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OBRIGAÇÕES

Editora

Saraiva

à qual dedicamos o primeiro capítulo. das liberdades individuais ou das garantias de bom funcionamento da justiça. mais que aquelas que interessam ao contrato e à responsabilidade civil. o direito civil sempre foi identificado como o locus normativo privilegiado do indivíduo enquanto tal. Na atualidade. os seres que ainda vão nascer. exclusivamente. relativamente ao direito das obrigações. Nenhum ramo do direito era mais distante do direito constitucional do que ele.tiva que se produziu sobre a matéria. mas devem assumir. para reparação de fatos acontecidos. para responder às inquietantes demandas da contemporaneidade. salvo quanto a matérias gerais de direito de propriedade. hoje. principalmente o direito do consumidor. é obra permanente. Para a boa compreensão e aplicação do direito das obrigações. consolidada ao longo de milénios e adaptada à revolução industrial e ao liberalismo económico. A lenta elaboração do direito das obrigações vem perpassando a história do direito romano-germânico há mais de dois mil anos. ao longo da obra. As etapas do constitucionalismo e a evolução contemporânea do direito das obrigações. :. IS i BÍ I P P l CONSTITUCIONALIZAÇÃO DO DIREITO DAS OBRIGAÇÕES Sumário: l 1. também. 1. 1. com nítida opção de socialidade das obrigações.5. mais do que a direitos subjetivos. políticas e económicas. Há deveres de todos para com as gerações futuras (art. Antes havia a disjunção. aos princípios e regras constitucionais. Daí a constante referência que fizemos.1. além de legislações sobre certos tipos de obrigações que não se enquadram na sistemática do Código. o processo de constitucionalização redireciona sua trajetória e missão históricas com fins e valores humanistas. Fundamentos constitucionais da responsabilidade civil. A constitucionalização do direito civil. com as repercussões que causam nos outros. Inserção do direito das obrigações no Estado social. em torno dos quais gravitam os microssistemas jurídicos que tratam das matérias a ele vinculadas. o tema de constitucionalização do direito civil é-lhe particularmente estranho.3. 1. unificando o direito comum e o direito do consumidor. no conjunto de princípios e regras que se elevaram à Constituição e aos tratados internacionais. a sobrevivência da própria espécie humana. As obrigações extranegociais não podem apenas voltar-se ao passado. igualmente. 1. e não se encerra com o advento de nova codificação. Parecia que as relações jurídicas obrigacionais não seriam afetadas pelas vicissitudes históricas. função preventiva. para a interlocução entre o Código Civil e os microssistemas jurídicos.4.2. com fundamento na autonomia individual. às vezes cruentas. É necessário que salientemos a insuficiência da teoria das obrigações. Fundamentos constitucionais do contrato. No espírito de um civilista tradicional. pouco importando que tipo de constituição política fosse adotado. 1. que não se interesse pelos últimos avanços do constitucionalismo. As obrigações negociais têm de alcançar a dimensão social. que devem informar e conformar a interpretação e compreensão do direito civil em sua complexa contextura atual. Repersonalização do direito das obrigações. 225 da Constituição). a preservação da natureza.6. A CONSTITUCIONALIZAÇÃO DAS OBRIGAÇÕES A unidade do direito das obrigações não está mais enraizada nos códigos civis. não se cuida de buscar a demarcação dos espaços distintos e até contrapostos. repersonalizantes e solidários. Sem prejuízo da milenar e peculiar autonomia do direito civil. Daí que o grande desafio é conjugar a dignidade da pessoa humana com a solidariedade social. A constitucionalização das obrigações. permanecendo válidos os princípios e regras imemoriais. exige-se a mediação da Constituição. cujos princípios necessariamente conformam as obrigações civis da contemporaneidade. mas. exigentes de consideração a interesses transindividuais e a deveres. a unidade herme13 12 . parecendo infenso às mutações sociais. 1. Ao longo de sua história no sistema romano-germânico. especialmente após as grandes codificações. com que conviveu. contemplando o futuro.

cumprindo-se reagir à sedução da aparente autossuficiência da legislação civil. Entre os modernos. Hannah Arendt (19794 188-220) sublinhou que o liberalismo. e não apenas dos sujeitos de relações jurídicas. a plenitude da pessoa dava-se com o domínio sobre as coisas. deixando a grande maioria fora de seu alcance. máxime com o advento de um novo Código Civil. Na história recente do direito. A mudança de atitude é substancial: deve o jurista interpretar o Código Civil segundo a Constituição e não a Constituição segundo o Código. no campo das obrigações. que impulsionou intensa transformação de conteúdo e fins. ao contrário dos antigos. e a convivência com os microssistemas jurídicos que persistirão. mas constante em sua aplicação. 1. pois "compreender que um Código Civil (e por isso. principalmente em face da perda de sua função unificadora do direito privado. cumprindo sua função de delimitação do Estado mínimo. a liberdade e a igualdade jurídicas. sob risco de envelhecimento precoce. Na antiga Roma os escravos exerciam a atividade económica (eram "livres" para exercê-la). ante as normas constitucionais fundamentais sobre as relações civis. mas sem interferência do Estado e sem consideração aos interesses sociais. principalmente para tutela dos contratantes vulneráveis e para proteção da vítima de danos. a codificação liberal e a ausência da constituição económica serviram de instrumento de exploração dos mais fracos pelos mais fortes. com o ser proprietário. nada regularam sobre as relações privadas. tradicionalmente mais estável que a Constituição. a segunda. Como a dura lição da história demonstrou. ao propor a permanente reconstitudonalização do direito civil. As primeiras constituições. incorporaram-se ao catálogo de direitos das pessoas humanas. têm firmados na Constituição de 1988 seus esteios fundamentais. gozar e dispor de sua propriedade. Ao Estado coube apenas estabelecer as regras do jogo das liberdades privadas.nêutica. o burguês livre do controle público. Nesse sentido é que entenderam o homem comum. gerando reações e conflitos que redundaram no advento do Estado social. sem contemplar os figurantes vulneráveis e as exigências de justiça social. Os Códigos cristalizaram a igualdade formal de direitos subjetivos. Livre é quem pode deter. que condicionam e conformam a observância pelos cidadãos. a da conquista da liberdade. como ocorria com frequência.2. mas a cidadania era-lhes vedada. o contrato e a responsabilidade civil. notadamente no direito das obrigações. houve duas etapas na evolução do movimento liberal e do Estado liberal: a primeira. reconstitucionalizando o conjunto de regras que integre esse corpo de discurso normativo" (2004: 18). Como legado do Estado liberal. alguns enriqueceram. pouco importando que seja submetido a uma autocracia política: o exemplo frisante foram as ditaduras militares que exasperaram o liberalismo económico. não obstante o nome. sem impedimentos. salvo os ditados pela ordem pública e os bons costumes. colaborou para a eliminação da noção de liberdade no âmbito político. rompendo a estrutura estamental fundada noyus privilegium. O Código Civil de 2002 surgiu em contexto completamente diferente de seu antecedente. portanto. principalmente as obrigacionais. Tem razão Luiz Edson Fachin. a da exploração da liberdade (Lobo. a constitucionalização foi antecedida e acompanhada de forte intervenção do legislador infraconstitucional no direito das obrigações. O paradigma do individualismo e do sujeito de direito abstraio foi substituído pelo da solidariedade social e da dignidade da pessoa humana. A fundamentação constitucional do direito privado não é episódica e circunstancial. a codificação. de sujeitos de direitos formalmente iguais. A liberdade dos modernos. é concebida como não impedimento. e a aplicação pelos tribunais. 15 . Os códigos civis tiveram como paradigma o cidadão dotado de património. Para os iluministas. no plano infraconstitucional. Em verdade. com a expansão da responsabilidade civil objetiva. o direito das obrigações conteve-se na liberdade e na igualdade formais. nomeadamente no campo da atividade económica. Cada um cumpriu papel determinado: o constitucionalismo. o de assegurar o mais amplo espaço de autonomia aos indivíduos. Impõe-se ao intérprete e aos apíicadores do direito a imensa tarefa de interpretar esse Código em conformidade com os valores e princípios constitucionais. Pode-se afirmar que a constitucionalização do direito das obrigações é o processo de elevação ao plano constitucional dos princípios fundamentais desse ramo do direito civil. 1986: 11). ou nos espaços jurídicos reservados às pessoas em razão de suas origens. o 'novo' Código Civil Brasileiro) é uma operação ideológica e cultural que deve passar por uma imprescindível releitura principiológica. tendo a Constituição como ápice conformador da elaboração e aplicação da legislação civil. ao longo do século XX. o de limitar profundamente o Estado e o poder político. vale dizer. AS ETAPAS DO CONSTITUCIONALISMO E A EVOLUÇÃO CONTEMPORÂNEA DO DIREITO DAS OBRIGAÇÕES O constitucionalismo e a codificação (especialmente os códigos civis) são contemporâneos do advento do Estado liberal e da afirmação do indivi14 dualismo jurídico. e nenhuma ordem jurídica democrática pode delas abrir mão. com destaque para o direito do consumidor. As duas principais espécies de obrigações civis. abstraídos de suas desigualdades reais. inexistentes no passado. ocorreu a inversão: livre é o que detém a livre-iniciativa económica. apesar de formais. da legislação infraconstitucional. Antes do advento do Estado social.

distingue-se da ordem pública de direção. e a do controle do contrato de adesão a condições gerais fizeram despontar a necessidade da prevenção e repressão dos abusos de poder dos fornecedores e predisponentes em detrimento dos contratantes vulneráveis. O direito tradicional encontrava-se mediocremente armado para sancionar os abusos e muito menos para preveni-los. no sentido de repor a pessoa humana como centro do direito civil. Impõe-se a materialização dos sujeitos de direitos. da equivalência material das prestações. A emersão do direito do consumidor. que são mais que apenas titulares de bens ou poios abstratos de relações jurídicas. Firmou-se a opinião entre os juristas de que as razões do direito são muito mais amplas que as razões do mercado. talvez por essa mesma razão. abalou os alicerces do Estado social. exprimida em sua regulação. fez submergir a pessoa humana. O direito das obrigações. Nem mesmo a onda de neoliberalismo e globalização económica. a prevalência do património. evitar os abusos e garantir o espaço público de afirmação da dignidade humana. entendida como de tutela das categorias de contratantes que se encontram em posição de inferioridade e que demandam a garantia de justiça contratual. ficando o património a seu serviço. A sociedade exige o acesso aos bens e serviços produzidos pela economia. A patrimonialização das relações obrigacionais. INSERÇÃO DO DIREITO DAS OBRIGAÇÕES NO ESTADO SOCIAL O Estado social. como valor individual a ser tutelado. que vinha da ética social de Aristóteles. voltada a impor certa concepção de interesse geral e de utilidade pública (Ghestin. Mazeaud e Chabas. o Estado social de direito "representa a tentativa de conjugar legalidade e justiça social" A ideologia do social. O desafio que se coloca aos civilistas é a capacidade de ver as pessoas em toda sua dimensão ontológica e. No Estado social houve o alargamento da responsabilidade solidária das partes e da competência do juiz para revisão dos negócios jurídicos. nas últimas décadas do século XX. inclusive pela brasileira (art. informação. Além do controle do poder político. traduzida em valores de justiça social ou de solidariedade social. a exemplo da legislação de proteção do consumidor. O individualismo liberal desprezou a antiga tradição. o domínio incontrastável sobre os bens. inclusive em face do arbítrio dos mandatários do poder político. que caracterizava o Estado liberal. A proteção do consumidor e as consequentes restrições à liberdade contratual traduzem-se "por um renascimento do formalismo e pelo desenvolvimento da ordem pública de proteção do consentimento do consumidor". a seguridade social. A restauração da primazia da pessoa humana. REPERSONALIZAÇÃO DO DIREITO DAS OBRIGAÇÕES A codificação civil liberal tinha. Franz Wieacker demonstra que o acontecimento mais importante quanto aos aspectos fundamentais da viragem do direito civil para o social foi o regresso do direito ao princípio da equivalência material. é todo aquele que tem incluído na Constituição a regulação da ordem económica e social. a saúde. Apreciando as transformações havidas no direito privado. todos com inegáveis reflexos nas dimensões materiais do direito das obrigações. inclusive com o advento de direitos tutelares de novas dimensões da cidadania. é incompatível com os valores fundados na dignidade da pessoa humana. é a condição primeira de adequação do direito à realidade e aos fundamentos constitucionais. Todavia. e a expectativa da previsibilidade da evolução da economia. no sentido de primazia. A repersonalização reencontra a trajetória da longa história da emancipação humana. em razão da mutação funcional do ordenamento normativo numa sociedade dominada pela solidariedade social (1980: 598-626). como valor necessário da realização da pessoa. a cultura.3. através dela. máxime da atividade económica. paradoxalmente quando o Estado social entrou em crise. especialmente no direito das obrigações. a educação. na busca de um humanismo socialmente comprometido (Amaral. juridicamente tutelados. A teoria dos vícios do consentimento não permitia remediar todas as situações injustas. passou a dominar o cenário constitucional do século XX. O património. a recusa do liberalismo em relação a uma relativização das obrigações assumidas pelas alterações de valor verificadas no mercado. tem relação com essa função instrumental. que passou a figurar como simples e formal polo de relação jurídica. para o que contribuíram a ética da liberdade e da responsabilidade de Kant e Savigny. permanecendo cada vez mais forte a necessidade da ordem económica e social. 1998: 28). o meio ambiente. 1. incluindo o trabalho. lc. como sujeito abstraído de sua dimensão real. além de estar conformado aos princípios e valores constitucionais que a protegem. para fazer prevalecer o interesse social. O homem abstrato do liberalismo económico cede espaço para o homem concreto da sociedade contemporânea. que agitou o último quartel do século XX. controlam-se os poderes económicos e sociais e projeta-se para além dos indivíduos a tutela dos direitos. em torno do qual gravitavam os demais interesses privados. suas relações patrimoniais e económicas. seu património.4. 1998: 160). realizava a pessoa humana. Daí a inafastável atuação do Estado. a ordem pública de proteção. no plano do direito. É certo que as relações obrigacionais têm um forte cunho patrimonializante. superioridade financeira).1. 16 em virtude de sua proeminência no plano do conhecimento (técnico ou jurídico) ou da economia (monopólios. a moradia. principalmente em face da violência económica (Mazeaud. 17 . Na síntese de Pietro Perlingieri (2008: 14). nas relações civis. III). 1993: 119). ainda que essencialmente voltado às relações económicas da pessoa. adotados pelas Constituições modernas.

o distanciamento de seus fundamentos constitucionais muito contribuiu para a crítica dirigida à doutrina tradicional. e cristaliza-se a ideologia constitucionalmente estabelecida. da tradição dos juristas. nesse posicionamento esconde-se uma porção de pathos liberal. constituído de bens e créditos. é imprescindível como suporte de realização do princípio da dignidade humana (Fachin. não apenas na dimensão formal. políticas e económicas do indivíduo" (Reiser. Extrai-se da Constituição brasileira. É na ordem económica e social que emerge o Estado social. O contrato assim gerado passa a ser lei entre as partes. que garanta a sobrevivência de cada um. dentre os quais as obrigações em geral. na funcionalização de seus institutos centrais. determinante do conteúdo e dos limites da liberdade contratual. XXXVI (garantia do ato jurídico perfeito). Certamente. isto é. realizando uma função individual de harmonização de interesses antagónicos. diz justo.Orlando de Carvalho (1981 90) julga oportuna a repersonalização de todo o direito civil — seja qual for o invólucro em que esse direito se contenha —. Na acepção tradicional e liberal tem-se o contrato entre indivíduos autónomos e formalmente iguais. Ante esse paradigma. em viragem completa. mas toda a ordem económica. 5Q. Vincula-se o contratante ética e juridicamente. superior à ordenação pelo Poder Público (Westermann. que implicam condicionamentos e comportamentos interindividuais realizados num contexto social (Ciocia. mas a concepção de um património mínimo. Os princípios gerais da atividade económica. compreende-se que. I (solidariedade social). como aspecto da realidade social organizada. O contrato encobre-se de inviolabilidade. a ela condicionando os interesses individuais. segundo o esquema clássico da oferta e da aceitação. da propriedade privada. sobretudo. na conhecida fórmula pacta sunt servanda. FUNDAMENTOS CONSTITUCIONAIS DO CONTRATO A ordem económica realiza-se. 24). 3Q. E o direito privado cumpre papel imprescindível nessa direção. segundo a ideia de livre jogo das forças.33). 170 da CF). não apenas ele. na Constituição liberal. conforme os ditames da justiça social" (art. com a liberdade contratual. fundado no princípio da solidariedade social. iniciativa). Essa visão idílica da plena realização da justiça comutativa. que. 1983. da sua ligação visceral com a pessoa e os seus direitos. 3Q 19 .5. pode ser retratada na expressiva petição de princípio da época: quem diz contratual. principalmente. Para o desenvolvimento da personalidade individual é imprescindível o adimplemento dos deveres inderrogáveis de solidariedade. A crítica do direito das obrigações acentuou. o contrato esteja ausente. da defesa do meio ambiente). O Código Civil de 2002. 170 (princípios do trabalho humano. esclarece Pietro Perlingieri que não se projeta a expulsão ou a redução quantitativa do conteúdo patrimonial no sistema jurídico e especialmente no civilístico. Com efeito. A Constituição Federal brasileira apenas admite o contrato que realiza a função social. 2000: 12). da livre concorrência. não é eliminável. foram as principais reivindicações do programa liberal que se proponha a alcançar o bem-estar liberando as forças morais. 173. do cidadão puro e simples. 1Q. e que considera a desigualdade material das partes. é essa centralização em torno do homem e dos interesses imediatos que faz o direito civil. A justiça social importa "reduzir as desigualdades sociais Q regionais" (art. IV (valores sociais do trabalho e da livre. inclusive em face do Estado ou da coletividade. para esse autor. no plano geral do direito das obrigações convencionais. do cidadão mediano. da justiça social. Os fundamentos jurídicos essenciais do direito contratual estão. contidos nos arts. porquanto o momento económico. além do macroprincípio da dignidade da pessoa humana: arts. § 4a (repressão do abuso do poder económico). A atividade económica é um complexo de atos negociais direcionados a fins de 18 produção e distribuição dos bens e serviços que atendem às necessidades humanas e sociais. da Constituição brasileira de 1988. mediante contratos. vínculo que tanto é mais legítimo quanto fruto de sua liberdade e autonomia. na dimensão da igualdade ou equivalência material. 5Q. da liberdade de atividade económica. assim. 1990: 54). em razão dos valores incorporados em suas normas. mas. 1. que não admitia qualquer interferência do Estado-juiz ou legislador. 174 (Estado como agente normativo e regulador da atividade económica). estabelecidos na Constituição. A divergência concerne à avaliação qualitativa do momento económico e à disponibilidade de encontrar. o foyer da pessoa. introduz a regulamentação geral dos contratos com o princípio da função social. a acentuação de sua raiz antropocêntrica. a falta de consideração às relações sociais de poder e de dependência. a ordem económica tem por finalidade "assegurar a todos existência digna. "A autonomia privada. a liberdade de exercício da propriedade e a liberdade de comércio e profissional. com razão. da função social da propriedade. 170 e s. Nessa mesma direção. demonstram que o paradigma de contrato neles vertido e o paradigma da codificação liberal não são os mesmos. da defesa do consumidor. sob o ponto de vista jurídico-constitucional. do consentimento livre e da igualdade formal das partes. Firma-se a convicção de que o domínio sobre as coisas não é um fim em si mesmo. XXXII (defesa do consumidor). É essa valorização do poder jurisgênico do homem comum. o paradigma liberal de prevalência do interesse do credor e do antagonismo foi substituído pelo equilíbrio de direitos e deveres entre credor e devedor. 2001 303). na exigência da tutela do homem. um aspecto idóneo para atribuir-lhe uma justificativa institucional de suporte ao livre desenvolvimento da pessoa (1997.

o poder dominante de um e a vulnerabilidade jurídica de outro. através de entidades representativas. são predispostas pela empresa a todos os adquirentes e utentes de bens e serviços. onde ficou insulada pelo individualismo jurídico. da forma como foi assinado ou celebrado. na atualidade. porque partia do princípio da igualdade formal dos contratantes. 1. já amplamente utilizadas no meio trabalhista. de cooperação e de boa-fé na execução dos contratos podem ser consideradas sob a noção de solidarismo contratual" (Grynbaum. o Código de Defesa do Consumidor subtraiu da regência do Código Civil a quase totalidade dos contratos em que se inserem as pessoas. o consentimento livre é substituído por uma. acordos são firmados estabelecendo regras 20 de convivência comunitária. estão contemplados pelo Código de Defesa do Consumidor. mas que o direito desconsiderava. O principal giro de perspectiva que se observa na compreensão do contrato. A doutrina frequentemente localiza o fundamento constitucional da autonomia privada no princípio da livre-iniciativa (art. que regulamenta a relação contratual de consumo. consentimento dos pais para o casamento de filho menor de dezesseis anos (art. pelos arts. fundada nos valores constitucionais. A legislação contratual clássica é incapaz de enfrentar adequadamente esses problemas. pois pressupõem um Estado mínimo e total liberdade ao mercado. Os atos de autonomia têm fundamentos e fins variados. que perpassa todos os fundamentos constitucionais a ele aplicáveis. voltados à proteção dos contratantes vulneráveis. 1. que estabelece a nulidade de eleição de foro no contrato de adesão. ou. ou o reconhecimento voluntário de filho havido fora do casamento (art. mas sem dimensão económica. as condições gerais dos contratos podem alcançar números gigantescos de destinatários. portanto. que é pressuposta ou presumida pela lei. seja para corrigir os desequilíbrios supervenientes. Seu âmbito de abrangência é enorme.517 do Código Civil). 170 da CF). segundo as regras da experiência ordinária. prevê a convenção coletiva para regular os interesses dos consumidores e fornecedores. 21 . de 16 de fevereiro de 2006. pois alcança todas as relações havidas entre os destinatários finais dos produtos e serviços lançados no mercado de consumo por todos aqueles que a lei considera fornecedores. como hoje já tratamos de modo muito mais jurídico. mas se sua execução não acarreia vantagem excessiva para uma das partes e desvantagem excessiva para outra. a exemplo do inquilino. igualmente referidos no Código Civil. relação de poder e submissão.280.609). Na perspectiva do pluralismo jurídico. por igual. para prevalecer o juízo do domicílio do réu. No Brasil. As condições gerais dos contratos. desfrutando uma legitimidade que desafia a da ordem estatal. aferível objetivamente. sem contemplar as suas potências económicas. governamental e judicial). do aderente. converte-se em instrumento de exercício de poder. em seu modelo tradicional. Assim. e. incompatíveis com a Constituição as políticas económicas públicas e privadas denominadas neoliberais. os contratos de adesão a condições gerais. ou o pacto antenupcial para escolha do regime matrimonial de bens (art. o que torna imperiosa a concretização dos princípios constitucionais aplicáveis à atividade económica. a autonomia privada abrange universo muito mais amplo que a atividade económica. por exemplo. para realização desses superiores interesses e valores sociais e de realização da dignidade humana. seja para manter a proporcionalidade inicial dos direitos e obrigações. encerrando longa controvérsia jurisprudencial. pouco importando que as mudanças de circunstâncias pudessem ser previsíveis. Outro interessante campo de transformação da função dos contratos é o das negociações ou convenções coletivas.. Na economia oligopolizada existente em nossas sociedades atuais. 423 e 424 do Código Civil e pela Lei n. todavia. ex. a qual só faz sentido por perseguir a função social e a tutela jurídica dos mais fracos e por supor a intervenção estatal permanente (legislativa. como se dá com os planos de saúde. dispensando a regulamentação da ordem económica. O Código de Defesa do Consumidor. vale dizer.e inciso VII do art. quando vinculados a relações de consumo. "As ideias que se exprimem sob a forma de obrigação de lealdade. 2004: 33). 1. Talvez uma das maiores características do contrato. os atos de autonomia nas relações familiares. verdadeiros códigos normativos privados. O que interessa não é mais a exigência cega de cumprimento do contrato. para os demais. o contrato. São. do poder contratual dominante que nunca deixou de haver. Esse princípio preserva a equação e o justo equilíbrio contratual. 11. que rivaliza com o monopólio legislativo do Estado. Em certas áreas. À medida que a sociedade civil se organiza. Na concepção atual. no plano infraconstitucional. em que se inscrevem os autores comprometidos com o movimento visando a estabelecer uma compreensão social do direito contratual. Consentir no transplante de órgão é ato de autonomia privada. em seu cotidiano de satisfação de necessidades e desejos económicos e vitais.639). no contexto atual. do consumidor. seja o crescimento do princípio da equivalência material das prestações. Nessas situações. Uma das mais importantes realizações legislativas dos princípios constitucionais da atividade económica é o Código de Defesa do Consumidor. do trabalhador. o contrato coletivo apresenta-se como um poderoso instrumento de solução e regulação normativa dos conflitos transindividuais. os que desenvolvem atividade organizada e permanente de produção e distribuição desses bens. Esse princípio conjuga-se com os princípios da boa-fé objetiva e o da função social. 170 da Constituição). é a consideração do poder que cada participante exercita sobre o outro. p. constituindo em muitos países o modo quase exclusivo das relações negociais.

c) a reparação pode consistir em prestação de fazer. § 6a. esta sim de fundamento constitucional. no interesse social. 5Q. máxime em se tratando de violação à dignidade da pessoa humana. podendo ser cumulado com o dano material. identidade pessoal. na primeira hipótese. b) a reparação deve ser completa. conquistada historicamente pela revolução liberal. XXIII. proporcional ao agravo recebido pelo ofendido. com ponderações de razões e segundo as regras de experiência comum. encontra-se o art. da responsabilidade civil. ex. autonomia privada e até mesmo liberdade contratual não se confundem com livre-iniciativa. art. da responsabilidade social que o envolve. indicando ao intérprete o parâmetro hermenêutico a ser seguido. especialmente o Código Civil. podem ser listados os incisos V. 931 do Código Civil. 2002: 97). em virtude de dano causado por produto que lançar em circulação. que não se resume apenas à tradicional indenização pecuniária. o direito irrestrito ao dano moral. depois de concluída a exploração de jazida mineral. ou. não permite a Constituição que os danos morais sejam objeto de limitação de valor pelo legislador infraconstitucional. A Constituição (art. pela ausência de papéis claros da sociedade e do Estado. 5Q. como afirmou explicitamente o Conselho Constitucional francês. definitivamente. na segunda hipótese. vender um objeto usado para outrem) que não se inserem em atividade económica. 23 . entendia-se que eventuais danos pelo uso ou aquisição de produtos fabricados pela indústria deviam ser assumidos inteiramente pela vítima. intimidade. 245.6. permitindo ao intérprete deles extrair um sistema básico que informa e conforma a legislação aplicável. ao contrário. na perspectiva da sociedade democrática e de efetivos exercícios de direitos sociais. liberdade. Se a liberdade contratual fosse princípio constitucional estaria imune à intervenção do legislador infraconstitucional que lhe impusesse limites negativos e positivos. no interesse geral. ainda que lícita. X. cabendo ao juiz fixá-los no caso concreto. na linha da primazia da dignidade humana. que marcam a transformação contemporânea da responsabilidade civil: a primazia do interesse da vítima. § 5Q. que imputa responsabilidade totalmente objetiva à empresa. vida privada. apenas é referida pela Constituição de modo indireto. 173. mediante o qual não pode o legislador ou o intérprete dar tratamento desigual aos danos. As hipóteses tratadas pela Constituição são voltadas essencialmente à afirmação de três valores. integridade física e psíquica). contra o absolutismo monárquico. algo inteiramente aplicável ao Brasil: "nenhuma norma de valor constitucional garante. modificar. 6a). não podendo ser instrumento de valorização do interesse patrimonial. de modo que não sejam irrisórios nem demasiados. para definir a responsabilidade subsidiária do agente cuja ação ou omissão deu causa à imputação objetiva da responsabilidade do Estado ou da empresa concessionária de serviços públicos (cf. A Constituição adota diversas modalidades de reparação. a liberdade contratual não pode ser concebida como direito fundamental (Reiser. segundo considerações que importem variação da carga probatória exigida da vítima ou exclusão de imputabilidade do responsável. A intensa transformação do direito à reparação civil. XLV e LXXV do art. Por tais razões. 199773). invertendo-se o interesse da vítima em compensação simbólica e estímulo indireto à repetição da lesão. que em determinadas situações pode ser mais adequado e reparador que a indenização em dinheiro. como ocorre com o Código de Defesa do Consumidor. Dentre elas: a) fica assegurado o direito de resposta. que sempre foi objeto de reações e controvérsias quanto à sua admissibilidade. em suma. simplesmente. FUNDAMENTOS CONSTITUCIONAIS DA RESPONSABILIDADE CIVIL A Constituição Federal destinou vários dispositivos legais dispersos à responsabilidade civil. em razão do risco criado ou do risco da atividade. do direito dos danos. A primazia do interesse da vítima tem sido valorizada pela afirmação específica do princípio constitucional da igualdade. 225. 21. Nessa direção.141. ab-rogar ou completar legislação anterior. A culpa. honra. 1990: 92). 37. demonstra que o "instituto é eminentemente contemporâneo e marcado por algumas contradições" de ordem ética (Hironaka.No âmbito económico. X) consagrou no direito brasileiro. Nesse dispositivo ressalta-se o vínculo que há de ser obser22 vado entre dano moral e violação de direitos da personalidade (vida. Dos preceitos constitucionais denota-se a preferência pela responsabilidade objetiva. 236. a exemplo da recuperação do meio ambiente. Por outro lado. que estabelece profundas restrições ao poder negociai dos fornecedores de produtos ou serviços. sendo estranhos ao princípio da livre-iniciativa. 37. o princípio da liberdade contratual". mediante atividade empresarial lícita e autorizada. No âmbito dos direitos e garantias individuais. para admitir que o legislador possa. em 1994. pois seria o preço a pagar pelo progresso e desenvolvimento industrial. nem resultem em enriquecimento injustificado. Outros dispositivos específicos: arts. ainda que decorrente de fato lícito. imagem.. No passado. §§ 2Q e 3Q. 1. que marcou a natureza da responsabilidade civil tradicional. entendida como a liberdade de empreendimento ou de empresa. c. há muitos atos que se celebram entre particulares (p. não se atendo aos danos materiais. § 1Q. Assim. intervindo nas relações privadas (Molfessis. independentemente de culpa. a máxima reparação do dano e a solidariedade social.