FORMAÇÃO DE PROFESSORES, MIGRAÇAO, E A ESCOLA NA AMAZONIA

Rosangela Hilario* Januario Amaral ** Valeria Oliveira***

RESUMO: O presente texto objetiva compartilhar reflexões preliminares sobre processos de formação de professores para atuarem em contextos complexos e multifacetados, no território de disputa de diferentes “tribos”, espaço em que se transformou a escola pública em todas as regiões do Brasil, mas que emerge com muita intensidade nos Estados que por força da impulsão econômica acolheram em seu território número representativo de migrante. A reflexão será ancorada nos textos produzidos por Arendt, Bobbio, Fischmann e Gofmann, os quais buscam conceituar as teorias para analisar e problematizar que educação e quais questionamentos são necessários para evitar que a intolerância com a diversidade que nos constitui seja a marca da sociedade contemporânea: que paradigma educacional é necessário para despertar consciências e um vigiar permanente contra a ditadura do “padrão” contra a coexistência pacifica e respeitosa com o diferente. Palavras Chaves: Formação de professores – diversidade – pluralismo cultural – intolerância.

* - Professora do Departamento de Ciências da Educação da Universidade Federal de Rondônia -UNIR; e membro do Grupo de Pesquisa Políticas Publicas e Sustentabilidade na Amazônia - rosangelah@usp.br; ** - Professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal de Rondônia - UNIR; e membro do Grupo de Pesquisa Políticas Publicas e Sustentabilidade na Amazônia - januarioamaral@hotmail.com; *** - Profesora do Deparatemnto de Psicologia da UNIR; e membro do Grupo de Pesquisa Políticas Publicas e Sustentabilidade na Amazônia – valeriaoliveira@hotmail.com;

professores. E ao chegar em Rondônia vão procurar reproduzir seus modos de vida que aprenderam ao logos de suas vidas herdadas dos antigos migrantes europeus que se estabeleceram nas regioes meridionais do País. Muito dos conceitos e teorias que nós. “sujeitos homens” e “mulheres fêmeas” . cidadãos que sejam capazes de compreender o grau de comprometimento necessário para mudar as estruturas e construir um novo modelo de sociedade menos excludente e mais respeitosa com sua diversidade.com. craques do futebol escandalosos. cidadania e escola parecem não nos servir mais: estamos no meio de transformações incomensuráveis no tecer da trama que compõe o tecido social e que nos constitui como sociedade formalmente organizada.) O povo na geral. num espaço onde a miscigenação e aglutinação de culturas e diversas maneiras de interpretar contextos é a regra. mudaram as formas de expressão da fé e até mesmo das relações com a natureza. pensávamos saber em termos de educação. admirando os detalhes do espetáculo e tomando uísque doze anos. e membro do Grupo de Pesquisa Políticas Publicas e Sustentabilidade na Amazônia – valeriaoliveira@hotmail. *** . sociedade. mulheres “boazudas” “rebolativas” e mestiças. Tentam reproduzir e sedimentar por meio dos centro de tradições a cultura sulista. Temos hoje uma nova escola ocupada por sujeitos que só tiveram acesso aos seus espaços por força das políticas públicas de universalização da escola.com. trabalhar. portanto. Ou como escreveu Millor Fernandes: “(.Professora do Departamento de Ciências da Educação da Universidade Federal de Rondônia -UNIR. temos uma migração eminetemente do sul do Brasil para Amazônia formada por paranaenses. A colonização Agrícola é o elemento fundamental que constitue as políticas que viabilizaram os fluxos migratórios nos últimos quarenta anos. São sujeitos nascidos e adentrados na sociedade em um tempo onde tudo parece estar por se adaptar aos contextos e as novas relações necessárias para conviver com respeito em meio às diferenças que constituem a riqueza e as contradições de viver em espaços onde campeia o pluralismo cultural. catarinenses . como num estado constituído a partir da migração patrocinada pelo Estado brasileiro por meio da doação de terras aos agricultores pobres do sul e sudeste do Brasil como é o caso do Estado de Rondônia. ao sentido de humanidade que o conhecimento parece agregar. manifestando todo seu desconforto com o modo de alimentar-se. mudaram as leis e a constituição legal das famílias. pseudo tolerante com o sincretismo religioso. há uma permissividade impensável * . A colonização já surge com dupla dimensão rural e urbana.Breve nota a titulo de introdução: da escola que temos para a escola que precisamos para garantir o direito de tratar aos desiguais com desigualdade na perspectiva da igualdade de oportunidades. cerveja gelada. cultura. Mas na Amazonia Brasileira parece não ter mudado as manifestações de intolerância. mudaram os paradigmas para relacionamento.UNIR.januarioamaral@hotmail. São cidadãos que sempre tiveram negados seus direitos a cidadania completa.rosangelah@usp. conforme AMARAL 2004. cordato. Mudou a sociedade.. pensar e com a cultura nortista. moças do bem para constituir família.br. gaúchos. ** . Assim.Professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal de Rondônia . apertado e suando em bicas e as oligarquias nos camarotes. teria de modificar-se para formar com sabedoria..Profesora do Deparatemnto de Psicologia da UNIR. e membro do Grupo de Pesquisa Políticas Publicas e Sustentabilidade na Amazônia .” Neste contexto a escola como instituição que abriga em seu interior sujeitos que representam as mais diversas expressões de pensamento e de perspectiva cultural. preconceito e desrespeito a toda forma de expressão que não esteja num padrão “Macunaíma” esperado para o povo brasileiro: machista por “natureza”. Nestas cidades há uma lógica muito particular para entendimento dos dogmas religiosos e apropriação dos mesmos pelas lideranças políticas locais: a religião é utilizada como meio de controle social. . e membro do Grupo de Pesquisa Políticas Publicas e Sustentabilidade na Amazônia .

Igreja Universal do Reino de Deus. as meninas convivem maritalmente com seus parceiros até “terem idade” para casar. como instituição humana. É certo que as relações das religiões com os poderes terrenos são assuntos delicado e polêmico.para as religiões protestantes tradicionais: os homens podem ter mais de uma mulher desde que mantenha a vida em ordem (leia-se obrigações religiosas e financeiras “em dia”) e a segunda família literalmente em paralelo (regra inclusive aos pastores das novas denominações religiosas que têm se formado). A escola é utilizada para cultos. reduzindo ou buscando reduzir o direito a diversidade e a cultura locais a eventos datados como dia do índio.com. Igreja de Jesus Cristo dos Últimos Dias entre outras). uma voz se insurge contra este comportamento. crucifixos.rosangelah@usp. já que a única verdade possível é aquela que permita a manutenção do estabelecido como ideal.com. com pequenas nuances para que tudo permaneça como está: * .Professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal de Rondônia . as escolas incluem momentos de oração como fundamento de suas atividades pedagógicas em seus projetos políticos pedagógicos. o poder espiritual que lhe é atribuído pela religião. Missão para Cristo. Festa da Flor de Maracujá. (FISCHMANN. . Nesta perspectiva. mensagens bíblicas pintadas nos muros e paredes). “rebeldes” que ousam reivindicar direitos a uma vida de fato e de direito) e se por acaso.Profesora do Deparatemnto de Psicologia da UNIR. e membro do Grupo de Pesquisa Políticas Publicas e Sustentabilidade na Amazônia . no Estado de Rondônia e particularmente em sua capital.br. O estigma do padrão global de comportamento parece ter se apropriado dos espaços públicos em toda a sua manifestação de pasteurização e homogeneização. jovens pais que não se casaram em alguma denominação religiosa são incitados a fazê-lo por meio de “orientação” espiritual (não solicitada) feita por orientadores e diretores da escola pública. nos parece que o pensamento de Bobbio sobre a intolerância do tolerante foi cunhado numa forma especifica para as autoridades escolares. para exposição pública de meninos e meninas fora do “padrão” (leia-se homossexuais. Praticamente todas as reuniões e comemorações escolares são precedidas de atividades religiosas onde aparecem denominações como as evangélicas pentecostais e neopentecostais (Igreja Mundial. para os que crêem neste ou naquele culto.Professora do Departamento de Ciências da Educação da Universidade Federal de Rondônia -UNIR. ** .UNIR. para o plano meramente político. No entanto. e membro do Grupo de Pesquisa Políticas Publicas e Sustentabilidade na Amazônia – valeriaoliveira@hotmail. e membro do Grupo de Pesquisa Políticas Publicas e Sustentabilidade na Amazônia . a bebida alcoólica é permitida se não for dia de culto. imediatamente é taxada de não compreender a cultura e tradições locais. 2010. a associação e relações entre o poder político e as igrejas evangélicas criaram um modelo de escola e de educação que passa longe do ideal de laicismo e acolhimento que se pensa para um espaço público onde todas as “tribos” deveriam conviver com respeito: há símbolos religiosos espalhados desde a entrada da escola (bíblias. Investidos de aura suprahumana. mês do folclore. com facilidade pode ocorrer de buscarem transbordar.januarioamaral@hotmail. o sexo é permitido entre meninas mal chegadas a menarca e homens de mais de quarenta anos. acredita que possui a verdade absoluta e se escora na exploração da fé como possibilidade de ampliação de poder para manutenção dos privilégios e da tal “ordem” na sociedade. nos parece que a mensagem que se quer manter por meio de ações materializadas na instituição passam por um entendimento enviesado do que seja ocupação da escola como espaço público: é aquele pelo qual o agente público imbuído das facilidades que a política local lhe confere. os jovens que manifestam uma opção sexual “diferente” são constrangidos em conselhos de escola e têm suas vidas expostas em público. Igreja do Evangelho Quadrangular. FSP) Nas escolas de Porto Velho. *** . a capital de Rondônia.

relegados aos guetos onde podem (?) manifestar sua identidade sexual.januarioamaral@hotmail.. Enquanto a sociedade mundializada pelos avanços da informação e comunicação discute punições para crimes digitais. Os homossexuais que freqüentam a escola (pública ou não) como alunos ou professores são estigmatizados e a pressão social é tão grande.UNIR. Tal característica é um estigma. uma fraqueza. a uma cultura da tolerância. materializando-se em acesso ao conhecimento o ideológico e o possível.. possibilidades concretas de acesso ao conhecimento como forma de emancipação e direito a convivência com a diversidade para enriquecimento cultural? * . ao desrespeito as diferenças e o bullyng que atormenta a todo aquele que não se enquadra no “padrão” estabelecido.) Assim deixamos de considerá-lo criatura comum e total.rosangelah@usp. excluídos de toda e qualquer manifestação de humanidade e humanização. Somente o acesso aos espaços escolares não nos garante a formação de novas mentalidades para o combate a intolerância de qualquer natureza.Em suma para o intolerante ou para quem se coloca acima da antítese tolerância. Nesse contexto de mudanças aceleradas qual a função da escola e do professor? E no tocante a política de formação de professores: quais os saberes e atitudes que são requeridas. que muitos acabam desistindo da escola e assumindo a única identidade que lhes resta socialmente: a de párias sociais. mas por más razões. que por paradoxo.Professora do Departamento de Ciências da Educação da Universidade Federal de Rondônia -UNIR. Não seria tolerante porque estivesse seriamente empenhado em defender o direito de cada um a professar a própria verdade. novas formas de pensar a organização formal da escola como prevenção a barbárie. uma vez que cria uma dissonância entre a mudança e nossa capacidade de nos apropriarmos e dar-lhes sentido.br. o tolerante seria frequentemente tolerante não por boas razões. e membro do Grupo de Pesquisa Políticas Publicas e Sustentabilidade na Amazônia .Professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal de Rondônia . Há necessidade de uma nova organização que impulsione escolas e professores a se articularem em torno de possibilidades para o acesso de fato ao conhecimento produzido e sistematizado pela e para a escola.intolerância.com. . e membro do Grupo de Pesquisa Políticas Publicas e Sustentabilidade na Amazônia – valeriaoliveira@hotmail. *** . (GOFFMAN. criando sérias dificuldades para coordenar a formação de valores com as novas circunstâncias. p.1998. lugar onde sofrem toda sorte de abuso e humilhações : as saídas da BR 364. no caso em que tenha uma. tratamento psicológico e até mesmo por exposições públicas de seu “problema”. julgando-a historicamente e não de modo prático – político. especialmente quando o seu efeito de descrédito é muito grande . reduzindo-o a uma pessoa estragada e diminuída. mas porque não dá a menor importância à verdade.com. nas escolas rondonianas a menção a etnia causa desconforto e homens e mulheres negras são denominados de gente “morena”. e membro do Grupo de Pesquisa Políticas Publicas e Sustentabilidade na Amazônia .algumas vezes ele também é considerado um defeito. uma desvantagem – e constitui uma discrepância especifica entre a identidade virtual e a identidade social real.12) Este descompasso parece se tornar um problema para as instituições educacionais. A mudança nas atitudes parece ir a reboque das mudanças tecnológicas e científicas. A homofobia vem disfarçada de interesse humanitário numa sociedade injusta: os jovens homossexuais que freqüentam a escola são chamados a promover um ajuste de conduta por meio de orientação religiosa. desejadas na perspectiva de criação da cultura da tolerância que aproxima e cria mais do que verdades absolutas.Profesora do Deparatemnto de Psicologia da UNIR. (. mas. ** . aos crimes de ódio racial.

rosangelah@usp. ou de qualquer tipo de julgamento moral.com. É preciso experimentar o direito à liberdade.Profesora do Deparatemnto de Psicologia da UNIR. O documento que orienta a elaboração de práticas pedagógicas para uma cultura da diversidade. considerados igualmente fundamentais tais como o pluralismo que advém da diversidade cultural.Os desafios da educação para a diversidade: o entendimento da função da escola como mediadora da educação para a plena assunção dos direitos humanos. opinião política. o que nos dá sentido de pertencimento a raça * . vencer a homogeneização de currículos escolares que reduzem a aprendizagem a processos meramente cognitivos que se processam do mesmo jeito para todas as pessoas. nacionalidades.195) A construção e a consolidação de uma cultura em Direitos Humanos no Brasil. 19): a) Valorização das características étnicas e culturais dos diferentes grupos sociais que convivem no território nacional. à justiça e à dignidade para entender o que significam e. de acordo com o documento o entendimento destas diferenças não tem o sentido de homogeneização da cultura e nem adesão. “ (. enfrentar essa série de desafios e contradições ainda presentes em nossa sociedade como a de vencer o preconceito e o eurocentrismo que muitas vezes passam despercebidos em nosso cotidiano como professores. ** . à igualdade. Necessário também.. segundo essa orientação.p. principalmente. b) Conhecimento das desigualdades socieconômicas e a critica às relações sociais discriminatórias e excludentes que permeiam a sociedade brasileira. no entendimento de que a tolerância é limitada e se constrói a partir de escolhas excludentes em beneficio do respeito a outrem.. sexual e religiosa sem hierarquizações.”(BOBBIO. sexo.) Não é que a tolerância seja ou deva ser ilimitada. a educação para a diversidade como uma educação permanente e plural.com.br. religião. que não trabalha apenas com a dimensão da razão e da aprendizagem cognitiva. prevalecendo sua universalidade. orientação sexual.UNIR. a partir de uma postura ativa do Estado como garantidor desses direitos. Considera-se. indivisibilidade e interdependência. multifacetado e algumas vezes paradoxal.Professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal de Rondônia .Professora do Departamento de Ciências da Educação da Universidade Federal de Rondônia -UNIR. c) Oferecimento aos alunos da possibilidade de conhecimento do Brasil como um país complexo. ou seja. . cultural e do direito a escolha. classe social. Visto que. atitudes que podem ser consideradas como de manifestação de preconceito e intolerância. étnica. Nos primeiros anos do século XXI a noção de Direitos Humanos com a qual (ainda) se trabalha vem abarcar todas as gerações de direitos. mas envolve também aspectos afetivos e valorativos que precisam ser sentidos. nível de instrução. p. sem distinção alguma de etnia. e membro do Grupo de Pesquisa Políticas Publicas e Sustentabilidade na Amazônia . vivenciados. mas respeito com a diversidade constituinte de nossa riqueza cultural poderíamos articular o documento a Declaração Universal dos Direitos Humanos: esses direitos são comuns a todos os seres humanos. legitimando como diferenças culturais “normais” num país de dimensões continentais. aqueles direitos que decorrem do reconhecimento da dignidade intrínseca de todo o ser humano. e membro do Grupo de Pesquisa Políticas Publicas e Sustentabilidade na Amazônia . do pluralismo cultural e para escolhas no que tange a identidade sexual sinaliza com três dimensões para desenvolvimento ( BRASIL:SEB. e membro do Grupo de Pesquisa Políticas Publicas e Sustentabilidade na Amazônia – valeriaoliveira@hotmail. implica desse modo. *** . Nenhuma forma de tolerância é tão ampla que compreenda todas as idéias possíveis. para que se consiga difundi-los do ponto de vista da variedade lingüística. sensorial. 2000. A tolerância é sempre tolerância em função de alguma coisa e exclusão de outra.januarioamaral@hotmail. independente de sua cultura e de suas referências. 1994.

conflitos e rejeições. portanto. Não entendidas como leis naturais na formação da diversidade humana. O reconhecimento das diferenças é.januarioamaral@hotmail. gestos. e membro do Grupo de Pesquisa Políticas Publicas e Sustentabilidade na Amazônia . por sua vez. provocam estranhezas. deixando desprotegido este grupo humano. A diversidade é percebida. sobre direitos humanos trás registros de vida social organizada e registra graus e formas diferentes de domínio humano sobre os direitos humanos. reconhecendo a igualdade dos direitos. modos de falar e se relacionar com a natureza marcam as diferenças entre homens e mulheres. Ela é sinônimo de diálogo e de valores compartilhados. O entendimento da sociedade do que seja educar para a diversidade reflete a interação complexa de valores. Diferentes jeitos. atitudes e comportamentos de seus membros. É preciso entender as culturas de minorias. dúvidas. Em seu sentido primeiro e literal. afastando-se dos preconceitos.br. ** . para inúmeros especialistas.UNIR. . *** . esta visão está ultrapassada pois. grupos sociais. a diversidade cultural referia-se apenas e simplesmente. gostos. Reconhecer a complexidade destas discussões de valores que permeiam o desenvolvimento da humanidade. conceituando assim tudo o que lhe estranha como inaceitável. é notória. uma pluralidade.com. seja qual for seu modo de vida e valores seguido sem o esquecimento que todos os humanos são iguais em direitos. com freqüência. gerando assim as minorias e os preconceitos. nos dias de hoje. acima de tudo. que nos impele a manutenção da ordem como sinônimo de luta indelével contra a barbárie que nos reduz em nosso sentido humanista e humanitário. Tentar esquecer como foram constituídas as histórias de muitas sociedades modernas é negar a contribuição de vários povos na sua formação. é tudo aquilo que é desejado para um indivíduo ou grupo e que influência a seleção de modos. à multiplicidade de culturas ou de identidades culturais. para a construção de uma união mais ampla de pessoas diferentes.rosangelah@usp. Os valores são elementos centrais da cultura. e membro do Grupo de Pesquisa Políticas Publicas e Sustentabilidade na Amazônia – valeriaoliveira@hotmail. o contrário da uniformidade e da homogeneidade. A diversidade das culturas existentes acompanha a história da humanidade e toda a sua variedade de conceitos. no que chamamos de direito e que vão aos poucos afetando as atitudes das pessoas. bem como ao conhecimentos que liberta e emancipa. é tarefa delicada. como uma disparidade. e a marginalização de grupos que seguem ideologias que não correspondem à classe dominadora.Profesora do Deparatemnto de Psicologia da UNIR. sonhos e deveres para com o outro. Mas. segregação ou exclusão. Valores são crenças gerais que defendem o que é certo ou errado a partir de um contexto especifico que sintetizam as crenças e preferências gerais. em conseqüência.Professora do Departamento de Ciências da Educação da Universidade Federal de Rondônia -UNIR. mais justas.com.humana e nos aproxima como iguais em direitos. quer dizer. assim cada um tende a achar que a sua forma de agir e pensar são as melhores. uma condição para o diálogo. emprego e a representação política. A * . a diversidade não se define tanto por oposição à homogeneidade quanto pela oposição à disparidade. A complexidade da situação da diversidade mundial hoje reclama ações em diferentes direções. para a paz mundial e. orientam o comportamento considerado apropriado a partir do seu entendimento sobre esses direitos “humanos”. uma variação. garantindo a toda a humanidade os direitos a não discriminação. A atenção a estas questões preocupa e deve ser redobrada. A estes grupos de minoria são negados de “forma sutil” os direitos a educação. meios e fins para a ação. que. pois a ética na opinião é primordial. e membro do Grupo de Pesquisa Políticas Publicas e Sustentabilidade na Amazônia .Professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal de Rondônia .

diferença e desigualdade no qual a escola. Fischmann (2005) aponta que as questões da pluralidade cultural e seus impactos sobre o processo de ensino (ainda) não tem sido incluídas de maneira sistemática nos cursos de formação docente e nem na pesquisa educacional. o estudo do pluralismo e da diversidade cultural pode contribuir para a superação da intolerância que está se tornando a marca deste tempo de pós-modernidade.71) ressalta que “os cientistas nunca aprendem conceitos. p. pois se caracteriza por uma comunidade formada quase que em sua totalidade por migrantes nordestinos. pela mídia e os sistemas de justiça e segurança afinados com uma concepção que compreenda a cultura como uma dimensão * . por meio da atuação de organizações da sociedade civil.Profesora do Deparatemnto de Psicologia da UNIR. seja por meio da educação escolar já a partir da educação básica ou pela educação não.UNIR. Em lugar disso. contribuindo para a difusão de atitudes. tal como utilizado por Khun.Professora do Departamento de Ciências da Educação da Universidade Federal de Rondônia -UNIR. esses instrumentos intelectuais são. paranaenses. com suas diferentes experiências e manifestações culturais. O caleidoscópio cultural está explicito nas salas de aula. inseparável do respeito à dignidade humana. Analisando a organização do mundo cientifico. construindo a cultura do hegemonicamente globalizado. onde são apresentados juntamente com suas aplicações e através delas”. gaúchos. mineiros. culturas caboclas e mestiças como os ribeirinhos. cohabitando de forma nem sempre não conflituosa. divergindo do desejo manifesto de docentes e gestores educacionais de que fosse homogênea. paraenses. o desafio de educar pela diferença para igualdade de oportunidades é ainda maior.com. social e econômico. em condições de aprendizagem idênticas e deixando para fora da sala de aula as marcas de suas diferenças.br. pII) No contexto rondoniano. e membro do Grupo de Pesquisa Políticas Publicas e Sustentabilidade na Amazônia – valeriaoliveira@hotmail. refletido e planejado para valorização dos grupos e culturas não dominantes. 1994. desde o inicio. baianos. sobretudo das escolas públicas. e membro do Grupo de Pesquisa Políticas Publicas e Sustentabilidade na Amazônia . *** . paulistas. ** . A Escola embora se apresente como um local de reprodução das marcas e características dos grupos étnicos que impõem pelo poder econômico seus hábitos. leis e teorias de uma forma abstrata e isoladamente. A escola é um local marcado pela tensão das relações sociais desiguais. Entretanto. encontrados numa unidade histórica e pedagogicamente anterior. manifestando-se nem sempre de forma pacifica e respeitosa. Khun(1987. e membro do Grupo de Pesquisa Políticas Publicas e Sustentabilidade na Amazônia .com. tem papel decisivo para manutenção da desigualdade excludente: Preliminarmente esclareço que conceituo “Paradigma do Outro” apoiandome em Thomas Khun e Emamanuel Lévinas. populações indígenas de diferentes etnias com suas línguas e culturas específicas. Não obstante. . tem uma riqueza heurística insubstituível para nosso trabalho. pode vir a ser um espaço privilegiado para a promoção da cultura de direitos humanos.formal.rosangelah@usp. valores e práticas coerentes com esses princípios. Servimo-nos de uma transcrição sobre o “Paradigma do Outro” conceito elaborado pela pesquisadora para explicitar a discriminação como muro a impedir a perfeita compreensão do significado (neste contexto. onde tende a haver domínio de grupos cujos padrões étnico-culturais são dominantes do ponto de vista cultural. na escola de educação básica) de exclusão. um dos entraves para a disseminação de uma pedagogia pluricultural é a falta de atenção dada ao tema no currículo (entendido em sentido amplo) dos cursos de formação de professores.Professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal de Rondônia . tal qual a concebemos.defesa da diversidade cultural é um imperativo ético. (FISCHMANN. nãoconflituosa. trabalhadores rurais e imigrantes de várias nacionalidades que habitam e convivem no campo e no garimpo.januarioamaral@hotmail. desde que haja um movimento estudado. O termo “paradigma”.

* .januarioamaral@hotmail. e membro do Grupo de Pesquisa Políticas Publicas e Sustentabilidade na Amazônia . *** . nordestinos. POUCAS PALAVRAS A TÍTULO DE CONSIDERAÇÕES FINAIS Poderíamos concluir esta reflexão com as palavras contidas no refrão de uma música popular tocada a exaustão nos anos finais da década de 70 e que nos reporta a adolescência e ao começo da agonia da ditadura militar..) O Brasil não conhece o Brasil” (Elis Regina.br. desenvolvemos pesquisas e construímos conhecimento que não circulam. a escola do pluralismo cultural como estratégia pedagógica aproximaria pessoas diferentes por meio do reconhecimento da diversidade como possibilidade do desenvolvimento da cultura de solidariedade que faça frente ao desmantelamento da barbárie. identificadas com o padrão “rede globo” chapam cabelos tingidos de louro.com. não reconhece a diversidade como fator de enriquecimento da cultura: adolescentes morenas e descendentes do caldeirão étnico que miscigenou índios.humana socialmente construída a partir de referências locais ampliadas pelo conhecimento e leitura de mundo oportunizada pelo conhecimento da palavra no texto para leitura de contextos. renegam suas raízes culturais e adotam como padrão de comportamento aqueles praticados nas novelas cujos enredos se passam em uma fictícia São Paulo ou hipotética e idealizada capital carioca.UNIR. esquecem expressões idiomáticas próprias de sua região. quando parecia iminente a imersão na complexidade da brasilidade e finalmente. Porto Velho.. assume-se como “natural” os processos massificantes da globalização e é esquecido que o entendimento do conceito de diversidade leva ao conhecimento e a igualdade de oportunidades. possa minimizar ou desaparecer com a barbárie e a intolerância e seus efeitos perversos no desenvolvimento de consciências. talvez. bolivianos.rosangelah@usp.Professora do Departamento de Ciências da Educação da Universidade Federal de Rondônia -UNIR. ** . Em Rondonia. Nossas reflexões são resultados da investigação sobre o impacto dos diversos fluxos migratórios na estruturação da cultura escolar rondoniense e ousamos apresentar nossas primeiras percepções calcadas no entendimento do pensamento de Adorno e Arendt : a concretização de políticas de massificação e obscurantismo da identidade dos estudantes do norte do País (tanto no ensino superior como na educação básica) visto e ratificado por meio de políticas públicas de educação ao longo dos primeiros anos do século XXI parecem perpetuar uma crise de identidade que se reflete nos processo pedagógicos. como professores da universidade pública. e membro do Grupo de Pesquisa Políticas Publicas e Sustentabilidade na Amazônia . sua capital. Numa perspectiva freiriana de entendimento da cultura escolar como possibilidade de desvelamento do sentido de humanização necessário e esperado na função docente. sulistas e sudestinos. não cumprindo para tanto seu papel de libertadores e provocadores da emersão da consciência que leve a humanização e. . Perdem-se as referências.1979).com.Professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal de Rondônia .Profesora do Deparatemnto de Psicologia da UNIR. muitas vezes. e membro do Grupo de Pesquisa Políticas Publicas e Sustentabilidade na Amazônia – valeriaoliveira@hotmail. formalizadas as possibilidades de universalização aos espaços da escola pública: “(. Acreditamos que grave também é o fato de que com o argumento de sermos cientistas sociais.

a assunção de uma parcialidade no que se diz ou explicita: toda a minha elaboração mental advém de um olhar estrangeiro. sem se voltar para as especificidades locais e para as contradições que constituem os seres humanos. Todos os espaços. medidas e leituras de mundo que fazem parte de sua cultura.) Conhecimento que não circula perde o valor. como possibilidade impar de ter acesso a liberdade de escolha por meio do conhecimento. 294) A manutenção do totalitarismo e da intolerância se constrói a partir do entendimento da diferença como diminuição do outro.Professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal de Rondônia . Entretanto. que urge iniciarem-se nos ambientes recém-facultados as camadas populares. A Universidade Pública não deve continuar entendendo o “estar sendo” como único e acabado. nesta perspectiva.. Os processos de desumanização são o primeiro passo para destruição da cultura da paz.. experiências.UNIR. projeto pedagógico padrão numa proposta de escola que seja de fato inclusiva e emancipadora. *** . de seu “estar sendo “ no mundo.rosangelah@usp. manter a objetividade ao tratar de tema tão delicado quanto este da elaboração de um currículo voltado para o pluralismo cultural como valor a ser agregado aos currículos das escolas de educação básica não é fácil. e membro do Grupo de Pesquisa Políticas Publicas e Sustentabilidade na Amazônia – valeriaoliveira@hotmail. [. de certo modo. Não é possível pensar em “escola padrão”. premente na sociedade contemporânea.br. e membro do Grupo de Pesquisa Políticas Publicas e Sustentabilidade na Amazônia . pensadores em processo de consolidação. ou seja. 2000) é razão suficiente para um repensar de nossa condição humana. temos de nos ater aos rigores metodológicos da construção do conhecimento. histórias. incluindo-se aqueles anteriores a escola. Mas.. e que não guardam similaridades com escolas do norte do Brasil.com. e membro do Grupo de Pesquisa Políticas Publicas e Sustentabilidade na Amazônia . para que sejam estabelecidas articulações que permitam refletir sobre as implicações do pensar “padrão” sobre as práticas desenvolvidas na escola.com. tal parcialidade é condição para que sejam estabelecidos relações no contexto em que este texto será lido. E precisamos considerar estes saberes e sua cultura na hora de formarmos o profissional da docência que vai iniciá-lo na aventura do conhecimento. (.Mas. Neste sentido a formação encontra-se amalgamada junto às alternativas viáveis e mais prováveis que venha a contribuir para o desenvolvimento de uma cultura da paz. mais uma vez.Professora do Departamento de Ciências da Educação da Universidade Federal de Rondônia -UNIR. . ** . que ao analisar considera contextos em que se formou e que lhe foram benéficos. são espaços formativos e precisam ser entendidos como tal.. Segundo Hilário. Fazer valer o direito a igualdade sempre que a diferença nos inferiorize e reivindicar a diferença sempre que a igualdade nos descaracteriza (SANTOS.Profesora do Deparatemnto de Psicologia da UNIR. do mestre Paulo Freire: a leitura da escola precisa completar e ampliar a leitura do mundo. Todos os alunos trazem junto com suas expectativas em relação à função da escola e do conhecimento formal em seu projeto de vida. * . Exige.januarioamaral@hotmail. (p.] Não podemos nos esquecer.

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