Cinco mulheres

Texto-fonte: http://www2.uol.com.br/machadodeassis/ Publicado originalmente em Jornal das Famílias, 1865.

ÍNDICE I - MARCELINA II - ANTÔNIA III – CAROLINA IV – CARLOTA E HORTÊNSIA

Aqui vai um grupo de cinco mulheres, diferentes entre si, partindo de diversos pontos, mas reunidas na mesma coleção, como em um álbum de fotografias. Desenhei-as rapidamente, conforme apareciam, sem intenção de precedência, nem cuidado de escolha. Cada uma delas forma um esboço à parte; mas todas podem ser examinadas entre o charuto e o café.

I Marcelina Marcelina era uma criatura débil como uma haste de flor; dissera-se que a vida lhe fugia em cada palavra que lhe saía dos lábios rosados e finos. Tinha um olhar lânguido como os últimos raios do dia. A cabeça, mais angélica do que feminina, aspirava ao céu. Quinze anos contava, como Julieta. Como Ofélia, parecia que estava destinada a colher a um tempo as flores da terra e as flores da morte. De todas as irmãs — eram cinco —, era Marcelina a única a quem a natureza tinha dado tão pouca vida. Todas as mais pareciam ter seiva de sobra. Eram mulheres altas e reforçadas, de olhos vivos e cheios de fogo. Alfenim era o nome que davam a Marcelina. Ninguém a convidava para as fadigas de um baile ou para os grandes passeios. A boa menina fraqueava depois de uma valsa ou no fim de cinqüenta passos do caminho. Era ela a mais querida dos pais. Tinha na sua fragilidade a razão da preferência.

sem que os primeiros pereçam inteiramente no seu coração. Foi uma alegria na casa. de olhos e cabelos pretos. circunstância que acrescia àquela. amigo do pai. Ninguém reparava. que cobria a irmã de beijos. mas nenhum havia na roda que freqüentava a casa da moça. O namorado era um belo rapaz de vinte e seis anos. que um dia. apenas um mês. mesmo para Marcelina. esqueça um sonho impossível e não vá adoecer por um sentimento sem esperança. Era a sua distração habitual. Quando a viu de pé regou de lágrimas os pés de uma imagem da Virgem. menos o médico. Beethoven. Júlio estava radiante de alegria. Devia efetuar-se dali a quinze dias. O doutor saiu mais pesaroso do que estava. eles a amavam mais do que às outras filhas. Era ela a mais moça. dizia ele descendo as escadas. moreno. que lhe parecia penoso. Marcelina ouvia-o com tristeza. Marcelina tocava piano perfeitamente. tão do céu parecia ser aquela delicada criatura. Weber. mas a um olhar experimentado não escaparia a tristeza escondida debaixo daquelas demonstrações tão fervorosas. Mas. Os homens que lá iam preferiam a tagarelice insossa e incessante das irmãs à compleição frágil e à recatada modéstia de Marcelina. a mãe de Marcelina chorou amargamente. Do namoro ao casamento pouco tempo mediou. mas todos que a viam acreditavam que ela não pudesse amar na terra. Chegara à idade em que o coração da mulher começa a interrogá-la secretamente. e não dormiu uma hora. aos olhos de todos era a afeição fraternal que se manifestava assim num dia de júbilo para a irmã.Um instinto secreto dizia aos velhos que ela não havia de viver muito. Marcelina não se levantou da cama. — Está morta. O casamento foi fixado para um dia de junho. Um poeta de vinte anos. e não perdia ocasião de comunicar-se a todos o estado em que se achava. dizia-lhe duas palavras de cumprimento e desviava a conversa daquele assunto. e como que para desforrá-la do amor que havia de perder. Era uma ligeira febre que cedeu no fim de dois dias aos esforços de um velho médico. que era a sua devoção particular. porque ordinariamente os pais amam o último filho mais do que os primeiros. teria encontrado nela o mais puro ideal dos seus sonhos. As outras sabiam do namoro e o protegiam na medida dos seus recursos. A mais velha das irmãs tinha um namorado. Mozart. Palestrina. alto. Entretanto seguiam os preparativos do casamento. Nunca houve crise séria na moléstia da filha. O dia do casamento chegou. tinha o gosto da música no mais apurado grau. nenhum prazer da terra a tiraria dali. virgem ainda nas suas ilusões. mas o simples fato da moléstia bastou para que a boa mãe perdesse a cabeça. mas ninguém conhecia um sentimento só de amor no coração de Marcelina. disse-lhe com ar pesaroso: — Menina. Talvez não fosse a hora. ainda assim. No dia seguinte em que se anunciou o casamento de Júlio. . isso faz-lhe mal. Conhecia os compositores mais estimados. Chamava-se Júlio. Quando se assentava ao piano para executar as obras dos seus favoritos. Marcelina cravou os olhos nas teclas do piano e levantou-se a chorar. — Isso quê? — Sufoque o que sente. em que ela se achava ao piano.

é verdade? A moça não ousou responder: fez um leve sinal com a cabeça. Mas quem pode responder pelo futuro? Marcelina. — Então. — Não. — não me ocuparei. — Pensa. — Então por que pensar nisso? — Não penso. procurou curar-lhe a um tempo o corpo e o coração.. — Mas sua mãe?. . a boa menina não quis. mas era preciso. as carícias quase fraternais. Declarou-se uma nova febre. Marcelina foi com repugnância.Isto não é um romance. — Mas não vê que é impossível? perguntou o doutor. — Está sonhando. O médico. que sabia o fundo da doença de Marcelina. porque o coração era o mais doente. Os remédios do corpo pouco faziam. duas horas depois de estar em casa da irmã. O médico quando empregava uma dose no corpo. não diga nada. nem um episódio.. o doutor ameaçou-a sorrindo que ia contar tudo à mãe. Ela respondia: — Que amor? — Esse: o de seu cunhado.. esse amor é impossível. Foi transportada para casa. Quando o velho médico lhe dizia: — Menina. Um dia. Toda a família a acompanhou. — Sei. as palavras persuasivas. com os acontecimentos dia por dia. disse ela. A moça respondia a tudo com um sorriso triste — era a única resposta.. teve uma vertigem. — É debalde que procura ocultar. é indiferente para mim. como ela insistisse em negar. Um mês se passou depois do casamento de Júlio com a irmã de Marcelina. Era o dia marcado para o jantar comemorativo em casa de Júlio. empregava duas no coração. doutor. Eram os conselhos brandos. portanto. — Não creia. Foi. talvez não. estou doente porque Deus o quer. A festa não teve lugar... talvez fique boa. Foi levada para um sofá. doutor. só Deus é quem manda estas coisas. mas tornada a si achou-se doente. simular uma doença era impedir a festa. É por isso que está tão doente. A moça empalideceu mais do que estava. Eu não amo ninguém. nem um conto.

No fim de alguns dias o médico declarou que era impossível salvá-la. — Antes de adoecer. — Qual doutor! eu sei o que sinto! Se lhe quero falar é para dizer-lhe uma coisa. A menina gosta da roça. Todos os deixaram a sós. se eu morrer. a menina declarou que desejava comunicar alguma coisa ao doutor. desesperada com aquele estado de coisas.. Vivia da voz de Júlio. e atada por uma fita roxa. A família ficou desolada com esta notícia. — Di-lo-á somente a uma pessoa. — Que quer? perguntou o médico.. Marcelina definhava a olhos vistos. — Sei que é nosso amigo. Olhe cá. outros corações podem ainda receber os seus afetos. interrompeu o velho levando o lenço aos olhos.. As faces se lhe coloriam e os olhos readquiriam um brilho celeste. Pois toda a família irá para a roça. Mais de uma vez quis o médico declarar à família qual era a verdadeira causa da moléstia de Marcelina. nessas ocasiões Marcelina sentia-se elevada a uma esfera de bem-aventurança. disse ele.. imaginou todos os meios de salvar a filha. continuou Marcelina. — Não fale assim... lembrou a mudança de ares. mas que ganharia com isso? Não viria daí o remédio. e sobretudo meu amigo. era um domingo de julho. venha cá. Essa sim. entregue-lhe então este papel. Júlio ia visitar Marcelina com sua mulher. coitada. Sei quanto sente a minha doença. A mãe. — Escreveu isto? Quando? perguntou o médico. — Mas.. que tanto me ama e que vai ter a dor de me perder! Quando lhe disser. e como lhe dói que eu não possa ficar boa.. sempre com o mesmo resultado. é a minha mãe. — Há de ficar.— Ela irá ter comigo. O médico voltou a cabeça para o lado de uma janela que se achava meio aberta. não fale assim. . Um dia. ficando boa iremos todos para fora. e a boa menina ficaria do mesmo modo. O velho tomou o papel das mãos da doente e guardou-o no seu bolso.. Marcelina tirou debaixo do travesseiro uma folha de papel dobrada em quatro. mas a pobre Marcelina raras vezes deixava de arder em febre. Depois voltava ao seu estado habitual.. Esta conversa reproduziu-se muitas vezes. para que quer tão cedo deixar o mundo? Pode ainda encontrar nele uma felicidade digna da sua alma e dos seus sentimentos. Quando eu morrer não diga a ninguém qual foi o motivo da minha morte. que idéias são essas de morrer? Tão moça! Começa apenas a viver.

ela devia amar. Toda a família estava ao pé da cama. a todos procurava consolar dando-lhes a esperança de que iria orar por todos no céu. o médico continuou: — A entrevista que ela me pediu nos seus últimos dias foi para dar-me um papel. serena e calma. Quando ela pôde ficar um pouco calma. mas não se revoltou contra a sorte. porém a menina. Aqui o tem. quando elas lhas deram distribuiu-as pelas irmãs. e distribuiu-as igualmente pelas pessoas presentes. — Quem era? — A pobre menina pôs a sua felicidade num desejo impossível. No dia seguinte à tarde Júlio e a mulher vieram visitá-la. — Ah! — É verdade. — Quanto a mim vou tocar outras músicas no céu. a mãe de Marcelina chorava e soluçava que cortava o coração. A mãe debruçada à cabeça chorava silenciosamente. e que destino! O velho tinha os olhos rasos de lágrimas. adoecer e subir ao céu. Eu o descobri. — Sabe de que morreu Marcelina? perguntou ele. Às oito horas expirou. declarou-se a crise da morte. fiel à promessa que fizera à moribunda. Quis ver o piano em que tocava. não foi de uma febre. . fiz tudo quanto pude para desviá-la de semelhante pensamento. A sentença estava lavrada. O médico tirou do bolso o papel que recebera de Marcelina e lho entregou intacto. Marcelina achava-se pior. Quando veio a noite fechada. — É possível? disse a pobre mãe dando um grito. disse-me então que lho entregasse depois da morte. — Seu genro. doutor! É inútil. Que amor.— Basta. Sabe como eu era amigo dela. Um mês depois o velho médico. Houve então uma explosão de soluços. pediu uma conferência particular à infeliz mãe. e ela mo confessou. mas tinha chegado tarde. — Quem era? perguntou a mãe. Não desistiu porém de ver as músicas. foi de um amor. Pediu algumas flores secas que tinha numa gaveta. resignou-se e morreu. — É verdade. Daí em diante Marcelina pouco falou. mas era difícil satisfazer-lhe o desejo e ela facilmente se convenceu.

Que ela seja feliz e sofra eu a minha sorte. Mas nem esse chegaria a vencer a dissimulação dos Tibérios femininos. O segredo confiado aos dois morreu com ambos. Apenas ele chegava. embora ele me seja indiferente.. ó minha Virgem da Conceição. tendo morrido a velha mãe de Marcelina. foi achado o papel pelo cunhado de Marcelina. Por quê? Deus o quer. como a mais alta expressão de todos: — é Tibério.. Por que me hei de revoltar contra minha irmã? Não pode ela sentir o que eu sinto? Se eu sofro por não ter a felicidade de possuí-lo não sofreria ela. Mas um dia. como desfazia-se em lágrimas de saudades e de dor. Podia ser a minha vida e é a minha morte. e exclamou: — Pobre menina! Acendeu um charuto e foi ao teatro. Não lhe dizia acaso um secreto instinto que eu carecia dele para ser feliz? Cego! foi procurar o amor de outra. O médico acabou estas linhas banhado em lágrimas. não ia o outro. Para quê. Amavam-se ambos com o amor mais ardente e apaixonado que ainda houve. armados de olhos e sorrisos capazes de frustrar os planos mais bem combinados e enfraquecer as vontades mais resolutas. Talvez eu possa viver. O papel achava-se interrompido neste ponto. Lançou os olhos para um espelho. A mãe chorava igualmente. se ele fosse meu? Querer a minha felicidade à custa dela. mas nunca tão grande e tão elevado! Deus o faça feliz! Escrevi um pensamento mau. é um sentimento mau que mamãe nunca me ensinou. mas eu acho que. O segredo é nosso. Quando eu a conheci era ela casada de doze meses.. e nesse caso. tão sincero como o meu. se a felicidade deles residia em estarem juntos. Se mamãe soubesse disto talvez ralhasse comigo. doutor. Não viu ele nunca que era eu a quem devia amar. Antônia não só velava todo o tempo. Antônia era uma mulher assim.. II Antônia A história conhece um tipo da dissimulação. eu só te peço que me dês a força necessária para ser feliz só com a vista dele. O marido tinha nela a mais plena confiança. e procedendo-se ao inventário. Onde um não ia. O doutor leu em voz alta e com voz trêmula: Devo morrer deste amor. Era uma alma só em dois corpos. Se ele demorava fora de casa.— Leia-o. Sinto que é o primeiro e o último. viverem dos olhos um do outro. procurando nas suas feições um raio da simpatia que inspirara a Marcelina. fora do mundo e dos seus vãos prazeres? . não havia o desenlace comum das recriminações estéreis. que resume todos os outros. Antônia lançava-se-lhe aos braços e tudo voltava em bem. Júlio conheceu então a causa da morte da cunhada.

um suspiro. Era um tal Moura. da data do casamento de Oliveira. sem nada que pudesse legitimar a paixão de uma mulher bela e altiva. todas as atenções voltaram-se para Antônia e Moura. seu marido. As instâncias da família que os convidara foram inúteis. Oliveira teimou em ficar. Oliveira insistia em ficar. Antônia insistiu de novo com o marido para que fosse. — É que se tu não fores. se os dois se não amavam. desanimaram diante do extremoso amor que ligava o casal. Uma noite uma família da amizade de Oliveira foi convidá-la para irem ao Teatro Lírico. animados pela idéia de que o primeiro erro devia ser uma arma e um incentivo para os erros futuros. — Mas se eu não quero ir? dizia ele. antes de saírem todos. Vai tu. outros de data recente. menos tímido. a notícia de que entre Moura e Antônia havia um laço de simpatia amorosa surpreendeu a todos. que assentou de si para si tomar lugar à mesa da ventura doméstica do amigo. Oliveira ficara em companhia de um amigo. o espetáculo não vale nada para mim. para que um indivíduo pretenda tomar parte na felicidade de outro. tinha vinte e seis anos. disse Antônia.Assim ligadas estas duas criaturas davam ao mundo o doce espetáculo de uma união perfeita. Não sei dos primeiros passos de Moura. Estava no pleno desenvolvimento de uma dessas belezas robustas e destinadas a resistir à ação do tempo. correu de boca em boca. Um dia. Depois de muito tempo o mais que se conseguiu foi que Antônia fosse em companhia das amigas. eu ficarei. os olhos mais experimentados viram logo a veracidade dos boatos. Cantava então não sei que celebridade italiana. Via-se que aquela mulher devia amar aquele homem e aquele homem devia amar aquela mulher. mas um houve. porém. Os amigos de Oliveira. Um olhar. contada à meia voz. e com a mais perfeita discrição. isto é. que não primavam pela originalidade dos costumes. escapam aos mais dissimulados. estavam perto do amor. Antônia era bela. Eram o enlevo das famílias e o desespero dos mal casados. a grande aprazimento da sombra de La Bruyère. Mas. Freqüentavam a casa de Oliveira alguns amigos. Antônia era até então o símbolo do amor e da felicidade conjugal. A amizade é o melhor pretexto. Deve-se acrescentar que ao pé de Oliveira. alguns esfregaram as mãos de contentes. Antônia mostrou grande desejo de ir. outros se irritaram. Que demônio lhe soprara ao ouvido tão negra resolução de iludir a confiança e o amor do marido? Uns duvidaram. alguns de menos de um ano. que a trariam depois para casa. não ficaram isentos de encantos que a beleza de Antônia produzia em todos. por doente ou por enfado. Oliveira. uns da infância. às vezes ridículo. Desde que a notícia. era o que se podia chamar um Apolo. Moura fazia o papel de deus Pã ao pé do deus Febo. conversando com ***. Antônia em ir. Era uma figura vulgar. até hoje inventado. Oliveira. não quis ir. um gesto. Uns. nem das esperanças que ele pôde ir concebendo à proporção que corria o tempo. Mas assim aconteceu. . menos corajosos.

As amigas exclamaram em coro: — Como é isso: não ir? Que maçada! Era o que faltava! anda. — Isso é impossível! Tu. Como se engana! — Mas não deves consentir nisso. — Vinte.Anda! — Vai. Carolina. Pobre pai! ele cuida fazer a minha felicidade. devo obedecer-lhe. eu irei em outra ocasião. — Não. Antônia empalideceu ligeiramente. não é? disse ela. é decidido.. Saíram para o Teatro Lírico. A fortuna de Mendonça parece-lhe uma garantia de paz e de ventura da minha vida. tu formosa e moça. — Dize se vais. . sim. Sob pretexto de que desejava ir ver a celebridade tomei o chapéu e fui ao Teatro Lírico. Lúcia? Meu pai assim o quer.. irei. — Não. disse ela. Vou falar-lhe. disse Oliveira. sem nada que possa inspirar amor? Ama-o acaso? — Hei de estimá-lo. anda! — Vai. disseram as amigas de Antônia. mulher de um homem como aquele. não. irás depois. — Então. não te queres divertir? Antônia levantou-se: — Está bem. Então porque eu não vou. — Pois não vou! E sentou-se disposta a não ir ao teatro. segunda ordem. — De que número é o camarote? perguntou bruscamente Oliveira. Moura estava lá! III Carolina — Pois quê! vais casar-te? — É verdade. fico. — É meu dever. decididamente. — Não o amas. querida. Que queres. já vejo. — Com o Mendonça? — Com o Mendonça.

Ninguém mais havia. pediu-me. formosa. e já por aqui ficam os leitores sabendo que Mendonça é um desses. O pai de Carolina foi buscá-las e levou-as a um sofá. dirá o leitor. e bem assim não me dou ao trabalho de descrever a figura da amiga de Carolina. este apaixonou-se por mim. Lá se achava Mendonça em conversa com o pai de Carolina. Não quis Deus que fôssemos felizes. meu pai não teve ânimo de recusar-me. no meio do silêncio geral. Lúcia continuou: — E ele? — Quem? — Fernando. — Olha.— É inútil. — O Mendonça virá? — Deve vir. Carolina devia casar-se daí a alguns dias com Mendonça. É mais uma vítima. Há de ser por outra coisa. nem eu quero. Carolina empregou algumas lágrimas. houve um momento de silêncio. Depois. Quando as duas moças apareceram todos voltaram-se para elas. mas eu desisto de fazer agora uma sátira contra o vil metal (por que metal?). com a circunstância agravante de ter meios com que lisonjear os seus caprichos. Era uma dessas belezas que seduzem os olhos lascivos. já o leitor começa a lamentar a sorte da futura mulher de Mendonça. há talvez outra razão: creio que meu pai deve favores ao Mendonça. Direi somente que as duas amigas conversavam no quarto de dormir da prometida noiva de Mendonça. Depois das lamentações feitas por Lúcia à sorte de Carolina. — Mas então. — Pobre Carolina! — Boa Lúcia! Carolina é uma moça de vinte anos.. o velho anunciou o casamento próximo de . paciência! — Por isso o vi triste lá na sala! — Triste? ele não sabe nada. — Ah! esse que me perdoe e me esqueça. uma tia de Carolina conversando com o pai de Lúcia. e era isso o que lamentava a amiga Lúcia. Assim é. imolada ao capricho ou à necessidade. As duas moças saíram para a sala. é tudo quanto posso fazer por ele. Esperava-se a hora do chá. refeita. Bem vejo como me poderia levar longe este último ponto da minha história. Fernando a uma janela de costas para a rua.. — Pobre amiga! Sem conhecer ainda as nossas heroínas. alta.

Fernando estava de costas para a sala e tinha a cabeça entre mãos. isto é. Ninguém atinava com a resposta. de angústia. de desespero. quer aprovasse. acrescentando qualquer período tirado de qualquer romance da moda. Era o único recurso que lhe restava: chorar. numa manhã de inverno. Fernando não assistiu ao casamento. mas opulento. dono desse vil metal.. menos Lúcia. digo mal — não se ouviu.Carolina e Mendonça. então não pôde resistir e chorou amargamente. De longe a desgraça parecia-lhe menor. Isto que aí fica escrito não muda em nada a situação da pobre Carolina. quer não. Quanto a Fernando. Em geral perguntava-se que amor estranho era aquele que levava Carolina a desfolhar a sua mocidade tão viçosa nos braços de semelhante homem. Quando voltou os olhos para a janela. salto aqui uns seis meses e vou levá-los à casa do Mendonça. Carolina foi a única que ouviu ou antes adivinhou. Carolina é a primeira a respeitá-lo. os castelos de felicidade. na véspera de realizar-se o consórcio: Quis acreditar até hoje que fosse uma ilusão. eis a carta que ele mandou a Carolina. a amiga respeita esses sentimentos. ele devia efetuar-se daí a vinte dias. está com Carolina. agora sei que não é possível duvidar da verdade. por amor de um velho ridículo. Lúcia. O leitor sagaz suprirá o resto da carta. que ainda assim sabia mais por adivinhar e por surpreender as torturas menores da companheira dos primeiros anos. etc.. . condenada a receber recriminações quando ia dar a mão de esposa com o luto no coração. Mas. solteira ainda. Lúcia assistiu triste como se fora um enterro.. Parece que ninguém. além do noivo e do pai de Carolina. Pois quê! tudo te esqueceu. A única resposta dada por ela à carta de Fernando foi esta: Esqueça-se de mim. aprovava semelhante consórcio. tudo. e peço a Deus que não perca só isso. Uma porta de bronze separava-a para sempre da felicidade que sonhara nas suas ambições de donzela. mas desde que ela pôde tocar com o dedo o deserto árido e seco em que entrou. as promessas. Ouviu-se um grito sufocado do lado da janela. Ninguém sabia dessa odisséia íntima. o amor. onde costuma ir passar alguns dias. Não se fala na pessoa de Mendonça. etc. a quem ela não pôde ver mais depois da noite da declaração do casamento. escrevia Carolina na manhã do casamento à amiga Lúcia. Como eu não quero entreter os leitores com episódios inúteis e narrações fastidiosas. deixo as minhas ilusões à porta. O chá foi tomado no meio de geral acanhamento. Ouviu-se. É verdade que os seis primeiros meses de casamento foram para Carolina seis séculos de lágrimas. Entro no teto conjugal como num túmulo. ou um sonho mau semelhante casamento.

Carolina hesitou. Mas no dia seguinte uma nova carta de Fernando chegou às mãos de Carolina. as dores que sofrera. quando assomou à janela que dava para o jardim a figura de Fernando. as duas em conversa. uma por dia.. respondeu afirmativamente. mas todas ficaram sem resposta. — É uma carta de Fernando. Nessa carta Fernando pintava com cores negras a situação em que se achava e pedia dois minutos de entrevista com Carolina. as mortes de que escapara.. Carolina indagou do escravo que lhe trouxera a carta o modo por que lhe havia chegado às mãos. ela parecia tão desesperada e dolorosa.. quando às mãos de Carolina chegou uma carta assinada por Fernando. na noite do quarto dia. — Mas. Leu-a Carolina. fuja! fuja! — Não! quis vir de propósito. Durante os cinco dias seguintes vieram cinco cartas. A carta era abundante em comentários. O escravo respondeu que um moleque lha entregara à porta. depois rasgando a carta em tiras muito miúdas: — Pobre rapaz! — Que é? perguntou Lúcia. Ia mandar a resposta. pois. — Não devo amá-lo!. Carolina achava-se no gabinete de trabalho. Lúcia deu ordem para que não recebesse cartas que viessem pelo mesmo portador. Outro portador a entregara. Nessa série de padecimentos.. nunca perdera a coragem de viver para amá-la.. Lúcia não insistiu. Enfim. Pintava-lhe o antigo namorado o estado em que tinha o coração. que a pobre moça. mas de novo hesitou e rasgou o bilhete. esteve alguns minutos calada. A moça deu um grito e recuou. podem ouvir. em quem falava um resto de amor por Fernando. mas releu a carta. a fim de saber se deveras não me amas. trêmula e confusa.. — Não grite! disse o moço em voz baixa. — Não deve! Que tem o dever conosco? — Vou chamar alguém! Fuja! Fuja! Fernando saltou para o quarto. mas eu julgo melhor conservar somente a substância dela. protestando fazer o mesmo a quantas cartas chegassem. como as anteriores. se esqueceste aqueles juramentos. embora de longe.Estavam. . dizia ele.

nem por isso posso deixar de respeitálo. Correu para a janela e saltou para o jardim. homem de trinta e seis anos.. que ouvira as últimas palavras dos dois. Lúcia. não hás de chamar! A moça correu para a porta. um José Durval. Os que acompanhavam o enterro. minha Lúcia. — Que é isso? disse ele. Fernando não pôde afrontar a presença da moça. . — Coitada! murmurou o outro. Os mais iam por satisfazer a vaidade do viúvo. apenas dois o faziam por estima à finada: eram Luís Patrício e Valadares. correu a abraçar a amiga. Os outros levavam uma cara de tristeza oficial. morta no esplendor da beleza. Nesse momento abriu-se a porta e apareceu Lúcia. IV Carlota e Hortência Uma fila de cinqüenta carros com um coche fúnebre à frente dirigia-se para um dos cemitérios da capital. Carolina pareceu adivinhar um pensamento sinistro em Fernando e tapou os ouvidos. exclamando: — Muito bem! muito bem! Dias depois Mendonça e Carolina saíram para uma viagem de um ano. e tu foges de mim? Quem impede a nossa felicidade? — Quem? Meu marido! — Seu marido! Que temos nós com ele? Ele. eram os únicos que traduziam no rosto a profunda tristeza do coração. Valadares e Patrício iam no mesmo carro. Foi para estas almas corajosas e honradas que se fez a bem-aventurança. Carolina escrevia o seguinte a Lúcia: Deixo-te. amo-te tanto. O carro funerário conduzia o cadáver de Carlota Durval. e não sei se o amo agora. — Até que morreu a pobre senhora. dono de cinco prédios e de uma dose de fatuidade sem igual. Mas eu não quero expor-me a um crime. apesar do ato covarde [1] que praticou. Amei Fernando. disse o primeiro ao fim de algum silêncio. Se o meu casamento é um túmulo. mas assim é preciso.. senhora de vinte e oito anos. na qualidade de amigos da finada. Valadares e Patrício. Reza por mim e pede a Deus que te faça feliz. Fernando travou-lhe do braço.— Não.

acrescentava o primeiro. Todavia. não que ele não desse à mulher motivos de desgosto.. Viveram algum tempo no meio da mais perfeita paz. separava-se do marido. mas ainda que o não fosse. mas porque eram estes tão encobertos que nunca haviam chegado aos ouvidos da pobre moça. ciúme. era a covardia do ato de Hortência. amiga de Carlota. Era a um tempo. Não o conheces. de que depois de casada. amadas por todos.— Na flor da idade. retirar-se simplesmente seria confessar o crime. Então tudo se clareou. não lhe dá maior importância. Não sei por que se apaixonara por José Durval. que tão mal pagava a hospitalidade que obtivera de Carlota.. Um ano antes Hortência B. mãe de duas crianças tão bonitas. — Quais remorsos! É incapaz de os ter. Este pequeno diálogo dá já ao leitor uma idéia dos acontecimentos que precederam à morte de Carlota. Mas o marido? Não era igualmente culpado? Carlota avaliou de um relance toda a hediondez do proceder de ambos. O marido era para Carlota um ídolo. Como esses acontecimentos são o objeto destas linhas destinadas a apresentar o perfil desta quarta mulher. Deus perdoe aos culpados! — Ao culpado. Mas era tarde. Carlota receberia a amiga em sua casa.. e resolveu romper um dia. vergonha. e menos ainda no tempo de solteira. Dizia-se que era por motivos de infidelidade conjugal da parte dele. passo a narrá-los mui sucintamente. essa se não fora desinquietada. com uma cólera sufocada. tão amiga era dela. A frieza que começou a manifestar a Hortência. Hortência dissimulou e um dia recriminou a Carlota os seus modos recentes de tratamento. desprezo. sufocou um grito. Era o mesmo que se uma rosa abrisse o seio confiante a um inseto venenoso. lançou em rosto à amiga o procedimento que . despertou no espírito desta a idéia de que era preciso sair de uma situação tão falsa. Carlota... a repugnância e o desdém com que a tratava. que foi só ele. mais do que isso. por isso recebeu Hortência com os braços abertos e entusiasmo no coração. como eu? Ri e zomba de tudo. Quando Carlota descobriu qual era a situação de Hortência em relação a ela. Carlota casara com vinte e dois anos. Isto para ele foi apenas um acidente. Só a idéia de uma infidelidade da parte dele bastava para matá-la. Hortência era amante de José Durval. Daí a seis meses Carlota reconhecia o mal que tinha feito. acredita. Carlota compreendia as dores que podiam trazer a uma mulher as infidelidades do marido. Quanto à outra. Se alguma coisa podia atenuar a dor que ela sentia. — Tens razão! — Mas ele deve ter remorsos.

aqui termino com uma carta escrita. declarou que sairia de casa. São exigências de toda a casta. ou pessoas que se davam por isso. Hortência. Esta cena abalou a saúde de Carlota. mas era negar confessando.tivera em casa dela. exigências de luxo. Hortência não voltou ao quarto. Lembras-te ainda da pobre Carlota Durval. José Durval impôs essa condição. Corte. morta de desgosto pela traição do marido e de Hortência? Sabes que esta ficou a viver em casa do viúvo. O caso. A pobre mulher foi obrigada a sofrer mais essa humilhação. que não deixa o marido pôr pé em ramo verde. porque a fortuna de Durval não podendo resistir aos ataques de Hortência. posto que a caridade evangélica nos manda lastimar as desgraças alheias. — Vou dar-te algumas notícias que te hão de alegrar. pois que nenhum tom de sinceridade tinha a sua voz. Mas se fosse apenas isso. como a mim. depois de dois anos da morte de Carlota. Hortência. como duas criaturas abençoadas do céu? Pois bem. porém. por Valadares a L. mas ela voltou o rosto para a parede. negando sempre o crime de que era acusada. até que se passassem os primeiros seis meses do luto.. e que no fim de seis meses casaram-se à face da Igreja. No dia seguinte amanheceu doente. Supondo que os leitores terão curiosidade de saber o que sucedeu depois. não teve dúvida em trair o marido: Hortência tem hoje um amante! É realmente triste semelhante coisa. mas também não saiu da casa. foi-se desmoronando a pouco e pouco. disse Carlota com os lábios trêmulos. — Mas isso não desmente. Depois disso era necessário sair. ninguém as faça que as não pague. É simplesmente mudar o teatro das suas loucuras. Meu amigo. Os leitores já assistiram ao enterro dela. Hortência é um dragão de saias. Parece que as cinzas da Carlota deviam estremecer de alegria debaixo da terra. — Que dirá o mundo? perguntava ele... Quanto a Hortência. Os desgostos envelheceram o pobre José Durval. tornou-se pior. A doença foi rápida e benéfica. Durval está mais do que nunca arrependido do passo que deu.. mas eu não sei por que esfreguei as mãos de contente quando soube da infidelidade de Hortência. ao passo que a pobre Carlota era uma pomba sem fel. que traíra a amiga. nem remedia nada. era de agradecer a Deus. exigências de honra. 12 de. Mas há certas desgraças que parecem um castigo do céu e a alma sente-se satisfeita quando vê o crime punido. Primeiramente. porque no fim de quinze dias Carlota expirava. no fim dos quais casaram-se perante um concurso numeroso de amigos. continuou a viver em casa de José Durval. . Hortência negou. Hortência apareceu para falar-lhe. Patrício.

Patrício. dois gritos e dois sorrisos da mulher puseram-lhe água fria na cólera. a ti que estimastes aquela pobre mártir. acerca dos algozes da Carlota. Ia acabando sem contar a cena que houve entre Durval e a mulher. mas no que fazes mal. E basta a punição para ficarmos já condoídos do pobre homem. meu amigo Valadares. Um bilhete mandado por H. Daí em diante.. Falemos de outra coisa.. Durval anda triste. onde se achava L. no fim de conta. Nem devemos tê-la. Adeus.. Julguei que estas notícias te seriam agradáveis. É uma pagã. são dignos de lástima.Perdoe-me Deus a blasfêmia. etc. cabisbaixo. Sabes que os cafezais. meu caro. Houve explosão da parte do marido. mas o infeliz não tinha forças para manter-se na sua posição. não sei por que terrível acaso.. por serem tão fracos que não possam ser bons. Os maus.. Pobre homem! afinal de contas começo a ter pena. Esta carta era dirigida a Campos. (o amante) caiu nas mãos de José Durval.. Não interessa aos leitores saber dos cafezais de L. se acaso o é. Patrício. é em mostrares alegria por essa desgraça. e que Hortência procurou na devoção de uma velhice prematura a expiação dos erros passados. vai cultivando. não deixes de crê-lo. . nem as cinzas de Carlota se regozijaram no outro mundo. Emagrece a olhos vistos. A resposta deste foi a seguinte: Muito me contas. taciturno. O que interessa saber é que Durval morreu de desgosto dentro de pouco tempo.