é declarada uma discussão inútil e sem cabimento para o economista. Gomo vimos, esta é a saída cômoda para se lavar as mãos diante dos efeitos desastrosos da economia que, nesta visão cientificista, jamais são atribuíveis à economia enquanto "ciência", mas somente aos usos imperfeitos ou incorretos que "outros" fazem dela. Agora, porém, nos interessa a outra implicação dessa posição cômoda: é assim qüe se torna possível o contrabando da ética para dentro das categorias econômicas sem que se admita que tal coisa esteja sucedendo, posto que tudo passa a valer como "racionalidade econômica" tranqüilamente declarada como' pura ciência. Um tema gordo, que não poderá tomar nosso tempo neste momento, é o das conseqüências que isso, inevitavelmente, tem pára a própria concepção do mundo dos valores. A partir dò momento em que se admite que pensar instituições e adotar ; instituições sempre significa investir valores éticos, na teoria e na prática, surge inevitavelmente uma bifurcação de caminhos no interior da própria concepção dos valores éticos. Como e por quê? Ou se cai na perigosa crença de que a tóíaíidade dos melhores valores éticos foi inteiramente" integrada neste determinado projeto histórico, com suas formas institucionais (e então já não sobrevive nenhum núcleo articuládòr de valores, como núcleo relativamente autônomo, como base para uma permanente retomada da crítica a esse

projeto e suas instituições; isto é, surge a sacralização do projeto e das instituições; perde-se o horizonte utópico; morre a dialética); ou passa-se a tomar consciência de que todos os investimentos de valores éticos em projetos históricos e suas institucionalidades são sempre imperfeitos e precários, embora válidos e necessários. Somente aqueles que dão este último passo e admitem uma dialética necessária entre o horizonte utópico e os projetos históricos, são capazes de elaborar recursos, teóricos e práticos, que nos resguardam, por um lado, das sacralizações indevidas (fonte última de todas as lógicas da opressão, dos autoritarismos, das demonizações, etc.) e, por outro, motivam, apesar dessas precariedades de tudo o que é histórico, a adesão corajosa aos projetos factíveis, à luz do melhor investimento de valores concretamente possível, num determinado contexto. Sabemos que estas colocações aludem a um tema exigente e pouco freqüentado, até o momento, nas discussões dos grupos progressistas. Mas é um tema urgente para obviar as eternas tentações de recaída em novos mitos cientificistas, novas sacralizações ou, do lado contrário, as eternas legitimaçÕes da resignação e da acomodação, porque, afinal, o melhor dos mundos possíveis nunca está ao alcance da mão. Para ò plano da fé, este tipo de reflexão é imprescindível, porque nunca se deve pedir fé incondicional e totalizadora frente a qualquer projeto histórico e suas institucionalidades (incluídas aí as próprias instituições eclesiásticas, que jamais esgotam o horizonte utópico do cristianismo); o que não significa retrairse à impotente "reserva crítica", quando esta também adquire traços totalizadores que impossibilitam a adesão, decidida e jubilosa, a projetos históricos que podem realmente melhorar o convívio humano. Afirmar que o amor só é real quando se atualiza com mediações históricas efetivamente assumidas não é o mesmo que dizer que essas mediações garantem uma totalização do amor. A Igreja não é o Reino de Deus, e nenhuma revolução, ainda a mais urgente e necessária, deveria anular o horizonte utópico, que é imprescindível pará que a organização da esperança possa melhorar, numa dialética per-

manente no interior da história, sem nunca declarar que a história está concluída. Uma ciência social, que procure ser conscientemente uma ciência moral-social, isto é, que saiba trabalhar conjuntamente o horizonte utópico (expressamente admitido e não escamoteado) , os investimentos éticos prioritários e urgentes (onde se impõe, normalmente, uma dolorosa seletividade, já que nem tudo pode ser feito ao mesmo tempo) e as racionalidades científicas melhores, que estejam disponíveis — tal ciência social é ainda praticamente inexistente. Mas ela é anelada por muitos, na atualidade. Em vez de uma ciência desse tipo, o que existe são sacralizações pretensamente científicas, que injetaram em suas categorias — sem admiti-lo, normalmente -— determinadas categorias éticas. Daí resultam cruéis amordaçàmentos da esperança humana, tragicamente em nome da ciência. Este tipo de discussão desponta, hoje, com força, em relação à economia.9 Muitos se dão claramente conta de que o paradigma da economia de mercado recortou drasticamente os valores éticos praticáveis, limitando ou até vetando a adoção de outros critérios valorativos. Até este ponto chega, com crescente abundância, a crítica a esse paradigma. É bastante raro, no entanto, encontrar uma análise mais radical que mostre que o investimento seletivo de valores nesse paradigma econômico se deu numa forma tal que ficou criada a possibilidade de anunciar, ao mesmo tempo embora mentirosamente, outros valores desejáveis, dando a entender que eles já ficaram incluídos no paradigma, e servindo-se desse mecanismo ideológico para não mostrar os que efetivamente foram incluídos. Dito de outra forma, as categorias econômicas do paradigma do interesse próprio se impõem como única saída para efetivar valores que estão terminantemente secundarizados ou excluídos desse paradigma. Semelhante transmutação, que logra apresentar o egoísmo como a única saída para o altruísmo, se implantou no interior, isto é, na estrutura interna das próprias categorias econômicas.
9. BOULDING, K, E,, The Economy of Love and Fear: A Preface to Cranã Economics. Belmont, Calif., Wadsworth, 1973; PHELPS, E. S. (ed.), Altruism, Morality and Economic Theory. New York, Russell Sage Foundation, :1975; COLLARD, D-, Altruism and Economy: A Study in Non-selfish Economics. Exford, Martin Robertson, 1978; HIRSCHMAN, A., A economia como ciência moral e política. São Paulo, Brasiliense, 1986, esp. p. 119-133.

Por uto lado, anulou-se o horizonte utópico, no que se re-: fere à economia, porque este ficou eliminado mediante a utopização de um determinado paradigma econômico; por outro lado, ficou dogmatizada uma parca e restritiva seleção de valores, estritamente ligados aos interesses individuais, que passaram a valer como interesses sociais em nome do realismo, ou seja, em nome das contingências históricas da subjetivir dade humana. O sujeito humano ficou, desse modo, radicalmente redefinido e, com a sua redefinição, redefiniu-se também a história possível, Ela ficou colocada solare trilhos fixos, que não admitem desvios. Não é a primeira vez que se utiliza essa imagem dos trilhos do trem, esse caminho metálicamente prefixado, que permite acelerar a viagem. Ela aparece, corri acentuado fascínio, nos primeiros neoclássicos norte-americanos (J. B. Clark e I. Fisher). É a imagem do produtivismo eficientista, que confunde a produção de riqueza com o bemestar automático para todos. .; Tudo isso radica, porém, numa longa história. Haveria que remontar às mais antigas, e sempre renovadas, mitologias acerca do dinheiro como entidade mágica imbuída de um espírito salvífiço, tema económico-teológico sobre o qual existe uma vasta e fascinante literatura. 10 A nosso ver, porém, não se chega longe, nessa busca de raízes das inversões éticoteológicas, praticadas mediante categorias econômicas, se não se tomam. em consideração as mudanças profundas que ocorreram com a própria cqncepção do dinheiro quando este, uma vez invalidado o mero entesouramento morto, passou a dinheiT, ro vivo que "trabalha" e se reproduz, até atingir a perversa infinitude do Capital, que se autovaloriza de modo tendencialmente infinito. 11 Pouco ou nada entendeu acerca do paradigma do interesse1 próprio quem o vilipendia, moralisticamente, como exaltação cabal do mais feio dos egoísmos. Somente quando inserimos
10; SCHACHT, Joacbim. • Die Totenmaske Gottes (A máscara môrtuárià de ; Deus). Salzburg, Otto Mueller Verlag, 1967 (trad. fr. Anthropologie. culiurelle de 1'argent. Paris, Payot, 1973 ver bibliogr.); KURNITZKI, Horst, I.a

estructura libidinal del dinero. Una contribución

MéxicS, Siglo XXI,. 1979; BORNEMAN, Einest, , P.sycKoanalyse . des Céldes. Frankfurt a.M., Ed.: Sifhtkamp, 1977 (ver bibliogr.);' T . ll'.: DUSSEL, Enrique, La producción teórica de Marx, México, Siglo X X I , : 1985; HINKELAMMERT, Franz }., As armas ideológicas da morte São Paulo, Paulinas, 1983, l í parte.

a la teoría de la

femineidad.

a ferro e fogo. A primeira referese à própria noção de economia: ele prefere claramente o conceito de economia como sinônimo do paradigma burguês do sistema de mercado. conseguimos entender por que ele pôde ficar tão milagrosamente prenhe de infinitas promessas de benefícios esparramados.12 Para acompanhar a reflexão de Polanyi convém.esse paradigma no contexto fantasmagórico das perversas infinitudes do dinheiro e do Capital. continua a desafiar-nos. isto em contraposição a uma noção mais genérica de economia como qualquer forma de organização da produção e distribuição de bens. se chegou à "certeza" de haver "descoberto" o caminho mais auspicioso para fazer o bem a nossos semelhantes. Beacon Press. ao falar de "A Grande Transformação". Archaic and Modem Economics — Essays of Kàrt Polanyi. pela mágica prodigiosa do interesse próprio^ já que não existiam robustas teologías alternativas que derrubassem essa "certeza". n 2. in: DALTON. 1968. socialmente. Boston. havia chegado o momento para desdobrar esse núcleo germinal de critérios no sistema do mercado.12. geradores de critérios alternativos. reduzindo as teologías eclesiásticas a um débil jogo marginal (é a história que Polanyi nos conta com brutal sinceridade). Quando. A segunda distinção refere-se ao conceito de mercado: uma coisa -são os mercados que assumiram . Karl. porém. supra . do sistema de mercado. Cremos que Karl Polanyi. Durou ao redor de um século e meio a lenta purificação espiritual do interesse próprio. POLANYI. Primitive.Obsoleto Maiket Mentality". " O u r . em todas as direções. com uma incrível incorporação de doses fortes de ética e teologia nas categorias econômicas. a partir de fins do século XVIII e ao longo de todo o século XIX.). A primeira grande transformação se consumou. de inició. e ela não se dará sem a criação de um forte pensamento ético e teológico fincado em núcleos alternativos. porque é isto que ele analisa criticamente. de fato se refere a duas grandes transformações: a que ocorreu com a avassaladora implantação. A segunda. e a que deveria ocorrer (segundo ele esperava em 1944) depois da revelação cabal das características brutalmente desumanas da lógica do mercado. Georçe (ed. captar algumas de suas distinções básicas. além do livro cit.

como simples mercadoria. tudo-isso representou uma das mais profundas e mais incríveis revoluções no pensamento ético e religioso. apesar de todos os desmentidos dos fatos). a irracionalidade da sua teologia. mediadas pelos conceitos econômicos. e o próprio ser humano jogado em meio aos mecanismos cegos do mercado. reduzidos a mercadorias. A digestão moral do gritante pauperismo. que só conseguiu impor-se como tal em data bastante posterior a Adam Smith. e que bastava a confiança no caráter* benéfico do paradigma do interesse próprio do mercado auto-regulável. que a humanidade já viveu. um sistema auto-regulador. A instauração triunfante do sistema de mercado foi uma história dramática. no interior das categorias econômicas (tornando aceitáveis as crueldades mais chocantes. na suprapersonalização do mercado com atributos de agente autônomo. È preciso entender realmente que a irracionalidade do sistema de mercado é uma irracionalidade com características profundamente éticas e teológicas. Foi uma verdadeira retradução de todos os critérios básicos na forma de encarar a vida humana em sociedades complexas. A certeza de que a "benevolência" podia ser deixada de lado. Só a duras penas. O essencial do mito do mercado consiste na "hypóstasis". isto é. em projetos econômicos diferenciados não sujeitos exclusivamente ao princípio do mercado.formas variadas ao longo da historia e podem voltar sempre como uma referência importante. A irracionalidade do mercado é. e todos os bens produzidos pelo homem. reduzidos a mercadorias. de maneira impetuosa e jubilosa. uma vez estabelecida a firme crença de haver encontrado a "receita econômica" mais humana. após um longo metabolismo ético e teológico. plenamente. O sistema de mercado só se torna efetivamente tal quando se instaurou definitivamente a crença de que ele é. Uma vez chegados a tamanha fé. o sistema de mercado conseguiu implantar-se. outra coisa é o sistema de mercado ou economia de mercado. que acompanhou toda a primeira Revolução Industrial. também. mas. a natureza e todos os recursos naturais. ao final. No cerne da implantação do sistema de mercado encontramos as "mercadorias-ficção": o dinheiro. é um dos fatos centrais desse drama de grandes proporções. os homens .

puderam abrir-se a uma confiança ilimitada. Não importava se "os 'moinhos satânicos' descartavam todas as necessidades humanas". Um dia o mercado redentor as atenderia todas, na sua mágica benfazeja. Só nos ,é possível, na brevidade imperiosa deste texto, uma provocação ao estudo ulterior da espantosa metamorfose dos valores e das instituições, que a implantação da "oikouméne" do mercado significou para a história humana. Exatamente no momento no qual se tornava patente o desafio de os homens assumirem uma consciência do papel ativo e criador, que lhes incumbe na condução de uma história social cada vez mais complexa e potencialmente mais autodestrutiva, essa emergente consciência social passou a ser domesticada pelo sistema de mercado, que se arrogou o direito de pré-definir o único caminho transitável. Durante todo o século dezoito, as sociedades economicamente mais avançadas albergavam ainda bolsões de resistência — nos terrenos econômico, político e intelectual — à implantação do sistema de mercado. A sociedade resistia a ser transformada em mero apêndice de um rígido paradigma econômico. A mistura dessas resistências com os avanços inexoráveis do sistema de mercado dificulta enormemente, em qualquer releitura desse período histórico, a distinção entre as fagulhas de pensamento efetivamente emancipatóiio e a incorporação das aspirações democráticas à ideologia do mercado. Mas é importante reter essa distinção por dois motivos: primeiro, para entender que a implantação do sistema de mercado não foi, de modo algum, o processo espontâneo, e sem violentas intervenções políticas, que os ideólogos posteriores do liberalismo nos pintam; segundo, porque o desemaranhamento ou, se quiserem, a refontização dos ideais democráticos exige de nós uma releitura constante dos princípios emancipatórios que o paradigma do mercado conseguiu, até: certo ponto, abafar. Dito de outro modo, precisamos empregar também argumentos históricos no esforço de desvincular os ideais democráticos da rigidez do sistema de mercado.13
13.. DOS SANTOS, Wanderley Guilherme, Paradoxos Janeiro, Vértice, 1988; WEFFORT, Francisco C., Por Paulo, Brasiliense, 1984; CARDOSO, Femando Henrique, ria Campinas, Papiros, 1985.

do liberalismo. Rio de que democracia? São A democracia necessá-

Na extrema ártificialidade dos sistemas de mercado so mes-' mo uma redefinição profunda do ser humano permitiria vencer as resistencias. "A verdadeira crítica à sociedade de mercado não é pelo •' fá'to 'dè ela se basear na economia — num certo sentido, toda e qualquer sociedade tem que se basear "nela — mas que a sua economia se baseava no auto-interesse. Uma tal organização da vida econômica é inteiramente antinatural, nú sentido estritamente empírico de excepcional".14 É nesta redefinição do ser humano, embutida na economia de mercado, que estamos insistindo, porque ela mexe com os temas mais clássicos da ética e da teologia. Toda rediscussão de paradigmas econômicos, quaisquer que eles sejam, desemboca necessariamente na antropologia econômica. Por isso não é de estranhar que, na atualidade, o pensamento neoconservador e os economistas neoliberais se esmerem na propagação de: con-: cepções bem determinadas acerca do ser humano e sua consciência possível. O sistema de mercado só conseguiu impor-se quando conseguiu impor uma determinada visão do homem, como marionete dirigida pelo interesse própri<?'na competitividade do mercado, dispensado de angustiar-se com esforços de repensar, sempre de novo, as possibilidades da liberdade própria e alheia, numa conjugação social de ambas. A liberdade ficou dogmaticamente definida: as relações contratuais do mercado são a única liberdade possível. Os que podiam tirar vantagens dessa redefinição completa do ser humano, transformaram-se, rapidamente, em arautos do novo .evangelho, que assumiu o caráter de um "credo militante", de um "credo fervoroso" (Polanyi). Foi assim que . "uma torrente de acontecimentos 'se precipitou sobre à : : humanidade". ' "• "O mecanismo posto cm movimento com a motivação do lucro, foi comparável, cm eficiência, apenas à mais violenta irrupção de fervor religioso na Historia". ' "" "Um novo: tipo de vida se difundiu sobre o planeta, reivindicando uma universalidade sem paralelo desde a época
14 POLANYI, K.,

A grande transformação,

p. 243.

em que o Cristianismo começou sua carreira, só que, agora, o movimento era num nível puramente material". ~. " (O liberalismo econômico) evoluiu para uma fé verdadeira na salvação secular do homem atrávés dé um mercado auto-regulável". "O credo liberal só assumiu um fervor evangélico em resposta às necessidades de uma economia de mercado plenamente desenvolvida". "Separar o trabalho das outras atividades da vida e sujeitá-lo às leis do mercado foi o mesmo que aniquilar t o d a s á s formas orgânicas da existência e substituí-las por üm tipo diferente de organização, uma organização atomista e individualista. Tal esquema de destruição foi ainda máis* eficiente com a aplicação do princípio da liberdade de contrato. Na prática, isto significava que as organizações não contratuais de parentesco, vizinhança, profissão è credo teriam que ser liqüidadas, pois elas exigiam a alienação do indivíduo e restringiam, portanto, sua liberdade. Representar esse princípio como o da não interferência, como os liberais econômicos se propunham fazer, era1 expressar'simplesmente um preconceito arraigado em favor de uma espécie definida de interferência, isto é, a que iria destruir as relações não-contratuais entre indivíduos e impedir a sua reformulação espontânea". 13 As primeiras cinco citações visavam, obviamente, sublinhar a impetuosidade e o fanatismo, melhor expressável em terminologia religiosa, da implantação do sistema de mercado. A última mostra quão pouco espontâneo foi esse fenômeno que, daí para frente, obrigou a todas as demais instituições não totalmente redutíveis ao plano econômico (família-, educação, instituições religiosas, organizações comunitárias, etc.) ao dilema de ou ajustar-se ao lugar de apêndice do mercado, que d paradigma lhes atribuía, ou reencontrar, lentamente, • os seus núcleos alternativos de critérios, como lugar de resistência ao caráter avassalador dos critérios de mercado. Como é sabido, G lugar pré-coñcedido a essas formas institucionais . começou a ser apreciado por muitas delas como "libertação". E, em
15. POLANYI, K.,

ibid-,

24, 47, 137, 141, 167.

certo sentido, foi uma libertação: a libertação da rigidez hierárquica e do autoritarismo moralista da etapa histórica anterior. É isto que se celebra, com freqüência, como "democracia". No fundo, porém, foi uma privatização despotenciadora, que reduziu essas instituições à irrelevância de um espaço secundário. Muitas coisas caberia acrescentar. Entre elas ressalta a influência decisiva da economia de mercado em toda a configuração posterior das instituições jurídicas 16 , um tema que mereceria atenção especial. Dentro do objetivo desta seção, no entanto, quiséramos limitar-nos a abrir o leque das provocações ao estudo para a maneira como o debate sobre "ética e mercado" se enfrenta, sempre de novo, com uma verdadeira muralha de resistências e preconceitos. O paradigma da economia de mercado conseguiu impor-se, em larga medida, como solucionador automático das questões morais. Os mecanismos do mercado ensinam-nos como agir eticamente da maneira mais correta — esta é a ideologia que impregna, não apenas as teorias e práticas econômicas, mas que se espraia para dentro de todos os âmbitos da vida humana. 17

5. DE COMO O MERCADO NOS "REVELA" A VERDADE E A LIBERDADE Juntamente com a radical transformação da economia e da sociedade em geral, que derivou da implantação do sistema de mercado, houve uma não menos radical transformação do pensamento econômico. Os objetivos globais da organização da sociedade — o acesso generalizado a um modo de vida mais feliz e todos os demais aspectos do bem comum — sãò ainda uma parte substancial do pensamento econômico clássico. A reprodução dos fatores de produção, entre os quais a própria vida dò trabalhador figurava, embora não no lugar devido,
16. OTERO DIAZ, Carlos, La influencia de la economía en el derecho. Madrid, Instituto de pstudios Políticos, 1966 — s<5 como introd. hist.-bibliogr.; de pouca penetração crítica. 17. BROZEN, Yale/JOHNSON, Elmer/POVERS, Ch., Can the Market Sustain an Ethic? Chicago, Chicago Univ. Press, 1978; DWORKIN, G. (ed.), Markets and Morais. Londres, 1977; SCHELSKY, H., Die Arbeit tun die Anderen, Opladen, 1975; e lit. cit. nota 32, I cap. supra.

como fator relevante, mereciam a atenção constante dos clássicos. É nisto que consiste uma das diferenças básicas entre os iniciadores da ciência econômica e o tronco dominante das teorias econômicas posteriores à implantação do sistema de mercado. Isto parece sustentável na medida em que se reconhecem pelo menos duas etapas fundamentais: a da lenta, mas cada vez mais decidida validação teórica e introdução prática do paradigma do interesse próprio, que precedeu, ainda na fase predominantemente mercantilista, a posterior adoção global do sistema de mercado; e a etapa da economia definitivamente implantada, a partir de finais do século XVIII, consolidando-se ao longo de todo o século XIX. Nos clássicos, os temas sociais ainda são tratados de forma direta, como temas intrínsecamente ligados ao pensamento econômico, embora já estivesse em andamento uma lógica de extrojeção desses temas — melhor diríamos: sua anulação por absorção — mediante a opção pelo paradigma do interesse próprio. Por longo tempo, os economistas ainda se preocuparam por estudar as causas e os possíveis remédios dos mais agudos problemas sociais. Mas quando a fé no paradigma do mercado conseguiu avassalar as mentes e os corações, a solução dos problemas sociais ficou entregue, basicamente, aos próprios mecanismos do mercado. O pensamento neoclássico mostra uma preocupação espantosamente escassa com teorias da distribuição. O pouco que essa corrente elaborou sobre esse tema se reduz praticamente a variações sobre a confiança nos mecanismos do mercado. Há uma lógica nesta evolução cujo cerne deve ser buscado na fé inabalável no caráter benéfico do mercado. Com isso os temas sociais perdem substância, como assunto que devesse preocupar diretamente aos economistas. Estas observações preambulares tiveram o objetivo de preparar-nos para o que poderíamos chamar de "mandamento da aceitação serena da nossa ignorância", em matéria social, que constituiu um ponto forte na ideologia dos economistas neoliberais da atualidade. Pouco ou nada podemos saber, nem devemos preocupar-nos em saber. Devemos aceitar que não podemos nem devemos saber. Por isso, tampouco devemos buscar objetivos diretamen-

fe sociais. Os que se preocupam com tais coisas ainda não entenderam o que é a economia de mercado e, por isso, continuam desconfiando do seu caráter universalmente benfazejo. Assumir uma postura científica quanto à economia — é o que pretendem fazer-nos crer — significa aceitar que ela resolverá, por seus próprios mecanismos, os problemas que angustiam a humanidade. Num mundo no qual toda a certeza é uma farsa/ ã únrca saída é confiar no mercado. Não se espante o leitor, porque não estamos inventando. Um acentuado agnosticismo social, ou agnosticismo em assuntos sociais, é uma premissa claramente assumida pelos mais exacerbados ideólogos do mercado. Uns elaboram essa premissa de maneira explícita e chocante. Outros a silenciam ou dissimulam, mas operam cóm ela como pressuposto. Há ainda os que arranjam uma "psicologia da incerteza", mostrando o quanto ela é consentânea com nossa libido de seres excitáveis pelo desconhecido; õu uma J "teologia da incerteza", enfatizando o quanto ela nos devolve ao âmago da fé em rumos providenciais; ou ainda uma "teoria do conhecimento", onde buscam tirar as conseqüências de uma premissa adicional, a de que só existe conhecimento possível a partir de uma crença que já se alimenta. Formas extremas de irracionalismo, recoberto com fé religiosa fanatizada, formam parte essencial dos fundamentalismos religiosos, tão influentes na atualidade. Mas não há grande diferença entre tais irracionalismos sectários e a aposta no risco e na sorte que encontramos em muitas manifestações do pensamento neoliberal. George Gilder, por exemplo, entrelaça o seu veto a metas sociais diretamente com a fé na Providência, sustentando que se trata de uma necessária "reação- ao mundo racionalista secular". "O âmbito da sorte é nosso acesso ao futuro e à providência". • i ---i • " (Vivemos) num universo fundamentalmente i-ncompreensíf 1 vel mas, assim mesmo, providencial". • i "Todo intento de reduzir o mundo às dimensões do nosso conhecimento excluirá a novidade e o progresso". .: íj . :;:

:

"A essencial impossibilidade de prever ( . . . ) é, na realidade, a condição incalculável de todo progresso econômico". ,"À lei fundamental da mente é que a fé é anterior ao conhecimento".18

Este autor, tão lido pelos assessores e funcionários da Administração Reagan, inclui em seu pensamento muitos detonantes de uma agressividade implacável, que é vendida como criatividade. Esse tipo de ideologia exacerbada do mercado necessita de um determinado agnosticismo social. Antes de vermos como este aparece no pensamento de Hayek, busquemos intuir, -desde já, aonde leva esse agnosticismo (cuja contrapartida, obviamente, não precisa ser o racionalismo cientificista, que já criticamos). A destruição das certezas acerca de metas sociais prioritárias costuma começar com o embaralhamento dos dados mais evidentes acerca da miséria ("mas note-se que, em comparação com tal ou qual aspecto anterior, já houve melhorias..."), a fome ("os níveis nutricionais, na média nacional, estão subindo..."), o desemprego ("com mais capital estrangeiro investindo, haverá mais empregos..."), a mortalidade infantil ("antes do advento do capitalismo/este problema era estarrecedor..."), etc. Ou seja, se soubermos fazer as devidas confrontações com dados piores* nunca teremos evidências nem sequer sobre as realidades sociais mais desastrosas. Desse tipo de "pedagogia da incerteza" andam cheios os livros de economia. Mas ela é empregada, sobretudo, na "catequese" promovida, através dos meios de comunicação e outros meios, pelas elites orgânicas transnacionais do sistema de mercado. Às incertezas que se busca incutir contrapõem-se, obviamente, certezas acerca do caminho redentor do mercado. "Tanto quanto então (no séc. XVIII), permanece impossível formular as causas da miséria húmana e esforços para .erradicá-las e reduzi-las de modo a levar pessoas informadas e pensantes de posições políticas antagônicas a concordarem entre si". 19 _.
18. GILDER, G., "La economía de la íe", in: Estudios públicos (Santiago de Chile), n. 28/1987,. 9-48; cit. p. 31, 32, 26, 39. 19. MOORF. | . Barrington, Reflexões sobre as causas da miséria humana e sobre certos propósitos para eliminá-las. Rio de Janeiro, Zahar, 1974, p„ 11.

A frase que acabamos de citar (de um autor que é um fautor eximio, entre tantos, do tipo de agnosticismo social de que estamos falando) revela como se introduzem facilmente falácias na reflexão. É evidente que "posições políticas antagónicas", por exemplo, de um ultradireitista e um pensador de esquerda, normalmente não chegam a concordar em tais matérias, Mas prossigamos analisando os desdobramentos lógicos desse tipo de pensamento e atitude diante do mundo. Quando o fato de não ter certezas introduz no sentir das pessoas a certeza de não poder ter certezas (sobre assuntos prementes da historia), cria-se uma espécie de dilema existencial. Não se pode viver sem um mínimo de certezas. Ora, se não posso ter certezas sobre os assuntos sociais mais relevantes, devo encontrar um jeito de adquirir um preenchimento desse enorme vazio que é a minha certeza de não poder ter certezas. E é aí que o mercado, segundo Hayek, nos salva do vazio total (e da tentação de suicidio). Vejamos em que consiste concretamente a teoria de Hayek acerca da função do mercado como instância reveladora do conhecimento possível, ponto acerca do qual ele insiste em dizer: " . . . o que eu pessoalmente considero como uma verdadeira descoberta que fiz no campo da economia". 20 Em que consiste essa descoberta? "Tal descoberta significava que tínhamos de encarar o mercado como um mecanismo de orientação, o núcleo a permitir ao indivíduo adaptar-se a circunstâncias, que ele não tem condições de conhecer, e aproveitar outras circunstâncias que ele também não conhece, e que transformam todo esse conjunto em uma única ordem de coisas. Penso que todo o trabalho teórico que, posteriormente, levei a efeito na área da economia, se constitui, realmente, no aperfeiçoamento desta simples idéia. Esta é a razão pela qual algumas vezes eu digo que minha única invenção, ( . . . ) a única descoberta que fiz no campo da economia foi o
20

HAYEK

na UnB

(Univ. de Brasília), Brasília, Ed, UnB, 1981, p. 38.

que denomino, de forma resumida, a função dos preços de guiar-nos, The Guide Function of Prices".21 Efetivamente, a vasta bibliografía de Hayek é atravessada, dé ponta a ponta, por este leitmotiv: nada, em definitivo, poderíamos conhecer se não existisse o mercado para instruirnos; contudo, mesmo na humilde atitude de aprender do mercado, nunca devemos ter a pretensão de conhecer tudo o que o mercado ainda tem por ensinar-nos. O ponto nevrálgico está nesta insistência de Hayek de que o mercado é o único que pode cumprir essa função orientadora. Nisto reside toda a diferença em relação àqueles que reconhecem que o mercado também nos orienta, posição, aliás, tradicionalíssimã, desde as mais antigas discussões sobre o "preço justo". Para chegar ao dogma de que somente o mercado pode cumprir essa função orientadora, Hayek evidentemente joga com pressupostos dos quais só nos deixa entrever alguma coisa, enquanto muita coisa fica ocultada. Podemos notar que ele insiste muito na extrema complexidade daquilo que um empresário ou um comerciante, e inclusive o consumidor, necessitariam saber para agir com um mínimo de racionalidade. "Milhões de informações específicas", "dispersão de dados"... é por aí que Hayek nos tenta convencer. Rechaça explicitamente a comparação com o computa- , dor, que outros gostam de aplicar ao mercado. Não, diz ele, nem a mais sofisticada memória dos computadores serve como imagem. Essas memórias apenas recebem e processam informação que lhes é fornecida. O mercado, ao contrário, gera è fornece informação. É um processo mobilizador de conhecimentos, e não uma simples reunião de informações dispersas. O mercado é disciplinador de discípulos que praticam ativamente o "estar alerta" para captar mensagens novas emitidas pelos mecanismos do mercado. Em síntese, o mercado é um processo — isto é, uma dinâmica ;— de mobilização social de conhecimentos. Até aqui, no que se refere a pressupostos, temos: multiplicidade de informações fervendo num processo gerador de
21.

Ibid..,

p. 38 (giifo nosso).

em Divina Providência. poderíamos acusá-lo. imediatamente. que Hayek também emprega com certa freqüência. já que é o único modo que o homem conhece. . agora. e o processo de aprendizagem de discípulos atentos. supostamente inédita. com variações tautológicas. deve-se adotar os métodos de mercado. revelador. existente apenas de forma dispersa em meio a éstas. "O mercado foi a grande força que deu vida à humanidade". constitui o discurso predominante de Hayek acerca da sua famosa descoberta. milhões de pessoas. A atenção deve voltar-se a algo mais definido: "a função sinalizadora dos preços" (the signal function of prices). Quem os estabelece? A resposta usual. isto é. Já encontramos todos os seus pressupostos? Vejamos. pelo qual aquela infinidade de informações específicas pode ser -utilizada. que brota das fricções e reacomodações dos conhecimentos acerca de preços. a mesma tese. iluminador. de uma evidente atribuição de qualidades pessoais. ao mercado. e que só podemos utilizar plenamente se alimentadas no sistema de mercado". esses preços adquirem um papel ativo. Isto cabe. porque esta linguagem não é muito elucidativa. E dessa primeira acusação poderíamos saltar à sua tradução teológica: é o mercado transformado em sujeito divino. gerador de novos conhecimentos. então-. Só a economia de mercadó possibilitou uma humanidade de acima de quatro bilhões. Se parássemos aqui. Atentos a quê? Aos mecanismos do mercado? Sim e não. se se quiser manter viva a população mundial e dar-lhe uma chance de futuramente aperfeiçoar sua maneira de viver. Na mutabilidade dos preços.'. ou são os mecanismos do mercado. porque é demasiado genérica. é: quem estabelece os preços é o mercado. em relação a muitos outros teóricos do mercado. Com Hayek a coisa é um pouco mais complicada. sem dúvida alguma. de atributos de sujeito ativo. mutabilidade. É isto que.novas informações. em nossa captação do pensamento de Hayek. empacotada na ideologia eficientista. "Mas. Devemos precaver-nos de conclusões superficiais.

Inst Liberal/T. O que interessa é que esta signal functioh of prices. esta docência ou este magistério dos preços. . já nem parece mais questionável.. mas porque se podem imaginar e caracterizar agentes do mercado que. p. embora o seja — serve de moldura para encaixar uma tese que. iin: HAXEJC. 38 (giifo nosso).. Qlympio. . de fato. mesmo que ela fosse verdadeira até hoje. ) que essa idéia da função orientadora dos preços."Descobri ( . A. supondo que a premissa fosse verdadeira).22 Constatamos.. no coração deste mercado assim concebido^ concebeu-se primeiro um tipo de agentes muito determinados: 22 Ibid. 55-70 . que a eterna vinculação entre mercado e eficiência — que. F. por agirem de um determinado modo no interior do mercado. neste momento. quando nos diz: " . tinha que ser lançada muito mais claramente". que. conjugando planificação de metas sociais prioritárias com mercado. fazem com que para eles o mercado funcione desse modo. essa premissa permite concluir. francamente. . ou seja. isto é. 1985. Desemprego e política monetária Rio de Janeiro. por exemplo. de tão repetida. não porque de fato sempre funcione assim. não decorre da premissa ideologicamente utilizada. p. mesmo que o pressuposto da eficiência maior fosse verdadeiro. é tão contundente e apodítica. se ele se engana a'si mesmo òu se quer enganar-nos. é concebido assim. A exclusão de qualquer outro acesso a conhecimentos.. . mediante ampla participação política para estabelecer os critérios que justifiquem e limitem a ambos? De maneira que deve haver outros pressupostos? Hayek realmente não diz a verdade sobre como ele concebe o que é o mais fundamental na economia." Pouco importa. assim. imprescindíveis para assegurar o bem-estar da humanidade. " A ficção do conhecimento". 3. 4. Por que seria tão impossível imaginar um caminho igualmente ou mais eficiente (sempre. Toda essa maravilhosa teoria só se sustenta porque. a produção direta da economia de mercado. comecei a considerar cada vez mais claramente como o ponto central de toda a teoria econômica: a função dos preços orientando a produção. . diz muito mais do que.

tem-se a impressão de que também Hayek se estaria imaginando. Talvez nem se dê conta de que. nessa visão onde só cabem agentes sumamente dinâmicos. Só que ele não a apresenta assim. portanto. o que elaborou foi uma teoria política acerca da maximização dos poderes impositivos e da força pressionadora — um conceito muito peculiar da concorrência — dos empresários mais poderosos. onde. por não ser suficientemente empresarial e competitivo. Eles não estão contemplados nessa lógica. como muitos teóricos do equilíbrio geral. vendedores e compradores. mas do poder. A competitividade empresarial exercida de maneira agressiva está no cerne dessa concepção do mercado. afirmado como real. Supõe-se. Esta falsa impressão se deve ao fato de que. tem os seus verdadeiros pressupostos numa teoria da maximização já não do lucro per se (este virá como conseqüência). se ajudar na compreensão. a existência de um elemento (ou. Em muitos momentos. todos com igual poder. Quem não tem condições de exercer este papel simplesmente não tem vez na lógica desse mercado. este não é cidadão pleno desse mercado. Quem. sobre o mercado como processo de comunicação de conhecimentos. é cidadão de pleno direito nesta concepção do mercado. já que está alerta para usar da melhor forma a sua capacidade de competir. também em Hayek. uma "alma") empresarial em todos e cada um dos participantes do mercado. em lugar de uma teoria econômica pura. O caráter competitivo do mercado é sinônimo do seu caráter empresarial. ou seja. em virtude da . descobrimos que toda essa linda tese. um mercado estável com agentes. Agora. Para esses excluídos tampouco vale nenhuma das promessas acerca do caráter benfazejo do mercado.empresários que saibam utilizar ao máximo as oportunidades de competir. não realiza efetivamente um processo de constante passagem de mais a menos ignorância. Só o empresário capaz de aprender com o processo do mercado. já não se necessita o equilíbrio do mercado in actu. A teoria do mercado de Hayek é uma singular teoria acerca da maximização do uso do poder. há longos trechos que apresentam um mercado idílico. um processo equilibrador. De repente. basta um equilíbrio in fieri.

. Rio de Janeiro. ver: KIRZNER. Se alguém detém um monopólio porque pode exercê-lo melhor do que outro. que ele também chama de monopólios. 48. Por último. por outro lado. ) (A Inglaterra) um país arruinado economicamente por força dos sindicatos trabalhistas". . É inegável que as grandes firmas internacionais competem mais intensamente".. e como. que expressaria essa permuta implacável e sorridente. . A vantagem do mercado. prejudica o. ao mesmo tempo). p. como esses monopólios deliberados. . não depende de uma concorrência perfeita. . Entendido está. 23 Competir intensamente. Inst. a concorrência perfeita não existe. os sindicatos. porém. ou raramente existe. Israel M. chamados sindicatos. Liberal/J. favorece o mercado. 47 (giifo nosso).busca da melhor competitividade. atrapalham o mercado. O que é censurável é a existência daqueles monopólios criados por restrições deliberadas. que a competição é a característica mais notável do mercado e que este elemento essencial melhora na proporção em que se intensifica. em razão da sua capacidade competitiva. para deixar de fora os que produzem gastando mais. " . E não há razão por que ele não deva cobrar um preço bastante alto. lbid. deve-se "aceitar o estranho e transformar o inimigo em amigo" (para o que Hayek chegou a inventar um termo derivado do grego. portanto. o grande obstáculo ao funcionamento de uma economia de mercado é o monopólio na área trabalhista. Olympio. tanto mais realiza a essência do mercado. mas da possibilidade de haver competição. Veja-se como. não competir e estorvar a concorrência. 1986. nós temos que ser-lhe gratos. mercado. os monopólios até ajudam a intensificar a essência do mercado. Quanto mais agressivo for o mercado. . cathalexy. Competição e atividade empresarial. . dois grandes concorrentes digladiando-se com o máximo de intensidade competitiva realizariam a essência do mercado de um modo até superior. Esse mercado tem uma alma guerreira e sugere fantasias de agressividade em 23. " . ( . elaboração de perspectivas mercadológicas e empresariais. como as multinacionais. a partir de Hayek e L von Mises. porque sempre querem introduzir restrições à competitividade (não querem que o trabalhador seja apenas mercadoria)..

É sempre. Agora. então os simpatizantes do fascismo concluem: 'Desfaçamonos da democracia e imponhamos à sociedade o regime de mercado: Não importa que tenhamos de castrar o sindicalismo e enviar ao cárcere ou ao exílio aos incômodos intelectuais'. nesse modelo. incluiu numa reedição do seu manual umá nova seção sobre o fascismo de mercado. numa "teoria pura do Capital" ligada a uma teoria dinâmica da concorrência. os dirigentes militares se mantêm fora da economia. Esta lógica do mercado é sempre potencialmente fascista. famoso autor de um dos compêndios mais ortodoxos. a infinitude perversa do Capital é a explicação última dessa visão de um mercado infinitamente competitivo. os desempregados servem para conter o aumento da taxa competitiva dos salários. A inflação pode cair e até. ~ Então fazem retroceder o relógio da história. Não esqueçamos que Hayek se esmerou. . os trabalhadores devem trabalhar ou morrer de ftíme. Entregam toda a economia a fanáticos religiosos cuja religião ê o mercado de laissez-faire. Já que não se transferem mais recursos para segurança 1 social. Mas. qual é então a razão para continuar com queixas? Deixando de lado a liberdade política. Não planejam e não se deixam subornar. Deixa-se livre o mercado e controla-se estritamente a oferta monetária. tende-se a üm . Como se percebe. . já nos anos trinta. que tampouco aceitam subornos. Os generais tomam o poder ( .escala máxima. desaparecer. só que agora com agressividade que procura manter o sorriso até o final. nesta variante de fascismo de mercado. no fundo. ) . não cabe a menor dúvida de que. ' :r = Se o índice de produção se eleva e os investimentos estrangeiros entram fortes. Eis alguns trechos. Samuelson. a velha imagem maniquéia do bem absoluto contra o mal absoluto. Se necessário — e possível -— usa-se a força para impô-lo ou restabelecê-lo. "Se o mercado eficiente se torna politicamente inestável. Paul A. estarrecido com o que sucedia na América Latina na década de 70.

. 24 Todos os golpes militares das últimas décadas. Um exemplo: o almanaque do Banco Mundial mostra um crescimento superlativo. Por isso também. as "forças da segurança" cumpriam um desagradável papel emergencial de repressão. mas também mostra que os 20% mais pobres da população só recebiam 2% do total de ingressos familiares. Mesmo assim conserva alguma estranheza o fato de que se tenha que insistir tanto nesta tecla. Já que é dogma que não existe outro caminho. É que esta concepção da liberdade. Economias. . para o Brasil na década de 70. Como veremos. McGráw-Hill. New York. cit. não é desvinculável dele.! crescimento significativo do grau de desigualdade dos ingressos. que entrasse na brincadeira de classificar rapidamente os nomes que seriam lidos. embutida no paradigma do mercado.. uma desigualdade pouco comum". cit. p. 815-816. p. no início. numa das sessões. É uma liberdade que só é "livre para escolher" quando não pode escolher outro caminho que o do mercado. Paul A. segundo a maior ou menor proximidade ão pecado do construtivismo.. 11» ed. foram perpetrados em nome da liberdade. Quando ele esteve na Universidade de Brasília. enquanto os 20% mais ricos concentravam 67%. Daí esse persistente agnosticismo social. na América Latina. ' . apud Jd. SAMUELSOÑ. Para defendê-la. que nos parecia tão enigmático. o teor de respostas espontâneas e improvisadas é ainda mais impactante que as longas disquisições teóricas. Hayek criou uma nomenclatura nova para os que não desistem de querer conhecer objetivos sociais: os construtivistas. 829. in: Comercio Exterior (México). foi-lhe pedido. mas a defesa efetiva da liberdade era esperada do mercado. ago/1980. é mais que lógico que não se possa conhecer outro caminho. do consumo e da riqueza. 821-829. em termos reais."Denomino de construtivista aquela classe integrada por : pessoas que acreditam que temos o poder intelectual de organizar tudo inteligentemente. Como é sabido. Do outro lado se encontram 24. "La economia mundial a finales del siglo". só o mercado pode revelar esta liberdade. em maio de 1981. ..

í'Los errores del Constructivismo". a escolha entre economia de mercado ou capitalismo e a forma alternativa do socialismo é um problema de valores e não um problema científico. Bentham) "O utilitarismo é uma idéia construtivista baseada no ponto da vista de que somos suficientemente inteligentes para escolher nossa m o r a l . 85-106. de forma explícita. 31. de que isto é uma espécie de fuga. " (Sobre Hegel) "Era incapaz de pensar em uma ordem que não fosse deliberadamente criada pela vontade do homem. já que ( ) recusam-se a comprometer-se. portanto. como se verá. ele representava o tipo extremado do homem que pensa que nossa inteligência é suficiente para decidir o que é bom e o que é ruim". sobre o qual o economista. (Sobre Keynes) " . Estudios _ Públicos (Santiago de Chile). declarada de opções ético-políticas): "Tenho ficado sobremaneira indignado com meus colegas economistas. em última análise. 25 Hayek confessa fazer que outros da sua concepção há uma absorção que. herdamos uma tradição moral a qual 25. por vezes. que estão conscientes de que fazemos parte de um processo que serve a um mecanismo decisorio que não podemos controlar". Cheguei à conclusão. 26. ef. . ) . no entanto. . . " . dè Hayek sobre ética e economia de mercado. p. não tem poder de decisão. sob um regime socialista. in: n. Podemos demonstrar de modo puramente factual que a economia. não atinge os objetivos que ele preconiza. o que levou tal pessoa a isto". para escolher os valores morais que consideramos corretos ou se. Isto. ou seja. que não deveria ser utilizada pelos economistas. . aí mais bibliogr. os libertários. .aquelas pessoas. 29/1988. E isto fez com que não pudesse ser capaz de entender uma sociedade livre". na ilusão de que. p. não creio que jamais se possa saber a razão pela qual alguém defendeu determinados pontos de vista. ao contrário. 27. requer uma investigação sobre se somos livres . tem tido dificuldades em economistas entendessem os termos exatos da cientificidade (na qual. . (Sobre J. HAYEK na UnB. 24. . . . já que a questão fundamental não é de caráter ético ( .

3 vols. o cap. : . New York. LEPAGE. Madrid. Paragon House.. Buchanan.. da tomada de decisões coletivas. HINKELAMMERT. numa linguagem mais crítica porém ambígua. de "imperialismo da economia". da criação de consensos. in: American Economic Review. D. James M. Economic Imperiaiism: The Economic Approácti Oütside the Traditionai Areas of Economics. Buchanan e Gordon Tullock avançaram teorias sobre o mercado como mobilizador e inter-relacionador de opções e mudanças nas decisões ideológico-políticas. que não têm nenhuma relação direta com a produção e distribuição de bens materiais/Em termos genéricos.. cf. F. Peter (eds). Ver a incrível ingenuidade de E„ Menéndez Ureña diante dessa "nova economia". à "mercadificação" global da vida... G.— e apenas ela — nos permitiu elevar os índices populacionais atualmente existentes no mundo... Mueller. legislação e liberdade. Na Europa.. E cheguei à conclusão de que os princípios morais dominantes na sociedade de mercado do Ocidente são uma condição essencial para que mantenhamos uma população mundial em torno de 4 bilhões de seres humanos. Liberal/J Olympio. da saúde e da própria-religião. 1988. etc. à aplicação crescente de critérios de mercado a aspectos da vida humana em sociedade.. HAYEK. Não podemos escolher. Uma formulação dos princípios liberais de justiça e economia política. "The Expanding Domain of Economics".. p.. 27 26. para dar uma idéia. Direito. São Paulo..). 1986. Alianza Ed. trata-se de uma concepção mercadológica. Visão... de resto. essa moda de economia expandida a outros campos científicos está pegando forte. A. Paulinas. -de J. é o que se vem chamando de "expansão do domínio da economia" ou. 1985. e outras. da educação. tem muita coisa sobre visão econômica de temas tradicionalmente não econômicos. Guy. 53-68 (ver bibliogr. op cit (n 4. GORMAN." 2 6 Não poderíamos concluir esta seção sem uma alusão. 1980. A solução liberal: O Estado mínimo Rio de Janeiro. Capitalismo e mercado como "Cultura". Inst. Hayek. bem sucinta. 27 HIRSHLEIFER. H. S. Ed. 2. dez/1985. em muito. o objeto clássico da economia. supra) . Becker.). Jack. sob o prisma de marketing das adesões a televangelistas da "Igreja Eletrônica" e mesmo a movimentos diferenciados no interior das instituições religiosas tradicionais. Franz J. São Paulo. 1985 (ver bibliogr. por exemplo. 1 (giifo nosso). Critica à razão utópica. RADNITZKY. Ibid. ou seja. Em termos mais específicos. M. e suas duas obras de maior divulgação (Caminho da servidão e O que constitui a liberdade) extrapolam. Gerard/ BERNHOLZ.. para a. análise dos "santos transcendentais" na reflexão de Hayek. el capitalismo.. Tullock. Mañana. G. tudo é visto sob o prisma das cotações mercadológicas.

Trata-se. Interessa-nos criticá-la por ser perversamente teológica e porque a sua perversa teologia. Ídolos são os deuses da opressão. é precisamente o que denominamos raízes econômicas da idolatria. Com isto estamos introduzindo um critério básico de discernimento na retomada. ou seja. É um tema de muitas facetas. procuramos mostrar de que maneira aspectos fundamentais da moral e da teologia foram incorporados. reduzindo o conceito de teologia a um mero insulto. do tema da idolatria. As violações idolátricas da Aliança se corporifican! em atentados contra o próximo e a convivência solidária e fraternal. na legislação sinaítica. Se parássemos aí. como vimos que sucede em muitos dos exemplos citados. é elemento central da sua lógica de opressão. sob a forma de conclusão a partir de todas as ponderações anteriores. Entrar a fundo neste terreno nós . que aquilo que fomos mostrando. absorvidos e transformados no paradigma econômico do interesse próprio e do mercado. de coisas inseparáveis. Como já dissemos. Isto nos reintroduz no tema da idolatria.6. o tronco forte das injunções sociais vem imediatamente depois do repúdio a todas as formas de idolatria. Não nos interessa insultar a economia por seu caráter teológico. Acreditamos ser este o enfoque mais corretamente bíblico da idolatria. passo a passo. O SISTEMA DE MERCADO CÓMO ENRAIZAMENTO ECONÔMICO DA IDOLATRIA Nas seções anteriores desta parte do livro. portanto. Poderíamos quase limitar-nos a expressar. Note-se que. Todas essas reflexões anteriores convergem no que nos toca explicitar um pouco mais nesta seção. mas que aqui é assumido sob o enfoque que prevalece atualmente na teologia latino-americana. a irracionalidade desse paradigma tem um caráter perversamente teológico. . além de ser uma malversação do cristianismo. boa parte da nossa reflexão correria o risco de ser interpretada numa linha prevalentemente denunciatoria. cada vez mais abundante nas últimas décadas. Quando os profetas denunciam a idolatria o fazem num contexto de denúncias da injustiça. e já na parte anterior.

devendo ser confiada a sua melhor efetivação à própria lógica dos mecanismos do mercado. diríamos. ainda admite uma enorme diversidade na priorização de tal ou qual aspecto da opressão. . sobretudo desde a ótica dos países subdesenvolvidos. Exige-se uma fé irrestrita e uma confiança ilimitada no caráter benéfico da lógica econômica do paradigma. de metas sociais prioritárias e uma anulação prática dos temas sociais mais candentes. mediante o dogma de que nos é impossível adquirir certeza e consciência acerca de objetivos desse tipo. Em termos gerais. com suficiente clareza. consideramos o retorno assíduo ao tema da idolatria. precisamente por não se assumir. a todas as formas de ameaça à vida humana veiculada por símbolos religiosos. na sua pretensão de caminho exclusivo e universal. mas não podem dar. porém. extensivamente. Tendo presentes muitas ressonâncias bíblicas da linguagem dos profetas acerca do que os ídolos prometem. o reclamo de uma adesão incondicional. o paradigma do mercado irrestrito inclui. e que tem seu eixo central na estreita vinculação entre idolatria e opressão. como se viverá livre e feliz. Como vimos. na bibliografia bíblica e teológica. Mas. Não estamos propondo nenhum tipo de reducionismo à opressão sócio-econômica. que caminho seguir para o bem comum. qual é a base da segurança individual e social. Nas suas formas mais exacerbadas.tomaría demasiado tempo neste momento. É salutar que a noção de idolatria con-: tinue sendo aplicada. Esta opressão. Em síntese. aparece a exclusão explícita de uma busca. em resumo: trata-se de um paradigma que pretende explicar por onde a vida adquire sentido. assim como na prática pastoral das Igrejas. coletivamente participada. em que consiste o progresso material e espiritual dos povos. o reclamo de adesão incondicional se reveste com todas ás características da fé religiosa mais dogmática e inconcussa. embora se constate um freqüente desviacionismo em direção a "idolatrias menores". mas que não são outra coisa que o desdobramento conseqüente da lógica do paradigma. o enfoque bíblico preconizado na Teologia da Libertação. há razões evidentes para sublinhar a destruição material da vida e a lógica contrária à afirmação da vida inerente aos modelos sócio-econômicos. como um fenômeno positivo e promissor. mas algumas distinções devem ser apontadas.

como arma de ideólogos pronunciadamente conservadores.. Embora semelhantes tentativas obedeçam. ELLUL. 5» ed. Seabury. a noção de idolatria parece mais ligado às alienações decorrentes da moderna "secularidade" que.28 Outras vezes. SCHLOSSBERG. do comportamento moral e das formas organizativas da vida religiosa e civil. na prática. enquanto não for criticada como criadora de novos mitos e seduções larvadamente religiosas. 1964. a noção de idolatria perde completamente o eixo central das referências à injustiça e à opressão. Realidad e idolatria en el cristianismo Buenos Aires.. Por exemplo. Gabriel. que prevalece claramente na Bíblia. Aurora. G. The New Demons New York. evidentemente estamos conferindo a este conceito um sentido bem mais preciso do que aquele que encontramos em muita literatura acerca do tema. New York. ao propósito de "purificar" as distorções da fé cristã. Jacques. com ressonâncias diretas no plano sócio-econômico.29 O conceito de idolatria é utilizado. gostaríamos de insinuar distinções como as que seguem. . dos sentimentos. na encíclica Sollicítudo rei socialis (30/12/87). 1970.30 Preferimos a noção de idolatria que. Certos escritos sobre as ameaças da idolatria. Há sintomas claros disso. Herbert. do Papa João Paulo II. 1986 (o autor é consultor de investimentos e tributação). a todo tipo de distorções no plano das idéias. 29. mais e mais. que ele se torna aplicável. contemporâneo. Thomas Nelson Publ. New York. Wait WithoUt Idols. Juan A. 1983. Idols of Destruction. ameaça seriamente a identidade do cristianismo. 30. inclusive. Christian Faith and its Confrontation with American Society. Ed. mas a preferem detectar como prerrogativa especial dos críticos e adversários do status quo. onde ã "tentação de 28.Quando chamamos a isso de idolatria. . 1975. Ficando em poucos exemplos. Por exemplo. que captaram perfeitamente a destrutividade e a violência como elementos determinantes da noção bíblica de idolatria. além de ser a bíblicamente mais correta.. VAHANIAN. . geralmente. por exemplo. MACHAY. contanto que se possa estabelecer um mínimo de conexão com a manipulação de símbolos religiosos. Há sinais de que este sentido mais preciso de idolatria esteja penetrando. dispersam de tal modo o conceito de idolatria. em pronunciamentos de teólogos è mesmo em documentos eclesiásticos de caráter mais oficial. Braziller. estabelece um nexo direto entre a adesão a ídolos e a participação em processos opressivos. no mundo de hoje.

na teologia intrínseca e endógena do próprio paradigma. agora. com traços de irracionalismo pós-moderno. A hypósíasis do mercado. O essencial da idolatria do mercado consiste. em sua . Tratase de uma "religião do destino pré-definido". pelo fato de já não se contentar com as crenças veladamente embutidas no paradigma do interesse próprio e do mercado.idolatria" e as "verdadeiras formas de idolatria" (n. hoje poderia rezá-lo com mais devoção ainda. na primeira etapa. "científico". um caráter dogmático que implica numa reformulação dessa cientificidade moderna. A idolatria do mercado é marcadamente moderna e. que se pretende validar em nome da cientificidade. 37) se relacionam claramente com contextos sócio-econômicos opressivos e atentatórios à vida humana. mas sem a fixidez da ordem jerárquica peculiar às concepções estáticas da organização social. primeiramente. mais que de equilíbrio já estabelecido. se estiver de acordo com a ideologia neoliberal. aplicando-o à sua atitude devocional em relação ao sistema de mercado ("O Mercado é meu pastor. Com isso queremos dizer que ela se estabelece. predominante na primeira fase da implantação do modelo. em suas versões mais recentes de tipo neoconservador e neoliberal. nada me pode faltar"). 30. o Salmo 23(22). cedeu lugar a uma visão de dinâmica auto-reguladora. mediante uma lógica da modernidade. o destino aparece. universal e exclusivo. nas exacerbações mais recentes. Quem parafraseasse. diríamos que a adoção de perspectivas mais dinâmicas resultou na necessidade de insistir. insistindo em dar-lhes uma explicitação formal e um direcionamento agudo. e adquire. mediante a "naturalização" de um caminho exclusivo que se expressa através de mecanismos dinâmicos. Um processo equilibrador. portanto. como reformulação global das "devoções religiosas" embutidas num sistema socioeconómico. numa perspectiva dinâmica. Como buscamos demonstrar.autoregulado. Nessa variação ao interior do paradigma não houve qualquer abandono das insistências no caráter "natural" do processo. ao contrário. inclusive. no seu caráter "natural". Embora sobrevivam nessa idolatria fragmentos bastante primitivos de totemismo e magia. deve-se reconhecer que predominam novas formas de mitização. ainda mais.

posteriormente. A idolatria econômica é praticada. em Adam Smith. podemos perfeitamente restringir-nos a alguns exemplos de-. contudo. mais ou menos diretas. O que houver de "exercícios espirituais" explicitamente formulados em versão religiosa — e esta explicitação e ritualização é abundantíssima no "cristianismo de mercado" — tem apenas uma função complementar. monstrativos. Quanto ao passado. com o seu legado cristão. especialmente em nossos dias. Enfatizamos isso. como se buscou mostrar mais acima. contemporâneos a nós. Já que uma coletânea de todas essas teologizações manifestas nos seria impraticável. e os atos idolátricos correspondentes consistem na prática devocional cotidiana dos que executam as exigências desse paradigma. novamente. A teologia da economia de mercado recebe. nas relações sociais que derivam da lógica econômica concebida nessa forma. O essencial é a prática da própria "religião econômica". Certos neoconservadores. convém distinguir. Insistem em . e seus rituais e lugares sagrados devem ser buscados nò cumprimento prático do que demanda ã economia de mercado. fases e etapas. porque não" quiséramos ver reduzida essa idolatria somente às expressões — teóricas e práticas —• que se revestem explicitamente de simbologia religiosa ou vocabulário religioso. Praticamente até meados do século passado. antes de mais nada. A história do pensamento econômico registra uma abundante messe de teologizações muito diretas do paradigma do interesse próprio e. Para tal efeito. e além disso — pelo que se disse anteriormente — tampouco revelaria. Com isso também fica claro que as expressões dessa teologia idolátrica devem ser buscadas. freqüentes complementos explicitamente teológicos e religiosos. nas próprias teorias econômicas. por si só. a maioria dos economistas ainda mantinha vinculações. onde está e em que consiste a verdadeira teologização do paradigmá. procuram minimizar essa teologização explícita praticada por Adam Smith. nunca se costuma omitir a teologia explícita da "Mão Invisível". basicamente. do sistema de mercado.versão econômica. e não primeiramente nos templos religiosos tradicionais.

. SMITH. pretender sustentar que se trata de um elemento secundário no pensamento econômico de Adam Smith seria tão absurdo como pretender que a teoria do fetichismo é peça de menor importância no pensamento de Marx. in: The Great Ideas Today: 1976. 294. ela se manifesta até mais representativa da teologia global do autor. i. O deísmo de Adam Smith não pode ser diluído num vago princípio energético do universo. adquire certa plausibilidáde se nos ativermos ao fato de que. p. "O produto da terra os sustenta a todos ( . lida em todo o seu entrecho. 1985. Adam ámith usa essa imagem da "Mão Invisível" apenas duas vezes. de Adam Smith à "Mão Invisível" é poucas vezes citada. Além disso. desde toda a eternidade. avaliação parecida em NOVAK. era a benfazeja Providência sustentadora de uma ordem social determinada. p. de escassa recorrência e "disposição hipotética"^ 1 Isso. Eles consomem apenas um pouco mais que os 31. 33 A referência mais antiga. • Rio d e Janeiro. New York. 1937. ii. planejou e conduziu a imensa máquina do universo.32 Contudo. Irving. 1976. "Adam Smith and the Spirit of Capitalisni". cuja benevolência e sabedoria. The Theory of Moral Sentiments. Dizia. em sentido biográfico. parece a muitos menos representativo' do pensamento econômico maduro do autor. Adam. Augustus M Kelley. M. Arend Th. a Providência Divina aparece mais claramente como idêntica à "Mão Invisível". IV. 10. a fim de produzir a maior quantidade possível de felicidade é. cujo tratado econômico tão famoso não pode ser analisado a não ser como a segunda parte de um projeto. Moral Sentiments. ) . já que assim foi concebida. que se trata de uma peça teórica de menor expressão. . Chicago.. The Modern Libtary. e An Inquiry into the Nature and Causes of the Wealth of Nations. 9 33. . Nórdica. O espírito do capitalismo democrático. por isso: "A idéia deste ser divino. por um lado. de longe o mais sublime". 32. por exemplo. certamente. New York. além de preservar traços evidentes do cristianismo. Os ricos tomam para si apenas aquela parte que é mais valiosa e agradável. de todos os objetos de contemplação humana. IV. efetivamente. Encyclopedia Britannica. quiçá porque o contexto de reflexões um tanto vagas. seu Deus. KRISTOL. 1966. Citamos apenas as palavras essenciais. no qual se inscreve. 347.dizer-nos. I S E n e* . p. 131-134. van Leeuwen destaca que.

neste momento. o mais possível. . não esqueceu de modo algum. além das suas ressonâncias para situações onde a reforma agrária fica eternamente postergada com argumentos não muito diferentes. IV. finalmente introduziu uma pequena alteração no seu comentário sobre a Mão Invisível: (Da 8^ ed. infelizmente. empregar seu capital no apoio à indústria (industriosidade?) doméstica e assim fazer que essa indústria produza bens do mais alto valor — ele trabalha necessariamente pára tornar a renda anual da sociedade a maior possível. não necessariamente a uma melhor solução dos problemas de para quem) " f A citação mais famosa de Adam Smith é a seguinte: "Como todo indivíduo. Samuelson. 43 (a citação num contexto mais amplo). Nacht van het Kapitaal. LEEUWEN. que procurava transformar o interesse individual dos homens para se chegar à melhor solução de o que produzir.:) "A Mão Invisível de Adam Smith.. Por isso nos parece interessante relatar. que procurava transformar o interesse individual dos homens para se chegar à melhor solução dos problemas de o que produzir. na passagem da 8* à 9\edição do seu conhecido livro de texto (1973). apud VAN. ele nem pretende promover o interes34. entretanto. Eles são conduzidos por uma Mão Invisível a realizar espontaneamente aquela mesma distribuição -dos bens vitais necessários. nem abandonou à sua sorte os que aparecem excluídos dessa distribuição". como e para quem. ) • Ainda que a Providência tenha distribuído a terra entre alguns senhores e chefes. . como (mas. . . 1973:) "A Mão Invisível de Adam Smith. i." (Da ed.. contém já a essência do único tipo de teorias distributivas que aparecem no paradigma econômico a que nos referimos. portanto. 10.34 Este trecho de sabor mais agrário. " D e p. que talvez existisse se a terra tivesse estado distribuída em porções iguais entre todos os seus habitantes ( . o fato anedótico de que Paul A. intenta. Moral Sentiments. Em geral. Aiend T h ..pobres ( ) .

A "mão. Arend Th. Trata-se. 808. a ela se incorpora. A. Comentando a primeira delas. em Copérnico e Newton. L„. 36 A origem dessa imagem remonta à concepção astronômica dos gregos. 595-599. Perseguindo seu próprio interesse. LEEUWEN. MACFIE. 9.se público. que preludia. in: Journal óf tñe History of Ideas. nem sabe até que ponto o está promovendo. . vale a penà acrescentar alguns poucos comentários "exegéticos". neste como em muitos outros casos. não muito comum entre comerciantes. n 20 . outras analogias similares em Adam Smith. com efeito. e pouquíssimas palavras bastariam para dissuadi-los disso". ed. desde tempos bem remotos. IV.invisível de Júpiter" é invocada por ideólogos do status quo e por estudiosos da astronomia. de uma afetação. op cil . ele é levado por uma Mão Invisível para promover um fim que não era parte dé sua intenção."" " . Wealth of Nations. Na medida em que a idéia de um destino sobrevive em concepções cristãs — em Santo Agostinho há traços indisfarçáveis disso — aparece um acento adicional. 1971. Ao preferir apoiar a indústria nacional em vez da indústria estrangeira. Eu nunca vi nada de especial feito pelos que afetam negociar para o bem público. cf. já que se trata de referências que sempre costumam ser citadas.ege o destino do mundo e dos homens. com certa força. ele freqüentemente promove aquele da sociedade mais efetivamente do que quando de fato intenta fazê-lo. a idéia dos estoicos sobre um plano preestabelecido que r. No entanto.35 Voltamos a insistir que não atribuímos uma teologia bem determinada ao paradigma da economia de mercado pelo fatô de existirem essas frases de Adam Smith. van Leeuwen aponta para toda uma pré-história da imagem de uma mão divina invisível. e essa imagem havia retornado. ii. e muitas outras parecidas em outros autores. ligada ao pensamento acerca do papel da Providência Divina na ordem cósmica e na da sociedade. Nem sempre é pior para a sociedade que tal intenção dele não faça parte. p . cit„. de certo 35. posteriormente. 36. ele tem em mente apenas o seu lucro. p„ 423. ele tenciona apenas fortalecer a sua segurança. " T h e Invisible Hand of Júpiter". e ao dirigir essa indústria de tal forma a que seu produto atinja o maior valor.

que se abatiam inclusive sobre divindades menores e sobre os semideuses. do "destino". segundo. servindo tanto para explicar a ordem cósmica. mas a tentativa de explicação mítica que busca tornar o destino mais aceitável. Esse poder é precisamente providencial porque administra o surgimento do bem . além de se abaterem sobre os homens. a ênfase na idéia de uma ordem preestabelecida. Só podemos captar toda a carga religiosa que acompanha essa forma de "teologia moralmente tranquilizadora" (para usar uma expressão de Roberto Campos). muitas concepções da "vontade de Deus". não apenas uma longa tradição de pensamento que aceita o destino. quase diríamos da esperteza de um poder oculto providencial —• chame-se Mão Invisível. de uma espécie de aura invariavelmente virtuosa. o que o faz indiscutivelmente justo. Providência Divina. Estes dois aspectos se mantêm claramente presentes na ideologia do mercado. criatividade e capacidade competitiva. como o vimos assumido tão enfaticamente na ideologia do paradigma do mercado. que ¡se contrapõe ao caos. é o da misteriosa sabedoria. até hoje. bastando que funcione como pressuposto — que sabe tirar proveito das contingências adversas e das limitações e pecados humanos. que aparece legitimado de antemão. ele é infinitamente sábio. como pano de fundo da expressão "Mão Invisível". mesmo em suas formas incompreensíveis e arbitrárias. na visão cristã dos que assumem essa ideologia anticristã de um destino divino. o exercício do poder. de antemão reconhecido como benéfico. agora. pois existiam destinos evidentemente funestos. mas não isento de arbitrariedade. como para a ordem vigente na sociedade. assim. Tem-se. que o pensamento econômico incorporou plenamente. ou deixe até de receber qualquer nome específico. ¡só que a arbitrariedade do poder se reveste. Outro aspecto relevante. o caráter. Dito de outra forma. o seu caráter arbitrário é dissimulado: além de ser um plano poderoso. para os estoicos se tratava de um plano poderoso e imutável. se -prestarmos atenção a dois elementos que ela inclui: primeiro. porque o lado arbitrário se transfigura em diligência. Estes elementos passam a integrar.modo.

numa espécie de regozijo na contemplação dos males alheios. VAN LEEUWEN. Está em perfeita simbiose. aplicadas. da virtude através dos pecados. e o microcosmo. c i t . eis alguns comentários que destacam sua importância: "A idéia de uma Mão Invisível (invisible hand). "Uma Mão Invisível providencial faz com que a abundância dos ricos aja em proveito dos pobres". menos ociosas que as dos antepassados. 38 O final dessa última citação insinua como somente as "mãos competitivas" chegam à perfeição de serem prodigiosamente associadas à Mão Invisível. As 'mãos produtivas'. a concepção de equilíbrio e a de movimento.no meio do mal. A pré-história da economia São Paulo. 131. Hucitec. num só conceito. da maneira mais brutal. nas interpretações de Robert Malthus acerca das razões da pobreza. com a idéia do trabalho como fonte primeira de toda a riqueza. Ana Maria. como sucedeu historicamente. 410. 44. vistos como castigo pelos pecados — corno aparece. op. p. através da qual é governado o macrocosmo. obra (da mão invisível) do Relojoeiro cósmico". a possibilidade de distinguir a intenção do agente. Embora a expressão como tal ainda não aparecesse. no plano da convivência humana. p. 126. p. no plano da natureza. 1988. 37 "Surge. de seu ato e de seu resultado prático. aqui. a idéia em si mesma já a encontramos na metáfora do relógio. somam-se nessa grande e invisível mão". Ela é — quase poderíamos dizer — 'como uma mão invisível' por trás da sua filosofia moral e da sua teoria econômica. . diligentes. simples 37. também. que impregna todo o paradigma do mercado até hoje. domina todo o pensamento de Adam Smith. da salvação no meio da "massa damnata" (aludimos à visão agostiniana do pecado original e da acumulação dos pecados no mistério da iniqüidade). Nas suas versões extremadas. As demais mãos. 38. comentários adicionais. 417 — mostrando por que o menor uso posterior da imagem não significa que se abandone a idéia. BIANCHI. esse tipo de visão pode desembocar. Retornando à "Mão Invisível" de Adam Smith. Esta genial construção permite-lhe amalgamar. É também nesse ponto que Smith introduz sua famosa mão invisível.

1972. com certa freqüência. agora. Jacob. agora. por longo período depois de Adam Smith. têm sido usadas. Uma. oferece um excelente estudo sobre a teologia da Providência Divina nos fundadores da ciência econômica. Entendemos. tal como na física e na astronomia newtonianas. concebendo a própria economia como uma realidade autônoma regida por leis naturais. como referência teológica explícita. O autor. essa imagem carece de . seja que seu exercício. American Philosophicál Sociely. recorra a mil estratagemas supletivos. num idílico bem comum. mas a concepção apenas se reveste. Philadelphia. assim. VINER. The Role of Proviãence in the Social Order.executoras de comandos que provêm dos "diligentes". não se elevam a tão nobre papel. que sempre é político. Vimos. para designar a sabedoria superior do mercado em relação às nossas insuperáveis ignorâncias sobre as orientações intrínsecas dos mecanismos de mercado. Duas outras imagens.39 Hoje ela retorna. sugerida pela teoria de sistemas e pelos avanços da informática. Tudo será visto sempre como função interna às regras do jogo econômico. até hoje. seja que ele se exerça diretamente como poder econômico. de linguagens seculares. dos "industriosos". O choque entre o egoísmo e os mecanismos disciplinadores da competição é imaginado num cenário puramente econômico. A não ser que se acredite no advento de üma inteligência artificial próxima à sabedoria absolutamente versátil da providencial Mão Invisível. é a imagem do mercadosúpercomputador. . como a busca do interesse próprio conduz ao mais inesperado dos resultados: a plena harmonia dos interesses.39. melhor por que a ciência econômica aspire. como o poder. E quando se confere a essas leis um caráter tendencial. a própria tendência é uma" vez mais "naturalizada". a enunciar leis imutáveis. sem tantos escamoteios. sem a inclusão de outros fatores. um reconhecido experto em Adam Smith. porque este incorpora em si todo o trabalho humano. universais. A imagem da Providência Divina persiste nos textos econômicos. como tendência mono-direcional. Aos poucos ela desvanece. Transformamse em "mãos incorporadas" nas "mãos diligentes" dos donos do Capital. em não poucos autores. herdeiras dos mistérios da Mão Invisível.

obviamente. de uma esotérica fantasmagoría acerca dè uma espécie de administrador central de todos os mecanismos do mercado — insistem em dizer que éle. certamente porque a sua fé só se tranqüiliza com o pressuposto de uma sabedoria do mercado. Ao que nos informam adeptos e debatedores das teorias do equilíbrio geral. Léon Walras (1834-1910) não é propriamente o pai dessa imagem. é a do. da emocionalidade e da vontade humanas. as inter-relacionaria de tal forma . A mágica função desse agente imaginário seria a de realizar contatos hipotéticos preliminares com absolutamente todos os agentes do mercado. portanto.que nenhuma decisão pudesse ser tomada que fosse alheia à sua vontade soberana. Trata-se de uma imagem relacionada com a sabedoria do mercado. E. o que não deixa de ter sua importância sintomática. mas o mercado funciona como se ele existisse — um agente superior a tudo o que sucede no mercado. antes de se realizarem as transações econômicas! Com toda essa informação acerca das predisposições desses agentes.intensidade mistérica. Trata-se. quanto a todas as demais dimensões do conhecimento. O mercado se comportaria como uma espécie de leiloeiro que sempre bate o martelo no momento apropriado. obsessionados que estão pelos mecanismos da concorrência microeconômica. assim chamado. "Leiloeiro de Walras". já que o computador só ganha do pensamento humano quanto à disponibilidade imediata dos dados e a rapidez do seu processamento. porém. quando necessitava de metáforas didáticas. o grande leiloeiro mágico as compensaria numa espécie de central de compensação. que sempre tangenciam as mágicas dos neoclássicos para escamotear os grandes problemas macroeconômicos. A outra imagem. poique alude a ela apenas uma ou duas vezes. . muitíssimo superior à do computador. citada com certa freqüência. não. nãò existe. o famoso autor neoclássico M. A imagem do Leiloeiro Walrasiano foi melhor elaborada por outros. Como vimos. quando está madura a melhor decisão em proveito de todos. Hayek e seus seguidores repudiam a comparação do mercado com um supercomputador.

Repetimos. A conivência costuma surgir da convivência. envergonhados de nomear um ídolo recortado para as funções providenciais atribuídas ao mercado. PHELPS. Microeconomic Foundations of Keynesian Macroeconomics Amsterdam. prática e acrítica. preferiu um nome um pouco menos ostensivamente religioso. London. a conivência. North-Holland. Como dissemos nas páginas iniciais desta seção. 1974. esse contexto idolátrico. General Equilibrium Theory. de uma ou outra forma.40 Estamos seguros de que os idolatras realmente convictos não apreciam muito esse tipo de vulgaridades diante da necessidade. na medida em que elas transcorrem numa atmosfera praticamente imune a considerações de caráter não-mercantil a respeito do convívio social dos homens. a idolatria do mercado é. p. por exemplo: NEGISHI. de vez. Ed. sobre a Teoria do Equilibrio e sobre as relações entre enfoques micro e macroeconômicos. que esta realidade suscita: como deixar de compactuar com a perspectiva básica de idolatrias instaladas — seja qual for o seu caráter ou a sua raiz — quando não é possível eliminar. de que a fé no mercado seja uma fé assumida e militante. na lit. e quando se tomou consciência de que só é possível transformar a história a partir das condições históricas e dos sujeitos históricos realmente existentes? * * * 40. Só que.Essas fantasias não passam de uma vulgar "forma secular" de dizer o mesmo que expressava a imagem da Mão Invisível. 1979. Academic Press. que não passa de uma Mão Invisível que. E. com certa freqüência. New York. com os critérios de mercado como forma determinante e tendencialmente exclusiva de avaliar a condução da economia. 12. MacMillan. Concluindo. passim. criaram essa imagem contrafeita. deixamos colocado um novo questionamento. é a prática econômica na qual estamos imiscuídos que vai moldando nossas adaptações à "religião econômica". o cap. envergonhada de tantas arbitrariedades que se lhe atribuem. Edmund.. WEINTRAUB. visualizamos a idolatria como um fenômeno que impregna as relações mercantis enquanto tais. . que possamos ter acerca da economia. que eles enxergam.. Mais até que as concepções teóricas. nos rituais da "religião econômica". de modo que é fácil tornar-se idolatra quando vivemos num contexto no qual a maioria dos atos mais cotidianos se inscreve. Studies in Macroeconomia Theory. 2. A imagem do Leiloeiro Walrasiano é citada. 1979. em primeira e principal instância. T.

Hinkelammert) Gostaria de aproveitar esta ocasião para destacar alguns traços característicos do sistema imperial atual no qual vivemos. 1986. (Universidade Popular de . da aplicação arbitrária da violência sem a qual não é possível impô-lo. desde então este movimento se estendeu rapidamente a grandes partes do mundo ocidental. Trata-se de traços característicos que levaram. em Pentecostes. sobretudo nos anos setenta. As armas atômicas deixam de causar um empate atômico na medida em que cada um dos poderes atômicos pode fazer crer em sua disposição em *• Conferência proferida na 7» Westberliner Volksuni Berlim Ocidental). Esta ascensão é acompanhada de um chauvinismo ilimitado e de uma nova mística da violência e da guerra como não se conhecera desde os anos vinte e trinta deste século e que aparece como conseqüência de um ressentimento provocado por uma guerra perdida. quando o presidente Reagan sobe ao governo. Isto tudo se junta a um neoliberalismo antiintervencionista extremo que para sua política precisa do mercado total. a um movimento político de massa nos Estados Unidos — "conservadorismo de massa" — e que chegou nesse país em 1980.ENSAIO TEMÁTICO DO MERCADO TOTAL AO IMPÉRIO TOTALITÁRIO * (Franz J. Quem contribui com esta mística milenarista é o fundamentalismo cristão como se formou nos Estados Unidos desde o século passado. para tratá-lo de modo correspondente. Surge um poder que se origina num sentido novo da cfísponibilidade de armas atômicas. Os interesses econômicos unidos à situação de ressentimento conduzem a uma mística armamentista que une o liberalismo econômico e o armamentismo ilimitados com uma nova utopia da sociedade e da paz e com um novo messianismo de um reino milenar. Neste processo os Estados Unidos se transformam num centro de poder imperial que consegue dividir o mundo inteiro em termos de amigos e inimigos.

As crises econômicas. 1. Quem apela para o suicídio coletivo ou para um novo crepúsculo dos deuses — que hoje aparece nos EUA sob o nome de Harmagedon — destrói as bases da racionalidade política. Como o resto da humanidade não tem a mesma disponibilidade. embora de forma não explícita. por conseguinte.usar as armas atômicas. O keynesianismo levou mais longe esta política de reforma. porém. transformaram-se. transforma o empate atômico em roleta atômica e baseia seu poder na irracionalidade e na arbitrariedade. Uns se submetem para participai deste poder total e os outros cedem para não se transformarem em motivo da catástrofe. Quem. O mercado total como técnica social Quando o neoliberalismo entende o mercado como mercado total. cai numa dependência completa. Gostaria de analisar esta situação nova a partir da ideologia econômica do neoliberalismo. O neoliberalismo atual. que se repetem constantemente. desata uma dinâmica que está presente de alguma maneira em qualquer liberalismo. se torna em certo sentido todo-poderoso. pode tornar crível a disposição da humanidade ao suicídio coletivo. leva a sério de uma maneira completamente nova e dogmática a idéia do automatismo do mercado. no ponto de partida de uma longa história de intervenções econômicas que perseguiram a intenção de corrigir o mercado sem pôr em dúvida a vigência do automatismo do mercado. No liberalismo do século XIX realidade e mercado são relacionados de uma maneira tal que as crises econômicas que destroem ou desordenam o mundo da satisfação das necessidades têm que ser corrigidas por reformas conseqüentes do mercado e por intervenções estatais eventuais. levando ao suicídio coletivo da humanidade. A racionalidade política — como qualquer racionalidade social — se baseia na negação do suicídio coletivo. Desta maneira muda o ponto de partida da ideo- . na situação de empate atômico.

Finalmente. O que está faltando é apenas impô-lo em termos totais e perfeitos. De repente declara que as crises econômicas não são conseqüência do automatismo do mercado. O mercado é considerado como uma instituição perfeita. Mas a realidade não se adapta simplesmente ao automatismo do mercado e sua ideologia. mas são conseqüência de uma implantação insuficiente desse mesmo automatismo do mercado. mas agora a realidade deve se adaptar às necessidades do mercado. e assim as crises são mais aprofundadas. para provocar a radicalização da política do mercado. do desemprego e da destruição do meio ambiente. é preciso reforçar o automatismo do mercado. Aos problemas concretos que aparecem é dada uma só resposta que se repete monótonamente: mais mercado. Não é o mercado que deve ser corrigido. as crises são reforçadas e aparece a resistência. As necessidades têm que se adaptar ao mercado e não o mercado à satisfação das necessidades. Do caráter perfeito do mercado segue um "ai da realidade!" Na ideologia do mercado o apelo por mais mercado se transforma na promessa vazia da solução dos problemas da pobreza. mas a realidade. Já não se deve corrigir o mercado em nome da realidade e do mundo da satisfação das necessidades. Querendo-se aperfeiçoar a realidade. o automatismo do mercado é completamente tautologizado.logia do mercado. se conclui a necessidade de mais mercado ainda. as quais devem ser enfrentadas através de correções do mercado é intervenções. Mas a ideologia do automatismo do mercado reage agressivamente e se fecha em si mesma. desemprego. Submetidas unicamente às regras do mercado. sacrificando esta solução. subdesenvolvimento. Mais mercado significa mais crises econômicas de maior profundidade. A realidade (pobreza. destruição do meio ambiente) não é consertada pela solução concreta destes problemas mas pela extensão dos mecanismos do mercado. Das crises que o mercado origina se conclui que está faltando mais mercado. Das crises e da resistência não pode concluir senão que não há suficiente mercado. Mas o dogmatismo do automatismo do mercado . Ao se aprofundarem as crises.

1966. de organizações. Capitalismo y libertad. Para o ideólogo do mercado não pode haver nenhuma dúvida de que o mercado é uma instituição perfeita. Madrid. Contudo. Não se pode de fato transformar o mercado num mecanismo exclusivo de socialização porque sempre restam atividades hão submetidas ao mercado. como uma atitude sem nenhuma racionalidade própria. 1 Mas o que leva à resistência é precisamente a pobreza. . Mas esta resistência — seja ela de sindicatos. Dá às pessoas o que realmente querem e não o que um grupo determinado pensa que deveriam querer. Neste campo o mercado não cumpre de modo algum sua função. O neoliberal crê de uma maneira verdadeiramente religiosa que apenas mais mercado pode solucionar estes problemas. Aparece a resistência. No fundo de quase todas as objeções contra o mercado livre há uma falta de fé na própria liberdade. o lema agressivo de mais mercado se transforma num princípio de movimen1 FRIEDMAN. portanto. como pura arbitrariedade. p. Desta maneira se torna tanto mais agressivo quanto menos encontra esta fé. Como jamais funcionará e como toda a sociedade jamais pode ser submetida. A resistência aparece.tautologizado é absoluto. e este caminho agressivo prossegue de maneira mais radical ainda. Milton Friedman expressa isso da seguinte maneira: Na realidade a causa principal das objeções à economia livre é precisamente o fato de realizar tão bem suas funções. o desemprego e a destruição da natureza. o neoliberal não pode constatar senão uma falta de fé no mercado e a irracionalidade da resistência. cujo potencial escondido só pode ser libertado através de uma política de mais mercado. de proteção do meio ambiente ou de grupos políticos — pode ser considerada apenas como irracional e mal intencionada. esta agressividade não termina aqui. como obsessão do poder ou como utopia dirigida contra o realismo pretendido do mercado. Sempre se pode responsabilizar estes elementos desviados do mercado pelo fato de o automatismo do mercado ainda não funcionar. No entanto. M-. 30.

mas isso não significa que a realidade deixe de existir como conseqüência desta negação. a realidade pode ser negada. O antiintervencionismo produz crises tais que o grau de intervenções não. mas isto não significa necessariamente que as intervenções no automatismo do mercado desapareçam como conseqüência da política antiintervencionista. portanto. Em vez de tornar consistente o intervencionismo sistemático do capitalismo organizado através de um plano .intencionais aumenta precisamente como resultado da política antiintervencionista. No Chile. e depende. Deste modo surge a ideologia do antiintervencionismo. Por causa do antiintervencionismo as intervenções não diminuem mas mudam apenas sua estrutura e provavelmente aumentam. Pelo contrário. Não se substitui o intervencionismo através de uma ausência de intervenções. Trata-se de uma política do mercado total que faz a tentativa de estender o mercado ilimitadamente a todos os âmbitos da vida. numa medida maior do que antes. Pode-se estar contra as intervenções no mercado. uma dinâmica sem limites. Este antiintervencionismo é um processo sem fim. é anti-social. Pelo contrário. O sujeito é reduzido a suas funções mercantis apenas. da existência de um estado policial.to infinito da sociedade capitalista. o processo é tudo. o antiintervencionismo levou a uma situação na qual o governo militar interveio numa parte maior do sistema bancário do que ocorreu no governo da Unidade Popular. A tentativa de encontrar uma solução definitiva através de uma política de choque cria apenas uma desordem maior do que a que existia antes. antisistemático e arbitrário. Este lema explica sempre de novo todas as crises pelo pretenso fato de não haver capitalismo suficiente e orienta toda ação referente às crises para a expansão do capitalismo. substitui-se o intervencionismo sistemático do capitalismo organizado pelo intervencionismo não intencional de um capitalismo agora conscientemente desorganizado. O mecanismo se torna inatacável. parece que outras linhas de intervenção se impõem como conseqüência da negação contra a intervenção. reduzindo todas as relações sociais às relações do mercado. Ora. A meta não é nada. Este novo intervencionismo. por exemplo.

Alianza Editorial/ 1973. O intervencio. 1986: 203). 2 Desta maneira o mercado adquire sua imagem de perfeição. o chanceler de ferro. construção teórica de úma instituição perfeita que ajuda obviamente a uma tendência totalitária Ela "irão termina com a renúncia de Stockman. La miseria del historicismo. .antiintervencio-. pois seus partidários não terão outro remédio senão recomendar uma intervenção política destinada a impedir a intervenção" (POPPER. é até logicamente impossível. sem contudo titar conclusões. diz que acha insustentável um "antiintervencionismo universal" . segundo a qual o antiintervencionismo leva a uma diminuição das intervenções.mesmo TqUe i seja ' "pòr razões puramente lógicas. 16. rantir à economia" "americana mais dinâmica e crescimento sadio. que -a revolução em geral não era politicamente possível" (Spiegel. A crise atual da assim chamada política econômica orientada pela oferta. Popper. é o fato de que também nenhum estado absoluto é capaz . Ofereceu um programa amplamente antibem-estar para ga-. declaia em seguida que " o antiintervencionismopode ser qualificado' como uma doutrina tipicamente tecnológica" ( p l ' 7 5 ) . publicado depois de sua renúncia com o título O triunfo âá política. demonstra que não se deu conta destes fatos. segundo sua própria opinião. factível Há duas factibilidades diferentes. porém. por exemplo. ele acha que o monstro da "política" é culpado. r Mas isso implicava mudanças tão radicais na estrutura de gastos -e rendas do país.realizar nada impossível mas impôs o possível: uma política intervencionista sistemática. . O que aparece por trás desta tendência^ porém. arrtiintervencionismo. Agora temos a contradição entre o que é factível em sentido racional e o politicamente. Suas imperfeições são apenas aparentes e produto de forças que 2. não mostra a mínima tendência a desaparecer. o antiinteivencionismo transforma o intervencionismo sistemático num intervencionismo sem sistema.global. Karl. Seu livro. atesta este fato. A factibilidade racional pretendida não é mais do que a. racional e a. a política antiintervencionista provoca um aumento das intervenções. outra política? Num òutro lugar diz que apenas um chanceler de ferro poderia ter transformado em politicamente factível o que o era em termos racionais. Popper não explica como algo pode ser uma doutrina tipicamente tecnológica àe. Gomo demonstra o título. David 'Stockman expressa' está mesma contradição da seguinte maneira: " N o sentido racional (a revolução ^ de: Reagan) era factível. Muitos neoliberais notam freqüentemente esta contradição interna do . Ao contrário. Madrid. substitui-se a tentativa de uma política de choque por um processo ilimitado e irracional: Bismarck. Stockman fracassou devido à sua convicção completamente errônea. porém. David Stockman. nismo mesmo. que se manifestou com a renúncia do chefe de orçamento dos Estados Unidos. Em vez disso. não tentou . deixando flutuar o automatismo do mercado como societas perfecta por cima de uma realidade que não tem nada a ver com a catástrofe que este mesmo mercado origina. nismo. De quanto ferro teria necessitado este chanceler? Há tanto ferro no mundo? Aqui se torna óbvia a lógica inerente para o estado absoluto da política econômica orientada pela oferta. p 74-75) ' • >-•••'•<•' : No entanto. dé tornar ¡factível este . uma..

utopia de uma instituição perfeita. Este mercado total representa efetivamente um mundo fictício derivado do automatismo do mercado real. Por isso a teoria econômica néoclássica pode chamar o modelo teórico deste automatismo do mercado de modelo da competição perfeita. . O mercado parece ser o principio fundamental de todo realismo e quanto mais incondicionalmente se crê nele.distorcem o automatismo do mercado. os neoliberais não percebem o caráter utópico desta utopia. Esta tem a dimensão dupla de uma política estrutural e da repressão policial. É a expressão teórica da . Quanto mais a ideologia do mercado ideologiza e tautologiza o automatismo do mercado. com mais evidência parece ser certo o resultado da ideologia do mercado. A demonologia social e a conspiração mundial A tautologização do automatismo do mercado e sua transformação em processo de extensão das relações mercantis como única resposta às crises e à resistência dá ao mercado o carater de um mercado total. No entanto. Ao fazer essa ficção (o ponto de partida de uma técnica social). . Desta maneira o mercado chega a ser a presença de uma perfeição que é preciso impor. que não pode mostrar toda a sua perfeição pelo fato de a resistência irracional e mal intencionada o impedir. Esta idéia do automatismo do mercado é a utopia de uina instituição perfeita. O mercado é bom e é vivido como societas perfecta. Esta perfeição está presente no mercado como potência e deve ser atualizada quebrando qualquer oposição ao automatismo do mercado. em última instância as imperfeições do mercado são explicadas pela resistência mal intencionada contra ele. A extensão agressiva do mercado e a destruição oü debilitamento decisivo de todos os grupos que poderiam fazer resistência transforma-se no objeto de uma técnica social. Portanto.1 2. tanto mais se sente como realista e considera todos os que têm opinião diferente como utopistas. ela é transformada numa realidade justav vr posta ao mundo da satisfação das necessidades.

porque interpreta em último termo o intervencionismo. A instituição mercado se torna a sede da perfeição num mundo que não pode ser atualizado porque a oposição dos maus o impedem. A ideologia neoliberal do mercado liberta-se completamente da realidade. a instituição tem que ser imposta sem piedade. Há forças do mal que estão agindo para destruir a perfeição absoluta potencialmente presente no mercado. as forças do mal se mostram tanto mais poderosas quanto menos perfeito for o mercado. Aparece o pensamento: ou eles ou nós. que tem um centro mundano que se chama Kremlin. Ela.Sendo mundial o mercado. Por isso. em teologia política. em nome de sua perfeição absoluta. ela é anticomunista. A ideologia do mercado é transformada. . surge um princípio sectarista que leva a uma dualização maniquéia do mundo inteiro. com o resultado de poder reagir apenas de maneira agressiva contra tudo o que tornar presente o mundo da satisfação das necessidades frente ao mercado. É a maldade pura que explica sua existência. que se chama Lúcifer. Por trás deste centro visível da conspiração mundial. é essencialmente e sobretudo antiintervencionista. portanto.Ao aparecer a resistência contra o mercado total como causa de todos os problemas da realidade concreta. aparece o demônio. o diabo ou Deus. Esta conspiração mundial é vista como o Reino do Mal ou o reino do terror. . Como conseqüência destes "antis". Não há nenhuma razão racional para a existência da crise e da resistência porque o mercado jamais pode ser sua causa. esta visão do mundo leva à tese da conspiração mundial contra a societas perfecta do mercado. Forças do mal dão origem às imperfeições da societas perfecta do automatismo do mercado. Fala em nome de forças automáticas e mágicas de mercado para se opor a qualquer projeto concreto de solução das crises. um aparente portador da luz que espalha as trevas atrás da aparência de luz. Ela é antiterrorista porque apresenta qualquer terrorismo como resultado do intervencionismo ou do utopismo. Portanto. que parte desta demonologia. ela se apresenta como antiutópica e denuncia qualquer solução concreta dos problemas como utópica ou inspirada em utopias. caos ou ordem. Em nome de um pretenso realismo.

A liberdade está ali onde não está o comunismo. já 3. A conspiração mundial dá assim o denominador comum mítico para esta luta contra o Reino do Mal. Por isso existe também a suspeita de que a frase "América para os americanos" não significa senão: toda a América para os EUA. a palavra liberdade. para ele se trata de um conflito entre América e os Russos. 4 Barricada. Em seu discurso perante o Congresso. Ele está envolvido em tudo. da conspiração mundial contra o automatismo do mercado como presença da perfeição no mundo. Portanto. e tudo o que é negativo neste mundo adquire agora um centro por trás do qual está o demônio. Portanto. Reagan diz: Não. Para todos os problemas urgentes tem apenas uma resposta deduzida de princípios e completamente dogmática: mais mercado. Ao se emancipar da realidade. como nome para este nada. Como é a maldade absoluta.o utopismo e o terrorismo como resultados do comunismo Este. já não tem nada a dizer sobre a realidade. 19-03-1986. Esta emancipação da realidade já é anunciada em geral na linguagem de Reagan. Mas o conteúdo desta palavra não é mais do que a soma dos "antis" pronunciados em nome do mercado. é considerado o centro da conspiração mundial contra a societas perfecta do automatismo do mercado. Para ele. não é mais do que a emancipação da realidade. . este é um regime fora da lei. Não é mais do que a soma de condições para a totalização do mercado que. Esta linguagem do presidente dos EUA não expressa de modò algum os fatos políticos. Usa. toda a sociedade tem que ser mobilizada contra o Reino do Mal. a ideologia do mercado já não tem nenhum conteúdo concreto. Para ele existem apenas "os russos". Estados Unidos é "Amér i c a " e os cidadãos dos EUA são "americanos". 3 O fato de a realidade continuar presente como mundo da satisfação de necessidades é sentido como presença contínua do reino do mal e. parece que não há nenhum crime em que os sandinistas não estejam envolvidos. por sua vez. em presença do mal neste mundo. Reagan nem sequer leva em conta o fato de existir uma União Soviética. no qual pede cem milhões de dólares para os "contras" na Nicarágua. Por isso não pode nem dizer o que é. apesar de ser impossível extirpá-lo por completo. por sua vez. portanto. 4 O próprio adversário é transformado em maldade. Quando surge um conflito entre Estados Unidos e União Soviética.

Chega a ser um não-valor. de uma utopia que não é percebida como tal. San José. que questionam o mercado. Portanto. a loucura do terrorismo não está superada" (Time. do qual derivou sua boa consciência. A antiutopia secularizada e a apocalíptica O mercado total. Não se deve esquecer que o terror totalitário sempre foi apresentado como terror antiterrorista. a realidade é completamente tautologizáda. como imperativo categórico e como moral. n. Um colunista do jornal La Nación escreveu: "Se a carta realmente não foi enviada. Trata-se. pa5 Em novembro de 1985 íoi publicada na Costa Rica a cópia de uma carta. O jornalista. O inimigo é inimigo objetivo. era uma carta necessária" (La Nación. em sua representação do automatismo do mercado.não é preciso provar nada.. 3-12-1985). que se dizia que fora escrita pelo ex-presidente José Figueres para a embaixadora da Nicarágua. Uma situação semelhante ocorreu na imprensa dos Estados Unidos depois do ataque à Líbia. tanto mais é preciso falsificar. A carta era uma falsificação com a intenção de denunciar "Figueres como traidor da pátria. Quanto mais falsificações forem descobertas. resultando daí que todas as imaginações de liberdade ou solidariedade. . Reconhecê-la é considerado realismo ou pragmatismo. porém. Se. Pode-se ter provas ou elas podem ser fabricadas. corresponde a fatos de domínio público. mas que em sua hipocrisia não dizem. :5-5-1986.'. Depois do bombardeio. É culpado até sem provas. a violência exercida contra ela e seus filhos fora justificada: ' . mas é identificada com a realidade. a senhora Kadhafy jurou em público matar o piloto com suas próprias mãos. utópico no sentido de uma societas perfecta e de uma instituição perfeita. para se dizer o que os maus querem realmente dizer. de qualquer forma poderia tê-lo cometido.. . Em conseqüência. 18. Em ambos os casos. apesar' disto. Se o adversário de fato não cometeu um crime determinado. 13). O adversário se torna um inimigo objetivo contra o qual os argumentos não contam. porém. é. Trata-se de ttma" reação totalmente compreensível da parte de uma mãe cujos filhos inocentes são ameaçados de morte. apesar das precauções da semana passada. este realismo aparente se opõe a todas as utopias. não o cometeu..' deveria ter sido. não se comete nenhuma injustiça contra ele se lhe for imputado um crime com o qual ele não tem nada a ver. concluiu que ela era terrorista e que. tanto mais confirmação haverá de sua necessidade inevitável. portanto. a carta está bem concebida. Isso não é nenhuma falsificação porque se imputa ao adversário apenas aquilo que deveria ter cometido segundo sua maldade essencial. Quanto mais aumentam os atos de terrorismo antiterrorista por parte do governo dos EUA. como tal. porque todas as suas reações possíveis são transformadas em confirmação da tese daquele que o enfrenta como inimigo. Por isso é terrorismo entendido como humanismo. deveria até tê-lo cometido.5 3. . Se tivesse sido conseqüente. o fato de não o ter cometido é uma prova de que se trata de um hipócrita ou de um covarde. esta terrível cena foi outra advertência de que. no qual foram feridos dois de seus filhos e escaparam por acaso da morte.

Reagan anuncia a sociedade dos Estados Unidos como "luz eterna". antiutopia e antimessianismo são traços fundamentais. na linguagem esotérica dos EUA. significa nada menos do que uma nova Jerusalém ou um reino milenar. A tese básica é: quem destrói a utopia. como "catedral da liberdade" e como "guia iluminador de sempre para a humanidade". Desenvolve portanto uma utopia e promete sua realização como resultado da destruição de todas as utopias. O caminho para esta utopia não é garantir a paz e um desenvolvimento humano solidário. cuja realização é o resultado da destruição de todos os utopistas do mundo. Para que a humanidade se . Reagan se refere a esta sociedade dò mercado total e agressiva como "cidade que brilha nas colinas". No entanto. falta apenas destruir os utopistas que constituem o Reino do Mal. Trata-se de uma utopia antiutópica agressiva. De fato o é apenas em relação a todas as utopias ou horizontes utópicos que tornam presente uma liberdade ou solidariedade concretas. desta sua antiutopia a ideologia do mercado deriva conseqüências utópicas. portanto. As denominações escolhidas para dar nome a esta sociedade de mercado revelam já que o realismo de mercado pretendido não é mais do que um utopismo ilusório. especialmente com as utopias socialistas. Assim a societas perfecta do automatismo do mercado recebe seu brilho utópico que brilha tanto mais quanto mais tenebrosa é a conspiração mundial do Reino do Mal. Para que esta utopia brilhe com maior luz.recem ser utopias. se faz passar por antiutópica. a realiza. Ao fazer isso. Destruir movimentos utópicos ou imagens utópicas parece agora o caminho da realização da utopia. Por isso. Do antiutopismo frenético esta ideologia deriva a promessa utópica de um mundo novo. na medida em que se trata de projeções utópicas da solução de problemas concretos. o que. A ideologia do mercado total. a ideologia do mercado total é antiutópica em relação a elas. Já o fato de se oferecer o mercado total como societas perfecta e como competição perfeita torna visível este horizonte utópico da antiutopia. os que querem isto são exatamente os utopistas. Ao contrário.

20-11-1985). está claro que ela apóia sempre aquele gênero que recebe sua maior graça: é aquele que sobrevive na luta darwiniana da existência. Para isso é preciso uma luta que garanta este principio de vida da sociedade.' Berlim. que é precisamente a luta. são antinaturais. portanto. que não é senão o respeito por esta luta. .. Franz J. Portanto. pacifismo. Esta mística da luta pode sei encontrada também em Paul A. A mesma mística" de luta apareceu de novo na declaração de Santa Fé. p. prêmio Nobel de economia: "Independentemente de a mãe natureza querer ou não a diferenciação. O lema destinado a estender e assegurar esta luta de mercados é: "Mais mercado". Die Raãikalisierung -der Christdemokraten. •1985. n. A . é preciso garantir a luta e destruir a solidariedade. Quem quiser limitá-las ou aboli-las.. Trata-se da ideologia de uma luta que é realizada no mercado e que é o princípio de vida do mercado e de toda a sociedade. que é guerra e luta. Portanto.La política dei mercado total. San José. quem está contra a luta está contra o princípio de vida da humanidade. Esta mística de luta. 1976. Samuelson. já o fato de ser capaz de chegar boxeando e usando os cotovelos para ò último helicóptero que parte. A vida é luta e a liberdade consiste em ter a liberdade para lutar. ofende a natureza Portanto. O fato de a luta se impor definitivamente como principio de vida da humanidade aparece como mundo novo utópico. apresentada como mística da natureza.. qualquer humanismo aparece como adversário. Costa Rica. que é uma declaracão programática para o primeiro período de governo de Reagan (ver HINKELAMMERT. 26-05-1975). Pasos. Querer a paz e o desenvolvimento solidário da humanidade é um sinal do Reino do Mal. A luta contra a utopia também aqui é uma luta que se trava para poder lutar livremente.' DEI. Este artigo é o ensaio anterior ñeste livro) „ . Junto com a utopia. É preciso proteger esta luta contra os intervencionistas paia que possa dar seus frutos. mãe natureza é a luta e a competição. A ideologia do mercado total não é mais do que a forma liberal do desenvolvimento desta ideologia de luta.. contra a qual é preciso impor a natureza verdadeira. A utopia ameaça a existência desta luta e para isso é preciso fazer a guerra total contra a utopia. dá garantia para energia e habilidade" (Newsweek.encontre a si mesma. A luta é o princípio de vida da sociedade. está também por trás do retorno da geopolítica. su teologización : y nuestra respuesta. Por isso Reagan fala do comunismo como "uma espécie de loucura que vai contra a natureza humana" (Frankfurter Allgemeine Zeitung. 1. cria-se um mundo novo que pode ser celebrado agora utopicamente. Ao ganhar esta guerra. Sua destruição é celebrada de novo como recuperação do humano. ou de sobreviver na viagem oceânica feroz em um barco de escravos. intervencionismo e reformismo são rebeliões contra a natureza. Franz -J. 6 6. 53s). pacifismo e socialismo são antinatureza. socialismo. que se tornou a ideologia dominante no sistema militar ocidental (ver HINKELAMMERT.

7-5-1985. veremos surgir as cúpulas da liberdade e t— também podemos prever isso. e nós. Contudo. Encontra-se também num processo para alcançar este objetivo. nossa capacidade infinita de amor. Isso implica algumas reformulações. esse é agora o caminho para oferecer uma utopia na antiutopia. nosso valor. Isto pode ser demonstrado com o exemplo de um discurso de Reagan dirigido à juventude alemã em Hambach. Frankfurter Rundschau. 7. imagens centrais de esperança surgidas na tradição socialista. mas são assumidas. Através de um processo infinito de totalização do mercado. Fundamenta um processo de mercado total que tem uma dimensão infinita para o futuro e ao qual é atribuída uma perspectiva. esta utopia antiutópica não celebra apenas o que há. o final da tirania. nesta manipulação da utopia. Por um lado. se crermos em nossas forças maiores — nossa coragem. . chega a ter uma perspectiva infinita.Destruir a utopia para que o homem possa ser verdadeiramente humano. fabrica-se esta utopia através de uma manipulação da utopia socialista tradicional que se junta agora com relações de produção capitalistas. 7 Referindo-se às relações de produção capitalistas convida a que se faça: parte de um novo grande movimento do progresso — a época do empresário. não devemos esquecer nunca: veremos diante de nós um futuro brilhante... Não é somente a presença de um princípio utópico mas também futuro utópico. Pequenas empresas teriam que criar os novos postos de trabalho para o futuro. . que vivemos nesta grande catedral da liberdade. abolir o humanismo para que o humano possa ser recuperado. Esta sociedade de mercado não é apenas uma "cidade que brilha nas colinas". Ele une esta referência ao anúncio de um futuro brilhante erigido contra a tirania: Vocês podem seguir seus sonhos até as estrelas.

De suas fileiras pode surgir no futuro da Alemanha um novo Bach. Em cima deste cume se levantarão novas cúpulas. O futuro está esperando seu espírito criativo. um novo Beethoven. porém. poderiam ser de Bebei ou de Trotski: Vamos transformar o extraordinário em cotidiano -— assim age a liberdade. . A história. um novo Goethe e um novo Otto Ilahn.Segue a descrição do futuro brilhante que desemboca em frases que. . liberdade e paz. Bebei havia dito: As gerações fas sobre as saram muito encontrá-las. Reagan" une esta utopia que ele chama de "a verdadeira revolução da paz em liberdade" com utopias de progresso técnico e com a utopia de uma paz considerada como resultado de um armamentismo livre e sem limites. realizarão sem maior esforço tarequais no passado cabeças extraordinárias pene tentaram encontrar soluções. f u t u r a s . quase textualmente. . tem uma história um pouco mais : . Goethe. E os mistérios de nosso futuro não pertencem apenas a nós aqui na Europa e na América. . sem ter podido . para adaptá-la a relações de produção capitalistas e usá-la para a legitimação do atual sistema dos EUA. . Marx. E Trotski dizia: A média humana se erigirá até o nível de um Aristóteles. está do lado daqueles que lutam em todo ò mundo para uma verdadeira revolução da paz em liberdade. Esta manipulação da utopia socialista. mas a todos os homens em todos os lugares para todos os tempos. Apresenta tudo isso como a lei da história: A história não está do lado daqueles que manipulam o significado de palavras como revolução.

No entanto. elabora o significado da imagem do comunismo para a estabilidade do sistema soviético e deixa ver a ausência de uma perspectiva ideológica do futuro parecida nos EUA. Já Zbigniew Brzezinski. Recentemente.Êm certo sentido serve também para se opor àquele pessimismo cultural geral.longa. unida a uma religiosidade que era entendida num sentido puramente privado. em seu livro Ideologia e poder na política soviética8. com toda certeza não se trata daquela utopia que garante à nova direita dos Estados Unidos. esta tradição é anti-semita. de Jerry Falwell e George Otis. a solução de Brzezinski acabou sendo muito mecânica e artificial. nos anos setenta. cujo presidente é Reagan. New York. O discurso de Reagan demonstra como se prefere enfim reformular diretamente a utopia socialista para seus próprios usos. em outro livro 9 . Esta tradição fundamentalista surgiu a partir do século passado. que hoje são uma espécie de Rasputins da corte do presidente Reagan. Ideology and Power in Soviet Politics. 9 Between two ages. especialmente. Embora seja pró-Israel.. America's Role in the technetronic Era. apesar de se encaixarem muito bem na ideologia do mercado total proveniente do neoliberalismo. nos EUA. cuja origem racionalista é inegável até no caso em que é transformada em seu coñtrário. Brzezinski tenta construir uma utopia análoga para o sistema estadunidense. tanto em seu primitivismo como também em seu anti-semitismo pronunciado. Trata-se de uma utopia secular. especialmente protestante. Ela tem sua importância naqueles círculos da nova direita dos EUA que provêm diretamente do neoliberalismo. se tornou uma teologia política explícita sob a influência. que é derivado do problema do meio ambiente e da conseqüente crítica do progresso técnico em geral. sua base de massas — o "conservadorismo de massas". Estas bases de massas provêm de uma tradição obscura do fundamentalismo cristão. 1970. Esta tradição lembra muitas vezes a literatura anti-semita da primeira metade deste século na Europa. 1962. Contudo. 8 . Os elementos com os quais se apresenta hoje nos EUA a conspiração mundial do Reino do Mal provêm desta tradição fundamentalista. Mais tarde.

em favor de uma recuperação da saúde a longo prazo" (ibid. tendo-o obviamente presente. Hayek". sumamente pessimista. 210). 201) Considera a política enquanto tal como intervencionismo: "os políticos estão arruinando o capitalismo americano" (ibid. amadurecida. a doutrina da oferta ofereceu uma alternativa idealista para o sentido do tempo cínico e pessimista" (ibid. como. David Stockman atesta esta proximidade entre fundamentalismo e neoliberalismo.Da união deste movimento fundamentalista e do neoliberalismo surge a nova direita atual nos EUA. 219). que sobem do reino da besta. p. 16. o Reino do Mal tem forças demais e seguramente leva à catástrofe absoluta da humanidade. . são anúncios ou obras do Anticristo.10 10 Em seu livro O triunfo dei política. O mundo podia começar de novo desde o começo. p. portanto. O que ele não menciona. "Isso significava também o corte repentino da ajuda social para os necessitados com capacidade de trabalho . Como o inteivenr cionismo cria dependências. p. interpretados em termos metafísicos e religiosos. 177). Embora os bons se defendam. dos comunistas e dos hereges esquerdistas. como caiu nas mãos dos utopistas. Conta . as Nações Unidas. no entanto. Eu tremia pensando na ira de Deus sobre minha estadia neste mercado de maldade " (Spiegel. do ponto de vista fundamentalista. uni' "matador de diagões" (ibid. Segundo ela. A ponte entre os dois é o antiintervencionismo extremo do qual ambos compartilham baseados em tradições diferentes.. De um professor liberal seu diz que "em três meses destruiu tudo aquilo em que havia acreditado.. 16. poderiani ser superadas. p. eu acreditava. a doutrina nova da oferta não era senão uma reedição de meu velho idealismo social sob forma nova e. Sobre a "propensão para a economia estatal" fala como de um "monstro" e diz: " . esta visão fundamentalista da história é. a atividade do mal desemboca numa batalha final chamada Harmagedon — uma espécie de Crepúsculo dos Deuses. desde o bom Deus até a bandeira das estrelas" (segundo publicação de capítulos do livro no Spiegel. integração de raças e outras utopias". . Refere-se à outra quando conta: "Com que medo estava eu no hall do edifício da ONU. Os males herdados mais velhos do racismo e da pauperização poderiam ser superados através de reformas profundas que partiriam das causas políticas. 177). Todos os elementos que o neoliberalismo combate em nome de seu antiintervencionismo são considerados no fundamentalismo como obras do Anticristo e. "Meu plano confiava numa dor breve e aguda. . a unificação da Europa.. Stockman quer cortai o cordão umbilical da dependência. eu o combati com uma espada da forja do economista do mercado F„ A. O antiutopismo desempenha em ambos um papel parecido. qualquer pacifismo e toda as atividades sindicais. De modo diferente dos restos racionalistas da utopia secular. Umá era um seminário com pensamentos liberais: "desarmamento atômico. se bem que agoia em forma antiutópica: "Num sentido mais profundo. p. . p. apenas um chanceler de feiro o poderia tet imposto (n.. era: a sede do antier isto Salvou-se lendo Niebuhr: "Niebuhr eiá um crítico sem piedade do utopismo" (ibid. sobretudo. O socialismo e a democracia social. p. Ele chama de monstro e besta tudo o que não é mercado. Fui "seqüestrado por uma horda de amigos da paz esquerdista para duas gigantescas babéis pecaminosas". n„ 17. aquele bastião dos defensores da distensão. 219). Mas. 185).. As reformas . Mas em sua luta contra a utopia ele retornou à utopia... Ele mesmo se transformou agora num matador de diagões. n. mas também todo reformismo. no entanto. p 222). que estão aumentando. As crises econômicas e sociais.

Desta maneira se completa o mundo utópico da nova direita dos EUA. p. Sobre a ideologia do neoliberalismo. Stockman fala sério totalmente do "evangelho da oferta" (ibid. 185) e diz de Reagan que se "converteu para a religião da oferta" (ibid. antiutópica. Quanto pior. p. Crítica à la Razón Utópica.. O idealismo social notável. . até a guerra atômica se transforma em esperança verdadeira. Franz J. ver HINKELAMMERT.. que partem das causas políticas. Na catástrofe final. são ações contra qualquer intervencionismo e qualquer influência política no mercado. p. As descrições do reino milenar feitas neste contexto não são mais do que as imaginações de um mercado total que foi realizado totalmente nestes mil anos.. "Cristo vem" é uma esperança que se torna tanto maior quanto pior estiverem as coisas.:':' 11. a utopia socialista manipulada e a igualmente manipulada esperança do reino milenar dão à nova direita dos Estados Unidos o contraste brilhante ao Reino do fundamentais. Para muitos. porém. Porque na batalha final Cristo volta. . Cristo vem para iniciar o reino milenar destinado aos bons. Quanto mais política se tomar esta esperança da catástrofe. dezembro de 1985. Este futuro de catástrofe é considerado algo absolutamente fatal. que se defenderam do Anticristo. Desta maneira. Tudo isso tem um fundo religioso.Para o fundamentalista. contudo.. . Costa Rica. Os intervencionistas. 20-21 . porém. Mas sempre tem como seu elemento central a destruição do utópico como passagem para a utopia realizada. em espanhol. de Stockman aj'uda o desempregado tirando-lhe seu subsídio de desemprego e celebra esta medida como um passo para o caminho realista em direção da eliminação da pobreza e do desemprego. a esperança está precisamente na chegada desta catástrofe. já aqui são os portadores deste reino milenar. escrito de uma vez por todas nas profecias bíblicas. Os bons. DEI. vão para o inferno por toda a eternidade.192). 1984. que coincide nitidamente com o fundamentalismo cristão. tanto melhor. em passo necessário para a chegada do reino milenar. Tanto Reagan como "também Weinberger fazem suas visões deste tipo. Ver Le Monde Diplomatique.. Trata-se de uma biografia que explicita bem o surgimento da utopia . '. 11 A lei da história subjacente aqui torna-se absolutamente metafísica e determinista. artigo de Konr ad Ege. mais se começa a falar do "Harmagedon atômico". Deste modo. como desígnio eterno de Deus. 53-94. p. San José. ele tem algo. Ao aceitar isso se declara "o papel sacrificai" que têm que desempenhar os EUA.

cria-se um terrorismo que supera quantitativa e qualitativamente qualquer terrorismo que de fato deveria ser combatido. a negação do estatismo e intervencionismo e a negação do terrorismo. Atribuindo a si mesmo um valor absoluto.Mal.portanto. Ao querer solucionar os problemas da ação utopicamente inspirada. resultado da postura negativa em geral do pensamento burguês atual. a fabricação de uma conspiração mundial pelo Reino do Mal e o brilho conseqüente da antiutopia do reino milenar. Cirurgia social: extirpar um câncer A técnica social da societas perfecta do mercado total. Quanto mais alguém se valorizar. São elas a negação do utopismo e do messianismo. Pretende-se solucionar problemas reais ou aparentes. o adversário é declarado um não-valor. que ameaça todas as seguranças que restam e que é obstáculo a todos os caminhos para a solução racional dos problemas. reino dos mil anos. tanto mais se reproduzem estes mesmos problemas a um nível sumamente radicalizado. porém. cria-se uma utopia antiutópica totalmente irracional. 4. Trata-se especialmente de três grandes negações sobre as quais se fundamenta este esquema. Quando Reagan chama hoje os EUA de "cidade que brilha nas colinas" e. agindo no sentido exatamente contrário a estas negações. Este processo da destruição moral do adversário segue um esquematismo determinado. Qualquer afirmação de um valor próprio deriva da negação do valor do adversário. que de fato existem nestes campos. Portanto. Assim se decla- . . mais baixo é valorizado o adversário. isso tem um sentido diferente do que poderia ter tido uma denominação idêntica no século XIX. não se dá nenhuma solução mas um reforço aos problemas focalizados. transformam qualquer adversário em irracionalidade pura e lhe negam qualquer valor próprio. para fazê-lo. Quanto mais radicalmente se realiza este contrário. Ele é diagnosticado como imundície ou enfermidade. Quer-se combater .o terrorismo mas.

Poderes absolutos que deveriam usar justamente para evitar e limitar todo poder absoluto no futuro. Da mesma maneira como surgiu a utopia antiutópica. que é o mer12 El País. 14-04-1981 . é necessário criai as regras para dizer o que pode ser feito e o que não pode ser feito. Neste sentido diz. 13 O utopismo absoluto para superar a utopia. Reagan diz: Isto torna a demonstrar que devemos fazer algo para deter o terrorismo de uma vez por todas e conjuntamente. Santiago do Chile. Hayek: Quando um governo está falindo e não há regras conhecidas. A. F. depois dos ataques aéreos contra a Líbia. Nestas circunstâncias é praticamente inevitável que alguém tenha poderes absolutos. Madri. o Estado tem que se tornar Estado absoluto. que supera tudo o que o terrorismo poderia ter feito. Esta dinâmica totalitária do poder pode finalmente relativizar seu próprio ponto de partida. O terceiro "anti" é dirigido contra o Estado e o intervencionismo. Para evitar o intervencionismo.12 Quanto mais decididamente se quer superar1 o terrorismo de uma vez por todas. Deste modo o antiestatismo se torna Estado absoluto. Não se soluciona nenhum problema mas todos os problemas são radicalizados. desembocando no niilismo. que não tem fim. Entrevista ao Et Mercurio. porque estas negações ativas reproduzem constantemente a razão de sua própria existência. por exemplo. o terrorismo absoluto para deter o terrorismo de uma vez por todas. Desta maneira cria-se uma dinâmica ilimitada. 18-04-1986 13. Essa é a dialética totalitária como já é conhecida. mais terroristas têm que se tornar os antiterroristas. Sobre o assassinato de reféns em Beirute. o armamentismo absolutamente ilimitado para que todas as armas percam sua periculosidade.ra que se quer destruir o terrorismo de urna vez por todas. aparece agora o terrorismo antiterrorista. o Estado absoluto para que nunca mais possa haver um Estado absoluto.

Esta noticia falsa apenas revela que aquele que a transmite considera estes mortos como lixo.. Pode ser realizada também através da propriedade privada e o mundo dos negocios. Uruguai e Brasil. o mundo dos negócios não se divide. 15 contra goverdrogas repetié lixo 14 O movimento totalitário tem que controlai os meios de comunicação. Considerai o homem marginalizado como lixo é feito sempre mais freqüentemente no mundo ocidental Depois de anunciai que vai "aterrorizar os terroristas". A dinâmica perde o pragmatismo aparente. que através de negações ativas cria a radicalização absoluta. 5-5-1986. 15. os regimes da segurança na América Latina usaram freqüentemente o assassinato de jornalistas. São lixo e. o ministro do interior da França. usando como ponte a campanha contra a Libia. de maneira igual como a revolução devora seus filhos. . Ao se polarizar a sociedade. Argentina. Charles Pasqua. portanto. Isso começou nos anos 1984-1985 com a propaganda o tráfico de drogas. a UPI falou de mais de dois mil mortos e acrescentava que "as pessoas não eram enterradas em cemitérios comuns mas no povoado de Pirogoy. Guatemala. A técnica social do mercado total se transforma em ação de limpeza e de cirurgia social. são tratados como lixo. com o qual começa. Chile. leva por sua vez à desvalorização absoluta do adversário. n 19. Este controle se realiza principalmente por meio de financiamento da propaganda comercial pelo mundo dos negócios. Raramente foi utilizada uma censura estatal da imprensa. San José. especialmente em El Salvador. A campanha do não-valor de todos os adversários é dirigida. mas na afirmação do nao-valor absoluto da vida dos outros. para a qual não existe nenhum contrapeso. Depois do acidente na centrai atômica de Chernobyl. onde habitualmente é enterrado o lixo radioativo" (La Nación. na América Central. Não é preciso que o controle dos meios de comunicação seja feito pelo Estado.. 30-04-1986) . especialmente contra a Nicarágua. mas forma um dos pólos. mas a censura à imprensa de modo algum é parte essencial do totalitarismo. com o qual se torna capaz da radicalização ilimitada. e deixa de considerar os interesses próprios. Esta última é a forma atual. Um meio adicional de controle sempre foi o assassinato Na medida em que ò controle da imprensa por parte do mundo dos negócios não era suficiente. tanto mais a propaganda comercial se transforma numa instância homogênea de controle. Afirmava-se constantemente que o no sandinista da Nicarágua era o centro do tráfico de da América Latina. Quanto mais progredir a polarização.cado total. promete se empenhar em que a "França deixe de ser uma lixeira" — de estrangeiros e asilados Promete terminar com o "humanismo gritador dá esquerda" (Spiegel. . A afirmação do valor absoluto da vida não desemboca na afirmação do valor absoluto da vida de todos os homens. denuncia o".14 Este processo. Emissoras de rádio e de televisão ram diariamente o seguinte: "O comerciante de drogas humano. p 140-141) .

Ibid. 28-2-1986. terminou seu discurso de acusação no processo contra Zinoviev e Kamenev. o {iscai superior nos processos de expurgos stalinistas. La Nación. Bush anunciou "operações cirúrgicas" contra o terrorismo libio. 141. . 20. Também os declarou terroristas. um câncer aqui em nossa massa continental. 19. que procura se estender por vários meios. Die Moskauer Schauprozesse 1936-1938. 21 Em seu discurso perante o Congresso. foi progressivamente substituída pela referência ao câncer. Theo (ed. presidente do partido democrata cristão italiano: O regime sandinista é um câncer iníquo.18 Elliot Abrams. p. por ocasião da votação sobre uma ajuda de cem milhões de dólares para os "contras" da Nicarágua. 18 Ibid. Falou do perigo de "o câncer maligno em Manágua. San José. DTV. . San José. 1963. La Nación.mar Mediterrâneo. perante a Comissão de Relações Exteriores do Congresso dos EUA. Falou também da "tragédia" que pode significar permitir que "este câncer se estenda. Ibid. Reagan usou a mesma expressão.Durante o ano de 1985 esta referência ao adversário como lixo humano passou para um segundo plano e. 19 O vice-presidente George Bush chamava Khadafy de "cachorro raivoso" ao visitar o porta-aviões Enterprise no.. com a fiase: "fuzilem-nos como cachorros raivosos". chamou a Nicarágua de: . George Shultz. Reagan se apresentou também como cancerólogo. Miinchen. deixando meu sucessor perante decisões 16. San José. se converter numa ameaça mortal para o mundo inteiro". O "cachorro com raiva" tem história. La Nación. etc.. sugeriu que é pior ser comunista do que "bandido ou malfeitor". Esta é ainda hoje a referência mais comum. .20 Alguns dias antes dos ataques aéreos à Líbia.). . Wischinski.. secretário de Estado adjunto para assuntos americanos.. 14-4-1986.. 17. . 10-4-1986. 22-3-1986. 15-4-1986. Ver PIRKER. dando aos processos de expurgo o caiáter de processos antiterroristas. 20-12-1985. 21.16 Depois declarou na Universidade de Kansas: A Nicarágua é o câncer que nós devemos extirpar.17 A ele se juntou Flaminio Piccoli. que tem a fatal necessidade de exportar sua revolução. a partir de setembro de 1985.

Mais tarde os cristãos se referirão. enquanto os outros continuarem vivos. na linguagem totalitária. Manágua. John Locke pedia que os adversários fossem tratados como "bestas selvagens". que surge do extermínio dos adversários: Deixaremos uma América segura. deixaremos uma América livre. interpretada em termos de uma tecnologia social.23 Depois dos ataques aéreos à Líbia. contagiarao o perigo". San José. Reagan acusou a Nicarágua de "procurar construir outra Líbia" nas portas dos EUA. p. in: TAMEZ/TRINIDAD (ed). vivos e mortos. The Origins of Totalitarianism. mas. segundo este mesmo esquema. Todos têm um senhor que dirige esta conspiração mundial. o anúncio de tratar a Nicarágua Por trás de todas estas ameaças. 1975).24 Isto. O precursor mais importante é a Inquisição da Idade Média. Costa Rica. porém. . Tomo I. Franz J. Este tipo de referência ao adversário é na realidade muito velha. No século XIX e XX os papas chamaram os movimentos marxistas de "pestilentos" e "essencialmente perversos". utópica de uma luz que procede significa nada mais do que como foi feito com a Líbia. 24. deixá-la-emos como o guia iluminador de sempre para a humanidade. Em todos estes casos se trata de tirar do adversário sua dignidade moral. "El Dios mortal: Lúcifer y la Bestia: la legitimación de la dominación en la Tradición Cristiana".22 Conclamou ã "levar a democracia a seu país e eliminar esta ameaça comunista desde a raiz". Não tolerará "o que equivale a atos de guerra contra o povo norte-americano". com os suplícios eternos". Hannàh. 23-4-1986 . 19-3-1986. não há nada suficientemente cruel e qualquer decisão que tomarmos é humanitária e compassiva". Europe's Inner Demons San José. Mas o Reino do Mal está em toda parte. 1951). Esta tem lugar no mundo inteiro contra a "cidade que brilha nas colinas". DEI. brilha a utopia antida destruição das trevas. Norman. San José. Barricada. como luz eterna diante de todas as nações. que usa pela primeira vez a societas perfecta — aplicada à Igreja — como ponto de partida do terror (ver' HINKELAMMERT. Já Cícero chama os partidários de Catilina de "lixo" e seu movimento de uma "enfermidade da república (que) será aliviada matando este. contra o "guia iluminador de sempre para a humanidade". Nicarágua também está e Cuba está em toda parte. que leva a níveis desconhecidos de terror (ver ARENDT. antes de agir contra ele A novidade de hoje é que isso é derivado de uma interpretação da sociedade como societas perfecta. a seus próprios adversários Também a Inquisição chamava os movimentos hereges de "úlceras". La Nación.. . Capitalismo: violencia y anti-vida. e conclui com uma oração a Júpiter: "Castiga-os. 23. New York. contra "a luz eterna diante de todas as 22. Como contraponto utiliza novamente o brilho utópico. " . Cícero fala do mesmo modo que Reagan fala dos sandinistas: " H á algum erime ou maldade que ele não tenha tramado durante os últimos anos?" O império romano se referiu desta mesma maneira aos cristãos de seu tempo. Ver também COHN. Líbia está em toda parte.muito mais agonizantes nos anos vindouros". 200-313.

o Cabo da Boa Esperança. O antiutopismo. não é mais do que uma projeção que serve para erigir a ditadura da segurança nacional dos EUA sobre o mundo inteiro. e muitos outros. o Estreito de Cingapura. o Belt. não é instituição.nações". são. Pontos do globo. Deste modo. por exemplo: o Canal do Panamá. seus interesses estão ameaçados. China em 1973. Também a abolição dos direitos humanos e a negação do valor do próprio homem foram baseados na analogia do câncer. é impossível evitá-lo através de garantias institucionais ou de direito formal. a fabricação da conspiração mundial. Portanto. Hoje já não pode haver dúvida de que também a democracia burguesa — entendida como instituição — de modo algum é uma garantia contra o totalitarismo. a qual é preciso combater através de negação ativa. é fundamentada de uma maneira surpreendentemente semelhante ao que ocorreu com as ditaduras anteriores de segurança nacional. que deram a base para a aparição da utopia antiutópica. do terror antiterrorista e do Estado absoluto antiestatista. mas que agoia são considerados como um câncer1 no corpo da humanidade. O conceito desta institucionalidade perfeita é derivado das relações sociais de produção dominantes em cada caso . sempre se tratou do mesmo método. agora se anuncia como política mundial o que antes era política nacional de alguns países. Gibraltar. que está em frente do espelho. passando da técnica social derivada desta institucionalidade perfeita para o terror social. 25 25 O totalitarismo do qual estamos falando é uma espécie de espírito das instituições. os Dardanelos. que também são completamente reais. Indonésia em 1965. Guatemala. onde. Mas. na qual o lutador. O totalitarismo reduz o sujeito a uma única relação social e o isola ao fazer a institucionalidade perfeita parecer a única necessária. Contudo. Argentina. uma vez que todas estas expressões utópicas se referem aos Estados Unidos. Uruguai. Sempre se anunciou a necessidade de extirpar um câncer. Ele pode se desenvolver tanto dentro de suas instituições como dentro de outros tipos institucionáis: Entendemos aqui por totalitarismo um movimento que polariza radicalmente o mundo a partir da imaginação de uma institucionalidade perfeita. Realizasse uma luta em frente de espelhos. segundo o governo dos EUA. o Canal de Suez. Esta ditadura se estende e a conspiração mundial se torna sua fundamentação fictícia e mítica. que nos ameaça. Esta ditadura mundial da Segurança Nacional. os interesses nacionais dos EUA estão ameaçados em toda parte. é completamente real e luta em nome de sua imagem contra outros. o antiterrorismo e o antiestatismo sempre foram as miragens dominantes. Contudo. Filipinas.

totalitários como as ditaduras militares do Chile. Deste modo é integrado no totalitarismo como um de seus instrumentos ideológicos de luta. Na justificação da injustiça mais absoluta. 1951). Argentina e Uruguai. A tentativa de uma ditadura mundial por parte dos EUA deriva seu poder desta disposição. No movimento totalitário atual. Parte desta lenda é a crença comum i a . o que o impede de passar por cima de uma simples descrição de sistemas políticos determinados. Sua institucionalidade perfeita. Jamais o foi. jamais podem ocorrer no sistema social no qual o autor vive. Assim. por necessidade intrínseca.. É uma lenda crer que a fé em Deus e a moralidade tenham alguma correlação a priori Também a imoralidade absoluta pressupõe a fé em Deus. que os nazistas . era a planificação. 1956). o Todo-poderoso e a Providência. Cambridge. aparecem especificidades ligadas ao fato de os EUA serem o primeiro poder militar e atômico do mundo. Portanto.Tratando-se agora da ditadura mundial da Segurança Nacional dos EUA. ao passo que pela mesma razão dedutiva o próprio sistema jamais o possa ser Friedrich soluciona o problema fazendo-o desaparecer através de uma definição arbitrária. São escolhidos arbitrariamente critérios que valem para o adversário político e que. mas também òs regimes de . New York. Jeane Kirkpatrick popularizou este conceito de totalitarismo na América Latina com o resultado de que há regimes. a institucionalidade perfeita se tornou o mercado projetado como mercado total que isola o sujeito reduzindo-o exclusivamente às relações do mercado. não é ele tão todo-poderoso como aquele que a criou? 26 Dentro da sociedade socialista o totalitarismo stalinista surgiu a partir do conceito de planificação perfeita. portanto. Este conceito de totalitarismo se baseia na teoria de Hannah Arendt ( T h e Origins of Totalitarianism. Baseado na teoria de Friedrich. tudo é lícito" pode também ser invertida. constituindo sua sociedade totalitária como sociedade de guerra. 26 A fé em Deus é precisamente a base para a credibilidade da disposição ao suicídio coletivo da humanidade. Na sociedade capitalista o primeiro movimento totalitário ocorreu no nazismo alemão que derivou sua institucionalidade perfeita da imagem de uma pureza racial. Friedrich parte de critérios institucionais. no mesmo sentido no qual todo este movimento parte de simples negações. portanto. A frase de Dostoyewski: "Se não há Deus. Aquele que destrói a criação. Se o poder todo-poderoso do criador é o poder de criar o mundo. Realmente. o totalitarismo atual pode se apresentai como luta total contra o totalitarismo. embora não o fosse nos termos atuais do conceito. É contrário ao conceito de totalitarismo de Cari J. como conseqüência das relações socialistas de produção. Se há Deus. Massachusetts.fizeram. Crer em Deus torna possível dar ao suicídio coletivo da humanidade uma . Brzezinski (Totalitarian Dictatorship and Autocracy. com necessidade dedutiva pode denunciar o adversário político como totalitário. tanto mais se mostram dispostos ao suicídio coletivo da humanidade e podem tornar crível este fato. desempenharam um papel central o Deus senhor da história. que se autodenominava totalitário. El Salvador e Guatemala são chamados regimes autoritários e libertários. depois do fascismo italiano. perde o valor crítico que tem na análise de Hannah Arendt. Este poder todo-poderoso é igualmente negativo. Quanto mais os EUA interpretam sua política através de mitos e se emancipam da realidade. Deste modo o conceito de totalitarismo é transformado em elemento de polarização totalitária do mundo. Friedrich e Zbigniew K. torna-se possível a imoralidade mais absoluta.América Latina e nos Estados Unidos segundo a qual o nazismo foi ateu. assim o poder todo-poderoso destes mitólogos é poder destruir a criação. nenhum regime totalitário se deu este nome Já os nazistas rejeitaram o nome totalitário para seu sistema e o chamaiam de autoritário.

.(o cardeal) não tocarão os inimigos. Las armas ideológicas de la muerte DEI. Estas pressupõem o reconhecimento pelo menos de fatos políticos. Mas já não há solução militar. abril de 1986. depois de havei Deus ciiado o mundo em sete dias. vive" (Nüevo Diario. As frases citadas do bispo Vega levam ao suicídio coletivo' da humanidade se forem aplicadas a esta humanidade. Algo pãrecido ocorreu na Grécia depois da II Guerra Mundial. o que faz morrer o homem. vez? Desta maneira a crença em Deus se transforma na justificação da irresponsabilidade mais absoluta. não fala. Ver HINKELAMMERT. San José.Desta maneira. vai contra qualquer humanismo. 36-37. era preciso o reconhecimento deste fato político por parte dos poderes ocidentais. mas a ele . sem corpo. Também pòderià ter organizado "contras" para sangrar a Grécia. motivado por uma tradição apocalíptica. ao passo que os sandinistas matam a alma.deste movimento. mas. p. como o áfirma Dostoiewski. porque -é . Mas foi reconhecido um fato político. .. San José. . para sangrar a União Soviética sem deixar jamais terminar a guerra civil. quando o primeiro poder mundial deixa de reconhecer fatos políticos e dissolve a política na idéia da realização de um mito.. não pode repetir está criação uma segunda. O bispo Pablo Vega. DEI. diz: "Há agressão militar. da perfeição. da mesma maneira como fazem hoje os Estados Unidos na Nicarágua. Costa Rica.em nome próprio. No entanto. Os partisans perderam e a União Soviética do tempo de Stalin reconheceu este fato político. 14 de julho de 1985). n. Ftanz J . 36). . Quer dizer.um escolhido dò Senhor . Por exemplo: " . Depois da vitória bolchevique na Rússia em 1917. Manágua. que tem suas raízes na disposição ao suicídio coletivo da humanidade. Revista Pasos. 2» edição revista e ampliada. A vida do Cardeal Obando é um espelho onde a glória de Deus se reflete. a relação entre teísmo e ateísmo se torna mais completa. A fé em Deus somente pode ser libertadora se parte da afirmação da vida corporal presente" Caso contrário. Manágua... Eles podiam ter criado "contras". por outro lado.o Senhor " (La Prensa.Conclusão Novamente estamos defronte de um movimento niilista. Ver a análise de Pablo Richard: La Iglesia de los pobres en Nicaragua. precisamente o ateísmo é incapaz de racionalizar o suicídio coletivo da humanidade" como realização do homem verdadeiro. Ele pode sei declarado como vontade de Deus e. sem o qual o homem pode viver. mesmo que viva Essa é a apologética do genocídio desde a Inquisição medieval. Possivelmente já nem reste a solução das guerras nacionais de libertação. o homem sem alma não vale nada mas. dissolvem-se os racionalidade apaiente. 5. Ela seria a realização da meta — possivelmente ainda inconsciente —. obviamente.-há -também agressão ideológica e. Costa Rica. Desta propaganda do genocídio surge a imagem gloriosa. seu Harmagedon tão ansiado. mas por sua boca fala . 13-3-1986). n. os "contras" matam apenas o corpo. que nesta teologia da Contra não é da instituição perfeita mas da personalidade perfeita: "Caitão mil à sua direita e dez mil à sua esquerda. 1981. No entanto. presidente da conferência episcopal da Nicarágua.. Isso se repete constantemente. é pior matar a alma do que o corpo" (Amanecer. O ateísmo certamente pode levar ao "tudo é lícito".

o marginalizado. Contudo. não é levada em consideração como sujeito de nenhum direito. que é preciso extirpar. deve ser possível dizer que homem é preciso respeitar através desses direitos. seja um homem. um nada que grita e que pode fazer desaparecer *o mundo em seu abismo. Deixa de haver fatos políticos e tudo se dissolve num movimento agressivo. ou até de fatos reais. porque não incluem aqueles seres humanos que não são considerados como homens. Dado que as armas pouco servem. pode depois facilmente reconhecer direitos humanos. Antes de poder falar de direitos humanos. É preciso voltar a constatar que nenhum homem é lixo humano. qualquer resistência precisa de uma meta. portanto. Que sentido tem falar de direitos humanos quando o poder maior e mais importante de nosso tempo declara grupos humanos inteiros como um câncer no corpo de povos ou da humanidade? Não é Óbvio. Tudo isso é uma novidade absoluta dentro da civilização ocidental.próprios fatos. deixa-se de perceber que uma grande parte da humanidade não é mais considerada como seres humanos e ela. que o pobre. e nunca foi. Quem chama seres humanos de câncer. até a consi- . Desde a consideração de que a população original da América é composta de seres sem alma. Muitas declarações de direitos humanos incluem de fato apenas uma parte da humanidade. Falando-se apressadamente dos direitos humanos. portanto. e também aquele que resiste. deve tratar-se sobretudo de uma resistência civil. Um câncer não é um ser humano e portanto não é válida paira ele a declaração dos direitos humanos. É fácil — e além disso é tradição centenária européia e norte-americana -— fazer declarações de direitos" humanos com a condição de que nem todos os seres humanos são realmente tais. tem que sei sumamente elementar e terá como suposição a atividade de oposição nos próprios países centrais. Uma solução. Isso pode significar que o mundo torne a sei diocleciano para aqueles que fazem resistência. que nenhum é cachorro raivoso ou besta com rosto humano. que ninguém é parasita ou se encontra no nível dos piolhos ou pulgas e que ninguém é um câncer no corpo da humanidade.

continua havendo uma perspectiva de desenvolvimento futuro que dá sentido ao protesto contra as violações O totalitarismo dos regimes da segurança nacional. Perante o totalitarismo não existe aquele sujeito pressuposto no protesto pela violação dos direitos humanos. Realmente não existe. Falta apenas desenvolver o mercado para o mercado total. Onde não existem direitos. 27 Esta situação dificulta a discussão sobre os direitos humanos. o acesso a elas para-grupos humanos determinados. para ter todas estas conseqüências.no caso dos presos políticos. na qual o automatismo do mercado é o mecanismo central de regulação. Os lugares de tortura e de aniquilamento formam o caminho para a morte. há uma linha contínua de nossa tradição. porém. Isto pode ser notado especificamente ná limitação dos direitos humanos aos direitos humanos liberais. Isso implica um conflito com a sociedade de mercado. Embora violados os direitos humanos. Isto significa que apenas podem ser garantidos os direitos humanos se for concedido a todos os homens serem legitimamente sujeitos de possibilidades concretas de vida.deração de seres humanos como infra-humanos ou como lixo ou câncer. o sujeito mesmo de tais direitos continua existindo.27 Há um processo de solapamento interno dos direitos humanos. Está na essência da sociedade do próprio mercado fazer estas possibilidades concretas de vida depender dos resultados do mercado e impedir. portanto.. A existência de presos políticos pressupõe um reconhecimento de sujeitos cujos direitos são violados. Tampouco exercem um papel importante os campos de concentração ou prisões no sentido clássico do século XIX. Ninguém pode ser homem sem ter as possibilidades concretas para viver. cuja tendência é impor o automatismo do mercado como base da ordem social. direitos não são violados. Isso se torna visível . Onde avança o totalitarismo na América Latina quase não há presos políticos. apaga o próprio sujeito. tirando-a dos outros. Isso supõe inevitavelmente as condições materiais de vida. O homem não é sujeito por natureza. mas chega a ser sujeito no caso de ser reconhecido como tal numa relação social mútua Na discussão sobre o totalitarismo apenas Hannah Arendt pronunciou esta perspectiva. O mercado deixa apenas para alguns a possibilidade de sua realização humana. Portanto. estes marginalizados aparecem como seres não completamente humanos. que parte da consideração de grupos humanos inteiros como não-humanos. sem nenhuma publicidade. Os perseguidos desaparecem no buraco negro dos aparelhos policiais. . Dado o fato de que o mercado tira automaticamente as possibilidades concretas de vida de grupos humanos inteiros.

isso implica o controle do mercado através de um plano global. através de um intervencionismo planejado. que pode dar a todos os homens a possibilidade da integração econômica para poderem chegar a ser sujeitos concretos. a superação do automatismo do mercado é a condição para fazer a vida de maneira que seja possível conceder a todos os seres humanos a dignidade humana e podê-los ver e tratar como sujeitos de direitos humanos. . Contudo. quer dizer.Por esta razão.

A confiança exigida elimina a dialética entre o desejável e o possível. tendem a esvaziar a substância da pergunta acerca dos sacrifícios humanos. só planificação — procuram direcionar caminhos únicos e exclusivos. A economia de mercado e também a planificação omnímoda da economia incorporam teorias sacrificáis. Ao prometerem a melhor e mais eficiente realização do bem comum e da felicidade humana. O horizonte utópico fica eliminado mediante a utopização das formas institucionais próprias do paradigma imposto. Como conjugar o planejamento de prioridades sociais com a valorização da iniciativa econômica de um modo tal que se minimizem os sacrificios de vidas humanas? A própria discussão serena dessa pergunta se tornou sumamente difícil. porque só o que é admissível dentro do paradigma escolhido pode ser efetivamente desejado.IDOLATRIA DO MERCADO E SACRIFÍCIOS HUMANOS (Hugo Assmann) 1. ECONOMIA E SACRIFICIO DE VIDAS: ENFOQUES DO TEMA Estamos entrando num tema exigente e complexo. A pretensão de exclusividade e validez universal faz com que a eliminação dos estorvos do caminho. legitimados com promessas messiânicas. se transforme em operação ne- i j J \ . Já analisamos como as linguagens econômicas usuais tendem a tornar irracional qualquer debate sobre os assuntos implicados nessa questão. Os paradigmas econômicos totalizantes — só mercado. declarado o único transitável. A própria promessa do melhor dos mundos possíveis procura aprisionar os sonhos do desejável dentro da estrita observância daquilo que a pouca elasticidade do paradigma permite.

qualquer rediscussãó de metas desejáveis que não estiverem de acordo com ò que já ficou determinado como única viabilidade. a usurpação de uma pretensa racionalidade econômica por parte do paradigma do mercado só foi possível porque se conseguiu impor. Ao incorporar uma pré-definição precisa do sentido admissível. A rigidez'dõgmática desse paradigma se enfeita com promessas que jamais poderão ser cumpridas no interior da sua lógica. sem qualquer violência à natureza humana. 1 Nossas reflexões. Ver HINKELAMMERT. aspiram a uma significação' máis geral. que configuram o que. nosso foco de atenção se deslocaria evidentemente para as implicações sacrificáis de semelhante modelo. Violência implacável e o sacrificialismo intrínseco desse paradigma. a economia de mercado procura invalidar.. tem um predomínio absoluto na América Latina. como paradigma. em nome de uma determinada "racionalidade econômica". Desde a ótica dos países capitalistas dependentes.cessária. Pelo contrário. mas estão ligados aos mecanismos que o constituem e também à ideologia que procura legitimá-lo. em termos de realidade econômica. Se o nosso contexto fosse de imposição rígida de uma planificação omnímoda e pouco participativa. Em seu bojo encontrámos embutida ümâ verdadeira teologia sacrificai. Daí a. 4: " O marco . '1. nas partes anteriores. que tem como cerne a forma na qual esse paradigma define a relação entre os homens como de natureza essencialmente competitiva. a nossa análise tinha que concentrar-se no paradigma da economia de mercado. O custo em vidas humanas se transforma em sacrifício necessário. Esperamos haver deixado claro. Franz J. embora se refiram predominantemente à economia de mercado irrestrito. cap. categorial do pensamento soviético" Crítica à razão utópica. através da aplicação de uma estrita racionalidade econômica. que não são uma conseqüência derivada ou secundária de imperfeições na sua implantação. uma reformulação total do "sentido possível" da vida humana em sociedades complexas. que não concordamos com aqueles que'interpretam o surgimento do paradigma do mercado como um processo espontâneo originado. conseqüentemente.

se trata de um sacrificialismo idolátrico."A história econômica mostra que a emergência de mercados nacionais não foi. muitas consciências desde a primeira infância. Somos da opinião de que a exigência do sacrifício de vidas humanas é parte constitutiva da peculiar forma de idolatria a que esse paradigma obriga seus observantes. Não há dúvida de que podemos verificar. Isto significa que deveremos afinar a nossa reflexão sobre o problema da legitimação ideológica desses limites do possível. o máximo economicamente racional e. A grande transformação. portanto.. vitimações inúteis. não poderemos darnos por inteiramente satisfeitos se não chegarmos ao cerne de uma perversa teologia subjacente a esse paradigma. Pelo contrário. Isto nos obriga a entrar em debate com outras maneiras de explicar implicações sacrificáis do paradigma do mercado e dos modelos econômicos particulares concebíveis dentro da obediência à sua lógica. realísticamente realizável. discriminações absurdas e destrui-' ções implacáveis. POLANYI. . o mercado foi a conseqüência de uma intervenção consciente. estabelecidos de antemão pela própria lógica dessa concepção da economia. procuraremos desvendar a teoria sacrificai diretamente implicada na própria teologia em que se apóia essa "religião econômica". por finalidades não-econômicas". no mundo de hoje. o menoscabo e inclusive a anulação de vidas humanas deriva diretamente da maneira como esse paradigma estabelece os limites do que se aceita como.2 Nosso enfoque buscará descobrir os fundamentos do sacrificialismo na própria essência do paradigma do mercado. e às vezes violenta. K. de forma alguma. 2. E se pretendemos atestar que. por parte do governo que impôs à sociedade a organização do mercado. p 244. O problema da paz mundial e as múltiplas possibilidades da destruição total da vida no planeta traumatizam. em última instância. por mais que valorizemos a contribuição de outros enfoques explicativos. Dito de outra forma. A extrojeção. um incremento alentador do rechaço a crueldades chocantes. o resultado da emancipação gradual e espontânea da esfera econômica do controle governamental. hoje.

7 "O hábito de evitar as questões sociais na teoria econômica está intimamente relacionado com a impressionante incapacidade dos economistas de adotarem uma perspectiva ecológica. . 1982. em: HENDERSON. Los crímenes de la paz. a poluição ambiental desenfreada e outros atentados brutais à saúde de grandes massas humanas foram revelando. a disseminação de práticas de terrorismo econômico e governamental5 e a ação ideológicopolítica do empresariado transnacional6. E as técnicas psicológicas de "engenharia social" de tipo militarista invadem a publicidade e áreas significativas das artes. ao longo de muitos debates entre economistas e ecologistas. lamentavelmente ainda pouco explorados. quando somados. 7. Cultrix. S„ The Washington Connection and Third World Fascism. Usos militares de la psiquiatría y la psicología México. BASAGLIA. 1987. HERMAN. . O debate entre ecologistas e economistas já se desenrola há duas décadas.DREIFUSS. 5. 1978. South End Press. num debate com estudantes num país rico. Nueva Imagen. p. Rene. Creating Alternative Futures New Yotk. . O ponto de mutação. Guerra. o quanto a ciência econômica é refratária a qualquer questionamento sério nesses assuntos. 8. Ed.. The Real Terror Network Boston. Siglo XXI. 216. México. 1979. Investigación sobre los intelectuales y los técnicos como servidores de la opresión. A destruição mais insana da natureza. Estrategias e táticas do empresariado transnacional: 1918-1986. 1986. Uma breve história dos debates entre economistas e ecologistas. CAPRA. São Paulo.). " A íntima conexão entre pesquisa científica. F. F (ed.8 3. tecnologia de ponta. A Internacional Capitalista. CHOMSKY. Boston. 63s. 4. The Political Economy of Human Rights. Rio de Janeiro. estruturas empresariais e militarismo nos revela um quadro sumamente alarmante./HERMAN.. a incríveis demonstrações reais dessa lógica sacrificai. Peter. e vem mostrando claramente que o pensamento econômico contemporâneo é substancial e inerentemente antiecológico". Putman. 3 A incorporação da ciencia e da tecnologia na trama de interesses do grande Capital 4 . redargüiu: "Enquanto as bombas não caem.Recordamos que. E„ S. 1977. 6. p. South End Press. persona y destrucción. fomos interpelados por um estudante da seguinte maneira: "E que podemos ainda fazer enquanto esperamos?" Ao perguntar-lhe que significava concretamente para ele esse "enquanto esperamos". WATSON. Hazel. 1982. eis alguns acessos fundamentais. Os orçamentos militares do mundo superam anualmente. N. toda a divida externa acumulada do Terceiro Mundo. Espaço e Tempo. E.

Os automóveis que o Brasil exporta levam equipamento antipoluidor. tem o mais alto índice de anencefalia (crianças que nascem sem cérebro completo) e disturbios neurocerebrais.. Bibliogr. com expressões fortes nos movimentos artísticos. na luta das mulheres. Neste sentido. . em novas propostas pedagógicas. Campinas. As ambigüidades dessa busca. opressão étnica. no Estado de São Paulo. H. Papirüs. no lugar que. por parte das grandes empresas transnacionais. G. 1987. vejase o espírito da seguinte colocação: "As centrais de energia. provavelmente terão muito a ver com a justa reação a resíduos. Antropologia do sofrimento Aparecida. ainda não suficientemente decantados. caberia destacar a multifacética luta contra a "tolerância repressiva" (Marcuse) e a busca de uma "racionalidade não-repressiva". em: LEPARGNEUR. quando existirem. opressão da criança e do menor. As industrias químicas transformaram Cubatão. A assunção positiva do nexo corporal na convivência humana é um elemento central do núcleo de critérios anti-sacrificais que se pode resumir no primado da produção social da vida. que deveria estar incluída em qualquer proposta libertadora. os destinados ao mercado interno. Dirão que é culpa das leis do país. 1985. 9 Entre os ingredientes do novo contexto.)..Os países do Terceiro Mundo foram transformados num vasto cenário de experimentos. "La economía de la fe". refinarias de gás e petróleo e todos os novos descobrimentos em energia se vêem invariavelmente obstaculizados e postergados com o pretexto de salvar vidas e proteger o meio ambiente". que a legislação dos países ricos já tornou impossíveis. no qual amadurece a crítica ao sacrificialismo inerente à economia. da repressão ao prazer e à própria corporalidade em versões distorcidas do cristianismo10 e com as formas peculiares de 9 GILDER. no mundo. testes ou permanência de práticas industriais. SP. Ed Santuário. n„ 28/1987. 17 (grifo nosso). como se elas não fossem influenciadas pelas pressões do poder econômico. não. etc. é fundamentalmente positiva a busca da "libertação do prazer" e da alegria de viver. Antropologia do prazer. 10. no combate a todas as formas de "opressões específicas" (racismo. p. Para que se sinta até onde pode chegar o cinismo. in: Estudios públicos (Santiago de Chile).

predominante nas instituições medievais. especialmente de Jevons. não salta fora dessa lógica. morais e institucionais. mas sobretudo da massa trabalhadora. Esta ênfase no prazer e na felicidade constitui certamente uma das chaves explicativas para a adesão tão pujante ao paradigma econômico do interesse próprio.domesticação e manipulação dos temas "prazer" e "felicidade" pelo paradigma econômico do mercado e pelas ciências sociais burguesas. Esta pequena digressão tinha como objetivo subtrair-nos à tentação de certos superficialismos que tentam . Também sob este aspecto vale a pena analisar coisas tão diferentes. o gozo disciplinado passaram. O antiprazer. a constituir-se em elemento acompanhante imprescindível num paradigma econômico que submete os homens à perversa infinitude do Capital. que é inexorável nas suas exigências de acumulação continuada. a abstinência. o disciplinamento dos servidores do Capital. Por isso. mas com fortes coincidências no "clima espiritual". eis o clima no qual arranca vigorosamente o espírito da modernidade. Malthus. na qual luxo e privação encontram lugar. assim como o Iluminismo e outras fontes do pensamento moderno se apresentaram como reação salutar à repressão institucionalizada do prazer. contudo. A pronta domesticação dessa positivação do prazer e da felicidade em novas normatividades rígidas (do racionalismo científico. a ideologia do progresso.) não nos deveria levar a perder de vista que essa bandeira foi alçada e continuou sendo desfraldada ao longo de toda a evolução do pensamento econômico até hoje. que se haviam transformado em fardo insuportável. a confiança na razão e a própria Reforma Protestante. passou a reger-se fundamentalmente por uma lógica antivida e o "sombrio pastor" R. o não-desfrute. É bom recordar que o paradigma econômico do interesse próprio. na aparência. com seu incentivo ao consumo suntuário dos ricos e ao disciplinamento feroz dos pobres. etc. como a paixão pela ciência. Libertar-se de injunções doutrinárias. do paradigma econômico. Bentham e todo o utilitarismo anglo-saxão preparam o caminho para as teorias "hedonistas" do valor dos neoclássicos.

apresentar a economia burguesa como uma racionalidade sombria. como glorificação definitiva do seu deus sádico. Akal Ed. Com esse discernimento. afirmando: " . uma necessária libertação da teologia de todos os ressaibos de antivida que se grudaram nas teorias teológicas. assumindo. p Manuel. como Janus. 11 Estas últimas observações contêm. na positivação do nexo corporal entre os homens. nascerá uma nova ciência do homem". em favor deles. entendida como meios para viver. não apenas o reclamo da vida. sem dúvida alguma. Se ela quiser. deverá saber afirmar sem ressalvas o prazer e a alegria de viver. isto é. porque todos os seus elementos constitutivos se desdobram em duas faces. com tanta razão no essencial. obviamente. .. 25. pelo outro. começando pelo tema central da redenção sacrificai. no enfrentamento nuclear final entre as forças do bem e as do mal. o que aqui se tentará analisar como penetrado de sacrificialismo inclemente sempre encontrou formas para tornar-se plausível como promessa de vida. primeiramente. Lindsay e outros) adotam hoje. torna-se válido e urgente lutar contra quaisquer sacrificialismos. o deus de duas caras. E em seus 11. da qual existem e persistem versões absolutamente horrendas. de cheio. "O prazer é o fundamento da prova de legitimidade de uma organização social e da pertinência de um saber sobre o homem". de fato. a libertação do prazer . 15. e a proposta evangélica do prazer e da felicidade. Ela é. . O predomínio da inexorável voracidade do lucro. MARTIN SERRADO. no dizer de Marx. por um lado. enfrentar-se criticamente às teorias sacrificáis embutidas na economia provavelmente terá que situar-se. . Portanto. farpas propositais na direção da teologia cristã. Talvez a forma extrema de sacrificialismo seja aquela que certos pregadores evangélicos fundamentalistas (ao estilo de H. sem pejo ou reticência: eles aspiram por um Harmagedon Sacrificai. Métodos actuales de Investigación social. Isto implica. 1978. quando a vontade humana de gozar puder controlar as instituições sociais. Madrid. É a este discernimento que deverão ater-se os que propugnam hoje. mas também um espírito que impregne e dê sabor a esses meios de viver.

PINY. na inexorabilidade da Inquisição. sacrifício celestial". segundo estudos recentes). que um estudo mais aprofundado do assunto poderia revelar interpenetrações assombrosas dos sacrificialismos repudiáveis da teologia com os da economia. cf. já que nossa atenção está concentrada nos sacrificialismos econômicos. Foi realmente mera casualidade que Hans Urs von Balthasar se referisse à pequena obra Paixão de Cristo —T. p. no entanto. num louvor sem fim. com os bemàventurados assistindo a uma eterna imolação sangrenta do Filho de Deus para continuar aplacando. Suspeitamos. em: THALHOFER. que imaginaram o céu como um eterno "auto-de-fé". Quais são os nexos entre o tipo de teorias da Redenção pregadas pelas Igrejas cristãs durante os últimos séculos e a estranha facilidade com a qual o paradigma econômico do interesse próprio e do sistema de mercado conseguiu digerir "imolaçoes necessárias"? O escritor norte-americano Gore Vidal destacava. Regensbuig. Roma. II modo secreto di amar Dio soffrendo e di amar sempre soffrendo sempre. na sanha das guerras religiosas. em extenso artigo difundido por um bom número de órgãos da imprensa em 1987. Valentín. Um exemplo estaiteeedor. 12 Não podemos senão tangenciar este gordo tema teológico. a ira infinita de Deus. Mais que em simples germe. Para ver a projeção disso para a "espiritualidade". a profunda relação entre a agressividade da política externa da Administração Reagan e da "Reaganomics" e a influência do fundamentalismo "harmagedonista" e apocalíptico nas convicções religiosas do Presidente. 1923. o eap.. Não se creia que somente eles abandonaram todos os limites quanto aos sacrifícios admissíveis. . Georg Joseph Manz.livros não faltam os mapas convenientes paia ilustrar geograficamente a previsão dessa hecatombe sacrificai.paixão do mundo de Leonardo Boff para alegar que sua 12. esta extensibilidade infinita do sacrificialismo estava presente no furor das cruzadas. Das Opfer des Alten und Neuen Bundes (mit besonderer Ruecksicht auf den Hebraeibiief und die katholische Messopferlehre). E a contemplação dos sofrimentos dos "condenados" chega a ser apresentada como intensificação da felicidade dos "raptados" à glória. A. e esteve também presente — por que não dizê-lo? — naqueles exímios peritos em liturgia. Tipogr Pontif delia Congregazione dei Riti. 1870. na caça às bruxas (que ao longo de três séculos vitimou alguns milhões de mulheres. sobre "O.. 200-220.

of California Press. como base de integração grupai ou tribal. 1981. Georges Bataille e Jean Duvignaud são referência obrigatória. etc. e a vasta literatura sádico-soteriológica dos fundamentalistas. 1983. Crueldad "versus" oblatividad o el ritual del sacrificio. 1974. sacrifício como festa utópica e "dom" esbanjador. mas tenha a vida eterna") ? Por que as pregações e canções do "evangelicalismo" insistem em introduzir nos meios populares uma soteriologia fortemente sacrificialista? Qual está sendo o impacto da leitura anti-sacrificialista dos Evangelhos de um René Girard nos biblistas? 13 Passando a outro tipo de enfoques. 1982.).14 É uma defasagem um tanto suspeita. p. Bilbao. Desclée de Brouwer. 1970 •— E confronte-se com SABOURIN. Salamanca. Paulinas. entre a imensa literatura existente acerca da prática e do sentido dos sacrifícios nos assim chamados povos "primitivos" e a escassa bibliografia sobre a vigência do sacrificialismo na economia. La croce e il nulla Milano. Albert. Mons.16 ("Pois Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho único. Jesús y Pablo ante la muerte. Los Angeles. pata resgatar dimensões dos sacrifícios "primitivos" não redutíveis à lógica produtivista da economia (a noção de "gasto" erogatório para restabelecer a harmonia com as divindades. Cristiandad. ao declarar às autoridades migratórias dos EUA que vinha para dar conferências teológicas. MALDONADO. LÉON-DUFOUR. contenha uma soteriologia acentuadamente imolacionista? Foi casual o fato de que um teólogo latino-americano. em prosseguimento de pistas abertas por M. ou com o niilismo "pós-moderno" de QUINZIO. The Rhetoric of Religión. prestígio e poder. Frankfutt/Berlin. Este tipo de abordagens ilustram 13. Adelphi. La violencia de lo sagrado. Nigel. e a excelente análise da "logologia sacrificai". Mauss. 197s. em DAVIES. Escrivá de Balaguer. ou na modernidade em geral. Sigúeme.teologia já não era "cristã"? É casual que a "Via Crucis" do fundador do Opus Dei. especialmente o irônico diálogo final entre Deus e o demonio acerca da obsessão sacrificai dos teólogos. 1969. X. em: BURKE. Existe um estranho descompasso.. A mensagem da epístola aos Hebreus. Por exemplo. 14 Ver bibliogr. Sergio. Leopoldo. VANHOYE. Safan bei Ullstein. Kenneth.. cabe uma rápida referência à vasta literatura sócio-antropológica sobre o tema. 1984. resistência ritual a esquemas meramente utilitários. Univ . Studies in Logology. der . Redención sacrificai. São Paulo. refacção de circuitos de "energia". Luis. o eterno desafio do sentido da morte. em termos meramente quantitativos. 363-372. para que todo o que nele crer não pereça. fosse solicitado a recitar de memória o famoso versículo Jo 3. Madrid. etnológica sobre o sacrifício. p. Liebe und Verzweiflung in der Geschichte Menschheit. Opfertod und Menschenopfer Glaube.

Tusqucts Ed. que poderíamos chamar de funcionais na linha da lógica econômica moderna. a nosso modo de ver. cap. " O uso de símbolos bíblicos em Marx". 17. "The Sacrifice of the God". Wilhelm. El sacrificio inútil. haveria que devassar uma abundante literatura. . HUBERT. porque os aspectos dos sacrifícios. Las lágrimas de eros.Otto Ranfc.. às vezes.a impossibilidade de enclausurai1 as experiências do sentido em racionalismos formais. O assassinato de Cristo. México.. " L a génesis del dinero a partir del culto sacrificial".. Teoria de ia religión. Barcelona.. 1981. que é o dinheiro.. "El sacrificio. Fondo de Cultura Económica. expiação. México. "El concepto de fetichismo en Marx".. presente. Mas quem buscasse aí uma análise da lógica sacrificai da economia moderna sairia frustrado. Geotges. embora não o tenha desenvolvido separadamente.. 6-60. 16. La estructura libidlnal del dinero. O intercâmbio mercantil pode ser analisado. Fondo de Cultura Económica.. 101-125 (sacrificio).). de alguma forma. a relação com a economia de maneira geralmente bastante difusa. H. apenas de relance.. n.. C„ et al. 1981. 1898. El erotismo. Martins Fontes. Barcelona. 47-68. Sacrifice: Its Nature and Functións. Madrid. sem penetrar1 suficientemente. BATAILLE. 1983. H. etc. supra III. REICH./MAUSS. ASSMANN. 1968. 2. Nueva Visión. 4*' ed. in: Cristianismo y sociedad. como "transcendência necessária" em relação ao puramente econômico. ÉSPARTACO. Norman Brown. BECKER. Paidós-Pomaire. Arg. o cap. especialmente na vertente psicanalítica. lean. de A.. 1977. seis. "Hegel. 77-94. Marx tinha uma sensibilidade aguda para este aspecto. cap. São Paulo.. embora a questão do "limite" do economicamente "útil" esteja sempre. a economia entra em cena como material adicional para ilustrar mecanismos inconscientes de culpa. 1964 (orig L'Année Sociologique. El filicidio. 1978. México. Londori. Cohén & West. não ocupam o foco da atenção. erotismo truncado e perversões do poder. retomado neste livro.. nos mecanismos específicos do paradigma do mercado. 10. Ernest. Arnaldo.15 Reflexões psicológicas sobre o sacrifício. 1982. Córdoba. a pista fecunda que representa o nexo que Marx estabelece entre fetichismo do dinheiro e do Capital e um sacrificialismo virtualmente infinito. 17 Horkheimer e Adorno nos legaram uma breve reflexão sobre o sacrifício como lógica embutida nas relações mercantis do capitalismo. DUVIGNAUD. Taurus. 1977 (ver ai lit. chegam a abordar. Horst. bibliogr sobre o dinheiro e o sagrado. " . M . DUSSEL. registremos. 5. Siglo XXI. esp. 1985. n. III. RASCOVSKY.. La lucha contra el mal. 85/1985. la muerte y el sacrificio". 32-56. cap. KURNIZKY. Enrique. M. 228-272 (Sade). Hogart. Dito de outra forma. Lo económico en Freud. p. Buenos Aires. 16 Sobre a dimensão sacrificai incluída nessa entidade "espiritual".

De modo que as relações mercantis funcionam como "racionalização do assassinato graças à apoteose do eleito". porque o mais poderoso. A profunda convicção desses autores de que o caráter secular (não religioso) da modernidade sirva de chave explicativa desses mecanismos de ocultamente dos sacrifícios reais é um ponto discutível. Sua análise. 18 Após haver . que este sacrificialismo não aparece. Theodor W . a mesma relação natural — ou de "naturalização da história" — que o sacrifício cumpre de acordo com as visões religiosas. O que é contraditório é rearmonizado. aberto (apenas parcialmente) o leque-de abordagens. 60s. nà simulação da igualdade que aparece no mercado. embora seja brutalmente real. em muitíssimos casos. isto é. . Os autores citados. Precisamente esta secularidade é a forma religiosa nova da modernidade. 1947. De maneira que o caráter sacrificai das relações de mercado é ideologicamente desmentido pela maneira como se concebe o mercado. que nos interessa profundamente para estabelecer melhor as características idolátricas desse sacrificialismo. a racionalidade formal é religiosa. segundo. Dessa forma.' Mas este aspecto. tanto pelo rito sacrificai como pelo ritual do intercâmbio. e por outra. é aguda quando mostra que as relações mercantis conseguem ocultar o problema do poder.gundo eles. as abstrações do interr câmbio encarnam. HORKHEIMER. por trazer embutida uma lógica verdadeiramente religiosa.apenas como o mais hábil e socialmente mais ativo e benéfico. em suas aparências. porque é ocultado pela forma em que os homens percebem essas relações mediante categorias-fetiche. O fetichismo das relações mercantis está composto de aparências e abstrações que ocultam as contradições e a destrutividade real do intercâmbio de um modo tal que tudo é recoberto por um manto reconciliador. que existe um sacrificialismo real embutido nas relações de mercado. Amsterdam. daquele que "pode mais". como uma seculaiização do sacrifício. não faz parte do foco de atenções de Horkheimer e Adorno no texto em referência. nos dão pistas para a percepção de dois aspectos: primeiro. p. Dialektik der Au/klaerung (Dialética do Iluminismo). Em outras palavras. portanto. porque é fetichizadora. para entrar no tema do 18. é visto. por uma parte. porém. possíveis e complementares. Max/ADORNO.

Estes são os sacrifícios inaceitáveis de um tipo de economia contrária à vida. Entrando um pouco mais a fundo no assunto. que sugerem vias de acesso para aprofundar aspectos do sacrificialismo na economia. mas tem as suas limitações.sacrificialismo da economia. (2) elencaremos. durante a . está materializada no próprio funcionamento da economia. quando a liberdade participativa e a flexibilidade dos limites estiverem garantidas. são os sacrifícios e as exigências de projetos históricos com opções sociais. ousaremos propor que a análise dos pressupostos teológicos da "religião econômica" talvez nos ajude a avançar ainda mais. do fato de que a ideologia. numa rápida seqüência. embora se disfarce em promessas de vida. na criação de consciências sensíveis ao sacrifício de tantas vidas. Outra coisa. Primeiramente diremos algo sobre como perceber a existência de ídolos cruéis na economia. Depois veremos que o repúdio a formas sacrificáis aberrantes e facilmente perceptíveis é importante. e as éticas funcionais que incorporam. uma palavra sobre como procederemos nas seções seguintes. 2. prestando atenção aos disfarces do processo vitimário na linguagem e nas teorias dos economistas. ou seja. são o melhor "material" para detectar os sacrificialismos. Por último. nos perguntaremos: será que os acontecimentos históricos. um certo número de tópicos. (3) tendo em mente as enormes dificuldades que enfrentamos sempre de novo. que oculta o processo vitimário. julgamos importante enfatizar uma distinção quanto ao próprio conceito de sacrifício. Num passo seguinte. OS DISFARCES DO PROCESSO VITIMÁRIO NA ECONOMIA Nesta seção procederemos da seguinte maneira: (1) uma rápida menção do disfarce estrutural. inteiramente diferente. Uma coisa são os sacrifícios inumanos que derivam de uma lógica econômica que é totalmente refratária à assunção consciente de metas estabelecidas com critérios que priorizam objetivos sociais. deveremos dialogar com aqueles que julgam que a própria racionalidade formal da economia (ou dos projetos econômicos).

Quem olha para o passado histórico. sugere uma possível ponte com o pensamento de René Girard. Será que a velha necessidade de "bodes expiatórios" — isto é. racionalizado e digerido. agora. de vítimas expiatórias que estabeleçam reconciliações — se metamorfoseou a tal ponto. até certo ponto. onde o entulho residual de ideologia vitimária teria que ser removido com urgência. admitida essa metamorfose da vítima expiatória por obra também (embora não apenas) do paradigma econômico. que outrora requeria processos ostensivos e publicamente assumidos. Transferimos a questão ao próprio leitor. que aquilo. pelo sentido comum de muitíssimas pessoas? Que fatos se poderiam mencionar em apoio a esta hipótese? Uma observação prévia: a linguagem que utilizamos ("processo vitimário"). A brevidade não nos permite elaborar este enlace. (1) Chamamos "disfarce estrutural" ao impedimento. encontra muitos exemplos de "disfarce estrutural" da violência. o necessário "Basta de sacrifícios!" adquire uma urgência e uma dramatiddade ainda maiores. além de justificável diante dos fatos. As guerras. Uma simples pergunta pode esclarecer. não apenas em termos de posicionamentos práticos. onde buscar essa ponte. que o próprio funcionamento "normal" e "natural" de um determinado tipo de relações sociais estabelecidas entre os homens representa para o surgimento de uma consciência social diferente daquela que legitima esse modo de perceber e viver a realidade. com sua incrível mobilização das consciências para aderir à legitimação do arrasamento do inimigo. se submergiu e integrou de tal modo no cotidiano das relações mercantis.imposição do paradigma do interesse próprio e do mercado. como necessidade óbvia. É facilmente perceptível o que isso implicaria para o cristianismo. surgem à . que se expressa em linguagem parecida com a nossa. mas também no plano doutrinário e teológico. que funciona agora como processo silencioso. no plano ideológico e no plano prático. permanente e praticamente inadvertido? Lançamos esta provocação porque. resultaram numa assimilação tão inédita do caráter inevitável de um sacrificialismo econômico a ponto de estar.

de procedimentos cruéis inteiramente legitimados. apesar da sua freqüência e brutalidade? É pensável um mundo no qual a guerra deixou de ser um recurso amplamente utilizável. E se fosse. conveniente considerar as guerras como recurso emergencial e transitorio para situações e propósitos específicos. Queremos apenas alertar para uma distinção fundamental entre legitimações ainda relativamente "autônomas" dos procedimentos. contudo. É este um bom exemplo de "disfarce estrutural". eram ainda "separáveis" dos procedimentos concretos. para as quais a violência apelava. porque se conseguiu impor a "paz" da dominação estabelecida? É a "pax romana" o único exemplo para isso? : A Conquista da América se processou mediante o emprego de uma violência inacreditável. teoricamente distinguíveis dos próprios mecanismos empregados no exercício da violência. interpretados. . esta não teria podido funcionar como funcionou. já que uma ideologia nunca existe apenas nas mentes ou separadas das circunstâncias.mente como o exemplo mais impactante. embora devamos proceder com muita cautela ao sugerir semelhante separação possível. sem ó apoio de justificações. Pareceria ser até o paradigma básico para a análise de quaisquer teorias sacrificáis. mas começamos a perceber que. e legitimações inteiramente identificadas com os próprios mecanismos de um determinado paradigma econômico. inclusive como mandato missionário de expansão do cristianismo. Os ideais. ou até desnecessário. Na mentalidade dos conquistadores tratava-se. podiam servir como bandeira para invalidar a violência empregada (como constatamos no ideário de um Bartolomé de Ias Casas e dos demais bispos "protetores dos índios"). as justificações. nas quais se enuncia. Em outras palavras. embora: se prestassem como ideologia aplicável aos procedimentos empregados. já que o próprio modo de pensar dos conquistadores via o processo vitimário da Conquista como legítimo e necessário? Onde se alojava essa legitimação? No ouro e na prata ou nòs ideais de civilizar e evangelizar? É claro que ambas as coisas são indissociáveis. não determinavam as formas e os mecanismos de implantação dos ideais (civilização e evangelização) propostos. ao que parece.desde o uso de outros procedimentos. Mas esses mesmos ideais.

nos seus detalhes concretos. A ideologia se encarna e materializa nos próprios mecanismos econômicos.Não há dúvida de que. No essencial. primeiramente. Os autores da violência efetivamente a consideravam como parte "normal" e "natural" da sua maneira de conceber o mundo. os mecanismos dessa violência em sua totalidade. Só que nos interessava mostrar (coisa em que Marx só nos ajudaria até certo ponto) que esse disfarce estrutural implica uma funcionalização bem determinada de elementos centrais do cristianismo. quando aplicada ao paradigma econômico em questão. a forma que a ideologia sacrificai assume quando se identifica inteiramente çom a formulação dos procedimentos econômicos. Surge um caminho único transitável. Trilhamos outros caminhos para mostrar como o paradigma econômico em questão retraduziu e incorporou valores éticos e elementos teológicos no interior1 dos mecanismos econômicos. do dinheiro e do Capital implicam numa introjeção da legitimação da opressão no interior dos próprios procedimentos e mecanismos qiie constituem o paradigma econômico. dois sentidos. no mínimo. ampliado no paradigma do mercado. A própria expressão "disfarce estrutural" admite. o que torna praticamente irrelevante que os atores este- . a violência era legitimada mediante constructos ideológicos que permitiam cotidianizá-la em grande escala. Mas ela não definia. Na medida em que isto é sustentável. de fato nos defrontamos com um "disfarce estrutural" de novo tipo. nos modos de produção anteriores ao capitalismo. nunca insistimos demasiado nessa análise feita por Marx. As próprias vítimas dessa violência internalizavam muitos aspectos dessa ideologia legitimadora. chegamos ao mesmo ponto: o disfarce estrutural do sacrificialismo. Pode significar. As margens de variação admissível se estreitam. Nele. Nos capítulos anteriores. Todo ò esforço teórico de Marx se concentrou em mostrarnos precisamente esta novidade: o fetichismo da mercadoria. É aí que a coisa muda substancialmente com a implantação do paradigma do interesse próprio. como em nenhum modelo de violência anterior. que apresenta como os únicos assumíveis e aceitáveis. os próprios procedimentos e mecanismos estão basicamente pré-definidos.

Enfim. seria interessante analisar quais as linguagens cristãs já engolidas pela lógica do paradigma. no entanto. a expressão "disfarce estrutural" pode referir-se ao próprio processo de cotidianização e "naturalização" do modo de pensar. em consonância com determinado paradigma econômico. com muitas ilustrações e dados concretos. analisando as linguagen nas quais a mentalidade se manifesta e que a codificam. Isto nos remete ao fascinante campo de pesquisa do instrumental lingüístico compatível ou cooptável. por exemplo. Num segundo sentido. Dito de outro modo. penetrado de dogmas. identificar algumas portas de acesso a essa lógica. em contraposição a linguagens perigosas ou inadmissíveis. insistindo na imbricação recíproca entre mecanismos e formas da consciência — mas é um assunto que pode perfeitamente ser analisado em si mesmo. São tópicos sintéticos que permitem visualizar tanto a realidade ou a presença efetiva do sacrificialismo. quais as que são tranqüilamente absorvíveis. nos limitamos a indicar algumas dessas portas de entrada. Em suma. Para entender-nos. A esfera do ideológico não se esvai completamente. Como se estabelece e como funciona o sentido comum das pessoas num mundo de relações mercantis? É um tema certamente não separável do aspecto anterior — estivemos. . o disfarce estrutural está nos próprios mecanismos e ele se cotidianiza como sentido comum. falemos de sinais ou sintomas que nos revelam que estamos diante de um processo muito complexo de disfarces do sacrificialismo econômico. confianças e absurdas ilusões. como as formas ideológicas que o disfarçam. Confiando na perspicácia do leitor. mas a sua autonomia se encolhe de maneira impressionante.jam conscientes ou não do papel que representam e do conteúdo real de suas ações. a relação entre a ideologia e os mecanismos práticos é tão estreita que se requer um enorme esforço para desvincular ou distanciar a consciência das práticas já operacionalizadas mediante mecanismos pré-definidos. Pode ser muito proveitoso. precisamente. (2) O disfarce estrutural do sacrificialismo na economia só pode ser desvendado mediante uma análise global da lógica do paradigma econômico. Cada exemplo que daremos poderia transformar se num longo capítulo. e quais não o são.

numa exclusão dos fatores não produtivos ou na secundarização dos menos produtivos. porque. se não se tem uma teoria do valor do trabalho. — O conceito de "fatores de produção" evoluiu ao longo da história do pensamento econômico. Basta-lhes teorizar sobre a formação dos preços no mercado. são muitos os ingredientes que devem ser tomados em conta em semelhante cálculo. a não ser mediante seu aproveitamento por parte do Capital. em alemão). — A partir dos neoclássicos. potencialmente. O que não é "empregável" fica. Em suma. ou "empregador". O resto fica "de reserva". aponta-se basicamente para uma valorizaçãoefetiva do trabalho como única fonte geradora de valor. O trabalhador não "tem" mais o seu trabalho. logicamente. Sua incorporação ao Capital é tal que tudo pertence a ele. afinal. os recursos humanos e os recursos naturais já não "se pertencem". o Capital passou a ser considerado como o fator de produção por excelência. porém. os economistas se interessam pouco por uma teoria do valor. Isto implica. É impossível levar a sério o primado do trabalho diante do Capital. encontrar a fórmula matemática para calcular a equivalência precisa entre tal quantidade de trabalho e tal valor econômico. logicamente. os sobrantes sempre foram um problema — à produção. Todo o resto só é visto ainda como fator de produção na medida em que o Capital o necessita. Nos clássicos. o j . sacrificado. necessariamente. Aos poucos.— Que implica o fato de que a natureza (recursos naturais) e o homem (trabalhador "liberado" e exposto ao "mercado de trabalho") sejam considerados como mercadorias? Significa que se incorporam ao Capital e à sua lógica. havia ainda uma forte preocupação com a reprodução dos fatores necessários — os não-necessários. Mas quem "lhe dá trabalho" em alguns idiomas chega a ser1 chamado diretamente de "dador de trabalho" (Arbeitsgeber. a vida dos homens se deslocou do centro da economia. Mesmo quando não utilizados. Isto não significa. No melhor dos casos tem um emprego. mas já não tem existência realizável. Quando se insiste na importância de uma teoria do valor-trabalho. Já nao se pertencem. Mas ele só utiliza o que lhe é de proveito.gerado pelo trabalho.

A única fantasia de guerra auto-regulá^_ vel. 1983. ainda. numa peculiar invalidação radical de qualquer filosofia. 23. Los mitos de Milton Friedman México. também. a lógica sacrificai do mercado é mitizada em toda a sua implacabilidade. O paradigma do mercado é um dogmatismo introjetado em mecanismos econômicos. cf. Mas os economistas costumam limitar-se a uma teoria dos preços. — As teorias econômicas sempre usam marcos categoriais (quadros de conceitos) que implicam num determinado recorte da realidade. que funcionam à margem de qualquer intencionalidade humana.). Diante de qualquer modelo de auto-regulação só é possível. "Nossa tese é que a idéia de um mercado auto-regulável implicava numa rematada utopia. a guerra atômica total. para poder desmontá-las. pensar numa teologia que trabalhe com as peças de montagem dessa suposta auto-regulação. O que não entra nessa realidade recortada 19 POLÀNYI. ou seja. é bom não esquecer. R„ (ed. . K. Pata vei como.. Diante da "religião econômica" torna-se impotente qualquer teologia que não seja. teologia que opera com categorias econômicas. ética ou teologia alternativas. CEESTEM/Ed. considerado como um fator. em nossos dias. nos custos de produção. É uma ficção. teologia do econômico. entre outros. até certo ponto. que implica na mútua destruição assegurada. Isto implica. sem detrimento da destinação de uma parte desse valor para a reprodução sociai da vida de todos e da sociedade.19 Nenhum general e nenhum exército jamais inventaram uma guerra auto-regulável. p. é o famoso MAD (Mutually Assured Destruction). Uma tal instituição não poderia existir em qualquer tempo sem aniquilar a substância humana e natural da sociedade". Já mostramos como isso implica uma lógica sacrificai. Nueva Imagen. O trabalho é.que deveria projetar-se na valorização do trabalho em termos quantitativos expressados nos salários. A grande transi armação. — Que significa falar de mecanismos auto-reguladores do mercado? Significa que a economia é dotada de "leis naturais". GREEN. um mito. Todos os dogmatismos são fantasias de auto-regulação.

não é opor-se ao crescimento econômico ou deixar de considerar a produção e o aumento da riqueza como um objetivo importante. aos poucos. quando Karl Popper intitula um livro seu A sociedade aberta e seus inimigos. Esse maniqueísmo só aflora de vez em quando (por exemplo. Quem. a exclusão de variáveis sociais e ambientais). como chave de solução para todos os problemas econômicos. Esses enunciados gerais costumam estar expressados numa linguagem que esconde o maniqueísmo da concepção básica. Acham que a natureza da concorrência e da iniciativa empresarial já contém mecanismos que asseguram uma distribuição de ingressos tal que todos. tem uma obsessão pelo crescimento econômico. e a inconsistência das teorias da distribuição no paradigma do mercado. (Num texto de Franz Hinkelammert. — Os disfarces do sacrificialismo na economia de mercado operam tanto nos enunciados muito gerais. — Não é revelador o fracasso de todas as teorias da distribuição elaboradas dentro do paradigma do mercado? Aliás. ficarão integrados nos benefícios. coisa de que acusam com frer qüência as Igrejas. Não se deve cair num distributivismo ingênuo. o fato de empregar um esquema rígido amigo-inirnigo.não é tido como real. A estrutura conceituai das teorias econômicas contém exclusões sistemáticas (por exemplo. ou seja. por exemplo. Confiam cegamente que a distribuição dos benefícios do crescimento econômico se dará de maneira espontânea. evidentemente. Enunciados gerais: economia aberta. economia livre de mercado. bem-mal. etc. esta questão dos marcos categoriais e seus respectivos núcleos de critérios é tratada com mais detalhes). como na forma como se apresentam as assim chamadas "leis" do mercado. Mas o ponto que aqui se destaca é outro: o desinteresse por. A solução. e por isso nem é tomado em conta. é um dos sinais mais evidentes do" sacrificialismo embutido nesse paradigma. incluído neste livro. Além das exclusões sistemáticas. existem as inclusões obsessivas. sociedade aberta. obviamente deve definir o desenvolvimento como simples crescimento econômico. muitos economistas nem se preocupam por elaborar teorias da distribuição. ou . dentro da própria lógica do modelo.

ou seja. Mas isto não elimina um limite físico ou. Só quem tem poder aquisitivo pode ter necessidades. A insistência nas certezas que se podem e devem ter acerca desse limite físico é um elemento central na fonte de critérios. índices de crescimento econômico. E muitos economistas querem ainda convencer-nos de que a demanda é o único meio para verificar necessidades reais. que se pode formular como produção social da vida humana real e concreta. O problema está na maneira como se concebem esses indicadores. camuflam aspectos fundamentais da realidade. — Qualquer levantamento de dados estatísticos requer um modelo de indicadores. por falta de ingressos. não é capaz de "procura". se quiserem. Ela se fundamenta numa visão muito peculiar do ser humano. Quem. um mínimo vital que sempre deveria estar na base de qualquer conceituação das necessidades humanas. o fator distributivo. A lei da oferta e da demanda está pensada sem qualquer referência a esse limite. e que não tem — ou não é tido em conta enquanto tem — necessidades. a quase totalidade dos assim chamados indicadores econômicos funcionam . que subjazem às estatísticas econômicas.quando se implantam fascismos em nome da defesa da "liberdade" do mercado). ela pressupõe que as necessidades reais dos homens não são o que realmente conta em economia. Taxas de rendimento per capita. Suas necessidades foram efetivamente sacrificadas sob a égide da lei da oferta e da procura. entendido como um estranho ser que só tem preferências e gostos. Aí não está o problema. acerca dos quais se reúnem dados.outros índices e taxas desconsideram. fica automaticamente excluído do circuito do mercado. Em suma. identificar necessidades com demanda significa operar com um conceito puramente tautológico: ter necessidades é ter poder aquisitivo para poder manifestar necessidades. É verdade que as necessidades humanas são diferentes em culturas e circunstâncias históricas distintas. sistematicamente. Mais: esse limite foi totalmente eliminado no conceito de homo oeconomicus. índices médios de consumo e tantos . E como ficam os que estão excluídos da capacidade de demanda? De resto. Exemplo de disfarce mediante uma "lei": a famosa "lei da oferta e da procura ou demanda". A maioria dos indicadores econômicos.

então. mais da metade da população passa fome. um dos maiores exportadores de carne bovina. de acordo com indicadores sociais. entre os indicadores econômicos. segundo os indicadores econômicos. costumam vigorar sobretudo os critérios emanados dos indicadores econômicos. que se chamam assim não porque tenham algo a ver com a aplicação de conhecimentos científicos na elaboração de produtos ou na construção de aparatos e máquinas. no caso o Brasil. em nome de soluções "tecnicamente corretas". Sucede. quando se elaboram estatísticas com indicadores claramente sociais. é a 56* economia do mundo. um modelo econômico pode tornar-se cruelmente sacrificai. internamente. em compa- . uma assimilação inédita do sacrificialismo econômico. (3) Agora a nossa pergunta é a seguinte: houve. começam a aparecer realidades tão absurdas como o fato de um país. somando isso a uma série de outros "êxitos" na exportação de alimentos. ainda se dá uma preferência absoluta aos que estão ligados ao incremento da exportação (para poder pagar os juros da dívida externa). tida como ciência autônoma. na verdade. o terceiro maior exportador de frangos.. Pode. É o economista que considera que sua disciplina. ao longo da implantação histórica do paradigma do interesse próprio e do mercado. sacrifícios de vidas humanas. na consciência de muitas pessoas? Note-se bem. que. ao ponto de este estar introjetado. porém. quando. como algo normal.como disfarces do sacrificialismo endógeno do paradigma. a pergunta já não é se o paradigma é sacrificai ou não. Poderão argumentar que isto não ilegitima os indicadores econômicos e que basta juntar uns com os outros para certas análises. mas se o seu caráter sacrificai foi assimilado de maneira inédita. na hora das decisões acerca da economia. em parte. se orgulhar de ser a oitava maior economia do mundo. é capaz de elaborar um receituário técnico de valor universal. Aí. A sua mentira aparece. Assim se praticam. um país orgulhar-se de ser o maior exportador de sucos cítricos. — Um dos disfarces mais comuns do sacrificialismo nâ economia são as famosas "soluções técnicas". enquanto. por exemplo. E quando. sem quaisquer considerações de outra ordem.

segundo. a regra básica. Comecemos com exemplos que revelam a profundidade do alojamento do sacrificialismo na própria maneira de conceber o caráter universalmente benfazejo do paradigma. K„. in Perspective Boston. de um número menor de pessoas tinha que ser aceita conseqüentemente". desde que surgiu como "credo fervoroso". muito brevemente. Galbraith nos recorda que o paradigma sempre se apoiou numa fé ilimitada no seu caráter redentor e salvífico. p 118 (grifo nosso) . Só queremos chamar a atenção para duas coisas: primeiro. os negros). sem tomar em conta se resulta em eventual sofrimento para a minoria. obviamente. sempre houve. a outorgação do direito de escravizar os "mouros" e. o paradigma do interesse próprio e do mercado auto-regulável é uma forma inédita de incorporação funcional da ética e da teologia no interior das próprias categorias econômicas (ponto no qual se insistiu mais acima). Como se sabe. a certeza de que os resultados benéficos finalmente triunfariam.ração com outros sacrificialismos aceitos ao longo da história humana. J. em estudos comparativos. GALBRAITH. por extensão. Muita coisa deveria ser lembrada a respeito disso. e isto. Por isso. 1987. agora. incluída a sua nota realista (sempre haverá alguns 20. Pode-se imaginar uma assimilação ainda mais profunda do sacrificialismo? Não pretendemos entrar. o sistema escravocrata havia sido assimilado tão profundamente nas consciências que até uma série de Papas emitiram documentos "concedendo" a governos "cristãos" o "direito" de transformar determinadas gentes em escravos (por exemplo. leva a um processo inédito de assimilação do sacrificialismo aí implicado. Houghtõn Mifflin . a digestão do caráter sacrificai desse paradigma se deu de maneira bastante singular. 20 Temos aqui uma formulação condensada do evangelho do paradigma. A infelicidade. Economics Co . era 'assegurar a maior felicidade para o maior número'. aqui. mas o leitor perspicaz encontrará a porta correta com uns poucos exemplos. e é a isso que nos vamos referir. mesmo se aguda. "Tudo O1 que promove um aumento da produção é útil ou benéfico. que seria repetida infinitas vezes.

Saúl (eds. 1978.. 22. 175. embora hoje talvez faça já algum sentido essa manipulação dos conceitos de maioria e minoria. F. O próprio Galbraith se esquece de analisar essa inversão dos números. sempre de novo. etc. Roberto Campos: " . que os já beneficiados são a maioria. Se não tivesse surgido como crença tão acendrada. Capitalismo: violencia y anti-vida.22 21 HINKELAMMERT. e confiado a mecanismos econômicos encarregados de uma suposta auto-regulação. os sacrifícios inevitáveis se encobrem ainda. La opresión de las mayorías y la domesticación de los dioses DEI. Nele. porque assim foi por mais de um século também na Europa. a história do capitalismo ocidental. " E l dios mortal: Lúcifer y la Bestia La legitimación de la dominación en la tradición cristiana". . Só para sentirmos com que naturalidade se dizem as coisas. Nórdica. basicamente. CAMPOS.).). Quando se entende o vigor desse evangelho. eis algumas formulações. Certamente tampouco se explicaria a constante inversão dos números: fala-se. Falamos em constante. que será objeto dos -benefícios num futuro não distante. como uma constante. Não se creia que estejamos exagerando. precisamente como evangelho embutido em. que supõem saltos rápidos no tempo. Roberto. começam a predominar as razões econômicas. se propagou e teve acolhida. Elsa/TRINIDAD. compreende-se também que tenha sido assumido com entusiasmo e com júbilo redentor. com esse tipo de características. Esta é a convicção que se alojou.poucos sacrificados. passando-se depois a uma fase de desigualdade estável e finalmente a uma melhoria distributiva". essa mentirosa inversão dos números é uma acintosa distorção da realidade. Mas ela se mantém como anúncio impetuoso.. e os sacrificados são uma minoria. o credo jubiloso da "religião econômica". 21 Prevalecem ainda os argumentos políticos. no qual inicialmente se agrava a desigualdade na distribuição da renda. Quanto aos países do Terceiro Mundo. teria sido muito mais difícil confrontar-se com os constantes desmentidos factuais dessas promessas. 1988. Posteriormente. com a "razão de estado". Guia para os perplexos Rio de Janeiro. p. in: TAMEZ. Hobbes seria uma parada obrigatória. . Os testemunhos históricos atestam que lealmente surgiu. O "deus mortal" é também mortífero. e em perspectiva mundial ampla. Se fôssemos remontar às origens do sacrificialismo na modernidade. de caráter universalmente benéfico. 199-314 (sobre Hobbes. infelizmente ).

73-82. F . M. 2 3 . . p„ 202. que a otimização devia enquadrar-se nesse esquema. ou seja. segundo. está) baseada no pressuposto de que o bem-estar social seria maior se a satisfação de alguns indivíduos pudesse ser aumentada sem diminuir a de outros. op cit. Washington. Capra comenta: " . Em outras palavras. 'escorrerá aos poucos' para os pobres". um tanto macabro. . Este objetivo pode ser alcançado sem que os ricos se tornem mais pobres. As sociedades ocidentais (incluindo os Estados Unidos) demonstraram que é possível uma significativa melhoria na condição dos pobres. sem grandes mudanças na distribuição das rendas: os pobres podem perfeitamente ficar mais ricos sem que os ricos deixem de enriquecer ainda mais". a distribuição foi praticamente igual". . 24 Se a brevidade não o proibisse. tem dois pressupostoschave: primeiro. in: NOVAK. a famosa "teoria da otimização" de Vilfredo Pareto. Peter. eu não suponho a necessidade de nivelar a distribuição das rendas. AEI. .). apoiando-se em critérios de apetência e tolerância subjetivos. BERGER. 1987. qualquer mudança econômica que fizesse alguém melhorar de vida e ficar mais próspero sem fazer ninguém piorar de vida e ficar mais pobre seria desejável para o bem-estar social". que. 25 Liberation Theology and the Liberal Society cit. que a desigualdade social é um fato normal e como tal deve ser vista. CAPRA. Segundo Galbraith. 23 Segundo Keynes: " o investimento estimulará o crescimento e aumentará a riqueza nacional. .Peter Berger: " . a teoria da otimização (de Pareto. chegaram a construir elaborados mapas e curvas acerca de "unidades de dor" e "unidades de prazer". op cit. 24 Apud CAPRA. F.. DC. (ed.. especialmente entre os seguidores de Jevons. poderíamos entrar no assunto. Em outras palavras. p„ 194. F . p. 25. em todos os tempos. "Undeidevelopment Revisited". já que "em todos os países. a mortandade por fome deve terminar e os pobres precisam aumentar sua riqueza. que. que a teoria do equilíbrio tem que basear-se nesse dado histórico. de alguns neoclássicos. 77. . finalmente. também conhecida como "lei de Pareto de distribuição das rendas".

cit. porque cit. mas nunca mais estaria novamente. p. O fato é que. nosso dever moral seria. CAPRA. segundo muitos economistas. "(em John Stuart Mili) encontra-se a notável afirmativa de que.. individual ou coletivamente. mas quase todos nós estaríamos a um metro do chão". cuidar que tal produto seja destinado aos que dele mais necessitam ou mais o merecem. Mas John Stuart Mili estava cientificamente equivocado. ocorre em bases puramente tecnológicas. op. cf.. o produto poderia estar lá uma vez.26 A distribuição assimétrica da riqueza nos Estados Unidos inspirou a Paul Samuelson uma comparação ilustrativa: "Se fizéssemos hoje uma pirâmide de renda com cubos de jogos infantis de armar. que caiu no equívoco de pensar que. 216. K „ op.. em que cada camada representasse mil dólares de renda. cit. é possível pensar na sua melhor distribuição. Então. está disponível e podemos utilizá-lo da forma que mais nos agrade. a humanidade. 194. Mas. cit.. op . e comentário em CAPRA. uma vez que os produtos existem.. que. obviamente. segundo ele.Como se pode notar. Se isto fosse verdadeiro. 27 Do seu compêndio Economics. Não se precisa cair num igualitarismo impraticável para dar-se conta de que semelhantes crenças vêm em apoio a desigualdades inaceitáveis. F. A razão é muito simples: ninguém de nós pode conhecer os caminhos para essa distribuição como a sabedoria do mercado os sabe. o que é quase inimaginável. não poderíamos negar que o nosso dever moral seria constatar que tal produto. p. 27 Hayek tenta fazer entrar em nossas mentes obtusas por que só os mecanismos do mercado devem ficar encarregados da distribuição da riqueza. 26 GALBRAITH.. 124. o pico estaria muito acima da Torre Eiffel. p.. J. é realmente o melhor dos mundos possíveis. uma vez que o produto exista. se fizéssemos isto. o sistema prova que pode funcionar. Sofrimentos à parte. Por1 isso Hayek se irrita com o lapso anticientífico de John Stuart Mili. se é possível diminuir as mortes por fome. pode com ele fazer o que mais lhe agrade. F. de fato aconteceu.

os autores dessas geniais idéias pensam exatamente o contrário: acham que descobriram o único caminho eficaz para o amor ao próximo. uma vez mais. um tipo de ordem social que extrapola o conhecimento que qualquer pessoa possa ter dos fatos. surge prontamente a idéia de uma eucaristia eternamente adiada. para tanto valendo-se do auxílio de pessoas que também são desconhecidas". coloca algumas condições para que os pobres mereçam ser incluídos em seu circuito. Semelhante fantasia extrapola a capacidade imaginativa de qualquer padeiro. por que os economistas gostam de referir-se. sobre como se chegou à convicção de que a própria esfera da economia e seus mecanismos se constituíam na melhor fonte de critérios morais e obrigações sociais. No fundo. o que não estorva a fabricação de novos bolos. Vejamos agora algo dos obstáculos. algo que eu agora gosto de chamar extended society order. Embora alguns possam pensar que isto implica numa ab-rogação total do Evangelho. se trata de entender por que o mercado. ou seja. Nós desenvolvemos. Mais de um estudioso do assunto levou um grande susto ao descobrir que o "aspecto científico" do pauperismo — 28: HAYEK na UnB Brasília. agora. sem compreendê-lo. à imagem do bolo que. 2 (grifo nosso). que foi necessário superar para que a fé se tornasse sólida. algum dia.um produto de tal magnitude torna-se disponível apenas poique nós nos permitimos sei orientados sobie como usar nossos recursos pelos preços de mercado. com tanta freqüência. Já basta de verbalizações do credo. . porque primeiro o bolo deve ainda crescer para que a sabedoria do mercado possa encarregar-se. . ninguém deve pensar em repartir. que sabe muito bem que bolos já existentes podem ser repartidos. Para isso devemos recuar um pouco no tempo e refletir. Se passarmos do bolo ao pão. que sempre se declara benéfico para todos. 1981. de distribuí-lo a todos.28 Começamos a entender. mas desde um novo ângulo. mesmo depois de já existir. p. e na qual cada um de nós satisfaz as necessidades de pessoas que não conhece. UnB.

Um sistema custoso. envolto em oportunismos políticos.29 A "liberação" da força de trabalho como simples mercadoria no mercado. que foi um conjunto de disposições legais de amparo aos pobres. mas envolto numa aura de misericórdia. que se esmerou em estudar o tema. até sua extinção em 1834. 271-275. K. sem conseguir ordenar-se ou tornar-se eficiente. controle dos deslocamentos. aliás já coerentemente preludiado por uma vasta literatura sobre o caráter "natural" do paradigma do interesse 29. por derivação. A literatura sobre o assunto é imensa e Karl Polanyi. intrínsecamente. Tudo parecia feito para não dar certo. o deslocamento massivo em direção aos nascentes pólos industriais. com cláusulas absurdas e dúbia aplicabilidade. cf. Surge. pode introduzir-nos à real significação do fenômeno. como de fato não deu. A vasta literatura da época atesta que algo de muito sério e fundamental sucedeu naquele período no' tocante à transformação das consciências: em meio à pior pobreza. então. especialmente na Inglaterra — foi a descoberta do caráter "natural" das leis que orientam. Paia uma piimeíra aproximação aos documentos e à discussão da época do pauperismo mais agudo e sua "assimilação". . a descoberta e a aceitação da "pedagogia severa da fome". Exemplos: concentração dos pobres em locais residenciais fixos. POLANYI. responsabilização das comunas e paróquias pelo atendimento.essá espantosa explosão de miséria que acompanhou a Revolução Industrial. burocratizado e ineficiente. O sistema surgiu em 1795. Foram quarenta anos de constantes debates sobre ò que fazer com os pobres.. o sistema de mercado e. a total insegurança inicial das condições de emprego e salário. precedido por fragmentos legislativos anteriores. etc. op cit. Teve uma trajetória sumamente acidentada.. o Sistema Speenhamland. a rápida alteração no sistema de propriedade.. a sorte dos pobres é definitivamente entregue aos mecanismos auto-reguladores do mercado. e uma série de outros fatores fizeram com que a miséria assumisse proporções horrendas. William Townsend e sua Dissertação sobre as leis dos pobres são referência obrigatória para captar o "salto científico". à qual é necessário submeter os pobres para que aprendam a ajustar-se às leis do mercado.

observava pungentemente Townsend. E a aposta nas "leis naturais" do mercado acaba vencendo. E a lógica de Townsend é implacável: não se devem infringir as "leis naturais" da economia para atender os pobres. " .próprio. 'Um novo tipo de equilíbrio foi estabelecido'. 'Os mais fracos de ambas as espécies foram os primeiros a pagar o seu débito com a natureza. que molestavam o comércio espanhol. na maioria ingleses. Não havia necessidade de magistrados. próximo à costa do Chile. Apelar para ele. Tudo isto soa muito cruel. . enquanto a propriedade estivesse em segurança. . As cabras se multiplicaram em proporção bíblica e se tornaram um estoque de alimento muito conveniente para os corsários. assim como são "naturais" os mecanismos do mercado. os mais ativos e vigorosos conservaram suas vidas'. pois a fome era um disciplinado? melhor que o magistrado. inserindo-se nas regras do mercado. as autoridades espanholas deixaram na ilha um cão e uma cadela que também se multiplicaram. Para destruí-los. mas foi este realmente o centro de um longo debate. "O cenário é a ilha de Robinson Crusoé no Oceano Pacífico. escreveu Tbwnsend. diminuindo o número de cabras com as quais se alimentavam. Os argumentos de Townsend arrancam da natureza e representam uma invalidação de qualquer reflexão alternativa. Polanyi comenta. . será também a "natureza" a que se encarregará de eliminar os supérfluos. no devido tempo. seria como 'um apelo da autoridade mais forte para a mais fraca' ". E acrescentou: 'É a quantidade de alimento que regula o número da espécie humana' ". Juan Fernández deixou nessa ilha algumas cabras para que fornecessem carne em caso de visitas futuras. filosófica ou teológica. a fome é o acicate "natural" para que os pobres se disciplinem e trabalhem. Agora se tratava de tirar as conseqüências disso num plano mais amplo e diante do desafio concreto da pobreza. a fome impeliria (os pobres) ao trabalho. enfático: "Surgia aqui um novo ponto de partida para a ciência política" (a partir da consolidação do credo econômico).

"Que o mercado tome os pobres a seu cargo e as coisas correrão por si mesmas". 'a grande massa dos cidadãos provavelmente disporá de poucos outros recursos além do seu trabalho diário e. . A sociedade econômica emergira como algo separado do estado político ( ) ."O paradigma das cabras e dos cães parece oferecer resposta a essas questões. A natureza biológica do homem surgia como o fundamento dado de uma sociedade que não era de ordem política ( ) . foram caindo em desuso e finalmente derrogadas. forçava Malthus e Ricardo a sancionar o mergulho de Townsend na natureza". aparentemente insolúvel. de Deus". 'Se a força da sanção física é suficiente. Foram abolidas porque eram consideradas antinaturais. Só o que se precisava era dar tratamento 'científico e econômico' aos pobres. chegando a elucubrar sistemas de submissão prazerosa. depois de tergiversadas em seus fundamentos. Se a fome cumprisse essa finalidade. "O cálculo da dor e do prazer exigia que não fosse infligida qualquer dor desnecessária. embora preferisse dar um toque menos macabro a essa imersão da crença econômica na natureza. Seu caráter paternalista e suas diretrizes confusas não foram a principal razão do seu abandono. conseqüentemente. não se exigia outra penalidade. As Poor Laws. A pobreza era a sobrevivência da natureza na sociedade. a fome era a sua sanção física. . por atrapalharem a lógica do mercado. estará sempre a um passo da indigência' ". em 1834. A questão 'o que pode fazer a lei em relação à subsistência?' Bentham respondeu: 'concretamente nada'. Jeremias Bentham. 'No estágio mais elevado da prosperidade social'. ( . ) Bentham acreditava que a pobreza era parte da opulência. seria supérfluo o emprego da sanção política'. O problema do pauperismo. dizia ele. portanto. no essencial não discordava em nada de Townsend. "As leis do mercado eram as leis da natureza e. Townsend é claro nisso: .

." (essas leis) provêm de princípios que raiam o absurdo. cit. Hoje dificilmente se empregaria a linguagem "honesta" daquele tempo. praticamente intocada. 30 O que nos interessa destacar aqui é o fato fundamental: a consolidação das convicções de que a economia é regida por leis naturais. Mas a lógica perdura até hoje. abundam textos chocantes que testemunham a dura luta das consciências para digerir as "coerências da natureza". Mas o passo foi dado com decisão. estamos brincando com a própria condição da humanidade". com sua peculiar insistência no agnosticismo social. K . Todas as últimas citações. severa pedagogia que é necessário empregar com os pobres. como um gigantesco e inevitável mecanismo da natureza. 122-127. especialmente em David Ricardo e Robert Malthus. nas quais os homens não devem interferir. Nòte-se a séria chamada à responsabilidade. E Malthus a perpetrou da maneira mais chocante. A atitude diante dos pobres variou na forma. nosso conhecimento nunca chega às raias da sabedoria superior dò mercado. quando Edmund Burke adverte: "Quando fingimos lamentar como pobres aqueles que precisam trabalhar. do contrário o mundo não poderia existir. Em muitos outros economistas da época. Tratandose de um reverendo. Malthus se preocupa com a superpopulação. A mortandade pela fome é vista. A essência disso se mantém. Preocupado com o caráter multitudinário dos miseráveis. que foi o da assimilação de um dogma básico da economia. sob o pretexto de cumprir aquilo que é impraticável à própria natureza e constituição do mundo". mas agradece a Deus por ter imunizado os ricos frente a essa ameaça: 30. na ortodoxia posterior. era de esperar uma teologização mais explícita do assunto. apud POLANYJ. Vimos como a formula Hayek. A humanidade tinha que reconciliar-se com a existência da miséria das classes mais baixas e desistir de querer aliviá-las. op. Em Malthus encontramos muitos elementos sobre a.

É. na realidade. . eis o comentário sintético de Guy Routh sobre a teologia de Malthus: : "Mas. Sua teologia é pavorosamente sacrificai. . . . que espécie de monstro seria esse" Deus que. mas David Ricardo reproduz. se não em sua misè. a partir de 1831. um dever humanitário explicar pacientemente aos pobres que seus sofrimentos derivam todos da própria culpa deles: Se essa compreensão não for implantada neles. a gerar todas as virtudes cristãs'. são de fato castigos justos pelos excessos sexuais. Eles não são mais simples vítimas indefesas da lei natural. em sua sabedoria. O caráter severo. em todos esses casos. ) Para os pobres. ( ."O Ser Supremo... são uniformemente as mesmas. para não dizer sádico. . já que este desígnio é. arranjou de tal modo as coisas que os ricos estejam ipso facto imunes a essa lei (da excessiva procriatividade)". as leis da natureza. Seus dois últimos capítulos explicam que chegar simplesmente a ter semelhante pensamento mostra o quanto é inadequada a mente humana. da mesma forma como a dor de cabeça é um castigo por excedér-sè em bebidas alcoólicas. Malthus antecipa este argumento ao raciocinar que o contrário é verdadeiro.. dirão vocês. Para não sobrecarregar este texto com . . enquanto poupa os ricos. eles são pecadores que sofrem seus justos e merecidos castigos. Os sofrimentos estão designados a 'desenvolver criativamente a m e n t e . . ) A posição de Malthus pareceu demasiado extrema a políticos e administradores. eles podem facil" mente tornar-se vítimas de qualquer déspota que chegue a dizer-lhes que seus sofrimentos derivam da culpa de seus dominadores. . .a fome. . ( . portanto.ricórdia. ) A mortalidade infantil. uma manifestação da infinita bondade da Divindade. . condena os pobres a um sofrimento perpétuo mediante uma lei imutável dá vida? Característicamente. o sofrimento em geral.citações. embora com termos menos chocantes. Outro exemplo da assimilação dessas idéias entre os' cristãos da época é o Arcebispo de Dublin. tratarse dé uma doutrina ainda mais dura. do "Deus de Malthus" seria um assunto longo. a mesma concepção fundamental acerca da pobreza". ( .

no fim. com uma variedade de canais de divulgação popular. ou de Og Mandino. acrescentando. Os personagens de seus livros eram pobres que tinham dúvidas. A assimilação do sacrificialismo da economia contou sempre. estão ostensivamente nas prateleiras de muitas livrarias cristãs. na lógica do paradigma do mercado não é abstruso. porém. professor e autor de obras de economia. ao mesmo tempo o milagre. sempre ficavam convencidos da excelência do mercado e da bondade de Deus. houve duas damas inglesas que foram consideradas geniais divulgadoras dos elementos básicos da economia nos meios cristãos. como ainda hoje. Seus opúsculos chegavam facilmente a mais de uma dezena de edições. um personagem arremata sua reflexão: "Quando finalmente os ricos e os pobres se encontraram num único interesse comum — foi aí que surgiu a força de todos! Eu sempre havia pensado que os ricos e os pobres estivessem separados como o nascente e o poente. só para dar dois exemplos. No século passado. Embora nos choquem hoje seus malabarismos para transformar as mais cruas formas de egoísmo em expressões do amor ao próximo. em virtude do qual o egoísmo universal se transforma sempre de novo no bem geral de todos". Routh comenta acerca dele: "Ele acreditava que o ser humano era naturalmente egoísta e que Deus o havia designado para ser egoísta. novelas e peças de teatro para divulgar a teologia e as idéias econômicas de Ricardo. Eram lidíssimas. Jane Haldimad Marcet (1769-1858) e Harriet Martineau (1802-1876) serviam-se de contos. já que dão emprego aos pobres.Richard Whately. mas que. Mas agora eu estou convencido de que o conforto dos pobres é derivado da riqueza dos ricos!" Numa popularização das idéias de Malthus. praticamente ao longo do mundo. Malthus e outros. Um exemplo: depois de acabar aceitando as extravagâncias e o luxo dos ricos. Hoje constatamos que as sensaborias teológicas de um Norman Vincent Peale. aparece a seguinte jóia: .

e diante dos sacrifícios que. Mas não foram os únicos. 32. o da aguda explosão do pauperismo que acompanhou a primeira Revolução Industrial e a imposição do sistema de mercado. A destrutividade se instalou nas consciências e nas formas comunicacionais da cultura. A amplitude e as formas. Não se trata já de meras questões econômicas. Janeiro. Erich. 1979. G. um período relativamente longo de profunda assimilação teórica e até psíquica das implicações sacrificáis do paradigma do interesse próprio e do sistema de mercado. 32 3. se os pais delas não sabem providenciar o de que elas precisam para viver". Sobre isso os cristãos deveriam refletir muito. ela inventa explicações acerca do caráter "natural". BASTA O REPÚDIO AOS SACRIFÍCIOS ABERRANTES? Duas coisas ficaram evidenciadas na seção anterior: a ciência econômica disfarça. . apud ROUTH. Vintage Books. Rio de Ideas. Origih of Economic humana. p. esses dois elementos (a atribuição da pobreza a leis naturais e a ênfase no caráter finalmente benéfico dos mecanismos do mercado) parecem ter sido os que foram introjetados e assimilados mais profundamente tanto na teoria econômica como no sentido comum. que essa pobreza 31. 31 Parece ter havido. As últimas citações. políticos e amplos setores da população em geral.. e até necessário. Anatomia da destrutividade Zahar. 183-197. No período enfocado. FROMM. 1975. por sua clamorosa evidência. The New York. desses sacrifícios e promete soluções graduais que advirão da obediência à lógica da economia. portanto. O capitalismo é realmente uma "cultura"."É a vontade de Deus — respondeu John — que as crianças morram cedo. 113. enquanto lhe é possível. o seu inerente sacrificialismo. Não parece haver maiores dúvidas de que essa assimilação está na base de muitas convicções que perduram até hoje no sentido comum de muitos economistas. são indisfarçáveis. A pobreza não aparecia apenas como uma realidade objetiva indisfarçável.

saltando. segundo. A questão é: que resposta se tinha. tornavam evidente. que se pretendem interpelar ou suscitar. para tais perguntas. pelo menos para muitos. Parece. Obriganos a analisar a força e a debilidade de todo tipo de denúncias que têm como ponto central a constatação enfática e o repúdio. de ingentes sacrifícios de vidas humanas. e. a existência de um nexo causal entre essa penosa realidade e o funcionamento da economia. e como tal foi digerido e assimilado. que existia uma ligação entre a emergência explosiva dessa pobreza e a forma de condução do processo econômico. naquele tempo. Mesmo que essa assertiva fosse novamente rebaixada a simples hipótese. já estivessem bloqueadas por "teologías moralmente tranquilizadoras"? O leitor já haverá percebido que nossa reflexão se está orientando em direção às características próprias do tipo de linguagens que é usual em documentos das Igrejas e dos grupos cristãos quando se referem aos aspectos mais dramáticos da injustiça social e do sofrimento dos empobrecidos. deve concentrar-se sobre as reações possíveis depois que se constatam. Com base na análise de muitos testemunhos daquele período. a realidade inegável de sacrifícios humanos em proporções alarmantes. Basta constatar tristes realidades e aludir vagamente a nexos causais com a economia. igualmente enfático.assumia. Nossa análise. Existe uma enorme diversidade de linguagens utilizadas nesses documentos e não é nossa intenção reduzi-las a um modelo único. o que significaria forçar indevidamente as coisas. primeiro. chegamos à seguinte tese: o nexo causai foi claramente percebido. envolvendo as duas coisas em linguagens de denúncia e repúdio. contudo. . em seguida. ãínda como hipótese ela é tremendamente desafiadora. portanto. a vigorosos apelos às consciências? E se as responsabilidades. que tinha que ser aceito e assimilado çomo tal? Era a pobreza verdadeiramente o resultado do modelo econômico que se implantara? A resposta — certamente afirmativa — que tenhamos hoje para essas perguntas não é o que nos interessa neste momento. Tratava-se de um verdadeiro nexo causai. que nem sempre se tem em conta o fato de que a ciência econômica predominante e o próprio sentido comum de muitas pessoas já estão imunizados em relação a determinadas maneiras de argumentar.

formalmente. Sua visão teológica invocava a justiça de um Deus obrigado a castigar os desmandos e os pecados dos pobres. Ela mereceria uma análise pormenorizada. na maneira como se processa — nas teorias econômicas e no sentido comum das pessoas — a aceitação de resultados funestos. um David Ricardo e tantos outros economistas tenham sido insensíveis à pobreza. que identifica a essência do sofrimento com uma oportunidade salvífica. O caso de Malthus é. Simplesmente não é verdade que um Jeremias. E a variação na forma não é um aspecto secundário quanto à própria aceitabilidade de um conteúdo. provavelmente. que se podem ler nos teólogos da Inquisição. amparada numa peculiar teologia. em todos os casos.Bentham. é levada por Malthus a conseqüências práticas no plano da economia.A insensibilidade social existe em proporções assustadoras. porque elaborou uma teologia que legitimava diretamente a crueldade e o comportamento insensível diante da pobreza. portanto. A forma desse tipo de insensibilização sádica. sempre de novo. no fato de que o credo econômico do paradigma do mercado tem. Esse tipo de soteriologia. é certamente algo não imputável ao pensamento econômico da maioria dos economistas entusiastas do paradigma do mercado. porém. junto à manutenção de üma crença firme no predomínio dos resultados benéficos. então. que foi também o fascínio mórbido de todas as teologías da tortura. Surge. Ós que têm essa crença inabalável nos resultados preponderantemente benéficos da lógica do mercado não precisam ser socialmente insensíveis diante da pobre- . É necessário insistir. onde muitas coisas deveriam ser mencionadas. Nossa atenção deve concentrar-se. características de "boa-nova". e partir imediatamente para interpelações moralistas. as condições materiais da existência dos que se revelam socialmente insensíveis. aquela estranha "igualdade de oportunidades" para salvar-se. certamente. mas até pouco convincente. uma insensibilidade empedernida. Supor. pode ser não apenas pouco frutífero. não por último. uma derradeira oportunidade para redimir-se. diferente. mediante os sofrimentos infligidos. concedendo-lhes. e é esta sua forma evangélica que torna possível uma assimilação muito peculiar do seu sacrificialismo.

contudo. da lógica econômica implantada. da lógica intrínseca do modelo econômico. embora se verifique. resultados não previstos. além de ineptos. Não se desculparam sempre mediante o recurso a outras causas explicativas totalmente alheias à lógica . os resultados funestos. Normalmente se procura descolar. "Tudo pelo social!" só se transforma em lema político abertamènte ridículo quando seus propugnadores. etc. algum dia. de forma bastante elaborada. atribuindo os fatos à sua imperfeita aplicação e a incontroláveis causas extra-econômicas. A literatura econômica está cheia de reflexões sobre este fato. Se os sofrimentos que persistem puderem ser apresentados como não decorrentes. no âmbito dos sacrificadores. na medida do possível. Fala-se em efeitos colaterais.za. mas reconheceram um cero nexo entre tais fatos e as "exigências da racionalidade econômica". que encontramos na assimilação dos sacrifícios necessários feita. carecem de uma fundamental legitimidade política. Geralmente este tipo de raciocínio se revela "suficiente" para obter que a implantação da lógica do mercado seja aceitável (já que. na maioria dos casos. Nesse caso. Perceberam e aceitaram que o paradigma econômico que defendiam implicava efetivamente em sacrifícios para muitos. Quando. a severa obediência a um paradigma econômico sacrificai pode conviver perfeitamente com linguagens populistas montadas sobre promessas sociais ardorosas. a tolerância de fatos sociais lamentáveis se torna sumamente elástica. a aceitação dos sacrifícios se torna mais plausível. pela ciência econômica. existe a imprescindível dose de consenso acerca da legitimidade dos poderes atuantes. conseqüências indesejáveis mas inevitáveis. se revelará benéfica para todos) e conviva tranqüilamente com uma enorme quantidade de resultados funestos. nem precisam desconhecer os nexôs causais entre a lógica econômica assumida e algumas decorrências lamentáveis. direta e "propriamente". um esforço de escamotear o referido nexo causai. : Insistimos num aspecto importante: muitos economistas não só constataram os fatos sociais desastrosos. Sacrificialismos efetivamente instaurados e assumidos nem sempre requerem aquele tipo de digestão consciente.

em atitudes de clara insensibilidade social. limitar-se a minorias.) com o caráter "natural" assignado à lógica da própria economia. das encíclicas sociais e outros pronunciamentos sociais das Igrejas? Existem. admitido o nexo causai com a lógica econômica instaurada. Quando se medita sobre as conseqüências dessa assimilação histórica tão peculiar do sacrificialismo. mas a extensão desses benefícios terá que ser apresentada. prospectivamente. como elementos constitutivos tanto das teorias como de sua cotidianização. isto é.. era perfeitamente possível sem cair. Não é estranho que tantas autoridades governamentais. Quando não se está atento às conseqüências dessa assimilação histórica. Nem sempre essas coisas foram indevidamente misturadas. numa dinâmica de ampliação e. etc. a longo prazo. inclusive. Os benefícios imediatos podem. pode-se falhar completamente o alvo no caso de denúncias e repúdios ao sacrificialismo. a constatação dos resultados funestos. nem qualquer repúdio do sacrificialismo da economia tem garantida a sua força interpeladora. os . se declarem de acordo com a "mensagem" dos documentos de Medellín. pelo menos teórica e aparentemente. a constatação de um pauperismo alarmante e a percepção de um certo nexo causai entre essa realidade e o paradigma do mercado. É certo que essas outras explicações foram normalmente as preferidas. obviamente.econômica por eles defendida. tantos políticos. embora muitas vezes sim. enquanto resultados. Na medida em que o que se "naturalizava" era a própria lógica da economia — e é nisto que consiste a sua pretensa racionalidade —. etc. o que realmente parece haver prevalecido foi o caráter benéfico do paradigma. estiveram presentes na implantação histórica do paradigma do mercado. excesso de secas ou de chuvas. Basta que se mantenha em alto a bandeira do caráter prevalentemente benéfico do paradigma aceito para poder rebater acusações de sacrificialismo declarado. começa a ficar mais claro que não qualquer dènúncia. numa perspectiva universal. de Puebla. Mas não confundamos o apelo a outras causas naturais (catástrofes naturais. E apesar disso. As duas coisas.

nenhum modelo econômico consegue uma erradicação imediata e instantânea de todos os males sociais. Em que consiste este algo mais? Pelo menos em dois aspectos fundamentais: primeiro. a mais sólida documéntação.ca- . além de não começar ab ovo. eventualmente. que gera tais sacrifícios. porque não invalidavam aquele aspecto do credo econômico que lhe confere sua mais profunda coerência: seu cerne evangélico de melhor caminho e única solução plausível. o nexo causai entre o modelo econômico e a persistência e. E é exatamente nesses pontos que os teóricos da economia elaboraram disfarces e anteparos. o agravamento dos sacrifícios deve ser comprovado de maneira inequívoca. Falamos na persistência e no agravamento. algo mais. mostrando que é a lógica do funcionamento da economia. A priorização explícita de metas sociais no núcleo de critérios econômicos. por vezes. é provavelmente a referência obrigatória para aprofundar a questão dos nexos causais é do caráter sacrificai ou não-sacrifical.oportunismos cínicos que. segundo. precisamente. na lógica irrestrita do mercado. sao evidentes em tais "adesões". especialmente as de médio e longo prazo. Falamos na importância de demonstrar a falsidade sobretudo das promessas a médio e longo alcance. todas as denúncias e todos os repúdios se tornaram aceitáveis e absorvíveis. e não outras causas. Na medida em que se argumenta de forma vaga e confusa nestes aspectos centrais. o melhor dos. como as águas -de um banho. as promessas contidas na crença no caráter finalmente benéfico dessa lógica econômica. que se assume. Além da denúncia dos sacrifícios e seu repúdio requer-se. formar parte de qualquer projeto de melhoria. "portanto. porque. nas convicções dos que realmente acreditam haver descoberto. que poucas vezes se levam devidamente èm conta. devem ser rebatidas com argumentos que demonstrem o caráter essencialmente sacrificai dessa lógica. Mas existe também a possibilidade de imaginar casos onde todos os disparos -críticos. a mais insistente denúncia e o mais indignado repúdio de Sacrifícios humanos podem continuar escorrendo. por razões óbvias: normalmente já preexistem e estão operando mecanismos sacrificáis herdados do passado (que podem servir de pretexto para cômodas escusas). cuja remoção deve.

Rio de Janeiro. as promessas assumiram a feição de "etapas" supostamente compulsórias. Limites sociais do crescimento. ' . quando muito. junho/1986. mediante argumentos que pretendem reafirmar o caráter socialmente isento.33 Mesmo aqueles que não se referem aos resultados funestos sob a ótica do sacrificialismo não podem deixar de trabalhar os mesmos aspectos centrais. n. que analisam os "custos sociais" com explícita. da economia de mercado. 34' • HIRSCH. geralmente. em essência. e socialmente comprometido com resultados positivos. 34 Nossa argumentação se fortalece ainda mais se atentarmos para o ingente esforço dos economistas no sentido de justificar a extrojeção das variáveis sociais da análise "propriamente" econôniica: quase sempre o fazem. (DEI). Eventuais desinformações sobre. exatamente. senão aspectos coadjuvantes na manutenção de uma fé inabalável no caráter benfazejo do mercado irrestrito. a dimensão dos males sociais e eventuais recalcitrâncias da insensibilidade não são. Zahar. nos pontos acima indica^ dos: o estabelecimento de nexos causais intrínsecos à lógica da economia implantada e a necessária invalidação de suas falsas promessas. e o caráter benéfico do desenvolvimentismo se vinculou com a ideologia da rápida ampliação das capas médias. corretamente. Alguns poucos se atreveram a incursionar pelo desagradável 33. o pensamento neoliberal da atualidade. Afinam sua análise. tudo se resolverá com mais mercado. "Costo social y sacrificio a los Idolos". O mesmo se comprova no fato de que praticamente todas as análises de custos e benefícios recortam os processos econômicos de modo a eludir sistematicamente os custos sociais.minhos possíveis. nas teorias d o desenvolvimento enquadráveis rto esquema de Rostow —. aspectos negativos menores e seguramente transitórios. Sua resposta continúala sendo a mesma: tudo se deve a interferências indevidas nas leis do mercado. Julio. 1979. 1-8. menção do seu caráter sacrificai. in: Básósi. admitindo. Fred. 6. em relação a resultados negativos. jamais se contentam com a mera constatação e a simples denúncia dos males sociais existentes. Quando os custos sociais se impuseram como um assunto não totalmente contornável — por exemplo. SANTA ANA. Essas considerações nos levam a entender por que os autores. É nisto que consiste.

Em um nível. dos sacrifícios de vidas exigidos pela lógica dos modelos desenvolvimentistas. a pobreza — normalmente adjetivada: extrema. por exemplo. precisamente em nome da "liberdade" e das realizações beneficiosas do "capitalismo democrático". em "efeitos transitorios". MISHAN. etc. Rio de' Janeiro. "inaceitável".terreno do "cálculo de acidentes e mortes". linguagens muito diferentes. Commentaries on John Paul JI's Encyclical 'The Social Concern of the Church'. massiva.. "mecanismos perversos") são denunciados junto com pontes significativas para a teologia ("estruturas de pecado". .35 A esta altura da nossa reflexão. Neuhaus. costumam vir bastante misturadas. M. o leitor já saberá avaliar. (ed. — é denunciada como "escandalosa". "verdadeiras formas de idolatria"). bibliogr. que implicam níveis de análise distintos. Nos documentos sociais das Igrejas. em que pontos e frente a que audiências permanece válida. Mas.). por exemplo. portanto. Zahar. Já é outro o nível analítico quando há referência. n. ao desentranhamento de uma lógica sacrificai do sistema econômico como um todo. Na encíclica Sollicitudo rei socialis. "antievangélica". Ver. J. Nestes se percebe um esforço inciível para não "internalizar" tais resultados desastrosos na lógica da economia. R. Elementos de análise de custosbenefícios. a denúncia e o repúdio de sacrifícios aberrantes. J. 30). etc.). necessária e significativa a linguagem de documentos sociais onde predomina a documentação. os nexos causais ("estruturas perversas". quase sempre genérica. Kenneth A. Grand Rapids. Mais próximo à lógica da economia está um discurso que fala de "ricos cada vez mais ricos às custas de pobres cada vez mais pobres" (Puebla. MYERS. possivelmente por não se haver atacado de frente a pretensão evangélica e as promessas benéficas inerentes ao paradigma do mercado. a "mecanismos geradores".. 36. "raízes profundas". 1988 (arts. mas junto a outras possíveis causas. buscando transformá-los em "efeitos externos" ou. de Peter Berger. 1975. onde a relação com a lógica da economia está insinuada. Novak. chega-se próximo. Eerdmans. 3? parte. etc. por sua conta. ficou aberto o flanco para que os neoconservadores contra-argumentassem. etc. Aspiring to Preedom. ou seja. na pior das hipóteses.36 35.: sobre "cálculo de "vidas". E. e quando essa linguagem vê esgotada a sua eficácia. sobre "Efeitos externos".

37 O fato é real e o livro mencionado é de um ex-diplomata norte-americano. agora. MD. tudo se resume na implementação técnica dessas soluções. Embora muitos ainda tentem esvaziá-la. deixa-se intacta a lógica econômica. Mas não há dúvida de que persistem debilidades. razão pela qual os atingidos contra-atacam. Isto sem mencionar que o embotamento e a insensibilidade de muitas consciências. pelo fato de que há toda uma corrente de pensamento econômico. Com isso. Não apenas porque denotam uma visível intensificação da consciência e do magistério social das Igrejas. em nenhum momento quisemos desconsiderar a enorme relevância dos referidos documentos sociais. 37 4.. assim como um ampla desinformação sobre as dimensões e causas dos males sociais. e todos os percalços. The Latín American Case. que sustenta que as soluções econômicas para os problemas do mundo já foram encontradas. entre outras razões. que ela pretende impor. são também uma realidade incontestável. ao mesmo tempo. que. A importância e a força desses documentos devem ser sublinhadas. Não é possível abordar esta vasta problemática sem mencionar. IJnderdeLanham. Tudo isso propicia um clima no qual inclusive um banqueiro de um grande banco transnacional passe a presentear as pessoas com um livro que. mais uma vez. . especialmente nos países ricos. tenta reduzir o subdesenvolvimento a um "estado de espírito". atrasos e males persistentes ficam debitados a causas sócio-culturais ou meramente políticas. 1985 (rapidamente traduzido aos idiomas latino-americanos). no fundo a mensagem é identificável.Com essas observações. Lawrence E. Dentre as muitas facetas de um tema tão amplo. ÉTICAS FUNCIONAIS E SACRIFICIALISMO Esta seção se destina a uma breve reflexão sobre o sacrificialismo que se encontra embutido na própria racionalidade formal da modernidade e no recorte funcional dos "valores". University Press of America. algo da imensa gama de reações críticas contra a violência incorporada nessa razão moderna. vamos ter que limitar-nos àquelas que nos permivelopment is a State of Mind. em diversos países da América Latina: HARRISON. RACIONALIDADE FORMAL.

El desafío dei futuro. com a ajuda dessas pretensões científicas. é impossível separar esses diversos elementos. Pierre. inclusive desde distintos ângulos. 1986. em seus aspectos formais. não foi um acontecimento espontâneo. Alain. o conceito cristão do amor fraternal entre os homens. Grijalbo. primeiro. que a racionalidade econômica instaurou uma arrasadora lógica sacrificai e que esta lógica opera em nome de reclamos constantes de cientificidade. enquanto tal. nas partes anteriores deste livro. mas foi implantado graças a uma ação tenaz do Estado" (p. hoje. em nossa perspectiva. que a implantação dessa racionalidade econômica. Paris. por exemplo: MINC. 254). A soma de todos esses elementos. isto é. no contexto novo das sociedades complexas. Já vimos. as reflexões desta seção devem ser lidas em sua vinculação com aquilo que trataremos na seção seguinte. do sacrificialismo que se deve à substância teológica da "religião eco38. através de um único caminho transitável: o de confiar aos mecanismos do mercado a efetivação da melhor convivência humana. na racionalidade econômica. Barcelona. ver também ROSANVALLON. 1983. mas só foi possível mediante um continuado recurso às instâncias do poder político38. a ênfase na "cientificidade" jamais conseguiu sustentar-se com simples argumentação "racional". como mostrou Polanyi. analisar separadamente o sacrificialismo que se pode adscrever à racionalidade formal da modernidade.tam visualizai mais diretamente como se legitima e como funciona a lógica sacrificai no âmbito da racionalidade moderna. . da caridade cristã. e nosso interesse fundamental em sublinhar a perversão do conceito do amor fraternal. nos dificultam. Já vimos também. por muitos que se mantêm firmemente ancorados na ideologia do mercado. agora. que admite: " . o mercado não caiu do céu. e terceiro — aspecto do maior interesse para perceber a interpenetração entre economia e teologia — o "valor" básico que recebeu uma nova definição funcional na racionalidade econômica é o da reciprocidade humana. Seuil. Na prática. um "credo fervoroso" (Polanyi) acerca da garantia dos melhores êxitos. Por isso também. segundo. Isto é reconhecido. Se fazemos um esforço dè distinguir (sem separar) o sacrificialismo endógeno da racionalidade moderna. Mlsère de Véconomie. e construiu. obtendo invariavelmente a maior parte da sua plausibilidade dos valores éticos que incorporava e funcionalizava. ou seja. .

a dois pontos fundamentais: primeiro. Este debate. efetivamente. seguüdo. aplicável tanto às ciências naturais ou fisicomatemáticas. através da absurda pretensão de atingir uma cientificidade totalmente isenta de valores. a confusão inerente à busca de uma mesma cientificidade. a "razão moderna" conseguiu fazer valer. qüe incorpora é funcionaliza. Sabemos que o desejo de desfazer halos religiosos indevidos. conferiu à racionalidade moderna uma laicidade peculiar. obviamente. no qual não podemos entrar agora. A "aura secular" atribuída à modernidade é mencionada. isto se deve à necessidade de sermos capazes de dialogar com as múltiplas formas de críticas à racionalidade moderna. primeiramente. Como é sabido. em atitudes opostas à "irracionalidade. pelas seguintes razões: primeiro. sempre de novo. que se expressou. e o da economia em particular. antimágica e secular. inclusive. todo o multifacético debate epistemológico sobre o estatuto científico das ciências em geral. quanto às ciências sociais (entre as quais. a maneira pela qual determinados supostos ético-políticos são incorporados nos paradigmas científicos. a crítica à "razão moderna" assumiu muitas formas. A racionalidade moderna seria formalmente pós-religiosa.nômica". se localiza a economia). em termos de custos sociais. religiosa". porque. está colocado o problema das exigências. quando é imperioso distinguir estatutos científicos diferentes para esses dois terrenos. Há. que passam à margem das inversões propriamente teológicas com as quais ela opera. aqui. "aspirando aproximar-se à cientificidade da física (quando hoje a própria física se vê obrigada a examinar as valoraçõés implicadas em seus modelos teóricos). em larga . vamos nomear sucintamente algumas dessas formas. conduz. atribuídos à natureza e à história. Já sabemos que a economia tem procurado dissimular sistematicamente os valores éticos. Na medida em que esse debate epistemológico aceita confrontar-se com a funcionalização de valores no estatuto científico de qualquer ciência. que derivam dessa incorporação funcional de valores nas ciências. Um segundo e vasto terreno de discussões sobre a "razão moderna" se relaciona com a sua pretensa "secularídade". Sem a menor pretensão de cobrir todo o seu amplo espectro.

moderna" descamba em irracionalismos "pós-razão" ou . a atitude "pós . essas reações críticas não se articulam a partir de um núcleo de critérios alternativos claramente definido. resistências ao sacrificialismo irracional da "razão moderna". Embora encontre expressão forte nas correntes artísticas. ou seja. anti-humano e sacrificai da modernidade. Por isso o "pósmoderno" é um patamar pouco definido para ataques críticos à "razão instrumental" da modernidade. importa mencionar as críticas à "perversão da razão". que se manifestam num debate em moda: a discussão sobre o "pós-moderno". que a "razão moderna" procurou inculcar nos. até "pós-tudo" (título de um poema "pós-moderno" do poeta brasileiro Augusto dos Campos). de sentir e de perceber a realidade. o que tem dificultado. O debate veicula. A onda "neonietzscheana" e outras expressões niilistas despontam nesse clima de enfado e frustrações. segundo. enquanto "razão repressiva". para não poucos. a polêmica sobre o "pós-moderno" extravasou amplamente o terreno das artes. encantamentos ingênuos em relação à famosa "secularização". apesar de não penetrarem no âmago dos pressupostos perversamente teológicos do paradigma econômico que se concatena com a "razão moderna". a percepção do fetichismo e do cerne não secular da "religião econômica". porque existem muitas análises críticas do caráter repressivo. também entre os teólogos e os cristãos em geral. que são extremamente valiosas. não poucas vezes. Só que. parte-sé para a aposta em "intuicionismos criativos". porque sobrevivem. que se revelaram incapazes de positivar projetos alternativos.medida. terceiro. abdica-se da racionalidade como tal. uma vasta gama dé resistências críticas à unidimensionalidade e linearidade das formas de pensar. hoje. operada pela modernidade. Em terceiro lugar. Ela representa. . que sobreveio à crise das "dialéticas negativas" (ao estilo da Escola de Frankfurt). contudo. suas pretensões de secularidade e é por esta razão que o seu sacrificialismo não pode ser analisado sem tomar em conta as dissimulações e novas motivações sacrificáis que esta "forma secular" da modernidade possibilitou. Gom a crítica à racionaliadde linear moderna. fruto da modernidade. joga-se fora todo apego à razão.

1983. 2» ed. segundo.40 No campo da economia.(DEI) . 1987. no Brasil. Eerdmans. sem cair na anulação do horizonte utópico. sobre a insistência no tema "unsecular America".. do viável e do factível. quiséramos. floresce uma literatura "pósmoderna" com características bastante peculiares. II superamento dei moderno Bologna. Vozes. Primeiro. cí. em: FERRARIS. suplemento semanal da Folha de S Paulo. 40.. boa pesquisa bibliogr. Multhipla Ed. a determinação dos "valores praticáveis". sem maiores problemas. 1986 (esp. Maurizio. "The Social Sources of Apostasy". tenha aprendido a confraternizar. Sobre a luta neoeonservadora confia o "humanismo secular". Em nome de posturas antiprodutivistas. in: Pasos . 27/1987. Desde a perspectiva de um mundo de bem-nutridos. arts. com aquelas expressões do pensamento neoconservador. descarta-se a necessidade de teorias da distribuição. freqüentes sobre o tema em "Folhetim". implica numa fonte positiva de critérios alternativos. esp. sem abandono da razão. isto é. o limite do possível. R. 4 estudos sobre "Modernismo e Postmodemo". no interior dos projetos históricos e suas instituições. e exige uma reflexão sobre como se determina. DEI. A Igreja Eletrônica e seu impacto na América Latina. NEUHAUS. 1-9. o que denota que a superação do seu sacrificialismo certamente não será possível invalidando a razão. FORNI.Já que não podemos adentrar nesse vasto terreno. 1984. sobre o "pós-moderno". Tracce: nichilismo — moderno — postmoderno. J. Guglielmo. Grand Rapids. apesar de continuar insistindo na validez de seus critérios "científicos". mas psiquicamente vitimados pelas funções que 39. HINKELAMMERT. anula-se a discussão acerca de qualquer limite físico inferior na concepção das necessidades humanas. que combatem frontalmente o chamado "humanismo secular" da modernidade e optam por uma unsecular America39. alertar para alguns aspectos.). in: Estudios públicos (Santiago de Chile). Hugo. a racionalidade moderna tem conseguido conviver pacificamente com todas as formas de crítica. Tudo se reduz a críticas à irracionalidade da "sociedade de consumo" e à cotidianização de seus mecanismos compulsórios. Milano. o art.. ASSMANN. n. 293-344. 12/1987. Different Gospels. 1988). terceiro. que não logram articular uma racionalidade alternativa baseada numa sólida fonte alternativa de critérios. n. Petrópolis. p. de Peter Berger. J. contudo. F. a elaboração de uma racionalidade alternativa. "Frente a la cultura de la postmodernidad: proyecto político y utopía". em economia. 153-171. declara-se equivocada a preocupação com o incremento na produção de riqueza. 1988. cf. (ed. . The Meaning of Apostasy. Capelli. é altamente sintomático que o pensamento neoliberal.

.. e que por isso nada mais tem de econômico nem de político. ambas circulam num espaço inacessível. a especulação financeira. de modo algum. economia poética e uma série de abordagens parecidas servem para concentrar-se nos sofrimentos que o mercado omnímodo inflige às capas médias e altas. Capitalismo e esquizofrenia. Tais como são. ¿ que zomba da sua própria lógica. um : jogo de catástrofe". felizmente. As prioridades da maioria da humanidade. mas que deixa o mundo tal qual ele é". a dívida mundial.. não podemos dar-nos por satisfeitos com a impotência já digerida por semelhantes diversionismos. escapam também à própria realidade: hiper-realizada a guerra. constitui de certa forma a passagem à fase estética . "A economia política está simplesmente abolida como epifenómeno. "É a hiper-realização do grande capital financeiro. e por uma lógica superior". mas. e deixam o mundo de certa forma intacto. desde a ótica das maiorias empobrecidas do planeta. e ainda confere um conteúdo material ao conceito de exploração. ambos orbitalizados acima de nossas cabeças em vetores que nos escapam completamente. "" ". a sociedade do espetáculo. hiper-realizada a moeda. . Algumas amostras apenas: "Porque a esperança 'racional' de reconciliar a economia fictícia e a economia real é perfeitamente utópica". livre de seu dublê". a bomba orbital. vencida por seu próprio simulacro. critica-se o ajustamento e a autoimolação que as economias ricas impõem às pessoas. Um puro jogo de regras flutuantes e arbitrárias. "E acostumemo-nos a viver à sombra destas excrescências monstruosas. ficam praticamente fora de consideração.a sociedade lhes assigna. economia libidinal. que ainda padece fome e privações materiais de toda ordem.. os aspectos sacrificáis que esse tipo de literatura costuma priorizar.. . mas que. economia e sedução. "A economia política chega ao fim sob nossos olhos. em sua própria hiper-realidade. elas se exorcizam em seu 'excesso. é a hiper-realização dos supermeios de destruição. Não pretendemos invalidar. transformando-se ela mesma numa transeconomia da especulação.

Mostraram como a forma secular da racionalidade moderna construiu uma espécie de sacrificialismo de antemão inocentado.. Pedro Morandé retoma. Jean-François. / La introyección del sacrificio y la ética funcional 41. Minuit. por ser consentâneo com a "razão". Luis. essa pista e a trabalha. Barcelona. Isso permitiu escamotear. BAUDRILLARD. DELEUZE. os sacrifícios perderam sua aura misteriosa e passaram a figurar como parte inerente natural da luta pela vida. o fato de tirar a problemática sacrificai do âmbito das justificações religiosas possibilitou o ocultamento dos sacrifícios no contexto secular. em boa parte. 14/3/88 (e seus livros. 42. no contexto dos custos sociais implicados nas teorias modernizadoras do desenvolvimentismo. Horkheimer e Adorno insinuaram. Não é muito freqüente. tanto. Êconomie libidinale. surgem pistas fecundas para analisai aspectos sacrificáis da racionalidade moderna. Por Uma economia política do signo. F. no fundo. do entrechoque dos interesses e da luta política pelo poder. Em outras palavras. etc. com muita argúcia. / El sacrificio como gasto festivo y ahorro ascético. as acusações relativas à presença de lógicas sacrificáis. 1973. Vale um destaque aos caps. Pedro.).42 Seu estudo é dos mais provocativos de que temos notícia. um fim que. El Antiêdipo. 1984. Paris. utilizando diretamente o conceito de sacrifício. Uma economia poética. Brasiliense. Barrai. social de los valores.e delirante da economia política. o que é a maneira mais inesperada de pôr fim a ela. brechas de entrada valiosas. 1974. "Elogio de um 'crack' virtual na economia". / La representación de la muerte: la definición social del límite. G. a elaboração de teorias sacrificáis aí embutidas. Lançados no plano das contradições próprias de sociedades complexas. A problemática do sacrifício se secularizou em propostas "racionais" do que é viável. Cultura y modernización en América Latina. pela forma Folha de S. etc. BOADA. 5-9: El costo. / De la muerte de Dios al primado de la racionalidad formal. LYOTARD.'. Capitalismo y esquizofrenia. Paulo. 1987. Jean. O intercâmbio simbólico e a morte. Católica de Chile. cada vez mais monocórdios: Da sedução. São Paulo. com um enfoque explicitamente voltado para o sacrificialismo. in: . El sacrificio en el contexto del desarrollismo. já que os sacrifícios impostos vinham incorporados numa lógica que prometia a superação das legitimações religiosas dos sacrifícios. é muito mais original do que nossas utopias políticas"./GUATTARI. Univ. porém.41 Nos diferentes terrenos brevemente assinalados e numa série de outros que se poderiam indicar. Santiago. MORANDÊ. em sua Dialética do iluminismo. Estratégias fatais.

Estes sacrifícios gigantescos. em nome da modernização. dada a prioridade que conferem ao nexo corporal entre os homens. O racionalismo formal da modernização. mediante as funções assignadas a cada um dentro do sistema. todos os mecanismos desencadeados pela racionalidade formal e seu recorte funcional dos valores têm como base a aprendizagem da renúncia. se refere sobretudo à ausência de uma reflexão sobre outras maneiras possíveis na concepção e na experiência do limite do que é historicamente factível. "expectativas de comportamento mutuamente referidas e validadas". Os valores dessa ética funcional aparecem no limite do admissível. o que sucede com as individualidades imersas em sistemas sociais e projetos desenvolvimentistas que estabelecem. A ótica de Morandé focaliza. custe o que custar. já que é em torno a esse limite que gira. introjeção da submissão sacrificai até transformá-la em gozo de servir. que os teólogos da Libertação costumam priorizar. Seu enfoque não se volta. auto-imolação. se quiserem. domesticavam-se as pessoas pela fome. para a acumulação quantitativa dos sacrifícios expressáveis em cifras acerca da fome. parece mais apegada à vitimação dos indivíduos em sua qualidade de sujeitos humanos ou. o primado de uma racionalidade formal a ser seguida. Nossa discrepância. a problemática do sacrifício. Todos estão obrigados a uma aprendizagem da auto-adaptação à função que lhes toca cumprir. que aparecerá mais adiante. pelo menos não de maneira prioritária. cotidianização do sacrifício. a domesticação se processa. ainda no século XIX. das privações materiais de todo tipo. principalmente. vitimiza as pessoas porque as confina dentro de uma ética estritamente funcional. hoje. no entanto. Por isso. como pela perspicácia de muias considerações analíticas. da destruição física de inúmeras vidas. predominantemente (?). de pessoas submetidas a uma lógica destrutiva. são perfeitamente inseríveis na análise de Morandé que. portanto. "identidade do plano de valores com o plano da funcionalidade das estruturas". fundamentalmente. Introjeção do sacrifício.com a qual se dá um tratamento explícito ao tema. em continuidade com toda a racionalidade moderna. estabelecida pelo limite delineado por esse racionalismo formal. Outrora. a vivência de antivalores em nome de valores inter- .

esta forma moderna de colocar a auto-imolação não poderia existir sem que se houvesse transformado o conceito cristão de caridade". o aprisionamento e a funcionalização intra sistemática do amor ao próximo. neste sentido. Há muitos momentos em que a reflexão de Morandé se aproxima enormemente dos argumentos centrais da nossa reflexão. mas apenas o 'cumprimento do dever'. referindose principalmente à própria normatividade funcional determinada pelo "neo-iluminismo" modernizador.médios tendentes à sua (jamais cumprida) planificação. . • como esse cativeiro da fraternidade admissível ocorre dentro da lógica do paradigma do interesse próprio e do-sistema de mercado. Expressa este ponto como "definição funcional do valor da reciprocidade". colocar entre paréntesis as próprias convicções morais. "a reciprocidade se abandona ao mercado" e outras formulações parecidas. reconhecido e celebrado por todos como tal. "Ser vítima não requer um ato heróico. o esvaziamento da responsabilidade e da culpa transformadas em ajustes corretos ou equívocos — eis alguns dos muitos aspectos que Morandé analisa com surpreendente perspicácia. .em aras dos interesses superiores da funcionalidade do sistema". comunidade. para que assuma a representação de toda a. deve tornar-se um processo cotidiano. "Na linguagem do sacrifício isto significa que a consagração solene da vítima. normal. Morandé enfatiza o mesmo. de forma taxativa: " . "Sacrificar-se significa também. com o maior grau de sobriedade". simulação da liberdade na base do "cumpre teu papel e faz o que quiseres". . porque forma parte do eixo central deste livro — é a captura. nossa argumentação nos leva a concluir que este processo resulta inexplicável se não se considera o fenômeno da introjeção do sacrifício. Por exemplo: . a destruição da relação interpessoal substituída pela relação individuo-sistema. " . que está em sua base". especificamente. Um dos pontos em que Morandé insiste mais — e que nos interessa destacar. . ao alcance de qualquer um". Nós examinamos. concluindo. .

de acordo com as rendas atribuídas à sua função. à descoordenação. MORANDÉ. ( ) A oposição ordem/caos. por vontade própria. estariam tirando ingressos de todos aqueles que vivem de seu maior consumo e condenando-os à morte. abster-se do consumo e -viver. 108.. Que seria do sistema se as pessoas que recebem maiores ingressos decidissem. . 108. 43 43 As últimas citações. p. é justamente a base dessa ética funcional". associada à oposição vida/morte. ou pelo menos não para todos. 1. mas impede a realização do vàlor da reciprocidade. Enfim."No plano do intercâmbio de bens e serviços. a reciprocidade se abandona ao mecanismo do mercado. confiar que ele se auto-regula em um ponto de maximização. . E não poderia ser de outro modo. tem o dever de fazê-lo paia cumprir. ( . dessa maneira.. Isto não pode ser! Os ricos também devem auto-imolar-se no cumprimento do seu papel. sem confiança não pode haver reciprocidade (. como os pobres? Isto seria simplesmente irresponsabilidade. em virtude de uma socialização defeituosa. em última instância.. seja este -livre na determinação dos preços e das quantidades a intercambiar ou centralizadamente planificado. Quem não conforma a sua conduta à funcionalidade do sistema. em sua seqüência. Levar um sistema ao desequilíbrio. à morte é evidentemente um problema ético. . Ela passa a ser. . . Quem. 107. digamos assim. à anomia e. cit.) À auto-imolação moderna não significa necessariamente renúncia ascética. devem confiar que o sistema transforma tudo em reciprocidade. com a lei do equilíbrio funcional. pela distribuição desigual dos ingressos. agora. puder consumir por cima de suas necessidades elementares. ética funcional. P. Se tiverem problemas de consciência. ) A definição da reciprocidade como interdependência funcional não pode senão transformar também a ética. posto que a afirmação de princípios transcendentais seria completamente vazia sem a sua 'operacionalização' adequada no plano dos deveres e direitos dos diferentes papéis sociais. op. não só provoca pro: blemas puramente operativos. 109. 113.

que busca destronar esses ídolos e ilegitimar òs sacrifícios que eles exigem. ídolo voraz no plano político. pela primeira vez na história humana. basicamente. e voltemos a uma caracterização ulterior da teologia idolátrica e seu sacrificialismo. RAÍZES TEOLÓGICAS DO SACRIFICIALISMO DA "RELIGIÃO ECONÔMICA" Há duas formas básicas de teologia: a teologia idolátrica.Com a citação desse trecho cortantemente irônico de Morandé. a exigência de uma reflexão. A "religião econômica". e a teologia antiidolátrica. nb fundo. o Capital. 5. O Moloc-Capital é um ídolo ainda mais implacável. jamais dispense ás funções auxiliares dos verdugos-estados-nacionais. pelo menos desde a instauração do sistema de mercado e sua expansão mundial. com variações de acordo com as circunstâncias da evolução histórica. a um único modelo. què se declara autônomo inclusive do Estado e cria. que justifica os sacrifícios a ídolos cruéis. provavelmente. As teologías idolátricas se reduzem. Concluímos a seção anterior. rece- . radicalmente universal. contrapondo-lhes o Deus da Vida e da Libertação. desde aí. dois modelos distintos. embora admitam variações de acordo com o "material histórico" que configura a sua proposta. Deixemos isto para um pouco mais adiante. naturalmente. uma religião "católica". com não poucas contradições inconciliáveis quanto à maneira de conceber a experiência da transcendência. a um único modelo fundamental. Dizíamos que a teologia idolátrica obedece. já não é uma "religião estatal". isto é. os tentáculos do seu poder em todas as direções. rompendo as fronteiras nacionais. A teologia antiidolátrica admite. . por ser o ídolo pós-hobbesiano do paiadigma econômico. embora seu ídolo. chegamos ao ponto onde brota. Está estendida a ponte para ingressai numa reflexão de cunho mais diretamente teológico. O Leviatã de Hobbes é o "deus mortal" identificado com o Estado. estendendo. que já não se dá por satisfeita com a mera invocação do sacrificialismo que deriva da racionalidade formal e da conseqüente ética funcional da modernidade.

aliás. A demonização dos que infringem a ordem política ou a "segurança do Estado" pode expressar-se em termos de ideologia política: são comunistas. Uma é a realmente importante. contanto que sejam totalmente a-históricos e. isso não quer dizer que necessariamente estejam atrapalhando a ordem ou criando o caos. à margem da adoração principal do ídolo. Então. O que deve ficar claramente diferenciado são as experiências religiosas. obviamente. elas estão no cerne do paradigma econômico que viemos analisando. que até as fantasias religiosas dos homens ficassem unidirecionadas. Pode até acontecer que estejam fazendo uma coisa totalmente favorável à manutenção da ordem. em sua vida privada ou em pequenos grupos. as pessoas se preo- . porque o ídolo aprecia nomes com tradição e classe. As linguagens acerca do ídolo e dos deuses irrelevantes podem até misturar-se. de "a verdadeira transcendência". Isto. separadas. nos dá a chave derradeira para entender por que tantos não-comunistas são acusados de comunistas — se verbaliza mais corretamente como "criação do caos" pelos "pregoeiros do caos". quando os homens. porém. Mas a infração da ordem econômica —• que.bendo — das últimas frases de uma citação de Morandé — a pista para ingressar na reflexão teológica. que é a devoção ao ídolo. irrelevantes. totalmente exterior e situado além dos limites do possível e do admissível. O ideal seria. A outra pode adorar os deuses que quiser. se ocupam com essa "transcendência verdadeira". As oposições ordem/caos e vida/morte não acompanham apenas toda a racionalidade moderna. Esta é a razão pela qual se requer uma funcionalização muito bem calibrada daquelas outras fantasias religiosas que se precisam tolerar. A teologia idolátrica admite simultaneamente duas experiências religiosas completamente diferentes. desrelacionadas. porque existem estorvos culturais que o dificultam. portanto. nessas devoções paralelas. ocupando-se todas elas unicamente com o ídolo. O melhor mesmo é chamar esse âmbito. Um modo bastante efetivo para se conseguir essa funcionalização dos deuses secundários é dar-lhes uma tremenda importância no âmbito que está "além" e "fora" da circularidade funcional dos valores consagrados no interior do sistema idolátrico. Isto sucede quando. nem sempre se alcança.

infrações. ambas ilimitadas. pode até ajudar a valorizar os objetos devocionais relacionados com o ídolo. pelo outro. em princípio. As que eventualmente tiver que tolerar serão admissíveis unicamente em nome da reafirmação do limite. se intrometam na ordem do sistema vigente. Portanto. dentro do qual giram — intra-sistemicamente — todos os valores. que está fora do que é valorizado no interior do sistema. no interior dos limites do paradigma. se quiserem. simultaneamente. sem fissuras.cupam por vigiai suas fantasias religiosas e seus deuses secundários a fim de que eles de modo algum se tornem caóticos. em nome do re-equilíbrio do seu reino. e isto tanto no atacado como no varejo. e temos. porque essa transcendência. O ídolo é histórico e seu reino é deste mundo: é o paradigma econômico que não tolera. porém. subsídios à exportação. À primeira vista pode parecer estranho e até contraditório que a teologia idolátrica possa operar. a transcendência absoluta de deuses a-históricos. portanto formado por coisas histo- . É um globo perfeito e. sob determinadas condições. para restabelecer o mercado e a "liberdade". mediante a completa funcionalização de uma transcendência em proveito da outra. o culto ao ídolo. se necessário. isto é. quando corretamente manipulada. religiosidades paralelas à "religião econômica" e não tem nada a objetar quando ali se fala em experiência da transcendência. que esse enigma — que é só aparente — encontra uma solução bastante fácil. criando o caos. que for necessária (protecionismo. com duas "infinitudes" ou. que exige total devotamente e não tolera apostasias. De maneira que a teologia idolátrica admite. intervenção do tesouro nacional para salvar empresas. Tentemos compreender um pouco melhor essa estranha coexistência de dois cultos. Mas. em princípio. Temos. Os yalores absolutos são a absolutização dos valores. Seu pressuposto inicial é a sistematicidade. duas "transcendências". por um lado. golpes militares). admissíveis e necessários. a realidade do domínio do ídolo é construída como um sistema. já que este reino é histórico. isenções fiscais e. Já veremos. Os defensores do mercado irrestrito buscarão qualquer ajuda. definidos numa circularidade funcional. ambos aparentemente totalizantes.

Os benefícios decorrentes do incentivo ao livre curso do interesse próprio serão socialmente "sem limite". Eles devem "morrer" como valores de uso. isto é. A mesma coisa se faz com os bens que o homem necessita para satisfazer suas necessidades vitais. se permitirem que realize a sua essência.ricamente variáveis e contingentes. Serão transformadas em meras preferências no mercado. não se lhe atribui mais a mínima capacidade de gerar valor. e o trabalho concreto deve "morrer". Desfazer a finitude das coisas contingentes e finitas. Qual é este custo? É a destruição e. Os mecanismos do mercado gerarão um bem comum "sem limite". a negação da realidade enquanto finita. O próprio ser humano deve abolir as suas finitudes para tornarse. cuja corporalidade finita já não pode servir como base para qualquer valoração significativa. é desconsiderado e. autovalorizandose infinitamente. nunca se con- . não vale mais nada. O trabalho abstrato torna-se. um ser humano abstrato. e só valer ainda enquanto valores de intercâmbio mercantil. Praticamente todas as categorias econômicas do paradigma do interesse próprio e do sistema de mercado operam com esse tipo de "perversa infinitude". É a "perversa infinitude". sempre. essa variabilidade e essa contingência deve sei desfeita^ Como se consegue a absolutização do relativo e a infinitude do que é finito? Através de um modo de concebei essas realidades finitas que as faça aparecer. ou pelo menos potencialmente infinitas. então. O trabalho concreto é transformado em trabalho abstrato. É se a publicidade precisar utilizar a sensualidade dos corpos para penetrar no espírito do homem abstrato. como infinitas. é uma Operação que tem o seu custo. tudo o que se relaciona com o nexo corporal entre os homens deve ser esvaziado da sua corporalidade e jogado no espaço infinito dos valores abstratos. que realmente "trabalha". trabalho "vivo". As próprias necessidades humanas devem desaparecer. e jogá-las para dentro de dimensões infinitas. que é "trabalhar" incansavelmente. por último. Dessa forma. Mas o capitalismo acha que esse custo é irrisório diante do milagre de construir o infinito a partir das coisas finitas. E o Capital será um benfeitor àbsoíutamente "universal".

Será que o limite também se "espiritualizou" e se tornou abstrato? Esta questão não é sem importância. p. todas essas coisas foram tão agudamente analisadas por Marx que não é necessário alongar-nos em mais exemplos. antivalores são os que ameaçam e destroem a vida. Nada é mais etéreo. Vejamos agora o que aconteceu com o rígido limite. absolutizando apenas aqueles valores que são definíveis como tais dentro da circularidade funcional interior ao sistema.. 78. jogando-os num espaço redentor infinito. O. É valor aquilo que o limite estabelece como admissível. Mas para os sistemas de dominação é exatamente ao contrário. Bem. Algo aconteceu com esse limite. Agora até os sofrimentos humanos podem ser esvaziados da sua abjeta concretude mediante a sua transformação em espetáculo sacrificai. porque gera o cans. tanto no paradigma econômico que estamos analisando. A televisão ajuda muito na criação da "realidade verdadeira". onde tudo se redime mediante mecanismos de infinitização. Num sentido bem determinado. criando dublés potencialmente infinitos de praticamente todas as nossas miseráveis finitudes. P. p. 44 Valores reais são aqueles que defendem a vida. a representação de um limite rígido e inflexível também deve ter ficado afetada por essa infinitização abstrata das coisas circunscritas por esse limite. 44 MORANDÉ. dentro do qual se estabelece a vigência absoluta dos valores admissíveis. . como em formas alternativas de conceber o funcionamento da economia. porque vai incidir tremendamente na maneira de conceber os valores e os sacrifícios. p annmia. infinito descorporalizado que os lindos coi pos sensuais da publicidade. que. do peso da sua concretude e corporalidade. O espetáculo do sacrifício esvazia os sofrimentos concretos. op. enfim. é inteiramente correto o que diz Morandé:" "é justamente na conceituação do limite onde se constitui „ a problemática do valor". que se opõe à ordem jamais poderá ser valor. libertadas. cit. Se as coisas finitas foram lançadas numa "perversa infinitude".tentará com a insuportável finitude dos nossos sentidos e da nossa corporalidade concreta.

que o Deus verdadeiro. que tudo o que ele defendeu tem plena validez e real valor. portanto. Já que os "valores". admitir como a mais sólida base para critérios aquilo que o sistema expele e faz morrer na exterioridade. . e. é que se reconhece. Há toda uma longa história desse assunto. e é isso que torna tão central. a Cruz e a Ressurreição con validam o que o limite. já que Jesus de Nazaré foi uma vítima desse tipo. salvífico e redentor. nunca representa um sacrifício meritorio. da parte de Deus. apesar de haver sido vitimado como defensor de antivalores. e que foram considerados antivalores a ponto de levar a sua condenação. por estar fora do limite. invalida e reduz a antivalores. "fora": além do limite. que sucedeu por ele haver insistido em propor antivalores — no sentido acima. como expressão da nossa certeza da completa validação. quando se reconhece que seu sacrifício foi meritorio. (Dito de passagem. fora da cidade). que ele nos revelou. que não cabem dentro do limite. isto é. ou seja. o ato de eliminar tais antivalores. está totalmente de acordo com os valores que ele defendeu. mais: afirma-se. enfaticamente.ou seja. no fundo. a negação dos valores. O que é sacrificado. em nossa fé. ao reconhecer o valor do seu sacrifício. Meritorio é. dos "antivalores" defendidos por Jesus. que nunca são base para nenhuma valoração. nas teologías idolátricosacrificais. confirmou tudo o que Jesus pregou e defendeu. imposto pelo sistema. crer na Cruz e na Ressurreição significa. mas são antivalores. valores não admissíveis no sistema vigente. não só não são valores. não significa reconhecê-los como valores sacrificados. neste sentido — e não conforme a absurda imagem de um Deus sádico que imola seu Filho — Deus esteve de acordo com esse sacrifício. o que. a Ressurreição. se pretende dizer. ao contrário. ao confirmá-lo. começamos a perceber quanta explosividade contém o reconhecimento da plena validez do seu sacrifício. o fato de eliminá-los. nem para nenhum sacrifício válido. onde se verifica a sistemática negação de qualquer mérito ou valor "salvífico" dos sofrimentos daqueles que são vitimados porque se arriscaram a defender antivalores. mesmo que isso represente um duro sacrifício para muitos.

que aconteceu com o limite? Ele também se tornou abstrato. mas é o limite do "espírito do sistema". da estranha coexistência de dois tipos de transcendência. se "espiritualizou". O limite se tornou mais rígido porque é. Uma transcendência é a que se é obrigado a aceitar — a não ser que se esteja disposto a romper com as exigências do ídolo — mediante a constante transformação do espaço/tempo histórico em espaço/tempo transcendental. Já que a submissão se cotidianiza. As coordenadas do espaço/tempo histórico já não bastam para conferir os valores. Portanto. levantada mais acima. Segundo as aparências da ética funcional do sistema parece que só existem erros. num sistema essencialmente fetichizador da realidade. mas é no limite transcendentalizado. que se constitui a problemática do valor.Perguntemos. cheia de complicações intelectuais. é óbvio que também se requerem coordenadas de um espaço/tempo transcendental para conferi-los. Não se trata de uma difícil operação metafísica. e enrijecido mediante sua "espiritualização". já que pecaram contra o "espírito". ele já não é medível por nenhum cálculo estatístico ou qualquer tipo de medição que lida com coisas tangíveis. todos os que ousaram afirmar valores que não cabem na lógica do sistema caíram no reino demoníaco do caos e dos antivalores. Isto. não é em qualquer limite que se constitui a problemática do valor. agora. Na hora da cobrança. precisamente porque agora já não é meramente o limite configurado pelos mecanismos institucionais do sistema. Nas aparências seculares da razão formal e da ética funcional da modernidade essa operação fetichizadora fica totalmente dissimulada. O que vale agora é "o espírito" das instituições. Já que todos esses valores foram perversamente infinitizados e trancendentalizados. a operação teológica não é diretamente perceptível. não significa que se diluiu. Exatamente o contrário: tornou-se ainda mais rígido. da qual só seriam capazes os que sabem o que se está passando. Totalmente . porém. equívocos e desajustes. o limite "espiritual" de um espaço transcendental. trivializandose em conceitos seculares. e não verdadeira culpa. Como tal. Isto tem profundas implicações para a questão. uma vez mais. Mas ninguém se deixe levar a engano.

assim como o sistema as prescreve. Vivemos relações sumamente abstratas quando tocamos no dinheiro. de forma um pouco mais comprometedora. não tem o menor problema em coexistir com a afirmação de uma "outra transcendência". é. Agora entendemos que essa "transcendência capturada". O capitalismo pôde ser chamado (por Marx) de "religião da vida cotidiana" precisamente porque todos os que participam das relações mercantis estão efetivamente imersos num processo de fetichização. Quanto à relação com divindades "tião intrometidas" na história. elas serão bem-vindas. A esperança ficou confinada dentro da lógica do sistema. introjetada nos rituais cotidianos em que se desdobra a lógica do sistema. Mas a total funcionalização dos valores pelo limite "espiritual" do admissível de fato implica em constantes atos devocionais ao ídolo. não há nenhum problema. uma utopização das condições concretas e das relações entre os homens. A abolição do horizonte utópico. na realidade. Por quê? Pela . como força libertadora dos oprimidos. de maneira mais explícita. É claro que existem momentos idolátricos mais decisivos: quando expressamos.ao contrário. ou a relação com um Deus que se intromete na história. e mesmo na miúda relação contratual de um ato de compra-venda. mas na realidade é uma trancendência introjetada nas relações sociais. Ninguém costuma chamar a isso de "experiência da transcendência". o seu recorte funcional de valores. As linguagens seculares da modernidade dissimulam as operações transcendentais da vida cotidiana. necessárias. incapazes de suscitar' qualquer organização da esperança no interior da história. não parece haver nenhuma sacralização de nada. até certo ponto. Pelo contrário. na medida em que essas divindades estiverem situadas na exterioridade absoluta. Estamos falando das ações mais triviais e cotidianas. contanto que ela seja totalmente a-histórica. nosso assentimento à lógica do sistema. Mais do que isso. são até convenientes e. portanto. do qual nem se dão conta.. Só não se admite chamar de experiência de transcendência a afirmação de valores derivados de um outro núcleo de critérios. quando assumimos. preenchemos um cheque. situado além do limite do admissível. À primeira vista. trabalhamos. firmamos contratos.

em certas operações transcendentais muita gente acaba acreditando com certa facilidade. no sentido de que a teologia antiidolátrica possivelmente admita duas vertentes ou modelos distintos. é nisto consistirá o seu ponto mais forte e também o mais eficaz. Essa teologia alternativa deverá conter um discurso alternativo sobre Deus. totalmente alheia a qualquer transformação das condições sociais neste mundo.simples razão de que ajudam a criar explicações para o mau funcionamento — na vivência concreta dos homens — das operações transcendentais que o ídolo pede. a maneira alternativa de conceber a experiência da transcendência no interior da história será o cerne dessa teologia antiidolátrica. entre as quais cabe destacar a des-inversão dos princípios teológicos ou doutrinários. Um dos modelos de teologia antiidolátrica consiste no rechaço frontal da teologia perversa que sustenta o ídolo. que possibilite uma organização. muitos realmente acreditam que o dinheiro "trabalha". a cada momento. afogada em suas privações. uma teologia realmente alternativa. concepção histórica do ser humano. os pobres sentem que este mundo funciona realmente como "um vale de lágrimas". no início desta seção. Basta abrir uma caderneta de poupança para ter essa impressão. acreditar nas promessas infinitas dos mecanismos do mercado. tal da esperança humana de maneira que ela inclua a intensificação de uma fraternidade real no interior da história. centrado no nexo corporal entre os homens. uma valorização direta dos esforços e sa- . oferecendo. Mas. Uma breve palavra sobre o que ficou insinuado. Por isso.). Claro. A infinitização das finitudes humanas não é uma operação tão fácil. etc. limitamo-nos agora a simples pistas indicativas. Dito de outra forma. na conclusão deste livro. Este assunto reaparecerá.. Isso implica em muitas coisas. deverá ser efetivamente uma teo-logia. serve como fonte de explicações e esperanças supletórias. É nesses momentos que a "outra transcendência". e a elaboração de um núcleo alternativo de critérios. que a perversa teologia idolátrica inverteu (conceito do amor a Deus e ao próximo. isto é. Não é nada fácil para gente empobrecida. Por exemplo. além disso. como arma de combate à idolatria.. sob outro enfoque. em muitos momentos. etc.

inclusive. assim. Não só é imaginável. muitas variações como se pode constatar na enorme variedade de manifestações de resistência. diante do . pelo menos em alguns de seus aspectos fundamentais. está contido. onde surgiu um paradigma idolátrico . que alimentam. O que caracteriza este segundo modelo de teologia antiidolátrica pode ser resumido da seguinte maneira: primeiro. ao longo da história do cristianismo. Os movimentos populares na América Latina dão testemunho de que são possíveis surpreendentes resistências à opressão e sua idolatria com armas teológicas sumamente rudimentares. apoiadas em teologías que têm. Os primeiros cristãos se declaravam ateus. aliás. Ela admite. limitando-se a uma vigorosa ética comunitária. segundo. não se chega a articular uma fonte alternativa de critérios teológicos relacionada com o nexo corporal entre os homens e a transformação possível deste mundo. . o núcleo de critérios para pensar a transformação da história).poder opressor do Império Romano. relacionando. antiidolátricos. consciência crítica e luta contra a opressão. Mas é praticamente seguro que as primeiras gerações cristãs. teológicamente fundamentada pela identificação histórica do amor a Deus com o amor ao próximo . há vivências alternativas da fé e da relação com Deus. alimentam-se esperanças relativas a um "outro mundo" em termos geralmente de tipo acentuadamente "espiritualista". mais ou menos. terceiro. isto é.(ondè.orificios que os homens fazem para melhorar a sua convivência. e um rechaço dessa idolatria. essas características. Seria petulância não querer reconhecer a possibilidade de brotações de resistência antiidolátrica. O problema está em que semelhantes resistências antiidolátricas não contam com respostas teológicas adequadas à realidade complexa das sociedades modernas. . há uma identificação da idolatria. de alguma forma. dada a sua expectativa em relação a uma parusia iminente. germinalmente. mas existe de fato um outro tipo de teologia antiidolátrica. e quarto. não se preocuparam em elaborar projetos de transformação da história. que se apoiava numa teologia idolátrica. o desprezo ao ídolo e seu reino (desprezo deste mundo). as esperanças desta vida com as que se referem ao novo céu e à nova terra.

dando uma nova versão não apenas ao "mandamento novo" do amor ao próximo. mas este ponto é para muitos. A distância entre este modelo de teologia antiidolátrica e as perversas teologias idolátricas é muito reduzida. Aí está. segundo a nossa modesta e limitada experiência. Muita coisa relacionada com este assunto já foi tocada nas partes anteriores deste livro. Como vimos fartamente ao longo de toda a nossa reflexão anterior neste livro. aliás. tampouco elimina. precisamente neste ponto do sacrificialismo." e algo será. o paradigma idolátrico da "religião econômica" é um evangelho diferente. não oferece uma teologia alternativa acerca das relações sócio-históiicas entre os homens e. costuma causar impacto e surpresa em muitos cristãos. De que se trata? Explicar. que na modernidade. mais especificamente no paradigma econômico do interesse próprio e do sistema de mercado-.que conseguiu capturar e invertei a própria essência do cristianismo. Em suma.uma versão adulterada da esperança cristã. do amor a Deus. a raiz teológica mais profunda do sacrificialismo inerente a esse paradigma. . inclusive sacerdotes e bispos. há um tema que. Todas as considerações precedentes. uma descoberta chocante. . este segundo modelo de teologia antiidolátrica se encontra muito desarmado. nesta seção. de taiz. conseqüentemente. Em termos práticos e pastorais. a concepção cristã do amor ao próximo e. sucedeu uma coisa tremendamente séria: o seqüestro e a adulteração do que há de mais essencial no cristianismo. perversas teorias sacrificáis. portanto. em termos simples e acessíveis. acrescentado na conclusão. o que talvez explique a não transformação da soteriologia vitimária nesse tipo de resistências religiosas. é objeto de fácil cooptação. Pode parecer estranho. também. que. mas também a muitos outros aspectos da mensagem cristã. Por aí se explica nossa insistência nesse ponto. que não havia sido abordada em seus estudos da teologia. ainda. não são um compêndio de tudo o que haveria que meditar acerca das raízes teológicas do sacrificialismo na "religião econômica". este segundo modelo de teologia antiidolátrica tem muitos flancos desguarnecidos.. mas não há dúvida de que se apresenta como "boa-nova". Pareceria.

que agora queremos colocar. sobretudo à primeira definição. deixando qualquer contribuição neste sentido à absoluta espontaneidade individual. . evidentemente. facilmente tendentes a dualismos e maniqueísmos puramente antitéticos. contrapostas às armas ideológicas da morte. não se reduz à mera ilegitimação dos sacrifícios resultantes da opressão.uma luta real e concreta. ou necessitamos conceitos diferentes dos sacrifícios? i Ser anti-sacrificialista tem um primeiro significado: é oporse às vitimações coactivas e aos sacrifícios coinpulsórios que são impostos em nome de um esquema de valores funcionais à preservação de uma determinada ordem social. onde as armas ideológicas da vida. são de raiz teológica. de grande importância para a luta contra os ídolos que exigem sacrifícios humanos. A questão. Mas não podemos fugir dos desafios. ergue-se a teologia anti-sacrifical e antiidolátrica. Em palavras ainda mais simples: como justificar os sacrifícios inevitáveis para chegar a abolir os sacrifícios inaceitáveis? Trata-se de sacrifícios do mesmo tipo. cabem certamente subvariantes. Às formulações podem não ser as melhores. ANTI-SACRIFICIALISMO E SACRIFÍCIOS INEVITÁVEIS O sistema opressor está impregnado de teorias sacrificáis que. aliás. Esta luta. num segundo sentido bastante diferente. em última instância. Contra essa perversa teologia. Mas. teóricos e práticos. é a dos sacrifícios que a própria luta pela superação dos sacrifícios exige. ser anti-sacrificialista poderia significar uma posição radicalmente contrária a qualquer tipo de exigência social no sentido de "contribuir com sua quota de sacrifícios" para o bem comum. -O anti-sacrificialismo da teologia antiidolátrica se refere. Ê importante acrescentar que.6. implicados na . Trata-se de . em cada -uma dessas definições. evidentemente. legitimadora dos sacrifícios mais cruéis. Essa transformação. são apenas uma pàrte do processo de transformação da sociedade. Vamos agora simplesmente colocar um problema adicional. é um processo muito mais complexo do que podem expressar nossos esquemas. mas a distinção parece bastante clara.

mas insuficientes. métodos violentos (o que o cristianismo histórico nem sempre manteve como princípio). a um anti-sacrificialismo fundamental da mensagem cristã. Elas se referem mais à repressão do que à opressão. que se costumam usar para elucidar formas de sacrificialismo coactivo (assassinato. auto-imolação. quaisquer que sejam as formas de coação vigentes. com o problema da violência. Um elemento-chave desse sacrificialismo consiste. a compulsoriedade dos ajustamentos funcionais dentro da lógica de um sistema opressor. violência física. nos parecem importantes. que as referências tradicionais.). O sacrificialismo da opressão requer um quadro referencial que priorize os efeitos destrutivos derivados dos desequilíbrios macro-econômicos e da ausência de metas sociais :(fome.). em princípio. mas que o cristianismo é (deveria ser) decididamente anti-saçrifical. corresponde. que inclui tanto as coações acompanhadas de uso da força em graus variados. além de ser uma saudável reação a qualquer cum- . de luta social. A não-violência. não se está afirmando que este princípio jamais terá exceções. precisamente. Quando se afirma que o cristianismo rejeita. carências elementares. aceitação do suicídio lento. subnutrição. embora coincida basicamente. único e exclusivo. são igualmente importantes. independentemente de se as pessoas chegam a "adesões voluntárias" ou não. nos indivíduos isolados. mortes prematuras. etc. como princípio radical.). Mas quando a não-violência é erigida em método. A coincidência básica é bastante óbvia. no seu caráter compulsório. As referências adicionais. etc. como o "não ter outra saída".segunda. prioritária ou quase exclusivamente. muito comuns em análises da destruição "suave" e cotidiana das pessoas em sistemas rígidos (frustrações e privações de todo tipo. tortura. O problema do sacrificialismo não pode ser inteiramente identificado. ou seja. mas também se revelam insuficientes na medida em que se concentram. logo de entrada. Quando se fala de "violência institucionalizada". etc. portanto. Gostaríamos de frisar. infringido inúmeras vezes na história do cristianismo. o princípio perde aquela flexibilidade histórica mínima sem a qual nenhum princípio preserva seú: caráter humano. condições de vida subumanas. está-se falando em sacrificialismo compulsório. matanças massivas.

Esta é a nossa questão. pode transformar-se também em ideologia encobridora de conluios existentes com a violência estabelecida. e não serviria como fonte de critérios para a ação. Embora se tenha priorizado certas metas sociais de fundamental importância. O sacrificialismo se tornou sistêmico nos países socialistas na medida em que se adotou uma planificação econômica omnímoda e controles político-ideológicos que impossibilitaram a participação e a iniciativa das pessoas. Esta posição é tanto mais necessária e urgente. obtendo uma satisfação bastante generalizada das necessidades elementares da população. neste momento. Peter Berger publicava seu livro Pirâmides de •sacrifício. não há dúvida de que existe. contudo. especialmente ná imposição desse paradigma nos países subdesenvolvidos. dada a secundarização sistemática de metas sociais. totalmente abstrata. o sa¿ crificialismo estrutural atinge diretamente o não atendimento das necessidades mais elementares da população. mantendo firme a rejeição a qualquer sacrificialismo sistêmico. Não nos parece prioritário aprofundar esta questão. quanto mais constatamos um império praticamente universal dos sacrificialismos estruturais. se não levasse em conta os obstáculos e sacrifícios que se enfrentarão em qualquer esforço por transformar essa situação. Daí a necessidade de fundamentar positivamente os sacrifícios exigidos por essa luta transformadora. Nas economias de mercado. um sacrificialismo compulsório que não pode ser facilmente reduzido ao sacrifício de meros valores intermédios. da qual se dista ainda muito nos países capitalistas dependentes. no qual. Ela seria. tomando como exemplo a situação do . neste momento. Adotar uma postura contrária aos sacrificialismos compulsórios e sistêmicos constitui a essência da opção antiidolátrica e anti-sacrifical. O panorama do mundo atual não é nada alentador.iplicidade do cristianismo com sistemas violentos. O caráter sistêmico dos sacrificialismos institucionais não nos permite a ingenuidade de imaginar qualquer saída que não implique itambém em quotas de sacrifício. ¡nos países socialistas. ' Em 1974. Podemos ver sacrificialismos estruturais por toda parte.

o que mais urge é a postura contrária a eles. conceito ousado de Schumpeter com o qual se referia à necessidade de constantes inovações tecnológicas e à destruição necessária do obsoleto. declarava inaceitáveis as quotas de sacrifícios exigidos da população em dois modelos ¡económicos completamente diferentes. 1986. p„ 96s. em: KIRZNER. New York. esse autor matizava muito sua avaliação dos sacrificialismos: os sacrifícios impostos pelas economias de mercado. para o que os cristãos necessitam. antes de mais nada. com espanto e repulsa. a "destruição criativa" é elaborada como elemento central da "cultura capitalista" por GILDER. itransformado em adepto firme de posições neoconservadoras. Israel M. Rio de Janeiro. definida como intensificação constante do processo competitivo empresarial. 1962. Peter. de uma sólida teologia antilidolátrica e anti-sacrifical. embora duríssimos na primeira fase. 1981 ISEDET . contudo. Dez anos mais tarde. e freqüentemente desacompanhados de razoáveis liberdades políticas. aplicado à inovação tecnológica. tal dinâmica não existiria... a manifestação do "fascismo de mercado".passando a designar a essência necessariamente agressiva da competitividade empresarial. Instituto Liberal.. sobre "destruição criadora e o processo competitivo". e art. Capitalism. 1974. nos países socialistas. notá 23. Pyramids of Sacrifice.Brasil e da China naqueles anos. porém. New York. foi arvorada em bandeira sumamente agressiva por seguidores de Ludwig von Mises e Friedrich Hayek —. necessitamos repensar a fundo a legitimação dos sacrifícios que a luta pela transformação do mundo exige. J. Basic Books. BERGER. ¡a uma dinâmica de superação. com freqüência superior à tolerável. procurou demonstrar que o caráter compulsório do paradigma do mercado tem uma rigidez e uma lógica sacrificai implacáveis.43 Como vimos. supra. Também as esquerdas têm caído. através deste livro. Sociatism and Democracy. na qual consistiria o aspecto mais característico da "sabedoria" do mercado — e por aqueles que pregam um sacrificialismo descarado. cap. A "destruição criadora". até Paul Samuelson registra. 46. é aplicado à essência do. Harper and Row. A. O conceito de "destruição criativa". 7. cit. na América Latina. Junto com ela. Toda a nossa análise. Wealth and Poverty. dada a sobrevivência de múltiplas teologías sacrificáis geradas pelo cristianismo histórico. Competição e atividade empresarial. obedeceriam. foi desenvolvido por SCHUMPETER. em esquemas martirológicos e novas formas 45 . George.46 Num mundo com sacrificialismos tão monstruosos. na linha de Hayek. mercado.

de sacrificialismo. portanto. a necessidade de introjetar flexibilidade dialética em nossa concepção das mesmas. entre sacrifícios aceitáveis e inevitáveis e sacrifícios intoleráveis. Por um lado. A consideração deste limite invoca necessariamente temas tão radicais como: o caráter limitante de todas as instituições humanas em relação aos valores e. Há. os valores admissíveis são recortados funcionalmente dentro da lógica do sistema sacrificai vigente. Não ciemos equivocar-nos se afirmamos que estamos tocando num dos pontos menos aprofundados. concebida igualmente de modo reducionista. É um reducionismo da transcendência possível aos estritos limites dos valores funcionalizados dentro do sistema. Ela é vivida nas devoções idolátricas de adaptação aos requerimentos do sistema sacrificai. como na discussão teológica. na luta pela transformação do mundo.. estamos tocando o ponto crucial onde a Teologia da Libertação pretende superar os reducionismos usuais na clássica questão da imanência e da transcendência. portanto. entre racionalidade necessária e possível e abertura a valores não aprisionávèis nessa racionalidade. Esta questão requer uma retomada séria da relação entre projetos históricos e horizonte utópico (teológicamente. Os dois reducionismos são reciprocamente funcionais. tanto no debate político. Esta funcionalização dos valores obedece a limites rígidos. Como vimos anteriormente. Por outra parte. . existe uma tolerância relativamente ampla para o culto a divindades a-históricas. O que nos desafia é. como vimos. Em outras palavras. as teologías idolátricas operam simultaneamente com dois reducionismos. as concretudes e contingências da história são jogadas num processo de perversa infinitude e o próprio limite. Esta é a transcendência do ídolo. nada mais e nada menos. urna transcendência introjetada e aprisionada dentro da circularidade funcional dos valores admitidos. entre Reino de Deus e sinais positivamente antecipatórios desse Reino na história). Do espaço/tempo histórico salta-se a um espaço/tempo transcendental. que uma reflexão inovadora acerca do limite do realizável e imperioso. é enrijecido mediante uma "espiritualização". enfim. imposto como intransponível. Esta é a outra transcendência.

Suponhamos. essencialmente ligada à concepção do limite do "possível" e aos mecanismos do sistema. precisamente. que estabelecem uma circularidade funcional dos valores. Pode-se chegar a exigir a eliminação de formas sacrificáis que . com suas correspondentes quotas de sacrifício. agora. O paradigma do mercado declara-se universal e insubstituível. portanto. De dois tmodos: no limite do admissível. E o que o paradigma econômico do interesse próprio e do sistema de mercado fez foi. Mas isto não quer dizer que as instituições devam declarar-se únicas. agora. só se originou com a descoberta da sociedade complexa. o que vem a sei1 o mesmo. na modernidade. antes do advento do capitalismo. perenes e insubstituíveis. O outro elemento fundamental são os mecanismos que põem o sacrificialismo em funcionamento. a lógica sacrificai. por não se possuir uma fonte de critérios que rompa ios limites do possível. por essa via. enquanto funcionalização operacional dos mesmos. e nos mecanismos do paradigma. nesse caso? Não se possui nenhuma referência para a aceitação de valores e a legitimação — ou eventual ilegitimação parcial. Isto significa que o rechaço ao sacrificialismo só é possível se concebemos de maneira alternativa e diferente esse limite e esses mecanismos. Aí se encontra o elemento mais fundamental do seu sacrificialismo: no limite rígido que o paradigma estabelece. A factibilidade. A problemática tanto dos valores como dos sacrifícios está. Não se chega. Praticamente todas as teorias que as culturas e as teologías haviam elaborado. que alguém esteja convencido de que esta é a única maneira para estabelecer valores. pressupõem um limite sumamente rígido em relação ao que é historicamente factível.Perguntemos. como conceito aberto aplicado à sociedade. Note-se bem: a opção por determinada institucionalidade requer sempre uma definição do limite. enquanto recorte seletivo desses valores. O que sucede. portanto admissível. a uma atitude radicalmente antiisacrifical. Podem-se conceber alterações parciais ma "administração dos sacrifícios" no interior dos paradigmas. em casos de aberrações desnecessárias — dos sacrifícios. onde se estabelecem os valores funcionais e. restabelecer a rigidez de um limite numa situação histórica que começava a permitir que ele fosse pensado em termos flexíveis.

Que se pode fazer nesse caso? Achar um sentido para esses sacrifícios. como base uma elaboração mítica acerca do limite imposto. pelo menos nas teologías predominan- . como surgiram. o aspecto festivo. É inteiramente compreensível que todas as culturas e religiões do passado tenham concebido o sacrifício a partir do limite da morte. Mas não se chega a uma atitude antisacrificai. A vida é celebrada. Mas tem que ser assim necessariamente? Antes de tentar uma resposta a essa pergunta. à primeira vista. Como sabemos. A semente que morre para que haja vida nova. porque delimita a vida possível. Como nos ciclos da natureza. Como o limite representa sempre potencialmente (ou realmente) a morte. no "bode expiatório". ou diretamente divina). por princípio. e que se gostaria de superar. a imagem da morte necessária continua no centro. contudo. da imolação. etc. uma geração que caminha para a morte para que outra geração possa viver. ou. Mas geralmente eles reconhecem que esses aspectos têm. de fato. na quase totalidade das teorias sacrificáis existentes. da destruição sacrificai. vejamos ainda. Isto se torna muito mais evidente na vítima vicária. cujo valor sacrificai é inteiramente inseparável da sua morte. como algo que brota além do limite mortífero. etc. todos os sentidos encontráveis para os sacrifícios girarão em torno do sentido da morte. o esbanjamento de algo "útil". o dom puro e incondicional. outros aspectos relevantes do sacrifício que. nessas visões do sacrifício. Tudo isso são aspectos que fascinam os antropólogos e estudiosos das culturas. separação ou destruição inapelável. celebra-se invariavelmente a morte de alguém ou de coisas. No fundo. como algo que brota da morte. de relance. hoje existe um esforço enorme dos exegetas para mostrar-nos que o cristianismo — apesar da adoção posterior de uma visão sacrificai que não consegue deslocarse do limite da morte. não estão ligados ao limite da morte. Portanto. O caráter oblativo. para ser ainda mais exato. mas que se quer "ofertar" na utilidade maior da obtenção de uma energia (comunitária.não são imprescindíveis. É o que constatamos. a vida é considerada como fruto da morte. na história das culturas e das religiões. ou vítima substitutiva.

p. e a conseqüente reconceituação de "transcendência" e "imanência". É por isso que. o sofrimento sem sentido palpável e a experiência de limites infranqueáveis. . contudo. Tomemos. com um emudecimento da razão e um mergulho no mistério. É uma aproximação daquilo que é socialmente manejável e regulável ao abismo do mistério. op. mesmo quando o pensamento racional conseguisse explicar com clareza o sentido envolvido no rito sacrificai. entre imanência e. Isto não se pode escamotear com as mais belas definições da dor e da morte como formas de "encantamento": "morrer é encantar-se" (João Guimarães Rosa). do absoluto. A transcendência. obriguem os homens a um fecundo enfrentamento com perguntas sem resposta e. valiosa reflexão. a indicar algumas pistas. Esta vivência coletiva intensa do limite dá ao ato sacrificai uma realidade tal. na sua.¡tes — significou uma revolução profunda na concepção do sacrifício. A densidade dessas experiências... de muitas formas. um texto de Morandé. e até contradição. culminando na busca de um sentido para a própria morte. seria 47. P. para prosseguir. 47 Estamos de acordo com Morandé num aspecto: é provável que em nenhuma vida humana faltem os momentos em que a finitude. aqui. as preocupações mais usuais dos teólogos. "Toda representação sacrificai faz experimentar coletivamente. aos que dela participam. 77s. assim como a ausência. Este tema é vastíssimo e as urgências de sua retomada se manifestam. que extrapolam. tornam seu pensamento pelo menos parcialmente cooptável por posições conservadoras. na teologia contemporânea. não nos parece legitimar a transformação do limite infranqueável em referência única para a concepção do sacrifício na vida humana. de certo modo. portanto. transcendência. Porque isto significaria manter uma rígida oposição. do que está além de toda experiência e de todo ordenamento normativo. Nós temos que limitar-nos. que não necessita do discurso para operar eficazmente. com ênfase na economia. Estamos colocando essa problemática no contexto sócio-histórico. esta explicação não poderia substituir o próprio ato". MORANDÉ. o limite que cerca a vida social. de resto. a "verdadeira". do tema central "projeto histórico — horizonte utópico". O fato de Morandé não elaborar uma concepção alternativa do limite e da relação com o limite. cit.

Toda cautela é pouca para não repetir as sacralizações estreitamente ligadas a esses reducionismos. que escapam radicalmente a todas as realizações possíveis na história. do novo céu e da nova terra. em contraposição aos sacrificialismos que se fundamentam a partir da "morte necessária". Estes sacrificialismos •buscam legitimar-se com a invocação arbitrária de limites infranqueáveis. perguntamos novamente: é só "além do limite" que a transcendência adquire substância para as esperanças humanas? Se a resposta for não. etc. É necessário proceder com suma cautela neste terreno. "depois" que estiverem sacrificadas todas as vítimas necessárias. estar penetrada da consciência de como operam esses sacrificialismos. sofrimentos necessários. O primado do nexo corporal entre os homens — que. de significação e valor permanente. Uma ¡teologia libertadora jamais poderá ser uma teologia sacralizadora de instituições que. isto é. No fundo são um constante "Viva!" à morte. dentro de lógicas sacrificáis irredutíveis. da ressurreição do ser humano inteiro. está afirmado na unidade do amor ao próximo com o amor a Deus —. ressurge sempre de novo quando as crueldades são cometidas com ardor militante. Mas. o Reino já presente. O que predomina no mundo são os sacrificialismos que são cálculos de mortes necessárias. no afã de autopreservar-se. lema que. histórico e pós-histórico. como se legitimam. também os sacrifícios não se legitimam unicamente a partir do limite da morte. como mínimo. portanto. São sacrifícios em nome da "morte necessária". Esta é a transcendência definitiva do Reino final. aliás. para uma base alternativa para falar acerca dos sacrifícios que se enfrentam efetivamente "em nome da vida". Uma atitude coerentemente antisacrifical e antiidolátrica deveria. que se enfeitam com promessas de vida. senão que adquirem uma positivação possível a partir da afirmação daquilo que a vida tem de "eterna".sempre unicamente aquela para dentro da qual mergulhamos silenciosamente "além do limite". de resto. e como produzem seus reducionismos acer'ca da transcendência. parecem base suficiente para uma teologia alternativa acerca da experiência da transcendência no interior da história e. no interior de seus limites históricos. se decla- . a fé na ressurreição de Cristo e nossa. vítimas necessárias.

permite evitar de voltar a prometer a realização desta liberdade absoluta por instrumentos humanos. que deve ficar absolutamente clara. além da qual tampouco hoje podemos sequer pensar a liberdade. só pode ser estabelecida a partir de uma visão dialética entre horizontes utópicos íe projetos históricos concretos. É uma distinção. continua sendo uma utopia. em nome da afirmação da vida. uma condição básica é evitar a ingenuidade de atribuir a qualquer mecanismo institucional a capacidade de plenificar o sentido da vida humana. que por sua impossibilidade pode inspirar todas as . fica óbvio que nenhuma institucionalidade ¡como tal é fonte adequada para critérios valorativos. Dito de outra forma. ou seja. já que não pode ser identificada com mecanismos institucionais. metas sociais — é necessário repudiar qualquer concepção de mecanismos totalmente independentes das intenções e do controle dos homens. É necessário enfocar a útopia como o absolutamente impossível. Além do núcleo ou fonte de critérios necessário para a concepção de instituições — onde já devem ser assumidos critérios nitidamente anti-sacrificais. Reconhecer que todas as institucionalidades têm um caráter limitante em relação até àqueles valores. que serviram de critério para concebê-las. A fonte de critérios valorativos. Atribuif virtudes auto-reguladoras a instituições significa sacralizá-las e aderir a teorias sacrificáis elaboradas a partir do limite dessas instituições. Nenhuma sociedade tende à realização dela. Somente a superação da metafísica do progresso. embora necessariamente flexíveis. "A liberdade. Para poder falar de sacrifícios aceitáveis. em relação às teologías idolátricas e sacrificáis. a aceitação necessária da funcionalizaçãò de valores nos caminhos institucionais não deve servir de base para aceitar que a definição dos valores fique entregue inteiramente às instituições. como livre espontaneidade. não significa deixar de positivar a importância de instituições claramente projetadas. sem embargo.iam insubstituíveis oú até auto-reguladoras. Se nem sequer o núcleo de critérios inspiradores das institucionalidades deixa de sofrer limitações nas concretudes institucionais.

que uma transcendência não aprisionável nos limites institucionais da história está implicada na manutenção dessa abertura utópica. Mas os limites da liberdade são resultado da experiência. A adesão a esses valores. e motivar o empenho e sacrifício que demandam. A promessa da factibílidade da liberdade absoluta destrói as possibilidades da liberdade. mas ¡jamais em nome da plenificação da vida por virtude própria das instituições. * * $ 48. em termos teológicos. do serviço e da aceitação de sacrifícios. pode surgir a luz necessária para positivar a adesão a instituições. jamais atribuíveis a mecanismos institucionais autoireguláveis. mas aos sujeitos humanos que os assumem como instrumentos humanamente controláveis. a utopia da livre espontaneidade é transcendental e não imánente. este horizonte inspira efetivamente critérios valorativos encarnáveis em instituições transitórias e flexíveis. embora surja desde a imanência". que estão ao nosso alcance na história. o que significa. . é a temática pouco freqüentada a partir da qual. paia aprofundar a questão "projeto histórico — utopia" 6 fundamental seu livto Crítica à razão utópica. que chegam a ser visíveis somente pela própria inspiração utópica. n„ 12/1987. 48 A inter-relação dialética entre projeto histórico e utopia. incluindo a entrega da própria vida. é o caminho que visualizamos para uma positivação da entrega. ao que nos parece. sem sacralizá-las ou (o que é o mesmo) tomá-las como referência para sacrificialismos compulsórios. p. sem submissão a ídolos e sacrificialismos baseados numa lógica da morte. que representam avanços reais. repetimos. que a teologia idolátrica pratica e defende. Isto permite falar de sacrifícios em nome da afirmação da vida. Por outro lado.. in: Pasos. HINKELAMMERT. 7.possibilidades. porém. F„ art. O horizonte utópico inspirador não pode ser abolido. A vivência dessa afirmação da vida e da fraternidade é uma experiência real da transcendência no interior da história. cit. embora não admita nenhum reducionismo fechado. Neste sentido. e não de uma reflexão a priori. é a base para experiências humanas que são as realizações do sentido da vida individual e coletiva. Evitar os dois reducionismos simultâneos.

portanto. se dá sentido à vida e ao sacri- . Vida e morte deixam de ser pólos abstratamente separáveis e se tornam uma unidade <na qual pela afirmação da vida surge a afirmação. Não somente sociedades arcaicas sacrificaram vidas humanas. que afirma a vida. A relação vida-morte jamais é maniqueiamente pura. pela inversão dos direitos humanos o sacrifício da vida humana se torna parte integrante da afirmação da vida humana. que sempre gira de alguma maneira em torno da vida e do sacrifício humano. Afirmação da vida e sacrifício humano estão entrelaçados e se penetram a partir da inversão dos direitos humanos. In media vita in morte sumus. Portanto. implica no sacrifício e. No plano da religião. as sociedades atuais também o fazem. portanto.ENSAIOS TEMÁTICOS 1. A meta. Haver ou não sacrifícios humanos no plano religioso não muda em nada o fato de existirem na sociedade. sempre há sacrifício humano. O sacrifício humano é intrínseco à sociedade humana na medida em que a afirmação dos direitos humanos passa pela inversão deles. Ao garantir a vida é também inevitável administrar a morte em função da vida. da morte. Hinkelammert) Através da inversão dos direitos humanos — inversão de normas e inversão ideológica — o sacrifício da vida humana passa a ser parte inseparável da afirmação política dos direitos humanos. Não podemos afirmar abstratamente uma sociedade pela vida sem nos darmos conta que também a afirmação da vida dentro de uma sociedade. Mas somente através da afirmação dos direitos humanos se pode afirmar a vida humana em sua plenitude mais amplamente possível. só pode ser que haja o melhor sacrifício humano possível. na administração da morte. Do ponto de vista da sociedade. AFIRMAÇÃO DA VIDA E SACRIFÍCIO HUMANO (Franz J. embora subordinada.

e insultar o Espírito da graça? Pois bem sabemos quem é aquele que disse: 'minha é a vingança. Quem é o Deus para o qual estamos sacrificando os homens? Mesmo que digamos que estes homens são sacrificados para que não haja sacrifícios humanos. Mas se pretende abolir tudo isso levando à sua culminarão e infalivelmente ad maiorem Dei gloriam ou ad maiorem humanitatis gloriam. para que não houvesse sacrifícios. segundo São Paulo. e esse é o sentido do sacrifício de Cristo. Terrível é cair nas jnãos do Deus vivo" (Hb 10. independentemente do fato de haver sacrifícios religiosos ou não. despotismo absoluto e terrorismo. Segundo a análise anterior. A inversão ideológica dos direitos humanos não faz senão uma secularização deste arquétipo agressivo. Declara-se que os apóstatas voltam a crucificar. A nível da sociedade. já saborearam o dom celestial. já experimentaram a doçura da palavra de Deus e os prodígios do mundo vindouro e apesar disso caíram na apostasia. até o sacrifício humano ritual continua existindo. é impossível renovar outra vez pela conversão. Isso é feito para que não haja mais sacrifício. Escravidão para os escravizadores.4-6). portanto. É a raiz cristã da inversão do amor ao próximo. Trata-se de dissolver. ver HINKELAMMERT. submeter ao despotismo e ao terrorismo os seres humanos. continuam sendo sacrifícios humanos. Eu é .29-31). este sacrifício ad maiorem Dei gloriam. que é verdadeiramente horrendo é a afirmação de que é horrendo cair trás mãos do Deus vivo. Despotismo absoluto para os déspotas. em que foi santificado. já participaram do Espírito Santo. Nota-se isso na Epístola aos Hebreus. . e profanar o sangue da . O . que ainda hoje não se apagaram. aliança. O resultado geral da análise do sacerdócio de Cristo é: "Pois onde há remissão. escravizar. III parte. E depois: 'O Senhor julgará seu povo'. Franz J. crucificar.. fi terrível a história destes textos. O fato de hoje todos os sacrifícios humanos serem legitimados pelo anúncio segundo o qual são realizados para que inao haja sacrifícios humanos produziu a aparência de que os próprios sacrifícios humanos desapareceram. Trata-se de sacrifícios humanos rituais. agora apresentada como o sacrifício dos que sacrificam o Filho de Deus. Sobre a crucifixão dos crucifícadores. ' É . Declara-se o fim dos sacrifícios. embora pareça outra coisa. e Auschwitz é até agora o pior sacrifício humano ritual que conhecemos em toda a história humana. mata.a crucifixão dos crucifícadores. A Inversão ideológica é exatamente a lei que. Volta-se. escravidão.fício. diz John Locke.18). vinculou-se muito cedo com a tradiçao cristã. . que culminou nas chamas dos hereges queimados pela Inquisição. mas não aparecem assim. isso significa que há seres humanos que são sacrificados no altar dos direitos humanos.1 Porém. embora isso só seja possível aproximativamente. crucificação. Pois de novo estão crucificando para si mesmos o Filho de Deus e expondo-o à afronta" (Hb 6. ou em que forma. ao sacrifício sem ser salvífico. Mas aqueles que tornam a sacrificar o Filho de Deus são agora de novó sacrificados: "Quanto maior castigo julgais que merece quem pisar aos pés o Filho de Deus. O que se faz é sacrificar. Hoje o governo de Reagan diz: terrorismo para os terroristas. /ls armas ideológicas da Morte. quer dizer. a sacrificar o Filho dè Deus. Mas seres humanos são sacrificados ad maiorem Dei gloriam. a relação vida-sacrifício se dá nos seguintes contextos: 1 Este sacrifício. Mas também se diz: "Porque aqueles que foram iluminados uma vez.que retribuirei'. já não há oblação pelo pecado" (Hb 10.

. as reivindicações dos explorados são transformadas no ressentimento dos dominadores. que por parte do defensor da ordem é vivida como um auto-sacrifício. mas estas parecem ser as leis da guerra terrorista" (Carlos Alberto Montaner em La Nación. uma superação de si mesmo. é terrível. assumindo a angústia originada em sua execução. Cultura y moder? nización en América Latina Universidade Católica do Chile. ordem em favor da qual a própria vida humana é destruída. Sobre esta transformação do sacrificador em verdadeiro sacrificado se pode citar os próprios termos do discurso de Himmler. que sacrifica os outros pela ordem. terrível. seja de normas. Pedro. não para os sacrificados mas para aquele que se sacrifica ao sacrificar os outros. 1984. Fiança e Espanha em certos momentos de sua história pagaram tributo às conseqüências de sua liderança É doloroso. O alto pieço que se há de pagar é o auto-sacrifício do dominador autoescolhido. seja ideológica. chefe dos SS nazistas. portanto. Este sacrificio pela ordem tem uma dimensão irracional quando está desligado das exigências da vida concreta e pode desembocar na transformação do defensor da ordem numa máquina de matar até o suicídio coletivo. iA ordem representa então tanto as relações sociais de produção como sua dimensão de servir como princípio de hierarquização dos direitos humanos. Inglaterra. 15A. atribuindo a ele este ressentimento em forma de inveja. San José. em 1943. o centro da civilização ocidental e a espinha dorsal de uma aliança internacional de povos qtie compartilham ideais e obietivos. Santiago. 25-7-1985. Morandé leva muito a séiio a presença do sacrifício humano em nossa cultura atual. os justos pagam pelos pecadores. 2 A outra dimensão é dada diretamente pela inversão. Carregar o grande peso de efetuar a exploração é agora sua legitimação perante o explorado. este seu ressentimento volta a projetá-lo no explorado. p. deve fazer por amor à sua causa uma tarefa desa? gradavel. Ê neste último sentido que Nietzsche interpreta o ressentimento. não resta outro remédio senão pagar o alto preço que estas responsabilidades acarretam. No entanto. redime toda a culpa" (MORANDÉ. em Posen. porém. Precisamente esta mística do auto-sacrifício demonstra como. Este tipo de sacrificio aparece tanto na ordem burguesa como na ordem socialista.1) O sacrifício humano pela ordem — e. dos direitos humanos. Este auto-sacrifício do dominador eleito é descrito muito bem por um comentarista da imprensa conservadora quando se refere ao "contratei r o r " que o governo de Reagan declara hoie: "Ouando se pretende sei a 'cabeça do mundo livre'. através da inversão ideológica dos direitos humanos. 2. Tem dois aspectos: de auto-sacrificio e de sacrifício de outros. Sobre este discurso d'z outro autor: " A verdadeira vítima agoia é o verdugo que. que é doloroso. sentir-se escolhido pelo destino. O auto-sacrificio consiste na autotransformação para poder funcionar na linha da inércia da ordem social e inclui a autoitransformação para a disposição de matar. como disserà Himmler a seus homens. p„ 71). Costa Rica). A dor sofrida pelos explorados é transformada na dor sofrida pelo explorador por causa de sua ação de explorar. depois da inversão dos direitos humanos — acompanhado pela identificação da manutenção da ordem e da afirmação da vida.

2) O sacrifício humano pela afirmação da vida imediata. O sacrifício de quem se sacrifica pela afirmação da vida imediata é realizado pelo defensor da ordem e. mas é sacrificado pela ordem. Mas ele assume esta sua morte pela vida imediata e assim oferece sua vida pela vida. no sentido ideológico da identificação da ordem e da vida humana: sendo a ordem a vida. não tem a . Na ressurreição se manifesta que esta vida não é ilusória e sim real. cuja essência é uma oferenda da própria vida. Por outro lado. Esta afirmação da vida imediata implica. iQ sacrifício pela ordem está portanto ligado à afirmação da vida em dois sentidos. Sacrifica-se somente neste sentido. Em sentido estrito ele não se sacrifica. Mas é a outra face do sacrifício pela ordem. uma provocação. Mas cai sobre aquele que afirmou a vida diante da ordem com a disposição de ser sacrificado. É o sacrificado quem dá sua vida. Por um lado. faz um sacrifício. o sacrifício pela ordem cai sobre àquele que afirma a vida sem considerar as leis da ordem como vida imediata. politicamente significa. em nome da vida. a disposição de perder a vida pela vida. ou pode significar. ao ser conseqüente. Surge a disposição ao sacrifício numa outra dimensão do que o sacrifício pela ordem. Trata-se da disposição de ser sacrificado pela vida. O sacrifício da vida por parte de Jesus só é compreensível nesta linha. mas a vida lhe é tirada na forma de um sacrifício pela ordem. No sentido da oferenda da vida. Neste caso não há identificação entre manutenção da ordem é afirmação da vida e sim uma relação conflitiva entre ambas. Jesús se sacrifica porque leva sua disposição em afirmar a vida para ialém das ameaças de morte em nome do sacrifício pela ordem. Mas seu sacrifício é por uma vida para além da ordem social em nome da qual é sacrificado. Este sacrifício pela vida imediata não é nem auto-sacrifício nem auto-imolação em sentido estrito. Ao ser sacrificado pela ordem em nome de uma suposta identidade entre ordem e vida e. Ao dar sua vida. portanto. portanto. sacrificar outros pela ordem é visto como afirmação da vida. Embora tal afirmação não seja política. Trata-se do extremo oposto do sacrifício pela ordem. Portanto. oferece sua vida pela vida e faz um sacrifício válido ao aceitar ser sacrificado. como sacrifício pela ordem.

in: TAMEZ/TRINIDAD (ed. ver: SOBRINO. ao negar a legitimidade da inversão 3 ideológica. É uma vida testemunhai imediata sem considerar as leis da ordem e aceita ser sacrificado pela ordem como conseqüência da provocação que tal vida significa do ponto de vista da ordem política. que na ressurreição se mostra real e superior. 3. Ali também se fala da vida como morte da morte. Mas trata-se da morte dada ao rebelde. No entanto. a nova ordem se torna operativa pela administração da morte. embora a raiz da nova ordem seja legítima. portanto. tanto no pró: prio conflito como na nova ordem. Este sacrifício da vida pela vida imediata contém sua plenitude na ressurreição e. La legitimación de la dominación en la tradición cristiana.: . especialmente p 213-216. Cristologia a partir da AméPetrópolis. necessariamente. uma luta política atua sempre. através de sacrifícios humanos. El Dios Mortal: Lucifer y la Bestia. que é a morte da morte e.. Vozes. Também: HINKELAMMERT. iLuta-se positivamente por um determinado tipo de sociedade. Mas a morte não morre por dar morte mas por sofrê-la como oferenda da vida. a justificação da ordem institucional está exclusivamente em sua inevitabirica Latina. quer dizer. portanto.). Na visão do sacrifício pela ordem isso é diferente. Franz J. A legitimidade desta luta está na afirmação da vida humana imediata em toda a sua plenitude. Jon. 199-314. uma vez estabelecida. Capitalismo: violencia y antivida DEI-EDUCA. Isso é inevitável. Estando a legitimidade na afirmação da vida. que se transforma em princípio de hierarquização. sob condições de factibilidade e não simplesmente sobre o que é desejável. Isso cria um conflito político pela ordem e uma correspondente inversão dos direitos humanos. San José. 3) Ó sacrifício pela afirmação política da vida concreta. Sobre esta interpretação..mínima conotação de suicídio. é através da ressurreição que se dá a morte da morte. As condições de factibilidade impõem a institucionalização de uma nova ordem e a nova ordem implica o estabelecimento de um poder político com a conseqüente inversão dos direitos humanos. 1983. 1978. Na afirmação política da vida humana trata-se da afirmação ide uma ordem política que sempre existe junto com relações sociais de produção. p. vida. significando vida nada mais do que a própria ordem política.

também não se pode separar tão olimpicamente Deus e o Diabo. Mas. aparece novamente o sacrifício pela ordem como conseqüência da inversão inevitável dos direitos humanos na nova sociedade. pelo simples fato de que o céu é uma imaginação humana a partir da terra. Goethe resume isto assim: nemo contra deum nísi deus ipse. Por um lado. Através da inversão dos direitos humanos e os conseqüentes sacrifícios pela ordem também para a sociedade socialista continua existindo algo que já os analistas mais lúcidos da sociedade burguesa destacaram para esta sociedade: o pacto imefistofélico. e como é retomado por Max Weber. Agora. que é a raiz sacrificai de uma sociedade que afirma politicamente a vida humana. assim como a terra. aparece o sacrifício pela afirmação da vida imediata. Ao mudar a terra. É isso especificamente na tradição cristã. do capítulo 4. sendo de tipo político a afirmação da vida. dadas as condições de factibilidade política da afirmação da vida.4 2. os dois tipos de sacrifício se misturam. Este dualismo é insuperável e condicionará a ¿história futura da nova sociedade. Se não se pode separar. na qual aparecem os projetos da sociedade humana pela antecipação do céu na 4 . minimizá-la. início . muda o céu. Hinkelammert) O céu tem uma história. O céu é. vida e morte. Ninguém contra Deus senão o próprio Deus. A HISTÓRIA DO CÉU: PROBLEMAS DO FUNDAMENTALISMO CRISTÃO (Franz J. Nestes limites continua sendo uma ordem questionável em função da afirmação da vida imediata e sua validade se apóia sobre a aspiração de poder tomar controlável a inversão dos direitos humanos e. um projeto humano inconsciente.lidade. como o formulado por Goethe. assim. em termos maniqueus. Dichtung und Wahrheit. em certo sentido e na maioria das vezes.

Não há mudanças sem projeção do que será. e sobre a maneira de antecipá-lo. A ausência de lutas religiosas não indica tolerância mas.terra. Por isso. a validade de algum projeto social comumente aceito ou implantado com êxito. cuja antecipação é o projeto social. Na medida em que este projeto se transforma em objeto de conflito. No entanto. aparecem também as lutas religiosas implicadas no conflito social. ao mudar a terra. Por este motivo. A realidade económico-política é gerada a partir de projetos que são antecipações de algum céu fora do alcance humano. normalmente. Por isso a história real não pode ser escrita sem se escrever também a. O comunismo na tradição socialista. a luta pelo poder na terra é sempre uma luta pelos céus. tem que influir sobre a imaginação do céu. Isso não é diferente no caso de o céu já não ser imaginado em termos religiosos e sim secularizados. sobretudo. desempenham um papel análogo ao céu na tradição religiosa. anterior1 — e no sentido lógico o é — ao projeto para a terra. também o conflito entre socialismo e capitalismo tomou novamente uma forma religiosa. São agora conflitos em torno da imaginação acertada da sociedade perfeita e da maneira de chegar a ela. assim como a competição perfeita na tradição liberal. mudam os céus. São imaginações científicas de projetos transcendentais em relação aos qüais volta o problema do tipo de antecipação porque também não é possível realizá-los diretamente por assalto. o qual está sendo antecipado na terra pelos projetos ecònômico-políticos. sendo a mudança no céu. Quem quiser influir sobre o projeto na terra. Por isso os respectivos conflitos tomam o mesmo aspecto dos conflitos religiosos abertos. pelo menos na América Latina. . com o surgimento da teologia da libertação. Sendo o que será. sempre derivado como antecipação do céu na terra. história do céu. Em determinados momentos foram conflitos entre teísmo e ateísmo. E dentro destas lutas religiosas aparece sempre o conflito pela imaginação do céu e pelo tipo de antecipação dele. tal como ocorreu entre capitalismo e socialismo. as lutas sociais implicam lutas religiosas. Trata-se sempre de um conflito sobre a imaginação do céu.

p„ 19-30. muda com as realidades económicopolíticas sem sei um simples reflexo destas realidades. paralelamente a esta corte. como passo imprescindível. ou terminar no infer1 Ver HINKELAMMERT. introdução. E. mas antes sua reflexão e raiz de suas projeções. a imaginação do céu a antecipar. Como já dissemos. O servo na terra pode se tornar um alto hierarca no céu e o papa na terra pode acabar até no inferno. 0 fato de o homem ser ativo faz com que a sua relação com a realidade económico-política passe pela reflexão desta realidade que contém. assim como as conhecemos na forma liberal da competição perfeita e a socialista do comunismo. pode ser um simples servo na hierarquia celeste post-mortem. nesta reflexão o céu pode ser substituído por imaginações científicas da sociedade perfeita. se parece com uma corte feudal hierarquicamente estruturada a partir do Deus-rei. aristocratas. Franz ]. Esta terra é também estritamente hierárquica. Há uma relação de antecipação com o céu feudal medieval na qual a aceitação do estado em que o homem se encontra na terra determina o lugar na hierarquia celeste do céu. e inclusive a gente simples que rodeia a corte.. existe o inferno eterno. O céu.1 Podemos ver algumas etapas desta história do céu para poder situar a análise do fundamentalismo atual. Da história européia nos vêm duas etapas chaves. mas são almas hierarquizadas feudalmente. os estamentos de clérigos. O aristocrata. 1984. Costa Rica. A relação antecipativa com a terra transluz já um elemento dinâmico. Crítica a la San José. o servo que está contente em sê-lo e que cumpre suas obrigações na terra pode passar para a hierarquia celeste mais alta depois de sua morte. Mas não há nenhuma garania de que o homem de alta hierarquia na terra alcance alta: hierarquia no céu. O céu medieval é um céu feudal. que não cumpre seus deveres para com o servo e os outros. Trata-se do céu medieval e do céu da sociedade burguesa em suas origens. . portanto. Portanto. Tampouco o homem de baixa hierarquia na terra passa necessariamente para um lugar de baixa hierarquia nos céus. portanto.O céu. como Dante descreve em sua Divina Comédia. razón utópica. Editorial DEI. Todos os homens têm alma.

portanto. À luz dos problemas no céu se descobrem os problemas na terra e se adqui- . começa pela afirmação do sujeito para além de qualquer hierarquia. O céu deixa de ser uma corte feudal e se transforma num céu de almas. por que não o seria antes da morte? Uma vez afirmada esta igualdade. O que é legitimado não são apenas as estruturas do poder. com a mudança do céu. As novas relações capitalistas de produção se constituem. mas também uma exigência ética para aqueles que vivem nestas estruturas. que nunca cessam. Mas esta igualdade significa agora que não se aceitam mais nem servos nem aristocratas na ferra. gozando todas de igual felicidade. a partir e em função dê um céu de almas iguais. O servo maltratado não pode derivar desta ética um direito a se rebelar mas deve cumprir seus deveres. Está no coração de suas relações sociais de produção. também as relações de produção feudais. Mas não ocorre fora do céu. Rebelando-se. e a conseqüente reelaboração das relações sociais de produção feudais. portanto. também não aparecem mais no céu. dando-lhe üm limite de exigencia moral dentro destas estruturas.no. que é básico para a existência da sociedade medieval. Estas relações feudais de produção não podem desaparecer a não ser que mude a própria imaginação do céu. seja eclesiástica ou económico-política. Portanto. cairia numa culpa mais grave ainda do que aquela do aristocrata que o maltratou. E na antecipação deste novo céu o sujeito se transforma em indivíduo burguês. à legitimação das estruturas do poder terrestre vigente. post mortem lhe espera a satisfação de ver o aristocrata castigado e ele mesmo premiado. porém. A antecipação do céu medieval leva. Como diz Hegel mais tarde: não há revolução sem reforma. Mas não se institui nenhuma instância imánente de julgamento sobre esta ética porque o julgamento é post moríem. nunca pôde responder a pergunta óbvia: se o servo é post mortem igual ao aristocrata. Contudo. O resultado é um comportamento descrito por esta antecipação do céu. A própria imaginação medieval do céu já é contraditória. o céu tem qué tóudar e. A reforma. Com a igualdade dos homens desaba o céu medieval.

em certo sentido. são derivados do céu. a antecipação do céu das almas na terra não legitima qualquer rebelião. para os outros. A antecipação leva à rebelião e esta à primeira revolução burguesa. Para entrar no céu. como também os do dominado. o que aconteceu com mais clareza na revolução burguesa da Inglaterra no século XVII. Transforma o sujeito em indivíduo burguês. Embora este elemento de consolo exista. mas apenas a rebelião burguesa contra as estruturas feudais. com o mesmo furor que na Idade Média. a sociedade é legitimada em relação à eternidade. À sociedade burguesa continuam enviando os que se revoltam contra a sociedade para o inferno. Continua existindo. suas aspirações em relação à vida terrestre e transforma o céu. em momento algum é dominante. que é proprietário privado. A partir destes céus o dominador recebe ambos: o gozo deste mundo e o gozo eterno do outro. como fez a sociedade medieval com os que se rebelaram contra ela. entre outros. Este indivíduo se encontra. É a instância através da qual é definido o sentido da vida como vida em plenitude. em lugar de consolo. e o dominado apenas o gozo do outro mundo como substituto do gozo do mundo terrestre no qual ele vive. Portanto. todos vão para o céu. ele tem que cumprir ^cm os cânones éticos de sua sociedade — que são derivados da propriedade privada e das relações mercantis entre proprietários — e tem que defender esta sociedade burguesa contra seus inimigos. . o inferno para o qual vão. O próprio céu se torna para uns afirmação de sua vida em relação aos outros e. Os deveres do dominador. Este céu das almas iguais leva à sociedade burguesa que o antecipa. em consolo substitutivo da vida terrestre. numa situação análoga ao aristocrata medieval.re capacidade para enfrentá-los intencionalmente. Esta breve análise já demonstra que o céu não é um simples substituto da terra. A conseqüente antecipação do céu na terra confirma. que serve como consolo para os explorados. aqueles que se enganam sobre o tipo de rebelião legítima. Certamente. para o dominador. para os outros.

Isso levou à aparente secularização da sociedade moderna. Por isso. a imaginação pode apresentá-la somente como vida sem nada e só pode louvar felicidades imaginárias com palavras õças. pelo fim do século XIX. cada vez mais. É vida sem corpo. . sém distorções concretas em toda a sua pureza insignificante. ela pode substituir facilmente esté céu. No final deste processo. O céu das almas iguais é sem dúvida um céu absolutamente insípido. O modelo do Robinson é a primeira elaboração deste tipo. beber. que passa a ver sua transcendência em forma de um modelo funcional elaborado cientificamente. etc. finalmente. a proclamação de Nietzsche de que "Deus está morto" correspondia a esta vacuidade de seu céu. Além do mais. dançar. Trata-se de um céu de igualdade abstrata no qual. A imaginação humana se perde diante dele. com ò tempo. um conceito elaborado segundo as funções sociais que aparecem nos mercados entre proprietários. é um céu que se torna. esta sociedade burguesa começou agora a expressar seu projeto não apenas em termos do céu de almas iguais. cada vez mais vazio e se desgasta enquanto é expresso. sem concreção. Positivamente o homem não pode imaginar a vida espiritual pura. que também era vista como crime máximo. Algo parecido era válido na sociedade medieval: cumprir com os cânones éticos próprios da sociedade feudal e defender esta sociedade contra qualquer rebelião. em nome desta transcendência cientificamente elaborada. uma existência de espíritos puros é imaginável apenas através da negação do concreto e òorporal. Trata-se do céu mais vazio que a tradição cristã jamais produziu. Como toda imaginação humana é concreta e corporal. nem os santos querem ficar. sem necessidade de comer. movimentos ateus em massa. quando aparece a construção de uma transcendência cientificamente elaborada. mas também em termos de sociedade perfeita. Portanto. vestir. No entanto. o que ocorre pela primeira vez na Revolução Francesa. o modelo de competição perfeita (de equilíbrio geral) é a forma vigente hoje. Agora pode até faltar a referência explícita ao céu das almas e podem ocorrer.cuja rebelião é vista sempre como crime máximo.

é logo substituída pela reflexão marxista. Os valores vigentes da sociedade burguesa são derivados agora de uma transcendência cientificamente elaborada (relações mercantis no estado de sua perfeição imaginada: competição perfeita) e as motivações e apelos a partir do céu também não funcionam. No entanto. sobra como resultado de seu desenvolvimento. que é paralela mas realizada em termos mais secularizados e. O céu das almas não serve nos dois sentidos e a felicidade abstrata que promete não pode comover nem os de cima nem os de baixo. O céu se desvanece e perde sua função. mas não quanto a suas possibilidades reais de vida. Ela parte da contradição mais evidente tanto do céu das almas como da sociedade burguesa. outro problema. portanto.Havia. Embora em termos secu- . A desigualdade da vida concreta protesta em nome de uma igualdade que foi reduzida a direitos burgueses formais. que aparece subterráneamente no século XIX. finalmente. No entanto. Todos os homens são iguais em relação a seus direitos formais. O céu das almas. que foi desenvolvido como sua antecipação. a reivindicação de uma igualdade que não seja simplesmente formal mas que inclua as próprias possibilidades de vida concreta. por conseguinte. em toda a tradição. O céu das almas tampouco podia desempenhar a função que a imaginação do céu. Ao lado do céu das almas. que existiu no início da sociedade burguesa. sempre teve na sociedade. Contra esta redução evidente aparece. aparece a reflexão de üm novo céu em termos da vida humana concreta e muito ligado com a tradição do Apocalipse de São João e a promessa cristã antiga de uma nova terra no sentido de esta terra sem a morte. Trata-se de um céu da igualdade abstrata. esta reflexão. ateus. sobre a terra. Contudo. Trata-se da função de propiciar aos de cima uma imagem de perfeição de sua própria vida e aos de baixo um substitutivo eficaz para os sofrimentos da exploração da qual são objeto. paralelamente ao esvaziamento do céu das almas surgira uma nova reflexão sobre o céu e. continua sendo uma reflexão a partir de uma terra transformada em terra ao serviço da satisfação das necessidades de todos. porém.

lares. Mas não apenas o pensamento nietzscheano reagiu à transformação do céu feita por Marx. A revolução na terra se transformou em antecipação da terra nova. agora. Sendo impossível sua realização concreta. como Marx o concebe. de modo semelhante como a sociedade burguesa surgiu como antecipação do céu das almas iguais. recentemente no século XX com a teologia da libertação. Apareceu uma revolução nos céus para refletir a revolução na terra. Deus não morrera. declarava a morte de Deus e reinterpretou a volta para o homem concreto de Marx como uma vida concreta do indivíduo contra todos os outros. que efetivamente começou com o pensamento de Marx — embora Marx: renegasse os céus — repercutiu profundamente sobre o próprio pensamento burguês. a terra . Na linha de Nietzsche renunciava. Mas agora também a imaginação da reação burguesa passou para a imaginação concreta da vida humana. volta a reformular o céu a partir da vida humana concreta procurando também sua respectiva imaginação do céu na imagem cristã tradicional da terra nova. mas estava em outro lugar. No entanto. a uma elaboração religioso-teológica desta reivindicação da vida concreta. Certamente. Outra forma de passar do céu das almas para a imaginação da vida concreta foi precisamente o fundamentalismo protestante nos Estados Unidos. a todos os céus. Diante do fato do desvanecimento do céu das almas. surge um pensamento de antecipação deste reino da liberdade em termos de um "mais possível". Este novo enfoque da sociedade a partir das necessidades dos homens concretos leva. portanto. como acreditava Nietzsche. em favor do selvagismo burguês. Contudo. onde ninguém suspeitava. esta revolução nos céus. Não podia reagir através da ativação de seu céu de almas. a volta para o homem concreto é de Marx. Contra o universalismo do homem concreto de Marx apresentava a luta pelo poder da besta em nome de sua vida concreta parcializada. Nietzsche apenas o reivindica. aparece uma nova transcendência: o reino da liberdade. Esta substitui agora o céu das almas por uma terra nova por vir — a terra sem a morte — cuja antecipação se torna a sociedade socialista.

O homem . será comido lá. porém. que é nova terra e promete "mamey". Uma revolução nos céus é muito difícil de derrotar na terra. uma terra que seja esta terra sem a morte. Realmente. Ele fica vazio diante de um céu. a consciência religiosa de hoje já não pode dar razão de sua fé senão em termos da esperança de uma nova terra. o mundo real é mero campo de extensão da fé. E é neste sentido que podemos descobrir seus elementos centrais.nova — também em foima de uma terra sem a morte —é imaginada de tal maneira que sua antecipação acaba sendo a sociedade norte-americana e seu American way of Ufe. Todo o fundamentalismo dos Estados Unidos pode ser resumido nesta função: construir uma imagem tal do céu que sua antecipação seja o American way of Ufe. bebe. é reducionista. onde se está triste e alegre. A fé é transformada em pura interioridade. onde há sensualidade e onde "se come mamey" (uma fruta tropical deliciosa) . termina reivindicando o céu em termos da nova terra. Ninguém mais' cõrre para o céu das almas. todo o mundo é transformado em cenário da fé. nela está nossa existência. aderem à revolução marxista dos céus. O céu das almas. como aqui. Todo o "mamey" que não pôde ser comido aqui. ninguém quer entrar e os que estão dentro querem sair. No entanto. uma terra que é plenitude de todos os desejos correspondentes à terra daqui. Até o Papa João Paulo II. despedindo-se do céu das almas. Uma terra em seu sentido real. apesar de esta imaginação partir da vida humana concreta. Mas ela não chegou apenas ao fundamentalismo. mas sem a morte. Se a terra nova é o objeto da antecipação. onde se come. vive. O fundamentalismo assume uma posição que se segue da revolução nos céus que Marx desencadeou. Ela se impõe. em sua encíclica Laborem Exercens. a raiz de toda a sua força de convicção é a mesma da teologia da libertação: a esperança de uma nova terra. Uma terra que completa todos os desejos não realizados aqui. Lá não se renuncia à corporeidade mas ela é vivida de modo completo. mas existência plena. Onde se ama e se fazem festas. Embora se considerem antimarxistas.

a ação se explica apenas por uma combinação de intenções e efeitos não intencionais. Ao transformar o mundo em cenário da fé. Em relação à ação. Toda ação humana é guiada por intenções. O homem pode prescindir perfeitamente do mundo se mostrar que o faz com boas intenções e demonstrar que estas intenções acarretam esforços sérios de realização. por exemplo. Como a nova terra é antecipada. através de uma política de mercado. Este ponto de vista não abandona a inferioridade do sujeito como cenário da fé mas a complementa agora com sua existência na exterioridade. e triunfa se o projeto triunfa. Mas toda ação intencional acarreta efeitos não intencionais. mas da conquista de um projeto social. a açãó visa ao pleno emprego e a intenção procura realizá-ló a todo transe. O mundo não é simplesmente campo de aplicação da fé mas primordialmente lugar de realização da fé. mesmo que do ponto de vista subjetivista e reduzido da fé todos tenham tido boas intenções. o resultado não intencional da ação em relação ao pleno emprego será o aumento do desemprego. o que vale para todo ser humano em qualquer circunstância. é apenas quanto a seu êxito individual. Se. Não se trata do sucesso individual de um contra o outro. A fé fracassa se o projeto fracassa. O efeito não intencional da ação . Este fato é conatural à ação na medida em que o ator tenha um conhecimento limitado do mundo exterior. estes muitas vezes contradizem as intenções subjetivas e até as podem transformar no contrário. o mundo é o lugar onde se encontram Deus e o pecado. que é sinal de fé. não há apenas intenções que a explicam mas também efeitos não intencionais sem cuja explicação e ação como ato jamais é plenamente compreendida. E se o êxito for critério. campo de encontro e de luta da fé. ou Deus e o demônio. portanto. porque não a chamamos de ação se não o for.não é julgado pelo que efetivamente faz mas por suas intenções e pela efetividade destas intenções. Fracassando o projeto da antecipação. Como conjunto. surge o problema do êxito da antecipação. fracassa a fé. Descreve-se melhor esta relação nova com a fé através de uma análise das intenções humanas.

O sujeito está salvo. que estes efeitos não intencionais apenas podem ser mudados mudando-se as estruturas. embora sejam outros. mas também objetivamente eficazes. Isso tem. em seu julgamento. na medida em que a ética leva em conta os efeitos não intencionais da ação intencional. que destroem. Não apenas a intenção eficaz subjetiva. todo o possível para conseguir o pleno emprego. As estruturas podem destruir ao produzir efeitos não intencionais da ação. Aparece um imperativo ético dirigido às estruturas e seus efeitos sobre as conseqüências não intencionais da ação. o efeito não intencional da destruição da intenção. embora tenha aumentado o desastre. no caso em que as estruturas dadas produzem efeitos não intencionais da ação intencional para o pleno emprego que destroem esta intenção. são potencialmente lugares do pecado e até demoníacos. portanto. No caso do exemplo: pergunta pela intenção do pleno emprego e pela implementação de uma política correspondente de mercado a todo o transe mas não inclui. Seu âmbito. As estruturas são. porém. os condicionantes dos efeitos não intencionais da ação humana. tendo as novas estruturas influência novamente sobre os efeitos não intencionais da ação. mas também a eficácia objetiva no alcance dos fins. como conseqüência. Uma ética reducionista de simples interioridade do sujeito pergunta apenas pela intenção e a efetividade de implementá-la. . dentro de estruturas dadas. Para o sujeito reduzido da ética individual não são mais do que um campo de exercício de suas virtudes. preocupa-se com as estruturas institucionais que agora se transformam num lugar eticamente relevante. entra no campo da responsabilidade.destrói a intenção. Não é suficiente ter feito. portanto. O âmbito destes efeitos não intencionais são as estruturas. A capacidade do homem de se tornar responsável por seus atos é decidida precisamente em sua relação com as estruturas. Do direio ao emprego segue-se agora a obrigação de mudar as estruturas. . nunca pode ser eticamente neutro. Para o sujeito completo. Portanto. Desta maneira apresentam-se como um âmbito da relação Deus-pecado ou Deus-demônio. Agora é eticamente decisivo não apenas fazer ações subjetivas para o pleno emprego.

este. o nome de mão invisível. embora se baseie na análise anterior de Marx. 2 No entanto. pelos efeitos não intencionais da ação. Cada um por si e a estrutura por todos. da religiosidade burguesa. Mas Marx não foi o primeiro a analisar os efeitos não' intencionais. n o . do vinhateiro. Adam. México. Esta é a inteligência de semelhantes compromissos e este é o modo de se obter de outros a maior parte dos bons ofícios de que o homem necessita no comércio da sociedade civil. propõe-se a fazer isto: você me dá o que me faz falta. pelo que há de consegui-la com mais segurança usando em seu favor o amor-próprio dos outros. mas das vantagens deles". sustentando que ele leva. suposta sempre a ajuda do primeiro Fazedor. Expressa a divinização do mercado e a conseqüente destruição da humanidade em seguida. ele usa esta análise exclusivamente para isentar o homem de toda a responsabilidade de seus atos. que mostrou a possível destrutividade das estruturas ao condicionar os efeitos não intencionais da ação humana intencional. SMITH. e mesmo aquela ajuda do homem ele a esperaria sempre em vão da pura benevolência de seu próximo. Não é da benevolência do açougueiro. 1977. etc. mas recorremos a seu amor-próprio. O primeiro foi Adam Smith. e eu lhe darei o que faz falta a você. capítulo II. Esta mesma interpretação está presente em toda a teoria burguesa "da democracia. — são todas derivadas de efeitos não intencionais de uma ação condicionada por relações mercantis). do desemprego. nunca lhes falamos de nossas necessidades. Quem quer chegar a um acordo de interesses com o outro. (As leis de tendência de Marx — lei da pauperização. virtuoso ou não. Produzem antes tendências destrutivas. Não imploramos sua humanidade.Foi a Teologia da Libertação que por primeiro elaborou este problema em sua forma teológica. Portanto. . Marx. do padeiro e sim 1 de suas considerações de interesse próprio que esperamos e devemos esperai nosso alimento. da concentração. Livro I. agindo no mercado. Publicaciones . mas de efeitos não intencionais nos mercados. na medida em que lhes manifesta que é para utilidade deles também que lhes pede o que deseja obter. Seja o homem bondoso ou malvado. independentemente das intenções dos atores. 14. Ê a versão' secularizada do: cada um por si è Deus por todos. onde a democracia é percebida como um mercado de votos. Riqueza de las Naciones. as quais Marx denun2 Adam Smith diz isso nos seguintes termos: "Mas o homem se acha quase sempre. precisamente a estes efeitos não intencionais. Adam Smith o diviniza e dá. p. na necessidade da ajuda de seu semelhante. sendo a estrutura-o-mercado. A harmonia não é produto de boas intenções. Adam Simth louva o mercado. faz com que entre os seres humanos haja sempre uma harmonia. chegou porém ao resultado de que não o são tanto assim. Sua tese pode ser resumida também assim: os efeitos não intencionais — ao serem condicionados pelo mercado — são sempre benévolos. toda ação sua a um bom teimo. segundo a providência comum. ao analisar estes efeitos. Cruz. qual cada um segue seu amor-próprio e o mecanismo eleitoral vigia sobre todos.

O fundamentalismo nasce neste ambiente da teologia política burguesa. O fundamentalismo. mercado burguês e Estado burguês adquirem um valor metafísico para além de toda crítica possível e são presença da Providência na história. como sujeito suficiente. Na linha de Adam Smith. uma verdadeira magia das estruturas que salvam por si mesmas. Em Adam Smith se trata realmente de uma esperança de paz. dada a magia todopoderosa do automatismo do mercado que transforma esta irresponsabilidade — através da mão invisível — no melhor serviço à comunidade. chegando a reforçá-la. há estruturas que salvam. O mandatário pode ter boas ou más intenções mas a estrutura democrática faz com que o resultado somente possa ser bom. . que parte de uma teologia do mercado e do capital. Embora a esperança tenha sido sempre ilusória. que só se refere às suas boas intenções. Contudo. Trata-se de uma teologia política que declara este sujeito irresponsável. Faz de fato uma teologia política mais além da ideologia burguesa tradicional. A magia das estruturas é conatural ao pensamento burguês. fora de qualquer intencionalidade humana. como resultado de uma política liberal que estende seu âmbito de vigência sobre o mundo inteiro. Isso leva a uma verdadeira teologia política dentro do pensamento burguês. também faz mudanças. porém. Dela se segue toda uma ética política que vai muito além da ética subjetivista do sujeito reduzido a suas intenções. Trata-se de uma teologia política que afirma a redução do sujeito à sua simples individualidade como o verdadeiramente humano. já não tem esta confiança. A mudança mais importante se refere à utopia liberal do automatismo do mercado. produziu naquele tempo uma confiança no mundo e seu futuro. embora não afetem este resultado central. Isso se estende hoje a toda ideologia da democracia burguesa. o que permitiu solucionar o problema do sentido.cia em suas leis de tendência. que até hoje é dominante em toda a ideologia burguesa. Uma vez feita esta análise. Mas não entra em conflito com ela. aparece a idolatria implícita do esquema de Adam Smith. mas se insere completamente nela. Esta teologia já está presente no próprio Adam Smith e tem se desenvolvido até hoje.

a interpretação não é literal. Mas é uma mão que leva à catástrofe. Mas. Adam Smith vê esperanças de paz.Vê-se num mundo convulsionado. não vê mais do que uma obra do Anticristo. apesar de se insistir muito num método literal ou gramatical da interpretação destes textos. no automatismo das estruturas. em contraposição à chamada interpretação alegórica. Toda a esperança muda de conteúdo. nunca uma conquista para uma humanização da vida entre os povos europeus. sobre a qual não se deve influir. No entanto. as próprias tendências do mundo são catastróficas e de modo algum levam à harmonia. O fundamentalista espera ansiosamente a catástrofe e não tem outra esperança além da catástrofe total. neste mundo. que nunca se arrepende e executa um programa de destruição elaborado desde a eternidade. que está ansioso para se vingar de todos os seus inimigos e que. Também a vincula com a ação das esruturas. Continua havendo uma mão invisível. de fato. e nos esforços de paz não vê mais do que um perigo. Mas convida à atividade contra aqueles que querem se opor a estas ameaças. Onde. É um Deus furioso que passa por cima da sorte humana sem misericórdia. De modo algum convida à passividade. jamais convida a evitá-las. Inclusive. a pior que jamais ocorreu na história humana. Contra este Deus não pode nem deve haver rebelião e qualquer ato de interferência neste programa de destruição é rebelião. orgulho humano. no caso dos esforços para a união européia. o fundamentalismo não vê senão esperanças de catástrofe. Este determinismo do fundamentalismo se apóia numa leitura perfeitamente arbitrária dos textos bíblicos. é sumamente ativo. não é interpretação da Bíblia como um livro igual a outros. diante das catástrofes que o fundamentalismo espera para o futuro. aos quais se atribuem sentidos arbitrariamente predeterminados. só tem inimigos. a caminho da catástrofe. é a mão de um Deus fundamentalista. O pecado máximo para o fundamentalista é a rebelião contra tendências catastróficas efetivas em nosso mundó. más é uma interpretação absolutamente mágica. Mas. O texto é . Denuncia portanto o esforço pela paz como sedução máxima à soberba e à negação dé Deus. quase .

caso o consiga. exatamente e sem poder se enganar. costumam ter enormes diferenças e contradições de um intérprete para outro. Daí a sua imagem do Anticristo. mas atribui à Bíblia o sentimento do fundámentalista perante a realidade social na qual ele vive. Ansiosamente deseja vê-las aumentadas porque a vinda do Senhor é esperada para o momento em que a catástrofe é total e além de qualquer limite. com sua mão invisível -— e no último momento com mão visível — destruí-lo-á para que não fique pedra sobre pedra. como este modo de sentir é comum entre os fundamentalistas. De modo algum é resultado da análise literal da Bíblia. O que deve acontecer está escrito ali. o fundamentalista se transforma em colaborador de qualquer infelicidade. até terá certo êxito. Nem a catástrofe ocorrida ao povo •judeu na Alemanha nazista é suficiente. Seria rebelião procurar evitá-la. Deus. também o é a estrutura de interpretação básica atribuída ao texto.visto como um conjunto de clarividências e adivinhações. de qualquer miséria no mundo. Por isso um livro anterior pode completar um livro posterior. em geral. A Bíblia deixa de ser um livro histórico — um conjunto de vários livros com uma seqüência temporal determinada — e se transforma num grande quebra-cabeças. porque já estava previsto o livro posterior. Mas há uma estrutura que. o fundamentalista anuncia ao povo judeu. Há uma ânsia de catástrofe e uma atividade febril para eliminar qualquer obstáculo que possa ser posto em seu ca- . Precisamente no momento de maior êxito. Do Anticristo se diz que vai tentar fazer isso. Mas isso precisamente aprofundará o que deve vir. enfim. além do mais. é comum a todos. Deste modo. do mesmo modo que uma cartomante embaralha as cartas para ler o que infalivelmente acontecerá. saberá. E. cujo sujeito se supõe que é um Deus onisciente. uma catástrofe pior ainda. O fundamentalista se põe a solucionar esse quebra-cabeças e acha que. que distribuiu suas previsões infalíveis e imutáveis arbitrariamente entre os diferentes livros da Bíblia. de qualquer catástrofe. para os tempos que agora vêm. Corajosamente. O Anticristo se opõe à catástrofe e. o futuro da humanidade. porém. Por isso nestas deduções é abundante a palavra "claramente" que.

com alegria. furacões? Ao sacudir perpetuamente sobre vossas cabeças as serpentes da discórdia. E. Mas. p. A obediência é o valor central do fundamentalismo. arrebatará seus santos paia levá-los aos céus para uma vida eterna feliz. eles podem fugir a tempo para a eternidade. . Deus. desgraças que podem ocorrer. persuadia-vos . 3 Este catastrofismo ativo dos fundamentalistas é racionalizado através de um determinismo absoluto. aquele que elimina os obstáculos à destruição de fato dá origem às catástrofes. cuja vontade é a catástrofe. por serem bons. Tudo já está decidido.minho. doenças e. Madri. evitando que passem pela destruição que eles desencadearam na terra pela vontade deste mesmo Deus.. Esta violência é tão grande que o fundamentalista declarará 3 . em geral. Tomam sua coragem para promover a destruição a partir da esperança de que ela não os atingirá. 1984. que o bem é minha essência? Imbecis! Por que não me imitáveis?" (citado segundo Fernando Salvater em Nihilismo y Acción. ao passo que os outros devem sofrer a fúria de Deus. obediência é renúncia à rebelião. 33). Além disso. ser bom significa promover esta destruição em marcha. Deus manda todos eles para o fogo do inferno e faz sentar a seu lado aqueles que colaboraram com ele. o que acontece aos não escolhidos ímpios na terra. Mas o fundamentalista não é apenas um destruidor. imagina-se que no momento em que a catástrofe avança para suas etapas mais terríveis. como sempre há tendências para a destruição. o que seria qualquer ato destinado a salvar a humanidade das catástrofes que hoje realmente a ameaçam. Nem sequer ser bom ou mau nos pode salvar. 0 Deus dos fundamentalistas se assemelha muito ao Deus do Marquês de Sade. Aos que defendem a humanidade de pestes. Eles. o Deus de Sade diz: "Quando vistes que tudo era vicioso e criminoso na terra —• lhes dirá o Ser Supremo em Maldade — por que vos extraviastes pata o caminho da v i r t u d e . . Taurus. terremotos. Junto com este determinismo absoluto se entende a pregação da obediência absoluta. O Harmagedon é o crepúsculo dos deuses. guerras civis. Não há nada a fazer a não ser promover a destruição. Por isso. guerras civis. ? Em qual ato de minha conduta me vistes benfeitor? Ao vos enviar pestes. e é identificada com a humildade. caminham para a Jerusalém celeste para olhar de cima. que é a vontade de Deus revelada na Bíblia. também é um covarde. Obediência que se concentra na vontade de Deus para a destruição e que se opõe violentamente à rebeldia. . O fundamentalista é o próprio ator da destruição e se empenha nesta tarefa. doenças. frente à destruição desencadeada.

seres insignificantes. quando já não houver morte. Sendo catastrofista. A isto corresponde a nítida polarização que todo o fundamentalismo faz nos termos mais maniqueus entre os santos de Deus e os ímpios. como resultado final. É o desejo de levar à morte um mundo que não se encaixa na vontade desatada do fundamentalista. o fundamentalista se torna agressivo contra aqueles que não seguem o seu caminho. rebeldes contra Deus que merecem. De Deus se espera a força para conseguir esta aproximação e. como seria na Teologia da Libertação. como os fundamentalistas são aqueles a quem Deus aceitou para levantá-los. ela continuará havendo para os casos de rebeldia. que estão presentes em toda a teologia fundamentalista. estão agora tão cheios de si que podem olhar de sua prepotência de santos escolhidos para a insignificância pecaminosa dos ímpios condenados. à dança e ao cinema. ao cigarro. Sendo obediente e estando contra a rebeldia. O mundo lhe parece mau. que corresponde a profundos anelos de morte. Esta não é milenarista. a realização plena do que o homem apenas pôde fazer em termos provisórios. Em termos do íun- . Acha que eles são ímpios. que continuarão sendo castigados com a pena capital. Apocalypse now. Então. que não têm nenhuma importância a não ser que Deus lhes inspire valor. o fundamentalista também é milenarista. e com as quais colabora. concentrandose sobre si mesmo e contra si mesmo com o ascetismo formal de renúncia ao álcool. esse é o programa do fundamentalismo. todos são pecadores sem valor. integrantes do reino do mal. retirando-se de qualquer atividade de defesa do homem contra as tendências para a destruição. são tudo. Em mãos do fundamentalismo se transforma numa profecia autocumprida. Isto dá uma forma muito específica de antecipação do milênio. E. com razão. Na visão da Teologia da Libertação.que até no milênio. o homem antecipa a nova terra aproximando-se dela na medida em que a condição humana o permite. Mas sua antecipação do milênio não é uma aproximação no limite do possível. todas as desgraças que o fundamentalista vê vir sobre eles.

É uma terra na qual até Deus deixa de ser autoridade e é tudo em todos. Aumentando a desgraça. A antecipação da nova terra se transforma. Também não é sociedade de iguais. antecipa-se a nova terra. negativa. numa antecipação pelo contrário. A nova terra dos fundamentalistas. não é muito nova. esta atitude libertadora é exatamente rebeldia. A terra nova. um paraíso sem árvore proibida. mais terremotos. O caso de Adão e Eva não se repetirá. O fundamentalista se aproxima do milênio na medida em que realiza tudo o que for contrário a este milênio. Nós a conhecemos. Seus caminhos precisam ser aplanados. quanto mais pestilência aparecer. É sem morte. Quanto pior. onde a espontaneidade de um não destrói a espontaneidade do outro. de quem nada pode ser tirado. Tudo pertence a ele e ele o empresta aos homens que também são sua propriedade. é muito diferente. De um lado os santos de Deus e de outro a gente comum. E por ser sem morte. tanto melhor. Aos santos de Deus compete o poder e o domínio. onde se pode comer de todas as árvores. na imaginação fundamentalista. Quanto mais guerra houver. autoridade suprema. Deus quer a catástrofe. mas com exceções: o fundamentalista não quer renunciar à pena capital em caso da rebeldia. mas — em geral — a obediência é tão grande que não se comerá da árvore proibida. Continua havendo árvores proibidas. mais perto está o milênio e a nova terra. Esta antecipação negativa — antecipação do paraíso através da realização do inferno — influi certamente na própria imaginação da terra nova. Uma liberdade sem falhas.damentalismo. Cristo vai para o que é seu e tem até título escrito pela mão de Deus Pai. é também terra sem dominação e sem exclusão. de fato. Uma terra sem proibições. Eles reinam sobre os outros e reinam com Cristo. desta vez serão obedientes. Cristo é o sumo proprietário. mais desgraça. revolta contra a vontade de Deus. É a velha terra glorificada e pin- . há uma desigualdade profunda entre os salvos. e seus santos vigiam zelosamente esta autoridade. Neste milênio se paga até com dólares. Na Teologia da Libertação a terra nova é uma terra sem a morte. Cristo é o rei máximo. soberba. para o fundamentalista.

afirmando esta sociedade. desta maneira. os fundamentalistas fazem com os EUA. O niilismo como porta para a plenitude. Nada mais mudou. Destruir os utopistas rebeldes para celebrar uma utopia miserável nascida do nada.tada com o American way of life. A rebeldia é. produzida pelo homem. A teologia fundamentalista. Mas. A sociedade se transforma em céu quando não há mais rebeldia. Nota-se então o realismo sinistro que tem esta teologia. sem querer. dão-se as tendências catastróficas anunciadas pelos fundamentalistas. Ao se unir com o movimento conservador dos EUA. quando todo mundo é obediente. A realização da utopia é agora prometida como resultado da destruição de tudo. Em sua idade de ouro. não se tem outro remédio senão tirar constantemente os obstáculos que se opõem a tais tendências. O mesmo acontecerá a estes novos milenaristas. O que Platão fez com sua Idade de Ouro. realmente. Os fundamentalistas não são os primeiros que prometem o milênio como resultado da catástrofe total promovida pelo homem. Não há dúvida de que o fundamentalismo é um projeto político. Platão tinha puros escravos obedientes. realmente. mas apenas a morte. a única coisa que pode nos salvar. Mas a sociedade burguesa tem que destruí-la e. abrir o caminho da destruição total. mas por trás de seu crepúsculo dos deuses não se levantou nenhum milênio. dá uma radiografia bem realista da situação em que se encontram os Estados Unidos. a sociedade norte-americana. proporcionou a este o projeto exato de que precisava para se transformar em conservadorismo de massas. Nem a utopia burguesa pode continuar sendo sustentada a não ser como resultado da total destruição de tudo. os fundamentalistas têm puros empregados obedientes. Ao antecipar tal estrutura de classe e realizá-la efetivamente. É a sociedade burguesa de classe projetada paia o céu para que seja depois baixada novamente em nome do céu. Com esta teria nova. de fato. Os nazistas o fizeram antes deles. tal como queria. Há uma advertência histórica. a antecipação desta terra torna-se. . E a Teologia da Libertação dá igualmente uma radiografia realista sobre as possibilidades de a humanidade se salvar do assalto niilista.

sejam elas capitalistas ou socialistas. que é típica de todo o projeto neoconservador. No entanto. Mas. São dois lados de uma mesma moeda: uma face religiosa e outra face secular. não formula sua imagem da nova terra de tal maneira que sua antecipação seja a sociedade socialista da União Soviética. surgem critérios para julgar as sociedades. porém. supera todos os competidores da sociedade capitalista e instala um reino do mercado total. Mas também aqui há uma presença importante do catastrofismo em forma da disposição para a guerra atômica como confissão de fé na liberdade. o neoliberalismo promete uma era de paz. apontando igualmente para a extrema militarização da sociedade inteira em perseguição dos intervencionistas potenciais. combina com o antiintervencionismo liberal. A fúria fundamentalista contra a rebeldia. O Anticristo hoje já não pode aparecer senão em nome da luta contra o Anticristo. Trata-se de critérios de discernimento de sociedades e não de um projeto político solapado. Aparece novamente um capitalismo que deixou de lado os sonhos de igualdade derivados do céu das almas iguais e que passa a se afirmar como dominação absoluta que pede obediência à custa da morte. Também ao antiintervencionismo neoliberal subjaz esta mística de morte. Esta vinculação do fundamentalismo com o projeto neoconservador explica também a facilidade com a qual este projeto integra o neoliberalismo atual. derivada agora da inércia do progresso técnico. Antecipando-se esta nova terra. que supera as armas. A Teologia da Libertação. contra qualquer atitude que se opuser às tendências destruidoras provenientes das estruturas sociais e vinculadas aos efeitos não intencionais da ação. quer dizer. Critérios de fomento da vida humana. Um critério de discernimento é que o homem possa viver o máximo possível e que em nome da vida humana de . as perspectivas utópicas são diferentes. de Cuba ou da Nicarágua. indicam a mesma coisa.Este é hoje o projeto que ameaça a própria existência da humanidade e que interpreta a destruição dela como sua própria salvação e passagem para o milênio. Enquanto o fundamentalismo promete o milênio como resultado da catástrofe.

algum foco ou enfoque de maior interesse ligado a preocupações concretas. Vivemos num tempo de imensa produção de ídolos e idolatria. Mas.uns jamais se possa sacrificar a vida humana de outros. especialmente na América Latina: nossa fé no Deus da Vida nos leva a lutar contra os fetiches e ídolos que matam. É certo que a sociedade capitalista não é capaz de realizar tal critério e por isso a antecipação da nova terra. cada vez mais agudamente. . o cerne desse ingente movimento de espiritualidade que se costuma chamar "Teologia da Libertação". Sugiro que optemos por um enfoque centrado num foco de desafios que se vêm percebendo e enfrentando. Com isso estaremos tocando. O USO DE SÍMBOLOS BÍBLICOS EM MARX * (Hugo Assmann) Introdução O tema proposto para esta palestra é tão amplo e ambicioso que nos vemos forçados a delimitar. esta criticidade está sujeita à colaboração básica na construção da sociedade socialista. Mas também se mantém crítica perante qualquer sociedade socialista. desde o início. mas criticidade na realização de uma tarefa comum. na UFMG. Estou convencido de que somente * Palestra proferida aos 15-10-1984. dada a impossibilidade fatual da opção capitalista. como a Teologia da Libertação faz. no seio do cristianismo atual. Não creio que nos interesse um tipo de abordagem meramente informativa e acadêmica do assunto. A onda neoconservadora que já invadiu as Igrejas cristãs deve ser analisada no contexto mais amplo da função legitimadora dos ídolos necrófilos e sanguinários cultuados pelos sistemas de opressão. desemboca na opção socialista. 3. no contexto de um Seminário sobre Filosofia da Religião. Não é criticidade no ar. Não deduz suas estruturas do céu e por isso mantém a liberdade de julgar sobre elas na terra. ao mesmo tempo.

representa — no plano teológico — um verdadeiro "magistério paralelo" ao das Igrejas. me ocupei detidamente dessa temática. o famoso "ópio do povo". A "teologização do mercado total" passa a constituir elemento importante das teorias econômicas. sobretudo um lutador contra — os ídolos que exigem sacrifícios humanos? Até que ponto os marxistas posteriores enfatizam este aspecto quando abordam o tema da religião? Este será nosso enfoque. que é obviamente um enfoque seletivo. Desconfio que alguém se haverá encarregado de espalhar também por estas bandas o fato de que. no qual coincidem paradoxalmente os tradicionalismos cristãos da direita e a estreiteza mental dos esquerdismos infantis: Marx e o marxismo veriam unicamente na religião um fato alienante e ideológico. com sua revista própria ("This World") e farta produção de panfletos e livros. ou na versão leninista. A Doutrina da Segurança Nacional. hoje transnacionalizada. na sua crítica à religião. A antiidolatria é hoje sinônimo de subversividade. Com a ajuda do amigo espanhol Reyes " Mate — que punha ordem na minha desordem — buscou-se criar um subsídio para enfrentar o simplismo sectário. É por isso que a afirmação da vida e a luta contra as forças da morte voltaram a ocupar o centro do debate teológico e das opções pastorais. porque delimita o tema genérico enunciado no título da palestra. O "Instituto das Empresas Norte-Americanas" possui hoje um poderoso departamento teológico. . o "ópio para o povo". A administração Reagan criou para si uma explícita assessoria religiosa no "Instituto para a Religião e a Democracia". nos inícios da década de 70. Mostrar que o assunto é bem mais complexo e que a realidade atual exige uma releitura. cada vez menos confiáveis aos olhos dos opressores. Os ídolos que matam reelaboram as suas promessas enganosas de vida. Que têm Marx e os marxistas a dizer-nos sobre isto? Sua crítica à religião nos interessa hoje neste ponto preciso: Foi Marx.entenderemos ó que realmente está em jogo sê captarmos ò sentido mais profundo do renovado interesse pelo religioso por parte das forças da morte. perpetrando dois alentados volumes sobre a crítica marxianomarxista da religião.

Mao. Gr == K. Lênin. no seio dessa tarefa. mas. Grunãrisse der Kritik der politischen Oekonomie. Dietz Verlag. M a r x .). . Ed. etc. Ed. Sigúeme. esta foi a intenção primordial daqueles volumes. I. Salamanca. Fondo de Cultura Económica. R/2 = Hugo A s s m a n n-Reyes M a t e . M a r x. E n g e l s . México. OF = C. permito-me remetê-los às longas introduções apostas àqueles volumes. Obras Fundamentales. 1979 (457 p. vol. talvez convenha priorizar agora um aspecto mais específico: o da antiidolatria como elemento determinante da crítica marxiano-marxista da religião. Berlim. Sigúeme. Marx y Engels sobre la Religión. em muitas ocasiões.F . 1974. Sobre la Religión II (Jaurès. MEW = Marx-Engels Werke. p. Salamanca. em: I d e m . 1975 (675 p. 2* ed. de siglas/nomes. R / l = Hugo A s s m a n n-Reyes M a t e . Referências bibliográficas básicas Para facilitar as citações usaremos. V: Uma filosofia da religião antifetichista.séria e profunda. Posso testemunhar que a dureza dessa contracrítica não foi do agrado dos que apreciam "panos quentes" quando se trata de fricções inevitáveis com marxismos ortodoxos. Dussel/1 = Enrique D u s s e 1. Ed. 148-163. Loyola/Editora UNIMEP. 1983. 43 volumes. Para uma ética da libertação latinoamericana. A tarefa continua vigente.).). Europaeische Verlagsanstalt.não se omitiu a contracrítica bastante dura — especialmente a Marx. Gostaria somente de chamar a atenção para o seguinte: não pensem que ali encontrarão um convite a fáceis reconciliações entre marxismo e cristianismo. 1982 (escritos do jovem Marx até agora parcialmente inéditos). t. Gramsci. Engels e sobretudo a Lênin — no que se refere às limitações de seu pensamento. Frankfurt. "O ateísmo dos profetas e de Marx". Para se ter1 uma visão mais ampla da temática.

As armas ideológicas da morte. 1983. 1983. não se pode minimizar o fato de que Marx pretende de fato criticar a essência da religião. Esta etapa não é particularmente original: Marx repete os argumentos da ilustração e dos jovens hegelianos de esquerda. Ed. 1982. Nos escritos de juventude prevalece a crítica filosófica da religião enquanto "alienação". A luta dos deuses. DEI [Costa Rica]. Praxis latinoamericana y filosofía de la liberación. como elemento determinante. Editorial Nueva América. Numa segunda etapa a crítica. Bogotá. Paulinas. 133-146. "El fetichismo en los escritos de juventud de Marx". Ed. 1984. Marx . H i n k e l a m m e r t-H. em: Idem. p. Paulinas estão traduzindo a importante obra Crítica a la razón utópica. Essa crítica se desenvolve por etapas. embora permanecendo filosófica. p. mas permanece radical até o fim. "Marx e o Cristianismo". especialmente as do cristianismo do seu tempo). tem um forte acento político. 1983.). em Leandro K o n d e r e outros (org. Nela o autor desoculta as teologías presentes. (Do mesmo autor as Ed. Embora se possa defender a tese de que. 185-191. Por que Marx?. no neoconservadorismo político. Para o enfoque deste ensaio é importante o livro: P. R i c h a r d-F. se trata de uma crítica histórico-conjuntural (Marx criticando as manifestações religiosas. Ed. Graal. A s s m a n n e outros. Hinkelammert = Franz H i n k e l a m m e r t . Os ídolos da opressão e a busca do Deus Libertador. e traz à luz o cerne específico da Teologia da Libertação). no pensamento anarquista e no pensamento soviético. Lima Vaz = Henrique C„ de Lima V a z. Rápida alusão à necessidade de uma análise abrangente do tema A crítica de Marx à religião não se reduz a algumas frases soltas que tendem a desvirtuá-la completamente. no neoliberalismo econômico.Dussel/2 = Enrique D u s s e l . Paulinas. em muitos aspectos.

Não se refere ao fenômeno. Não é demasiado difícil demonstrar. Toda tentativa de "cristianizar" o Marx teórico. Sustenta que a religião está fadada a desaparecer com a remoção de suas bases materiais de sustentação. No plano consciente. Marx entende a sua crítica como uma crítica total da religião. nos esquemas de Feuerbach. com as exi- . e por isso compartilhadas por cristãos. já que estava de cabeça para baixo.considera concluído o capítulo da crítica à religião nos seus aspectos essenciais e repete. mas à essência. ele. neste plano teórico. Marx repete o que outros já haviam dito e boa parte dessa sua crítica é posteriormente compartida. o antifeuerbachiano em cobranças filosóficas e políticas. na teoria e na prática. Marx foi um ateu convicto e um crítico da religião que apostava em seu desaparecimento futuro. o crítico agudo de Hegel que pretendeu inverter a dialética hegeliana e. neste ponto. Em síntese. colocá-la "sobre seus pés". mas incapaz. A previsão não se realiza até hoje. de romper com a visão hegeliana de Deus e da religião (Lima Vaz. porque ainda não se realizaram as bases materiais do "reino da liberdade" (a sociedade comunista) — continuam sustentando os marxistas ortodoxos. Introdução). o pensamento de Feuerbach. É neste ponto mais crucial que a refutação teórica de Marx é certamente importante. R / l . o Marx maduro privilegia a crítica econômica — que continua sendo também filosófica e política — e se concentra na análise da aura mistificadora e "religiosa" da economia capitalista: o fetichismo. nos aspectos essenciais. num terceiro momento. em muitos aspectos da sua crítica da Igreja. do cristianismo e da religião mágica. mas avança nas implicações políticas. Finalmente. as incoerências de Marx. com poucas variantes originais. mas preso voluntário. por cristãos e teólogos. o seu aparente desinteresse por uma argumentação lógica: ele. embora ainda falte muito para que penetre na consciência popular e seja assumida pelas autoridades das Igrejas. porque o Marx prático defendia a unhas e dentes perspectivas de transformação social coerentes. neste ponto. 139s. no advento da nova sociedade de relações interhumanas fraternais e transparentes. O ponto crucial está no seguinte: para além das críticas determinadas.

no caso específico de sua crítica à religião.gências mais profundas do cristianismo. O desafio de Marx. dentro da sua própria lógica. Ganhar essa batalha teórica pode até representar um jogo diversionista. contudo. O amanhã da emancipação humana falará por si mesmo da importância ou da banalidade do fato religioso. mas seus próprios pressupostos. Engels. que. A questão essencial é outra. México 1978. do cristianismo e da religião mágica) e o engajamento em favor da remoção dos pressupostos da opressão. abandona a certa altura a coerência lógica da sua proposta de união dialética entre a teoria e a prática (neste aspecto não podemos concordar com José Porfirio Miranda. é a evidente preponderância da influência de Engels nas ortodoxias marxistas posteriores. especialmente o Engels posterior à morte de Marx em 1883. mesmo que esta crítica não seja a dos cristãos. não se dirime com debates no mero plano teórico. não tem por que ser anticristã. O que importa agora é a remoção dos pressupostos da opressão. mas da revolução. "Esta é a crítica marxiana da religião. da intencionalidade prática do desafio. não se ataca o fato fenomenal. inclusive em Lênin. livro valioso como manancial de referências). El cristianismo de Marx. uma vez mais. não as devia ter fechado. Mas também . o futuro fará justiça ou não a suas convicções atuais" ( R / l . como a "religião dos escravos" (ver textos em R / l ) . 37). aposta no desaparecimento futuro da religião. porque pode levar" a escapar. Por isso. aceitando as três primeiras críticas (a da Igreja. é um assunto bastante mais complicado. embora possa ser um empreendimento até louvável para mostrar que Marx. mostrando que fechou portas onde. o Engels da 'Dialética da natureza". Ela se pretende radical porque já não se trata da religião. me parece ofensa ao Marx real. O aspecto mais sério. Muitos se entusiasmam com sua visão um tanto idílica do "cristianismo primitivo". sendo ateu convicto. Por isso gostaria de retomar a frase final de um texto escrito faz uma década. Para os cristãos o problema consiste em ver se. É difícil salvar seu "materialismo dialético" introjetado nas leis da natureza da acusação de panteísmo.

por um lado. busquemos situar corretamente — isto é. Vem. A exigência de que abandone suas ilusões sobre sua situação é a exigência de que se abandone uma situação que precisa de ilusões. A religião é o suspiro da criatura oprimida. e a crítica da religião é a premissa de toda crítica". É o ópio do povo. parafraseando. reflexões feuerbachianas. vagamente antropológico. o texto famoso cuja exegese mostraria as características polifacéticas do pensamento de Marx. a critica do vale de lágrimas que a religião rodeia com um halo de santidade" ( R / l . do que a amputada referência ao "ópio do povo". porque repetitivo do que muitos já haviam dito. então. lembremos que se trata de um texto pré-econômico. Sem entrar aqui nos elementos de interpretação que estão à mão no próprio texto — esquecidos ou ocultados. Marx tinha verdadeiro horror de manifestações agressivas contra a religião em nome de um ateísmo militante. aos tempos do Marx ainda jovem que publicou em 1844 a sua "Contribuição à crítica da filosofia do direito de Hegel". portanto. pouco crítico em relação a Feuerbach — aquele famoso texto do tão badalado "ópio do povo". embora assim mesmo seja muito mais rico. Nos parágrafos seguintes repete. nas versões correntes da posição marxiana —. A abolição da religião. o coração de um mundo sem. em embrião. 94). por outro.em lelação a Engels convém frisai um ponto-chave: nunca propiciou nem apoiou qualquer foima de ateísmo militante. assim como é o espírito de uma situação carente de espírito. o protesto contra a miséria real. "A miséria religiosa é. Trata-se de um dos textos menos originais de Marx. os essenciais. na medida em que ela é felicidade ilusória do povo. a expressão da miséria real e. Voltando um pouco atrás. quando citado na íntegra. é necessária para a sua felicidade real. coração. já nesta altura da sua vida. na fase do Marx ainda jovem. fundamentalmente carente de categorias analí- . Màrx começa o seu texto com uma frase contundente: "Para a Alemanha a crítica da religião está concluída no essencial. A crítica da religião é.

lá onde a sua teoria do poder opressor materializado nas relações de produção capitalistas o obriga a lidar com hipóteses teológicas. a fetichização da própria realidade invertida. mas a divinização embutida na realidade. só se explica se por trás de tudo isso há um fator legitimador de raiz religiosa e teológica. As leituras de Marx se bifurcam neste preciso ponto.ticas em relação à realidade opressora que denuncia. contudo. exige uma teoria que saiba trazer à luz o que já não se vê. cientista econômico e político. do dinheiro e do capital. praticada com tamanha convicção de estar servindo aos homens. e por isso o chama de "religião da vida cotidiana". que desvenda o terrível poder opressor embutido nas relações mercantis. Marx vê no capitalismo a constante construção social das aparências ocultadoras do real. Existe realmente um Marx abandonado por muitos marxistas no coração da sua teoria econômica. É muito estranho e revelador que sejam tão poucos os marxistas que acompanham a Marx até o fim na sua análise. onde as coisas viram sujeitos e os sujeitos viram coisas. É o Marx. culminando no "ápice do fetichismo" que Marx detecta no capital financeiro. como se dissesse: tanta crueldade. que já não é este ou aquele gesto de apoio legitimador de qualquer Igreja aos poderosos. buscar-se nas obras maduras de Marx. onde a realidade se tornou opaca. especialmente na "teoria do fetichismo" da mercadoria. A "teoria do fetichismo" é um elemento absolutamente chave da análise econômica que Marx faz do capitalismo. O mundo invertido. Quando se deixa de acompanhar a Marx na estrei- . O essencial da crítica marxiana à religião deve. 0 caráter impactante das formulações não deve levar-nos a esquecer que o Marx maduro jamais se daria por satisfeito com semelhante retórica pré-cientifica. Mas como estrutura comunicativa o texto é de uma força fantástica e não há razão alguma para que os cristãos não o assumam como inspiração das mais sadias preocupações pastorais e políticas. ou seja. no capital a juros. Equivocam-se os que acham que Marx se serve unicamente de vagas analogias religiosas para reforçar o que já havia expressado adequadamente com outras categorias econômicas.

o verdadeiro tema central na crítica marxiana da religião. o caráter fetichizado da realidade nas relações sociais de produção do capitalismo. quando a realidade do sacrifício de vidas humanas é vista como o elemento central do culto aos ídolos. Para entender o alcance do que se afirma. O ateísmo de Marx é antes de mais nada uma luta contra os ídolos A luta contra a idolatria é hoje um tema de enorme vigência. O Marx maduro já não perde tempo em criticar manifestações esparsas do fenômeno religioso nos seus aspectos alienantes e ideológicos. por idolatria o culto aos "deuses que oprimem". porque a teoria do fetichismo é a peça chave para o desocultamento mais radical da necrofilia. Portanto. mas a "religião da vida cotidiana". convido-os ao estudo do livro fundamental de Franz Hinkelammert (ver: Hinkelammert. Importa dizê-lo claramente: a nãocompreensão da teoria do fetichismo em Marx implica necessariamente no abandono da sua radical lógica da vida. supra). o que mostra a complexidade do assunto e a falta de razão dos sectários simplificadores. Este tema só adquire a sua verdadeira densidade e significação quando entendemos. remetemos à Introdução da nossa obra sobre o assunto (ver R / 2 ) . Ali distinguimos três vertentes ou tradições bastante diferentes. bíblicamente. como veremos. começam não apenas as traições a elementos-chaves da sua teoría econômica. Como tal. Este é. A religião que ele agora critica já não é diretamente a religião das Igrejas. aos "ídolos que matam". essa grande marxista que soube desvendar alguns dos aspectos mobilizadores da religião no plano político . atravessa praticamente toda .ta vinculação que ele estabelece entre a sua teoria do fetichismo e sua teoria do valor-trabalho. mas — o que é muito mais sério — começam as traições a seu pensamento revolucionário. da lógica de morte do capitalismo. Sobre a crítica da religião no marxismo pós-marxiano. tanto nas Igrejas como na sociedade. Atenção especial merece a posição de Rosa Luxemburgo.

Baal. sua negação não é senão a propedêutica da afirmação do Deus que não nega. ao contrário. Hinkelammert e outros). O tema da idolatría se expressa em Marx com um abundante recurso a imagens bíblicas: o bezerro de ouro. desta crítica de Marx ao culto aos ídolos brotam os mais profundos critérios humanistas e revolucionários de Marx. ninguém deve nem pode escandalizar-se pelo fato de que alguém afirme o ateísmo. Mas. que se revolta com o fato de que seres humanos sejam sacrificados. mediante esta negação. porque se fosse a negação de uma mera ideologia. Por exemplo: "Portanto. por isso mesmo. através da antropologia. ser formulada da seguinte maneira: Que 'deus' se nega? Por quê? É bem possível que alguém pretenda negar todos os 'deuses'. no centro está sempre o sacrificio de vidas humanas. Nisto Marx não faz mais do que seguir o lema de Feuerbach: 'A tarefa do tempo novo é a conversão e a resolução da teologia na antropologia'. Mamón. A pergunta deve. Converter a teologia em antro-r pologia é um ateísmo.a sua vasta obra: já está fortemente presente em sua obra juvenil. Com isso toda a crítica marxiana da religião recebe um enfoque bastante novo. pois o ateísmo é uma negação de Deus e afirma. ao dinheiro e ao capital. Moloc e a Besta do Apocalipse. Duas coisas queremos anotar logo de entrada. Nos Manuscritos do ano 44 se lê: 'O ateísmo. Outra questão — que. tal ateísmo seria a propedêutica. mas torna-se mais agudo na sua obra madura. não deve anular a primeira: a da antiidolatria como propetêutica da fé no Deus da Vida . como simples meios. a existência do homem'. enquanto negação da carência de essencialidade. Em segundo lugar. Além disso. mas de fato só negue um tipo de divindade e. devemos perguntar-nos da negação dé que Deus se trata. porém. Autores latino-americanos vêm acentuando este aspecto da obra de Marx de uns anos para cá (Dussel 1 e 2. 149s). Tal é a situação de Marx. carece já totalmente de sentido. de novo. e que não nega em seu fundamento porque nem sequer o conhece. da afirmação de um Deus alterativo que só pela justiça pode ser adorado" (Dussel 1.

Na medida em que Marx viu muito claramente esta lógica necrófila das muitas vidas humanas sacrificadas aos1 ídolos do sistema capitalista. à revelia de sua consciência sobre o sentido da religião. em insistir no famoso ateísmo irredutível do marxismo. se esmeraram. É triste verificar que muitos. Concordamos com a seguinte tese de E. que não o via como necessário nem como possível. a categoria dialética da exterioridade. como redescobrir um outro discurso. Para sua consciência a porta. Fechou a porta ou deixou-a entreaberta? Depende do valor que hoje saibamos dar a sua valiosa crítica à idolatria. diversas chaves para reabrir bastante comodamente a porta momentaneamente fechada. Exterioridade quer dizer: não encontrar lugar dentro da lógica do sistema. enquanto essencialmente ligado a formas de idolatria e sacrifícios humanos. lhe impedia afundar-se um pouco mais nas implicações daquelas categorias bíblicas que eram suas preferidas. tanto marxistas pouco dialéticos como cristãos reacionários. porque a sua noção europeizante de civilização lhe impediu concretizar o "lugar teológico" dos seres negados. A impossibilidade de afirmar um Deus alterati- . e não chegou a priorizar. não idolátrico.— é a seguinte: como avançar desde a antropologia para além da antropologia pura. ao que parece. Outra questão é a de examinar se o seu próprio pensamento já contém. o tema teológico que hoje expressamos como "potencial evangelizador dos pobres" (Puebla) já estava praticamente insinuado. ser negado. a negação da divindade do ídolo. sobre Deus (uma teo-logia) que descubra no rosto dos oprimidos a interpelação auto-reveladoia de Deus? Este segundo passo não foi dado por Marx. extrojetado. sacrificado à lógica do sistema opressor. A dialética de Marx opera fundamentalmente com as categorias de totalidade e contradição. dos seres humanos jogados para fora da lógica do sistema opressor. como hoje priorizamos na América Latina. Dussel: "Queremos enunciar desde o início nossa tese: Marx repete o primeiro momento ou o momento negativo da dialética profética. mas não chega ao momento afirmativo ou positivo a não ser apenas como antropologia. Sua análise crítica do fenômeno religioso. depois de Marx. se fechava sobre o âmbito meramente antropológico. isto é.

"ídolos". A nova terminologia se condensa. foi batizado vários anos mais tarde em Trier (Tréveris).). 1. Tudo indica que continuou a compulsar a Bíblia. Na escola elementar Marx assistia regularmente às aulas de religião. Marx registra — começa a predominar sobre a de "deuses". 540).vo.. do livro I de " O Capital" sobre " O caráter fetichista . momento necessário e fundante da irreversibilidade da afirmação do fetichismo. isto é. A partir dessa data a terminologia "fetiche". Marx leu a obra de Debrosses. que nasceu em 1818. o que pode ser feito e usado para fazer. cada tanto. na famosa seção 4. sem já poder encontrar em nenhuma exterioridade o ponto de apoio de sua própria crítica. "fetichização" — cuja origem semântica do português "feitiço". Em 1842. aos 24 anos. era-lhe impossível porque caiu numa limitação de sua geração. 598-601). dó cap. se havia feito cristão em 1817. 39-42. como é sabido. a) Constância e evolução no uso de imagens bíblicas em Marx Marx. A não afirmação de um Deus alterativo permitirá posteriormente à burocracia afirmarse a si mesma como a realização sacral insuperável de uma ordem socialista efetuada. "fetichismo". em 1824. pela vida afora. especialmente de Feuerbach. H. um ano antes que Carlos Marx nascesse. A. e concretamente na América Latina. Além disso. fará do marxismo um movimento de elites intelectuais que não podem conectar nem servir o poder criativo do povo quanto à mítica ou simbolismo religioso" (Dussel 1. por outro lado (aqui Dussel cita um escrito meu. Fez seu trabalho de conclusão do ginásio sobre uma perícope do Evangelho de São João ( R / l . incluído o Deus alterativo de Israel e do cristianismo. Seu pai. judeu.• MEW EB 1. 155s). embora essa última reapareça de vez em quando. etc. a de confundir o 'deus' de Hegel (que não é senão a totalidade sacralizada) com todo 'deus' possível. Sobre o culto dos deuses fetiches (Berlim 1785) e anota seus comentários em seu "Caderno de Bonn" (OF. senão não se explicaria seu hábil manejo de símbolos bíblicos.

Mamon (o Dinheiro) é o "deus deste mundo".2. Ex 20. 101 = livro I de " O Capital"). no livro III de "O Capital" e nas "Teorias da mais-valia". 16.13 e 13. Eles exercem. Encontramos também algumas vezes a expressão "deus estrangeiro". especialmente no "capital a juro composto". que os diversos símbolos não são inteiramente intercambiáveis.17. como o Capital Morto se nutre do trabalho vivo. Dt 32. Também a imagem do "bezerro de ouro" recorre com certa freqüência. Levar o sinal da Besta do Apocalipse significa. com cujo sangue o fetiche nutre e prolonga a sua vida. a teoria do fetichismo atravessa. MEW 23.23. contudo. na bolsa de valores e outros conciliábulos financeiros detecta "o templo de Baal". Para que ninguém possa comprar ou vender se não possui a marca e o nome da Besta ou o número do seu nome" (Ap 17. 5.3. Por isto junta dois versículos do Apocalipse para evidenciar essa plena participação nas regras do jogo do capital: "Eles unem seus propósitos e entregam seu poder e sua autoridade à Besta. deliberada alusão à maneira como a Bíblia chama a todos os deuses intrusos. na .10. Js 24. Seu ponto de culminação se dá nas exposições de Marx sobre o "fetiche automático" ou "ápice do fetichismo" que ele constata no "capital financeiro". com muita força. pòrém.12). toda a obra madura de Marx.19. Marx emprega a simbologia bíblica com muita espontaneidade. estar por dentro da lógica do capital. que não são o único Deus verdadeiro (como meros exemplos: Gn 35. mas é no Dinheiro transformado em Capital que ele identifica o deus sanguinário que exige vítimas humanas. É importante entender. que Marx jamais abandonará os símbolos bíblicos fortes que apreciava desde a sua juventude e nos quais se explicita. para Marx. sua luta contra a idolatria unida ao sacrifício de vidas humanas. Cabe notar. Condensada nesta seção muito burilada e trabalhada. como categoria analítica da economia política e não simples metáfora.da mercadoria e seu segredo". Jr 11. Marx acariciou esta citação desde pelo menos dez anos antes (Gr 148 e Gr 895).11.

deus dos cananeus. que é o dinheiro. porque Mamon significa "Dinheiro adorado". Não parece ainda esclarecida a questão se Melcom.2 etc. 11. Perdoem.3. 11.7. e sempre na boca de Jesus. era um ídolo sanguinário. deus dos amonitas. marca com seu sinal os que se submetem às leis do mercado. que é idolatria" (Ef 5.20). Cl 3.15. é simplesmente um outro nome para Moloc.10. é citado com tanta freqüência no AT que o nome deste ídolo passou a significar quase ídolo em geral. uma função analítica determinada e precisa. 2Rs 23.24 e Lc 16.5. que exigia vítimas constantes. lRs 16.13.24). além do culto a um ídolo específico.9. Jesus fala aramaico. "Bezerro de ouro" e "Baal" servem como símbolos que enfatizam a adoração orgiástica e a plena entrega à idolatria.13. na linguagem popular. Por isso perde-se algo da força da expressão quando Mamon é traduzido sem mais por Dinheiro.5). Também São Paulo destaca o aspecto cultuai do dinheiro quando fala da "ganância (cobiça). três vezes em Lucas (Lc 16.5.16. por isso.30.1. Há fortes indícios de que tenha sido. Ora. a. "divindade" e Mamon se prestam mais para designar1 a função mediadora da mercadoria geral. 2Rs 23. a língua ou dialeto popular.maioria dos casos. Os teimos "deus". um rápido lembrete bíblico. ídolo de iguais características de insaciabilidade. ou outro ídolo parecido (Lv 18.5). No NT a única referência a Moloc é At 7. 7. Como veremos. Marx se mantém o mais próximo possível do sentido peculiar de cada imagem bíblica. muito freqüente nos textos do Antigo Testamento. 2Sm 12.25-32.13) evocava inevitavelmente nos ouvintes de Jesus a contraposição. Jr 32. 20. cada vez mais abstrata e autonomizada. . lRs 11. Jr 49.adoração de Baal significa também a idolatria assimilada da cotidianidade (por exemplo. Dt 6. Moloc. Portanto. Mamon só aparece no Novo Testamento. Sf 1.2-5.3) e uma vez em Mateus (Mt 6. Baal. "Moloc" expressa sobretudo a insaciabilidade do capital que exige sacrifícios sem limites. A frase chicoteante "Não podeis servir a Deus e a Mamon" (Mt 6. Os 2.).3 ls. A "Besta" apocalíptica. 10.21.13. Jz 6.1. entre servir a Yahwe e servir a outros deuses (por exemplo. conforme já vimos. um insulto — sob a forma de um nome de ídolo — contra os ricos.43. E Mamon é precisamente um termo aramaico.

. "O dinheiro é a prostituta universal. . 38). 643). 445). isto é. "Fez-se desses metais (ouro e prata) um í d o l o . "A burguesia sentimental sacrificou em toda parte a revolução (burguesa) a seu deus chamado propriedade" (MEW 9. "O deus da necessidade prática e do egoísmo é o dinheiro" (MEW 1. . enquanto é a essência genérica alienante dos homens" (OF. com um empurrão. . "o deus mundano". " (OF. b. 374). Proclamou a produção de mais-valia como o único e último fim da humanidade" (MEW 23. A força divina do dinheiro está enraizada na sua essência mesma.l) "deus". "o dinheiro é o deus entre as mercadorias" (Gr 132). Daí a razão por que "o caráter universal de sua qualidade é a onipotência do seu s e r . A tradução é quase sempre nossa. "Foi o 'deus estrangeiro' que foi entronizado sobre o altar junto aos velhos deuses falsos da Europa e um belo dia. No caso do símbolo Mamon colocaremos também algumas datas ao lado das citações para comprovar seu uso ao longo da vida de Marx. "deste mundo" na linguagem joanina (MEW 1. Se contudo se multiplicam bastante as citações é porque se pretende mostrar1 ao mesmo tempo algo da versatilidade e do preciso manejo analítico no uso marxiano de imagens bíblicas. 641). 103). complementar). que se tornou "o senhor deste mundo" (OF. 782). fê-los desabar a todos. "divindade". "ídolo" " o dinheiro é a divindade visível" (MEW EB 1. 372). " (MEW 13. 565 = vol. . . . .b) Exemplos concretos de linguagem antiidolátrica em Marx l"r V É evidente que não podemos ir muito além de uma simples amostra. Como mercadoria geral.

Mas em outras sessões da mesma Dieta teriam aprendido que o fetichismo traz consigo o culto ao animal e teriam jogado ao mar as lebres para salvar aos homens" (OF. Eis o saboroso texto de Marx: "Os indígenas cubanos viam no ouro o fetiche dos espanhóis. O dinheiro é o valor universal de todas as coisas" (OF. A. O entesourador é um "adorador de ídolos" (OF. diz Bartolomeu) e depois o jogaram no mar (na realidade: no rio). imolando-se a eles os b. Quando os ricos proprietários da região do Reno fizeram aprovar uma lei que proibia aos pobres camponeses que recolhessem lenha e caçassem lebres. 1958. aqueles selvagens teriam visto na lenha o fetiche dos renanos. BAE. Madri. e pode-se dizer deira triunfarão. MEW 1. Se tivessem assistido a estas sessões da Dieta renana. 250).."O dinheiro humilha a todos os deuses do homem e os transforma em uma mercadoria. O que Marx escreveu sobre isto mostra que deve ter "adorado" a maneira como os indígenas zombaram dos espanhóis. da ilha de Cuba. Marx escreveu um artigo no qual se refere ao gesto do famoso cacique Hatuey. H. entoaram-lhe canções (areitos. 499). 487). Em outra passagem Marx usa uma blica: "Existe a possibilidade de que quantas árvores jovens. Obras Escogidas.) e preconhecida imagem bíse maltratem a umas que os ídolos de mahomens" (OF. Celebraram uma festa em sua honra. 142 — ver comentário em Dussel 2.. p. 487). 283. narrado por Bartolomeu de Ias Casas — o que prova que Marx o leu — em sua "Brevísima relación de la destrucción de las Indias" ("De la isla de Cuba". os apóstolos da especulação da bolsa felicitaram-se e estreitaram as mãos (note-se a característica de 'culto orgiástico'. 189). t. . é "a essência estranha que domina o homem e é por ele adorada" (OF.2) "bezerro de ouro" e "Baal" "A bolsa britânica brindou pela francesa. 147). cuja obsessão pelo ouro os próprios índios viram imediatamente que era uma clara forma de idolatria. V.

1877: "Esta terra do Mamon chamada Inglaterra" (MEW 34. de ter que ocupar-se de Mamon" (MEW 23. 1859: "Estes templos de adoração de Mamon 13. Mas quando os valores da bolsa francesa caíram. " (MEW 1864s: "Ainda em meados do século XVIII desculpa-se o Rev. b. 203). e já a gente se lançou de cabeça em direção ao templo de Baal para desfazer-se a qualquer preço dos bônus estatais e das ações do Crédit Mobilier e da ferrovia" (MEW 13. 373). 169). os "rasteiros e abjetos adoradores do bezerro de ouro" (MEW 9. 325) — como Marx chamava os especuladores da bolsa — tiveram a atitude contrária. um importante economista para seu tempo. b. 1853: Falando da burguesia de Milão. mal os valores franceses começaram a cair. diz: os filhos de Mamon dançavam e se banqueteavam em meio ao sangue " (MEW 8. 552). nota 75). Em outra passagem fala do "Mamon de ouro" (MEW 1. "Efetivamente. Mr. 645. 284s).valeceu a convicção de que finalmente o bezerro de ouro havia sido elevado a deus todo-poderoso e que seu Aarão era o novo autócrata francês" (MEW 13. 527).3) "Mamon" 1842: Marx diz dos colonos da Nova Inglaterra: "o seu Deus é Mamon" (MEW 1. 302). O capitalismo é . 101).4) "Moloc": o ídolo que exige sacrifícios humanos Para entender melhor o sentido analítico da figura de Moloc em Marx convém aduzir primeiramente algumas frases marxianas sobre o caráter vampiresco do capital. 1858: Afirma que os colonizadores usam "o princípio de Mamon" (MEW 12. Tucker.

Já não se trata de um ídolo qualquer. Fazia falta institucionalizar o pecado social. possível principalmente pelo roubo do ouro e da prata das colônias. A acumulação primitiva.. ao chupar trabalho vivo. objetivado e morto. à maneira de vampiro. foi apenas o início da violência. 247). ao capital financeiro a juros. como um vampiro. a constante autovalorização. ao "fetiche automático do valor que se valoriza a si mesmo" (MEW 25. 169). 1). Até chegar à "mistificação do capital em sua forma mais crua" (MEW 25. 209). Se houvesse só pecado original.como um castelo mal-assombrado com incríveis cenas de horror. Quando o dinheiro passa a agir como capital. trabalho vivo. 24. isto é. Para ela Marx usa também uma imagem teológica: "A acumulação originária vem desempenhar na economia política o mesmo papel que desempenha na teologia o pecado original" (MEW 23. um monstro com alma que rompe a trabalhar como se tivesse paixão no corpo" (MEW 23. Mas o capital só obtém esta capacidade ao chupar incessantemente. junto e além disso. Instaurase a lógica da morte. 405). 171). Vejamos como Marx utiliza esta imagem. seria muito pouco pecado. cap. "adquiriu a misteriosa qualidade de acrescentar valor porque é valor" (MEW 23. e vive tanto mais quanto mais chupa dele" (MEW 23. "O capital é trabalho morto que somente adquire vida. "A imortalidade do valor (até certo ponto) se estabelece no capital. . Diz Marx: "O capitalista transforma valor.a sua "sede vampiresca de sangue vivo de trabalho" humano (MEW 23. o ídolo dos sacrifícios sanguinários. 405). que é valor que se valoriza a si mesmo. quando "o capital alcança a sua forma pura de fetiche" (MEW 25. mas são sacrifícios necessários. numa espécie de "crescendo": "É sabido que os déspotas de Tiro e Cartago . como (sua) alma" (Gr 539). 406). onde as vítimas não são acidentais. que é trabalho pretérito. em capital. Começa então. mas de um ídolo muito especial: Moloc. constantemente atual: a constante extração de mais-valia e.

ao qual se sacrifica a riqueza real. só quando houver um controle comunitário das relações sociais de produção. mais adiante. . Não lhes parece que esta é uma linguagem bastante atual e bastante compreensível para países endividados e mutuários do BNH (Banco Nacional da Habitação) ? Por que há tanta subserviência e tão pouca rebeldia? Veremos. etc. 410). 488). "Em seu caráter de capital a juros. que só queria beber néctar em crânios de mortos" (MEW 9. Tudo o que recebeu até agora foram apenas aperitivos para o seu apetite omni-devorante. c) O elemento central da idolatria capitalista: sacrificar vidas A esta altura já estamos em condições de entender melhor o que significa realmente idolatria para Marx. que transformou todos os impostos em impostos em efetivo. que esta pergunta nos conduz ao âmago da questão do valor analítico das imagens religiosas em Marx. 226). apresenta-se realmente o dinheiro como o Moloc." (MEW 11. no entanto. Não se trata . "Nos tempos do surgimento da monarquia absoluta. Assim se apresenta também em qualquer pânico financeiro" (Gr 113).aplacavam a ira dos deuses. mas comprando crianças dos pobres para arrojá-las nos bracos incandescentes de Moloc. quando se apresenta como um Moloc que exige o mundo inteiro como sacrifício que lhe é devido" (MEW 26. Para Marx. o arrevesamento (inversão) e enlouquecimento do capital. Moloc!" (MEW 25. pertence ao capital absolutamente toda a riqueza que possa produzir-se. Assim a Inglaterra de hoje obriga o povo a. como capital a juro — no qual. a sua loucura — é o capital a juro composto. . 132s). não sacrificando a sí mesmos. o que aparece em forma tangível é tão-somente a natureza intrínseca da produção capitalista. "só então o progresso humano deixará de assemelhar-se àquele espantoso deus pagão. De acordo com suas leis inatas corresponde-lhe todo o sobretrabalho que o gênero humano possa render enquanto exista. "A completa coisificação.

já de simples falsos deuses. ou também do protestantismo holandês. os templos serviam de residência ao deus das mercadorias" (MEW 23. com citações de Marx: "Para os fetichistas. Já o entesourador. já presente na sua obra juvenil. . no centro da idolatria existe a compra e venda da vida e a destruição dela enquanto vida humana. 527). porque "o capital usurário possui o modo de exploração do capital sem seu modo de produção" (MEW 25. 111). em toda a sua vida. é a busca dum tesouro eterno. 146. OF. na antigüidade. 602). porque "sua vida se revela como sacrifício da sua vida. nota 90). sua abnegação — na poupança e frugalidade. os sacrificados principais já são os outros. santo asceta sobre o topo da coluna de metal" (MEW 13. 147). 3 e 4). 'para Ricardo os homens não são nada' (OF. Por isso. E acrescenta. é o Capital" (Dussel 2. temporais e passageiros. 190). Enrique Dussel insiste: "Marx sempre se referiu. "O culto do dinheiro tem o seu ascetismo. " O entesourador sacrifica sua concupiscência ao fetiche de ouro" (MEW 23. isto é. é um sacrificador. Trata-se de deuses que são falsos na medida em que oprimem. obsessionado por acumular riquezas. Até aqui tudo bem. Marx lembra: "É sabido que. no desprezo dos prazeres mundanos. só valem como produtores. Todos os deuses são verdadeiros para quem os cultua. mas que dista ainda muito da lógica do capitalista. com o fazer-dinheiro" (Gr 143). 581). sua abstinência. Marx elabora uma visão abstrata para poder estabelecer distinções. 'São os deuses?' (pergunta Marx. Daí a relação do puritanismo inglês. Não. "Nosso entesourador se apresenta como mártir do valor de troca. O tema "sacrifício de vidas" (OF. embora ele nunca tenha existido nesta robinsonada de "homem-ilha". como privação da realidade da sua vida" (OF. mas o produto de suas mãos 'se enfrenta a eles como um poder alheio' (OF. atravessa toda a sua obra. porque afinal o entesourador se sacrifica oprimindo principalmente a si mesmo. 611). 187). ídolos são os deuses da opressão. Já o usurário é coisa diferente. a este âmbito do absoluto: a vida" (Dussel 2. 602).

) um ídolo e renunciando. ao fim e à intenção para os quais os chamou ao mercado. a lógica da morte lhe é intrínseca. Ei-lo: "Fez para si desses metais (ouro e prata = acumulação originária. Em outras palavras. Marx observa com suma agudeza: "Costuma esquecer-se que a plena expropriação. mas a seu próximo. cai da religião na jurisprudência" (MEW 13. desempenhava um papel até bastante cômico. libertou-os quase completamente deste serviço para transformá-los em divindades. 117). Na "Contribuição à crítica da economia política" de 1859. Ele. se torna terrível quando concebe. já não a si mesmo. de suas condições de trabalho não é um resultado ao qual tenda o modo capitalista de produção. Marx cita. tenha direito a devorar tudo. na realidade é a pressuposição básica da qual parte" (MEW 25. visto como guardião de um tesouro. 224) já não destrói o fetiche quando este deixa de servir-lhe. No modo de produção capitalista. "O proprietário de mercadorias. e inclusive mais seres humanos. já não a si mesmo. uma inversão de causa e efeito. o "adorador do fetiche" (OF.Com a chegada do capitalista a coisa muda radicalmente. porém. 609). A realidade se torna opaca. dali em diante. Fetichiza tudo à sua volta para que o fetiche. isto é. mas a seu próximo como realização de uma determinada soma de dinheiro e quando transforma em mártir do valor de troca. feita ao trabalhador. A. para que servissem como prenda na troca e na entrega recíproca. às quais foram sacrificados e ainda se sacrificam mais bens e importantes coisas necessárias. 103. engrandecido. H. um longo parágrafo de Boisguillebert que explicita muito bem como Marx situa o sacrifício de vidas no centro de sua visão da idolatria. com indisfarçável satisfação. do que os que a cega antigüidade sacrificou a seus falsos deuses" (MEW 13. nota). De crente passa a ser credor. Já não se enxerga . d) Não entende o capitalismo quem não analisa sua idolatria No capitalismo se dá um arrevesamento.

A "servidão voluntária" requer uma explicação na qual os aspectos subjetivos não sejam descolados das condições estruturais e objetivas. é aí que se bifurcam as interpretações de Marx. consideremos. é essencialmente idolátrico. valha a simples insinuação de uma pista. formam parte deste universo categorial com o qual Marx analisa o capitalismo. E é óbvio que as imagens antiidolátricas de Marx. 484). que Marx faz do capitalismo. As explicações meramente moralizantes têm um alcance limitado (apatia.a essência dos fenômenos sociais. enquanto é um sistema fetichizadoi da realidade. 1* parte). o próprio Lima Vaz. Já que não podemos estendernos aqui sobre este assunto. que poderia ser chamada. um pouco mais de perto. Paia entender isso é necessário considerar a categoria de "fetichismo". 19). "Marx nos dá essas características gerais (da Economia Política Capitalista) em sua 'teoria do fetichismo da mercadoria'. A teoria marxista do valor. Rubin. de teoria geral das relações de produção na economia mercantil-capitalista" (ibid. As coisas movem as pessoas. o que . "A teoria do fetichismo é. Brasiliense. A necrofilia do capitalismo e sua lógica idolátrico-sacrifical não se entendem sem tomar em conta este ponto crucial (Hinkelammert. p. a sua insistência em imagens idolátricas. É o momento de voltar à pergunta formulada acima: por que há tanta subserviência e tão pouca rebeldia? Pois é precisamente isto que precisa ser explicado. p. como uma categoria analítica da economia. porque o fetichismo transformou as coisas em sujeitos e os sujeitos em coisas. das quais elencamos alguns exemplos.. 134). em Marx. mas apenas a sua aparência. particularmente de sua teoria do valor" (I. Partindo do suposto de que é impossível amputar da análise. I. falta de decisão). Como já dissemos anteriormente. Por isso discordamos dos que pretendem reduzi-las a "metáforas e comparações" (ao que parece. p. per se. O sistema capitalista. com maior exatidão. Marx chama esta característica fundamental do capitalismo de "quid pio quo religioso" (MEW 26/3. 1980. 16). a base de todo o sistema econômico de Marx.

Em outras palavras. implicam numa apostasia real dos ídolos da situação que se quer ver transformada. um objeto. O fetiche se tornou historicamente verdadeiro. coisas.13) se transformam em poder que a Besta realmente exerce. assim como faz parte da própria definição do adorador. no capitalismo se dá precisamente esta inversão: as coisas viram sujeitos e os sujeitos. assim como não há fé no Deus da Vida sem abandono dos ídolos que matam. mas também não haverá transformação profunda da realidade fetichizada. Poderão objetar que isso não é possível porque o ídolo é uma coisa. ou seja. a relação recíproca entre o fetiche e seu adorador faz parte da própria definição do fetiche-capital. Os fetiches são realmente aquilo pelo que são tomados. Daí para frente o real já não se explica sem o fetichismo'. A idolatria é um ato de reciprocidade entre o idolatra e o ídolo. Então a única maneira para "derrubar os poderosos de seu trono" (Lc 1. pois. Se fosse assim o ídolo não teria nenhum poder real. imprimindo em todos o seu sinal para que possam "comprar e vender" (Ap 13. a teoria do fetichismo tenta explicar por que o poder "atribuído" às coisas funciona de fato como um poder real das coisas. Neste preciso sentido. tampouco há revolução social sem abandono dos fetiches que legitimam e articulam . Mas. porque a realidade funciona sob o comando dos fetiches. O dinheiro "trabalha". um idolatra? É aquele que estabelece com o ídolo uma relação de tal tipo que " o poder e a autoridade" entregues à Besta (Ap 17. portanto.17). A "teoria do fetichismo". não poderia exercer nenhum poder num ato de reciprocidade com o idolatra. Seu poder se torna historicamente real porque foram historicamente constituídos como fetiches.é um culto idolátrico. no fundo. todas as revoluções são necessária e ineludivelmente "atéias".52) passa pela derrubada dos fetiches do seu trono. Sem ação antiidolátrica não só não pode haver fé verdadeira no Deus da vida. Dito de outra forma. Que é. É inteiramente correto afirmar que. como vimos. carente de subjetividade. o capital se agita com incrível paixão no corpo. é uma explicação do estranho poder das coisas sobre as pessoas. porque a realidade fetichizada funciona segundo as leis do fetiche. Aqui tocamos na dimensão política mais radical e profunda da fé.

Por quê? Porque o fetichismo não parou na intensidade com a qual atuava no século passado. por isso mesmo. não há revolução sem "fé" na luta pela vida e sem organização da esperança. Por isso não temos a menor dúvida de que Marx concordaria inteiramente com a afirmação de que não entende como funciona o capitalismo. Ele nos diz uma coisa que muitos acham sumamente estranha. cada vez mais autônomo e. transformado em capital que se valoriza a si mesmo. É inegável que o capitalismo. de nova intensificação do fetichismo. Imagine-se Alice no país das maravilhas da Televisão. Como foi que o dinheiro. Marx nos diz que o dinheiro e. Simplesmente isto. . por tudo o que ficou dito. Isto é muito mais verdade hoje do que foí no tempo de Marx. e depois. até chegar a um grande tesouro que foi. invoca seus fetiches com um culto idolátrico cada vez indisfarçado. posteriormente. onde assistimos. Hoje vivemos. mais e mais dinheiro acumulado. chamado capital e passou a ser investido? Talvez muita gente pare aí com a sua reflexão. aos poucos. porque está "invisível". primeiro como mercadoria geral na troca mercantil. Marx certamente não. Tornou-se muito mais intenso. falando entre si e conosco. então. o capital só puderam funcionar historicamente como funcionaram em seu caráter de fetiches e por causa deste seu caráter fetichista. um tempo de acirrada "luta dos deuses" e de incrível produção de ídolos. quem não analisa o. isto é. É neste contexto que se inscreve a manipulação aberta da religião por Reagan e a onda de neoconservadorismo religioso. em quase cada spot publicitário. deu origem ao capitalismo? Foi simplesmente porque houve. definitivamente transnacionalizado e em crise de "governabilidade". complexo e onipresente. aos poucos. mas também tudo o que isto implica. É necessário entender que cada crise do capitalismo é um momento de abalo dos fetiches e.seu caráter fetichista e sua idolatria.a opressão. ocultada no real. às coisas e produtos comportando-se como sujeitos.

me explicou tudo de um modo tão claro e nítido que. podemos perdoar muitas coisas ao cristianismo pelo fato de ter ensinado a amar as crianças". tive dúvidas religiosas (tínhamos escutado música magnífica numa igreja católica) e naturalmente as confiei ao mouro (apelido de Marx para os íntimos. E como me contava a história do filho do carpinteiro que os ricos mataram.). p. nunca mais me sobreveio sequer a menor dúvida. com seu jeito tranqüilo. Mas já seria uma boa ajudinha se ele nos tirasse algumas dúvidas sobre a diferença decisiva entre idolatria. . Frommann. A. Não creio que a nós. nem antes nem depois. Muitas vezes o ouvi dizer: apesar de tudo. tirado de suas "Lembranças de Marx". Marx possa tirar todas as dúvidas. Leonor. Marxistische Portraits. 27): "Lembro-me muito bem quando. Tampouco temos por que segui-lo sem resistência e críticas. aos cinco ou seis anos. H. Lembro-me como o mouro. ameaçados em nossa candura por tantas coisas complicadas da vida. "Erinnerungen an Maix". desde então até hoje. e fé no Deus da Vida. nunca foi contada. Contava-a de um jeito como. Stuttgart. mesmo que venha com nome do cristianismo. citado em: Iring Fetscher. acho eu. 1975. um trechinho deliciosamente cândido da filha de Marx.Conclusão Para concluir.

O mais das vezes isto significa. Mundos pretensamente encerrados. O que não couber é declarado inexistente. fica patente o seu caráter de simples exordio.auto-regulador. sistêmica. que se arredondam num equilíbrio. porque se afirma como poder. lógicas arredondadas. A verdade encerrada pretende ser a verdade. Como se vê. Globos. Constructos racionais que simulam perfeição. que pretendem aprisionar tudo na sua circularidade funcional. Reabrir universos fechados em sua falsa lógica. Abertura é talvez a palavra mais adequada. embora introjete a lógica sacrificai e se imole. tudo é reduzido. mas que. Sistemas que se auto-equilibram. O que resiste a imolasse é sacrificado. afirma-se que ainda não é. esferas. Dentro é o reino do ser. O que está dentro. torna-se humilde e eficiente servidor. natu- . então. poder.e autovalidantes. reabertura. Totalidades auto-suficientes. a uma funcionalidade circular. lamentavelmente. não é e não pode ser. fora é o não-reino do nãoser. E se os fatos desmentem a realidade do equilíbrio. Simples introdução para a remexida em profundidade. As esferas lógicas são esferas sacrificáis. o que está fora. Quem aceita ficar funcionalmente inserido.CONCLUSÃO TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO E ECONOMIA POLÍTICA (Hugo Assmann) A ARTICULAÇÃO DOS CRITÉRIOS TEOLÓGICOS / A ARTICULAÇÃO DOS CRITÉRIOS ECONÔMICOS / O "LUGAR ECONÔMICO" DA FÉ CRISTÃ / REIVINDICANDO O PRIMADO DO ESPIRITUAL No momento de concluir este ensaio. Pode e não pode? Portanto. em muitos assuntos da economia e da teologia. é e pode ser.

a simulação de um outro objetivo. Exercício do poder como culto idolátrico. e até os seus deuses. que nos pareceram mais apropriados para um ensaio-abertura. para o império soberano de um eu avassalador? Talvez. logo existo!" (Embora já saibamos. a um rei. hoje. Mais: afirma-se que a tendencia natural ao reequilíbrio já opera como lei primeira em tudo. É a ameaça do caos. cuja vida. segundo as lógicas esféricas. de fato: "Conquisto. Nosso ensaio-exórdio assumiu a feição que tem. Depois de . como perfeições ou totalidades encerradas e esféricas. a tragédia do eu autofuncional. Conquistar como forma de servir. se define como funcionalidade circular. Reabertura de espaços e horizontes para afirmar a vida humana real e concreta.raímente. a partir da situação dos que. bichos esféricos? Pior: imaginam também a realidade. quer-se a instauração de conquistas definitivas. Nunca faltou. A uma causa. logo existo!"). Qualquer insubmissão é antinatural. a um poder benfazejo para todos. há milênios. Porque a vida. são consumidos e sacrificados por estarem reduzidos à funcionalidade circular das "leis" sistêmicas. Parece até que não se suporta a missio. por último. escolhemos aqueles poucos temas centrais. porque urge resgatar a vida humana do seu aprisionamento em racionalidades auto-reguladoras. mais elevado e sublime. mais do que função aproveitável. porém. Dentre os muitos temas que nos desafiam. é estorvo e ameaça para o bom funcionamento da ficção dos que pretendem submeter os homens e as divindades a sistemas auto-reguladores. Por que será que os homens querem ser animais redondos. já que se anela tão ardentemente a missio absoluta. também. missão cumprida! Em lugar de evangelhos que propaguem a abertura. os seus mundos reais e possíveis. Conquistar para quê? Para si mesmo. "Conhece-te a ti mesmo!" "Penso. porque rompe com a lógica da estabilização. às ordens de divindades providenciais. embora bem nutridos consumidores. tende a ser. que isto significava. Mas essa reabertura é vitalmente urgente para as maiorias da humanidade. É a morte. Essa reabertura é exigida. quando despertamos para a inter-relação profunda entre economia e teologia. O Ocidente arrasta.

não chegam a explicar por que os opressores se acreditam benfeitores. o Poltergeist ou os espíritos travessos fingem dissimulações para nos ocultarem a fixidez das regras estabelecidas. Chocam-se. Demonstrar sua presença ativa na economia (assim como em outros terrenos). afunilamos a nossa busca em direção aos dogmas rígidos. A rigidez dogmática do credo essencial. É fascinante analisar como. e sua implacabilidade (seu sacrificialismo) só explicável como pedagogia imposta por divindades sérias e severas — eis o filão temático. tanto na economia como. sem o recurso a pressupostos que. um credo dogmático cuja fixação e fechamento jamais teria sido possível. julgando-a suficiente para a luta política.um sobrevôo panorâmico da vasta extensão de desafios. são uma contrafacção do evangelho da liberdade de amar-nos mutuamente. com o mistério da "boa vontade" dos opressores. portanto. para ver se algum dia se sentirão mal diante do que estão fazendo e se declararão cri- . se atentarmos para as franjas flutuantes das linguagens. evidentemente. Todas as análises que pretendem mostrar que a economia burguesa se reduz a um jogo bem armado de perversas opressões. consabidamente. Não se trata. de negai' que exista a lógica da opressão. Reabrir. a nosso modo de ver. com invectivas puramente seculares. Queríamos tornar plausível para o leitor que. seu caráter de "boanova" (evangelho) para os que desejam a felicidade para si e para seus semelhantes. então e sempre de novo. que resultariam de propósitos mais ou menos intencionais dos opressores. a convicção de que sua tarefa é a dissimulação nos levou a preferir outro caminho. é a base para denúncias e a exigência de mudanças com a qual muitos se dão por satisfeitos. que latejam no binômio economia-teologia. sua exigência de uma adesão inteiramente confiante e devota (daí o tema central da idolatria). Embora fosse grande a tentação de analisar as travessuras constantes desses espíritos brincalhões. ao qual nos ativemos. pouco abaixo da superfície das linguagens existem rochas duras. Muitos são os parentescos entre a economia e a teologia. por implicarem numa redefinição da reciprocidade humana. convencidos do seu serviço benfazejo à humanidade. Tem sentido continuar a acusá-los. nos dois terrenos. na teologia.

"A aplicação do mecanismo auto-regulador. elas não nascem contra a filosofia — embora suas conceitualizações pretendam negá-la ou "superá-la" — mas. Se. Os credos benfazejos se bloqueiam e fecham em si mesmos. proposto por Townsend. não é. se quiserem. transformada em "credo fervoroso" e "credo militante" (Polanyi). Parece-nos acertado e perspicaz o que Pedro Morandé observa a respeito da consumação da fé confiante no mercado. se não se consegue explodir. que a convicção de haver feito uma descoberta feliz e definitiva. Se não se reabre ou. porque se podem encontrar. como "ciência balbuciante" sobre a relação dos homens com Deus. até com certa facilidade. desde o interior de suas peças de montagem. a teologia e todas as ciências que procuram dizer uma palavra diferente sobre a melhoria da convivência humana. como o fizeram sempre todos os credos da salvação. sem dúvida. É por pretender ser isso — a saber. insistimos tanto na essência. A razão fundamental. teológica do paradigma do interesse próprio e do sistema de mercado. é capaz de reduzir ao silêncio e à impotência a filosofia. porque foram incorporadas e silenciadas na lógica interna do credo de salvação. as ciências sobre o convívio humano. As ciências sociais são o produto desta impotência. significava. Neste sentido falamos de uma impotência da filosofia. em nosso ensaio. exigida por Townsend. principalmente ou em primeiro lugar.minosos conscientes? Algo parece não funcionar a contento na ideologia agressiva das esquerdas. as éticas. a derrogação de toda filosofia. no período mais agudo do pauperismo na Inglaterra. . alusões teológicas explícitas no pensamento econômico. declarar-se auto-regulado e impor-se como necessário. que nos leva a essa insistência. e também a teologia. são reduzidas ao silêncio. a lógica redentora e evangélica desse paradigma. Procuramos insinuar. A rigor. A apelação ao julgamento da razão era substituída por um mecanismo objetivo regulado pelo cálculo em dinheiro. em última instância. a descoberta do caminho mais eficaz para o bem da humanidade — que esse paradigma pôde encapsular-se em sua lógica. é o caráter de credo da salvação que descobrimos nesse paradigma.

Ele só não é óbvio para os que ainda não entenderam que esta é uma corrente teológica cujo esforço principal consiste. a partir da situação objetiva das vítimas da lógica sacrificai de um sistema econômico que exige a anulação de vidas humanas. . na medida em que a relação com a transcendência é inseparável da relação mutua entre os homens na história. que um modelo sócio-econômico procurou absorver. vale a fortiori em relação à teologia. A razão é óbvia. nas quais se expressa a não-aceitação das exigências idolátricas da "religião econômica". despotencia e declara inválido qualquer discurso alternativo sobre o amor ao próximo (a não ser no âmbito estritamente privado) e. que não é apenas uma crise do pensamento. incorporar e funcionalizar no interior da sua lógica. precisamente por apresentar-se como credo redefinidor do melhor encaminhamento da reciprocidade humana. op cit. nessa citação. 1 O que se diz. toda teologia que não se esforça por reabrir a teo-lógica inerente a esse paradigma econômico não escapa da fatalidade de ser utilizada como teologia idolátrica. enquanto teologia. declara também inválido qualquer discurso alternativo sobre a relação com Deus. na reabertura e redialetização das linguagens teológicas. 168. mas também expressão da crise. em proporções espantosas. As ciências sociais são assim filhas. Consideramos desnecessário insistir no caráter verdadeiramente teo-lógico da Teologia dã Libertação. p. não é redutível a um simples protesto social diante 1 MORANDÉ. mas de toda a ordem social". * * * A Teologia da Libertação instaura a sua reflexão a partir do "reverso da história". A origem da Teologia da Libertação.. em relação ao qual não possuía armas para submetê-lo. porque o paradigma econômico a que nos referimos. Seu "material vivo" são as experiências de fé cristã dessas vítimas. a respeito da filosofia. Por isso. efetivamente. por causa do vazio por ela deixado diante da aparição de um fenômeno social inédito. Pedio. nota 20.ao contrário.

claramente conjunturais e emergenciais. neste seu aspecto de sobrevivência material. do nexo corporal da vida dos pobres encarada como reciprocidade entre os homens. uma teologia com ressonâncias imediatas para dentro da concepção da economia. assim como seus propiciadores. Mas quando falamos do nexo corporal entre os homens. As experiências de fé antiidolátrica dos empobrecidos. a fraternidade sempre está incluída como um elemento definitório da vida. Com isso não se pretende dizer que baste arvorar a bandeira do primado da vida humana real e concreta para dispor já de critérios suficientes para elaborar projetos econômicos específicos ou para optar por um determinado modelo econômico viável. às vezes. embora elas estejam ameaçadas também. que evidentemente têm sua dignidade irredutível. que é. portanto. A partir desse núcleo articulador. Não se trata de mera preservação física dessas vidas.do sofrimento dos oprimidos. Todos os adversários da Teologia da Libertação. No centro está o núcleo articulador que é a afirmação da vida. Todos os demais recursos instrumentais são apenas instrumentos auxiliares e. começando com a afirmação da vida das vítimas de um sistema que não dá valor a suas vidas e não lhes permite viver. Trata-se da vida enquanto sociabilidade e fraternidade humana. por isso mesmo. muito simples. Esta afirmação da vida está centrada no seu caráter histórico real e concreto. se deram conta disso. É nisso que consiste a mediação fundamental dessa teologia. que já constitui in nuce a negação dos elementos centrais do paradigma econômico em questão. sua capacidade de reapropriar-se dos meios de produção simbólico-religiosos e sua criação de linguagens alternativas para falar de Deus e da relação mútua entre os homens conformam o berço ou lugar originante de toda a Teologia da Libertação. Esta visão não se limita à mera proposta de salvar vidas individuais. nas circunstâncias concretas de um determinado país. e constantemente. nessa conceituação concreta e histórica da vida. desdobram-se todos os demais aspectos essenciais da Teologia da Libertação. portanto. A articulação cios critérios teológicos da Teologia da Libertação é. .

portanto. continua sendo e oxalá nunca deixe de ser um processo de aprendizagem permanente. da felicidade e. E nem sempre é fácil demonstrar que se trata de perversas contrafações do evangelho da vida. uma engenhosa adulteração desse evangelho. será débil. porém. são imprescindíveis para discernir projetos econômicos. diante de um evangelho adulterado por categorias econômicas. que se expressa principalmente em linguagens seculares e. certas coisas foram ficando mais claras ao longo do caminho. Não devemos partir da visão moralista que imputa maldades e crueldades intencionais aos que participam no jogo da opressão. muito mais débil. como anúncio. se apresenta como "racionalidade científica". ainda por cima. Quando nos confrontamos com uma contrafação ou adulteração da "boa-nova" da vida. desencadeadas a partir do núcleo básico da afirmação da vida humana real e concreta. pelo menos no tocante aos critérios fundamentais. Uma dessas articulações se dá ao nível mais diretamente teológico. devemos partir do pressuposto de que os ídolos que matam também se apoiam em evangelhos da liberdade. É por isso que a Teologia da Libertação se viu obrigada a articular de tal modo a sua fonte de critérios — a afirmação da vida humana real e concreta — que não houvesse dúvidas acerca das implicações econômicas da sua proposta. precisamente. Dito de outra forma. enquanto a outra representa a ampliação desse critério básico para dentro da economia. Não podemos esquecer um só momento que se trata de desencravar e libertar o evangelho da vida das entranhas de uma*lógica econômica.Pelo menos duas articulações de critérios. Já que a Teologia da Libertação também foi. uma teologia só consegue ser profética — isto é. toda teologia que não souber desarticular essas linguagens pretensamente seculares e essas presunções de cientificidade. . Quanto à articulação dos critérios teológicos. Melhor ainda se souber expressar-se também em categorias econômicas. da vida. já como denúncia. Vejamos essas duas articulações de critérios de maneira bem sucinta. denunciadora e anunciadora — se mantiver uma proximidade claramente perceptível aos fatos e às teorias da economia. que constitui.

de contingentes muito numerosos do nosso povo.. que devem ficar explicitados nessa articulação. Nosso Deus não é um objeto de posse. embora este seja um ponto lamentavelmente tão prioritário na defesa da vida. fomos aprendendo igualmente que a vida não cabe em conceitos fechados e funcionais. quando falamos do Deus da Vida. dos índios e de todos os que sabem muito bem o que significa ter a sua vida cerceada. que hoje é muito clara para os teólogos da Libertação é que a linguagem afirmadora da vida é facilmente cooptável pelo sistema opressor (como. admite certamente linguagens diferenciadas. por exemplo. o gosto e a alegria de viver. Os ídolos. A articulação dos critérios teológicos. Outro aspecto. porém. é que o conceito de vida deve ser. Por isso. participação ativa na produção social da vida para todos e. quando não se tomam as devidas precauções para que ela denuncie e anuncie coisas concretas e significativas em cada contexto concreto. muito enfaticamente. sim. Fomos aprendendo que o conceito de vida deve ser expressado de tal forma que signifique : meios para viver. que — diante de uma "religião econôftiica" que domesticou tantos elementos teológicos e morais — vale a pena insistir em alguns critérios. que foi ficando cada vez mais evidente para a Teologia da Libertação. aliás. falamos de uma experiência da transcendência que se relaciona . ameaçada. fisicamente ameaçada. ao mesmo tempo. mutilada ou negada. Não se pode reduzir esse conceito a mediações tão restritas que se acabe falando da mera sobrevivência física. Assim como fomos aprendendo que não é possível uma Teologia da Libertação significativa sem a participação das mulheres. "O verbo .Uma coisa. A dimensão do prazer e da festa não tem estado muito presente nas categorias tradicionais da teologia. sempre a partir do núcleo básico da afirmação da vida humana real e concreta. A relação — que não deixa de ser uma tensão dialética muito exigente — entre horizonte utópico e projetos históricos nos obriga a uma retomada séria da proibição bíblica de possuir imagens definitivas de Deus. Parece-nos. são deuses domesticados e funcionais. a própria linguagem acerca da Libertação). historicamente concreto e historicamente aberto. dos negros.ter é a morte de Deus" (Moacyr Félix).

embora se constatem reservas críticas impressionantes nos pobres. de um horizonte aberto . nos dias em que estamos redigindo este texto) que um número expressivo ¡ de crianças' recémnascidas de países latino-americanos já foram vendidas para "bancos de órgãos humanos" de países ricos. Os mártires não são . este fato tem uma força interpeladora em si mesmo. se comprova (segundo repetidas notícias da imprensa. que fica entregue aos mecanismos do mercado). superficiais ou manipuladores.com coisas muito concretas da nossa vida e da nossa luta. Mas não é no plano do conhecimento "científico" ou do saber académico que se atribui aos pobres. Outro elemento-chave é o que chamamos. situação objetiva dos pobres. Não se trata de um convite para cair em populismos emocionais. mas falamos. Quando. para a economia esse critério expressa coisas muito fundamentais. uma interpelação e um martyrein (um testemunhar) . uma força evangelizadora peculiar. que deveriam orientar os projetos econômicos. não se tenha dúvida de que os pobres têm um : potencial evangelizador que é surpreendente até no que diz resjaeito a perspiCácias. já que tantos economistas afirmam que não podemos conhecer "cientificamente" quais são essas metas e como buscá-las (sabedoria. dinamiza e<. que inspira. numa formulação densa e ptenhe de teologia. Além de tratar-se de uma referência à mensagem do Evangelho acerca do lugar dos pobres no Reino de Deus. que muitas vezes escapam a peritos confinados no seu saber departamentalizado. ao mesmo tempo. Mas. que contém. à própria..5 r O sentido principal da expressão se vincula. O povo simples acha absurdo que pessoas com estudos superiores possam compartir a estranha idéia de que não podemos ter mínimas certezas sobré as prioridades sociais. A priorizaçãò de metas sociais é obviamente contida nessa formulação.ajuda a organizar a nossa caminhada. por exemplo. de buscas e esperanças. : "o potencial evangelizadordos pobres". enquanto realidade desafiante. . Afirmar esse potencial evangelizador não significa desconhecer que a consciência dos oprimidos pode estar fortemente invadida e colonizada : pela ideologia dos dominadores.

que se arrepiam quando se fala em justiça social e metas sociais. gera também conhecimentos que não se ensinam nas universidades. testemunhas — porque fizeram longos discursos ou deixaram muitos escritos. a superação do sacrificialismo e uma forma não idolátrica de conceber a experiência da transcendência no interior da história. Simplesmente toma- . na articulação dos critérios teológicos: o rechaço à idolatria. Economistas. * * * A articulação dos critérios econômicos não é um assunto da exclusiva competência profissional dos economistas. Todos estes elementos constituem aspectos marcantes da Teologia da Libertação. Para que se veja até onde chega o desafio desse potencial evangelizador basta meditar sobre a origem e as ressonâncias do sonho de tantos cristãos e teólogos. um segundo sentido. com relativa amplitude. O povo oprimido. que nos parecem fundamentais. Para não alongar-nos demasiado. na expressão "potencial evangelizador dos pobres": as lições a serem aprendidas a partir daquilo que os pobres têm para comunicar-nos quando nos associamos às suas organizações e movimentos. contudo. três outros elementos. quando se lhe permite organizar-se. Sobre cada um deles já refletimos. hoje. Os teólogos da Libertação acham que já aprenderam muitas lições concretas da irrupção dos pobres para dentro da Igreja e da sociedade. Interessa à sociedade inteira. que é fundamental. Por isso. sem comentários adicionais. passamos a nomear simplesmente.. É necessário recuperar a força interpeladora dos "martírios" objetivos. se os teólogos se preocupam com este assunto não é porque desejem retornar ao imperialismo teológico da Idade Média.chamados assim — isto é. no corpo deste livro. Há. têm muito a aprender desse potencial evangelizador. a respeito de uma Igreja que se deixe evangelizar constantemente pelos pobres. num mundo como o nosso. Não há dúvida de que o pensamento econômico tomaria outra feição se os economistas estivessem à escuta do testemunho que emana da realidade e da palavra dos pobres.

que são considerados de linha progressista. a última moda é acusar os cristãos progressistas de "retrógrados" em matéria econômica. existem alguns problemas bastante sérios no que diz respeito às acusações de que são objeto. A obsessão distributivista e o sonho da abolição radical das desigualdades so ciais os haveriam tornado incapazes de ponderar a necessidade do incentivo à iniciativa econômica e o papel do lucro enquanto incentivo material. o fracasso das teorias da distribuição submetidas à lógica do mercado. Como é sabido. a obsessiva preocupação com a escassez num mundo onde a produção da riqueza e o mero crescimento econômico não são sinônimos de desenvolvimento. Revelam que ela obedece a uma lógica de antivida. pré-urbana. mormente quando se está confrontado com uma "religião econômica" que se considera dona absoluta desses critérios. préindustrial. um distributivismo tão ingênuo que não saberia lidar com o imperativo da produção aumentada de riqueza ou crescimento econômico. Do lado dos cristãos e até dos bispos. Afirma-se que continuam aderindo a uma visão pré-moderna. Tudo isto os levaria a uma confiança ingênua nas virtudes da planificação centralizada com . a vida humana foi deslocada do centro do pensamento econômico. A transformação do conceito "fatores de produção". embora exista um sério problema a respeito da adequação possível entre a definição de critérios e os obstáculos inerentes ao próprio "saber técnico" tão míticamente atribuído aos economistas. a ideológica insistência dos neoclássicos na alocação de recursos sem a devida discussão prévia dos objetivos e metas — estes e outros aspectos semelhantes revelam algo mais do que inconsistências teóricas da ciência econômica. ou seja. a lógica da exclusão dos fatores menos produtivos para os interesses do Capital. É evidente que não nos estamos referindo ao detalhamento dos mecanismos operacionais dos projetos econômicos. a inclusão da natureza e da vida humana no Capital.ram consciência de que não se pode fazei uma teologia minimamente i elevante sem esse tipo de preocupação. Não é raro encontrar a acusação de que estariam propondo o absurdo de uma "caritocracia". basicamente agrária e distributivista. Como vimos.

Elas aparecem. latino-americano. mais capitalismo e mais "cultura capitalista". Críticas desse tipo se tomaram cada-vez mais freqüentes na imprensa. a discussão tende a tornar-se : completamente irracional. E .demonstrando que. Cláudia. especiáiniente. Estes critérios são: logicamente anteriores porque se referem às opções políticas relacionadas com valores. portanto. A articulação 2. Consideramos altamente sintomático que as acusações utilizem como pretexto o problema da distribuição. requer-se uma fonte de critérios mais básicos. porque isso permite ocultar a realidade evidente de que^ precisamente neste ponto. A Igreja e a questão agrária São Paulo. Na. 1987. a alcançar. no contexto . A economia dos bispos.2 : Estas e outras acusações semelhantes normalmente servem para adornar a tese de que tudo se resolverá com mais mercado. este conceito fica completamente descaracterizado.vistas . no Brasil. 1985. FUSER. determinadas metas sociais prioritárias. apesar de tudo. São Paulo. .Bienal. Provavelmente não significa nada mais do que a clássica posição das economias de mercado. pronta e rapidamente. que descarregam no Estado ás tarefas econômicas e sociais que não permitem a maximização do lucro. atribuído aos cristãos progressistas. Antes de podei entrar nos critérios acerca de "quanto mercado" e "quanta planjficação". A baixa produtividade de certas empresas estatais estaria . os aparatos governamentais já manifestaram sua comprovada incompetência na gestão da economia. as teorias econômicas ortodoxamente filiadas à economia de mercado não têm outra resposta que a da confiança cega nos mecanismos do mercado. discussão acerca da articulação dos critérios econômicos parece. . Quando se aceita imediatamente uma cobrança ideológica armada com esse falso dilema. Já não implica nenhum abandono da lógica férrea do mercado em tudo o que for possível submeter a ele. em veisões menos agressivas. Salta-se imediatamente para a pressuposição de: um esquema distributivista "caritocrático". -ern livros como: . quando esses economistas se declaram. adeptos de uma "economia mista". Ed toyola. Mas não se podem deixai de lado os desafios reais que esse tipo de acusações contém. VÁRIOS. de bom aviso não deixar-se enredar pela eterna cobrança imediata acerca do falso dilema: ou mercado — ou planifieação.

sem que se tenha que adotar um igualitarismo que desestimule o empenho e a iniciativa dos indivíduos. . primeiro. Como cerne ou núcleo da articulação dos critérios econômicos deve figurar a produção social da vida real e concreta Essa vida humana não é ledutível à visão neoclássica do "homo oeconomicus". podemos limitar-nos. Um terceiro nível de critérios está relacionado exatamente com as certezas possíveis sobre metas sociais praticáveis. porque. abaixo do qual a vida humana é impossível. Crítica à razão utópica. Quem aceita discutir esses critérios obviamente não pode pretender esvaziar ou invalidar temas como "justiça social" e "metas sociais". às observações mínimas que permitam visualizar a lógica de uma articulação dos critérios econômicos que seja radicalmente diferente da submissão cega a mecanismos de mercado. uma vez que se tenha optado pelo critério básico da produção so3 HINKELAMMERT. não pode servir de argumento para eliminar um critério fundamental relacionado com as necessidades humanas: elas têm um limite físico e material. Isto. numa planificação omnímoda da economia. dentro do contexto dessa sociedade. não são tomados em conta pela "lei" da oferta e da demanda. como sujeito de meras preferências no mercado. além disso. com bastante amplitude. Já que este assunto foi abordado. As necessidades humanas. ou seja. os seres humanos têm reais necessidades e não apenas gostos e preferências. uma oscilação desse limite para cima. a riqueza existente e a riqueza que uma determinada sociedade é capaz de produzir empurram para cima o limite mínimo humanamente aceitável. têm um caráter histórico e variam com as situações históricas. há critérios econômicos relacionados com o limite físico do mínimo vital e com o caráter histórico das necessidades humanas. segundo. num texto de Franz Hinkelammert 3 . Em suma. aqui. e. último capítulo. porque os que não têm poder aquisitivo tampouco têm poder de "demanda" e. no entanto. F-. sem cair.dos critérios econômicos não pode começai com aspectos imediatamente operacionais. portanto. Esta oscilação evoca imediatamente o tema da distribuição da renda e da superação de desigualdades sociais aberrantes. e têm. porém. no entanto.

A sua elasticidade depende das circunstâncias. torna-se inevitável a discussão^ sobre o conteúdo econômico e social da democracia. A relação entre planificação necessária e espaços admissíveis e convenientes de mercado não é uma discussão que se possa resolver em nome de um dilemaficção: ou-ou. mas acrescentam algumas explicitações estranhas ao pensamento liberal clássico. não são um assunto meramente econômico. O próprio critério básico de uma economia centrada na produção da vida e a admissão do limite físico do mínimo vital estabelecem critérios mínimos para uma planificação imprescindível. depois as preocupações com a democracia. torna-se abstrato e ambíguo quando aplicado a de- . O primado do crescimento econômico e sua enganosa identificação com o desenvolvimento já nos revelam de que crescimento estão falando: o da lucratividade propícia à mais rápida acumulação do Capital. a participação econômica exige a participação política. objeto da planificação imprescindível. Já que as metas sociais praticáveis. primeiro o mercado. Em outras palavras. O agnosticismo social dos economistas neoliberais sustenta que não se pode ter certezas para estabelecer metas coletivas conscientemente elaboradas e assumidas. O pensamento liberal sempre pretendeu vincular o próprio conceito de democracia à mais irrestrita iniciativa econômica privada e à propriedade particular. Mas este enunciado. no sentido de que a salvaguarda do mercado irrestrito e a garantia do crescimento econômico admitem restrições na democracia. no contexto da riqueza existente e gerável numa determinada sociedade. A participação econômica não pode ser reduzida a níveis mínimos em termos de pura sobrevivência.ciai da vida humana real e concreta. Em face disso. correto na sua essência. Isto introduz a questão fundamental da democracia: o sujeito econômico só se viabiliza como sujeito político. porque também as metas sociais. como mecanismo democrático para a definição dos âmbitos da planificação imprescindível e do mercado conveniente. não éè limitam ao mínimo vital numa economia que produz excedentes. Os neoliberais continuam insistindo nesta vinculação.

mas cuja complexidade .mocracias restritas. Ela não é uma fé historicamente efetiva se desatende essa dimensão social ligada ao nexo corporal do convívio humano. Cristo não nos veio pregar um reducionismo social da fé quando nos revelou que ela será testada. Por isso a fé cristã. Pelo contrário. Isto não elimina. Estamos começando a falar do "lugar econômico" da fé? Sim. % # $ A fé cristã afirma a unidade histórica do amor ao próximo com o amor a Deus. no plano social do convívio humano. porque é um tema inevitável. Em sínteses. a fé cristã não pode ser reduzida à interioridade meramente subjetiva ou ao puro plano das intencionalidades subjetivas. é uma questão absolutamente central quando se discute a articulação dos critérios econômicos. quanto à sua consistência substantiva. Por isso a questão do Estado. ao nível pessoal e subjetivo. tem sempre uma relação fundamental com o nexo corporal da reciprocidade humana. Já que o amor a Deus não é real se não se encarna no amor ao próximo. Isto lhe confere uma dimensão social intrínseca e constitutiva. só se tornam perceptíveis quando enfrentamos o desafio de não ficar omissos diante das exigências de transformação do mundo num lugar onde a fraternidade entre os homens se torne mais real e esteja menos ameaçada. em absoluto. nada exige tanto a subjetivação da fé quanto essa insistência do cristianismo na dimensão radical inter-humana e social dessa fé. Ela só existe realmente quando se efetiva na história. da materialização institucional do poder de comando sobre a sociedade inteira. Os verdadeiros problemas relacionados com a densidade subjetiva da nossa fé só aparecem realmente quando assumimos a dimensão social dessa fé. e já que o amor ao próximo se refere fundamentalmente ao nexo corporal da reciprocidade humana. Os verdadeiros problemas que exigem o aprofundamento da nossa espiritualidade. o balanceamento entre a planificação e o mercado só é discutível e definível através da discussão prévia sobre as formas de participação política e sua relação ativa com as instituições do poder em todos os seus aspectos. a riqueza da dimensão subjetiva da fé. como práxis efetiva na história. tuteladas e com os aparatos do Estado sob controle de minorias dominantes. isto é.

ou seja. nossa análise nos levou a explicitar em que sentido o "mandamento novo" do amor ao próximo sofre. quando não a validez exclusiva. onde se pretende fazer valer um acentuado predomínio. nesse paradigma econômico.nao nós permite querer simplificar1 as coisas ou resolvê-las mediante a criação de mais um belo slogan: assumamos a dimensão social da nossa fé. Em tesé. Contudo. que pretende impor aos homens a confiança ilimitada em mecanismos econômicos declarados autônomos e independentes da responsabilidade dos indivíduos. É verdade que a exclusividade dos mecanismos do mercado. Que o tema é inevitável é bastante óbvio. se denunciam "estruturas perversas" e "mecanismos perversos" da economia. Os sacrifícios de vidas humanas que daí derivam estão sendo amplamente denunciados pelos cristãos. dos mecanismos do mercado em assuntos econômicos. Este passo já foi dado. situando-a no seu "lugar econômico". pois não existe sem intervencionismos em parte alguma. As concessões feitas e que tornam ó mercado menos implacável. Além da caracterização da essência idolátrica de uma economia. dando o passo para identificar tais estruturas e tais mecanismos como "estruturas de pecado". já que recortam um pouco as suas . desde o momento no qual. o sistema puro de mercado é uma ficção. consistiu em acrescentar novos e vigorosos argumentos para que os cristãos assumamos conscientemente a luta por um mundo mais fraternal. os dogmas do sistema de mercado continuam intocados e são difundidos como doutrina de validez universal. porque nossa participação nessa luta é o teste da nossa capacidade de discernir entre a busca do Deus da Vida e a submissão aos ídolos que matam. uma adulteração radical. a idolatria do mercado é pregada como evangelho realizador da melhor convivência humana. em encíclicas papais e na abundante literatura acerca do "pecado social" ou da "dimensão social do pecado". neste livro. pois é registrável em muitos documentos das igrejas cristãs. Depois dessa nossa análise. à luz do Evangelho. Nosso esforço. que significa falar de um "lugar econômico" da fé? Resumamos a situação: a maior parte dos cristãos do mundo atual vive em contextos sócio-econômicos.

Na medida em que se vai tornando cada vez mais claro que não bastam ponderações éticas. Que o paradigma do interesse próprio e do sistema de mercado é um contra-evangelho consumado. digamos. É neste contexto de prevalência da idolatria do mercado que uma parte minoritária das vozes oficiais das igrejas. Enquanto isso. servindo para suscitar energias de resistência à implacabilidade dos ídolos. como dizíamos. sem dúvida alguma. que sentido pode ter inculcar que a fé cristã tem uma referência histórica à economia ou. Hoje a questão nos surge em termos mais explicitamente teológicos: "o cristão numa sociedade anticristã" (e não apenas não-cristã. . ou. Os mais afetados pela idolatria mundial do mercado são. Para os excluídos da lógica do mercado. um lugar econômico? Percebe-se imediatamente que não é possível avançar muito neste tema se nos fixarmos apenas em responsabilidades individuais isoladas. por ser uma adulteração radical do "mandamento novo". desafiados a ou assumir as injunções da competitividade ou ficar para trás? É sabido que muitos teólogos já se angustiaram com as dificuldades do "homem moral numa sociedade imoral" (entre eles. Reinhold e Richard Niebuhr e tantos outros). Paul Tillich. ou que participam dele apenas marginalmente (em esferas de "economia informal" ou no plano da luta pela pura sobrevivência). é um ponto que aflora ainda muito pouco na consciência dos cristãos. Diante disso tudo. já que não se trata de retornar a sonhos de confessionalidade religiosa das instituições da sociedade). os países economicamente menos desenvolvidos e duramente dependentes dos países ricos. a teologia antiidolátrica talvez possa ter ressonâncias diretamente alentadoras. Mas que "palavra cristã" se pode dirigir aos que estão plenamente imersos na lógica do mercado. são usufruídas sobretudo nos países ricos. apenas uma parte de seu magistério começa a entrar em colisão com a idolatria do mercado.pretensões salvíficas. multidões de cristãos empobrecidos do Terceiro Mundo começam também a despertar para a resistência e a luta contra essa idolatria. cresce a consciência de que se trata de uma necessária abjuração da idolatria e que está em jogo a identidade da fé cristã.

Trata-se de um desafio aos cristãos. a dimensão eclesial da fé? É ela redutível à estreita participação no culto ou a alguma escassa participação em organizações e atividades intra-eclesiásticas. Deveriam ou não ser acentuadas. em sociedades complexas. imersos na idolatria do mercado? Primeiramente. em termos mais ousadamente teológicos? Acreditamos que sim. Não parece tão difícil. parece claramente preludiada em todo o esforço teológico e doutrinário acerca do papel ativo dos cristãos na . embora ainda bastante difusa. provavelmente não há nenhum exagero em afirmar que o futuro do cristianismo se verá afetado. pela capacidade que os cristãos e as Igrejas revelarem (ou não revelarem) de opor-se ao império da idolatria consubstanciado na "religião econômica". de imediato. que não vêem contradição nenhuma entre a sua fé cristã e a plena submissão à idolatria do mercado. Esta luta continuará débil enquanto se manejarem apenas interpelações éticas dirigidas. cabe perguntar que coisa tão estranha é essa que se inventou. entendendo por Igreja-no-mundo um sinal ou sacramento social de dimensões não redutíveis às instituições estritamente eclesiásticas? A resposta. cristãos concebidos como indivíduos isolados? Que significa hoje. muito mais diretamente. de tipo paroquial? Ou devemos repensar fundamentalmente essa dimensão eclesial da fé. às consciências individuais. as conseqüências desse processo idolátrico para a qualidade da fé cristã.A simples colocação desse problema nos sugere. não será sacudida. portanto. positiva ou negativamente. às Igrejas e ao cristianismo em sua globalidade enquanto afeta a própria identidade e credibilidade da mensagem cristã. como regra tão geral. embora este aspecto também mereça muita consideração. preponderantemente. E que dizer do "lugar econômico" da fé dos cristãos isolados. porque sem isso a "normalidade" da consciência de tantos cristãos. que possam existir. Nessa perspectiva ampla. que o discurso sobre o "lugar econômico" da fé não pode ser reduzido às dimensões limitadas da inserção individual na economia. falar de um "lugar econômico" da fé cristã nesta perspectiva ampla da participação ativa dos cristãos e das Igrejas na defesa de metas sociais urgentes na economia mundial e nas diferentes economias nacionais.

de modo algum. No entanto. que se deva transformar o discurso sobre o "lugar econômico" da fé em chantagem cruel. como elemento central. talvez caiba insistir neste ponto:. com a sua "fé". simultaneamente. ainda que nos esforcemos por descolar a mente e a consciência dos cristãos da fé idolátrica nos mecanismos autônomos . que se assigna aos mecanismos do mercado. na esfera familiar ou de pequenos grupos. Para ser bem sinceros. Teremos os cristãos. Como vimos.transformação da sociedade. sem participar. talvez devamos admitir que. um fair play . nas formas de luta supra-individual pela melhoria da sociedade. o cristão recluso. é o cristão que tem menos problemas paia conviver. mas adequação pura e simples à idolatria. terão as Igrejas. a coragem de dizer abertamente que isso não é cristianismo. que deveriam estar conscientes dessa tensão ou dialética da sua fé. fina e agudamente. nenhum indivíduo é realmente cristão se confina o seu "cristianismo" à esfera estritamente individual. quando muito. símbolos cristãos? Não nos parece. Vimos também que o automatismo. no minimundo da sua esfera individual ou. embora se continuem manejando. numa primeira aproximação à pergunta acerca do "lugar econômico" da fé dos cristãos-indivíduos. ou em parte precisamente porque se manejam. com a tensão permanente entre fé e idolatria.. com conselhos de baixa casuística moral ao estilo: faça do mercado um jogo limpo e honesto. Enganam-se os que julgam que a essência do mercado obedeça a tais regras. em muitos casos. Portanto. Isto torna as coisas sumamente complicadas. os neoliberais enfatizam que a agressividade competitiva é o elemento mais enriquecedor da dinâmica sábia do mercado.. com a idolatria da "religião econômica". a pedagogia da fé implica em trabalhar. contudo. A ideologia do mercado tem. a des-responsabilização dos indivíduos que participam ativamente do mercado. faz tábua rasa com as éticas. porque esta funcionalizou a "fé cristã" dentro dessas características. Cremos que não basta consolar os cristãos. Portanto. Como seria isso? Não estamos vivendo num mundo onde a idolatria não tivesse influências nas condições da vida cotidiana da maioria dos cristãos. as filosofias e teologías. como bem sabemos. algum dia.

se olharmás à nossa volta. A tolerância necessária nessas situações-limite não deve ser confundida com a conivência global com a ideologia do mercado. que está próximo à experiência cotidiana: todo mundo sobrevive. no mercado. cria situações-limite onde não cabem cobranças ou chantagens cruéis em nome da fé cristã. O pré-requisito para . a ser mantido como apenas parcial. Aliás. . Neste sentido. A tradução disso num conselho ético. na realidade te estás suicidando. Joga-se com um pressuposto. com o diabo. partindo de um economista burguês. discussão teórica à parte. supondo que exista real empenho em combater a idolatria. o pensamento econômico burguês não se omitiu de propagar a sua versão: se nãõ consentes com tudo o que a lógica do mercado exige de ti. . que perfazem lamentavelmente a maior parte do dia-a-dia de muitos cristãos. assim: " . na prática. ainda que consigamos torná-los descrentes em relação às falsas promessas acerca dos efeitos universalmente benéficos do mercado (e para isso há muitos argumentos factuais à mão). também neste ponto. o Fausto de Goethe pode inspirar interessantes avanços. então. porque sabe como tirar vantagem das oportunidádes que lhe aparecem. Só que é bom saber que.do mercado. mas — o que é muito pior — muito poucos vêem nisso um pacto inevitável. nas Igrejas e nos meios cristãos. A idolatria do mercado efetivamente corrói e corrompe a reciprocidade humana. não pode significar um compactuar acrítico com a idolatria do mercado. É isso mesmo. a vida cotidiana do cristão. soa. o velho dito da casuística moral: ad impossibile nemo tenetur (ninguém é obrigado ao impossível). que não esquece a "lei" da competitividade que consiste em saber tirar vantagem. não se pode deixar de ponderar o que significa. um comportamento moral da parte dos indivíduos e grupos humanos é simplesmente suicida e impossível nas condições que têm existido tão amplamente e que não apresentam sinal de vir a desaparecer. Estritamente em relação a tais situações-limite. imerso nos mecanismos do mercado. como dizia Goethe — com o diabo parece às vezes inevitável. Mas o pacto — "parcial". não só constatamos que esse pacto é amplamente praticado.

De maneira que. Barrington. p. para quem lê o texto em seu contexto. 1974. e esperamos que também acrescido de novas e mais ricas impli4 MOORE. Após tanta insistência sobre a interpenetração entre a teologia e a economia. 57. se refere às mais cotidianas operações de compra-venda. toda a ideologia do mercado se imagina os mecanismos do mercado como uma infinidade de contratos consensuais inteiramente livres (o que evidentemente não ocorre. advertíamos para a situaçãolimite. Mas. Rio de Janeiro. acerca do primado do político. a não ser raramente. . nos mecanismos do mercado. aqui. mantém-se intacto o primado do político? Intacto evidentemente. O pré-requisito implica a existência de uma ordem social baseada em obrigações recíprocas e mutuamente aceitas contra aqueles que se excedem em procurar vantagens fugindo a tais obrigações". que pudesse haver surgido em algum leitor. como a realidade normal. das relações contratuais do mercado. ou não há suficiente controle em relação à observância de leis não-iníquas e contratos consensuais.qualquer forma de comportamento que seja moral é que não se deve sempre perder por causa dele. 4 É bom lembrar que o citado dictum dos moralistas se referia precisamente a contextos nos quais ou as leis são iníquas. na qual o cristão não escapa de ser continuamente vítima da ausência de lisura e da presença dura do jogo do poder. e não apenas econômica. Ora. Nós. que fizemos. lamentavelmente muito freqüente. mais enfatizado também. já que supõe a ausência de poderes desiguais) e devidamente controlados quanto à lisura no cumprimento de suas cláusulas contratuais. A citação. surge a oportunidade para desfazer qualquer equívoco. já no final deste ensaio. Reflexões sobre as causas da Miséria Humana e sobre certos propósitos para eliminá-las. fica evidente que o autor prega a confiança irrestrita na lisura. Contrato. pela transformação da sociedade. Zahar. ao contrário. não se omitiu de mencionar esse pré-requisito. * * * As considerações que antecederam tornam claro que o "lugar econômico" da fé não pode ser tematizado sem passar para o plano da luta política.

nos introduz diretamente no tema da espiritualidade cristã. isto é. as lutas econômicas se dão no campo político. portanto. ao final deste texto. O nexo corporal entre os homens. A economia nunca deixou de ser atividade política. Por isso têm como núcleo de critérios uma adulteração do "mandamento novo". A economia burguesa captou isso perfeitamente. Como norma geral. porque nunca esteve separada do exercício do poder na sociedade. como fonte de critérios para a espiritualidade cristã. Os mais importantes problemas espirituais dos crisãos são aqueles que se relacionam com o amor ao próximo. não só a reivindicação do primado do político. Mas geralmente os esforços de despolitização das lutas econômicas representam subterfúgios propícios aos dominadores. a reivindicação do primado do político. a reivindicação do evangelho do amor ao próximo.cações. Uma visão alternativa da economia deverá assumir consciente e enfaticamente o caráter político da economia. no fundo. Opor-se à idolatria e ao sacrificialismo desse paradigma significa. isto para mim é um problema espiritual. ao qual se refere basicamente a economia. Teólogos da Libertação têm insistido no seguinte: quando eu passo necessidades materiais. mas a reivindicação do primado do espiritual. De modo que. . reaparece. se trata de reivindicar o primado do espiritual. Eis a razão pela qual tanto insistem no "espírito do capitalismo democrático". isto para mim é um problema material. mas quando meu próximo passa necessidades materiais. com toda a força. em contraposição a quaisquer espiritualidades idolátricas. Agora. estamos em condições de sentir mais diretamente que. porém. O paradigma do interesse próprio e do sistema do mercado se apóia numa perversa espiritualidade. A luta pela humanização da economia só ocasionalmente tem seu lugar no terreno exclusivamente econômico (lutas reivindicativas).

Mas na Teologia da Libertação recebe um significado expresso. a partir da Teologia da Libertação. portanto. Recentemente não obstante. mas que durante a história passou por mudanças profundas. Contudo. etc. na Teologia da Libertação lhe é dado novamente seu significado concreto do qual segue-se o seguinte: se Deus é o Deus da vida. é o Deus da vida humana também. No entanto. seja teoria econômica — uma visão teológica. Como fórmula ela é partilhada por todos e sempre o foi. também para a teologia conservadora existe uma relação especial entre teologia e economia. a insistência na relação entre teologia e economia pode parecer estranha. Então. de cheio. mas aparentemente é a relação que a teologia de algum modo tem com qualquer acontecimento ou movimento da vida humana. Hinkelammert) No contexto da teologia conservadora. ele é o Deus da possibilidade humana concreta de viver. O Deus da vida é. Economia e teologia parecem ter uma relação semelhante à existente entre. sua vontade é que todos os homens possam viver. a relação entre economia e teologia se torna explícita. Assume-se a partir da teologia um critério sobre a economia e se descobre dentro da economia — seja atividade econômica. que certamente já o tivera nas suas origens. embora de uma maneira não explícita. teologia e esporte. na problemática da relação entre economia e teologia ao revitalizar uma fórmula muito tradicional que se refere a Deus: Deus é um Deus da vida. teologia e arqueologia. A Teologia da Libertação entra. por exemplo. É claro que também para esta teologia existe uma relação entre teologia e economia.ENSAIO TEMATICO ECONOMIA E TEOLOGIA O DEUS DA VIDA E A VIDA HUMANA (Franz J. aque- . Se Deus é o Deus da vida.

a opção preferencial pelos pobres expressa a Deus como Deus da vida. a vontade de Deus. resultante de ações humanas de outros. . afirmar a opção preferencial pelos pobres e fazer. Sendo os pobres os marginalizados em relação a sua possibilidade concreta de viver. Mas a pobreza é um resultado humano e é humanamente possível superá-la. Que Deus seja Deus da vida. Se Deus é o Deus da vida. A pobreza é mais do que a falta dos elementos materiais da vida humana. esta falta de possibilidade concreta de viver. Por outro lado. Desta maneira. Pobreza é destruição de toda a vida. No entanto. o significado concreto da relação entre o Deus da vida e a opção preferencial pelos pobres é dado pela referência à vida como vida concreta. então. tem significado recente pelo fato da opção preferencial pelos pobres. Todos os homens vivem uma certa miséria derivada do fato de serem mortais. É possível porque é pobreza resultante da exclusão dos meios de vida. não apenas poder contar com os eleiü&titõs materiais necessários. O ato de fé em Deus é. Para esta pobreza vale a opção preferencial pelos pobres.le Deus que toma a opção preferencial pelos pobres. como possibilidade concreta de viver. Os elementos materiais da vida são elementos insubstituíveis. da vida concreta resulta o direito a poder viver e. Em último termo. educação. e não há saída dela sem recuperar o acesso a estes elementos materiais. No entanto. não se refere unicamente aos elementos ínateriais da vida humana. saúde. A opção preferencial pelos pobres implica na referência a uma pobreza relacionada com os meios de vida: alimento. o direito aos meios concretos dé vida. seu Deus não pode ser senão o Deus da vida. portanto. A pobreza é vista como exclusão" destes meios de vida. Mas não há pobreza sem marginalização dos elementos materiais da vida. roupa. que constitui a pobreza. sair da pobreza é também mais do que chegar a ter os elementos materiais da vida. só se pode servir a ele dentro desta opção preferencial pelos pobres. A ofensa máxima a Deus se dá onde o homem é privado de sua possibilidade concreta de viver. não apenas da vida material. e sair dela implica em poder tfefàzier toda uma vida. através dela. etc.

Trata-se de uma pobreza como condição humana. portanto. que é vivida se opondo a esta condição humana. na contingencia da vida. São os elementos determinantes. perde sua vigência humana e também subverte a humanidade daquele que a tem. todos se tornam pobres na medida em que a insegurança da vida. Neste último sentido há então uma pobreza espiritual. localiza o problema sobretudo na condição humana ou. A pobreza evangélica está na destruição do. No entanto. com a contingência do mundo e com sua mortalidade. é diferente. para este caso de destruição não há uma opção preferencial e sim uma exigência de conversão. Não é derivada direta e preferentemente da condição mas das possibilidades concretas do homem de se defrontar com esta condição humana. em ser também . Pobreza evangélica é a privação dos elementos materiais necessários para enfrentar humanamente a própria condição humana. Ocorre assim uma dupla destruição. se se preferir. todos adoecem. Humanizar a relação do homem com sua condição humana. Todos os homens são mortais. a doença e todas as necessidades humanas.homem em sua possibilidade de enfrentar humanamente a condição humana. porém. Do lado da pobreza ocorre a desumanização pela privação. à qual se responde com a pobreza como virtude. Contudo. A pobreza é concebida como uma pobreza espiritual. desprendendo-se dos bens do mundo. Que Deus seja Deus da vida. A pobreza evangélica. Não elimina a pobreza como virtude. a doença ou a morte se fizerem presentes. pressupõe condições concretas que se baseiam sobre elementos materiais da vida. presente através da opção preferencial pelos pobres implica. porém. esta é a razão da opção preferencial pelos pobres. A teologia conservadora. mas enfoca a pobreza a partir de outro ângulo: as condições concretas da humanização da relação com a condição humana. Mas também há destruição do lado da riqueza: ao ser monopolizada. a insegurança.tanto na determinação da pobreza como do caminho de saída dela. Conversão que parte da aceitação da dignidade do pobre e da opção preferencial pelos pobres no sentido evangélico.

espontaneamente. Da opção preferencial pelos pobres segue a produção e reprodução dos elementos materiais da vida. Do critério teológico passamos a formular um critério de racionalidade econômica. que nasce da vida corporal. para fazer outros caírem na mesma pobreza. Desta relação íntima entre o Deus da vida e a vida humana concreta seguem algumas posições teológicas-chaves. seria uma opção contraditória. a economia é exatamente o âmbito da produção e reprodução dos elementos materiais da vida humana. A alma não é substância independente do corpo mas está no corpo quando este está vivo. Do Deus da vida e da opção preferencial pelos pobres chegamos a um julgamento sobre a eocnomia. Mas a vida humana existe em condições tais que a espontaneidade da vida corporal e de suá satisfação produz a desordem da satisfação de necessidades de todos. Se fosse opção exclusiva. Isso se refere. consiste na harmonização das exigên- . uma vez nesta pobreza. animado. preferencialmente para os pobres. Esta ética. a vida corporal tende a destruir suas próprias condições de possibilidade. por um lado. passa a ser a exigência de um ordenamento econômico tal que todos possam viver e chegar a contar com os elementos materiais de vida correspondentes. Por isso. Que o corpo tenha alma significa que é um corpo vivo. à relação entre corpo e alma. Economia e teologia revelam uma relação íntima.Deus dos elementos materiais da vida. Não se trata de tornar alguns pobres para tirar outros da pobreza. No entanto. trata-se de uma opção preferencial. cuja produção e reprodução estão sujeitas a seu julgamento. Uma opção exclusiva pelos pobres tiraria uns da pobreza para reproduzir a pobreza em outros que. Esta vida corporal só pode viver satisfazendo as necessidades corporais e os gozos derivados desta satisfação. Portanto. não há vida corporal sem uma ética desta vida porque. Não se pode ter uma opção preferencial pelos pobres sem ter uma opção sobre a produção e reprodução dos elementos materiais da vida humana. Portanto. Certamente. seriam agora os portadores da opção pelos pobres. a opção é preferencial.

Trata-se de uma ética cujos valores centrais têm sua raiz na vida corporal que é a instância legítima da vida humana. Na Teologia da Libertação se fala da Nova Terra mais como uma esperança de plenitude além de todas as possibilidades humanas e até da morte. O homem não foi feito para o sábado. que são transformadas em normas. É corporeidade plena e satisfeita. Contudo. Os valores podem ser legítimos apenas na medida em que não se opõem às condições de possibilidade da vida humana. Antecipando a vida concreta de todos nesta terra. O Espírito é a "antecipação do que teremos" (Rm 8. portanto. Vivendo a maior plenitude possível da vida aqui. o limite de liberdade do homem. portanto. Deste modo. e a antecipação de um futuro para além da morte no . normas que sempre são provisórias à luz das condições de possibilidade da vida. Esse é o espaço para a legitimidade de valores não derivados da vida corporal. Não é resultado de um cálculo de utilidades mas da formulação de condições de possibilidade da vida corporal. uma ética humana constituinte do homem vivo baseada na vida corporal. Trata-se da concepção do além em relação com o aquém.23). Esta discussão dos valores nos leva a outro problema intimamente relacionado. prepara-se a plenitude da vida lá. À preocupação pela satisfação das necessidades de todos aqui corresponde a satisfação plena de necessidades lá. É uma terra de liberdade plena e. Sua função é ordenar a vida e torná-la compatível com a vida de todos e de cada um. o sábado é que foi feito para o homem. da relação com o Deus da vida é derivada a recuperação da economia como um âmbito da fé. Elas formulam. uma prepara a outra.cias do corpo (instintos do corpo) para que a vida de todos e de cada um possa ser assegurada. Não pode haver liberdade se não no interior da satisfação das necessidades do corpo de tal maneira que as condições de possibilidade da vida corporal humana sejam respeitadas. esta Nova Terra tem uma continuidade básica com esta terra: é esta mesma terra sem a morte. de satisfação plena de todas as necessidades.

Em outro contexto repete isto dizendo: . dirigidas contra o sandinismo: "Há agressão militar mas há também agressão ideológica e. justiça ou messianismo foram entendidas na origem do cristianismo. Com a palavra "verdadeiro" se costuma negai o sentido original no qual as palavras vida. portanto. não usa esta fórmula no mesmo sentido em que o faz a Teologia da Libertação. contraposta à vida do corpo. substituindo-o pela vida "verdadeira" da alma. nenhuma exigência corporal tem legitimidade intrínseca.qual não apenas o homem mas toda a teria viva sua ressurreição para ser transformada numa Nova Terra que será a mesma terra sem a morte. A expressão "verdadeiro" indica. 1. a percepção de Deus como Deus da vida está presente também na teologia conservadora. A teologia conservadora tem uma relação bem diferente com a vida. É introduzido um dualismo de corpo e alma que não é conhecido na mensagem cristã original. da Nicarágua. assim. portanto. Por isso não fala tanto da vida em si mas sobretudo da vida "verdadeira". de fato nos diz que Deus é o Deus da vida da alma. A teologia conservadora Enquanto fórmula. estando Deus do lado da origem do bem. que é a única vida pela qual Deus se interessa. fala também da justiça verdadeira e do messianismo verdadeiro. obviamente. num dualismo entre a origem do mal e a origem do bem. Assim. é pior matar a alma do que matar o corpo". porém. que se está mudando um sentido. Trata-se de um dualismo que condena o corpo. Dentro de uma tal ideologia podem aparecer afirmações como aquelas do bispo Pablo Vega. que é a alma em conflito com o corpo. Não lhe é dada a mesma importância vital que recebe na Teologia da Libertação. da vida corporal não se segue nenhum direito. conservando uma fórmula. embora seja mencionada muito menos do que na Teologia da Libertação. O dualismo corpo-alma se converte. : A teologia conservadora. considerado como origem do mal. Quando a teologia conservadora fala do Deus da vida verdadeira.

Ele quer desprendimento interno em relação a tais fatos. mas é também uma expressão nítida da teologia conservadora. pois o Deus da vida verdadeira da alma é perfeitamente indiferente a questões tais como a distribuição da renda ou o desemprego. Ao se declarar a Deus como o Deus desta vida verdadeira da alma. Sendo todos pobres. Enquanto âmbito da produção e reprodução da vida humana. No entanto. O ordenamento econômico não é considerado como uma questão da fé mas exclusivamente como aplicação da fé. Inclusive a opção preferencial pelos pobres pode ser afirmada agora sem questionar de modo algum a estrutura social. A economia é legitimamente um . Especialmente a doutrina social clássica da Igreja católica (Rerum Novarum e Quadragesimo atino) insere-se nesta linha. e sua pobreza se torna clara nas situações prementes de sua vida (insegurança. a partir desta tese básica sobre a economia aparecem sobretudo duas posições explícitas: 1) A posição que declara a economia como um âmbito da ética. Esta é vista agora como uma derivação da condição humana e. 2) A posição segundo a qual no campo econômico Deus fala a linguagem do poder. vive"." o homem sem alma não vale nada e sem corpo. doença. não existe apenas um grupo determinado de homens que são pobres. Trata-se de uma ética do alívio.» de situações de miséria. Isso é perceptível também na visão conservadora da pobreza. considerando a riqueza de uns como a origem da pobreza dos outros. embora não da teologia. Sendo mortal. portanto. Isso determina já uma relação diferente com a economia. o homem é pobre. Ali Deus não fala. não tem nenhuma relevância para a teologia conservadora. do fato da mortalidade e a c o n s e qüente contingência do homem. Não existe a possibilidade de confrontar pobres e ricos. cuja verdade é constituída sem levar em conta o problema econômico. toda a afirmação de Deus como Deus da vida determina uma linha teológica contrária à Teologia da Libertação. morte). Esta é a teologia da "Contra" na Nicarágua.

trata-se de concessões que são feitas a uma fraqueza humana. Nesta liberdade plena. Não é uma Nova Terra mas um céu de almas puras com corpos de que não precisam. porque a negativa de viver concretamente no presente é compensada por uma vida eterna.âmbito de luta. a vida pura da alma sem ser limitada pelo corpo. Antecipação do céu como além no aquém do presente significa. O céu é uma eternidade de almas com seus corpos sem necessidades. seu cárcere. Por graça de Deus se alcança o poder econômico. Nesta visão conservadora do céu de almas puras. Não se tem uma vida plena nem no céu nem no inferno. Mas. para a fé. portanto. O corpo é antes uma ameaça para a vida da alma. A liberdade plena é. mas o corpo não deixa. a alma não precisa mais se preocupar com nenhuma satisfação de necessidades do corpo porque o corpo não tem mais necessidades pelo fato de não ter mais debilidades. que consiste numa eterna negação de viver. portanto. A teologia conservadora não se atreve sequer a pronunciar . Em ambos os casos. não é essencial para a vida da alma. A alma é uma substância que tem um corpo. a produção e reprodução da vida humana é. isso tem sua lógica. um âmbito neutro. Os tormentos eternos do inferno têm origem na insatisfação do corpo e a felicidade eterna do céu no fato de o corpo já nãoi pedir satisfações. o corpo com necessidades continua existindo apenas em sua imaginação de enfermo. o inferno é uma eternidade de corpos com necessidades. para aqueles que se orientam pela satisfação corporal aqui. Embora sejam feitas concessões à vida corporal. lhes é prometido um inferno eterno de não-satisfação lá. o tê-lo ou não. O próprio dualismo anticorporal se transforma na antecipação do céu. antecipar uma vida sem satisfações corporais. Isso já determina a imaginação do céu na visão conservadora. A chave da teologia conservadora está na percepção da relação corpo-alma. as quais ficam eternamente insatisfeitas. Ganhar nesta luta é sinal de bênção divina. A alma quer fugir. mas.

no modelo de Robinson. Em vez de gozo eterno da vida. Temos uma divisão do trabalho. meios de produção e uma cesta de consumo causado por outros. Cada um deles depende da existência dos outros para poder ser realizado. sendo a subsistência o mínimo desta satisfação. Para que este conjunto de processos complementares de trabalho possa funcionar existe também uma suposição adicional: cada trabalhador deve contar com uma cesta de consumo suficiente para poder satisfazer suas necessidades. o gozo da destruição eterna da vida. Há um trabalho total que é distribuído para os diferentes bens produzidos. Partimos da coordenação da divisão social do trabalho. Disso se deriva o' que será a economia que segue a lógica das maiorias: a divisão social do trabalho deve ser coordenada de maneira tal . o resultado é uma dependência mútua entre os trabalhadores que realizam os processos de trabalho. que pressupõe meios de produção produzidos por outros processos de trabalho e a disposição de uma cesta de consumo que mantém a vida do trabalhador durante o próprio processo de trabalho. Supondo cada um destes processos de trabalho. cada um por um processo de trabalho. Teoria do fetichismo Na teoria do fetichismo não partimos de Deus para chegar à economia mas da economia para chegai a uma determinada imaginação de Deus. 2. Só há lugar para um único gozo corporal: o gozo dos salvos proveniente da infelicidade dos condenados ao inferno. Cada processo de trabalho pressupõe um funcionamento de processos paralelos e complementares. O processo de trabalho consiste na produção de um bem através do trabalho humano. porque romperia a própria base desta teologia.sua possibilidade. que não é social. A divisão do trabalho é social quando os diferentes processos de trabalho são executados por trabalhadores diferentes que são especializados em cada um deles.

Os processos de trabalho superados são eliminados pela pauperização e expulsão dos respectivos produtores da divisão social do trabalho. essa é a orientação de cada um. A lógica mercantil do lucro obriga a esquecer estas conseqüências. Este é o fetichismo mercantil. Isso é possível pelo fato de as conseqüências catastróficas do mercado não terem sua origem na má intenção dos participantes do mercado mas nos efeitos . A perda de trabalho por parte do assalariado e a pauperização e expulsão do pequeno produtor são os passos da coordenação mercantil da divisão social do trabalho. mas o desenvolvimento para além desta sociedade leva a uma complexidade tal que o mercado aparece como um meio inevitável de coordenação. as pessoas são arrastadas pela lógica mercantil. O comportamento no mercado é tal. A relação entre oferta e procura nos mercados. porém. corresponde a destruição do outro. As relações mercantis coordenam a divisão social do trabalho reativamente. Passa desapercebido o fato de tais catástrofes econômico-sociais serem provocadas através do intercâmbio resultante. O comportamento no mercado é tanto mais eficaz — do ponto de vista da lógica dos lucros — quanto menos leva em consideração os efeitos destratares derivados das operações nos mercados. A relação entre as coisas no mercado — relação entre mercadorias — substitui as relações sociais e humanas entre pessoas. Portanto. A coordenação da divisão social do trabalho é uma tarefa tanto mais difícil quanto mais complexa se tenha tornado essa divisão. À construção. a eliminação de certos processos de trabalho e o início de outros constituem um mecanismo dç inclusão/expulsão. de um lado. No mercado simplesmente se vende caro e se compra barato. Desta coordenação seguem-se catástrofes econômico-sociais. que cega a vista para estas conseqüências catastróficas. Na sociedade tribal ainda era uma tarefa extremamente simples. por' reações ex post.que todos possam se integrar em algum processo de trabalho e obter dele uma renda digna que lhes permita satisfazer suas necessidades.

por sua vez. por outro lado. portanto. Esta de-" fesa da irresponsabilidade é. Liberdade chega a ser uma palavra para a irresponsabilidade. O gozo da . sejam desemprego. ninguém está disposto ou é capaz de assumir sua responsabilidade. pauperização. Olhar a miséria alheia se transforma em substituto do gozo perdido. À destrutividade. que é a única que pode se tornar responsável. Mas. goza-se menos. um ataque constante contra o único meio que torna possível uma ação em comum contra estas conseqüências destruidoras: o planejamento econômico. Perante estas conseqüências destruidoras do mercado poderia ser eficaz apenas uma ação em comum. Dá-se sentido ao alto consumo — para o qual já não se encontra sentido — pela referência à miséria que a produção deste consumo origina. sendo a liberdade a ação solitária num automatismo do mercado. Em correspondência ao fetichismo do mercado é promovida uma mentalidade fetichista com o apoio de todo o aparelho dos meios de comunicação. subdesenvolvimento ou destruição da natureza. Esta eficácia do mercado transforma sua destrutividade e sua irresponsabilidade em crescimento econômico.nâo-intencionais derivados de sua ação intencional mercantil. nenhum participante no mercado pode por