Relendo A Grande Transformação no nosso tempo

PAULO MOTA PINTO 02/12/2012 Em 1944, o húngaro Karl Polanyi criticava os efeitos destrutivos dos mercados e o facto de estes se terem autonomizado das instituições sociais. Mas será a crítica inscrita em A Grande Transformação uma resposta para a crise que enfrentamos? _________________________________________________________________________ A Grande Transfor-mação: as origens políticas e económicas do nosso tempo, de Karl Polanyi, recen-temente republica-do entre nós, é uma das obras essenciais para tentar entender o alcance das mu-danças ocorridas na história económica, social e política desde o século XVIII até meados do século XX - quer se acompanhe quer se rejeite a sua tese central e a interpretação histórica que lhe está subjacente.

A ideia fundamental, e inovadora, do livro é a de que o advento do capitalismo, e das propostas intelectuais que o justificaram num "credo liberal", teria levado à autonomização e prevalência de um mercado auto-regulado, antes sempre "incrustado" em instituições sociais e políticas, o qual teve de ser estendido a "mercadorias fictícias" desde sempre naturalmente fora do seu alcance, como a força de trabalho, a natureza (a terra) e a moeda, impondo-lhes a inexorável lei da oferta e da procura. A prevalência do mercado auto-regulado e autonomizado das instituições sociais em que se integrava, com lógica e movimento próprios determinados por flutuações da oferta e da procura, seria, porém, não só em última instância utópica, e impossível, como desde logo destruidora da própria sociedade, tendo provocado necessariamente um movimento inverso, de "autoprotecção da sociedade", em todos os países que a conheceram. Este "duplo movimento" e a "autoprotecção da sociedade" explicariam a história política e social da reacção contra os efeitos destrutivos do capitalismo, e estariam, mesmo, na origem dos movimentos sociais e políticos que, como reacção extrema contra a lógica destrutiva da sociedade pelo mercado, desembocaram nos totalitarismos da primeira metade do século XX. Seria essa a explicação profunda, económica e política, para a "transformação de toda uma civilização" durante os "revolucionários anos 30" do século XX, depois da "paz de cem anos" no sistema internacional do século XIX.

Karl Polanyi nasceu em Viena, numa família da burguesia judaica, fez a sua educação em Budapeste e, depois de participar nas campanhas da Rússia na I Guerra integrado no exército austro-húngaro, foi editor da secção de relações internacionais de um semanário económico de Viena. Em 1933, emigrou para Inglaterra, onde viveu até 1947, tendo-se depois mudado para o Canadá, onde residiu até final da vida. A Grande Transformação, publicada pela primeira vez em 1944, foi escrita entre 1940 e 1943, quando Polanyi era investigador visitante numa instituição universitária do Vermont.

Quase um policial

A Grande Transformação é um livro quase emocionante, já comparado a um "policial de história económica pleno de objectivo e de suspense", que leva o leitor desde a primeira página a uma revisitação das mudanças da civilização europeia desde a Inglaterra précapitalista (com as tensões entre nobreza e população escorraçada dos campos pelas enclosures) até à eclosão da II Guerra. E é também uma obra inspiradora, cheia de sugestões e de caminhos de investigação abertos, e até, em vários aspectos, prenunciadora de futuras áreas das ciências sociais - como a sociologia económica e a nova economia institucional, a teoria dos sistemas e a teoria crítica. O problema fundamental para Karl Polanyi não é, com efeito, puramente económico - é, antes, o da relação entre a economia e a sociedade, do modo como o sistema económico afecta as relações entre os indivíduos, com os seus reflexos determinantes na história. Polanyi rejeita quer o totalitarismo soviético quer a utopia do mercado, concluindo pela necessidade de nos confrontarmos com a realidade da sociedade sem rejeição do postulado da liberdade. Em nome deste postulado rejeita o fascismo, e (embora também recuse a associação da resposta a um só nome) termina remetendo para o socialismo de Robert Owen como assunção da exigência de liberdade numa sociedade moderna complexa - a fidelidade à tarefa de ampliar a liberdade para todos afastaria o receio de que o poder ou as medidas do plano se voltassem contra a liberdade que através dele se quer construir, e esta seria "toda a certeza que nos é necessária".

Um pensamento actual?

Tem sido salientada uma alegada actualidade do pensamento de Karl Polanyi numa época em que, depois da extensão a todo o planeta da economia de mercado livre, e da queda, a partir de 1989, das "ditaduras do plano", ditas "socialistas", o sistema económico mundial voltou a conhecer uma crise global, agora com origem no capitalismo financeiro, a partir de 2008. E vale sem dúvida a pena reler Polanyi neste contexto, sendo só por isso já de saudar a oportuna republicação da obra - para mais, com dois ensaios introdutórios (relativos à sua interpretação no actual contexto e à sua relação com a sociologia económica), um prefácio de Joseph Stiglitz (que destaca justamente a actualidade do livro) e uma introdução explicativa por Fred Block.

Um juízo que se queira descomprometido não pode, porém, deixar de salientar o que parecem ser algumas limitações, ou mesmo falhas, na obra de Polanyi. Estas centram-se, desde logo, na sua abordagem da história económica, em que defende que, na realidade, a economia de mercado foi uma novidade histórica, com um mercado (dito "auto-regulado") que passou a incluir, por exemplo, a força de trabalho e a terra. Para Polanyi, os mercados não se formaram como resposta à necessidade de transacções (indo, por isso, Polanyi ao passado remoto em busca de sociedades sem mercados), sendo antes as transacções governadas em sociedades pré-capitalistas por princípios como a redistribuição, a reciprocidade e a administração caseira.

Ora, como nota Deirdre McCloskey, Polanyi parece ter posto a questão correcta, das relações entre a sociedade e o mercado, mas não deu a resposta certa, pois existem hoje amplas provas da existência de sociedades pré-capitalistas com verdadeiros mercados, e em que mercadorias como a força do trabalho e a terra eram trocadas segundo um mecanismo de preço, isto é, em obediência à lei da oferta e da procura. A perspectiva histórica de Polanyi parece, aliás, enfermar de mitificação do passado pré-capitalista, que compara favoravelmente à sujeição do trabalho, da terra e da moeda à "frieza" do mecanismo do preço no mercado auto-regulado, com os seus terríveis efeitos destrutivos sobre a sociedade, omitindo, porém, os muitos resultados positivos (desde logo, no plano demográfico) que a economia capitalista e a sociedade industrial tornaram possíveis. E não parece que seja convincente tentar retirar conclusões a partir dos mecanismos de sociedades primitivas (por muito que se acredite num "bom selvagem") para a análise das relações entre a sociedade e o mercado a partir do século XVIII.

É certo que a afirmação e autonomização do mercado, com sujeição da generalidade das relações sociais à sua racionalidade estratégica, constituiu um dos casos claros de "colonização do mundo-da-vida" por uma racionalidade sistémica - neste caso, pelo sistema económico. Mas pode seriamente duvidar-se de que os efeitos dessa "colonização" sobre o bem-estar social geral tenham sido globalmente negativos. Em vez de apenas dilacerar tragicamente as relações sociais imperturbadas da era pré-capitalista, o capitalismo permitiu, sobretudo depois de mitigados os excessos dos primeiros embates da industrialização, o aumento da população e a abertura, a muitos que num mundo pré-capitalista teriam sido marginalizados, ou que nem sequer teriam chegado a existir, para um nível de vida mais elevado e para uma ocupação que lhes permite ganhar a vida.

A questão das normas

Um aspecto central da abordagem de Polanyi é a sua concepção de mercado "desincrustado" e "auto-regulado", em contraposição aos mercados anteriormente integrados no tecido social. Polanyi chamou correctamente a atenção para a necessidade de se ter em conta variáveis sociológicas nas análises económicas - a relação entre a economia e a sociedade. Mas é duvidoso que o próprio "credo liberal" alguma vez tenha defendido uma tal autonomização e prevalência do mercado sobre quaisquer outras normas e valores sociais, a qual, como Polanyi nota, seria desde logo utópica. É claro que os mercados estão sempre "incrustados" num conjunto mais amplo de instituições - incluindo normas e valores que são mesmo, em grande medida, pressupostos para a própria existência e funcionamento do mercado. A questão fundamental é justamente a de saber qual é o tipo de normas institucionais e sociais necessárias para tornar possível a cooperação social, e a mais eficiente afectação de recursos, na maior escala possível. Parece ter sido este, por exemplo, o contexto em que Adam Smith

colocara o seu apoio aos mercados e a evocação do interesse próprio, integrados num mais amplo sistema ético (que delineou na sua obra sobre a "teoria dos sentimentos morais").

É hoje património comum a ideia de que a economia de mercado pressupõe não só instituições e normas que possibilitem o seu funcionamento, mas também uma regulação que permita colmatar as "falhas de mercado", e prevenir crises como a que eclodiu a partir de 2008. É, assim, pelo menos duvidoso que só se possa aceitar que uma economia funciona segundo as regras do mercado quando existe um "mercado auto-regulado", como diz Polanyi.

Uma economia sem qualquer mercado a funcionar parece, na verdade, impossível a partir de certos níveis de complexidade, por não conseguir apresentar aos diversos sujeitos os vários preços relativos. Mas já não parece haver razão para concluir que qualquer regulação que seja - qualquer afastamento do extremo utópico do "mercado auto-regulado" - impede logo o funcionamento do mercado e da economia de mercado. Pelo contrário: a existência de regulação, formal ou informal, alterará o funcionamento do mecanismo de preços, mas não elimina por si só o funcionamento das forças do mercado dentro dos limites impostos pela regulação, e antes, em certo sentido, o possibilita.

A obra de Polanyi é particularmente interessante nos dias de hoje, quando de novo se levanta com acuidade, e agora a nível global, a questão das relações entre o poder económico e o poder político - forma específica da relação entre a sociedade global e o mercado que nela deva ser "incrustado". Mais, porém, do que queixarmo-nos sobre o laissez-faire e o mercado livre - paradigmas que triunfaram justamente por estarem associados a níveis de eficiência e de bem-estar sem paralelo na história da Humanidade, além de, pelo menos na maior parte dos casos, também a sociedades democráticas e liberais -, interessa perguntar o que se deve e pode fazer hoje para evitar uma destruição da força do(s) poder(es) político(s) democrático(s) pelas forças do mercado globalizado. E a resposta - se se quiser, uma certa forma de preservação da "incrustação" do mercado - só pode estar, a nosso ver, na constituição de mecanismos de governação e de regulação também globais (sem, porém, até lá, se renunciar à obtenção de condições de eficiência económica e de competitividade em cada país, não só por razões de subsistência mas também de preservação da necessária voz activa no contexto global). Será essa resposta hoje, se se quiser ainda utilizar conceitos de Polanyi, também parte indispensável do "duplo movimento", agora a nível global, necessário para a "autoprotecção da sociedade" mundial.

Público, 2.12.2012

O programa político de Karl Popper: do historicismo à engenharia parcelar
ANTÓNIO MARQUES 03/12/2012

Com a releitura de A Sociedade Aberta e os Seus Inimigos, terminamos a apresentação de quatro obras fulcrais escritas no final da II Guerra por Keynes, Hayek, Polanyi e Popper que hoje estarão em debate na Biblioteca Nacional, em Lisboa _________________________________________________________________________ A propósito da nova tradução do primeiro volume de A Sociedade Aberta e os Seus Inimigos (1945), não faria sentido tentar esboçar sequer o estado da discussão sobre o livro de um ponto de vista académico ou descrever os debates em torno da filosofia da ciência e da epistemologia das ciências sociais de Popper. Basta sublinhar que se trata da sua mais importante obra neste domínio e a que maior influência teve no pensamento político da segunda metade do século passado. As razões da importância do livro e do seu impacto são diversas e o contexto do após guerra em que é lida não é desprezível. O elemento academicamente provocador e intelectualmente perturbante foi o alinhamento que o autor fez de três filósofos fundamentais, que estão, a seus olhos, na génese da formação de programas políticos totalitários: Platão, Hegel e Marx. Para Popper, não é, pois, só a eclosão de racionalidades totalitárias próprias do século passado que circunscreve aquilo a que chamamos totalitarismo. Na verdade, a raiz desse mal é congénita à própria racionalidade ocidental, pelo menos na versão que percorre uma linha protagonizada por aquelas figuras e chega até nós. O mérito indesmentível de Popper foi o de identificar essa linhagem, entrar meticulosamente nos sistemas de Platão e de Marx (a parte dedicada a Hegel, ou seja, um único capítulo no conjunto de 25, é bastante mais incipiente) e procurar definir uma outra linha de racionalidade, que funcionará como antídoto e terapêutica do mal totalitário. O seu conhecimento profundo de diversos capítulos da história da filosofia e a total imersão no pensamento de autores de obras tão vastas como difíceis, em particular as de Platão e de Marx, ajudam-no a desenvolver uma argumentação com bastante segurança conceptual e objectivos claros. Também é mérito de Popper recordar a imprevisibilidade incontornável dos processos sociais, sem dúvida ancorada numa natureza, ela própria criativa e oscilante do ser humano. No entanto, ao leitor imerso nos problemas do mundo actual, mais do que avaliar a correcção e o mérito académicos de Popper no que respeita à história da filosofia, importa sobretudo verificar em que medida o seu próprio pensamento filosófico-político é uma proposta forte de interpretação e previsão. Na verdade, é minha convicção que se, do ponto de vista da crítica às sociedades fechadas, nas suas diferentes modalidades, a argumentação de Popper suscita uma simpatia natural em todos aqueles que defendem a primazia da liberdade individual ou que não querem olhar a história como a mecânica de forças que se dirigem a um fim inelutável, não é menos verdade que grande parte da sua argumentação a favor de um pensamento alternativo é decepcionante em muitos aspectos.

O "engenheiro parcelar"

É contra as filosofias historicistas que Popper constrói a sua proposta de um novo método para as ciências sociais e políticas. O historicismo, que encontra os seus principais protagonistas nos três filósofos já referidos, é, mais do que uma teoria, uma metafísica que reclama o conhecimento das leis mais gerais da história, às quais estão submetidos os indivíduos e as sociedades. Absorvidos por um determinismo absoluto, os agentes políticos não são mais do que instrumentos inseridos na totalidade dos eventos históricos, cuja lógica evolutiva apenas é conhecida pelo próprio filósofo historicista. Este atribui ao seu próprio conhecimento das leis históricas universais um estatuto de ciência, mas é fácil compreender que se trata de uma mistificação. Os casos de Platão (Popper acrescenta, no princípio do segundo volume de A Sociedade Aberta..., Aristóteles, sem atender ao facto histórico de que este foi um dos críticos fundamentais do sistema político platónico), de Hegel e de Marx são os mais relevantes para a reconstituição da metafísica historicista. Pode afirmar-se que Popper constrói a sua filosofia política por contraste sistemático com o historicismo, quer no plano do método e da epistemologia das ciências sociais, quer no plano político. Assim, ao agente político historicista ou "engenheiro utópico" nos termos de Popper, contrapõe ele um outro agente, com um método muito mais humilde, mas menos perigoso, o "engenheiro parcelar", estatuto que ele reivindica para seu pensamento político. A metodologia política e social que cada um utiliza é substancialmente diferente: o primeiro aplica um suposto conhecimento das leis da história para a criação de uma sociedade perfeita (no fundo, um método totalmente determinista que desemboca num totalitarismo), o segundo limita-se a aplicar um método de tentativa e erro para, por exemplo, melhorar esta ou aquela instituição, corrigir uma legislação particular ou alterar o modelo errado com que trabalhou. Ao engenheiro parcial é permitido, admite Popper, planear, mas só "porque já cometeu toda a espécie de erros; ou, por outras palavras, porque se apoia na experiência que ganhou pela aplicação de métodos casuísticos" (p. 204 da trad. portuguesa). Uma outra característica fundamental das engenharias políticas, segundo Popper, consiste na natureza cognitiva, essencialmente diferente em ambos os casos. Também aqui só é permitida à engenharia parcelar a formulação de predições, enquanto o engenheiro utópico produz profecias. Aliás, profecias são predições adulteradas pelo historicismo. Este contraste entre as duas engenharias é um dos eixos, talvez o mais importante, em torno do qual gira o seu pensamento político e por isso é importante discutir a distinção.

Predição e profecia

O que distingue uma predição de uma profecia? Quando e com que critérios distingo uma predição não historicista de uma profecia historicista? Como o próprio Popper esclarece, a diferença não reside no facto de uma (a profecia) se referir a longos períodos e a outra (a predição) apontar para limites temporais mais curtos. Infelizmente, tanto na Sociedade Aberta... como noutra obra dedicada à critica do historicismo, A Pobreza do Historicismo (1957), o filósofo não esclarece suficientemente a crucial diferença entre profecia e predição,

ao argumentar em círculo vicioso que a predição profética é inaceitável porque assenta numa concepção historicista e que esta é, por sua vez, ilegítima porque se traduz em juízos proféticos. Nesse sentido, quando se acusa um cientista social ou político de produzir um juízo profético deverá demonstrar-se que tal juízo supõe uma filosofia historicista com a carga negativa que Popper lhe confere. Nessa altura deverá demonstrar-se o historicismo da teoria, o que, por sua vez, remete para a discussão da qualidade profética dos juízos políticos. Deverá, no fundo, demonstrar-se que essa predição profética pressupõe um pseudoconhecimento das leis da história e que é uma representação utópica de um estádio diferente da humanidade, as duas grandes características do historicismo. Porém, é fácil encontrar bons exemplos históricos de predições de longo prazo, que assumem conhecimento de leis da história e que, à primeira vista, aparentam ser meras utopias. Como classificar a famosa antecipação feita por Kant, no século XVIII, da constituição, num longínquo futuro, de um todo cosmopolita de Estados, dotados de constituições republicanas e que de algum modo prefigura a actual ONU, mesmo que esta integre ainda numerosos Estados longe dos requisitos de Estados de direito? Estamos perante uma predição de engenharia parcial ou de uma profecia? Eu diria que nenhum dos termos é aqui adequado e, em meu entender, essa representação do futuro deve antes ser entendida como uma antecipação desejável de uma conjuntura política e jurídica de qualidade civilizacional superior. Se é certo que realmente Kant antecipou, à distância de mais de dois séculos, uma organização política comum de Estados de direito, ou pelo menos em que essa estrutura tende a prevalecer sobre os Estados não subordinados à lei e direitos humanos, então parece estarmos perante uma boa utopia de um bom historicismo. O que não é plausível é que essa predição resulte seja do trabalho de uma "engenharia utópica" que conduza a um totalitarismo, seja de operações de engenharia parcelar defendida por Popper. Lembremo-nos que esta engenharia é apenas dirigida ao aperfeiçoamento de instituições pelo método da tentativa e erro.

Greenspan ou Roubini?

Seria porventura mais interessante que Popper utilizasse um outro critério que ele próprio introduz de forma inovadora na sua epistemologia geral, ou seja, o critério da refutabilidade ou falsificabilidade das teorias. Na verdade, é apenas no último capítulo (25) da Sociedade Aberta... que o autor usa explicitamente esse critério de demarcação entre teorias científicas e metafísicas e o aplica no domínio das ciências sociais e políticas. Pelo menos, esse critério funcionaria como uma linha de demarcação mais objectiva entre uma proposta política historicista e utópica (profecia) e outras teorias sujeitas a refutação por este ou aquele acontecimento. Por exemplo, predições contraditórias, mas refutáveis, sobre a futura saúde do sistema financeiro foram feitas nos anos imediatamente anteriores ao eclodir da crise actual. Recordemos os exemplos de Alan Greenspan, que em 2005 assegurava que nada haveria a recear no futuro em relação à economia global, e do economista Nouriel Roubini que, mais ou menos na mesma altura, previu a grande recessão no mundo desenvolvido. Trata-se de duas predições, ambas refutáveis, uma errada e outra certa. Popper diria que estes são exemplos de engenheiros parcelares, cujas teorias possuem um grau de refutabilidade

suficiente de modo a comprovar a respectiva verdade ou falsidade. Tendo essa característica, elas afastam-se, por isso mesmo, do perigo de qualquer totalitarismo utópico. Em certa medida, isso é verdade, porém não é menos certo que o critério da refutabilidade também é problemático e originou um amplo debate sobre a filosofia do conhecimento popperiana que está longe de estar encerrado. Por definição uma teoria historicista, no sentido que ele dá a este conceito, não é refutável. No entanto, sabemos que muitas predições que se encontram dispersas nos três autores (exemplos maiores de filosofias historicistas) criticadas na Sociedade Aberta, sujeitam-se à refutabilidade. Por exemplo, quando Hegel defende que a mais elevada forma racional de um Estado é a sua organização corporativa ou quando Marx e Engels prognosticam o advento inelutável de uma sociedade sem classes, confrontamo-nos com teses refutáveis e que foram, mais tarde, submetidas ao que chamaria testes empíricos da história. É claro que o critério da refutabilidade, usado neste domínio das ciências sociais, levanta ainda mais dúvidas do que quando é aplicado no contexto das ciências naturais, desde logo porque é sempre possível ao cientista social ou político, autor de uma tese refutada num determinado momento, reclamar que afinal ela é válida como a história irá comprovar a longo prazo. Trata-se só de uma questão de esperar que a história a comprove.

Em suma, ancorar uma filosofia política na distinção entre profecia historicista e predição assente no método da tentativa e do erro não parece produzir resultados interessantes e deixa no ar mais problemas do que aqueles que resolve. O programa político do "engenheiro parcelar" de Popper, limitado ao método da tentativa e do erro é bastante pobre, na medida em que se limita à correcção de erros cometidos no passado. Acrescentarão os defensores desta engenharia que essa metodologia é a única que pode proteger a liberdade dos indivíduos face aos abusos do Estado, já que este deve autolimitar-se enquanto entidade apenas protectora dessa liberdade. Nas décadas que se seguiram às experiências nazis e fascistas, e nas quais o comunismo assumiu a forma do totalitarismo em vastas zonas do planeta, os programas políticos que defendem o Estado mínimo são perfeitamente compreensíveis. A dúvida é se o "engenheiro parcelar" de Popper tem hoje muito a dizer num mundo em que a percepção dos perigos e dos riscos são outros, muito diferentes. Por mim, penso que quase nada tem a dizer.

Público, 2.12.2012

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