INTRODUÇÃO 3.

DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO E MEIO AMBIENTE

Encontrar

o

ponto

de

equilíbrio

entre

o

tripé

formado

pelo

desenvolvimento econômico, sustentabilidade ambiental e responsabilidade social é uma tarefa complexa e de difícil efetividade na agenda das nações. A perspectiva de que esses componentes devem ser complementares e não excludentes tem sido item constante da pauta internacional sobre o meio ambiente sustentável. Sobre esse tema, Gisele Silva Barbosa1 defende que o desenvolvimento sustentável deve compreender a preservação ambiental, o desenvolvimento social e o desenvolvimento econômico, consistente em justiça sócio ambiental, inclusão social e eco-eficiência, na forma disposta no gráfico abaixo.

Élisabeth Laville,2 discorrendo sobre responsabilidade ambiental, aduz o seguinte:

1

BARBOSA, Gisele Silva. O desafio do desenvolvimento sustentável. Revista Visões, 4ª Edição, N.º 4, Volume 1 - Jan/Jun 2008, p. 5. 2 LAVILLE, Élisabeth. A empresa verde. Tradução: Denise Macedo. São Paulo: Õte, 2009, p. 69.

“É necessário reconhecer que o contexto mudou: ao colocarmos o capital financeiro no centro de nossas preocupações, o capital humano e o capital natural experimentaram sérias dificuldades.” Esse tema tem preocupado as nações. Durante a realização da Rio-92, surgiu a proposta de uma „Carta da Terra‟ discutida pelos Governos e organizações não governamentais. Contudo, por ocasião da Conferência, não houve consenso entre os Governos. Porém, não houve desistência entre os interessados. Finalmente, em março de 2000, a Carta da Terra foi ratificada. O preâmbulo da Carta da Terra3 diz o seguinte: “Estamos diante de um momento crítico na história da Terra, numa época em que a humanidade deve escolher o seu futuro. À medida que o mundo torna-se cada vez mais interdependente e frágil, o futuro enfrenta, ao mesmo tempo, grandes perigos e grandes promessas. Para seguir adiante, devemos reconhecer que, no meio da uma magnífica diversidade de culturas e formas de vida, somos uma família humana e uma comunidade terrestre com um destino comum. Devemos somar forças para gerar uma sociedade sustentável global baseada no respeito pela natureza, nos direitos humanos universais, na justiça econômica e numa cultura da paz. Para chegar a este propósito, é imperativo que nós, os povos da Terra, declaremos nossa responsabilidade uns para com os outros, com a grande comunidade da vida, e com as futuras gerações.” A Carta da Terra tem o objetivo de por em pauta os desafios e a visão do que se denomina desenvolvimento sustentável, bem como os princípios que devem ser seguidos para o alcance desse fim. Achim Steiner,4 Diretor Executivo do PNUMA, não manifestou

entusiasmo com os resultados da Conferência Rio + 20. Eis as suas palavras: “Embora tenha havido muitos avanços, a escala e a velocidade da degradação ambiental superam as respostas dadas desde 1992”. A inquietação desse Diretor deve ser levada em conta porque, segundo ele, desde o início dos anos 90, as emissões de carbono aumentaram 36%, o número de espécies vegetais
3

Disponível em: http://www.mma.gov.br/estruturas/agenda21/_arquivos/carta_terra.pdf. Acesso: 03.09.2012. 4 STEINER, Achim. Rio + 20: Cenário para o sonho. Revista Planeta. Disponível em: http://www.terra.com.br/revistaplaneta/edicoes/474/artigo253487-2.htm. Acesso: 03.09.2012.

declinou 30% nos trópicos, as florestas nativas perderam cerca de 300 milhões de hectares, o número de megacidades subiu 110% e o uso de fertilizantes na agricultura cresceu 35%. O WWF-Brasil5 desenvolveu pesquisa referente à denominada “Pegada Ecológica”. A Pegada Ecológica de um país, de uma cidade ou de uma

pessoa, corresponde ao tamanho das áreas produtivas de terra e de mar, necessárias para gerar produtos, bens e serviços que sustentam determinados estilos de vida. Ou seja, a Pegada Ecológica é uma forma de traduzir, em hectares (ha), a extensão de território que uma pessoa ou toda uma sociedade “utiliza”, em média, para se sustentar. A média de consumo ideal por pessoa no mundo é da ordem de 1,8 hectares. Segue adiante o resultado dessa pesquisa realizada pelo WWF-Brasil.6

5

WWF-Brasil é uma ONG brasileira, participante de uma rede internacional e comprometida com a conservação da natureza dentro do contexto social e econômico brasileiro.
6

Disponível em: www.wwf.org.br. Acesso: 04.09.2012.

Os dados do quadro acima indicam que o Brasil apresenta uma pegada ecológica da ordem de 2,1 ha. Com essa medida, cada pessoa brasileira precisaria de 1,16 (2,1 : 1,8) planetas para gerar produtos, bens e serviços para sustentar o seu estilo de vida. Isso significa que, no caso brasileiro, a sustentabilidade ambiental do planeta já está comprometida. Mas, a pegada ecológica do Brasil (2,1 ha) não se reproduz em todo o território nacional. Geraldo Magela7 informa que uma pesquisa realizada em São Paulo revelou que a pegada ecológica média do estado de São Paulo é de 3,52 gha e, na capital paulista, é de 4,38. Isto significa que seriam necessários dois planetas para sustentar o estilo de vida levado pelos paulistas e cerca de 2,5 planetas para os paulistanos. Ainda segundo Magela, o estudo constatou que, quando é levada em consideração a renda familiar, a pegada ecológica se
7

MAGELA, Geraldo. Estudo da pegada ecológica de São Paulo revela que paulistas “consomem” quase

dois planetas e paulistanos quase 2,5. Disponível em: www.wwf.org.br. Acesso: 04.09.2012.

altera. No caso, as famílias paulistas com renda superior a 25 salários mínimos, a pegada ecológica é da ordem de 11,5 hectares globais. Isso significa que cada pessoa precisaria de 6,38 (11,4 : 1,8) planetas para satisfazer as suas necessidades de consumo de produtos, bens e serviços. Com essa marca, as famílias paulistas com renda familiar superior a 25 salários mínios superam a pegada ecológica dos Estados Unidos. Na mesma situação preocupante encontram-se os Estados Unidos, cuja pegada ecológica é da ordem de 5,33 ha. Ou seja, cada pessoa que vive nos Estados Unidos precisaria de mais de cinco planetas para satisfazer suas necessidades de produtos, bens e serviços. Na outra ponta, encontram-se a Índia, China, Ásia Pacífica, Somália e África, que apresentam pegada ecológica da ordem de 0,44, 0,88, 0,72, 0,22 e 0,61, respectivamente, todos necessitando de menos de um planeta para satisfazer as suas necessidades de produtos, bens e serviços. Os debates internacionais a respeito da qualidade ambiental do Planeta Terra encontram um lugar comum: o reconhecimento de que o clima da Terra e seus efeitos negativos fazem parte de uma preocupação de toda a humanidade e de que a mudança do clima exige a cooperação de todos os países. No entanto, a efetivação das políticas públicas, da gestão governamental e da atuação empresarial caminha a passos ainda bastante lentos. Conforme se depreende dos dados até aqui apresentados, ainda que de forma geral, a correlação de forças entre o poder econômico, a

sustentabilidade ambiental e a responsabilidade social equipara-se a um verdadeiro cabo de guerra. Há, ainda, uma longa trajetória pela frente.

3.2. A indústria da Produção de Papel e Celulose no Brasil

O objetivo deste trabalho está afeto à desmaterialização de documentos que, por sua vez, apresenta estreito vínculo com o desmatamento das florestas. Em razão disso, depois de apresentados alguns dados gerais, é necessário voltar-se para examinar a situação em que se encontra a indústria da produção de papel e celulose no Brasil, a fim de verificar como se apresenta, neste setor da economia, a questão a respeito do desenvolvimento econômico e da sustentabilidade ambiental.

Sobre esse tema, a presidente do Conselho do WWF, Yolanda Kakabadse,8 anunciou, com lamento, durante a Rio + 20, o fato de que, a cada ano, 13 milhões de hectares de florestas são perdidos em países tropicais como o Brasil e a Indonésia e concluiu: “Ainda assistimos à dolorosa e alarmante destruição das florestas.” Becker Bertha,9 professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro sustentou, durante a Conferência Rio + 20, o seguinte: “A Amazônia contribui hoje com 8% do PIB brasileiro. Precisamos de um padrão de desenvolvimento que mantenha as florestas vivas a partir do aproveitamento de seus múltiplos recursos, sem destruí-los, que possa competir com a economia das commodities e que beneficie quem depende diretamente delas.” Nessa mesma linha de raciocínio, também participando dos debates da Conferência Rio + 20, a secretária geral do WWF-Brasil, Maria Cecília Way de Brito, informou que metade da floresta amazônica, que se espalha por nove países da América do Sul, pode ser desmatada ou degradada até 2031, caso o modelo regional de desenvolvimento em vigor não seja alterado.10 Paulo Moutinho et al,11 do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia sustenta o seguinte: “Historicamente, existe uma relação estreita entre desmatamento e o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) amazônico. Quanto maior o capital disponível na economia amazônica ou mesmo nacional, maior será o número de investimentos (infraestrutura, agricultura e pecuária) governamentais ou privados na Amazônia que demandam a derrubada de áreas de floresta ou resultam em desmatamento. A atual pressão por expansão de novas áreas de cultivo no mundo e a crescente demanda por produtos amazônicos, como
8

KAKABADSE, Yolanda. Conservar florestas é garantir qualidade de vida. Disponível em: www.wwf.gov.br. Acesso: 04.09.2012. 9 BECKER, Bertha. Conservar florestas é garantir qualidade de vida. Disponível em: www.wwf.gov.br. Acesso: 04.09.2012. 10 BRITO, Maria Cecília Wey. Amazônia precisa de novo modelo de desenvolvimento. Disponível em: www.wwf.gov.br. Acesso: 04.09.2012. 11 MOUTINHO, Paulo et al. REDD no Brasil: um enfoque amazônico: fundamentos, critérios e estruturas institucionais para um regime nacional de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal – REDD. – Edição revista e atualizada. Brasília, Distrito Federal: Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, 2011, p. 11.

a carne bovina, produzida com tecnologia de ponta, poderão gerar um forte desmatamento no futuro e colocar em risco os benefícios alcançados pelas recentes quedas nas taxas de desmatamento florestal. Nas últimas duas décadas, o desmatamento amazônico tem sido combatido por mecanismos de comando e controle (fiscalização efetiva, legislação ambiental robusta e coerente e presença do Estado em áreas remotas da região), que são importantes e devem ser aprimorados, mas continuam insuficientes.” No Brasil, quando o assunto é a indústria de papel e celulose, merece destaque a Associação Brasileira de Celulose e Papel – BRACELPA. A BRACELPA é a entidade responsável pela representação institucional da indústria brasileira de celulose e papel junto aos seus principais públicos de interesse. As empresas a ela associadas respondem por 100% da produção de celulose do Brasil e por 80% da produção de papel. As atividades do setor estão presentes em 539 municípios, de 18 estados, e geram 115 mil empregos diretos (68 mil na indústria e 47 mil na base florestal) e 575 mil empregos indiretos. Em linhas gerais, a BRACELPA12 atua da seguinte forma: “A atuação da Bracelpa desenvolve-se no âmbito de um segmento agroflorestal e industrial, cujos produtos são de excelência e competem em um mercado globalizado e extremamente ativo. A entidade empenha-se em promover no Brasil e no Exterior a competitividade e os atributos das florestas plantadas e dos produtos que dela se originam, disseminar boas práticas e representar seus associados nos fóruns de interesse da indústria, bem como em negociações perante os principais órgãos nacionais e internacionais, com interlocutores públicos, privados ou do terceiro setor. Além disso, participa de negociações e acordos bilaterais e multilaterais de comércio e representa o setor junto aos órgãos do governo brasileiro e dos países parceiros. No intuito de fortalecer o relacionamento do setor com os públicos de interesse, a Bracelpa promove e estimula continuamente o diálogo entre seus associados, por meio de comitês temáticos e de encontros com organizações socioambientais, entidades congêneres, órgãos do governo, representantes de outros setores da economia, universidades,

12

Indústria de Papel e Celulose. Florestas plantadas: oportunidades e desafios da indústria brasileira de celulose e papel no caminho da sustentabilidade. Confederação Nacional da Indústria. Associação Brasileira de Celulose e Papel. Brasília: CNI, 2012, p. 13.

escolas, consumidores e imprensa – tanto no país quanto no exterior. A associação também é responsável pela comunicação e divulgação de informações e dados setoriais, abrangendo questões políticas, econômicas, sociais e ambientais relacionadas às atividades da indústria.” A transcrição supra dá a dimensão da influência da indústria de papel e celulose na economia brasileira e, de consequência, da força dessa indústria nas questões referentes ao desenvolvimento econômico, responsabilidade social e sustentabilidade ambiental. Por certo, em igual medida, exerce influência no desenvolvimento da ferramenta tecnológica denominada de desmaterialização de documentos. Os dados do setor referentes aos principais produtores mundiais de celulose e papel estão indicados no quadro abaixo.

PRINCIPAIS PRODUTORES MUNDIAIS DE CELULOSE E PAPEL

Fonte: BRACELPA, 2012.

Conforme evidenciado, o Brasil é o 4.º produtor mundial de celulose e o 10.º, de papel. Daí se extrai que a celulose produzida no Brasil não se destina apenas ao mercado interno. Tanto assim que, conforme dados da BRACELPA, a receita de exportação do setor totalizou UU$ 7,2 bilhões. Em relação à produção mundial, o Brasil representa 7,6% da produção de celulose e 2,5%, da de papel.

Em relação às exportações, consumo próprio e as vendas internas, a produção da celulose brasileira apresenta a composição vista abaixo.

Composição do Destino da Produção Brasileira de celulose
Vendas no Mercado Doméstico Exportações
11%

59%

30%

Consumo Próprio

Observadas as mesmas variáveis, a produção de papel apresenta a composição vista abaixo.

Composição do Destino da Produção de Papel

Exportações: 21%

Consumo Próprio: 26%

Vendas no Mercado Doméstico: 53%

No ano de 2011, as exportações brasileiras de papel e celulose tiveram o destino indicado no gráfico abaixo.

DESTINO DAS EXPORTAÇÕES DA INDÚSTRIA DE PAPEL E CELULOSE

Fonte: BRACELPA, 2012. Os dados atualizados a respeito do destino das exportações brasileiras de papel e celulose estão no gráfico abaixo.

DESTINO DAS EXPORTAÇÕES DA INDÚSTRIA DE PAPEL E CELULOSE

Celulose

Papel

Fonte: BRACELPA, 2012.

A Europa tem sido o principal destino da celulose brasileira. A América Latina tem sido a principal importadora de papel. Todo o papel e celulose fabricados no Brasil são originários de florestas plantadas. Contudo, 59% e 21% da celulose e do papel, respectivamente, produzidos no Brasil são destinados para a exportação. Além disso, de acordo com dados da Revista Galileu e do Instituto Ecológico Aqualung,13 a produção de papel pode causar sérios danos ao meio ambiente, na medida em que: a) para cada tonelada de papel produzido, são derrubadas cerca de 15 à 20 árvores que demoram no mínimo 8 anos para crescer; b) a produção de papel está entre os processos industriais que mais utilizam água, podendo ser consumidos até 100.000 litros de água para se produzir 1 tonelada de papel; c) a indústria de papel é responsável pela quarta maior taxa de emissão de dióxido de carbono; d) o papel e o papelão representam em média 40% dos resíduos urbanos brasileiros e têm um tempo médio de decomposição de aproximadamente 3 anos. Preocupado com situações dessa natureza, Andrei Cechin14 exorta:

13 14

Disponível em: www.hesoluçoes.com.br/mensagem.php?id=30. Acesso: 05.09.2012. CECHIN, Andrei. A natureza como limite da economia: a contribuição de Nicholas Georgescu-Roegen. São Paulo: Editora Seanc São Paulo/Edusp, 2010, p. 154.

“O mecanismo e o fascínio pelo equilíbrio na economia vêm sustentando um ponto ótimo para o sistema econômico que ignora suas interações com o sistema biótico. E há um sério perigo de o planeta ser danificado de forma irreversível se políticas econômicas continuarem a ignorar tais restrições.” Ao discorrer sobre desenvolvimento e sustentabilidade, Andrei Checin15 adverte: “Há um número considerável de problemas ambientais sérios, a ponto de não poderem ser descartados cenários de colapsos semelhantes ao da civilização Maia ou da ilha de Páscoa. Dentre elas: desmatamento e destruição do hábitat, problemas com o solo (erosão, salinização e perda de fertilidade), com o controle da água, sobrecaça, sobrepesca, efeitos da introdução de outras espécies sobre as espécies nativas e aumento per capita em razão do impacto do crescimento demográfico. A sociedade industrial acrescentou mais quatro problemas: mudanças climáticas provocadas pelo homem, acúmulo de produtos químicos tóxicos no ambiente, carência de energia e utilização total da capacidade fotossintética do planeta.” Nesse contexto, então, deve-se ter em mente que o desenvolvimento não pode ser examinado apenas sob a ótica da economia. É imperiosa a interação com o meio ambiente e a sociedade. Este capítulo procurou demonstrar que o poder econômico exerce uma pesada influência quando o assunto é o equilíbrio entre o desenvolvimento, a sustentabilidade ambiental e a responsabilidade social. No caso específico deste trabalho, o setor da indústria de papel e celulose, para o ano de 2011, estampa uma estrutura empresarial que se espalha por quase 600 municípios, espalhados em 18 Estados da federação, ostentando um saldo na balança comercial da ordem de mais de US$ 5 bilhões de dólares e com exportações na casa de mais de US$ 7 bilhões de dólares. Tudo isso azeitado com mais de 115 mil empregos diretos e 575 mil empregos indiretos. Na mesa de negociações de adoção de novas políticas públicas para a área tecnológica, voltada para a preservação ambiental, como é o caso da desmaterialização de documentos, esses dados assumem papel relevante no

15

CECHIN, Andrei. Op. cit., p. 172.

processo decisório da gestão estatal e também no campo das empresas privadas.

DESMATAMENTO: A REALIDADE BRASILEIRA

A cidade do Rio de Janeiro foi a sede da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento – CNUCED, realizada em junho de 1992, que também ficou conhecida como Rio 92 e, ainda, ECO-92. Naquela oportunidade, mais de 170 chefes de Estado debateram sobre a sustentabilidade ambiental do Planeta. Os compromissos assumidos na Conferência Rio-92 compreendem duas Convenções, uma sobre a Mudança do Clima e outra sobre a Biodiversidade. Foi, também, subscrita pelos participantes uma Declaração sobre Florestas. A Conferência Rio-92 aprovou, ainda, a denominada Declaração do Rio e a Agenda 21. A Convenção sobre a Diversidade Biológica foi promulgada, pelo Brasil, por meio do Decreto n.º 2.519, de 16 de março de 1998.16

16

Art. 1.º do Decreto n.º 2.519/98. A Convenção sobre Diversidade Biológica, assinada no Rio de Janeiro, em 05 de junho de 1992, apensa por cópia ao presente Decreto, deverá ser executada tão inteiramente como nela se contém.

A Convenção do Clima foi um documento elaborado na sede das Nações Unidas, em Nova York, antes da ECO-92. Contudo, em 1992, ficou disponível para assinatura. Dos participantes da Rio-92, 154 Chefes de Estado e a Comunidade Europeia assinaram a aludida Convenção. Até 1997, 165 países ratificaram os termos da Convenção.17 Cumpre, ainda, evidenciar que o Brasil promulgou essa Convenção por meio do Decreto n.º 2.652, de 1.º de julho de 1998.18 A Agenda 21 tem sido reconhecida como o principal marco, documento,da ECO-92. Trata-se de um longo documento, composto de 40 capítulos e que se transformou na mais abrangente proposta destinada a pautar um novo padrão de desenvolvimento planetário, que compreende as áreas de proteção ambiental, justiça social e eficiência econômica. O capítulo 11 da Agenda 21 está reservado para o combate ao desflorestamento.19 A Declaração do Rio de Janeiro é um documento composto de 27 princípios. Esses princípios são antecedidos do preâmbulo de seguinte teor20:

A Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento, tendo-se reunido no Rio de Janeiro de 03 a 14 de junho de 1992, reafirmando a Declaração da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Humano, aprovada em Estocolmo em 16 de junho de 1972, e tratando de se basear nela, com o objetivo de estabelecer uma aliança mundial nova e equitativa mediante a criação de novos níveis de cooperação entre os Estados, os setores chave das sociedades e as pessoas, procurando alcançar acordos internacionais em que se respeitem os interesses de todos e se proteja a integridade do sistema ambiental e de desenvolvimento mundial, reconhecendo a natureza integral e interdependente da Terra, nosso lugar.

17

Convenção sobre Mudança do Clima. Documento editado e traduzido pelo Ministério da Ciência e Tecnologia com apoio do Ministério das Relações Exteriores da República Federativa do Brasil. Disponível em: http://www.onu.org.br/rio20/img/2012/01/convencao_clima.pdf. Acesso: 28.08.2012. 18 Art. 1.º do Decreto n.º 2.652/98. Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, assinada em Nova York, em 9 de maio de 1992, apensa por cópia ao Presente Decreto, deverá ser cumprida tão inteiramente como nela se contém. 19 Agenda 21. Disponível em: http://www.ambiente.sp.gov.br/agenda21.php. Acesso: 28.08.2012. 20 Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. Disponível em: http://veja.abril.com.br/complementos-materias/rio+20-widgets/pdf/declaracao-do-rio-de-janeirosobre-meio-ambiente-desenvolvimento.pdf. Acesso: 28.08.2012.

Por fim, a mais importante para os fins do presente trabalho, é a Declaração sobre Florestas. De acordo com Maria Elisa Marcondes Helene,21 a superfície do planeta Terra é coberta, hoje, por 12% de florestas primárias e 14% por florestas empobrecidas, de onde se extraiu toda madeira de lei ou onde se promove o reflorestamento para fins comerciais. No contexto mundial, o panorama da diminuição de floresta pode ser visto no quadro abaixo.

Mudanças nas áreas cobertas por florestas 1990 e 2000 Área total de superfície (milhões de ha) Área total de florestas 1990 (milhões de ha) 702,5 734,0 1.042,0 Área total % de Mudanças de terras entre florestas com 1999 e 2000 cobertura 2000 (milhões florestal (milhões de ha) 2000 de há) 649,9 21,9 - 52,6 726,3 21,0 - 7,7 1.051,3 44,6 9,3

Região

África 2.963,3 Ásia e Pacífico 3.463,2 Europa 2.359,4 América Latina 2.017,8 1.011,0 964,4 47,8 - 46,7 e Caribe América do 1.838,0 466,7 470,1 25,6 3,9 Norte Ásia Ocidental 372,4 3,6 3,7 1,0 0,0 Mundo 13.014,1 3.960,0 3.866,1 29,7 - 93,9 Fonte: Perspectiva do Meio Ambiente Mundial – GEO 3: passado, presente e futuro. Estado do Meio Ambiente e Retrospectivas Políticas: 1972-2002, p. 95.

Em relação à América Latina e ao Caribe, o documento intitulado Perspectiva do Meio Ambiente Mundial – GEO 3: passado, presente e futuro22, deixou consignado o seguinte:

A América Latina e o Caribe constituem uma das regiões florestais mais importantes, com quase um quarto da cobertura
21

HELENE, Maria Elisa Marcondes. Florestas: desmatamento e destruição. São Paulo:: Scipione, 1996, p. 10. 22 A Perspectiva do Meio Ambiente Mundial – GEO 3: passado, presente e futuro. Estado do Meio Ambiente e Retrospectivas Políticas: 1972-2002. Publicado em parceria com o Programa das Nações Unidas para Meio Ambiente – PNUMA, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis – IBAMA e a Universidade Livre da Mata Atlântica – UMA, p. 115.

florestal do mundo (FAO, 2001a). A região possui 834 milhões de hectares de florestas tropicais e 130 milhões de hectares de outras florestas, temperadas e secas, costeiras e de altitude, que cobrem 48% da área total de terra (FAO, 2001a). Argentina, Bolívia, Brasil, Colômbia, México, Peru e Venezuela contêm 56% do total regional (FAO, 2001a). As florestas da região possuem mais de 160 bilhões de metros cúbicos de madeira, um terço do total mundial. A questão relacionada às florestas no Brasil é bastante controvertida. A fonte dessa controvérsia, de acordo com Jarbas Passarinho23, é “a alegada campanha pela planetarização da Amazônia, baseada em declarações atribuídas a estadistas estrangeiros, sem indicação precisa de fonte, mas para as quais, por vezes, damos motivo.” Sem qualquer indicação da devida comprovação da fonte, vários estadistas estrangeiros já emitiram pronunciamento, considerando a Amazônia na condição de patrimônio universal. À guisa de exemplo, faz-se referência a três casos. Al Gore24, o então vice-presidente de Bill Clinton, dos Estados Unidos, disse: “Ao contrário do que os brasileiros pensam, a Amazônia não é deles, mas de todos nós”. Essa mesma compreensão era defendida pelo então primeiro-secretário do Partido Comunista da União Soviética, Mikhail Gorbachev25: “O Brasil deve delegar parte de seus direitos sobre a Amazônia aos organismos internacionais competentes.” O então presidente da França, Jacques Chirac, também disse: “O direito do Brasil à Amazônia é relativo.” As informações constantes do parágrafo precedentes são relevantes porque os dados referentes ao meio ambiente sobre o Brasil, especialmente a respeito da destruição da camada de ozônio, do aquecimento da superfície do Planeta e do desmatamento, devem ser examinados com parcimônia, principalmente, quando originários de organismos internacionais que defendem a internacionalização da Amazônia.26

23

PASSARINHO, Jarbas. Amazônia, patrimônio universal? Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2010, p. 94. 24 GORE, Al, citado por Jarbas Passarinho, in Amazônia, patrimônio universal? Op. cit. p. 95. 25 GORBACHEV, Mikhail, citado por Jarbas Passarinho, in Amazônia, patrimônio universal? Op. cit. p. 95. 26 A respeito dos dados contraditórios sobre desmatamento no Brasil, vide o livro Amazônia, patrimônio universal?, de autoria de Jarbas Passarinho, pp. 112-173.

Sem embargo dessa controvérsia, o próprio Jarbas Passarinho reconhece que há uma elevada taxa de desflorestamento no Brasil.27 A respeito da evolução do desmatamento na Amazônia Legal28, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE oferece os dados vistos na tabela abaixo.

Área de floresta e desfloramento 1975-1998 UF Área floresta de 1975 1978 Desflorestamento (em %) 1998 1998 (%) (Km2) 11,1 12,2 14,3 15,9 188.372 0,3 1,4 1,7 1,9 28.866 0,6 0,9 1,3 1,4 1.962 1,6 2,2 3 3,4 5.791 62,3 64,1 67,1 69 100.590 71,2 75,5 82,9 87,1 26.404 13,6 15,8 21,3 25 131.808 14,1 15,8 21,7 25,1 53.275 5,8 8,7 8,7 9,7 14.714 9,2 12,1 12,1 13,5 551.782 Espaciais – INPE, 2000. AL = Amazônia 1988 1990 1995

PA 1.183.600 0,7 4,5 AM 1.531.100 0,05 0,1 AP 137.400 0,1 0,1 RR 172.400 0,1 MA 145.800 43,8 TO 30.300 10,6 MT 527.600 1,1 3,8 RO 212.200 0,3 2 AC 152.400 0,8 0,8 AL 4.092.800 0,6 0,6 Fonte: Instituto Nacional de Pesquisas Legal.

O quadro evidencia que, no período examinado (1975-1998), houve uma significativa evolução na taxa de desflorestamento, da ordem de 2.250% somente na Amazônia Legal. Esses dados demonstram que, apesar das questões relacionadas com a soberania nacional sobre a Amazônia, a situação do meio ambiente nacional, no que diz respeito às florestas, não revela um quadro promissor. Por ocasião da elaboração deste trabalho, alguns eventos estavam ocorrendo que merecem ser aqui registrados. Segundo informa Carlos Garcia, o IBAMA, por meio da operação Dalbergia, impediu a continuidade do desmatamento ilegal em vários

27 28

PASSARINHO, Jarbas. Op. cit. p. 119. A área denominada Amazônia Legal é uma região geopolítica que compreende nove Estados: Amazonas, Pará, Acre, Rondônia, Roraima, Amapá, Maranhão, Tocantins e Mato Grosso.

municípios baianos: Canavieiras, Ilhéus, Porto Seguro, Santa Cruz Cabrália, Santa Luzia, Mascote, Arataca, Camacan e Belmonte.29 Badaró Ferrari noticia que, por meio da Operação Ágata, realizada no dia 21.08.2012, pela Polícia Federal, foi possível a apreensão de 169 m 3 de madeira e o embargo de 13 hectares por desmatamento ilegal nas fronteiras do Mato Grosso do Sul, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.30 Nelson Feitosa dá conta de uma operação conjunta entre o IBAMA e o Ministério do Trabalho e Emprego, realizada em 24.08.2012, em que se promoveu a interrupção de 30 desmatamentos ilegais na região de Novo Progresso, no oeste do Pará. Essa operação contou com o apoio da Polícia Rodoviária Federal, Polícia Militar do Pará e Força Nacional e resultou no embargo de 15 mil hectares de áreas irregularmente desflorestadas. Notícia, ainda, Feitosa que a região de Novo Progresso acumulou aproximadamente 17 mil hectares de novas áreas desmatadas, o que, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, essa quantidade é superior à metade dos desmatamentos ocorridos no Pará em 2012, que já somam 33,4 mil hectares.31 O Brasil conta com cerca de 550 mil hectares cobertos por florestas nativas. Isso representa 14,5% da superfície florestal mundial. Desse total, dois terços são formados pela floresta Amazônica e o restante, por Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica e seus ecossistemas associados, segundo dados de 2001 do Ministério do Meio Ambiente. É preciso reconhecer, contudo, que o Brasil dispõe de um significativo corpo de leis que disciplina sobre a preservação ambiental.32
29 30

GARCIA, Carlos. Notícias Ambientais. Disponível em: http://www.ibama.gov.br/. Acesso: 28.08.2012. FERRARI, Badaró. Notícias Ambientais. Disponível em: http://www.ibama.gov.br/. Acesso: 28.08.2012. 31 FEITOSA, Nelson. Notícias Ambientais. Disponível em: http://www.ibama.gov.br/. Acesso: 28.08.2012. 32 Artigos 5.º, inciso LXXIII, 23, inciso VI, art. 24, inciso VI, 170, 225, todos da Constituição Federal. Lei n.º 11.284/06, que dispõe sobre a gestão de florestas públicas para a produção sustentável e cria o Fundo Nacional de Desenvolvimento Florestal – FNDF. Lei n.º 8.723/93, que dispõe sobre a redução de emissão de poluentes por veículos automotores. Lei n.º 9.985/00, que institui o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza. Lei n.º 11.460/07,que dispõe sobre o plantio de organismos geneticamente modificados em unidades de conservação. Lei n.º 11.428/06,que dispõe sobre a utilização e proteção de vegetação nativa do Bioma Mata Atlântica. Lei n.º 9.976/00, que dispõe sobre a produção de cloro. Lei n.º 9.605/98,que dispõe sobre as sanções penais e administrativas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio ambiente. Lei n.º 6.938/81, que dispõe sobre a Política Nacional do Meio Ambiente. Decreto-Lei n.º 1.413/75, que dispõe sobre o controle da poluição do meio ambiente provocada por atividades industriais. Decreto n.º 2.959/99, que dispõe sobre medidas a serem implementadas na Amazônia Legal, para monitoramente, preservação, educação ambiental e combate a incêndios

Apenas para fazer referência a um exemplo, no Congresso Nacional brasileiro, vozes também se levantam em defesa da preservação ambiental. Por ocasião dos debates em torno do anteprojeto de lei sobre a gestão de florestas públicas para a produção sustentável e criação do Fundo Nacional de Desenvolvimento Florestal – FNDF (Lei n.º 11.284/06), o Senador Edison Lobão,33 do PFL do Maranhão, pronunciou discurso no Senado Federal, cujo excerto segue adiante transcrito:

(...) Quanto ao Ibama, convém recordar que, no Governo José Sarney, quando foi criado, o seu então administrador, Fernando César Mesquita, conseguiu que o desmatamento de 17.770 quilômetros quadrados, registrado em 1988, caísse para 13 quilômetros quadrados, no período de 1989 a 1990, e para apenas 11 mil quilômetros quadrados, em 1990/1991. Agora, no período 2004/2005, a devastação agravou-se ainda mais e chegou a 26 mil quilômetros quadrados. Salta aos olhos a obviedade de que alguma coisa ou muita coisa se fez ou se deixou de fazer para impedir as ameaças à integridade amazônica. Parece também óbvio que os vigentes projetos de manejo, tanto os praticados no Brasil como em algumas outras nações, não têm logrado preservar as florestas. No que toca ao Brasil, além da realidade estatística, basta sobrevoarmos o País para visualizar os enormes claros denunciadores de destruição de matas jamais renovadas. Muitos são os técnicos e cientistas que não acreditam nas políticas de manejo até aqui praticadas em florestas tropicais.
florestais. Decreto n.º 4.340/02, que regulamenta a Lei n.º 9.985/00. Decreto n.º 5.950/06, que regulamenta o art. 57-A da Lei n.º 9.985/00. Decreto n.º 5.746/06, que regulamenta o art. 21 da Lei n.º 9.985/00. Decreto n.º 5.577/05, que institui o Programa Nacional de Conservação e Uso Sustentável do Bioma Cerrado – Programa Cerrado Sustentável. Decreto n.º 5.092/04, que define regras para identificação de áreas prioritárias para a conservação, utilização sustentável e repartição dos benefícios da biodiversidade. Decreto n.º 4.519/02, que dispõe sobre o serviço voluntário em unidades de conservação federais. Decreto n.º 4.11/02, que dispõe sobre a atuação das Forças Armadas e da Polícia Federal nas unidades de conservação. Decreto n.º 3.515/00, que cria o Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas. Decreto n.º 2.652/98, que promulga a Convenção-Quadros das Nações Unidas sobre Mudança do Clima. Decreto Legislativo n.º 2/94, que aprova o texto da Convenção sobre Diversidade Biológica. Decreto n.º 2.519/98, que promulga a Convenção sobre Diversidade Biológica. Decreto Legislativo n.º 908/03, que aprova o texto do Protocolo de Cartagena sobre Biossegurança da Convenção sobre Diversidade Biológica. Decreto n.º 5.705/06, que promulga o Protocolo de Cartagena sobre Biossegurança da Convenção sobre Diversidade Biológica. Decreto n.º 4.703/03, que dispõe sobre o Programa Nacional da Diversidade Biológica – PRONABIO e da Comissão Nacional da Biodiversidade. Decreto n.º 5.472/05, que promulga o texto da Convenção de Estocolmo sobre Poluentes Orgânicos Persistentes. Decreto n.º 99.280/90, que promulga a Convenção de Viena para a Proteção da Camada de Ozônio e do Protocolo de Montreal sobre Substâncias que destroem a camada de ozônio. 33 LOBÃO, Edson. Atmosfera, desmatamento, poluição e camada de ozônio. Brasília: Senado Federal, Subsecretaria de Edições Técnicas, Coleção Ambiental, volume 6, 2007, pp. 167 e 168.

Edward Wilson, professor de Harvard premiado por suas obras, considera inviável a recomposição artificial das florestas tropicais. Para ele, as matas tropicais estão sendo danificadas de forma tão indecente que mesmo as mais modernas tecnologias de reflorestamento não poderão trazê-las de volta à vida. Sua opinião é de que a mata pudesse ser economicamente utilizada só depois de mapeada, polegada por polegada, em que cada árvore de valor científico e ambiental fosse devidamente identificada. A atividade madeireira só poderia ser exercida nas bordas da cobertura vegetal de modo que não houvesse impacto imediato muito grande, para que, em longo prazo, a mata pudesse ser recomposta naturalmente. Essa perspectiva, ainda que panorâmica, a respeito da degradação das florestas é relevante para o presente trabalho, sobretudo, porque a celulose, matéria prima para a fabricação de papel, é extraída das árvores. Conforme se depreende das considerações até aqui expendidas, as florestas ocupam um lugar de significativo relevo quando o assunto é a preservação ambiental. Paulo Moutinho et al34, ao discorrerem sobre emissão de desmatamento tropical e o papel da Amazônia brasileira, sustentam o seguinte: As florestas tropicais são armazéns gigantes de carbono que, se protegidas auxiliara~no conyrole do aquecimento global.No entanto, as emissões de GEE oriundas do

desmatamento e degradação dessas floresta continuam em níveis elevados. Somente o desmatamento na Amazônia Brasileira corresponde a mais da metade do total emitido por esta via pelo Brasil e, mesmo com as recentes quedas nas taxas de destruição da floresta, o país ainda lidera tal ranking. Contudo, a Amazônia ainda apresenta-se como o maior bloco de vegetação tropical remanescente e contínua do mundo (aproximadamente 5,4 milhões de km2) e mais de 80% de sua extensão ainda se encontra preservada. O Brasil abriga 60% desta riqueza. A região e também considerada o grande berço da biodiversidade planetária, abrigando mais de 20% das espécies terrestres conhecidas e apresenta-se como peça fundamental para o equilíbrio climático regional e global
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MOUTINHO, Paulo et al. REDD no Brasil: um enfoque amazônico: fundamentos, critérios e estruturas institucionais para um regime nacional de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal – REDD. – Edição revista e atualizada. Brasília, Distrito Federal: Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, 2011, p. 10.

(regulação de chuvas na região, mitigação do aquecimento global). Para esses autores, as causas históricas e atuais do desmatamento das florestas no Brasil, diretas e indiretas, se devem a nove fatores principais, a saber: 1) conversão de florestas em áreas para agricultura ou criação de gado; 2) exploração madeireira; 3) incêndios florestais; 4) subsídios para a pecuária e o agronegócio; 5) a política de investimentos em infraestrutura; 6) aos problemas fundiários; 7) a ausência de governança e fiscalização por parte do governo; 8) a demanda por produtos florestais (madeira e outros); 9) ao mercado (preço) favorável a produtos produzidos em áreas antes ocupadas por florestas.35 Os três primeiros fatores indicados no parágrafo anterior referem-se a causas diretas e os demais, à indiretas. Merece atenção o fato de que a exploração de madeira está inserida como uma das causas diretas de causas históricas e atuais do desmatamento das florestas no Brasil. Como causa indireta, a demanda por madeira ocupa lugar de destaque. Essa circunstância exige o mapeamento da produção e consumo de papel e celulose. A produção de madeira em tora de Pinus, Eucalyptus e Teca, para o ano de 2011, está configurada no quadro abaixo. MADEIRA EM TORA Área Plantada IMA1 Produção (ha) Sustentada2 Eucalyuptus 4.873.952 40,1 195.445.475 Pinus 1.641.892 35,9 58.943.923 Teca 67.693 14,7 995.087 Total 6.583.537 255.384.485 Fonte: Anuário Estatístico 2012, Ano Base 2011, da ABRAF, p. 102. 1 IMA = Incremento Médio Anual (m3/ha ano) 2 produção sustentada (m3/ano) foi calculada multiplicando a área plantada pelo IMA médio ponderado da espécie. Espécie De sua vez, o histórico da produção e consumo de celulose e papel no Brasil, no período de 2000-2011, pode ser visto adiante.

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MOUTINHO, Paulo et al. Op. cit., p. 29.

PRODUÇÃO E CONSUMO DE CELULOSE Milhões de toneladas Celulose Produção Consumo 2000 7,5 4,9 2001 7,5 4,5 2002 8,0 5,0 2003 9,1 4,6 2004 9,5 5,1 2005 10,4 5,2 2006 11,2 5,3 2007 12,0 5,8 2008 12,7 6,0 2009 13,3 5,4 2010 14,2 6,2 2011 14,0 5,9 Fonte: Anuário Estatístico 2012, Ano Base 2011, da ABRAF, p. 86. Ano

PRODUÇÃO E CONSUMO DE PAPEL Milhões de toneladas Ano Papel

Produção Consumo 2000 7,2 6,8 2001 7,4 6,7 2002 7,8 6,9 2003 7,9 6,7 2004 8,5 7,3 2005 8,6 7,3 2006 8,7 7,7 2007 9,0 8,1 2008 9,4 8,8 2009 9,3 8,5 2010 9,8 9,3 2011 9,9 9,3 Fonte: Anuário Estatístico 2012, Ano Base 2011, da ABRAF, p. 87. É preciso, ainda, ter presente que o consumo de madeira para uso industrial está a vários segmentos, conforme demonstrado adiante.

CONSUMO DE MADEIRA POR SEGMENTO Consumo de madeira (m3) Total Eucalyptus Pinus Outros Celulose e papel 53.239.020 8.102.946 5.000 61.346.966 Paineis de madeira 4.658.345 7.751.980 108.250 12.518.575 Indústria Madeireira 4.760.506 27.287.855 21.162 32.069.523 Carvão Vegetal 16.987.058 16.987.058 Lenha Industrial 35.709.030 6.382.268 2.583.521 44.674.819 Madeira Tratada 1.500.000 1.500.000 Outros 774.144 285.701 1.059.845 Total 117.628.103 49.810.749 2.717.933 170.156.785 Fonte: Anuário Estatístico 2012, Ano Base 2011, da ABRAF, p. 106. Segmento

No cenário internacional, o Brasil é o 4.º colocado entre os produtores de celulose e o 10.º entre os produtores de papel. Embora a produção de papel, no Brasil, seja originária de floresta plantada e alcance compatibilidade entre produção e consumo, 9,9 e 9,3 milhões de toneladas, respectivamente, deve-se ter em conta que esse equilíbrio não se reproduz em relação à produção e consumo de celulose, que é da ordem de 14 e 5,9 milhões de toneladas, respectivamente. Isto significa que o incremento na produção de celulose não atende o mercado interno e, também, que há necessidade de importação para atender as necessidades domésticas. De acordo com os dados acima, o segmento papel e celulose representa apenas 36,05% do consumo de madeira. O quadro da balança comercial e o reduzido percentual do consumo de madeira destinado ao segmento papel e celulose contribuem para o agravamento da qualidade do meio ambiente. Para que se tenha uma dimensão da controvérsia em torno do desmatamento no Brasil, a RIO + 20 reservou um painel com o seguinte título: “Políticas do Brasil para reduzir o desmatamento: lições aprendidas, desafios e oportunidades de cooperação internacional”. Esse assunto entrou em pauta no dia 21 de junho. Sobre essa reunião, Vladimir Platonow36 deixou o seguinte registro:
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PLATONOW, Vladimir. Protesto encerra apresentação do Brasil sobre desmatamento. Disponível em: http://rio20.ebc.com.br/noticias/protesto-encerra-apresentacao-do-brasil-sobre-desmatamento/. Acesso: 31.08.2012.

A apresentação do Brasil, na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, Rio+20, sobre os avanços obtidos pelo governo no combate ao desmatamento, terminou hoje (21) em protesto e discussão entre ambientalistas e a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira. O encontro contou com a presença de ministros estrangeiros da área ambiental e tinha o objetivo de mostrar a experiência do país na redução à derrubada de florestas. Mas os debates foram interrompidos por um grupo de ambientalistas segurando cartazes contra o Código Florestal e protestando contra as ações do governo na área, inclusive a liberação de grandes obras, como a Usina Hidrelétrica de Belo Monte. A segurança da Rio+20 e a polícia da ONU foram chamadas para controlar o tumulto, mas acabaram impedidas pela ministra de retirar os manifestantes da sala. Izabella deu a palavra para os integrantes dos movimentos ambientais, mas terminou se irritando quando eles se recusaram a parar de falar. A ministra subiu o tom da voz e disse que, na verdade, o governo e a sociedade civil estavam do mesmo lado e que precisavam unir forças. A plateia dividiu-se entre vaias e aplausos. „Isto aqui é um espaço democrático. Por isso vocês interromperam a reunião e se pronunciaram. Não há nenhuma restrição, mas sempre há mais de uma posição a ser dita”, disse a ministra, que garantiu que atualmente a taxa de desmatamento do país é a menor dos últimos anos. No Código Florestal, realmente a luta não acabou. Mas vamos ter que ir para o Congresso Nacional, um espaço democrático da sociedade brasileira, defender os nossos interesses. E eu gostaria que os ambientalistas elegessem mais deputados e senadores ambientalistas‟, disse Izabella. Sobre a construção da usina de Belo Monte, ela disse que não era sua a responsabilidade pelo licenciamento da obra, que coube ao ex-ministro Carlos Minc. „Fiquem juntos com o Ministério do Meio Ambiente. Não fiquem contra. Porque nós já somos muito poucos perante aqueles que não querem deixar a Amazônia em pé‟, disse a ministra, encerrando o evento. A ambientalista Maíra Irigaray, do Movimento Xingu Vivo para Sempre, explicou o motivo do protesto. „Temos tentado um diálogo aberto com o governo sobre a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte e sobre o retrocesso do Código Florestal, mas não existe um diálogo verdadeiro. Inúmeras vezes tentamos audiências, mas não fomos recebidos. As obras avançam sem nenhum monitoramento‟, alegou Maíra. Outra manifestante, Malu Ribeiro, da Fundação SOS Mata Atlântica, justificou o protesto dizendo que era preciso mostrar aos estrangeiros o que estava acontecendo no Brasil. „Mostrar aos presentes que a questão do Código Florestal, embora a

ministra tenha dito que não acabou este jogo, faz o Brasil retroceder. Anunciam o pacto pelo desmatamento zero na Amazônia na mesma época em que sancionam um Código Florestal que permite a redução de áreas protegidas e consolida as ocupações da soja e do gado na bacia Amazônica‟, protestou a ambientalista. Apesar de o tumulto ter encerrado prematuramente o debate, ninguém foi detido pela segurança da Rio+20. O presente capítulo se ocupou em apresentar o cenário das florestas no Brasil, especialmente sob o signo do desmatamento e também da indústria de