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A BEATITUDE PELA VIDA CONTEMPLATIVA EM TOMÁS DE AQUINO1

Nadir Antonio Pichler2
Resumo: O propósito desta pesquisa é descrever e analisar o sentido da beatitude pela atividade contemplativa na filosofia moral de Tomás de Aquino. Assimilando, remodelando e criticando a tradição filosófico-teológica antiga a medieval, Tomás estrutura uma síntese original, mergulhando na essência da natureza divina e humana, para, a partir daí, erigir os pilares de uma ontologia teocêntrica, onde Deus é o bem supremo. O texto está organizado em quatro itens: contexto da virtude, a excelência da alma intelectiva, pela atividade e as razões da vida contemplativa e pela comparação entre a vida ativa e a contemplativa. Palavras-chave: Beatitude. Alma intelectiva. Vida ativa e contemplativa. The beatitude for the contemplative life in Thomas Aquinas Abstract: The purpose of this research is to describe and analyze the meaning of the beatitude for the contemplative activity in Thomas Aquinas’s moral philosophy. By assimilating, remodeling and criticizing the philosophical-theological tradition, from the old to the medieval one, Thomas structures an original synthesis, deepening in the essence of the divine and human nature so that he is able to build the pillars of a theocentric ontology, where God is the Supreme Being. This text is organized in four topics: the virtue context, the excellence of the intellective soul, the activity and the reasons of the contemplative life and the comparison between the active and contemplative life. Keywords: Beatitude. Intellective soul. Active and contemplative life.

Contexto da beatitude
A felicidade, desde a Modernidade, parece centrar-se cada vez mais no mundo das coisas e voltar-se para a filosofia do mercado econômico globalizado, engendrado principalmente pela mídia, como essencialmente restrita ao ato de consumir. Parece que todas as atividades humanas, direta ou indiretamente, estão vinculadas ao mundo econômico e tecnológico. O capitalismo globalizado, sobretudo o econômico e comercial, por meio da Organização Mundial do Comércio, do Banco Mundial, das bolsas de valores, do Grupo dos Sete, dentre outros, estáse inserindo e fortalecendo, mesmo com crises, como um sistema hegemônico. A

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O artigo foi recebido em 08 de junho de 2010 e aprovado por parecerista ad hoc mediante parecer de 03 de março de 2011. Doutor em Filosofia e professor de Filosofia na Universidade de Passo Fundo (UPF), RS. Contato: nadirp@upf.br

do capitalismo globalizado. e das diferentes “eras”. ainda está mergulhado no ativismo. Assim. na contemporaneidade. que se deve buscar o valor mais nobre. que é sua perfeição segunda. liberdade efêmera. nos bens do corpo. isto é. Estudos Teológicos São Leopoldo v. apresenta o consumo como o bem supremo. e já inclusive a oriental. as virtudes cívicas etc. Hans Jonas. 51 n. o bem supremo atual. Inclusive a natureza humana foi transformada num instrumento privilegiado em função da idolatria do mercado. nos bens materiais. em consonância com a tradição das éticas teleológicas antigas e medievais. com sua subjetividade fragmentada. toda a realidade foi objetivada. É nos bens da alma. com o advento da técnica e tecnologia. em sua maior parte. em busca de uma vida bem-sucedida. líquida. na fortuna. na ausência de valores sólidos que deem sentido à vida. da razão instrumental etc. está diante do vazio existencial. assegurada por meio do marketing e da propaganda. 8-21 jan. mas ainda continuam válidos. capaz de atingir um fim próprio: A operação própria de qualquer coisa é o seu fim. mais angustiado ele se torna. entre outros. homem e natureza. aquilo que perfeitamente corresponde a uma operação chama-se virtuoso e bom. os fundamentos e ensinamentos éticos do Aquinate não se destinaram somente para seu tempo. Ou seja. social e cultural e o bem-estar da humanidade. A idolatria do mercado. Os valores que sustentavam a civilização ocidental. considerando os contextos diferentes. nessa festa do consumo. parece ser. Diante disso. superficial. estão-se dissolvendo com o avanço da razão instrumental ou era da cibernética. em todas as dimensões da vida humana. de acordo com a tese de Aristóteles. na secularização. na convivência com os amigos. Adela Cortina. segundo a análise de pensadores como Heidegger. de modo especial os produtos supérfluos. específico e divino do homem. Leonardo Boff. mas nos bens da alma. 1 p.. O bem supremo não se estrutura no mundo exterior. mas a busca pela autonomia. 2011 9 . pelo dinheiro. Vejamos. As antigas certezas culturais e morais jazeram por terra. nem nos prazeres do corpo e nos prazeres em geral. único e absoluto. Por isso que o bem supremo atual não é mais a prática das virtudes.A beatitude pela vida contemplativa busca pelo lucro. principalmente com a concepção aristotélica. Enfim. Por isso. o único caminho viável para o crescimento e desenvolvimento econômico. hoje. a busca pela contemplação da natureza dos deuses e do Deus pessoal./jun. Tomás. em detrimento da exploração exacerbada dos recursos naturais do planeta e suas consequências. E quanto mais o homem consome. qual era a concepção de Tomás de Aquino de beatitude ou felicidade e em que sentido é possível nos apropriarmos de seus pressupostos. Gadamer. então. o ideal da pátria. que é o seu intelecto. o homem. Se na época de Tomás de Aquino havia uma unidade entre Deus. tudo está voltado ao consumo desenfreado. isto é. entre outros. Habermas. desorientado e inseguro. também afirma que o bem supremo do homem é a beatitude e é um bem que se refere à alma intelectiva. na instabilidade e na mutabilidade da busca da qualificação profissional. o homem atual. sucintamente. Aliado a esse fator.

e como o agir segue o ser. p. nas operações que não se ordenam a efeitos exteriores. Assim. de todas as criaturas e de acordo com a visão de mundo da época medieval. Tomás. criador e portador de sentido para todos os seres criados. a intelecção é a operação própria da substância intelectual. 25. a operação sempre aspira a um fim. 159.). E se não fosse assim. LANDIM. hoc in ultimus finis: et praecipue in operationibus quae non ordinantur ad aliqua operata. unde quod ad propriam operationem bene se habet. capaz de unir-se a ele também de modo especial.Nadir Antonio Pichler Ora. 3 4 5 6 AQUINO. Por isso. 2007. Porto Alegre: EST. Dessa forma. 8-21 jan. In: STEIN. c. 37. De Boni. sicut est intelligere et sentire”. Porto Alegre. Porto Alegre: EDIPUCRS. Todas as criaturas. na busca teleológica do ser primeiro e último. devido à sua inteligência e liberdade. p. às essências puras. Ora. Nas próximas citações. 10 Estudos Teológicos São Leopoldo v. p. como são os conhecimentos sensitivo e intelectivo3. o ser primeiro. A excelência da alma intelectiva A função específica da alma intelectiva é dirigir-se teleologicamente às coisas mais nobres. p. Veritas. 1995. Johann Baptist. inclusive as destituídas de racionalidade. DE BONI. “Tomás de Aquino e Boécio de Dácia: Leitores dos clássicos a respeito da felicidade”. atualizando uma espécie de segunda natureza. e de certa forma ainda atual. tratar-se-ia apenas de uma Teologia grega com materiais cristãos”6. É nesse sentido que o pensamento de Tomás. ou seja. ordenam-se a Deus enquanto fim e participam da semelhança divina. em última instância. 79. III. é alcançar o que existe de mais perfeito no gênero da operação do conhecimento intelectivo. 1996. mesmo acolhendo tradição filosófica e teológica precedente. 2011 . O antropocentrismo cristão de Tomás de Aquino.”5 É nesse sentido que toda a síntese filosófica. antropológica e teológica está ancorada e estruturada na busca pelos atributos da unidade do ser. 1 p. A cidade dos homens e a cidade de Deus. Ernildo (Org. METZ. Revisado por Luis A. 517-531. 51 n. Mas o homem atinge. 2007. Maria Luiza P. Suma contra os gentios. n. 40. Ipsa igitur est finis eius. Odilão Moura. 525. porque é uma criatura à imagem e semelhança de Deus. dicitur virtuosum et bonum. 2. Luis Alberto. o que é perfeitíssimo nesta operação é o fim. set. SCG. de modo especial. In: STEIN. procurar compreender o inteligível perfeitíssimo. essa plenitude do seu ser./jun. o homem é o único ser capaz de compreender e explicar a ordem do universo. sobretudo. A relação homem-natureza em Tomás de Aquino e na modernidade. v. Traduzido por D. “Ele é o ser por excelência e o líder da criação. ele é especificado pelo objeto. F. Intelligere autem est propria operatio substantiae intellectualis. p. Daí “conclui-se que o fim do homem é conhecer o que existe de mais perfeito na ordem do inteligível”4. 419: “Propria operatio cuiuslibet rei est finis eius: est enim secunda perfectio ipsius. que é o seu fim. Quod igitur est perfectissimum in hac operatione. “é um modo de pensar absolutamente novo.

quam in perfecta cognitione quam habet de rebus infimis. que no pensamento de Aristóteles ocupava-se das coisas mais nobres. enquanto as ciências e as artes práticas. de outro. sendo que aquelas ordenam-se a estas. por meio da contemplação. utpote ab ipsa accipientes sua principia. bem como a seu fim último. 421: “Hoc autem modo se habet philosophia prima ad alias scientias speculativas. Estudos Teológicos São Leopoldo v. Suma contra los gentiles. 25. que tratam do conhecimento da ordem natural. p. et amat. Assim. 1 p. embora apreenda menos delas do que do perfeito conhecimento que tem das coisas ínfimas. É a filosofia a serviço da revelação. con el texto crítico de la leonina. e terminam com testemunhos da Sagrada Escritura. p. 8-21 jan. Deus é a primeira e a última verdade a ser buscada pela inteligência humana. 51 n. de um lado. 5. 1967. filosóficos. Isso é possível porque seus objetos são os supremos inteligíveis. et directionem contra negantes principia: ipsaque prima philosophia tota ordinatur ad Dei cognitionem sicut ad ultimum finem. a filosofia primeira. Edición bilíngüe en dos tomos. Essa última tese de Tomás encontra-se subjacente nos argumentos desenvolvidos nos livros I. 7. o II coloca Deus como primeiro princípio de todas as coisas e a prossecução das criaturas do mesmo. Intellectus autem humanus magis desiderat. o III apresenta Deus como fim último e reitor 7 8 9 SCG III. Nesses livros. ou seja. 420: “Unumquodque maxime desiderat suum finem ultimum.8 Assim. possuem um fim último voltado para o saber fundado em princípios diretivos e normativos de todas as ciências. p. a razão é assegurada pela fé.9 Nesse sentido. orienta sua vida para uma dimensão superior. 25. como conhecer e contemplar a natureza e a magnitude de Deus. em Tomás de Aquino também recebe esse estatuto de ciência divina. Por isso as ciências especulativas são. quamvis modicum quidem de illis percipere possit. Tradución de Jesus M. c. nam ab ipsa omnes aliae dependent. o sábio. 2011 11 . os mais imateriais intuitivamente imagináveis. partem de argumentos racionais./jun. c. unde et scientia divina nominatur. perenes e divinas. possuem fim em si mesmas. 4. Madrid: BAC. Enquanto que no livro IV. Tomás inicia com explicações e análises da Sagrada Escritura e termina com proposições filosóficas. Castellano e Introdución de Jesus M. Por isso cada criatura deseja em plenitude o seu fim último. Est ergo cognitio divina finis ultimus omnis humanae cognitionis et operationis”. amáveis em si mesmas e. Martinez. E aquilo que a alma intelectiva mais deseja é o conhecimento das coisas divinas. AQUINO.A beatitude pela vida contemplativa Isso é justificado recorrendo à tese neoplatônica de ascensão dos seres ao princípio unitário. que trata da ordem sobrenatural. como a filosofia primeira ou a ciência divina. II e III da Suma contra os gentios (SCG). SCG III. como a náutica. Por isso ela é chamada de ciência divina. et delectatur in cognitione divinorum. Tomás. são buscadas e desenvolvidas pelo homem para fins práticos.7 Além disso. o livro I da SCG trata de Deus como ser absoluto em si mesmo pela razão natural. as ciências especulativas. Est igitur ultimus finis hominis intelligere quoquo modo Deum”. Assim também a filosofia primeira ordena-se ao conhecimento de Deus.

Aquilino. principalmente da substância intelectual. AQUINO. La intención última del Santo al escribir esta obra sigue siendo asunto de discusión entre eruditos aunque es claro el interes por manifestar la ‘doble verdad’ que profesa la fe en razón del modo como el entendimiento humano se situa” (CAYUELA CAYUELA. 2007. v. no exento indirectamente de impronta apologética. É nesse contexto que a expressão “o agir segue o ser” toma forma. porque o homem não é um fragmento qualquer do ser primeiro e absoluto. 1967. princípio. donde en la propia cristiandad confluían diversas tradiciones teístas con las que el Aquinate entabla diálogo. como o universal. p.12 Diante disso. Todavia. p. o desejo da alma intelectiva é permanecer perpétua. e se sua alma específica possui esses e outros atributos acima. Cayuela Cayuela resume: “La Suma contra Gentiles es el reflejo del ambiente cultural del occidente del siglo XIII. Deus é o reitor. com relação às criaturas racionais. e o IV é um complemento teológico dos três primeiros. 1997. Felicidad y providencia: el horizonte de la fundamentación moral en el libro III de la Suma contra los gentiles de Tomás de Aquino. 51 n. METZ. O bem ou a beatitude desejada. Studium. 221-222. 44. la cual. bajo la razón de fin último. 66. tal debate supone además una síntesis teológica (doctrina fidei) que integra el pensamiento filosófico de los filósofos no cristianos. 12 Estudos Teológicos São Leopoldo v. para Tomás de Aquino. É por causa desse fim nobre que a alma intelectiva possui essas propriedades. Traduzione di Alessandro Trotta con la collaborazione di Carlo Ghielmetti. principalmente os humanos. é capaz de realizar em ato conhecimentos intelectivos de objetos inteiramente imateriais. incorruptível e imortal. Milano: Vita e Pensiero. p. 39. de acordo com o 10 11 12 13 Em relação ao horizonte da fundamentação moral do livro III da SCG. mas allá del ‘comentario’ o del sometimiento al interés didáctico. no es más que la realización o actualización de dicha tendencia u ordenación. Pero trátase de un fin a conseguir y de una ordenación ou tendencia al mismo. já nesta vida. concernente à beatitude humana.10 Especificamente em relação ao livro III.Nadir Antonio Pichler universal de todos os seres. Afinal. pela qual exerce a atividade do conhecimento. 2011 . Madrid. por meio da faculdade da inteligência e da vida contemplativa. enquanto ordenação. Tomás de Aquino afirma que todo ente criado depende do ser primeiro em três sentidos: enquanto ser. y las criaturas. o absoluto. 2004). conclui-se que ela tem todos os atributos para ser imaterial. o guia e o caminho universal. todo lo ser se ordena y tiende a conseguir su fin por su operación. prática de vida. finito. concediendo un gran valor especialmente a la filosofía de Aristóteles e de Avicena. 5: “Dios. ou seja. efetivamente ele deve possuir um fim nobre. e enquanto operação. o infinito. o eterno. ARNOU. El obrar sigue al ser”. 8-21 jan. en cuanto a El ordenadas.11 Ou seja. René. constituyen el objeto o materia propia de este libro [III].13 Se a operação ou função própria do homem é a da alma intelectiva ou racional. Presentazione di Giovanni Reale. aos atos humanos. provisório. de carácter filosófico. todas as operações humanas dirigem-se a esse bem. p. no de un fin ya conseguido. en realidad. que é Deus. Tomás de Aquino [. Ahora bien. Il desiderio di Dio nella filosofia de Plotino.. Deus é o primeiro princípio. esse bem não é qualquer bem particular.. razão e fim de todas as criaturas./jun. Deus é o fim último. Por isso que a atividade da alma intelectiva.] pretende mostrar con ello la inteligibilidad de la fe frente a otras tradiciones rivales y lo hace con una obra enteramente personal. Assim. 1 p. as ações têm um itinerário metafísico para perseguir.

2. p. É ela que move o apetite propondo-lhe um objeto peculiar. 1057: “Si aliquis. Portanto. Porto Alegre: Sulina Editora. c. c. infinito e perene. 100. 2007. 1980. de modo necessário. 15. c. Se o fim do intelecto é o fim de todas as operações humanas. Grifos do autor. 3. Rio de Janeiro: Agir. terá a sua perfeição pela união com Deus como o objeto em que só consiste a beatitude do homem18. E assim. LANDIM. p. ed. 8. Ad perfectam igitur beatitudinem requiritur quod intellectus pertingat ad ipsam essentiam Estudos Teológicos São Leopoldo v. move os apetites sensitivos. Jacques. e esta perquirição não repousa até que chegue a conhecer a essência da causa.. intellectus invenitur superior motor: nam intellectus movet appetitum. criador de tudo. o apetite intelectivo./jun. para a felicidade perfeita é necessário atingir a essência mesma da causa primeira. Cmt 10.. AQUINO. movet appetitus sensitivos. 25. cognoscens eclipsim solis. p.. 14 15 16 17 18 MARITAIN.16 Essa afirmação está em concordância com a sentença de Aristóteles. 8. o seu fim e bem é a verdade primeira. admirando-se. [. 2080-2087)”17. quia nescit quid sit.14 Assim como todos os agentes e moventes ordenam-se ao primeiro agente e movente. 79. [. 1973. Por isso encontra-se intrínseco no homem o desejo de conhecer a causa de tudo.A beatitude pela vida contemplativa télos. [. a dimensão intelectiva apresentase como o motor superior de todas as partes do homem. proponendo ei suum obiectum. 25. SCG III. Deus é naturalmente colocado como o objetivo final da vida humana. Reedição feita por Rovílio Costa e Luís Alberto De Boni. admiratur. p. et admirando inquirit.].]. 2011 13 . Deus. considerat quod ex aliqua causa procedit: de qua. admira-se e. 8-21 jan. Suma teológica. Finis igitur intellectus est finis omnium actionum humanarum. segundo Tomás. que é a vontade. Essa. como fim último. de acordo com o exemplo citado por Aristóteles: Quem contempla um eclipse do sol. appetitus autem intellectivus. Finis autem et bonum intellectus est verum”. p. e se refere à visão do que há de contemplável (X Ética 7. concordat. 1177a. caracterizado como beatitude.. perquire. Deus. A filosofia moral: exame histórico e crítico dos grandes sistemas. capaz de satisfazer em plenitude a alma intelectual pelo conhecimento do ato puro. Traduzido por Alexandre Corrêa. não sabendo qual seja. qui est voluntas. Assim. q.]. qui sunt irascibilis et concupiscibilis. considera-lhe a causa e. porque todas as criaturas ordenam-se ao princeps analogatus. 1 p. A atividade da vida contemplativa Sendo a filosofia moral de Tomás de Aquino essencialmente cristã. nec ista inquisitio quiescit quousque perveniat ad cognoscedum essentiam causae. constituídos pelo irascível e concupiscível. I-II. 422: “Huic etiam sententiae Aristoteles in ultimo Ethicorum.. 421: “Inter omnes autem hominis partes. ubi ultimam hominis felicitatem dicit esse speculativam. é um bem universal. Lima.. quantum ad speculationem optimi speculabilis”. “no qual é dito que a felicidade última do homem é especulativa. SCG III. provoca espanto e admiração. Traduzido por Alceu A..15 É na busca da verdade que se estrutura a beatitude de toda substância intelectual. 51 n.

S. 2. 1. c.Th I-II. como algo essencialmente presente nele. a contemplação da divina essência.Th I-II. chamado graça”21. que vai além do seu conhecimento e desejo.. quia etiam excedit cognitionem et desiderium eius”. a maior parte da humanidade vive numa ambiguidade. pelo que. p. quidam vero intendunt principaliter exterioribus actionibus: inde est quod vita hominis convenienter dividitur per activam et contemplativam”. et in hoc praecipue vult quilibet convivere amico. sem lhe acrescentar o bem sobrenatural. resta-lhe pouco tempo para dedicar-se à busca da beatitude pela contemplação.. 114. isto é. numa outra dimensão. DE BONI.. De Abelardo a Lutero. cada um quer principalmente a convivência dos amigos. 2009: “Vita autem aeterna est quioddam bonum excedens proportionem naturae creatae. Porto Alegre: EDIPUCRS. diante disso. O bem próprio do homem é pensar e agir de acordo com a razão em busca de um sentido existencial. especificamente. a vida de cada um consiste naquilo que mais lhe agrada e que sobretudo busca. açambarcada pelos afazeres cotidianos e profissionais. 2011 . a concretização da beatitude. inclina-se a um determinado bem.Nadir Antonio Pichler Porém o homem ou. q. Contudo. Mesmo que Tomás de Aquino enalteça a predisposição. o homem encontra e experiencia a fonte de todos os bens e busca satisfazer os desejos volitivos e racionais. et cui maxime intendit. Por isso. Ora. Quia ergo quidam homines praecipue intendunt contemplationi veritatis. 3327: “Unde etiam in hominibus vita uniuscuiusque hominis videtur esse id in quo maxime delectatur. p.Th II-II. quanto aos homens. Não basta somente o máximo de desenvolvimento das potencialidades da alma intelectiva para o fim e o bem. p. pois “nenhuma criatura é princípio suficiente do ato meritório da vida eterna. S. daí resulta o dividir-se convenientemente a vida humana em vida ativa e vida contemplativa22. o ser supremo é a fonte primeira da beatitude. Assim. no íntimo da natureza do homem. certos homens buscam sobretudo a contemplação da verdade e outros se entregam principalmente à ação externa. 19 20 21 22 primae causae. Nas próximas citações. (lect. c. 2009. c. Et sic perfectionem suam habebit per unionem ad Deum sicut ad obiectum in quo solo beatitudo hominis consistit”. os princípios primeiros do ser. para o sobrenatural20. da ação e da contemplação. a beatitude perfeita ou a vida eterna é um bem que excede a capacidade da natureza humana. por meio da contemplação intuitiva de Deus. existe algo além deste mundo material. ut dicitur in IX Ethic. A alma é o princípio da vida. o fim do conhecimento intelectual teórico é a verdade. 179. para o transcendente. 2. 51 n. Assim. 8-21 jan. Nesse sentido aristotélico. q.Th. XIV). mas os amplia e insere na crença da existência de outra vida. 69. pois o homem. Afinal. ou seja.19 De outro. 1 p. p./jun. mas é preciso o auxílio da graça sobrenatural de Deus. S. 2003. Grifos do autor. ou seja. permanece firme na sua adesão aos princípios aristotélicos. Luis Alberto. de acordo com a sua operação própria. Tomás de Aquino. de um lado. q. S. 114. faz-se necessário destacar que para alcançar a essência divina na outra vida não bastam as forças humanas. como ensina Aristóteles. na pátria celeste. 14 Estudos Teológicos São Leopoldo v.

geração e corrupção. S. Grifos do autor./jun. terra e fogo. objeto específico de estudo da física de Aristóteles. p. 2011 15 .Th II-II. 8-21 jan. 3343: “Unde Philosophus dicit. Estudos Teológicos São Leopoldo v. em terceiro. é o mais perfeito.25 Seguindo Aristóteles.Th II-II. refere-se às substâncias sensíveis incorruptíveis aristotélicas. passíveis de todos os tipos de mudanças. devido à natureza da matéria. sujeita a todas as formas de vicissitudes humanas. c. alteração. 8. 180. objeto de estudo da astronomia.. a elevação mesma desse conhecimento nos causa um prazer maior que tudo o mais que ele possa abranger26. E. que se discriminam as operações intelectuais. formada pelos quatro elementos da natureza: água. S. ar. geração e corrupção. o oblíquo. 180. propter honorabilitatem cognoscendi. que tem certa uniformidade simultânea com o movimento para pontos diversos. por semelhança com ele. constituídas pelos céus. Já o retilíneo.. “quase composto de um e de outro”. 3339: “Et ideo sub eorum similitudine potissime operationes intelligibiles describuntur”. embora o que delas conhecemos seja pouco. herança da cosmologia de Empédocles. q. é análogo “à operação inteligível pelo qual procedemos de uma para outra coisa”24. alteração. Com o objetivo de ilustrar a excelência da atividade intelectiva em busca da verdade. q. com movimentos descontínuos. por meio da prudência. especificamente quanto ao objeto mais nobre do ato contemplativo. o movimento circular. 180. p. é. é propiciadora de prazer. 180. isto é. c. a prática das virtudes morais. V): Accidit circa illas honorabiles existentes et divinas substantias.”23 Essa forma de movimento. Caracterizam o mundo sublunar. não passíveis de mudança. pelo qual um corpo se move de um ponto para outro.A beatitude pela vida contemplativa princípio e fim de todos os entes. minores nobis existere theorias. S. contudo.Th II-II. q. “Por isso. 6. Tomás de Aquino recorre à cosmologia de Aristóteles. pelo qual um corpo se move uniformemente em torno do mesmo ponto. do qual Tomás de Aquino se apropria. in I De partibus animalium (cap. mesmo sendo fracas as teorias humanas. São incorruptíveis devido à matéria incorpórea. delectabilius aliquid habent quam quae apud nos omnia”. 3339: “Operatio autem intelligibilis habens aliquid uniformitatis simul cum processu ad diversa”. assim se refere: “As almas humanas 23 24 25 26 S. 3339: “Operatio autem intelligibilis secundum quam proceditur de uno in aliud”. correspondente à operação inteligível. diminuição. p. a quinta essência ou o éter do mundo supralunar. p. etsi secundum modicum attingamus eas: tamen. planetas e estrelas. c.Th II-II. Por isso diz o Filósofo: As nossas teorias são fracas relativamente a essas nobres e divinas substâncias. 6. Tomás assevera que a contemplação desses três movimentos. sobretudo. 51 n. E Boécio. capazes de movimento local e contínuo.. com aumento. mas. Corresponde às substâncias sensíveis corruptíveis. 6. ad 3. Sed. na comunidade política. q. Sendo assim. Já o fim do conhecimento do intelecto prático é a atividade exterior. 1 p.

182. Nic. Ar. pela capacidade teórica do intelecto ou entendimento. sendo o supremo cognoscível”29. Entretanto. BARRERA./jun. que a felicidade vem acompanhada pelo prazer. porque almeja as coisas mais imutáveis. Identifica. porque “a divindade aristotélica é inteligível por excelência. é na consideração dessas realidades que gira a atividade da beatitude. Estudio preliminar y notas Celina de Lértora Mendoza. na alma intelectiva. A razão disso é que a operação do intelecto para essa atividade necessita minimamente do corpo. na Ethic. Assim. quanto à pureza. Por isso ele sente pouca fadiga e sentiria menos ainda se não necessitasse das imagens dos sentidos. Logo. 8-21 jan. E. AQUINO. assim. que a felicidade. porque a sabedoria versa sobre as coisas mais imateriais. pela apreensão do objeto. é a mais contínua e permanente. ad 2. dentre todas as operações humanas. de Aristóteles. menos. pela atividade da vida contemplativa. 27 28 29 30 S. In Ethic. Para justificar essa tese o frade dominicano enumera a busca de duas qualidades e verdades admiráveis pela prática dessa virtude suprema: uma. p. 16 Estudos Teológicos São Leopoldo v. de todas as virtudes. E isso se evidencia. exemplificada pela busca e contemplação da verdade. 2001. 2011 . que há seis razões para justificá-la. 51 n. 3352: “Humanas animas liberiores esse necesse est. então.Th II-II. se o esquema sobre a beatitude na filosofia moral de Tomás de Aquino é de Boécio. isto é. As razões da vida contemplativa Os argumentos para fundamentar filosoficamente que é possível alcançar a beatitude. no âmbito da filosofia moral. X. a outra. no livro I. Na primeira. 571. A terceira. Nic. dentre elas. minus vero. Ética y religión: Los modelos (contemporáneos) de Aristóteles y Santo Tomás. a que produz mais deleite é a sabedoria. 1479. p. Santa Fé: Universidad Católica. ed. Tomás. 2. 1 p. cum se in mentis divinae speculatione conservant. Ora. sintetiza e aclara as seis razões. na In Ethic. inatingível à ética imanentista de Aristóteles. as premissas e a argumentação para estabelecer-lhe os pressupostos são aristotélicas. Com isso. 2002. os mesmos são transladados para o contexto do cristianismo. Vejamos. são desenvolvidos por Tomás de Aquino. Ar. 1. mas sempre de caráter imperfeito. Jorge Martínez. 30. quanto à firmeza. Grifos do autor.Nadir Antonio Pichler hão de necessariamente ser mais livres. Ar28.30 A segunda. q. porque investiga a verdade mais inteligível. Nic. p. In Ethic. 10. Comentario a la Ética a Nicómaco de Aristóteles. de outro. enquanto princípio. das realidades cognoscíveis. Nic. principalmente as divinas. as realidades inteligíveis são as melhores e. como Tomás assimila. quando se mantêm na contemplação do pensamento divino. que a eudaimonía ou a beatitude é a melhor operação do intelecto humano. cum dilabuntur ad corpora”. de um lado. Nas próximas citações. Navarra: Ediciones Universidad de Navarra SA. Traducción de Ana Mallea. quando recaem no mundo dos corpos”27.

Estudos Teológicos São Leopoldo v. 8-21 jan. respectivamente. Cabe assinalar que. ao bem comum da comunidade e ao bem comum contra os inimigos. Entretanto. Essa é encontrada. porque a vida contemplativa é fim em si mesma. materiais e passageiros. em se tratando de razões da vida contemplativa. Portanto. a beatitude não consiste em qualquer especulação intelectual. Mas. na sexta. a contemplação das verdades já alcançadas pela potencialidade intelectiva. ele é o mais autossuficiente dos homens. A quinta refere-se à felicidade como a realização humana em si mesma. por fim. 2011 17 . companheiros de atividade. Por isso que se repousa em função da atividade. que requer muitos colaboradores. O resultado disso é que não é possível a realização da beatitude pela prática das virtudes morais. requer poucos bens. na operação intelectiva./jun. como as ações políticas e bélicas. ainda assim. sobretudo. São Paulo: Duas Cidades. mas produz operações para alcançar o repouso no fim das mesmas. amada por si mesma. Tomás também. que a felicidade é uma certa forma de lazer ou descanso. a vida contemplativa é a realização do sábio pela consideração mesma da verdade. 14. porque ele é o fim último do homem e fim em si mesmo. Tomás de Aquino fixou-as na perscrutação da verdade e da essência divina. 1 p. A quarta. 31 GILSON. Para essas atividades. Portanto. como vimos. principalmente a autarquia. do grego autarquia.A beatitude pela vida contemplativa Enquanto a maioria dos homens se deleita em prazeres inferiores. realça Tomás de Aquino. 51 n. Assim. Tomás. por conseguinte. isto é. que a felicidade possui um estatuto de autossuficiência. Mesmo com toda contribuição dos estudos científicos. na vida contemplativa. filosóficos e teológicos31. em contrapartida. em atos interiores. Não são realizadas como fins em si mesmas. o filósofo. porque o repouso é uma interrupção antes do término da operação. mesmo enaltecendo a ordem especulativa. Traduzido por Geraldo Pinheiro Machado. mas naquela que é própria da sabedoria. porque imerge em operações intelectivas. Étienne. mas em função de algo ulterior. p. 1962. Logo. diferente das ações de ordem prática. A existência na filosofia de S. pode exercer a atividade contemplativa. Isso difere da prática das virtudes morais. Todavia. apreender intuitivamente a essência beatífica de Deus. conforme atesta o comentário à justiça. já que é impossível trabalhar de maneira contínua. ou seja. assim como Aristóteles. Tomás de Aquino esclarece que o homem não descansa por descansar. como o exercício da justiça numa comunidade política. Porém o sábio. E. porque se ordenam. mesmo estando sozinho. que é própria da sabedoria. não relega a ordem prática da vida ativa às dimensões estritamente efêmeras. não há descanso. permanece sempre um desafio e um mistério para o homem. os prazeres dos sábios são insólitos. tanto o filósofo quanto o homem idôneo precisam de um conjunto de bens comuns necessários à vida. sendo a contemplação o fim de toda a vida humana. ou seja. mas apenas uma forma secundária de felicidade. Sendo assim. Gilda Mellilo e Yolanda Balcão. o lazer vincula-se ao bem supremo. à felicidade. pelos seus efeitos. será melhor ainda caso tenha colaboradores. sem necessidade de outra coisa. sendo a beatitude identificada com a vida contemplativa.

34 A alma. sicut ea quae dicuntur de mysterio Trinitatis.Th II-II.. de cunho epistemológico. Tomás de Aquino. S.Th II-II. pois. o ato puro. S. gradativamente. 180. só [esta] última espécie é que tem como objeto a verdade divina. complemento final da contemplação. 3. 8-21 jan. Por isso a vida contemplativa consiste principalmente na contemplação da verdade divina. ex. A segunda está fundada na imaginação racional. responsável pela identificação da disposição e da ordem das coisas. de todas as coisas existentes. mediante a razão. p. alcançar as inteligíveis. Todas as outras formas ou potencialidades da alma intelectiva em busca da beatitude. pela divina revelação. desconhecidas da imaginação33. como veremos no próximo capítulo. quae imaginatio non novit”. por meio da imaginação. conhecer aquilo que a razão humana não pode alcançar pela sua natureza. 3335: “Cognoscimus ea quae humanae rationi repugnare videntur. 3. como no caso a Trindade. como. 51 n. Aqui reaparece uma das teses da metafísica de Tomás. A quinta é superior à razão. constituem a sublime contemplação das coisas divinas. q. Por meio dela busca-se. que consiste em chegar aos inteligíveis. quando scilicet animus intendit invisibililus. 3.Nadir Antonio Pichler Além dessas seis razões. 4. partindo da ordem dos seres ao ser imutável. q. mas também sobre o que as criaturas manifestam. 3334: “Est in ratione secundum rationem. p.Th. 18 Estudos Teológicos São Leopoldo v. 180. partindo do efeito à causa. p. p. Logo. para. não alcançado plenamente nesta vida. discernimos os sensíveis pelos inteligíveis. 4. ou seja. partindo das coisas sensíveis. pois essa é o fim de toda a vida humana. numa perspectiva ascendente. 3334: “Tertia est in ratione secundum imaginationem quando scilicet per inspectionem rerum visibilium ad invisibilia sublevamur”. 4. a alma considera as coisas invisíveis. Na quarta. aos objetos supremos do mundo. do acidente à substância. Mas esses objetos. Sed solum ultimum videtur ad divinam veritatem pertinere. Cabe ainda ressaltar o acento dispensado por Tomás para essa última espécie de contemplação./jun. 1 p. dos entes sensíveis. do simples ao complexo. identificar nem apreender os inteligíveis dessa espécie de contemplação. fundada na razão.Th II-II. sempre partindo das visíveis. procura conhecer aquilo que parece repugnar à razão humana. por 32 33 34 S. sed etiam eam quae in creaturis consideratur”. fundadas nas distinções feitas por Ricardo de São Victor. Ora. A terceira “se apoia na razão imaginativa. não consegue. seis espécies de contemplação. e ocorre quando pelo exame das coisas visíveis nos elevamos às invisíveis”32. A primeira refere-se ao grau de identificação. superior à razão e além de sua capacidade. 2011 . ou seja. q. 180. Grifos do autor. também apresenta. porque a alma intelectiva procura apreender a essência da visão beatífica do ser subsistente. a doutrina do mistério da Trindade. a contemplação da verdade não só recai sobre a verdade divina. Ergo contemplatio veritatis nom solum respicit divinam veritatem. São os objetos inteligíveis não captados através dos sensíveis. dentre eles. A sexta e última. na S.

– Quarto. a vida contemplativa convém ao homem por aquilo que lhe é mais próprio. II. Unde et Maria. para praticar a vida contemplativa requer-se uma certa vocação e uma capacidade para o repouso. q. pela sua especificidade. XXVI (4). porque a vida contemplativa é a mais contínua. (lect. enquanto a ativa se ordena para ela. é digna de um amor maior. 4. XXVI. isto é./jun. XXXVII). probat octo rationibus. Segunda. – Secundo. não deixa de tecer algumas comparações entre a vida ativa e a contemplativa. c. Enfim. Quinta. enquanto Lia representa a ativa.35 35 S. p. comuns a todos os homens. – Quarum prima est. quia in vita contemplativa est homo magis sibi sufficiens. licet non quantum ad summum contemplationis gradum. 180. porque a atividade da vida contemplativa é uma dedicação que tem como finalidade intuir as essências inteligíveis. tem prioridade sobre a ativa. ut Gregorius dicit. et respectu propriorum obiectorum.. Combinar a vida ativa com a contemplativa não supõe efetuar uma subtração. são verdades que aperfeiçoam o intelecto em ordem à verdade divina. sendo mais autossuficiente. 51 n. quia paucioribus ad eam indiget. ad 3) dictum est. scilicet intelligibilium. enquanto a atividade da vida ativa debruça-se sobre os objetos das faculdades inferiores. 182. quod Martha turbabatur. esclarece Tomás. quia maior est delectatio vitae contemplativae quam activae. Sétima. Unde Rachel. scilicet secundum intellectum. a. 3351: “Dicendum est ergo quod vita contemplativa simpliciter melior est quam activa. quia vita contemplativa magis propter se diligitur. Como exemplo e símbolo de atividade contemplativa. q. Quod Philosophus. per quam significatur vita contemplativa. Tomás cita Raquel. as coisas superiores de Deus. quia vita contemplativa convenit homini secundum illud quod est optimum in ipso. A primeira razão está pautada no argumento de que a vida contemplativa enaltece aquilo que o homem tem de mais específico. 181. quae erat lippis oculis. 8-21 jan. sicut supra (q. Maria epulabatur. mas uma adição. porque seu objeto é superior e melhor. Isso se justifica. o intelecto. baseado em Aristóteles..Th II-II. sollicita es et turbaris erga plurima. Comparação entre a vida ativa e a contemplativa Tomás de Aquino. X-XII). a vida contemplativa. Quarta.A beatitude pela vida contemplativa meio da vida contemplativa. – Tertio. Unde in ps. a. 2011 19 . que é seu intelecto. cap. VI Moral. 1. hanc requiram: ut inhabitem in domo Domini omnibus diebus vitae meae. vita autem activa occupatur circa exteriora. porque a contemplativa é realizável por meio de poucas coisas. enquanto a ativa restringe-se às coisas humanas. ut videam vo- Estudos Teológicos São Leopoldo v. Sexta. vita autem activa ad aliud ordinatur. Terceira. (Serm. dicitur: Unam petii a Domino. quanto à sua natureza. porque o prazer proporcionado pela vida contemplativa é mais elevado que o da ativa. describitur secus pedes Domini assidue sedens. in libro De verbis Dom. (cap. – Quinto. Unde Augustinus dicit. in X Ethic. vita autem activa significatur per Liam. 8. Por isso a vida contemplativa. por meio de oito razões. Os objetos desse são os mais inteligíveis. Martha. na oitava. quia vita contemplativa potest esse magis continua. mesmo enaltecendo a vida contemplativa já nesta vida como a atividade superior do homem. 1 p. per quam significatur vita contemplativa. Unde dicitur Luc. X (41): Martha. interpretatur visum principium.

Desse modo. Portanto. é possível assegurar ao sábio ou ao monge que “a felicidade última do homem consiste na contemplação da sabedoria. (Serm. civ. o teocentrismo cristão transcende esse mundo. quia vita contemplativa consistit in quadam vacatione et quiete. 8-21 jan. 37. – Septimo. há uma certa convergência entre a theoría e a visão contemplativa cristã37. p. Paris: VRIN. cap. Tomás articula as possibilidades e os limites de especular sobre a transcendência absoluta de Deus. Sur le bonheur: Textes introduits. S. 36 37 38 luptatem Domini. DACIE. 2011 . XLV (2): Vacate et videte. – Octavo. em grande parte. Boèce de. – Sexto. numa situação de ausência das condições materiais essenciais à vida. talvez com alguns vislumbres de transcendência. c. 17-18: “En tout cas. quoniam ego sum Deus. in operationibus autem vitae activae communicant etiam inferiores vires. 2005. Portanto. scilicet secundum intellectum. Por isso “é lícito. quia vita contemplativa est secundum divina. Verbum caro factum est: Ecce cui Martha ministrabat. (Cap. 2. ao absoluto. estrutura a busca pela beatitude no âmbito da imanência. traduits et annotés par Ruedi Imbach et Ide Fouche. 182. q. in III Topic. Reudi. in libro De verbis Dom. sem abandonar as preocupações do nosso tempo. 1 p. Enquanto o cosmocentrismo antigo. p.Nadir Antonio Pichler Entretanto. secundum divinorum considerationem”.. quae sunt nobis et brutis communes”. 20 Estudos Teológicos São Leopoldo v. de feição aristotélico-platônica. nous pouvons observer que l’ interprétation de la vie contemplative proposée dans cette partie de la Somme est largement tributaire de l’ analyse aristotélicienne. a perfeição e a mais profunda beatitude do homem. SCG III. 3352: “Sicut etiam Philosophus dicit. cujo objeto são as coisas divinas”38. o Filósofo diz também: Filosofar é melhor que ganhar dinheiro. conhecê-lo. II): In principio erat Verbum: Ecce quod Maria audiebat. vita autem activa est’ secundum humana. In: AQUIN. c. é o cume. Thomas d’. sed ditari melius est necessitatem patienti”. Il est également remarquable que Thomas perçoive manifestement une certaine convergence entre la conception philosophique de la theoria et la vision chrétienne de la contemplation”. 51 n. quod philosophari est melius quam ditari. quia vita contemplativa est secundum id quod est magis proprium homini. Somente buscar os bens imanentes. Introduccion. a natureza humana possui intrínseco ao seu ser uma abertura ao sobrenatural.Th II-II.Th e indiretamente na SCG deve-se. mas com as devidas distinções. secundum illud ps. é muito pouco para a realização humana. 1./jun. por meio da atividade contemplativa. IMBACH. mas ganhar dinheiro é melhor para quem sofre necessidade”36. p. Unde Augustinus dicit. sendo Deus o bem e o fim mais universal e verdadeiro possível. principalmente os bens materiais. é mais conveniente dedicar-se à vida ativa: “Assim. 436: “In contemplatione sapientiae ultima hominis felicitas consistat. à análise realizada por Aristóteles. Além disso. mas somente na outra vida. II). Considerações finais A interpretação elaborada por Tomás de Aquino para fundamentar a vida contemplativa direta na S. que sempre são meio para viver bem.

Maria Luiza P. Porto Alegre. con el texto crítico de la leonina. 2005. MARITAIN. traduits et annotés par Ruedi Imbach et Ide Fouche. A existência na filosofia de S. 8-21 jan. 290-291. 1997. O antropocentrismo cristão de Tomás de Aquino. Étienne. 2 v. Porto Alegre: EST. p. ______. Estudos Teológicos São Leopoldo v. p. Traduzido por D. Revisado por Luis A. Presentazione di Giovanni Reale.A beatitude pela vida contemplativa tentar receber alguma coisa da mensagem filosófica que nos vem do século XIII. Rio de Janeiro: Agir. 1 p. 1997. v. Studium. CAYUELA CAYUELA. Introduccion. Reudi. 40. Tomás. Odilão Moura. Paris: VRIN. pela voz maior que se eleva daquele distante passado./jun. Jacques. Aquilino. p. 2003. DE BONI. Traduzido por Geraldo Pinheiro Machado. 1995. Veritas. 1973. A filosofia moral: exame histórico e crítico dos grandes sistemas. Jorge Martínez. 2.). 517-531. Suma teológica. São Paulo: Loyola. BARRERA. 1997. In: STEIN. ARNOU. “Tomás de Aquino e Boécio de Dácia: Leitores dos clássicos a respeito da felicidade”. Reedição feita por Rovílio Costa e Luís Alberto De Boni. ______. Felicidad y providencia: el horizonte de la fundamentación moral en el libro III de la Suma contra los gentiles de Tomás de Aquino. 77-82. Lima. 1996. 221-236. a de Tomás de Aquino”39. 2011 21 . F. GILSON. Castellano e Introdución de Jesus M. 39 VAZ. VAZ. Traducción de Jesus M. A relação homem-natureza em Tomás de Aquino e na modernidade. 2007. Porto Alegre: EDIPUCRS. A cidade dos homens e a cidade de Deus. Madrid: BAC. Ética y religión: Los modelos (contemporáneos) de Aristóteles y Santo Tomás. 2004. Escritos de filosofia III: Filosofia e cultura. Sur le bonheur: Textes introduits. Luis Alberto. n. 1967. Henrique Claudio Lima. In: STEIN. De Boni. Porto Alegre: Sulina Editora. Madrid. 44. Traduzido por Alceu A. Referências bibliográficas AQUINO. Thomas d’. 1962. Boèce de. v. set. Ernildo (Org. ed. Escritos de filosofia III: Filosofia e cultura. LANDIM. Traduzione di Alessandro Trotta con la collaborazione di Carlo Ghielmetti. DACIE. METZ. Il desiderio di Dio nella filosofia de Plotino. Porto Alegre: EDIPUCRS. Milano: Vita e Pensiero. _______. 1980. Edición bilíngüe en dos tomos. Johann Baptist. Santa Fé: Universidad Católica. In: AQUIN. 30-39. De Abelardo a Lutero. 159. São Paulo: Duas Cidades. René. Martinez. 51 n. Suma contra los gentiles. Suma contra os gentios. Traduzido por Alexandre Corrêa. 2002. 2007. p. IMBACH. 10 v. Henrique Claudio Lima. São Paulo: Loyola. p. Gilda Mellilo e Yolanda Balcão.