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INTRODUÇÃO

Esta dissertação estuda estratégias e práticas educativas de galerias de arte contemporânea europeias. Apoiada na análise das políticas culturais e educativas, a investigação incide na observação do trabalho educativo de três galerias de arte contemporânea, localizadas em Capitais Europeias da Culturas. Procura-se, assim, compreender a possibilidade das instituições culturais terem um lugar central na definição e vivência de muitos processos educativos contemporâneos. Por conseguinte, questionam-se função, estratégias, discursos e representações educativos das instituições culturais europeias, no início do séc. XXI.

O interesse pelo trabalho educativo das instituições culturais remonta ao final da minha Licenciatura em Ciências da Educação, mais especificamente ao objeto do meu estágio, que foi realizado no Serviço Educativo da Casa da Música, no Porto. Aí pude acompanhar o trabalho educativo realizado, quer no seu interior (visitas de estudo, concertos, atividades pontuais, projetos da casa, desenvolvimento e avaliação de programas), quer no exterior da Casa – na cidade e fora dela, nas instituições e projetos culturais, escolares e de saúde e mesmo em instituições de reeducação e reclusão. A presente etnografia retoma algumas das pistas teóricas e inquietações apontadas nesse trabalho. Então, a partir dessa reflexão, sob um olhar analítico e crítico, argumenta-se a possibilidade das instituições culturais terem um papel central na definição de processos educativos contemporâneos, pese embora o caráter frequentemente elitista destas instituições. Elas encerram intencionalidades de nível cultural, através de processos educativos em clima pouco formalizado e potencialmente mais estimulante, participativo e aberto, do que as clássicas instituições educativas formais, como a escola. Nesse sentido, interessa problematizar o lugar dos departamentos educativos nas instituições culturais, tendo sempre presente a existência de uma agenda macroestrutural entre as políticas públicas europeias e a produção de práticas educativas micro e meso. Ora, é nesse movimento que se sublinham os processos de interpretação e tradução 1

novas necessidades. não será demais afirmar que a consolidação do projeto europeu busca novos protagonistas e as galerias e museus de arte contemporânea têm ocupado uma posição chave na construção do projeto europeu. sobretudo culturais. uma função civilizadora de formação do cidadão. comprometida com os ideais do Iluminismo. o museu é uma instituição europeia. 2009) – a cidade e o espaço europeu – graças ao seu elevado reconhecimento social e à sua capacidade de capitalização desse reconhecimento. Se a escola pública desempenhou um papel vital na construção do projeto de Estado-nação. assiste-se a um movimento de transnacionalização no qual emergem organizações político-económicas. Contorno e configurações de uma problemática As principais transformações sociais rumo a uma sociedade baseada no conhecimento assentam em transições económicas paradigmáticas que têm um impacto direto sobre os paradigmas educativos: novas teorias.local dessa macroestrutura. desde então. acima de tudo. económicos e educativos diversos. salientando os modos heterogéneos de ação e a necessidade de um conhecimento sobre as instituições que partilhem propósitos e formas de organização inseridas em contextos sociais. como a União Europeia que obrigam. a uma nova reflexão em torno da cidadania e da renegociação do contrato social. os museus de arte contemporânea têm procurado ser espaços múltiplos (pós-museus) de 2 . No atual momento de globalização e de capitalismo tardio. Todas essas transformações exigem o desenvolvimento de novas competências. não apenas necessárias para o ajuste às aceleradas exigências do capitalismo tardio. mas também para a construção de plataformas de reconhecimento e diálogo que permitam viver em conjunto. em torno de uma suposta identidade nacional e servindo um projeto político e cultural homogeneizador. na sua função seminal de socialização. novos perfis da população aprendizagem e. nomeadamente através do papel que têm desempenhado entre dois territórios de relação (Grande. Sediados em edifícios marcantes da cidade. tal como Stoer (2001) afirma. assumindo. Por sua vez. Neste sentido. políticos. Essa renegociação é feita tendo por base uma definição de Estado diferente da dos estado-nação que buscam de forma própria o consenso social e também novos direitos.

2005) a arte é instrumentalizada em favor da construção e reforço de identidades específicas. expressas por públicos mais desfasadas das exigências plásticas das vanguardas contemporâneas. impõe a estas instituições uma responsabilidade usualmente assumida pelo departamento educativo. Estruturadas em torno de modelos de educação nãoformais e dotadas de um capital simbólico e cultural elevado. de resistência ou desinteresse são. questiona os papéis de género e a submissão individual às lógicas do modelo capitalista. mas particularmente o objeto da sua programação demonstra preocupações face à culturalização da vida que introduziu as questões culturais nas agendas políticas de uma forma nunca antes registada. para além das de conservação da coleção. quando existente. Paradoxalmente a arte de hoje é aquela que é mais próxima do quotidiano. a arte deste tempo levanta questões sobre a extensão espacial e social da globalização. Comprometida com as questões da sociedade contemporânea. ao mesmo tempo que é mais hermética e estranha. assim como tem sido usada para revitalizar oportunidades económicas nas cidades. o encontro com a arte produzida na atualidade é frequentemente caracterizado como um desencontro. Distanciando-se dos padrões estéticos do modernismo e dos cânones clássico. O reforço social de outras funções. definitivamente. Interesses que orientam a pesquisa 3 . o conhecimento e as ferramentas para contribuir na construção de percursos educativos alternativos e em complementaridade com o sistema de educação formal têm a competência para responder aos desafios educacionais contemporâneos. Como é referido no relatório European Cultural Policies 2015 (Lind & Minichbauer. as instituições culturais são consideradas como parceiros vitais para o desenvolvimento de uma massa criativa e crítica nesta fase do capitalismo. ao mesmo tempo que a arte é um produto comercial. a arte contemporânea desafia os seus interlocutores. Os museus e galerias de arte têm. Ou seja. com frequência. mas também de produção da obra de arte e de facilitação de uma reflexão crítica sobre ela e a sociedade onde se insere. não só a instituição cultural em si.apresentação. colecionável e que reflete o bem-estar financeiro de indivíduos e de nações. Atitudes de perplexidade. Contudo. instigando-os a olharem a arte como integrada na esfera do quotidiano.

Estes três equipamentos são por isso definidos como centros culturais (Grande. Lituânia. procurando compreender a sua política educativa – conjunto de processos e dispositivos através dos quais os Serviços Educativos organizam as suas programações e práticas. Reino Unido. como se encontram corporizadas no conjunto de finalidades. consonância ou dissonância com a missão do museu. v. Portugal. a fim de construir um diálogo/confronto entre lugares. a par disso analisa-se também a relação existente entre estas instituições e respetivas cidades – antes. Através do mergulho nos quotidianos institucionais de três galerias europeias de arte contemporânea – Tate Gallery. missão. durante e depois da Capital Europeia da Cultura. 2006). ou mesmo os perfis profissionais exigidos aos/as colaboradores/as educativos/as. na medida em que se constituíram/constituem em ícones de urbanidade europeia e de sublimação espacial. Analisar os desafios impostos pelo evento Capital Europeia da Cultura em cada uma das instituições culturais e seu lugar na retórica da construção europeia. iv. em Vilnius 2009. justifica-se o meu interesse educativo e cultural patente nesta dissertação tem sido recorrente e é agora materializado na realização duma etnografia global.Deste modo. Perceber o lugar da educação no museu – organograma. tanto na seleção das preocupações teóricas e modos de organizar o olhar etnográfico. geopolíticas e posições educativas na sua especificidade e comunalidade. 4 . Analisar comparativamente as lógicas organizacionais e institucionais. e Museu de Arte Contemporânea de Serralves. Iluminar a estratégia educativa destas instituições culturais. iii. modelos e conceitos que (re)contextualizam as práticas de diferenciação pedagógica e animação dos equipamentos e suas implicações nos projetos educativos de arte contemporânea. O meu interesse pessoal está também espelhado nesta pesquisa. que a seguir se elencam: i. Šiuolaikinio Meno Centras (Centro de Arte Contemporânea). tendo em consideração as orientações das políticas educativas e culturais europeias. relações entre o serviço educativo e restantes departamentos. Liverpool 2008. ii. Perceber as múltiplas práticas educativas e culturais das instituições culturais selecionadas – pressupostos. Porto 2001.

2000). assim como se operacionalizam as práticas de pedagogia museológica com dos respetivos públicos. Procura-se perceber o espaço da prática educativa como reduto de singularidade e especificidade local em espaços de fronteira (física e simbólica). assim como identificar a incorporação de tendências consonantes e em conflito com orientações e normas de ação emergentes ao nível europeu. como um ensaio de imaginação etnográfica europeia. a fim de examinar a negociação de interconexões entre micro processos sociais e forças externas. Etnografia global como estratégia metodológica Os processos sociais contemporâneos colocam novos desafios à metodologia nas ciências sociais. articular e interpretar as realidades sociais. compreender processos que fundamentam a educação culturais das 3 galerias. convida à localização de casos estratégicos entre escalas. sem perder a riqueza fenomenológica da etnografia e a possibilidade de extensão das análises mais macroestruturais. das teorias existentes no campo que cruza a sociologia da cultura e da educação com a museologia e as ciências da educação.Por conseguinte. partindo da ideia de uma diversidade subjacente ao espaço europeu pretende-se interpretar os projetos educativos contextualizados pelas mudanças da contemporaneidade. ainda que despretensiosa. de três serviços educativos de galerias de arte contemporânea enquanto organizadores de possibilidade educativas na primeira década do séc. A etnografia global proposta por Michael Burawoy (2000). eventualmente. procurando. a presente investigação constitui-se. Critérios de escolha dos casos constituintes da etnografia europeia 5 . obrigando a interrogar e. recriar e estender os modos de captar. as especificardes. assim. essencialmente moldadas pelas políticas públicas regionais. do observável pela participação nas vidas daqueles/as que experienciam e produzem aa própria globalização. Por conseguinte. então. também. XXI. “a partir de baixo” (Burawoy. que se integra nesta pesquisa enquanto modalidade metodológica de investigação social. sem perder de vista que o objetivo central da investigação é a extensão. A etnografia global permite.

a sul e a leste. considera que na articulação entre globalização e capitalismo se configuram três ideais tipo face aos quais os Estados-nação se posicionam – países do centro. 1998). cidades e instituições de Arte Contemporânea de CEC. Serem 3 cidades CEC. em que o critério de escolha é serem cidades de marcada heterogeneidade no espaço europeu – Liverpool (central face a Stavanger – Noruega). seria visto como um país de centro. Serem 3 países da União Europeia diversamente posicionados – Reino Unido. ii. Isto apesar de se estar consciente de que esta divisão é polémica contemporaneamente. culturais e políticas muito distintas. periferia e semiperiferia.Especificar os critérios que comportam a escolha dos países. desde logo. no âmbito da pretensão de realizar uma pesquisa multisituada. ajudar a posicionar os três países com realidades sóciohistoricas. na sua heterogeneidade de realidades sociaishistóricas e de vagas de expansão politico-geográfico do projeto da UE – a norte. garantindo um dos momentos do estudo de caso alargado (Burawoy. ainda se encontra no processo de convergência. a que Liverpool pertence. assunção das escolhas 6 . a Lituânia a qual a cidade de Vilnius pertence. integrando a primeira vaga da União Europeia (1973). apesar de ser o primeiro país a desvincular-se da URSS (1991) e a solicitar adesão à UE (2004). todavia. Este critério de pesquisa é perspetivado na proximidade do pensamento de Wallerstein (1994). Portugal seria pensado como um país semiperiférico. tem uma democracia recente e vem duma tradição e cultura ligadas ao “bloco socialista” sendo que. Portugal e Lituânia – esta opção inscreve. Esta opção permite pensar o arco da extensão espacial da etnografia global europeia. seguido entre nós por Sousa Santos (2002). económicas. Por sua vez. com uma democracia de poucas décadas e que integra a segunda vaga da UE (1984). que conjuga duas cidades de escalas diferentes. o Reino Unido. é a tarefa que nos propomos clarificar: i. a possibilidade de realizar a etnografia global. Por fim. quando. Parte-se assim duma seleção tendo em conta o par anual CEC. Vilnius (periférico face a Linz – Áustria) e Porto (periférico face a Roterdão – Holanda). na sua teoria do sistema mundo. de longa tradição democrática. Nesta perspetiva. através de uma etnografia global. permite.

mas também na dimensão de tempo. projetando-se culturalmente. a partir de 20011.CEC. a teoria Wallesteriana. ao mesmo tempo que reforçam a sua expressão e reconhecimento internacional. promotoras das respetivas cidades ao nível das Artes Visuais. Trata-se. enquanto o estudo no Porto apenas decorre em 2010. Ser uma pesquisa educativa em espaços culturais europeus. cobrindo a 1ª década do século XXI – arco temporal de 10 anos – Os três casos escolhidos encaixam-se no arco temporal que se pretende estudar. Na verdade. Šiuolaikinio Meno Centras em Vilnius e de MAC de Serralves no Porto. Serem 3 instituições de Arte Contemporânea icónicas das CEC. em grande parte resultantes duma cidade que tinha sido CEC em 2001. eventualmente. afirma que se tenta quebrar os limites etnográficos. e busca eventuais efeitos do evento CEC de 2001 (ao nível cultural e educativo) nos contextos institucional. Este propósito teve a implicação da pesquisa ser contemporânea aos eventos CEC de Liverpool em 2008 e de Vilnius em 2009. Poder-se-ia. durante e pós-evento na primeira décda do século XXI. país e espaço europeu. iii. de espaços escolhidos pela forte presença da programação cultural e educativa nas cidades. Esta temporalidade permite observar as dinâmicas CEC. 1 A designação utilizada nos documentos oficiais é a de "novos" e “outros” Estados-Membros (The Selection Panel for the European Capital of Culture (ECOC) 2009. 2 Não é aqui despiciente. A escolha recaiu em dois casos que eram instituições da CEC na altura da pesquisa e o terceiro caso numa instituição portuguesa e portuense. o interesse nesta década permite uma perceção das dinâmicas contemporâneas ao evento e depois a sua ressignificação após evento2. 2005). não só na dimensão do espaço. É esse o sentido atribuído às instituições e cidades CEC. iv. sem perder de vista a perspetiva educacional. cidade. Este arco local de alguma forma corporiza e territorializa a extensão do arco espacial da etnografia e poderá traduzir a um nível local. como é o caso da Tate Gallery de Liverpool. e por isso também não se esconde o interesse em estudar as dinâmicas culturais e educativas na minha cidade e que acolhe este projeto de pesquisa. 7 . cidade que encaixa no arco temporal pós-evento. então. assim como Lynne Haney (2000).

que reconhece a distinção do local. A primeira dá conta… 8 . Estrutura da Tese (2p. no contexto de uma pesquisa de natureza multisituada e multidialogada.D ESENHO DO O BJETO DE E STUDO Como se observa na Ilustração.) Esta dissertação subdivide-se em duas partes. estes três casos permitem uma concretização da etnografia global nos seus 4 momentos.3 Serviços Educativos I LUSTRAÇÃO 1 . sendo que estes se encaixam no arco espacial e temporal pretendido. ao mesmo tempo que as linhas de homogeneização do global na compreensão da educação cultural contemporânea.